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Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 7 – Volume 14

 

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Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash

Light Novel Online – Capítulo 07:
[Apenas Tendo Você Lá (Só_Você)]


Quando saíram de um túnel, era um castelo.

Se você dissesse assim, talvez não fizesse muito sentido, mas Kuzaku também não entendia muito bem. Dá para culpar ele?

Caramba, que teto alto! pensou ele. Esse corredor é largo demais… É um corredor mesmo? Será? É largo demais, então não sei se posso chamar de corredor. O que é isso? Tem esse espaço meio que parece um salão que continua pra sempre?

O chão, é mármore? Talvez? É feito de algo duro e brilhante que provavelmente é pedra, acho? É uma cor meio acinzentada? Marrom claro? Embora, apesar dessa cor calma, tá tudo brilhando e reluzindo. Realmente maravilhosooo. Bem, não a ponto de eu precisar estender esse “o”.

Na verdade, é maravilhoso? Tem incontáveis luzes tipo lustre penduradas no teto, e elas refletem no chão como se fosse um espetáculo. É como se estivessem tentando virar o conceito de reflexo de cabeça pra baixo. É esse tipo de super reflexo que tá rolando aqui.

Imagina, sem saber nada antes, te pedissem para dizer o que é esse lugar. No caso de Kuzaku, ele podia dizer que estavam dentro de um lugar, mas não muito mais que isso.

Io-sama estava liderando o cavaleiro das trevas Gomi, o paladino Tonbe e Bossari, que também era conhecido como Kuzaku, pelo interior.

— Onde a gente tá? — perguntou Kuzaku a ela.

— No castelo — respondeu ela, direta.

castelo — Então, sem dúvida, era onde estavam. Ele pensou que talvez tivesse ouvido errado, mas realmente era um castelo. O que tinha para ouvir errado, afinal?

Demorou um pouco para ele perceber, mas o corredor estava cheio de sombras que começavam a tomar forma tridimensional. Eram meio que, bem, algo entre humano e animal, ou algo assim. E também estavam se movendo.

— O que você acha que é isso…? — perguntou Kuzaku.

Ele não quis perguntar a ninguém em particular, só jogou a pergunta no ar, meio que num “Ei, alguém pode explicar pra mim?“

— Para de ficar olhando — avisou Gomi.

Não que isso importe, mas o sotaque dele é forte pra caramba.

— Essas coisas, são servos do rei — continuou Gomi. — Dá pra dizer que costumavam ser servos. Não, não é bem assim. Enfim, são o que sobrou deles. Se você irritar o rei, pode acabar assim também. Cuidado, tá? Seria um peso pra Io-sama.

— …Hã? — disse Kuzaku. — O poder de alguém chamado… o rei… fez isso com eles? Você tá dizendo que eles eram originalmente humanos?

— Bem, é…

Gomi deixou a frase no ar. De um jeito que não era típico dele, parecia haver algo mais profundo, como se quisesse dizer, “Não me pergunta mais nada.” De qualquer forma, ele não estava sendo muito claro. Será que era sobre isso, talvez?

Enquanto continuava a andar, Kuzaku virou para olhar para trás.

As sombras geralmente mantinham distância da party de Io-sama, que incluía Kuzaku. Elas também seguiam em direções diferentes. De todas elas, aquela sombra estava seguindo a party.

Não havia muito que ele soubesse com certeza sobre Io, além de que ela era uma sacerdotisa e que sua beleza era fora deste mundo, mas quanto a Gomi e Tonbe, eles eram bem habilidosos. Não tinha como eles não terem notado aquela sombra. Mas estavam ignorando.

Era porque era uma sombra insignificante? Podia ser, mas ele não queria pensar que era só isso.

Mesmo que estivessem nos Daybreakers, assim como Kuzaku e seus amigos, as duas equipes nunca tinham se encontrado antes, então Kuzaku tinha pouca informação sobre o Esquadrão Io-sama. No entanto, deveria haver mais de três deles. Ele não lembrava de nenhum nome além do de Io, mas a maioria das equipes consistia de cinco ou seis pessoas, e ele sentia que havia alguns a mais além de Tonbe e Gomi.

