Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 13 – Volume 16
Hai to Gensou no GrimgarGrimgar of Fantasy and Ash
Light Novel Online – Volume 16:
Hai to Gensou no Grimgar – Capítulo 13 – Volume 16

13. Ofereço Minha Dor e Rezo
…Estou ouvindo algo.
Que barulho era aquele?
Dói.
Seu corpo inteiro doía. Por toda parte.
— …Urgh.
Uma voz. Seria a dele?
— Ahh…
Ele tentou falar de novo.
É minha. Eu sabia.
Aparentemente, era mesmo a voz dele. O que significava que…
— Eu… ainda… estou… vivo…?
Que lugar é esse?
Estava escuro. Quase um breu total. Quase, mas não completamente.
Ainda assim, doía. Seu corpo latejava. E não era só isso; era mais do que apenas dor. O que seria? Estaria paralisado?
Ele não sabia. Não conseguia sequer entender em que posição estava. Não estava de pé, nem sentado. Isso significava que estava deitado? Estava de lado. Nem de costas, nem de bruços.
Seu lado esquerdo provavelmente estava por baixo. Seria por isso? O fluxo sanguíneo fora interrompido, então sentia tudo dormente. Especialmente o braço esquerdo. Ele não tinha nem certeza se o membro ainda estava lá.
Poderia se mexer? Não saberia até tentar.
Vou tentar me mover.
— Ngh… Nguh…
Conseguia mexer o braço direito, de certa forma. Mas o menor movimento doía muito, então ele não queria muito fazer isso. Sua vontade era apenas ficar parado.
— …Não posso…
Ele não tinha esse luxo. Precisava testar as coisas uma por uma.
Testou os dedos, pulsos, cotovelos e ombros. Eles se moviam, até certo ponto. No braço direito, o que não estava sob o corpo, pelo menos.
Mas estaria amarrado? Provavelmente estava com os pulsos presos. Seus braços estavam atrás das costas, atados com corda ou algo parecido.
— …Meus pés também…?
Parecia que seus tornozelos estavam presos da mesma maneira.
Ele sentia que não era bom ter ficado deitado sobre o lado esquerdo por tanto tempo. Já estava exausto e não sentia mais nada. Não apenas no braço esquerdo, mas na perna esquerda também.
Tentou ficar de costas. Só precisava rolar para a direita. Era tudo o que bastava, mas ele parecia não conseguir.
— Final… mente…
Com muito esforço, ele conseguiu. Suas mãos atadas estavam sob o corpo agora, o que era muito desconfortável. A dormência diminuiu, e a dor cresceu no lugar dela. Dormência ou dor? Qual era melhor? Ambas eram desagradáveis.
— Isso é difícil…
Bem, não podia reclamar. Estava vivo. Foi um golpe de sorte no meio do azar, não é? Ele achou que estava prestes a morrer.
Não seria estranho se tivesse morrido; era o que a situação indicava. Ele ainda suspeitava, lá no fundo, que estivesse morto. Mas, se estivesse, não deveria ser capaz de pensar assim, então ainda devia estar entre os vivos.
Onde era aquilo? O lugar tinha um teto. Havia paredes à sua esquerda e no lado para onde sua cabeça apontava. Havia grades à sua direita, e aquelas coisas—os vermes de luz—flutuavam pelo ar do outro lado.
Um dos vermes de luz entrou pelas grades. Ele circulou vagarosamente pelo teto.
Seria uma prisão ou algo assim? Poderia ser. Era como se estivesse em uma solitária.
— Isso é… ruim…
Os sapatos que estava usando haviam sumido. Estava descalço. E não eram só os sapatos; não tinha roupas também. Tudo o que lhe restava era a roupa de baixo.
O fato de poderem tirar tudo o que ele carregava estava dentro do esperado. Ele até se preparara para essa eventualidade. Tinha escondido lâminas finas por todas as roupas e nas solas das botas. Teriam eles percebido isso? Ou simplesmente o despiram por protocolo?
De qualquer forma, aquele era talvez o terceiro pior cenário que ele imaginara.
O pior era ele morrer, obviamente. Os goblins o matarem. Ele conseguiu evitar isso, ao que parecia. Pelo menos por enquanto.
O segundo pior era não ser morto na hora, mas ficar quase morto, sem condições de fazer nada. Parecia que não era tão ruim assim.
