CONECTANDO À J-HERO...

Grieving Soul – Capítulo 03 – Volume 10

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire

Capítulo 03 – Volume 10


Capítulo 3: Batalha Entre Deuses

Yggdra, a terra natal dos Espíritos Nobres. Esta cidade, escondida em meio a florestas densas e protegida por mistérios, era um lugar belo e repleto de natureza, mas, ao mesmo tempo, parecia solitária e quase desabitada.

Entretanto, agora Yggdra estava animada. Os Espíritos Nobres que haviam fugido anteriormente estavam retornando em massa. As ruas, antes vazias, agora fervilhavam com os preparativos para uma festa.

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Os Espíritos Nobres não gostavam de fogo. Em vez disso, sua festa era decorada com água, vento e flores. A decoração podia não ser chamativa, mas como todos ali reunidos eram conhecidos por sua aparência deslumbrante, a atmosfera parecia saída de um conto de fadas. Eu já tinha viajado por muitos lugares desde que me tornei um Caçador, mas era a primeira vez que via um cenário assim.

Os soldados de Yggdra que haviam sumido começaram a retornar um por um. Os primeiros apareceram logo após a Árvore do Mundo Corrompida parar de se mover. Eles eram as pessoas que haviam sido arremessadas quando a árvore absorveu o Mana Material. Naquele momento, não tivemos tempo de verificar o estado deles, mas, pelo visto, estavam todos bem.

As boas notícias aumentaram depois que conseguimos enfraquecer o Cofre do Tesouro. Yggdra rugiu em celebração. Os habitantes, que antes mal mostravam o rosto, e que, mesmo quando cruzavam com você, não diziam uma palavra, mudaram de atitude instantaneamente.

Selene semicerrou os olhos, como se visse algo brilhando intensamente, e observou a cidade agora repleta de alegria.

— Isto é um milagre, humano. Um verdadeiro milagre. Pode haver sentimentos conflitantes, mas entre os soldados desaparecidos, estavam também suas famílias. Quem diria que todos voltariam… Eu nem sei o que dizer.

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— Ahaha… foi apenas sorte. Se quiser agradecer, é melhor dizer isso àquela Árvore do Mundo Corrompida.

Sendo sincero, me sinto meio sem jeito. Afinal, eu mesmo não sinto que fiz nada. Mas tudo bem, contanto que eles possam sorrir de novo, é o que importa. Eu não preciso de agradecimentos, sério.

Ruine cruzou os braços e soltou um longo suspiro.

Árvore do Mundo Corrompida… que nome desagradável. Atrever-se a tentar imitar a Árvore do Mundo é um ato amaldiçoado… Na verdade, eu não deveria deixar isso passar, mas já que eles nos salvaram, talvez eu deva conter minha raiva.

— Por ora, é melhor não discutirmos coisas pequenas. Mil Truques, estou grata por não ter ignorado a carta de Eliza e por ter confiado em você. Em menos de um mês, você resolveu todos os nossos problemas. O povo de Yggdra jamais esquecerá essa gentileza.

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…Espera, eu resolvi o quê? Pensando bem, o resultado final correu bem, mas eu realmente não lembro de ter feito nada útil. É melhor eles agradecerem à Sitri.

— Bem, mas o problema ainda não foi totalmente resolvido…

Pelo menos, a manipulação das Linhas Ley estava indo bem e os soldados voltaram. Mas o problema principal sobre a fúria da Árvore do Mundo não tinha acabado de fato. Sem contar que o fim do mundo pode estar longe, mas há algo crucial — até agora não há solução para remover a maldição de Luke.

…Será que a Liz e os outros esqueceram completamente do Luke? Eles confiam nele, mas mesmo assim.

Selene assentiu seriamente às minhas palavras.

— É verdade… Também estou curiosa sobre os movimentos da Night Parade.

— …Não, eu não estou nem um pouco curioso. E também não preciso mais da força deles.

Talvez tenham fugido de medo no meio do plano, ou perdido a paciência por eu ser inútil. Não me importo.

— …Se você diz isso, não falarei mais no assunto. Por enquanto, é melhor comermos e descansarmos. Agora que os soldados de Yggdra voltaram, nosso exército está mais forte. Todos eles são combatentes de elite e estarão sob o seu comando.

— Sim, entendo. Se eu precisar de ajuda mais tarde, certamente contarei com vocês.

Enquanto eu ainda me sentia um pouco culpado por ser superestimado, a equipe de investigação do Cofre do Tesouro liderada por Liz e Eliza retornou.

Krai-chaan! A barreira sumiu!

— A pressão lá dentro também diminuiu. Parece que não podemos esperar que o Cofre do Tesouro seja totalmente destruído, mas… quase não há Fantasmas lá. Podemos entrar agora.

Caramba, a Sitri realmente conseguiu enfraquecer o Cofre. Ela é incrível.

A boa notícia era que a barreira tinha caído. O mais importante agora era entrar no Cofre do Tesouro e salvar o Luke. O problema era o Fantasma de deus que todos, exceto eu, tinham visto…

Eliza, você acha que aquele Fantasma de deus ainda está lá?

— …Provavelmente desapareceu. Afinal, se o chefe fica sem Mana Material, ele some primeiro── Mas…

— Mas o quê?

Eliza alisou a coxa exposta, parecendo hesitante.

— …Eu tenho um pressentimento muito ruim sobre isso.

…Os pressentimentos da Eliza costumam ser precisos. Já aconteceram tantas coisas em Yggdra, e ainda tem mais para dar trabalho? Eu só queria ir para casa agora…

Krai-chan, já estamos prontos para a infiltração, sabia? A T também está super animada. Podemos ir hoje à noite se quiser. Já que o inimigo está um caos, não seria melhor agir antes que algo aconteça?

Eu era o líder da Grieving Souls. Mesmo que raramente participasse das caçadas com Liz e os outros, a decisão final era minha.

— O que a Sitri acha?

— Ela segue a decisão do Krai-chan.

Ah, que trabalhoso.

— Acho que… vamos partir amanhã. Talvez, se esperarmos um pouco, a situação melhore. E assim estaremos mais bem preparados caso algo aconteça.

Liz não parecia ter um motivo forte para ir agora, então apenas sorriu.

— Okeeey! Krai-chan, a propósito… eu vou ter a chance de brilhar também, né? Naquela confusão da maldição eu não tive nenhum momento legal. Isso não é justo! A T sempre consegue ficar com o Krai-chan!

— M-Mestra…!? Não é bem assim que—

Por que ela quer passar por algo tão problemático? No meu ponto de vista, a Liz já contribuiu muito, mas ela ainda sente que foi pouco?

Afaguei a cabeça dela com um sorriso forçado.

— Está bem, amanhã você pode causar todo o caos que quiser. Prepare-se.

