Rakuin no Monshou – CapĂ­tulo 2 – Volume 3

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Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded

Light Novel Online – CapĂ­tulo 02:
[O Ilustre Mercador de Birac]


Birac era considerada a segunda capital de Mephius. Seus platĂŽs eram divididos em camadas espalhadas por um desfiladeiro, onde a camada superior era ocupada por edifĂ­cios de mĂĄrmore branco, claramente destinados Ă s classes altas, enquanto a inferior abrigava casas comuns, coladas ao penhasco.

No distrito leste da camada nobre, o rio Zwimm cortava a regiĂŁo. Dia apĂłs dia, inĂșmeras barcaças passavam por ali, servindo como ponto de comĂ©rcio com as naçÔes ao norte. Os negĂłcios prosperavam, e estrangeiros eram vistos em grande nĂșmero.

O prĂ­ncipe Gil, Ă  frente de suas tropas, chegou Ă  cidade.

Todos pensaram que ele viria apenas para descansar antes de seguir para Apta. No entanto, trĂȘs dias jĂĄ haviam se passado desde sua chegada, e o prĂ­ncipe nĂŁo demonstrava nenhuma intenção de sair do seu palacete.

— Ouviram? Os soldados do príncipe receberam uma boa quantia dele e saem todas as noites para se divertir.

— Parece que causaram confusão na loja da Yulia. Dizem que foi porque não acharam garotas do seu gosto.

— Falando no prĂ­ncipe Gil, ele Ă© famoso por ser um imbecil. Recentemente, ganhou fama por derrotar as forças de Ryucown e conter a rebeliĂŁo de Zaat, mas, como esperado, isso nĂŁo Ă© normal.

Essas notĂ­cias e rumores tambĂ©m chegaram aos ouvidos do mercador Zaj Haman inĂșmeras vezes.

— Esse tipo de homem Ă© o mais perigoso de lidar. Ele nĂŁo segue a lĂłgica comum, entende? É como um dragĂŁo bebĂȘ, no momento em que vocĂȘ acha que ele se acostumou com as pessoas, ele vira e te morde. SĂł resta rezar para que isso nĂŁo aconteça — Zaj soltou uma risada franca.

Os mercadores, que formavam uma parte significativa da população de Birac, eram autÎnomos e não temiam mais do que o necessårio os nobres e imperiais que compunham a aristocracia de Mephius. Claro, isso não significava que subestimavam os nobres, mas, como era típico dos mercadores, estavam dispostos a pegar em armas para proteger seus bens e vidas se fossem pressionados a condiçÔes intoleråveis, mesmo que isso significasse enfrentar a aristocracia.

— Seu negócio não prospera independentemente do que aconteça?

— Claro que nĂŁo! A negligĂȘncia Ă© seu maior inimigo. Tudo pode desmoronar em um instante, sem exceção.

Zaj jĂĄ passava dos sessenta, mas ainda frequentava a loja diariamente, aparecendo para conversar e tomar um drinque. Seu negĂłcio atendia muitos clientes de outras cidades e paĂ­ses. Se Zaj suspeitasse que alguma informação Ăștil estivesse entre eles, ouvia suas conversas interminĂĄveis, mesmo que fosse a primeira vez que os visse.

O ilustre mercador Zaj Haman.

Não havia ninguém em Birac que não conhecesse seu nome. Ele era o dono da maior empresa de transporte da próspera Birac, responsåvel por mais de quarenta por cento dos lucros do porto. Seus navios, marcados com o emblema da Firma Haman, partiam e retornavam ao Porto de Birac sem parar.

No geral, negĂłcios que usavam transportes aĂ©reos em Mephius eram raros. O Ă©ter, fonte de energia dessas naves, era obtido da vaporização da ĂĄgua do mar usando artefatos da antiga civilização. Como Mephius nĂŁo tinha acesso a grandes corpos d’água, conseguir Ă©ter era difĂ­cil para a população comum. A menos que fosse algo urgente, o transporte aĂ©reo de mercadorias geralmente nĂŁo valia o custo.

No entanto, Zaj Haman, que estudou em Garbera em sua juventude e aprendeu os segredos das naves aéreas, estabeleceu Birac como um ponto de parada entre as regiÔes costeiras próximas e criou uma rota comercial exclusiva com a cidade flutuante de Zavinia, ao norte. As åguas ao redor de Zavinia eram ricas em éter, e até hoje diziam que a venda do éter sozinha sustentava a economia do país.

O soberano de Zavinia, o general Kal Lighthel, era conhecido por seu temperamento difĂ­cil, mas Zaj cruzou as ĂĄguas trĂȘs vezes para visitĂĄ-lo e acabou estabelecendo uma relação pessoal com ele.

Zaj nĂŁo sĂł lidava com negĂłcios civis, mas tambĂ©m fornecia suprimentos para o exĂ©rcito em tempos de guerra. E no festival da fundação deste ano, durante a revisĂŁo naval, onde o nĂșmero de navios disponĂ­veis era baixo e o status dos nobres era medido pela quantidade de navios que contribuĂ­am, Zaj emprestou vĂĄrias naves para nobres por um preço simbĂłlico.

Ou seja, suas conexÔes com a nobreza também eram profundas.

Outra parte de sua fama vinha do fato de contratar pessoas independentemente de origem ou nacionalidade. A diversidade de funcionĂĄrios e clientes em sua loja facilitava a coleta de informaçÔes. Por outro lado, muitos mercadores e servos de nobres visitavam seu estabelecimento para comprar essas informaçÔes. Os rumores chegavam a dizer que Zaj Haman talvez tivesse mais influĂȘncia que o prĂłprio senhor feudal de Birac, Fedom Aulin.

— E esse prĂ­ncipe Gil… — Zaj perguntou a um funcionĂĄrio, enquanto almoçava tarde em uma sala no segundo andar. — O que ele estĂĄ fazendo aqui em Birac? SerĂĄ que estĂĄ prolongando a estadia para se divertir com alguma mulher?

— Bem… — O funcionĂĄrio inclinou a cabeça. — HĂĄ muitos rumores sobre seus soldados fazendo isso, mas nada sobre o prĂ­ncipe em si. Ele nĂŁo estĂĄ apenas ocioso na residĂȘncia do Lorde Aulin?

— Hmph.

