Grieving Soul – Capítulo 02 – Volume 10
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire
Grieving Soul – Capítulo 02 – Volume 10
Capítulo 2: Fase 2
No centro de Yggdra, em uma sala dentro do laboratório de magia localizado ao lado da oficina onde os dispositivos de agitação de Mana Material eram fabricados, Selene permanecia de pé com os punhos cerrados, observando fixamente seu companheiro deitado na cama.
Ao lado do leito, Ansem, que diziam possuir a melhor magia de cura de Zebrudia, examinava a condição do homem com uma expressão séria.
Alguém surgir de dentro de um Fantasma? Aquilo era algo sem precedentes. Mesmo nos registros de Yggdra, que já havia enfrentado a fúria da Árvore do Mundo e a destruição de civilizações passadas, tal fenômeno nunca fora relatado.
O tempo parecia rastejar. Cada segundo assemelhava-se a um minuto, ou até dez. Após o que pareceu uma eternidade, Ansem finalmente assentiu.
— Umu… Ele está fraco, mas não há problema algum. Apenas desmaiou. Deve acordar em breve.
— G-Graças a Deus…
— Não há sinais de interferência externa. Seu corpo e alma, sem dúvida alguma, pertencem a um Espírito Nobre.
Este laboratório de magia era um dos lugares mais seguros de Yggdra. A estrutura, esculpida diretamente no tronco de uma árvore gigantesca, era em si uma peça de magia. Além de centro de pesquisa, funcionava como um hospital, capaz de amplificar drasticamente as habilidades regenerativas dos Espíritos Nobres. Mesmo ferimentos graves podiam ser curados em pouco tempo ali.
Ao ouvir a explicação de Ansem, Selene sentiu as forças deixarem suas pernas e desabou sentada no chão. O mana em seu corpo parecia ter se esgotado. Sem que percebesse, a sensação de euforia que a preenchia antes havia desaparecido.
Mas… ela não sentia o menor desejo de recarregar a Férias Perfeitas agora.
Aquele objeto era perigoso. Sempre que se permitia afundar no conforto oferecido pela Relíquia, sentia que algo importante dentro de si desaparecia lentamente.
A pessoa que emergiu do Fantasma era alguém cujo rosto ela jamais esquecera, nem por um segundo, desde o seu desaparecimento. Um grande Magi, um dos Guardiões Espirituais que outrora desafiara o Cofre do Tesouro das Origens para salvar Yggdra junto com Finis.
A primeira vez que a Árvore do Mundo mostrou sinais de fúria foi há cerca de 300 anos. Embora a situação tivesse piorado apenas nos últimos anos, muitos tentaram conquistar aquele Cofre do Tesouro ao longo do tempo. Muitos partiram. Os talentosos, os corajosos… todos desapareceram.
E agora, o homem que dormia naquela cama era um dos primeiros heróis de Yggdra a desafiar o Cofre, logo nos primeiros sinais da calamidade. De certa forma, ele possuía uma linhagem real até mais próxima do que a de Selene.
Ela pronunciou o nome dele, pela primeira vez em séculos.
— Ainda não consigo acreditar… Você está vivo, Sábio… Ruine Saintos Frestel…
Ruine permaneceu em silêncio, mergulhado em um sono sem respostas. Mas seu coração ainda batia. Aqueles que desafiavam os Cofres do Tesouro eram guerreiros formidáveis, preparados para a morte no momento em que decidiam entrar. Orgulhar-se de sua determinação era uma coisa, mas chorar por aqueles que não retornavam era visto como um insulto à escolha deles.
Por isso, Selene nunca chorara a perda de seus companheiros. No entanto, agora, ao encarar aquele rosto familiar, seu peito apertou e a respiração falhou. Horas atrás, nem o mais remoto pensamento de um milagre como este havia cruzado sua mente.
Nesse momento, alguém que estivera em silêncio começou a aplaudir. Sitri, com um sorriso radiante, perguntou:
— Muito bem… Então, podemos ter uma explicação? Vimos a batalha através do Espelho da Realidade, mas ainda queremos saber o que realmente aconteceu.
Selene também buscava essa resposta. Tudo o que fizera fora caminhar até o campo de batalha e proferir uma frase curta, seguindo as instruções de Krai Andrey, o Mil Truques. Ela não usou magia, não realizou nenhum ato heroico; sequer imaginava que Ruine surgiria de dentro do Fantasma.
— Eu… não sei de nada. Mas Ruine é um dos guerreiros de Yggdra que desafiou o Cofre do Tesouro no passado. Quando vocês derrotaram o Fantasma que invadiu Yggdra, o corpo dele começou a rachar e… ele saiu de dentro… Pensando agora, talvez o motivo daquele Fantasma ter conseguido atravessar a barreira de Yggdra seja porque ele não era um Fantasma comum.
Havia algo estranho. Por mais poderoso que fosse um Fantasma de um Cofre do Tesouro de Nível 10, ele não deveria ser capaz de romper a barreira de Yggdra tão facilmente. Assim que soube que um dos invasores era Finis, Selene pôde deduzir por que a barreira não reagira. Mas havia dois invasores. Se o outro fosse um Fantasma comum, a barreira o teria repelido.
A conclusão? A barreira de Yggdra não reagiu porque ambos eram, tecnicamente, seus próprios aliados.
— Sei que parece impossível. Ruine desapareceu há duzentos anos. Embora a vida de um Espírito Nobre seja longa, ao contrário de Finis, que é um espírito elemental, nós não podemos sobreviver sem comer ou beber.
— Também vimos a luta pelo Espelho da Realidade. Lucia-chan conseguiu refletir o ataque inimigo e derrotar o Fantasma. A forma como ela usou o ataque do oponente naquela situação… honestamente, me deu calafrios. Mas o mais surpreendente foi o corpo dele rachando e alguém saindo de dentro. Um Cofre do Tesouro de Nível 10 é realmente outro nível, eventos assim nunca ocorreram antes.
— ……
Lucia, com o rosto levemente corado, desviou o olhar como se evitasse a atenção. Sim, era um evento sem precedentes, mas também um milagre extraordinário. Ruine ainda não tinha acordado, mas ele era um Magi que, em certas áreas, superava até mesmo Selene. Se precisassem lutar novamente, ele seria um aliado inestimável.
Nesse momento, Eliza, que permaneceu calada, falou com um tom calmo:
— As condições mudaram. O mais importante agora é… que talvez existam outros. Guerreiros de Yggdra presos em forma de Fantasma…
— !!
Selene ergueu o rosto, chocada com a possibilidade. Por que não pensou nisso antes? Eliza estava certa. Ruine não foi o único guerreiro a partir para o Cofre do Tesouro e nunca mais voltar. Jamais encontraram um único corpo sequer. Isso significava que… havia uma chance de que outros estivessem vivos, presos ali dentro.
Embora a prioridade máxima fosse deter a fúria da Árvore do Mundo, os guerreiros de Yggdra eram Magi de elite. Se pudessem resgatá-los, a estratégia de Sitri seria muito mais eficaz.
Liz socou a palma da mão e sorriu com entusiasmo.
— Uau, isso está ficando interessante. Então só precisamos dar uma surra nos Fantasmas até eles quebrarem e libertarem quem está dentro? Perfeito, eu dei essa chance de ouro para a Lucia-chan antes, mas desta vez, eu é que vou mostrar do que sou capaz! Sério, isso parece até um game, vai ser divertido.
— O-onee-sama… isso — quero dizer, enfrentar um Fantasma desse nível e tratar como um game é um pouco…
Era a atitude típica de uma caçadora que não temia nada. Aparentemente, não importava a força do inimigo, Liz permanecia relaxada. Considerando a batalha anterior, Selene sabia que não era algo para se subestimar, mas antes que pudesse intervir, Tino, que parecia séria, falou com a voz levemente trêmula:
— …Parece que não podemos simplesmente derrotá-los de qualquer jeito. Eu… vi claramente. Quando o a Avatar da Criação refletiu o ataque e atingiu o Fantasma, a energia sugou o Mana Material que formava o corpo deles. Quando isso aconteceu, a existência deles mudou. É apenas um palpite, mas acho que o Fantasma e a pessoa dentro dele estão meio que fundidos.
Todos ouviram em silêncio. Selene também estivera lá, mas não notou tal detalhe. A essência do poder de Finis era a drenagem. Sugar a vida das plantas até murcharem. Absorver mana e anular magia. Sugar o Mana Material e destruir o Fantasma. A explicação fazia sentido. Com o poder de Finis, algo assim era possível.
— E o mais importante… o poder de Finis talvez consiga apagar apenas a parte Fantasma. O fato é que o Fantasma que derrotamos desapareceu instantaneamente.
Aquela não foi a primeira vez que derrotaram um Fantasma do Santuário das Origens. No coração de Selene, esperança e ansiedade se misturavam. Se a teoria estivesse correta, salvar seus companheiros não seria fácil.
Havia dois problemas principais. Primeiro, se quisessem salvar a todos, haveria limitações, pois nem todos podiam derrotar um Fantasma dessa forma específica. Liz e Eliza, que dependiam mais de ataques físicos, poderiam complicar a situação se agissem descuidadamente. Segundo, se o resgate se tornasse a prioridade, o plano de enfraquecer o Cofre do Tesouro teria de ser adiado, e ninguém sabia o que aconteceria com os que foram transformados se o Cofre fosse destruído.
Mas o maior problema era que a técnica de drenagem era exclusiva de Finis. Era uma técnica tabu, sem equivalentes em Yggdra. Lucia, que vira o poder de perto, comentou:
— Aquela técnica… eu nunca tinha ouvido falar ou visto algo assim. Tentar replicá-la levaria tempo.
— E há outro problema… Não sabemos onde estão os Fantasmas que contêm pessoas reais. A maioria deve estar escondida dentro do Cofre do Tesouro, e os que têm “recheio” devem ser apenas uma fração. No fim, ainda há muita coisa que não sabemos.
Eliza suspirou, acariciando a cabeça de Tino. Enquanto Selene se perdia em dúvidas, Sitri bateu palmas.
— …De qualquer forma, o plano segue o cronograma. Não temos tempo para ficar paradas. Devemos estar prontas para agir se algo acontecer. Não se esqueçam, nossa prioridade é deter a fúria da Árvore do Mundo.
Aquelas palavras deixavam claro que talvez tivessem de abandonar seus companheiros. Atualmente, o Cofre do Tesouro estava protegido por uma barreira. Deveriam atrair o inimigo para fora ou infiltrar-se? O que fazer primeiro?
O coração de Selene batia forte. A situação estava melhorando, mas essa nova esperança poderia sumir ao menor erro. Ela não podia forçar Sitri a priorizar o resgate; se o fizesse, não conseguiria encarar seus antepassados como a orgulhosa princesa de Yggdra.
— Siddy, vou começar a fabricar o dispositivo agora mesmo. Já entendi como fazer a ativação mágica simultânea… Vamos precisar de muitos, certo?
— Sim. E precisamos nos apressar para alcançar o Luke-san.
— Então, vamos continuar investigando o fluxo das Linhas Ley por aqui, ok? Agora que entendemos o padrão, não precisamos mais da Relíquia. Se encontrarmos um Fantasma suspeito, vamos arrastá-lo para cá! Quem trouxer menos vai levar uma punição!
Os membros da Grieving Souls moveram-se com agilidade. Para eles, os eventos que chocaram Selene não eram motivo para parar. Se Selene estivesse sozinha, estaria perdida. Ter companheiros tão confiáveis era reconfortante. Até agora, ela apenas resistira, mas era hora de atacar.
— Vou tentar encontrar uma maneira de replicar o poder de Finis. Eu e os Guardiões Espirituais somos os que melhor entendem disso… deve haver registros na biblioteca.
Alguns tipos de magia foram criados imitando o poder de espíritos elementais. Se conseguissem usar a magia de drenagem, talvez pudessem destruir a barreira do Cofre. As peças começavam a se encaixar. Era uma questão de tempo.
Enquanto Selene se preparava para agir, ouviu passos no corredor. O homem que entrou na sala era o jovem que não tinha sido mencionado até então.
Krai Andrey. O Mil Truques. O homem que, claramente, era a causa principal de todo esse caos.
Eliza disse que muito era incerto, mas algumas coisas eram fatos. Ele ordenou que a Corrente Canina investigasse, ele instruíu Selene a usar a Relíquia e enfrentar Finis. No início, as ordens pareciam absurdas, mas agora faziam todo o sentido. Ainda era um mistério porque Selene teve de usar a Férias Perfeitas, mas devia haver uma razão. Talvez ninguém tivesse mencionado o nome de Krai porque, se assumissem que tudo aquilo fazia parte de seu plano mestre, sua habilidade estaria além da compreensão humana.
Krai olhou para todos e, com uma voz cansada, disse:
— …Bom trabalho. Parece que tudo correu bem. Que alívio.
As reações de sua equipe foram variadas. Liz e Sitri sorriram, Tino tremeu levemente, enquanto Lucia franziu a testa, irritada.
— …Irmão, suas habilidades estão ficando cada vez mais absurdas, não é? Ativação mágica múltipla como aquela… se eu tivesse um pouco mais de tempo, eu mesma teria pensado nisso…
— Ei, Humano Fraco! Onde você esteve o tempo todo, desu?! Estamos super ocupadas aqui, desu!
— Desculpe, desculpe. Tinha outros assuntos para resolver…
Selene lembrou-se de que Krai a incentivou antes de partir, mas com a confusão da aparição de Ruine, ela se esqueceu dele completamente. O olhar de Krai caiu sobre Ruine. Eles nunca haviam se encontrado, mas Krai não demonstrou surpresa. Era como se tudo estivesse seguindo o seu roteiro. O que ele realmente via? E que “outros assuntos” seriam esses?
Selene o observou intensamente, tentando decifrar suas intenções. Antes que pudesse concluir algo, Krai perguntou casualmente:
— …A propósito, para onde foi a Finis?
— …Hã?
A pergunta abrupta silenciou a sala. Finis desapareceu após ser atingida pela espada refletida de Lucia. Espíritos elementais não eram seres vivos; estavam longe do conceito de morte, mas o poder de Finis era sua própria fraqueza. O ataque foi fatal. Estavam tão focados em Ruine que esqueceram de Finis.
— Finis… foi atingida pelo próprio ataque e desapareceu—!?
Antes que Selene terminasse, seus olhos de Espírito Nobre captaram um fluxo de energia poderoso. No ar, uma pequena mancha negra surgiu e se expandiu, formando uma figura humanoide do tamanho de uma palma. Tinha a cor de galhos secos, sem rosto, como uma sombra informe.
A Destruidora, Finis da Extinção.
Embora sua energia estivesse reduzida, não havia dúvida: era ela. Estaria ali o tempo todo? Se um espírito deseja se esconder, nem mesmo um Espírito Nobre o encontraria. Como um humano comum como Krai percebeu sua presença?
Enquanto todos estavam em choque, Finis abriu uma fresta na cabeça, como se fosse falar. Mas Krai, como se soubesse de tudo, interrompeu-a apressadamente:
— Uau, você ficou bem pequena, hein. Relaxa, não precisa agradecer. Eu não fiz nada, foi tudo fruto do esforço da Selene.
— !? Eu não fiz nada—
— Enfim!! Aquele homem… ele está bem?
— …Umu.
Havia muito a confirmar e agradecer. Mas o homem falou alto, como se cortasse o assunto, e disse:
— Que bom que todos estão a salvo… Bem, estou ocupado, então já vou indo. Ah, Selene. Você não precisa mais da Férias Perfeitas, certo? Depois eu passo para pegar, então deixe-a pronta, por favor.
Ele falou rápido e saiu da sala como um furacão. Geralmente relaxado, desta vez parecia com pressa. Todos, Liz, Sitri, Lucia, Ansem e até as integrantes da Starlight, ficaram boquiabertos olhando para a porta.
— …Então o Humano Fraco também sabe ser rápido… Não sei o que ele está fazendo, mas parece estar com muita pressa, desu.
— …E-Ele com certeza vai nos ajudar quando a situação ficar realmente crítica… talvez. O Mestre está apenas nos testando. Em suma, o Mestre é um deus.
— Hmph… Testando, é? A capacidade de um líder também é medida pelo quanto ele confia em seus subordinados.
Lapis bufou, descontente. Mas era, de certa forma, reconfortante. A situação era apocalíptica, mas ele ainda pensava em “testar” as pessoas? Ele era realmente são?
Mas não era hora de reclamar. As histórias sobre a genialidade do Mil Truques eram reais. Mesmo que para Selene parecesse uma sucessão de coincidências, para ele, tudo estava destinado. Se ele estava com pressa, devia estar movendo peças invisíveis. Atrapalhá-lo agora seria fatal.
— Decidi… confiar naquele homem. Meus companheiros caídos e os espíritos que lutaram conosco certamente concordariam.
Selene olhou para Ruine. No momento exato, ele abriu os olhos. Sua pele pálida e longos cílios emolduravam olhos vermelhos, uma raridade entre os Espíritos Nobres. O coração de Selene disparou. Finalmente reencontrava o companheiro que julgava morto. O que dizer primeiro?
No silêncio, o olhar de Ruine desceu. Ele levou alguns segundos para processar a roupa chamativa que Selene usava e, com uma voz trêmula, sussurrou:
— P-Princesa Selene… Que tipo de roupa é essa que a senhora está usando…?
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Yggdra e a Capital Imperial de Zebrudia tinham culturas e climas opostos, mas uma coisa era universal: o conforto da cama.
A residência providenciada para a Grieving Souls era excelente. No quarto vazio, eu me revirava nos lençóis, contemplando a impermanência do mundo. Ontem foi exaustivo. Talvez por não ter usado a Férias Perfeitas, meu corpo parecia mais pesado que o normal.
Mas meu pânico não era pela Árvore do Mundo ou ataques inimigos. Coisas assim acontecem. Se eu entrasse em pânico por isso, não sobreviveria no Nível 8.
Bocejei, lembrando do dia anterior.
— Quem diria que a Selene seria uma Espírito Nobre tão inútil com a Férias Perfeitas…
Quando senti frio e fui ao banheiro, todos haviam sumido. Isso sim foi assustador. Não era a primeira vez que eu acordava e todos tinham desaparecido, mas nunca me acostumo. No fim, tudo deu certo. Não entendo bem a situação, mas o plano parece avançar. Houve uma luta estranha, ninguém morreu e, embora alguém tenha se ferido, o saldo foi positivo.
