Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – Volume 16:
Grimgar volume 16 – CapĂtulo 6

6. O Anel Azul
Com os cadåveres dos goblins incinerados, a organização dos soldados da Força Expedicionåria deteriorou-se visivelmente.
Metade deles estava escalada para guardar as muralhas ou fazer a segurança da Torre Tenboro, enquanto o restante limpava escombros ou reparava edificaçÔes para servirem como alojamentos ou armazéns. Eram apenas vinte, talvez trinta por cento de todos os soldados, no måximo, que levavam o trabalho a sério. O resto estava apenas fugindo do serviço o quanto podia, muitas vezes agachados, sentados ou tirando pausas não autorizadas.
NĂŁo faltavam homens que abandonavam seus postos. Eles nĂŁo queriam trabalhar, mas, mesmo que quisessem desertar, nĂŁo podiam sair de Altana. O melhor que podiam fazer era tirar um cochilo em algum lugar qualquer, conversar entre si e jogar.
Se procurassem, havia bebida de sobra para encontrar. Mais do que alguns estavam bebendo em pleno meio-dia.
Haruhiro e seu grupo eram tratados como uma unidade especial sob o comando direto do General Jin Mogis. Mas eles haviam recebido alguma ordem especial dele? Na verdade, nĂŁo. Ele sentia que ia acabar ficando fora de forma se ficassem sentados no quarto da Torre Tenboro o tempo todo, entĂŁo passava a maior parte do dia vagando por Altana.
SerĂĄ que estĂĄ tudo bem eu fazer isso?, ele se perguntava.
NĂŁo que tivesse outra coisa para fazer.
Ele não tinha ordens, mas havia limitaçÔes sobre o que podia fazer. Neal e os batedores, de forma sorrateira e às vezes aberta, mantinham um olho obstinado em Haruhiro e nos outros. Se ele tentasse sair de Altana, seria descoberto imediatamente.
Altana era uma cidade pequena. Depois de trĂȘs dias, nĂŁo havia estrada pela qual ele nĂŁo tivesse passado. AtĂ© Haruhiro, que nĂŁo tinha memĂłrias, sentiu-se como um local em pouco tempo.
A årea ao redor do alojamento dos soldados voluntårios parecia especialmente familiar, ou talvez até reconfortante para ele. Embora não tivesse a capacidade de olhar para os lugares e recordar que isso aconteceu aqui ou aquilo aconteceu ali, quando vagava sem rumo, sempre parecia acabar no alojamento.
Mary dissera que Haruhiro e os outros viveram lĂĄ por muito tempo, entĂŁo talvez o corpo dele tivesse se acostumado ao lugar.
Embora o interior do alojamento dos soldados voluntĂĄrios estivesse empoeirado, estava em grande parte intacto. Seria possĂvel eles ficarem aqui em vez do quarto na Torre Tenboro?
Talvez eu pergunte ao general. Não, se eu for até ele pedir um favor, ele pode se aproveitar de mim.
Enquanto Haruhiro pensava nisso, Neal aproximou-se e disse que o general o chamava. Ele queria que Haruhiro fosse jantar, mas que fosse sozinho.
Embora Haruhiro preferisse mil vezes nĂŁo ir, nĂŁo teve escolha. Ele se dirigiu ao refeitĂłrio da Torre Tenboro.
â OlĂĄ, olĂĄ, olĂĄaaaa.
Quando entrou no refeitĂłrio, a mulher que jĂĄ havia chegado antes dele acenou e cumprimentou Haruhiro.
Parecia que o general ainda nĂŁo estava lĂĄ. Os Ășnicos ocupantes daquele enorme refeitĂłrio, que outrora o Margrave teria usado, eram Haruhiro, a mulher em questĂŁo e o Comandante Regimental do ExĂ©rcito da Fronteira, Anthony Justeen.
Anthony assentiu para Haruhiro, com um olhar de perplexidade no rosto. Quem Ă© a mulher? VocĂȘ a conhece?, parecia dizer.
Bem, sim, ele a conhecia. Mas ainda era difĂcil dizer: âSim, somos conhecidosâ, ou qualquer outra coisa do tipo.
â O que… vocĂȘ tĂĄ fazendo aqui…?
â Sua ExcelĂȘncia, o futuro rei da fronteira, chamou. Nyeheh!
NĂŁo, nada de âNyeheh!â. Eu vou te dar um soco. Era o que Haruhiro teria dito se fosse um pouco mais propenso Ă violĂȘncia. Isso, ou teria batido nela e dito depois.