Para ser sincero, Gil Mephius era um enigma até para Zaj. O fato de não controlar bem seus soldados e prolongar sua estadia em Birac combinava com os rumores de que era um tolo. Mas, se fosse esse o caso, como explicar sua vitória contra Ryucown em sua primeira campanha e seu papel em conter a rebelião de Zaat?

Zaj passou quase toda a vida construindo a Firma Haman.

Ele achava difícil acreditar nas histórias de um tolo que de repente se tornou herói. Acreditava firmemente que era uma invenção para fazer o príncipe Gil parecer mais adequado como sucessor do trono.

E hĂĄ tambĂ©m a informação de que Fedom, o senhor feudal de Birac, recentemente se aproximou do prĂ­ncipe Gil. NĂŁo seria surpresa se ele estivesse por trĂĄs do prĂ­ncipe, puxando as cordas nos bastidores. No entanto, tal movimento parecia tardio. Talvez a saĂșde do imperador tivesse piorado subitamente, ou alguĂ©m importante tivesse sugerido “aquilo” a Fedom, mas algo certamente mudou para causar isso.

Por mais que o assunto o interessasse, Zaj era, acima de tudo, um mercador. Não tinha intenção de se envolver profundamente em questÔes de sucessão imperial, nem planos de tirar vantagem da situação.

Naquela noite,

— M-Meu senhor!

Um de seus funcionĂĄrios entrou correndo, ofegante.

— O que foi? Está causando alvoroço. — Zaj ergueu a cabeça grisalha e franziu a testa.

Ele estava sobrecarregado de trabalho. Naquele momento, planejava estabelecer uma nova base intermediĂĄria para naves da Firma Haman em uma vila no caminho entre Birac e Apta, que havia retornado ao controle de Mephius.

— HĂĄ um cliente. Ele insiste em vĂȘ-lo pessoalmente, meu senhor.

— Bart nĂŁo pode atendĂȘ-lo?

Bart era o segundo filho de Zaj. Ele confiava a ele e Ă  esposa o andar tĂ©rreo da loja e a gerĂȘncia das importaçÔes de mercadorias comuns.

O funcionårio balançou a cabeça.

— Quem seria esse tal convidado?

Serå que era uma inspeção da guarnição? Enquanto Zaj franzia a testa, um nome inesperado chegou aos seus ouvidos.

— Ah, Ă© uma grande honra recebĂȘ-lo aqui. Nunca imaginei que Vossa Alteza pisaria em um lugar como este. Se tivĂ©ssemos sido avisados antes, poderĂ­amos ter preparado uma recepção mais adequada — Zaj disse com um sorriso, esfregando as mĂŁos.

Ele não permitiu que sua inquietação interna transparecesse.

O convidado examinava curiosamente os produtos da loja, pegando alguns.

— Não se preocupe. Não esperava uma recepção calorosa — Orba assentiu com indiferença.

— Por favor, me desculpe enquanto preparo um chá.

Zaj, ainda sorrindo, observava atentamente o convidado.

O PrĂ­ncipe Herdeiro de Mephius, Gil.

Ele nĂŁo era muito alto, mas sua pele morena e fĂ­sico esguio denotavam um corpo acostumado aos campos de batalha. E, acima de tudo, seu olhar fugaz era surpreendentemente afiado. Zaj nĂŁo via nenhum traço do homem chamado de tolo. No entanto, as aparĂȘncias podiam enganar.

Mas… o que o prĂ­ncipe estaria fazendo aqui?

Ele apareceu de repente, acompanhado por um soldado de aparĂȘncia andrĂłgina. Se fosse apenas para comprar algo, seu filho Bart poderia tĂȘ-lo atendido perfeitamente. Zaj rezava para que nĂŁo fosse algum capricho ridĂ­culo, mas temia que exatamente isso estivesse prestes a acontecer.

— Vim aqui para uma pequena conversa. Ouvi dizer que informaçÔes sobre vĂĄrios paĂ­ses podem ser compradas aqui com dinheiro.

— Seja mercadoria ou informação, lido com ambas. É o ofĂ­cio de um mercador. É um hĂĄbito irritante. Quando perguntam “VocĂȘ tem?”, nĂŁo podemos simplesmente responder “NĂŁo”. Por isso, dia apĂłs dia, buscamos de todas as formas possĂ­veis. Mas, mesmo assim, receio que nossos serviços nĂŁo atendam Ă s expectativas de um prĂ­ncipe.

— NĂŁo Ă© nada demais — Orba falou enquanto pegava um relĂłgio de bolso da prateleira e o examinava. — VocĂȘ sabe para onde estou indo, certo?

— Para a Fortaleza de Apta.

— Exato. E do outro lado, a oeste, estĂĄ Ax Bazgan. Para ser direto, quero informaçÔes sobre Ax Bazgan. Quero tudo sobre o territĂłrio que antes pertencia a Zer Tauran, incluindo as ProvĂ­ncias Tauran.

— Gil-sama… — Zaj começou, mantendo a expressĂŁo inalterada. — O comĂ©rcio com o oeste Ă© estritamente proibido em Mephius. Obter informaçÔes diretamente deles Ă© um tanto difĂ­cil. AmanhĂŁ, espero visitantes das naçÔes costeiras do norte e posso ver o que consigo, mas com o que tenho agora…

— EntĂŁo vocĂȘ nĂŁo tem?

— No momento… nĂŁo.

Houve uma pausa breve. Gil ainda examinava o relĂłgio de bolso. Escravos e funcionĂĄrios ao redor olhavam nervosamente para a conversa.

Afinal, era sĂł um capricho.

Zaj pensou consigo mesmo. SerĂĄ que o prĂ­ncipe nĂŁo ouviu rumores sobre a Firma Haman e resolveu testĂĄ-los? Nesse caso, ele o acompanharia, o decepcionaria profundamente e o mandaria embora.

— VocĂȘ estĂĄ mentindo.

— Perdão?

A expressão de Gil também não mudou. Sorrindo levemente, ele ergueu os olhos do relógio.

— Por que acha que viemos atĂ© aqui? Zaj Haman. VocĂȘ deve estar envolvido nessas transaçÔes proibidas com o oeste.

— Eu discordo-!

— NĂŁo quero conversa fiada — Gil Mephius falou com firmeza. — Acredito que seja verdade. Isso Ă© inquestionĂĄvel. NĂŁo preciso de mais provas, nem tenho intenção de declarar isso publicamente. Entende o que estou dizendo?

