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Hai to Gensou no Grimgar – EX 2: Capítulo 8 – Volume 14+

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

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[Capítulo 08: Até Eu Fechar Os Olhos]


relações humanas dentro da nossa party.

Por outro lado, se eu rejeitasse ela—mesmo que de forma sutil—a Shihoru provavelmente ficaria deprimida. E isso também seria um problema.

— Obrigado…! — Enquanto eu ainda matutava sobre tudo isso, Moguzo encerrou a luta com um Rage Brow.

Como ele gritava “Obrigado!” sempre que usava, a gente tinha apelidado de Thanks Slash.

A espada do Moguzo entrou no ombro do goblin e chegou até metade do peito.

Que força!

Com um grunhido, ele girou a espada e lançou o goblin pra longe, como se fosse uma piada.

— Yahoo! — Ranta correu até o goblin quase morto e começou a bater nele com a espada longa. — Gwahaha! Três vícios seguidos! Agora tenho onze vícios no total! Meu demônio tá mais forte! Quando quiser, ele vai sussurrar no ouvido do inimigo pra distrair! Isso é incrível!

— Quando quiser…? — Haruhiro suspirou. — Seu demônio é bem inútil, hein.

— Ei! Isso eu não vou deixar passar, Haruhiro! Se você continuar falando mal do Zodiac-kun, vou te amaldiçoar!

— Mas você só pode invocar ele à noite…

Haruhiro dava atenção demais pro Ranta.

Se a gente só ignorasse o que ele dizia, uma hora ele ficava carente e parava. O melhor era deixar ele pra lá.

Haruhiro provavelmente fazia isso porque era um cara legal. Diferente de mim.

Mas eu não me importava. Não quando se tratava do Haruhiro.

Saímos de Altana às sete da manhã, e chegamos à Cidade Velha de Damuro por volta das oito. Já devia ter passado do meio-dia. Decidimos fazer uma pausa e almoçar.

— Oh, tenho que rezar — disse Yume, cortando uma fatia fina da carne seca com a faca e deixando no chão. Depois juntou as mãos e fechou os olhos. — Deus Branco Elhit-chan, obrigada por tudo. A Yume vai dividir um pouco da comidinha dela com você, então continua cuidando dela, tá?

— Isso aí que você está fazendo — disse Haruhiro, rasgando um pedaço de pão — é aquele ritual que tá nas regras da guilda dos caçadores, né? De oferecer um pouco da comida pro deus.

— Isso mesmo. O Deus Branco Elhit-chan é um lobo enoooorme, sabe? E tem também o Deus Negro Rigel, que também é um lobo enoooorme. Os dois se odeiam pra caramba. Como Elhit-chan protege os caçadores, a gente consegue caçar todo dia sem acontecer nada ruim.

— Então, basicamente, é um tipo de culto. Os caçadores adoram o Deus Branco Elhit. Mas você chama ele de “Elhit-chan” e diz que vai dividir a comida. Tem certeza de que isso tá certo?

— Tudo bem — disse Yume, fazendo uma careta engraçada. — Elhit-chan é compreensivo, então a Yume acha que ele não ficaria bravo com uma coisinha dessas, sabe? Na verdade, Elhit-chan nunca ficou bravo com a Yume.

— …Seus sentimentos — disse Shihoru, segurando com cuidado algo que parecia um bolinho. — Acho que é isso que chega até o seu deus. Bom… é só o que eu acho…

Levei os lábios ao cantil de couro e tomei um gole d’água.

Que garota boa. Mas… se ela se apaixonasse por um cara como eu, não ia dar em nada de bom.

— Sim — respondi. — As palavras que você usa são importantes, mas o sentimento por trás delas é ainda mais. As preces que nós, sacerdotes, usamos pra magia de luz não funcionam se falarmos errado, mas as orações que você faz pra Elhit não devem ser assim.

— Yume coloca muito, muuuito sentimento na oração — disse Yume, abrindo os braços de forma exagerada. — Quando a Yume vai dormir à noite, sabe? Elhit-chan aparece nos sonhos dela, tipo, direto. Aí a Yume pergunta: “Posso montar nas suas costas, Elhit-chan?” E ele responde: “Claro.” Daí a Yume sai montada no Elhit-chan, correndo pra todo lado, vruuum! Elhit-chan é super-rápido.

— …Essa história — disse Ranta, mastigando alto a carne seca, com uma cara de quem tinha chupado limão — tem um ponto, né? Eu fiquei quieto esse tempo todo ouvindo, então se não tiver um bom motivo pra tudo isso, eu vou surtar. Tô falando sério.

