Grieving Soul – Capítulo 1 – Volume 8

 

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 08

Capítulo 1:
[Defendendo o Mil Truques]


O salão do clã Primeiros Passos era famoso por todo o império. Caçar tesouros podia ser um trabalho extremamente lucrativo, especialmente para os melhores entre os melhores. Em uma única expedição, um caçador de primeira linha poderia ganhar o que um civil comum levaria a vida inteira para juntar.

A sede do clã Primeiros Passos era uma construção moderna, financiada por alguns dos caçadores mais promissores da capital imperial. Era também um símbolo de admiração para todos que viviam do ofício de caçar tesouros. Combinando isso a um nome que soava como “coisa de novatos”, era fácil entender por que Primeiros Passos inspirava tantos sonhos nos caçadores iniciantes.

Os caçadores de tesouros ocupavam uma posição poderosa na capital, e aquele edifício branco e reluzente, erguido em uma das melhores localizações da cidade, reforçava bem essa imagem. O mestre do clã provavelmente tinha isso em mente quando escolheu o local para estabelecer sua base.

Curioso era o fato de que alguém tão preocupado com visibilidade tivesse escolhido uma pessoa até então desconhecida para ser sua vice-mestra de clã.

— O mestre do clã está atualmente ocupado com outros assuntos, portanto não posso agendar uma reunião com ele — disse a vice-mestra Eva Renfied com um tom burocrático e impassível. — Estou ciente das circunstâncias, mas ainda assim preciso pedir que se retirem.

À frente dela estava Gark, sentado à grande mesa no centro do espaçoso salão. Gark era o chefe da filial da Associação dos Caçadores na capital imperial. Embora já tivesse se aposentado da vida de caçador, o Demônio da Guerra ainda impunha respeito no meio. Poucos ousavam enfrentá-lo e menos ainda entre os civis que não possuíam material de mana. Em toda a capital, seria difícil encontrar uma dezena de pessoas capazes disso.

Era de conhecimento geral que uma mulher excepcional servia como braço direito do habilidoso Mil Truques, tendo desempenhado um papel essencial na ascensão do clã Primeiros Passos ao poder. Gark, no entanto, sabia que ela também precisava repreender Krai de tempos em tempos e que o apoiava tanto em assuntos pessoais quanto profissionais.

Ele também sabia que, uma vez que Eva tomava uma decisão, era inútil tentar fazê-la mudar de ideia. Às vezes ela até colaborava para persuadir Krai, mas, se dizia que não haveria reunião, então nenhuma quantia de dinheiro ou intimidação surtiria efeito. Diferente de Krai, ela era lógica, conhecia bem as leis imperiais e os regulamentos da Associação dos Caçadores. Sabia que, como civil, a Associação não tinha qualquer autoridade sobre ela.

Gark jamais cogitaria usar violência em um lugar como aquele. O salão estava cheio de caçadores do Primeiros Passos, nenhum deles do tipo que recua diante de um chefe de filial da Associação. Mesmo sem eles, recorrer à força contra civis estava fora de questão.

Além disso, os outros funcionários da Associação que o acompanhavam já haviam desistido de tentar obter uma audiência.

Se o Mil Truques trabalhasse só um pouquinho mais, Zebrudia seria o dobro do que é hoje — brincou Gark.

Se o Mil Truques trabalhasse um pouquinho mais, eu desabaria de exaustão — respondeu Eva, seca.

Gark suspirou. Ele tinha ido até ali para informar Krai sobre os avanços desde o Festival do Guerreiro Supremo e confirmar alguns detalhes com ele.

Bastava uma breve descrição dos últimos acontecimentos para perceber que a história estava sendo escrita. Houve uma grande guerra de territórios, seguida por uma declaração de guerra feita pelo líder de uma organização poderosa durante um torneio famoso. Depois disso, a Chave da Terra quase libertou uma força capaz de arrasar várias nações. Felizmente, conseguiram conter a Relíquia a tempo.

Duas semanas haviam se passado desde aquele incidente que deixou tanta gente em alerta. O império e seus aliados estavam agora empenhados em erradicar a Raposa Sombria de Nove Caudas, e o plano estava avançando melhor do que o esperado.

A Raposa era uma organização devotada ao sigilo, com um longo histórico de crimes sombrios. O império e a Associação já haviam conduzido inúmeras investigações secretas, porém, aprenderam quase nada. Conseguiram unir várias nações contra a Raposa, mas não podiam atacar enquanto os nomes e localizações de seus membros permanecessem desconhecidos.

Eles se preparavam para uma batalha prolongada quando algo inesperado aconteceu, um membro da Raposa traiu a organização e ofereceu informações a Zebrudia. Essa pessoa não era de alto escalão, e as informações que trouxe eram escassas e pouco significativas, mas um desertor de uma entidade tão evasiva ainda era um acontecimento importante.

Enquanto isso, para surpresa de Gark, a equipe anti-Raposa começava a tomar forma. Ele realmente não esperava ver Murina saindo das sombras para participar.

Dada a gravidade do assunto, Gark queria falar com Krai pessoalmente mas poderia deixar uma mensagem. Em sua experiência, se o Mil Truques não queria se encontrar, era porque julgava desnecessário. Se fosse qualquer outro caçador, Gark faria de tudo para arrancar uma conversa. Mas este homem… era conhecido por sua engenhosidade sobre-humana, uma intuição quase anormal e uma percepção que beirava a adivinhação. Um histórico tão impressionante que até o império era forçado a reconhecê-lo.

Pensando bem, o jeito como ele resolveu aquele incidente no torneio… não pareceu com ele — murmurou Gark, incerto.

Eva permaneceu em silêncio. Até então, o Mil Truques havia enfrentado organizações, bandidos e até fantasmas com táticas que beiravam o absurdo. Quando Krai encarou o homem mascarado de raposa, ninguém interveio porque parecia estar no controle. Essa hesitação deu à Raposa a chance que precisava para escapar.

Era estranho.

Se Krai realmente não quisesse que aquele homem escapasse, bastaria ter posicionado pessoas em qualquer uma das possíveis rotas de fuga. Com aliados como Luke e Liz disponíveis, ele tinha força de sobra à disposição sem contar que a barreira ao redor da arena havia limitado bastante as rotas de saída.

Nada disso podia ter passado despercebido por Krai. Gark tinha certeza de que, mesmo que ele estivesse completamente confiante em seu plano, o Krai de sempre teria deixado seus companheiros de prontidão, apenas o suficiente para impedir que o inimigo escapasse. Então, por que ele não selou as saídas? Teria contado com as centenas de caçadores presentes no torneio?

Deixar aquele homem fugir não parecia algo que o verdadeiro Krai faria. E ainda havia o fato de que, mesmo com a fuga, as investigações do império estavam dando resultado. Para Gark, só havia uma explicação plausível, e se tudo aquilo fizesse parte do plano? E se a fuga do homem mascarado e o aparecimento do desertor fossem parte dos cálculos de Krai?

Em circunstâncias normais, permitir a fuga de alguém tão importante para o inimigo seria impensável. Mas e se Krai tivesse decidido que deixá-lo ir seria benéfico para ele e para o império?

Uma coisa, porém, Gark sabia com certeza: o incidente no torneio havia abalado um inimigo antes considerado inabalável. Certamente nem mesmo alguns membros da Raposa esperavam que a organização ativasse uma Relíquia de poder apocalíptico. Como resultado, alguns decidiram cortar laços e fugir.

A Raposa Sombria de Nove Caudas era poderosa, mas não o suficiente para enfrentar várias nações ao mesmo tempo, especialmente agora que Rodrick Atolm Zebrudia parecia disposto a eliminar qualquer nobre que se recusasse a cooperar com sua causa. Gark, o império… até o próprio homem mascarado, todos estavam incertos sobre o que realmente havia acontecido durante o Festival do Guerreiro Supremo. Apenas uma pessoa sabia a verdade.

Um dos motivos da visita de Gark era entregar algo. Ele retirou um pequeno objeto do bolso e os olhos de Eva se arregalaram assim que o viu. Aqueles fragmentos negros, cobertos por um padrão estranho, eram uma das variedades de Relíquias mais conhecidas que existiam.

Isto é uma Pedra Sonora do senhor Franz. Acho que não preciso dizer que ele prefere manter as coisas em sigilo. Preciso que entregue isso a Krai. O império e seus aliados ainda estão discutindo a melhor forma de atacar a Raposa, mas se algo acontecer, o senhor Franz vai querer saber imediatamente.

Confiar demais em caçadores não era algo bem visto para um império, mas também não havia sentido em ignorar um recurso útil. A maioria dos nobres estremeceria só de pensar em dar a um caçador um meio direto de comunicação. Contudo, em nome do império, Sir

Franz estava disposto a deixar de lado o orgulho pessoal e cumprir a missão. Krai, claro, corria o risco de ser acusado de difamação se dissesse algo errado mas brincar com fogo era algo que ele fazia o tempo todo.

Eva encarou a Pedra Sonora por um breve instante antes de assentir.

Entendido. Vou garantir que Krai aceite.

Temos dias complicados pela frente — disse Gark.

Ele se referia, em parte, à enorme recompensa colocada pela cabeça do Mil Truques. Aquele homem já estava acostumado a lidar com canalhas, mas aquela quantia era grande o suficiente para fazer muita gente arriscar a vida enfrentando um Nível 8.

Claro, Gark não achava que ele cairia tão facilmente. Krai Andrey não era mais o jovem que havia chegado à capital sonhando em se tornar um caçador. Ele havia ficado mais forte. Talvez não aparentasse, mas construiu um clã, fortaleceu seus aliados e conquistou a confiança de muitos. Agora que havia declarado guerra à Raposa, fracassar não era uma opção, seria um golpe fatal na moral de todos.

Gark cruzou os braços.

Eva, é possível que qualquer um atrás do Mil Truques acabe representando perigo pra você e pros outros funcionários do Primeiros Passos. Tome cuidado.

Já estou ciente disso há muito tempo. Lembre-se, Gark: este prédio está repleto de caçadores, e, por ordem do mestre do clã, os andares superiores foram construídos para resistir a um ataque. Devemos recuar pra lá enquanto os caçadores dos dois primeiros andares seguram o inimigo. Felizmente, nunca tivemos de recorrer a esse tipo de medida.

Hmm. Então vocês já estão preparados desde o começo? É uma precaução natural quando se contrata não combatentes, mas devo dizer que estou impressionado.

Colocar-se no lugar de quem não pode lutar é mais difícil do que parece. Mesmo na Associação dos Caçadores, Gark não podia garantir que seus próprios funcionários estivessem completamente a salvo.

Investir dinheiro na segurança dos empregados certamente deve ter causado protestos entre os caçadores que ajudaram a financiar a sede do clã. Mas, pelo visto, aquele homem aparentemente desleixado não estava fazendo um mau trabalho como mestre de clã, tomava as decisões certas quando realmente importava.

Estamos perfeitamente seguros — afirmou Eva. — Enquanto o terceiro andar e os superiores são reforçados, o primeiro e o segundo são comparativamente mais frágeis. Krai diz que é porque, se esses andares se tornarem um campo de batalha, não há reforço que vá adiantar.

Tem certeza disso?

Gark hesitou por um instante. Pelo que lembrava, o mestre do clã não tinha tanta autoridade sobre os caçadores. Seria seguro presumir que eles ajudariam a defender o prédio em caso de ataque? Ele afastou a dúvida e decidiu não insistir. Talvez não fosse um pensamento

apropriado para um chefe de filial da Associação, mas, se fosse escolher, preferia ver um caçador arriscar a vida a permitir que um civil se ferisse. Uma das missões da Associação era garantir que os fortes protegessem os fracos.

Como sempre — disse ele —, se algo acontecer, entre em contato com a Associação dos Caçadores. Faremos o possível para ajudar.

Vou contar com vocês — respondeu Eva.

Gark não tinha muito tempo livre. Encerrando a conversa ali mesmo, ele se levantou.

A primeira coisa na sua lista era descobrir se havia algum espião da Raposa infiltrado entre os funcionários e caçadores da Associação. Só de pensar nisso, já sentia dor de cabeça. Investigações nunca foram seu ponto forte e o fato de já terem descoberto dois traidores, Telm e Kechachakka, ambos infiltrados na comitiva do imperador, só tornava tudo pior.

Felizmente, Krai havia conseguido detê-los antes que causassem qualquer dano sério. Mas agora, Gark não podia simplesmente aceitar uma investigação que terminasse sem resultados. Só de pensar no trabalho que tinha pela frente, soltou um suspiro. E então, ouviu uma voz familiar.

Ah, aí está você, Eva. Sobre o visitante de hoje— Agh! Gark?!

Krai?! — Eva exclamou.

Quem enfiou a cabeça na sala foi Krai Andrey, o Mil Truques e mestre do clã Primeiros Passos. O mesmo homem que, momentos atrás, havia recusado se encontrar com Gark. Os dois cruzaram olhares, e o silêncio tomou conta da sala. Os outros funcionários da Associação o encaravam boquiabertos o caçador de sorriso torto estava ali.

Ele não estava ocupado com outro assunto? E Eva não tinha acabado de dizer que ele não podia receber visitas? E aquele “agh” o que foi?! Eva olhou de canto para Gark, desconfortável. Mesmo alguém tão hábil quanto ela não conseguia esconder o constrangimento diante da aparição repentina do homem que supostamente estava indisponível.

Krai franziu a testa e se aproximou de Gark, lançando olhares cautelosos ao redor.

Estava conversando com a Eva? Olha, desculpa, mas estou esperando um visitante importante…

Conversando com a Eva?! Eu vim aqui pra falar com você!

Antes que Gark pudesse dizer isso em voz alta, uma janela se estilhaçou com um estrondo, lançando uma chuva de fragmentos cintilantes. Apesar de aposentado, sua visão ainda era aguçada o bastante para ver claramente o que havia atravessado o vidro, uma única flecha.

Ele reagiu no mesmo instante. O grande projétil dourado atravessou o vidro como se fosse nada, vindo direto na direção da cabeça de Krai, como se fosse puxado por uma força

invisível. E, como sempre, o projétil ricocheteou, como se tivesse batido contra uma parede invisível.

Q-quê foi isso?! — disse Krai, sem demonstrar nem um pingo de perturbação.

Enquanto ele permanecia parado, a súbita interrupção fez os outros caçadores se prepararem para uma possível batalha.

O quê?! Foi a Liz?! Ou o Luke?!

É um ataque!

Como colecionador de Relíquias, não era surpresa que Krai Andrey possuísse vários Anéis de Proteção. Mas o atacante certamente tinha levado isso em conta, aquela “Barreira Absoluta”, como alguns chamavam.

Krai pegou a flecha e olhou em volta, alarmado. A ponta era afiada o bastante para arrancar a cabeça de uma fera mítica, e amarrado a ela havia uma pequena caixa preta.

Como os Anéis de Proteção eram dispositivos poderosos, acabaram desenvolvendo contramedidas contra eles. Atacar duas vezes havia se tornado o padrão em assassinatos, então não era difícil imaginar o que podia haver naquela caixa.

Gark se colocou à frente de seus subordinados e gritou:

KRAI, ISSO É UMA BOMBA!

O quê?! Gark, pega! — disse Krai, erguendo a flecha e a arremessando em direção ao gerente da filial.

Hã?!

Atônito, Gark viu o projétil girar pelo ar antes de deslizar pelo chão e parar bem à sua frente. Num movimento tão fluido que parecia ensaiado, Krai se moveu para proteger Eva, que soltou um grito de susto.

Esse era o “visitante” que Krai disse que estava esperando?!

Gark ergueu os braços para proteger o rosto. No instante seguinte, o mundo explodiu em branco, e uma onda de calor o atingiu em cheio. Ele foi arremessado para trás, batendo violentamente contra a parede. A dor intensa o manteve consciente, mas sua cabeça latejava, e o mundo girava.

Droga! Como isso aconteceu?!

Por sorte, por causa das broncas da Liz, Gark vinha absorvendo material de mana regularmente. Se não fosse por isso, teria saído muito pior. Que tentativa de assassinato mais porca, se Krai era o alvo, quem quer que tenha planejado isso fez um péssimo trabalho. Se até um caçador aposentado como Gark conseguiu sair vivo, é claro que alguém jovem e no topo da elite como Krai sairia ileso.

Com as pernas protestando, Gark forçou o corpo a se levantar. Ignorando o sangue escorrendo da testa, avaliou os danos. Parecia que ele havia levado a pior. Seus subordinados, ao que tudo indicava, reagiram rápido, estavam quase todos bem.

Algo foi jogado pela janela quebrada. Um gancho, seguido por outros, todos presos a cordas. O assassino estava tentando aproveitar o caos da explosão!

Antes que Gark pudesse dizer qualquer coisa, várias criaturas enormes invadiram pela porta. Tinham pele acinzentada e cabelos longos. Por um instante, Gark pensou que fossem algum tipo derivado de Matadinho, a criatura mágica criada por Sitri. Mas não, eram aquelas estranhas criaturas Sapiens que ele vinha vendo ultimamente.

Elas se moviam pela capital como se pertencessem ali, o que, no início, gerou muitas dúvidas. Mas sua natureza amigável, inteligência e habilidade técnica acabaram conquistando os moradores rapidamente.

Ryuu! — gritou o pequeno Sapien à frente do grupo.

Será que era dela que Krai estava falando quando mencionou um “visitante”? Pensando bem, Gark lembrava de ter ouvido rumores de que essas criaturas haviam sido trazidas à capital pelos Grieving Souls.

Os Sapiens maiores invadiram a sala, investindo contra os invasores que desciam pelas cordas. Krai se levantou e observou a cena, impressionado.

As pernas de Gark cederam. Ele caiu no chão, enquanto o caos infernal tomava conta do lugar.

Quando soube do ocorrido, Tino correu para a sede do clã e se deparou com uma visão deplorável.

Meu Deus… — murmurou ela.

O amado salão de descanso estava um completo caos. As grandes janelas haviam sido estilhaçadas, e as cadeiras e mesas, antes organizadas, estavam espalhadas por todo o lugar. O piso, que costumava ser polido regularmente, agora exibia rachaduras e algumas marcas de queimadura.

A limpeza já havia começado, mas ainda havia muito o que fazer. Era evidente que o ataque tinha sido brutal e sem nenhuma preocupação com possíveis danos colaterais. Caçadores e funcionários trabalhavam para remover os destroços, mas levaria um bom tempo até que o salão voltasse à sua antiga glória.

Tino caminhou até o centro do salão, onde os danos eram piores, e se agachou. Provavelmente foi ali que a bomba havia explodido. Não havia mais cadeiras ou mesas por perto, apenas uma grande cratera e algumas manchas queimadas. Ela percebeu uma silhueta no chão, sugerindo que alguém havia se jogado para se proteger.

Mas o que realmente chamou sua atenção foi outra coisa. Perto do centro da explosão, havia uma área que permanecera intocada. Era uma marca em forma de leque, como se as chamas tivessem batido em uma parede grossa. Sem sinais de fuligem ou queimadura, aquele pedaço de chão era uma completa anomalia.

Um caçador de alto nível, com bastante material de mana, podia suportar coisas que nenhum civil conseguiria. Havia ataques capazes de matar uma pessoa comum instantaneamente, mas que muitos caçadores aguentariam sem grandes problemas. Até mesmo Tino era muito mais resistente do que alguém comum.

Quando o assunto era resistência, o caçador mais famoso era Ansem, o Imutável, que havia dedicado praticamente todo o seu material de mana a esse atributo. As marcas deixadas ali indicavam que quem estivesse de pé naquele ponto era tão resistente quanto qualquer caçador de Nível 8.

Enquanto removia alguns destroços, Lyle percebeu a presença de Tino e se aproximou.

Terrível, né? — comentou ele. — Que tipo de rancor faz alguém lançar um ataque desses em plena luz do dia?

O Krai está bem? — perguntou Tino.