A festa em Yggdra continuou calmamente até o pôr do sol. Em questão de horas, a forma como o povo de Yggdra nos tratava mudou completamente, como se fôssemos velhos amigos.

Enquanto bebia uma bebida não alcoólica oferecida pelos moradores, vi Sitri se aproximar com o rosto levemente corado.

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Krai-san, está aproveitando a festa?

— Ah, um pouco. E você?

— Sim! As pessoas aqui são muito gentis! Também consegui muitos conhecimentos novos. Interagir com outras raças é a melhor parte de ser uma Caçadora.

Sempre estudiosa, né. Acho que é isso que faz da Sitri uma Alchemist tão incrível.

Krai-san… se você quiser, não precisa ser um objeto, sabe? — Sitri sussurrou. — Pode ser algo diferente, como… uma esposa? Se você voltar de Yggdra trazendo uma parceira, todos vão te olhar de um jeito diferente.

…Às vezes, a Sitri tem umas ideias bem malucas.

— Eh, não precisa chegar a esse ponto. Isso já parece tráfico humano—

— Você é um herói em Yggdra, Krai-san. Agora mesmo, pode escolher a garota que quiser. Sabia que os Espíritos Nobres são bem entusiasmados? Não sente que eles estão te olhando? A Selene-san provavelmente não proibiria.

Levei um susto e instintivamente olhei ao redor. Vários pares de olhos se encontraram com os meus, e alguns até sorriram. Eles realmente pareciam interessados…

Esposa Espírito Nobre, hein…

Enquanto eu olhava, a expressão da Sitri começou a ficar irritada.

Ei, não! Eu não estou procurando uma esposa! Foi a Sitri quem falou algo estranho, eu só olhei por reflexo.

— Uhh, bem… não estou interessado. Além disso, ainda temos muito trabalho a fazer.

Me despedi de Sitri e me afastei da multidão, caminhando para uma área deserta de Yggdra. Acabei chegando ao extremo da cidade, um local sagrado onde Selene costumava meditar. Era silencioso, com apenas o som da água e um ar gelado.

Verifiquei se ninguém me seguia. Quando me senti seguro, soltei um suspiro de alívio e olhei para frente—

— E em um instante, meu coração quase parou.

Havia três figuras paradas à minha frente. Usavam máscaras e mantos pretos longos, mas pelo porte físico e pelas armas, eu soube imediatamente quem eram.

Adler… Então você ainda está vivo.

A Night Parade, a equipe que desapareceu durante a operação anterior.

Mil Truques. Você, que sempre tem mil planos e truques sujos… já deve ter adivinhado por que viemos aqui, não?

Como eu vou saber? Por que todo mundo insiste em me chamar de “estrategista genial”?

— Vingança… talvez? — arrisquei o palpite mais óbvio.

— Kukuku… Vingança, hein. Bem, em certo sentido, pode-se dizer que sim.

Adler começou a girar sua lança e a apontou para mim. Quint sacou sua espada e Uno apontou seu cajado mágico. Eu não tinha chance alguma contra eles. Como sabia que resistir era inútil, apenas sorri calmamente.

— Não tenho intenção de lutar. Sinto muito, mas ainda tenho um amanhã para viver.

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— …Mesmo na noite anterior à batalha contra um deus, você consegue manter essa calma. Mas sinto muito, você precisa lutar!

…Do que ela está falando? Que deus?

A lança de Adler avançou contra mim com uma velocidade incrível. Eu não conseguia sequer reagir. Mas, para minha surpresa, o Anel de Proteção não ativou. Eu fiquei parado não por coragem, mas por incapacidade de me mover, e o anel não ativou porque Adler tinha contido o ataque para não me atingir.

— Nós subestimamos o poder do deus… o poder de Keller. Aquilo não era um simples Fantasma. Mesmo no estado atual, ele ainda é mais forte que qualquer monstro que já enfrentamos… Você é Nível 8, mas não acredito que possa domá-lo.

— …Eh? Não me diga que… vocês queriam controlar aquele deus?

— !? O que… você está dizendo!? — Quint me olhou chocado.

— Escutem, há coisas que podem ser feitas e coisas que não podem. E há um limite entre o que se deve e o que não se deve fazer… Vocês precisam aprender a entender a diferença.

Minhas palavras pareceram chocá-los, pois Adler e os outros congelaram no lugar.

— Bem, amanhã planejamos entrar no Santuário das Origens. Nós também temos nossos próprios objetivos.

— …Keller é forte — Adler disse com a voz contida.

Eu soltei um pequeno riso nasalado e disse com confiança:

— É claro que eu sei. Exatamente por isso, ele deve desaparecer antes de conseguir mostrar seu verdadeiro poder.

Mil Truques partiu, sem demonstrar a menor mudança. Adler ficou parado, olhando para o vazio.

— Ele… se foi. Mas desta vez, falhamos miseravelmente. Eu não imaginava… que Krai-san não tivesse a menor intenção de transformar Keller em um FamiliarUno disse com a voz rouca.

O deus mascarado, Keller. O Fantasma com quem tentaram negociar era muito mais forte do que imaginaram. Só de ver um vislumbre de seu poder, o desejo de “utilizá-lo” desapareceu.

A operação para enfraquecer o Cofre do Tesouro fora um sucesso graças ao plano de Krai, mas Adler e seu grupo tinham estragado tudo ao tentar negociar com o deus, despertando-o prematuramente. Adler sentia a dor das feridas causadas por Keller.

— Nós somos os inimigos do mundo, não é? — perguntou Adler.

— Sempre fomos, Adler-sama. Um Rei Demônio sempre é assim.

Adler suspirou. Seu corpo pesava. Desde o primeiro encontro com a Grieving Souls, eles só sofreram choques. Keller era um monstro, um deus antigo. E KraiKrai era outra espécie de monstro.

Ele disse que Keller deveria ser eliminado antes de mostrar seu poder. Mas Keller já tinha derrotado Yuden com facilidade. Então, até onde aquele homem tinha calculado tudo? E que truque ele usaria para derrotar um deus com poder absoluto?

Adler suportou a dor e continuou olhando para onde Mil Truques havia desaparecido, antes de sumir na escuridão da noite.

Eu tive um sonho. Um sonho sobre um campo de grama que parecia uma sombra — escuro e sem cor.

Lá no alto, uma lua crescente pendia no céu, cercada apenas pela escuridão. Um campo de grama negra se estendia até onde a vista alcançava. E no centro dele, havia uma figura humana… ou melhor, algo humanoid.

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Eu não conseguia dizer que era um humano, pois sua aura era claramente diferente de uma pessoa comum. Caçadores de alto nível geralmente possuem a aura distinta de um guerreiro, mas a aura que ele emanava era diferente de qualquer Caçador que eu já tivesse conhecido. Se eu tivesse que comparar, talvez o mais próximo fosse o Fantasma que encontrei na Pousada Peregrina.