— Um ponto? — Yume piscou. — Não. Não tem não.

*Tropeça* Ranta gritou e fez aquela encenação de se jogar no chão. — Você é idiota, é isso?! Não conta história comprida que não leva a lugar nenhum! E se eu morrer afogado nesse redemoinho de expectativas frustradas, hein?!

— Pode morrer… — Shihoru disse com nojo. — Eu até queria que você morresse afogado…

— Aaah! — Ranta apontou pra ela na hora. — Ah! Aaaah! Eu ouvi isso! Eu ouvi, Shihoru! Você acabou de me mandar morrer, não foi?! Hein?!

— …Eu só disse que queria que você morresse afogado.

— Até escolheu a causa da morte! Isso é horrível! O pior que uma pessoa pode fazer! Você é a garota mais podre e cruel de toda a história, sabia?!

E lá vamos nós de novo. Aquele bate-boca de sempre.

Para ser sincero, eu não conseguia me adaptar a essa atmosfera barulhenta. Não era desagradável, mas eu sentia como se estivesse fora do lugar nela. Era estranho estar aqui.

Mesmo assim, eu não ficava emburrado nem observava tudo com indiferença. Tentava me envolver, de algum jeito.

Será que era porque me sentia deslocado? Porque estava me forçando a acompanhar o ritmo? Era verdade, eu estava tentando acompanhar. Não dava pra dizer que não estava me forçando um pouco.

Mas, supondo que eu tivesse uma personalidade oculta, algo que não mostrava pros outros… será que eu tinha que mostrar isso pra alguém? Será que esconder era errado?

Tirando o Ranta por um instante, o Haruhiro, a Yume, a Shihoru e o Moguzo provavelmente eram mais gentis do que a maioria das pessoas por aí. Eram boas pessoas.

Até o Ranta, por mais egoísta e bagunceiro que fosse, não era maldoso.

Se eu fosse crítico, diria que meus companheiros eram ingênuos. Não conseguia imaginar a gente continuando assim pra sempre. Mais cedo ou mais tarde, todo mundo teria que mudar. Quisessem ou não, isso ia acontecer.

Mas… era bom, né?

Esses momentos pequenos, em que a gente podia relaxar e brincar juntos, eram bons. Ter esse tipo de coisa era importante. Não importava o que acontecesse, eu achava que a gente não devia perder isso.

O tempo que a gente estava passando agora… provavelmente era mais precioso do que todos nós imaginávamos.

Como eu já pensava antes, eu realmente não conseguiria me dar bem com um cara como o Renji. Talvez a gente fosse parecido de certa forma, mas o que queríamos, o que estávamos buscando, era diferente.

Estava começando a ter mais certeza. Era isso. Eu não tinha cometido um erro.

— Nós nos tornamos uma boa party — murmurei pra mim mesmo, sem querer.

— Huh? — Haruhiro me olhou, piscando.

— A gente já consegue enfrentar até três goblins ao mesmo tempo — falei com um sorriso. Ninguém conseguiria notar a diferença, mas aquele não era o meu sorriso forçado de sempre. — Ninguém nem se machucou, então acho que dá pra assumir que podemos enfrentar ainda mais. A Yume se sai muito melhor com o facão do que com o arco. Ela é forte. Se pensarmos melhor na nossa estratégia, talvez consigamos lidar com quatro.

— Ah, sobre isso… — Haruhiro fez uma expressão pensativa.

Sim. Haruhiro estava mesmo começando a pensar como devia. Ele era um cara que sabia analisar as coisas e tomar decisões.

— É, quatro parece viável — ele concordou.

— Eu sabia que a gente podia contar com o Moguzo — falei. — Afinal, ele tem um corpão. Só de estar lá, já intimida o inimigo. E com a técnica de espada precisa dele, ele consegue fazer o que precisa ser feito.

— Eu tava pensando isso também — disse Haruhiro. — O Moguzo tem talento.

—…S-Sério? Vocês acham? — Moguzo abaixou a cabeça, sem graça. — N-Não sei por quê, m-mas, eu gosto de fazer coisas detalhadas…

— Isso não combina com você! — gritou Ranta, indignado.

— É… eu também acho que não…

— Ei, isso é algo bom — disse Haruhiro, encarando Ranta. — O Moguzo não é desleixado, ao contrário de certas pessoas.

— Oh? Isso foi pra mim? Tá dizendo isso pra mim, o cara que chamam de Máquina de Precisão Veloz como o Vento?

— Ninguém nunca te chamou disso, Ranta — disse Yume, com os olhos frios como gelo.

