CONECTANDO À J-HERO...

Grieving Soul – Capítulo 01 – Volume 11

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire

Grieving Soul – Capítulo 01 – Volume 11


Capítulo 1: Mudanças

Por algum motivo, a sala do Mestre do Clã parecia nostálgica. Sentei na minha cadeira especial e soltei um suspiro ao sentir como ela era confortável.

A luz do sol entrava pela janela grande. Yggdra não era nada mal, mas Zebrudia ainda parecia mais aconchegante. A sala do Mestre do Clã, organizada pela Eva, tinha uma aura de “ordem” bem diferente de Yggdra, que era lotada de elementos naturais.

Até o cheiro do ar era diferente. Supostamente, o ar em Yggdra deveria ser mais puro, mas, curiosamente, o ar de Zebrudia me deixava mais tranquilo. Talvez eu tenha me acostumado com essa metrópole sem nem perceber.

Fiquei fora por mais de um mês, mas a mesa de trabalho não tinha nem um grão de poeira. Com certeza foi a Eva que limpou tudo com dedicação. Quando a visse, precisaria agradecer.

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Mas, por agora… eu estava exausto. Passar mais de um mês em Yggdra sugou minhas energias, então, se eu ficasse de bobeira por um mês inteiro, ninguém deveria reclamar.

Sem pensar muito, apoiei os braços na mesa e deitei a cabeça. Meu corpo pesava uma tonelada.

Talvez fosse porque em Yggdra eu quase não usei a Férias Perfeitas. Além disso, percebi que deixar os outros usarem essa Relíquia podia causar problemas. Então, de agora em diante, era melhor eu mesmo usar. E eu poderia usá-la agora mesmo — ou, pelo menos, esse era o plano, até eu notar algo terrível.

Droga… a Férias Perfeitas ainda está emprestada com a Selene.

Eu até pensei em pedir de volta, mas na hora estava ocupado com assuntos de deuses e toda a bagunça que veio depois. Acabei esquecendo completamente. Espero que a Selene entregue para a Liz e os outros quando eles voltarem… Mas que seja.

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Por enquanto, já resolvi tudo o que tinha para resolver. Mesmo sem aquela Relíquia, eu ainda conseguia relaxar.

Fechei os olhos, afundando na preguiça. Estava aproveitando cada segundo do meu descanso, até que, de repente, ouvi a porta se abrir.

— !? Hein!? Hã…? Eh? EHHH!?? Krai-san!? Por quê!? Como!?

Uma voz que eu não ouvia há tempos. Afinal, não eram muitas as pessoas autorizadas a entrar na sala do Meste do Clã.

Abri os olhos, mantendo a bochecha colada na mesa, e dei um sorriso para a Eva, que estava lá parada, boquiaberta de choque.

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— E aí, Eva. Quanto tempo.

Eva, como sempre, estava impecável. Sapatos brilhando, o uniforme do clã perfeitamente alinhado e aqueles óculos de armação vermelha fina que davam um ar de inteligência. Mas, por trás das lentes, seus olhos estavam arregalados de descrença, e sua testa começava a franzir.

— …Q-Quando você voltou?

— Agorinha. A Selene, quer dizer, a Princesa de Yggdra, me trouxe de volta. A Liz e o resto do pessoal ainda queriam passear por Yggdra antes de vir embora.

A distância entre Zebrudia e Yggdra era gigantesca. Na ida, passei dias em uma carruagem, entrei na floresta, fui atacado por monstros e passei por todo tipo de coisa irritante. Mas, na volta, tudo levou um piscar de olhos. Selene usou magia de teletransporte e me mandou direto para a sala do Meste do Clã.

Magia de teletransporte, uma magia lendária que permite mover alguém para um lugar distante num instante.

Muita gente conhece essa magia, e a teoria até existe. Mas, devido à complexidade e ao consumo massivo de mana, quase nenhum humano consegue usá-la. Existem técnicas que permitem o teletransporte entre dois pontos específicos usando círculos mágicos pré-instalados, mas até para ativar esses círculos é necessário o esforço de vários magi de alto nível. Isso já mostrava o quão difícil era essa magia.

Mesmo sendo um fardo pesado, Selene conseguia usá-la sozinha, sem círculos mágicos. Uma prova real do poder de uma princesa dos Espíritos Nobres.

Eva ainda me encarava com desconfiança. Eu apenas retribuí com um sorriso e, finalmente, ela soltou um suspiro baixo.

— Tenho tantas perguntas… Mas, e quanto à inspeção de entrada na cidade? Eu tinha organizado tudo para ser avisada assim que você retornasse.

— Ah, isso… É complicado. Se eu for contar tudo, vai demorar. Melhor deixar para lá.

— …Tudo bem. Eu cuido disso.

Dá para sempre contar com a Eva. Eu tinha esquecido completamente da burocracia do portão.

— O Chefe da Filial, Gark, também colocou gente no portão para confirmar sua volta. Além disso, o clã recebeu o recado de que, assim que você voltasse, ele queria conversar…

O que ele quer, confirmar que eu não morri? Mal cheguei e já querem que eu vá trabalhar… O Gark-san tem algum rancor contra mim ou o quê?

Vendo que eu já estava com cara de preguiça total, Eva resolveu mudar de assunto.

— Então… a maldição do Luke-san sumiu?

— Ah, sim, já era. E sobre o que o Gark-san pediu, de abrir uma filial da Associação de Caçadores em Yggdra, eles aceitaram.

— !? Quê? O quê?

— Os detalhes a gente vê depois, até porque a princesa de Yggdra vai vir pessoalmente para discutir isso. Pode avisar o Gark-san? Desculpa, mas estou ocupado.

— …Perdão, mas eu ainda não entendi nada…

Era justo. Mas não tinha muito o que explicar além disso. E, se possível, eu queria muito evitar encontrar o Gark-san pessoalmente. Caçadores também precisam de férias, sabia?

Eva parecia querer dizer algo, mas ao perceber que eu não ia acrescentar mais nada, ela apenas resmungou pela segunda vez no dia.

— Tudo bem, eu aviso. Mas, Yggdra é uma cidade que nunca foi explorada antes, como eles aceitaram abrir uma filial assim tão fácil?

— Pois é, eu também me surpreendi. A líder de Yggdra, Selene, parece ser bem inovadora e curiosa. Eu ofereci por brincadeira e, olha só, ela topou na hora. Hahaha… E eu achando que ia levar um não.

— ………Krai-san, por acaso… você está escondendo algo? A Selene-san é uma Espírito Nobre, certo? Yggdra não era um país fechado?

— Que nada, eu já contei tudo. Quando a Selene vier, eu apresento ela para você. Já viramos amigos, afinal.

— !?

Os Espíritos Nobres eram famosos por desprezarem os humanos. Era difícil de acreditar mesmo… Mas quando sugeri a ideia da filial da Associação de Caçadores, Selene ficou super interessada.

Apesar daquela cara, o Gark-san era muito bom em administrar a Associação na capital do Império Zebrudia. Criar uma boa relação seria vantajoso para os dois lados.

Acho que a Selene ia se dar bem com a Eva. As duas são muito sérias com o trabalho… Será que se a Eva usasse a Férias Perfeitas ela também mudaria que nem a Selene?

Bom, era isso. Se dependesse de mim, eu queria ficar longe de qualquer rolo por um tempo. Mas se alguém perguntasse, era só dizer que a Liz e os outros ainda não tinham voltado.

— Vou passar as informações para o Chefe da Filial Gark. Se a relação com Yggdra for estabelecida… Krai-san, você finalmente terá o Nível 9 diante dos seus olhos.

Eva falou sério. Nível 9. Aquelas palavras fizeram meu cérebro, que estava quase desligando, voltar à ativa. Olhei para a Eva com uma expressão de total desânimo. Subir de nível não era só prestígio, era sobre a rotina diária.

— Ah é, alguém comentou algo assim, né? Nível 9… Para ser sincero, eu não me importo muito.

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Era um papo de antes de eu ir para Yggdra. Eu só ouvi por cima, mas tinham dito que, se eu conseguisse a filial em Yggdra, estaria a um passo do Nível 9.

Talvez eu tenha vacilado em falar da filial para a Selene.

— Pessoas como você são justamente as que sobem para o Nível 9. Afinal, o Nível 9 não é algo que se persegue simplesmente. É mais uma consequência das conquistas acumuladas que acabam empurrando o Caçador para lá.

— A Inferno Abissal ainda está no Nível 8 faz tempo, e o Ark, que dizem ser o jovem mais forte, ainda é Nível 7, não? Ainda falta muito. Além disso, sou jovem demais.

— …É, realmente, você é jovem. Embora não exista limite de idade para subir de nível.

Ela me lançou um olhar de resignação, seguido de palavras que mataram qualquer esperança minha.

Desde que cheguei à capital, eu já tinha desistido de ser um Caçador de Tesouros de verdade. Para mim, o nível era só um número que viviam empurrando goela abaixo.

O nível de um Caçador reconhecido pela Associação é, na verdade, um indicador de confiança. Esse número não reflete apenas força bruta, mas uma avaliação geral. Na era atual, onde os Caçadores de Tesouros estão no auge, o nível equivale ao status social de alguém.

Geralmente, a subida de nível é determinada pela conclusão de missões e exploração de Cofres do Tesouro designados pela Associação. Após cumprir certos requisitos, o Caçador ganha a chance de fazer o exame de certificação. Mas isso é só na teoria.

Na prática, as regras de nível estão ligadas à própria base do que é ser um Caçador. Como quando a Sitri foi penalizada com a queda de nível por se envolver no caso dos prisioneiros fugitivos. Ali deu para ver que existem mil regras detalhadas, exceções e informações sigilosas.

Uma dessas regras é sobre como lidar com Caçadores que não querem subir de nível.

Em princípio, fazer o exame é uma escolha pessoal. Mas como o nível está ligado à confiança, um Caçador que não é confiável obviamente não sobe. Por outro lado, um Caçador que já tem alta confiança mas nível baixo vira um problema para a Associação.

Eu nunca tive a intenção de subir. Desde que decidi parar de perseguir a carreira de Caçador, um nível alto virou apenas um fardo.

Mas acontece que, para lidar com tipos como eu, a Associação tem várias regras especiais. Às vezes me obrigam a fazer o exame. Às vezes meu nível sobe à força por autoridade do chefe da filial. Teve até caso em que meu nível subiu sem eu nem perceber. As pessoas podem dizer que não faz sentido, mas a realidade é mais estranha que ficção.

E assim nasceu um Caçador Nível 8 com o interior totalmente vazio.

O sistema de níveis foi feito para garantir que pessoas sem habilidade não ocupassem posições imerecidas. Mas parece que os figurões da Associação que criaram as regras nunca imaginaram que um cara comum pudesse ser confundido com um “gênio” como eu.

Mas quando o assunto é Nível 9, a história é outra, bem diferente dos níveis 5 ou 6. Quanto mais alto o nível, mais difícil é subir.