Ele não era um dragão, nem um demônio ou uma criatura mística. Ele era o que um dia foi chamado de deus — uma existência que transcendia os limites deste mundo. Até mesmo uma pessoa comum, que não fosse sensível ao perigo, certamente sentiria a pressão de sua presença. Seu físico era pequeno, mas isso não importava nem um pouco.

E seu rosto estava coberto por uma máscara cinzenta. Estranhamente, de alguma forma, eu entendi imediatamente quem ele era.

O deus mascarado, Keller.

Um guerreiro de eras antigas, nascido de uma linhagem incomum — nem um especialista em magia, nem um lutador, mas alguém que assassinou deuses e tomou o lugar deles. A máscara que ele usava era feita de ossos de um deus.

Lentamente, ele ergueu a mão. Seu dedo apontou em minha direção. Um vento frio soprou, fazendo a grama ao redor ondular como as ondas do mar.

Então, de repente── o chão sob meus pés desmoronou, criando um enorme buraco que parecia pronto para me engolir. Eu conseguia até sentir o vento chicoteando minha pele. Tudo parecia tão real.

Mas eu não caí naquele buraco. Por mais estranho que fosse esse sonho, ainda era apenas um sonho.

De repente, a voz de alguém ecoou na minha cabeça — o tom soava como o de alguém preguiçoso.

— Meu Deus, que pessoa sem percepção… O ataque passou direto. Sua antena é tão fraca. É isso que chamam de herói?

…Acabei de ser insultado agora há pouco?

Enquanto eu continuava parado, Keller transmitia seus pensamentos sem mover os lábios.

— Sua interferência no meu templo foi impressionante. Ajoelhe-se e jure fidelidade a mim. Então, eu lhe darei a salvação. Ser fraco é um pecado. A força é o meu ensinamento. Eu não lido com perdedores.

Grieving Soul – Capítulo 03 – Volume 10 Img 1

Se seguir essa lógica, quer dizer que eu sou o humano mais insignificante do mundo para esse deus, né…? Que tipo de divindade tem um gosto tão ruim assim?

Mas tudo bem, é só um sonho. Se fosse no mundo real, eu pensaria duas vezes. Mas aqui dentro? Não tenho motivo nenhum para puxar o saco.

Sem ninguém por perto para me ver, fiz uma pose de bonitão e disse:

— Não estou nem um pouco interessado em lidar com deuses malignos. Além do mais, se você já foi destruído uma vez, não quer dizer que você também é um perdedor?

— ………… Tolo, imprudente, lamentável… Os humanos não mudam nada, nem depois de milênios.

O braço que ele apontava para mim girou. Com a palma da mão voltada para cima, Keller fechou o punho.

Foi só um gesto simples, mas o ar ao meu redor ficou quente e pesado instantaneamente.

Sexto Sentido.

Essa era a habilidade de Keller. Não era magia, nem artes marciais, e muito menos uma maldição. Era uma habilidade única herdada de sua linhagem, polida ao longo de séculos. Para eles, controlar o mundo era algo tão natural quanto um humano comum usando as mãos para pegar algo ou as pernas para correr. Eles tinham sentidos invisíveis, algo que transcendia totalmente a compreensão humana.

Mas, ainda assim, eu não senti nada.

Tudo parecia muito real, mas não havia dor, nem um pouquinho. Essa era a prova cabal de que era apenas um sonho.

Então isso é um deus, hein…? Bom, faz sentido ele usar máscara, já que os chefes dentro dos Cofres do Tesouro são todos mascarados. Mas, sério, é muito clichê…

… E por que ele é tão nanico? Eu até aceito ele ter forma humana, mas podia pelo menos ter um visual mais intimidador. Será que minha imaginação é tão pobre assim?

— … Baixinho.

— ………… Atrevido!

O chão abaixo de mim explodiu e labaredas subiram alto. Raios caíram do céu. Centenas de lanças atravessaram meu corpo. Logo em seguida, tudo congelou em gelo sólido.

Parece que ele ficou possesso. Mas tanto faz, não dói mesmo. Que sonho bagunçado. Eu devia ter sonhos melhores depois que os problemas de ontem foram meio que resolvidos.

Os ataques pararam. A voz voltou a ecoar na minha cabeça:

— Neste mundo, ataques não significam nada, não é…? Prepare-se, Herói desta era. Nos encontraremos em breve no mundo real.

Dá para parar de falar coisas que me deixam com um mau pressentimento?

Depois de lançar o que parecia uma declaração de guerra, Keller simplesmente sumiu.

Acordei.

A luz do sol entrava pela janela do quarto. Levantei da cama e me espreguicei.

Que despertar revigorante. Uma das minhas poucas qualidades é que durmo feito uma pedra. Especialmente com tudo o que aconteceu ultimamente, meu corpo devia estar precisando desse descanso.

Mas… que sonho bizarro.

Geralmente esqueço meus sonhos rápido, mas esse continuava nítido na memória. Deve ter sido por causa da conversa com a Adler ontem à noite. Falando de controlar deuses e tal… Ainda não entendi o que ela veio fazer aqui, mas ela adora complicar as coisas.

Graças à Sitri, o Santuário das Origens já está caindo aos pedaços. É só vigiar a situação, resgatar o Luke e meus problemas acabam. O fato de a Árvore do Mundopoder surtar de novo no futuro… bom, isso é problema para gente inteligente resolver.

A missão de invasão vai ser liderada pela Liz e os outros, então não preciso de nenhuma estratégia mirabolante.

Mas talvez seja bom eu pensar em como lidar com um Fantasma de deus. Eu sou um imã de azar, afinal…

Eu não consigo fazer nada sozinho. Tenho Relíquias, mas a maioria não serve para lutar. O Marin e o Cavaleiro Negro provavelmente não aguentariam um deus. Então, como sempre, vou ter que depender dos meus amigos.

Temos a Grieving Souls, a Starlight, a Selene, o Ruine, os soldados de Yggdra que voltaram, e até o Finis e o Miles, que dizem ter poderes parecidos com deuses. A única peça faltando é o Ark, mas esta já é a melhor formação de combate possível. Não tem erro, né?

Ou será que tem?

Pensei em algo e tirei o celular do bolso. Se o assunto é deus, melhor perguntar para um. Liguei para a irmãzinha raposa. Senti que ela estava me evitando ultimamente, mas ela atendeu na hora.

— Oi! Mal aí ligar do nada!

— … Pelo seu tom de voz, não sinto sinceridade nenhuma aí.

— É que eu queria perguntar uma coisa… Vou lutar contra um deus daqui a pouco. Tem alguma fraqueza que eu possa usar?

— !?

