Rakuin no Monshou – CapĂtulo 1 – Volume 2
Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded
Light Novel Online – CapĂtulo 02:
[Batalha Sem Fim]
Ao descobrir que Kaiser havia sido aprisionado, Fedom Aulin deu um pulo. Kaiser Islan era um nobre que outrora servira como membro do Conselho Imperial.
Uma semana antes. No conselho matutino, o imperador de Mephius, Guhl Mephius, propĂŽs a relocação do santuĂĄrio do Deus DragĂŁo, acompanhada por uma grande reconstrução. O santuĂĄrio, construĂdo duzentos anos antes para venerar o Deus DragĂŁo, sempre estivera no subsolo da famosa Torre Negra da capital imperial, Solon. Agora seria transferido para as proximidades do palĂĄcio e transformado numa estrutura magnĂfica.
Diante do comentĂĄrio sĂșbito, alguns nobres ofereceram lisonjas, mas apenas Kaiser expressou diretamente sua oposição. A quantidade de ouro e mĂŁo de obra necessĂĄrias para tal façanha nĂŁo tinha precedentes. Era hora de reparar as relaçÔes entre Mephius, Garbera e Ende, embora as circunstĂąncias nĂŁo fossem as mais promissoras. Para começar, nos festivais dedicados ao Deus DragĂŁo, realizados vĂĄrias vezes ao ano, praticamente nenhum cidadĂŁo comparecia, tornando-se coisa do passado.
â Devemos priorizar questĂ”es mais urgentes. Perdoe minha insolĂȘncia, mas peço que reconsidere, alteza.
â Ă isso, entĂŁo â foi tudo o que o imperador dissera. E a discussĂŁo encerrou-se.
Kaiser jå tinha passado dos cinquenta e cinco anos e mantinha uma longa relação com o atual imperador. Assim, ninguém deu importùncia à discussão.
Mas, cinco dias depois, durante uma festa em sua residĂȘncia, Kaiser novamente criticou as medidas polĂticas do rei. âUltimamente, sua majestade ignora tudo o que lhe dizemâ, lamentou, embriagado, aos amigos prĂłximos que convidara.
Normalmente, isso nĂŁo teria consequĂȘncias, mas desta vez o imperador enfureceu-se por alguma razĂŁo desconhecida e declarou: âSĂŁo pensamentos de um rebelde!â. De repente, tropas cercaram a residĂȘncia de Kaiser e o prenderam. âComo sua alteza se atreve a agir sem qualquer aviso prĂ©vio!â e, ironicamente, as prĂłprias açÔes de Kaiser tornaram-se evidĂȘncia contra ele.
A inquietação espalhou-se por Solon enquanto surgiam dĂșvidas sobre se o imperador executaria Kaiser. TrĂȘs dias e noites se passaram. Kaiser foi confinado nas masmorras, prisĂŁo indigna para um nobre, sem permissĂŁo para sequer ver a famĂlia.
Fedom, atingido por uma mistura de choque e temor, pois também jå tinha expressado sua opinião contråria ao rei, viu ali não apenas uma oportunidade para acelerar as negociaçÔes de paz com Garbera, mas também algo mais, algo completamente diferente. Seu peito encheu-se de uma alegria quase excitante.
Talvez seja finalmente minha vez.
O imperador Guhl Mephius mais uma vez colocaria em ação seu plano de fortalecer a autoridade imperial, atraindo a hostilidade de todos. E seria entĂŁo que Fedom executaria seu prĂłprio plano. Os alicerces de um novo poder polĂtico, em apoio ao prĂncipe Gil, seriam estabelecidos no impĂ©rio.
Era uma ambição grandiosa. Seriam seus sentimentos os mesmos que os de Kaiser? Não, o fato é que seus olhos severos, a partir de agora, não deixavam transparecer emoção alguma. E foi isso que o fez exclamar:
â Lorde Fedom.
Enquanto Zaat Quark o cumprimentava no corredor do PalĂĄcio Principal, Fedom pensou: Encontrei um sujeito problemĂĄtico.
â JĂĄ soube das circunstĂąncias do lorde Kaiser?
â Evidentemente.
â O que sua majestade estĂĄ planejando? Isso jĂĄ vai longe demais para ser uma piada! Diga-me sua opiniĂŁo cincera. Mas nĂŁo se preocupe, a levarei para o tĂșmulo.