O próximo da lista era ser levado cativo sem nada que pudesse usar. Basicamente, a situação exata em que se encontrava agora.
Onde era aquilo? Dentro de Ahsvasin? E se fosse fora? Isso seria um problema.
Não havia como confirmar se estava dentro de Ahsvasin? Os vermes de luz. O primeiro lugar onde os vira fora nos jardins subterrâneos em frente à estrutura. Havia vermes de luz ali também. Aquela cela ficava dentro de Ahsvasin. Era o que ele queria acreditar, mas não passava de uma suposição otimista de sua parte.
Ele não deveria agir ainda. Tinha que esperar. Esperar? Pelo quê?
Até que pudesse ter certeza de que, independentemente do que mais tivesse acontecido, ele havia conseguido entrar em Ahsvasin.
Será que esperar lhe traria alguma certeza? Ele poderia aguardar apenas para ser torturado e, depois, morto. Não; se a intenção fosse matá-lo, já o teriam feito. Essa era uma forma de ver as coisas. Se estivesse lidando com humanos, teria mais ou menos essa convicção.
Mas eram goblins. Ele não conseguia nem sequer imaginar como os goblins pensavam. Talvez eles tivessem algum tipo de processo pelo qual passavam antes de matar os humanos capturados dentro da Cidade Nova.
No momento, ele sentia dor, uma dor inacreditável, mas estava conseguindo tolerar de alguma forma. Contudo, a situação poderia piorar. Ele poderia perder sangue demais, ou suas feridas poderiam infeccionar, deixando-o inconsciente. Poderia morrer assim.
Afinal, os ferimentos de lança no braço direito, na coxa esquerda e no ombro esquerdo não eram superficiais. Seu pescoço também doía bastante; fora ali que o goblin o pegou com aquela ferramenta estranha.
Seu rosto também o incomodava. Devem tê-lo arrastado até ali, pois ele sofreu uma boa quantidade de escoriações e pancadas pelo caminho. Seu nariz estava sangrando, ou esteve e já parou; de qualquer forma, estava completamente entupido. Ele só conseguia respirar pela boca.
Sua barriga e suas costas provavelmente também estavam bem feridas, mas ele não conseguia distinguir nada em meio a tanto sofrimento. A dor estava anulando a própria dor.
Ou melhor, seria bom se isso fosse verdade, mas ele simplesmente não conseguia julgar a gravidade de cada ferimento. A dor continuava lá, onipresente.
Eu não posso esperar—provavelmente.
Para começo de conversa, era impossível relaxar naquela situação. Se fosse para continuar tentando tolerar a dor e acabar morrendo de qualquer jeito, seria patético demais. Era difícil dizer que ainda lhe restavam reservas de força, mas ele percebeu que precisava se mover enquanto conseguia. Ou melhor, não tinha outra escolha.
Ele teria que recorrer à opção que menos desejava. Mas o que mais poderia fazer? Já havia se decidido. Só precisava agir agora.
Como era impossível fazer o que pretendia deitado de costas, ele rolou novamente para o lado esquerdo. Ter os pulsos amarrados era um problema, mas ele de alguma forma conseguiu se posicionar para tatear o lado direito do próprio corpo com a mão direita.
Não foi fácil. O ombro esquerdo, que estava por baixo, doía terrivelmente. Sua respiração estava pesada e difícil.
Dói. Por que dói tanto? Ah, que se dane. Não aguento mais. Quero desistir. Quero chorar também. Mas não vou. Não sei… Talvez eu esteja chorando. Tudo bem chorar, ninguém tá olhando. Mas não vou.
As unhas de ambas as mãos estavam afiadas, não aparadas.
Eu não queria fazer isso. Não se pudesse evitar. Mas eu vou.
Ele começou a arranhar o próprio lado do corpo com o dedo indicador. Com força. O mais forte que conseguia.
Não deu? Assim não vai funcionar. Desse jeito, não.
Ele então beliscou a própria pele entre o indicador e o polegar. Torceu, e torceu com mais força ainda.
— Ngh…! Guh, guh, guh, nghhh…!
Ele quis afrouxar a mão. Obviamente, não afrouxou. A pele se rasgou.
— Aaah…!
Agora havia um buraco no lado direito do seu corpo.