Haruhiro sentou-se ao lado de Anthony e pensou: Ah, droga. Hiyomu estava diretamente Ă sua frente.
â Como vocĂȘ tem passado?
Hiyomu apoiava os dois cotovelos na mesa, que era grande o suficiente para vinte pessoas comerem, seu rosto presunçoso e sorridente descansando sobre os dedos entrelaçados. Haruhiro realmente odiava aquela mulher.
Ele nĂŁo era o tipo de cara que saĂa por aĂ pensando em mulheres como âaquela mulherâ, mas nĂŁo sentia hesitação em pensar em Hiyomu dessa forma.

â VocĂȘ parece estar indo bem.
Ă, eu realmente a detesto. Em um nĂvel absurdo.
Assim que percebeu isso, Haruhiro conseguiu se acalmar. Era ridĂculo se deixar levar pelas emoçÔes ao lidar com essa mulher. Ela sequer valia o esforço? NĂŁo. Era um desperdĂcio de sentimento.
â Tudo de booooa, tĂĄ? A Hiyomu estĂĄ seeeempre de boa, de boaça! Um pacotinho de energia juvenil, okĂȘĂȘĂȘ? Energia! Coragem! Motivação! E seriedade de brinde! Uhuuuu!
â …
â O que foi, o que foi, o que foi? Haruhiro-kuuun? Haruharu? Haruhirohiroharu?
â …
â VocĂȘ nĂŁo estĂĄ reagindo muito, nĂ©? Por favor, responda.
â …
â Que poooorra Ă© essa? NĂŁo fica aĂ sentado sem expressĂŁo nenhuma. Isso irrita a Hiyomu mais do que qualquer coisa, sabia?
â …
â Ei. Eu disse, eiii. Fala alguma coisa, seu completo idiota.
â …
â Ohhh. Entendi como Ă©. Tem certeza de que quer manter essa atitude? Tem certeza absoluta? NĂŁo me culpe se acabar se arrependendo, tĂĄ? VocĂȘ realmente deveria se curvar pra Hiyomu. VocĂȘ Ă© um bosta total que nĂŁo consegue ver o que tĂĄ por vir, hĂŁĂŁĂŁĂŁ? Aposto que seu pĂ© Ă© fedorento tambĂ©m, néééé?
Bom, ela claramente não ia economizar nos insultos. No entanto, aquilo não o deixava com raiva, mas sim exasperado. O que essa mulher estava fazendo ali? Ele tinha curiosidade, claro. Mas não precisava ouvir a explicação dela.
NĂŁo havia sentido em conversar com Hiyomu. Ele nĂŁo conseguia imaginĂĄ-la dizendo a verdade. Ela claramente sĂł pensava em brincar com ele, enganĂĄ-lo e desviĂĄ-lo do caminho. Ele nĂŁo ia entrar no jogo dela.
Finalmente, o General Jin Mogis chegou, acompanhado por dois dos mantos pretos e por Neal. Hiyomu ficou de pé e Anthony a seguiu.
Por um momento, Haruhiro pensou: Talvez eu devesse continuar sentado. Mas, bem, agir com teimosia ali nĂŁo serviria para muita coisa. Ele decidiu se levantar.
O general sentou-se na cabeceira da mesa, no que devia ser o lugar do Margrave. Os manto pretos e Neal não se sentaram; em vez disso, permaneceram em pé atrås do general.
â Podem se sentar â disse o general, e Hiyomu e Anthony se acomodaram. Haruhiro tambĂ©m se sentou. Mas por que ele precisava de permissĂŁo atĂ© para se sentar?
O general olhou para eles em silĂȘncio. Seria aquela a sua forma habitual de controlar o ambiente? Ele usava o silĂȘncio como ferramenta para dominar a sala. Isso era algo natural do general ou uma tĂ©cnica empregada deliberadamente?
Haruhiro ficou com sede à medida que o tempo passava e começou a se sentir inquieto. Eventualmente, nenhum deles seria capaz de manter a compostura. Devia ser exatamente por isso que o general estava esperando.
O general colocou as mãos sobre a mesa de jantar, a direita sobre a esquerda. O anel em seu dedo capturou a atenção de Haruhiro.
O general estava usando aquele anel antes? Hmm. Haruhiro achava que não, mas não tinha certeza. Ele nunca o havia notado até agora, pelo menos.
