The Great Cleric â CapĂtulo 16 â Volume 2
The Great ClericSeija Musou
Arco 3: Uma Pedra Melhor Deixada Intacta
Light Novel Online – CapĂtulo 16:
[Lumina â A CapitĂŁ das ValquĂrias]
Meu nome Ă© Luminalia Arcs Francisque. Nasci neste mundo como a segunda filha do Conde Francisque, do ducado de Blanche, com uma vida cercada de privilĂ©gios. Meu pai pertencia a uma facção, e quando eu tinha nove anos, fui prometida ao herdeiro de seu superior, o marquĂȘs.
Eu acreditava ser uma criança dócil e, quando não estava envolvida em aulas de etiqueta ou questÔes de Estado, adorava ler. A maioria das crianças se tornava adulta aos quinze anos, após sua cerimÎnia de maioridade. Mas para a nobreza, não era assim. Nosso futuro era decidido desde cedo, de forma eficiente.
Então, no meu aniversårio de doze anos, meu mundo mudou quando a Deusa Crya me concedeu, em minha própria cerimÎnia, uma vocação: paladina.
Paladinos eram indivĂduos de grande força, muitas vezes dotados de afinidade com magia sagrada ou de luz, ou atĂ© mesmo ambas. Eram superiores a guerreiros, curandeiros e magos em todos os aspectos. Alguns se tornavam paladinos apĂłs atingirem o nĂvel seis em sua classe original e participarem de uma cerimĂŽnia com um rei, imperador ou mĂstico, mas nascer com esse tĂtulo era algo extremamente raro. Era uma vocação admirĂĄvel. Mas eu nĂŁo me alegrei. Porque eu sabia a verdade. Meus pais, embora tenham sorrido para mim, certamente choraram em seus coraçÔes.
No dia seguinte, meu pai me informou que, ao atingir a maioridade, eu partiria para a Cidade Sagrada da RepĂșblica de Saint Shurule, onde me uniria Ă Igreja. Meu noivado foi cancelado, e meus pais rapidamente perderam o interesse por mim.
A maioria dos paladinos se tornava cavaleiros de sua terra natal aos quinze anos. Mas essa era uma liberdade concedida apenas aos homens da nobreza ou aos plebeus. Eu não tive esse privilégio. Foi minha punição, o fardo que carreguei por ter recebido uma dådiva superior à do meu antigo noivo.
Minha vida mudou drasticamente. As aulas de etiqueta deram lugar ao treinamento de combate. O tempo que eu dedicava Ă costura ou Ă pintura foi substituĂdo por prĂĄticas de equitação. Os contos que eu amava ler tornaram-se uma coleção de grimĂłrios. Aos quatorze anos, um ano antes do habitual, pois a paciĂȘncia do marquĂȘs começava a se esgotar, fui enviada para a Igreja e me tornei uma paladina, momento em que atĂ© meu nome sofreu uma mudança, e passei a ser chamada de “Lumina”.
Eu guardava em meu coração as histĂłrias de herĂłis e mĂsticos, de sĂĄbios e paladinos que lia na infĂąncia. E, embora nĂŁo me considerasse uma moralista, era uma mulher de princĂpios e dediquei-me ao serviço do povo. Eu queria ser como os paladinos das histĂłrias que tanto admirei, manter a cabeça erguida e viver com orgulho. NĂŁo importava que eu tivesse sido expulsa de casa.
Mas a realidade da Igreja era difĂcil de suportar. Homens subornavam e acumulavam riquezas, ganhando reputação como mercenĂĄrios gananciosos. Lutavam por poder atravĂ©s do dinheiro. Vi muitas vidas serem destruĂdas por suas mĂŁos. A sede da Igreja se revelou um verdadeiro covil de ladrĂ”es.
Senti medo e chorei inĂșmeras vezes. Mas os paladinos estavam acima dos curandeiros e templĂĄrios, e nenhum desses vilĂ”es tinha autoridade sobre mim. Jurei me tornar mais forte, e minha capitĂŁ, Lady Catherine, esteve ao meu lado.
EntĂŁo, quando finalmente alcancei a maioridade, uma segunda cerimĂŽnia foi realizada para mim, e Lady Crya me concedeu uma nova visĂŁo. A afinidade mĂĄgica, a prĂłpria natureza de um indivĂduo, tornou-se visĂvel para mim. Batizei essa habilidade de “VisĂŁo de Aura”. Ela nĂŁo possuĂa traços fĂsicos distintivos, entĂŁo ninguĂ©m sabia de sua existĂȘncia. Dominar esse poder tornou-se minha maior motivação.