Se o assunto era deuses, ninguém sabia mais do que seus próprios Familiares. Essa irmãzinha raposa é um Fantasma da Pousada Peregrina, um dos Cofres do Tesouro de nível 10. Aquele lugar já existia antes mesmo do Santuário das Origens, e o deus raposa de lá é páreo para o tal Deus Mascarado. Eu só conseguia falar com a Familiar esfomeada dele, mas já servia.

— Acho que você entendeu errado? Eu não estou do lado do Senhor Cautela. Por que eu contaria nossas fraquezas?

O tom de voz dela era de puro desagrado. Mesmo eu dando comida para ela toda hora, o nível de amizade não sobe nunca. Sério, por que ela é tão rabugenta? Não faço ideia do que fiz para ela ficar tão brava.

— Não, não é isso. Desta vez vou lutar contra outro deus. Ele já está nas últimas, então deve ser fácil acabar com ele, mas seria bom ter um golpe de misericórdia.

— !???? … Um deus não tem fraquezas.

— Hein? Sério?

Logo você, que é cheia de pontos fracos? , você é forte, mas tem regra para tudo.

Ela parecia detestar o assunto, mas depois que eu fiquei em silêncio esperando, ela finalmente cedeu.

— Se você insiste tanto… a fraqueza de um deus é… outro deus. Deuses não perdem para humanos. Mas se, e apenas se, você de alguma forma conseguir derrotar um… bom, você ganha parte do poder dele. Como a cauda da minha mãe, por exemplo.

— … Ah, entendi.

Verdade. Quando encontrei a Pousada Peregrina, sobrevivi por pura sorte. Eu nunca cheguei a lutar de verdade contra o Fantasma de lá. Se tivesse rolado porradaria, eu não estaria vivo.

O poder desse Keller ainda é um mistério. Se chegarmos às vias de fato, vai ser minha primeira luta séria contra um deus. Vai ser difícil. Mas embora a irmãzinha raposa tenha dito que não contaria fraquezas, ela acabou me dando uma pista.

“Um deus não perde para humanos. A fraqueza de um deus é outro deus.”

E eu… eu já tinha uma parte do poder de um deus. A Cauda Final da Deusa Raposa, que o Onii-chan Raposa me deu, tem um poder absurdo. É tipo um estoque infinito de mana. A Lucia está com ela agora, mas aquilo é poder divino puro, algo que nem as Relíquias conseguem replicar.

Conclusão: se a coisa ficar feia, a chave é a Lucia.

— … Beleza. Valeu pela informação, ajudou bastante. Acho que vai dar certo.

— Hein? Ah──

Desliguei e guardei o celular. Não consegui uma fraqueza específica, mas também não esperava muito. O importante é não deixar o pior acontecer.

Me troquei rápido e saí. Hoje é o dia decisivo.

Preciso achar o Luke. Se eu conseguir resgatá-lo enquanto o Santuário das Origens está um caos por causa do plano da Sitri, já resolvo a purificação da maldição de uma vez. Tenho que correr antes que algo mais chato aconteça…

No quarto, a Liz e os outros já tinham saído. Provavelmente preparando a invasão ao Cofre do Tesouro como combinamos ontem.

Ah, esse Luke… quando a maldição sumir, vou dar o maior esporro da vida dele. Sério, se ele não tivesse provocado a Shero, eu não estaria passando por esse perrengue.

Enquanto pensava nisso, tive uma ideia brilhante.

A maldição do Luke… por que eu não peço para a própria Shero remover?

O Marin não sumiu completamente, então é bem provável que a Shero também esteja por aí em algum lugar. Se eu pedir, ela talvez me ignore. Mas a Selene ainda tem uma ligação com ela. Se a Selene pedir, talvez ela escute? Não custa tentar, né?

Por que só pensei nisso agora? Se eu tivesse percebido antes, não teria me metido em todo esse rolo. Que ridículo, dizem que sou um gênio da estratégia, mas deixei passar algo tão óbvio.

Mas ainda não é tarde. Se a Shero puder tirar a maldição pela raiz, talvez eu nem precise ir até o fundo do Cofre do Tesouro. Seria bem mais seguro. Eu vou acabar indo lá de qualquer jeito, mas, por enquanto… vou falar com a Selene.

Em menos de um mês, as coisas mudaram drasticamente.

Na manhã após a festa, Selene suspirou de admiração ao ver os soldados de Yggdra reunidos na mansão. Uma celebração daquelas não acontecia há muito tempo. Desde que os soldados sumiram, quase não havia notícias boas. Mas agora, Yggdra brilhava de esperança.

O sucesso em enfraquecer o Cofre do Tesouro ajudou, mas a verdadeira razão da alegria era o retorno seguro dos soldados. Eles eram o orgulho de Yggdra, treinados para impedir a fúria da Árvore Mundial.

Embora tenham chegado exaustos, o reencontro com as famílias acendeu o espírito de luta neles. Ninguém se recusou a lutar novamente. O objetivo principal deles tinha sido alcançado.

Se conseguissem aperfeiçoar o Agitador de Mana Material que a Sitri criou, eles poderiam não apenas apagar o Cofre do Tesouro, mas talvez até parar o crescimento da Árvore do Mundo Corrompida.

A Grieving Souls era uma Equipe de Caçadores muito mais incrível do que Selene imaginava. Até agora, Selene e os outros só receberam ajuda. Agora era a vez de retribuir.

Eles precisavam encontrar a estátua de Luke Sykol no Santuário das Origens e garantir que a purificação funcionasse desta vez. O Cofre do Tesouro ainda era perigoso, mas com todos os soldados de Yggdra procurando, eles com certeza o encontrariam.

Um dos soldados assentiu firmemente após a explicação de Selene.

— Eu já morri uma vez. Não tenho motivos para hesitar em usar esta nova vida pelos nossos novos amigos.

Os outros concordaram. Um deles pareceu lembrar de algo:

— Pensando bem, sobre aquela estátua… Eu tenho uma vaga lembrança. Os Fantasmas no Santuário das Origens estavam agitados falando de um invasor e… sim, se não me engano, levaram-na para a sala do tesouro.

— !? Você lembra de quando era um Fantasma?

— Não tudo, mas…

— Não importa. Conte o que souber.

Selene começou a reunir as informações. Os relatos eram variados, mas permitiram traçar um mapa básico. Parece que o Luke foi bem longe no Cofre do Tesouro antes de ser capturado e levado para a sala do tesouro, perto do altar onde ficava o ovo do deus.

— A sala do tesouro fica perto do altar… Mesmo com o fluxo de Mana Material reduzido, com certeza ainda restam muitos Fantasmas. Vai ser uma batalha difícil.

Eles não podiam esperar os Fantasmas sumirem sozinhos. A petrificação era forte; se demorassem, o Luke talvez nunca mais voltasse ao normal.

Por parte de Yggdra, tudo estava pronto. Poderiam partir a qualquer momento.

Foi então que o Krai apareceu, no tempo exato, como se tivesse calculado tudo.