Podia ser que a sombra tivesse sido um membro do Esquadrão Io-sama. Eles irritaram o rei e foram transformados em sombra. Talvez fosse isso que tinha acontecido com os companheiros de Io.

Quanto tempo tinha esse corredor? Não importava o quão extravagante e maravilhoso fosse, não era tão emocionante depois que você se acostumava.

Enquanto era perseguido por Shihoru, fugindo, tentando convencê-la, desistindo disso como impossível, decidindo, “Não, se conversarmos, ela vai entender,” quase sendo morto e fugindo, ele estava desesperado. Por causa disso, não tinha tido a compostura para pensar com cuidado, mas onde estava Haruhiro, onde estava Mary, onde estava Setora, e onde estava Kiichi agora?

Nah, eles provavelmente estão bem, disse a si mesmo. Quer dizer, eu tô inteiro, então como os outros não estariam?

Shihoru-san acabou daquele jeito, no entanto.

Bem, ela tá viva, pelo menos. E mais forte, se é que dá pra dizer isso.

Mas será que é realmente a Shihoru-san?

Tipo, não é meio que não é? Não sei, mas ela tá totalmente diferente. Não era pra ela ser assim. Pensei que, se conversássemos, ela entenderia. Era o que eu pensava. Era o que eu tentava pensar. Só que, talvez, eu só quisesse pensar isso, sabe? Se eu me acalmar e pensar sobre isso. Achar que ia dar certo se conversássemos? Aquela transformação não era algo num nível em que isso seria suficiente.

Você vai conseguir voltar ao normal, Shihoru-san? Você pode voltar? Tem um jeito? Não consigo pensar em nenhum.

E quanto ao Haruhiro e os outros?

Eles devem estar bem… acho. Bem, já passamos por muitos apertos antes. A gente deu um jeito. Vai ser igual dessa vez. Isso é—Pera, é só nisso que eu me baseio?

Talvez não se equiparassem à party do Soma, considerada por todos a mais forte, nem à lendária party do Akira-san ou à party Typhoon Rocks, mas a party da Io-sama era famosa por ser formada por soldados voluntários altamente competentes.

Kuzaku não queria menosprezar a si mesmo ou seus camaradas, mas, em termos de classificação geral, o Esquadrão Io-sama estava um nível acima da própria party de Kuzaku.

E mesmo o Esquadrão Io-sama tinha sido reduzido a três membros.

Esse lugar é louco, né?

É perigoso, certo? Claramente.

É louco… Sim.

Agora, isso é só um talvez, mas…

Talvez nem todos estejam bem.

Talvez eles nem cumpram o mínimo de estarem vivos.

— Umm… — Kuzaku se agachou onde estava.

Ele não conseguia andar. Nem um passo. Não conseguia nem ficar de pé. Tudo o atingiu de uma vez. A sensação de desânimo.

Se ele pensasse com cuidado, não tinha como não estar exausto. Mas não era só isso, era? Era mais do que isso.

Ele segurou o estômago, agachado. Era um tipo de fome, talvez.

— Não comi nada…

Seu estômago parecia fino como papel. Estava tão vazio que doía. A sensação de fome atacava seu corpo em massa por dentro. Ele sentiu uma dor ardente e queimante atrás dos olhos, e o fogo viajou do nariz, para a boca, espalhando-se pela garganta.

Aaahhh! Tá quente! Quente! Tô queimando!

— Minha garganta… Ah, é, também não bebi nada…

Seu estômago parecia um dragão maligno, tentando escapar pela boca e arrancar seus olhos. Espera, o que isso significava?

Enquanto se contorcia em uma agonia insuportável, alguém o repreendeu: — Aguenta firme.

Podiam dizer isso o quanto quisessem, mas era claramente impossível. “Água, água, água, água, água, me dá água!” ele tentou gritar. Ou melhor, provavelmente estava gritando.

Ele foi empurrado ou se jogou, não tinha certeza qual dos dois, mas, de qualquer forma, Kuzaku capotou.

Pesado!

Que pesado! É o Tonbe? Não monta em mim. Cara, você é pesado. Pesado pra caramba.

— Aguenta firme! Aguenta firme, Bossari! — disse Tonbe enquanto socava Kuzaku no rosto.