Se eles pegassem tão pesado assim, até o Ranta ficava abatido.

— O Ranta também é impressionante — escolhi bem minhas palavras, pra que não soasse como um elogio vazio. — Especialmente pela forma como ele tá sempre pronto pra atacar. Ele não tem medo de errar, e acho que foi quem mais rápido melhorou o uso das habilidades. O resto de nós, inclusive eu, é mais cauteloso. Sem o Ranta, talvez a gente nem desse o próximo passo.

— S-Sim, acho que é isso, né? — Ranta claramente ficou feliz. Dava pra ver pelas narinas inflando. — Bom, vocês sabem como me chamam. A Máquina de Avanço com a Força de um Furacão, né?

— E o que aconteceu com a Máquina de Precisão Veloz como o Vento? — retrucou Haruhiro, já sem paciência.

— Quanto à Shihoru… — Por um instante, hesitei.

O que eu devia fazer? O que eu tinha que fazer aqui? No momento, não conseguia enxergar a melhor resposta.

Mas não precisava ter pressa, certo? Eu não era como o Renji, que queria chegar no topo a qualquer custo. Podia deixar essa questão pra depois. Talvez um dia eu encontrasse uma forma de lidar com isso.

—…A Shihoru tá sempre atenta ao que acontece ao redor. A magia Darsh tem muitos feitiços que confundem ou prendem o inimigo, se não me engano. Isso permite que ela ajude a gente quando for preciso. Você queria aprender magia Darsh pra ajudar mais a party, não era, Shihoru?

Shihoru ficou com a boca entreaberta por um momento, me olhando em silêncio, surpresa. Depois, sem dizer nada, assentiu com a cabeça. Ela baixou o rosto e puxou o chapéu pra esconder a expressão.

Eu achava ela fofa, sim. Mas havia uma distância considerável entre o que eu sentia e o que a Shihoru queria que eu sentisse por ela.

Mesmo assim, ninguém podia dizer que essa distância nunca poderia ser superada. Eu não sabia o que o futuro reservava.

Olhei para a Yume.

— Acho que a Yume talvez seja a mais corajosa de todos nós. Ela não tem medo de nada. Como curandeiro, eu gostaria que ela fosse um pouco mais cuidadosa, mas também fico aliviado em saber que ela vai estar lá pra ajudar, aconteça o que acontecer.

— A Yume é? — O rosto da Yume se abriu num sorriso que, com certeza, só ela conseguia fazer. — Sério? A Yume é mesmo tão corajosa assim? A Yume acha que nunca ouviu isso antes. Mas, pensando bem, talvez ela não ache muitas coisas assustadoras mesmo. A Yume espera que vocês perdoem o fato de ela ser uma caçadora que não sabe usar arco.

— Todo mundo tem fraquezas e coisas que não consegue fazer — falei. — Quando você tá sozinho, essas falhas podem ser fatais, mas nós somos uma party. Podemos compensar as falhas uns dos outros.

— Ah, é mesmo — disse Yume, radiante. — Isso aí. A Yume talvez acabe dando um pouco de trabalho pra vocês daqui pra frente, mas vai fazer o seu máximo.

Algum tempo depois, percebi que não tinha falado nada do Haruhiro. Bem, isso podia esperar. Eu queria conversar com ele a sós. Assim, poderíamos nos aprofundar mais.

Como ladrão, Haruhiro fazia o papel intermediário entre a linha de frente e a retaguarda. Tinha que observar o panorama e reagir às situações de várias maneiras. Ele também era nosso batedor, então era o segundo mais versátil da party, depois de mim. Em certo sentido, era nosso segundo comandante. Haruhiro se encaixou bem nesse papel.

Eu não podia fazer tudo sozinho, então alguém teria que me cobrir em certas coisas. E, por ora, o único que poderia fazer isso era o Haruhiro.

Bom, era isso que eu queria que acontecesse com o tempo. Seria ruim colocar pressão demais nele de forma estranha, então não havia por que apressar.

A gente ainda tava preparando o terreno. Quando a base estivesse firme, construiríamos em cima dela. Não podia deixar a sombra do Renji, que já estava lá na frente, me confundir.

Na parte da tarde, Haruhiro voltou da patrulha um pouco mais animado do que o normal.

— Isso é loucura — ele disse. — São só dois, mas um deles é enorme. Pode ser do meu tamanho.

— Um hobgoblin — meus olhos se arregalaram um pouco. — São uma subespécie de goblins, com um porte maior que os normais. Uns brutamontes burros que os goblins usam como escravos. Deve ser isso.