Nível 3 é o padrão para um Caçador de classe média. Daí, quem sobrevive chega ao nível 4. Se tiver talento, chega ao 5. Se tiver sorte também, vira nível 6. Normalmente, o nível 6 é o teto que uma única filial pode determinar. Subir além disso é um parto. Até para tentar o exame do nível 8, o sujeito precisa de conquistas extraordinárias.

Ark Rodin, o primogênito da famosíssima família Rodin, ainda é nível 7. Ansem Smart, que já ajudou muita gente e tem a confiança da igreja e da nobreza, também é nível 7. Até a Rosemarie Puropos, a Magus da Inferno Abissal, que é uma das melhores magi da capital e é temida por incinerar humanos, monstros e até Fantasmas, ainda é nível 8. E ela nunca sequer tentou o exame para o nível 9. Dá para ver como é difícil passar do nível 7, né? (Embora… talvez ela não tenha tentado o exame porque queima gente demais e a confiança dela esteja no chão).

O Nível 9 não é algo que um inútil que só vai na onda, como eu, consiga alcançar.

Além disso, nesta capital, só existe uma pessoa que conseguiu chegar ao nível 9, e ele já é mais velho que a magus da Inferno Abissal. Então, imaginar um cara jovem como eu tentando o exame do nível 9 já soa como piada. Só de pensar nisso, já me dá vontade de vomitar.

Mas talvez eu estivesse sendo paranoico demais. O Nível 9 é diferente de tudo. Desta vez, o Gark-san não conseguiria mexer os pauzinhos por baixo dos panos.

— Bom, dizem que para chegar ao nível 9 tem que ter conquistas do nível de “salvar o mundo”, além de ser forte e famoso. Se for assim… estou seguro.

Para ser nível 9, a pessoa precisa ter tudo. E mesmo tendo tudo, não é garantido. Entre o nível 8 e o 9 existe um muro imenso. Um muro quase impossível de atravessar.

— Com o que você está preocupado…? Não é todo dia que surge uma crise mundial. Mas, se a relação com Yggdra realmente se abrir e trouxer lucros enormes… muita gente pode acabar te apoiando. Na hora de decidir quem merece o nível 9, a Associação também pede a opinião de nobres e mercadores.

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Essa eu não sabia. Mas se a Eva, que vem da Guilda Comercial Welz, estava dizendo, devia ser verdade.

A Grieving Souls tem uma reputação péssima com os nobres, e eu mesmo nunca fiz nada para melhorar a confiança de ninguém. Eu entendo que Yggdra tem um potencial gigante. Mas mesmo que o comércio com eles gere lucros absurdos, isso levaria tempo. Ou seja, por enquanto eu ainda estou a salvo, certo…?

Por algum motivo, comecei a me sentir um pouco melhor. Sentei direito e encarei a Eva para continuar o papo. Agora, como todas as minhas Relíquias ainda estavam com o Mimic-kun, eu realmente não tinha nada para fazer.

— Como é que funciona esse exame para o nível 9?

— Segundo as informações que coletei, o exame muda a cada vez que é realizado. Mas uma coisa é certa: ele deve ser feito solo. Dizem que o objetivo é testar a capacidade individual…

Os exames anteriores nem sempre precisavam ser feitos sozinhos. Afinal, a força de um Caçador não é só habilidade pessoal. Foi por isso que cheguei ao nível 8. Mas no nível 9, parece que a banda toca diferente.

— …Ohh, você sabe bastante, hein? O exame do nível 9 não era informação sigilosa?

— O nosso Meste do Clã é nível 8. É natural que eu pesquise sobre isso.

Exame solo? Prefiro morrer. Eu evito ao máximo sair de casa sem guarda-costas. Nem morto que eu faria um exame desses. Meu humor, que tinha melhorado, despencou de novo.

— Bom, vou entrar em contato com o Chefe da Filial Gark. Hoje, apenas descanse. Continuamos nossa conversa depois.

Eva deu meia-volta e começou a sair, como se já tivesse lido meus pensamentos. Ao chegar na porta, ela olhou para trás uma última vez. Com um sorrisinho leve, disse:

— Krai-san, quase esqueci… bem-vindo de volta.

— É… estou em casa.

A Associação de Caçadores da Capital é a organização que gerencia os Caçadores baseados na capital do Império Zebrudia.

Dentro do escritório do chefe da filial, Gark recostou-se pesadamente em sua cadeira grande e soltou um longo suspiro.

— Caramba… finalmente a papelada para limpar a bagunça daquela maldição está diminuindo.

O incidente da maldição que abalou a capital. O caos imenso que começou com a profecia do Instituto Astrologium de Zebrudia finalmente estava cedendo, e a capital voltava lentamente ao normal. Foi um evento terrível. O dano foi enorme e, mesmo mobilizando a ordem de cavaleiros e os Caçadores, não conseguiram evitar o estrago. Como resultado, a Associação teve que lidar com uma tempestade de cobranças por mais de um mês.

Gark ficou soterrado de trabalho, negociando sem parar com diversas partes interessadas.

O maior problema era que ninguém — nem do império, nem da Associação — entendia a história completa. Mesmo após longas investigações, falharam em encontrar a raiz de tudo. No fim, tiveram que entrar em um acordo com o império para criar uma “versão oficial” aceitável para o público.

Precisavam encerrar o assunto rápido para acalmar a população. Mas, pensando bem, considerando a gravidade do incidente, resolver tudo em um mês foi um milagre. E isso se devia a um fato principal: não houve vítimas fatais.

Pela escala do desastre, era para terem morrido centenas de pessoas. Se foi sorte ou se alguém manipulou tudo para que ninguém morresse, ninguém sabia ao certo.

Do outro lado da mesa, Kaina, que trabalhou sem descanso com ele esse tempo todo, deu um sorriso cansado.

— Tivemos sorte em conseguir desviar a atenção das pessoas, não?

— Não há provas. Não houve mortos e, parando para pensar, as conquistas acumuladas do Krai o tornam alguém em quem ninguém ousa tocar sem cuidado.

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Embora restassem mistérios sobre a maldição na capital, algumas coisas eram claras. Uma delas era que o caos começou quando Luke Sykol levou uma espada amaldiçoada ao dojo do Santo da Espada. E quem deu a espada para o Luke… foi o Mil Truques.

Por essa informação, o Krai Andrey já poderia ter sido declarado o culpado principal. Afinal, entre os nobres de Zebrudia, há muitos que não gostam de Caçadores. No entanto, no fim das contas, todo o incidente foi ligado à Kitsune mencionada na profecia — a organização criminosa Raposa Sombria de Nove Caudas, que vinha sendo caçada desde o incidente no Festival do Imperador. Com isso, a responsabilidade pela falha na prevenção caiu sobre Franz Ergmann, o comandante da Ordem Zero dos Cavaleiros encarregado da situação.

Pensando bem, nem se sabia se a organização estava mesmo envolvida. Pelas investigações conjuntas da Associação e do Império, todos os suspeitos de integrarem o grupo haviam desaparecido do território. Mas, independente disso, se tentassem culpar o Krai agora, o rebote seria grande demais.

Krai Andrey foi quem impediu o assassinato do Imperador. No Festival do Guerreiro Supremo, ele quase capturou um dos líderes da Raposa Sombria de Nove Caudas. Com o status atual, ninguém teria coragem de mexer com ele sem provas irrefutáveis.

— Os nobres que queriam intimar o Krai para interrogatório calaram a boca assim que souberam que ele foi para Yggdra.

— Sim, corre o boato de que Yggdra estava procurando a Pedra Espiritual Amaldiçoada. Por isso, a desculpa colou bem.

Yggdra, a terra dos Espíritos Nobres. Todos sabiam que existia, mas quase ninguém nunca pôs os pés lá. Um reino lendário. Por ser um lugar misterioso, era certo que possuíam cultura e tecnologia únicas. Alguns países chegavam a oferecer fortunas apenas por informações sobre lá. Gark não sabia muito sobre Yggdra e, por isso mesmo, para a Associação, informações sobre o lugar valiam ouro.

Explorar o desconhecido é o dever principal dos Caçadores. Quanto mais raro e difícil o lugar, maior o valor. Por isso Gark Welter assumiu a burocracia do incidente e mandou o Krai para longe.

Então, ele lembrou do que aconteceu dias atrás e fez uma cara de irritação.

— Mas ainda assim… eu não esperava que a própria princesa de Yggdra viria pessoalmente falar conosco…

— É… foi um choque total.

Alguns dias atrás, uma Espírito Nobre alegando ser a Princesa Imperial de Yggdra apareceu subitamente no escritório de Gark com sua comitiva, usando teletransporte. No começo, Gark achou que fosse um ataque. Como não acharia? Eles surgiram dentro da sala dele sem aviso. Mesmo entre os Espíritos Nobres, famosos pelo talento mágico, quase ninguém fazia teletransporte assim.

Mas o que surpreendeu mais foi o pedido da princesa. Ela só queria uma coisa.

Subam o nível do Mil Truques para o Nível 9.

— …O que será que ele fez para uma Princesa dos Espíritos Nobres, que costumam detestar humanos, vir pedir algo assim?

— Ela só disse que estava muito agradecida. Só isso. Mas, mesmo assim, não faz sentido.

Tentaram conseguir mais informações, mas a Princesa de Yggdra saiu às pressas, dizendo que veio escondida e não tinha tempo.

Era um evento sem precedentes. A família real de Yggdra nunca se mostrou ao mundo humano. Mas agora, por um único pedido, ela usou magia de alto nível para vir até aqui. Gark sabia que precisaria interrogar o Krai assim que ele voltasse.

Mas sobre o Nível 9… Ele não podia decidir isso sozinho, então não deu uma resposta definitiva para a princesa. Até temeu que ela ficasse brava com a recusa, mas parece que ela já não esperava uma aprovação imediata.

A certificação de nível da Associação tem regras rígidas. Quanto maior o nível, mais difícil o exame. Após o Nível 8, antes mesmo do exame, o candidato precisa passar por uma seleção administrativa na sede central. A seleção para o Nível 8 é até “tranquila”, mas para o 9? É outro patamar. Nem um rei pode simplesmente recomendar alguém e pronto.

Mas Yggdra era especial. O pedido da realeza deles, somado ao potencial lucro que o país oferecia, era um argumento forte para empurrar o Krai para o Nível 9.

Lendo os pensamentos de Gark, Kaina comentou:

— Aliás, o prazo para as inscrições da conferência de certificação de alto nível está chegando, né?

Essa conferência ocorre uma vez por ano para os Caçadores que querem chegar ao nível 8 ou 9. É a triagem inicial antes do exame. Se não passar na conferência, não tem exame. Quem dá a recomendação é o chefe da filial da Associação. É também uma forma dos chefes provarem sua própria competência.

— Ah… verdade. Hum… como faremos…

— E sobre o Nível 8 do Ark?

— …O Ark está ocupado com missões grandes, o tempo não bate. Além disso… hum. Ele não ia querer subir para o Nível 8 agora, ele tem orgulho.