Aos dezoito anos, Lady Catherine Frena, a CapitĂŁ da Guarda, me convocou.
â Me siga â ordenou.
â Sim, senhora.
Acompanhei-a até os aposentos do próprio papa.
â Catherine, vocĂȘ pretende mesmo se retirar da guarda? â perguntou Sua Santidade.
â Sim, Vossa Santidade â respondeu minha capitĂŁ. â Minha incapacidade de liderar os cavaleiros Ă© a causa direta das injustiças que assolam os paladinos. AlguĂ©m precisa ser responsabilizado, ou o ciclo continuarĂĄ.
â Os culpados jĂĄ foram enviados ao labirinto e eliminados. VocĂȘ nĂŁo estĂĄ entre eles.
â Isso nĂŁo serĂĄ suficiente para expurgar a podridĂŁo da Igreja, Vossa Santidade.
Prendi a respiração. Mal podia acreditar no que ouvia. Lady Catherine… retirando-se da guarda? Ela comandava os paladinos, os templĂĄrios, todos os cavaleiros da Igreja. O papa havia concedido a ela um sobrenome â uma honra rara, dada apenas a poucos escolhidos entre os mais altos bispos. Somente atravĂ©s de imenso esforço e mĂ©rito alguĂ©m poderia receber tal tĂtulo de Sua Santidade. E Lady Catherine era uma dessas pessoas.
NĂŁo havia palavras para descrever o choque que senti ao ouvir sua decisĂŁo.

â Para esse fim, tenho um pedido â disse meu capitĂŁo.
â O que Ă©? VocĂȘ sabe que atenderia a quase qualquer desejo seu.
â Obrigado, Sua Santidade. O que peço Ă© dividir os templĂĄrios e paladinos em oito.
â Por quĂȘ? â perguntou o outro hesitante.
â Se queremos erradicar a corrupção, devo sair do centro do palco. Assim, a podridĂŁo pode ser eliminada sem que sujemos nossas prĂłprias mĂŁos.
â Oh?
â Ao dividir os cavaleiros em oito ramos, limitaremos sua capacidade de agir nas sombras â continuou Lady Catherine. â Podemos evitar que jovens talentosos como Lumina se tornem vĂtimas de lĂderes que abusam de seu poder e autoridade sem escrĂșpulos.
â E como pretende fazer isso?
â JĂĄ tenho seis candidatos em mente para comandar trĂȘs regimentos de templĂĄrios e trĂȘs de paladinos, Sua Santidade.
â Acho que entendi errado? Pensei que seriam oito no total.
â De fato â ela disse. â Mas nĂŁo daria mais peso aos novos lĂderes se os tĂtulos restantes fossem conquistados?
â VocĂȘ quer… â O papa interrompeu-se.
â Sim. Quero testar as habilidades de nossos cavaleiros em um torneio de combate. E pretendo julgar cada luta para garantir que tudo seja justo e adequado. Assim que os oito capitĂŁes de regimento forem escolhidos, concentrarei a corrupção em duas dessas unidades.
â VocĂȘ estaria arriscando a prĂłpria existĂȘncia da Igreja.
â Sem dĂșvida. E estou preparada para dar minha vida para erradicar essa corrupção.
Sua Santidade fez uma pausa.
â Muito bem.
â Por fim, sĂł peço que o regimento de Lumina, quando ela conquistar seu tĂtulo, seja composto apenas por mulheres. Se for possĂvel, Sua Santidade.
â Assim serĂĄ feito. VĂĄ com minhas esperanças, Catherine.
â Obrigada, Sua Santidade.
Lady Catherine me guiou para fora da cĂąmara, enquanto a confusĂŁo ainda era evidente no meu rosto.
â Lady Catherine, nĂŁo tenho certeza sobre isso â falei nervosa. â Eu nunca venceria um torneio!
Ela riu.
â Isso Ă© um absurdo e vocĂȘ sabe disso. SĂł preciso que dĂȘ o seu melhor. O destino da Igreja depende disso.
â Mas eu…
â Eu conheço vocĂȘ, Lumina â ela me interrompeu. â Sei o quĂŁo gentil e tĂmida Ă©. E tambĂ©m sei do seu dom especial. EntĂŁo, estou lhe dando uma ordem: torne-se capitĂŁ.
â Como sabe sobre minha visĂŁo? â perguntei, chocada.