Até o espírito guardião quase me forçou a trabalhar, mas escapei a tempo. Um resultado perfeito para os meus padrões. A propósito, a magia da Lucia foi incrível. Mesmo de longe, o efeito foi visível. Desde quando ela consegue congelar o mundo assim? E no meio da cidade? O inimigo devia ser um monstro para ela chegar a esse ponto. Bem, um Cofre do Tesouro de Nível 10 é outro patamar.
Em Zebrudia não existem Cofres desse nível. Nem a Grieving Souls enfrentara algo tão pesado. De certa forma, é bom para o crescimento deles, já que andavam entediados. Mas se eu disser que isso é “sorte”, eles me matam. Azarado mesmo foi o Luke, que queria lutar e perdeu a chance.
Passos pesados soaram no corredor. Sem bater, a porta se abriu. Era Adler, a líder da Night Parade. Com sua lança longa e olhar afiado, ela era o tipo de pessoa que me deixava desconfortável. Mesmo sem seus monstros, ela poderia me finalizar num piscar de olhos. Para não provocá-la, tentei parecer casual.
— O que foi?
— Ninguém entende nada. É irritante, Mil Truques.
— ……Do que você está falando?
Não espere que eu entenda. Sou o tipo que recebe dez informações, entende cinco e erra duas. Pisquei confuso enquanto Adler continuava, com um entusiasmo bizarro:
— Eu vi tudo. Desde o momento em que a Lucia derrotou o Fantasma, eu observei pelo Espelho da Realidade. Selene e os outros acreditam que você estava escondido investigando algo.
— Eh? Não, eu não estava fazendo nada…
Para mim, foi um dia comum. Ontem respondi que tinha “assuntos a resolver” apenas porque estava procurando por eles após o sumiço. Se eu fosse fazer algo, pediria ajuda. Nunca escondi isso, mas ninguém nota. Talvez porque sejam todos talentosos e ocupados demais para se importarem comigo.
Minha resposta deixou Adler satisfeito por algum motivo.
— Sim, exatamente. Você não fez nada. Com as poucas informações que tínhamos, seria impossível montar a estratégia de ontem, muito menos ter sucesso.
— ? Uh… é, acho que sim?
Achei que ele viria me insultar, mas ele parecia feliz. E que estratégia?
Sinceramente, não gosto de bandidos. Arnold e os outros que me perseguiram nas férias eu até aceito, pois são caçadores. Até a Sora da Raposa Sombria de Nove Caudas era interessante. Mas a Night Parade? Bandidos são problema. Eles estão ajudando agora, mas quem garante que não voltarão a ser inimigos? Eu preferia que ficassem longe.
Adler ignorou meus pensamentos e sorriu.
— Mil Truques, eu te admiro. Quando você começou a usar a Relíquia, achei que seria um desastre. Mas você é diferente. Você tem olhos especiais como a Uno? Ou um poder único? Talvez sejam as criaturas que você lidera? Ainda não descobri, mas não conseguirá esconder de mim para sempre.
Por que ela está tão animada? Desde sempre recebo elogios assim. Enquanto eu for Nível 8, as pessoas vão me achar incrível. Eu também acharia se conhecesse um. Mas por que só atraio gente perigosa? Não vê que estou apenas querendo preguiça na cama?
Bocejei e disse:
— Desculpe, mas não pretendo fazer mais nada. Meu trabalho acabou.
— …O quê?
Droga, dizer que “acabou” soou ainda mais suspeito. O mundo é cruel; é difícil até provar que você é inútil. Mas como ele estava de bom humor, decidi falar algo. Ele me respeita a ponto de querer ser meu discípulo, certo? A presença dele me impede de relaxar.
— Bem… para ser preciso, ainda há uma ou duas coisinhas para resolver. Se tem tempo para conversa fiada, melhor ajudar a Sitri. O processo de recuperação do Yuden já deve estar terminando, certo? Isso seria mais útil.
Inventei numerosas desculpas para parecer realista. Entre a maldição do Luke e a volta para a capital, não era mentira total. Adler me encarou, tentando ler meus movimentos. A força da Night Parade ainda é útil; se eu os entregar para a Sitri, ela saberá o que fazer.
— …Tch. Essa sua atitude relaxada… me pergunto o que há por trás. Vou esperar para ver.
— Hmph. Não espere muito, ok?
Sorri e disse algo que nem eu entendi. Sério, o que ela vê em mim? Desde que cheguei em Yggdra, não fiz nada de útil… Adler deu um sorriso enigmático e saiu do quarto batendo os pés.
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— Então, como foi?
Assim que Adler saiu, Uno e Quint se aproximaram. Adler apenas deu de ombros.
— Tentei provocá-lo, mas… sem esperança. Ele nem sequer pareceu preocupado.
— Bem, precisamos descobrir algo logo.
— Pelo que vi, não senti aura de monstro alguma… O caso da Lucia-san também parece ser diferente — comentou Quint.
Caminhavam pelas ruas de Yggdra impregnadas de Mana Material. Adler já vira o Mil Truques em ação, mas ainda não compreendia seu poder. O resultado estava lá. Ela sabia o que Krai fez, mas não entendia como.
Seu monstro, o Espelho da Realidade, era infalível em espionagem. Deveria revelar segredos, mas não trazia respostas. Uno olhava para o espelho, que mostrava Krai apenas se espreguiçando na cama. Adler achou que uma provocação o faria reagir, mas Krai sequer se levantou. Adler estalou a língua ao lembrar das palavras dele:
— Melhor ajudar a Sitri.
Parecia a voz de alguém falando do topo de uma montanha. Adler, que matou tantos caçadores, sentia-se irritada com tamanha arrogância. A diferença abissal entre eles era frustrante.
— Tch… O Yuden ainda não despertou?
— Falta pouco… como restou apenas a cabeça, leva tempo para absorver a energia da terra.
— …Droga, não está saindo como planejado.
O Mil Truques disse que Yuden já deveria estar de pé. Isso significava que o trunfo de Adler, a criatura ancestral Centopeia Devoradora de Estrelas, Yuden, adorado como um deus, era mais fraco do que Krai Andrey supunha. Logicamente, era uma provocação. Não havia como Krai saber tanto sobre espécies ancestrais.
Mas… ele era o Mil Truques. Alguém cujos limites eram invisíveis. Se Adler descobrisse o segredo de sua genialidade, poderia ficar ainda mais forte.
— Calma, Adler-sama. Ainda temos chances.
— Ainda não vimos sua atuação como Controlador… Por ora, temos de seguir o plano — disse Quint.
Pelo menos, o plano de Sitri parecia justo. Não pareciam ser usados como isca. Seguiriam o fluxo por enquanto, observando tudo.
— Certo. Se o Fantasma divino mostrar seu verdadeiro poder, ele não poderá ficar apenas de braços cruzados. E talvez nós tenhamos de intervir.
O objetivo de Adler era ver Krai conquistando o Fantasma. Ela não o ajudava por bondade. Se o plano seguisse sem revelarem nada… naquele momento, Adler e os outros tomariam suas próprias providências.
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Após uma noite sem dormir e com o corpo pesado, Selene dirigiu-se ao laboratório de Sitri. Era madrugada, mas todos já estavam lá: Lucia, responsável pela fabricação; Sitri, a líder estratégica; e a equipe Starlight, liderada por Lapis. O time de reconhecimento, Liz, Tino e Eliza, e também Ansem estavam fora, provavelmente reforçando as defesas.
Os soldados de Yggdra eram fortes, mas não agiam sem ordens superiores. Era sua lealdade, mas às vezes era frustrante. Já a Grieving Souls agia por conta própria, com flexibilidade. Em crises, essa independência era mais útil que a obediência cega.
O único que dava dores de cabeça era o Mil Truques, imprevisível como sempre.
Ruine disse apenas uma frase antes de desmaiar novamente. Estar vivo já era um milagre. As palavras dele da noite anterior ainda ecoavam no coração de Selene, ferindo seu orgulho:
— Que tipo de roupa é essa que a senhora está usando, princesa?
Ela queria perguntar o mesmo. Foi forçada por aquele homem a vestir aquilo. Agora, ela usava novamente seus trajes de princesa, feitos de plantas ricas em mana, com proteções sagradas. Ter caído na lábia dele e usado a Férias Perfeitas foi um erro crasso. Ela já imaginava as críticas de Ruine, seu mentor de magia, ao acordar.
Ao ver o rosto corado de Selene, Sitri sorriu casualmente.
— Bom dia, Selene-san. Então finalmente parou de usar a Férias Perfeitas?
— Uh… n-não é que eu quisesse usar… Aquele… aquele homem me obrigou…
Sitri apenas ignorou os protestos.
— Vamos começar a produção dos dispositivos. O tempo é curto, precisamos terminar hoje. Temos Mana Potions, então deve dar.
Diante de um círculo mágico desenhado com tinta especial, Lucia Rogier fechou os olhos. A equipe Starlight observava com seriedade. A concentração de Lucia era absoluta; o mana que fluia dela era extraordinário, superando até mesmo os Espíritos Nobres.
Ela bateu seu cajado no chão e entoou encantamentos em sequência. Cinco luzes mágicas surgiram e mergulharam no círculo. O material começou a ser moldado pelo fogo. Vento, água, terra e fogo, os quatro elementos se fundiram em uma magia complexa. Kris Argent suspirou, impressionada:
— Lucia-san, você é um gênio, desu. Aprender a conjuração múltipla tão rápido com apenas algumas dicas daquele Humano Fraco, desu…
— Ele costuma dar tarefas impossíveis. Se não fizermos, as coisas ficam piores depois.
Lucia falava como se fosse algo comum, mas qualquer Magi saberia que aquilo era insano. Conjurar várias magias ao mesmo tempo era quase impossível; o método de Ruine usava atrasos temporais, mas o que Lucia fazia era manipulação direta e simultânea. Se ela fosse de Yggdra, seria a maior de todos.
— Ouvi dizer que você criou muitas magias novas a pedido do Mil Truques…
— …Se quiserem, posso ensinar. Mas são magias meio problemáticas, então não sei se seriam úteis.
O processo continuava. Vidro fundido era moldado com precisão cirúrgica pelo círculo mágico. Em minutos, o dispositivo estava pronto: um cone invertido com um tubo de vidro espiralado, com cerca de um metro de altura. Lucia respirava pesadamente.
— Terminei. Exige muito esforço físico e mágico.
— Bom trabalho. Este é o Agitador de Mana Material. É a versão de testes; basta inserir uma Pedra Mágica como fonte de energia e pronto.
Os Espíritos Nobres detestavam metal, mas vidro era aceitável. Mesmo assim, o objeto parecia sinistro para Selene. Tinha uma aura similar ao altar nas profundezas do Cofre do Tesouro. Instinto de sobrevivência? Talvez os humanos precisassem de algo tão louco quanto a natureza para enfrentá-la.
— Uma Pedra Mágica, entendi. Eu tenho uma aqui.
Selene ia colocar sua própria gema no dispositivo quando…
— Espere! — gritou Sitri. Selene estacou.
Sitri continuou com voz sombria.
— Não instale ainda. O Mana Material é complexo; se ativarmos no lugar errado, não sei o que pode acontecer. Podemos acabar destruindo o mundo com nossas próprias mãos antes de encontrarmos o Deus.
Selene recuou, trêmula. O dispositivo brilhava sob o sol. Lucia censurou Sitri:
— Siddy, não a assuste. Você esperou de propósito ela quase tocar para avisar, não foi?
— Eh…?
Selene olhou para Sitri, que apenas bateu palmas.
— Quando a Liz e os outros voltarem com o local de instalação, começamos. Até lá, vamos fabricar mais.
O trabalho continuou até o pôr do sol. Lucia estava exausta; conjurar cinco magias simultaneamente drenava seu mana e foco. Selene e a Starlight ajudaram no processamento das gemas em Pedras Mágicas.
Apesar do cansaço, havia esperança. O resgate de Ruine lhes dera fôlego. Então, o grupo de reconhecimento retornou: Liz, Eliza, Tino e Adler. Estavam ilesos, mas Liz parecia séria.
— Bem-vindas. Aconteceu algo? — perguntou Lucia.
— Nenhum ataque, mas sinto que estamos sendo observadas o tempo todo. É uma sensação horrível.
— …Eu também senti. No momento em que entramos na floresta — confirmou Tino, tremendo.
A consciência do Cofre do Tesouro estava alerta. Liz estalou a língua.
— Fui até a barreira do Cofre. Aqueles Fantasmas de máscara preta apenas ficaram lá, nos encarando. Tentei provocá-los, mas não reagiram. Se o Luke-chan estivesse aqui, ele cortaria aquela barreira.
Eliza, sonolenta, suspirou:
— Eles estão apenas nos vigiando por enquanto. Mas se algo acontecer, eles certamente atacarão com tudo.
Os Fantasmas eram fortes. Nenhum guerreiro de Yggdra jamais voltara após enfrentá-los. O confronto final estava se aproximando.
Mesmo que Selene participasse da luta, a disparidade de poder entre as forças de Yggdra e os Fantasmas era claramente grande demais.
Como se lesse a ansiedade de Selene, Sitri soltou um suspiro enquanto franzia as sobrancelhas.
— Ora, ora… isso vai ser complicado de novo. Depois que este dispositivo for ativado, levará um tempo até que os efeitos surjam. Além disso, precisamos ativar vários deles simultaneamente.
Liz deu um bufo, parecendo cada vez mais irritada.
— Bem, não saberemos até tentarmos lutar, certo? Adler, mostre que você também pode ser útil!
— Normalmente eu diria “por que eu deveria…”, mas tudo bem, eu entendo. Se quisermos continuar perto do Mil Truques, precisamos mostrar que também somos confiáveis.
Adler abriu um sorriso astuto.
Selene tentou imaginar como seria a batalha futura, enquanto recordava a figura de Krai. No entanto, ela não conseguia prever minimamente o que aconteceria.
Selene não sabia de nada. Não sabia o que os Fantasmas pensavam, quantos eram, quão fortes eram ou o tamanho da diferença de poder entre eles e o exército de Yggdra.
Em uma batalha, a sorte também desempenha seu papel. Mesmo um Espírito Nobre, com capacidades superiores às de um humano comum, não poderia controlar o rumo do combate conforme sua vontade.
E, até agora, Krai Andrey ainda não havia dado as caras.
Onde ele estaria exatamente? O que estaria fazendo?
Ou… será que tudo isso já fazia parte do plano dele?
No meio do silêncio, Selene ouviu a voz hesitante de uma garota.
— Eliza-san… err, eu queria te perguntar uma coisa… Suas pernas não estão coçando de vontade de fugir?
— …Desde o começo, eu quis fugir sem parar. Esta é uma batalha que dificilmente venceremos. Se pensarmos logicamente, é claro. A diferença é grande demais.
— !? …E-Então vai ser aquele tipo de batalha de novo…
— Mas já chegamos a este ponto. Agora não há mais caminho de volta. Nossa única opção é proteger este dispositivo até o fim.
Tino murmurou desanimada, enquanto Eliza exibia uma expressão séria raramente vista.
Como era de se esperar, parecia que, mesmo para uma caçadora veterana como ela, aquela luta não seria algo fácil de vencer.
Contudo, como Eliza dissera, eles não tinham escolha a não ser seguir em frente. Para Selene e os demais, aquela era a última chance de redimir o fracasso em deter a fúria da Árvore do Mundo.
O que precisavam evitar naquela situação era recuar e entregar tudo nas mãos da Grieving Souls. Se isso acontecesse, mesmo com a Starlight resistindo, não seriam capazes de fazer nada. Além disso, precisavam da ajuda do Mil Truques.
Selene olhou para o rosto de cada pessoa ao seu redor e disse com a voz mais firme que pôde, demonstrando sua autoridade:
— Eu ainda sou uma princesa de Yggdra. Minha experiência pode não ser vasta, mas se eu usar o poder de Miles da Criação, posso enfrentar os Fantasmas do Santuário das Origens. Quando Ruine acordar, ele certamente também lutará ao nosso lado.
A razão para a Grieving Souls estar ali era, de fato, ajudar seus companheiros. Mas, se tivessem que escolher entre desfazer a maldição de Shero ou deter a fúria da Árvore do Mundo, a resposta era clara.
Observando a expressão de Selene, Sitri deu um pequeno sorriso.
— Haah… Não se preocupe. Nós não vamos recuar. Pelo menos enquanto o Krai-san não der a ordem para bater em retirada — Sitri virou-se para a outra companheira. — Uno-san, como está a situação do fluxo das Linhas Ley?
— Sim, eu já verifiquei mais ou menos as partes que estão conectadas~ Não deve haver nada de importante faltando~
Uno estendeu o mapa da área circundante. No centro dele, a Árvore do Mundo erguia-se como o núcleo, enquanto grossas linhas vermelhas se cruzavam ao seu redor. Parecia ser o resultado das observações feitas com o Espelho da Realidade enquanto Liz e os outros realizavam a checagem de campo.
Sitri recebeu o mapa e o comparou com um mapa antigo que Selene havia trazido da biblioteca de Yggdra.
— É quase idêntico ao mapa geológico feito há quinhentos anos.
— Eu só tive tempo de circular por esta área uma vez~ Já desenhei as partes que consegui verificar, mas… não posso garantir que esteja 100% preciso. Se eu der mais algumas voltas, devo conseguir criar um mapa com maior precisão.
Selene, na verdade, não sabia nada sobre o Agitador de Mana Material, fosse sobre o princípio de funcionamento ou os requisitos de operação.
Embora Yggdra fosse mais avançada em termos de tecnologia mágica, eles jamais haviam pensado em manipular as Linhas Ley dessa maneira.
Após refletir por um instante, Sitri balançou a cabeça.
— …… Não. Por ora, vamos tentar calcular os locais de instalação dos dispositivos usando os dados que temos. Esta é uma oportunidade rara de testar esta teoria. Além disso, se estivermos realmente sendo vigiados, não temos muito tempo. Selene-san, dê a sua opinião também. O sucesso deste plano determinará o destino do mundo.
Agitador de Mana Material.
