Rakuin no Monshou – CapĂtulo 3 – Volume 2
Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded
Light Novel Online – CapĂtulo 03:
[O Gladiador de Sua Alteza Real]
No dia seguinte e no outro apĂłs esse, Orba recusou todos os convites de Ineli e Rogue Saian. Ele se isolou em seu quarto, onde o trabalho que realizou se resumia a â nada.
Ficou à toa sozinho em seu aposento. A parte principal do quarto era muito maior do que os alojamentos que ocupara quando era um espadachim-escravo, vårias vezes maior na verdade. A varanda que se estendia do quarto também servia como jardim, mas ir até lå permitiria que fosse visto, e ele queria evitar perguntas sobre por que não estava doente. Por isso, limitou-se a caminhar dentro do cÎmodo.
No primeiro dia, e no segundo tambĂ©m, Orba perambulou como um animal Ă procura de caça. Cada segundo parecia interminĂĄvel. AtĂ© suas refeiçÔes foram feitas em silĂȘncio e sempre que algum ruĂdo leve surgia, ele imediatamente voltava os olhos para a porta, sĂł para constatar que ela nunca foi aberta. No segundo dia, uma sombra de impaciĂȘncia cruzou seu rosto. O cĂ©u lĂĄ fora jĂĄ escurecia, e justo quando ele perdia as esperanças, um mensageiro solitĂĄrio entrou correndo no quarto.
â Ele chegou!
Os pĂ©s de Orba pararam bruscamente. Quando Dinn começou a chamĂĄ-lo, deparou-se com a expressĂŁo de Orba e prendeu a respiração. Os olhos de Orba se arregalaram, e seus lĂĄbios se curvaram para cima, revelando seus caninos. Era uma aparĂȘncia aterradora, rivalizando com a de sua mĂĄscara.
Com as informaçÔes recebidas do mensageiro, Orba deu novas ordens. Eles seriam posicionados nas entradas do palĂĄcio e dos edifĂcios principais, alĂ©m de pontos estratĂ©gicos pela cidade, servindo como retransmissores de informaçÔes, garantindo comunicação em duas vias.
O local ficava a duas vielas da estrada principal, em um restaurante no final de uma rua repleta de bordéis.
Resumindo, Noue não apareceu pessoalmente para jantar com Oubary, mas sim um de seus mensageiros. O local era uma sala privativa no terceiro andar e qualquer um que desejasse entrar no estabelecimento precisava, sem exceção, tocar a campainha para obter permissão. Era ideal para conversas confidenciais.
Orba primeiro infiltrou vĂĄrios de seus ex-gladiadores no local. Naturalmente, deu-lhes dinheiro e os vestiu adequadamente. Depois de alguns copos de vinho, começaram uma confusĂŁo no horĂĄrio combinado e atĂ© arrastaram outros clientes para a briga, tomando cuidado para nĂŁo causar mais alvoroço do que o necessĂĄrio, depois saĂram rapidamente. Nesse breve momento, o ĂĄgil gladiador Aeson escalou cercas e muros, posicionando-se na varanda do quarto onde Oubary estava. Aeson era um pirata nascido nos mares do norte de Zongan, experiente em escalar mastros.
Ele ouviu a conversa sem fazer um sĂł ruĂdo. O encontro durou cerca de trinta minutos. Aeson sĂł conseguiu captar os Ășltimos cinco minutos. Mesmo assim, houve algum proveito. Quando os dois terminaram, Aeson desceu da varanda.
Cerca de trĂȘs horas apĂłs o primeiro relato do mensageiro, Orba ouviu o informe de Aeson.
â Entendo. NĂŁo comente isso com ninguĂ©m.
â Como desejar.
Desacostumado com a formalidade, Orba chamou Aeson novamente, quando este jĂĄ se virava para sair com o dinheiro na mĂŁo.
â Senhor? â ele respondeu, virando-se sĂł para encontrar uma arma apontada para si. Aeson ficou petrificado.
â Vou repetir, para deixar claro. Nem uma palavra para ninguĂ©m.
â S-sim, senhor.
â Nada de bebida durante o festival. E nĂŁo saia de Solon. VocĂȘ nĂŁo sabe onde estĂŁo meus olhos e ouvidos. Em troca, se obedecer atĂ© o fim do festival, receberĂĄ a mesma quantia que hoje.
Uma expressĂŁo alegre tomou seu rosto pĂĄlido, e ele respondeu:
â Sim, senhor!
â …O que estĂĄ acontecendo? â perguntou Dinn depois que Aeson saiu, seu rosto tambĂ©m sem cor.
â Nada estĂĄ claro ainda, e tudo Ă© possĂvel.
â M-mas isso nĂŁo faz sentido. O general Oubary serve Mephius hĂĄ anos. AlĂ©m disso, ele nĂŁo quer paz com Garbera. A princesa… nĂŁo poderia ter vindo desde o inĂcio com esse propĂłsito, mas entĂŁ-Mmpphhmmfuu!
Com uma porção de uvas enfiada na boca, Dinn ficou temporariamente ocupado em mastigar.
â Eu disse que nada estĂĄ claro ainda. Temos apenas fragmentos de informação.
Mesmo falando com calma, o coração de Orba fervia em turbulĂȘncia.
O conteĂșdo da conversa que Aeson ouvira era o seguinte:
â O incidente com Kaiser foi realmente uma sorte. Parece ter acelerado os planos de Zaat. Mas nunca imaginei que a situação chegaria tĂŁo rĂĄpido. AliĂĄs, por causa disso, Noue nĂŁo precisarĂĄ trabalhar por seus prĂłprios mĂ©ritos, nĂŁo Ă©?
â Ă como o senhor diz â respondeu o mensageiro. â Lord Noue estĂĄ progredindo firmemente em seus preparativos. Zaat Quark, o incĂȘndio no alojamento dos escravos… tudo estĂĄ andando conforme o planejado.
â E entre esses planos, eu tambĂ©m estou incluso, nĂŁo estou?
â Pela cooperação do general…
â Chega. Os agradecimentos virĂŁo depois que tudo acabar. Posso cuidar de Zaat, mas a situação dos escravos me preocupa. Aquele homem chamado Pashir. Conseguimos sua cooperação, mas ele estĂĄ participando do torneio de gladiadores. Se morrer, nĂŁo serĂĄ em vĂŁo?
â NĂŁo se preocupe. O fogo jĂĄ estĂĄ aceso em Mephius. No mĂĄximo, somos apenas um ventilador. Mesmo que Pashir morra, as chamas jĂĄ estĂŁo fora de controle.
â As chamas jĂĄ estĂŁo em Mephius, hmm. VocĂȘ estĂĄ certo. Por isso, a busca tambĂ©m serĂĄ feita dentro do Imperio. Claro… era esse o plano de Noue. Os espadachins-escravos sĂŁo um grupo infeliz. SĂŁo como crianças instigadas por adultos perversos a uma rebeliĂŁo inĂștil.