Como os dois melhores jovens Caçadores da capital, Ark Rodin, o Relâmpago Prateado, e Krai Andrey, o Mil Truques, viviam sendo comparados. Em linhagem e combate, Ark vencia, mas em conquistas, perdia para o Krai, que já era Nível 8. Se o Ark subisse agora, iam dizer que foi por causa da família.

Linhagem e poder político contam na avaliação, mas Ark Rodin não aceitaria vencer assim.

— E o Ansem?

— Ele é bom, mas falta um pouco. Tem o apoio da Igreja da Luz, mas o fato de estar na mesma Equipe que um Nível 8 faz com que ele não brilhe tanto sozinho. Além disso, ele ainda não focou em buscar o nível 8.

Para chegar ao topo, são muitos requisitos. Até o Gark, quando era ativo, parou no nível 7. Ele reclamava na época, mas hoje entende por que parou ali. O mundo… é cheio de monstros que desafiam a lógica.

Eles pensaram em vários nomes, até chegarem ao candidato principal desta vez.

— Por fim, o Krai… Sobre o Nível 9… A distância é enorme comparada ao nível 8.

Gark sentia que, se forçasse a barra, o Ark conseguiria a chance de fazer o exame para o nível 8. Mas o Krai? Nível 9 era outra história. Quanto maior o nível, mais difícil a subida. E o exame para o nível 9 era mais que difícil.

— Em conquistas, ele já deveria ter o suficiente… Mas o nível 9 é pura política, um jogo de empurra.

— Com certeza, todo chefe de filial quer ter um caçador nível 9 na sua jurisdição.

Havia um muro entre o 8 e o 9. Quem chega ao 8 são os heróis de verdade, mas poucos chegam ao exame do 9.

Até o nível 8, o que importa são conquistas e força. Mas para o nível 9, isso é só o básico. O que se exige para tentar o exame do nível 9 é — um carisma absurdo.

Quando os chefes de filial se convencem de que um Caçador merece o nível 9, o processo começa. Na conferência de certificação de alto nível, figurões de vários países, oficiais da Associação e chefes de filiais se reúnem para votar. Eles decidem se o Caçador é digno ou não.

O requisito? Unanimidade.

Aprovação de líderes mundiais, votos de oficiais da sede e das filiais. Só se todos concordarem que o Caçador é digno, ele ganha o direito de fazer o exame.

O Nível 10 é um caso à parte. Em termos de confiança em um Caçador, o nível 9 é o auge. As conquistas do Mil Truques são incríveis, mas salvar um país só não basta para o nível 9.

— Se falhar uma vez na conferência, na segunda tentativa o padrão sobe ainda mais…

— Sim, porque precisa ser unânime. Ninguém passa a menos que tenha conquistas que obriguem todos a aceitarem.

Havia muitos motivos para rejeitarem o Krai Andrey. Era jovem demais, podiam dizer que faltava experiência. Além disso, sua Equipe era tão forte que muitos duvidavam de sua força individual. Convencer essas pessoas era o trabalho de quem o recomendava.

Os votantes eram nobres, realeza, donos de megacorporações mercantis, reitores de academias e centros de pesquisa. A lista mudava todo ano, mas era vasta. E pela reputação do Mil Truques que Gark conhecia, a posição deles era frágil. Mas as conquistas em Yggdra e o apoio da Princesa Selene podiam mudar o jogo.

Ouvindo isso, Kaina hesitou.

— ……Bom, se as conquistas forem gritantes demais, vão achar que é mentira.

— Esse é o problema… Aquele sujeito resolve as coisas rápido demais. Se eu mesmo não estivesse limpando a bagunça depois, talvez eu nem acreditasse.

Conquistas reais, provas reais. Mas ainda assim, inacreditáveis. Esse era o grande obstáculo. Pelas contas de Gark, mesmo com o apoio do Imperador de Zebrudia, não era garantido que a conferência aprovasse.

O Mil Truques não vinha de uma linhagem famosa de Caçadores, então não tinha um histórico que gerasse confiança automática. Além disso, ele atuava muito só em Zebrudia, limitando seus contatos. E o pior eram os outros chefes de filial.

Ter um nível 9 na filial era motivo de orgulho e uma conquista política para o chefe. Embora devessem ser justos, os chefes tinham seus “protegidos” em suas próprias filiais. Era natural que avaliassem candidatos de fora com mais rigor — ou que votassem contra alguém de quem não gostavam.

Conquistar um Cofre do Tesouro de alto nível exige força, mas conseguir unanimidade? É muito mais difícil. Se ficar parado em um único país, é quase impossível. Cada voto e sua justificativa seriam publicados. Era uma guerra política.

Pensando em tudo isso, a cabeça de Gark começou a latejar. Era a primeira vez que ele tentava uma recomendação para o nível 9. Dava vontade de largar o cargo e voltar a ser Caçador.

Entendendo a frustração dele, Kaina sorriu:

— O Krai ainda não voltou, então nem podemos oficializar o pedido. Por enquanto, vamos espalhar o boato sutilmente. Se não der este ano, serve de base para o ano que vem. Zebrudia também deve se movimentar.

— Certo. E além disso… temos que considerar o conteúdo do exame.

O exame para o Nível 9 leva tempo para ser agendado e é brutal. Se para entrar no exame você precisa de carisma, o que é testado lá é… a habilidade individual.

O teste é um só: completar uma missão. O problema é que as missões escolhidas não são simples. São missões de várias Associações que estão paradas há séculos e que têm mil problemas. O nome “exame de certificação” é só fachada. O nome correto deveria ser “teste de sobrevivência”. Geralmente são missões que Caçadores de alto nível já falharam repetidas vezes. Em suma, missões com um histórico tenebroso.

Às vezes, por puro azar, o candidato pega uma missão que até Caçadores Nível 9 já falharam antes. Como as missões mudam, a dificuldade oscila drasticamente. Já discutiram mudar isso, mas desde a fundação da Associação, a regra nunca mudou.

Conquistas, força e — sorte. Só quem tem os três chega ao Nível 9.

— Ouvi dizer que a sede está agitada. Talvez uma missão especial tenha surgido.

Missões de Nível 9 têm dificuldades absurdas. Gark já deu missões difíceis para o Krai, mas pelo menos elas tinham chance de sucesso. Desta vez… ele não tinha certeza. Gark sabia que a sede tinha missões sem solução há anos.

…Talvez fosse melhor adiar desta vez.

— É, vamos ver. Só espero que o “favor” que ele fez em Yggdra seja o suficiente para convencer o pessoal…

— …O problema é que o Krai-kun sempre cria situações impossíveis de explicar.

Movimentos imprevisíveis, conquistas absurdas demais para acreditar e, o que mais dava dor de cabeça, sua personalidade real, relaxada demais para parecer alguém incrível. Gark coçou a cabeça e disse para Kaina:

— Não podemos dizer à sede que a Princesa de Yggdra se teletransportou para cá do nada. Quero dizer… de todos os ângulos, isso é problemático.

Primeiro, a figura da Princesa de Yggdra por si só já era como uma lenda. Segundo, magia de teletransporte sem um círculo mágico era quase impossível no mundo humano. E terceiro, se formos detalhistas, isso conta como entrada ilegal no país.

Tanto Gark quanto o Mil Truques tinham conquistas consideráveis, mas se os relatórios fossem absurdos demais, do ponto de vista dos outros, ninguém acreditaria. Até o próprio Gark, se não tivesse vivido isso pessoalmente, acharia que era apenas uma piada. A sede já tinha sido avisada que o Krai foi para Yggdra, mas o mais provável era que eles questionassem tudo desde o começo.

Se o que ele fez em Yggdra fosse realmente algo impossível de ignorar, então Krai estaria à beira de subir para o Nível 9. Mas, para este ano, talvez não desse tempo. O prazo era curto demais. Se o Krai voltasse agora, e a Princesa Selene viesse junto à capital para provar sua identidade e dar apoio total à Associação de Caçadores, talvez ainda houvesse esperança.

Mas tanto faz. Se ele conseguisse subir para o Nível 9 este ano, seria o mais jovem da história. Se falhasse agora, acabaria subindo no ano que vem de qualquer jeito. Desde que conheceu o Krai, Gark sentia que sua paciência só aumentava. Enquanto estava mergulhado nesses pensamentos, alguém bateu à porta. Um subordinado entrou.

— Chefe da filial, recebemos uma mensagem da Vice-Mestra da Primeiros Passos. O Mil Truques retornou.

— O quê!? Meus homens deveriam estar vigiando o portão, como é que a Eva me avisa primeiro?

Ele já sabia que a situação seria complicada, mas foi o próprio Gark quem decidiu priorizar a ida do Krai para Yggdra. As pessoas já sabiam da viagem. Do império até várias outras organizações, todos estavam esperando sua volta. Se outros encontrassem o Krai primeiro, o problema seria ainda maior. Rapidamente, ele abriu a carta trazida pelo subordinado.

Leu uma, duas, três vezes. Gark levantou a cabeça e amassou o papel na mesma hora.

— Kaina, prepare os documentos para o pedido do exame de certificação de Nível 9. Depois, envie um relatório para a sede avisando que alguém acabou de voltar de Yggdra. Eu vou direto para o lugar da Eva. Vamos ficar ocupados a partir de agora.

A Casa do Clã da Primeiros Passos foi construída reunindo as melhores Equipes da nova geração e custou uma fortuna absurda. O lugar foi projetado para que os moradores pudessem viver sem precisar colocar o pé fora. No segundo andar, havia um lounge que servia comida, então se isolar por uma ou duas semanas não era problema nenhum.

Já fazia cinco dias que eu tinha voltado para a capital. Hoje eu continuava levando minha vida de pura vadiagem na sala do Mestre do Clã. Eu dormia quinze horas por dia, fazia três refeições com direito a lanchinho, e a única coisa que me decepcionava era não ter nenhuma Relíquia para polir.

Deixei tudo nas mãos da Eva, então, mesmo estando na sala do Mestre do Clã, nenhum trabalho chegava até mim. O Gark-san também não apareceu para surtar, o que significava que a Eva estava conseguindo enrolar ele direitinho. Para ser sincero, explicar tudo o que rolou em Yggdra era difícil demais para mim. Assim que a Sitri voltasse, ela explicaria tudo com perfeição.

Principalmente sobre aquele agitador de Mana Material… eu não dou conta de responder perguntas sobre aquilo.

Parece que, enquanto eu estava em Yggdra, o incidente dos itens amaldiçoados na capital foi resolvido. Nos jornais que a Eva trazia, o assunto quase não aparecia mais. O tempo é mesmo o melhor remédio… mas sério, a paz é a melhor coisa que existe. Mas sem ter o que fazer, comecei a ficar entediado. Talvez eu devesse voltar a escrever meu diário… quando foi a última vez que escrevi mesmo?

Fui checar e vi que a última entrada foi um dia antes do recrutamento conjunto do clã. Fazia tempo pra caramba. Comecei a escrever um resumo dos acontecimentos recentes. Eu ainda lembrava das coisas grandes, mas os detalhes pequenos já estavam sumindo. Será que eu esqueci ou nunca soube de verdade? Bem, o fato é que eu vivo sendo arrastado para confusões.