Precisa mesmo perguntar? — respondeu Lyle, com um meio sorriso. — Ele está ótimo. As únicas pessoas feridas foram as que tiveram o azar de estar no salão junto com ele. Gark foi o que se deu pior… já que o Krai jogou a bomba pra cima dele. Cara, o Gark deve ser algum tipo de monstro. A bomba explodiu bem na cara dele e ele ainda tá de pé.

O Krai… jogou a bomba pra ele?

Lyle deu de ombros. — Pois é. Ele gritou “Gark, pega!” e mandou ver. Acho que até bomba é coisa pequena pro Krai.

Tino soltou um suspiro. Seu mestre era igual com todo mundo, até com um gerente da Associação dos Caçadores. O caçador de Nível 8 realmente era uma fera assustadora, capaz de fazer algo tão absurdo quanto arremessar uma bomba no gerente de uma filial. Mas se ele podia suportar uma explosão à queima-roupa, então por que jogar a bomba? Tino concluiu que sua própria burrice era o motivo de não conseguir entender a lógica por trás disso.

Pegaram os atacantes? — ela perguntou.

Pegaram, sim — respondeu Lyle. — Os que vieram depois da explosão. Você devia ter visto. Foram capturados por aqueles Trogloditas, sabe? Aqueles que às vezes passam por aqui. Você conhece, né?

Tino permaneceu em silêncio.

Aqueles caras são incríveis. Duros como pedra, e tem um monte deles. Antes que a gente pudesse fazer qualquer coisa, eles já tinham invadido e acabado com tudo. Eu, sinceramente, espero nunca ter que enfrentar um bicho daqueles.

Lyle tinha um sorriso nos lábios, mas seus olhos não acompanhavam o mesmo humor.

Os Trogloditas eram aquelas criaturas Sapiens aterrorizantes que eles tinham encontrado durante as férias. As fêmeas eram pequenas e esguias, enquanto os machos eram grandes e musculosos. Produziam um som característico de “ryu-ryu” e lutavam usando os próprios cabelos, manipulando-os como se fossem tentáculos.

Eram incrivelmente leais à sua rainha, segundo Siddy, a rainha que eles haviam conhecido em Suls se chamava Ryuulan, e não hesitavam em dar a vida por ela. Pouco tempo atrás, haviam causado um caos numa cidade termal por ordem dela. Ao que diziam, possuíam até um império subterrâneo, embora Tino nunca o tivesse visto pessoalmente.

O que mais a espantava era o fato de seu mestre estar em bons termos com eles. Ela já havia começado a vê-los pela capital imperial. Ouviu dizer que Siddy havia negociado uma parceria e que agora eles trabalhavam juntos em projetos de construção. Siddy realmente era formidável, firmar uma aliança com um grupo que tinha tentado matá-la não era algo que qualquer um faria.

E pensar que seu mestre não só subjugava humanos, mas até outras raças! Ele realmente estava além dos mortais!

Pena que não conseguimos nada de útil com os capturados — continuou Lyle. — Eram todos peões. Isso aqui, com certeza, foi obra de um profissional. E mais, aposto que nem era uma tentativa real de matar o Krai. A flecha e a bomba foram muito fracas para isso, e o mesmo vale para aqueles soldados. Deve ter sido só um teste… pra ver se descobriam algum ponto fraco dele.

A explicação fazia sentido. O título de Nível 8 só era concedido àqueles capazes de sobreviver a incontáveis batalhas infernais. Uma simples flecha e uma explosão não seriam suficientes, muito menos uma emboscada malfeita. Afinal, aquele era o salão de um dos melhores clãs da capital imperial. Mesmo que os Trogloditas não estivessem lá, ainda havia Drink, que via humanos apenas como possíveis refeições.

Atacar a sede do clã Primeiros Passos sem sequer fazer reconhecimento prévio era praticamente suicídio. Embora, pensar em se infiltrar ali já fosse assustador por si só. Além disso, o mestre de Tino não tinha fraquezas.

Ela cerrou o punho e perguntou:

Já investigaram quem está por trás disso?

Se Lyle estivesse certo, haveria outro ataque. E seria muito mais brutal, o tipo de plano que só alguém confiante em derrubar um Nível 8 tentaria. O mestre de Tino era incomparável… mas isso não era motivo para ficar parada esperando os assassinos baterem à porta.

Lyle disse que eles não tinham descoberto nada, mas não poderia haver muitos assassinos insanos o bastante para mirar em um caçador de alto nível. Tino tinha certeza de que, se procurassem com afinco, acabariam encontrando o culpado.

Mas Lyle não parecia tão confiante. Coçando a cabeça, ele disse:

Krai disse que está ocupado e que não tem tempo pra lidar com o assassino.

Hã?!

Ele falou umas coisas tipo que já esperava o ataque, reclamou que estava ocupado demais pra isso, chamou os caras de ousados e… acho que também comentou que tem suspeitos demais. Me poupe, né.

Entendo — respondeu Tino, depois de um tempo.

Lyle fez uma careta e estalou a língua, claramente frustrado. Era uma expressão com a qual Tino se identificava profundamente.

Nobres e criminosos precisavam manter as aparências e com os caçadores de tesouros não era diferente. Se ninguém os levasse a sério, era o fim da carreira. Caçadores, no geral, eram gente dura, e a maioria dos cofres do tesouro ficava em locais isolados. Por isso, não era raro que os espólios das expedições fossem tomados à força, e também havia bandidos que se especializavam em enfrentar caçadores.

Às vezes, os caçadores eram obrigados a lutar mesmo sem chances reais de vitória. Outras vezes, tinham de buscar vingança. Era parte do ofício e os Grieving Souls não eram exceção. Ser atacado dentro do próprio salão da guilda e não revidar poderia ser desastroso para a reputação do grupo.

Os Grieving Souls tinham uma longa lista de inimigos. O único motivo de não terem sido atacados com tanta frequência ultimamente era que seus rivais haviam perdido a vontade de lutar. Mas já havia rumores circulando de que o Mil Truques, o homem que nunca deixava uma presa escapar, tinha falhado pela primeira vez, e que agora havia uma recompensa por sua cabeça.

Demonstrar fraqueza em uma situação dessas seria o suficiente para encorajar qualquer bandido que tivesse alguma rixa com o mestre de Tino. Ainda assim, ela não fazia ideia de quantas pessoas isso realmente incluía.

Pelo que ouvi, a presença dos Troglodytes por perto foi pura coincidência. O que diabos o CM tá pensando?

O corpo de Tino estremeceu. Ela balançou a cabeça imediatamente. Lyle estava enganado, era o contrário. A Tino de antes não teria percebido, mas a Tino de agora havia aprendido com suas experiências. Ela era apenas um pouquinho mais capaz de entender as intenções do seu mestre, o que lhe permitia montar parte do quebra-cabeça.

A resposta ambígua ao ataque, a ajuda inesperada dos Troglodytes, a decisão de não buscar vingança… tudo isso só podia significar uma coisa. Seu mestre estava deliberadamente fingindo fraqueza para atrair mais inimigos e exterminá-los todos de uma vez.

Em situações de assassinato, o lado que ataca sempre tem vantagem, afinal, é quem escolhe o momento e o método. Era impossível manter-se alerta o tempo todo para algo

que podia acontecer a qualquer instante, e também não dava pra se esconder para sempre em um local seguro.

Ainda assim, atrair assassinos de propósito não era uma solução normal. Essa demonstração de vulnerabilidade atrairia hordas de agressores. Eliminá-los todos de uma só vez seria muito mais difícil do que lidar com eles individualmente.

Mas se o risco não fosse levado em conta, atrair os inimigos era a maneira mais rápida de se livrar deles. Provavelmente, era também o único meio de forçar os mais cautelosos a se revelarem. Era quase impossível caçar ameaças que ainda não haviam se mostrado e erradicar as organizações inteiras era a única forma de garantir que não sobrassem sobreviventes para ressurgirem depois.

O Mil Truques não era um alvo que se pudesse derrubar sozinho. Se esse ataque inicial tivesse sido apenas para coletar informações, o próximo seria uma grande investida conjunta. E qualquer assassino disposto a mirar em um caçador de alto nível provavelmente seria poderoso demais para Tino, talvez até demais para o próprio Primeiros Passos.

Ela sentia um nó de dúvida apertando sua mente, seria aquele outro dos Mil Desafios? Seria uma guerra… pois não havia outra palavra que definisse um conflito entre o Primeiros Passos e uma aliança coordenada de assassinos.

Tino?! O que foi? Você começou a tremer do nada.

Tô bem. Só estou tremendo de… expectativa.

Rapidamente, ela examinou os arredores. Sem chamar atenção, encostou as costas na parede. Não estava armada, mas sabia se virar mesmo assim.

Ela entendia como seu mestre pensava. Os inimigos apareceriam no instante em que ela baixasse a guarda ou pensasse que estava segura por ora. Se os reforços dos Troglodytes tinham sido imprevistos, isso queria dizer que o plano havia se desviado e esse devia ser o único ponto fraco do esquema de Krai.

Tino, o que você tá fazendo? — perguntou Lyle, surpreso com a postura repentina dela. Aquilo era prova de que ele não tinha a mesma experiência. Ela precisava estar pronta para um ataque a qualquer momento.

Então Tino teve uma ideia. Ela podia mostrar ao mestre o quanto havia compreendido seus movimentos. Se conseguisse provar que entendia seus planos, talvez ele pegasse mais leve no Trial.

Vou ver o Mestre.

C-Certo… manda lembranças.

Tino engoliu em seco e disparou escada acima, tentando fazer o mínimo de barulho possível.

Ei, por que não? Vamos acabar com eles! A gente precisa eliminar esses caras, ou vão voltar para nos atacar. Por que não podemos ir atrás deles?!

Era o dia seguinte ao ataque ao salão. Eu estava sentado na cama, com as mãos na cabeça. Suspirei, ignorando a voz melosa da Liz e seus braços se enroscando em mim.

À medida que você sobe na vida, ganha tanto amigos quanto inimigos. Caçadores de tesouros não fogem à regra. Derrotar bandidos gera rancor. Vender Relíquias e materiais coletados de monstros para uma empresa podia te render a inimizade de outra. Muitos caçadores eram competitivos o suficiente para tentar te derrubar na primeira oportunidade.

Então houve, é claro, todas as vezes em que os clientes ficaram irritados com meus amigos de infância, não por qualquer mal-entendido, mas por bons motivos. Essa foi uma das muitas fontes de estresse durante meu tempo como caçador. Ultimamente, eles tinham se acalmado, mas as coisas começaram a mudar após o incidente no Festival do Guerreiro Supremo.

Pelo que parece, um pequeno mal-entendido com as raposas ruins os incitou a colocar uma recompensa pela minha cabeça. Coisas assim aconteciam com caçadores o tempo todo, inclusive comigo, então eu não estava muito agitado. Essas coisas sempre eram retiradas depois de um tempo, então eu tinha certeza de que isso passaria logo.

Uma das razões pelas quais eu tinha um quarto privado, sem janelas e acessível apenas por uma porta secreta no meu escritório, era para ser uma zona segura em momentos como este. Era natural considerar a segurança de mim mesmo e dos funcionários do clã. Nos primeiros dias do Primeiros Passos, nós tínhamos suportado um agressor atrás do outro.

Felizmente, até agora, ninguém jamais tinha conseguido violar o perímetro da casa do clã. Então o que tinha dado errado? Foi porque eu tinha ido ao lounge, mesmo tendo dito que não sairia do meu quarto?

Quando fechei os olhos, pude ver a flecha com seu pacote explosivo se aproximando de mim. Felizmente, meus Anéis de Segurança tinham feito seu trabalho e me mantido a salvo. Eva, quem eu estava cobrindo, também estava ilesa, e Gark tinha sobrevivido também. No entanto, eu não sabia para onde ir a partir dali. Tudo o que eu podia dizer com certeza era que eu não sairia tão cedo.

Eu não me importava com quem estava por trás dos ataques. Ninguém em particular vinha à mente, e poderia ter sido praticamente qualquer pessoa. Era possível que alguns bandidos remanescentes quisessem vingança. Também era possível que Franz ou alguém tivesse chegado ao limite de sua paciência e contratado um esquadrão de assassinos de aluguel. Eu só esperava que isso fosse algo que se resolvesse com o tempo. E por que aqueles Homens das Cavernas estavam lá? Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa.

Ainda assim, meu maior problema de todos eram meus amigos. Liz batia os pés na cama enquanto se inclinava em mim, com os braços em torno do meu torso.

Vamos dar o exemplo com cada um deles, e suas famílias também — ela sussurrou no meu ouvido. — Precisamos pegar cada um deles. Certo? Não é assim que se faz?

Não — eu disse a ela.

Por que não? Todos vão pensar que ficamos moles. Eu vou garantir que eles se arrependam de terem vindo atrás de você. Eu vou massacrá-los, e depois pendurá-los nos portões da capital imperial.

Ela estava tentando esconder sua raiva, mas fazendo um trabalho imperfeito. Eu não era ignorante da forma como o mundo da caça ao tesouro funcionava, mas ela tinha uma tendência a exagerar. Tudo bem se ela fosse atrás apenas das pessoas que tentaram me matar, mas exercer esse tipo de restrição não estava na natureza dela.

Se ela estava planejando massacrar também os amigos e as famílias deles, eu não tinha certeza de quem era o criminoso aqui. Além disso, eu tinha certeza de que quem estava atrás de mim já estava bastante assustado. Assistir àqueles Trogloditas nocautearem os atacantes tinha me deixado assustado. Isso trouxe de volta memórias de Suls.

Sabe, não é que eu esteja irritada porque eles atacaram você — disse Liz, esfregando-se em mim. Eu decidi supor que essa era apenas a maneira dela de desabafar. — Uma pequena explosão não vai te matar, mas é só que, se você for atingido, você tem que revidar. É assim que os caçadores são. Você sabe disso.

Mmm.

Ela estava definitivamente irritada. Depois havia Sitri, que tinha passado a noite anterior falando sobre como, se alguém ataca uma pessoa importante para você, você deve matar alguém importante para eles. Se eu não a tivesse impedido, ela definitivamente teria se tornado uma criminosa. Ela disse que estava tudo bem, desde que não fosse pega, mas eu discordei. Honestamente, como eu deveria explicar aos pais Smart o que tinha acontecido com suas filhas?

A carência tátil de Liz estava pior do que o normal, provavelmente por causa do seu estresse reprimido. Seus braços e pernas estavam enrolados em mim, o calor do seu corpo me fazendo suar. Eu soltei um pequeno grito quando ela mordeu levemente a parte de trás do meu pescoço.

Pare de agir como um animal selvagem!

Eu a sacudi, segurei seus braços e a imobilizei. Ela pareceu chocada por um breve momento antes de se permitir relaxar. Eu tinha sido um caçador por algum tempo, mas eu não tinha melhorado em dar desculpas em momentos como este.

Está tudo bem — eu disse a ela. — Estou ocupado, então deixe para lá. Está tudo correndo conforme o planejado!

Eu tinha combinado de Matthis vir para avaliar a Relíquia de Eliza, mas agora esse plano tinha sido arruinado. Embora eu estivesse ansioso para não fazer nada além de mexer com

minhas Relíquias, nada me faria começar a ir atrás das famílias das pessoas. Eu tinha suportado todos os tipos de tribulações! Eu era resistente a tribulações!

Liz olhou para mim com apreensão, algo que ela não fazia com frequência. — Sééério? Você vai se vingar, como deveria?

Seria uma perda do meu tempo. Não se preocupe. Depois de uma confusão como essa, eu não acho que ninguém atacará novamente por enquanto. Os Trogloditas capturaram alguns deles, e alguns cavaleiros estão investigando.

Hum.

Honestamente, o que eu achei realmente estranho foi que meus amigos pareciam pensar que ainda poderia haver mais ameaças no horizonte. Aqueles caras que invadiram o lounge não tinham sido meros capangas, embora tenham perdido para a força bruta dos Trogloditas. Poderia ter sido minha imaginação, mas eles pareciam se coordenar ainda melhor se eu estivesse envolvido.

O bico de Liz sugeria que ela ainda não estava satisfeita com minhas garantias, mas eu sabia que isso era apenas porque ela estava estressada. Eu estendi a mão e acariciei a nuca dela. Assim como quando éramos crianças, a pele dela era suave e macia com um leve calor.

Liz, uma grande fã de contato físico, vivia me abraçando e me lembrando, de formas bem desconfortáveis, da noção bem particular que ela tinha de “distância pessoal”. Mas, ao que parecia, ela preferia ser tocada do que tocar. Costumava ficar com ciúmes quando eu amarrava o cabelo da Lucia, e recentemente descobri que escovar o cabelo dela funcionava bem. Ao longo da nossa longa amizade, aprendi alguns truques, incluindo vários jeitos de acalmá-la.

Tá estressado? — perguntou ela, a voz um pouco mais suave. — Ou tá no clima? Quer que eu tire a roupa?

Acho que vou ter que deixar a Lucia ou a Sitri por perto quando for sua vez de ficar de guarda.

Exatamente. Mesmo que faça parte do plano, é difícil resistir à vontade de se vingar — respondeu Liz, com as bochechas coradas. — Tá tudo bem. Pode descontar o estresse em mim.

Acho que ela entendeu tudo errado. Que tipo de pessoa ela achava que eu era? Quando foi que eu já pedi algo assim pra ela? Suspirei, lembrando que a maioria dos caçadores tinha impulsos bem fortes.

Não sabia se ela estava brincando, mas eu estava muito mais exasperado do que envergonhado. Sem dizer nada, puxei a bochecha macia dela. Liz respondeu com um sorriso radiante, e como puxar não parecia surtir efeito algum, acabei soltando.

Não sei se gosto da ideia de você, justo você, se preocupar com o meu estresse — falei, soltando um longo suspiro.

É sério? Você tá sempre se esforçando por mim. Posso fazer o mesmo por você de vez em quando, né?

Meus amigos estavam ocupados, mas arrumaram um tempo nas agendas para se revezarem na minha guarda. Eu estava agradecido e até animado com isso, mas será que eu realmente aguentaria? O primeiro dia indicava que não. Pelo menos Liz parecia ter esquecido toda aquela história de vingança e por isso eu já estava grato.

Não é bem estresse — expliquei. — Mas preciso recarregar depois de tudo o que rolou no Festival do Guerreiro Supremo. Você também devia descansar um pouco. Aposto que foi cansativo pra você também. Logo a gente vai estar na correria de novo.

Eu não preciso descansar, até porque nem cheguei a lutar no torneio. Ah, lembrei! Meu mentor quer te conhecer.

E eu adoraria, mas… não tenho tempo. Eu sei que tô aqui, descansando, mas ainda assim… não tenho tempo.

Sempre que eu conhecia algum dos mentores dos meus amigos, vinha uma enxurrada de elogios exagerados e reclamações. Será que eles achavam que eu era o responsável legal deles? Eu sempre me perguntava que tipo de histórias Liz e os outros contavam a meu respeito, mas nunca tive coragem de perguntar.

No momento seguinte, ouvi um baque do lado de fora da porta. O sorriso de Liz sumiu. Ela se levantou sem ânimo e abriu a porta de um jeito brusco. Do outro lado, estava Tino, caída de bunda no chão, o rosto pálido voltado para cima, encarando Liz.

Eu fiquei achando que tinha algo lá fora. Krai Baby, o que eu faço com isso?

Não havia nada de “secreto” no meu quarto secreto mas, pensando bem, isso já fazia tempo que era assim.

Tino olhou pra mim com timidez.

Recarregando. Atraindo inimigos. Matando eles e as famílias deles? Se vai escutar atrás da porta, pelo menos faz isso direito!

Será que ela só ouviu as partes mais chocantes? E eu nem lembro de ter falado nada sobre “atrair inimigos”. Será que era a presença ameaçadora da Liz distorcendo a memória dela? Nada deixava Liz de mau humor mais rápido do que ter um bom humor interrompido.

Liz agarrou Tino pelo pescoço e a lançou casualmente na minha direção. A menina soltou um gritinho enquanto aterrissava na minha frente, incapaz de fazer qualquer movimento para amortecer a queda.