NĂŁo era um anel especialmente grande. Mas, apesar disso, ele realmente atraĂa o olhar. O aro e a base deviam ser de ouro, ou alguma liga que o contivesse. No entanto, a primeira coisa que ele notou foi a pedra azul montada no topo.
Que tipo de joia era aquela? Era um azul bem claro, mas nĂŁo dava a impressĂŁo de ser pĂĄlido. Na verdade, era um azul vĂvido e imponente.
A pedra em si era redonda. Ele nĂŁo tinha certeza se era o corte ou a iluminação, mas conseguia ver formas que pareciam pĂ©talas flutuando dentro dela. Provavelmente eram trĂȘs. Ou poderiam ser trĂȘs folhas.
â Nossa Força ExpedicionĂĄria deve se tornar cada vez mais unida â disse o general, voltando seus olhos cor de ferrugem para Anthony. â NĂŁo Ă© verdade, Anthony Justeen?
Anthony baixou o queixo para assentir. â …Sim, senhor â respondeu ele.
â Eu… â O general usou o dedo indicador da mĂŁo esquerda, a que portava o anel, para bater nas costas da outra mĂŁo duas, trĂȘs vezes, como se a estivesse coçando.
â NĂŁo tenho intenção de retornar para o sul das Montanhas Tenryu, para o que chamam de continente do Reino de Arabakia. Nos tornaremos nativos da fronteira e construiremos um paraĂso nesta terra.
Ele continuou: â Para realizar isso, nem Ă© preciso dizer que um lĂder poderoso, e homens sĂĄbios e leais que o apoiem, serĂŁo essenciais. VocĂȘ tem alguma objeção a isso, Haruhiro?
â …Eu? â Haruhiro murmurou, sem perceber.
â Sim, vocĂȘ â o general o pressionou sem demora. â Se acredita que minhas ideias estĂŁo incorretas, pode dizer.
â NĂŁo… â Haruhiro quase baixou os olhos, mas conseguiu se conter de alguma forma. No entanto, era realmente difĂcil responder com o olhar do general fixo nele. â âŠNĂŁo acho que o que disse esteja errado.
â EntĂŁo vocĂȘ estĂĄ de acordo?
â Eu… suponho que sim. Se estivermos falando em termos gerais, com certeza.
O general nĂŁo perdeu o ritmo.
â Pretendo dissolver a Força ExpedicionĂĄria que me foi confiada pelo Rei Idelta de Arabakia e reorganizĂĄ-la como um novo ExĂ©rcito da Fronteira. Este exĂ©rcito renascido se libertarĂĄ do jugo do Reino de Arabakia e agirĂĄ como uma força independente.
O general usava palavras pesadas sem hesitação. Haruhiro sentia que, se o interrompesse, seria esmagado.
â A fronteira nunca pertenceu a Arabakia, para começar. A fronteira pertence a nĂłs. Quando digo ânĂłsâ, nĂŁo me refiro apenas aos humanos, mas a todas as raças. Se pudermos encontrar uma causa comum, acredito que devemos dar as mĂŁos a qualquer raça e a qualquer facção.
Ele continuou, a voz ecoando pelo salĂŁo: â Para que nosso recĂ©m-nascido ExĂ©rcito da Fronteira sobreviva nesta terra, crie raĂzes firmes, estabeleça um domĂnio e alcance a independĂȘncia como nação, nĂŁo devemos hesitar em tomar as opçÔes disponĂveis. Devemos sondar cada possibilidade. Mesmo que desafie o senso comum, se houver alguma esperança de realizĂĄ-la, nĂŁo hĂĄ nada que nĂŁo devamos tentar. NĂŁo Ă© um lĂder verdadeiramente forte aquele que consegue tomar decisĂ”es assim?
âEu mesmo sou assim.â Era provavelmente isso que o general queria dizer. Na verdade, ele praticamente disse. Ele se tornaria um lĂder, basicamente um rei, e lideraria nĂŁo a Força ExpedicionĂĄria de Arabakia, mas um novo ExĂ©rcito da Fronteira.
Hiyomu tinha dito algo sobre o general tĂȘ-la chamado atĂ© ali. Naquela hora, se Haruhiro bem lembrava, ela chamou o general de âfuturo rei da fronteiraâ.
SerĂĄ que Hiyomu estava conectada ao general o tempo todo? Ou teria feito contato nos Ășltimos dias e ganhado sua confiança rapidamente? Fosse como fosse, Hiyomu certamente fora informada sobre as intençÔes do general com antecedĂȘncia.