â Quando me alistei pela primeira vez, conheci alguĂ©m com a mesma habilidade. A capacidade de ver auras, ler pulsos mĂĄgicos, antecipar os movimentos do oponente e desviar de feitiços. VocĂȘs lutam da mesma forma. TambĂ©m sei que o uso excessivo disso a exaure terrivelmente.
â Onde essa pessoa estĂĄ agora?
â Se foi â ela disse. â Essa pessoa e vĂĄrios outros cavaleiros caĂram diante dos gananciosos e corruptos.
â Eu… Sinto muito â falei baixinho. A Igreja me decepcionava mais uma vez.
â Lumina â Lady Catherine me trouxe de volta Ă realidade. â Por favor, me ajude a restaurar a Igreja como um lugar de nobreza e virtude. Ajude-me a punir os corruptos. Isso nĂŁo pode ser feito sem sua força.
â Por favor, nĂŁo diga mais isso! â insisti. â Tudo bem. Darei o meu melhor, eu prometo.
Eu estava abalada. Quanta dignidade ela demonstrava, mesmo com a cabeça baixa.
Um mĂȘs depois, saĂ vitoriosa do torneio e me tornei capitĂŁ do Regimento de Paladinas ValquĂrias. Com cinco mulheres sob meu comando, viajamos pelo continente. Um ano se passou e nossa unidade cresceu para onze membros. Foi entĂŁo que percebi um pulso mĂĄgico tĂmido, mas vibrante e brilhante, nos arredores de Merratoni. A origem era um jovem.
Meus dias como capitĂŁ das ValquĂrias, o quarto regimento de paladinos da Sede da Igreja de Saint Shurule, eram agitados. Nossos deveres consistiam principalmente em vigilĂąncia e eliminação dos inimigos da Igreja. Enquanto isso, a CapitĂŁ Catherine â agora sob o pseudĂŽnimo de Cattleya â lidava com finanças e relaçÔes.
Encontrei-me com ela recentemente, e notei que havia suavizado desde seus tempos como capitĂŁ, tornando-se mais feminina. Admirava a Lady Catherine do passado e me esforçava para imitar sua maneira de falar digna e elegante, o que divertia minhas subordinadas, jĂĄ que eu raramente falava com tanta eloquĂȘncia. Eu repassava informaçÔes a ela ao retornar de missĂ”es, mas faltava uma peça crucial, a chave para expor a corrupção da Igreja.
â Ah, se ao menos alguĂ©m conquistasse esse labirinto… â lamentou-se.
Poucas pessoas gozavam da confiança de Lady Cattleya. Entre elas, o infamemente impassĂvel Granhart, mas poucos mais. Presumi que seus resmungos fossem por causa do novo curandeiro exorcista, que substituiria o atual exterminador do labirinto â uma questĂŁo sob a supervisĂŁo de Granhart.
â Lady Cattleya, minhas ValquĂrias e eu podemos dar um jeito nesse calabouço rapidamente â declarei, tentando aliviar sua carga.
â Nem tente, Lumina. VocĂȘ nĂŁo conseguiria. Nem eu conseguiria.
â Isso nĂŁo parece com vocĂȘ â argumentei. â VocĂȘ limpou sabe-se lĂĄ quantos labirintos em Grandol. Estou errada?
â Esse Ă© diferente. Tudo o que encontrarĂĄ lĂĄ dentro sĂŁo mortos-vivos, e nada alĂ©m de mortos-vivos â ela rebateu.
CadĂĄveres ambulantes… Eu nem queria imaginar o cheiro.
â Eu juro que podemos fazer isso. Sei que podemos.
Lady Cattleya balançou a cabeça.
â Esse labirinto existe hĂĄ mais de cinquenta anos, e ninguĂ©m conseguiu superĂĄ-lo nesse tempo. Os cavaleiros do passado que tentaram nĂŁo eram os inĂșteis de hoje, e nem eles conseguiram. A magia negra estĂĄ impregnada em cada canto daquele lugar.
â VocĂȘ nĂŁo estĂĄ dizendo que alguns enlouqueceram, estĂĄ?
â Os registros mostram muitas baixas causadas pelos prĂłprios aliados. NinguĂ©m sem resistĂȘncia a esse tipo de feitiço ou sem afinidade com magia sagrada vai conseguir atravessĂĄ-lo.
â SerĂĄ que um herĂłi assim sequer existe? â murmurei. EntĂŁo, â Desculpe, Lady Cattleya, falei demais.
â Ah, pare com isso. Ouvi dizer que o novo exorcista vem de Merratoni.