Um Caçador de Tesouros normalmente viaja o mundo atrás de Cofres do Tesouro e aventura. Mas depois de ir para Yggdra, sinto que já visitei quase todos os lugares que existem. Encontrei bandidos, monstros, Fantasmas e até deuses, explorando lugares que nem estavam no mapa. Agora nem consigo pensar em outro lugar que eu queira visitar. Se tivesse que escolher… talvez quisesse conhecer um país com uma cultura diferente, e não só um lugar escondido ou um Cofre do Tesouro.

A cultura de cada país neste mundo é muito influenciada pelo tipo de Cofre do Tesouro que existe por perto. Por exemplo, perto de Zebrudia existem vários tipos, então a cidade não tem uma característica única. Mas se um país tem Cofres do Tesouro que produzem utensílios domésticos avançados que a civilização moderna nem consegue replicar, com certeza o povo de lá vai ser dependente disso. Como as Relíquias precisam ser recarregadas com mana, mesmo quem não é um Caçador acaba tendo um nível de poder de um magi.

O Mana Material pode criar qualquer coisa, sem limites. Já ouvi falar de cidades que flutuam no céu ou ficam no fundo do mar. Mas eu, pessoalmente, não quero ir para lugares perigosos demais. Se pudesse escolher, preferia uma cidade mais confortável que a capital. Mas acho que não existem muitas assim…

Aliás, rola um boato sobre um país que tem um Cofre do Tesouro de uma civilização científica de alto nível, e todo mundo lá vive do que sai de lá. Essas civilizações científicas são raríssimas. Perto da capital não tem nada parecido. Mas as Relíquias de lá são famosas por serem muito mais úteis que as outras. Tipo o “Smart Phone” que eu tive por um tempo. Aquilo era uma Relíquia de civilização científica.

A civilização científica é o oposto da civilização mágica. É o tipo de Cofre do Tesouro que eu queria ver com meus próprios olhos. Infelizmente, os países que têm esses lugares costumam barrar a entrada de Caçadores. Eu não tenho a mínima vontade de explorar o Cofre deles, mas se pudesse ir para uma cidade perto de um lugar assim, talvez achasse um substituto para o meu celular, que virou uma folha por culpa daquela irmãzinha raposa. Quando a Sitri e os outros voltarem, talvez eu peça para a gente ir para lá…

Enquanto eu pensava nisso relaxado, bateram na porta e a Eva entrou.

— Krai-san, o Chefe da Filial Gark mandou um recado. Ele quer que você apareça lá, se puder.

— Estou ocupado, não vai dar.

— Ele disse que precisa de mais informações. Além disso, muita gente está procurando a gente. Tem pedidos de entrevista e convites para vários eventos também.

Eu só contei para o Gark-san sobre a minha volta e que consegui permissão para a filial. Sobre o Cofre do Tesouro em forma de santuário? Esse assunto é pesado demais para eu lidar. A Selene também deve aparecer na Associação para conversar, mas não sei quando.

— Até o Sir Franz já te chamou. Consegui adiar um pouco, mas não vai durar muito. Se você não der informações logo, vão começar a dizer que é tudo boato. Especialmente sobre Yggdra, sempre surgem notícias falsas.

Bem, tanto faz se acharem que é mentira ou não. Não perco nada com isso. Todo mundo gosta tanto assim de Yggdra, é?

Cruzei as pernas, suspirei e disse:

— Ah, sabe como é… Yggdra é só uma cidade comum no meio do mato. Eles não podem ter um pouco de paciência? Além disso, a Selene é uma princesa, deve estar atolada de coisa para resolver.

— M-Muitas coisas?

Bem, aconteceu muita coisa, mas a Selene é uma princesa com um senso de responsabilidade enorme e uma visão para o futuro. Ela deve estar ralando agora para abrir caminho para Yggdra, que sempre foi isolada.

— É, acho que não vai demorar. Relaxa, a Sitri está montando os relatórios. Quando ela voltar, vai entregar tudo mastigadinho para eles.

— Mas não temos muito tempo… Para usar isso como requisito para o Nível 9, a conquista precisa ser oficializada. No mínimo, temos que mandar oficiais da Associação de Caçadores para Yggdra primeiro.

— …Relaxa. Fica fria, fica fria.

Eu não pretendo subir para o Nível 9 mesmo, então que se dane. Sério, eu não devia ter me dado ao trabalho de pedir a filial… Eu quase nunca sou útil, então quando apareceu a chance, acabei me empolgando demais…

— Recebi a notícia de que alguém da sede central da Associação de Caçadores já chegou à capital para investigar essa história a fundo.

— O Gark-san é bem esforçado, né?

Dizem que ele era um guerreiro casca-grossa, mas agora vive fazendo isso. É impressionante como ele trabalha duro sem ninguém pedir. Mas mesmo que eu consiga ir para o exame, sinto que não passaria de jeito nenhum. Se eu falasse isso em voz alta, será que alguém ficaria bravo?

Enquanto eu viajava na maionese, Eva soltou um suspiro de resignação.

— ……Por favor, resolva isso de verdade. Vou tentar convencer o Gark-san a esperar mais um pouco. Se tiver qualquer informação nova sobre Yggdra, me avise na hora.

Eva saiu apressada. Vi de relance que ela parecia bem estressada. Será que ela está tendo um burnout? Ela passou esses cinco dias limpando a minha barra, então talvez fosse hora de eu fazer alguma coisa. Se a Eva pifar, quem se ferra sou eu. Mas fazer o quê? Eu mesmo não tenho muito o que dizer.

— Espera, Eva… Acho que vou falar um pouco, então.

— Hein!? Sério? Por que do nada—

Eva arregalou os olhos, surpresa. Me senti ainda mais culpado por jogar tudo nas costas dela.

— É, acho que já está na hora…

Eu não queria, mas fazer o quê. Acho que os primeiros que eu devia ver eram o Gark-san e o Franz-san. Melhor ver os dois de uma vez e liquidar o assunto. O resto eu resolvo depois.

— Eva, chame o Gark-san e o Franz-san para o lounge. Não tenho nada novo, mas vou responder às perguntas deles. Quem sabe conversando eu não lembro de algo.

— Eh…? No lounge?

Eu não pretendia falar de nada sério. Além disso, no lounge teria outros membros do clã. Se desse ruim, pelo menos eu teria testemunhas. E se alguém tentasse me bater, alguém me ajudaria, né?

Fui para o lounge e esperei uns quinze minutos. Logo depois, Gark-san e Franz-san apareceram. Eles tinham uma aura bem diferente dos Caçadores comuns. Gark-san veio com a Kaina-san e um homem de uniforme da Associação que tinha uma cara de malandro. Já o Franz-san trouxe três subordinados.

Comecei a ficar tenso… Esse tipo de situação é exatamente o que eu evito. Por outro lado, eu estava só com a Eva. Que azar, logo hoje que eu precisava de gente, o lounge estava vazio.

— Chegaram rápido, hein.

— Já estávamos esperando há muito tempo, o normal seria você ter ido relatar primeiro… mas que seja. Aliás, esse lugar é enorme, para vocês alugarem o lounge só para vocês assim.

Franz-san varreu o lounge com um olhar afiado.

— Ah… as coisas acabaram ficando assim, não teve jeito.

Não foi por querer que deixei o lugar vazio. Mas ver a Kaina-san ali me deixou um pouco mais calmo. Vamos acabar logo com isso. Enquanto a Sitri não chega, não tenho muito o que falar.

Nesse momento, o homem que o Gark-san trouxe deu um passo à frente com um movimento exagerado e estendeu a mão.

— Prazer, sou Zultan Lumilson, da Divisão de Investigação da sede da Associação de Caçadores. Vim direto da sede a pedido do Chefe da Filial Gark. Espero que possamos trabalhar bem juntos.

— Krai, o Zultan-dono veio da sede usando um círculo de teletransporte só para ouvir sua história sobre Yggdra. Você tem noção da importância disso? Isso vai definir o seu futuro. Então, como sempre, espero que você relate tudo direitinho.

Gark-san deu ênfase no “como sempre”. Respirei fundo e tentei falar do meu jeito mais descolado.

— Ah… muito obrigado… Meu nome é Krai Andrey…

Embora falasse educadamente, o olhar do Zultan era afiado; estava na cara que ele não acreditava em uma palavra minha. Ele parecia o tipo que não deixava escapar nenhum detalhe. A Associação tem muitas filiais, mas só os melhores dos melhores ficam na sede central. Normalmente, eles só observam de longe e raramente vão para o campo assim.

— Já ouvi muito o seu nome. Soube que você não só chegou à lendária cidade de Yggdra, mas também conseguiu a promessa de abrir uma filial lá. A sede ficou em polvorosa quando soube, por isso me mandaram imediatamente. Antes da filial ser aberta, precisamos investigar e coletar informações.

Zultan não parava de falar, sem dar chance para o Gark ou o Franz interromperem.

— Ao longo dos anos, vários Caçadores afirmaram ter chegado a Yggdra, mas após as investigações, tudo se provou um mal-entendido… ou mentira. Ninguém nunca encontrou a cidade de verdade. Alguns só acharam vilarejos pequenos de Espíritos Nobres e acharam que era Yggdra.

Bem, faz sentido. Zultan me encarava, e eu apenas concordava com a cabeça.

— É… faz sentido mesmo.

— !? Ei, Krai!?

— Obviamente, não acho que um Caçador de Nível 8 com um título cometeria um erro desses. Esta informação é muito confiável. Além disso, o Chefe da Filial Gark confia plenamente em você. Por isso, vou verificar a verdade pessoalmente. Se for provado, isso será o empurrão final para sua promoção ao Nível 9, sem dúvida.

O cara parecia bem competente, mas pelo menos não era violento como o Gark-san. Olhei para o Gark, o Franz, o Zultan e depois para a Kaina, antes de dizer calmamente:

— Tudo bem. Se quiserem perguntar algo, fiquem à vontade. Mas, como eu disse antes, não tenho nada de novo para contar. Mas o que eu puder responder, eu respondo.

Eu só ia falar a verdade. Só isso. Franz-san finalmente abriu a boca:

— …Você diz que não tem nada novo… Mas o problema é que o que temos agora é quase nada. Soube que a Princesa de Yggdra virá à capital para discutir a filial. Se for verdade, precisamos preparar tudo. Você entende, né?

— Hum… é, acho que não tem problema. A Princesa Selene não liga muito para essas formalidades.

— M-Mesmo que para você não seja problema, para nós é vital!

Franz-san começou a se irritar, enquanto o Zultan concordava como se entendesse o lado dele.

— Os Espíritos Nobres são famosos por serem difíceis. Na verdade, isso é segredo interno, mas a sede tenta investigar Yggdra há tempos contratando Caçadores que são Espíritos Nobres. O resultado? Quase zero progresso. Se a própria princesa deles está envolvida, deve ser ainda mais difícil. Estou curioso, como você conseguiu o sim dela?

— Ah, isso? Eu só ofereci e ela disse “ok” na hora. Acho que dei sorte.

