Rakuin no Monshou – Capítulo 6 – Volume 2
Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded
Light Novel Online – Capítulo 06:
[Aqueles que Carregam a Marca]
O dia da luta final. Esse era o único tema tratado nas ruas de Solo desde o início da manhã.
A Guilda dos Gladiadores anunciou os confrontos e ficou definido que Orba e Pashir não se confrontariam imediatamente. Essa era a única coisa que as pessoas consideravam lamentável.
— Quando se trata de velocidade, tem que ser o Orba! O Pashir é lento como um boi. Sinceramente, se esses dois brigassem, a batalha seria decidida em um instante!
— Isso não é verdade, Pashir não faz movimentos inúteis! Ele é diferente do Orba, que fica se movendo o tempo todo. Essa tática covarde do Orba não vai funcionar contra ele. Se a luta se prolongasse nem que fosse um pouco, Orba ficaria sem energia e estaria em desvantagem esmagadora.
Nas esquinas, em frente às barracas de comida, nos locais de festa, as pessoas discutiam sobre a luta dos gladiadores. Isso não se limitava apenas aos cidadãos de Solon, mas também incluía os nobres. Eles se envolviam em debates acalorados sobre quem sobreviveria, apostando cavalos, pinturas raras, ou até mesmo um grande número escravas, ocupando-se com apostas que ostentavam seu status.
Entre os debates, surgiu a questão de que, supondo que Orba e Pashir sobrevivessem como esperado, qual deles receberia a honra de ser o herói matador de dragões, Clovis?
— Se fosse Sua Majestade Imperial — um desses nobres falou de repente com ar pomposo —, acredito que ele gostaria que o Orba herdasse o título de Clovis. Afinal, ele é o herói que derrotou Ryucown. Se vencer o torneio, a imagem dele de um ex-escravo seria apagada, e nem preciso dizer que ele teria conquistado a patente de nenente ou mesmo de capitão. Ele poderia até receber toda a companhia da guarnição de Solon!
E quando se aproximou o momento da noite que abrigaria a luta decisiva, o próprio imperador fez sua aparição, para entregar pessoalmente o elmo dourado ao vencedor. Os Guardas Imperiais e escravos que acompanhavam o imperador, totalizando cerca de trinta homens, ocuparam a metade superior da arquibancada.
As figuras da princesa imperial Ineli e suas amigas, assim como a princesa de Garbera, Vileena, e sua camareira-chefe, Theresia, também estavam presentes.
Na grande arena, várias batalhas estavam acontecendo. Assim que uma dupla terminava, outra dupla era enviada para preencher o lugar vago, e assim essas batalhas continuaram sem fim. No entanto, conforme a força do sol ardente diminuía, os assentos vazios por todo o coliseu começaram a se destacar lentamente.
Ao anoitecer, a batalha final terminou. Os sons dos gladiadores e suas armas se chocando lá embaixo de repente ficaram em silêncio mortal, e inversamente, o entusiasmo da multidão não conhecia limites enquanto seus rugidos ecoavam como uma onda gigante.
Após um breve intervalo que os manteve ainda mais em suspense, os quatro espadachins que lutaram ferozmente através de suas batalhas e venceram fizeram sua aparição, cada um armado com uma arma de sua escolha. Um carregava uma longa lança, outro estava pronto com um machado de batalha, e Orba carregava sua espada longa usual.
Finalmente a hora chegou.
Orba murmurou para si mesmo, apoiando sua espada no ombro. Ele podia ter se jogado no ringue dos gladiadores, mas não era como se ele quisesse, e agora finalmente estava chegando ao fim. A seguir seria usar o que ouviu de Pashir sobre o plano para encurralar Noue e Oubary, e obstruir o esquema que Zaat estava ajudando-os.
Neste momento, eles provavelmente estavam assistindo a cena se desenrolar lá de cima, aproveitando o espetáculo dos escravos matando uns aos outros de seu refúgio seguro.
Assim que eu terminar “isso”, vocês são os próximos.
Ele estava animado, diferente de como geralmente era.
O orador gritou os quatro nomes deles, e então saudou o imperador. Os quatro homens também fizeram o mesmo, e o imperador baixou o queixo para encará-los. Ao mesmo tempo, um dos Guardas Imperiais que o acompanhavam apresentou a ele o elmo dourado com ambas as mãos. Um par de asas estava anexado à esquerda e à direita, a marca do herói Clovis.
Esse foi o sinal para começar. O chão tremeu quando a arena explodiu em um pandemônio e as batalhas começaram.
O oponente de Orba era um gigante que ultrapassava dois metros de altura. Para completar, ele empunhava uma lança longa. Com uma diferença de alcance que o fazia hesitar em dar até mesmo um único passo à frente, Orba foi rapidamente encurralado. Sem mencionar que ele tinha sofrido ferimentos de sua batalha com Gash.
Antes do fim da terceira investida, Orba havia caído para trás. A arena ficou agitada. O gigante investiu sua lança para baixo. Orba rolou de lado em direção ao flanco do gigante, e saltando para cima, cortou-o. Sangue jorrou de seu pescoço no momento em que os pés de Orba tocaram o chão. O único corte de Orba foi bem direcionado e abriu a artéria de seu oponente.
O gigante desabou no chão. E em pouco tempo, Pashir também resolveu sua luta. Sua vitória foi mais clara. Justo quando ele pareceu colocar alguma distância entre si mesmo e o homem do machado, ele jogou sua espada por cima dos ombros e a arremessou com toda sua força. A espada acertou em cheio e perfurou o coração do inimigo.
O silêncio desceu sobre os cinco mil espectadores por um breve momento. Nem mesmo um minuto havia passado desde que as batalhas começaram. Com as mãos envolvidas em oração, Vileena exclamou um suspiro de alívio.
— Parece que eles não foram páreo — o imperador, Guhl Mephius, murmurou distraidamente. Ele piscou os olhos com sinais inconfundíveis de tédio e falou com sua esposa sentada ao lado dele.
— Nenhum dos dois servia como oponente para eles. O que você acha, Melissa? Você não quer ver uma batalha entre homens de verdade?
A imperatriz respondeu com moderação, uma maneira apropriada para sua idade e que traía sua aparência. — Sim, eu gostaria — ela consentiu com honestidade. O imperador baixou o queixo.
— Seria decepcionante ter isso terminando assim. Pashir e Orba; esses dois agora competirão. Até que a luta termine em vitória ou derrota, a entrega do elmo de Clovis será suspensa.
Todos os sentados ao redor olharam para o imperador em choque.
Ao ouvir isso, a arena se levantou em comoção, e logo rugiu em concordância. Eles também não estavam satisfeitos com a quantidade de sangue derramado, e acima de tudo, queriam saber qual deles era verdadeiramente o mais forte.
Como é?
Com o choque da reviravolta súbita dos eventos, Orba instintivamente encarou o imperador. A espada em sua mão cheirava intensamente a sangue e agora ele teria que manchá-la com ainda mais sangue. O sangue de ninguém menos que Pashir. Os músculos em seu braço pulsaram.