— …

Mantendo a expressĂŁo, Zaj sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

Naquele momento, um servo trouxe uma bebida. Zaj a recusou. Abriu a boca e falou com cuidado.

— Se tiver tempo, que tal irmos lá fora?

Zaj e Gil Mephius seguiram para um dos armazéns da Firma Haman no porto.

No caminho, Zaj mencionou os feitos gloriosos do príncipe Gil e os elogiou, mas o príncipe nem sequer respondeu. Olhando de relance para as barcaças de bronze que entravam e saíam do porto, eles entraram em um armazém discreto.

— Desculpe fazĂȘ-lo vir atĂ© aqui.

Subiram até o terceiro andar, que servia como um escritório simples. Zaj pessoalmente colocou taças na mesa e serviu vinho de frutas.

NĂŁo me surpreenderia se a parede girasse e soldados surgissem agora.

Gil Mephius — ou melhor, Orba — riu baixinho.

Embora conhecesse o nome do ilustre mercador Zaj Haman, não tinha planos de visitå-lo até pouco antes de partir de Mephius. No entanto, ao descobrir sobre a proibição comercial com o oeste, Orba percebeu algo estranho. Ao buscar a razão em suas memórias, lembrou-se de um detalhe.

Ah, certo.

Orba estive justamente em Birac. Após a queda de Apta e a queima das vilas vizinhas pelas tropas de Oubary, a cidade onde ele conseguiu chegar foi essa mesma Birac. Lå, assumindo a liderança de um grupo de garotos, passou quatro anos roubando e administrando uma casa de apostas ilegal.

E, assim como fazia agora, Orba espalhou os garotos como olhos e ouvidos quando soube de uma informação: uma pequena frota de naves aéreas carregadas com ouro e mercadorias estava sendo preparada no porto. No entanto, isso não constava nos registros oficiais. A Firma Haman provavelmente subornou as autoridades, planejando partir secretamente à noite.

Se for assim, mesmo que eu ataque, o posto de Birac nĂŁo serĂĄ notificado.

Pensando nisso, Orba planejou um ataque às naves mercantes. Enquanto avançava nos preparativos, um dos garotos de um grupo rival infiltrado entre seus subordinados o denunciou.

E entĂŁo fui preso.

Sim, foi nessa mesma Birac que o plano de Orba foi revelado, seus crimes expostos, e ele recebeu a marca de escravo nas costas, sendo forçado a usar a måscara.

Que coincidĂȘncia estranha.

Orba aproximou-se da janela com descontração, embora mantivesse as costas vigiadas. Por causa do incidente que o levou à prisão, agora ele se encontrava com o líder da Firma Haman como o príncipe Gil. E o que ele mais queria agora eram as informaçÔes que Zaj Haman possuía.

Nesse momento, um pequeno pĂĄssaro pousou no parapeito da janela. Seu corpo era coberto por penas marrom-claras, e ele bicava o bico.

— Essas penas já foram amarelo-brilhantes.

— Hm?

Atrås dele, Haman ofereceu respeitosamente uma taça de vinho, que Orba aceitou.

— É uma das mercadorias que trouxemos de terras distantes. Mas, com a idade, sua cor desbotou. No entanto, seu canto vibrante permanece o mesmo. Embora sua aparĂȘncia mude, suas cançÔes nĂŁo esquecem sua terra natal, como dizem os poetas.

— Oh?

Orba concentrou-se no som. Ouviu aquele canto inĂșmeras vezes, mas nunca se sentiu particularmente tocado. Agora, com as palavras de Zaj, ele conseguia sentir um pouco do fluxo do tempo naquela melodia.

— É uma pena que nunca chegue à parte crucial.

— Ah…

Com um leve bater de asas, o pĂĄssaro levantou voo.

— Agora entĂŁo — Zaj voltou ao assunto principal. — O que vocĂȘ precisa de mim?

— NĂŁo mudei de ideia. Quero informaçÔes.

— Vossa Alteza. Este nĂŁo Ă© o palĂĄcio, e vocĂȘ nĂŁo tem um exĂ©rcito incontĂĄvel aqui. É especialmente em lugares como este que eu tenho mais influĂȘncia, mais que vocĂȘ ou o Lorde Fedom. Pode ser difĂ­cil para um jovem prĂ­ncipe entender, mas lugares assim existem no mundo.

— Isso soa como uma ameaça.

— É apenas uma suposição. Eu poderia sequestrá-lo aqui e entregá-lo a outro país. Em vez de continuar meus negócios em Mephius, tenho certeza de que algum reino pagaria muito mais.

Orba não bebeu da taça. O mesmo valia para Shique, e sua hesitação deixava clara a desconfiança. Depois de um momento, Orba falou em pedaços.

— Isso não valeria a pena.

— Não valeria a pena?

— Ax Bazgan Ă© um espinho no lado de Mephius hĂĄ muito tempo. Se essa ameaça fosse removida, vocĂȘ poderia negociar livremente. Ah, e que tal deixar mais da metade da rota comercial em suas mĂŁos?

— O-O que vocĂȘ…

Zaj limpou a garganta por reflexo. Pensou em rir por um segundo, mas o rosto de Gil Mephius era sério.

Esse homem…

Se ele estivesse falando sério, estaria longe de ser o tolo indigno do trono que diziam. Seria um idiota sem igual.

— Infelizmente, as forças de Vossa Alteza nĂŁo sĂŁo muitas. HĂĄ mais de dez anos, Sua Majestade enviou um exĂ©rcito dez vezes maior para atacar TaĂșlia. Claro, vocĂȘ jĂĄ sabe o resultado. Ax Bazgan nĂŁo tem um exĂ©rcito tĂŁo grande. Mas, embora os remanescentes do antigo Zer Tauran estejam em conflito interno, eles sĂŁo estranhamente unidos contra inimigos externos. O que Vossa Alteza pode fazer contra uma força que rivaliza com a de Mephius?

— VocĂȘ ficou bem falante.

Era uma prova de suas verdadeiras intençÔes, Orba insinuava.

— Vossa Alteza.

— Admito que o que tenho Ă© pouco. Por isso mesmo, quero suas informaçÔes. NĂŁo informaçÔes velhas e mofadas, mas as mais recentes que vocĂȘ possui.

— EstĂĄ dizendo que, com isso, poderia derrubar TaĂșlia?