Provavelmente todo mundo imaginava que a Selene tinha um orgulho enorme. Mas não. A Lapis e os outros pareciam muito mais nobres que ela. Talvez por lutarem sem parar, as coisas inúteis acabaram sendo deixadas para trás. Zultan ficou com uma cara estranha. Gark-san me encarava com uma pressão enorme.

— Então… foi só sorte? Mesmo assim, não entendo. Por que Yggdra, que é tão fechada, agora quer uma filial da Associação de Caçadores? Você ouviu algo sobre isso?

— Ah, sim… eles disseram que vão relaxar as regras de entrada e saída e começar a ter relações com os humanos.

— !? Isso é impossível…

Zultan arregalou os olhos. Gark e Franz também ficaram chocados. O motivo de Yggdra ser fechada era para proteger a Árvore do Mundo, não era por capricho.

— É, eu sei que parece difícil de acreditar. Mas a Selene é uma pessoa bem única… Para vocês terem ideia, ela até disse que queria me entregar todo o poder de Yggdra. Eu tomei um susto na hora.

— ………………..

— E ela também planeja transformar Yggdra em um país turístico. Disse que quer cavar águas termais e fazer torneios de artes marciais. Quando ouvi isso, fiquei sem palavras.

— ………………..

De repente, o lounge ficou num silêncio mortal e um clima pesado. Percebi que a situação tinha ficado estranha. O olhar deles questionava minha sanidade. A cara do Gark e do Franz estava séria, mas o pior era o Zultan. Parece que falei demais. Limpei a garganta e tentei me explicar:

— É-É que sobre o poder, acho que a Selene não estava batendo bem da cabeça na hora. Devia estar relaxada demais e falou sem pensar.

Depois disso ela nunca mais tocou no assunto de me dar Yggdra. Deve ter sido um erro de momento. Mas o lance do turismo era real. Não tinha como inventar desculpa. Zultan respirou fundo e finalmente falou:

— Haaah… B-Bem. Se essa Princesa realmente vier, saberemos de tudo. O problema agora é quando. Eu e a sede não temos tempo sobrando, sabe?

— …É-É verdade, Krai. Se ela não vier, não tem conversa. Tem previsão de quando ela chega? Se for antes da conferência de certificação do Nível 9, ajudaria muito.

Gark-san falava como se estivesse segurando algo. Eu disse algo estranho…? Bem, talvez, mas eu não menti. Se o que eu disse pareceu estranho, é porque a Selene é que é estranha. Tentei pensar no pedido do Gark. Mas, como eu disse mil vezes, não sei quando ela vem. Ela está ocupada, então não deve demorar muito, mas…

— Hum… então. O povo dos Espíritos Nobres tem uma paciência infinita. Para eles, cem anos são um piscar de olhos. A Selene está ocupada, então…

— Cem anos!? Eu ouvi direito? Você disse cem anos!?

— É-É, mas tudo depende dela. Pode ser que ela venha muito antes. Mas para ser sincero, eu não sei bem o que responder sobre isso—

— !?

Droga… quanto mais eu falo, mais a situação piora.

O olhar do Zultan estava mudando, o Franz parecia que ia explodir. E a Eva, não sei quando, ficou pálida como um fantasma. Mas a cara do Gark agora era de puro pânico. Geralmente ele gritaria, mas agora o suor escorria da sua careca.

— B-Bem, as outras informações a Sitri vai organizar, então esperem um pouco. Mais alguma pergunta?

Assim que eu disse isso, Zultan levantou num solavanco que a cadeira rangeu. No começo achei que ele fosse malandro, mas agora estava vermelho e parecia transtornado.

— …Já ouvi dizer que você era um Caçador esquisito, mas… Chefe da Filial Gark, você realmente quer deixar um cara desses tentar o Nível 9? Você é bem corajoso. O Nível 9 é o exemplo para os Caçadores, a esperança das pessoas. Se você depende do apoio de uma princesa de Yggdra que talvez só apareça daqui a cem anos, acho que vai ser difícil… Bem, a decisão é sua como chefe da filial.

— E-Espera, Zultan-dono! Isso é uma armadilha dele!

Gark-san gritou desesperado. Kaina-san concordava freneticamente, enquanto o Franz me olhava boquiaberto.

— Armadilha? Que armadilha? Eu nunca armei nada para ninguém.

— Espera, Zultan-san! O Krai-san é realmente forte! Você conhece o histórico dele, não!?

Kaina-san quase se levantou de tanto pânico. Ela raramente falava com esse tom. Mas, para ser sincero, eu não sou forte de jeito nenhum. Meu histórico é bem duvidoso. Ah, e eu nunca disse que a Selene viria só daqui a cem anos.

— É, talvez seja cedo demais para o Nível 9. Eu não sou forte o bastante — ou melhor, não tenho o menor interesse. Se abrir a filial em Yggdra for considerado uma conquista, eu prefiro cancelar tudo agora mesmo.

— !?

— ……B-Bem, já que estou em Zebrudia, vou ficar por aqui para ver como essa palhaçada de Yggdra vai terminar.

— Zultan-dono!!

Zultan falou cuspindo as palavras e saiu batendo o pé do lounge. Gark-san gritou por ele, mas ele nem olhou para trás. Fiquei piscando, vendo ele ir embora. Franz, Gark e Kaina agora me encaravam intensamente. Respirei fundo e perguntei:

— ……Eu disse algo errado?

— Primeiro de tudo, para de falar desse seu jeito convencido!!

Ah, é… mal de hábito, desculpa.

Franz-san me olhava como se quisesse me matar e perguntou com uma pressão enorme:

Mil Truques, você fala com tanta leveza… Você realmente foi para Yggdra?

— ……Acho que sim?

Quando ele perguntou assim, até eu fiquei na dúvida… Será que tudo o que vivi lá foi um sonho?

— O quê!? Como assim “acho”!? Você sempre faz o que quer, mas se essa história causar um escândalo e descobrirmos que você nunca foi para Yggdra, será o maior escândalo desde a fundação de Zebrudia!! Sua vida não bastará para pagar por isso!!

Sério que a história era tão absurda assim? Eu não lembro de ter pedido para acreditarem em mim… Parecia que eu estava sentado num barril de pólvora. Não imaginei que o lounge ficaria tão desconfortável… A última vez que me senti assim foi quando a Sitri inventou de apostar quem carregava mais Relíquias aqui. É, esse lounge atrai coisas estranhas.

Gark-san, que estava tremendo, finalmente falou com a voz abafada:

— Franz-dono… ele realmente foi para Yggdra.

— !? …Como assim? Eu senti que você estava estranho desde o começo.

— Pois é, Gark-san. Geralmente você já teria me dado um esporro.

Não que eu estivesse reclamando, mas era esquisito. Gark-san estava vermelho, segurando o rojão, e disse tenso:

— A Selene, a Princesa de Yggdra… acabou de aparecer na minha sala com a guarda dela, Ruine. Mas elas foram embora logo em seguida.

— Eh? Selene? Quando?

Perguntei no automático. Na mesma hora, Gark-san explodiu:

— Antes de você voltar para cá, seu idiota!

— !? E-Espera, como assim, Chefe da Filial Gark?

Franz-san estava cada vez mais perdido. Selene veio antes de eu chegar? Sério? Mas ela não disse nada quando nos despedimos…

— Eu não queria contar porque a história não faz sentido. Mas se eu soubesse que você ia falar tantas asneiras, eu teria contado antes! Droga! Eu devia ter falado da sua personalidade podre também! Mesmo que isso dificultasse o exame de Nível 9!

— Não faz sentido!? O que não faz sentido!? Você disse que ela veio na sua sala, mas não tem registro no portão da capital!

…Eu não falei asneira, só fui honesto. Mas bem… então a Selene veio mesmo, né? Eu não tinha dito o nome da Ruine, mas o Gark-san acabou de falar.

— Chefe da filial, vou atrás do Zultan-san. Se ele relatar o que aconteceu agora para a sede… ele vai ser um coitado.

— Tudo bem, cuide disso.

Kaina-san falou séria e saiu em direção à porta. …Um coitado? O que ela quis dizer com isso?

Mas quando a Kaina-san estava quase saindo — de repente, uma luz brilhou na frente do Franz.

— !?

Franz-san cobriu o rosto, enquanto os soldados atrás dele já sacavam as espadas. A luz foi rápida. Surgiu do nada no ar. E dela, uma figura familiar apareceu diante de nós. Todo mundo ficou estático, em choque. A beleza dela continuava a mesma, mesmo longe da floresta. Quem apareceu foi ninguém menos que Selene Yggdra Frestel.

— ………………..

Gark-san ficou com uma cara de poucos amigos. Kaina-san estava super tensa. Selene olhou em volta como uma turista perdida. Mas quando me viu, ela ajeitou a postura e tentou fazer pose de durona. Mas, bem, tarde demais. Sem ligar para o Gark, o Franz ou a Kaina, Selene passou por eles e parou na minha frente. Com a cara lavada, ela disse:

— Humano, minha mana já carregou, então vamos brinc, digo, inspeção. Me mostre logo esse lugar chamado Zebrudia.

…Seu timing é horrível. Logo depois que o Zultan-san saiu.

— Então é verdade… isso realmente não faz sentido.

Franz-san sussurrou, com a voz falhando. O lounge ficou num clima pesadíssimo. Todo mundo, até o Gark e a Kaina, que já tinham visto el, ficou paralisado. Mas a Selene nem notou. Ficou olhando em volta, girando e comentando:

— Que prédio esquisito. Então este é… o reino dos humanos! E olha só, tem vidro para todo lado! Isso aqui é uma casa de humanos?

— É, dá para dizer que é parecido…

— Incrível! Fiquei inspirada! Também quero construir algo assim no meu reino! Mas usando só árvores!

Hah… se for assim, posso apresentar ela para os Trogloditas. A técnica de construção liderada pelo Ryuulan anda fazendo o maior sucesso na capital ultimamente. Só com árvores? Deve dar para dar um jeito.

Mas, ainda assim, Selene… isso foi mais rápido do que eu imaginei. Olhei para as roupas dela por um momento e perguntei, com o cenho levemente franzido.

— Os assuntos de Yggdra já acabaram? Você não tinha dito que ainda tinha projetos de construção da nova cidade e tudo mais?

— Deixei com o Ruine. Além do mais, os magi de Yggdra são todos excelentes. Na verdade, uma tarefa de inspeção como esta só pode ser realizada por uma princesa como eu. Este é o primeiro passo para transformar Yggdra em uma nação turística.

— Ngh!?

Com total confiança, Selene estufou o peito e fez o anúncio. Gark-san e Franz-san congelaram na mesma hora.

É… agora pouco ela quase deixou escapar a palavra “brincar”. Mas se ela insiste em chamar de inspeção, beleza, eu vou na onda.

Se são realmente tão incríveis ou não, eu não sei, mas o fato é que os magi de Yggdra são extremamente leais à Selene. Agora que a ameaça sumiu, ela pode se mover livremente.