Kuzaku instintivamente tentou bloquear com os dois braços, mas os punhos de Tonbe destruíram sua defesa em pouco tempo e atravessaram.

Depois de trinta ou quarenta socos, ele estava perdendo a consciência. Se Io não tivesse parado, ele provavelmente teria desmaiado.

— Chega, Tonbe — ela disparou. — Não podemos usar magia de luz aqui, então não podemos curá-lo. Seria um incômodo se ele morresse.

— Desculpa, Io-sama! Eu odeio esse cara, então me empolguei, sem querer!

Esses foram socos sérios? pensou Kuzaku.

Quer dizer, o jeito que você montou em mim antes de atacar, isso foi muito bom. Você merece respeito por isso. Me irrita, no entanto. Que tipo de pessoa você é? E peraí, não podemos usar magia de luz? É, eu meio que senti isso. O poder dos deuses não chega aqui, ou algo assim.

Ele tinha muito que queria dizer, mas o dano era pesado demais para ele falar. O jeito que fome e sede funcionavam aqui tinha sido explicado para ele, mas só metade ficou na cabeça.

— De qualquer forma, você tem que ser forte — disse Io. — Aguenta firme. Agora, levanta, Bossari. Vamos.

Io-sama, você é muito dura, gemeu Kuzaku em silêncio. Do fundo do coração, ele pensou, Queria poder apresentá-la ao Haruhiro.

Então ele se levantou sozinho, correndo atrás dos três que seguiam à frente. Seu rosto doía. Ele estava sangrando, também. Seus olhos estavam inchados, e seu campo de visão estava estreito, muito estreito.

Tô sendo tratado bem mal, né? Bons camaradas são um tesouro, ele percebeu. Isso o fez querer chorar.

— Droga — murmurou ele. — Esse rei, ou sei lá o que ele é… É hora de conhecer ele? Não tô muito a fim, sabe. Preciso encontrar o Haruhiro e os outros…

Mas se ele conseguisse se reunir com algum deles, teria que falar sobre Shihoru.

Tipo, a Shihoru tá andando por aí praticamente pelada por algum motivo. Cara, isso foi meio safado. Acho que não devo dizer isso. Não posso dizer. Além disso, as lágrimas dela são brilhantes e bonitas, mas são perigosas pra caramba. Caraca, tenho que admitir, meu vocabulário é uma droga. Meu rosto dói, e meu ânimo tá pesado. Meus pés também parecem pesados.

Aquela sombra estava seguindo eles de novo. Ele começava a sentir cada vez mais pena dela. Embora, com pena ou não, não era como se ele pudesse fazer algo.

Finalmente, eles chegaram ao fim do corredor.

Parecia que havia vários corredores saindo de um espaço tipo um teatro, e Kuzaku e os outros tinham passado por um deles. Depois dali, era cada vez mais como um campo. Não era um campo, no entanto.

Quando desceram aqueles degraus lisos e brilhantes até o fim, era um palco redondo? Havia uma coluna subindo no centro dele.

Que lugar é esse? ele se perguntou. É pra reunir uma plateia e fazer eventos, ou algo assim? Não? Bem, seja o que for, é ainda mais bonito que o chão. Não vejo se tem luz brilhando de cima, mas tá tudo tão reluzente.

Nossa. Incrível. Embora eu meio que sinta um “Tá, e daí?” Não posso negar. Não tenho tempo pra essas coisas, sério.

Os degraus tinham menos de trinta centímetros, e não eram só cem, mas provavelmente mais de duzentos. A área do teatro era desnecessariamente grande também.

No caminho descendo, ele tentou perguntar: — Eu tenho mesmo que conhecer esse rei?

— O rei manda em tudo em Parano, entendeu? — disse Gomi.

O sotaque de Gomi estava começando a irritar ele. Ele até sentiu um leve impulso de matar o cara.

— Uh, tá, mas não tô interessado — disse Kuzaku. — Tenho outras coisas pra fazer…

— Isso não importa — retrucou Gomi. — Você é o capacho da Io-sama. Só faz o que a Io-sama manda.

— Sou grato pela ajuda, mas, honestamente, essa coisa de capacho, não é meio… exagero? Talvez? Acho que não funciona assim. Vocês podem fazer o que quiserem, no entanto.