— HĂĄ quanto tempo vocĂȘ engana os olhos dos nobres de Mephius e negocia com o oeste?

Orba respondeu com outra pergunta. Sem conseguir retomar o controle da conversa, Zaj nĂŁo teve escolha senĂŁo ser direto.

— Digamos que já faz sete anos.

— Prefere que termine em sete anos ou que continue suavemente por mais dez, vinte anos?

— Ah… — Zaj soltou um suspiro. Naquele instante, Orba esvaziou a taça de uma vez.

— Pergunto mais uma vez, mercador de Birac. — Orba limpou a boca com o dorso da mĂŁo. — VocĂȘ tem as informaçÔes que eu quero?

Zaj sentiu a cabeça girar enquanto olhava para o prĂ­ncipe. Sua impressĂŁo dele como um idiota nĂŁo mudou. No entanto, se fosse o significado que definia um idiota…

— Tenho — Zaj assentiu e tambĂ©m bebeu toda a taça. Ele a bateu na mesa. — Pensando bem, nĂŁo precisaremos de outra rodada. Ainda nĂŁo sei se a informação serĂĄ Ăștil ao prĂ­ncipe. Mas, se ela o ajudar a alcançar seus objetivos, entĂŁo por todos os meios


Zaj ordenou que um escravo, aparentemente um armazenista, trouxesse um mapa e o espalhou sobre a mesa.

Apontando para a região de Zer Tauran, a oeste, ele começou a falar sobre sua antiga história. Quanto à história dos Zerdianos, Orba também tinha certo conhecimento de um livro que lera antes de partir.

Depois, Zaj abriu um mapa mais detalhado dos arredores de Apta.

Apta e TaĂșlia eram separadas pelo rio Yunos, que corria de norte a sul. O rio, de correnteza forte e extensa, servia como fronteira. A Fortaleza de Apta foi construĂ­da sobre um penhasco Ă  beira do rio, portanto as chances de Ax Bazgan avançar para o leste eram mĂ­nimas.

— NĂŁo direi que nĂŁo hĂĄ caminho para escalar o penhasco, mas, nesse tempo, nĂŁo haveria como evitar o fogo da fortaleza, e eles ficariam completamente indefesos. E, pelo que sei, TaĂșlia provavelmente nĂŁo possui uma nave encouraçada. No mĂĄximo, pode contar com um cruzador, capaz de transportar uns 200 a 300 soldados. No entanto, duvido que atacariam diretamente pelo cĂ©u, onde seriam facilmente avistados.

— Este… seriam as Minas Tsaga, certo?

Ao ver o local apontado por Orba, Zaj sorriu. Cerca de dez quilÎmetros ao sul de Apta, o rio era interrompido por uma cadeia de montanhas. No passado, esse era o lugar onde escravos e criminosos eram forçados a trabalhar.

— Trabalho brutal sem fim, gases venenosos, dragĂ”es selvagens e tribos de geblins caçadores de homens…

Orba tambĂ©m ouviu essas palavras implacĂĄveis do mercador de escravos Tarkas. “Se nĂŁo me obedecer, vou te jogar lĂĄ”, ele ameaçara. Em suma, era um lugar que fazia atĂ© os escravos mais violentos hesitarem.

Se me lembro bem, Pashir também trabalhou nessas minas.

Com a queda de Apta, as minas deveriam estar desativadas agora. Diziam que eram ricas em recursos, mas, considerando que Garbera também não as explorava, ninguém estaria disposto a correr o risco de minerar ali atualmente.

— O que isso significa, Haman… Ă© que seus navios passam por aqui?

— Exatamente — Zaj abaixou as sobrancelhas brancas e sorriu. — HĂĄ dragĂ”es e geblins no chĂŁo, mas isso nĂŁo importa quando se estĂĄ no ar. Claro, para evitar a detecção pela vigilĂąncia de Apta, as naves precisam voar baixo, entĂŁo nĂŁo Ă© como se nĂŁo houvesse perigo algum.

— Há uma rota terrestre? Uma que soldados possam atravessar?

— Nunca a vi pessoalmente, entĂŁo nĂŁo posso afirmar, mas… — Zaj fez uma pausa breve, pensativo. — Muito bem, vou mandar uma de minhas escravas acompanhĂĄ-lo.

— Uma escrava?

— Ela já pilotou uma nave mercante para o oeste e conhece o terreno.

— VocĂȘ deixa uma escrava pilotar uma nave? — Shique perguntou, surpreso.

Zaj riu, balançando a cabeça repetidamente, como se fosse um håbito.

— Ela tem boa visĂŁo e instinto, sabe? É algo que insisti desde o começo. — VocĂȘ, vĂĄ chamar Krau.

Zaj ordenou a um escravo do armazém.

Enquanto Krau não chegava, Zaj falou sobre a recente agitação nos arredores de Apta.

— Mercadorias em naves e carroças foram atacadas por bandidos. Ax e o oeste sĂŁo um mundo sem soberania, cheio de pequenos poderes. Por causa da instabilidade polĂ­tica, hĂĄ risco de isso se espalhar para cĂĄ. Garbera protege a rota comercial de Apta atĂ© suas terras, mas, claro, a rota para Mephius ficou desprotegida. Se o prĂ­ncipe for responsĂĄvel por Apta, gostaria que ele primeiro subjugasse a regiĂŁo.

— Meu senhor, ela está aqui.

— Ah, Krau, venha aqui.

Ao olhar para Krau na entrada, Orba ficou sem palavras. Ela era completamente diferente do que imaginava. Zaj, divertido com sua reação, comentou:

— Se ser gorda Ă© uma virtude, os nobres de Mephius certamente tĂȘm opiniĂ”es diferentes.

— NĂŁo me chamou sĂł para me insultar na frente do cliente, nĂŁo Ă©? Somos pessoas ocupadas. Por favor, vĂĄ direto ao ponto!

Krau era uma mulher perto dos quarenta. Seu corpo era arredondado, sua voz estridente e sua fala råpida. Além disso, sua atitude era francamente rude, diferente de qualquer escravo que Orba jå vira.

— Acalme-se, Krau. Quero que vocĂȘ cuide de um trabalho.