Fazer o quê, né. Ela chegou em um momento péssimo, mas já aconteceu, então não tem volta. Melhor eu olhar pelo lado positivo. Como estou sem guardas, não posso ficar saindo por aí. Mas se a Selene vier junto, ela é forte o bastante para servir de guarda-costas.

— Bem, se quer fazer uma inspeção, posso te levar para conhecer a capital. Você gosta de doces? Conheço uma loja ótima. Também tem uma loja de Relíquias.

— …Humano, aceito sua oferta. Mas lembre-se, não vim aqui para brincar. Isso é trabalho. Brincar também faz parte do trabalho.

Selene falou com o rosto radiante. No fundo, ela é só uma criança curiosa.

Enquanto isso, Gark-san e Franz-san… continuavam estáticos, como se não soubessem o que fazer. Os outros estavam na mesma, apenas encarando a mim e a Selene sem coragem de abrir a boca. Para eles, o surgimento repentino de uma princesa de Yggdra era um problema colossal.

Pelas regras, era claramente uma entrada ilegal. Mas Yggdra é um mistério tão grande que nem a localização exata é conhecida. Se eles fizessem uma reclamação oficial, as relações diplomáticas que começaram a ser construídas com tanto esforço poderiam desmoronar num instante. Além disso, eles não podiam simplesmente berrar comigo na frente da autoridade máxima de Yggdra.

Selene realmente deixou todo mundo contra a parede. No meio dos que ainda estavam em choque, a única pessoa que finalmente criou coragem para falar foi a Eva, que estava sentada ao meu lado. Ela percebeu que, como minha representante no clã, precisava começar a pensar no nosso lucro também.

— U-Umm… Krai-san? Não me diga que ela é…

Ao ouvir isso, Selene finalmente desviou o olhar de mim e encarou a Eva. Ela parecia confusa, como se estivesse pensando: Ué, o que ela está fazendo aqui?

É natural que o Gark-san e os outros ainda não estivessem acompanhando o ritmo da situação. Mas, em uma sala cheia de gente, e considerando que ela já tinha encontrado a Kaina-san e o Gark-san antes, Selene agia como se não notasse ninguém além de mim. Como ela não é humana, o padrão de pensamento é outro.

Mas eu não podia ficar conversando só com a Selene o tempo todo.

— Ah, esta é a Selene, a líder de Yggdra de quem eu estava falando. Selene, esta é a Eva, meu braço direito. É ela quem cuida para que este clã não seja destruído pelas minhas excentricidades. Então, se precisar de qualquer coisa, fale com a Eva, ela com certeza vai ajudar.

— Eh!?

— Cuidar para que o clã não seja destruído por você, é… Entendo.

Selene assentiu como se tivesse acabado de compreender algo profundo e sorriu para a Eva, que continuava rígida por ter recebido essa “batata quente” de repente.

— Prazer em conhecê-la. Sou Selene Yggdra Frestel. Vou contar com a sua ajuda de agora em diante.

— P-Prazer em conhecê-la também… Meu nome é Eva Renfied. Se houver qualquer problema, eu cuidarei da situação no lugar do Krai-san.

— Você é muito competente. Já decorei seu nome.

Ótimo, ótimo. Pelo visto, se eu fizesse a introdução, a Selene conseguia começar a prestar atenção nas outras pessoas. Aproveitando que o pessoal ainda estava boquiaberto, decidi apresentar todo mundo de uma vez. Eu não pretendia ajudar muito nos assuntos da Selene daqui para frente, e quando o assunto é delegar trabalho, ninguém ganha de mim. (Ou melhor, isso aqui era empurrar a responsabilidade total).

Levantei, caminhei até o Gark-san, que ainda estava congelado, e dei uns tapinhas no ombro dele.

— E este é o Gark Welter, chefe da filial da Associação de Caçadores na capital. Ao lado dele, a Kaina-san, sua vice. Ouvi dizer que vocês já se conhecem? Se quiserem discutir sobre a abertura da filial em Yggdra depois, falem com eles. Bem… por assim dizer, eles são tipo o meu braço esquerdo. Haha…

— !? E-Ei, espera um pouco!?

— Entendo. É a primeira vez eu ouço os nomes de vocês.

— Mas vocês já não tinham se apresentado antes!?

Gark-san, parecendo em pânico, já estava meio levantado da cadeira, mas Selene não demonstrou nenhuma suspeita. Apenas assentiu calmamente. Por algum motivo, parecia que eu estava programando o padrão de pensamento de alguém do zero.

Por fim, virei-me para a última pessoa e bati no ombro do Franz-san.

— E este é o Franz-san. Uma pessoa importante de Zebrudia. Se houver algum problema, é ele quem ajuda a resolver. Eu mesmo peço ajuda para ele direto, então se tiver qualquer dificuldade, fale com o Franz-san. Até para conseguir permissão de entrada na capital ele consegue dar um jeito de contrabandear, sabe…

— Ugh… a-ah, sim… é-é mais ou menos por aí…

— Entendo. E este humano, ele seria qual parte do braço?

— !?

Selene piscou com inocência enquanto perguntava, como se a pergunta fizesse todo o sentido do mundo. Ela é ingênua demais… ou talvez apenas pense de um jeito muito diferente.

Braço…? Humanos só têm dois braços, sabia! Olhei para o Franz-san, que parecia prestes a desmaiar, e inclinei a cabeça enquanto buscava uma resposta.

— Uhh… talvez… o pulso esquerdo?

— Pulso esquerdo… Vou memorizar isso.

— !?

Ela realmente levou a sério… Mas o que eu podia fazer? O que mais eu ia responder? Franz-san não disse nada, mas as veias na testa dele começaram a latejar. Acho que passei do limite de novo. Gark-san e os outros estavam ansiosos pela vinda de uma princesa, mas se ela aparece assim do nada, só gera mais trabalho. Foi repentino demais, eles com certeza teriam muito o que organizar.

Para distrair, abri um sorriso largo.

— Bem, então vamos logo dar uma volta pela capital. Gark-san e Franz-san com certeza precisam de um tempo para pensar. Eva, você ouve o que eles têm a dizer, ok? Eu vou aproveitar o tempo por aí.

— !? H-Ei, espera aí, o que você quer dizer com—

— !! Que resposta rápida, estou encantada. Se eu não conhecer a cidade e a cultura, como vou poder me adaptar, não é?

Selene interrompeu na mesma hora com os olhos brilhando, abafando o protesto do Franz-san.

…Acho que dei um passo em falso, né? Hoje é realmente um dia de azar.

Eu dei um sorriso desajeitado de quem já aceitou o destino, enquanto o Franz-san, com o rosto vermelhíssimo, apenas balançou a mão como se estivesse me mandando sumir dali o mais rápido possível.

Em um quarto no segundo andar de uma estalagem localizada na avenida principal da capital de Zebrudia, Zultan estava usando uma pedra de comunicação conectada diretamente à sede da Associação de Caçadores para prestar seu relatório.

— Sim. A história é absurda demais, totalmente inacreditável. O modo de falar do Mil Truques também não é nem um pouco convincente, foi a impressão que tive ao ouvir pessoalmente. Já fomos enganados várias vezes com assuntos de Yggdra, não é? É verdade que o Chefe da Filial Gark, que estava na sala, parecia acreditar plenamente nesse tal Mil Truques.

A luz do sol entrava pela janela grande, iluminando o quarto. A cidade era muito mais movimentada do que diziam. Na avenida principal, o fluxo de pessoas era algo que, em cidades pequenas, só se via em dias de festival. Todos sabiam que o desenvolvimento deste país era sustentado em grande parte pelos Caçadores de Tesouros.

Mas, na verdade, quem sustentava o mundo dos Caçadores por trás das cortinas era a Associação de Caçadores. Graças ao sistema gerenciado pela Associação, os Caçadores conseguiram alcançar a posição que ocupam hoje.

Compartilhamento de informações. Oferta de trabalho. Treinamento. Regulação. Nem todos os Caçadores eram problemáticos, mas, na visão de Zultan, eles eram desorganizados demais. Informações de origem duvidosa, habilidades superestimadas e muitos deles ainda achavam que apenas músculos eram suficientes para sobreviver. Muitos Caçadores também eram ex-criminosos. Levou muito tempo até que os níveis estabelecidos pela Associação fossem reconhecidos e respeitados pela sociedade.

Graças aos antecessores, hoje o Caçador tem uma reputação razoavelmente estável. Mas dizer que a posição deles é segura? Nem de longe. Justamente por terem crédito, qualquer erro mínimo é inadmissível. Cada palavra precisa carregar responsabilidade. E uma das coisas mais perigosas para a credibilidade da Associação são os assuntos relacionados a Yggdra.

Yggdra. A cidade lendária que dizem estar no centro do mundo. Com base nos testemunhos dos Espíritos Nobres, a cidade realmente existe. Mas quase ninguém nunca a visitou. Dizem que Yggdra é repleta de recursos naturais raros e gerenciada por Espíritos Nobres com tecnologia mágica de alto nível. Todo mundo quer saber mais sobre Yggdra. Muitos países chegam a planejar expedições em larga escala para lá. Por isso, informações sobre a cidade têm um valor altíssimo.

O problema é que, até hoje, toda vez que um Caçador trazia informações sobre Yggdra, elas eram falsas. Se essa informação pudesse ser verificada internamente e declarada falsa sem vazar, não seria um problema. Mas já houve casos em que informações erradas acabaram sendo aceitas como verdadeiras.

A Associação de Caçadores tem a responsabilidade de garantir a precisão das informações coletadas. É justamente por investigarem cada relatório minuciosamente que conseguiram conquistar tanta confiança. E um erro desses poderia abalar os alicerces da credibilidade que a Associação construiu.

Até chefes de filial da Associação podem perder a objetividade ao ouvir o nome Yggdra. Quanto maior o valor de uma informação, maior a tentação de declará-la como fato rapidamente. Erros assim não podem acontecer de novo. Por isso, agora, qualquer relatório relacionado a Yggdra precisa passar pela divisão de investigação antes de ser processado.

Avaliar se uma informação foi criada deliberadamente para enganar a Associação não é fácil. Por isso, Zultan acrescentou em seu relatório:

— Sim, mas… se este for o relatório de um Nível 8, é óbvio e descuidado demais. Parece haver outro objetivo. Continuarei monitorando a situação e reportarei novamente se houver resultados.

Por exemplo, poderia ser apenas uma isca para atrair certas organizações que buscam informações sobre Yggdra. Se olhar o histórico, o Mil Truques já conseguiu destruir muitas organizações até agora. A Associação não pode aceitar táticas enganosas que abalem sua credibilidade, mas, em vez de pensar que o Mil Truques é apenas um idiota falando besteira, o mais provável é que haja algo por trás disso.

Mas, ainda assim, “nação turística” era uma invenção absurda demais. Zultan encerrou a conexão da pedra de comunicação e soltou um longo suspiro.

Embora a crise tenha sido evitada antes mesmo de explodir, o fracasso do plano para construir uma filial da Associação de Caçadores em Yggdra ainda deixava Zultan decepcionado.