— Ah, é? — Ranta lambeu os lábios. — Se ele tem um escravo, então pode ser um goblin de alta patente, né? Se for, deve ter um saque bem da hora, com certeza.

Haruhiro acariciou o queixo.

—…Ele tava usando uma armadura de placas. O hobgoblin usava cota de malha também. E um elmo. Talvez até desse pra algum de nós usar.

— Ooh… — Moguzo gemeu.

— Dois, huh — abaixei os olhos, pensando.

Um goblin com armadura de placas e um hobgoblin com cota de malha. Eu não podia afirmar nada antes de ver com meus próprios olhos, mas parecia viável.

— Hmm — Yume olhou pra cima, meio de lado. — A Yume acha que dá pra encarar os dois, sim.

— Se eu… — Shihoru apertou o cajado. —…acertar um deles com um feitiço logo no começo, acho que o resto vai ser mais fácil… acho.

— A Yume também vai tentar atirar umas flechas. Mesmo que erre, os goblins ficam assustados, e aí vocês podem partir pra cima.

Olhei ao redor para meus companheiros. Parecia que todos estavam prontos pra ação. Menos o Haruhiro.

Ele também tinha demonstrado empolgação quando voltou da patrulha, mas agora parecia mais contido.

Era isso. Era esse lado do Haruhiro que eu admirava. Talvez eu me identificasse com ele. Com o tempo, eu e Haruhiro conseguiríamos conversar de forma mais aberta. Eu sentia isso.

Quando Haruhiro disse “Então vamos nessa”, aquilo decidiu por mim.

Assenti com a cabeça.

— Certo, vamos.

Com o plano traçado, formamos um círculo, e todos colocaram as mãos no centro. Não podíamos gritar em território inimigo, então quando eu disse baixinho “Fighto”, todos levantaram as mãos e responderam de forma contida: — Ippatsu!

Com esse nosso pequeno ritual encerrado, Haruhiro inclinou a cabeça de lado.

— …O que será que é esse fighto ippatsu?

— …Não sei — Shihoru também inclinou a cabeça, intrigada. — Mas me dá uma sensação estranha… uma nostalgia vaga.

— A Yume sente isso também. Mas não sabe por quê. É estranho, né?

Desde que começamos a vir para Damuro, adotamos o hábito de formar um círculo antes de enfrentar inimigos que pareciam meio difíceis. Ficar em silêncio era meio esquisito, então eu só soltei um “Fighto”. E os outros responderam “Ippatsu!”. Desde aquela primeira vez, virou nossa tradição. Tinha a sensação de que já conhecia aquilo de algum lugar, mas não conseguia lembrar de onde. Algo ali parecia fora do lugar.

Isso acontecia muito.

Será que algum dia conseguiríamos lembrar?

Haruhiro levou Yume e Shihoru com ele, aproximando-se da construção de dois andares onde estavam o goblin e o hobgoblin.

Eu, Ranta e Moguzo seguimos logo atrás, a uns seis ou sete metros de distância.

Primeiro, chegaríamos o mais perto possível sem sermos notados. Até aí, tudo bem.

Haruhiro e as garotas se esconderam atrás de uma parede, a cerca de quinze metros do prédio de dois andares. Nós ficamos posicionados uns três metros atrás deles.

Lá estava. No segundo andar, que parecia mais uma sacada depois de ter praticamente desabado, havia um goblin com armadura de placas.

O goblin de armadura.

O hobgoblin estava sentado no primeiro andar.

O goblin de armadura e o hobgoblin. Só os dois, de fato.

Shihoru levou uma mão ao peito e respirou fundo. Yume armou uma flecha.

Eles ainda não tinham nos notado.

Shihoru e Yume inclinaram o corpo, mostrando apenas a parte de cima por trás da parede.

Shihoru começou a entoar um feitiço.

— Ohm, rel, ect, vel, darsh…!

Vuuuon. Era Shadow Beat.

Quase no mesmo instante em que o elemental de sombra saiu da ponta do cajado da Shihoru, Yume disparou sua flecha. A flecha, que visava o goblin de armadura, passou longe. Mas o elemental atingiu o braço do hobgoblin.

Enquanto o hobgoblin se contorcia, tremendo, o goblin de armadura olhou em nossa direção.

Haruhiro gritou: — Fomos vistos!

— Vamos entrar! — dei a ordem, saltando na hora.

O hobgoblin pôs o elmo que estava a seus pés, levantou-se e pegou uma clava com pontas de ferro, mas parecia instável. O goblin de armadura também pegou algo. Aquilo era… uma besta? Nunca tínhamos enfrentado um goblin com uma daquelas.