— “Vocês”? — rosnou Gomi. — Tá se achando melhor que a gente, Bossari?

Tonbe riu pelo nariz. — Deixa ele, Gomi.

Aquele riso nasal fez Kuzaku querer chutar Tonbe escada abaixo e ver ele rolar histericamente.

No entanto, Tonbe não era só um gordo. Era um homem forte e robusto que se movia muito bem, então, mesmo que Kuzaku quisesse fazer isso, não conseguiria.

— Você vai entender quando conhecer o rei — disse Tonbe com um sorrisinho. — Vai ficar dolorosamente óbvio que o melhor plano em Parano é fazer o que o rei manda. Se você é idiota o suficiente pra não entender isso, seu destino já tá decidido.

— Ele é assustador? — perguntou Kuzaku, cauteloso.

— Não te disse que você vai entender quando conhecê-lo? Você é um idiota? Aposto que é. Seu idiota. Você é um idiota pior que a merda que eu espremo do meu rabo. Um idiota pior que merda! Isso é bem ruim!

Kuzaku quase cedeu ao seu impulso destrutivo. Não é bom.

Não te ouço, não te ouço, não te ouço, ele repetiu na cabeça, bloqueando a voz de Tonbe.

Não vou falar com eles, pensou para si mesmo. Esses caras têm umas personalidades defeituosas pra caramba. Por que raios a Io mantém eles como capachos? Ter capachos já é estranho o suficiente. Os Rocks eram em sua maioria esquisitos, e o Akira-san e a equipe dele eram um monte de super-humanos. Os Daybreakers não têm gente normal o suficiente. Cara, quero ver o Haruhiro. Só de ter ele por perto, é meio que calmante, sabe…

Kuzaku abaixou a cabeça enquanto descia os degraus em silêncio.

Agora que cheguei até aqui, vou descer, okay? Mas até onde a gente vai descer? Onde posso parar? Ainda tá descendo? Vamos continuar descendo?

Parecia que ele estava descendo os degraus por um tempo indeterminadamente longo.

Finalmente, por fim, eles chegaram à área tipo um palco no fundo.

Parecia que Io tinha negócios com aquele pilar.

Só que, quando ele a seguiu, não era um pilar. Era uma porta. Ela se abriu sozinha.

Quando entraram, havia uma sala redonda.

Incrivelmente, embora não desse pra ver o interior de fora, o exterior era visível de dentro. Tudo, exceto o chão e o teto, era transparente.

A porta se fechou. A própria sala começou a se mover.

— Um elevador… — sussurrou Kuzaku, observando Io para ver o que ela fazia.

Io tirou a máscara, olhando de perto as paredes transparentes. ufa! Ela soltou um suspiro, mas sua expressão tensa não suavizou. Ela estava claramente nervosa.

Não era só Io. Tonbe e Gomi também estavam tensos. Eles eram um cavaleiro das trevas e um paladino de nível bem alto. O rei de Parano era assim tão insano?

O elevador continuou subindo. Simplesmente não parava. Deviam estar subindo um caminho bem longo, mas, misteriosamente, a vista lá fora não tinha mudado muito.

— Espera aí, a gente simplesmente subiu demais — murmurou Kuzaku.

No momento em que ele disse isso, sentiu como se fosse jogado não pra cima, mas pra trás.

— Whoa?!

Ele conseguiu se equilibrar de algum jeito, mas se sentiu como se estivesse sendo jogado para trás, será que estavam indo para frente? Enquanto pensava nisso, ele foi sacudido pra direita dessa vez.

— Ah?!

Io, Tonbe e Gomi estavam abaixando a postura e tentando aguentar. Kuzaku decidiu imitá-los.

Mas se vocês sabiam que isso ia acontecer, podiam ter avisado! Ia matar vocês me contar? pensou, ressentido, mas não havia tempo para reclamar.

— Nwah?! Uwah?! Bwuh?! Ugh?! Agh?! Ah…?!

Cada vez que o elevador mudava de direção ou girava de repente, Kuzaku caía e se levantava, se levantava e caía.