Pelo próprio nome, o dispositivo foi claramente projetado para desestabilizar o fluxo de Mana Material.
Sitri comparou as Linhas Ley a rios, o Mana Material à água e o dispositivo a uma barreira. Ao interromper o fluxo de Mana Material, eles poderiam acumular mais energia em um único ponto do que o normal.
O Mana Material não fluía de forma tão suave quanto a água, e havia diferenças de natureza entre um rio comum e uma Linha Ley, mas o ponto crucial era: originalmente, aquele dispositivo fora criado para fortalecer um Cofre do Tesouro ao empilhar energia em um só lugar.
No entanto, agora Sitri Smart tinha a ideia insana de usar o dispositivo de forma inversa, aproveitando a natureza do Mana Material para “desviar” o fluxo das Linhas Ley e formar um novo caminho. Teoricamente, era possível. Mas…
— As Linhas Ley são caminhos para o fluxo de Mana Material. Então, se pudermos criar um caminho artificial para o Mana Material, isso também poderia ser chamado de Linha Ley, não é? Como criar um afluente a partir de um rio principal…
Em Yggdra, eles usavam o fluxo de Mana Material há muito tempo para a ativação de diversos tipos de magia. A barreira gigante que protegia Yggdra dependia dessa energia, assim como o labirinto da Árvore Divina. Comparado ao mundo humano, que restringia a pesquisa sobre o Mana Material, a tecnologia deles era muito mais avançada.
Selene já compreendia o funcionamento do dispositivo em linhas gerais. De sua perspectiva, o plano de Sitri não era impossível.
Mas, ainda assim…
— Nós já usamos este dispositivo para fortalecer algo, mas nunca para enfraquecê-lo. Porém, a teoria é clara: é possível. Em teoria!!
Enquanto cerrava os punhos, Sitri falava com entusiasmo.
Lucia era realmente extraordinária por continuar lutando contra Finis, que possuía um poder esmagador, mas Sitri Smart era ainda mais louca.
Imagine só: no momento em que o mundo estava prestes a perecer diante de seus olhos, ela queria testar uma forma de usar um dispositivo que nunca foi sequer testado antes.
Ela continuava dizendo “em teoria é possível”, mas aquilo parecia muito mais um experimento do que uma estratégia. Sem contar que determinar os locais de instalação também não era uma tarefa simples. Sitri dizia que, desde que fosse instalado no lugar certo, o dispositivo funcionaria, mas quem saberia se esse lugar realmente existia?
A estrutura do fluxo das Linhas Ley era diferente em cada lugar. Portanto, os locais de instalação só poderiam ser determinados com base em estimativas brutas e, até que os dispositivos fossem ligados, ninguém saberia se funcionaria ou não.
Selene concordava com o plano, mas não esperava que houvesse tantos fatores de incerteza. E, apesar da situação de emergência, a decisão do Mil Truques de entregar tudo nas mãos de Sitri mostrava quão calmos eles eram ao enfrentar uma crise (talvez).
— Levará um pouco de tempo para instalar estes dispositivos. Além disso, teremos que protegê-los até que o efeito seja totalmente ativado. Não posso prever a extensão da interferência vinda do Santuário das Origens, então teremos que dividir nossas forças para guardar cada dispositivo — explicou Sitri enquanto estendia o mapa.
No mapa, havia várias marcações em pontos específicos. As interseções mais importantes do fluxo das Linhas Ley, onde o Mana Material se acumulava em grandes quantidades. De todas as interseções, apenas as mais significativas foram marcadas.
Ao ver o mapa, Liz franziu a testa.
— Siddy, por que as marcações estão apenas nas interseções das Linhas Ley no lado sul? O fluxo de energia também não vem do norte? Vamos simplesmente ignorar o norte?
— É porque nos falta pessoal. Se pudermos focar apenas no sul, poderemos ao menos reduzir pela metade o poder do Santuário das Origens. Cuidaremos do norte depois… O que você acha, Eliza-san?
Os Espíritos Nobres do deserto costumavam ter mais talento como caçadores do que como magi. Eliza piscou algumas vezes ao ouvir a pergunta de Sitri e, finalmente, resignou-se.
— Acho que o norte pode ser resolvido depois.
— Mas seu instinto diz para fugirmos, não é?
— …Sim, meu instinto diz isso. Mas dá no mesmo. Continua sendo perigoso. Eu já aceitei. Vamos encontrar uma maneira de resistir.
Eliza possuía um instinto aguçado que podia ler sinais de perigo invisíveis, e foi isso que a permitiu sobreviver sozinha. Mas, em uma situação como aquela, seu instinto não ajudava muito.
Selene só podia se sentir grata. Não apenas porque Eliza já havia salvado Shero, mas também porque agora ela estava disposta a lutar contra o caos da Árvore do Mundo. Se tudo aquilo pudesse ser resolvido, Selene teria que encontrar uma forma de retribuir o favor.
— Na segunda fase da operação de invasão ao Santuário das Origens, focaremos inteiramente na instalação dos dispositivos e em sua proteção. Vamos instalá-los no lado sul primeiro e observar o efeito. Para desviar o fluxo de Mana Material, devemos ligar todos os dispositivos simultaneamente. Isso significa que teremos que proteger esses aparelhos com o número mínimo possível de pessoas — explicou Sitri.
Ela apontou para a área ao sul da Árvore do Mundo e desenhou uma linha de oeste para leste.
— Vamos desestabilizar o fluxo de Mana Material que entra pelo sul da Árvore do Mundo e direcioná-lo para o leste com a ajuda destes dispositivos.
Ao ouvir o plano explicado diretamente, parecia algo genuinamente insano.
Uno olhou para Sitri com hesitação.
— …Nós realmente podemos fazer isso? Quero dizer, se estamos falando do Mana Material que flui do sul, isso significa que estamos lidando com metade da energia que se espalha pelo mundo inteiro, certo? E para onde esse Mana Material desviado será descartado?
Como alguém capaz de ver o Mana Material, Uno sabia a magnitude da energia que estavam enfrentando. O fluxo para a Árvore do Mundo já era mais do que suficiente para sustentar o sistema de defesa de Yggdra e construir o labirinto da Árvore Divina com um custo energético mínimo.
Sitri pigarreou brevemente antes de responder.
— Vamos desviar esse Mana Material diretamente para as Linhas Ley externas. Por enquanto, isso não deve ser um problema. Em teoria, deve funcionar, embora eu admita que ainda existam algumas partes que não consigo prever. Mas o mais importante agora é lidarmos primeiro com o Santuário das Origens.
Aparentemente, após resolverem o problema do Santuário das Origens, eles ainda teriam que enfrentar um problema maior.
— O desafio agora é determinar os locais de instalação. Pelos meus cálculos, há pelo menos oito pontos onde devemos instalar estes dispositivos, não importa o que aconteça.
Oito pontos.
Assim que essas palavras foram ditas, a sala mergulhou em um silêncio absoluto.
O inimigo que enfrentavam eram os Fantasmas do Santuário das Origens. Além disso, poderiam ser atacados por Bestas Fantasmagóricas ou Bestas Mágicas.
Eram muitos pontos para cobrir.
Atualmente, além de Selene, o número de combatentes disponíveis era: seis membros da Grieving Souls, Tino, seis da Starlight e três da Night Parade. No total, dezesseis pessoas. E, entre elas, havia quem não fosse particularmente forte em combate.
Em meio ao silêncio, Sitri enfatizou mais uma vez:
— Não precisamos derrotar o inimigo. O importante é conseguirmos defender estes dispositivos até o fim.
— Sim, mas… eles são muitos. E ainda não sabemos quão fortes são os Fantasmas deles… Hmph.
Adler lambeu os lábios e apontou para um dos pontos no centro do mapa.
— Não adianta pensar demais. A Night Parade assumirá este ponto. Yuden logo poderá lutar novamente, então esta escolha deve ser razoável.
Selene não sabia ao certo quão fortes eram Adler e sua equipe. Ela apenas ouviu que eles podiam controlar monstros, mas nunca vira pessoalmente como faziam isso. Sitri sorriu ao ouvir a decisão.
— Muito bem… Então, quem guardará qual ponto será decidido pelo sistema de “quem chegar primeiro, leva”. Se Adler-san e sua equipe puderem monitorar a situação ao redor usando o Espelho da Realidade, faz sentido que eles guardem o ponto central.
Depois disso, foi a vez da Grieving Souls e da Starlight começarem a discutir entre si.
Na defesa, o equilíbrio da equipe era fundamental. No mínimo, um magi deveria formar par com um combatente de linha de frente.
— A Grieving Souls tem três caçadores do tipo ladino, uma alquimista, uma magi e um paladino. Se eu pegar um ponto, Lucia-chan outro, Ansem outro, Eliza-chan outro e, por fim, Tino e Siddy guardarem um, poderemos defender cinco pontos, certo? — sugeriu Liz.
— !? O-onee-sama!? Isso é claramente exagerado, não é!? — exclamou Tino.
— …Não é possível. Também precisamos de força de ataque — ponderou Sitri.
— Podemos tentar defender dois dispositivos ao mesmo tempo em uma única equipe, se for necessário.
Liz e seu grupo começaram a debater ferozmente, enquanto, do outro lado, a Starlight também parecia ter dificuldade em definir uma estratégia.
Lapis olhou para suas companheiras e murmurou com o rosto sério:
— Do ponto de vista de cooperação, podemos nos dividir em trios… Mas se nos dividirmos em grupos menores, nossa força será muito reduzida. Se falharmos em defender o dispositivo, tudo terá sido em vão.
— Nós não somos como a Grieving Souls, que pode lutar sozinha, desu — comentou Kris.
— Poderíamos tentar combinar os ladrões deles com as nossas magi.
— Não é garantido que todos os dispositivos serão atacados simultaneamente. O mais perigoso seria… o ponto mais a oeste e o mais a leste. Precisamos das equipes mais fortes para guardar esses dois pontos.
Os pontos determinados por Sitri baseavam-se nas interseções das Linhas Ley, não em uma divisão geográfica uniforme. Como a Starlight apontou, os dois pontos mais perigosos eram as extremidades oeste e leste. Eles ficavam próximos ao Santuário das Origens e distantes dos outros pontos; se fossem atacados, seria difícil obter reforços.
Selene respirou fundo e apontou para o ponto mais a leste.
— Eu… guardarei o dispositivo que estiver aqui.
— …Você tem certeza? Eu não a incluí nesta estratégia…
Sitri pareceu surpresa. Suas palavras irritaram Selene levemente, como se ela fosse considerada pouco confiável. Mas Selene afastou esse sentimento. A realidade era que ela pouco contribuíra para o plano até então.
Selene Yggdra Frestel era uma princesa, uma líder. Durante toda a vida, quase nunca pisara em um campo de batalha. Por ser proibida de morrer, recuar não era uma opção.
— Não há problema. Se falharmos aqui, não haverá segunda chance.
— …Está bem. Agora precisamos de todo o pessoal disponível. Mas esse ponto provavelmente se tornará o campo de batalha mais pesado. Com quem você quer formar equipe?
Ao ouvir isso, Selene estreitou os olhos.
Não significava que ela não soubesse lutar. Ela possuía poder, mas escolhera não lutar. Fora uma decisão necessária, porém difícil de aceitar.
Ela cruzou os braços e declarou com confiança:
— Não me subestime, humana. Eu sozinha sou o suficiente. Eu tenho… Miles da Criação comigo.
Miles da Criação, o Guardião Espiritual, o Criador. De fato, no passado ele perdeu a sanidade e quase consumiu Selene, mas seu poder era extraordinário. Em termos de poder de ataque puro, talvez perdesse para Finis, mas era apenas uma questão de estilo de combate. Miles era o espírito escolhido pelos guerreiros de Yggdra para proteger Selene, uma princesa que não podia simplesmente morrer.
— …Muito bem. Se a própria Princesa de Yggdra diz isso, eu acreditarei. Então, para a divisão dos outros cinco pontos…
— …Mais cinco pontos.
De repente, uma voz familiar ecoou.
O peito de Selene apertou. Sitri e os outros viraram-se imediatamente para a porta, surpresos com a voz que surgira subitamente.
Lá estava alguém vestindo o manto de magi negro como a noite, tão familiar — um Espírito Nobre que ela não via há muito tempo.

Entre os Espíritos Nobres, não eram muitos os que gostavam de vestir roupas pretas, e, entre eles, havia apenas um que possuía olhos vermelhos brilhantes como chamas ardentes. Um magi e shaman que outrora fora chamado de o mais forte de Yggdra.
Aquele Espírito Nobre Superior entrou pressionando a cabeça, os olhos semicerrados como se acabasse de despertar de um longo sonho, observando cada pessoa que focava nele antes de abrir a boca, com sua voz rouca e reconfortante ecoando claramente pela sala.
— Parece… que acabei de acordar de um sonho muito longo.
— Ruine!! …Você já acordou!?
— Sim. Princesa Selene. É bom vê-la bem. Minhas memórias ainda estão um pouco confusas, mas lembro-me bem do momento em que voltei. E parece que acordei em um momento… muito oportuno.
Ruine não mudou absolutamente nada em duzentos anos. Embora estivesse preso em um Fantasma, não parecia haver problemas com seu corpo, emanando um mana calmo e típico de Yggdra, conhecido antigamente por ser extremamente poderoso.
Sem se importar com os olhares curiosos, Ruine caminhou até o centro da sala, erguendo o pequeno cajado que carregava e batendo-o em um ponto do mapa.
— Sei que é repentino, mas… deixem o lado oeste comigo. Eu e a Destruidora, Finis, cuidaremos disso.
Todos ficaram em silêncio.
Diante de uma Selene ainda chocada, como se respondesse às palavras de Ruine, gotas de um líquido com cor de grama seca caíram do ar. As gotas se reuniram rapidamente, formando uma esfera exatamente igual a Miles. Era Finis.
— Parece que Finis está com vergonha, disse Ruine calmamente, — ela diz que está com muita vergonha de se mostrar diante da senhora, Princesa Selene. Quem diria que a poderosa Finis poderia sentir vergonha. No entanto, eu também não posso ficar parado. Se a própria Princesa de Yggdra vai ao campo de batalha…
— Ruine… não me diga que você consegue usar o poder de Finis?
— …Sim. Parece que o contrato que fiz com ela enquanto estava preso na máscara ainda é válido.
Aquelas palavras eram difíceis de acreditar. Até então, nenhum Espírito Nobre jamais conseguiu firmar um contrato com Finis e tomar seu poder emprestado. Como se tudo estivesse destinado a favorecê-los, a situação começava a virar para Selene e sua equipe. Talvez… eles realmente pudessem conquistar o Santuário das Origens.
Ruine olhou para Sitri, que ainda franzia a testa, e apontou com o queixo para a porta atrás de si.
— Já recebi uma explicação sobre a situação atual por ele. Posso me juntar a vocês?
— Yaaah, bom dia.
Vinda de trás da porta, uma voz preguiçosa soou. A figura do Mil Truques finalmente apareceu, com um tom de voz que não demonstrava sinal algum de que estavam em uma situação crítica.
Ele não foi visto durante a reunião estratégica, então, ele estava com Ruine? Ou seria possível que o despertar de Ruine também fizesse parte de seus planos?
— Krai-san…
— Ele estava curioso, então dei uma explicação rápida. Ele quer lutar. Por que não?
Suas palavras soavam relaxadas demais, como se não estivessem se preparando para uma operação extremamente perigosa. No meio de tudo aquilo, ainda havia a possibilidade de alguém perder a vida, ou de todos serem aniquilados, mas no tom de Krai não havia preocupação.
Observando a atitude relaxada de sempre do Mil Truques, Liz fez um bico e resmungou:
— Eh… mas, Krai-chan, isso não é justo! Aparecer de repente e pegar a parte mais legal! Eu e a T também queremos enfrentar muitos Fantasmas!
— !? M-Mas eu não disse isso…
Tino murmurou baixinho, mas Liz nem a ouviu, falando ainda mais alto com o líder que parecia resignado.
— Além disso! Eu não me importo, mas assim a parte do Krai-chan desaparece, não é? A Princesa Selene ficar com o lado leste perigoso tudo bem, mas se o Ruine também ficar com o oeste que é igualmente perigoso, não parece meio injusto?
— …É verdade. Nesse caso, não me importo de ser colocado em qualquer lugar. Farei o meu melhor onde quer que eu seja designado.
Então, este humano… não é apenas bom em criar estratégias, mas também tem habilidades de combate?
Como esperado de alguém que liderava a Grieving Souls. Quando Ruine deu essa abertura, o Mil Truques olhou ao redor com preguiça e soltou um suspiro exagerado.
— Aaah, sim, sim, então deixe o lado oeste para o Ruine. Não estou interessado em lugares perigosos assim…
— É verdade. Mil Truques, queremos ver sua habilidade também. Discutimos muito até aqui, mas, de qualquer forma, você é o líder. No mínimo, tem o direito de escolher o lugar que irá guardar. O que acha?
Antes que Krai continuasse, Adler o interrompeu. O plano foi feito por Sitri, mas quem o aprovava era Krai. Como líder, ele deveria decidir sua posição. Krai Andrey possuía o Nível 8, a prova de um herói. Além disso, era o irmão de Lucia, que derrotou Finis. Embora não parecesse forte à primeira vista, se ele dissesse que guardaria um ponto sozinho como Selene, não seria estranho.
Ninguém se opôs à sugestão de Adler. Sitri entregou o mapa marcado com os oito pontos de instalação dos dispositivos. O Mil Truques franziu a testa por um momento, olhando para Sitri.
— Eu até queria escolher, mas tudo isso chegou até aqui graças a todos vocês. Não me sinto bem pegando a parte mais legal só para mim…
— Bem, é porque se o Krai-san intervir, tudo fica fácil demais…
Da boca de Sitri saíram palavras absurdas. Fácil? Ela disse fácil!? Seria em termos de poder de luta ou de sua genialidade tática? O humano pareceu entrar em pânico e respondeu rapidamente:
— F-Fácil? E-Eu não quis dizer isso! Isso não é verdade, não é… Ei, Sitri, você entende o que eu quero dizer, certo? Eu não quero escolher nenhum destes pontos.
— …Tudo bem, eu entendo, Krai-san.