— Se for limpar as naves, vou ter que recusar — Krau puxou o queixo com indiferença. — A culpa do vaso quebrado nĂŁo Ă© minha. Foi aquele gato maltrapilho que seu neto trouxe da rua. Desde que aquele bicho malcriado apareceu, a cozinha virou um caos, e ele ainda afiou as garras no meu estoque secreto…

— Ora, ora… SĂł peço que me ouça. E, aliĂĄs, Ă© a primeira vez que ouço falar desse vaso.

Zaj explicou brevemente a situação a Krau.

— Esse homem? É o príncipe de Mephius?

Qualquer um ficaria impressionado de servir ao prĂ­ncipe herdeiro, mas Krau apenas arregalou os olhos.

— VocĂȘ farĂĄ isso, nĂŁo farĂĄ?

— Sou apenas uma escrava. Farei como meu senhor ordenar.

Seu tom era educado, mas seu olhar avaliador em direção ao príncipe deixava claro o que pensava, “Será que meu novo mestre vai me alimentar bem?”

NĂŁo suporto nenhum dos dois, mestre ou escrava.

Um gosto amargo persistiu. Ele entrou na Firma Haman esperando levar vantagem, mas o rumo inesperado também deixou Orba sem fÎlego.

De qualquer forma, consegui o que vim buscar.

— Tenho mais um pedido.

— Sim, o que seria?

O rosto de Zaj, que inclinou a cabeça respeitosamente, jå voltava ao de um mercador.

— Quero que me empreste naves. E alguns homens capacitados tambĂ©m.

— Naves… Quantas, exatamente?

Zaj ergueu os olhos, como se jå soubesse. Provavelmente estava ciente de que as forças de Orba eram pequenas.

— Cerca de dez naves mercantes.

— Naves mercantes? Posso prepará-las como naves de guerra, se preferir.

— NĂŁo, sĂł servem se forem mercantes. E tambĂ©m… preparem-se para quando nossa nau-capitĂąnia, Doom, chegar a Birac. EntĂŁo, que se encontrem conosco. Quanto aos detalhes, deixarei alguĂ©m com as instruçÔes.

— Muito bem…

Jå tendo feito os cålculos mentalmente, Zaj não pediu mais informaçÔes.

◇◇◇

No quinto dia em Birac, quando o sol começava a se pÎr, as tropas de Orba, principalmente os soldados regulares emprestados por Oubary Bilan e Odyne Lorgo, discutiam qual loja visitariam naquela noite.

— Graças ao príncipe ficando ocioso, já conhecemos a maioria das lojas famosas.

— Pelo menos não virou um caos. Se fosse o general Odyne Lorgo no comando, seria diferente.

— Seria Ăłtimo ficar em Apta o tempo todo. NĂŁo consigo imaginar uma guerra com TaĂșlia agora.

Naquele momento, eles eram soldados sob o comando de Gil Mephius, o tema frequente de suas conversas e o motivo pelo qual eram bajulados por prostitutas. Eles erguiam os copos, rostos ruborizados, gritando: “Um brinde ao prĂ­ncipe!” Se diriam o mesmo diante da morte, era outra questĂŁo. Assim, saĂ­am para se divertir, mostrando claramente a falta de supervisĂŁo.

Vileena Owell, observando de longe, só conseguia sentir irritação.

— JĂĄ sĂŁo poucos os soldados que ele tem. Se TaĂșlia avançar com um grande exĂ©rcito, todos vĂŁo fugir para casa.

— Por favor, não generalize, princesa.

Theresia entendia a irritação de sua mestra, mas só podiam reclamar para seus superiores. Além das palavras, Theresia queria que ela parasse de manusear a arma, algo que fazia hå algum tempo.

Vileena ergueu a arma, mirando no alvo circular que pendurou na porta. Assim que se virava, alinhava a ponta da arma ao centro do alvo, como se nĂŁo pudesse errar.

Além de pilotar naves, essa técnica refinada foi ensinada por seu avÎ como autodefesa. Vileena virou as costas para a porta novamente. Fechou os olhos, concentrou-se e respirou fundo.

— Yah!

Gritou, virando e apontando a arma, mirando com precisĂŁo. Mas, nesse momento, a porta se abriu.

— Princesa, trouxe as encomendas-! Aaahhh!

— Waahhh!

Ela e a atendente que entrou gritaram ao mesmo tempo. Depois de um breve caos e troca de desculpas, a atendente fugiu em pĂąnico, fazendo Theresia rir. Vileena a encarou com raiva.

— VocĂȘ sabia.

— Do que estĂĄ falando? Oh, este vestido Ă© lindo! O colarinho alto combina com a cultura de Garbera. Exatamente o que espero da cidade comercial de Birac. A coleção aqui Ă© melhor que a de Solon.

Theresia fingiu ignorĂąncia e olhou para a pilha de roupas trazidas pela atendente. A esposa de Fedom Aulin, o senhor de Birac, tomou gosto pela princesa e prometeu enviar roupas naquele dia. Theresia marcou o horĂĄrio e avisou aos soldados que uma atendente com roupas chegaria.

— Está tentando se vingar de mim?

Vileena girou o tambor do revĂłlver com o dedo. Para manter a tensĂŁo, uma Ășnica bala estava carregada.

— Ultimamente, Theresia, vocĂȘ anda sendo insolente.

— E por que nĂŁo seria? VocĂȘ falou diretamente com o imperador sem avisar. Quando soube depois, quase desmaiei.

— Se a aliança ruir, não haverá razão para eu estar aqui. Não adianta ter medo de fofocas me chamando de princesa intrometida.

Vileena virou o revĂłlver na mĂŁo repetidamente, insatisfeita.

Embora concordou em ir para Apta com Gil, duvidava que o imperador a tirara do centro político. Além disso, circulavam rumores de que o imperador se reunia frequentemente com um mensageiro de Ende desde sua chegada.

SerĂĄ que o imperador Guhl nĂŁo estĂĄ apenas se posicionando entre Garbera e Ende?

A posição de Vileena era, no måximo, de noiva pela metade, e isso a deixava cada vez mais insegura. Ela se preparou para o casamento pelo bem de Garbera e se isso não desse frutos, estava pronta para fugir do país em uma nave.

— Mas a maior preocupação Ă© TaĂșlia. Se isso virar uma guerra com Mephius, nĂŁo haverĂĄ reforços para Garbera. Embora eu suspeite que esse sempre foi o plano do imperador. Por isso ele nĂŁo deu ao prĂ­ncipe um exĂ©rcito maior que o de TaĂșlia. SerĂĄ que nosso prĂ­ncipe, relaxando aqui, entende isso?