Oubary reprimiu uma risada.
â Depois disso, nĂŁo haverĂĄ mais problemas para o general. Sua ajuda em esconder o instigador deixou Lord Noue impressionado com sua coragem e habilidade, general Oubary. Desejo que nossa camaradagem e confiança transcendam fronteiras.
â Hmph â Oubary bufou. Como nĂŁo era possĂvel vĂȘ-lo, nĂŁo dava para saber que emoção ele demonstrava.
â Mas o que farĂĄ com sua princesa? Se agir mal, ela pode morrer.
â Se a princesa fugir antes, a participação de Garbera serĂĄ suspeita. NĂŁo se trata de agir mal… serĂĄ o resultado inevitĂĄvel.
â Oh â a voz de Oubary tremeu levemente.
Houve uma pausa breve. EntĂŁo Oubary limpou a garganta.
â A hora jĂĄ passou. Vamos embora. Para qual banquete Noue foi convidado esta noite?
â Acho que se chama PalĂĄcio do Luar. Muitos enviados de vĂĄrios paĂses foram convidados. Se nĂŁo me engano, a princesa Vileena tambĂ©m foi. O general nĂŁo vai?
â NĂŁo, Ă© o contrĂĄrio. Prefiro nĂŁo encontrar rostos estranhos. Vou verificar a situação de Zaatâ
Ele se levantou e saiu, impedindo que o resto da conversa fosse ouvido.
Orba revisitou mentalmente o diĂĄlogo relatado por Aeson.
Seu peito latejava.
Oubary e Noue tramavam algo monstruoso durante o festival. E, para piorar, algo grande o suficiente para abalar os alicerces de Mephius â nĂŁo havia dĂșvida.
Oubary estĂĄ traindo seu paĂs, e Noue, que deveria promover a paz, estĂĄ semeando o caos em Mephius.
Ele nĂŁo sabia qual era o objetivo comum deles. No estĂĄgio atual, nem conseguia especular. Mas dois pontos ficaram claros na conversa. O primeiro:
â A vida da princesa estĂĄ em perigo.
Obviamente, a princesa em questĂŁo era a terceira princesa de Garbera, Vileena Owell.
O outro ponto estava ligado Ă palavra-chave: Pashir. O Pashir que Orba conhecia era o gladiador favorito ao tĂtulo do torneio. Oubary tambĂ©m mencionara que ele estava “participando do torneio”, entĂŁo nĂŁo havia engano.
à primeira vista, esses dois nomes não pareciam ter conexão, mas estava claro que ambos estavam envolvidos em algum plano que, agora, avançava silenciosamente.
Se fosse algo que apenas trouxesse problemas a Mephius, Orba atĂ© teria sorrido. Ele odiava Mephius. Se pudesse queimar os nobres em chamas e vĂȘ-los sofrer, faria isso sozinho. No entanto, se Oubary estava envolvido, era diferente. Ele jamais ajudaria aquele desgraçado.
E tambĂ©m…
A imagem de cabelos platinados passou por sua mente, seguida de uma irritação pura e intensa.
Orba cruzou os braços, pensativo. Zaat, a quem Oubary dissera que iria ver. O Palåcio do Luar, onde Noue supostamente estava. Para qual iria primeiro? Não valia a pena fingir e perguntar diretamente. As informaçÔes que tinha eram poucas. Por isso, decidiu encontrå-lo pessoalmente para abalå-lo.
â Dinn, prepare uma muda de roupas.
â Vai sair agora? Para onde?
â PalĂĄcio do Luar â respondeu Orba, num tom inexplicavelmente constrangido por ter escolhido aquele destino.
â HĂĄ muitos enviados lĂĄ â comentou Dinn, concentrado na tarefa. â Hmmm, entĂŁo uma roupa formal para festa… mas, considerando que o prĂncipe sĂł se gaba de sua primeira campanha, talvez um uniforme militar seriaâ
â Couraça, sandĂĄlias e braceletes.
Orba pegou o objeto que escondia quando havia visitas. Era a mĂĄscara do Tigre de Ferro.
Vestido como um gladiador, Orba seguiu sozinho para o PalĂĄcio do Luar.
O PalĂĄcio do Luar â cujo nome original era “O PalĂĄcio do Luar Voltado para a Asa Esquerda do DragĂŁo” â ficava perto do SantuĂĄrio do Olho do DragĂŁo Imperial, possuĂa um dos jardins mais magnĂficos de Mephius e era frequentemente usado para grandes festas.
O guarda no portĂŁo viu a mĂĄscara de Orba e curvou-se. NĂŁo era um homem de destaque, mas, seguindo as regras, revistou-o em busca de armas e permitiu sua entrada.
Mal entrou no jardim, homens e mulheres o chamaram. O nome e a aparĂȘncia do gladiador que supostamente derrotara Ryucown eram conhecidos. Os nobres, como convidados da festa naquela mansĂŁo que sĂł perdia para as suas prĂłprias, o receberam bem.
NĂŁo que nunca tivessem encontrado alguĂ©m “selvagem” antes, mas Orba se tornou o centro das atençÔes. Depois de todo o trabalho duro como dublĂȘ do prĂncipe, era o mĂnimo que merecia.
Ao avançar, Orba deparou-se com as duas princesas, Vileena e Ineli. Ele ficou surpreso. As duas estavam frente a frente, conversando animadamente. Mas, por trås da aparente cordialidade, dava para ver hostilidade em seus olhares.
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Vileena Owell ardia em ambição. O prĂncipe, que ela achou que finalmente sairia da cama na vĂ©spera do festival, recolhera-se novamente em seu quarto. Ela nĂŁo dependeria mais dele.
Como se eu dependesse dele! NĂŁo hĂĄ nada em que se apoiar!
Ela ficou em frente ao espelho, ajustando o vestido, enquanto Theresia arrumava seu cabelo. Seus punhos se cerraram com força.
â A ausĂȘncia do prĂncipe Ă© conveniente. Avaliarei os enviados de outros paĂses sozinha e fortalecerei os laços com Garbera mesmo estando em Mephius. E tambĂ©m posso memorizar os nomes e rostos dos nobres mephianos. Primeiro, preciso fazer novas amizades. Se nĂŁo estabelecer minha prĂłpria base, nĂŁo avançarei.
â Oh, minha princesa, que cara assustadora â disse Theresia, olhando para o espelho. â Se ficar assim, todo o meu esforço para preparĂĄ-la como a melhor mulher de Mephius serĂĄ em vĂŁo. VocĂȘ vai assustar todos os homens. AtĂ© o prĂncipe, lĂĄ longe em seu quarto, vai tremer ao ver essa expressĂŁo demonĂaca.