Do outro lado,
— Por favor, espere, Vossa Majestade — Simon disse enquanto se levantava. — Isso difere de nosso costume anual. Não existe outra razão para este torneio além de selecionar os dois espadachins escolhidos.
— Não se preocupe com os detalhes, Simon. — O imperador apontou para o ringue. — Honestamente, sou incapaz de determinar qual dos dois é mais adequado para herdar o título de Clovis. Fazê-los lutar e entregar o elmo dourado ao vencedor, não há método mais decisivo que este. Se o perdedor morrer, podemos fazer a Guilda escolher alguém apto para atuar como seu auxiliar, Felipe.
Sentado ao lado de Simon, que agora estava sem palavras, Fedom estava ofegando pesadamente. Cada vez que ele estava prestes a se levantar e sugerir uma proposta, ele se encontrava caindo para trás em sua cadeira ao reconsiderar. O imperador ficava mais e mais convencido de sua retidão a cada dia que passava. Ele era como uma lâmina nua que cortaria Fedom em pedaços se ele não pisasse com cuidado.
— Orba e Pashir! Vocês dois, voltem para a frente dos portões! — Um soldado os comandou.
— Tch.
Orba cuspiu. Seu interior parecia estar pegando fogo.
É sempre assim. Eles controlam as vidas e destinos das pessoas sem pensar duas vezes.
— Hah, isso foi algo digno de se ver.
Pashir disse. Por “algo digno de se ver”, ele provavelmente quis dizer o ato dele cuspir através de sua máscara. Pashir não estava nem um pouco intimidado em como as coisas acabaram.
— Você vai obedecê-los?
— O imperador falou e ninguém pode ir contra ele. É melhor você se preparar.
Dizendo isso, Pashir virou as costas para Orba. Suas costas marcadas subiam e desciam. Orba o chamou para parar com pressa.
— Espere, Pashir!
— Eu posso ser o líder da rebelião por enquanto, mas ela não pode ser parada mesmo se alguém tentar fazer um estrago nela. Então não se segure, vamos lutar com o objetivo de matar. Esta será nossa luta de final como gladiadores.
— Pashir.
Um escravo da arena correu até Pashir e os interrompeu. Enquanto limpava seu suor e fingia cuidar dele, falou em voz baixa.
— E se vocês dois encenassem? O Orba é popular entre os cidadãos. Deveria ficar tudo bem se vocês lutassem normalmente e depois o Orba derrubasse sua espada em rendição para você. As pessoas deveriam poupar a vida do Orba.
— Isso não funcionará — Pashir balançou a cabeça —, as pessoas de Solon estão acostumadas a ver batalhas na arena. Elas imediatamente veriam através de qualquer preocupação pela vida do oponente durante a luta. Não podemos fazer com que eles suspeitem dos escravos agora. Você já sabe disso. Não temos escolha senão nos matarmos.
— … — Orba silenciosamente baixou a cabeça.
Seus motivos diferiam dos de Pashir, mas Orba também abrigava um motivo que ninguém jamais poderia imaginar. Noue, Oubary e Zaat… nem uma única de suas ações era para ser confiada.
— Vamos jurar sobre isso — Pashir falou como se fosse óbvio —, não importa quem vença, ele carregará o peso dessas almas. Mesmo se você morrer, eu assumirei seus sentimentos. Juro conseguir a cabeça de Gil Mephius. E se eu morrer, você assumirá meus sentimentos; liberte todos os escravos e queime Mephius até o chão.
Com essas palavras, Orba sentiu um nó na garganta e foi incapaz de dar uma resposta imediata.
Assumir seus sentimentos…
Nem precisava dizer que Orba odiava Mephius. Como ele sonhou incontáveis vezes em cortar os pescoços daqueles nobres com o balanço de sua espada por suas próprias mãos. No entanto,
— Sim…
Orba disse enquanto acenava, em uma voz que parecia de outra pessoa.
Os dois se separaram e se moveram em direção aos portões leste e oeste. O escravo chamado Mira limpou seu suor e substituiu sua espada por uma nova. Seu rosto estava pálido e instável. Mesmo tendo a conhecido apenas duas ou três vezes, estava claro para Orba que ela tinha sentimentos por Pashir. Orba tentou abrir a boca, mas não conseguiu pensar em nada para dizer. Ela desejava que Pashir vencesse. Isso significava a derrota de Orba — e sua morte. E isso estava bem para ele. Orba também tinha suas próprias razões para sobreviver, mesmo se isso significasse derrotar — matar Pashir.
Está realmente tudo bem assim?
Tal pensamento rasgou seu peito. Orba balançou seu rosto mascarado. Não estava tudo bem. Por que ele estava hesitando agora? Sim, ele carregava um ódio em direção a Mephius similar ao de Orba ou um que poderia até ter excedido o dele, e o objetivo de Pashir se assemelhava ao seu próprio; em um futuro não muito distante, eles certamente ficariam lado a lado e lutariam como camaradas.
Droga! Não pense demais nisso.
Ele agarrou o cabo de sua espada com vigor renovado. Para piorar as coisas, Orba estava coberto de feridas. Até mesmo a batalha há pouco levou o pouco que restava de toda sua força restante. Quantas vezes mais ele teria que empunhar sua espada até seus limites? Orba não tinha a menor ideia.
A vitória parecia ficar cada vez mais além de seu alcance. Sua lâmina nunca alcançaria seu alvo se ele pensasse nas coisas que viriam enquanto balançava sua espada.
Vou terminar isso em um único golpe.
Orba decidiu. Ele balançaria com toda sua força uma vez, quando visse uma abertura certeira. Falhar significava morte.
— Para o leste, Tigre de Ferro Orba! Para o oeste, Pashir Braço-Forte!
Os dois nomes chamados se aproximaram um do outro no centro da arena.
— Qual poderia ser o significado disso? Isso não terminou? — Vileena assistiu sem fôlego em suspense ao desenvolvimento súbito. Os gritos da multidão eram tremendos, a ponto de tornarem a voz de Theresia inaudível. No entanto, uma breve troca de olhares, e ela foi capaz de entender calmamente o que ela estava dizendo. No meio desta loucura, uma tranquilidade estranha flutuou entre os dois que estavam prestes a se matar.
— Comecem!
Ambas as partes balançaram suas espadas em um choque e então saltaram para trás em retirada.
O grande torneio de gladiadores de Solon; aqui, a luta para determinar o homem mais forte começou.
Foi uma luta sem precedentes na longa história das lutas de gladiadores de Mephius.
Assim que a luta começou, quem avançou foi Orba. Ele correu direto para Pashir com a ponta de sua espada deslizando pelo chão. Pashir dobrou os joelhos em preparação. Orba imediatamente chutou o chão para o lado de Pashir. Mais rápido que seu oponente pudesse reagir, ele saltou mais uma vez. Orba planejou resolver a luta neste instante. As pernas, braços ou costas de Pashir — ele saltaria em qualquer abertura na defesa que visse e acabaria com Pashir antes que ele pudesse se recuperar.