— Ele deve ter um plano. Sempre foi assim atĂ© agora.

— É mesmo. — Vileena se jogou na cadeira com um baque, balançando as pernas. — Pensei nisso e me contive, nĂŁo reclamei da estadia prolongada em Birac. AtĂ© considerei que isso fosse parte de um plano para ganhar lealdade dos soldados. Mas nĂŁo Ă© um problema?

— Princesa, se o príncipe visse sua postura desleixada, nem cem anos de amor seriam suficientes.

Se subestimasse o prĂ­ncipe, ela se queimaria.

O grande herĂłi Ryucown e o aristocrata Zaat Quark. Vileena viu como os dois, que se opuseram a ele, tiveram o mesmo destino. Sabia que ele nĂŁo era comum, mas ainda assim custava a aceitar.

— Resumindo, ele Ă©… imaturo, digamos. Orba tambĂ©m disse. Ele Ă© reservado e, apesar de seus preparativos meticulosos, nĂŁo os compartilha. EntĂŁo, no momento crucial, surpreende a todos como se dissesse: “Viram sĂł?” Crianças sĂŁo criaturas problemĂĄticas.

— Realmente.

Sem notar a ironia de Theresia, Vileena continuou:

— Posso tentar influenciar o prĂ­ncipe para enviar reforços a Garbera. Agora, como manipulĂĄ-lo conforme meus desejos…

— Pelo menos não será treinando sua pontaria.

Nesse momento, bateram na porta. Era Gil Mephius.

Vileena ficou vermelha, escondendo a arma sob o sofĂĄ Ă s pressas.

Gil entrou e cumprimentou.

— Partiremos amanhã. Prepare-se.

— Amanhã? Já terminou seus negócios em Birac?

— Terminei.

— Suponho que seria errado perguntar os detalhes. Afinal, deve me achar uma dama inconveniente.

— NĂŁo. — Gil ficou sĂ©rio. — Trata-se apenas de emprestar algumas naves de um mercador de Birac. Demorou mais do que esperava.

— Naves? Não faltam soldados para operá-las?

— NĂŁo direi que nĂŁo, mas nĂŁo Ă© um nĂșmero preocupante.

— Príncipe.

Vileena olhou para Gil, séria. Surpreso com a proximidade inesperada, o rosto do príncipe ficou tenso.

— O-O que foi?

— Nada.

Ela baixou o rosto pĂĄlido, os ombros caĂ­dos.

— …EstĂĄ preocupada com Garbera, nĂŁo estĂĄ, princesa?

Embora tivesse falado sobre conseguir reforços para seu país, ouvir isso diretamente a surpreendeu. Sua maior preocupação, que não queria revelar, parecia exposta.

— Isso não diz respeito ao príncipe.

— NĂŁo Ă© algo que nĂŁo me diz respeito.

Orba ficou irritado. Vileena encolheu os ombros.

— É a mesma coisa com vocĂȘ, prĂ­ncipe. Nunca me honra compartilhando seus planos. Comigo tambĂ©m Ă© assim. Tenho minhas prĂłprias estratĂ©gias.

— EstratĂ©gias?

— Por exemplo…

Vileena puxou o revĂłlver escondido, horrorizando Theresia. Ela apontou a arma para o prĂ­ncipe, que abriu os olhos surpreso.

— Se em algum momento eu o tomar como refĂ©m e exigir soldados.

— Me tomar como refĂ©m? O que faria com esses soldados?

— VocĂȘ jĂĄ sabe. Eu mesma os lideraria e correria para Garbera.

Por falar com orgulho, até Vileena percebeu que o plano era grosseiro.

— …Embora eu tenha pensado em um plano mais elaborado. Isso Ă© sĂł um “e se”.

Houve uma pausa. EntĂŁo Gil riu. Vileena franziu a testa.

— Tem algo engraçado?

Tudo, princesa, Theresia sussurrou, mas Gil acenou com a mĂŁo.

— Entendi. EntĂŁo vou agir de forma que vocĂȘ nĂŁo precise executar seu plano infalĂ­vel.

— Infa… VocĂȘ estĂĄ zombando de mim! Pensei em outros. SĂ©rio. — Vileena insistiu teimosa.

Mas por que sentia que Gil a provocava, e até Theresia rira? Ele finalmente conteve o riso.

— Princesa, não se esqueça de fazer as malas.

— JĂĄ terminei faz tempo! — Vileena reclamou atĂ© o fim.

Theresia observou a princesa, que via o prĂ­ncipe partir, e murmurou baixinho:

— Que relação estranha os dois tĂȘm. Parecem irmĂŁos brincando de guerra. É engraçado, mas vai demorar muito para se tornarem algo romĂąntico.

◇◇◇

No dia seguinte, Gil anunciou oficialmente a partida no inĂ­cio da manhĂŁ.

Com exceção da Guarda Imperial e dos escravos de guerra liderados por Pashir, os soldados entraram em desespero. Segurando a cabeça devido à ressaca de dois dias de bebedeira, vestiram as armaduras às pressas e montaram nos cavalos.

— Droga! Aquele maldito idiota!

Os soldados resmungavam, muitos sem tempo nem para amarrar os cadarços da armadura devido à pressa.

— Podia ter avisado antes!

— Aposto que foi a valente princesa de Garbera quem deu um chute na bunda dele!

Mal conseguiram se alinhar em formação antes de partir pelos portÔes de Birac. Como a partida foi decisão do príncipe, não havia multidão para se despedir.

Na vanguarda estavam os dragÔes montados nos Tengo de porte pequeno. A carruagem da princesa era protegida no centro pelos melhores guerreiros da Guarda Imperial, enquanto a cavalaria flanqueava a frente e a retaguarda, seus cascos ecoando à distùncia. Os soldados de infantaria reforçavam as defesas nos quatro cantos.

Puxando as gaiolas com vĂĄrios Baians estavam os Houban de grande porte. Corpo achatado e oito pernas longas. Em aparĂȘncia, pareciam aranhas gigantes cobertas de escamas.

Cerca de uma hora apĂłs deixarem Birac.

— Isso Ă© estranho — um homem murmurou no final da coluna. Correntes prendiam seus braços a uma gaiola com dragĂ”es. O homem ao seu lado, visivelmente exausto, perguntou com os olhos o significado daquilo.