Acho que é grande o suficiente pra enfiar o dedo. Não, parece que não.
Ele teria que aumentá-lo, então.
Falando assim, até parece fácil.
Mas ninguém tinha dito nada do tipo. Ele forçou a abertura do buraco e enfiou o dedo indicador. Por baixo da pele.
Ah, droga. Ah, droga. Eu não gosto disso. Realmente não gosto. Não quero fazer isso.
Mas ele encontrou. Estava lá. A relíquia. O objeto em forma de broto que Hiyo havia implantado nele.
Ele já sabia que estaria ali, mas de que adiantava saber? Não era nada para se comemorar. Ele precisava retirá-lo agora. Não conseguiria agarrar apenas com o indicador; precisaria do polegar também. Teria que se ferir ainda mais? Sim. Não tinha escolha.
— Ghhhhhhhhhhhhhh… Ahh… Urghhhhhhhh…
Entrou. Ele conseguiu enfiar o polegar e segurar a relíquia. Agora, era só puxar. Isso não era difícil. Bem simples, na verdade.
— Auuuuuuuugwarghhhhhhhhhhhhhhhhhhhh…!
Nesse exato momento, um grito ecoou pela sala. O que foi aquilo? Goblins?
Provavelmente. Ele estava ouvindo vozes de goblins. E ruídos.
Sons.
Passos? Aproximando-se.
O que ele faria agora?
A relíquia. Ele quase a tinha em mãos. Tudo o que precisava era puxar. Seria prudente fazer isso? Ou não? Deveria deixá-la lá? Mas ele estava sangrando. Bem, ele já tinha outros ferimentos; estava coberto de sangue. Eles não notariam.
Os passos estavam bem perto agora. Algo batia na parede ou nas grades conforme se aproximavam.
— Merda… Eu não sei o que fazer…!
Ele arrancou a relíquia, segurando-a na mão direita, e virou-se para as grades.
Doía. Ah, maldita dor. Seu lado direito ardia porque era uma ferida aberta e fresca. Isso só fazia doer ainda mais.
O som chegou, batendo nas grades com um bastão vermelho enquanto avançava. Era o goblin cicatrizado. Ele trazia outros goblins consigo. Quatro? Cinco deles?
Parecia que o objeto que o goblin cicatrizado segurava era a mesma arma de antes. O bastão tinha uma parte em forma de anel na extremidade que podia ser destacada e lançada para prender o inimigo pelo pescoço. Era como um laço.
O goblin cicatrizado usou o objeto para dar ordens aos outros. Um dos goblins deu um passo à frente e tocou as grades. Parecia haver uma porta ali. Eles iam destrancá-la e abrir.
Os olhos de Haruhiro pararam no goblin que estava lá atrás. Espere um pouco… aquilo era mesmo um goblin?
Sua pele era terrivelmente pálida em comparação aos outros. Parecia branca, pelo menos sob a iluminação fornecida pelos vermes de luz.
Do ponto de vista humano, os goblins tinham as costas curvadas, com as cabeças projetadas para a frente. Mas aquele era diferente.
Ele se mantinha ereto, embora tivesse quase a mesma altura dos demais. Tinha uma constituição magra e frágil e, em mais uma divergência do comum, vestia um robe preto folgado.
A porta se abriu e o goblin cicatrizado entrou.
Aquele goblin branco… poderia ser um ugoth? Não seria um sábio?
O goblin cicatrizado caminhou até ele. E pisou em sua cabeça.
— Yee, hee, hee, hee!
Vai pro inferno.
Seria mentira dizer que Haruhiro não estava furioso, mas ele estava mais interessado no goblin que julgava ser um ugoth. Os outros goblins não entraram na cela.
— Ei…! — Haruhiro gritou com todas as forças que lhe restavam.
O ugoth olhou para ele. Se Hiyo não estivesse mentindo, os ugoths entendiam a língua humana. Ele ia berrar algo mais, mas o goblin cicatrizado esmagou o pé contra sua cabeça, ergueu-o bem alto e—
Hein? O quê? O que ele vai fazer? Me chutar? Ele vai me chutar?
— Agah…!
Oh, ele sentiu aquela. Por um momento, sua mente deu um branco. E a relíquia? Estava tudo bem. Ele a estava segurando. Ainda estava em sua mão, por pouco.