Ignorando o sarcasmo de Theresia, a fĂșria de Vileena sĂł aumentou.
O modo de agir do imperador… eu o detesto.
A execução de Kaiser Islan estava marcada para alguns dias depois, durante o torneio de gladiadores, onde ele serviria de isca viva para dragÔes diante da multidão. Ao saber disso, Vileena sentiu nojo e horror.
Kaiser nem sequer teve chance de se defender. No mĂĄximo, expressara oposição Ă proposta do imperador de realocar o santuĂĄrio e construir um novo edifĂcio no lugar. Se coisas assim acontecessem, atĂ© a administração do paĂs sairia do controle.
“Homens de posição elevada, que sĂł sabem olhar para o mestre com medo de irritĂĄ-lo, sĂŁo os que governam o paĂs. Nunca pensei que uma nação assim duraria tanto numa sociedade belicosa.” Seu avĂŽ certamente diria algo assim.
Vileena refletiu sobre isso durante o banquete no Palåcio do Luar naquela noite. Por mais selvagem que Mephius fosse, devia haver quem se opusesse às açÔes do imperador.
Preciso identificar cada um deles e suas opiniÔes, e uså-las para beneficiar Garbera. Preciso estabelecer minha própria posição.
A festa começou ao pĂŽr do sol. Nos salĂ”es e no jardim, montanhas de comida e pessoas se espalhavam. Entre conversas e mĂșsica, Vileena apareceu diante dos convidados elegantemente vestidos. Para os nobres mephianos que a cumprimentaram, ela começou com um sorriso afĂĄvel.
â Oh, mais uma beleza nesta noite encantadora.
â O dia mais orgulhoso para todos os mephianos estĂĄ prĂłximo. Rezo para que o casamento da princesa, a flor branca de Garbera, aconteça o quanto antes.
â Minha nossa! Que princesa encantadora. Um par perfeito para nosso prĂncipe herdeiro.
Continue sorrindo.
Ela lutou para esconder a emoção que, como uma aranha venenosa aninhada em seu peito, ameaçava transparecer em seu rosto, enquanto respondia educadamente a cada um. No entanto, ninguĂ©m mencionou o caso de Kaiser. Vileena jĂĄ conhecia alguns costumes de Mephius e sabia que as mulheres preferiam nĂŁo se meter em polĂtica.
Se pelo menos alguĂ©m trouxesse o assunto…
Ela entendia que era difĂcil para eles mencionarem o tema com uma convidada estrangeira. Vileena lamentou amargamente sua posição ambĂgua. Se Gil Mephius tivesse vindo com ela, as coisas poderiam ser diferentes. O pensamento sĂł aumentou sua raiva do prĂncipe â e de sua incompetĂȘncia.
Decidiu mudar de local. Se o assunto surgisse no caminho, ela tentaria participar.
Entre o PalĂĄcio do Luar e o PalĂĄcio Principal, havia um bosque pequeno, mas incomum, que embelezava o jardim. No centro, uma fonte reunia um grupo de pessoas em animada conversa. Num canto, mĂșsicos tocavam uma melodia suave. Casais dançavam, jovens e velhos.
Oh? Vileena parou. Ela avistou Noue Salzantes. No palåcio de Garbera, ele era popular entre as jovens e crianças, e parecia ser assim também em Mephius. Ele dançava magnificamente com uma dama, enquanto outras olhavam com inveja.
Quando a mĂșsica terminou, Noue notou Vileena. Ele a cumprimentou rapidamente e, por algum motivo, dirigiu-se para o interior da festa.
â Boa noite, irmĂŁ.
Quem fez uma leve reverĂȘncia, erguendo a barra do vestido, foi Ineli Mephius, meia-irmĂŁ de Gil Mephius e princesa imperial.
Vileena lembrava-se de sua aparĂȘncia inocente e encantadora. E, com ela, o comentĂĄrio extremamente rude de Theresia: “NĂŁo parece que ela sĂł tem dois anos de diferença para Vileena-sama.”
â Ah, serĂĄ que ainda nĂŁo me apresentei Ă minha irmĂŁ mais velha? Espero que nĂŁo se importe, Ă© sĂł uma questĂŁo de tempo. Achei melhor nos conhecermos logo.
â Sim, concorâ Ow! â Sim, concordo plenamente.
O “ow” foi porque Theresia lhe deu uma cotovelada. Era uma situação delicada, onde definiam suas posiçÔes relativas, mas, por ora, era melhor se portar como convidada. AlĂ©m disso, Theresia percebeu instintivamente que Ineli nĂŁo era do tipo que sua senhora gostaria de fazer amizade.
â Acabo de dançar com Lord Salzantes, e, como esperado, Garbera tem homens refinados. Sua habilidade de dança e, claro, de acompanhar uma dama, sĂŁo muito superiores aos dos homens de Mephius. IrmĂŁ mais velha, por que nĂŁo dança tambĂ©m? Tenho certeza de que todos aqui adorariam convidĂĄ-la.
â NĂŁo, obrigada. Dançar nĂŁo Ă© meu forte â Vileena sorriu modestamente. â Acabei de ver a princesa Ineli dançar, e vi que Ă© extremamente talentosa. NĂŁo estou Ă altura.
â Oh, Ă© mesmo? Que pena. Bem, nĂŁo se preocupe. Tenho aulas de dança desde os trĂȘs anos. Minha professora Ă© uma mestra da corte imperial de Arion. Dizem que ela jĂĄ era talentosa nessa idade.
â Isso Ă© impreâ impressionante.
Sem perceber, um grupo de garotas â provavelmente filhas de nobres importantes â cercou Ineli.
â Ineli-sama sempre foi boa em tudo desde pequena.
â Meus pais sempre me dizem: “Por que vocĂȘ nĂŁo Ă© como a Ineli-sama?” E eu penso: “NĂŁo tem jeito! NĂŁo hĂĄ a menor possibilidade que eu seja como a Ineli-sama!”
As garotas riam alto. Ineli sorriu triunfante para Vileena, que mantinha um sorriso tenso.
â Oh, nĂŁo Ă© como se eu fosse boa em tudo. Todo mundo tem seus pontos fortes e fracos. Por exemplo… â mudando de assunto, ela olhou diretamente para Vileena â …eu nĂŁo sei pilotar aeronaves.
â Aeronaves?
â NĂŁo saber pilotar Ă© motivo de vergonha? Isso nĂŁo Ă© coisa do exĂ©rcito? Nunca vi uma de perto.
Ineli sorriu satisfeita com a confusĂŁo das outras garotas.
â Ă verdade. De certa forma, nĂŁo Ă© algo que traga felicidade. Quero dizer, imagine: pilotar uma dessas, voar pelo cĂ©u… e acabar desmaiando de medo. NĂŁo seria vergonhoso?