— O nĂșmero de soldados diminuiu. Por que ele deixou parte das tropas em Birac, se jĂĄ sĂŁo poucas?

— VocĂȘ estĂĄ bem atento — outro homem atrĂĄs dele comentou. — Eu nĂŁo tenho esse luxo. Aposto que desertaram. Se nĂŁo fosse por essas correntes, eu faria o mesmo.

— Na verdade, ficaram para reforçar a guarnição em Birac…

— Pashir!

Nesse momento, um cavalo branco voltou da frente.

— Parece que ainda tem disposição para conversar. Quer que aumentemos o ritmo?

— Gil.

Orba olhou para baixo, de seu cavalo, para Pashir, que puxava a carroça de dragÔes. Seus olhos brilhavam sob a poeira que cobria seu rosto. Havia pouco mais de duzentos escravos de guerra. Mais da metade puxava as quatro carroças.

— Por que essa pressa? De qualquer forma, nĂŁo temos soldados suficientes para defender a fortaleza. O que vocĂȘ estĂĄ tramando dessa vez com essa cara de vilĂŁo?

— NĂŁo Ă© problema de um escravo — Orba sorriu com desdĂ©m. — AliĂĄs, que atitude Ă© essa? Eu me dei ao trabalho de salvar sua pele. NĂŁo me faça arrepender disso.

— EntĂŁo, se posso pedir um favor, prĂ­ncipe herdeiro — Pashir falou com sarcasmo. Era o Ășnico que parecia capaz de caminhar por meses sem reclamar.

— O que seria? Ilumine-me.

— Quando chegarmos Ă  fortaleza, deixe-me lutar com aquele gladiador, Orba. De espada longa, um contra um. Ou atĂ© mesmo sem armas. SerĂĄ um belo espetĂĄculo para animar suas festas.

— Já lutaram bastante em Solon, não?

— Esse cara…

Orba manteve a frieza, reprimindo um sorriso feroz que ameaçou surgir.

— Nenhum de nós morreu. A luta ainda não terminou!

— Se ele tambĂ©m quiser, te dou essa chance.

Orba sorriu e voltou a cavalgar para a frente.

PlanĂ­cies de Domick — uma planĂ­cie sem cor. Mas a cada passo dos cavalos, Orba sentia o Ăąnimo renovar. Afinal, sua terra natal ficava perto de Apta. Embora tivesse memĂłrias dolorosas, retornar apĂłs seis anos despertou emoçÔes intensas.

Após duas paradas, quando o sol jå lançava sombras, a paisagem começou a mudar. Rochas e areia deram lugar a vegetação. A alguns quilÎmetros, uma vila os aguardava, onde um mensageiro fora enviado antes. Passaram a noite ali, em uma vila com menos de duzentas casas.

No dia seguinte, adentraram a floresta. Os galhos entrelaçados formavam um teto, deixando a luz fraca. Era como avançar por uma caverna.

Apta era vital para Mephius por suas florestas e recursos. TĂȘ-la perdido para Garbera foi um golpe duro. E agora, com seu retorno, o imperador enviou poucas tropas. Orba nĂŁo entendia suas intençÔes.

Ele só enxerga o próprio umbigo? — chegou a pensar.

Mas logo voltou a se concentrar no presente. Organizou mentalmente as informaçÔes que Zaj Haman lhe dera sobre o oeste.

A oeste de Mephius, as Províncias Tauran, um conjunto de cidades-estado. Os zerdianos que ali viviam vagavam pelas terras altas perto da fronteira, como nÎmades da Fé Ryuujin. Hå duzentos anos, ou mais, os povos das estepes, talvez por natureza nÎmade, viviam em conflito constante. Até que Jasch Bazgan apareceu.

Comandante da cavalaria Mephiana, ele arrancou os zerdianos de suas terras Ă  força. A resistĂȘncia foi feroz, mas com reforços de Mephius, ele resistiu. Recebeu entĂŁo um dos dois selos soberanos da era dos reinos mĂĄgicos: a “Garra do DragĂŁo”, dos anciĂŁos nĂŽmades.

Jasch proclamou-se rei de “Zer Tauran” sob o nome do Deus DragĂŁo. Transformou ruĂ­nas antigas em um grande templo e usou a FĂ© Ryuujin para unir as tribos.

Jasch então enviou uma carta ao imperador de Mephius, declarando-se igual. Furioso, o imperador enviou tropas, mas foi tarde demais. Não só foram repelidas, como Mephius perdeu territórios, mas o reinado de Jasch durou pouco. Quatro anos após sua coroação, ele morreu repentinamente. Alguns diziam que foi um castigo do Deus Dragão por sua arrogùncia; outros, que os anciãos o amaldiçoaram.

A famĂ­lia Bazgan tentou apressar um sucessor, mas a guerra civil jĂĄ tinha começado. Sem coesĂŁo, os Bazgan fugiram da capital, Zer Illias, que um dia governaram. Uma das duas Garras ficou com eles; a outra, no templo, foi perdida. Com poucas tropas, os Bazgan chegaram Ă  atual TaĂșlia.

Mephius tentou recuperar o territĂłrio, mas entrou em guerra com um clĂŁ do sudeste (atualmente vassalos de Garbera). Enquanto isso, em Zer Illias, o sacerdote Garda tentou proteger o templo com cem seguidores e mercenĂĄrios. Diziam que ele invocou magias tĂŁo terrĂ­veis que ainda assombravam os zerdianos.

Mas nem um mago podia deter milhares de cavaleiros. Zer Illias foi consumida pelo fogo. Antes de desaparecer, Garda declarou:

— Garantirei que a Garra do Dragão não caia em mãos erradas, mesmo que meu corpo vire cinzas!

A Garra nunca foi encontrada.

Zer Tauran mudou de governantes, mas a guerra civil a destruiu em menos de trĂȘs anos. As cidades-estado surgiram, formando e rompendo alianças. Quando atacados por invasores, os zerdianos se uniam em “Cruzadas para proteger o Selo Soberano”.

Séculos de sangue e guerra se passaram.

Atualmente, o senhor feudal de TaĂșlia, Ax Bazgan, tinha 41 anos. Como o nome indicava, ele descendia da Casa Bazgan, que um dia governou o oeste.

Ele enfrentou o imperador Guhl Mephius, e sua hostilidade continuava.