Fui uma má mentora? — perguntou Liz. — Agora ela sabe do plano. Ela devia ter entendido a dica quando eu disse que hoje não ia ter treino.

Ei, ei, calma.

Fiquei surpreso de ver Tino ali, mas uma garota boa como ela provavelmente só estava preocupada comigo. O tratamento bruto de Liz era totalmente desnecessário.

Sorri pra Tino e falei num tom gentil, para não deixá-la mais nervosa.

Não tem plano nenhum. A gente não vai massacrar, esquartejar nem fazer nada do tipo. Só tô… armazenando energia pro futuro.

Tino enrijeceu.

A-Ah, armazenando energia?! — repetiu, num sussurro trêmulo. Mas o que ela acha que eu sou, afinal?

Ouvi um som de batidas atrás de mim, mas não me levantei, apenas virei o pescoço em direção à janela. Do lado de fora, bicando o vidro com o bico, estava um pombo familiar… feito de correntes.

Por motivos de segurança, eu tinha escolhido instalar a sede da guilda numa área sem muitos prédios altos ao redor. Meu escritório ficava no último andar, o que dificultava ataques à distância, ao contrário do salão principal.

Depois que Liz quebrou uma das janelas, mandei trocar os vidros por um tipo mais resistente e caro (um produto especial reforçado com material de mana). Ainda assim, não era o bastante para segurar um caçador de alto nível mas duvido que algum criminoso tivesse coragem de invadir um prédio em plena rua movimentada. Tirando, claro, os que recentemente tinham jogado um explosivo no salão.

Destranquei, abri a janela um pouco, e o Pombo de Correntes bateu as asas com força, entrando apressado. Essa era uma das peças da coleção de Matthis. Entre as muitas Relíquias do tipo “corrente”, as capazes de voar eram raras, nem eu tinha uma dessas. Os Pombos de Correntes eram inteligentes o suficiente para se proteger de ameaças, podiam substituir pombos-correio e, além disso, tinham o benefício de consumir pouca mana por serem pequenos. No geral, eram uma das Relíquias em formato de corrente mais úteis que existiam.

Sem perder tempo, soltei o pequeno tubo preso à perna dele e tirei a carta enviada por Matthis. Li o conteúdo e descobri que ele não poderia continuar fazendo as avaliações em domicílio por um tempo.

Imagino que isso significasse que, mesmo um avaliador com amor infinito por Relíquias, não conseguia vencer os efeitos do tempo. Bem, talvez fosse o melhor, assim ele não corria o risco de se envolver no caos que andava acontecendo por aqui. Ele podia ser meu mentor em assuntos de Relíquias, mas era tão inapto para combate quanto eu.

Fechei a cara ao terminar de ler o resto da carta, um amontoado caótico de reclamações sobre como o filho e a esposa dele ficavam irritados quando ele tentava fazer uma avaliação em casa, histórias melosas sobre a neta e um bocado de fofocas aleatórias.

Ao meu lado, Luke, o encarregado da minha segurança naquele dia, estava polindo uma nova espada de madeira.

Então, Krai, quando é que a gente vai derramar um pouco de sangue?

Hm?

Eu não entendi direito, mas quando meu mentor ouviu falar do ataque, ele me mandou não sair cortando ninguém. Repetiu isso várias vezes. O que ele quis dizer, na verdade, é que eles é que deviam ser cortados, certo?

Hmm?

Eu não vou cortar ninguém; eles é que vão se cortar sozinhos. Um Espadachim de primeira deixa o inimigo vir até sua lâmina, nunca o contrário.

Não fazia ideia do que ele estava tentando dizer, mas a empolgação era real. Luke não surtava como a Liz, mas era tão, ou até mais, violento que ela. Isso talvez o tornasse ainda mais difícil de lidar.

Descobri um efeito secundário do Voltaic Deicide. Ele queima os cortes que faz, o que diminui a chance de o alvo morrer por perda de sangue. Ou seja, eu posso cortar alguém várias e várias vezes, para sempre, se quiser. Ah! Posso até cortar a parte que caberia pros outros!

Pelo que eu sabia, um golpe elétrico causaria um bom estrago tanto em você quanto no alvo, mas Luke parecia ter suas próprias ideias sobre o assunto. Achei que já tinha deixado claro que tinha barrado o plano de vingança da Liz, mas parece que ele não entendeu a mensagem.

O Pombo de Correntes andava inquieto na minha frente, como se me apressasse a escrever a resposta. Olhei pra ele e depois pro Luke, e decidi responder qualquer coisa só pra encerrar o assunto.

Calma aí. Ainda não é hora. Tô ocupado e precisamos ficar quietos por um tempo. Se formos pacientes, coisas boas devem acontecer.

Até agora não houve novos ataques, e talvez continuasse assim. Era possível que os bandidos capturados pelas forças de Ryuulan fossem os cabeças do atentado. Caso contrário… bem, eles tinham cometido um grande erro: envolveram o Gark, gerente de filial da Associação de Caçadores.

Apesar da aparência bruta, ele era um homem de autoridade. Na nossa era dourada de caça a tesouros, a Associação era a última entidade que você queria transformar em inimiga. Naquele exato momento, Gark provavelmente estava caçando os culpados. Pra mim, só restava esperar.

Droga, ainda quer que eu segure a espada? Krai, vou te dizer, não curto esse seu ar de superioridade às vezes. Minha espada demoníaca tá pedindo sangue.

Eu não “ainda” queria que ele segurasse, eu sempre queria que ele segurasse. E sobre essa tal espada demoníaca dele… ela tinha sido refeita recentemente, depois de queimar, então duvido que estivesse “com sede de sangue”.

Um corte só não vai dar conta — murmurou.

Certo, você tem tempo demais sobrando. Acho que posso arrumar algo pra te manter ocupado.

Assim como eu conhecia a natureza da Liz, também sabia como o Luke funcionava. Distraí-lo seria fácil, o problema era manter a distração. Justo quando me levantei, ouvi batidas na porta. Segurei a mão do Luke antes que ele empunhasse a espada.

É a Eva — avisei.

Eu sei.

E esse era o problema, ele podia muito bem atacar mesmo sabendo que era ela.

Avisei que estava tudo bem, e Eva entrou. Estava igualzinha a antes do ataque: impecável, organizada, do mesmo jeito de sempre. A maioria das pessoas precisaria de um tempo para se recuperar depois de presenciar uma explosão, mas ela voltou ao normal em menos de um dia. Invejava a serenidade dela. Mas era justamente por serem tão estáveis que eu não podia deixar que ela, ou o resto da equipe administrativa, se machucasse.

Como você está? — perguntei.

Graças a você, estou ilesa e sem nenhuma dificuldade para retomar o trabalho. O salão ainda vai demorar um pouco pra ser consertado, mas os Trogloditas ofereceram ajuda.

Não sabia que eles eram nossos aliados. Espera… se a gente nem fala a mesma língua, então como..

Cortei as perguntas que surgiam na minha cabeça e apenas sorri.

Pode tirar um tempo pra descansar. As coisas estão perigosas agora, e o Luke pode cuidar da parte administrativa.

Pode deixar comigo, Eva! Meu sangue tá fervendo!

Confiante pra caramba, considerando que eu não lembrava de ele ter feito trabalho de escritório alguma vez na vida.

Um traço de desagrado passou pelo rosto de Eva antes que ela limpasse a garganta.

Não precisa se preocupar. Absorvi um pouco de material de mana para situações como esta e, além disso, pretendo ficar hospedada aqui na sede do clã por enquanto. Não conheço lugar mais seguro.

Quando é que ela arranjou tempo para absorver material de mana? Isso quer dizer que ela é mais forte que eu? Bem… não seria difícil de acreditar. A vida nunca foi exatamente justa.

Ainda assim, a ideia de ela ficar aqui não era ruim, a sede do clã era praticamente uma fortaleza, e havia várias pessoas capazes de defendê-la.

Quer fazer uma festa do pijama? — perguntei.

Não quero — respondeu depois de uma breve pausa. — Desde a tentativa de assassinato, recebemos várias cartas e presentes desejando sua recuperação. O que devo fazer com eles? Sei que você não está recebendo visitas, mas…

Puxa, sou mesmo popular.

Imagino que tenham visto isso como uma boa oportunidade, já que é raro poder encontrá-lo pessoalmente. Afinal, você está em alta no momento.

Não consegui pensar em nada pra responder sob o olhar firme dela. Não era como se eu quisesse que as pessoas estivessem falando sobre mim.

Eva realmente não se deixou abalar pelo ataque recente e, ironicamente, era isso que me deixava preocupado. Ela podia ter absorvido material de mana, mas continuava sendo uma não combatente. Precisava de proteção. Tirei um Anel de Segurança da minha mão direita e joguei pra ela. Eu tinha o suficiente pra não fazer diferença perder um.

Eva pegou o anel no ar e me olhou, hesitante.

Hã… isso é…

É um Anel de Segurança, e estou te dando. Desculpe por ser de segunda mão, mas acho que você devia ficar com ele.

Um Anel de Segurança! Esses anéis são caríssimos! Não, pera, não é isso! Por que você tá me dando isso do nada?!

Então, de repente, tive uma ideia.

Espera aí… — murmurei.

Cruzei os braços e olhei para o Pombo de Correntes, que bicava a superfície da minha mesa. Se Matthis não podia vir até mim pra fazer a avaliação, por que eu não mandava a Relíquia até ele? Ele certamente não teria coragem de recusar se eu pedisse pra Tino fazer a entrega. Ela era membro do Primeiros Passos e vivia vindo à sede do clã, nada de suspeito nisso.

Nossa, tô inspirado hoje. Na real, é até difícil acreditar que não pensei nisso antes.

Apontei pra janela. O Pombo de Correntes pareceu entender que eu não escreveria resposta alguma e voou para fora. Eva olhou de mim para a Relíquia voadora, o olhar indo e vindo em confusão.

Graças a você, acabei de ter uma ótima ideia — comentei, rindo.

Hã?! O quê? Aquilo era um Pombo de Correntes, não era? Você tá planejando alguma coisa de novo? Pensou em alguma maluquice, não foi?!

Um pouco de exagero, talvez, mas ver a sempre serena Eva perdida desse jeito era, no mínimo, refrescante. Quase revigorante.

Não é nada. Tá tudo bem. Tudo sob controle.

“Tudo bem”? Você acha que tá tudo bem a Tino andar por aí dizendo que você vai “matar eles, os amigos e as famílias”?!

Tá, isso não tá nada bem.

Nem um Caçador de alto nível sairia impune de algo assim e muito menos pendurando corpos nos portões da capital. Eu precisava dar um jeito nesses boatos, mas o que me preocupava de verdade era a fé da Tino em mim estar começando a desmoronar. Era hora de agir.

Parece — continuou Eva — que há membros do clã se preparando para atacar antes que aconteça algo trágico conosco.

Eu nem tinha dito nada, mas a situação já estava se desenrolando sozinha. É verdade que fomos atacados, e eu não me importava com o pessoal tomando iniciativa… desde que não me responsabilizassem pelo resultado.

O mundo lá fora é selvagem — comentei.

Por favor, não me diga que isso é tudo o que você vai dizer — respondeu Eva, suspirando.

Soltei um grande bocejo. Ultimamente, qualquer movimento meu parecia gerar consequências imprevistas, então concluí que ficar quieto era a melhor opção.

Luke estava levantando a espada acima da cabeça e examinando o fio quando, de repente, pareceu se lembrar de algo.

Ah, é, Krai — disse. — Meu mentor mandou você dar um pulo lá se não tiver nada melhor pra fazer. Acho que ele quer conversar com você sobre alguma coisa.

O Santo da Espada quer? — disse Eva, surpresa. — Achei que ele estivesse ocupado, já que foi convocado para ajudar no contra-ataque a Raposa. Krai, tenho que dizer, você tem uma lista de contatos impressionante.

“Contatos” parecia uma palavra curiosa… considerando que ele provavelmente só queria reclamar de alguma coisa. Era sempre assim quando eu encontrava os mentores dos meus amigos, especialmente os do Luke e da Liz. Eu nunca queria me reunir com esses tipos, porque “consultar” geralmente significava “ouvir uma bronca”. E se, por acaso, realmente quisessem meu conselho, aí seria ainda pior.

Alguma ideia do que ele quer tratar? — perguntei.

Hm… nada. —

Claro que não. Pensa, criatura! Não dá pra ser tão satisfeito consigo mesmo a ponto de esquecer assim!

Luke franziu as sobrancelhas, pensativo.

Ah, acho que lembrei. Meu mentor usa duas espadas, mas outro dia eu fiquei pensando qual das duas era mais forte… então perguntei pra ele.

O mentor de Luke era Soln Rowell, o Santo da Espada. Um dos maiores mestres vivos e, ao contrário do Luke, ele treinava tanto a mente quanto o corpo e a técnica. Era admirado pelos espadachins por ser não só forte, mas também íntegro. Além disso, era um colecionador de espadas renomado, com várias peças famosas em sua posse.

Luke também era um entusiasta de espadas, embora estivesse proibido de carregar uma no momento. Lembro bem do brilho nos olhos dele quando conheceu o Santo da Espada e viu a lâmina que ele empunhava.

Ele disse que não sabia — continuou Luke —, então eu resolvi testar por conta própria, sem avisar. As duas quebraram.

HÃ?!

Acho que isso quer dizer que Crimson Heaven e Azure Spirit são igualmente fortes. Quer dizer, têm o mesmo tamanho e combinam direitinho.

Aham… sei.

Quebrar duas das espadas favoritas do seu mentor era o tipo de erro que podia render expulsão, ou execução. Mas Luke não parecia ter o menor arrependimento. Talvez fosse mais uma prova de como Caçadores de alto nível podiam ser assustadores. Relíquias geralmente eram resistentes, e até armas comuns não se quebravam fácil… mas com alguém como Luke, as regras pareciam diferentes.

Mas não deveria ser o contrário? Tipo… um espadachim talentoso devia ser capaz de usar uma arma que quebraria nas mãos de um amador, certo?

Luke cruzou os braços e estreitou os olhos.

Não, pera… talvez tenha sido porque eu quebrei uma das espadas enquanto treinava o

Voltaic Deicide. Usei uma das dele, já que as de madeira viviam quebrando.

Quantas espadas você pretende destruir, cara?! Você acabou de começar a treinar o Voltaic Deicide! É óbvio que é sobre isso que ele quer falar!

Armas não eram nada baratas. Naquela época, qualquer coisa que não pudesse ser produzida por forja mágica custava uma fortuna. Isso valia ainda mais para Relíquias, mas até uma espada artesanal comum podia ultrapassar centenas de milhões. Era difícil

imaginar quanto alguém pagaria por uma lâmina da coleção do Santo da Espada. Ainda assim, para um espadachim, sua arma era praticamente a própria alma.

Eu ainda não conseguia entender como o Luke não tinha sido expulso do dojô. Eva parecia igualmente exasperada. O que aconteceria se eu simplesmente concordasse e aparecesse na frente do Santo da Espada? Ele era uma pessoa de humanidade excepcional, mas não exatamente o tipo tranquilo. Eu já fazia o possível para encontrá-lo o menos possível, aparecer diante dele quando estivesse irritado era impensável.

Pensei se haveria alguma forma de fazê-lo perdoar a selvageria do Luke. Talvez se eu lhe oferecesse algo para substituir as espadas quebradas? Foi então que meus olhos caíram sobre a caixa aos meus pés, aquela com os itens que a Eliza tinha deixado. Respirei fundo e peguei o mais interessante do lote: uma espada envolta em um pano negro.

Removi o pano, revelando uma lâmina reta de um preto profundo. Ela tinha um brilho sutil, como se tivesse sido forjada a partir da própria noite. A falta de semelhança com qualquer metal moderno deixava claro que era algo de uma civilização há muito desaparecida.

Ooh?! O que é isso?! — exclamou Luke.

Mesmo depois de consultar minha enciclopédia de Relíquias, ainda não consegui identificar essa espada. As pesquisas sobre Relíquias do tipo espada tinham avançado bastante, então, se ela não constava lá, devia ser algo realmente raro.

Eu planejava pedir uma avaliação ao Matthis, mas agora isso não era mais uma opção. Não sabia ao certo se essa espada compensaria as que Luke havia quebrado, mas sentia que o destino estava me dando uma ajuda aqui. Embora… minha recente experiência com a Chave da Terra tinha me deixado um pouco desconfiado de espadas.

Respirei fundo, reunindo coragem. Depois, enrolei a espada novamente e a coloquei sobre a mesa.

Eu não posso ir, mas você pode levar isso para o seu mentor. É uma peça rara.

Eu não fazia ideia do valor prático que ela tinha, mas era, sem dúvida, uma bela espada. Esperava que isso bastasse para melhorar um pouco o humor do Santo da Espada. E, se ele descobrisse os poderes dela… bom, espero que tenha a gentileza de me contar depois.oisa de novatos”, era fácil entender por que Primeiros Passos inspirava tantos sonhos nos caçadores iniciantes.

Os caçadores de tesouros ocupavam uma posição poderosa na capital, e aquele edifício branco e reluzente, erguido em uma das melhores localizações da cidade, reforçava bem essa imagem. O mestre do clã provavelmente tinha isso em mente quando escolheu o local para estabelecer sua base.

Curioso era o fato de que alguém tão preocupado com visibilidade tivesse escolhido uma pessoa até então desconhecida para ser sua vice-mestra de clã.

— O mestre do clã está atualmente ocupado com outros assuntos, portanto não posso agendar uma reunião com ele — disse a vice-mestra Eva Renfied com um tom burocrático e impassível. — Estou ciente das circunstâncias, mas ainda assim preciso pedir que se retirem.

À frente dela estava Gark, sentado à grande mesa no centro do espaçoso salão. Gark era o chefe da filial da Associação dos Caçadores na capital imperial. Embora já tivesse se aposentado da vida de caçador, o Demônio da Guerra ainda impunha respeito no meio. Poucos ousavam enfrentá-lo e menos ainda entre os civis que não possuíam material de mana. Em toda a capital, seria difícil encontrar uma dezena de pessoas capazes disso.

Era de conhecimento geral que uma mulher excepcional servia como braço direito do habilidoso Mil Truques, tendo desempenhado um papel essencial na ascensão do clã Primeiros Passos ao poder. Gark, no entanto, sabia que ela também precisava repreender Krai de tempos em tempos e que o apoiava tanto em assuntos pessoais quanto profissionais.

Ele também sabia que, uma vez que Eva tomava uma decisão, era inútil tentar fazê-la mudar de ideia. Às vezes ela até colaborava para persuadir Krai, mas, se dizia que não haveria reunião, então nenhuma quantia de dinheiro ou intimidação surtiria efeito. Diferente de Krai, ela era lógica, conhecia bem as leis imperiais e os regulamentos da Associação dos Caçadores. Sabia que, como civil, a Associação não tinha qualquer autoridade sobre ela.

Gark jamais cogitaria usar violência em um lugar como aquele. O salão estava cheio de caçadores do Primeiros Passos, nenhum deles do tipo que recua diante de um chefe de filial da Associação. Mesmo sem eles, recorrer à força contra civis estava fora de questão.

Além disso, os outros funcionários da Associação que o acompanhavam já haviam desistido de tentar obter uma audiência.

Se o Mil Truques trabalhasse só um pouquinho mais, Zebrudia seria o dobro do que é hoje — brincou Gark.

Se o Mil Truques trabalhasse um pouquinho mais, eu desabaria de exaustão — respondeu Eva, seca.

Gark suspirou. Ele tinha ido até ali para informar Krai sobre os avanços desde o Festival do Guerreiro Supremo e confirmar alguns detalhes com ele.

Bastava uma breve descrição dos últimos acontecimentos para perceber que a história estava sendo escrita. Houve uma grande guerra de territórios, seguida por uma declaração de guerra feita pelo líder de uma organização poderosa durante um torneio famoso. Depois disso, a Chave da Terra quase libertou uma força capaz de arrasar várias nações. Felizmente, conseguiram conter a Relíquia a tempo.