Jin Mogis poderia ter decidido dar as mĂŁos a Hiyomuâou melhor, ao chefe dela, o mestre da Torre Proibida.
â C-Com licença… â Haruhiro abriu a boca e arrependeu-se logo em seguida.
Hiyomu nĂŁo Ă© confiĂĄvel. Gostaria que vocĂȘ reconsiderasse.
Se o general fosse seu amigo, ele teria oferecido esse conselho. Se respeitasse o general e fosse leal a ele, deveria alertå-lo. Mas nenhuma dessas coisas era verdade. Além disso, mesmo que Haruhiro dissesse algo com total sinceridade, não achava que o general aceitaria.
â O quĂȘ? â perguntou o General com uma expressĂŁo vazia.
Haruhiro olhou para baixo e balançou a cabeça.
â …NĂŁo Ă© nada.
Hiyomu ostentava um sorriso pretensioso, como se soubesse de tudo. Maldita. Ele sentiu o sangue subir Ă cabeça, mas nĂŁo deixou que isso o dominasse. NĂŁo era hora de perder a paciĂȘncia.
Haruhiro e seu grupo pertenciam à facção de Jin Mogis por enquanto. Ele podia não gostar, mas era assim que as coisas eram. Tinha que reconhecer isso.
Hiyomu, ou melhor, o mestre da Torre Proibida, tinha roubado suas memĂłrias. NĂŁo havia a menor chance de estarem do mesmo lado. Eram inimigos. No entanto, parecia que esses inimigos tinham feito um acordo com o general.
Mas somos soldados voluntĂĄrios. Era o que ele queria pensar, mas nĂŁo se identificava com esse trabalho o suficiente para usĂĄ-lo como suporte emocional.
Sinceramente, ele nĂŁo se importava tanto assim com o tĂtulo. Ele aceitou o pedido de Shinohara para agir como espiĂŁo. NĂŁo que nĂŁo entendesse por que teve que fazer isso, mas tambĂ©m nĂŁo gostava da sensação.
Isso estava se tornando um problema sério, não estava?
â Se vocĂȘ tem algo a dizer, pode falar livremente. â O general sorriu para Haruhiro. â Estou contando com vocĂȘs. HĂĄ algo que eu preciso que vocĂȘs façam tambĂ©m.
Haruhiro sentiu que, se pudesse, reviraria os olhos atĂ© desmaiar ali mesmo. NĂŁo era brincadeira. Ele queria fugir. O que quer que o general precisasse que ele fizesse, seria um fardo insuportĂĄvel. E o general pretendia fazĂȘ-los cumprir a tarefa, gostassem ou nĂŁo.
â A refeição.
Quando o general ergueu a mão direita, os mantos pretos deixaram o salão. Eles deviam estar indo buscar a equipe de serviço.
ApĂłs retomar Altana, o general selecionou cerca de vinte pessoas da unidade de logĂstica para a Torre Tenboro. Eles nĂŁo eram mais soldados; agora cozinhavam, limpavam e lavavam roupas. O general provavelmente queria transformar a torre em seu palĂĄcio pessoal.
No entanto, considerando a falta de pessoal, o futuro desse plano nĂŁo parecia dos melhores.
â Ouvi dizer que Altana comercializava com a cidade livre de Vele â comentou o general, voltando-se para Hiyomu.
Ela assentiu vigorosamente.
â Sim, sim! E Vele tambĂ©m negocia com o Continente Vermelho. Obviamente, eles tĂȘm frutos do mar muiiito saborosos.
â Existem muitas pessoas, homens e mulheres, vivendo lĂĄ.
â VocĂȘ talvez devesse dizer âde todas as raçasâ, mas beeeem… Vele nĂŁo Ă© apenas uma cidade, Ă© mais como uma cidade-estado, pode-se dizer?
O general começou a mexer repetidamente em seu anel com os dedos da mão direita.
Eventualmente, os cozinheiros chegaram vestindo aventais e coberturas brancas na cabeça. Serviram carne e vegetais levemente temperados, pão e algum tipo de bolinho de massa. Eram pratos simples que aproveitavam bem os ingredientes.
Os Ășnicos temperos disponĂveis eram sal e uma pequena quantidade de especiarias, entĂŁo o sabor dependia inteiramente da qualidade natural do que era servido.