No entanto, Pashir parou de seguir Orba com os olhos e imediatamente rolou para frente. Se levantando rapidamente, ele se virou e balançou sua espada. Orba o perseguiu, mas o balanço o impediu de avançar mais. Orba recebeu a lâmina com a sua própria e saltou para trás.
Sua troca interminável de golpes desde o início fez todos na arena ficarem loucos de emoção.
E então eles se aproximaram de um impasse, pela própria definição de seu significado. Os dois cessaram todo movimento, fazendo sua troca rápida anterior de golpes parecer uma mentira.
Orba ficou como sempre ficava, com suas costas curvadas observando cada movimento de Pashir. O braço que aparou o ataque de Pashir havia ficado dormente. Uma gota de suor escorreu sob sua máscara. Era justo dizer que seus movimentos iniciais o drenaram da maioria de sua resistência. Ele havia empurrado para uma batalha curta e decisiva, mas Pashir havia visto completamente através de seus movimentos.
Venha, Pashir! Venha, venha, venha!
Era perigoso para ele se mover. Pashir ficou com ambas suas pernas massivas entrincheiradas no chão, sangue pulsando através de seus músculos, pronto para esmagá-lo a qualquer momento. Saltar seria seu último movimento, e ele facilmente teria seu ataque virado contra ele.
Então em vez disso, Orba encarou Pashir através de sua máscara, esperando que ele se movesse. Ele ainda mantinha a vantagem de velocidade. Claro, também seria perigoso se o inimigo viesse investindo, mas também tornaria mais provável encontrar buracos em sua defesa.
No entanto, Pashir não se moveu. Ele segurou a espada com ambas as mãos acima do ombro, não se mexendo nem um centímetro.

Tch.
Orba bateu o chão com o arco dos pés. Sua espada cintilou. Saltou numa direção diferente de onde estava olhando. Contudo, as ações de sua finta não conseguiram perturbar Pashir.
O vento da tarde soprou sob sua máscara.
Os espectadores retornaram subitamente ao silêncio. Os milhares de olhos fixaram sua atenção nestes dois espadachins de habilidade insondável. Uma tensão expectante pairou no ar, onde o resultado poderia ser decidido na próxima piscada de olho; entretanto, estes dois não permitiram o menor movimento.
Dez segundos, vinte segundos, trinta segundos — o tempo passou. Um minuto se passou. Dois minutos se passaram. Todos prenderam a respiração, mas não durou muito.
— Pegue ele!
Alguém gritou aos cinco minutos. — Mate-o! — uma garota gritou logo após.
— Pegue ele! Pegue ele! Pegue ele!
— Mate! Mate! Mate!
Todos os presentes bateram os pés em uníssono e explodiram num clamor de vaias. Criaram a confusão na esperança de que os despertasse para o movimento, mas ainda assim os dois não se moveram.
Orba também estava ficando impaciente. Sua espada e armadura nunca tinham parecido tão pesadas. Ficar parado sozinho tensionou seus músculos. No confronto anterior, Orba tinha deixado tudo de lado por um único golpe, mas estava incerto se conseguiria exercer toda sua força mesmo naquele único golpe.
Mova-se!
Orba rezou intensamente.
— Não se mova — Gowen falou, enquanto atuava como guarda-costas nas arquibancadas.
— Não se mova num acesso de impaciência, Orba. Mantenha esse mau hábito seu sob controle aqui, por favor.
Pashir provavelmente tinha visto através daquele hábito por ter testemunhado todas as batalhas de Orba até agora. Orba era excelente em contra-atacar. Em termos de físico e poder, Orba se mostrava medíocre entre os gladiadores, e sofria muitas desvantagens num confronto direto. Portanto, se baseava em circular seus oponentes e atraí-los. E quando o inimigo era puxado para seu espaço, ele entregaria um golpe direcionado aos pontos vitais.
Especialmente por causa disso, Gowen o instruiu repetidas vezes:
— Não deixe esse temperamento explosivo tomar a frente.
Um temperamento explosivo era prejudicial às suas táticas de luta. Técnicas que lhe permitiam provocar seu oponente e ganhar controle das emoções deles eram essenciais.
Elas eram o que permitiam Orba vencer durante seus dois anos como gladiador. Ele havia desenvolvido várias maneiras de recuar para atrair o inimigo. Às vezes iniciava, às vezes ficava na defensiva, e às vezes tomava ações para irritar seu oponente, tudo para puxar o oponente para seu ritmo. Contudo, todas se provaram ineficazes contra Pashir. Sua postura firme estava completamente livre de qualquer abertura. Porque Orba entendia isso, não conseguia se mover.
O próprio Gowen rangeu os dentes de impaciência, enquanto o tempo passava livremente. E não era só ele. Em meio à tempestade de vaias chovendo sobre eles, aqueles minimamente curiosos em saber o vencedor desta luta de espadas conseguiam sentir a tensão pesada entre Orba e Pashir, e seus rostos se enrijeceram como se estivessem parados ali eles mesmos.
Alguns limparam o suor escorrendo por seus queixos.
Como uma vela prestes a se apagar, o sol poente espremeu suas últimas gotas de luz solar e cobriu a arena num vermelho carmesim—
Subitamente, a luta progrediu para o movimento.
— Ah — todos na arena soltaram.
Aquele que deu um passo à luz e mirou em direção ao inimigo foi Pashir. Ele pareceu ter sido aquele incapaz de suportar a paralisação excessivamente incomum. Contudo,
— Orba, NÃO!
Gowen gritou.
Dentro do ringue de batalha da arena, que tinha tanta significância quanto qualquer estátua e havia resistido de anos a décadas de exposição, Pashir deu vida ao seu corpo e deu um passo afiado para frente com o pé esquerdo. Aplicou uma estocada que cortou o vento.
Os corpos e mentes destes dois estavam taxados ao máximo; para Orba, que esperou por Pashir, seu movimento súbito foi o maior banquete a se ter. Orba, olhos praticamente gritando de prazer, combinou seus movimentos tão soberbamente que pareciam quase premeditados.
Orba dobrou as pernas e saltou no ar, evitando a estocada giratória enviada em sua direção, e então balançou para baixo, executando uma série de movimentos superiores. Mas Pashir também havia antecipado isso.
Ele exibiu uma estocada de força total, mas tinha um pé recuado, e usando isso como alavanca, empurrou para longe o golpe de Orba. Ele cortou diagonalmente para baixo, a trajetória curvando para tomar a forma de um círculo perfeito.
Whoosh.
O balanço que perfurou os ouvidos, junto com os gritos da audiência, indistinguível entre gritos e vaias, soou pelo coliseu. Orba cambaleou para trás, sangue jorrando de seu peito ao longo de onde sua armadura de couro rasgou.
