Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – Volume 16:
Grimgar volume 16 – CapĂtulo 8

8. A Experiente e Perigosa Donzela do CrepĂșsculo
Haruhiro era uma parede.
Metaforicamente, Ă© claro. Ele seria um teto, uma janela, um pilar ou uma parede? Ele sentia que era um tipo de parede, mas nĂŁo uma literal.
A parede de verdade ali era aquela contra a qual ele estava pressionado, prendendo a respiração.
Falando nela, nĂŁo era feita de madeira, pedra ou mesmo terra comum. Embora parecesse um material terroso, era algo diferente. Teriam usado um tipo especial de argila? Ou misturado algo nela?
A estrutura estava coberta de musgo e era extremamente sĂłlida. Ele tentara cutucĂĄ-la com sua adaga, mas a lĂąmina mal arranhava a superfĂcie. Dizer que era dura como rocha nĂŁo seria exagero.
Essa muralha, que separava a Cidade Velha de Damuro da Cidade Nova, tinha apenas quatro ou cinco metros de altura. PorĂ©m, sua superfĂcie era lisa demais, sem as irregularidades de uma parede de pedra, o que dificultava a escalada.
Se ele tivesse uma escada ou ferramentas, seria outra histĂłria.
Havia pontos onde a muralha se projetava para fora, repletos de furos. Eram claramente torres de vigia. Provavelmente havia goblins posicionados ali o tempo todo.
Para piorar, sentinelas armados patrulhavam o topo da muralha. Se tentasse subir agora, seria descoberto em um piscar de olhos.
Existiam alguns pontos de passagem. Haruhiro avistou trĂȘs portĂ”es de madeira com reforço de aço, instalados em aberturas escavadas na prĂłpria muralha.
Contudo, uma multidĂŁo de goblins guardava cada um deles. Entrar por ali exigiria força bruta, o que nĂŁo era impossĂvel, mas seria como chutar um vespeiro.
NĂŁo parece a melhor das ideias.
Seus companheiros esperavam por perto, em uma das ruĂnas menos destruĂdas da Cidade Velha. Haruhiro e Neal haviam saĂdo para o reconhecimento pouco depois do meio-dia, e o crepĂșsculo jĂĄ caĂa sobre eles.
Ele ainda nĂŁo tinha encontrado uma brecha para infiltrar o grupo na Cidade Nova.
Devido Ă altura baixa da muralha, fugir seria fĂĄcil. Entrar sem ser notado, por outro lado, seria incrivelmente difĂcil.
NĂŁo seria o mesmo para os goblins?
Se eles deixassem a Cidade Nova e decaĂssem ao nĂvel da escĂłria da Cidade Velha, dificilmente conseguiriam retornar. Em seus dias de aprendiz, Haruhiro e outros soldados voluntĂĄrios caçavam esses goblins para sobreviver.
Ele ainda estava tentando processar o que sentia sobre isso.
Deixando esses pensamentos de lado, ele precisava ver como a segurança operaria na escuridão. Por isso, Haruhiro se tornou um com a parede e esperou pelo fim do dia.
Goblins caminhavam logo acima de sua cabeça, mas ele nĂŁo foi detectado. NĂŁo era incompetĂȘncia dos vigias; era apenas o que acontecia quando um ladrĂŁo decidia se transformar em um muro.
Finalmente, o sol se pĂŽs.
A escuridĂŁo dominou a paisagem rapidamente.
Luzes começaram a vazar das torres de vigia. Deviam ter acendido fogueiras lå dentro. Os patrulheiros no topo agora carregavam tochas.
Haruhiro se afastou um pouco da muralha, observando a Cidade Nova de uma perspectiva mais ampla. As torres ficavam a cerca de trinta ou quarenta metros uma da outra.
O nĂșmero de guardas nĂŁo era absurdo, mas tambĂ©m nĂŁo era baixo. Parecia haver um posto a cada cinquenta metros. NĂŁo, nĂŁo apenas um. As patrulhas agora andavam em duplas.
Isso nĂŁo acontecia durante o dia. A vigilĂąncia havia mudado apĂłs o anoitecer.
Ele viu os patrulheiros pararem e apontarem suas tochas em direção à Cidade Velha. Eles levavam o trabalho mais a sério do que ele imaginava.
â …Isso vai ser complicado.