Ao contrário de Selene e dos soldados equipados, o Krai usava roupas leves e não carregava arma nenhuma, apenas o Mimic-kun o seguia. Ele nem parecia um Caçador lendário. Não emanava mana nem Mana Material. Quem não o conhecesse pensaria ser apenas um jovem comum. Mas agora, ninguém mais duvidava dele.

— Humano, os soldados de Yggdra estão prontos. Graças aos relatos, localizamos a estátua. Desta vez, vamos quebrar a maldição com certeza!

Selene pensou que, apesar do rosto relaxado, ele devia estar morrendo de preocupação com o amigo. Se ela tivesse acertado de primeira, ele não teria passado por isso.

Com todo o entusiasmo de Selene, o Mil Truques apenas disse sorrindo:

— Ah, falando nisso… que tal a gente tentar negociar direto com a Shero para ela tirar a maldição? Nosso tempo está curto, né?

— !? Ne… nego… negociação…?

O cérebro de Selene deu um nó. Essa era a técnica mais básica para remover maldições: falar direto com quem amaldiçoou. O Ruine, mentor de Selene, ficou estático de choque.

— N-Não me diga… Vocês ainda não tentaram negociar?

— … Achei que a Shero tivesse sumido… — murmurou Selene.

— Bom, vale a pena tentar primeiro, né? A Shero ainda tem uma ligação com vocês. Talvez ela ignore humanos, mas se a Princesa Selene falar, ela pode ouvir. Bom, o fato da princesa de Yggdra ter falhado na purificação é meio embaraçoso… será que é falta de treino?

Selene não teve como retrucar. Era verdade. Mas por que esse humano só falava isso agora? Ele podia ter sugerido isso na primeira falha. Agora que todos estavam prontos para dar a vida em gratidão, ele soltava uma opção tão simples. Os amigos de Selene até começaram a olhar para ela com pena.

— … Humano. Você devia ter dito isso antes. Por que só agora?

— Ah, bom… é que se você tivesse conseguido tirar a maldição de primeira, teria sido ótimo, né?

O Mil Truques coçou a bochecha, sem dar uma resposta de verdade. Selene queria se desculpar, mas então lembrou de como ele brincava com a Sitri. Ela começou a pensar.

O plano do Mil Truques era perfeito. Ele deu a liderança para a Sitri, embora ele mesmo estivesse em outro patamar, até comparado à elite da Grieving Souls. Talvez ele pudesse resolver tudo sozinho, mas não o fazia para dar espaço para os amigos crescerem.

Yggdra estava em crise justamente por depender demais de poucas pessoas. Se o Krai resolvesse tudo, eles nunca aprenderiam. Talvez ele não tenha falado da negociação com a Shero antes justamente para forçar a Selene a evoluir.

Tudo fazia sentido agora. Se tivessem negociado com a Shero de cara, não haveria invasão ao Cofre do Tesouro e Selene não estaria motivada. Ele calculou tudo para que Yggdra pudesse caminhar com as próprias pernas.

— E esse plano agora estava quase no fim.

Selene queria ficar brava, mas não conseguia. Mas também não queria negociar com a Shero agora por puro orgulho. Ela tossiu e respondeu firme:

— Essa será nossa última opção. A maldição é forte e a estátua está no fundo do Santuário das Origens. Voltar ao normal lá dentro seria perigoso demais.

— Ah, então você já sabe onde está a estátua? — O humano arregalou os olhos, impressionado. Parecia natural, mas vindo de quem planejou tudo por trás das cortinas, era suspeito.

O Mil Truques ficou pensativo:

— Hum, mas é o Luke, sabe? O tempo está curto…

— Tempo curto? Mas a decisão de invadir o Cofre do Tesouro hoje foi sua, humano!

Podíamos ter ido ontem. Ele mesmo quem marcou para hoje. Selene não entendia. Será que ele tinha outro plano?

Antes que ela pudesse perguntar, o grupo de vigia entrou correndo, em pânico.

— Selene-sama, é terrível! Há sinais de desabamento no Santuário das Origens!

— … O quê?

Selene olhou para os outros para ter certeza de que ouviu direito. Eles tinham reduzido o fluxo de Mana Material, mas um Cofre do Tesouro não desmoronava assim do nada. No plano da Sitri, o objetivo era enfraquecer, não destruir a estrutura. Mesmo sem energia, o lugar devia se manter.

Isso mudava tudo. Não era mais apenas sobre salvar o Luke.

— … Temos que ir ver o que está acontecendo. Todos, preparem-se para lutar. Daqui para frente, não sabemos o que vai rolar.

O colapso do Santuário das Origens devia ser uma boa notícia. Significava que o Mana Material lá estava no fim e os Fantasmas sumiriam. Selene olhou para o Mil Truques. Ele estava calmo, sem sinal de pânico. Como se não entendesse a gravidade, o que era impossível.

Isso tudo deve estar nos cálculos dele.

Percebendo o olhar dela, ele sorriu:

— Ah, entendi~ O Cofre do Tesouro está caindo. Foi mais rápido do que eu pensava, hein? Parece que estamos com sorte.

Sorte nada. Isso devia ser impossível. Mas Selene não tinha como contestar. Ela respirou fundo e se levantou.

Com o relatório da equipe de reconhecimento, Yggdra virou um formigueiro. Em minutos, todos os combatentes estavam prontos.

Eu fiquei lá, sentado de boa com a Selene, vendo o caos.

O Cofre do Tesouro desabando. Isso é muito raro. Só acontece se houver uma mudança brusca nas Linhas Ley por um terremoto ou algo assim. Eu já vi muita coisa, mas ver um Cofre do Tesouro ruir era novidade.

Pelo que a Sitri explicou, o plano era só enfraquecer. Se o lugar estava caindo… essa pesquisa dela é assustadora. Se essa tecnologia vazar, ninguém mais dorme sossegado. Controlar Cofres do Tesouro assim é perigoso demais.

A Sitri parecia confusa:

— … Que estranho. Eu desliguei o sugador de energia. O Santuário das Origens não devia cair… Será que tem algo lá dentro devorando o Mana Material?

Pelo visto, até para a Sitri isso foi inesperado. Mas enfim, o Santuário das Origens só dava trabalho. Se sumisse, melhor ainda.

— Talvez seja uma recompensa por sermos boas pessoas.

— … Eu não entendo piadas humanas, desu — resmungou a Kris, mal-humorada.

Eu não estava brincando. Parecia o fim de um festival. Se o Cofre sumisse, os Fantasmas também iriam. E a ameaça de fim do mundo daria uma trégua. Pelo menos não surgiria um deus novo nos próximos cem anos.

Agora era só achar o Luke, fazer a Selene tirar a maldição e missão cumprida em Yggdra. Eu queria era voltar logo para a capital, ficar jogado na sala do Clan Master e dar um esporro no Ark por ele não estar aqui quando o mundo quase acabou (mesmo que seja só desculpa para reclamar).