Io, em algum momento, começou a se apoiar na parede invisível para se sustentar. Gomi e Tonbe estavam formando uma barreira ao redor dela. Nenhum dos dois encostaria um dedo em Io, mas também não deixariam Kuzaku, que estava rolando de um lado para o outro, tocar nela.

Cara, a lealdade deles é outra coisa, ele fez uma careta. Não respeito isso, no entanto.

— Gwah…!

O elevador, claro, parou de repente, as portas se abriram em uníssono, e Kuzaku rolou para fora delas.

Meus olhos tão girando. Tô estirado no chão. Tô passando mal. Que lugar é esse?

— Urgh… Ahh… — ele gemeu.

Era um tratamento duro. Enquanto gemia, ele levou um chute no estômago.

— Levanta essa bunda! — gritou Gomi.

Isso dói, Kuzaku tentou reclamar. Mas sua voz não saía.

Ele sentiu um frio desagradável. Todo o seu corpo parecia encolher com o frio. Era um frio incrível, diferente de qualquer coisa que ele já tinha sentido antes. Ele não sentia que podia se mover.

Apesar disso, Kuzaku ficou de pé. Era o que ele tinha que fazer agora, e não fazer isso traria o pior resultado possível. Seu sexto sentido o empurrou para isso.

Kuzaku prendeu a respiração. Ou melhor, ele não conseguia respirar direito.

Antes de entrar no elevador, o corredor e a área do teatro já eram impressionantes, mas esse lugar era de outro nível. Era como uma caverna de calcário, com coisas saindo do teto, das paredes e até do chão. Mas não eram estalactites ou estalagmites. Eram lineares ou curvas, parecendo artificiais. Todo o ambiente tinha uma sensação sombria e significativa, e parecia opressivo demais.

A parede bem à frente deles era a única branca. Parecia até fosforescente. Ele pensou que poderia ser uma janela de vidro no começo, mas não era transparente.

Era um branco leitoso? Ou não era vidro de jeito nenhum?

Na frente da parede branca, havia um degrau, vários deles, talvez dezenas de degraus, subindo.

No topo, era uma cadeira? O encosto preto e retangular estava envolto em correntes, e havia apoios de braço também. Tinha uma forma meio, não, bem estranha, mas, bem, provavelmente era uma cadeira. Seria o que chamariam de trono?

Esse é o lugar do rei.

Era bem diferente das vagas imaginações de Kuzaku. Mas ele não estava errado.

O homem sentado no trono, com as pernas cruzadas, era o rei. Mesmo sem ninguém dizer, ele sabia disso. Se aquele não fosse o rei, Parano não tinha rei.

Mesmo que o homem barbudo não estivesse usando uma coroa preta, ele não pareceria nada além de um rei. O homem vestia couro justo, ou algo assim, mas se isso era uma roupa adequada para realeza, Kuzaku não podia dizer. Quando ouvia a palavra rei, ele imaginava algo mais espalhafatoso, mais florido, com roupas e acessórios obviamente opulentos.

No entanto, esse era um rei. Se havia um rei aqui, esse era o salão do rei.

Os olhos de Kuzaku estavam fixos no trono… ou melhor, no rei e em nada mais.

O rei estava longe. O senso de distância de Kuzaku parecia estar enlouquecendo, porque, embora ele não pudesse dizer quantos metros de distância, o trono devia estar a dezenas de metros. Apesar disso, ele conseguia distinguir o rei claramente.

Ele seria alto em pé. As pernas do rei eram extremamente longas e esguias.

Não podia estar na casa dos trinta. Tinha uns quarenta, talvez cinquenta. Seu rosto tinha rugas adequadas, e ele tinha uma barba curta, grisalha. O cabelo também era curto. Se não estivesse sorrindo, poderia dar uma impressão diferente, mas, se havia algo, ele parecia ter uma expressão gentil. Seus olhos, em particular, pareciam quase bondosos.

Ainda assim, ele era assustador.

Só por estar ali, ele fazia o ar nesse salão real endurecer e solidificar.

Os incontáveis brotos afiados deviam ter surgido por causa do rei.

A razão desse salão real ser preto era porque o rei estava aqui.

A existência do rei definia esse lugar. Não, ele o conquistava, dominava.

Naturalmente, era o mesmo com Kuzaku. Ele era governado pelo rei.