Se Haruhiro estivesse sozinho, infiltrar-se nĂŁo seria impossĂvel. Ele poderia esperar uma brecha entre as patrulhas e escalar rapidamente no ponto mĂ©dio entre duas torres.
Seria preciso montar uma escada ou algum tipo de plataforma. No entanto, depois de subir, ele acabaria deixando aquilo para trĂĄs na Cidade Velha.
Ou seja⊠no fim das contas, não conseguiria fazer aquilo sozinho. Ele precisava de ajuda.
Haruhiro seguiu para a ruĂna onde seus companheiros o esperavam. Quando chegou, Neal jĂĄ estava de volta. O restante do grupo estava sentado em cĂrculo ao redor de uma lĂąmpada com proteção colocada no chĂŁo.
â Isso aqui Ă© perda de tempo.
Por mais que detestasse admitir, Haruhiro foi obrigado a concordar com Neal.
â Acho que deverĂamos desistir de tentar colocar todo mundo dentro da Cidade Nova. Se formos, deve ser apenas um grupo pequeno. O mais fĂĄcil seria com uma escada, mas se o Kuzaku me desse um impulso, eu talvez conseguisse pular a muralha.
â NĂŁo tem essa de âse formosâ â disse Hiyomu, estalando a lĂngua. â NĂłs temos que ir, nĂŁo temos outra escolha. EntĂŁo, nĂłs vamos. VocĂȘs ain-da nĂŁo entenderam isso? Se nĂŁo entenderam, nĂŁo acham que sĂŁo inacreditavelmente burros?
Ninguém disse uma palavra.
Obviamente, Haruhiro estava irritado. Todos deviam estar. Mas reagir a tudo o que Hiyomu dizia era simplesmente exaustivo.
â Honestamente, vocĂȘs nĂŁo tĂȘm jeito…
Hiyomu resmungou enquanto massageava o quadril. Haruhiro e seu grupo carregavam bolsas de ombro com raçÔes de viagem, cantis de ĂĄgua e outros itens. Mas Hiyomu viajava com pouquĂssima carga, levando apenas uma pequena bolsa presa Ă cintura.
Ela retirou um pedaço de papel dobrado daquela bolsa e o estendeu perto da lùmpada.
â Um mapa? â Setora sussurrou.
â NĂŁo Ă© Ăłbvio? â Hiyomu encarou Setora. Talvez nĂŁo fosse o caso de sua personalidade ter piorado de repente, mas sim de que ela estava irritada.
Mary se inclinou e olhou para o mapa.
â Isso Ă©… a Cidade Nova?
â Hmm. â Kuzaku semicerrou os olhos para o papel, inclinando a cabeça. â Ă difĂcil de enxergar.
â EntĂŁo nĂŁo olhe. VocĂȘ Ă© tĂŁĂŁĂŁo irritante, seu imbecil â Hiyomu suspirou. â EstĂĄ vendo isso? Este Ă© o Ășnico mapa da Cidade Nova de Damuro que existe, ok? Tente ser um pouco mais grato, mesmo que a Ășnica coisa que vocĂȘ tenha seja o seu tamanho e nem saiba usĂĄ-lo direito. Seu pervertido com problema de ejaculação precoce.
â Isso nĂŁo foi um pouco desnecessĂĄrio…?
â Se nĂŁo quer ser insultado, por que nĂŁo cala a boca?
â Certo, vou ficar quieto agora.
â Por favor, faça isso.
â VocĂȘ me irrita um pouco, sabia?
â VocĂȘ nĂŁo ia calar a boca?
â Vou fazer isso agora!
VocĂȘs sĂŁo crianças por acaso?
Haruhiro olhou para o mapa. Realmente nĂŁo era fĂĄcil de ler. O papel em si era velho e gasto, com as linhas e o texto desbotados. AlĂ©m disso, a escala parecia arbitrĂĄria. Provavelmente haviam tomado vĂĄrias liberdades e o desenho estava deformado de diversas formas. Ele suspeitava que fosse impreciso, focado principalmente na posição relativa dos pontos de referĂȘncia.
â Isso foi hĂĄ… uns vinte anos? â Hiyomu murmurou.
â Vinte anos… â Mary disse em voz baixa. Hiyomu a ignorou e continuou.