Zaj mencionou que Ax se aproximou de Garbera durante a guerra de dez anos com Mephius.

Lembrando dos detalhes, Orba franziu a testa. Ax propĂŽs a Garbera um ataque conjunto a Mephius, dirigindo-se ao avĂŽ de Vileena, Jeorg Owell. Claro, Jeorg jĂĄ nĂŁo estava no trono. Mas ao escolhĂȘ-lo, Ax mostrava que ele ainda tinha influĂȘncia em Garbera, e que o rei atual, considerado inferior ao pai, cederia se Jeorg apoiasse a causa.

— Só de pensar nisso me enoja.

Jeorg, percebendo a jogada, ficou furioso. As negociaçÔes fracassaram.

Típico do homem que mais influenciou a princesa Vileena. Isso é um mérito.

Ax ainda o insultava como “aquele maldito velho”.

Orba sorriu brevemente.

Sentiu o vento começar a soprar, mas as folhas e galhos não se mexiam. Seria imaginação? De repente, a cinco metros de Orba, um cavaleiro e seu cavalo caíram. Os cavalos atrås pararam bruscamente, derrubando soldados.

Tiros ecoaram Ă  frente e atrĂĄs.

Ignorando a poeira levantada, Orba puxou as rédeas com força.

— Avante!

Um pico elevado surgiu ao lado. Entre as årvores, atiradores se escondiam. Tendo previsto os dragÔes na vanguarda, miraram no grupo principal onde estava Gil.

Enquanto os soldados avançavam em pùnico, Orba olhou para trås. A Guarda Imperial, liderada por Shique, protegia a carruagem.

Os tiros continuavam.

Orba girou o cavalo e se reuniu aos soldados em fuga. Viu seus atiradores montados, curvados, e deu uma ordem rĂĄpida.

A carruagem passou por ele.

— Príncipe!

Vileena olhou pela janela e seus olhos se encontraram por um instante.

— Nos vemos em Apta!

Imediatamente, ele se juntou a Gowen e a cavalaria da Guarda Imperial.

— Gowen, para frente!

— Entendido.

Liderando os soldados, Orba galopou pela encosta suave. Apertou-se contra o cavalo, sabendo que os tiros poderiam acertå-lo a qualquer momento. Avançou com determinação.

As feridas da arena em Solon doĂ­am, especialmente a clavĂ­cula fraturada, mas ele as ignorou.

Entre as ĂĄrvores, viu os inimigos.

Um deles se ajoelhou e apontou a arma.

Orba encarou o cano.

— FOGO!

Ao seu comando, a artilharia escondida sob o penhasco disparou. Enquanto distraĂ­a os inimigos, ordenara que se camuflassem entre as ĂĄrvores. A maioria dos tiros atingiu arbustos ou galhos, mas alguns inimigos caĂ­ram, sangrando.

— ACABEM COM ELES!

Orba ergueu a espada com a mão esquerda e a brandiu. Com um grito de guerra, seus soldados avançaram colina acima.

Mas o inimigo reagiu rĂĄpido.

— RETIRADA!

Quando chegaram ao topo, os inimigos jĂĄ estavam longe. Cerca de cinquenta homens desceram a encosta Ă­ngreme, onde as ĂĄrvores formavam um labirinto. NĂŁo usavam armaduras e muitos vestiam trapos.

Gowen aproximou-se.

— Parecem bandidos comuns. Mas atacar um exĂ©rcito… tĂȘm coragem. Vamos persegui-los?

Orba negou com a cabeça. O inimigo conhecia o terreno e seu nĂșmero era incerto. Era melhor se reunir ao grupo principal, mas algo o incomodava…

— O que foi? — Gowen olhou-o fixamente. — VocĂȘ estĂĄ com cara de quem achou o prĂłprio tĂșmulo em lugar estranho.

— Que forma interessante de dizer. Parece coisa que o Shique diria.

— Prefere que eu seja mais educado? VocĂȘ nĂŁo parece bem.

— Foi tudo muito repentino. Vamos!

Ignorando o olhar de Gowen, Orba voltou com os soldados.

Aquela voz…

O grito do comandante inimigo ainda ecoava em sua mente. Tinha o sotaque de sua terra natal.

Os tiros assustaram os soldados e cavalos, mas os mais perturbados foram os dragÔes. O Houban que puxava a carruagem imperial gritou, e os ocupantes temeram mais isso do que o ataque dos bandidos.

Os Baians nas gaiolas se agitaram, quase virando a carruagem, até que uma figura se aproximou sem medo.

Era Hou Ran. A jovem, montada em seu cavalo, tocou a pata do Houban, que poderia esmagar vĂĄrios homens, e, num piscar de olhos, subiu em suas costas. Estendeu a mĂŁo para dentro da gaiola.

— Parece um domador de circo. Maravilhoso. Se um dragĂŁo pode se apegar assim a alguĂ©m, talvez possamos criar um de porte pequeno no palĂĄcio.

Theresia falou animada a Vileena, agora que tudo se acalmara.

— Acalme-se, Theresia. O prĂ­ncipe estĂĄ…

— Ali está ele. Voltando.

Vileena empurrou a cabeça de Theresia e olhou pela janela.

O grupo do prĂ­ncipe se aproximava.

Ela suspirou aliviada. Com ele, nunca havia tédio.

— Príncipe.

Vileena chamou, inclinando-se para fora.

Gil reduziu a velocidade do cavalo. Parecia conversar com os escravos atrĂĄs da carruagem, que quase foram esmagados pelas gaiolas. Depois, voltou Ă  frente.

Falava algo sorrindo. Hou Ran, montada no Houban, acenou.

Os raios de sol iluminavam seu sorriso discreto. Um sorriso maduro, mas adequado Ă  sua idade. ApĂłs mais algumas palavras, o prĂ­ncipe riu de novo.

— Algum problema?

— N-Nenhum.

Vileena recolheu-se rapidamente. EmoçÔes confusas agitavam seu peito.

— EntĂŁo vocĂȘ estĂĄ a salvo. — O prĂ­ncipe aproximou-se da carruagem.

— Graças aos seus esforços — respondeu secamente Vileena.

O prĂ­ncipe pareceu achar aquilo adequado para uma princesa destemida e retomou a frente. Duas horas depois, sem parar, avistaram a Fortaleza de Apta.


Tradução feita por fãs.
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1 comentĂĄrio

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zoritoler imol

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