â Ah, Ă© mesmo. Isso nĂŁo Ă© coisa para uma dama.
â Nossos pais ficariam furiosos.
Elas riam juntas. Enquanto Ineli as apoiava, observava Vileena atentamente.
Oh? SerĂĄ que…
Vileena entendeu. NĂŁo precisava que fosse mais Ăłbvio. As outras garotas talvez nĂŁo, mas Ineli sabia muito bem. Aquilo era sobre a princesa estrangeira e sua habilidade incomparĂĄvel como piloto. E sobre como, na batalha do Forte Zaim, ela sobrevoou o campo de batalha em sua prĂłpria nave.
EntĂŁo Ă© isso. Ela estĂĄ me provocando.
O sorriso permaneceu, mas sua mente fervia.
Se ela quer brigar, eu vou brigar. Agora… como fazer isso?
â Hm? Algum problema? â Ineli sorriu docemente. â IrmĂŁ mais velha, mudou de ideia? Vai aceitar um convite para dançar?
Vileena percebeu. Ineli tinha muita confiança em sua dança. Vileena tambĂ©m tinha algum conhecimento â era uma princesa, afinal, e recebera educação bĂĄsica em etiqueta.
Ela ergueu o queixo, ajustando as mangas do vestido.
â Se insiste tanto, embora seja constrangedor, Vileena Owell aceita dançar.
Oh, Ă© mesmo? â Ineli riu por dentro.
O ambiente ficou tenso. Noue, numa tentativa de ajudar, ofereceu-se:
â EntĂŁo serei o parceiro da princesaâ
Ineli o interrompeu.
â NĂŁo, nĂŁo permitirei. VocĂȘ prometeu ser meu parceiro a noite toda, nĂŁo foi?
â Ah. Bem, isso… mas, Vossa Alteza…
Noue ficou sem graça. Em Garbera, ele era quem conduzia as mulheres; o homem conhecido por causar cenas trågicas entre casais. Mas, como enviado em uma terra estrangeira, não podia recusar a princesa.
Nesse momento, um jovem nobre estendeu a mĂŁo para Vileena.
â Sua Alteza permitiria que este indigno cavalheiro a acompanhasse?
Seu nome era Baton Cadmos. Um homem de posição relevante e aparĂȘncia adequada para dançar com uma princesa. Vileena nĂŁo se importava com quem fosse. Ao aceitar sua mĂŁo, nĂŁo viu Baton piscar para Ineli.
O plano de Ineli era envergonhar levemente a princesa estrangeira. AtĂ© entĂŁo, ela era a estrela desses eventos. Treinada por tutores de vĂĄrios estilos, tinha confiança em seu prĂłprio. Sabia muito sobre moda, dança, chĂĄ, arte e mĂșsica. Todas as garotas de sua idade a admiravam. E mais ainda depois que sua mĂŁe, Melissa, se tornou imperatriz, elevando seu status ao de princesa imperial.
E, de repente, Vileena invadira seu territĂłrio. Os mephianos eram fracos para expressĂ”es “culturais”. Apesar de Garbera ser atĂ© pouco tempo um paĂs inimigo, muitos apreciavam seu refinamento. Em especial, as histĂłrias de cavalheirismo, onde homens arriscavam a vida por suas damas, eram populares entre mulheres e crianças.
Em conversas, o assunto sempre voltava a Vileena. E, enquanto ela ficava reclusa, sua situação era exagerada. Naquele dia, ao cruzarem olhares, Vileena chamou atenção com facilidade. A ideia disso enojava Ineli.
Vou derrubĂĄ-la aqui.
Ela envergonharia Vileena, de forma esmagadora, e entĂŁo lhe ofereceria a mĂŁo com compaixĂŁo. Se conseguisse transformar a princesa de Garbera em sua seguidora, retomaria o controle do cĂrculo feminino.
A mĂșsica começou, e a dança tambĂ©m. Ineli e Noue moviam-se em perfeita harmonia. A respiração deles se sincronizava, e suspiros surgiam da plateia.
Do outro lado, Vileena era girada com força por Baton. Ela ficou confusa com a dança, que a fazia quase sair do chĂŁo. Tentando acompanhar seus passos apressados, pisou em seu pĂ©. Os dois perderam o equilĂbrio.
â Princesa, o passo aqui Ă© mais cedo.
Ouvindo comentĂĄrios ao redor, Baton deu o “conselho”. Risadinhas surgiram.
â M-me desculpe.
Ela sem querer usou linguagem masculina. Seu rosto ficou vermelho. Mas tropeçou vårias vezes depois. Mesmo tentando seguir Baton, ele não facilitava. Dessa vez, ele tropeçou sozinho e cambaleou.
Esse homem estĂĄ fazendo de propĂłsito.
Ela olhou nos seus olhos. Havia um sorriso arrogante.
Vileena sorriu.
â Ah â Theresia tentou avisar, mas foi tarde. Baton esticou o pĂ© para atrapalhĂĄ-la, e Vileena, antecipando, chutou o outro pĂ© dele. Girando os quadris, arremessou o surpreso Baton.
Ele caiu de cara no chĂŁo. Por um momento, a mĂșsica parou, e suspiros de surpresa ecoaram. Theresia cobriu o rosto.
â AlguĂ©m.
Vileena desafiou os homens presentes, estendendo a mĂŁo para o vazio.
â AlguĂ©m aĂ. Esse cavalheiro nĂŁo Ă© digno de ser meu parceiro. AlguĂ©m aĂ estĂĄ disposto a mostrar Ă princesa de Garbera uma verdadeira valsa mephiana?
â Ahahahahaha â Ineli riu estridentemente. Noue tambĂ©m ficou surpreso, mas, com Ineli como parceira, nĂŁo pĂŽde ajudar.
Vileena foi cercada por olhares. Todos desviaram os olhos ou fingiram conversar. Mesmo procurando, nĂŁo havia voluntĂĄrios. Ela conteve a raiva, sentindo o constrangimento.
Ela exagerara. Agora, ganharia a hostilidade dos mephianos. Seus supostos aliados sumiram. NinguĂ©m se ofereceu. Todos temiam desagradar Ineli â e, acima de tudo, atrair a fĂșria de Vileena.
Ela mordeu os lĂĄbios. Em seu peito, sentia o avĂŽ a repreendendo.
Aquela garota, Ineli. SerĂĄ que ela previu meu temperamento e me provocou para isso?
Se for assim, Ă© uma derrota total. CaĂ direitinho na armadilha.
Mas Vileena manteve a mão estendida. Não perdoaria a personalidade daquela garota, justamente por ter sido manipulada. Cada segundo que passava sem resposta era uma hora de humilhação. Seu braço cansou, e a mão vazia começou a cair.