Duas semanas haviam se passado desde aquele incidente que deixou tanta gente em alerta. O império e seus aliados estavam agora empenhados em erradicar a Raposa Sombria de Nove Caudas, e o plano estava avançando melhor do que o esperado.

A Raposa era uma organização devotada ao sigilo, com um longo histórico de crimes sombrios. O império e a Associação já haviam conduzido inúmeras investigações secretas, porém, aprenderam quase nada. Conseguiram unir várias nações contra a Raposa, mas não podiam atacar enquanto os nomes e localizações de seus membros permanecessem desconhecidos.

Eles se preparavam para uma batalha prolongada quando algo inesperado aconteceu, um membro da Raposa traiu a organização e ofereceu informações a Zebrudia. Essa pessoa não era de alto escalão, e as informações que trouxe eram escassas e pouco significativas, mas um desertor de uma entidade tão evasiva ainda era um acontecimento importante.

Enquanto isso, para surpresa de Gark, a equipe anti-Raposa começava a tomar forma. Ele realmente não esperava ver Murina saindo das sombras para participar.

Dada a gravidade do assunto, Gark queria falar com Krai pessoalmente mas poderia deixar uma mensagem. Em sua experiência, se o Mil Truques não queria se encontrar, era porque julgava desnecessário. Se fosse qualquer outro caçador, Gark faria de tudo para arrancar uma conversa. Mas este homem… era conhecido por sua engenhosidade sobre-humana, uma intuição quase anormal e uma percepção que beirava a adivinhação. Um histórico tão impressionante que até o império era forçado a reconhecê-lo.

Pensando bem, o jeito como ele resolveu aquele incidente no torneio… não pareceu com ele — murmurou Gark, incerto.

Eva permaneceu em silêncio. Até então, o Mil Truques havia enfrentado organizações, bandidos e até fantasmas com táticas que beiravam o absurdo. Quando Krai encarou o homem mascarado de raposa, ninguém interveio porque parecia estar no controle. Essa hesitação deu à Raposa a chance que precisava para escapar.

Era estranho.

Se Krai realmente não quisesse que aquele homem escapasse, bastaria ter posicionado pessoas em qualquer uma das possíveis rotas de fuga. Com aliados como Luke e Liz disponíveis, ele tinha força de sobra à disposição sem contar que a barreira ao redor da arena havia limitado bastante as rotas de saída.

Nada disso podia ter passado despercebido por Krai. Gark tinha certeza de que, mesmo que ele estivesse completamente confiante em seu plano, o Krai de sempre teria deixado seus companheiros de prontidão, apenas o suficiente para impedir que o inimigo escapasse. Então, por que ele não selou as saídas? Teria contado com as centenas de caçadores presentes no torneio?

Deixar aquele homem fugir não parecia algo que o verdadeiro Krai faria. E ainda havia o fato de que, mesmo com a fuga, as investigações do império estavam dando resultado. Para Gark, só havia uma explicação plausível, e se tudo aquilo fizesse parte do plano? E se a fuga do homem mascarado e o aparecimento do desertor fossem parte dos cálculos de Krai?

Em circunstâncias normais, permitir a fuga de alguém tão importante para o inimigo seria impensável. Mas e se Krai tivesse decidido que deixá-lo ir seria benéfico para ele e para o império?

Uma coisa, porém, Gark sabia com certeza: o incidente no torneio havia abalado um inimigo antes considerado inabalável. Certamente nem mesmo alguns membros da Raposa esperavam que a organização ativasse uma Relíquia de poder apocalíptico. Como resultado, alguns decidiram cortar laços e fugir.

A Raposa Sombria de Nove Caudas era poderosa, mas não o suficiente para enfrentar várias nações ao mesmo tempo, especialmente agora que Rodrick Atolm Zebrudia parecia disposto a eliminar qualquer nobre que se recusasse a cooperar com sua causa. Gark, o império… até o próprio homem mascarado, todos estavam incertos sobre o que realmente havia acontecido durante o Festival do Guerreiro Supremo. Apenas uma pessoa sabia a verdade.

Um dos motivos da visita de Gark era entregar algo. Ele retirou um pequeno objeto do bolso e os olhos de Eva se arregalaram assim que o viu. Aqueles fragmentos negros, cobertos por um padrão estranho, eram uma das variedades de Relíquias mais conhecidas que existiam.

Isto é uma Pedra Sonora do senhor Franz. Acho que não preciso dizer que ele prefere manter as coisas em sigilo. Preciso que entregue isso a Krai. O império e seus aliados ainda estão discutindo a melhor forma de atacar a Raposa, mas se algo acontecer, o senhor Franz vai querer saber imediatamente.

Confiar demais em caçadores não era algo bem visto para um império, mas também não havia sentido em ignorar um recurso útil. A maioria dos nobres estremeceria só de pensar em dar a um caçador um meio direto de comunicação. Contudo, em nome do império, Sir

Franz estava disposto a deixar de lado o orgulho pessoal e cumprir a missão. Krai, claro, corria o risco de ser acusado de difamação se dissesse algo errado mas brincar com fogo era algo que ele fazia o tempo todo.

Eva encarou a Pedra Sonora por um breve instante antes de assentir.

Entendido. Vou garantir que Krai aceite.

Temos dias complicados pela frente — disse Gark.

Ele se referia, em parte, à enorme recompensa colocada pela cabeça do Mil Truques. Aquele homem já estava acostumado a lidar com canalhas, mas aquela quantia era grande o suficiente para fazer muita gente arriscar a vida enfrentando um Nível 8.

Claro, Gark não achava que ele cairia tão facilmente. Krai Andrey não era mais o jovem que havia chegado à capital sonhando em se tornar um caçador. Ele havia ficado mais forte. Talvez não aparentasse, mas construiu um clã, fortaleceu seus aliados e conquistou a confiança de muitos. Agora que havia declarado guerra à Raposa, fracassar não era uma opção, seria um golpe fatal na moral de todos.

Gark cruzou os braços.

Eva, é possível que qualquer um atrás do Mil Truques acabe representando perigo pra você e pros outros funcionários do Primeiros Passos. Tome cuidado.

Já estou ciente disso há muito tempo. Lembre-se, Gark: este prédio está repleto de caçadores, e, por ordem do mestre do clã, os andares superiores foram construídos para resistir a um ataque. Devemos recuar pra lá enquanto os caçadores dos dois primeiros andares seguram o inimigo. Felizmente, nunca tivemos de recorrer a esse tipo de medida.

Hmm. Então vocês já estão preparados desde o começo? É uma precaução natural quando se contrata não combatentes, mas devo dizer que estou impressionado.

Colocar-se no lugar de quem não pode lutar é mais difícil do que parece. Mesmo na Associação dos Caçadores, Gark não podia garantir que seus próprios funcionários estivessem completamente a salvo.

Investir dinheiro na segurança dos empregados certamente deve ter causado protestos entre os caçadores que ajudaram a financiar a sede do clã. Mas, pelo visto, aquele homem aparentemente desleixado não estava fazendo um mau trabalho como mestre de clã, tomava as decisões certas quando realmente importava.

Estamos perfeitamente seguros — afirmou Eva. — Enquanto o terceiro andar e os superiores são reforçados, o primeiro e o segundo são comparativamente mais frágeis. Krai diz que é porque, se esses andares se tornarem um campo de batalha, não há reforço que vá adiantar.

Tem certeza disso?

Gark hesitou por um instante. Pelo que lembrava, o mestre do clã não tinha tanta autoridade sobre os caçadores. Seria seguro presumir que eles ajudariam a defender o prédio em caso de ataque? Ele afastou a dúvida e decidiu não insistir. Talvez não fosse um pensamento

apropriado para um chefe de filial da Associação, mas, se fosse escolher, preferia ver um caçador arriscar a vida a permitir que um civil se ferisse. Uma das missões da Associação era garantir que os fortes protegessem os fracos.

Como sempre — disse ele —, se algo acontecer, entre em contato com a Associação dos Caçadores. Faremos o possível para ajudar.

Vou contar com vocês — respondeu Eva.

Gark não tinha muito tempo livre. Encerrando a conversa ali mesmo, ele se levantou.

A primeira coisa na sua lista era descobrir se havia algum espião da Raposa infiltrado entre os funcionários e caçadores da Associação. Só de pensar nisso, já sentia dor de cabeça. Investigações nunca foram seu ponto forte e o fato de já terem descoberto dois traidores, Telm e Kechachakka, ambos infiltrados na comitiva do imperador, só tornava tudo pior.

Felizmente, Krai havia conseguido detê-los antes que causassem qualquer dano sério. Mas agora, Gark não podia simplesmente aceitar uma investigação que terminasse sem resultados. Só de pensar no trabalho que tinha pela frente, soltou um suspiro. E então, ouviu uma voz familiar.

Ah, aí está você, Eva. Sobre o visitante de hoje— Agh! Gark?!

Krai?! — Eva exclamou.

Quem enfiou a cabeça na sala foi Krai Andrey, o Mil Truques e mestre do clã Primeiros Passos. O mesmo homem que, momentos atrás, havia recusado se encontrar com Gark. Os dois cruzaram olhares, e o silêncio tomou conta da sala. Os outros funcionários da Associação o encaravam boquiabertos o caçador de sorriso torto estava ali.

Ele não estava ocupado com outro assunto? E Eva não tinha acabado de dizer que ele não podia receber visitas? E aquele “agh” o que foi?! Eva olhou de canto para Gark, desconfortável. Mesmo alguém tão hábil quanto ela não conseguia esconder o constrangimento diante da aparição repentina do homem que supostamente estava indisponível.

Krai franziu a testa e se aproximou de Gark, lançando olhares cautelosos ao redor.

Estava conversando com a Eva? Olha, desculpa, mas estou esperando um visitante importante…

Conversando com a Eva?! Eu vim aqui pra falar com você!

Antes que Gark pudesse dizer isso em voz alta, uma janela se estilhaçou com um estrondo, lançando uma chuva de fragmentos cintilantes. Apesar de aposentado, sua visão ainda era aguçada o bastante para ver claramente o que havia atravessado o vidro, uma única flecha.

Ele reagiu no mesmo instante. O grande projétil dourado atravessou o vidro como se fosse nada, vindo direto na direção da cabeça de Krai, como se fosse puxado por uma força

invisível. E, como sempre, o projétil ricocheteou, como se tivesse batido contra uma parede invisível.

Q-quê foi isso?! — disse Krai, sem demonstrar nem um pingo de perturbação.

Enquanto ele permanecia parado, a súbita interrupção fez os outros caçadores se prepararem para uma possível batalha.

O quê?! Foi a Liz?! Ou o Luke?!

É um ataque!

Como colecionador de Relíquias, não era surpresa que Krai Andrey possuísse vários Anéis de Proteção. Mas o atacante certamente tinha levado isso em conta, aquela “Barreira Absoluta”, como alguns chamavam.

Krai pegou a flecha e olhou em volta, alarmado. A ponta era afiada o bastante para arrancar a cabeça de uma fera mítica, e amarrado a ela havia uma pequena caixa preta.

Como os Anéis de Proteção eram dispositivos poderosos, acabaram desenvolvendo contramedidas contra eles. Atacar duas vezes havia se tornado o padrão em assassinatos, então não era difícil imaginar o que podia haver naquela caixa.

Gark se colocou à frente de seus subordinados e gritou:

KRAI, ISSO É UMA BOMBA!

O quê?! Gark, pega! — disse Krai, erguendo a flecha e a arremessando em direção ao gerente da filial.

Hã?!

Atônito, Gark viu o projétil girar pelo ar antes de deslizar pelo chão e parar bem à sua frente. Num movimento tão fluido que parecia ensaiado, Krai se moveu para proteger Eva, que soltou um grito de susto.

Esse era o “visitante” que Krai disse que estava esperando?!

Gark ergueu os braços para proteger o rosto. No instante seguinte, o mundo explodiu em branco, e uma onda de calor o atingiu em cheio. Ele foi arremessado para trás, batendo violentamente contra a parede. A dor intensa o manteve consciente, mas sua cabeça latejava, e o mundo girava.

Droga! Como isso aconteceu?!

Por sorte, por causa das broncas da Liz, Gark vinha absorvendo material de mana regularmente. Se não fosse por isso, teria saído muito pior. Que tentativa de assassinato mais porca, se Krai era o alvo, quem quer que tenha planejado isso fez um péssimo trabalho. Se até um caçador aposentado como Gark conseguiu sair vivo, é claro que alguém jovem e no topo da elite como Krai sairia ileso.

Com as pernas protestando, Gark forçou o corpo a se levantar. Ignorando o sangue escorrendo da testa, avaliou os danos. Parecia que ele havia levado a pior. Seus subordinados, ao que tudo indicava, reagiram rápido, estavam quase todos bem.

Algo foi jogado pela janela quebrada. Um gancho, seguido por outros, todos presos a cordas. O assassino estava tentando aproveitar o caos da explosão!

Antes que Gark pudesse dizer qualquer coisa, várias criaturas enormes invadiram pela porta. Tinham pele acinzentada e cabelos longos. Por um instante, Gark pensou que fossem algum tipo derivado de Matadinho, a criatura mágica criada por Sitri. Mas não, eram aquelas estranhas criaturas Sapiens que ele vinha vendo ultimamente.

Elas se moviam pela capital como se pertencessem ali, o que, no início, gerou muitas dúvidas. Mas sua natureza amigável, inteligência e habilidade técnica acabaram conquistando os moradores rapidamente.

Ryuu! — gritou o pequeno Sapien à frente do grupo.

Será que era dela que Krai estava falando quando mencionou um “visitante”? Pensando bem, Gark lembrava de ter ouvido rumores de que essas criaturas haviam sido trazidas à capital pelos Grieving Souls.

Os Sapiens maiores invadiram a sala, investindo contra os invasores que desciam pelas cordas. Krai se levantou e observou a cena, impressionado.

As pernas de Gark cederam. Ele caiu no chão, enquanto o caos infernal tomava conta do lugar.

Quando soube do ocorrido, Tino correu para a sede do clã e se deparou com uma visão deplorável.

Meu Deus… — murmurou ela.

O amado salão de descanso estava um completo caos. As grandes janelas haviam sido estilhaçadas, e as cadeiras e mesas, antes organizadas, estavam espalhadas por todo o lugar. O piso, que costumava ser polido regularmente, agora exibia rachaduras e algumas marcas de queimadura.

A limpeza já havia começado, mas ainda havia muito o que fazer. Era evidente que o ataque tinha sido brutal e sem nenhuma preocupação com possíveis danos colaterais. Caçadores e funcionários trabalhavam para remover os destroços, mas levaria um bom tempo até que o salão voltasse à sua antiga glória.

Tino caminhou até o centro do salão, onde os danos eram piores, e se agachou. Provavelmente foi ali que a bomba havia explodido. Não havia mais cadeiras ou mesas por perto, apenas uma grande cratera e algumas manchas queimadas. Ela percebeu uma silhueta no chão, sugerindo que alguém havia se jogado para se proteger.

Mas o que realmente chamou sua atenção foi outra coisa. Perto do centro da explosão, havia uma área que permanecera intocada. Era uma marca em forma de leque, como se as chamas tivessem batido em uma parede grossa. Sem sinais de fuligem ou queimadura, aquele pedaço de chão era uma completa anomalia.

Um caçador de alto nível, com bastante material de mana, podia suportar coisas que nenhum civil conseguiria. Havia ataques capazes de matar uma pessoa comum instantaneamente, mas que muitos caçadores aguentariam sem grandes problemas. Até mesmo Tino era muito mais resistente do que alguém comum.

Quando o assunto era resistência, o caçador mais famoso era Ansem, o Imutável, que havia dedicado praticamente todo o seu material de mana a esse atributo. As marcas deixadas ali indicavam que quem estivesse de pé naquele ponto era tão resistente quanto qualquer caçador de Nível 8.

Enquanto removia alguns destroços, Lyle percebeu a presença de Tino e se aproximou.

Terrível, né? — comentou ele. — Que tipo de rancor faz alguém lançar um ataque desses em plena luz do dia?

O Krai está bem? — perguntou Tino.

Precisa mesmo perguntar? — respondeu Lyle, com um meio sorriso. — Ele está ótimo. As únicas pessoas feridas foram as que tiveram o azar de estar no salão junto com ele. Gark foi o que se deu pior… já que o Krai jogou a bomba pra cima dele. Cara, o Gark deve ser algum tipo de monstro. A bomba explodiu bem na cara dele e ele ainda tá de pé.

O Krai… jogou a bomba pra ele?

Lyle deu de ombros. — Pois é. Ele gritou “Gark, pega!” e mandou ver. Acho que até bomba é coisa pequena pro Krai.

Tino soltou um suspiro. Seu mestre era igual com todo mundo, até com um gerente da Associação dos Caçadores. O caçador de Nível 8 realmente era uma fera assustadora, capaz de fazer algo tão absurdo quanto arremessar uma bomba no gerente de uma filial. Mas se ele podia suportar uma explosão à queima-roupa, então por que jogar a bomba? Tino concluiu que sua própria burrice era o motivo de não conseguir entender a lógica por trás disso.

Pegaram os atacantes? — ela perguntou.

Pegaram, sim — respondeu Lyle. — Os que vieram depois da explosão. Você devia ter visto. Foram capturados por aqueles Trogloditas, sabe? Aqueles que às vezes passam por aqui. Você conhece, né?

Tino permaneceu em silêncio.

Aqueles caras são incríveis. Duros como pedra, e tem um monte deles. Antes que a gente pudesse fazer qualquer coisa, eles já tinham invadido e acabado com tudo. Eu, sinceramente, espero nunca ter que enfrentar um bicho daqueles.

Lyle tinha um sorriso nos lábios, mas seus olhos não acompanhavam o mesmo humor.

Os Trogloditas eram aquelas criaturas Sapiens aterrorizantes que eles tinham encontrado durante as férias. As fêmeas eram pequenas e esguias, enquanto os machos eram grandes e musculosos. Produziam um som característico de “ryu-ryu” e lutavam usando os próprios cabelos, manipulando-os como se fossem tentáculos.

Eram incrivelmente leais à sua rainha, segundo Siddy, a rainha que eles haviam conhecido em Suls se chamava Ryuulan, e não hesitavam em dar a vida por ela. Pouco tempo atrás, haviam causado um caos numa cidade termal por ordem dela. Ao que diziam, possuíam até um império subterrâneo, embora Tino nunca o tivesse visto pessoalmente.

O que mais a espantava era o fato de seu mestre estar em bons termos com eles. Ela já havia começado a vê-los pela capital imperial. Ouviu dizer que Siddy havia negociado uma parceria e que agora eles trabalhavam juntos em projetos de construção. Siddy realmente era formidável, firmar uma aliança com um grupo que tinha tentado matá-la não era algo que qualquer um faria.

E pensar que seu mestre não só subjugava humanos, mas até outras raças! Ele realmente estava além dos mortais!

Pena que não conseguimos nada de útil com os capturados — continuou Lyle. — Eram todos peões. Isso aqui, com certeza, foi obra de um profissional. E mais, aposto que nem era uma tentativa real de matar o Krai. A flecha e a bomba foram muito fracas para isso, e o mesmo vale para aqueles soldados. Deve ter sido só um teste… pra ver se descobriam algum ponto fraco dele.

A explicação fazia sentido. O título de Nível 8 só era concedido àqueles capazes de sobreviver a incontáveis batalhas infernais. Uma simples flecha e uma explosão não seriam suficientes, muito menos uma emboscada malfeita. Afinal, aquele era o salão de um dos melhores clãs da capital imperial. Mesmo que os Trogloditas não estivessem lá, ainda havia Drink, que via humanos apenas como possíveis refeições.

Atacar a sede do clã Primeiros Passos sem sequer fazer reconhecimento prévio era praticamente suicídio. Embora, pensar em se infiltrar ali já fosse assustador por si só. Além disso, o mestre de Tino não tinha fraquezas.