Enquanto eu viajava, algo macio encostou nas minhas costas. Senti o cabelo no meu rosto e o calor da pele dela. Com voz manhosa, a Liz sussurrou:

— Krai-chan!! O Cofre do Tesouro vai sumir mesmo? E os meus inimigos!? Você prometeu ontem, lembra!?

— M-Mana!?

… Ih, eu falei algo assim… Mas não prometi nada! Só disse que ela podia lutar à vontade. A Liz nunca briga comigo, mas ela tem sentimentos. Se eu respondesse qualquer coisa, quem ia sofrer era a Tino.

Afaguei o braço dela e disse:

— Eu falei, sim. Mas, Liz… achar que só porque o Cofre está caindo não vai ter onde lutar é uma conclusão precipitada, não acha?

Ela relaxou o aperto e senti a respiração dela na minha bochecha. Por favor, o olhar da Lucia e da Sitri está me incomodando. Dá para desgrudar?

— … É verdade? Mas se cair, os Fantasmas diminuem. Eu não gosto disso. Eu esperei um tempão. Ir em um Cofre do Tesouro nível 10 e voltar sem bater em ninguém… não seria um fracasso como Caçadora?

A Liz estava realmente estressada. Ela é profissional, mas faz o que quer.

— Liz. Qualidade é melhor que quantidade. Relaxa, ainda vai ter onde lutar.

— … Krai-chan, eu te amo tanto.

Ganhei um “te amo”. Eu também gosto de você, mas fica quieta agora.

Ela soltou o abraço, toda feliz, cantarolando. Isso devia bastar por enquanto.

A Selene chegou perto e perguntou baixo:

— … Humano, o que quis dizer com “lugar para lutar”? Vai acontecer mais alguma coisa?

Não pergunta isso, por favor. A Liz tem ouvidos de radar.

— … Restos de inimigos que ainda estão vivos. Mas relaxa, a gente dá conta.

Nas ruínas do Cofre, deve sobrar algum Fantasma. Se não sobrar nada, a Liz vai surtar. Mas eu resolvo isso depois. Eu só quero ir embora sem mais drama.

Nisso, a Eliza veio vindo toda estranha. Ela é sempre relaxada, mas estava pálida.

— M… m-minhas pernas… querem fugir…!

— … Suas pernas sempre querem fugir. Mas já está tudo resolvido—

Ela é cem vezes mais forte que eu, mas só pensa em escapar. Relaxa um pouco, senão você vai roubar meu estilo!

Ela puxou meu braço, séria demais:

— K… posso fugir? Não sei por que, mas isso aqui… está muito perigoso.

— Bom, já acabou tudo. Pode ir se quiser. Mas vai fugir para onde?

A Eliza fez um ótimo trabalho. Ser thief é arriscado, e investigar esse lugar não foi fácil. Mas por que falar isso logo agora que o Cofre desabou?

Ela ficou estática com a minha resposta e depois murchou:

— !! … Não tem para onde fugir… Sempre que estou com você, é a mesma coisa, K…

— Meu instinto diz que não vai dar nada.

— O instinto do K está podre.

O instinto pode apodrecer? Vivendo e aprendendo. A Eliza estava sarcástica hoje.

No fim, todo mundo foi junto para a Árvore Mundial. Fui lembrando da primeira vez que viemos tentar curar o Luke. Estava cheio de gente, mas agora tinha ainda mais com os soldados que voltaram. Parecia uma marcha militar. O Finis estava lá, então qualquer Fantasma seria fichinha.

A Selene parecia mais calma. No fim, ajudamos Yggdra e evitamos o apocalipse. A tecnologia da Sitri era perigosa, mas eu estava orgulhoso da galera.

Chegando perto da Árvore Mundial, notei algo estranho. As folhas que caíam sem parar… pararam. O tapete de folhas sumiu. O plano da Sitri não só derrubou o Cofre, mas resolveu o problema do excesso de Mana Material?

A Selene ficou séria:

— Não achei que as folhas parariam… É o poder da Árvore do Mundo Corrompida? Mas aquilo—

— O importante é que o Mana Material na Árvore do Mundocaiu drasticamente.

Ruine e Selene ainda estavam emburrados. A Sitri disse que o efeito do dispositivo era experimental, então podia ter sido melhor que a encomenda. Afinal, ela é um gênio.

Depois de uns trinta minutos, chegamos ao Santuário das Origens sem problemas. Os soldados deram passagem e a cena foi de tirar o fôlego.

O centro das Linhas Ley do mundo é aqui. O Cofre do Tesouro que cercava o tronco gigante estava em ruínas. As muralhas negras agora eram metade do que eu lembrava, e continuavam caindo como se fossem areia ao vento. Os destroços sumiam no ar, derretendo-se.

A Selene estava em choque:

— O Cofre do Tesouro… está desabando…?

— Ohhh… caramba, que incrível.

Todos ficaram parados vendo a cena. Eu me aproximei para ver melhor. Quase não sobrava nada da estrutura original. Se tivéssemos chegado antes, veríamos o Santuário das Origens de verdade.

Eu odeio Cofres perigosos, mas ver um de nível 10 sumindo assim, em segurança, era uma chance única. Os relevos de civilizações passadas, os pilares de deuses desconhecidos… tudo estava sumindo. Gravei cada detalhe na memória.

— Traços de cavaleiros no campo de batalha… é nisso que está pensando?

— É… mais ou menos. Queria ter explorado lá dentro com calma, mas paciência.

— Faz sentido. Um templo é a morada dos deuses. Se não há deus, o templo não resiste.

… Hein?

O clima mudou de repente. O som sumiu, o vento parou e uma sensação estranha arrepiou minha pele.

— K… afaste-se — disse a Eliza com a voz travada.

Só então percebi que havia alguém ali.

Tinha o corpo pequeno, mais baixo que eu. Usava roupas leves, nada adequadas para luta. Os braços e pernas que saíam das mangas pareciam tão finos e frágeis que podiam quebrar a qualquer momento.

E a cabeça dele estava coberta por uma máscara cinza enorme.

— Que tolice… É como comer as próprias mãos e pés. Destruir o templo que finalmente criou raízes nesta terra é uma ação extremamente ineficiente. No entanto, só assim eu poderia recuperar meu corpo.

A figura estendeu a mão. Os escombros na ponta de seus dedos viraram pó e sumiram. A voz dele não tinha intenção de luta ou ódio, mas, por algum motivo, era aterrorizante. Selene murmurou como se estivesse delirando de febre:

— O templo… voltando a ser energia… sendo absorvido… não pode ser. O Fantasma está destruindo a própria origem, o Cofre do Tesouro?!

— Finis!!