Para completar, por causa do comportamento de um dos Caçadores de Tesouros registrados na Associação, agora eles teriam que pedir desculpas ao Sir Franz. Com esse incidente, as chances de subir para o Nível 9 também quase desapareceram. Para alcançar o Nível 9, um Caçador precisa ter conquistas extraordinárias sem cometer um único erro sequer.

Como resultado, a Associação de Caçadores acabou perdendo a confiança das grandes potências de Zebrudia, falhou em estabelecer a filial em Yggdra e perdeu um candidato ao Nível 9. Um prejuízo enorme.

E agora, Zultan teria que começar a investigar do zero se todas as conquistas do Mil Truques até hoje realmente faziam jus ao seu nível atual. Se fosse um Caçador de nível baixo, talvez não fosse problema, mas quando um Nível 8 perde a credibilidade, a coisa fica feia.

Só de pensar na montanha de trabalho que o esperava, Zultan já sentia a cabeça latejar. A única coisa que poderia ser considerada uma vantagem para ele era a oportunidade de estar em Zebrudia, uma cidade que ele queria visitar há muito tempo.

Ele soltou um suspiro tão longo que parecia que sua alma ia sair pelo corpo, e, sem querer, olhou pela janela. Naquele exato momento, percebeu que as pessoas na avenida principal haviam parado de andar, todas olhando para um único ponto. Seus olhos estavam arregalados, e alguns até ficaram de queixo caído.

As carruagens que antes circulavam pararam subitamente, e os passageiros desceram às pressas, em pânico. O pequeno alvoroço que surgiu na rua cresceu rápido, e em questão de segundos, Zultan sentiu que aquilo não era algo normal.

O que diabos estava acontecendo?

Confuso, ele abriu a janela ainda mais, inclinou o corpo para fora e seguiu o olhar da multidão. E, naquele instante, Zultan não conseguiu acreditar no que via. Seu coração disparou, enquanto um calafrio percorria sua espinha. Sem perceber, ele se inclinou ainda mais para fora, com os olhos estalados ao máximo, confirmando o que acabara de ver.

Lá, no meio da avenida principal, havia uma multidão imensa de humanos. Não eram apenas “muitos”, eram centenas, talvez mais. Como uma onda que não parava de crescer, eles iam absorvendo quem passava, tornando-se uma procissão cada vez maior.

E, na linha de frente, estava alguém que ele acabara de encontrar há pouco tempo — o Caçador Nível 8, Mil Truques. Mas ele não estava sozinho. No meio de todo aquele barulho, uma voz soou com clareza cristalina.

— Incrível! É muita gente! Eu não imaginava que existissem tantos humanos assim no mundo! E o mais estranho é que todos eles estão seguindo a gente, humano!

— É… eu também não entendo o porquê… é esquisito.

Quem falava era uma mulher que caminhava ao lado do Mil Truques. Ele respondeu com aquela voz preguiçosa de sempre. Mas aquela mulher… era absurdamente linda. Uma figura que cativava qualquer um. Porém, não era uma mulher comum.

Ela era uma Espírito Nobre. E não era uma Espírito Nobre qualquer.

Grieving Soul – Capítulo 01 – Volume 11 Img 1

Como alguém da Associação de Caçadores da sede central, Zultan já tinha encontrado vários Espíritos Nobres.

Mas isto aqui… era diferente.

A casta era outra. A própria existência deles era diferente.

Zultan tinha bastante confiança em seus instintos e tinha certeza de que as pessoas ao redor também sentiam aquilo de forma visceral. Aquela figura possuía uma aura impossível de ignorar, uma luz que naturalmente atraía a atenção de todos. E esse era o motivo de aquela onda humana ter se formado.

Afinal, aquela mulher não era uma Espírito Nobre comum. Ela vinha da linhagem que governava Yggdra. Era uma Espírito Nobre Superior, a casta mais alta do povo espiritual.

I-Impossível…!!

— Ah.

De repente, seu mundo girou. O chão se aproximou em alta velocidade. Somente após o impacto brutal de seu corpo contra o calçamento da rua é que Zultan percebeu que tinha se inclinado demais para fora da janela. E agora, ele tinha caído.

Esta parada era um verdadeiro inferno.

No começo, eu só achei estranho quando comecei a andar uns cem metros longe da Casa do Clã. Mas antes que eu percebesse, eu e a Selene tínhamnos virado os líderes de uma procissão humana de um tamanho que não fazia o menor sentido. Já era tarde demais para voltar.

Eu não entendo como isso aconteceu. Mesmo agora, continuo sem entender. Eu só saí para dar uma volta na capital com a Selene, que também serve como minha guarda-costas, para refrescar a cabeça, só isso.

Ninguém nos atacou, o que é óbvio. Quem seria doido de nos atacar na frente de um mar de gente desses? O tamanho desse grupo superava até os desfiles oficiais dos cavaleiros imperiais. O prestígio do império foi para o ralo.

Tentei passar em uma loja de doces, mas todo mundo ficou esperando do lado de fora, ninguém quis entrar. Fiquei impressionado que ninguém desmaiou ou passou mal naquele aperto. Depois, quando passei na loja do Matthis, a Magi’s Tale, acabei levando uma bronca. Eu já estava exausto de andar mais do que o planejado, sem falar que as pessoas não se dispersavam de jeito nenhum, até minhas pernas ficarem moídas.

Por fim, desisti de expulsar aquele povo e decidi voltar para a Casa do Clã. Por sorte, a Selene, que era o centro das atenções, não ligou nem um pouco e até parecia estar se divertindo pelo caminho. Realmente, o nível de uma princesa é outro. Mentalidade de aço.

Mas se alguém forte assim chegou a parecer tão exausta ontem, quer dizer que a situação em Yggdra era feia de verdade, né? Só percebi isso agora.

— A cidade dos humanos é tão agitada, não é? E como pode existir uma comida tão doce? Yggdra ficou muito para trás enquanto eu estava ocupada protegendo a Árvore do Mundo.

— …Geralmente não é tão cheio assim.

Eu continuava sem entender por que as pessoas nos seguiam. Tudo bem, Espíritos Nobres são raros, mas a capital é enorme. Não era para ter esse escândalo todo.

Felizmente, eles não entraram na Casa do Clã. Mas quando olhei pela janela do lounge, ainda tinha um monte de gente parada lá na frente. Fazer o quê. A Eva veio nos chamar para a sala de reuniões no andar de cima.

Naquela sala apertada e sem janelas, Gark-san e Franz-san já estavam sentados esperando. E a expressão deles… era aterrorizante, pareciam estar vendo um criminoso de alta periculosidade tentando fugir.

— Certo. Certíssimo. Com um tamanho desses, não adianta o Zultan relatar nada para a sede, não vai servir de nada. Certíssimo. Certo, Krai. Você está certíssimo!

— Realmente, obrigado por todo esse alvoroço, Mil Truques. Isso me salvou de vários problemas!

Bram!

Franz-san arremessou uma pilha de jornais sobre a mesa. Peguei um e comecei a folhear as páginas. Eram todas edições extras e o conteúdo era inteirinho sobre a procissão de agora há pouco. Alguns traziam a manchete: “O Retorno Triunfal de Yggdra”. Não sei quem espalhou esse boato, mas o efeito foi gigante.

Fazia tempo que eu não era o centro de uma notícia desse tamanho. Quase como o incidente da maldição naquela época.

— …Por que não censuraram isso de uma vez?

— Com um desfile daquele tamanho, como é que se esconde algo assim, seu IDIOTA!!

Eh?

Espera… Franz-san? O Franz-san que é sempre calmo?

Eu não fui o único chocado. A Selene também arregalou os olhos. Olhei para o jornal de novo… Nossa. Nesta foto, a Selene está com um sorrisão de orelha a orelha. Por sorte, eu quase não apareci no enquadramento.

— Krai-san, chegou este pacote do Greg-san para você.

Eva colocou algo sobre a mesa. Um boneco. Um boneco que parecia a Selene. A costura era meio grosseira, mas era bem parecido. Tinha um certo charme. Não achei que conseguiriam fazer algo assim tão rápido em poucas horas. Mas por que o Greg-sama mandou isso…?

— Ouvi dizer que o Greg-san parou de ser Caçador recentemente e entrou para os negócios. Parece que ele conseguiu contatos para leilões de mercadorias. Ele passou por aqui mais cedo.

O quê!? Isso é uma notícia enorme.

Selene segurou o boneco e piscou algumas vezes.

— Não me diga que… esta sou eu!?

— Sim, disseram que fizeram às pressas. É apenas um protótipo, mas… eles perguntaram se podem vender.

— Ah… bem… tanto faz.

— TANTO FAZ O QUÊ, SEU BURRO!! O que eu vou relatar para sua Majestade, o Imperador!?

— Comandante Franz, por favor… acalme-se.

Ao ver o Franz-san sendo contido pelos subordinados porque não aguentava mais, só consegui suspirar. Dava para ver que o estresse dele estava acumulado… Ser nobre parece ser bem difícil, né.

Franz-san e Gark-san levaram um bom tempo para se acalmarem. Enquanto isso, Selene continuava analisando o boneco trazido pelo Greg-sama com curiosidade. Ela não parecia nem um pouco incomodada. Mesmo com um boneco dela aparecendo do nada, ela aceitou numa boa. Mentalidade bem aberta.

Após uns quinze minutos, Franz-san e Gark-san finalmente pareciam ter melhorado um pouco. Franz-san limpou a garganta e encarou a Selene com uma expressão séria.

— Princesa Selene, discutimos internamente. Zebrudia lhe dá as boas-vindas. Sinceramente, uma chegada repentina assim é bem problemática, mas… nosso Imperador também deseja conversar com a senhora. Aliás, ouvi do Krai Andrey que a senhora pretende estreitar as relações entre Yggdra e a humanidade daqui para frente. É verdade?

— Obrigada, Humano do Pulso Esquerdo.

— Kgh…

Selene respondeu com um sorriso radiante, mas a expressão do Franz-san mudou na hora. Porém, antes que ele pudesse falar, Selene continuou com fluidez:

— O que o Krai Andrey disse é verdade. Até agora, Yggdra era muito rigorosa em limitar a entrada e saída de humanos para proteger a Árvore do Mundo. Mas, neste incidente, fui muito ajudada pelo Krai Andrey. Por isso, para fortalecer os laços entre as raças, planejo relaxar essas restrições gradualmente.

— !? …Quer dizer que humanos poderão entrar em Yggdra?

A expressão do Franz-san ficou tensa. Viu? Eu não disse? Selene assentiu com firmeza. Comparada à época em que estava ocupada lidando com a revolta da Árvore do Mundo, agora ela parecia muito mais animada.

— Basicamente isso. É claro que ainda há detalhes a serem considerados…

— Os habitantes de Yggdra aceitarão isso?

Ao ouvir a pergunta do Franz-san, Selene o olhou com confusão.

— ?? Se eu decidir, eles aceitarão, Humano do Pulso Esquerdo.

— …E-Entendo.

— E, futuramente, quero transformar Yggdra em uma nação turística.