Não escolher nenhum…? Mas naquela operação, eles não tinham margem de erro. Se tivessem sucesso, poderiam eliminar um Deus. Se falhassem, seria o fim. Era uma aposta de tudo ou nada. Ele pretendia ficar em Yggdra e planejar algo para o momento crítico?
Selene não era a única a pensar assim; Adler e a Starlight também o encaravam com incredulidade. No entanto, em meio ao silêncio, Sitri falou com uma voz que soava animada:
— Não escolher nenhum… Então, em outras palavras… o Krai-san vai cuidar do lado norte, certo?
— Sim, sim, exatamente! ………… Eh?
Todos ficaram em silêncio novamente, mas por um motivo diferente. Cuidar do lado norte? Ele disse que ia cuidar do lado norte sozinho!? O fluxo das Linhas Ley no norte era quase o mesmo do sul. Embora os cálculos não estivessem prontos, a quantidade não seria muito diferente. Eles acabaram de discutir como todos deveriam lutar desesperadamente no sul, e agora um homem dizia que cuidaria da mesma quantidade sozinho? Era demais.
Mesmo Ruine, controlando Finis, não seria capaz disso. Ou ele tinha certeza de que não seria atacado? Mesmo que tivesse um jeito de reduzir os inimigos, ainda era loucura, pois o Santuário das Origens era vasto demais para ser guardado fisicamente por uma pessoa.
Até para os que trabalhavam com Krai, aquilo soava fora da realidade. Lucia o encarou com o rosto tenso.
— …Irmão, o que você vai fazer desta vez? Não tem como guardar isso sozinho, certo? Se vai fazer algo absurdo assim, prefiro que lute conosco.
— Lutar!? ……………… E-eehh, não, se for para lutar… bem… eu também tenho coisas que quero fazer. Não esperem muito, mas… não seria exatamente guardar… hmm… mais para… sim, talvez eu possa ganhar tempo? O que acham?
Ganhar tempo.
Aquelas palavras relaxaram um pouco a tensão de todos. Em vez de algo insano como derrubar todos os Fantasmas, soava mais realista, embora segurar um exército enquanto os dispositivos carregavam não fosse tarefa simples.
Adler, processando a ideia, soltou uma risada.
— Kukuku… interessante. É assim que deve ser o Mil Truques, que criou tantas lendas.
— Embora os dispositivos que preparamos sejam apenas para o sul… se pudermos distrair os Fantasmas no norte, nossa chance de sucesso aumenta.
— Acho que combina com o Krai-chan. Uma ação legal e chamativa.
Sitri juntou as palmas das mãos e sorriu. Liz, antes brava, agora parecia animada. Ninguém sabia que truque ele usaria, mas considerando como ele controlara a situação sem mover um dedo até agora, era provável que tivesse algo preparado.
Selene respirou fundo, falando com a voz contida, quase como uma súplica:
— Humano, sei que não estou em posição de pedir isso, mas… tenho um favor.
— Eh? …Ainda tem mais?
O Mil Truques piscou, confuso. Entregar o norte a ele daria um grande impulso para deter a fúria da Árvore do Mundo, mas havia um problema.
— Se for possível… peço que atraia os Fantasmas sem matá-los. Não digo todos, mas… há a possibilidade de que alguns habitantes de Yggdra desaparecidos tenham sido tomados…
Se o palpite de Uno estivesse certo, a única forma de salvá-los seria usando o poder da drenagem para apagar a parte Fantasma. Ninguém sabia quantos eram; talvez apenas Ruine pudesse ser salvo por sua força, enquanto os outros estivessem perdidos. Mas Selene não podia desistir.
Ganhar tempo sem matar era muito mais difícil do que simplesmente aniquilar. Selene baixou a cabeça ao implorar, mas o Mil Truques apenas sorriu calmamente:
— Oh, só isso? Sim, sim, sem problemas. Eu entendo, há a chance de terem sido possuídos, certo? Fique tranquila, quando o assunto é não matar o inimigo, eu sou profissional! Na verdade, eu não tinha intenção de matá-los desde o começo.
— !? E-Eu estou muito grata!
Selene ficou sem palavras pela facilidade com que o pedido foi aceito. Os caçadores sabiam o quão difícil era atrair Fantasmas sem derrotá-los. Quanta confiança ele tinha para aceitar sem hesitar? Seu rosto não mostrava objeção.
Até agora, Selene não sentia aura de poder na atitude relaxada do Mil Truques, mas aquele sorriso vazio parecia estranhamente confiável. Ela nunca imaginou que um humano pudesse ser um aliado tão fiel. Se tudo desse certo, Yggdra deveria considerar novos laços com eles.
— Então, deixo o resto com vocês. Eu… ainda tenho algumas coisas para fazer…
O que ele quis dizer com “algumas coisas”? Com um sorriso de canto, o humano saiu da sala apressado.
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De algum jeito, acabei me metendo em uma situação complicada. Coçando a cabeça, saí do laboratório onde todos estavam reunidos. Eu só tinha ido levar o Ruine de volta, mas acabei ganhando uma tarefa.
Sou o tipo de pessoa que recebe muitos pedidos estranhos. Às vezes do Gark-san, às vezes alguém me pede ajuda do nada, ou percebo que já me mandaram fazer algo. Parece que o mundo adora dar trabalho para caçadores de nível alto.
Encontrei o Ruine, um Espírito Nobre, quando saí do quarto para caminhar por Yggdra, atraído pela atmosfera lá fora. O gênero dele não era claro, com cabelo curto e olhos que pareciam chamas. Além de Selene, era a primeira vez que um cidadão de Yggdra falava comigo; normalmente eles fugiam antes que eu pudesse dizer “oi”.
Ruine queria entender a situação, já que tinha acabado de acordar e estava indo ver Selene. Pela conversa, percebi que ele tinha ligação com o plano da Sitri. Ele tinha sido pego pela máscara e virou um Fantasma, perdendo a consciência no Santuário das Origens até ser libertado ontem.
Quando ouvi isso, percebi que ele era o homem que vi na cama do hospital. Dizem que Ruine Saintos Frestel é um dos melhores magi de Yggdra. Se ele conseguia duelar com a Lucia enquanto era controlado, obviamente não era qualquer um.
Eu odeio coisas problemáticas, mas se não for perigoso, não gastar energia e ajudar meus amigos, eu participo. Não entendo o plano da Sitri, mas sei que mais força é melhor. Por isso, expliquei a situação para ele e o levei até Selene.
— O que a Selene e os outros estão pensando, afinal?
Resmunguei voltando para o quarto. Não deveria ter saído. Honestamente, eu esperava que o Ruine ajudasse no plano, mas quem fez a Árvore do Mundo enlouquecer foram eles, nós só estamos ajudando. Por que eu tenho que lutar também?
Se eu fosse útil, eu ajudaria! Mas o problema é que… eu sou inútil! Vou apenas atrapalhar! Sou um peso morto! Seria melhor se eu nem estivesse aqui!
Sentei na cama e suspirei. Em poucos minutos, minha energia já era zero. Pelo menos escapei de lutar contra Fantasmas perigosos. Se eu não tivesse traumas de missões perigosas, teria sido arrastado para o campo de batalha. Acabei com a tarefa de “ganhar tempo”, o que é melhor do que lutar.
Não matar os Fantasmas? Claro, eu não conseguiria matá-los de qualquer jeito! Embora meu ataque físico seja ridículo, sou bom em fugir. Além dos meus Anel de Proteçãos, trouxe relíquias úteis e posso me esconder no Mimic-kun. Além disso, se tem algo em que sou mestre, é em ser isca. Fantasmas, monstros, bandidos e até raios parecem me ter como alvo. Se acontece tantas vezes, deve ser destino.
Olhei para o Mimic-kun ao meu lado e suspirei.
— …Bem, pelo menos preciso me preparar.
Mas que preparação? Meus Anel de Proteçãos estão carregados, assim como as outras relíquias. Só preciso pegar a Férias Perfeitas de volta com a Selene. Não sei o que vou precisar exatamente.
— Norte, ganhar tempo no norte…
Murmurei, mas só conheço o básico do plano. A ideia de ganhar tempo foi espontânea para evitar a luta direta. O plano envolve os dispositivos de Mana Material, mas não há nada para instalar no norte… Então só preciso atrair os Fantasmas e correr?
Preciso de algo para atrasá-los. Fugir gasta tempo, mas se eu puder assustá-los ou fazê-los hesitar, estarei mais seguro. Ninguém pode me proteger desta vez, pois o pessoal é escasso. Se eles se ocuparem me protegendo e o plano falhar, será um desastre. Se fossem os Fantasmas da Lost Inn, bastaria conversar.
Pensei muito e não achei solução, então peguei o celular.
— Acho que o único jeito de saber como atrasar um Fantasma é perguntando para um.
Mandei mensagem para a imouto raposa. Sendo um Fantasma de Cofre do Tesouro, ela deve saber.
— “Preciso atrasar uns Fantasmas. Tem algum jeito bom?”
A resposta veio na hora. Ela é viciada em celular.
— “Não me mande mensagem. Não sou sua amiga.”
Que grosseria, somos amigos de chat. Se eu desistisse fácil, não falaria com ninguém. Digitei de novo:
— “Ajuda aí, por favor.”
— “Me dê tofu frito.”
— “Preciso de um jeito de ganhar o máximo de tempo possível.”
— “Se quer ajuda, primeiro o tofu.”
Ela é viciada em tofu frito? Se eu quisesse atrasá-la, bastaria colocar tofu na frente dela. Sem opção, guardei o celular e pensei sério. Talvez o Anel de Disparo para disparar balas mágicas? Mas contra o Cavaleiro Lobo da Covil do Lobo Branco o efeito foi mínimo. Preciso de algo forte.
Não tenho relíquias de ataque reais, apenas a Manifestação do Desejo com a magia da Lucia, mas é uso único. Algo fácil de usar, forte, reutilizável, que chame atenção e alcance longe… como a Corrente Canina.
Então, lembrei de algo. Algo fácil, forte, sem limite de uso, de longo alcance e extremamente chamativo. Há riscos, mas… que se dane. Com determinação, enfiei a mão no Mimic-kun e puxei algo.
— Um urso de pelúcia amaldiçoado com um pingente no pescoço.
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Os Espíritos Nobres vivem muito mais que os humanos, e os Espíritos Nobres Superiores são quase imortais em relação à idade, mas o tempo flui igualmente para todos. O dia da batalha chegaria.
Eles tinham o hábito de acalmar a mente em locais de energia forte antes de grandes lutas. Nas extremidades de Yggdra, Selene e Ruine banhavam-se em uma fonte para um ritual pré-combate. Fazia duzentos anos que ele sumira, e havia muito a dizer, mas antes da luta, o assunto era apenas um.
Ao ouvir sobre a chegada da Grieving Souls, Ruine riu baixo.
— Krai Andrey… um humano interessante. Se a situação é como você diz, Princesa Selene, então o Mil Truques pode até brincar com o Deus Mascarado, Keller, na palma de sua mão.
Keller, o Deus Mascarado. Era uma das poucas informações que Ruine trouxe do Santuário das Origens. Keller podia colocar máscaras em seres vivos e transformá-los em seus servos. Ruine foi capturado e transformado assim, e provavelmente os outros guerreiros também. Ele não sabia muito mais, pois sua consciência ficou vaga durante séculos. Keller sequer constava na história de Yggdra; devia ser um Deus Antigo tentando renascer no centro do mundo.
— Tenha esperança, Princesa Selene. A estratégia desse humano me trouxe de volta. Se ele trouxer a vitória, seguirei seu plano, por mais estranho que seja.
Ruine tentava acalmá-la com sua voz familiar. Selene então perguntou:
— Ruine, por que você parou de lutar contra a Lucia? Pareceu olhar para mim antes de parar… sua consciência voltou ali?
Era importante saber. Se guerreiros transformados pudessem recuperar a consciência ao ver Selene, poderiam identificar aliados. Ruine hesitou antes de responder:
— Se eu disser que não estava consciente, estaria mentindo. Minha consciência estava fraca, mas eu lembrava de Yggdra. Senti uma saudade profunda ao voltar e senti que não deveria atacar.
Selene lembrou do que a Sitri dissera: Ruine parecia hesitante e agia defensivamente. Então a alma de Yggdra ainda estava lá. Talvez por isso nenhum Fantasma tenha atacado a cidade antes; as memórias subconscientes os impediam. Ruine suspirou e a olhou de forma complexa:
— Mas o motivo de eu ter parado de atacar, de eu ter ficado estático… foi porque a outrora honrada Princesa de Yggdra estava com uma aparência e expressão tão lamentáveis. Senti como se levasse um soco. Minha consciência clareou na hora. Eu, seu antigo mentor, quase morri de vergonha por você.
— !? U-Ughh!
O tom formal dele era cruel. O rosto de Selene ferveu. Ela só se vestiu assim por causa da Relíquia do Krai. Em duzentos anos, ela nunca fora inapropriada, exceto naquele momento. Por isso Ruine comentou sobre suas roupas ao acordar.
Será que aquele humano deu a relíquia de propósito para isso acontecer? Ruine resmungou:
— …Talvez, se a Princesa usar aquela roupa de novo, possamos identificar quem eram nossos companheiros.
— !? Você está brincando, certo!? Eu não farei isso! Como eu poderia aparecer assim diante de meus valentes companheiros!? Prefiro morrer a vestir aquilo de novo!! Uuuugh!!
Aquele humano era imperdoável. Selene jurou vingança em seu coração.
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O Espelho da Realidade refletia o exército mascarado no Santuário das Origens. Eram centenas de Fantasmas de vários tipos, cada um com poder real. Se um Cofre do Tesouro em forma de templo era a versão mais forte de um em forma de castelo, os relatos eram verdadeiros.
Enfrentar um inimigo muito mais forte era o que empolgava Adler. Era um desafio inédito. Eles tinham pouco pessoal e um caçador incomum ao seu lado… e o Mil Truques dizia que cuidaria de metade deles sozinho. Adler tinha certeza de que aquela luta entraria para a história da Night Parade.
Em um jardim isolado de Yggdra, Adler sorriu:
— Interessante… kukuku…
— Faz tempo que não lutamos em número tão reduzido.
Quint estava sentado com expressão séria. À sua frente, o último soldado de cartas, o remanescente de seu exército. A Night Parade costumava vencer pelo número, então lutar em desvantagem era algo novo. Além disso, Quint perdeu seu trunfo, o Ciclope Negro Zorc. Este soldado de cartas era forte, mas acostumado a lutar em grupo.
— Adler tem o Yuden, Uno tem o Ripper. Mas eu? Sou um general, como posso ter apenas um soldado?
— Seu soldado foi fortalecido com Mana Material, não? Além disso, ele cuidou do Yuden, permitindo que se recuperasse a tempo.
— Meu exército não nasceu para ser babá!!
O Star-EaterCentipede era resistente, mas apenas a cabeça não fazia nada. Enquanto aprendiam com o Krai, o soldado cuidou do Yuden. O Mana Material em Yggdra era denso, mas sem comida, água e poções, a regeneração não terminaria a tempo.
— Bem, ainda temos o Ripper, então daremos um jeito, certo~? Quint, você só tem esse soldado, por que não luta junto com ele? — disse Uno.
— Eles pegaram minha espada.
Quint era um espadachim habilidoso, essencial para liderar monstros. Na Night Parade, ele era um dos melhores em duelo individual. Mas na primeira luta contra a Grieving Souls, sua espada foi tomada. Ele suspirou irritado. Uno comentou:
— Pegue de volta, ora. Somos aliados agora. Se pedir ao Mil Truques, ele devolve.
— !! É verdade!!
— Precisamos preparar tudo para conquistar ainda mais…
Adler lambeu os lábios olhando os Fantasmas no espelho. Apenas deuses notariam a espionagem do Espelho da Realidade, então estavam seguros. O método para domar Fantasmas era incerto, mas a operação era a chance perfeita. Adler não esperaria passivamente pelas ações do Krai. Se a fase dois desse certo, o Cofre enfraqueceria. Adler precisava de números.
Pelas histórias do Ruine, havia dois tipos de Fantasmas: ex-moradores de Yggdra e Fantasmas originais. Como Controlador, Adler tinha instinto para diferenciá-los.
— A cor das máscaras… os Fantasmas enviados por aquele homem usam máscaras douradas! Já o Ruine usava uma preta! Se a máscara representa a fé no deus Keller, a cor mostra a origem!
Embora fossem Fantasmas, tinham inteligência. Keller enviou Ruine e Finis para patrulhar, talvez por confiar menos neles do que nos Fantasmas originais. E de fato, Ruine hesitou ao atacar Yggdra. Agora, Adler observava a entrada do Santuário das Origens. Máscaras pretas ficavam fora, douradas dentro, em maior número. Perto do altar, só havia máscaras douradas.
— Deixem as máscaras pretas para eles. Os Fantasmas do Mil Truques também são de máscara dourada; ele não precisa de Fantasmas comuns. Selene quer apenas seus companheiros. Nossos interesses não conflitam.
— Mas, Adler… como vai domá-los? Ainda não sabemos como, certo? — perguntou Quint.
Adler sorriu confiante:
— Não, eu já tenho um palpite. As pistas estão em todo lugar.
— !? Sério!?
Uno arregalou os olhos. Adler continuou:
— É algo louco, mas simples. Ontem espiei o Mil Truques pelo Espelho da Realidade e eu vi.
Fantasmas não temem a morte, então métodos comuns falham, mas eles têm intelecto.
— Eu vi! O Mil Truques conversava com um Fantasma usando um aparelho de comunicação! Nunca o vimos lutar, certo? A resposta é que o método para domar Fantasmas é a negociação!!
— !!
— Isso é ridículo… mas talvez faça sentido? Nunca tentamos falar com eles — disse Quint.
Eles nunca pensaram nisso. Era um pensamento fora da caixa. Quem tentaria negociar com um Fantasma poderoso? Parecia loucura, mas tudo em Yggdra apontava para isso. Encontrar a Grieving Souls fora a escolha certa para expandir seus horizontes.
— Vale a pena tentar, não? Hoje abriremos uma nova porta como Controladores!
Já exploraram muitos lugares, mas o Nível 10 era inédito. Adler sentia medo e antecipação. A batalha estava próxima.