Assim que ele ajustou o aperto na relíquia, o goblin cicatrizado o chutou de novo. No queixo, desta vez. Se não tivesse cerrado os dentes bem a tempo, poderia ter mordido a língua.
Sua cabeça parecia enevoada. Tinha que ser cuidadoso para não deixar a relíquia cair. Acontecesse o que acontecesse, não podia perdê-la. Tinha que segurar firme. Se a deixasse cair, estaria acabado.
— Você… fala…
Supunha-se que os ugoths falavam a língua humana. Ele queria que a criatura o ouvisse.
— Daaaag!
O goblin cicatrizado atingiu Haruhiro com aquela ferramenta. O anel se abriu, envolveu seu pescoço e fechou. Ele não conseguia respirar. Doía.
— Você fala a língua—
Estava sendo puxado. O goblin cicatrizado estava tentando arrastar Haruhiro.
Não adiantava. Ele não conseguia falar. Tudo o que saía era “Gah” e “Goh”. Seria a hora?
Devo usar a relíquia agora?
O goblin cicatrizado era implacável. E forte, também. Haruhiro estava com as mãos e os pés atados. Não conseguia andar. Com as mãos presas atrás das costas, não conseguia nem rastejar de quatro. O goblin continuou arrastando-o daquele jeito.
Esqueça se aquele goblin era um ugoth ou não. Ele não consegue respirar. Vai desmaiar? Ou, pior ainda, morrer?
O goblin cicatrizado não parou depois que saíram da cela. Continuou arrastando Haruhiro. Até onde planejava levá-lo?
Se vai ser assim, vou usar a relíquia.
Não—espere.
O goblin cicatrizado estava tentando levar Haruhiro para algum lugar. Com um ugoth.
Supostamente, os ugoths serviam ao mogado. Se Hiyo não estivesse mentindo… O que aquilo significava?
— Uagh, gah, guhh…
Tá doendo. Não consigo respirar. Tôsufocando aqui. Você vai me matar.
O goblin cicatrizado continuou arrastando Haruhiro. Para onde estava tentando levá-lo? Tinha escolhido não matá-lo.
Certo. Sim, aquilo doía e ele estava sofrendo, mas Haruhiro ainda não estava morto. Eles o haviam derrotado facilmente no jardim subterrâneo. Aquilo tinha que ser deliberado, não era?
O goblin cicatrizado estava se contendo de alguma forma. Talvez estivesse arrastando Haruhiro de um jeito que não o fizesse desmaiar.
Para onde estava tentando levar Haruhiro? Para o mogado, talvez? Se fosse o caso…
— Nguh, wah, gagh, augh…
Ah, cala boca.
Sua voz continuava escapando por conta própria. Ele não conseguia contê-la. Estava sofrendo.
O goblin cicatrizado estaria mesmo se contendo? Talvez não. Não estaria ele apenas o arrastando com toda a força que tinha? Do tipo: se ele morrer, morreu, e a gente lida com isso se acontecer?
Seja como for, estava sendo tratado de forma terrível. Aquilo era jeito de tratar uma pessoa? Era além de bárbaro. No fim, era apenas um goblin. Ele errou ao esperar algo melhor.
O que ele estava esperando? Nada.
Não aguento. Não tem como. Eu tôacabado de verdade.
Ele provavelmente já estava muito além dos seus limites. Só se apegava à consciência reclamando dentro da própria cabeça desse jeito. Ah, e insultando-os. Odiando-os. Amaldiçoando-os.
Por que ele tinha que passar por aquilo? O que ele tinha feito para merecer isso? Tinha cometido algo que justificasse esse tipo de punição?
Ah, certo, eu matei goblins, né?
Pelo visto, ele tinha matado um monte deles antes de perder a memória também. Talvez não estivesse em posição de reclamar. Se aquilo fosse a vingança dos goblins, eles poderiam ter certa razão.
Isso dava vontade de desistir.
Não que tudo fosse uma questão de determinação, mas se perdesse a vontade em um momento como esse, ele estaria perdido. Não importava o quão feio parecesse, ele tinha que continuar se agarrando à vida. Não havia como suportar sem esse sentimento.
É inútil. Isso não faz sentido. Eu deveria parar de tentar aguentar.