Para Orba, foi o mesmo que o inimigo subitamente ter desaparecido bem diante de seus olhos, seguindo com um corte invisível enviado em sua direção; do jeito que Orba sempre fazia com outros. Atacando com a ferocidade de um animal, Pashir não lhe deu trégua. Dois, três golpes. Ele mal conseguiu seguir os ataques com os olhos e foi forçado a confiar nas reações desajeitadas de seu corpo. Metade de sua consciência havia sido destruída.
A marca está…
Orba foi forçado ainda mais para o recuo.
A marca está queimando…
Quando circulou ao redor de Pashir, Orba viu um vislumbre fraco em suas costas. Orba viu a marca de um escravo gravada em suas costas queimando como chamas.
Os desejos de morte, corações e almas de cada pessoa que Pashir supostamente havia matado; agora, eles se manifestaram como chamas prontas para incinerar Orba até as cinzas. Ou talvez, a malícia quisesse que a alma de Orba se juntasse às delas.
Junte-se a nós, junte-se a nós, junte-se a nós.
Rostos apareceram como fragmentos flutuantes e sussurraram para ele.
Odeie Mephius, odeie Mephius…
E ainda assim…
E ainda assim, você tem “dúvidas”. Você “hesita”.
Pashir entregou um ataque na velocidade da luz. O golpe foi demais para suportar e Orba tropeçou para trás.
É por isso que não será você. Você não consegue. Não podemos confiá-los a você.
Junte-se a nós dentro de Pashir.
Pashir consegue fazer, Pashir consegue realizar o que queremos e queimar Mephius num mar de chamas!
— Parem!
Orba falou com voz rouca. Seu corpo não lhe obedecia. Não era apenas por causa do dano que havia sofrido. Mesmo agora, os rancores das almas jorraram não apenas das costas de Pashir, mas também das de Orba. Elas se espalharam e escorreram sobre ele, restringindo-o. Por assim dizer, as centenas de almas de gladiadores que Orba havia matado estavam abandonando seu hospedeiro tudo para se tornarem uma com a chama da ira acesa nas costas de Pashir.
Se você não vai fazer isso…
Teremos Pashir fazendo isso por nós. Teremos Pashir queimando Mephius.
Você morrerá também. Morra e junte-se a nós e torne-se uma faísca da chama queimando na marca de Pashir. Queime junto com Mephius, Orba!
O-r-b-a
Tendo virado o jogo, Pashir mergulhou sua espada para baixo sem hesitação.
Orba olhou para cima, em neblina, para a espada prestes a mergulhar nele.
Dúvidas—— Hesitação——
Orba não tinha poder nele para resistir a elas. Se tivesse que haver uma razão, era porque essas questões e sugestões sedutoras todas brotaram de dentro dele. Através da ponta da espada de Pashir, os milhares de rostos pertencentes à chama engoliram Orba inteiro. Ele sentiu uma dor insuportável, como se seu coração estivesse sendo queimado até virar cinzas.
E,
Justo antes que pudessem queimá-lo completamente e antes que a espada perfurasse seu peito—
Um objeto dourado tremulou na frente dos dois. Era a medalha presa à corrente que Orba usava sobre o pescoço. Libertada do rasgo na armadura de couro de Orba, ela dançou no ar.
Ela queimou com uma chama brilhante.
Ela brilhou vividamente, quase como se estivesse acumulando as luzes que se esvaíam com o anoitecer, e lançaram um raio de luz refletindo o sol.
— Ugh.
Pashir desviou os olhos.
E ao mesmo tempo, as restrições inexplicáveis que o prendiam desapareceram. Orba desesperadamente rolou para o lado e evitou a espada mergulhando sobre ele.
Vileena!
Recitando aquele nome dentro de si, ele varreu a perna de Pashir. Pashir caiu para frente, mas imediatamente recuperou o equilíbrio no tempo que Orba levou para se levantar. Suas espadas colidiram a uma distância igualmente afastada de seus rostos.
A malícia havia ido embora. Elas nunca deveriam ter estado lá desde o início. Se tivessem existido, então teriam se originado das costas de Orba e não das de Pashir.
Eu não vou carregá-las.
Supondo de quem era a vida, supondo de quem era a alma,
Mesmo se as montanhas acumuladas de cadáveres me amaldiçoarem a noite toda; mesmo se seus rancores me incitem incontáveis vezes, não vou deixá-los me influenciar, não importa quem, o quê, como…
Espada colidiu com espada. Mesmo aquele único golpe se provou demais para o ferido Orba suportar. Ele se dobrou.
— Argh!
A máscara de ferro de Orba atingiu o nariz de Pashir.
O espadachim cuja máscara estava tingida de vermelho e Pashir, que igualmente tinha sangue escorrendo pelo rosto, ambos cambalearam para trás, e ainda assim também apertaram o punho em suas espadas ao mesmo tempo.
Eles se aproximaram um do outro à distância de uma lâmina, e quase simultaneamente soltaram um único balanço. Theresia instintivamente se virou, e ao lado dela, Vileena cravou as unhas em seus punhos cerrados, gravando este instante em seus olhos.
A metade quebrada de uma espada foi enviada girando no ar antes de se cravar no chão.
Não havia espada na mão de Orba. A ponta da espada de Pashir brilhou opacamente indo contra seu pescoço. Ele já havia usado toda sua força, e não havia razão para enfrentar Pashir numa confrontação.
Isso era algo que Orba sabia mais que ninguém. Ele balançou à direita com toda sua força, quebrando sua espada, ou pode até ter deliberadamente permitido que sua espada fosse quebrada, e, dando um passo à esquerda, esquivou do ataque que chegava enquanto entregava um soco direito no queixo de Pashir.
Aconteceu num instante. Depois disso, Pashir caiu de costas, desabando de cara para cima. Pashir foi nocauteado e ficou imóvel, e o corpo de Orba subiu e desceu pesadamente com respiração difícil.
O vencedor foi iluminado num vermelho brilhante pelas fogueiras.
O grande estádio de Solon tremeu.
Os arredores subitamente ficaram escuros. Orba foi dominado pelos gemidos aterrorizantes enviados dos céus pelas numerosas almas libertadas de sua marca.
— Poupe-o!
— Mate-o!
O barulho feito destes dois cânticos era quase o mesmo. Como se paralisado com hesitação, Orba não se moveu.
Então, a arena tremeu, numa maneira diferente de falar. Aquela que se levantou e estava apontando os polegares para baixo era a imperatriz, Melissa.
Naturalmente, aquele era o sinal para “matar”.
Orba mancou em direção a Pashir, e arrancando a espada de suas mãos, estendeu o braço. Contudo, naquele instante seu corpo se curvou, e ele também caiu, desabando. Nem vencedor nem perdedor existiam entre estes dois que ficaram desabados um sobre o outro. Isso, acima de tudo, deu testemunho à luta de tirar o fôlego que havia se desenrolado.