â Merratoni? NĂŁo me lembro de ter visto ninguĂ©m lĂĄ que se encaixasse nesse papel da Ășltima vez que visitei. Isso foi hĂĄ dois anos, no entanto.
â Dizem que ele Ă© estranho â ela comentou. â Nunca trabalhou em uma clĂnica antes e passou todo o tempo treinando em um sindicato de aventureiros.
Fiquei pasma.
â AlguĂ©m abençoado com o poder da Deusa Crya preferiu se aventurar em vez de usar seu dom divino? No que o sindicato de Merratoni estava pensando?
â Esse mesmo garoto elevou sua habilidade em Magia Sagrada para o nĂvel cinco em um Ășnico ano. EstĂŁo chamando ele de prodĂgio. Claro, alguns o chamam de rebelde, entre outros apelidos menos elogiosos.
Ele treinou magia sagrada em um sindicato de aventureiros? Lady Cattleya sorriu, claramente se divertindo com minha confusĂŁo. Mas quem poderia… O garoto de cabelos prateados.
â Esse curandeiro Ă© um jovem alto, meio magro? Com cabelos prateados?
â NĂŁo tenho certeza. SĂł sei que, quando se registrou no sindicato, ele nĂŁo sabia usar um Ășnico feitiço.
â Eu… Acho que sei quem Ă©.
â Como ele Ă©? â ela perguntou.
â Sua aura era muito pura. Senti apreensĂŁo nele, mas tambĂ©m força.
â Nossa, Ă© raro vocĂȘ falar tĂŁo bem de alguĂ©m.
â Estou apenas afirmando os fatos â eu disse, corando. De onde vinha essa sĂșbita timidez?
â Espero que ele seja um bom garoto.
â Quer que eu investigue ele?
â Talvez. Granhart vai ficar responsĂĄvel por ele, entĂŁo eu te aviso quando ele chegar.
â Por favor, faça isso.
Infelizmente, ainda levaria um tempo até que suas obrigaçÔes lhe permitissem nos alcançar.
***
Meio ano se passou.
â Podem sair para o almoço.
â Sim, senhora!
Eu estava indo para meus aposentos depois de uma sessão de treinamento. Não havia nenhuma mobilização planejada para minha unidade no momento, mas Illumasia estava se remilitarizando, então eu esperava que isso mudasse em breve.
Ao chegar, vi meu cristal brilhar. Esses cristais de comunicação arcana eram dispositivos maravilhosos que permitiam ao usuårio falar com outra pessoa por meio da magia. Peguei-o e uma voz ecoou em minha mente.
â Ele chegou.
â A quem vocĂȘ se refere?
â O garoto de Merratoni, lembra?
â Ah, Ă© verdade. Ele estĂĄ com Granhart?
â Por enquanto.
â Entendido. Farei contato em breve.
â Obrigado, Lumina.
Apressei-me para encontrar o sacerdote estoico.
***
Logo avistei Granhart com um jovem. Um rapaz surpreendentemente diferente, mas ao mesmo tempo familiar. Ainda havia um brilho juvenil em seus olhos, mas contrastando com sua inocĂȘncia estava um corpo digno de um aventureiro, quase equiparĂĄvel ao de Granhart. MĂșsculos agora tomavam o lugar onde antes apenas ossos se destacavam. Suspirei aliviada ao perceber que sua aura permanecia inalterada.
â Oh? VocĂȘ Ă© aquele a quem guiei atĂ© a Guilda dos Curandeiros em Merratoni, nĂŁo Ă©? â chamei. â Creio que seu nome era… Louise?
Ele se virou.
â Faz muito tempo, Senhorita Lumina. Nunca tive a chance de agradecĂȘ-la naquela Ă©poca.
â NĂŁo fiz nada que mereça agradecimento. Diga-me, Louise, como tem passado?
â Acho que precisamos nos reintroduzir â disse ele. â Meu nome Ă© Luciel. E tenho que admitir, estou impressionado que me reconheceu. Todos dizem que cresci bastante.
Eu havia esquecido seu nome, mas ele nĂŁo pareceu se importar, entĂŁo nĂŁo houve problema. Convidei-o para visitar meus aposentos mais tarde.
***
Enquanto conversĂĄvamos no meu quarto, senti sua histĂłria despertar algo dentro de mim. Percebi nele uma determinação intensa e destemida, algo que nunca havia sentido nos inĂșmeros curandeiros gananciosos e indolentes que encontrei ao longo dos anos. O sentimento dentro de mim era felicidade.