Os servos trouxeram uma garrafa de ĂĄlcool e serviram nos copos de Haruhiro e dos outros. Ao fazerem isso, sempre acabavam derramando um pouco na mesa, mas o general nĂŁo parecia se importar.
â Primeiro, vĂȘm os goblins de Damuro â disse o general, erguendo seu copo.
Hiyomu e Anthony também pegaram os seus. Haruhiro não conseguiu.
Os goblins de Damuro… Espere, o quĂȘ…?
â Algum problema? â O general inclinou a cabeça, observando Haruhiro.
â Ah… NĂŁo, nada.
Haruhiro pegou seu copo Ă s pressas.
Nada.
Nada? NĂŁo, isso nĂŁo era ânadaâ.
â …Os goblins? â ele perguntou.
â Eu acredito… â O general semicerrou os olhos. â Que podemos formar uma aliança com os goblins de Damuro. No mĂnimo, hĂĄ espaço para que isso aconteça.
â HĂŁ?! â Os olhos de Anthony se arregalaram. â Espere um pouco… U-Uma aliança?! Uma aliança com goblins?!
â Exatamente â respondeu o general com naturalidade. â Precisaremos enviar um enviado. Primeiro, devemos informar ao rei dos goblins na Cidade Nova de Damuro, Gwagajin, acredito que seja o nome dele, sobre nossas intençÔes.
Haruhiro colocou o copo de volta na mesa.
Os ombros de Hiyomu tremiam enquanto ela soltava uma risadinha abafada.
Ela Ă© a pior.
â O que foi? â o general dirigiu-se a Haruhiro novamente.
NĂŁo havia como escapar. A coisa que ele precisava que eles fizessem… Tinha que ser logo isso?
Quando Haruhiro permaneceu em silĂȘncio, o general ergueu o copo novamente.
â Ă nossa amada fronteira.
Ele virou o copo sem dizer âsaĂșdeâ formalmente. Hiyomu fez o mesmo. Anthony, ainda estupefato, tomou apenas um gole antes de devolver o copo Ă mesa.
â Primeiro, vamos comer. NinguĂ©m trabalha direito com fome.
Mesmo com o incentivo do general, Haruhiro nĂŁo conseguiu tocar na comida. NĂŁo tinha apetite.
Queria deixar o assento imediatamente, mas seria uma mĂĄ ideia?
Não era apenas um problema dele. Seus companheiros estavam ali também. Se Haruhiro estragasse tudo, poderia arrastå-los junto. Ele precisava evitar isso a todo custo.
Minha cabeça tå uma bagunça.
O que ele deveria fazer? Ele nĂŁo sabia. Pelo menos nĂŁo naquele momento.
Haruhiro achou que o general daria ordens especĂficas durante a refeição, mas ele nĂŁo disse nada em particular.
Isso foi um pouco decepcionante. Haruhiro mal tocou na comida que lhe foi servida.
Ele apenas ficou sentado em sua cadeira, aguardando o tempo passar. Esperou até que o general terminasse de devorar tudo à sua frente e os dispensasse. Era tudo o que podia fazer.
Quando ele deixou o refeitĂłrio e voltou para seu quarto, Kuzaku praticamente pulou sobre ele. Havia um olhar de alarme em seu rosto.
â Haruhiro!
â O-O quĂȘ? O que aconteceu?
â Ă a Shihoru-san!
â HĂŁ?!
Haruhiro olhou ao redor do quarto. Viu apenas Kuzaku, Mary, Setora e Kiichi.
Mary estava pålida como um lençol.
Kiichi, de forma atĂpica, estava ao lado de Mary, e nĂŁo de Setora. Parecia que ele estava tentando animĂĄ-la.
Setora estava com os braços cruzados e a testa franzida.
â O-O-O que a gente faz?!
Kuzaku agarrou o braço de Haruhiro e o sacudiu.
â A Shihoru-san foi ao banheiro faz uma eternidade e nĂŁo voltou! Eu provavelmente nĂŁo devia falar assim, mas achei que ela estivesse com piriri ou algo do tipo no começo! Mas jĂĄ passou tempo demais pra ser isso! Eu fui procurar por ela e ela sumiu!
â Certo. Certo, eu entendi. SĂł se acalma.
â D-Desculpa! vocĂȘ tem razĂŁo, vou me acalmar!
Kuzaku se afastou de Haruhiro e respirou fundo algumas vezes, inspirando e expirando.