Tentei gritar um alerta. Mas não deu tempo.

O goblin de armadura mirou rapidamente e puxou o gatilho.

Era rápido. O virote voou muito mais veloz que uma flecha comum.

— Aaagh…! — Haruhiro foi atingido e se agachou.

Shihoru soltou um gritinho. Yume passou um braço pelas costas de Haruhiro.

— Haru-kun…?!

Haruhiro arfava, com uma expressão de dor intensa. Isso não era nada bom.

— Haruhiro! — corri até ele, arrancando o virote de uma vez. O sangue jorrava.

Rápido, rápido, rápido. Mas sem pânico, pensei.

Fiz o sinal do hexagrama, visualizei uma luz em minha mente e concentrei essa luz em todos os nervos enquanto recitava a prece.

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você… Cure.

A luz que emanou das minhas mãos começou a fechar os ferimentos dele.

Mais rápido. Mais rápido. Não, calma. Apressar as coisas não vai fazer ele se curar mais rápido. Já está quase… Só mais um pouco—

— M-Manato…! — Ranta gritou. — Anda logo! N-Não vamos aguentar muito mais…!

— Já tá melhor, né?! — Saí correndo antes que Haruhiro pudesse sequer confirmar com a cabeça.

Moguzo trocava golpes com o hobgoblin, enquanto Ranta e Yume enfrentavam o goblin de armadura.

Comparado ao Moguzo, Ranta parecia em apuros. Eu precisava que Moguzo segurasse o hobgoblin com o apoio da Shihoru e do Haruhiro. Olhando para eles, já estavam fazendo isso, sem que eu precisasse dizer nada.

Por ora, eu precisava trocar com o Ranta e—

tentei me aproximar, mas o goblin de armadura percebeu. Ele encurtou a distância até o Ranta, fingindo ataques violentos para a esquerda e para a direita.

Ranta foi forçado a recuar. Assim não ia dar pra me enfiar no meio dos dois.

Yume, por outro lado, corria de um lado para o outro, perdida.

— M-Merda! Merda! Droga! Vai pro inferno…! — Ranta foi sendo empurrado para trás, até que, provavelmente num último esforço, deu um salto para trás para escapar do goblin de armadura.

Aquilo me pegou de surpresa, mas o goblin de armadura o acompanhou sem dificuldades. Avançou e desferiu um único golpe com a espada.

Sangue fresco espirrou.

O pescoço.

A espada do goblin de armadura havia cortado o pescoço do Ranta.

Parecia ter atingido uma veia.

— Yume! Faz alguma coisa…! — gritei, desferindo um golpe forte no goblin de armadura. Assim que conseguisse afastá-lo, deixaria ele com a Yume. Ranta tinha caído, fraco, no chão.

Preciso tratá-lo. Não, talvez eu não consiga…

— Fwah…! — Yume já estava no limite.

Enquanto verificava os ferimentos do Ranta, gritei: — Haruhiro, vem aqui! O Ranta caiu…!

— O quê?! O-O pescoço dele…?! — Haruhiro parecia surpreso com a súbita reviravolta, mas reagiu rápido, o que ajudou muito. — Ei, goblin, por aqui!

— Dói… — Ranta gemeu. — M-Manato, eu, eu, eu…

— Você vai ficar bem, Ranta! Vou te curar rapidinho! — Respirei fundo, fiz o sinal do hexagrama. — Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você… Cure!

— Nngh… Fuhhh, ahhh, kuh… Ngah, droga! Ah…!

Brush Clearer…! — Yume atacava o goblin de armadura. Não, aquele barulho… Será que o ataque dela foi rebatido?

— Assim não dá…! — Parecia que Haruhiro tinha intervindo para ajudar. — Ai…!

— Ranta! — Bati com força nas costas dele.

— É isso aí! — Ranta se animou e avançou contra o goblin de armadura. — Anger…!

O goblin de armadura se agachou, desviando do Anger do Ranta. Contra-atacou na mesma hora.

Agora que estava na defensiva, os movimentos do Ranta estavam visivelmente mais lentos. Mesmo com o ferimento fechado, ele ainda não tinha recuperado o sangue que perdeu. Devia estar lutando para se manter em pé.

— Maldição! Que porcaria! Você é só um goblin de merda…! — Ranta gritou.

Mesmo assim, ele precisava aguentar firme.

— Haruhiro! — Corri até ele.