— Assim, parece que há pouca escolha senão esperar e ver quem acorda primeiro para dar o golpe final — o imperador disse. — Contudo, isso deixaria um gosto amargo. É um fim inadequado para batalha tão esplêndida. O vencedor é Orba. Isso basta.
— Princesa! Princesa!
Theresia balançou os ombros de Vileena num sobressalto.
— Ele venceu! Orba-sama venceu!
— Sim… ele venceu…
Vileena baixou a cabeça, com olhos bem abertos. Seu rosto uma vez pálido retomou a cor e seu pescoço estava encharcado de suor. O espetáculo não foi tão horrendo quanto a jovem garota pensou. Foi a representação de uma batalha atroz e miserável, mas ela também sentiu algo tomar conta profundamente dentro dela e abalar seu próprio ser.
— Aquela é a medalha que a princesa enviou para Orba-sama, não é? Orba-sama fez o favor de usá-la, e tenho certeza de que a amizade da princesa lhe concedeu a vitória!
— S-sim…!
Agarrando-se à mão de Theresia, Vileena acenou inocentemente como uma garotinha. Seu coração acelerado ainda não havia se acalmado, os jogos de gladiadores tinham seriamente feito mais mal que bem ao seu corpo.
As multidões de pessoas reunidas de dentro de Solon — ou melhor, dentro de Mephius, cantaram o nome do vencedor. Como se completamente esquecendo da longa paralisação e sua explosão de vaias, eles repetidamente gritaram “Orba” tão alto quanto conseguiam, nunca se cansando do nome.
— Uma luta louvável!
O imperador se levantou e anunciou. Todos direcionaram seu fervor ao imperador Guhl Mephius em concordância. Ele ergueu a mão e esperou que os aplausos diminuíssem.
— Foi uma batalha esplêndida, uma que não trouxe vergonha às batalhas de outrora. O vencedor que ganhou a coroa dourada, e claro, aqueles que foram derrotados nestas batalhas também, servem como pedra angular de Mephius e nunca serão esquecidos. Enquanto damos boas-vindas às centenas de pessoas a cada ano, não devemos esquecer o sangue dos milhares que morreram. No lugar dos mortos enlutados, eles serão a prova viva de nosso orgulho. Pelo nome do Deus Dragão, eles trarão glória ao nosso país.
— Glória…!
— Glória a Mephius!
As pessoas gritaram em coro.
Enquanto jazia desabado, Orba ouviu a voz do imperador ressoar através de suas costas.
— Passando por toda essa confusão… — Pashir gemeu deitado de cara para baixo. — Teria sido melhor se você tivesse dado o golpe final. Você é ingênuo demais se pensa que vou me juntar ao exército.
— O que quer dizer?
Orba falou como se tivesse acabado de acordar, e lentamente se levantou.
— Caminhar é o melhor que consigo fazer. Você fique aí e durma por agora. Seria patético se o vencedor estivesse mais ferido que o perdedor.
— Hmph — Pashir soltou um bufo.
Depois, o líder da Guilda dos Gladiadores e representante interino dos nobres, Fedom, chamou.
— Vencedor Orba, por aqui por favor.
Os portões abaixo das arquibancadas se abriram, e Orba foi trazido à escadaria. Fedom irradiou com orgulho. Depois de entregar sua espada aos Guardas Imperiais, Orba pisou na escadaria. Logo alcançaria o imperador, se ajoelharia, e receberia a coroa em sua cabeça. Gradualmente, os gritos da multidão do nome de Orba ficaram aquecidos. Contudo,
— Pare.
Guhl Mephius subitamente parou Orba com a mão. Ao lado de Fedom que exibiu um rosto questionador, ele deu um comando.
— Aquela máscara é um obstáculo na coroação do elmo de Clovis. Tire-a.
Orba instantaneamente parou de se mover. Vileena, Ineli, e um número considerável daqueles sentados nas arquibancadas que conheciam o guerreiro mascarado, Orba, fizeram rostos chocados.
— Bem? — O imperador disse gentilmente. — Isso é presunçoso. Nenhum escondeu o rosto como Clovis. Tire a máscara.
— P-Por favor espere, sua majestade.
— O que é, Fedom?
— I-Isto é, a máscara que ele usa não é uma feita para capturar a atenção das massas e adornar sua aparência. Ela recebeu a maldição de um mago para nunca sair. E-Eu também não acreditei no início mas Orba nunca realmente ficou sem sua máscara mesmo sob circunstâncias normais.
— Oh? — O imperador acariciou a barba com interesse.
Todos estavam quietos no momento. Ouvindo a situação, os espectadores observaram num silêncio cheio de admiração.
— Não saberemos a menos que tentemos. Vocês dois.
Ele estalou os dedos, e direcionou os dois guardas imperiais em direção a Orba. Ele ia puxá-la através de força bruta.
— P-P-Por favor espere, sua majestade.
— O que é? Sua atitude está sendo lamentável, Fedom.
O rosto de Fedom empalideceu e ele espumou numa bagunça total.
— É-É perigoso. A maldição naquela máscara é provavelmente aterrorizante. Aqueles que tentam tirá-la ou quebrá-la independentemente da vontade de Orba morrem pelas mãos dele.
— Ficará tudo bem se o segurarmos. Ou você quer dizer que a maldição, por alguma mão invisível, se estenderá e me matará, o imperador?
— O, o, o—
“Ou possivelmente” Fedom havia começado a dizer, mas se viu incapaz de falar ao perceber que estava cruzando uma linha perigosa. O imperador era o descendente do imperador fundador nascido do homem e Deus Dragão. Até mesmo tentar dizer que ele seria morto por algo como uma maldição lhe renderia a pena de morte de Guhl Mephius.
Vileena Owell havia instintivamente começado a se levantar de seu assento mas foi forçosamente empurrada para baixo pela mão de Theresia. Mesmo se ela não soubesse suas razões para fazer isso, ela entendia ao ver o comportamento de Orba que ele não queria seu rosto exposto nu aqui. Então ela ia lhe dar uma mão amiga; contudo, ela não tinha chance de suceder. Orba ficou parado congelado, ciente do suor frio brotando sob sua máscara e descendo pelas costas. Ele estremeceu ao pensar em como enfrentaria Pashir depois. Naturalmente, a máscara atualmente não tinha poder amaldiçoado. Se alguém a puxasse com toda força, ela facilmente sairia direto.
Então eles vão com isso, né.
Ele pensou por um momento rápido, enquanto olhava para os dois guardas imperiais se aproximando mansamente dele. Ele nocautearia ou chutaria eles para baixo, e então fugiria correndo. O plano não era exatamente bem pensado, e com sua condição atual, a chance de suceder era pequena. Contudo, ter seu rosto exposto aqui terminaria com sua morte de qualquer jeito.
Vileena empurrou de lado a mão de Theresia e começou a se levantar. Ela planejou recorrer à “aposta” que havia feito com o imperador no dia anterior. Orba ligeiramente arqueou as costas, como se fosse um animal pronto para morder as traqueias dos guardas que se aproximavam, quando,
— Por favor espere, sua majestade.