Como prova disso, ele se prostrou diante do rei em algum momento, abaixando a cabeça, e espiava com os olhos voltados para cima, como se estivesse roubando um vislumbre do rei. Tonbe, Gomi e até Io também estavam cada um de joelhos, assim como Kuzaku.

Enquanto estivessem aqui, não havia outra escolha. Tonbe tinha dito que ele entenderia quando encontrasse o rei, e que não havia escolha a não ser fazer o que o rei mandava.

Ele estava certo.

— Olá, Io. — A voz do rei era baixa, suave e profunda. Era o tipo de voz masculina mais velha que garotas poderiam gostar, mas, por algum motivo, era estrondosa, subjugando Kuzaku e os outros.

Só de ouvi-lo falar uma vez, Kuzaku estava tremendo e pronto para chorar.

A voz de Io, quando ela respondeu, era terrivelmente fraca. — …Sim, Vossa Majestade.

Esse rei… ele é insano, pensou Kuzaku, em desespero. Insano além do normal. Eu não sei absolutamente nada sobre ele. Isso é insanidade no máximo. De certo modo, talvez essa seja a própria definição de insanidade. Ele é sério e completamente insano. Tipo… espera aí, esse cara é o rei?!

— Você trouxe algo com você, pelo que vejo — disse o rei. — Um novato?

— Sim, senhor… — murmurou Io. — Para servir a Vossa Majestade… senti que era meu dever… meu dever como sua vassala. É por isso que o trouxe diante de vós.

— Admirável.

— …Obrigada, senhor.

— Nunca se tem vassalos demais. Se forem úteis, claro.

— Se… se Vossa Majestade achar que ele não pode ser útil… faça com ele o que quiser.

Oi? Não sei, ela quer dizer… Hã? A mente de Kuzaku disparou. Aquelas sombras—disseram que são o que sobrou daqueles que irritaram o rei, né?

Se ele não puder me usar, ela tá pedindo pra ele me transformar numa sombra?

Isso seria meio que um problemão pra mim, sabe?

Por causa de sua leve raiva e antipatia por Io, e a sensação de irritação, seu temor pelo rei parecia ter diminuído um pouco. Kuzaku finalmente conseguiu observar coisas além do rei.

Em outras palavras, até agora, ele só conseguia ver o rei. O quão incrível era esse rei?

Nos fundos do salão real, havia um estrado e, sobre ele, o trono. Atrás do trono, havia uma janela ou talvez uma parede, de onde vinha uma luz branca. No entanto, havia muitas outras coisas ali também. A que mais chamava a atenção estava pendurada no teto.

Era uma gaiola de pássaros gigante? Não, podia ser uma gaiola, mas não de pássaros. Tinha o formato de uma gaiola de pássaros, mas não era um pássaro que estava trancado dentro.

Era um humano.

Um casaco marrom, usado por cima de um vestido branco. Cabelos longos. O rosto não era visível, mas pela forma do corpo, provavelmente era uma mulher.

Havia um rei, então seria ela sua rainha, talvez?

Não.

Em que mundo você encontraria um marido que mantém a esposa numa gaiola? Tá, pode haver casos raros em que isso acontece. Era isso que ele curtia?

Havia escadas na frente do trono, e era possível subir ou descer do estrado. Ele percebeu agora que, em todos os lugares exceto aquelas escadas, havia celas. Elas eram separadas em gaiolas pequenas, cada uma com um prisioneiro dentro. Ele podia ver alguns encostados nas grades também. Escutando com atenção, ouviu suas vozes.

— Io-samaaaa…

Não estava claro qual prisioneiro estava dizendo isso, mas ele definitivamente estava chamando por Io.

Pelo menos um dos camaradas de Io, um membro do Esquadrão Io-sama, tinha sido feito prisioneiro. Outro tinha sido transformado em sombra pelo rei. Agora fazia sentido.

Então é isso que tá acontecendo aqui, huh?

Io não tinha se submetido à autoridade do rei nem jurado lealdade a ele. Também não era apenas o medo do imenso poder dele—depois que ele havia transformado um de seus companheiros em uma sombra—que a paralisava.

Ele tinha um refém.