Eu só quero relaxar.
Se eu tiver que morrer, que seja rápido. O mais rápido que puder.
Vocês não podem simplesmente me deixar morrer logo?
Ele estava no limite. Queria morrer. Não conseguia morrer por conta própria e ainda não ia simplesmente apagar, então implorava silenciosamente para que acabassem com ele.
Se esse morrer lento e sem esperança desse mais um passo, com esse único deslize ele desistiria de sobreviver. Ele estava se segurando logo antes desse ponto? Ou não?
Não, ele devia estar. Porque Haruhiro ainda tinha a relíquia na mão. Isso provava.
De repente, em vez de ser arrastado, Haruhiro foi arremessado para frente e rolou de lado. Não estava claro se aconteceu logo antes, ao mesmo tempo ou logo depois, mas o anel em volta do seu pescoço se soltou.
Sua garganta ardia, mas respirar ficou mais fácil. A dor ao inspirar e expirar era intensa. Mesmo assim, ele tragou todo o ar que pôde. Embora tossisse e sentisse que fosse vomitar, o oxigênio estava se espalhando rapidamente pelo seu corpo. Ele conseguia sentir.
Seu rosto era uma bagunça de lágrimas, sangue, saliva e sabe-se lá mais o quê. Ele não fazia ideia do que estava acontecendo. Não conseguia enxergar muito bem e não sentia cheiro de nada. Estava com tanta dor que nada fazia sentido.
— Heah! Mogado! Gwagajin!
Era a voz do goblin cicatrizado. Mogado. Gwagajin.
O rei goblin. O Mogado. Mogado Gwagajin.
Seria possível que aquela fosse a câmara real, ou algo do tipo?
— Mogado!
— Gwagajin!
— Mogado, Gwagajin!
— Heah! Mogado! Heah!
Os goblins repetiam o chamado. Não havia dúvidas sobre o que aquilo significava. Haruhiro piscou repetidamente, tentando fazer algo contra sua visão embaçada.
Aos poucos, sua vista retornou. Goblins. Havia tantos deles. Ao redor de Haruhiro e do goblin cicatrizado, a massa de criaturas formava um círculo de dez ou até vinte fileiras de profundidade.
Estava bem claro. Seriam os vermes de luz? Não. A luz brilhava vinda de cima. Era luz do sol, não era? Havia uma claraboia. Era dia agora? Parecia que sim.
Onde estava Mogado Gwagajin? Ali.
A cerca de dez metros de distância, havia algum tipo de andaime ou torre. Era dourada. Lá no topo, havia… um humano? Seria um humano? Não podia ser. Era um goblin que usava roupas finas de tecido vermelho, azul e branco, como um humano de alto escalão usaria.
Ele segurava um cajado vermelho e tinha uma coroa na cabeça. Aquele tinha que ser o Mogado. O rei dos goblins. Mogado Gwagajin.
Abaixo da torre dourada estavam goblins brancos em robes pretos. Havia mais de um; quantos seriam? Quatro deles. Eram quatro ugoths.
As aclamações não paravam. Alguns batiam os pés no ritmo dos gritos, enquanto outros batiam no peito. Os goblins estavam excitados. Até o goblin cicatrizado ao lado de Haruhiro balançava sua ferramenta no ar, gritando o nome de seu mestre.
Os quatro ugoths apenas observavam, imóveis. Mogado Gwagajin, no topo de sua torre dourada, estava sentado em algum tipo de cadeira, sem se mexer nem um pouco. Ele parecia um ornamento. Seria um goblin vivo? Ou um modelo feito para se assemelhar ao mogado?
Não. Ele era real. Mogado Gwagajin ergueu seu cajado de hi’irogane. No momento em que o fez, os goblins ficaram ainda mais barulhentos.
Devo esperar? Continuo esperando? Ou ajo agora?
Não demore.
Não se apresse.
Ambas as ideias pareciam certas. Talvez ambas estivessem erradas. Era apenas um pressentimento; não havia lógica nisso. Haruhiro teve que reconhecer aquilo.
Minha cabeça não está funcionando. Não dá. Não consigo pensar direito.
Haruhiro pressionou a parte inferior da relíquia em forma de broto. Foi necessário mais do que um pouco de força para empurrá-la para dentro. Ele deu tudo de si.