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Nas profundezas do Santuário das Origens, em um altar negro feito de Mana Material, o deus Keller acordou. A existência de um deus consome muita energia, e o despertar de sua consciência instável sobrecarregou o Cofre do Tesouro.
Os sacerdotes no altar perceberam o despertar e abriram os olhos, conectados à vontade divina. A aura maligna espalhou-se pelo templo. Keller sentiu algo errado, uma inquietação que o puxou para a superfície. Um deus não precisa de provas, apenas um pressentimento basta para mover seus servos.
A defesa do Santuário era forte, mas ficar apenas na defensiva era perigoso. O pressentimento vinha de fora. Havia seres inteligentes ao redor que poderiam estar planejando algo. Keller enviou ordens para aumentar a guarda e mandou seguidores recentes para fora para eliminar ameaças. Se morressem, não importava. Keller voltou a dormir, esperando a recuperação total de seu corpo.
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Sem tempo para preparos reais, o dia da batalha chegou. Já estive em muitas lutas assim, a maioria sem querer. Acordei, lavei o rosto, tomei café e me vesti com meus itens de sempre, incluindo os Anel de Proteçãos, mas sem a Férias Perfeitas. Esqueci de pegá-la com a Selene e, honestamente, fiquei com medo de como ela mudou com a relíquia.
Fui ao portão e todos já estavam lá: Grieving Souls, Starlight, Night Parade e os magi de Yggdra. Estavam todos animados para uma missão suicida. Sendo o único inútil ali, eu só queria fugir.
— Não precisam me esperar. Minha parte não é importante — disse eu.
Meu trabalho era atrair os Fantasmas enquanto os outros ativavam os Agitadores de Mana Material. É perigoso, mas melhor do que carregar aparelhos que não sei usar. Fugir eu sei fazer. Sitri me cumprimentou animada, dizendo que minha presença aumentava o moral. Não sei como, mas eles pareciam empolgados. Ela tentou me dar um Agitador, mas recusei. Já tenho meus métodos e não quero quebrar algo caro.
— Onii-chan, tem certeza de que cuidará do norte sozinho? — perguntou Lucia, preocupada.
Lutar? Nem pensar. Prefiro fugir e ganhar tempo.
— Relaxa. Pedi ajuda com todo o coração e alguém aceitou.
— ??? Pediu ajuda? — ela estranhou.
— Foque no seu trabalho, Lucia. O plano depende de vocês. Eu vou apenas ajudar um pouco — avisei, para não esperarem muito.
Saímos pela floresta escura sob um céu nublado. A Árvore do Mundo parecia gigantesca acima de nós. O plano era defender oito pontos ao sul para criar um novo fluxo de Mana Material, enquanto o norte ficava sob minha responsabilidade.
Chegamos ao primeiro ponto, uma clareira com uma fonte.
— Mil Truques, chame o Miles. Krai-san, tire o dispositivo! — ordenou Selene.
Mandei o Mimic-kun cuspir o Agitador e o Miles. O aparelho parecia um funil de vidro estranho de dois metros. Miles parecia recuperado, parecendo um grande pão doce brilhante. Ele e Selene guardariam aquele ponto. Ruine falou com Miles em linguagem espiritual, que eu não entendo, pedindo sua força.
Miles então flutuou até mim, brilhando e emitindo sons de sinos. Ruine e os outros ficaram sérios. Eu apenas sorri e disse:
— Haha… não entendi nada.
Eles pararam estáticos.
— Bem, faremos o nosso melhor. Eu farei minha parte, então cuide da Selene, ok? — falei.
Eu estava confortável, pois havia muitos aliados poderosos ali. Banhado em um clima de confiança, vi Miles se desculpar comigo (segundo a Lapis). Eu não guardo rancor, o tempo não volta atrás. Selene prometeu qualquer recompensa se vencêssemos.
— Recompensa não precisa. A gente se ajuda — respondi.
Selene ficou chocada com meu desprendimento. Não é falta de ambição, é falta de responsabilidade. Sem pagamento, não tenho obrigação se algo der errado. Sitri, que cuida do dinheiro, apenas sorriu.
Sitri explicou que o efeito dos aparelhos levaria tempo para enfraquecer o Cofre. Seria uma luta longa. Às dez horas, a operação começou. Recebi uma gema azul, a fonte de energia.
A Night Parade partiu com o Yuden, a Centopeia gigante que agora estava mais curta, mas supostamente mais forte. Adler disse que me observaria pelo Espelho da Realidade. A Starlight também partiu, criando soldados de lama e plantas para servirem de escudo.
Lapis disse que eu era forte e que se preocupar comigo era perda de tempo. Mal sabe ela. Selene usou o poder do Miles para criar centenas de soldados de terra. Ela estava tensa, mas determinada. Ela ativou o Agitador, e o Mana Material começou a ser sugado e espalhado como ondas.
O dispositivo era uma genialidade louca. Ao sul, o fluxo para o Santuário seria reduzido pela metade. Selene agora esperava, protegida por seu exército de terra, enquanto o destino do mundo começava a girar.
A esta altura, a anomalia certamente já foi detectada dentro do Santuário das Origens. Os Fantasmas começariam a buscar a fonte daquela interferência e logo perceberiam a presença deles.
Enquanto continuava observando o dispositivo funcionar, Selene tentava sentir a presença dos Fantasmas. Naquele instante, Miles, que flutuava perto dela, emitiu um som límpido como o de um sino, transmitindo informações.
— …Há sete deles, todos do tipo fera, possivelmente uma unidade de batedores.
Cinco deles tinham forma de lobo, os outros dois assemelhavam-se a lagartos, como os que Eliza e as outras enfrentaram anteriormente. Eles não emitiam som algum ao caminhar, mas não podiam escapar da visão de Miles, pois o vento, a terra e as árvores, tudo fazia parte dele.
Naquele momento, Selene e Miles estavam conectados por uma força invisível. Seus sentidos expandidos avisavam que os Fantasmas estavam se aproximando, sem som, sem sinais de presença, mas em alta velocidade. Se fosse um ataque surpresa, talvez tivessem sido derrotados em um único golpe antes mesmo de reagirem. Não importava quão forte fosse um magi, se atacado antes de conseguir usar magia, não haveria nada a ser feito.
Contudo, Selene não estava desprevenida. Embora ela não tivesse muita experiência de combate, aquilo não importava, pois a floresta era a aliada de Selene Yggdra Frestel. Ela segurou seu cajado favorito com força e sussurrou:
— …Miles.
Não houve necessidade de ordens, Miles já compreendia o desejo dela com perfeição. A terra sob seus pés se elevou formando um grande pilar, levando Selene para o alto, acima das copas das árvores. O exército de terra criado por Miles voltou-se simultaneamente para a direção de onde vinham os Fantasmas.
Selene olhou para baixo. O Mana Material expelido pelo dispositivo continuava a se espalhar. Devido à altura, ela não conseguia ver os Fantasmas escondidos sob a folhagem, mas precisamente por causa disso, ela certamente era um alvo visível à distância.
O número de Fantasmas não era infinito. Quanto mais ela atraísse para si, mais fácil seria o trabalho das outras equipes. Miles reportou algo novamente, fazendo-a franzir a testa.
— Mais quinze unidades, todas do tipo fera. Parece que eles estão nos subestimando.
Por sorte, eram do tipo fera. Nenhum guerreiro de Yggdra possuía aquela forma. Não havia necessidade de capturá-los, bastava destruir todos de uma vez.
O movimento deles começou a diminuir, já que aquelas criaturas claramente possuíam alta inteligência. Eles tentavam cercar e atacar por todos os lados, mas não havia motivos para esperar que eles dessem o primeiro passo.
Selene bateu o cajado no solo e gritou, dissipando qualquer hesitação em seu interior:
— Ataquem!!
A terra tremeu violentamente. Centenas de soldados de terra, que já estavam de prontidão, avançaram sobre os Fantasmas simultaneamente.

Os Fantasmas responderam ao contra-ataque repentino sem emitir o menor som, pararam de ocultar sua presença, destruíram os soldados de terra que os prendiam com um único movimento do corpo e saltaram para frente. Suas peles rígidas mal foram afetadas pelos ataques dos soldados de terra, e cada um de seus contra-ataques reduzia os combatentes de barro a pedaços com facilidade.
Tudo conforme o esperado, aqueles soldados de terra, em um combate um contra um, realmente não possuíam grande poder. Ou, sendo mais preciso, eles nem sequer eram “soldados” de verdade. Tinham mãos, pés e cabeças, mas não possuíam pontos fracos. Quem os controlava era Miles. Para Miles, o senhor da terra, aqueles “soldados” eram apenas aglomerados de barro humanoides, e seus ataques eram meras ondas de terra atingindo o inimigo.
Novos soldados de terra começaram a se formar, Miles acelerou o processo. O barro dos soldados destruídos era reutilizado para criar novos. O solo sob os pés dos Fantasmas transformou-se em lama, dificultando seus movimentos. Em vez de eliminá-los com ataques diretos, era mais rápido enterrá-los vivos.
Os Fantasmas começaram a se contorcer e debater, percebendo o perigo que os ameaçava, mas já era tarde demais.
— Voltem para a terra.
Trek! Um som horrível ecoou, causando desconforto nos ouvidos. Vários Fantasmas simplesmente desapareceram de existência. Miles controlou a terra que os cobria, comprimindo-a até esmagá-los. Seus corpos eram duros e tinham alta resistência, mas se fossem pressionados continuamente até serem moídos, eles ainda morreriam.
Alguns Fantasmas em forma de lagarto conseguiram escapar da armadilha de terra e saltaram em direção a Selene. O solo já havia virado lama, mas eles ainda podiam saltar tão longe? Selene quase ficou impressionada, até que os viu abrindo suas bocas simultaneamente.
— Ngh!?
Luzes se acumularam dentro de suas bocas e foram disparadas instantaneamente contra ela. No entanto, o ataque nunca atingiu Selene. Uma espessa parede de terra surgiu do solo, bloqueando o disparo. A superfície da parede avermelhou devido ao calor, e a temperatura ao redor subiu imediatamente, mas o ataque não conseguiu atravessar. Em vez disso, Selene desmoronou a parede sobre os Fantasmas, esmagando-os sob o peso.
Os movimentos deles enfraqueceram, até que desapareceram por completo. O silêncio voltou a reinar no local. Aquela primeira batalha durou apenas cerca de cinco minutos.
Selene apoiou-se em seu cajado, tentando controlar a respiração descompassada, enquanto limpava o suor que escorria por sua testa. Estava tudo bem, ela não estava ferida, mas não sentia o gosto da vitória. Se aqueles Fantasmas conseguiram resistir a Miles, mesmo que por pouco tempo, significava que eram inimigos poderosos. Os outros membros da equipe podiam ser mais experientes em combate do que Selene, mas se o número fosse igual ao de agora, não conseguiriam resistir por muito tempo. E ninguém sabia quando viria a terceira onda.
Selene voltou sua atenção para o dispositivo que estava sendo usado. Ao observar a condição do fluxo das Linhas Ley, ela perdeu a fala por um momento.
— O… o Mana Material que se espalhava… está voltando para o lugar de origem?
O dispositivo ainda funcionava perfeitamente. No entanto, o fluxo de Mana Material, que deveria se dispersar amplamente e mudar sua rota, estava sendo atraído de volta para o fluxo principal no solo. Se visto de cima, parecia um afluente que se ramificava apenas para se fundir novamente ao rio principal. Em outras palavras, a quantidade de energia fluindo para o Cofre do Tesouro não diminuíra em nada.
Teria sido obra dos Fantasmas de antes? Não… parecia que não. Selene apressou-se em verificar as outras equipes que também haviam ativado seus dispositivos. O resultado era o mesmo. O aparelho conseguia absorver e dispersar o Mana Material, mas eles ainda não haviam conseguido criar uma nova corrente. A dispersão ainda era insuficiente.
Para que o Mana Material pudesse formar um novo caminho e se libertar do fluxo principal das Linhas Ley, todos os dispositivos precisavam estar conectados entre si através das correntes que haviam desestabilizado. O Mana Material sempre era atraído para lugares com energia mais forte. Essa era a razão pela qual os seres vivos podiam absorver o Mana Material, a razão pela qual a energia que acabavam de dispersar voltava para a Linha Ley principal e o motivo pelo qual o plano de Sitri exigia que todos os dispositivos fossem ativados simultaneamente.
— Houve um erro de cálculo… o tamanho do dispositivo é insuficiente…? Não, este plano sempre teve muitas variáveis incertas desde o início.
O plano falhara. Não importava quão forte fosse a defesa deles, tudo seria em vão. Selene podia ver até mesmo que o Mana Material dos Fantasmas recém-derrotados estava sendo absorvido pelas Linhas Ley. A quantidade era pequena, mas se continuasse assim, cedo ou tarde fluiria para o Santuário das Origens.
Eu estava mentalmente preparada para a possibilidade de falha, mas este é realmente o pior cenário.
Selene precisava avisar os outros imediatamente, caso contrário, continuariam lutando em vão. Miles informou que outro grupo de Fantasmas se aproximava à distância, mas Selene não tinha tempo para enfrentá-los agora. Ela fez a terra retornar ao normal e respirou fundo para manter a calma.
A estratégia não está errada. Tenho certeza de que se instalarmos dispositivos mais potentes, isso funcionará.
De repente, ouviu-se um pequeno som de rachadura. No meio de seus pensamentos, que quase explodiam sob pressão, Selene forçou-se a olhar para a fonte do som. O vidro do Agitador de Mana Material. Havia uma pequena rachadura que continuava se espalhando, até que…
— !? Como isso é possível!?
O dispositivo estilhaçou-se em mil pedaços, e a Pedra Mágica que servia de fonte de energia rolou pelo chão. Selene pensara que a situação já era péssima, mas acabara de descobrir que podia piorar. E o pior de tudo era que ela não entendia por que aquilo aconteceu.
Selene congelou, incapaz de pensar. Então, ao longe, viu uma luz vermelha ser disparada para o céu. O sinal para recuar e trazer os dispositivos de volta. Ela forçou seu corpo trêmulo a se mover e iniciou o processo de retirada.
Ao chegar à base de operações, onde Sitri ativou o seu dispositivo, quase todas as equipes já estavam reunidas. Ao mesmo tempo, Ruine, que guardava o lado oposto, também chegou. O lugar estava cheio de marcas de batalha. Não era tão grave quanto o ponto de Selene, mas era evidente que muitos Fantasmas haviam atacado. O familiar de Sitri, que usava um saco de papel na cabeça, estava carregando os corpos dos Fantasmas.
Mas o problema não terminara. Vários Fantasmas em forma de fera começavam a se aproximar. O número ainda era pequeno, talvez estivessem apenas observando, mas era questão de tempo até atacarem com tudo. Havia uma barreira montada por Ansem, mas não duraria muito.
Sitri parecia irritada. Assim que Selene viu seu rosto, gritou sem conseguir se conter:
— O que aconteceu!? O dispositivo se despedaçou!!
Selene sabia que deveria manter a calma, mas não conseguiu se conter. Afinal, aquela missão determinava o destino do mundo. Sitri suspirou e ergueu um instrumento de medição com ponteiros e escalas.
— Este experimento foi um fracasso total. A causa é simples: a quantidade de Mana Material nas Linhas Ley é muito maior do que prevíamos. O dispositivo funcionou normalmente, mas falhou em criar um novo fluxo.
Mesmo naquela situação crítica, sob a pressão da aproximação dos Fantasmas, Sitri explicou com um tom calmo:
— Este é o medidor de Mana Material que fabricamos junto com os dispositivos. Veja, o ponteiro atingiu o limite máximo à direita, não é? Isso significa que a quantidade de Mana Material nesta Linha Ley já ultrapassou o limite que prevíamos. Em suma, nosso Agitador de Mana Material não é forte o suficiente para suportar tal volume. Pode-se dizer que erramos nos cálculos, mas considerando quantos fatores ainda não compreendemos sobre as Linhas Ley, bem… não havia muito o que fazer.
O dispositivo que Sitri instalou ainda estava intacto. Parecia que a quantidade de Mana Material fluindo naquele ponto era ligeiramente inferior à do ponto guardado por Selene. No início, o aparelho de Selene também funcionou sem problemas; talvez ele estivesse no limiar de sua capacidade e quebrou logo após a derrota dos Fantasmas, possivelmente porque a energia liberada pelas mortes ultrapassou o limite suportado.
De qualquer forma, a situação atual era insustentável.
— M-Mas isso ainda pode ser consertado, certo!? Você não disse que os parâmetros poderiam ser ajustados?
Selene lembrava-se bem de Sitri mencionando que as variáveis no círculo mágico poderiam ser alteradas para ajustar o desempenho. No entanto, a resposta que recebeu foi mais cruel do que imaginava.
— Não é possível. Desde o início, usei quase todo o vidro disponível para criar os dispositivos mais fortes possíveis. Se eu tivesse economizado material e falhado, seria ainda pior… Além disso, Lucia-chan certamente esgotou muito de seu mana para criar estes aparelhos.
— …Com razão… embora digam que qualquer magi poderia fabricá-los, sinto que o consumo de energia foi grande demais — comentou Lucia, com uma expressão amarga.
Por que ela ainda consegue estar tão calma nesta situação?
Lapis, visivelmente irritada, olhou para Sitri e perguntou em tom ríspido:
— Hmph… Entendo. Mas pergunto novamente: os dispositivos podem ser modificados?
— No momento, é difícil. Teríamos que reiniciar a pesquisa do zero. Além disso, os colegas que pesquisaram isso comigo foram presos… eh, esqueçam. O ponto é que, embora pareça simples, este dispositivo foi fruto de uma longa pesquisa pelos melhores especialistas que pudemos reunir…
Selene sabia o quão difícil era pesquisar o Mana Material. Mesmo Yggdra levara anos para criar magias de defesa. Ela queria chorar, mas não era o momento. O que precisavam fazer agora era recuar. Quer mantivessem o plano ou o alterassem, permanecer ali seria inútil. Enquanto o número de Fantasmas aumentava, os soldados de terra serviam de pouco contra o inimigo.
Miles era forte, mas não invencível. Ele podia se cansar e, ao atacar, sua defesa diminuía. Ele vencera antes, mas se fosse cercado por centenas de Fantasmas, seria destruído. Magi eram frágeis. Continuar lutando contra grupos de Fantasmas que podiam matá-los com um golpe não era uma escolha inteligente.