â Teve um grande grupo que planejou capturar a Cidade Nova de Damuro. A Cidade Velha, como sabem, Ă© um campo de caça de goblins para iniciantes, mas a Cidade Nova Ă© um territĂłrio intocado para soldados voluntĂĄrios. Se existisse uma fronteira nova tĂŁo maravilhosa perto de onde vocĂȘ mora, vocĂȘ teria que ser covarde e, ao mesmo tempo, insensĂvel para nunca tentar o desafio. EntĂŁo… aquele grupo incrĂvel se infiltrou brilhantemente na Cidade Nova e fez este mapa.
Haruhiro olhou para Hiyomu de soslaio. Ela estava encarando o mapa fixamente. Parecia terrivelmente preocupada com os vincos do papel. Hiyomu passava os dedos pelas dobras, repetidamente.
â Obviamente, muita coisa deve ter mudado desde entĂŁo. Afinal, faz vinte anos. NĂŁo Ă© pouco tempo, de forma alguma. Aquele grande grupo estabeleceu cinco bases dentro da Cidade Nova e viajava entre elas enquanto explorava, mas…
O dedo indicador de Hiyomu moveu-se pela superfĂcie do mapa, apontando para o desenho de uma estrela. Havia outras quatro estrelas tambĂ©m. Cinco no total.
â Quem sabe, na verdade? Talvez tenhamos sorte se sobrar ao menos uma delas.
Setora apontou para uma figura que parecia uma montanha, localizada quase no centro do mapa.
â O que Ă© isso?
Hiyomu lançou um olhar para Setora.
â Ahsvasin. Traduzido para a lĂngua humana, seria algo como âO CĂ©u Mais Altoâ. Ă lĂĄ que fica o Mogado. Mogado, a propĂłsito, Ă© como os goblins chamam seu rei. Basicamente, o CĂ©u Mais Alto Ă© um castelo.
â Entendo. â Setora tocou em uma ĂĄrea no canto inferior esquerdo do mapa que estava manchada. â E o que Ă© isso aqui?
â Ohdongo.
Quando Hiyomu respondeu, Kuzaku inclinou a cabeça para o lado.
â Fungo?
Haruhiro pressionou a mĂŁo contra a testa e suspirou.
â Qual Ă©, cara…
â NĂŁo, eu meio que sabia, ok? Sabia que nĂŁo era isso. Mas foi o que pareceu pra mim.
â Os gobs falam uma lĂngua vulgar, cheia de sons guturais â disse Hiyomu, franzindo o cenho, e entĂŁo soltou um bufo.
â Ohdongo significa âO Vale Mais Profundoâ. Ă onde dizem que vivem os Ugoths. Os Ugoths sĂŁo, bem… como sĂĄbios? SĂŁo os intelectuais dos goblins.
Era Ăłbvio que humanos e goblins eram diferentes. Ambos eram bĂpedes, habilidosos com as mĂŁos e podiam usar ferramentas. Eram criaturas sociais. Mas, apesar dessas semelhanças, eram raças completamente distintas.
Os goblins ainda eram considerados alguns degraus abaixo dos humanos. Haruhiro nĂŁo devia ser o Ășnico a vĂȘ-los dessa forma. Hiyomu, afinal, chamara a lĂngua deles de vulgar.
Os humanos, naturalmente e sem questionar, olhavam os goblins de cima para baixo.
â Agora, vocĂȘs nĂŁo sabem disso, e nem mesmo soldados voluntĂĄrios como o Soma sabem, mas os Ugoths conseguem falar a lĂngua humana.
Os olhos de Haruhiro se arregalaram.
â …A lĂngua humana?
â Exatamente. â Hiyomu riu com deboche para ele. â Vamos lĂĄ, pensem um pouco. Quando os remanescentes do Reino de Arabakia fugiram para o sul das Montanhas Tenryu e Damuro se tornou territĂłrio goblin, isso foi hĂĄ cerca de cento e quarenta anos. Depois, o No-Life King morreu, apesar de supostamente ser imortal, ou seja lĂĄ o que tenha acontecido, hĂĄ uns cem, talvez cento e cinco anos. Foi quando o Reino de Arabakia começou a planejar seu retorno.
â Eles construĂram Altana… â Mary murmurou para si mesma.
Setora franziu a testa, enquanto coçava o pescoço de Kiichi.
â Como? Damuro fica a um passo de Altana. Os goblins teriam visto os humanos de Arabakia como inimigos, nĂŁo teriam?