Imediatamente entrei em contato com Lady Cattleya.
â O alvo saiu â transmiti atravĂ©s do cristal.
â O que acha dele?
â Ele Ă©… inexperiente em certas ĂĄreas, mas nĂŁo acho que seja mal-intencionado.
â Ele conseguirĂĄ sobreviver no labirinto? â perguntou ela, sĂ©ria.
â Acho que sim. Pelo menos ele tem experiĂȘncia em combate corpo a corpo.
â Isso Ă© interessante.
â E tem mais. Ele aparentemente Ă© habilidoso o bastante para usar o feitiço Purificação.
â EntĂŁo ele elevou sua Magia Sagrada ao nĂvel sete em apenas dois anos.
â Ao que tudo indica, sim. Ele Ă© incrivelmente esforçado.
â Entendido. Tenho certeza de que o verei amanhĂŁ, entĂŁo farei meu prĂłprio julgamento.
â Provavelmente serĂĄ o melhor.
â DĂȘ uma mĂŁo a ele se precisar, estĂĄ bem?
â Darei.
Ela ficou em silĂȘncio por um instante.
â Bem, isso Ă© estranho.
â O que foi?
â Oh, nada â disse ela, em um tom divertido. â Continue com o bom trabalho, Lumina.
â Obrigada, farei isso.
A conexĂŁo foi encerrada.
â NĂłs, paladinos, nĂŁo podemos deixar um curandeiro bem treinado nos superar â murmurei. â NĂŁo podemos começar a relaxar agora.
Meu reencontro com Luciel reacendeu uma chama determinada dentro de mim.
***
Eu estava esperando na frente do refeitĂłrio com minhas duas companheiras paladinas, Lucy e Queena. Nosso objetivo: encontrar o curandeiro Luciel. E nĂŁo, isso nĂŁo era um encontro romĂąntico, de forma alguma.
Lady Cattleya me contatou ontem com informaçÔes de que, pela primeira vez em dĂ©cadas, o dĂ©cimo andar do labirinto havia sido conquistado. O responsĂĄvel, claro, era Luciel. Pelo tom dela, porĂ©m, seu mĂ©todo de abordagem havia sido… pouco inteligente. Ela me pediu para ajudĂĄ-lo da maneira que pudesse, entĂŁo lĂĄ estava eu, esperando por ele na hora em que geralmente tomava sua refeição.
â Lady Lumina, nĂŁo vamos entrar? â perguntou Lucy.
â O que estamos esperando? â resmungou Queena.
Minhas companheiras nĂŁo estavam cientes do meu objetivo. E entĂŁo, o avistei.
â Luciel!
Lucy o chamou antes que eu pudesse, criando a distração perfeita. Entramos juntos no salĂŁo, “puramente por coincidĂȘncia”.
***
Lucy e Queena eram prĂłximas da idade de Luciel, entĂŁo os trĂȘs se deram bem rapidamente. Conversamos com ele durante o cafĂ© da manhĂŁ.
â Ouvi dizer que sua progressĂŁo atĂ© o dĂ©cimo andar foi surpreendentemente tranquila â comentei.
â Sim, foi â ele respondeu. â Ă meio embaraçoso entrar nos detalhes, mas depois dos meus dois anos de treinamento na Guilda dos Aventureiros, o labirinto nĂŁo tem sido um grande problema.
â Essas foram suas primeiras batalhas contra monstros?
â Sim. AtĂ© agora, tudo que eu havia feito era treino.
â Parece que vocĂȘ estĂĄ indo bem â disse Lucy, encorajadora.
â No começo, eu estava bem nervoso, mas as coisas começaram a fluir rapidamente â contou ele. â Purificação Ă© muito eficaz contra eles, e descobri que imbuir minha espada e lança com magia faz com que cortem os mortos-vivos como manteiga.
â E quais sĂŁo seus nĂveis de espada e lança? â perguntei.
â Subiram ontem, entĂŁo agora estĂŁo no nĂvel dois.
â Como vocĂȘ estĂĄ usando as duas armas? Alterna os dias?
â HĂŁ? â Ele parecia confuso. â Por que eu faria isso? Uso a lança na mĂŁo esquerda e a espada na direita. Assim fico mais flexĂvel.
â Entendo… Continue.
â EntĂŁo, levei cerca de dez dias para chegar ao dĂ©cimo andar â continuou. â Enfrentei pequenos grupos com as armas e derrotei grupos maiores com Purificação. Quando ouvi que a cĂąmara principal estaria cheia de monstros, nem hesitei e entrei.