Vileena baixou a cabeça. Pelo canto do olho, viu Ineli sorrindo, vitoriosa.
â Princesa.
Foi entĂŁo que uma figura surgiu da multidĂŁo.
Vileena suspirou. Ineli também, mas por outro motivo.
â Princesa, se me permite, este indigno cavalheiro gostaria de dançar.
Curvando-se, quem ergueu as mĂŁos e usava uma mĂĄscara era o ex-gladiador.
Vileena, hesitante, ergueu a mĂŁo novamente e agarrou a do gladiador â agora guarda imperial.
A mĂŁo de Orba envolveu sua cintura desajeitadamente.
Os dois, inclinados um para o outro, como um jovem casal dando os primeiros passos, começaram a dançar.

A dança fluĂa. A princesa, que havia acabado de chegar de outro paĂs, e o ex-gladiador que derrotou o general inimigo na Fortaleza de Zaim â todos os olhares estavam voltados para os dois. Um clima apaixonante os envolvia, talvez amplificada pela performance musical dos virtuosos.
Orba prestava atenção discreta aos seus pés, pois nunca havia dançado daquele jeito antes. Gravou o ritmo da dança em sua mente. Um passo fora do compasso, e temia que toda a coreografia desmoronasse.
Um, dois, trĂȘs⊠um, dois.
Sob sua mĂĄscara, o suor frio escorria por suas tĂȘmporas.
Uma rodada jĂĄ? NĂŁo, espera, tem uma pausa. Estenda as mĂŁos, desvie o olhar, e de novo, um, dois, trĂȘs, umâŠ
â Orba.
â HĂŁ?
Assustado, a voz de Orba ecoou. Ele estava realmente nervoso. Vileena soltou uma risadinha e disse:
â Obrigada.
Orba não respondeu. Ele mesmo não sabia por que se ofereceu para dançar com a princesa.
A paixĂŁo coloriu a noite, e no meio da melodia da valsa que fluĂa pelos ouvidos, ele pegou a mĂŁo da princesa e girou sem parar. O vento noturno era refrescante contra sua pele. Os galhos da floresta sussurravam, e a fonte, banhada em dourado sob as luzes do fogo, completava a cena enquanto sorrisos gentis se espalhavam pelos rostos dos convidados.
Aquela noite. Aquele momento. NĂŁo era um sonho de Orba.
Logo, a mĂșsica parou, e os dois ergueram as mĂŁos entrelaçadas. Aplausos e gritos de alegria ecoaram. A dança fora desajeitada, mas de alguma forma tocou os coraçÔes dos convidados. As mĂŁos se separaram, e cada um fez uma reverĂȘncia cortĂȘs. Nesse momento, Orba foi tomado por uma onda de emoçÔes intensas.
Mal a dança tinha terminado, Orba jå se via cercado por pessoas novamente.
â Orba-dono, conte-nos como derrotou Ryucown!
â Venha, vamos beber juntos!
â Ă verdade que essa mĂĄscara Ă© uma maldição de mago e nĂŁo pode ser removida?
â E o boato de que, por trĂĄs dela, esconde-se um nobre de um paĂs arruinado?
NĂŁo tem fim…
Orba resistiu ao impulso de gritar âCalem a boca!â e manteve a compostura. Entre eles, vĂĄrias mulheres tentaram tocĂĄ-lo, fazendo-o se encolher, o que sĂł provocou mais risadas.
EntĂŁo, sentiu um olhar penetrante vindo do outro lado do salĂŁo. Por acaso, cruzou com o olhar de Ineli, que trazia uma expressĂŁo indescritĂvel. NĂŁo era exatamente raiva ou tristeza, quase inexpressiva, mas seu olhar irradiava hostilidade.
Quando Orba a encarou, o rosto de Ineli ficou vermelho, depois pålido, e então ela virou as costas com desdém e saiu. Pelo canto do olho, ele viu Baton correndo atrås dela.
Finalmente, a festa chegou ao fim, e Orba se livrou dos convidados insistentes. Casais que se formavam e se separavam rĂĄpido demais, grupos indo para outra festa, bĂȘbados sendo carregados por criados, pessoas planejando visitar o festival na cidade. E, no meio de tudo isso, Noue jĂĄ havia partido hĂĄ tempos.
Tsc. Qual foi o sentido de vir aqui, entĂŁo?!
Pensando em ir embora, uma mulher mais velha surgiu do jardim e o chamou. Ele achou que fosse mais uma fĂŁ do gladiador, mas ao se aproximar, viu que era Theresia, a dama de companhia de Vileena.
â Por ter ajudado a salvar a princesa, ofereço minha mais humilde gratidĂŁo.
â ⊠O que quer dizer?
â Hoho. Vejo que Orba-dono Ă© do tipo que salva donzelas em perigo. Parece bem versado no cĂłdigo dos cavaleiros de Garbera.
â Sou um gladiador. â Orba balançou a cabeça, confuso. â Comparar um gladiador a um cavaleiro de Garbera sĂł vai gerar ressentimento. Um ex-escravo que ousou segurar a mĂŁo da princesa deveria, na verdade, estar pedindo perdĂŁo.
Metade de suas palavras eram autodepreciação; a outra, cinismo. Era possĂvel um nobre e um escravo conversarem como iguais e dançarem juntos, mas a diferença entre isso e a realidade era abismal.
Theresia ergueu a sobrancelha.
â A princesa nĂŁo se importa se alguĂ©m Ă© escravo ou nĂŁo. Eu tambĂ©m nĂŁo. Ela atĂ© desprezaria sua autopiedade. Lembre-se disso.
Ă porque vocĂȘ nĂŁo conhece um escravo.
Ele estava prestes a retrucar, mas notou os copos de vinho vazios sobre a mesa onde Theresia estava sentada. Suspirou e inclinou a cabeça educadamente. Então, uma preocupação surgiu.
â VocĂȘ viu a princesa?
â Ah⊠â Theresia encolheu os ombros, com um ar preocupado. â Ela insistiu em dar um passeio sozinha no jardim. A segurança aqui Ă© rĂgida, entĂŁo nĂŁo hĂĄ perigo, mas jĂĄ faz tempo e ela ainda nĂŁo voltou.
Ela ofereceu a ele um copo, como se dissesse âQuer se juntar a mim?â, mas ele recusou com um gesto.
â Esqueceu algo? â Theresia perguntou, vendo Orba se dirigir ao jardim.
â NĂŁo.
Foi a Ășnica resposta dele antes de sair.
Ele vagou pelo jardim até avistar uma figura no topo de uma pequena colina e foi em sua direção.
Era um lugar que dava vista para a floresta entre o palåcio. De um lado, o palåcio iluminado; do outro, as luzes da cidade. As multidÔes no festival agitavam-se, e o barulho chegava até ele, trazido pelo vento.