Ruine gritou. No mesmo instante, seu braço negro avançou, golpeando a figura à nossa frente. Finis tem o poder de dessecar tudo; sua força não causa destruição física direta, mas absorve qualquer coisa — barreiras, Mana Material, até a própria vida.

Mas diante desse poder, a figura não demonstrou pânico. A energia negra de Finis sumiu antes de tocá-lo, como se parasse em uma parede invisível. Então, como se nada tivesse acontecido, ele disse:

— Alegrem-se. Perturbar o sono dos deuses não é algo que um herói comum consiga fazer.

Isso é igualzinho ao Keller, não é? A aparência é idêntica à que vi no sonho.

Keller apenas me encarava. Mesmo com tantas pessoas cheias de Mana Material ali, ele focava só em mim.

— Aceito seu desafio. Mostre-me a força do herói deste mundo.

— K-K, o que você está fazendo!?

Pelo visto, não foi só um sonho comum. Neste mundo, tem gente que se comunica com entidades transcendentes pelo sonho — videntes, sacerdotes, mensageiros divinos. Talvez eu tenha esse talento mas por que logo agora?

— … Parece que eu não sou tão ruim assim, afinal.

— Mestre!!

Lucia me chamou lá de trás. No mesmo instante, os ataques começaram. A Starlight e os magi de Yggdra lançaram magias logo após o Ruine. Vento, água e luz atingiram Keller sem piedade. Ele apenas soltou um suspiro.

— Nem serviu para aquecer. Eles não te falaram sobre o meu poder?

Os ataques pararam antes de encostar nele. Não foram repelidos nem desviados — apenas pararam.

— Isso… não é magia? — A voz de Selene soou confusa.

Então, toda a magia parada no ar deu meia-volta e atacou os próprios usuários. Em meio aos gritos, Liz surgiu atrás de Keller. Mesmo contra um poder desconhecido, ela atacou sem hesitar, com o rosto corado e os olhos brilhando de empolgação.

— Valeu, Krai-chan!

Eu não vi o movimento, mas senti que foi um chute na velocidade da luz. Keller voou para trás.

— Acertou!?

— !? … Não, o ataque não pegou!! — Tino gritou, e Liz respondeu irritada: — Idiota… Acha que um chute comum funcionaria?

Keller girou no ar e parou, sem um único arranhão. Mas o mais bizarro… ele flutuava sem asas, sem Relíquias, sem magia. Como?

Ah, eu sei. É o poder absurdo que vi no sonho. Sem querer, acabei soltando:

— É o que chamam de Sexto Sentido, a habilidade que mata deuses… É, nada mal.

— !? Você conhece isso, Krai-chan!?

Mal aí. Se eu disser que conheço, conheço. Se disser que não, também não estaria errado. Nem eu sei o que é real e o que é sonho.

Keller continuou relaxado enquanto as ruínas do Santuário das Origens viravam partículas.

— Não deixem ele absorver nossa força! Miles! Finis! De novo!

Lanças de terra e flechas de energia de Finis choveram sobre ele. De novo, pararam antes de acertar. Keller disse com tédio:

— Desde que nasci, o limite entre eu e o mundo é vago. O mundo sempre foi parte do meu corpo. No começo, chamavam de ilusão, doença. Até que percebi que podia controlá-lo como se fosse um braço ou uma perna.

O Sexto Sentido ia além dos sentidos comuns. Para ele, o mundo era parte de seu corpo. Foi assim que ele matou deuses e tomou o lugar deles.

Ansem se cobriu de luz e avançou com sua espada gigante. A força física dele é a maior da Grieving Souls. A espada, reforçada pelo Holy Spirit, bateu na força invisível de Keller. O chão rachou, mas Keller riu.

— Você é forte. Aumente mais seu poder, humano. E então, curve-se. O que importa se você adora os deuses deste mundo ou a mim?

Hm… será que é isso?

Ele parecia mais sociável do que eu pensava. Talvez desse para negociar antes dele surtar de vez. Mas o cara era forte demais. Nenhum Caçador na história venceu um deus de frente.

Ansem gritou:

— Besteira! A Grieving Souls nunca vai se curvar a um poder desses!

Nossa, ele ficou empolgado. Nessas horas, um “Umu” bastava, né?

Ansem continuou atacando com fúria. Ele é o Paladino perfeito, movido pela fé em proteger seus amigos. Keller desviou por pouco e me olhou.

— Tolo… mas interessante. Herói, sua resposta é a mesma de antes, certo?

— … Bom, fazer o quê.

Se o Ansem disse, está dito. Entre o mundo e um deus, eu escolheria o deus. Mas entre um deus e meus amigos de infância, eu escolho meus amigos. Esse é o lema do Mil Truques, o Caçador Nível 8.

Ansem rugiu, atacando com tudo. Eliza gritou lá de trás:

— Ele ainda não está no auge! Temos chance! Se vencermos o Keller, o mundo está salvo! Ele é só um Fantasma, não um deus de verdade!

As vozes de Eliza e Sitri se uniram, incentivando todos. Começou uma batalha de lenda. Liz, Tino, os soldados de Yggdra, todos atacando sem parar. Ninguém recuou diante da morte.

Mas Keller continuava calmo.

— Correto. No momento, ainda estou fraco. Mesmo com o Sexto Sentido, recuperar minha força não é fácil.

Ele moveu a mão e uma onda de choque varreu tudo. Ansem voou longe, e os soldados de Yggdra foram jogados como insetos. Se não fosse pelo meu Anel de Proteção, eu teria virado patê.

A Árvore do Mundotremeu. Keller riu:

— Veja só. No meu estado atual, não consigo nem derrubar uma árvore direito.

Ele… acertou a árvore? Um ataque e a Árvore Mundial, reforçada por Mana Material, estremeceu. Se ele ficasse completo, destruiria tudo. Isso era o fim do mundo. Isso era um deus.

Selene recuou, pálida. O moral da equipe desabou. A diferença de poder era ridícula. Keller olhou para mim.

— Herói. Você se protegeu com aquele poder estranho. Mesmo com o Sexto Sentido, não entendo totalmente sua existência.

Ah, é. Poder estranho, né? Que nada. É só o Anel de Proteção. E eu ainda tenho quatorze vidas sobrando.

Já que o anel funcionava, eu dei um passo à frente. Fugir era inútil, melhor servir de isca. Nuvens negras cobriram o céu e começou a chover.

Que azar. Mas espera… essa chuva… nuvens aparecendo tão rápido…

Será que a Lucia está usando aquela cauda para preparar uma magia gigante? Ela é uma irmã incrível, sabe agir na hora certa. Magia comum talvez não vença o Sexto Sentido, mas ela tem parte do poder de um deus.

Beleza. Meu trabalho é enrolar o Keller.

Com um sorriso hard-boiled, encarei Keller. Ele não atacou; estava tentando me decifrar. Mas eu sou um vazio total.