— Vamos recuar. Pensaremos no próximo passo em Yggdra.
Nem tudo podia correr perfeitamente… Ou talvez, até agora, tivessem tido sorte demais. Ainda faltavam cem anos para aquele Deus despertar. Em tanto tempo, certamente poderiam aperfeiçoar o dispositivo. Por ora, voltar para Yggdra e focar na defesa era a melhor opção. A única preocupação de Selene era se aquele fracasso atrairia problemas ainda maiores.
— …Ouvi dizer que a taxa de sucesso de vocês era de cem por cento. Então até o Mil Truques pode falhar?
Ela estava confiante demais após ver como conseguiram salvar Miles e trazer Ruine de volta. Mas o Mil Truques também era humano, e ela deveria ter percebido que a falha era sempre uma possibilidade. No entanto, a atitude relaxada que o homem sempre demonstrava às vezes a irritava. Será que essa expressão despreocupada mudaria se ele soubesse da situação?
Quando Sitri piscou e trocou olhares com os membros da Grieving Souls, pareceu confusa antes de finalmente dizer:
— …Não, quem tem cem por cento de sucesso e nunca falha é o Krai-san. Quem falhou agora fui eu, não ele.
— …Eh?
Selene olhou ao redor, mas o Mil Truques ainda não havia retornado. Além disso, a Night Parade não estava em lugar algum. Naquele momento, subitamente, alguém caiu de uma árvore gigantesca próxima. Eliza Peck aterrissou levemente no chão, olhou para Sitri e disse:
— Sitri, os Fantasmas… parece que eles fugiram. Ou melhor… parece que encontraram um novo alvo…
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Eu avançava pela floresta, cortando o vento com agilidade. Em pouco tempo, a habilidade da Tino em controlar o Carp-kun subiu de nível novamente. Ela manobrava rapidamente entre as árvores, cruzando frestas estreitas sem problemas. Mesmo que houvesse galhos no caminho, ela os desviava antes que nos atingissem, assim eu não recebi um arranhão sequer.
Apesar de carregar o Mimic-kun, a Tino e eu, a velocidade do Carp-kun permanecia alta. Se fosse eu no controle, já teria batido em uma árvore há muito tempo. O rosto da Tino, enquanto pilotava, estava sério. Bem, não era para menos, ela acabou de ter o azar com o incidente do item amaldiçoado ontem. Mas, comparado a treinar pesado com a Liz, fugir comigo era muito melhor, não?
— A-A pressão… é avassaladora! Já circulamos bastante, mas…! Mestre, sinto aquele olhar sobre nós… Então é este o nível de um Cofre do Tesouro Nível 10!?
— …Sim, sim, exatamente.
A voz da Tino tremia, cheia de pavor, mas seu corpo já não balançava mais. Ela devia estar mentalmente preparada. Em situações desesperadoras, um verdadeiro caçador mostra seu valor. Enquanto isso, eu? Não sentia nada nos observando… Mas tudo bem. Tino continuava controlando o tapete, virando ocasionalmente para ajustar a direção. Era difícil acreditar que aquela garota à minha frente, há alguns anos, não tinha ligação com combates. Agora, ela começava a rivalizar com minha única especialidade: usar relíquias.
Estava grato por ter trazido a Tino. Nesta floresta, onde tudo parecia igual, eu já teria me perdido há muito tempo.
— Mestre… quando chegarmos… o que devo fazer? Sinceramente… lutarei com todas as minhas forças, mas contra Fantasmas do Santuário das Origens, talvez eu ainda não seja forte o suficiente.
— Sim, sim, é verdade. Mas fique calma, nosso objetivo desta vez é apenas ganhar tempo. Quanto à luta, já tenho um plano. Se precisar, você pode se esconder dentro do Mimic-kun.
Eu também provavelmente me esconderia. Mas que coragem a dela, dizer que lutaria até a morte contra Fantasmas de Nível 10… Tino foi contagiada pela imprudência deles. Ela respirou fundo várias vezes e virou-se para mim com o rosto determinado.
— Não… fui escolhida pelo Mestre. Desta vez provarei que sou confiável! Se eu continuar me escondendo, nunca serei uma grande caçadora!!
— …W-Uau, que incrível! Tino, você é fantástica.
Ela parecia cheia de energia. Senti-me um pouco culpado… Então, se eu me escondesse o tempo todo, também não seria um grande caçador? Tino sempre superava minhas expectativas. Mesmo agora, sua pilotagem estava além do esperado. Honestamente, eu deixava tudo com ela, da navegação ao controle do veículo.
— Não, ainda não sou tão incrível assim, Mestre… Umm, a partir daqui entramos na área norte. Onde deseja descer? — perguntou ela, com as bochechas levemente coradas.
Então já chegamos ao norte? Nem percebi… Bem, florestas são todas iguais mesmo. Chegamos a uma área levemente aberta, com espaço suficiente para instalar o dispositivo, então parecia um bom lugar. Sitri disse que eu podia agir livremente. O foco principal era o grupo dela, então se eu atraísse os Fantasmas e aliviasse o fardo deles, já seria um grande sucesso para mim.
— Pode me deixar aqui mesmo.
— !? Ehh? A-Aqui?
Tino arregalou os olhos, chocada, mas obedeceu e desceu o tapete. A partir de agora, seria uma corrida contra o tempo.
— Vou me preparar, então, Tino, vigie o Santuário das Origens!
— V-Vigiar eu vigio, mas o Santuário das Origens está bem na… N-Não, não é nada. Entendido.
— Se algum Fantasma se aproximar, segure-os como puder. Ou, se possível, acabe com eles de uma vez.
— Fueh!?
Tino soltou um som estranho. Enquanto ela estava estática, aproximei-me do Mimic-kun e pedi que cuspisse o que eu precisava. O Mimic-kun vomitou algo enorme, o Agitador de Mana Material. Quanto mais eu olhava, mais estranho aquele aparelho parecia. A estrutura era simples, mas como aquilo controlava o Mana Material que nem era visível? O mundo era cheio de mistérios.
Mas tudo bem, eu não precisava entender o funcionamento, apenas como usá-lo. Sitri dissera que eu podia agir livremente, mas eu pretendia sincronizar a ativação com o plano dela. Após checar o relógio, vi que ainda restava um pouco de tempo. Era a chance de usar meu trunfo.
Tino me observava de soslaio, curiosa sobre o que eu faria. Dei a ordem ao Mimic-kun com uma voz digna de um detetive de filme noir:
— Mimic-kun, cuspa aquele item amaldiçoado que guardei ontem.
— !? Item amaldiçoado!?
Tino reagiu intensamente. Fiquei satisfeito com o choque dela. Afinal, das minhas relíquias, nenhuma era forte o suficiente contra Fantasmas de Nível 10. Mas se não fosse uma relíquia… havia uma coisa. Uma das causas do caos na capital anterormente. Uma das piores maldições criadas pelos humanos, algo que lutara de igual para igual contra o Ark e outros caçadores poderosos. E, de alguma forma, após tudo acabar, aquilo caiu em minhas mãos.
O Mimic-kun obedeceu e começou a vomitar os itens. Um pingente em forma de cruz, um urso de pelúcia, uma espada com bainha negra e um longo cajado torto. Na verdade, eu só precisava do urso, mas acho que errei o jeito de pedir. Deixei a espada e o cajado de lado e peguei o urso de pelúcia que eu queria, o Lamento de Marin, e pendurei o pingente em seu pescoço.
Ao ver o que eu retirei, Tino ficou em choque.
— Não pode ser… mas… a forma está diferente do que eu conheço?
— Sim, é porque eu o consertei.
Quando encontrei o Lamento de Marin pela primeira vez, o urso estava velho e totalmente esfarrapado. Tinha uma cor acinzentada, furos por toda parte, e um dos olhos e um braço estavam quase caindo. Não parecia ter sido danificado em batalha, mas sim abandonado por muito tempo. Embora eu tenha tido azar por causa da Marin, não tive coragem de deixar aquele urso — ou melhor, aquela maldição — naquele estado deplorável. Usei uma poção de limpeza especial para caçadores, costurei os rasgos, troquei o enchimento e até lhe dei roupas novas. E, tcharã! Agora parecia um urso novo! Ou melhor, tornara-se algo diferente.
— !? Consertou!? Você realmente CONSERTOU um item amaldiçoado!? Mas o Lamento de Marin não foi destruída pelo ataque de Shero!?
— Você achou isso, não foi? Mas ela apenas ficou estática, não significava que tinha desaparecido de verdade.
Consegui contato com ela após terminar o conserto. Ela apareceu em meu sonho. Já esqueci o sonho, mas talvez ela quisesse apenas agradecer. Parecia que o ódio dela pelos humanos diminu, mas não completamente. O que significava que ainda era perigosa. Mas, no incidente da capital, ela me protegeu do ataque final da Shero, então, ao menos aos olhos dela, eu não era tão ruim.
Coloquei o urso reparado no chão. Quem não soubesse pensaria ser apenas um brinquedo comum, não uma maldição que nem a Igreja da Luz pôde lidar. Esperei um momento, mas o urso não reagiu. O pingente no pescoço deveria conter o Cavaleiro Negro também, mas ele não apareceu. Ontem, quando implorei para que lutasse, ela assentiu, mas será que desistiu na hora H? Se fosse o caso, eu apenas subiria no Carp-kun e fugiria.
Mas não houve reação. Oh, certo! Hora do truque final: a oferenda. Se eu demonstrasse respeito, Marin apareceria. Procurei na minha bolsa de relíquias. Diferente do Mimic-kun, esta bolsa era um item defeituoso que só servia para guardar barras de chocolate. Peguei uma barra de chocolate que sempre carrego e a coloquei sobre a cabeça do urso. Empilhei duas, três, até cinco barras…
Subitamente, o urso foi arrebatado. Surgindo do nada, uma garota abraçou o urso de pelúcia com força. Ao seu lado, um cavaleiro negro como piche estava parado como uma estátua.
Lamento de Marin.
A garota que se tornou uma maldição devido à tragédia que sofreu. Desta vez, ela parecia muito mais calma do que na primeira vez que a vi. O vestido queimado era o mesmo, mas seu rosto e membros, que antes pareciam um cadáver em decomposição, haviam retornado ao estado humano. Sua expressão também não era apenas de puro ódio. Mesmo assim, ela me olhava com irritação. Bem, era esperado. Ela aceitara ajudar, mas não com prazer. Ao menos, não vi intenção assassina em seus olhos.
Juntei as mãos em prece, peguei as barras de chocolate que caíram e as estendi para Marin, dizendo:
— … Aqui está, por favor, aceite.

— Por favor. Eu vou dar um upgrade na boneca para você.
— ……Não… me chame…
— M—Mestre! Não me diga que… você vai soltar o Lamento de Marin neles!? E também… ela consegue falar!?
Tino gritou em choque. Era uma ótima ideia, não era? Se você não tem força própria, basta usar o estilo de luta dos fracos. Além disso, se Shero podia falar, não havia nada de estranho em Marin também conseguir.
— Soltá-la soa meio mal… eu só pedi para ela ajudar um pouco.
Eu não gostava da ideia de mandar uma criança lutar, mas já conhecia o quão aterrorizante era o poder de Marin. Ela podia ter perdido para Shero, mas contra simples Fantasmas do Santuário das Origens, ela deveria dar conta. Além disso, Marin não possuía forma física, então, mesmo sendo atacada, ela não morreria. Somado a isso, havia a maldição do Cavaleiro Negro.
E, justamente agora, acabei de pensar em algo curioso, as maldições também têm suas vantagens. Apontei para a espada e o cajado jogados no chão, as armas amaldiçoadas que haviam causado o caos na Academia de Magia e no Dojô do Santo da Espada.
— Vamos, pegue essa espada e esse cajado.
— ……
Exatamente, ela poderia usar armas amaldiçoadas sem sofrer efeitos colaterais. Normalmente, armas desse tipo possuem um poder insano, mas com um preço que não pode ser ignorado. Eu não sabia o efeito daquele cajado, mas a espada claramente fora capaz de reduzir o Dojô do Santo da Espada a escombros. Se a Marin, que já era poderosa, fosse armada desse jeito, ela se tornaria um verdadeiro monstro.
Mesmo sem armas, Marin e o Cavaleiro Negro podiam lutar de igual para igual com caçadores veteranos, incluindo Ark e a própria Igreja da Luz. Com armas, não importava quantos Fantasmas aparecessem, não seriam uma ameaça.
Marin e o Cavaleiro Negro, com movimentos lentos, pegaram suas armas. Tino virou-se subitamente para a floresta com o rosto tenso.
— M—Mestre! Estou sentindo algo… os Fantasmas estão se aproximando!!
— Oh, obrigado. Já está na hora, então…?
Embora o dispositivo ainda não tivesse sido ligado, eles já estavam atacando? Eu não sentia nada, mas olhei para o relógio e notei que o tempo já havia passado do cronograma. Como Marin demorou muito para aparecer, Sitri e os outros já deviam ter começado. Bem, vamos ligar o nosso também.
Peguei a Pedra Mágica que Sitri me dera e a inseri na abertura do dispositivo. O tubo de vidro vibrou sem emitir som. Achei que haveria algum efeito sonoro ou luz dramática, mas a reação foi bem discreta. Isso estava realmente funcionando?
Tino arregalou os olhos, com a voz tremendo:
— Este som… esta aura… Eles estão suprimindo o som dos passos, mas posso senti-los… É—é uma quantidade extraordinária!!
Tentei aguçar os ouvidos, mas além do som do vento, não consegui ouvir nada. Embora fosse uma ladra, o instinto de Tino já estava no nível de um monstro, possivelmente porque, ao enfrentar tantos perigos, seus sentidos se tornaram mais aguçados graças ao poder do Mana Material.
— Hmm, qual é a quantidade aproximada?
— …Muitos. Tantos que não consigo contar. Talvez porque estejamos mais perto do Santuário das Origens do que a Sitri-san e os outros…
Entendi, então nós realmente seríamos a isca. Provavelmente o inimigo não esperava que o alvo principal fosse a Sitri. Puxei o Mimic-kun para perto para facilitar a fuga a qualquer momento e verifiquei o Anel de Proteção em meu dedo. Eu não entendia muito bem quão fortes eram os Fantasmas daquele Cofre do Tesouro. No passado, eu os vi lutando contra o exército de Adler de perto, mas na época apenas observei boquiaberto. Afinal, para realmente entender a força de um inimigo, quem observa também precisa ter certo nível de poder.
Não que entender fosse me fazer capaz de enfrentá-los, mas eu tinha os Anel de Proteçãos, então, ao menos, poderia aguentar alguns ataques.
— Tino, venha aqui.
— !? O-ok…
Mantendo a vigilância em direção à floresta, Tino correu para perto. Por experiência, se eu estivesse alinhado a outra pessoa, o inimigo costumava me atacar primeiro. Mesmo que usassem ataques em área, o Anel de Proteção poderia proteger nós dois. Assim que soubéssemos como eles atacavam, Tino certamente saberia reagir.
De perfil, a expressão de Tino era de tensão, mas ela não demonstrava hesitação, mesmo tendo dito que o número de inimigos era imenso. Ela parecia legal e confiável. Dei um passo para trás. O Cavaleiro Negro avançou sem expressão, enquanto ao seu lado, Marin também se posicionava segurando o cajado e observando a floresta com um olhar sombrio.
Hmm? A propósito, a Marin é uma magi?
— Kuh… Eles estão vindo…!
Tino falou com a voz contida, enquanto uma gota de suor escorria por sua bochecha pálida. Foi nesse momento que percebi que estávamos cercados. Embora tivéssemos pousado em um local aberto, a floresta ao redor era densa. A alguns metros à frente, sobre as árvores altas e atrás de troncos imensos, eu podia ver silhuetas humanoides usando máscaras negras, claramente os Fantasmas.
Havia pelo menos mais de dez. Desde quando estavam tão perto? Mas eles não estavam realmente se escondendo; se quisessem ocultar sua presença para valer, eu não perceberia até que estivessem na minha frente. Isso significava que estavam prontos para o combate.
— Hah… hah… Mestre… eles são do tipo magi e ladrão. Todos estão acostumados a lutar dentro da floresta!!
Ouviu-se o som de folhas farfalhando, e silhuetas negras moviam-se sobre as árvores. Eram realmente rápidos. Mas o que mais dava medo era que eles ainda não haviam atacado. Possuíam alta inteligência e disciplina, talvez esperando o momento certo para um golpe certeiro. O ar ao redor tornou-se opressor. Tino estava ofegante, embora ainda não tivesse se movido muito.
— …A Selene disse para não matá-los, certo…?
— Hik—!
Tino respirou fundo e imediatamente assumiu uma postura de combate, de mãos vazias. Pensando bem, a Tino quase nunca carregava armas, não é? Até o Luke usava uma espada de madeira e a Liz usava armas quando necessário. Será que a Tino era a mais bárbara de todos nós? Não era hora de pensar nisso! Eu não ia mandá-la lutar.
O Cavaleiro Negro desembainhou sua espada e disparou para frente, cobrindo a distância em um instante. Mas ele falhou. De todas as direções — do topo das árvores, de trás dos troncos, da frente e de trás — dezenas de flechas voaram em sua direção. A velocidade era ainda mais insana que o avanço do Cavaleiro Negro.
Uma chuva de flechas cobriu a área. O Cavaleiro Negro balançou sua espada, cortando cada flecha que se aproximava, e o som de metal colidindo preencheu o ar. Eu não sabia como a técnica funcionava, mas de tão rápidas que as flechas voavam, tudo o que eu via eram linhas de luz se fundindo em uma só. E o Cavaleiro Negro cortava todas, uma a uma.
Aquilo não era uma luta comum, era um embate de altíssimo nível.
— Ugh… Maldição! Eu não consigo me mover! Eles estão travando meus movimentos!