Kuzaku cruzou os braços e soltou um gemido pensativo.
â VocĂȘ pensaria que eles tentariam atrapalhar. Seria impossĂvel se nĂŁo eliminassem os goblins primeiro, nĂŁo seria?
â HĂĄ! â Hiyomu gargalhou. â Isso Ă© exatamente o que um cabeça de mĂșsculo pensaria.
â Ă, eu sei que sou sĂł um cabeça de mĂșsculo… â Kuzaku murchou.
NĂŁo aceite isso tĂŁo fĂĄcil. Haruhiro pensou, mas deixou de lado para se concentrar no problema de Altana.
â …Os Ugoths. Existem goblins que falam a lĂngua humana. Os humanos construĂram Altana sem interferĂȘncia… Eles evitaram lutar? Porque os humanos e os goblins chegaram a um acordo…?
â Eles devem ter visto alguma vantagem nisso â Setora disse em voz baixa. â Se os goblins ganharam algo por nĂŁo atacar os humanos, a suposição natural seria que os humanos deram algo em troca.
â Isso nĂŁo vai chegar a lugar nenhum, jĂĄ que vocĂȘs sĂŁo todos idiotas. Deixem-me ajudĂĄ-los. â Hiyomu sorriu maliciosamente para Setora e enfiou a mĂŁo na bolsa em sua cintura.
â HĂŁ…?!
Os olhos de Kuzaku quase pularam para fora. Haruhiro também ficou em choque.
Ele reconheceu a faca que saiu da bolsa de Hiyomu. Era aquela faca. A arma carregada pelo lĂder dos goblins que uma vez ocuparam Altana, o Vice-rei Bogg. Toda a peça era feita de um metal vermelho.
Aquela faca vermelha de Bogg havia cortado com facilidade a garganta de Dylan Stone, o comandante da equipe de invasĂŁo.
No entanto, embora fosse chamada de faca, a lĂąmina tinha quase trĂȘs centĂmetros de largura e possuĂa uma guarda sĂłlida. Incluindo o pomo, a coisa devia ter uns bons quarenta e cinco centĂmetros de comprimento.
SerĂĄ que cabe? Aquela faca? Naquela bolsinha na cintura da Hiyomu?
Haruhiro se perguntou. Talvez nĂŁo fosse impossĂvel enfiĂĄ-la ali, mas era difĂcil imaginar que caberia de forma confortĂĄvel.
â Essa bolsa… â Mary perguntou com um olhar cauteloso.
Hiyomu deu um tapinha na bolsa com um ar de quem acabara de se lembrar de algo.
â Ah, obviamente, isso tambĂ©m Ă© uma relĂquia do meu mestre. A capacidade de armazenamento ridĂcula que isso aqui tem Ă© super conveniente. Ficou com inveja? Bem, eu nĂŁo vou te dar, nem emprestar, e nem deixar vocĂȘ tocar por um segundo sequer. Entendido? Encoste um dedo nela e vocĂȘ tĂĄ mortinha da silva, ok?
â RelĂquias sĂŁo mesmo incrĂveis, nĂ©…? â Kuzaku estava visivelmente impressionado.
Que sujeito direto.
â TĂŁo incrĂveis que chega a ser hilĂĄrio. â Hiyomu parecia tĂŁo cheia de si como sempre. â Mas, sĂł para deixar claro, esta faca nĂŁo Ă© uma relĂquia, tĂĄ?
â Ă simplesmente feita de um metal raro, entĂŁo? â Setora questionou.
Hiyomu girou a faca e assentiu.
â Parece que sim. HĂĄ muito tempo, no Reino de Arabakia, chamavam isso de hiâirogane. NĂŁo sei do que Ă© feito, mas se vocĂȘ fundir vĂĄrios metais minerados nas Montanhas Tenryu, obtĂ©m essa liga vermelha.
â Ă bem bonita, de qualquer forma. â Kuzaku concordou.
â Eles… â Os olhos de Setora se estreitaram levemente. â Deram isso aos goblins?
â A outra teoria Ă© que estava escondido em Damuro o tempo todo. â Hiyomu girava a faca entre os dedos com habilidade. NĂŁo parecia perigoso; ela estava acostumada. â Podem ter apenas contado aos gobs onde estava. De qualquer forma, o raro e valioso hiâirogane que sĂł existia em Damuro caiu inteiramente nas mĂŁos dos goblins.