Haruhiro tinha um corte profundo no braço direito. Isso significava que ele não podia usar a mão dominante. Se eu não curasse aquilo, ele não ia conseguir lutar.

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você… Cure.

Que sensação era aquela de exaustão? Era como se a vida estivesse sendo drenada de mim. Mas eu não podia deixar isso me atrapalhar.

Concentração. Eu preciso me concentrar. É tudo psicológico. Eu não estou exausto de verdade.

— …Certo — Toquei o braço direito do Haruhiro. Estava curado. Tudo certo.

Moguzo continuava ocupando o hobgoblin, e mesmo sofrendo, Ranta ainda aguentava firme. Shihoru devia ter usado magia demais. Estava com uma expressão exausta.

Mas eu ainda estava bem o suficiente pra continuar.

A gente ainda conseguia. Eu estava conseguindo enxergar o quadro todo. Na verdade, estava enxergando até bem demais. Parecia que a Yume tinha um corte no braço, mais pra parte de cima.

— Yume, vem aqui! Vou te curar! — chamei.

— Yume tá bem! Ainda consegue lutar!

— Só vem logo! Haruhiro, troca de lugar com a Yume!

— …Tô indo! — Haruhiro saiu, e Yume veio ocupar o lugar dele.

Você parece inquieta, Yume. Tudo bem. Vai ficar tudo bem.

Sorri para a Yume e comecei a curá-la.

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você… Cure…!

Será que usei magia demais? Esse pensamento passou brevemente pela minha cabeça. Não, não é verdade. Eu vou curar ela. Só preciso me concentrar e fechar os ferimentos. Tá tudo certo. Olha. Já terminei.

Senti uma tontura.

É coisa da minha cabeça.

Balancei a cabeça e falei com a Yume: — Vamos nessa!

Eu vejo. Tô vendo tudo. Moguzo. Ele tá se virando sozinho, mas tá difícil. Aposto que ele não vai conseguir terminar aquilo sozinho. Ranta e Haruhiro também. Estão com dificuldades contra o goblin de armadura.

— Haruhiro, ajuda o Moguzo! — gritei.

Haruhiro assentiu.

Certo. Isso foi bom. Quanto ao goblin de armadura, eu ficaria na frente dele, e deixaria Ranta e Yume atacarem pelos lados.

Eu tinha que fazer isso. Com esse cajado curto?

Droga. Odeio esse troço. Se ao menos eu tivesse uma espada…

Sacerdotes não podiam usar armas cortantes em combate. Que regra idiota. Mas eu ia fazer o que precisava ser feito.

— Ngahhhhhh! — rugiu o hobgoblin.

— Urrh! — gritou Moguzo.

— Ngah! Ngah! Ngah!

O quê? O que aconteceu? Era o hobgoblin. Ele estava desferindo golpe após golpe no Moguzo.

— Ngah! Ngah! Ngah! Ngah! Ngahhhh…!!

— Ungh…! — Moguzo finalmente foi forçado a se ajoelhar. Sangrava pela cabeça.

Foi aí que Haruhiro se agarrou nas costas do hobgoblin. Ele se debatia, tentando derrubá-lo, mas Haruhiro não largava.

— Uwaah! Ohh! Uwooooooo…?!

— Você tá indo bem, Haruhiro! Continua segurando ele assim…! — gritei.

Fui correndo até o Moguzo.

Certo. Tenho que tratar ele. Com magia de luz. O Moguzo. Ele tá perdendo muito sangue. Levou uma pancada daquela clava com espinhos.

Moguzo se desculpou, dizendo “Me desculpa”, ou algo assim.

Do que você tá falando? Eu sou o sacerdote.

— Ó Luz, que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você… Cure.

Tá meio lenta, não tá? A cura. A luz tá fraca. Concentra. Eu tenho que me concentrar. Me concentrar mais, e—

Enquanto tentava, olhei. Ou melhor, vi.

O hobgoblin acertou um cotovelaço na barriga do Haruhiro, lançando-o longe.

— Ah…!

E não parou por aí. O hobgoblin deu um chute no Haruhiro. Chutou e fez ele rolar no chão.

Eu ouvi. Haruhiro pedindo ajuda. Antes mesmo disso, eu já estava em movimento.

Moguzo, me desculpa. Seus ferimentos nem fecharam direito ainda. Mas isso aqui tem prioridade.

Smash…! — gritei.

Olha só eu aqui, gritando o nome da minha técnica, quase como o Ranta. Girei meu cajado curto e acertei a parte de trás da cabeça do hobgoblin.

Ele usava um elmo. Mesmo assim, pareceu surtir algum efeito.