Se o refém era um membro do Esquadrão Io-sama, então, mesmo que fosse um estranho sem rosto para Kuzaku, ainda era um camarada através dos Daybreakers.

Kuzaku não podia simplesmente dizer, “Não é problema meu. Não ligo.”

Não posso desafiar o rei, pensou, com a mente a mil. Mesmo que eu não queira obedecer, tenho que obedecer por agora. De qualquer forma, é impossível. Desafiar um cara desses? Sem chance.

Ele não pôde evitar se perguntar se a mulher na gaiola era refém de outra pessoa, e pensar que, se o rei era realmente tão grande, não deveria agir como um vilão mesquinho.

A hostilidade de Kuzaku pode ter vazado, mas ele não perdeu tempo em sufocá-la.

De jeito nenhum. Não posso com ele. Não entendo bem, mas sei que é impossível mesmo sem entender por quê. Honestamente, tenho medo até de olhar pro rei. Não quero vê-lo. E mesmo assim, tô olhando.

Ainda assim, o que é isso?

Aquele trono.

Tipo, o encosto?

É simplesmente grande demais. Os apoios de braço e o assento se encaixam no rei. É só o encosto que é estranhamente alto, e largo. Parece duro também. Além disso, tá envolto em correntes. É como se os apoios de braço e o assento fossem adicionados depois, e ele tá se forçando a usar aquele encosto. Nem sei se é um encosto pra começo de conversa.

Quero dizer, tem todo tipo de entalhe ali, e a borda parece reforçada com um material diferente, mas aquele formato…

Pela aparência… será que é uma porta?

— A partir de agora, você também é meu vassalo. — O rei estava tentando usar uma porta grande como encosto, mas era forçado a cruzar as pernas porque não conseguia apoiar as costas nela. Ele sorriu para Kuzaku. — Se você se esforçar até os ossos virarem pó, trabalhando duro até me satisfazer, eu te darei uma recompensa. Espero que você seja um vassalo útil.

Kuzaku tentou abrir a boca.

Por quê? Por que tentei abrir a boca? Não faço ideia. Nenhuma ideia. Tô suando pra caramba.

Io o encarava como se dissesse, “Não fala nada.”

Tá, eu sei. Não, não vou dizer nada. Nem uma palavra.

O rei pousou os olhos em Kuzaku com um sorriso.

Vamos lá, fala alguma coisa você mesmo. Nos repreenda, ou qualquer coisa. O silêncio só tá deixando isso mais assustador.

Talvez o rei estivesse agindo assim para assustar Kuzaku. Se fosse uma jogada calculada, não era meio ardiloso? Pensando assim, o medo de Kuzaku diminuiu um pouco.

Um pouco só. Ele ainda é muito assustador. Ele é tão assustador que sinto que posso murchar como uma casca seca. Na verdade, já tô começando a isso.

De repente, houve um som estranho atrás. Ele nem conseguia respirar direito antes, mas, de alguma forma, conseguiu virar e olhar.

Havia um pilar subindo do chão até o teto. Era o elevador em que Kuzaku e os outros tinham subido.

A porta dele se abriu. Saiu um homem num casaco verde-musgo com gola de pelagem.

Seu cabelo longo era um pouco ondulado, e ele tinha uma barba por fazer. Parecia apático, degenerado e um pouco sujo, mas, de alguma forma, ainda estiloso. Pra dizer simplesmente, era o tipo que parecia que faria sucesso com as garotas.

Olhando para Kuzaku e os outros, o homem franziu a testa um pouco, imediatamente desviando o olhar enquanto se aproximava do estrado.

— Ahiru — disse o rei.

Quando o rei o chamou, o homem parou e se ajoelhou, curvando-se profundamente. — Vossa Majestade… É uma honra pôr os olhos em vós novamente.

— Yonaki Uguisu canta tão bem como sempre. Só para mim.

Quando o rei disse isso, o homem que aparentemente se chamava Ahiru não exatamente tremeu, mas ficou tenso. Kuzaku viu.

Olhando por um momento para a mulher na gaiola, depois de volta, Kuzaku pensou, Era ele.

A mulher era como uma casca de pessoa, mas sua posição tinha mudado de antes. Ele não podia afirmar com certeza, mas ela provavelmente estava olhando para Ahiru. Como Io e sua party, Ahiru tinha aquela mulher, Yonaki Uguisu, sendo usada como refém contra ele.