Vileena estava lĂĄ. No topo da colina, segurando a cerca enquanto olhava a cidade. Orba tentou chamĂĄ-la, mas as palavras nĂŁo saĂram.
TĂŁo pequena.
Foi o que pensou. Seu rosto, iluminado pelas luzes da cidade, era belo o suficiente para chamar a atenção de qualquer um, mas agora transmitia uma fragilidade incomum. A princesa tinha apenas quatorze anos. Era natural que parecesse pequena, mas era a primeira vez que Orba a via assim.
Um leve cantarolar chegou aos seus ouvidos. NĂŁo era a valsa de Mephius, parecia uma melodia de Garbera. Quantos dias de viagem de aeronave separavam aquela terra distante dali?
O canto continuou por um tempo, até que Vileena parou de repente e se virou.
Um espadachim em silĂȘncio, com o rosto escondido por uma mĂĄscara, parado atrĂĄs dela â era assustador, mas Vileena nĂŁo gritou, apenas olhou surpresa.
â Sobre antes…
â NĂŁo foi nada.
Ele a interrompeu antes que agradecesse novamente. Ela ficou sem saber o que dizer, mas logo sorriu.
â VocĂȘ tem sido assim desde o que aconteceu em Zaim, nĂŁo Ă©? Um herĂłi como vocĂȘ nĂŁo deveria estar sozinho aqui. Por que nĂŁo vai celebrar com todos?
â O mesmo vale para a princesa. Andar sozinha Ă© perigoso. Theresia estĂĄ esperando. Vamos voltar juntos.
â Eu? Bem… eu tenho um compromisso daqui a pouco. Com um cavalheiro muito fino.
Vileena riu ao ver a expressĂŁo chocada de Orba.
Ahâ
Por algum motivo, Orba sentiu o rosto queimar sob a mĂĄscara.
â Seria bom se fosse verdade, mas… â Vileena segurou os cabelos que balançavam com o vento e olhou para longe novamente.
â Como Ă© o prĂncipe herdeiro? Ele jĂĄ amou alguĂ©m? JĂĄ foi feliz? Eu nunca me apaixonei. Conheci muitas pessoas em Garbera. Algumas prĂłximas, outras rĂgidas, mas que me guiaram, mas, entre elas, quantas posso chamar de verdadeiras amigas? Nem mesmo na terra onde nasci e cresci. E em Mephius…
Vileena estava incomumente falante, talvez por causa da escuridĂŁo. Como seu rosto nĂŁo era visĂvel, talvez se sentisse Ă vontade para baixar a guarda.
â Pensei que, nĂŁo importasse o lugar, eu continuaria como sempre. Meu avĂŽ me disse o mesmo. Eu sou, sem dĂșvida, Vileena Owell. NĂŁo mudei quem era. Mas…
Sua voz ficou distante, quase inaudĂvel. Por um momento, houve silĂȘncio.
â Orba. VocĂȘ jĂĄ falou com o prĂncipe? â Ela perguntou.
Ele pensou e respondeu:
â JĂĄ. â Seria estranho se nĂŁo o tivesse feito.
Vileena entĂŁo fez uma pergunta que o deixou ainda mais sem jeito.
â Para vocĂȘ, quem Ă© o prĂncipe Gil?
â Se vocĂȘ me perguntar quem ele Ă©…
â Pode ser vergonhoso, mas, mesmo sendo meu noivo, quase nĂŁo conversei com ele. HĂĄ tantas coisas que nĂŁo sei. Se pudesse entendĂȘ-lo um pouco mais, talvez pudesse lutar melhor minha prĂłpria batalha aqui.
Batalha.
O que Orba enfrentava todos os dias. Ali, naquelas terras, Vileena Owell tambĂ©m lutava. Seu desĂąnimo nĂŁo vinha apenas das provocaçÔes de Ineli e dos outros. Como ela lutava, o quanto se esforçava â Orba podia imaginar. Ele mesmo era assim.
â Esqueça. Foi uma pergunta idiota. NĂŁo precisa…
â O prĂncipe… â Orba baixou a cabeça. â …O prĂncipe Ă© infantil. Muito mais que vocĂȘ. Extremamente mais.
â …
â Mesmo quando age como se soubesse de tudo, na verdade nĂŁo entende muita coisa. Por isso… vocĂȘ jĂĄ deve imaginar, mas Ă© melhor nĂŁo esperar nada dele. Ele fala tudo o que pensa, sem filtro. E, se nĂŁo for ensinado, continuarĂĄ ignorante para sempre.
Depois de falar rĂĄpido, Orba resmungou, âSĂł issoâ.
â PerdĂŁo. NĂŁo sou bom com palavras. Nem eu sei direito o que quero dizerâŠ
â NĂŁo, estĂĄ bem… Entendi.
Vileena acenou com a cabeça.
â Vou colocar em minhas palavras, entĂŁo. Ă verdade, ele realmente nĂŁo entende os outros, incluindo o povo de Mephius.
â Sim.
â E… â Os lĂĄbios de Vileena se curvaram. â Concordo que ele Ă© infantil. Tem uma linha de pensamento aparentemente honesta, mas simplista. Ăs vezes, quase consigo vĂȘ-lo como um bebĂȘ recĂ©m-nascido.
â Como Ă© que Ă©?
â Hm?
â Ah, nĂŁo… Achei que ouvi alguĂ©m me xingando de longe.
Ele se afastou do corrimĂŁo e tossiu, olhando para o horizonte.
â Ă melhor irmos. Theresia estĂĄ bebendo demais.
â Theresia deve estar feliz por ter uma desculpa para beber â Vileena riu baixinho. â EntĂŁo vamos. Ela fica assustadora quando bĂȘbada.
Ela escondeu o constrangimento por ter usado uma linguagem tĂŁo informal.
Os dois desceram a colina e voltaram ao jardim. Theresia ergueu seu copo vazio. O pajem que deveria estar cuidando dela dormia sobre a mesa.
â Agora entĂŁo. Princesa, vamos para seus aposentos?
â NĂŁo… Desculpe, Theresia, mas hĂĄ um lugar que quero visitar.
â Hm? A princesa queria aproveitar o festival, nĂŁo era? Eu atĂ© prometi comprar balĂ”es coloridos para vocĂȘ amanhĂŁ. VocĂȘ adorava correr com eles quando criança.
â I-Isso foi quando eu era criança! â O rosto de Vileena ficou vermelho. â Quero visitar o prĂncipe doente agora.
â O quĂȘ?
Theresia e Orba exclamaram ao mesmo tempo.
â Mas, princesa, jĂĄ Ă© noite. O prĂncipe dificilmente vai recebĂȘ-la.
â Mesmo que ele recuse, vou continuar indo. AtĂ© arrancĂĄ-lo da cama, se preciso.
â Princesa…
Theresia parecia comovida, mas Orba interrompeu.