â E-E-E entĂŁo?! O-O-O-O que a gente faz?! Haruhiro, o que a gente deveria fazer?! A Shihoru-san tĂĄ desaparecida! Isso Ă© ruim, nĂŁo Ă©?! Eu nĂŁo faço ideia do que devemos fazer…!
â Cara, vocĂȘ nĂŁo se acalmou nem um pouco…
â Eu nĂŁo consegui! Desculpa!
Haruhiro pediu para Setora e Mary. contarem o que aconteceu também.
Shihoru tinha saĂdo do quarto sozinha.
Kuzaku tinha o hĂĄbito irritante de convidar Haruhiro sempre que precisava ir ao banheiro, mas, de acordo com as mulheres, Shihoru nĂŁo fazia nada desse tipo.
NĂŁo que Shihoru tivesse dito explicitamente que precisava ir. Mas era o Ășnico motivo em que ele conseguia pensar. Mary e Setora concordaram com isso. Elas disseram que nĂŁo havia nada de fora do comum nela.
Foi Setora quem disse primeiro que ela estava demorando demais.
Mary e Setora foram procurĂĄ-la no banheiro, e Kuzaku juntou-se Ă busca depois disso. Eles vasculharam todo o primeiro andar da Torre Tenboro, onde ficava o quarto deles, mas ainda nĂŁo a tinham encontrado.
â VocĂȘ acha que… alguĂ©m viu a Shihoru? â Haruhiro perguntou.
Havia cerca de cinquenta pessoasâOs mantos pretos e soldados da Força ExpedicionĂĄriaâna Torre Tenboro o tempo todo.
â NĂłs tentamos perguntar. â Kuzaku franziu a testa. â Todos dizem que nĂŁo a viram, ou que nĂŁo sabem. Alguns deles atĂ© nos ignoraram descaradamente. NĂŁo estavam cooperando nem um pouco. Qual Ă© a desses caras? Eles realmente me tiram do sĂ©rio.
â Honestamente, eu nĂŁo sei o suficiente para decidir o que pensar.
Setora virou-se para Mary e perguntou: â A Shihoru Ă© o tipo de pessoa que desapareceria de repente por conta prĂłpria?
Mary balançou a cabeça.
â Acho que nĂŁo. Ela nĂŁo gostaria de causar problemas para ninguĂ©m. Ela sente isso mais do que qualquer um.
â Nesse caso… â Setora olhou para Haruhiro.
Parecia improvĂĄvel que Shihoru desaparecesse por vontade prĂłpria.
Shihoru saĂra do quarto para ir ao banheiro, ou algo assim. Ela pretendia voltar imediatamente, mas alguĂ©m a impediu.
Agora, neste exato momento, Shihoru estava em uma situação que significava que ela não podia retornar ao quarto onde seus companheiros a esperavam.
Haruhiro rangeu os dentes. Ele tocou o ponto onde seu pescoço e ombros se encontravam. Estava realmente rĂgido.
â …A Hiyomu estava lĂĄ. No refeitĂłrio.
â Hiyo…?! â Disse Kuzaku. â Espera, ela?! O quĂȘ?!
â O general se aliou Ă Hiyomu em algum momento. AlĂ©m disso, o general… aparentemente planeja formar uma aliança com os goblins.
â Go-Go-Gob…? O-O-O quĂȘ? Do que diabos vocĂȘ tĂĄ falando?!
â Isso estĂĄ relacionado ao desaparecimento da Shihoru. Ă o que vocĂȘ estĂĄ pensando? â Setora estava calma como sempre.
â Eu nĂŁo sei â Haruhiro respondeu honestamente. â Mas acho que o general planeja nos enviar para Damuro. Ele apenas deu a entender, nunca disse abertamente. O general quer nos usar como peĂ”es. Mas… ele nĂŁo confia na gente.
Mary inspirou profundamente.
â VocĂȘ nĂŁo quer dizer… que ele fez a Shihoru de refĂ©m?
â Faz sentido â disse Setora desapaixonadamente. â Se for verdade, nĂŁo teremos escolha a nĂŁo ser fazer o que o general diz, mesmo que nĂŁo gostemos.
Haruhiro e os outros saĂram Ă s pressas do quarto.
O general estaria no grande salĂŁo, na sala com a lareira que o Margrave usava como sala de estar, ou talvez no quarto do senhor no terceiro andar.
No entanto, quatro mantos pretos haviam bloqueado as escadas para o segundo andar.