Kuzaku ficou com uma cara de âe daĂ?â. Hiyomu zombou dele.
â VocĂȘs, com essa falta de imaginação, podem nĂŁo entender, mas isso foi algo estupidamente importante para os goblins. Eles sĂŁo uma raça inferior. E que fique claro, essa nĂŁo Ă© minha opiniĂŁo pessoal. Muitas raças, nĂŁo apenas os humanos, olhavam os goblins de cima para baixo. Elfos, anĂ”es e atĂ© orcs e kobolds os viam como meros animais. E isso provavelmente nĂŁo mudou muito. Quero dizer, eles mal ficam um degrau acima dos macacos. Embora⊠bem, os goblins tĂȘm a pele lisa, entĂŁo Ă© meio estranho dizer isso dessa forma, jĂĄ que eles nem tĂȘm pelos. Enfim, Ă© sĂł uma metĂĄfora.
Aqueles goblins tinham o monopĂłlio do valioso e limitado estoque de hiâirogane. Esse fato devia ser muito mais relevante para eles do que Haruhiro estimava.
Kuzaku socou a palma da prĂłpria mĂŁo.
â Ah, entendi! Ă por isso que sĂł os goblins importantes usavam armas e armaduras de hiâirogane. Ă um sĂmbolo de poder? Ou algo assim…?
â Muito bem. â O sorriso radiante de Hiyomu era sinistro. â Quer um tapinha na cabeça?
â NĂŁo, obrigado…
â Quando vocĂȘ fala assim, eu sinto mais vontade ainda de dar o tapinha. Nuffuhuhuh.
â TĂĄ bom, vai em frente e tenta entĂŁo.
â Okaaay. â Hiyomu esticou a mĂŁo e deu tapinhas na cabeça de Kuzaku. â Tapinha, tapinha, tapinha.
â JĂĄ chega!
Quando Kuzaku afastou a mĂŁo dela, Hiyomu abriu um sorriso largo. Se ainda nĂŁo estava Ăłbvio, a personalidade dela era podre a um nĂvel assustador.
â Entendo, faz sentido. â Era assustador o quĂŁo calma Setora permanecia.
â Nossa carta nas negociaçÔes Ă© o hiâirogane, hein? Devolvemos o equipamento que saqueamos dos goblins em Altana e, em troca, eles colaboram conosco. Isso nĂŁo Ă© um pouco fraco?
Hiyomu bateu no prĂłprio peito com uma das mĂŁos.
â Eu sou a encarregada das negociaçÔes. VocĂȘs nĂŁo precisam pensar nisso. Apenas façam seus trabalhos e ficarĂĄ tudo bem. Nosso objetivo Ă© infiltrar na Cidade Nova e fazer contato com um Ugoth com quem possamos conversar.
Haruhiro apontou para a seção borrada do mapa.
â Ohdongo. O Vale Mais Profundo. Esse Ă© o Ășnico lugar onde existem Ugoths?
Hiyomu balançou a cabeça.
â Existe um certo nĂșmero em Ahsvasin tambĂ©m. Eles parecem servir ao Mogado como conselheiros.
Mary baixou os olhos.
â NĂŁo temos escolha a nĂŁo ser encontrar uma maneira de entrar em um desses dois lugares…
Kuzaku resmungou e inclinou a cabeça.
â NĂŁo podemos simplesmente entrar desfilando e brandindo essa faca de hiâirogane? AtĂ© o goblin mais ralĂ© sabe o que Ă© isso, nĂŁo sabe? Eles nĂŁo vĂŁo pensar tipo: âOlha, aquele humano tem hiâirogane! Chamem alguĂ©m importante, nĂŁo, esperem, chamem um goblin importante!â?
â Se vocĂȘ perguntar para a Hiyo…
Hiyomu começou a se referir a si mesma como Hiyo. Ela não era Hiyomu? Fazia diferença?
â Eu apostaria mais em: âĂ hiâirogane! Peguem de volta! Ataqueeeem!â. VocĂȘs tĂȘeeem que lembrar que, nĂŁo importa o que digamos, eles nĂŁo entendem. Os gobs sĂŁo nossos inimigos. Se encontrarmos qualquer coisa que nĂŁo seja um Ugoth, serĂĄ uma luta atĂ© a morte. Ă isso que temos que assumir.