Aproveitando a força centrífuga, bati com a parte do cajado mais próxima das minhas mãos. Talvez isso tenha ajudado. Mas ainda não tinha terminado.

— Ngh! Hah! Yah! — Eu não parava. Girando o cajado sem parar. Golpe após golpe após golpe. Eu batia nele como um louco.

— Haruhiro, levanta! — gritei.

Finalmente, eu entendi o que a gente devia fazer. Por que eu nunca tinha percebido antes? Por causa da adrenalina? Porque eu estava sob pressão demais e não conseguia pensar com clareza? Depois eu podia arranjar desculpas. Por agora, só precisava fazer o que tinha que ser feito.

— Corram! — berrei. — Todo mundo, corre…!

Haruhiro levantou-se rapidamente, começou a correr e, então, parou de repente.

— M-Manato, e você…?!

— Eu vou também! É claro! Agora vai logo!

Continuei atacando o hobgoblin enquanto me afastava devagar.

Uma abertura. Eu não podia me apressar; tinha que esperar uma abertura.

— Obrigado! — Moguzo desferiu um Rage Blow no goblin de armadura. Não acertou, mas forçou o inimigo a recuar.

Boa. Mandou bem, Moguzo.

Aproveitando essa abertura, Moguzo se virou e saiu correndo. Ranta e Yume vieram logo atrás. Shihoru também corria com esforço.

Com um grito de guerra, o goblin de armadura cortou as costas de Moguzo, mas o golpe foi superficial e não atravessou a cota de malha.

Haruhiro corria olhando pra trás o tempo todo.

— Manato, já deu! Todo mundo escapou!

— Eu sei!

O que eu sabia é que não ia ser tão simples assim.

Saltei para trás, atraindo o hobgoblin. Ele caiu direitinho na armadilha. Quando avançou, eu ataquei duas vezes com o cajado.

O hobgoblin gemeu, e sua cabeça foi jogada pra trás.

Agora.

Me virei. O goblin de armadura tentou me acertar. Já esperava por isso, então desviei com facilidade.

Agora corre. Corre. Corre e não olha pra trás.

— Urgh!

Algo me acertou nas costas.

Quase tropecei, mas não olhei pra trás.

Haruhiro soltou um grito que parecia um lamento.

— Manato…?!

— Tô bem!

Seja como for, a gente tem que sair daqui primeiro. Isso é o mais importante. Certo? É. Eu sei disso. Eu sei. Temos que correr. Correr. Fugir.

Preciso olhar pra trás, ver o que tá acontecendo.

Será que o goblin de armadura e o hobgoblin tão perseguindo a gente? Não sei. Podemos parar agora? Ou ainda temos que correr? É só olhar. Se eu olhar, vou saber. Mas eu tenho que continuar. Continuar me movendo. Continuar indo o mais longe que conseguir.

Ainda assim, o pessoal tá correndo bem rápido.

Onde é isso? Até onde a gente veio?

Não sei direito. Que estranho. É estranho. O que aconteceu? Eu… Ahh—

Espera.

Me joguei pra frente, caindo no chão.

Tenho que me levantar. Não é bom. Sim. Eu vou me levantar. Mas não tenho força. No corpo. Por quê?

— …A-Ai…

Dói. O quê que dói? Minhas costas. Ah. Tem algo nas minhas costas.

Lutei pra me virar de lado.

O que tá acontecendo? Isso é grave, não é? É grave? Não sei.

— …Acho que… A-a gente tá… seguro agora…

— Manato…! — Haruhiro tava aqui. Bem do meu lado. Ajoelhado. — Manato, o seu ferimento, m-magia! Isso! Usa a magia pra curar…!

— …Ah, é. — Tentei fazer o sinal do hexagrama. Hã? Minha mão. Não consigo. Minha força. Concentração. Como? Não dá, não assim.

— …N-Não consigo… não… consigo usar magia…!

— N-Não fala! — ouvi a voz do Ranta. — N-Não fala nada! Só fica aí de boa, relaxa… Espera, como é que alguém relaxa numa hora dessas?!

Shihoru se aproximou. Ela estendeu a mão até minhas costas. Tocou… alguma coisa. Doeu, ou melhor, parecia… pesado. Um peso opressor.

Mas o peso não parava ali; parecia atravessar todo o meu corpo. Tive um pressentimento ruim sobre aquilo.

Pisquei várias vezes.

Moguzo estava ali. Tão grande. Moguzo. Claro. Ele não vai encolher de repente.