Funcione. Por favor. Eu estou implorando. Tudo o que posso fazer agora é rezar.
A relíquia começou a vibrar. Parecia ter sido ativada. Haruhiro a arremessou. Com as mãos presas atrás das costas, ele não pôde vê-la, e estava barulhento demais para ouvi-la atingir o chão.
Isso vai dar certo, não vai? Tá funcionando, né?
Houve um som alto e prolongado—tuuuuuuuuuuuuong—fazendo os goblins olharem para cima. Eles soltaram ganidos ou gritos enquanto saltavam para longe.
Haruhiro virou a cabeça para olhar para trás. Tinham lhe dito o que aconteceria, mas ele não vira uma demonstração real da relíquia funcionando, então ficou olhando em espanto mudo por um momento. Eles não podiam se dar ao luxo de testar.
Aquelas relíquias eram itens de uso único e vinham em conjunto. Quando você ativava uma, acionava a outra também.
Ele só conseguia descrever o que via como algo maravilhoso. Havia um buraco oblongo no espaço, talvez do tamanho de uma porta deixada entreaberta. Do outro lado, havia um lugar inteiramente diferente. Estava conectado às ruínas na Cidade Velha.
Uma das relíquias fora implantada no lado direito de Haruhiro. Hiyo estava carregando a outra.
O ideal seria ter entrado em Ahsvasin sem ser capturado. Era o que Haruhiro tentara fazer, mas falhou. A segunda melhor opção era entrar o mais longe que pudesse e então usar a relíquia. Ou usá-la quando fosse feito prisioneiro.
Kiichi deve ter avisado aos companheiros que ele fora capturado. Eles estariam esperando que isso acontecesse a qualquer momento.
Kuzaku foi o primeiro a saltar para este lado.
— Hoo-rahhhhh…! — Kuzaku berrou como um idiota e mandou o goblin cicatrizado voando, então girou sua grande katana, intimidando os goblins.
— Saiam da frente! Agora! Querem morrer? Gwarrrgh?!
Você é algum tipo de bandido?, Haruhiro quis zombar. Kuzaku era uma visão reconfortante. Era um pouco embaraçoso admitir isso. Além do mais, ele não tinha tempo para ficar aliviado.
— Haru…!
Em seguida veio Mary, depois Setora e Kiichi quase ao mesmo tempo.
Mary provavelmente já tinha pensado em múltiplos cenários possíveis e decidido o que fazer em cada um deles. Seus olhos se arregalaram ao avistar Haruhiro, e ela imediatamente fez o sinal do hexagrama.
— Ó luz! Que a proteção divina de Lumiaris esteja sobre você… Sacrament!
Oh, aquela luz era um milagre genuíno. Honestamente, Haruhiro estivera à beira da morte. Ele não teria durado muito mais. Parecia que já estava meio morto.
A dor que o fizera pensar que morrer seria mais fácil, aquele sofrimento sem esperança, desapareceu rapidamente, sumindo por completo em questão de instantes.
Kiichi usou habilmente uma pequena lâmina para cortar as cordas que prendiam as mãos e os pés de Haruhiro.
Setora girou sua lança, atingindo um goblin que ainda estava por perto. Ela lançou a adaga que guardava na cintura para Haruhiro.
— Haruhiro!
— Valeu!
Incomodava-o um pouco estar vestindo nada além de sua roupa de baixo, mas não havia tempo para reclamar. Haruhiro pegou a adaga e levantou-se, olhando para Mogado Gwagajin. Ele ainda estava no topo da torre dourada. Não se movera. Nem os ugoths.
Logo após Neal e Hiyo mergulharem para este lado, o buraco no espaço criado pela relíquia encolheu, emitiu um guincho bizarro e desapareceu sem deixar vestígios.
Não havia mais volta. Mesmo para Hiyo, a mente por trás do plano, aquilo era uma aposta de tudo ou nada.
— Ouça-me, sábio ugoth!
Ainda assim, era difícil acreditar que ela pudesse soar tão digna.
— Ofereço uma proposta humilde a Sua Majestade, o bravo e glorioso Mogado Gwagajin!
Isso não mudava o traje estranho que ela usava, mas, para os goblins, ela era apenas mais uma humana. Eles não veriam nada de estranho em suas vestes. Hiyo deu um passo à frente sem hesitação, abrindo os braços, estufando o peito e olhando para cima, em direção a Mogado Gwagajin.