A figura de uma pessoa se levantou reta.
Orba olhou para cima para ver o rosto da pessoa, e fez um rosto surpreso sob sua máscara. Aquela sorrindo e se curvando ao imperador era Ineli Mephius.
— Não está tudo bem que ele se recuse a tirar sua máscara? Ele finalmente se estabeleceu como o herói mascarado, Orba. O atrativo de um enigma reside em seus mistérios cuidadosamente ocultos. Ouso dizer que nada virá disso se o senhor o expuser. E é muito provável que ele nunca mais ande mascarado.
Os pensamentos de Ineli foram bem-vindos pelos nobres com sorrisos.
— O que pensa, pai?
— Suponho que isso também fica bem. — Guhl estreitou os olhos ao pedido de sua enteada. — Orba o gladiador, você deveria se sentir honrado por receber o afeto de minha filha. Oh, mas tenha em mente, não tolerarei tais aproximações entre vocês dois diante de minha presença no futuro.
— Oh pai, o que está dizendo?

O rosto de Ineli ficou vermelho, e ela desviou o olhar; as pessoas ao redor riram mais uma vez. Assim, a tímida Ineli triunfou. Ela sabia que Vileena também não queria que a máscara de Orba fosse removida. Por isso, pôde se deleitar com uma onda de excitação, muito parecida com o que sentiria se uma jovem fosse despida diante dela.
Acima de tudo, seu alvo era Orba; aquele que não lhe deu atenção e, ainda por cima, dançara com Vileena, arruinando seus planos. Ela sentiu prazer em vê-lo diante do perigo e embriagou-se com a satisfação perversa de tê-lo salvo.
De qualquer forma, Orba ajoelhou-se diante do imperador, como planejado, e recebeu a coroa sobre a cabeça. As orelhas do tigre atrapalharam um pouco, e a coroa ficou torta, mas os espectadores gritaram seu nome novamente e bateram palmas.
Vileena soltou um suspiro de alívio. Então, percebeu alguém a observando. Entre os rostos à sua frente, estava Ineli. Seu sorriso triunfante desapareceu por completo. Vileena ficou instantaneamente perplexa com a emoção que viu naquele olhar.
Ódio.
Um sentimento nunca antes dirigido a ela. Sim, seu pai e Theresia já a repreenderam, outros competidores lhe mostraram hostilidade na corrida de aeronaves, Ryucown apontara sua espada para ela no Forte Zaim e até ameaçou matá-la.
Mas nada disso poderia ser descrito como ódio. Ela sentiu um calafrio, como se um pequeno fogo dentro do peito a atacasse.
Acima do gladiador Orba, que passava pela coroação, os olhares das duas garotas, como se ligados por um fio invisível, não se separaram.
◇◇◇
A noite chegou ao último dia do festival.
A exibição naval e o desfile aéreo começariam em breve. No entanto, Zaat prestou pouca atenção a esses eventos e adentrou rapidamente na arena vazia.
Ele veio olhar o local onde a história mudaria. Agora, era um capítulo do governo de Mephius sob os imperiais. Mas, na manhã seguinte, quando ele visse novamente aquele lugar vazio, tudo estaria completamente diferente.
A mudança, é claro, não seria visível. No entanto, a paisagem após Mephius ser libertada das mãos dos imperialistas e tomada por suas mãos não seria a mesma. A vista das montanhas distantes, da névoa matinal deslizando sobre o solo fino, até mesmo a sensação das roupas ao cruzar os braços.
— Oh?
Despertando de seu devaneio, Zaat Quark avistou a figura do príncipe, Gil Mephius, dentro da arena. Acompanhado por alguns que pareciam ser seus guardas imperiais, ele andava de um lado para o outro.
Parecia que estava se exibindo há uma hora, com a mentalidade de “eu estou no comando”.
— Que tolo simplório.
Zaat zombou. O fato de que ele, de todas as pessoas, fosse o primeiro sucessor ao trono poderia muito bem significar o fim do futuro de Mephius. Até agora, ele vivera na extravagância, desperdiçada como era, mas em breve amaldiçoaria o dia em que nascera.
Zaat até considerou cumprimentá-lo de passagem, mas desistiu da ideia.
Embora o tumulto da luta entre Orba e Pashir tivesse ocorrido no dia anterior, nada parecia impedir a execução do plano. Era uma sorte que Pashir ainda estivesse vivo. Para avançar com o plano, Noue infiltrou um instigador entre os gladiadores com a cooperação de Oubary. Segundo uma carta de Noue, o instigador encontrou-se com Pashir e determinou que o escravo era um homem carismático e talentoso e, acima de tudo, odiava Mephius.
As chamas que Pashir emanava rapidamente afetaram as pessoas ao redor. A pequena luz contida dentro da lâmpada, sem querer, reuniu as fagulhas do descontentamento em uma só e se incendiaram. Enquanto ele vivesse, a revolta dos gladiadores avançaria sem problemas.
Convencido disso, Zaat Quark aguardava ansiosamente o momento destinado a chegar.
Quanto a Orba, ele percorreu cada centímetro da arena. Agora, dirigia-se aos camarotes reservados aos nobres e a família imperial. A maioria dos estadistas presentes já tinha seus assentos designados. Claro, isso incluía o lugar do príncipe Gil e da Vileena.
Orba parou em frente ao seu assento, ao lado de Kain. que era um especialista em armas de fogo, pistolas, rifles, tudo. Orba perguntou-lhe:
— Qual é o melhor lugar para mirar aqui? E tem que ser uma posição de sniper decidida com antecedência, com a arena lotada.
— Com antecedência… hmm, acho que seria difícil. — Kain estreitou os olhos e olhou em todas as direções. — Mas, se quisessem chamar a atenção do público, há um lugar fácil de dominar.
Kain apontou para um único alvo: as torres de vigia posicionadas em todas as direções da arena.
Durante as lutas de gladiadores, vários guardas ficavam no topo, supervisionando o que acontecia dentro e fora do coliseu. Geralmente, uma pequena aeronave estacionava ali e, caso algum problema surgisse, poderia ser rapidamente enviada para investigar.
Se todas as etapas da rebelião dos gladiadores já estiverem organizadas…
Então, a ocupação das torres de vigia estaria incluída no plano? Orba ponderou e, em seguida, deu várias ordens aos guardas imperiais. Entre elas, as aeronaves de sua unidade eram especialmente importantes. Sua unidade possuía doze aeronaves, e Orba planejava usar todas.
— Não se deixem ser vistos até o início. Fiquem escondidos nos arredores da arena, em espera. Um mensageiro dará o sinal. Não errem o timing.
Pouco depois, os cidadãos impacientes de Solon começaram a chegar, e Zaat sentou-se em seu lugar. Nessa hora, Gil e seus guardas imperiais já haviam desaparecido.
Em mais uma hora, os nobres começariam a aparecer. Sem saber que era um dos peões, Zaat deleitou-se enquanto os via se reunir.