Luciel continuou sua histĂłria. Sua coleta de informaçÔes havia sido menos precisa do que ele pensava (ou talvez tenha sido vĂtima de uma trĂĄgica falha de comunicação) e o “grande grupo” que esperava era, na verdade, uma horda incontĂĄvel de inimigos mortos-vivos. Mas ele acreditou em si mesmo e se manteve firme. Foi entĂŁo que descobriu que nĂŁo conseguia usar magia naquela sala.
No entanto, Luciel nĂŁo era um curandeiro comum. Eu conseguia imaginar a batalha, como ele deve ter aceitado a possibilidade da prĂłpria morte enquanto derrubava inimigo apĂłs inimigo. Ele era um verdadeiro guerreiro, sem nunca vacilar, mesmo diante de probabilidades impossĂveis.
â Isso parece ter sido um grande desafio â comentei. â Imagino que tenha curado seus ferimentos com poçÔes, certo?
â HĂŁ, aposto que isso teria facilitado as coisas.
â O quĂȘ?
Ele riu.
â Nunca tinha me ferido antes, entĂŁo nem pensei em carregar poçÔes.
â NinguĂ©m recomendou que levasse suprimentos adequados?
â Disseram, mas eram tĂŁo caros… EntĂŁo, depois que derrotei todos os monstros, um espectro apareceu do nada.
â E vocĂȘ equipou seu escudo entĂŁo, certo? E certamente tambĂ©m usou magia de barreira.
â Bem, essa Ă© a questĂŁo. O motivo pelo qual tive tanta dificuldade quando fui cercado pelos monstros foi porque nĂŁo lancei nenhuma barreira antes de entrar na sala do chefe â ele explicou. â Honestamente, se eu nĂŁo estivesse acostumado com arranhĂ”es e hematomas por causa de Merratoni, provavelmente teria desistido ali mesmo. E se eu soubesse que haveria um wight ou que nĂŁo poderia usar magia, acho que teria me saĂdo um pouco melhor.
Pelo contexto, assumi que “chefe” se referia Ă entidade que residia na cĂąmara principal.
â Isso Ă©… certamente incrĂvel. VocĂȘ entrou na cĂąmara principal sabendo muito bem que inimigos poderosos o aguardavam, sem opçÔes de recuperação ou magia de barreira.
â Eu mesmo estou impressionado. Nunca imaginei que o arco que acabei de comprar acabaria decidindo tudo.
â Dez andares em dez dias Ă© um ritmo excepcional. VocĂȘ estĂĄ descansando entre eles, certo?
â Descansos? Eh, nĂŁo preciso disso. Quero avançar, e os zumbis lĂĄ embaixo servem como um bom treino. Ah, mas reservo um tempo para praticar os fundamentos da magia.
â Por curiosidade, hĂĄ quanto tempo vocĂȘ estuda esse seu estilo de espada e lança? â perguntei.
â Desde o dia seguinte em que me tornei um exorcista.
Finalmente, entendi. Esse garoto carecia gravemente e de forma crĂtica do senso comum mais bĂĄsico. Tudo o que pude fazer foi encarĂĄ-lo, boquiaberto. Lucy e Queena tiveram a mesma reação.
â Luciel, vocĂȘ enlouqueceu?
â VocĂȘ tem um desejo de morte? â Lucy disse com desdĂ©m.
â VocĂȘ Ă© um idiota â Queena acrescentou, zombeteira. â Se a sorte nĂŁo estivesse do seu lado, vocĂȘ estaria morto agora.
â Eu pensei que vocĂȘ nĂŁo fosse mais um ignorante, mas vejo agora que apenas trocou a ignorĂąncia pela imprudĂȘncia. Eu desprezo aqueles que desprezam o dom da vida.
â JĂĄ me culpei por isso a noite inteira, gente. Por favor, vocĂȘs estĂŁo me matando aqui â ele gemeu.
Eu quase cuspi que nĂŁo Ă©ramos nĂłs que o matarĂamos se ele nĂŁo mudasse sua forma de pensar, mas Lucy falou primeiro.
â EntĂŁo, o que vocĂȘ vai fazer a respeito? Se continuar assim, nĂŁo vai durar muito.
â VocĂȘ tem razĂŁo. Honestamente, queria poder simplesmente voltar para Merratoni e continuar meu treinamento â ele disse, com um olhar distante.