Os goblins a encaravam, como se pensassem: O quê? O que está acontecendo? O que há com essa mulher humana? Os quatro ugoths pareciam artificiais, sendo difícil decifrá-los, mas voltaram seus olhos para Hiyo e pareciam escutar.
— Que herói — murmurou Neal. Ele provavelmente falava de Haruhiro, mas Haruhiro só podia assumir que ele estava sendo insincero.
— Sábios ugoths! Eu lhes suplico! Por favor, transmitam nossas intenções a Sua Majestade, Mogado Gwagajin!
Hiyo aumentou ainda mais o tom de voz. Mais do que isso, deu um ou dois passos à frente.
— Não buscamos mais conflitos com a raça goblin! Desejamos forjar a paz com seu povo!
Sem tirar os olhos de Hiyo, o rei gritou algo como: “Rah! Dashah!”. Provavelmente para os ugoths na base da torre. Haruhiro não sabia ao certo, mas presumiu que significava: “O que essa humana está dizendo?”
Um dos ugoths olhou para Mogado Gwagajin e começou a falar. Haruhiro não conseguia ouvir devido ao falatório dos outros goblins. Parecia que Gwagajin também não, pois gritou e bateu a base de seu cajado contra o chão da torre dourada, furioso.
Aquilo era, provavelmente, um comando de “Silêncio!”. Todos os goblins se calaram.
Haruhiro moveu-se entre os goblins, já se aproximando da torre dourada. Ele estava usando Stealth, então ninguém o notou.
Os goblins se amontoavam ao redor da torre, cercando Hiyo e o restante do grupo. Os quatro ugoths estavam posicionados nos quatro cantos da estrutura.
Havia um espaço de cinco a seis metros entre a torre e a parede. Haruhiro chegou lá. Mogado Gwagajin deve ter subido e descido por ali; havia uma escada montada.
O rei e os ugoths ainda discutiam algo. Haruhiro subiu a escada.
A torre dourada era bastante impressionante. Parecia que o andaime era feito de metal. Embora o uso excessivo de decorações em ouro pudesse não ser de bom gosto ou agradável aos olhos, havia padrões de aparência poderosa esculpidos nela, e ficava claro que fora construída com cuidado.
Haruhiro alcançou o topo.
Mogado Gwagajin estava sentado bem diante de seus olhos. Havia uma pequena cadeira ali, mas o goblin estava basicamente montado nela. Ele era realmente grande para um goblin. Mesmo se tirasse sua coroa de hi’irogane, ele passava facilmente dos 150 centímetros de altura.
Graças a isso, Haruhiro conseguiu se esconder atrás dele, mantendo a postura baixa.
Olhando para baixo da torre dourada, finalmente caiu a ficha de quão grande era aquela sala e de quantos goblins havia ali.
Aquele espaço, que presumivelmente era o salão de audiências de Mogado Gwagajin, não era quadrado, mas tinha um formato arredondado com mais de trinta metros de largura. O teto também era alto, com uns cinco ou seis metros. Havia inúmeras claraboias ovais que pareciam ter vidro nelas.
Havia nada menos que mil goblins no salão. Talvez o dobro disso.
Próximo à torre dourada, estavam os goblins equipados com itens de hi’irogane. Os associados próximos de Mogado Gwagajin, que Barbara-sensei chamava de “Os Cem”.
Com tantos goblins os cercando, Hiyo, Kuzaku e os outros pareciam minúsculos e insignificantes. Se Mogado Gwagajin desse a ordem, todos eles avançariam sobre os humanos. Por melhor que lutassem, levariam, na melhor das hipóteses, uns cem goblins com eles. Mesmo que massacrassem duzentos ou trezentos, era improvável que conseguissem escapar daquele salão.
Era uma questão de vida ou morte para todos. Ele não gostava disso, mas suas vidas dependiam do discurso de Hiyo.
— Mogado Gwagajin! — Hiyo puxou uma espada de sua bolsa. Era longa demais para caber ali, mas o mais importante, ao menos para os goblins, era o fato de ser feita de hi’irogane.