Kuzaku abaixou os olhos e mordeu o lábio. Caramba, tô puto.

Não importava o quão desprezível fosse o desgraçado, não havia como desafiar o rei. Se o desafiasse, estaria tudo acabado. Isso era uma coisa que ele não podia fazer nada a respeito.

— Yonaki Uguisu sempre me agrada, mas você volta para mim de mãos vazias, Ahiru? — perguntou o rei.

— …Desculpe-me.

— Acho que você também sabia cantar. Por que não canta uma música para nós aqui?

— Poupe-me, por favor. Não canto há muito tempo. Não gostaria de sujar seus ouvidos.

— Nesse caso, traga Alice de volta rápido.

— Como Vossa Majestade sabe, aquela princesa é durona — disse Ahiru. — É constrangedor admitir, mas não tenho força para vencer, então fui e destruí a casa da princesa.

— Ora, ora. Alice deve estar muito brava, imagino.

— Quem sabe o bastante para correr até aqui.

— Será que Alice consegue atravessar a Floresta Escarlate, como antes, quando fugiu? — o rei refletiu.

— Conhecendo a princesa, talvez.

— Antes de vir para cá, Alice pode tentar te matar primeiro, Ahiru.

— Eu… sou bom em fugir, pelo menos isso.

— Você quer atrair Alice para cá — disse o rei. — Esse é o seu plano, não é, Ahiru?

— Se não funcionar… penso em outra coisa. Tem tempo. Não… talvez não tenha tempo nenhum.

— Pode-se dizer que não há tempo, e que há tempo ilimitado. Somos eternos — disse o rei. — A eternidade que deveria ser impossível de alcançar, não importa o quão desesperadamente a desejemos, está agora em nossas mãos. Não precisamos mais nos medir em termos humanos, mas somos forçados a isso. Isso é carma. Abandone o carma.

— Não entendo coisas complicadas, mas vou pensar bastante sobre isso… senhor.

— Saiam — disse o rei a Io. — Quero ouvir a voz de Yonaki Uguisu.

— Estamos indo — disse Io num sussurro.

Quando Kuzaku olhou para cima, Io, Tonbe e Gomi estavam se retirando.

Ahiru não se movia. Yonaki Uguisu ainda estava de frente para Ahiru também.

Tum, tum, tum. O rei bateu o pé no chão enquanto ordenava: — Saiam. Agora.

Kuzaku levantou como um tiro e deu meia-volta.

Assustador. Quase me mijei.

Querendo saber o que estava acontecendo, ele olhou para Ahiru. Ahiru seguiu atrás de Kuzaku e os outros como se estivesse fugindo também. Suas costas curvadas, a mão direita agarrando o peito esquerdo, os olhos revirados, os dentes cerrados, e um rosto como o de um demônio.

Esse homem também não era totalmente leal ao rei. Pelo contrário, ele estava suprimindo o sentimento de, “Vou matá-lo, juro que vou matá-lo,” e servindo o rei porque não tinha escolha.

— Hum, qual é o nosso trabalho? — perguntou Kuzaku a Io no caminho para o elevador.

— Acabar com eles — disse Io rapidamente. — Cada último humano em Parano. Ou isso, ou trazê-los pro rei, e fazer eles jurarem lealdade. Esse é o dever de um vassalo.

— …Ah é?

Talvez, Kuzaku começou a pensar, Io tá fingindo servir o rei, enquanto na verdade reúne camaradas. Então, quando chegar a hora, ela vai derrubar o rei do trono. Se o rei for removido, podemos abrir aquela porta. O que tem do outro lado da porta? Podemos voltar pra Grimgar? Não podemos mais voltar?

Mais importante, tenho que encontrar Haruhiro e os outros primeiro. Mas e a Shihoru? Tem problemas demais. Em horas assim, eu realmente preciso do Haruhiro. Sem o Haruhiro por aí, não consigo fazer nada.

Haruhiro…


Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui


Tradução feita por fãs.
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1 comentário

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zoritoler imol

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Anime X Novel 7 Anos

Trazendo Boas Leituras Até Você!

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