â Ă por isso que tudo isso Ă© loucura desde o inĂcio. Fazer uma aliança com goblins… â Kuzaku murmurou.
Hiyo o encarou com fĂșria. Ela abriu a boca para retrucar, mas apenas bufou.
Hiyo nĂŁo estava nem um pouco otimista com a situação. Ou talvez, seu mestreâaquele que controlava a Torre Proibidaâestivesse agindo apenas por pura necessidade.
â Mesmo que seja loucura ou qualquer outra coisa, nĂłs vamos fazer. â Hiyo mordia e lambia os lĂĄbios repetidamente. â O Mestre deu a ordem acreditando que a Hiyo conseguiria. NĂŁo foi algo do tipo âtudo bem se vocĂȘ errarâ. Existe uma chance de sucesso. Uma chance enorme. Enfim, sĂł precisamos encontrar um Ugoth… Se nĂŁo pudermos levar todos para a Cidade Nova, entĂŁo…
Ela nĂŁo tinha escolha. Nem Haruhiro. Era quase certo que o General Jin Mogis mantinha Shihoru sob custĂłdia. Se o grupo nĂŁo apresentasse resultados, o general provavelmente a machucaria.
â …Eu consigo entrar na Cidade Nova. Se o Kuzaku ajudar, provavelmente nĂŁo preciso de ferramentas.
â NĂŁo seria impossĂvel para mim ir tambĂ©m. â Neal, que estivera quieto todo esse tempo, nĂŁo parecia nem um pouco entusiasmado.
â Para mim seria â disse Setora. â Mas tenho certeza de que o Kiichi conseguiria. Um nyaa pode ser mais Ăștil que um humano.
Haruhiro olhou para Hiyo. Ela retribuiu com um olhar afiado que parecia dizer: âO quĂȘ? O que foi? Quer morrer, moleque?â
â âŠEntĂŁo estĂĄ decidido. A Hiyo pode ir tambĂ©m. Afinal, eu jĂĄ fui uma ladra antes.
â Ah… VocĂȘ foi?
â Comecei como paladina, tive uma breve passagem como ladra e terminei como guerreira. E daĂ?
â Uma paladina… â Mary murmurou. Kuzaku ficou boquiaberto.
â …Uma guerreira? SĂ©rio mesmo?
â Is-isso Ă© tudo coisa do passado agora. Do passado. â Hiyo corou.
Do que ela estĂĄ envergonhada?
â Hoje em dia, sou apenas uma beleza inacreditĂĄvel, como podem ver. Mas tive uma Ă©poca na vida em que fui essas coisas. Eu odiava. Hiyo sendo paladina, ladra e guerreira? NĂŁo tem a menor graça…
Hiyo provavelmente passou por muita coisa, mas Haruhiro nĂŁo se importava. Qualquer curiosidade que ele pudesse ter era bloqueada pelo Ăłdio visceral que sentia por ela.
â EntĂŁo vocĂȘ fez esse mapa vinte anos atrĂĄs, certo?
Quando Haruhiro perguntou, uma expressĂŁo terrĂvel cruzou o rosto de Hiyo.
â A Hiyo nunca disse uma Ășnica palavra sobre ter feito o mapa, disse?
â …Bem, nĂŁo Ă© como se importasse.
â AlĂ©m disso, se vocĂȘ nĂŁo me chamar de Hiyo daqui para frente, garanto que vai se arrepender.
â Entendido… Hiyo.
â O que foi, Haru-kun?
Haruhiro fechou os olhos. Respirou fundo.
A frustração ainda estava lå, mas o gesto o ajudou a se acalmar um pouco. Não era algo para ficar tão furioso. Ele percebia isso quando pensava com a cabeça fria, mas ainda estava irritado.
Hiyo era uma gĂȘnia quando o assunto era importunar as pessoas. Haruhiro estava sendo muito cuidadoso, mas, mesmo assim, tinha dificuldade em lidar com ela.
â …SerĂĄ que Ă© a experiĂȘncia que vem com a idade? â ele murmurou para si mesmo.
Hiyo o fuzilou com o olhar.
â VocĂȘ disse alguuuuuma coisa?
â Quem sabe. Acho que nĂŁo. VocĂȘ ouviu algo? Talvez tenha imaginado.
â Hmph! â Hiyo olhou para o lado.