Daqui a duas horas, quando o dia atingisse seu ápice, Orba, usando o capacete de Clovis, apareceria para liderar os duzentos gladiadores. Três Sozos seriam transportados em gaiolas sobre carrinhos.
Seria o momento que mudaria a história. Logo após o início da batalha, os escravos do campo de detenção provavelmente agiriam. Alguns de seus subordinados infiltraram-se entre os guardas. Incêndios surgiriam, fumaça subiria, e os guardas do palácio seriam forçados a se mover, reduzindo seus números.
Usando isso como sinal, os escravos dentro do coliseu se levantariam. Conseguiriam o apoio de escravos escondidos nas arquibancadas, escalariam as paredes e invadiriam com os espadachins. E então, os escravos que serviam seus mestres aproveitariam a chance para virar suas espadas ou armas contra eles. E Zaat planejava agir no meio desse caos.
Depois disso, dependerá do que os escravos fizerem, mas…
Nessa situação, talvez fosse melhor vê-los como aliados. Ele não queria enfraquecer suas forças, mas a libertação total dos escravos era outra história. Se os escravos se revoltassem por todo o país, Mephius afundaria ainda mais no caos. Não era uma situação que desejasse para um país que pretendia governar. Por isso, mesmo que os chamasse de aliados agora, mais tarde os silenciaria com a guilhotina. Um homem como Pashir era especialmente perigoso. Ele precisava ser capturado primeiro.
Talvez não fosse ruim se a princesa Vileena perdesse a vida no meio da confusão.
Isso pagaria sua dívida com Noue.
No entanto… esses insolentes garberanos! Se acham que cooperarei facilmente com eles, estão enganados. Enquanto esses imperiais inúteis não estiverem por perto, farei de Mephius a maior potência do continente.
Enquanto se perdia em seus pensamentos, o coliseu continuava a se encher. Exceto pelo imperador e a imperatriz, todos os estadistas já estavam reunidos.
Cada um desses porcos indulgentes em seus próprios interesses. Enviarei todos eles para um lugar adequado — acorrentados.
Em algum momento, Zaat convencera-se de que era o único nobre que se importava com os pobres, enquanto todos os outros eram corruptos e sujos, velhos usurpadores do trono. No entanto, quando viu o rosto de Simon, seus pensamentos se desorganizaram um pouco.
Ele respeitava apenas esse homem e ansiava por tê-lo como seu braço direito.
Infelizmente, Simon não era alguém que diria “sim” facilmente.
Não, isso só torna tudo mais interessante. Lorde Simon não é do tipo que ignoraria o caos no país. Pode levar algum tempo, mas farei com que ele coopere comigo.
Zaat alimentava a ilusão de que já governava o país e, por isso, não percebeu que, entre os assentos da família imperial, Gil Mephius não estava. Mas, mesmo que tivesse notado, não estaria disposto a dar importância.
Do outro lado, sentada em uma seção separada, Vileena preocupava-se com a ausência do príncipe.
— Ele ainda está doente?
Theresia perguntou ao seu lado, mas ela não sabia. O imperador e os outros imperiais não pareciam preocupados. Tendo ficado no palácio de Solon, ela naturalmente soube como o príncipe era visto.
Aquele homem também pode estar completamente sozinho.
A ideia ocorreu-lhe de que talvez essa fosse a razão por trás de sua proposta repentina de incluir Orba no torneio. Ele não mencionou o assunto apenas para chamar atenção?
— Princesa, por favor, tome isto.
Vileena distraidamente pegou o copo de chá gelado da bandeja da escrava. Depois, reparou no rosto da garota enquanto ela se afastava. Pele branca, lábios vermelhos e atraentes, sua aparência era deslumbrante. Aqueles que podiam entrar no camarote destinado a família imperial e nobres estavam limitados aos soldados da guarnição de Solon, aos guardas imperiais e aos escravos que serviam seus senhores. Ela provavelmente era uma delas. Seus modos eram ágeis, seus movimentos, graciosos.
Depois disso, duas horas se passaram.
A arena estava lotada, todos os nobres já estavam em seus lugares, mas o evento não começava. Zaat franziu a testa. Quantas vezes os nobres já haviam olhado para o céu escaldante? A multidão também começava a perder a paciência, e o barulho aumentava.
— O que significa isso? — O imperador explodiu em fúria. — Vocês planejam me envergonhar no final do festival? Comecem a luta imediatamente!
Em resposta, um relatório inesperado chegou. Um oficial do coliseu correu em direção ao imperador com uma expressão perplexa.
— O príncipe apareceu de repente e está tentando impedir os escravos de saírem. Ele continua dizendo “Esperem um pouco mais, esperem um pouco mais” e repete essa frase.
Todos trocaram olhares. Metade se divertia com aquila, já a outra metade estava atônita.
— O que aquele idiota está pensando? Mandem alguém trazê-lo de volta!
— Francamente… — Melissa suspirou, abanando seu leque. — Vossa Majestade, os enviados dos outros países certamente subestimarão o príncipe depois disso.
— Deve haver algum engano.
Simon murmurou, completamente surpreso.
Naquele momento, Gil Mephius — Orba — estava abaixo do camarote, do outro lado do portão.
Ele fazia sua verificação final. O timing da estratégia de hoje não podia errar nem um pouco. Ele agiu com discrição e, arbitrariamente, decidiu atrasar a aparição dos gladiadores, enquanto dava novas ordens a seus subordinados.
E, como fase final de seu plano, chamou Kain para uma sala no fundo do acampamento. Kain vestir-se-ia como Orba e apareceria como Clovis dali em diante.
Como estrela do clímax do festival, não poderia ser simples. Ele estava totalmente coberto por uma armadura dourada brilhante. Originalmente, deveria usar o capacete dourado com asas que marcava Clovis, mas a máscara de Orba dificultava o uso, então, em vez disso, prendeu um cinto com um par de asas abertas na cintura.
— É terrivelmente pesado — Kain reclamou, querendo estufar o peito — Não vou conseguir agir como um herói assim.
— Aguente. Estufe o peito, majestosamente, já que está nisso — Orba riu.
Nessa mesma hora, Pashir andava pelo campo de detenção à procura de Orba. Designado como o auxiliar de Clovis, Felipe, ele também teve que vestir roupas especiais e trocar em uma sala separada. Assim que terminou, saiu imediatamente. Queria revisar o plano que lideraria uma última vez com Orba.
Vestindo um manto completo com ombreiras de couro e o arco e aljava característicos de Felipe nas costas, ele procurou ao redor. Passou pelo grande salão onde os escravos se reuniam. Seus rostos estavam tensos, prontos para morrer ali, naquele dia.
— Você sabe onde Orba está?
— Agora que mencionou, não o vi por aqui.
— Os trabalhadores da arena o chamaram. Provavelmente é alguma reunião especial sobre o papel de Clovis.
Se for só isso…
— Então posso esperar até ele voltar.