— ……….

Olha, eu fico meio sem jeito de interromper uma conversa séria assim, mas toda vez que a Selene dizia “Pulso Esquerdo”, o Franz-san me lançava um olhar cheio de rancor. A culpa é minha, eu sei que cometi um erro feio naquela hora. Depois preciso explicar para a Selene, para ela chamar o Franz-san pelo nome de verdade.

— Do nosso lado, isso é uma ótima notícia. Mas ainda assim, é um assunto de grande escala. Muita coisa precisa ser decidida… Além disso, me perdoe se parecer falta de educação, mas… aquele homem ali a apresentou como a autoridade máxima de Yggdra, mas o que ouvimos é que a senhora é uma princesa. Ainda não compreendemos o sistema de governo de Yggdra…

Parando para pensar, é verdade. “Princesa” significa filha do governante. Por que não pensei nisso antes? Selene endireitou as costas e deu um sorriso leve.

— Isso é apenas uma questão de nomenclatura. O Krai não perguntou nada, mas… talvez esse conceito seja difícil para os humanos entenderem. Eu sou a Protetora de Yggdra, uma Rainha e, ao mesmo tempo, filha da Árvore do Mundo, a governante deste mundo. Desde os tempos antigos, Yggdra sempre foi liderada por uma rainha. Sou a líder e a guia de Yggdra, e meu povo é quem eu devo proteger. Eles têm o direito de expressar opiniões, mas não têm o direito de recusar minhas decisões.

Então Yggdra é uma monarquia absoluta, né… Mas o estranho é que o povo parece respeitar muito a Selene. Então, Gark-san de repente me lançou um olhar afiado e perguntou:

— …Aliás, o Krai disse que a senhora chegou a oferecer todo o poder de Yggdra para ele. Disse que, na hora, a senhora não devia estar consciente do que fazia. Isso é verdade?

Sinceramente, o jeito que o Gark-san falou foi meio rude. Mas acho que ele pensou que não teria problema falar assim com a Selene. Ela deu um leve sobressalto ao ouvir, encolhendo-se um pouco como se estivesse envergonhada.

— U-Uh… aquilo… naquela hora eu… estava… um pouco… fora de mim. É que era tão confortável…

— Viu? Eu não disse!? Parem de me tratar como suspeito! Tudo bem, talvez não tenha soado convincente! Talvez não tenha mesmo, mas ainda assim!

Gark-san me encarou com os olhos cerrados, parecendo alguém que estava quase mordendo a própria língua de frustração.

— …Está vendo? É tudo uma armadilha… Droga.

— Chefe da Filial Gark, a culpa não é sua. Tudo isso é culpa deste Mil Truques. Você não errou. Até aquele Zultan não teve culpa.

Franz-san disse em tom consolador, como se tentasse animar o Gark-san. Mas o que eu não entendo é: por que ninguém me defende!?

A relação entre Yggdra e o mundo exterior se desenvolveu em uma velocidade muito além da imaginação de Gark. Na verdade, em uma velocidade assustadora, algo sem precedentes, mas, pensando bem, era natural. Yggdra era um país pequeno e o sistema de governo era totalmente autoritário. Na visão de Gark, Yggdra também tinha elementos de um estado teocrático.

Selene, nascida da Árvore do Mundo, era a princesa e a própria soberana. No momento em que ela assentia, tudo em Yggdra era aprovado. E o que tornava tudo mais insano era que Selene Yggdra Frestel dizia “sim” com muita facilidade. Talvez porque ela raramente lidava com pessoas que tivessem más intenções.

Além disso, Selene possuía um carisma extraordinário. Parecia que sua própria existência fora projetada dessa forma. Por isso, era natural que os habitantes da capital do Império a seguissem sem perceber. Havia, de fato, uma preocupação com sua incapacidade de lidar com a malícia, então Zebrudia e a Associação de Caçadores teriam que se preparar para ajudá-la.

Quanto aos preparativos, o plano de criar uma filial da Associação em Yggdra seria resolvido em breve se quisessem. Afinal, a permissão de Yggdra já fora concedida, restando apenas os trâmites internos da sede da Associação. Mas entre todas as surpresas, o que mais chocou Gark foi o quão alta era a avaliação de Selene sobre Krai.

Meia-noite. No escritório do chefe da filial, após terminar de redigir o relatório da reunião com Selene, Gark finalmente bateu o punho na mesa.

— Droga, o que ele fez para ser tão confiável assim!?

No primeiro encontro, a atitude da Selene com o Gark fora fria e formal. Mas após o Krai apresentar o Gark e os outros, o comportamento dela mudou drasticamente. Diziam que o povo dos Espíritos Nobres tendia a ser gentil com aqueles que consideravam parte do grupo. Talvez esta fosse uma prova disso.

— Também não nos contaram o que aconteceu…

Kaina deu um sorriso amargo. Verificaram várias vezes, mas a Selene não desmentiu nenhuma palavra do Krai. Parecia que ela tinha sido instruída a ficar calada, pois não queria contar o que o Krai fizera. Mas, se fosse apenas por trazer a Pedra Espiritual Amaldiçoada, parecia impossível conseguir tanta confiança.

A única conclusão que Gark podia tirar era: o Krai claramente fez mais do que o solicitado. Yggdra parecia entusiasmada em construir relações diplomáticas com Zebrudia. Certamente, isso aumentaria a carga de trabalho de Gark e sua equipe.

— Com este desenvolvimento rápido, teremos uma boa chance para a indicação de Nível 9 este ano. Comparado ao alvoroço na capital, o relatório de investigação do Zultan não vale nada.

— Se eu pudesse tê-lo impedido a tempo…

— …Em uma situação como aquela, ninguém pode ser culpado. Todo mundo entrou em pânico com a aparição repentina da Princesa Selene.

Do ponto de vista estratégico, o que o Krai fez — levar a Selene para passear pela capital como se fosse uma exposição — foi um passo extraordinariamente eficaz. Assim que o Zultan visse aquilo, com certeza correria para revisar seu relatório. Mesmo que já tivesse enviado o relatório anterior, ele entraria em pânico e mandaria uma revisão. Caso contrário, ele mesmo seria rotulado como incompetente.

O estilo do Krai era um pouco bárbaro, mas o efeito era real. Até agora, Krai não demonstrou ambição para subir de nível. Mas se ele estava entrando no Nível 9, significava que começou a jogar estrategicamente também, né? Se pudesse ser um pouco mais calmo e menos imprudente…

— Qual a probabilidade, você acha?

— Sessenta… setenta por cento. Se a Selene pudesse votar, seria outra história… mas parece que não haverá tempo suficiente este ano.

Por enquanto, Zebrudia era quem mais lucrava com essa relação diplomática. Como Yggdra era um país pequeno, o impacto em outras nações humanas ainda levaria tempo. O Nível 9 não envolvia apenas conquistas pessoais. Havia muitos interesses em jogo. Se as conquistas do Krai pudessem se conectar aos interesses existentes, as chances de aprovação seriam altas. Mas a previsão final sobre como a conferência correria, nem o próprio Gark podia determinar.

Entretanto, mesmo que falhasse este ano… com essa tendência, a certificação de Nível 9 para o Krai era apenas questão de tempo. O mundo não ficaria parado assistindo. Sério, esse cara estava ficando cada vez mais louco. Quem diria que um jovem na casa dos vinte anos já poderia tocar o Nível 9?

— Também precisamos pensar na promoção dos outros membros da Equipe.

— O Luke e os outros já são bastante famosos… embora a reputação deles não seja totalmente boa.

— Eles… costumam causar barulho demais.

Se fosse a Lucia ou o Ansem, talvez não houvesse problema, eles eram do tipo alunos exemplares. Mas o Luke e a Liz, que causavam confusão por vontade própria, certamente teriam dificuldade em subir de nível. Bem, de qualquer forma, eles ainda estavam subindo de nível muito mais rápido do que a média, por isso ainda não era um problema. Mas se a diferença aumentasse muito em relação ao líder, isso também não seria bom.

Nesse momento, ouviu-se uma voz do lado de fora da sala.

— Chefe da Filial Gark, há uma visita. O senhor Zultan deseja vê-lo.

Parecia que ele finalmente veio para saber sobre a confusão de hoje. Gark imaginara que ele viria, mas não esperava que aparecesse no meio da noite. Como era de se esperar da sede, sempre rápidos na resposta. O momento era propício e o trabalho já estava terminado. Gark deu permissão para o Zultan entrar.

— Com licença. Chefe da Filial Gark.

Assim que o Zultan entrou, Gark arregalou os olhos. Zultan estava acabado. Sua cabeça enfaixada, suas mãos também e havia curativos em seu rosto.

— …Esses ferimentos, o que houve?

— Hmph. Apenas um pequeno incidente… eu caí acidentalmente do segundo andar.

A expressão do Zultan era de pura irritação. Lembrando bem, a estalagem onde ele estava hospedado ficava de frente para a avenida principal por onde o Krai passou hoje, certo…?

…………

Gark decidiu não perguntar mais nada e foi direto ao ponto.

— Que má sorte. Sobre Yggdra… fomos todos enganados pelo Mil Truques. Me desculpe, esqueci de avisar antes. Essa é uma das poucas fraquezas dele. Aqui está o relatório da discussão com o Sir Franz e os outros. Ainda não foi enviado para a sede, mas por favor, verifique primeiro.

Franz disse que o ocorrido não foi culpa do Zultan e Gark concordava. O modo de falar do Krai era relaxado demais e pouco sério. Era natural que as pessoas pensassem que ele estava apenas falando bobagem. Mas, de qualquer forma, sua conquista em abrir relações com Yggdra era inegável. Como investigador, julgar algo não deveria ser baseado em sentimentos pessoais.

Zultan começou a ler o relatório. Seu rosto não mudou em nada durante a leitura. Após cerca de cinco minutos, ele soltou um longo suspiro.

— Entendo… isto é realmente uma armadilha. Como você disse, Chefe da Filial Gark. Mas eu também errei. Embora o relato parecesse ridículo, eu não deveria tê-lo rejeitado de imediato. Cheguei a pensar que ele talvez estivesse envolvido em algum outro plano…

Como investigador da sede, sua mente era de fato bastante ampla. Vendo o Gark boquiaberto, Zultan continuou:

— Mas não vim falar disso. Vim dar um aviso, Chefe da Filial Gark. Sou um investigador da sede, mas não quero que pensem que estou me vingando secretamente daquela pessoa.

— …O que você quer dizer?

Gark instintivamente arregalou os olhos. Embora o corpo do Zultan estivesse cheio de ferimentos, sua expressão era séria.

— Já enviei o relatório revisado. E segundo minha análise… é muito provável que o Mil Truques passe no exame. Mas seria melhor se vocês recuassem da certificação de Nível 9 desta vez. Ultimamente, o clima na sede está estranho. Acabei de receber informações de uma fonte confiável… O Exame de Certificação de Nível 9 desta vez é um dos maiores escândalos da história da Associação de Caçadores.


Tradução: Rudeus Greyrat
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