Ela cerrou o punho e perguntou:

Já investigaram quem está por trás disso?

Se Lyle estivesse certo, haveria outro ataque. E seria muito mais brutal, o tipo de plano que só alguém confiante em derrubar um Nível 8 tentaria. O mestre de Tino era incomparável… mas isso não era motivo para ficar parada esperando os assassinos baterem à porta.

Lyle disse que eles não tinham descoberto nada, mas não poderia haver muitos assassinos insanos o bastante para mirar em um caçador de alto nível. Tino tinha certeza de que, se procurassem com afinco, acabariam encontrando o culpado.

Mas Lyle não parecia tão confiante. Coçando a cabeça, ele disse:

Krai disse que está ocupado e que não tem tempo pra lidar com o assassino.

Hã?!

Ele falou umas coisas tipo que já esperava o ataque, reclamou que estava ocupado demais pra isso, chamou os caras de ousados e… acho que também comentou que tem suspeitos demais. Me poupe, né.

Entendo — respondeu Tino, depois de um tempo.

Lyle fez uma careta e estalou a língua, claramente frustrado. Era uma expressão com a qual Tino se identificava profundamente.

Nobres e criminosos precisavam manter as aparências e com os caçadores de tesouros não era diferente. Se ninguém os levasse a sério, era o fim da carreira. Caçadores, no geral, eram gente dura, e a maioria dos cofres do tesouro ficava em locais isolados. Por isso, não era raro que os espólios das expedições fossem tomados à força, e também havia bandidos que se especializavam em enfrentar caçadores.

Às vezes, os caçadores eram obrigados a lutar mesmo sem chances reais de vitória. Outras vezes, tinham de buscar vingança. Era parte do ofício e os Grieving Souls não eram exceção. Ser atacado dentro do próprio salão da guilda e não revidar poderia ser desastroso para a reputação do grupo.

Os Grieving Souls tinham uma longa lista de inimigos. O único motivo de não terem sido atacados com tanta frequência ultimamente era que seus rivais haviam perdido a vontade de lutar. Mas já havia rumores circulando de que o Mil Truques, o homem que nunca deixava uma presa escapar, tinha falhado pela primeira vez, e que agora havia uma recompensa por sua cabeça.

Demonstrar fraqueza em uma situação dessas seria o suficiente para encorajar qualquer bandido que tivesse alguma rixa com o mestre de Tino. Ainda assim, ela não fazia ideia de quantas pessoas isso realmente incluía.

Pelo que ouvi, a presença dos Troglodytes por perto foi pura coincidência. O que diabos o CM tá pensando?

O corpo de Tino estremeceu. Ela balançou a cabeça imediatamente. Lyle estava enganado, era o contrário. A Tino de antes não teria percebido, mas a Tino de agora havia aprendido com suas experiências. Ela era apenas um pouquinho mais capaz de entender as intenções do seu mestre, o que lhe permitia montar parte do quebra-cabeça.

A resposta ambígua ao ataque, a ajuda inesperada dos Troglodytes, a decisão de não buscar vingança… tudo isso só podia significar uma coisa. Seu mestre estava deliberadamente fingindo fraqueza para atrair mais inimigos e exterminá-los todos de uma vez.

Em situações de assassinato, o lado que ataca sempre tem vantagem, afinal, é quem escolhe o momento e o método. Era impossível manter-se alerta o tempo todo para algo

que podia acontecer a qualquer instante, e também não dava pra se esconder para sempre em um local seguro.

Ainda assim, atrair assassinos de propósito não era uma solução normal. Essa demonstração de vulnerabilidade atrairia hordas de agressores. Eliminá-los todos de uma só vez seria muito mais difícil do que lidar com eles individualmente.

Mas se o risco não fosse levado em conta, atrair os inimigos era a maneira mais rápida de se livrar deles. Provavelmente, era também o único meio de forçar os mais cautelosos a se revelarem. Era quase impossível caçar ameaças que ainda não haviam se mostrado e erradicar as organizações inteiras era a única forma de garantir que não sobrassem sobreviventes para ressurgirem depois.

O Mil Truques não era um alvo que se pudesse derrubar sozinho. Se esse ataque inicial tivesse sido apenas para coletar informações, o próximo seria uma grande investida conjunta. E qualquer assassino disposto a mirar em um caçador de alto nível provavelmente seria poderoso demais para Tino, talvez até demais para o próprio Primeiros Passos.

Ela sentia um nó de dúvida apertando sua mente, seria aquele outro dos Mil Desafios? Seria uma guerra… pois não havia outra palavra que definisse um conflito entre o Primeiros Passos e uma aliança coordenada de assassinos.

Tino?! O que foi? Você começou a tremer do nada.

Tô bem. Só estou tremendo de… expectativa.

Rapidamente, ela examinou os arredores. Sem chamar atenção, encostou as costas na parede. Não estava armada, mas sabia se virar mesmo assim.

Ela entendia como seu mestre pensava. Os inimigos apareceriam no instante em que ela baixasse a guarda ou pensasse que estava segura por ora. Se os reforços dos Troglodytes tinham sido imprevistos, isso queria dizer que o plano havia se desviado e esse devia ser o único ponto fraco do esquema de Krai.

Tino, o que você tá fazendo? — perguntou Lyle, surpreso com a postura repentina dela. Aquilo era prova de que ele não tinha a mesma experiência. Ela precisava estar pronta para um ataque a qualquer momento.

Então Tino teve uma ideia. Ela podia mostrar ao mestre o quanto havia compreendido seus movimentos. Se conseguisse provar que entendia seus planos, talvez ele pegasse mais leve no Trial.

Vou ver o Mestre.

C-Certo… manda lembranças.

Tino engoliu em seco e disparou escada acima, tentando fazer o mínimo de barulho possível.

Ei, por que não? Vamos acabar com eles! A gente precisa eliminar esses caras, ou vão voltar para nos atacar. Por que não podemos ir atrás deles?!

Era o dia seguinte ao ataque ao salão. Eu estava sentado na cama, com as mãos na cabeça. Suspirei, ignorando a voz melosa da Liz e seus braços se enroscando em mim.

À medida que você sobe na vida, ganha tanto amigos quanto inimigos. Caçadores de tesouros não fogem à regra. Derrotar bandidos gera rancor. Vender Relíquias e materiais coletados de monstros para uma empresa podia te render a inimizade de outra. Muitos caçadores eram competitivos o suficiente para tentar te derrubar na primeira oportunidade.

Então houve, é claro, todas as vezes em que os clientes ficaram irritados com meus amigos de infância, não por qualquer mal-entendido, mas por bons motivos. Essa foi uma das muitas fontes de estresse durante meu tempo como caçador. Ultimamente, eles tinham se acalmado, mas as coisas começaram a mudar após o incidente no Festival do Guerreiro Supremo.

Pelo que parece, um pequeno mal-entendido com as raposas ruins os incitou a colocar uma recompensa pela minha cabeça. Coisas assim aconteciam com caçadores o tempo todo, inclusive comigo, então eu não estava muito agitado. Essas coisas sempre eram retiradas depois de um tempo, então eu tinha certeza de que isso passaria logo.

Uma das razões pelas quais eu tinha um quarto privado, sem janelas e acessível apenas por uma porta secreta no meu escritório, era para ser uma zona segura em momentos como este. Era natural considerar a segurança de mim mesmo e dos funcionários do clã. Nos primeiros dias do Primeiros Passos, nós tínhamos suportado um agressor atrás do outro.

Felizmente, até agora, ninguém jamais tinha conseguido violar o perímetro da casa do clã. Então o que tinha dado errado? Foi porque eu tinha ido ao lounge, mesmo tendo dito que não sairia do meu quarto?

Quando fechei os olhos, pude ver a flecha com seu pacote explosivo se aproximando de mim. Felizmente, meus Anéis de Segurança tinham feito seu trabalho e me mantido a salvo. Eva, quem eu estava cobrindo, também estava ilesa, e Gark tinha sobrevivido também. No entanto, eu não sabia para onde ir a partir dali. Tudo o que eu podia dizer com certeza era que eu não sairia tão cedo.

Eu não me importava com quem estava por trás dos ataques. Ninguém em particular vinha à mente, e poderia ter sido praticamente qualquer pessoa. Era possível que alguns bandidos remanescentes quisessem vingança. Também era possível que Franz ou alguém tivesse chegado ao limite de sua paciência e contratado um esquadrão de assassinos de aluguel. Eu só esperava que isso fosse algo que se resolvesse com o tempo. E por que aqueles Homens das Cavernas estavam lá? Isso me assustou mais do que qualquer outra coisa.

Ainda assim, meu maior problema de todos eram meus amigos. Liz batia os pés na cama enquanto se inclinava em mim, com os braços em torno do meu torso.

Vamos dar o exemplo com cada um deles, e suas famílias também — ela sussurrou no meu ouvido. — Precisamos pegar cada um deles. Certo? Não é assim que se faz?

Não — eu disse a ela.

Por que não? Todos vão pensar que ficamos moles. Eu vou garantir que eles se arrependam de terem vindo atrás de você. Eu vou massacrá-los, e depois pendurá-los nos portões da capital imperial.

Ela estava tentando esconder sua raiva, mas fazendo um trabalho imperfeito. Eu não era ignorante da forma como o mundo da caça ao tesouro funcionava, mas ela tinha uma tendência a exagerar. Tudo bem se ela fosse atrás apenas das pessoas que tentaram me matar, mas exercer esse tipo de restrição não estava na natureza dela.

Se ela estava planejando massacrar também os amigos e as famílias deles, eu não tinha certeza de quem era o criminoso aqui. Além disso, eu tinha certeza de que quem estava atrás de mim já estava bastante assustado. Assistir àqueles Trogloditas nocautearem os atacantes tinha me deixado assustado. Isso trouxe de volta memórias de Suls.

Sabe, não é que eu esteja irritada porque eles atacaram você — disse Liz, esfregando-se em mim. Eu decidi supor que essa era apenas a maneira dela de desabafar. — Uma pequena explosão não vai te matar, mas é só que, se você for atingido, você tem que revidar. É assim que os caçadores são. Você sabe disso.

Mmm.

Ela estava definitivamente irritada. Depois havia Sitri, que tinha passado a noite anterior falando sobre como, se alguém ataca uma pessoa importante para você, você deve matar alguém importante para eles. Se eu não a tivesse impedido, ela definitivamente teria se tornado uma criminosa. Ela disse que estava tudo bem, desde que não fosse pega, mas eu discordei. Honestamente, como eu deveria explicar aos pais Smart o que tinha acontecido com suas filhas?

A carência tátil de Liz estava pior do que o normal, provavelmente por causa do seu estresse reprimido. Seus braços e pernas estavam enrolados em mim, o calor do seu corpo me fazendo suar. Eu soltei um pequeno grito quando ela mordeu levemente a parte de trás do meu pescoço.

Pare de agir como um animal selvagem!

Eu a sacudi, segurei seus braços e a imobilizei. Ela pareceu chocada por um breve momento antes de se permitir relaxar. Eu tinha sido um caçador por algum tempo, mas eu não tinha melhorado em dar desculpas em momentos como este.

Está tudo bem — eu disse a ela. — Estou ocupado, então deixe para lá. Está tudo correndo conforme o planejado!

Eu tinha combinado de Matthis vir para avaliar a Relíquia de Eliza, mas agora esse plano tinha sido arruinado. Embora eu estivesse ansioso para não fazer nada além de mexer com

minhas Relíquias, nada me faria começar a ir atrás das famílias das pessoas. Eu tinha suportado todos os tipos de tribulações! Eu era resistente a tribulações!

Liz olhou para mim com apreensão, algo que ela não fazia com frequência. — Sééério? Você vai se vingar, como deveria?

Seria uma perda do meu tempo. Não se preocupe. Depois de uma confusão como essa, eu não acho que ninguém atacará novamente por enquanto. Os Trogloditas capturaram alguns deles, e alguns cavaleiros estão investigando.

Hum.

Honestamente, o que eu achei realmente estranho foi que meus amigos pareciam pensar que ainda poderia haver mais ameaças no horizonte. Aqueles caras que invadiram o lounge não tinham sido meros capangas, embora tenham perdido para a força bruta dos Trogloditas. Poderia ter sido minha imaginação, mas eles pareciam se coordenar ainda melhor se eu estivesse envolvido.

O bico de Liz sugeria que ela ainda não estava satisfeita com minhas garantias, mas eu sabia que isso era apenas porque ela estava estressada. Eu estendi a mão e acariciei a nuca dela. Assim como quando éramos crianças, a pele dela era suave e macia com um leve calor.

Liz, uma grande fã de contato físico, vivia me abraçando e me lembrando, de formas bem desconfortáveis, da noção bem particular que ela tinha de “distância pessoal”. Mas, ao que parecia, ela preferia ser tocada do que tocar. Costumava ficar com ciúmes quando eu amarrava o cabelo da Lucia, e recentemente descobri que escovar o cabelo dela funcionava bem. Ao longo da nossa longa amizade, aprendi alguns truques, incluindo vários jeitos de acalmá-la.

Tá estressado? — perguntou ela, a voz um pouco mais suave. — Ou tá no clima? Quer que eu tire a roupa?

Acho que vou ter que deixar a Lucia ou a Sitri por perto quando for sua vez de ficar de guarda.

Exatamente. Mesmo que faça parte do plano, é difícil resistir à vontade de se vingar — respondeu Liz, com as bochechas coradas. — Tá tudo bem. Pode descontar o estresse em mim.

Acho que ela entendeu tudo errado. Que tipo de pessoa ela achava que eu era? Quando foi que eu já pedi algo assim pra ela? Suspirei, lembrando que a maioria dos caçadores tinha impulsos bem fortes.

Não sabia se ela estava brincando, mas eu estava muito mais exasperado do que envergonhado. Sem dizer nada, puxei a bochecha macia dela. Liz respondeu com um sorriso radiante, e como puxar não parecia surtir efeito algum, acabei soltando.

Não sei se gosto da ideia de você, justo você, se preocupar com o meu estresse — falei, soltando um longo suspiro.

É sério? Você tá sempre se esforçando por mim. Posso fazer o mesmo por você de vez em quando, né?

Meus amigos estavam ocupados, mas arrumaram um tempo nas agendas para se revezarem na minha guarda. Eu estava agradecido e até animado com isso, mas será que eu realmente aguentaria? O primeiro dia indicava que não. Pelo menos Liz parecia ter esquecido toda aquela história de vingança e por isso eu já estava grato.

Não é bem estresse — expliquei. — Mas preciso recarregar depois de tudo o que rolou no Festival do Guerreiro Supremo. Você também devia descansar um pouco. Aposto que foi cansativo pra você também. Logo a gente vai estar na correria de novo.

Eu não preciso descansar, até porque nem cheguei a lutar no torneio. Ah, lembrei! Meu mentor quer te conhecer.

E eu adoraria, mas… não tenho tempo. Eu sei que tô aqui, descansando, mas ainda assim… não tenho tempo.

Sempre que eu conhecia algum dos mentores dos meus amigos, vinha uma enxurrada de elogios exagerados e reclamações. Será que eles achavam que eu era o responsável legal deles? Eu sempre me perguntava que tipo de histórias Liz e os outros contavam a meu respeito, mas nunca tive coragem de perguntar.

No momento seguinte, ouvi um baque do lado de fora da porta. O sorriso de Liz sumiu. Ela se levantou sem ânimo e abriu a porta de um jeito brusco. Do outro lado, estava Tino, caída de bunda no chão, o rosto pálido voltado para cima, encarando Liz.

Eu fiquei achando que tinha algo lá fora. Krai Baby, o que eu faço com isso?

Não havia nada de “secreto” no meu quarto secreto mas, pensando bem, isso já fazia tempo que era assim.

Tino olhou pra mim com timidez.

Recarregando. Atraindo inimigos. Matando eles e as famílias deles? Se vai escutar atrás da porta, pelo menos faz isso direito!

Será que ela só ouviu as partes mais chocantes? E eu nem lembro de ter falado nada sobre “atrair inimigos”. Será que era a presença ameaçadora da Liz distorcendo a memória dela? Nada deixava Liz de mau humor mais rápido do que ter um bom humor interrompido.

Liz agarrou Tino pelo pescoço e a lançou casualmente na minha direção. A menina soltou um gritinho enquanto aterrissava na minha frente, incapaz de fazer qualquer movimento para amortecer a queda.

Fui uma má mentora? — perguntou Liz. — Agora ela sabe do plano. Ela devia ter entendido a dica quando eu disse que hoje não ia ter treino.

Ei, ei, calma.

Fiquei surpreso de ver Tino ali, mas uma garota boa como ela provavelmente só estava preocupada comigo. O tratamento bruto de Liz era totalmente desnecessário.

Sorri pra Tino e falei num tom gentil, para não deixá-la mais nervosa.

Não tem plano nenhum. A gente não vai massacrar, esquartejar nem fazer nada do tipo. Só tô… armazenando energia pro futuro.

Tino enrijeceu.

A-Ah, armazenando energia?! — repetiu, num sussurro trêmulo. Mas o que ela acha que eu sou, afinal?

Ouvi um som de batidas atrás de mim, mas não me levantei, apenas virei o pescoço em direção à janela. Do lado de fora, bicando o vidro com o bico, estava um pombo familiar… feito de correntes.

Por motivos de segurança, eu tinha escolhido instalar a sede da guilda numa área sem muitos prédios altos ao redor. Meu escritório ficava no último andar, o que dificultava ataques à distância, ao contrário do salão principal.

Depois que Liz quebrou uma das janelas, mandei trocar os vidros por um tipo mais resistente e caro (um produto especial reforçado com material de mana). Ainda assim, não era o bastante para segurar um caçador de alto nível mas duvido que algum criminoso tivesse coragem de invadir um prédio em plena rua movimentada. Tirando, claro, os que recentemente tinham jogado um explosivo no salão.

Destranquei, abri a janela um pouco, e o Pombo de Correntes bateu as asas com força, entrando apressado. Essa era uma das peças da coleção de Matthis. Entre as muitas Relíquias do tipo “corrente”, as capazes de voar eram raras, nem eu tinha uma dessas. Os Pombos de Correntes eram inteligentes o suficiente para se proteger de ameaças, podiam substituir pombos-correio e, além disso, tinham o benefício de consumir pouca mana por serem pequenos. No geral, eram uma das Relíquias em formato de corrente mais úteis que existiam.

Sem perder tempo, soltei o pequeno tubo preso à perna dele e tirei a carta enviada por Matthis. Li o conteúdo e descobri que ele não poderia continuar fazendo as avaliações em domicílio por um tempo.

Imagino que isso significasse que, mesmo um avaliador com amor infinito por Relíquias, não conseguia vencer os efeitos do tempo. Bem, talvez fosse o melhor, assim ele não corria o risco de se envolver no caos que andava acontecendo por aqui. Ele podia ser meu mentor em assuntos de Relíquias, mas era tão inapto para combate quanto eu.

Fechei a cara ao terminar de ler o resto da carta, um amontoado caótico de reclamações sobre como o filho e a esposa dele ficavam irritados quando ele tentava fazer uma avaliação em casa, histórias melosas sobre a neta e um bocado de fofocas aleatórias.

Ao meu lado, Luke, o encarregado da minha segurança naquele dia, estava polindo uma nova espada de madeira.

Então, Krai, quando é que a gente vai derramar um pouco de sangue?

Hm?

Eu não entendi direito, mas quando meu mentor ouviu falar do ataque, ele me mandou não sair cortando ninguém. Repetiu isso várias vezes. O que ele quis dizer, na verdade, é que eles é que deviam ser cortados, certo?

Hmm?

Eu não vou cortar ninguém; eles é que vão se cortar sozinhos. Um Espadachim de primeira deixa o inimigo vir até sua lâmina, nunca o contrário.

Não fazia ideia do que ele estava tentando dizer, mas a empolgação era real. Luke não surtava como a Liz, mas era tão, ou até mais, violento que ela. Isso talvez o tornasse ainda mais difícil de lidar.