Ă primeira vista, Hiyo parecia uma garota no fim da adolescĂȘncia. Mas apenas Ă primeira vista. Pelo porte, roupas e penteado, alguĂ©m poderia pensar que ela tinha essa idade.
Em uma inspeção mais prĂłxima, ficava claro que era mais velha. Ele se lembrou do que a BĂĄrbara sensei dissera sobre ela: A mulher que gosta de agir como se fosse mais jovem do que Ă©. NĂŁo tem como ela tĂĄ na adolescĂȘncia. Parecia tĂĄ na casa dos vinte. E no meio, nĂŁo no inĂcio. Talvez atĂ© no final. Dependendo de onde se olhasse, poderia ser ainda mais velha.
Seria apropriado dizer que ela tinha uma âidade indeterminadaâ. O formato do rosto, a maquiagem, o traje, o tom de voz, a escolha das palavras e os gestos… nada parecia se encaixar.
Nada parecia ser parte genuĂna daquela pessoa chamada Hiyo. NĂŁo era natural. Ela estava se esforçando muito para ser daquele jeito, nĂŁo estava? Interpretando o papel de uma pessoa chamada Hiyo.
Se for isso, entĂŁo por quĂȘ?
Haruhiro nĂŁo sabia. Mas ele nĂŁo era obrigado a aprender mais sobre Hiyo, mesmo que pessoalmente nĂŁo quisesse?
Hiyo nĂŁo era amiga deles. Francamente, era justo chamĂĄ-la de inimiga.
Sem um conhecimento profundo de seu oponente, ele nĂŁo poderia levar vantagem. Sim. Aquilo era uma batalha.
Mas que tipo de batalha? Haruhiro nem mesmo tinha certeza disso.
Ele não podia deixar as coisas como estavam. Se não levasse aquilo a sério, com empenho total, acabaria sendo usado e descartado por Hiyo, pelo Mestre da Torre Proibida e pelo General Jin Mogis.
â Se o mapa tem vinte anos, nĂŁo deverĂamos confiar totalmente nele. Acho que o primeiro passo Ă© eu, Kiichi, Neal e Hiyo entrarmos na Cidade Nova para confirmar as localizaçÔes de Ohdongo e Ahsvasin.
Haruhiro analisou o grupo enquanto continuava: â Precisamos verificar o quanto a situação atual difere do que estĂĄ no mapa. Com sorte, talvez uma daquelas bases ainda exista. Vamos checar isso tambĂ©m.
â Parece que teremos que esperar aqui por enquanto… â Kuzaku franziu a testa, visivelmente decepcionado.
â NĂŁo existem buracos por onde possamos passar? â Neal perguntou a Hiyo.
â Duvido. A segurança ao redor da Cidade Nova nĂŁo era nem de longe tĂŁo rĂgida naquela Ă©poca… â Hiyo murmurou para si mesma, mas entrou em pĂąnico subitamente. â A-A-A Hiyo nĂŁo saberia de nada disso, tĂĄ! NĂŁo sobre vinte anos atrĂĄs! De jeito nenhum, ok! Eu sĂł… s-s-sĂł ouvi boatos! Boatos!
â Que?! â Kuzaku cobriu a boca com as mĂŁos. â Espera, aquele grupo incrĂvel que fez o mapa vinte anos atrĂĄs… era o seu?! Quantos anos vocĂȘ tem, afinal?!
â …SerĂĄ que vocĂȘ consegue ser mais lerdo? â Setora nĂŁo fez questĂŁo de esconder o desprezo no olhar que lançou a Kuzaku. Os olhos de Mary estavam igualmente gĂ©lidos.
â Acho que vocĂȘ nĂŁo deveria perguntar a idade dela…
â NĂŁo, mas falando sĂ©rio, nĂŁo Ă© um mistĂ©rio? Hein? Sou sĂł eu? NĂŁo pode ser…?
Hiyo subitamente cravou a faca no mapa.
â VocĂȘ quer saber taaaaaanto assim?
Ela estava sorrindo.
Mas o sorriso não chegava aos seus olhos. Os cantos de sua boca estavam curvados para cima, talvez até demais, mas não parecia nem um pouco que ela estava realmente sorrindo.
â Eu te conto. Tenho dezesseis. Belezas nunca envelhecem. A Hiyo tem dezesseis para sempre. Entende-eeeu?
Kuzaku assentiu levemente.
â …Sim.
Assustador.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH â Clicando Aqui
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