â Curandeiros nĂŁo podem ser transferidos da sede sem uma ordem oficial para a movimentação â Queena o informou. Ele nĂŁo seria liberado tĂŁo facilmente.
De repente, me lembrei do pedido de Lady Cattleya. Luciel precisava de uma mĂŁo.
â Se Ă© treinamento que deseja, acredito que podemos providenciar.
â Espera, sĂ©rio?
â De fato. VocĂȘ pode achĂĄ-lo rigoroso para um curandeiro, mas nĂŁo tenho objeçÔes em permitir que se junte a nĂłs. No entanto, nĂŁo espere instrução pessoal.
â Contanto que nĂŁo atrapalhe meu trabalho, eu ficaria mais do que feliz.
Sua prontidĂŁo em aceitar me agradou. TerĂamos nossas sessĂ”es conjuntas toda semana no Dia do Fogo.
Após o café da manhã, nos separamos, e as meninas e eu eståvamos a caminho do campo de treinamento quando Lucy perguntou:
â Tem certeza de que convidĂĄ-lo Ă© uma boa ideia?
â Do que tenho certeza Ă© que ele irĂĄ crescer â respondi. â Ele Ă© um curandeiro, muito mais fraco do que qualquer paladino. Seus atributos serĂŁo baixos. AlĂ©m disso, ele ainda estĂĄ no nĂvel um.
â Ele sequer serĂĄ capaz de nos acompanhar?
â NĂŁo sei dizer. Mas meus relatĂłrios informam que ele treinou por dois anos sem descanso. NĂłs, ValquĂrias, somos uma elite e nos classificamos como as mais fortes porque nos esforçamos para isso. Mas a triste verdade Ă© que os esforçados sĂŁo raros dentro da Igreja. Pretendo testar sua determinação, e se ele falhar, entĂŁo nĂŁo serĂĄ nada para nĂłs. Entendido?
â Sim, senhora!
Informei o restante da unidade sobre o plano, e logo chegou o dia do nosso treinamento conjunto.
Eu me debatia para determinar se a cavalheirismo de Luciel, uma qualidade rara em curandeiros, vinha de autoabsorção ou mera ignorùncia. De qualquer forma, nunca em meus sonhos mais loucos teria imaginado que um homem assim existisse.
Todo o regimento sentia o mesmo. Para muitos, éramos monstros, mas ali estava alguém que hesitava em nos atacar. Que nos tratava como mulheres. Nem é preciso dizer que isso aumentou a simpatia das garotas por ele. Quanto a mim, fiquei impressionada com o fato de que ele hesitava genuinamente ao pensar em nos enfrentar, mesmo estando plenamente ciente da diferença entre nossas habilidades. Mas suponho que não exatamente desgostei disso.
Luciel era um curandeiro poderoso, isso era certo. No entanto, comparado a nĂłs, a diferença em habilidade fĂsica era quase gritante. E havia algo a ser dito sobre seu estilo de espada e lança. Nada de bom, mas certamente digno de… comentĂĄrio. Quando ele segurou sua espada e escudo corretamente diante de mim, porĂ©m, fiquei impressionada. Para que sua tĂ©cnica fosse tĂŁo habilidosa estando apenas no nĂvel dois, seu instrutor devia ter sido um lutador extraordinĂĄrio.
Trocamos golpes, e sua esgrima nĂŁo era algo a se menosprezar, mas ele nĂŁo era um guerreiro. Ainda assim, reconheci o imenso esforço que ele certamente dedicara, apesar das aberturas Ăłbvias que deixava, evidenciando sua inexperiĂȘncia. Ele criou uma dessas aberturas ao balançar sua lĂąmina muito amplamente, e eu a aproveitei. Mas no momento em que meu punho acertou, vi ele sorrir. Aquele maldito garoto sorriu.
Um instante depois, uma luz pĂĄlida o envolveu, e ele balançou sua espada para trĂĄs. Ele havia planejado isso desde o inĂcio. Um curandeiro. Ele nunca cessou seu ataque, e ainda assim conseguiu conjurar em meio ao combate. Eu sĂł podia imaginar o quanto ele deve ter se esforçado para alcançar tal nĂvel.
Fiquei comovida. Impressionada alĂ©m das palavras. Uma demonstração dessas sĂł poderia ser retribuĂda Ă altura.
â Manobra esplĂȘndida! â Corri para trĂĄs dele e dei um golpe na nuca, tirando-lhe a consciĂȘncia.