â O general tĂĄ lĂĄ em cima, nĂŁo Ă©? Temos algo pra perguntar, entĂŁo queremos ver ele.
â Estamos com pressa aqui!
Não importava o quanto Haruhiro ou Kuzaku os pressionassem, os mantos pretos apenas diziam que o general havia ordenado que ninguém passasse.
Se dependesse dele, Kuzaku teria tentado abrir caminho Ă força, mas Haruhiro obviamente teve que detĂȘ-lo.
Shihoru poderia ter sido feita refém. Eles não podiam agir de forma imprudente.
â Poderiam ao menos passar uma mensagem ao general? Digam a ele que quero ver ele. SĂł isso basta.
â O general nos deu a tarefa de sermos guardas, nĂŁo mensageiros. Se fizermos coisas que nĂŁo foram ordenadas, sofreremos a ira do general.
Os mantos pretos sorriam de leve, parecendo até se divertir com a situação.
â Certo, entendi! â Kuzaku sentou-se no chĂŁo e cruzou os braços. â NĂŁo saio daqui atĂ© me deixarem passar! Vou ficar sentado aqui pra sempre, entĂŁo se acostumem!
Os mantos pretos caĂram na gargalhada.
â Bem, nĂŁo ouse se mexer entĂŁo.
â Eu jĂĄ disse que nĂŁo vou! VocĂȘs podem trocar de turno, mas eu nĂŁo. Vou aguentar isso aqui sozinho.
â Qual Ă© o sentido de fazer isso? â Setora perguntou exasperada, e Kuzaku se virou.
â O sentido? O sentido Ă©… Uh, sei lĂĄ. Eu meio que achei que deveria? Me pergunto o porquĂȘ. Tipo, tĂŽ mostrando o meu espĂrito pra eles, talvez…?
Haruhiro pĂŽs a mĂŁo no ombro de Kuzaku.
â Vamos, Kuzaku.
â HĂŁ? Como assim âvamosâ?
â Vamos voltar pro quarto por enquanto.
â NĂŁo, mas…
â Vamos.
â …TĂĄ bom.
Kuzaku levantou-se. Ele murchou os ombros e baixou a cabeça… depois arqueou as sobrancelhas e franziu os lĂĄbios.
Se vocĂȘ vai ficar com essa cara tĂŁo deprimida, vai me deixar mal tambĂ©m, entĂŁo gostaria que parasse com isso.
â Anime-se. …Eu vou pensar em algo.
â …TĂĄ.
No entanto, não importava o quanto Haruhiro pensasse, nenhuma solução se apresentava, e o tempo simplesmente escorria.
No meio da noite, Kuzaku estava roncando. Setora estava deitada com Kiichi em seus braços. Mary parecia não conseguir dormir.
Haruhiro saiu do quarto para checar a situação nas escadas vĂĄrias vezes. Sempre havia trĂȘs ou quatro mantos pretos postados ali.
Haveria algum jeito de usar todas as habilidades de ladrĂŁo que Barbara havia martelado nele para passar por eles? Ele considerou seriamente, mas era obviamente difĂcil demais.
Ele nĂŁo conseguia evitar pensar em Shihoru. O que estava acontecendo com ela?
Ele não achava que fariam algo horrendo. Ou queria acreditar nisso. Bem, se ela fosse uma refém, teriam que tratå-la com algum grau de cuidado. Eles exigiriam algo em troca da segurança da refém.
Se usasse o senso comum, era assim que funcionaria, mas serĂĄ que esse pensamento estava correto? Era de Jin Mogis que estĂĄvamos falando.
Tudo o que preciso fazer é não matå-la. Enquanto estiver viva, ela tem valor como refém.
Ele nĂŁo podia garantir que o general nĂŁo pensaria dessa forma. Na verdade, parecia inteiramente plausĂvel que ele pensasse.
O que Shihoru estaria fazendo agora? Mesmo que estivesse segura, devia estar trancada e privada de sua liberdade. Obviamente, ela estaria ainda mais inquieta que Haruhiro. Afinal, ela era uma garota.
Certo. Ele estava tentando nĂŁo dizer abertamente, mas era com isso que estava preocupado.
O fato de ela ser uma mulher tornava as coisas diferentes.
Era um fator enorme.
A Força ExpedicionĂĄria era composta apenas por homens. E eles nĂŁo eram bem-educados. Na verdade, a maioria nem chegava ao nĂvel da decĂȘncia bĂĄsica.