Descobri um efeito secundário do Voltaic Deicide. Ele queima os cortes que faz, o que diminui a chance de o alvo morrer por perda de sangue. Ou seja, eu posso cortar alguém várias e várias vezes, para sempre, se quiser. Ah! Posso até cortar a parte que caberia pros outros!

Pelo que eu sabia, um golpe elétrico causaria um bom estrago tanto em você quanto no alvo, mas Luke parecia ter suas próprias ideias sobre o assunto. Achei que já tinha deixado claro que tinha barrado o plano de vingança da Liz, mas parece que ele não entendeu a mensagem.

O Pombo de Correntes andava inquieto na minha frente, como se me apressasse a escrever a resposta. Olhei pra ele e depois pro Luke, e decidi responder qualquer coisa só pra encerrar o assunto.

Calma aí. Ainda não é hora. Tô ocupado e precisamos ficar quietos por um tempo. Se formos pacientes, coisas boas devem acontecer.

Até agora não houve novos ataques, e talvez continuasse assim. Era possível que os bandidos capturados pelas forças de Ryuulan fossem os cabeças do atentado. Caso contrário… bem, eles tinham cometido um grande erro: envolveram o Gark, gerente de filial da Associação de Caçadores.

Apesar da aparência bruta, ele era um homem de autoridade. Na nossa era dourada de caça a tesouros, a Associação era a última entidade que você queria transformar em inimiga. Naquele exato momento, Gark provavelmente estava caçando os culpados. Pra mim, só restava esperar.

Droga, ainda quer que eu segure a espada? Krai, vou te dizer, não curto esse seu ar de superioridade às vezes. Minha espada demoníaca tá pedindo sangue.

Eu não “ainda” queria que ele segurasse, eu sempre queria que ele segurasse. E sobre essa tal espada demoníaca dele… ela tinha sido refeita recentemente, depois de queimar, então duvido que estivesse “com sede de sangue”.

Um corte só não vai dar conta — murmurou.

Certo, você tem tempo demais sobrando. Acho que posso arrumar algo pra te manter ocupado.

Assim como eu conhecia a natureza da Liz, também sabia como o Luke funcionava. Distraí-lo seria fácil, o problema era manter a distração. Justo quando me levantei, ouvi batidas na porta. Segurei a mão do Luke antes que ele empunhasse a espada.

É a Eva — avisei.

Eu sei.

E esse era o problema, ele podia muito bem atacar mesmo sabendo que era ela.

Avisei que estava tudo bem, e Eva entrou. Estava igualzinha a antes do ataque: impecável, organizada, do mesmo jeito de sempre. A maioria das pessoas precisaria de um tempo para se recuperar depois de presenciar uma explosão, mas ela voltou ao normal em menos de um dia. Invejava a serenidade dela. Mas era justamente por serem tão estáveis que eu não podia deixar que ela, ou o resto da equipe administrativa, se machucasse.

Como você está? — perguntei.

Graças a você, estou ilesa e sem nenhuma dificuldade para retomar o trabalho. O salão ainda vai demorar um pouco pra ser consertado, mas os Trogloditas ofereceram ajuda.

Não sabia que eles eram nossos aliados. Espera… se a gente nem fala a mesma língua, então como..

Cortei as perguntas que surgiam na minha cabeça e apenas sorri.

Pode tirar um tempo pra descansar. As coisas estão perigosas agora, e o Luke pode cuidar da parte administrativa.

Pode deixar comigo, Eva! Meu sangue tá fervendo!

Confiante pra caramba, considerando que eu não lembrava de ele ter feito trabalho de escritório alguma vez na vida.

Um traço de desagrado passou pelo rosto de Eva antes que ela limpasse a garganta.

Não precisa se preocupar. Absorvi um pouco de material de mana para situações como esta e, além disso, pretendo ficar hospedada aqui na sede do clã por enquanto. Não conheço lugar mais seguro.

Quando é que ela arranjou tempo para absorver material de mana? Isso quer dizer que ela é mais forte que eu? Bem… não seria difícil de acreditar. A vida nunca foi exatamente justa.

Ainda assim, a ideia de ela ficar aqui não era ruim, a sede do clã era praticamente uma fortaleza, e havia várias pessoas capazes de defendê-la.

Quer fazer uma festa do pijama? — perguntei.

Não quero — respondeu depois de uma breve pausa. — Desde a tentativa de assassinato, recebemos várias cartas e presentes desejando sua recuperação. O que devo fazer com eles? Sei que você não está recebendo visitas, mas…

Puxa, sou mesmo popular.

Imagino que tenham visto isso como uma boa oportunidade, já que é raro poder encontrá-lo pessoalmente. Afinal, você está em alta no momento.

Não consegui pensar em nada pra responder sob o olhar firme dela. Não era como se eu quisesse que as pessoas estivessem falando sobre mim.

Eva realmente não se deixou abalar pelo ataque recente e, ironicamente, era isso que me deixava preocupado. Ela podia ter absorvido material de mana, mas continuava sendo uma não combatente. Precisava de proteção. Tirei um Anel de Segurança da minha mão direita e joguei pra ela. Eu tinha o suficiente pra não fazer diferença perder um.

Eva pegou o anel no ar e me olhou, hesitante.

Hã… isso é…

É um Anel de Segurança, e estou te dando. Desculpe por ser de segunda mão, mas acho que você devia ficar com ele.

Um Anel de Segurança! Esses anéis são caríssimos! Não, pera, não é isso! Por que você tá me dando isso do nada?!

Então, de repente, tive uma ideia.

Espera aí… — murmurei.

Cruzei os braços e olhei para o Pombo de Correntes, que bicava a superfície da minha mesa. Se Matthis não podia vir até mim pra fazer a avaliação, por que eu não mandava a Relíquia até ele? Ele certamente não teria coragem de recusar se eu pedisse pra Tino fazer a entrega. Ela era membro do Primeiros Passos e vivia vindo à sede do clã, nada de suspeito nisso.

Nossa, tô inspirado hoje. Na real, é até difícil acreditar que não pensei nisso antes.

Apontei pra janela. O Pombo de Correntes pareceu entender que eu não escreveria resposta alguma e voou para fora. Eva olhou de mim para a Relíquia voadora, o olhar indo e vindo em confusão.

Graças a você, acabei de ter uma ótima ideia — comentei, rindo.

Hã?! O quê? Aquilo era um Pombo de Correntes, não era? Você tá planejando alguma coisa de novo? Pensou em alguma maluquice, não foi?!

Um pouco de exagero, talvez, mas ver a sempre serena Eva perdida desse jeito era, no mínimo, refrescante. Quase revigorante.

Não é nada. Tá tudo bem. Tudo sob controle.

“Tudo bem”? Você acha que tá tudo bem a Tino andar por aí dizendo que você vai “matar eles, os amigos e as famílias”?!

Tá, isso não tá nada bem.

Nem um Caçador de alto nível sairia impune de algo assim e muito menos pendurando corpos nos portões da capital. Eu precisava dar um jeito nesses boatos, mas o que me preocupava de verdade era a fé da Tino em mim estar começando a desmoronar. Era hora de agir.

Parece — continuou Eva — que há membros do clã se preparando para atacar antes que aconteça algo trágico conosco.

Eu nem tinha dito nada, mas a situação já estava se desenrolando sozinha. É verdade que fomos atacados, e eu não me importava com o pessoal tomando iniciativa… desde que não me responsabilizassem pelo resultado.

O mundo lá fora é selvagem — comentei.

Por favor, não me diga que isso é tudo o que você vai dizer — respondeu Eva, suspirando.

Soltei um grande bocejo. Ultimamente, qualquer movimento meu parecia gerar consequências imprevistas, então concluí que ficar quieto era a melhor opção.

Luke estava levantando a espada acima da cabeça e examinando o fio quando, de repente, pareceu se lembrar de algo.

Ah, é, Krai — disse. — Meu mentor mandou você dar um pulo lá se não tiver nada melhor pra fazer. Acho que ele quer conversar com você sobre alguma coisa.

O Santo da Espada quer? — disse Eva, surpresa. — Achei que ele estivesse ocupado, já que foi convocado para ajudar no contra-ataque a Raposa. Krai, tenho que dizer, você tem uma lista de contatos impressionante.

“Contatos” parecia uma palavra curiosa… considerando que ele provavelmente só queria reclamar de alguma coisa. Era sempre assim quando eu encontrava os mentores dos meus amigos, especialmente os do Luke e da Liz. Eu nunca queria me reunir com esses tipos, porque “consultar” geralmente significava “ouvir uma bronca”. E se, por acaso, realmente quisessem meu conselho, aí seria ainda pior.

Alguma ideia do que ele quer tratar? — perguntei.

Hm… nada. —

Claro que não. Pensa, criatura! Não dá pra ser tão satisfeito consigo mesmo a ponto de esquecer assim!

Luke franziu as sobrancelhas, pensativo.

Ah, acho que lembrei. Meu mentor usa duas espadas, mas outro dia eu fiquei pensando qual das duas era mais forte… então perguntei pra ele.

O mentor de Luke era Soln Rowell, o Santo da Espada. Um dos maiores mestres vivos e, ao contrário do Luke, ele treinava tanto a mente quanto o corpo e a técnica. Era admirado pelos espadachins por ser não só forte, mas também íntegro. Além disso, era um colecionador de espadas renomado, com várias peças famosas em sua posse.

Luke também era um entusiasta de espadas, embora estivesse proibido de carregar uma no momento. Lembro bem do brilho nos olhos dele quando conheceu o Santo da Espada e viu a lâmina que ele empunhava.

Ele disse que não sabia — continuou Luke —, então eu resolvi testar por conta própria, sem avisar. As duas quebraram.

HÃ?!

Acho que isso quer dizer que Crimson Heaven e Azure Spirit são igualmente fortes. Quer dizer, têm o mesmo tamanho e combinam direitinho.

Aham… sei.

Quebrar duas das espadas favoritas do seu mentor era o tipo de erro que podia render expulsão, ou execução. Mas Luke não parecia ter o menor arrependimento. Talvez fosse mais uma prova de como Caçadores de alto nível podiam ser assustadores. Relíquias geralmente eram resistentes, e até armas comuns não se quebravam fácil… mas com alguém como Luke, as regras pareciam diferentes.

Mas não deveria ser o contrário? Tipo… um espadachim talentoso devia ser capaz de usar uma arma que quebraria nas mãos de um amador, certo?

Luke cruzou os braços e estreitou os olhos.

Não, pera… talvez tenha sido porque eu quebrei uma das espadas enquanto treinava o

Voltaic Deicide. Usei uma das dele, já que as de madeira viviam quebrando.

Quantas espadas você pretende destruir, cara?! Você acabou de começar a treinar o Voltaic Deicide! É óbvio que é sobre isso que ele quer falar!

Armas não eram nada baratas. Naquela época, qualquer coisa que não pudesse ser produzida por forja mágica custava uma fortuna. Isso valia ainda mais para Relíquias, mas até uma espada artesanal comum podia ultrapassar centenas de milhões. Era difícil

imaginar quanto alguém pagaria por uma lâmina da coleção do Santo da Espada. Ainda assim, para um espadachim, sua arma era praticamente a própria alma.

Eu ainda não conseguia entender como o Luke não tinha sido expulso do dojô. Eva parecia igualmente exasperada. O que aconteceria se eu simplesmente concordasse e aparecesse na frente do Santo da Espada? Ele era uma pessoa de humanidade excepcional, mas não exatamente o tipo tranquilo. Eu já fazia o possível para encontrá-lo o menos possível, aparecer diante dele quando estivesse irritado era impensável.

Pensei se haveria alguma forma de fazê-lo perdoar a selvageria do Luke. Talvez se eu lhe oferecesse algo para substituir as espadas quebradas? Foi então que meus olhos caíram sobre a caixa aos meus pés, aquela com os itens que a Eliza tinha deixado. Respirei fundo e peguei o mais interessante do lote: uma espada envolta em um pano negro.

Removi o pano, revelando uma lâmina reta de um preto profundo. Ela tinha um brilho sutil, como se tivesse sido forjada a partir da própria noite. A falta de semelhança com qualquer metal moderno deixava claro que era algo de uma civilização há muito desaparecida.

Ooh?! O que é isso?! — exclamou Luke.

Mesmo depois de consultar minha enciclopédia de Relíquias, ainda não consegui identificar essa espada. As pesquisas sobre Relíquias do tipo espada tinham avançado bastante, então, se ela não constava lá, devia ser algo realmente raro.

Eu planejava pedir uma avaliação ao Matthis, mas agora isso não era mais uma opção. Não sabia ao certo se essa espada compensaria as que Luke havia quebrado, mas sentia que o destino estava me dando uma ajuda aqui. Embora… minha recente experiência com a Chave da Terra tinha me deixado um pouco desconfiado de espadas.

Respirei fundo, reunindo coragem. Depois, enrolei a espada novamente e a coloquei sobre a mesa.

Eu não posso ir, mas você pode levar isso para o seu mentor. É uma peça rara.

Eu não fazia ideia do valor prático que ela tinha, mas era, sem dúvida, uma bela espada. Esperava que isso bastasse para melhorar um pouco o humor do Santo da Espada. E, se ele descobrisse os poderes dela… bom, espero que tenha a gentileza de me contar depois.

Caçadores de tesouros sempre mantinham os ouvidos atentos ao chão. Houve uma vez em que, só por o Mil Truques considerar comprar uma Relíquia, o rumor se espalhou num piscar de olhos. E agora, estava acontecendo de novo. Desta vez, os boatos diziam que o artífice sobre-humano estava acumulando poder.

Os detalhes eram vagos. Alguns diziam que aquilo era uma reação ao ataque à sede do clã; outros afirmavam que o Mil Truques já tinha previsto o ataque desde o início. Mas havia um ponto em que todos concordavam: sua vingança seria completa.

É claro que agir assim seria ir contra a lei. Nem mesmo caçadores de alto nível, não, principalmente caçadores de alto nível, poderiam ser deixados livres para ignorar as regras. Ainda assim, a fama dos Grieving Souls tornava esses rumores fáceis de acreditar. Se alguém ousasse atacar os Grieving Souls, seria caçado até o fim do mundo.

No coração da capital imperial existia o Distrito Decadente, um caldeirão onde toda a escuridão da cidade se concentrava. Em um canto esquecido, havia uma loja que parecia prestes a desabar, o telhado a um passo de cair. Além das portas apodrecidas e descendo uma escadaria, encontrava-se o Anel Vermelho.

Era um lugar feito para os que viviam à margem da sociedade trocarem informações. Uma versão subterrânea da Associação de Caçadores, um ponto de encontro para facilitar trabalhos sujos. O interior era pequeno, mas apenas membros de organizações poderosas ou indivíduos com influência suficiente para conseguir uma apresentação eram permitidos ali.

As mesas estavam dispostas de forma aleatória, e havia apenas algumas pessoas além do dono mal-encarado. O público variava em idade e gênero, mas todos compartilhavam o mesmo brilho frio no olhar e exalavam uma aura assassina.

Num canto escuro, um homem e uma mulher estavam sentados a uma pequena mesa. O homem era baixo e de expressão melancólica, com o cabelo preto caindo sobre os olhos. A mulher era loira, com um olhar afiado como o de um falcão. Eles não pareciam tão ameaçadores quanto os outros clientes, mas o simples fato de estarem ali provava que eram caçadores de fantasmas habilidosos.

O Pacifista e a Dourada, esses eram seus codinomes. Assassinos que caçavam alvos de alto valor. Embora normalmente atuassem em outras terras, haviam vindo a Zebrudia atrás de uma recompensa colossal.

O Mil Truques era um caçador de tesouros famoso por proteger o imperador e derrotar inúmeros inimigos, entre eles, a elusiva Raposa Sombria de Nove Caudas. A quantia oferecida por sua cabeça era absurdamente alta para uma única pessoa. Ele devia ter realmente despertado a fúria da Raposa. O que não era surpresa, já que o confronto com ele tinha forçado a organização a se retirar do império.

A recompensa era grande o bastante para contratar vários assassinos de elite, ou até um exército de mercenários. Se desse certo, aqueles dois nunca mais precisariam trabalhar pelo resto da vida, sem falar na glória de eliminar o homem que havia derrubado tantas

organizações. Era o trabalho de uma vida… mas, curiosamente, os dois assassinos pareciam de mau humor.

A loira, a Dourada, era uma arqueira com uma longa lista de mortes graças à sua precisão infalível e habilidade impecável em planejamento. Ela bateu o punho na mesa e lançou um olhar feroz ao homem à sua frente.

— Tá me dizendo que bateu o medo agora?! Esqueceu que a gente já tentou matar ele uma vez?!

Para a Dourada, assassinato era algo simples. Ela nunca errava , nem mesmo quando o alvo era um caçador de tesouros experiente. Eliminar oponentes muito mais fortes que ela nunca foi um problema, já que caçadores geralmente dedicavam o mana absorvido a aumentar o poder de ataque. O raciocínio era que as armaduras compensavam a falta de defesa, mas não havia nada que pudesse ser feito contra um fantasma resistente se sua força fosse insuficiente.

Da mesma forma, a Dourada havia concentrado todo o seu mana em furtividade e poder ofensivo. Ninguém jamais sobreviveu a um golpe crítico desferido por ela.

E garantindo ainda mais suas chances estava seu parceiro, o Pacifista, um homem tímido e desconfiado. Com o uso habilidoso de bombas e venenos, ele podia eliminar seus alvos sem nunca encará-los de frente. Era um tipo de poder incomparável à força bruta.

Combinando seus talentos opostos, não havia quem a Dourada e o Pacifista não pudessem matar. No entanto, embora o Pacifista costumasse tremer de medo mesmo enquanto trabalhava, desta vez ele estava completamente dominado pelo pavor.

I-Isso é impossível — disse ele, gaguejando. — N-Não dá pra vencer. Aquele homem… ele é um monstro.

Como se a gente já não soubesse, porra?! Ele é Nível 8!

Ir atrás de um caçador de Nível 8 era arriscado demais até para a maioria dos assassinos. O nível era algo conquistado com realizações uma após a outra, e até envolvia exames. Ser Nível 8 significava estar entre os humanos mais fortes vivos. Significava ter superado inúmeras provações e absorvido enormes quantidades de mana. O esforço, a qualidade e, principalmente, o talento necessários eram extraordinários.

Existiam caçadores especializados em áreas específicas e outros mais equilibrados, mas um Nível 8 deixava qualquer um deles no chinelo. Só pra se ter uma ideia, mesmo em Zebrudia, o santuário dos caçadores, havia apenas três pessoas Nível 8 ou superior.

Mesmo assim, aqueles dois haviam decidido caçar o Mil Truques, achando que sabiam no que estavam se metendo. A Dourada era uma caçadora; ela jamais desistiria depois de traçar um plano e testar o terreno. Ela até tinha recrutado alguns subordinados para ajudar.

Cruzando os braços, lançou um olhar gélido ao parceiro, que tremia, tentando se justificar:

V-Você tem razão. A gente já sabia que não ia dar certo. M-Mas não é só que ele é forte. Ele pegou meu explosivo personalizado e jogou no Gark! Esse cara é… completamente maluco!

A Dourada manteve o olhar calado e afiado sobre ele.

E-Ele também usou monstros para capturar nossos homens! Como duas pessoas tão f-fracas quanto nós vão matar alguém ainda mais insano do que a gente?! —

O lugar ficou em silêncio. Ninguém disse uma palavra, nem o dono do bar, vestido de preto, nem os outros clientes. No entanto, o Pacifista tinha acertado em cheio.

Uma das vantagens dos assassinos era saber, desde o início, que o que faziam era errado. Por isso, a Dourada nunca se importou com os métodos. Enquanto o alvo fosse alguém “correto”, ela sempre teria a vantagem, não importava o quão poderoso fosse.

Mas e se o alvo fosse alguém igualmente pragmático?