Flechas normalmente são mais lentas que armas de fogo, mas aquela chuva não dava sinais de parar. Parecia que centenas ou milhares de pessoas atiravam ao mesmo tempo. As flechas cortadas que caíam no chão criavam grandes crateras, como se fossem explosões de bombas. De fato, arcos e flechas podem não ser armas populares, mas claramente não eram fracos. Cada flecha disparada possuía um poder destrutivo extraordinário. O Cavaleiro Negro conseguia cortar tudo com sua espada mágica e técnica assustadora, mas não conseguia avançar um passo sequer. Pelo contrário, estava sendo empurrado para trás. Era um inimigo insano.
Então, talvez por não aguentar ver o Cavaleiro Negro em dificuldades, Marin avançou. Com um rosto que misturava tristeza e ansiedade, ela abriu levemente a boca e soltou um grito agudo que abalou o silêncio da floresta. Era o Lamento da Marin, a voz amaldiçoada capaz de matar qualquer um que a ouvisse. Instantaneamente, a trajetória das flechas oscilou devido à força que outrora abalara a Igreja da Luz.
E então, Tino sussurrou com a voz trêmula:
— !? M-Mestre, eles… por que parecem tão fracos!?
— …Sim, estão muito fracos.
Era estranho, não fazia sentido. Na Igreja da Luz, aquele “Lamento” foi muito mais terrível, capaz de congelar a alma e fazer as pessoas desmaiarem instantaneamente. Mas agora, parecia apenas um grito comum. Ainda havia efeito, mas comparado ao passado, era fraco demais.
Assim que Marin atacou, os Fantasmas mudaram de alvo. Várias flechas voaram em sua direção, perfurando seu pequeno corpo e arremessando-a para trás. O cajado amaldiçoado que ela segurava soltou-se e caiu no chão. O Cavaleiro Negro, distraído por Marin, também foi atingido por uma flecha e lançado para longe, rolando várias vezes antes de atingir a raiz de uma árvore gigante, que estremeceu com o impacto.
O poder daquelas flechas era absurdo. O ataque cessou e a floresta voltou ao silêncio. Se fosse eu o atingido, já estaria morto, mas eles não eram humanos.
— !? N-Não me diga que… umm… o rancor dela começou a sumir? Afinal, o fato de ela ouvir um humano já é estranho por si só, não é!?
— …Pensando bem, faz sentido.
Eu não havia pensado nisso. Maldições são fluxos de emoções intensas manifestadas em magia. Se o sentimento de rancor diminuísse, o poder também diminuiria. Eu deveria ter percebido, já que Marin se tornara mais calma mesmo sem selos. Isso era ruim, eu planejava contar com ela, mas e agora?
Marin flutuou de volta. Embora seu poder tivesse diminuído, a resistência absurda que demonstrara na Igreja da Luz ainda estava lá, ela não tinha um arranhão. No entanto, sua expressão era de medo e confusão.
— ??? P-Por quê?? — Marin soltou uma voz trêmula.
Parecia que ela mesma acabou de notar que seu poder caíu drasticamente. Se Marin estava assim, o poder do Cavaleiro Negro também devia ter caído. Seria por terem sido engolidos por Shero? Ou porque eu tratei bem seus itens amaldiçoados? Por que ela não me avisou uma hora antes?
— …B-Bem, ainda não perdemos.
Eu disse isso com um tom de determinação forçada. Marin olhou para mim surpresa. Eu não tinha outro plano, mas se o poder dela não funcionasse, eu estava pronto para fugir. Contudo, aquelas flechas eram tão rápidas quanto a magia de Lucia; seria possível escapar?
O ataque de flechas parou, mas os Fantasmas continuavam lá, observando-nos com suas máscaras vazias. O Cavaleiro Negro levantou-se cambaleante, com a armadura amassada e perfurada, mas ainda conseguia se mover. Ele posicionou-se à frente de Marin para protegê-la.
— Mestre, o lado inimigo ainda tem magi.
— Por que não nos atacam?
— …Talvez estejam medindo nossa força para garantir a vitória… como um caçador observando um monstro novo. Ou talvez estejam esperando reforços…
Eu deveria estar feliz por ganharmos tempo, mas e se eles ficassem parados ali para sempre? Enquanto vigiava, abaixei-me e peguei o cajado caído.
— Tino, entre no Mimic-kun.
Marin e o Cavaleiro Negro eram fortes ou “eram”. Mas maldições normalmente não somem com ataques comuns. Eu tinha o Anel de Proteção, mas Tino estava desprotegida. Tino apertou os lábios e me encarou com os olhos lacrimejando.
— N-Não! Desta vez, eu também vou lutar!!
— ……Eh?
— Sei que ainda não sou forte o suficiente, mas não posso ser protegida pelo Mestre o tempo todo!! Eu treinei para lutar ao lado do Mestre!!
Sua voz não tremia mais, ela encarava os Fantasmas com determinação. Marin e o Cavaleiro Negro também pareceram surpresos. Meu plano era fugir logo após mandá-la para o Mimic-kun, mas dizer isso agora deixaria o clima pesado.
— O inimigo é cauteloso, eles ainda nos observam, deve haver uma brecha. Eu não posso fazer nada se ficar atrás, eu vou avançar — disse Tino baixinho.
Ela não viu o que aconteceu com o Cavaleiro Negro quando ele avançou?
— Se eu avançar, eles não poderão me ignorar. Eu criarei uma brecha e, nesse momento, o Mestre deve atacar!
— …Você consegue lidar com as flechas?
— Se nós três avançarmos juntos, os ataques serão divididos. E… eu desviarei com coragem!!
Tino cerrou os punhos. Era imprudência demais, mas aquela coragem vinha dos meus amigos de infância. Eu me senti responsável.
— Tino, a coragem é importante para um caçador, mas não esqueça nosso objetivo.
— O-Objetivo…!!
Tino arregalou os olhos. Exato, nosso objetivo não era derrotar o inimigo. Eu mandara Marin e o Cavaleiro Negro apenas para ganhar tempo.
— Eu tenho… um plano.
Exatamente naquele momento, um som de explosão ecoou. Cacos de vidro caíram do alto. O Agitador de Mana Material fora destruído por flechas negras. Os Fantasmas não sabiam para que servia, mas o atacaram mesmo assim.
— !? Mestre!
— C-Calma, Tino. Não precisamos desse dispositivo.
O mais importante era nossa vida. Subitamente, o Anel de Proteção em meu dedo ativou-se, repelindo uma flecha que eu sequer vi chegar. O Cavaleiro Negro balançou a espada e Marin soltou seu lamento para intimidar. Tino, determinada, deu um passo à frente e socou o ar, desviando a trajetória de algumas flechas. Sério, ela desviou flechas de Nível 10 com as mãos vazias!?
— ! Mestre! Os magi deles estão acumulando energia de mana!!
O ar começou a estalar com eletricidade. No céu, luzes se acumulavam para um ritual mágico de grande escala. Eles nos prendiam com flechas para lançar um ataque final avassalador. Mas eu ainda tinha meus Anel de Proteçãos. Puxei Tino para perto; o anel poderia cobrir dois se estivéssemos bem grudados.
Então, tentei erguer o cajado e percebi que ele estava pesado. Ele fincou-se no solo e raízes como tentáculos cresceram dele, perfurando a terra. Tentei puxar, mas não consegui. Tino olhou para baixo e congelou. As raízes que se espalhavam subitamente viraram-se para o céu, na direção da energia que os magi acumulavam.
As raízes tocaram a luz e foram repelidas, mas não desistiram. Novas raízes surgiram e avançaram contra a energia divina. O chão tremeu e um tronco negro como piche emergiu das fendas. Eu agarrei o cajado com força e o Mimic-kun também se segurou.
— !? …Isso é… a Árvore do Mundo Corrompida!! — gritou Tino.
Era a maldição que quase destruíu a Academia de Magia. Ela foi criada das cinzas da árvore original.
— …Mesmo queimada e refeita, ela ainda está viva? Que medo.
A luz criada pelos Fantasmas foi envolta pelas raízes e engolida. A Árvore do Mundo Corrompida era uma cópia da Árvore do Mundo que, em vez de sugar energia das Linhas Ley, devorava o mana de seres vivos. Sua velocidade de crescimento agora era insana. O chão se abriu e a árvore negra tornou-se um gigante.
— Mestre, ela está absorvendo o Mana Material das Linhas Ley!? — perguntou Tino em choque. — A Árvore do Mundo Corrompida deveria comer mana porque não consegue absorver Mana Material…
Parecia que tínhamos acordado um monstro pior do que os Fantasmas. Tino gritava desesperada:
— C-Como pode haver um plano assim!? Mestre! Mestre!!
— Sim, sim, exatamente.
Os Fantasmas recuaram. Subitamente, raízes negras dispararam do chão como lanças, empalando e capturando os batedores inimigos. Eles tentavam cortar as raízes, mas a árvore regenerava e absorvia a magia deles. Marin e o Cavaleiro Negro observavam estáticos. Eu também queria ficar parado, mas aquilo era uma vantagem, certo?
A floresta era uma fonte perfeita de alimento. O tronco pulsava e crescia. Embora fosse uma cópia, tentava ser a Árvore do Mundo real. De repente, as raízes que envolviam os Fantasmas vibraram e eles foram arremessados ao chão.
— !?!? E-Eh? De dentro dos Fantasmas saíram… Espíritos Nobres!? Então era isso!? — gritou Tino.
A Árvore do Mundo Corrompida estava sugando o Mana Material dos Fantasmas, libertando os prisioneiros. Um a um, os inimigos eram descartados como lixo após serem drenados.
— Que velocidade… e que quantidade…! Mestre, isso é mais eficiente que o método da Finis! Eu não sabia que a Árvore do Mundo Corrompida podia fazer isso…! Será que o incidente na capital… foi apenas um treinamento!? — exclamou Tino, maravilhada.
Onde ela achou lógica para isso? Nada disso foi planejado por mim.
A floresta ficou silenciosa. Os Fantasmas de Nível 10 não puderam fazer nada contra a árvore maldita. Após o banquete, a árvore parou. Ela agora era muito maior que as outras árvores ao redor, mas ainda pequena perto da Árvore do Mundo original.
Subitamente, a Árvore do Mundo Corrompida começou a se mover na direção da verdadeira Árvore do Mundo. Ela queria mais. Tino entrou em pânico:
— M-Mestre! A árvore… está atraída pelo Santuário das Origens!?
— …Essa não.
Aquilo tornaria tudo um caos. Precisávamos levá-la até a Sitri.
— Vamos atraí-la como quem atrai um cavalo com uma cenoura…
— M-Mas qual é a cenoura!? Ela nem liga para nós…
— Hmm… na academia ela perseguia os magi, certo?
Ela era atraída por Mana e Mana Material. Pedi ao Mimic-kun algo com mana que não fosse uma relíquia. Ele cuspiu um saco de pano. Dentro, havia fios de ouro e prata.
— Isso é… cabelo.
Era o cabelo de Astor e dos outros que eu guardei ao salvar Selene. Para um Espírito Nobre, o cabelo é um catalisador mágico poderosíssimo e cheio de mana. Tino ficou estática enquanto galhos negros avançavam.
— Tino, use o Carp-kun para atraí-la daqui.
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Até para Selene, aquilo fugia à compreensão humana. Um gigante negro atravessava a floresta, movendo-se com raízes como se fossem pernas. E em um dos galhos estava Tino, pilotando o tapete voador e desviando freneticamente dos galhos que tentavam pegá-la. A árvore emanava uma energia avassaladora, sugando o Mana Material ao redor, criando um fluxo exatamente como Selene tentou fazer antes.
— Isso…! — exclamou Lucia, de olhos arregalados.
Os membros da Grieving Souls observavam Lucia com expressões variadas.
— …O Krai-chan, quando resolve causar, é sempre em grande estilo — comentou Liz.
— …Umu — concordou Ansem.
— Aaah… então esse era o truque? Eu jamais conseguiria fazer algo assim!! — disse Sitri, admirada.
— Por que o Humano Fraco sempre faz essas coisas e nunca é pego, desu? — reclamou Kris.
— Hmph… talvez os humanos sejam mais resistentes do que pensamos — concluiu Lapis.
Selene enviou Miles para verificar. O humano estava lá em cima da árvore negra. Aquele era o plano que Sitri mencionou? Comparado à estratégia do Mil Truques, o plano dos dispositivos parecia brincadeira de criança. Enquanto isso, Tino continuava pilotando desesperadamente, gritando por sua vida.

— Sitri-san! Ajude-me!!
— …! T-chan! Você ainda lembra dos locais para instalar os dispositivos, certo!? Siga as linhas!! — gritou Sitri.
Ela não deveria ser capaz de ver o movimento do Mana Material, mas parecia ter compreendido a situação instantaneamente pelas palavras de Selene. Ela pretendia usar aquela árvore para alcançar o objetivo de uma maneira nova.
— !? P-por queeee euuu!?
— Apenas faça, Tino! Ou quer trocar de lugar comigo!? — exclamou Liz.
— E-E-Eu vou fazer!!
Os ataques da árvore não eram extremamente rápidos, mas a quantidade de galhos era avassaladora. Se alguém fosse capturado, era impossível prever o que aconteceria, mas certamente não seria algo bom. A expressão pálida de Tino lembrava Selene de si mesma tempos atrás. Infelizmente, ela não podia dizer para não fugir ou algo do tipo, pois a própria Selene era incapaz de agir.
E, naquele momento, a árvore que perseguia Tino parou subitamente. Os galhos que apontavam para ela ficaram estáticos e a floresta mergulhou no silêncio. Kris, tão surpresa quanto Selene, encarou a árvore com confusão.
— !? P-Parou…? O que o Humano Fraco pretende fazer agora, desu?
— …Na verdade, nem nós sabemos o que é aquilo… É algo que pode ser controlado? — questionou Lapis.
Pela forma como Tino ainda tentava desviar desesperadamente, não havia sinais de que a árvore estivesse sob controle. Elas voltaram a observar o vegetal estático, com tronco e folhas negros como breu, parecendo absorver a luz. Tinha raízes imensas que o moviam e um tronco mais espesso que a árvore mais antiga de Yggdra. Quanto mais olhavam, maior era o desconforto, um pavor que surgia de forma instintiva. Aquela árvore, capaz de absorver Mana Material sem limites, claramente não era algo que deveria existir em uma floresta.
— Esta… é uma árvore terrível. Finis, o espírito guardião de Yggdra, está tremendo de medo — disse Ruine com o rosto tenso.
Sobre sua cabeça, Finis, o espírito da seca, estava visivelmente apavorado. Foi a primeira vez que Selene viu sua companheira, sempre calma e confiável, demonstrar tal expressão. Parecia que até Ruine via aquela árvore pela primeira vez. Até então, Selene pensou que não haveria problema em usar um “veneno” se isso pudesse salvar o mundo, mas talvez sua visão tivesse sido superficial demais.
Naquele instante, o rosto de Lucia, que estava paralisado observando a tática do irmão, ficou pálido. Nem mesmo contra Finis ela gritara daquela forma, mas agora sua voz ecoava por toda a floresta:
— To-todos, corram! Ela vai atacar quem tiver o mana mais forte!!
— !?
— Ela… tem alvos demais, por isso está confusa!
A árvore voltou a se mover. Seus galhos esmagaram os soldados de terra restantes e avançaram contra Selene. Desta vez, foi mais rápido do que podiam imaginar. Selene saltou para o lado para desviar, e a floresta transformou-se em um inferno. Parecia que, por não conseguir decidir um alvo, a árvore decidira perseguir todos simultaneamente.
— Ugh…! Corram! Não deixem que ela as pegue!! — gritou Lapis.
— !? Está de brincadeira!? Humano Fraco, seu estúpidooooo!! — berrou Kris.
As integrantes da Starlight correram em uníssono, com os galhos da árvore já se estendendo em suas direções. Pouco depois, Ruine disparou, e Selene apressou-se em impulsionar o corpo para longe do chão. Os galhos não podiam ser considerados super rápidos, mas também não eram lentos o suficiente para serem subestimados. Se não corressem com todas as forças, seriam capturadas.
Os alvos agora eram as integrantes da Starlight, Lucia, Ruine e Selene. Enquanto desviava dos ataques, Lucia disparava flechas de gelo, mas a árvore não reduzia a velocidade. Por algum motivo, Liz não era alvo dos ataques, mas continuava correndo ao lado de Lucia.
— Por favor, não se separem! Ainda lembram dos locais para os dispositivos!? Direcionem o fluxo de Mana Material corretamente! — gritou Sitri, escondida atrás de uma árvore, com um tom relaxado, como se estivesse aproveitando a situação.
E assim, começou um jogo de perseguição infernal onde ser pego não era uma opção.
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O primeiro encontro deles foi mera coincidência. Quando Adler percebeu que o Mil Truques poderia ser do mesmo tipo que ela, sentiu-se surpreso e animada. Quando foram derrotados por uma única unidade de Fantasmas, ela sentiu o amargor da derrota, mas também a alegria de ver um novo potencial de poder. A habilidade demonstrada ao salvar Ruine a fizera estremecer, mas dali ela encontrou uma forma de controlar os Fantasmas.
No entanto, a cena refletida no Espelho da Realidade agora chocava Adler mais do que qualquer outra coisa.
— Ku… Kukuk… Então esta é a astúcia diabólica do Mil Truques…! Eu já tinha ouvido que a taxa de sucesso dele era de cem por cento, mas… isso não faz sentido!!
Não havia mais alegria, não havia mais esperança de um dia superá-lo. Tudo foi destruído. A distância entre eles era grande demais; não importava quantos monstros Adler reunisse, jamais preencheria aquela lacuna. Antigamente, ela achava que a capacidade estratégica era importante para um Controlador, mas não o principal. O mais importante era viajar pelo mundo e dominar monstros fortes.
Mas aquilo… era algo impossível de vencer. Era uma genialidade demoníaca, algo que apenas deuses ou seres divinos poderiam possuir. A forma como ele manipulava a situação, as cartas que guardava, até mesmo sua coragem eram de outro nível. Adler pensou que entendia a diferença de poder entre eles, mas fora apenas ilusão.
Ao fechar os olhos, tudo o que via no espelho surgiu nitidamente em sua mente. Como o Mil Truques pousou perto da Árvore do Mundo com Tino, como invocou o fantasma e o Cavaleiro Negro e, o mais insano, como expandiu aquele cajado para transformar os Fantasmas de volta em Espíritos Nobres.