O fato era que Mary, Shihoru e Setora jå haviam sido alvos de soldados da Força Expedicionåria antes disso também.
AtĂ© agora, o dano havia se limitado a comentĂĄrios obscenos e olhares cobiçosos, mas nĂŁo se sabia quando um soldado bĂȘbado poderia perder o controle e atacĂĄ-las.
Apesar disso, ele tivera a impressĂŁo de que o risco era limitado dentro da Torre Tenboro.
Teria ele baixado a guarda? Talvez.
Ele deveria ter sido mais cauteloso. Mesmo dentro da Torre Tenboro, elas nĂŁo deveriam estar se movendo sozinhas. Ele deveria ter dito isso a elas.
Se ela estivesse com Mary ou Setora, mesmo que tivessem sido cercadas por vĂĄrios mantos pretos, nĂŁo teriam sido capturadas facilmente.
Eu nĂŁo previ isso de jeito nenhum.
Eu fui ingĂȘnuo.
Por causa disso, Shihoru fora confinada em algum lugar, completamente sozinha. Se isso fosse tudo o que tivesse acontecido com ela, entĂŁo menos mal.
Shihoru provavelmente estava amarrada para que não pudesse fugir. Tinha que haver um guarda também.
O general poderia não ter dito que era permitido ferir Shihoru. Mas seriam seus guardas capazes de manter o profissionalismo? Haruhiro não tinha muita esperança nisso.
Talvez aquele nĂŁo fosse o momento de se preocupar com os mantos pretos. Era possĂvel que ele devesse recorrer Ă força se necessĂĄrio, encontrar Shihoru o mais rĂĄpido que pudesse e resgatĂĄ-la. Se nĂŁo fizesse isso, algo irreversĂvel poderia acontecer. A possibilidade existia, pelo menos.
Poderia jĂĄ ser tarde demais. Shihoru estava em perigo. Mas, por enquanto, ela ainda estava bem. Era por isso que ele precisava se apressar. Haruhiro tentava convencer a si mesmo disso, mas nĂŁo tinha fundamentos claros para acreditar.
Eles provavelmente não a matariam. Mas não seria isso apenas uma suposição otimista?
Da perspectiva do general, tudo o que ele precisava fazer era convencer Haruhiro e o resto do grupo de que tinha um refém.
O refém não precisava estar vivo.
âA refĂ©m estĂĄ viva. Faça o que eu digo e eu a devolvo.â
Se ele pudesse controlĂĄ-los com uma mentira como essa, seria o suficiente para ele. No pior dos casos, Shihoru poderia ser torturada e depois morta.
Eles nĂŁo fariam isso, ele queria acreditar. Se acontecesse, Haruhiro provavelmente nunca mais seria o mesmo. NĂŁo, nĂŁo era uma questĂŁo de se ele ficaria bem ou nĂŁo. Ele apenas faria Jin Mogis e todos que ferissem Shihoru pagarem. Ele nĂŁo demonstraria perdĂŁo algum. Ele os mataria atĂ© o Ășltimo homem, custasse o que custasse.
Com uma de suas companheiras sequestrada, sua imaginação vagava por todos os tipos de lugares, a maioria deles mais ruins do que bons. Isso o abalava profundamente e o deixava emocionalmente exausto.
Se o general tivesse escolhido esse método sabendo o que isso faria com ele, era aterrorizante.
Se Haruhiro estivesse na posição do general, mesmo que a ideia lhe ocorresse, ou que um de seus subordinados a sugerisse, ele hesitaria em fazĂȘ-lo. NĂŁo, ele nĂŁo conseguiria fazer. NĂŁo era impossĂvel para ele, mas ele nĂŁo colocaria o plano em ação. Mas Jin Mogis provavelmente colocaria.
Talvez ele tivesse tido a ideia de Hiyomu. Parecia algo que aquela mulher inventaria. NĂŁo que Haruhiro soubesse. Ele mal sabia qualquer coisa sobre Hiyomu. Ele nĂŁo queria conhecĂȘ-la.
Fosse qual fosse o caso, havia uma coisa que ele tinha que reconhecer, por mais que nĂŁo quisesse.
Aquele foi um movimento realmente eficaz.
Até que Neal batesse à porta deles na manhã seguinte, Haruhiro não conseguiu pregar o olho nem por um segundo.
â O general estĂĄ chamando vocĂȘs. Parece que ele quer conversar sobre algo durante o cafĂ© da manhĂŁ.
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Tradução feita por fãs.
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