E-Ele luta no nosso nível! No nosso nível! Ele não teve medo! Dos monstros! Qualquer pessoa normal nem pensaria em usar m-monstros! V-Você entende o que ele vai fazer? O que nós não conseguimos! Nossos amigos e f-famílias vão ser mortos e pendurados como exemplo! Eles não têm medo de se sujar! —

A Dourada pareceu hesitar. — Eu não tenho amigos. Só você. Minha família já foi faz tempo. —

B-Bem, eu tenho. — O Pacifista quase derrubou a mesa ao se levantar trêmulo e agitar os braços. A temperatura do ambiente pareceu cair quando ele começou a gritar, tomado pelo pânico. — O-Olha! Quase todo mundo que veio aqui com a mesma confiança que a gente já f-fugiu! Ouvi dizer que a Associação tá com medo de que os Grieving Souls percam o controle! —

Que droga, hein? —

Não dava pra negar: as coisas não podiam estar piores. A Dourada entendia muito bem o medo nos olhos do parceiro. Os Grieving Souls faziam parte da Associação dos Caçadores, mas agora era a própria Associação que temia o que o grupo poderia fazer. Se esse tipo de informação começasse a circular, claro que a maioria dos assassinos iria querer cair fora.

Se até os aliados dos Grieving Souls estavam com medo, como os inimigos não estariam? Para qualquer um que valorizasse a própria vida, aquele homem era um verdadeiro demônio e não valia o risco, não importava o quanto pagassem.

A Dourada e o Pacifista estavam dispostos a se unir a outros assassinos, se fosse necessário, mas todos os possíveis parceiros já tinham fugido. Eles tinham dado o primeiro passo no ataque, e agora haviam se tornado inimigos dos Grieving Souls. Recuar nessas circunstâncias seria extremamente perigoso, mas, desta vez, talvez fosse a melhor opção.

Nem a flecha nem a bomba tinham surtido efeito, e era bem possível que o veneno não funcionasse melhor. Acima de tudo, era raro ver o prudente Pacifista bater o pé desse jeito.

Tinham feito tanto esforço, e tudo foi em vão. Frustrada, a Dourada soltou um suspiro pesado.

Ela clicou a língua. — Vai pegar mal desistir de um alvo que a gente já tinha mirado, mas se você insiste, então é isso. Vamos arrumar nossas coisas e sair desse país. —

É. Caçar demônios não é o nosso trabalho. —

O Mil Truques provavelmente já tinha percebido que o primeiro ataque deles foi só um teste, uma tentativa de encontrar fraquezas, e devia estar esperando a segunda investida. Mesmo um artífice sobre-humano como ele não esperaria que os dois simplesmente fugissem depois de um ataque tão óbvio.

Mas, no instante em que esse pensamento passou pela cabeça da Dourada, todo o prédio estremeceu. O som de algo atingindo a porta de metal ecoou. O dono do bar se levantou num salto, e os outros clientes se prepararam. O Pacifista empalideceu, soltando um gemido enquanto encostava as costas na parede.

O ar vibrou. Uma, duas, três vezes, o som pesado de algo batendo contra a porta reverberou pelo local. Era uma porta robusta, mas ninguém esperava que alguém atacasse de frente um antro de assassinos. Mais que isso, esse lugar deveria ser conhecido apenas por um punhado de pessoas. Onde foi que a informação vazou? A Dourada olhou para o dono, mas ele balançou a cabeça, negando.

Houve gritos do outro lado da porta. A voz era de uma jovem, desesperada.

Eu não vou deixar vocês transformarem o Mestre num criminoso! —

Ela estava sozinha? Fazia parte dos Grieving Souls? Será que podiam lidar com ela se estivesse só? Um único caçador não deveria ser problema. Essas perguntas não passavam de um devaneio da Dourada, uma fuga mental interrompida por uma voz masculina rude.

A gente sabe que vocês estão aí! Rende logo, temos cinquenta homens e mais um pouco! Ninguém vai enforcar vocês nos portões ou fazer de exemplo! —

Ryu-ryuu-ryu-ryu-ryuuu! —

Cinquenta?! Não podia ser. Era insanidade. Só grandes clãs tinham tantos membros. Por um momento, ela achou que fosse blefe, mas logo percebeu dezenas de presenças do outro lado da porta. Não, eram ainda mais. O homem tinha dito “cinquenta e mais um pouco”. Ou seja, eles não tinham apenas pessoas. E, pelo som das outras vozes… Um arrepio percorreu a espinha da Dourada. Ninguém ali estava armado para combate. Não tinham chance alguma.

Tem uma saída nos fundos — disse o dono, antes de sumir atrás do balcão.

A porta se contorceu, as dobradiças rangendo alto. Eles estavam forçando a entrada, e não demoraria muito até conseguirem.

Vamos cair fora daqui! — gritou a Dourada, puxando o braço do Pacifista. Eles correram para trás do balcão e, no exato instante em que desapareceram dali, a pesada porta foi arremessada para dentro.

A capital imperial de Zebrudia era uma cidade grandiosa, mesmo comparada às metrópoles das nações vizinhas. Em um dos cantos, não muito distante do centro, havia uma loja de dois andares, sendo o superior usado como moradia. Sua fachada charmosa fazia com que se misturasse perfeitamente às outras construções, a poucos metros da via principal.

Embora fosse, de fato, uma loja, ainda não havia começado a vender nada. Não havia nome na placa do lado de fora e, olhando pelas janelas, o interior parecia quase vazio. Talvez ainda levasse algum tempo até abrir oficialmente as portas.

A loja era administrada por Raposas. Ou melhor, ex-Raposas, que agora estavam fugindo da organização. Sora havia passado a última semana maravilhada com o esplendor da capital imperial; os rumores não faziam justiça à grandiosidade do lugar.

No momento, ela estava no segundo andar, lendo o jornal recém-chegado.

Oh?! Galf! Galf! Por favor, olha isso! —

Ao ouvir a voz dela, Galf Shenfelder, ex-membro de alto escalão da Raposa Sombria das Nove Caudas, subiu do primeiro andar, onde estava cuidando dos preparativos da loja.

Hm? Ahhh. Já imaginava — respondeu ele, com a voz cansada.

Já fazia mais de dez dias desde que o destino os havia levado à capital imperial. Até então, não tinham encontrado nenhum perseguidor da organização. O prédio atual não tinha qualquer ligação com as Raposas e fora obtido com a ajuda do Mil Truques. Além disso, o caos deixado pelo Festival do Guerreiro Supremo havia deixado a organização sem recursos para se preocupar com desertores como Galf e Sora. Encontrá-los não seria tarefa fácil.

Galf estava sempre reunindo informações, então tinha uma boa noção da situação interna da organização. Ao que parecia, os eventos do torneio haviam deixado feridas profundas, e as disputas entre os chefes estavam se acirrando. Mesmo que tivessem permanecido fiéis, nada de bom teria vindo disso. Assim como Galf, Sora era leal, mas romper os laços fora sua única escolha. Só podia agradecer às bênçãos do deus-raposa por tê-la mantido em segurança até agora.

Uma cidade colossal como a capital imperial era algo completamente novo para a sacerdotisa, que havia passado a vida inteira em templos e aldeias afastadas. Tudo era grandioso, tudo a encantava. Kreat também a deixara impressionada, mas naquela época ela estava em missão. Agora, sem ordens a cumprir, tinha mais liberdade do que sabia administrar. Ficou tão ociosa que, no fim, decidiu fazer tofu frito.

O artigo do jornal falava sobre o ataque ao Mil Truques, o Falso Raposa que havia os trazido até aquela cidade. A arte sobre-humana que ele havia exibido em Kreat apagou tudo

o que Sora conquistou em sua vida… e parecia que ele estava aprontando de novo na capital imperial.

Ele comprou briga com a organização, então é claro que mandaram gente atrás dele — disse Galf. — Não parece que tenham enviado alguém diretamente das Raposas, mas ouvi que colocaram uma boa recompensa por ele no submundo. Quando eu ainda era uma Raposa, a gente teria ido além disso… mas acho que a organização ainda tá se recuperando do golpe. Sinceramente, o que será que passa na cabeça desse homem?

Tendo passado de candidato à alta cúpula a traidor em tão pouco tempo, Galf não podia ser censurado por soar amargo. Sora estava em situação parecida, de sacerdotisa devota a desertora.

Mas o passado era passado. Agora estavam na capital imperial, sob nova proteção. Dependendo do ponto de vista, podiam dizer que apenas trocaram de “protetor”. Sem mencionar que o Mil Truques era conhecido como aliado da descendente do verdadeiro deus-raposa.

Sora pigarreou e semicerrando os olhos, disse:

Galf… o santo deus-raposa ordena que façamos algo a respeito dessa recompensa.

Como se um deus fosse dizer uma idiotice dessas, sua maluca! —

Eu sou uma Sacerdotisa da Raposa Sagrada. Minha palavra é a palavra do meu deus. Você ousa duvidar da palavra do meu deus? —

Que tipo de deus é esse seu, hein?! Nunca ouvi falar de uma Sacerdotisa assim! Devia ter pedido outra! —

Como Sacerdotisa, Sora seguia o caminho determinado pelo deus-raposa transcendente a quem servia. Embora fosse verdade que, em raríssimas ocasiões, ela cometia erros, até esses, ela acreditava, faziam parte da vontade divina. Essa era a única forma de viver sem entrar em colapso diante da própria fé.

Pode fazer alguma coisa a respeito disso? — perguntou ela, tossindo. Galf lhe lançou o mesmo olhar de confiança silenciosa de sempre.

Sou uma Raposa Branca, sabia? Tenho a máscara pra provar. Só não uso porque

atrapalha. —

Sora pigarreou novamente e disse com uma voz carregada de peso divino:

Então, se puder. Não quero perder nossa proteção. —

Você não é tão ruim assim, Sora. —

Com as bênçãos de Krai, recebi dinheiro da Sitri e estou fazendo inarizushi em devoção ao deus-raposa. Ela também está considerando abrir filiais. —

Mas somos nós que fazemos todo o trabalho… —

Com os ombros caídos, Galf saiu para o lado de fora. De algum modo, ele ainda não havia perdido o toque. Sora tinha certeza de que a recompensa sumiria em breve. Com um suspiro, olhou pela janela para o céu sem nuvens e fez uma prece silenciosa.

Ó Santo Deus-Raposa, por favor, continue me protegendo. Estou fazendo o meu melhor para fritar tofu.

O que você está fazendo?! Pelo amor de Deus, já são onze horas e você ainda está na cama! —

Mrmm? —

A tranquilidade sempre acaba de repente. Meu despertar veio acompanhado de sacudidas violentas. Sem escolha, enfiei a cabeça pra fora do cobertor. Através da visão turva, vi o rosto carrancudo da Lúcia. Não dava pra imaginar outra pessoa tentando me acordar desse jeito.

Ela sempre teve traços delicados, mas ultimamente vinha se tornando ainda mais bonita, o que tornava seu mau humor ainda mais intimidador. Já faz tempo que somos irmãos, e, lá em casa, era ela quem me acordava todas as manhãs.

Embora, naquela época, fosse um pouco mais gentil. Ah, é mesmo. Hoje é o dia da Lúcia me vigiar.

Só mais uma hora… — murmurei.

Augh! Por que você é tão preguiçoso?! —

Não é como se eu tivesse algo pra fazer. —

Ah, é?! B-Bom, esquece isso! Aqui, olha! Olha! —

Ela arrancou o cobertor e jogou um jornal ao lado do meu travesseiro. Por que será que ela era tão dura comigo, mas tão simpática com todo o resto do mundo?

O que aconteceu com a garota que costumava me seguir por toda parte?

Olha, eu também trouxe seu café da manhã, mesmo sendo meio-dia!

Rendendo-me à realidade, movi a cabeça só um pouco, abri os olhos só um pouco, e olhei para o jornal. O que vi me fez acordar de vez e, imediatamente, fechei os olhos e me virei para o outro lado. Eu não sabia de nada. Era ignorante, inconsciente, repeti para mim mesmo.

Boa noite.

Irmão! Não volte a dormir! Levanta!

Lucia me segurou pelos ombros e começou a me sacudir de um lado pro outro. Sacudir era um dos poucos tipos de ataque contra os quais os Anéis de Segurança não eram eficazes.

Com os olhos rodando, decidi ao menos inventar uma desculpa.

Eu posso ser o mestre do clã, mas não sou pai deles.

Leia de verdade! Está dizendo que eles atacaram por suas ordens!

Na capa do jornal, a manchete dizia: “Líder do clã Primeiros Passos por Trás do Ataque no Distrito em Decomposição.” Pelo visto, um grupo dos nossos membros tinha se reunido e atacado alguns locais naquele distrito decadente. O artigo ainda trazia uma foto de uma cidade caindo aos pedaços.

Eu não mandei ninguém fazer nada disso.

Mesmo assim, está dizendo que foi uma retaliação pelo ataque à sede do nosso clã!

Que confusão. Achei que eu tinha dito que não precisava disso.

Desde quando esses caras ficaram tão leais? Ou será que é questão de orgulho agora?

Lúcia se inclinou sobre a cama, passou os braços pelos meus lados e me forçou a sentar. Então eram meus próprios subordinados os culpados por esse despertar nada agradável.

Por que eles foram pro distrito decadente, afinal? — perguntei.

Sobre isso… Siddy deixou escapar pra T que sabia de um lugar onde os assassinos podiam estar. Disse que era um local especial, desconhecido das pessoas comuns.

Sitri era… bem dedicada e esforçada. Normalmente, me ouvia. Provavelmente achou que revelar o local de possíveis assassinos não contava como “agir”. Além disso, ainda estava irritada com o que aconteceu no salão.

Mas aquele distrito já é quase todo composto de prédios abandonados — falei. — Um pouco mais de caos não deve…

Ouvi dizer que cinco prédios foram destruídos. Os Trogloditas ficaram descontrolados! E tudo por sua culpa!

Isso soava bem como eles. Se conseguiram construir aquele palácio de águas termais em Suls em questão de horas, provavelmente eram tão bons em demolição quanto em construção. Um bando de lunáticos. Se continuassem assim, as pessoas iam começar a ter uma péssima impressão do nosso clã. Nosso grupo já tinha uma reputação ruim. Imagina se o clã todo ficasse igual?

Alguém, por favor, pare esses Homens das Cavernas.

Eu já terminei com a Raposa — falei. — O império disse que está cuidando disso, e não há mais nada que eu possa fazer. Aposto que essa recompensa vai ser retirada logo, como sempre acontece.

Me dá um descanso, vai. Eu não disse pra esperar e ver o que acontecia?

Não é que eu me importasse se eles saíssem causando confusão; só não queria que isso virasse problema meu. Que péssima maneira de começar o dia.

Lucia me lançou um olhar suspeito antes de colocar um conjunto de roupas dobradas ao meu lado.

Aqui, ir… líder, uma troca de roupa. E olha, a imprensa já está se juntando lá fora. A Eva está lidando com eles, mas anda sobrecarregada.

Certo, valeu. Mas não tenho tempo pra imprensa agora. Nem comi ainda.

Eu tinha acabado de voltar pra capital imperial e decidi não sair de casa e, ainda assim, estava sendo bombardeado por uma coisa atrás da outra.

Eu também trouxe algo pra você comer.

Sou eternamente grato.

Hoje eu serei sua guarda, então não se preocupe.

Isso é… reconfortante. Hmm.

Nem queria imaginar o que poderia acontecer se a imprensa me pegasse com Luke ou Liz como guarda. Sitri era mais racional, mas tinha o dom de dizer as coisas que devia guardar para si. Por isso, a presença da Lúcia me deixava mais tranquilo. Pena que isso não me deixava mais animado para lidar com jornalistas.

Então tive uma ideia brilhante. Estendi a mão e peguei a pedra negra na minha mesa de cabeceira. Era uma Pedra Sonora, a Relíquia que Gark tinha me entregado no outro dia. Eu tinha minhas dúvidas, mas achava que não era coincidência ele ter me dado isso justo antes do ataque.

Respirei fundo e me preparei. Depois, usei minha linha direta com Franz.

Dentro do castelo imperial ficava o lugar mais seguro de toda Zebrudia, uma sala protegida contra todos os tipos conhecidos de espionagem. Lá estavam reunidas as pessoas mais poderosas do império: o comandante supremo do exército imperial, o chefe do Instituto Primus, o diretor da agência de inteligência, os antigos nobres conhecidos como as Espadas do Império, e outros mais.

Entre eles estava a mão direita do imperador, o homem encarregado de liderar a caçada à organização Raposa, o capitão da Ordem Zero, a guarda pessoal do imperador, Franz Argman.

O inimigo era uma grande organização cujo verdadeiro alcance ainda lhes escapava. O número e o poder da Raposa superavam os de qualquer outra facção criminosa. Por isso,

toda informação ali era tratada com extremo cuidado. Franz Argman vinha de uma linhagem respeitada e havia provado sua lealdade através das Lágrimas da Verdade, uma Relíquia temida não apenas por outras nações, mas também dentro da própria administração imperial. Ele era o homem ideal para chefiar aquela operação.

O plano avançava sem problemas, graças às preparações já feitas. O orçamento estava sendo reunido, e a coordenação com outras nações seguia bem. Ninguém ousava se opor a Rodrick Atolm Zebrudia, não com aquele olhar feroz e determinado.

Desde o incidente no Festival do Guerreiro Supremo e a subsequente declaração do imperador contra a Raposa, várias pessoas haviam desaparecido de Zebrudia. As investigações ainda não haviam terminado, mas tudo indicava que eram membros da organização. Alguns haviam sido figuras de confiança por anos, pessoas de status elevado, de cargos importantes. As garras astutas da Raposa tinham se infiltrado mais fundo do que se imaginava, e parecia que as nações vizinhas também não haviam sido poupadas.

Enviar um espião para dentro das fileiras inimigas não era tarefa simples. Se tantas pessoas estavam desaparecendo de uma vez, devia ter havido uma grande mudança dentro da organização. Teriam recebido ordens para se retirar… ou sido eliminadas? O incidente no Festival do Guerreiro Supremo certamente afetará a Raposa mais do que o império havia previsto.

O mais importante era que antigos membros da organização tinham começado a fornecer informações. Era preciso cautela sobre o que acreditar, mas o simples fato de haver desertores já representava uma oportunidade valiosa.

Um dos presentes à mesa franziu o cenho e soltou um suspiro profundo.

Tenho que admitir, a estrutura dessa organização é de enlouquecer. São praticamente obcecados por controle de informação.

Com a cooperação de outras nações garantida e informantes surgindo, a operação avançava bem, mas ainda não haviam conseguido nada realmente útil. Não sabiam, por exemplo, onde ficava a sede da Raposa, quem eram seus líderes ou como a organização era administrada. Usando informações de um desertor, a equipe chegou até um esconderijo… mas o lugar estava vazio.

Os incidentes anteriores envolvendo a Raposa tinham fornecido algumas pistas, mas nada que o império pudesse aproveitar. O sistema de informação da Raposa usava códigos e compartimentação extrema, ninguém sabia nada além das próprias operações. Nem mesmo o nome do superior direto era revelado.

A Raposa era estruturada de modo que identidades expostas ou membros capturados não representassem ameaça alguma à organização. As Lágrimas da Verdade nada podiam extrair de alguém que simplesmente não sabia de nada. A dedicação à ocultação era tão meticulosa que chegava a ser assombrosa. Só a qualidade excepcional de seus membros explicava como a organização ainda funcionava.

Aquilo não seria resolvido rapidamente e todos ali sabiam disso. Para piorar, nem mesmo havia garantia de que todos os presentes realmente estivessem do mesmo lado. Franz suspirou por dentro, observando o grupo debater com fervor.

As únicas pessoas em quem ele confiava de verdade eram aquele homem que, assim como ele, havia passado pelas Lágrimas da Verdade, e a princesa Murina, que se tornara destemida após superar os Mil Desafios. Desde o início, Franz reconhecia que o método usado por aquele homem para provar sua inocência fora eficaz… embora totalmente excêntrico.