â E-EntĂŁo, eu vou indo. Lembrei de algo urgente. Ah, nĂŁo posso deixar assim…
Com uma desculpa esfarrapada, Orba saiu correndo antes que as duas pudessem dizer mais.
Mesmo com o festival, as carruagens eram escassas. Sem alternativa, Orba correu o caminho todo de volta ao palĂĄcio.
Droga! O que ela quer com o prĂncipe agora?
Talvez fosse reclamar de novo.
Ele fez Dinn ajudĂĄ-lo a trocar de roupa rapidamente e, mal se deitou na cama, o sino tocou.
â Deixe-as entrar.
Surpreso com a ordem, Dinn abriu a porta para Vileena e Theresia.
â Como estĂĄ se sentindo hoje? â Vileena perguntou.
Ela parecia um pouco decepcionada, afinal, insistira em vir sem aviso.
â Um pouco melhor.
Orba fingiu tossir. Theresia examinou seu rosto.
â EstĂĄ suando muito. A respiração estĂĄ pesada. Claramente nĂŁo estĂĄ bem. Princesa, devemos ir.
â N-NĂŁo, estĂĄ tudo bem. SĂł ficarei um pouco.
Ela sentou na cadeira que Dinn ofereceu e encarou o prĂncipe na cama.
Sentindo o clima pesado, Orba perguntou:
â Tem algo a dizer?
â Por que acha isso?
â Foi a impressĂŁo que tive.
â SĂł vim te ver. Pensei que pudesse estar entediado, sozinho durante o festival.
Orba ficou sem reação diante do comportamento estranho dela. Não havia o ar agressivo que ela normalmente mostrava, aquele que fazia até ele ficar alerta.
Ou a princesa mudou… ou…
â Hoje foi difĂcil para a princesa. Aquela Ineli… o prĂncipe deveria tomar cuidado com ela…
â Theresia. Pare.
Depois de algumas palavras sem importĂąncia, Vileena se levantou.
â EntĂŁo, descanse. Se tiver apetite amanhĂŁ, trarei algo do festival.
â E os balĂ”es favoritos da princesa tambĂ©m.
â The-re-si-a! VocĂȘ fala demais!
Enquanto via as duas saĂrem, Orba refletiu.
NĂŁo Ă© ela.
Ele escolheu nĂŁo ir atrĂĄs de Oubary ou Zaat, mas do PalĂĄcio da Lua. Queria encontrar Noue pessoalmente, mas, mais do que isso, queria entender os sentimentos de Vileena.
O mensageiro de Noue dissera que nĂŁo se importavam com a vida dela, mas podia ser um plano para ganhar Oubary. Ou talvez Vileena estivesse envolvida sem saber…
Mas ela nĂŁo estĂĄ participando. Ela estĂĄ determinada a travar sua prĂłpria batalha em Mephius.
Ela havia questionado sobre Kaiser quando ele voltou de Saian e não aprovava sua indiferença. Era prova de que a princesa fizera de Mephius seu novo lar.
Se nĂŁo Ă© a princesa, Ă© difĂcil acreditar que Garbera esteja por trĂĄs. SerĂĄ tudo obra de Noue e Oubary?
Sem perceber seu prĂłprio alĂvio, uma nova certeza surgiu: os planos de Noue nĂŁo podem se concretizar.
Seus motivos eram claros. NĂŁo queria que Oubary saĂsse vitorioso. AlĂ©m disso, com a pista dada por War, finalmente tinha algo sobre a Fortaleza de Apta. Se o paĂs caĂsse no caos agora, perderia essa chance. E, se Mephius ruĂsse, perderia a autoridade de prĂncipe que tanto lutava para manter, voltando a ser um gladiador sem poder algum. Nenhum de seus objetivos se realizaria daquela forma.
Mas, acima de tudo…
Jogar fora a vida de uma princesa que luta tanto em um paĂs estrangeiro… O que eles estĂŁo planejando?
Raiva.
Raiva daqueles que manipulavam vidas e destinos sem pensar. A mesma raiva que sentira quando sua vila foi queimada â aquela que gerava emoçÔes densas e escuras.
NĂŁo vou deixar.
NĂŁo vou deixar esses bastardos terem o que querem.
Orba se levantou da cama como nunca antes.
âââ
Longe do prĂ©dio principal do palĂĄcio, em uma das torres menores, ficavam os aposentos dos embaixadores de outros paĂses.
Em uma dessas salas, o enviado de Garbera, Noue Salzantes, olhava para o palĂĄcio iluminado pelo festival. Comparado Ă s construçÔes de seu paĂs, o palĂĄcio mephiano parecia rĂșstico. Mas ele estava acostumado. Passara mais de cinco anos como vice-comandante na Fortaleza de Apta, que havia tomado de Mephius.
Aquela fortaleza agora estava sendo desmontada para ser devolvida. Ele veio sob o pretexto de parabenizar o casamento do prĂncipe e da princesa. Nesse perĂodo agitado, ofereceu a si como enviado para o festival. Seu paĂs concordou e ele foi o primeiro a se voluntariar.
â Por enquanto, joguei minhas cartas.
Sozinho em seu quarto, Noue deixou as emoçÔes fluĂrem. O sorriso que mostrara a Ineli e Orba desapareceu. Seu rosto, ainda belo, agora era assustadoramente impassĂvel.
Pele clara, corpo esguio. Seus cabelos longos caĂam sobre um robe folgado. Seu visual era o de um nobre decadente, algo que ele cultivava de propĂłsito. Em Garbera, um paĂs de cavaleiros, ele era visto como afeminado e indolente.
Mas, por trĂĄs dessa aparĂȘncia, Noue era reconhecido como um gĂȘnio. A Casa Salzantes governava Rhodes hĂĄ geraçÔes, com vastas terras e influĂȘncia polĂtica. Mas Noue transferiu o tĂtulo de lĂder para seu irmĂŁo mais novo e renunciou ao cargo de vice-governador da capital. âAssim fico mais tranquiloâ, dissera, mas sua verdadeira motivação era outra. Cansado das tarefas entediantes, ele queria tempo para fazer o que gostava:
Estratégia, guerra e conquista.
Anos atrĂĄs, ele arquitetou o ataque Ă Fortaleza de Apta, onde Oubary estivera. Primeiro, usou apenas a cavalaria, repetindo o mesmo mĂ©todo. Uma estratĂ©gia medĂocre, que deixou seu prĂłprio exĂ©rcito frustrado e quase os fez perder. EntĂŁo, como se admitisse a derrota, Noue recuou.
Mas, na verdade, escondera suas tropas perto da fortaleza. Enquanto isso, um grupo separado se movia por uma floresta em territĂłrio mephiano, deixando-se ser visto por batedores. O plano era fazer o inimigo pensar que o alvo era a capital.