Pashir pensou. No entanto, um mau pressentimento o incomodava. Já era hora de se apresentarem, mas ninguém os chamou. Ele também ouviu que Gil Mephius apareceu pessoalmente e discutiu com um oficial do coliseu.
Andou por todo o acampamento. Mas Orba não estava em lugar nenhum. E Mira também desapareceu havia algum tempo. Preocupado, mas achando que já deviam estar chamando os gladiadores, ele voltou. Talvez tivesse errado o caminho, porque, ao passar por um corredor, parou diante de uma porta. A voz de Orba vinha de dentro. Ele falava com alguém.
— …e assim, conseguiremos controlar os escravos. Depois, será com Shique e os outros. Quando agirem, fiquem de olho em Pashir e no resto.
O quê?!
Pashir, prendendo a respiração, abriu a porta silenciosamente. E lá, viu Orba e o príncipe Gil lado a lado. Como se tivesse detectado sua presença, Orba olhou em sua direção. Seus olhares se encontraram e, um instante depois, Pashir arrombou a porta.
— Seu maldito!
Pashir soltou um rugido baixo, bestial.
— SEU MALDITO!
◇◇◇
Vinte minutos depois.
O imperador, impaciente, levantou-se furioso de seu assento.
— Tragam Gil até mim! Não me importo se tiverem que amarrá-lo! Até quando ele vai agir como uma criança!
Ele estava prestes a ir buscar Gil pessoalmente quando Simon e Fedom o seguraram. Finalmente, os portões se abriram.
Totalmente impacientes, a excitação da multidão atingiu o ápice. O imperador sentou-se novamente, respirando pesadamente. Aplausos e gritos encheram o ar enquanto os guerreiros apareciam um após o outro.
— Princesa, parece que finalmente começou.
Theresia sorriu. Vileena inclinou-se para frente, procurando Orba. No entanto, seus olhos logo encontraram uma cena peculiar.
Orba, que deveria liderá-los, não estava entre os gladiadores. Em vez disso, no centro dos gladiadores que entraram, estava…
Gil Mephius.
E não apenas isso, suas mãos estavam amarradas atrás das costas. Pashir, no centro dos duzentos escravos em procissão, segurava a corda.
— Ei, não é o príncipe?
— O que é isso?
— Que ideia é essa?
As pessoas no coliseu murmuravam, inquietas. Acharam que era algum truque do príncipe, famoso por buscar atenção, para se incluir nos jogos.
Grr.
Zaat Quark estreitou os olhos. Pensou o mesmo. Isso não estava no plano. No entanto, ele sentia que estavam falando sério e, enquanto os murmúrios cresciam, foi o único a entender.
Por algum capricho, o príncipe fora ver os escravos e acabou capturado. Certamente, isso era mais eficiente do que se revoltarem no meio da luta com os dragões, mas Zaat não ficou satisfeito com a mudança no plano. Ele estalou a língua.
Que idiota. Ele deve ter a pior sorte, aparecendo na frente dos escravos prestes a se rebelar. Bem, não importa, desde que isso facilite as coisas.
— Princesa, isso é…
Assim que seus olhos se encontraram, o grito de Pashir ecoou.
— ESCUTEM, NOBRES E IMPERIAIS DE MEPHIUS! TEMOS O PRIMEIRO SUCESSOR DE MEPHIUS, GIL MEPHIUS, OU SEJA, O FUTURO DE MEPHIUS, EM NOSSAS MÃOS! NÃO SOMOS MAIS ESCRAVOS, NEM SEREMOS FORÇADOS A MATAR! AGORA, ABRAM CAMINHO PARA NÓS! SEREMOS OS PIONEIROS DA LIBERDADE!
— Isso é um absurdo!
O entorno de Vileena explodiu em caos. A situação ficou clara. Isso não era um truque. Os escravos tinham tomado o sucessor como refém. Era uma rebelião!
— V-Vossa Majestade, isso é grave!
— O que devemos-!
— Imbecis! Não entrem em pânico! Guardas, reforcem os perímetros! Não deixem que esses loucos façam o que quiserem!
A voz do imperador abafou o alvoroço.
Além disso, fumaças negras subiram dos portões do campo de detenção. Os escravos começaram um incêndio. Vendo isso, os espectadores pularam de seus assentos e correram em desespero. O pânico se espalhou rapidamente. Gritos altos o suficiente para tapar os ouvidos, pessoas se empurrando em todas as direções.
Os guardas armados correram para os portões. Ao ver isso, o coração de Zaat bateu furiosamente.
Começou!
O imperador ordenou que os enviados diplomáticos se abrigassem rapidamente. Os soldados nas torres de vigia embarcaram em aeronaves e dirigiram-se às arquibancadas. Noue Salzantes, nesse momento, recusou a ajuda dos soldados e insistiu que as nobres embarcassem primeiro.
— Oh? Então chegaram.
Noue sorriu e olhou para o céu. Outros também notaram.
— Olhem!
— São as aeronaves da Guarnição!
Três navios da Guarnição de Solon apareceram no céu. No centro, estava a nave capitânia usada no desfile. As outras duas eram cruzadores rápidos de 24 metros.
No entanto, com o príncipe como refém, não podiam atirar. Apenas circulavam o coliseu, encarando os escravos com hostilidade.
Os escravos, não apenas Pashir, mas todos os duzentos, estavam surpreendentemente organizados.
Quando as aeronaves chegaram e os guardas do palácio tentaram cercá-los, eles apontaram a espada para o pescoço do príncipe e os fizeram recuar. Era como se fossem parte de uma tropa de elite, treinada por anos de disciplina.
Ficaram nesse impasse. Enquanto isso, Oubary Bilan desaparecera secretamente com os enviados.
O imperador, perdendo a paciência, estava prestes a dar novas ordens quando a nave capitânia começou a descer. Ninguém dera tal ordem. Simon, surpreso, gritou em vão:
— Esperem!
As outras aeronaves também balançaram. O compartimento traseiro da capitânia abriu-se, e pequenas aeronaves saíram em enxame. Cada uma levava dois soldados armados com baionetas, mas, ao notarem o príncipe Gil, não pousaram na arena.
Enquanto olhava para o céu, Vileena viu, por um instante, o reflexo das chamas e perdeu o fôlego. Um rastro de fogo saía do interior de uma das aeronaves da guarnição. Era o resultado de um tiro de canhão da capitânia e, quando percebeu, outra nave foi atingida.
O lado da aeronave explodiu, lançando destroços vermelhos e tripulantes para fora. Os nobres gritaram e se encolheram de medo. Ao mesmo tempo, as pequenas aeronaves da capitânia pousaram nas proximidades. Os soldados desceram, um a um, e prepararam suas baionetas.
— Princesa!
Theresia agarrou firmemente a mão de Vileena.
Seus rostos estavam escondidos sob máscaras e capacetes. O grupo de soldados sem expressão mirou suas baionetas exatamente nos nobres nos camarotes.
Tradução feita por fãs.
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