A princesa imperial nem sempre podia estar presente nessas reuniões e Franz jamais arriscaria expô-la a perigo. Talvez, pensou ele, houvesse pelo menos uma pessoa ali corajosa o suficiente para encarar as Lágrimas da Verdade, assim como aquele homem fizera.

Aquele pensamento o atingiu como um golpe. Mesmo que aquele sujeito fosse absurdamente talentoso, ter de depender de um palhaço daqueles era humilhante para alguém do prestigiado clã Argman. A sensação de impotência quase o fez morder o lábio até que o secretário atrás dele se pronunciou.

Capitão Franz, a Pedra Sonora. Não preciso dizer quem é.

Hmm. Suponho que ele já tenha descoberto nossa abordagem, então?

Impossível. Tomamos todas as medidas para isolar esta sala de qualquer espionagem, e pouquíssimas pessoas sabem da sua agenda.

A força-tarefa anti-Raposa era secreta. O local e o horário das reuniões, bem como a própria existência delas, eram conhecidos apenas pelos envolvidos. Tudo era feito para evitar vazamentos e, mesmo assim, Franz teve de engolir o orgulho e admitir a genialidade do Mil Truques. Realmente, uma arte sobre-humana.

Reavaliem nossos métodos de contraespionagem. Façam uma varredura completa para garantir que nada tenha vazado! Não posso permitir que um caçador aja como bem entende! — rosnou Franz, enquanto atendia a Pedra Sonora.

A Relíquia vibrante se aquietou, e então dela ecoou aquela voz preguiçosa que o assombrava nos pesadelos.

Aah. Aah. Aah. Franz? Iooohuu, sou eu. Eu mesmo, sabe?

Eu vou te matar. E não sou seu amigo!

Será que ele não tem o mínimo respeito pela nobreza?!

A Casa Argman era antiga e respeitadíssima. Nenhum de seus membros jamais fora saudado com um “iooohuu”. Franz até se lembrava de ter sentido algo próximo do medo quando conheceu aquele homem pela primeira vez mas devia ter sido imaginação. Afinal, o sujeito estava usando aquela camisa espalhafatosa.

Franz realmente havia dado a ele uma Pedra Sonora, para que pudesse entrar em contato quando necessário mas não esperava que o fizesse tão cedo. Receber notícias dele era bom, mas irritante mesmo assim.

Você tem informações sobre a Raposa? — perguntou, a voz grave traindo a irritação. — Não tenho tempo a perder, então seja direto.

Hã? Ah, não. Eu não tenho tempo pra lidar com a Raposa agora. Você tem um jornal aí? Franz ficou em silêncio por um momento.

Alguém me arranje um jornal.

Respirando fundo para controlar o impulso de explodir, esperou enquanto um subordinado lhe trazia o periódico. Desde que escoltara o imperador até Toweyezant, Franz se tornou infinitamente mais paciente. Por pior que fosse o comportamento de seus subordinados, ele podia se consolar pensando que ainda era melhor do que lidar com o Mil Truques. Isso o ajudava a ser um homem mais calmo.

Franz sempre se mantinha informado e acompanhava o que acontecia na capital imperial. Sabia que o Mil Truques havia sido atacado, que jogará a bomba para o Gark, que seres misteriosos haviam capturado alguns dos culpados, e que membros do Primeiros Passos haviam invadido o distrito decadente.

Mas um homem que dizia “não ter tempo para lidar com a Raposa” certamente não ligaria por causa de algo tão banal quanto isso.

E então? — disse Franz, esperando que o homem dissesse algo.

O Mil Truques ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar com um tom exageradamente animado.

Eu disse pra eles não fazerem isso. Eu disse claramente pra não fazerem, mas… — outra pausa. — Será que você pode me dar uma ajudinha?

Hã?

É que… bom, eu sei que a gente causou um incidente, mas essa atenção toda tá me incomodando um pouco. Essa matéria tá ok, mas tá atraindo um monte de atenção indesejada da imprensa.

Espere. Você está me pedindo, a mim, um nobre do império, para exercer um pouco de pressão. É isso mesmo?

Maldito seja.

Mesmo que fosse só um favor, existiam etapas a serem seguidas. Além disso, algo tão insignificante não era assunto para ser tratado por um nobre de prestígio. Ser tratado com tanta leveza o ajudou, na verdade, a manter a calma. Franz lançou um olhar fulminante aos outros na sala todos fingindo não estar ouvindo nada.

Não, não é bem isso — o homem respondeu rapidamente. — Eu não tô dizendo pra ir tão longe! Mas, sabe, eu tô ocupado. Tô ocupado, então…

A voz dele foi ficando cada vez mais baixa até sumir.

Ocupado? Ocupado, é? É isso que acontece quando você chega no Nível 8? Ele acha que eu não tenho nada pra fazer?!

Havia vantagens em deixar claro que ele e o Mil Truques tinham algum tipo de relação, mas seu orgulho não permitia nem fingir que era bem relacionado com um sujeito como aquele.

Franz respirou fundo e berrou dentro da Pedra Sonora. Fazia tempo que ele não gritava tão alto.

Droga, nunca mais entre em contato comigo por algo tão banal! Eu te dei essa Pedra Sonora pra você me avisar se descobrisse algo sobre a Raposa! O que você pensa que nós somos?! Acha que somos colegas de bar?! Diga!

Talvez intimidado pelos gritos de Franz, o Mil Truques demorou um pouco para responder.

Companheiros que protegeram o imperador juntos? — disse por fim.

Sem dizer uma palavra, Franz desligou a Pedra Sonora e bateu com força na mesa.

Entrem em contato com os jornais e mandem silenciar a história!

Q-qu… que razão eu devo dar a eles?

Digam que é pela segurança do império! Contatem a Terceira Ordem. Fica no distrito decadente. Devem ter cuidado quando forem até lá. Só precisamos calar a imprensa.

Nada naquilo o agradava. De forma alguma. Seu orgulho como nobre não permitia ser usado por um mero caçador, não importava o quão alto fosse seu nível. Ainda assim, o imperador havia ordenado que ele fizesse tudo o que estivesse ao seu alcance.

Por mais trivial que parecesse, enquanto aquele homem não revelasse suas intenções ou objetivos, Franz não tinha escolha a não ser obedecer. Por exemplo, ainda que parecesse improvável, existia uma pequena chance de que os comentários nos jornais sobre o incidente pudessem atrapalhar os planos para eliminar a Raposa.

O que mais incomodava Franz era aquele homem e as habilidades que condiziam com seu nível. Se fosse apenas alguém medianamente talentoso, Franz estaria livre pra se livrar dele, mas depois de ele ter impedido uma tentativa de assassinato ao imperador e evitado o uso da Chave da Terra, não cabia a Franz decidir o destino daquele sujeito.

Segurando a cabeça e respirando fundo, Franz tentou se acalmar. Levar aquele homem estranho a sério demais só lhe traria uma úlcera. Ele só precisava garantir que o Mil Truques trabalhasse a seu favor. Um nobre do império não podia se deixar distrair pelo trabalho dos que estavam abaixo dele e perder de vista o que realmente importava.

Por ser um homem extremamente cauteloso, Franz mantinha pessoas vigiando o Mil Truques. Ele garantiu que o caçador fosse monitorado vinte e quatro horas por dia, para descobrir como ele obtinha suas informações e para poder reagir no instante em que algo acontecesse.

No entanto, a única informação que Franz havia recebido era de que a sede do clã fora atacada. Fora isso, nada de relevante, nem mesmo um relatório de que o Mil Truques tivesse saído de casa. Os outros membros dos Grieving Souls visitavam a sede um de cada vez, o que provavelmente significava que ele estava dando ordens de seu escritório no último andar. Também havia a Pomba de Correntes que chegou com uma carta.

Tudo aquilo incomodava Franz o fato de aquele homem estar emitindo ordens sem nunca sair, o modo como insistia estar ocupado e o fato de Franz ter que recorrer às suas habilidades enquanto suportava suas zombarias.

Ele não tinha tempo pra lidar com a Raposa? Não tinha tempo para uma organização que várias nações estavam colaborando para caçar?! O que diabos poderia ser mais importante?! E por que diabos ele tinha que mencionar isso durante a reunião da força anti-Raposa?!

Argh! O que há de errado com aquele homem?!

Franz quase começou um discurso interno sobre aquele sujeito quando um de seus subordinados irrompeu pela porta da sala de reuniões. Todos os olhares se voltaram para o cavaleiro de rosto pálido.

Capitão Franz, acabamos de receber uma profecia do Astral Divinarium! Eles estão prevendo um desastre!

O Astral Divinarium, também conhecido apenas como o Divinatório, era uma das instituições públicas do império, e a mais antiga. Zebrudia possuía vários institutos, como o Departamento de Investigação de Cofres, responsável por pesquisar Fantasma, cofres do tesouro e outros fenômenos relacionados ao mana. Havia também o Instituto Primus, que unia magia e tecnologia aplicada, entre outros.

Mas o Astral Divinarium se diferenciava dos demais em termos de autoridade. Eles eram a ovelha negra entre as instituições, porque seu domínio era o dos fenômenos místicos que escapavam à compreensão dos outros departamentos.

O Divinatório lidava com fenômenos ainda não compreendidos e magias que desafiavam qualquer classificação concreta, incluindo maldições e poderes sobrenaturais que variavam de pessoa para pessoa. O próprio nome, no entanto, revelava seu foco principal: a adivinhação, a capacidade de conhecer antecipadamente o que o destino e o futuro reservavam.

Através da terra e ao longo do tempo, esforços foram feitos para aprender a prever desastres iminentes. No entanto, a maioria das habilidades envolvidas dependia em grande parte da disposição natural de um indivíduo, e nenhuma teoria clara havia sido estabelecida da mesma forma que para a magia.

Diferente da magia, a maioria das formas de adivinhação não consumia mana. Muitos que se autodenominavam astrólogos previam o futuro usando poderes e sentidos únicos a eles; alguns prediziam o que o futuro reservava, mas também havia muitos charlatães. Até hoje, muitas pessoas proclamam ser impossível ver o futuro.

Apesar de sua longa história, o Divinatório era uma instituição pequena, provavelmente porque sua pesquisa e trabalho envolviam algo incrivelmente difícil de avaliar. No entanto, por ser um campo que o império não podia se dar ao luxo de descartar, o Divinatório continuava a existir, apesar de seu tamanho reduzido e de muitos céticos.

Uma profecia de desastre? — disse Franz. — Tudo isso enquanto estamos ocupados lidando com o Raposa.

O Divinatório não é conhecido por errar o alvo — disse o capitão dos cavaleiros com um encolher de ombros. Ele era o responsável pela Terceira Ordem, encarregada de manter a paz no império. — Dificilmente podemos ignorar um aviso do instituto que gerencia as Lágrimas da Verdade.

As profecias do Divinatório tinham um lugar especial dentro do império. A astrologia era algo instável, e o Divinatório raramente emitia previsões. Eles não haviam previsto a recente tentativa de assassinato do imperador, nem a guerra entre a Torre Akáshica e o Inferno Abissal, nem a ativação da Chave da Terra.

Por outro lado, porém, tudo o que previam certamente aconteceria. Sempre que o Divinatório anunciava uma profecia, todos os nobres se reuniam para responder à situação iminente.

Franz franziu a testa e suspirou. — Mas “uma sombra negra cairá sobre a capital imperial” não nos diz muita coisa.

Não parece um desastre natural.

As profecias do Divinatório não eram necessariamente específicas. A maioria dos astrólogos não conseguia visualizar o que estava prevendo e baseava suas previsões em visões abstratas. Dito isso, esta profecia era excepcionalmente vaga. Franz concordou com a avaliação do capitão da Terceira Ordem.

Um desastre natural não se restringiria à capital — disse Franz. — Uma epidemia também é improvável.

A profecia não lhes dizia quase nada, mas eles sabiam a área sob ameaça: a capital imperial. Isso significava que o desastre não poderia ser algo que afetaria também os arredores, como um terremoto, e haveria indicadores com antecedência se fosse algo como uma epidemia.

Além disso, o Mil Truques estava se movendo. Havia algo grande o suficiente para fazê-lo desconsiderar o Raposa, mesmo após o ataque à sua casa de clã. Era definitivamente justo supor que isso tinha algo a ver com a profecia, mas mesmo aquele homem não conseguiria fazer nada sozinho contra um desastre natural.

O capitão da Terceira Ordem gemeu e disse, ignorando os pensamentos de Franz: — É possível que esteja se referindo a algum ato de destruição daquela organização?

Não, não poderia ser — respondeu Franz. — O Divinatório nunca previu o trabalho de organizações criminosas, e a escala está errada. Além disso, se nossos colaboradores estiverem certos, a Raposa se retirou da capital imperial.

Entendo.

Sem mencionar que o Mil Truques havia dito que não tinha tempo para lidar com a Raposa. Aquele homem era errático, mas por mais frustrante que fosse, mesmo alguém que o desprezava tanto quanto Franz ainda era forçado a reconhecer sua intuição excepcional. Mas depender demais dele seria uma omissão de seu dever como nobre.

Era seu trabalho manter o império seguro. Se Franz sozinho não era páreo para a artimanha sobre-humana daquele homem, ele teria que jogar com seus pontos fortes, o que incluía a coordenação. Ele não podia permitir-se ser pego desprevenido a cada reviravolta.

Se aquele homem soubesse da profecia antes de Franz, ele teria alguma conexão com o Divinatório? Talvez seus poderes fossem semelhantes aos de um astrólogo. Olhando para trás, o comportamento intrigante daquele homem tinha muito em comum com a pomposidade excessiva que ele via nos astrólogos.

Vamos reforçar nossas patrulhas na capital, mas já estamos com falta de pessoal. Se ao menos soubéssemos mais sobre quando e o que esperar — disse amargamente o capitão da Terceira Ordem.

Desde a guerra entre a Torre Akáshica e a Maldição Oculta, até o assalto do dragão carmesim, os últimos meses foram agitados. A Terceira Ordem já estava em alerta máximo; ser instruído a se preparar para um desastre de natureza e timing desconhecidos era receita para uma dor de cabeça. Isso não era algo que eles pudessem combater. Quaisquer ataques significariam que os cavaleiros já haviam cometido um erro.

O capitão da Terceira Ordem era um homem robusto conhecido por suas habilidades em combate, mas até ele estava mostrando sinais de exaustão. Poderia ser imaginação de Franz, mas o capitão parecia ter ganhado mais cabelos grisalhos.

Não temos escolha. Teremos que pedir emprestado pessoas do Santo da Espada — disse Franz. — Nossas unidades formais não serão suficientes, e não podemos chamar cavaleiros de outras regiões apenas para proteger a capital.

O império tinha um bom relacionamento com seu espadachim mais forte, Soln Rowell, o Santo da Espada. Ele frequentemente enviava pessoas para ajudar a treinar os cavaleiros do império, e alguns de seus alunos chegaram a se juntar a ordens de cavaleiros imperiais. Ele já tinha sido um homem com alguma má fama, mas havia amadurecido como pessoa e agora era reconhecido até pela nobreza.

Houve uma batida na porta, e entrou um subordinado retornando de sua investigação. — Capitão, eu reuni todos os registros relevantes do Divinatório e da Biblioteca Imperial.

Muito bem. Não teríamos que nos incomodar com isso se eles pudessem ser um pouco mais precisos com suas profecias. Ora, francamente.

Embora as visões do Divinatório fossem geralmente vagas, a Biblioteca Imperial mantinha um registro de cada profecia e o que se seguiu na realidade. Se houvesse um precedente de previsões similares, eles poderiam ser capazes de deduzir o que esta nova envolveria. E se não soubessem, teriam que se ajustar de acordo. Esta era uma vantagem que nem mesmo o Mil Truques poderia reivindicar.

A pedido de Franz, o subordinado deu seu relatório. — Posso compilar os detalhes mais tarde, mas por enquanto, parece que uma profecia sobre uma “sombra negra” não surgiu em Zebrudia, mas sim em outra terra. A profecia foi seguida por uma maldição malevolente que desceu sobre uma vasta área, resultando em dezenas de milhares de vítimas.

“Maldição”. “Dezenas de milhares de vítimas”. Os olhos de Franz se arregalaram. Ele continuava repetindo as palavras em sua cabeça. Olhando de perto, ele podia captar uma ponta de apreensão na expressão do subordinado.

O capitão da Terceira Ordem franziu a testa e finalmente disse: — Temos uma emergência. Sério, é difícil de acreditar. Uma maldição. Eu não achava que maldições fossem capazes de um assassinato em tão grande escala.

Maldições eram uma variedade de artes arcanas nascidas de emoções poderosas. Eram principalmente conhecidas por serem usadas em pessoas e outros seres vivos, e temidas por sua utilidade como meio de assassinato. No entanto, não eram adequadas para matar pessoas em grandes números.

A intensa maldade era vital para tentar ferir alguém com uma maldição. Para matar milhares de pessoas, seria necessário um grau apropriado de animosidade, e mesmo um Xamã um pouco acima da média não seria capaz de comandar tal maldição. Além disso, havia maneiras mais eficientes de realizar assassinatos em uma escala tão grande.

O que aquela terra fez de errado? — perguntou Franz.

Parece que eles profanaram o túmulo de um Magus poderoso — respondeu o subordinado.

A ira de um Magus antigo, hein? Isso explica, eu acho.

Nos tempos antigos, não faltavam contos de pessoas sendo mortas por maldições após destruírem um local de sepultamento sem cuidado. Os sentimentos dos vivos se suavizavam com o tempo, mas as maldições deixadas pelos falecidos não desapareciam, tornando-as muito perigosas.

Ainda assim, era difícil imaginar que isso estava acontecendo aqui. Os perigos de profanar túmulos eram de conhecimento comum, e não deveria haver espaço para o desenvolvimento de uma maldição tão poderosa no império. A possibilidade mais provável era a maldição de Kechachakka que invocava dragões, mas a Relíquia que tornava isso possível havia sido confiscada e selada firmemente no cofre do castelo.

O capitão da Terceira Ordem se levantou. — Por via das dúvidas, vou ordenar uma investigação para verificar sinais dessa maldição. Comecem a procurar outras causas para garantir que não seja outra coisa provocando um fenômeno similar. Vai levar tempo, mas vamos analisar todas as possibilidades, uma de cada vez.

Se algo aparecer, entrem em contato. Podemos enviar nosso pessoal para ajudar, e tenho certeza de que Sua Majestade Imperial vai querer saber disso.

Os dois capitães de cavaleiros apertaram as mãos. Eles tinham muito o que pensar. Embora não parecesse possível, se uma maldição capaz de matar dezenas de milhares realmente estivesse se formando, isso teria prioridade sobre o Raposa.

Eles teriam que consultar o Instituto Primus em busca de contramedidas, instar o Divinatório a se apressar com sua análise, relatar a Sua Majestade Imperial e solicitar a cooperação dos especialistas da Igreja do Espírito Radiante. A mídia também teria que ser contatada. Um aviso rigoroso para que não assustassem o povo da capital com informações descuidadas.

E, claro, eles também precisavam checar com o Mil Truques. Ele pode apenas dar voltas e rodeios, mas eles lidariam com isso quando chegasse a hora. Pelo bem do império, Franz estava resolvido a sorrir e aguentar.

A porta foi escancarada, e um subordinado entrou na sala. Eles pareciam muito mais tensos do que quando vieram relatar a profecia.

Capitão Franz, recebemos a notícia de que um dos alunos do Santo da Espada foi possuído por uma Espada Diabólica e está em fúria.

O quê foi isso?

Não há realmente nada melhor do que a tranquilidade. Ocorreu-me que fazia um tempo desde que eu tinha conseguido relaxar com minha irmã. Eu podia ter bastante tempo livre, mas minha competente irmã estava meio ocupada.

Eu parei de comer meu café da manhã (almoço?) e sorri para ela.

Tenho a sensação de que algo bom vai acontecer hoje.

Lucia olhou para mim com sua expressão carrancuda de sempre e perguntou fria:

Irmão, alguma vez algo de bom aconteceu quando você diz isso?


Tradução: Carpeado
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