— Keller, você é forte, eu admito. Mas agora você não é mais o topo da cadeia. Eu conheço sua fraqueza. Afinal, eu sou o gênio estrategista do mundo humano.

Ele ficou em silêncio. A pressão era tanta que eu queria vomitar. Se eu soubesse, estaria usando a Férias Perfeitas, mas a Selene ainda está com ela.

Rápido, Lucia! Não aguento mais!

— Eu já previ seu despertar há muito tempo e preparei tudo. O Sexto Sentido é apelão, mas eu quebrei a cabeça para te vencer.

— … Interessante, Herói. Diga-me como.

Ainda não, Lucia?! Respirei fundo e mandei o blefe:

— Bom… vai soar estranho… mas eu também tenho poder divino.

Keller não reagiu, mas o pessoal em volta surtou. Kris gritou:

— !? Então era isso, Humano Fraco, desu!

— Meu Sexto Sentido diz o contrário. Não há nada dentro de você — disse Keller, calmo.

Viu? O deus é mais sensato que vocês! E sério? Eu sou vazio até para um deus?! Lucia, ataca logo!

— O que você entende não é a única verdade. Meu poder é incompreensível… Se você for dormir agora, não precisa ver. Mas, papo reto, meu poder é bizarro.

Sério, é bizarro mesmo. Vou vomitar a qualquer momento.

— O-Onii-chan, o que você está fazendo?! — Ouvi a voz da Lucia. Deve ser alucinação, ela está conjurando.

Keller disse:

— Sinto um medo enorme vindo de você, mas também uma autoconfiança estranha. Herói, você ainda acha que pode resolver isso? Estou curioso.

Droga. Esse deus é muito tranquilo.

— Bom… não queria fazer isso, mas… — Ergui as mãos. Eu ia enrolar. — Sua fraqueza… é o outro deus. E meu poder é a Dança Infinita! Isso mesmo! Se o seu poder é um órgão divino, o meu é a fórmula da vitória absoluta! Depois de me ver dançar por cinco horas, você vai… entrar em desespero!

— !? O quê?

— Aproveite o show até o fim!

Eu quase virei um Bardo Dançarino antigamente (história sombria). Keller ficou em choque, talvez pela aleatoriedade. Se ele seguisse a regra dos deuses da Pousada Peregrina, não poderia atacar enquanto eu dançasse.

Comecei a me mexer como uma água-viva. Um raio riscou o céu e algo branco atingiu Keller, jogando-o longe.

Era uma cauda de raposa. Mas não era da Lucia.

Era a irmãzinha raposa, com sua máscara branca e duas caudas. Ela apareceu do nada e me olhou com desprezo:

— … Mentiroso. Disse que ele estava quase extinto.

Ah, é. Eu falei isso no telefone. Mal aí.

Keller se recuperou e disse:

— Então você usa o poder de um deus fera, herói? Isso vai ser divertido.

Keller atacou com uma onda invisível, mas a irmãzinha raposa bloqueou com as caudas. O impacto ativou meu Anel de Proteção.

— O quê? Usar…? Quer dizer que o Senhor Cautela… está nos usando…?

— Eu só vim roubar o poder de um deus enfraquecido e levar a presa que o Senhor Cautela deixou no jeito, só isso!

Então ela não veio me salvar… tanto faz. Dei um sinal de positivo para ela.

— Beleza, te dou essa chance. Good job!!

— ──!! Não era essa a reação que eu queria!

Keller materializou um rifle de caça feito de terra.

— Balas de chumbo que os espíritos temem. Não preciso mais da máscara. Vou jogar fora seus ossos e sua pele vai virar meu casaco.

— … Maldito. Deus que já foi humano. Depois do Senhor Cautela, você é o mais petulante.

A irmãzinha raposa ficou furiosa. Chovia muito. Keller puxou o gatilho. Um tiro ecoou e as chamas dela sumiram. Ela usou as caudas como escudo, mas eu, no meu reflexo idiota de proteger os outros (e por estar com o equilíbrio horrível), tropecei e caí bem na frente dela.

— !?

O tiro atravessou a cauda dela e ia direto no peito dela. Eu estiquei a mão, mas o Anel de Proteção não alcançou a tempo. A bala pegou nela e ela sumiu como uma ilusão. Eu rolei no chão.

Keller olhou para o nada:

— Fugiu, hein… Esse espírito não pode ser subestimado.

Pelo menos não morreu. Se era para fugir, não precisava eu ter me jogado.

Nisso, uma voz ecoou pela chuva:

— Não precisa fugir. Ó deus antigo. Não queremos lutar, mas se apontar uma arma para nós, acha que ficaremos quietos?

Chamas azuis surgiram. Dezenas de Fantasmas com máscaras de raposa apareceram. Era a Pousada Peregrina. O Onii-chan Raposa apareceu ao lado da irmãzinha, que tinha acabado de ser “atingida”.

— Esse humano é um mentiroso. Isso era óbvio. E você, ser protegida por ele é a maior vergonha da história da Pousada Peregrina.

— O Senhor Cautela mente. Isso é trapaça. E eu não fui salva… o Senhor Cautela nem chegou perto da bala.

Gente, o clima ficou pesado. Vou saindo de fininho.

Keller ficou hesitante ao ver tantos deuses feras.

— O Sexto Sentido não capta nada… Não devia haver ninguém aqui.

— Então você enxerga longe, né? Um órgão divino que vê e interfere em tudo… poder terrível — disse o Onii-chan Raposa. — Talvez você seja mais forte que nós.

Keller fechou o punho e o espaço tremeu. Os Fantasmas da Pousada Peregrina foram amassados como papel, mas a voz do Onii-chan continuou:

— Se o seu poder é um órgão divino, o poder da minha mãe é a mentira que engana o mundo. Você está certo, não deveria haver ninguém aqui. Mas o mundo acredita que estamos aqui.

Os restos dos Fantasmas viraram fogo e formaram um caminho.

— Vamos te dar uma chance. Hoje minha mãe está de mau humor porque a filha caiu na conversa de um humano de novo. Se ela não se divertir, pode acabar comendo alguém. Então, faça um show interessante, deus dos humanos.

Grieving Soul – Capítulo 03 – Volume 10 Img 2

— Ah, isso é perigoso.

Não era só a Eliza, eu também conseguia sentir. Meu coração e minha alma estavam inquietos. Algo gigantesco estava prestes a descer aqui.

Parece que eles vieram com força total, o Cofre do Tesouro inteiro resolveu intervir. Talvez estivessem todos dentro daquela nuvem negra lá no alto.

Quando olhei para os meus amigos, que pareciam meros espectadores paralisados, balancei os braços bem forte, dando o sinal para recuarem.

Saiam daí rápido! Não fiquem só parados olhando!


Tradução: Rudeus Greyrat
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