Como previsto, as forças em Apta se dividiram. Noue, calculando o momento certo, voltou com tudo e atacou. Os soldados em Apta, orgulhosos por terem repelido o ataque anterior, pediram reforços tarde demais. Noue usou sua frota aĂ©rea, atĂ© entĂŁo intocada, e derrotou-os em um piscar de olhos, tomando o forte em menos de um mĂȘs.
Seis anos atrĂĄs.
Foi quando conheci Ryucown.
Ao lembrar daquele nome, Noue olhou para o palåcio sem emoção.
Na Ă©poca, Ryucown era apenas um aprendiz de cavaleiro, mas jĂĄ sonhava alto. NĂŁo queria ser o cavaleiro ideal, queria transformar Garbera no paĂs ideal. Quando Noue ouviu isso pela primeira vez, pensou:
Que tolo.
Ryucown era apenas cinco anos mais novo, mas acreditava em sonhos infantis. Noue era um realista. Apesar de achar a estratĂ©gia fascinante, sabia que paĂses e o mundo nĂŁo se dobram a ela tĂŁo facilmente. Noue era fisicamente fraco e desprezava aqueles que se gabavam de sua força bruta.
Lembrava apenas do rosto e do nome de Ryucown, que se destacara em Apta.
Um ano depois, Ryucown tornou-se cavaleiro oficialmente apĂłs derrotar o rebelde Bateaux. Dali em diante, acumulou feitos gloriosos na guerra contra Mephius, muitos deles com a ajuda de Noue.
Antes de partir para a batalha, Ryucown mandava um mensageiro de aeronave. Noue enviava planos em resposta. Ryucown jĂĄ era um herĂłi popular, mas admirava o conhecimento de Noue, o que alimentava o ego deste. E, toda vez, Ryucown dizia:
â Simplesmente fascinante. â Seus olhos brilhavam. â Como consegue analisar os movimentos do campo de batalha e dos homens como eu, que lutam lĂĄ, com tanto detalhe? Ă como se tivesse clarividĂȘncia.
â O poder da imaginação. â Noue apontou para a prĂłpria cabeça. â Aqueles que nĂŁo aprendem ou experienciam nĂŁo passam de brutos, Ryucown. Homens podem usar o conhecimento acumulado e os ensinamentos de seus ancestrais para moldar o mundo a seu favor.
â Entendo. VocĂȘ literalmente luta com a mente. Assim, contra Arion, Ende ou qualquer paĂs, sua simulação torna tudo possĂvel. Diga-me, o que Garbera precisa para se tornar uma potĂȘncia mundial e realizar meu sonho?

â Ahahaha. VocĂȘ Ă© simplĂłrio, Ryucown. Certamente, nem eu pensei tĂŁo longe assim. Mas isso nĂŁo significa que esteja totalmente fora de alcance. NĂŁo precisamos do quadro completo, com fragmentos suficientes de informação, serĂĄ possĂvel desenhar o panorama maior.
Ao responder, para seu prĂłprio constrangimento, Noue percebeu que tambĂ©m era simplĂłrio. O homem conhecido como Ryucown era direto de uma forma quase ingĂȘnua e possuĂa um charme peculiar. AtĂ© mesmo adversĂĄrios acabavam cativados por ele.
â EntĂŁo serei os olhos e ouvidos do senhor Noue. Seja a cavalo, seja em aeronave, percorrerei o mundo para coletar os fragmentos que deseja. Para que, juntos, façamos de Garbera um paĂs superior a todos, um reino de cavalheiros.
Mesmo enquanto Noue ria alto, um pensamento surgiu dentro dele:
Se Ă© com este homem, talvez seja possĂvel.
Grandes sonhos levam aos tropeços dos homens. E esses tropeços os trazem de volta à realidade. Mas, para Ryucown, aquele sonho talvez se realizasse. Seus olhos, fixos no horizonte sem distraçÔes, poderiam de fato reunir tais fragmentos.
Foi justamente por Ryucown pensar assim que Noue propÎs o noivado entre a princesa Vileena e ele. Havia sinais claros de que algo estava prestes a começar. Junto de Ryucown, lutando dia após dia por seu sonho, Noue certamente encontraria novos fragmentos jamais vistos antes.
No entanto.
Um sonho Ă© apenas um sonho.
A metodologia de Noue e os ideais de Ryucown eram incomparĂĄveis. Mas nĂŁo conseguiram fazer seu sonho nascer.
Durante as negociaçÔes de paz com Mephius, a princesa Vileena foi enviada para se casar com o prĂncipe de Mephius. Por ter mirado apenas seu sonho, Ryucown foi atingido com mais força que Noue. AtĂ© aquele homem de vontade inquebrantĂĄvel teve de se curvar Ă realidade. Essa foi a coisa que mais irritou Noue.
E…
Maldito seja, Ryucown. Por que nĂŁo me chamou uma Ășnica vez?
Aquele homem, que sempre manteve a mente de um jovem rapaz, nĂŁo era do tipo que se ajoelharia diante da realidade. Incapaz de aceitar as decisĂ”es de seu paĂs, ele se revoltou. Quando Noue soube, nĂŁo pĂŽde fazer nada. Por mais que usasse seu poder de imaginação, nĂŁo conseguia vislumbrar um futuro brilhante para Ryucown. E entĂŁo, algo alĂ©m de suas previsĂ”es aconteceu.
Ryucown foi derrotado.
No entanto… aquele nome que nĂŁo estava em meus cĂĄlculos agora estĂĄ.
Era o prĂncipe de Mephius, Gil Mephius. Aquele chamado de imbecil pelos rumores.
Este homem, mesmo em desvantagem numĂ©rica, destruiu uma fortaleza ocupada por Ryucown… e em sua primeira campanha?…
Ele queria isso. Os fragmentos de informação relacionados ao incidente. Pelo menos o suficiente para entender como foi possĂvel. Caso contrĂĄrio, nĂŁo poderia compensar Ryucown por nĂŁo ter realizado seu sonho.
Foi por isso que viera até ali. O vento que entrava pela janela agitava os longos cabelos de Noue, criando uma cena de tirar o fÎlego.
Claro, nĂŁo me contentarei apenas com essas informaçÔes como lembrança. NĂŁo sou tĂŁo modesto. HĂĄ vĂĄrias coisas que desejo: preparativos contra Ende, o caos em Mephius… e o prĂncipe que matou Ryucown.
Mesmo que Noue nĂŁo pudesse prever tudo, enquanto estivera em Apta, preparou-se para enfraquecer Mephius a qualquer momento. A hora de usar seus planos chegara.
Levarei tudo de volta comigo.
Enquanto seus cabelos negros ondulavam ao vento, brilhavam como a lĂąmina nua de uma espada.
Tradução feita por fãs.
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