â VocĂȘs viram isso, meninas? â perguntei Ă unidade. â Este Ă© um curandeiro. A classe com os menores atributos de todas, ficando atrĂĄs apenas dos magos. NĂłs, no entanto, somos abençoadas com atributos elevados e habilidades facilmente aprimoradas.
Ăramos paladinas. Um grupo privilegiado.
â Infelizmente, muitos dos nossos pares se contentam em se acomodar nesse privilĂ©gio. Mas nĂŁo Luciel. Ele Ă© um homem talentoso. Conquistou o dĂ©cimo andar do nosso labirinto antes impenetrĂĄvel em meros onze dias. E enquanto o labirinto existir, Lady Cattleya nunca retornarĂĄ aos cavaleiros.
A Igreja estava podre… atĂ© seu nĂșcleo.
â Vamos treinĂĄ-lo. E vamos treinĂĄ-lo bem. EstĂĄ claro?
Nenhuma das ValquĂrias contestou.
â Ătimo. Agora, retomem o treinamento!
*
A magia de barreira de Luciel estava muito alĂ©m do nĂvel de um novato de dois anos. Sua mera presença em uma equipe de ValquĂrias menos experientes foi suficiente para levĂĄ-las Ă vitĂłria, surpreendendo a todos e elevando ainda mais sua reputação.
Apenas os exercĂcios de campo restavam na agenda quando o inesperado aconteceu.
â ReĂșnam-se e preparem seus cavalos, senhoritas. Iremos Ă selva para exterminar monstros.
â Sim, senhora!
â O quĂȘ? â A sĂșbita confusĂŁo de Luciel nunca era um bom pressĂĄgio.
â VocĂȘ tem alguma dĂșvida, Luciel?
â Ah, nĂŁo exatamente. Ă sĂł que… eu nunca montei um cavalo antes.
â Isso Ă©… inesperado.
Eu havia me esquecido completamente de que ele veio de uma vila. Muitos aldeĂ”es podem ter, no mĂnimo, visto um cavalo antes, mas nĂŁo seria estranho que ele nunca tivesse tocado ou montado um. Por outro lado, a maioria dos curandeiros, mesmo os mais jovens, eram ricos o suficiente para ter seus prĂłprios cavalos. E, para ser honesta, era difĂcil acreditar que um homem com o fĂsico de um cavaleiro nunca tivesse subido numa sela. No fim das contas, isso era claramente um descuido da minha parte.
â Ă o que temos. VocĂȘ irĂĄ treinar com os tratadores dos estĂĄbulos. Nossos exercĂcios provavelmente serĂŁo observados por outros, entende?
â Sinto muito. Me sinto mal por isso.
â NĂŁo se preocupe. Faltou-me consideração. VocĂȘ pode usar o campo para praticar, e retornaremos quando finalizarmos nosso exercĂcio.
â Obrigado. Tomem cuidado.
â Senhoritas â chamei â, sigam para lĂĄ. Eu me juntarei a vocĂȘs assim que levar Luciel atĂ© os estĂĄbulos.
Depois de deixar o curandeiro, alcancei minha unidade. Enquanto trotåvamos, conversamos sobre o que levou Luciel a ser enviado à Sede da Igreja. Grande parte da conversa girava em torno de elogios a ele. Os curandeiros de Merratoni eram especialmente infames, e quando souberam que Luciel era o dissidente que havia colocado um fim no maior responsåvel pela må reputação da cidade, as garotas enlouqueceram de alegria.
Luciel continuou a participar dos nossos treinamentos, e continuamos a recebĂȘ-lo de braços abertos, atĂ© que o aumento das tensĂ”es com o ImpĂ©rio Illumasiano forçou nosso regimento a se mobilizar junto aos templĂĄrios.
Ao partirmos, havia algo estranho na procissĂŁo. NĂŁo houve os costumeiros aplausos dispersos. Pelo contrĂĄrio, toda a Cidade Sagrada parecia ter se reunido em um coro unĂssono de encorajamento. Nem mesmo os antigos destacamentos da Lady Cattleya haviam recebido uma recepção tĂŁo calorosa.
Em meio aos gritos, distingui algumas palavras: âzumbiâ, âmasoquistaâ e âSanto EsquisitĂŁoâ. Busquei a aura de Luciel e o vi a certa distĂąncia, tendo vindo se despedir de nĂłs. As ValquĂrias nĂŁo pareceram surpresas quando contei quem era o responsĂĄvel por toda aquela comoção.
Com nossos coraçÔes leves e espĂritos elevados pela simples surpresa de um curandeiro tĂŁo querido, partimos rumo Ă fronteira com vigor.
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