— Sério… Ele realmente salvou todos eles…? Como ele conseguiu sequer atrair os Fantasmas que antes eram Espíritos Nobres?
— …Aquela árvore também é estranha. Aquilo é um monstro ou não…? Parece que não pode ser controlada, mas ainda assim… — comentou Uno.
— Parece que aquela árvore esteve dormindo na forma de um cajado o tempo todo. Eu nunca pensaria em usar um monstro que não pode ser controlado, mas… isso é o que chamam de Dragon’sGambit, não é? Maldição — praguejou Quint, cerrando os punhos.
O Dragon’sGambit era uma estratégia antiga e arriscada, onde se usava a fúria de um dragão para controlar monstros de poder avassalador e derrubar inimigos com vantagem numérica absoluta. Adler costumava rir dessa estratégia. Para ela, precisar de planos de alto risco era sinal de fraqueza. Como Controlador, monstros fortes não eram para cooperação, mas para submissão. Se ela não podia controlar o monstro, era porque não era forte o suficiente.
Ela se tornara discípula do Mil Truques para absorver poder e superá-lo, mas agora a Night Parade perdeu sem sequer lutar. Tanto Uno quanto Quint haviam perdido o espírito de combate. Krai era brilhante demais, livre demais. Estava sempre calmo, nunca hesitava. Mesmo encarando o olhar de um deus, não demonstrava medo. Não era apenas talento, era algo que não podia ser imitado.
Pela primeira vez, Adler sentiu verdadeiro medo do Mil Truques, da mesma forma que humanos tremiam diante de Yuden. Um Controlador não usa magia para controlar monstros; o motivo de seguirem o líder é o seu carisma. Por isso, um Controlador deve ser o soberano absoluto. Se perdesse a posição de rei, se mostrasse fraqueza, os monstros não o obedeceriam mais.
Eles talvez conseguissem deter a Árvore do Mundo, ou melhor, aquele homem certamente encontraria um jeito. Mas mesmo que tudo terminasse bem, a Night Parade estaria acabada se continuassem assim. Estavam encurralados. Quem perde no coração não pode ser rei.
Tinha que haver uma forma de mudar a situação, mas o Mil Truques era forte demais. Mesmo no auge, eles não venceriam.
— Aquela árvore… não tem força suficiente para absorver o Mana Material das Linhas Ley diretamente — disse Uno com seriedade. — É por isso que o Mil Truques usou o Agitador de Mana Material como parte do plano. Ele desestabiliza o Mana Material e o direciona para a árvore para acelerar o crescimento.
Com a voz baixa, Uno concluiu:
— Adler-sama… se for assim… talvez aquela árvore possa… destruir o Santuário das Origens.
O olhar de Uno era uma pergunta: o que deveriam fazer agora? Adler sussurrou para si mesma:
— …Um herói, hein?
Ela tinha certeza de que aquele homem entraria para a história. E como a história registraria o nome da Night Parade dependeria da escolha que Adler fizesse agora. Ela observou o Agitador de Mana Material que ainda funcionava e pensou. Krai chegaria ao local deles em breve, e ele precisava decidir sua postura.
Se apenas se juntassem a ele, não seriam mais do que perdedores que acabaram como discípulos. Nem inimigos, nem aliados, apenas perdedores sem dignidade. Mas lutar era impossível. Yuden estava mais forte, a habilidade de Ripper estava disponível, mas Krai já previra tudo. Ou talvez… se ele pudesse até domar os Fantasmas do Santuário das Origens…
— …Espere, ainda há um jeito. A única forma de derrotá-lo!
A mão que segurava a lança tremeu sem que percebesse. Ela mesmo temia o plano insano que acabou de conceber. Foi como um relâmpago em sua mente. Adler estava ofegante, o coração batendo forte, as pontas dos dedos frias. O mundo pareceu girar antes que ele apertasse a lança com força.
Ela não teria pensado naquilo horas atrás, era uma ideia louca demais. Teria sido influenciado pela forma como o Mil Truques agia? Ela controlou a respiração e começou a checar as chances de sucesso. Adler já enfrentara nações e controlara monstros poderosos. Se não tivesse encontrado a Grieving Souls, talvez já fosse conhecido como o Rei Demônio Adler em todo o mundo. Mas esse futuro sumira.
Agora, se aquele plano desse certo… ela se tornaria o inimiga da humanidade. Mas não precisava ser um sucesso total; o importante era oferecer resistência àquele homem, nem que fosse uma única vez. O risco era absurdo, mas ele precisava da ajuda de Uno. Adler respirou fundo e olhou para seus companheiros. O plano era perigoso demais; se ele não fosse forte o suficiente, ele mesmo hesitaria. Por isso, gritou:
— Uno, Quint! Nós somos a Night Parade! Não podemos perder sem fazer nada!
Ele girou a lança e a golpeou contra o Agitador de Mana Material com todas as forças. Uma, duas, três vezes. O tubo de vidro estilhaçou-se em mil pedaços. Uno e Quint apenas observaram, em silêncio.
— Nós vamos enfrentá-lo! Não existe essa história de nos submetermos, isso é o mesmo que morrer! Não somos mais discípulos do Mil Truques! A partir de agora, a Night Parade lutará contra aquele homem! Vocês vêm comigo!?
— Bem, não há outra escolha, não é? Mas temos alguma chance de vencer? — questionou Uno.
— Maldição… tanto faz! Se ficarmos parados, terei vergonha de encarar o Zorc de novo. Vamos fazer isso! — exclamou Quint.
Uno continuava calmo, Quint continuava corajoso. Eles não hesitaram em seguir Adler. A Night Parade ainda não terminara. Adler abriu um largo sorriso e começou a explicar o plano final para eles.
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A imensidão negra da floresta parecia curvar-se sob os passos da Árvore do Mundo Corrompida. No topo de sua copa plana, eu me agarrava à parte do cajado que ainda era visível, observando a Árvore do Mundo que parecia erguer-se sem limites. Lá embaixo, a situação parecia ter mudado de novo. A Árvore do Mundo Corrompida, seguindo a direção da Tino até o local da Sitri, agora estava ocupada perseguindo Lucia, Kris e os outros magi.
Eu deveria ter percebido quando a árvore começou a perseguir a Tino por causa do cabelo de Astor e companhia. Mesmo tendo devorado tantos Fantasmas, ela ainda parecia faminta. Novos Fantasmas no caminho não significavam nada para ela. Curiosamente, na capital, essa árvore fora interrompida.
— Lembre-se disso, seu Humano Fraco, desu!! — gritou Kris lá de baixo.
— Onii-chan! Quando é que esta árvore vai parar!? — berrou Lucia.
No topo da Árvore do Mundo Corrompida, o clima era de paz, apenas o som do vento, as vozes de Lucia e Kris mal chegavam até mim. Honestamente, eu não tinha tempo para lidar com elas, as vibrações estavam me deixando enjoado. Foi um erro enorme não ter pedido a Férias Perfeitas de volta para a Selene. O movimento não era brusco, mas ficar aqui em cima estava me dando enjoo de movimento.
Olhei para a Árvore do Mundo para me acalmar. As folhas caindo incessantemente daquela árvore colossal eram majestosas e estranhas. Mesmo daqui, não se via o fim de seus galhos. Quanta energia ela sugava para crescer tanto? Se a minha árvore quisesse chegar àquele tamanho, levaria milênios. Após crescer mais que as outras árvores em minutos, o crescimento parou. Talvez a fase rápida fosse apenas o início.
Ao meu lado, Marin e o Cavaleiro Negro, também agarrados à árvore, observavam a Árvore do Mundo com confusão.
— Obrigado por ajudarem. Podem voltar agora. Eu vou dar um upgrade na sua boneca depois.
— … Morra logo.
Com um olhar vingativo, Marin me entregou a boneca antes de desaparecer. O Cavaleiro Negro também sumiu. Guardei a boneca no Mimic-kun para não perdê-la. Embora não fosse tão útil quanto pensei, ela era mais forte que eu, então talvez precisasse de ajuda de novo no futuro. Teria que começar a implorar desde já…
Voltei a olhar para a Árvore do Mundo para aliviar o enjoo e percebi algo: as folhas caindo pareciam menos frequentes agora. O plano da Sitri parecia estar funcionando, ao contrário das minhas ações espontâneas. Enquanto eu divagava sobre minha inutilidade e o enjoo, a Árvore do Mundo Corrompida parou. A ponta do cajado que eu segurava esticou-se, um pequeno broto surgiu e desabrochou em uma pequena flor roxa. Exatamente como na Academia de Magia.
A árvore ficou imóvel. Talvez estivesse saciada. Colhi a flor com cuidado e suspirei. Finalmente terminara, fora exaustivo. Nunca mais emprestaria relíquias para os outros. Guardei a flor no Mimic-kun e deitei ali mesmo. Eu não gostava de lugares altos, mas o céu aberto era agradável. O problema da árvore a Sitri resolveria depois. Sem vibrações, o enjoo passou. Bocejei e cocei os olhos, momento em que Tino apareceu subindo com o Carp-kun.
Bem na hora… eu já queria descer. Embora pudesse pular com o Anel de Proteção, preferia uma descida pacífica.
— Tino, bom trabalho. No tempo certo. Poderia me levar lá para baixo?
O rosto da Tino estava péssimo. A expressão firme de antes sumiu e suas bochechas estavam rígidas. Ela pigarreou e me olhou como um gatinho assustado.
— M-mestre… eeeh… eu tenho muito o que dizer, mas… acabou de verdade?
Como é que eu vou saber? Apenas sorri em silêncio, e ela pareceu querer chorar enquanto sorria mortificada. Descemos ao chão. A floresta por onde a árvore passou não estava tão bagunçada quanto pensei. Ela usava raízes flexíveis para caminhar, então quase não danificou a natureza, os únicos destruídos foram meus amigos.
Selene, apoiada em uma árvore e ofegante, reclamou:
— Eu… sério… quase morri… ataques mágicos não surtiam efeito nenhum…
— Hmph… não sei como você trouxe aquela coisa para cá, mas você nunca escolhe o caminho normal — disse Lapis.
— Ei, Humano Fraco. Não vou falar muito, mas posso perguntar uma coisa, desu? Nós… precisávamos mesmo ser perseguidos assim, desu?
O tom de Lapis era mais afiado que o comum, e Kris reclamava com os olhos marejados. O respeito que haviam ganhado por mim ao salvar Selene estava desaparecendo. Os Espíritos Nobres eram mestres na floresta, mas odiaram ser caçados por uma árvore maldita. Na verdade… não precisavam ser perseguidos. Er… desculpem?
— Na academia ela parecia mais fraca! Que irritante!! — exclamou Lucia.
— Ei, Krai-chan. Isso não vai mais se mover? — perguntou Liz, dando tapinhas no tronco da árvore. Ela tocava aquele item amaldiçoado com uma calma… como sempre, seu instinto de sobrevivência era nulo.
E como eu vou saber a resposta!? O que eu sou para eles!? Bem, a árvore já foi transformada em cinzas e virou um cajado antes de ressurgir, então talvez se movesse de novo. Seria melhor queimá-la agora?
Enquanto eu pensava, Sitri chegou correndo com Eliza e o Matadinho. Elas não foram alvos do ataque. Observaram a árvore estática, Lucia e os outros, e finalmente olharam para mim. Sitri disse animada:
— Bom trabalho! Krai-san, que plano magnífico! Aquela árvore tem uma capacidade de absorção de Mana Material incrível! Achei que continuaria usando-a, mas você parou aqui, não é?
— Eh!? A-Ah… sim, exato. Eu não ia deixá-la agindo para sempre, não é? — respondi, assentindo por reflexo. Eu nunca pretendi “usá-la”, ela se moveu sozinha.
— Fiquei arrepiada! Foquei tanto nos dispositivos que não pensei em outra forma… Que vergonha. Eu não poderia usar aquela árvore como o Krai-san, mas talvez eu tente criar um SitriSlime. Ele também poderia absorver Mana Material, certo?
Não, por favor. O mundo acabaria. O arrependimento dela não era por admiração, era o cérebro dela sendo afetado. Selene finalmente normalizou a respiração e me encarou intensamente.
— Então… isso tudo… acabou? O novo caminho… parece ter sido aberto… — perguntou ela com esperança.
Liz, Selene e Tino esperavam minha resposta. Por quê? Normalmente eu inventaria algo, mas desta vez não queria, pois se errasse, seria vergonhoso. Apenas sorri, e Sitri respondeu:
— Ao menos ganhamos tempo. Ainda não entendemos totalmente a capacidade da Árvore do Mundo Corrompida de absorver Mana Material, mas se reduzirmos o fluxo, mesmo que temporariamente, o Santuário das Origens enfraquecerá muito. A consciência do deus voltará a dormir. Mesmo para um deus, tal manipulação das Linhas Ley deve ser inesperada.
Sitri sempre falava com convicção. Eu apenas confiava nela.
— Sim, sim, exatamente!
— …Então… se tivermos mais tempo, podemos melhorar os dispositivos. Se pesquisarmos e manipularmos as Linhas Ley mais a fundo, poderemos eliminar o Santuário completamente. É o que eu acho. O que você acha, Krai-san?
Embora eu concordasse, Sitri parecia ansiosa ao me olhar. Será que ela acha que sou um azarado? Tudo correra bem até agora.
— Sitri, relaxe. Você fez tudo perfeitamente. Seu plano foi incrível. Tenha um pouco mais de confiança.
— … Ugh!
— Krai-chan, você é cruel… — disse Liz, olhando para Sitri, que ficou em silêncio com uma expressão triste. O que eu disse de errado? Só quis incentivar.
— … Enfim, um problema resta… Adler e os outros desapareceram subitamente. O rastro de destruição dos dispositivos não foi causado pela árvore. Eu baixei a guarda porque achei que eram seus discípulos, Krai-san — comentou Lucia.
— Eh? Adler e os outros sumiram?
— Por que você parece feliz, desu? — perguntou Kris.
Parece que o Adler finalmente cansou da minha incompetência. Um discípulo bandido continua sendo um bandido. Eu estava aliviado. Ela era legal, mas se não fosse crminosa, seríamos amigos. Mas não podia comemorar ainda.
— Esperem, não temos certeza. Talvez tenham fugido para Yggdra.
— Como você ousa ironizar alguém com Visão à Distância desse jeito, desu? — reclamou Kris.
Esqueci. Poucos têm essa habilidade, eu sempre esqueço. Bati as palmas e disse alegremente:
— Muito bem! Não adianta ficarmos aqui. O plano funcionou, vamos voltar para Yggdra.
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Nas profundezas do Santuário das Origens, onde a maior força do mundo se concentrava, a consciência do Deus Mascarado, Keller, ressurgiu. O templo vibrou com o despertar divino, e os sacerdotes de alto nível prostraram-se profundamente. Keller não pretendia acordar, e logo buscou o motivo da inquietação.
Primeiro, notou uma leve falha nas preces. Por menor que fosse, a prece ali deveria ser perfeita, especialmente vinda dos escolhidos que dedicavam a vida a Keller. Mas agora eles pareciam inquietos, o que só ocorreria em emergência real. O motivo era claro: o fluxo de Mana Material pelas Linhas Ley para o Santuário enfraqueceu subitamente.
Mana Material era crucial. Keller e seus servos sabiam disso antes mesmo de serem aniquilados. Para eles, hoje, essa energia era mais valiosa que tudo. O Cofre do Tesouro, os Fantasmas e o próprio despertar de Keller dependiam dela. O templo não era físico; se o fluxo minguasse, o Santuário enfraqueceria. Sem energia, armadilhas e armas falhariam, Fantasmas não nasceriam e o despertar seria adiado. O templo consumia muito mana apenas para existir; se não normalizasse, o Santuário desapareceria.
Keller era um deus, mas agora era apenas consciência sem corpo. Se tivesse forma física, resistiria, mas assim nada podia fazer. Ele tentou falar com os sacerdotes, mas a causa da crise era incerta. Sabia apenas que haviam seguido suas ordens. Havia ansiedade nos relatórios deles. Eram leais e orgulhosos, mas seus relatos talvez não fossem objetivos, ou talvez eles mesmos não entendessem o que ocorria. Seria ação humana ou fenômeno natural? Tinha solução?
Keller não podia agir sozinho. Não tinha nem um décimo de seu poder e sua mente estava turva. O pior: apenas manter sua consciência sobrecarregava o Santuário, consumindo energia equivalente a cem servos de elite. Se forçasse mais, o templo ruiria. Decidiu deixar a vigília com os sacerdotes. Se sua consciência voltasse a dormir, o templo não sumiria de imediato. Se o fluxo normalizasse, ele acordaria em breve; duzentos anos eram apenas um cochilo para um deus.
Mas, ao tentar dormir, fendas surgiram no espaço. Intrusos. Das fendas surgiu uma centopeia gigante e três humanos. Com o despertar de Keller, a barreira falhou em bloqueá-los. Instintivamente, ele avaliou os invasores com sua natureza divina. Força, emoção, alma… ele entendeu: eram eles que o vigiavam.
Os sacerdotes ergueram seus cajados para atacar, mas Keller os impediu. Se chegaram ali, havia um motivo. Não eram enviados de outro deus; a viagem espacial deles era mutação, não milagre. Sentiu neles alegria e medo. Eram fracos, mas suportaram sua consciência, provando não serem comuns. Os olhos deles brilhavam. A mulher de cabelos negros à frente falou:
— Deus, finalmente nos encontramos. O tempo é curto, serei direta. Somos a Night Parade, e eu sou a Rainha Demônio desta era. Não sei se entende, mas vocês estão encurralados. Queremos um acordo.
Quanta audácia, negociar com um deus. A mulher era forte para os padrões humanos atuais, que evoluíram muito, mas ainda era insuficiente. Não havia motivo para Keller negociar. Ele apenas a encarou. Ela sorriu e continuou:
— Esta situação foi causada pelo Herói desta era. Daremos informações. Em troca, queremos seu poder, seu exército. O exército mais forte, capaz de derrotar qualquer inimigo.
Interessante. Keller mudou de ideia sobre dormir. Viu nos olhos dela um medo sutil, não de Keller, mas do herói de quem falava. Humanos normalmente não negociam com deuses, mas se havia alguém mais temido que o próprio deus… valeria a pena ver a força desse herói.
Tradução: Rudeus Greyrat
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