— Eu trouxe a espada da sua mão direita, o Vice-Rei, Mod Bogg! Também coletamos muitas outras peças de equipamento de hi’irogane! Nós as devolveremos a você como prova de nossa amizade!
— Dasshah! — gritou Mogado Gwagajin. Os ugoths diziam algo.
Haruhiro poderia agarrar Mogado Gwagajin a qualquer momento. Provavelmente poderia até matá-lo. Mas aquilo era o último recurso.
— Tenho certeza de que Sua Majestade, o grande Mogado Gwagajin, e seus sábios ugoths já sabem disso, mas outrora formamos um pacto secreto com a raça goblin e escolhemos seguir o caminho da prosperidade mútua!
Os ugoths traduziam o que Hiyo dizia para o rei.
— Faz muito tempo que essa promessa deixou de ser cumprida, mas estamos confiantes de que podemos cooperar com a raça goblin! É inquestionável que, ao darmos as mãos, seu povo lucrará grandemente—
Mogado Gwagajin apontou seu cajado para Hiyo. Ele provavelmente ordenava que ela ficasse em silêncio. Hiyo interpretou dessa forma e fechou a boca.
Os intérpretes não estavam conseguindo acompanhar o ritmo. Seria por isso que Gwagajin a silenciara no meio? Apenas por isso?
O ugoth terminou a tradução. Mogado Gwagajin bateu o cajado contra o chão da torre. Havia algo de sinistro naquilo.
Quando sentiu isso, Haruhiro já estava se movendo. Mogado Gwagajin provavelmente estava prestes a dar uma ordem aos goblins. Algo na linha de “matem todos os humanos”, talvez. Haruhiro precisava impedi-lo. Não havia outra forma.
— Keah—
Gwagajin ia gritar algo, mas virou-se para olhar para trás, surpreendendo Haruhiro. Ele o notou? Detectou sua presença? Esse mogado era especial.
Por estar chocado, seus movimentos foram desleixados, ou melhor, brutos.
Ele agarrou Mogado Gwagajin e encostou uma adaga em sua garganta. O goblin era grande para a sua espécie, mas Haruhiro ainda era maior.
Se ele mostrasse qualquer sinal de resistência, Haruhiro não hesitaria em agir. O que aconteceria se o matasse ali? Era uma pena não ter tempo para raciocinar, mas não havia escolha.
Era sua única opção.
— Fuuungh… Fungh… Fuuumh…
Mogado Gwagajin estava transbordando de arrependimento. Bufava de raiva, rangia os dentes e encarava Haruhiro com um olhar de fúria.
Os goblins no salão ficaram em silêncio absoluto. Deviam acreditar que qualquer pio causaria a morte de seu mestre.
— P-Pare! Não faça isso! — gritou um dos ugoths na base da torre.
— Queremos que ouçam tudo o que temos a dizer. Diga isso a Gwagajin — disse Haruhiro, e o ugoth começou a traduzir.
Mogado Gwagajin apenas cerrou os dentes, sem responder.
Eu diria que as chances são de cinquenta por cento, pensou Haruhiro.
Ele não estava pensando com calma. Seu coração estava disparado e suas pernas pareciam fracas. Sua mão tremia de medo. Achar que havia metade de chance de dar certo era apenas uma forma de tentar fingir tranquilidade.
Mogado Gwagajin poderia dizer “apenas matem-nos”. Nesse caso, Haruhiro tiraria sua vida imediatamente.
Se ao menos um deles conseguisse sair vivo do caos seguinte, já estariam no lucro. Ou talvez ele aceitasse negociar. Ou fingisse aceitar para escapar da situação.
Como as chances eram de cinquenta por cento mesmo?
— Altana! — Hiyo estava desesperada também. Seu tom e expressão estavam tensos de um jeito que ele nunca vira antes. Não parecia ser encenação.
— Ó Mogado Gwagajin! Estamos preparados para entregar Altana à raça goblin mais uma vez!
Haruhiro quase soltou um “O quê?”. Ele estava totalmente confuso. Foi difícil evitar que isso transparecesse.
Entregar Altana… Espera, o quê?
Que merda é essa?
Ninguém me contou nada sobre esse plano.
Tradução: ParupiroHPara estas e outras obras, visite o Cantinho do ParupiroH – Clicando Aqui
Tradução feita por fãs.
Apoie o autor comprando a obra original.