— Q-Q-Q… — Yume estava tão abalada que me deu pena. — Q-Q-Q… — Ela bagunçava o próprio cabelo.

— O quê…? — Haruhiro se agachou, aproximando o rosto do meu. — V-Você vai ficar bem, Manato? Vai ficar tudo bem, tá? Aguenta firme. Aguenta firme, Manato, por favor?

Finalmente, a gravidade da situação começou a cair a ficha.

Eu não vou ficar bem. Entendi. Então é assim. Não dá mais—

Você tá brincando, né? Para com isso! Não! Não era pra ser assim! Ainda tem tanta coisa pra eu fazer! Ainda não!

Sim. Amanhã, eu ia fazer mais. Achei que teria muitos amanhãs. Sempre tomei isso como certo. Como se o futuro estivesse garantido. Pra mim, pra gente. Tinha que estar. Eu nunca duvidei disso. Mas o que é isso? Era pra ter mais, então isso… isso não é justo. Ainda tenho tanta coisa que quero fazer. Onde foi que eu errei? O que foi que não deu certo? Será que fui imprudente? Achei que a gente dava conta. Eles eram fortes. Quem diria que seriam tão fortes? Será que eu fui fraco? Ou será que me precipitei, mesmo achando que não?

Quero uma segunda chance. Que isso nunca tivesse acontecido. Por favor. Me deixa tentar de novo. Eu imploro. Eu não vou errar de novo. Eu… e todo mundo…

— No fim, você não confia em ninguém, não é? — Ryoi disse pra mim.

Eu sorri, como sempre fazia.

— Sim, e daí?

— Como você consegue sorrir assim?! Numa hora dessas?! — Mitsuka chorava.

E eu tava sorrindo.

— Você pergunta como? Porque eu tô bem, não tô?

— Não ache que vai ter tratamento especial só porque é uma criança — xxx disse num tom ameaçador, enquanto me agarrava pelo pescoço.

Especial? Nunca pensei isso.

— Eu nunca devia ter te dado à luz — xxx disse, com um olhar vazio no rosto.

Ryoi? Mitsuka? Xxx? Xxx…? Quem…?

Não entendo direito, mas… ahhhh… agora vejo. Eu queria estar com alguém.

Só queria caminhar com alguém. Não sozinho… com outra pessoa.

Queria andar junto com todo mundo.

Queria mais laços.

Queria passar tempo com eles, aos poucos, no meu ritmo. Era o único jeito. Porque eu não conseguia encurtar a distância de uma vez só.

Se fosse desse jeito, achei que conseguiria. Com certeza. Achei que conseguiria ter uma segunda chance.

Mas agora não dá mais. Acabou. Não acredito nisso.

Vai terminar aqui, assim, tão fácil. Se isso fosse uma mentira, um sonho… como seria bom.

Mas sei que não é. Isso é real.

Logo vai acabar.

— Haru…hiro — sussurrei.

— O q-quê? O que foi? Manato, o que foi?

Desculpa. Haruhiro. Desculpa. Tinha mais que eu queria te dizer. Coisas que eu queria conversar, tanta coisa. Eu tinha certeza de que a gente podia virar amigos de verdade. Acho que, um dia, eu teria contado tudo pra você.

— Hã? O quê? D-Desculpa? Por quê? Pelo quê? — ele perguntou.

Droga. Por quê? Por que eu não consigo falar? Minha voz… não sai direito. Eu… é isso mesmo, Haruhiro, tô contando com você. Isso é sério. Tenho que me apressar. Não tenho muito tempo. Você é o único em quem posso confiar.

Devo ter murmurado alguma coisa, porque Haruhiro respondeu.

— Contando comigo? Comigo? Pra quê? O que você quer de mim? Espera, não, Manato, não…

Cuida de todo mundo. Só você pode. Só você consegue. Eu não posso mais. Não consigo fazer nada. Não consigo mais ver. Não consigo ver.

Tá escuro. Ficou escuro.

Droga.

Ei, pessoal, vocês estão aí? Se tiverem, digam alguma coisa.

Mal consigo enxergar.

— A gente tá aqui! Tá todo mundo aqui! Manato! A gente tá aqui! Não vai embora!

Eu também não quero ir.

Não quero ir.

Quero ficar aqui.

Aqui, com todo mundo.

Mas eu tenho que ir.

Ahh…

Eu…

Eu vou morrer.

— Não vai! Manato! Você não pode deixar a gente! Não vai! Por favor, Manato…!

Continua me chamando assim.

Por favor.

Desse jeito.

Até que eu não consiga mais perceber.

Só mais um pouco—


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


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