Zaat o questionava de maneira implacĂĄvel, mas Fedom respondeu adequadamente de forma evasiva aos seus questionamentos. Embora Zaat Quark liderasse a chamada facção anti-imperialnĂŁo era como se ele caminhasse com um aviso pendurado no pescoço declarando sua posição. Assim como Fedom, ele compartilhava de ideias semelhantes e, em suas advertĂȘncias ao imperador, tĂŁo obstinado em guerrear atĂ© o Ășltimo homem, ajudou a convencĂȘ-lo de promover negociaçÔes de paz. Zaat TambĂ©m ocupava uma posição no Conselho Imperial, e era evidente que nĂŁo nutria nenhuma simpatia pelo imperador que reduzira o Conselho a uma mera formalidade.
Dessa forma, Zaat considerava Fedom um companheiro. Ou pelo menos deveria considerar.
â Conseguimos evitar as repercussĂ”es mais graves atĂ© agora, mas certamente haverĂĄ consequĂȘncias. Por isso, devemos espalhar rumores sobre suas intençÔes com essa âpiadaâ, que acabarĂŁo se tornando verdade. Este Ă© um assunto sigiloso. VocĂȘ conhece muito bem o temperamento do rei.
â Como vocĂȘ pode estar tĂŁo calmo? Isso Ă© traição contra o imperador! E vocĂȘ sabia? No outro dia, o rei se encontrou com um mensageiro de Ende e…
â PerdĂŁo. Tenho assuntos a resolver.
â Lorde Fedom â Zaat franziu as sobrancelhas negras â, isso nĂŁo Ă© como vocĂȘ. Preocupar-se tanto com o futuro do paĂs a ponto de enfrentar o julgamento de Sua Majestade! Certamente, o caso do lorde Kaiser nĂŁo o deixou tremendo nas bases. Deixou?
â Cuidado com suas palavras, lorde. â Fedom lançou um olhar afiado para Zaat. Em idade, Fedom era dez anos mais velho.
â PerdĂŁo, foi rude de minha parte. Mas ultimamente vocĂȘ tem agido de forma estranha.
“De forma estranha” provavelmente se referia ao fato de que Fedom andava sempre com o prĂncipe Gil Mephius. Deixando Zaat para trĂĄs, Fedom apressou-se. Para ele, que deveria estar na mesma facção anti-imperial, nĂŁo havia alternativa senĂŁo aparentar mudar de aliança.
Maldito Zaat! Fazendo cara de quem sabe tudo. EstĂĄ me testando, Ă©?
Para começar, Fedom nunca nutriu simpatia por Zaat. Havia muitos intelectuais competentes na corte, mas apenas o conhecimento de Fedom atraĂra homens poderosos em busca de favores. No caso das negociaçÔes de paz, apĂłs desvendar documentos histĂłricos, “O precedente daquele paĂs foi tal”, “Segundo as tradiçÔes antigas, deve-se fazer isso”, ele apresentou informaçÔes que deixaram a todos perplexos.
Ser tratado como covarde!
Longe disso, Fedom cruzou linhas muito mais perigosas ao expressar suas preocupaçÔes ao imperador. Em termos de risco, seu plano era incomparavelmente mais arriscado. E esse plano finalmente chegou ao estågio de implementação. A ideia o deixava eufórico.
â O que foi? â Orba perguntou, observando a expressĂŁo perturbada de Fedom. â VocĂȘ ficou quieto de repente, seu rosto ficou azul, depois vermelho. Parece muito doente.
â Cale a boca! â Fedom rosnou, envergonhado. Estavam no quarto do prĂncipe no PalĂĄcio Principal. Para disfarçar, trouxe um presente de recuperação, mas continuou a agir rudemente.
â Deixando isso de lado, o que hĂĄ com vocĂȘ? Apareço aqui e vejo que nĂŁo fez nenhum progresso! O tempo estĂĄ se esgotando. Dinn, como explica esta situação lastimĂĄvel!?
Justamente porque o momento final se aproximava, ele nĂŁo podia ser impaciente com a educação do prĂncipe Gil. Descontou suas frustraçÔes em Dinn, o pajem encarregado do treinamento.
â LamentĂĄvel â resmungou Gil Mephius.
Fedom saiu assim que falou o que queria. Gil bocejou, tendo lido sem descanso todos os livros de história de Mephius espalhados sobre a mesa até pouco antes.
â Ă como se eu fosse um espadachim-escravo prestes a entrar na arena pela primeira vez novamente. Embora esses caras geralmente nĂŁo tenham chance de aparecer uma segunda.
â De qualquer forma, Fedom-sama estava certo em repreendĂȘ-lo â Dinn disse, removendo as folhas de chĂĄ da infusĂŁo recĂ©m-preparada. â Se ao menos se esforçasse mais. Poderia assumir a aparĂȘncia do prĂncipe em pĂșblico sem envergonhĂĄ-lo, mas, neste ritmo, nem dez anos seriam suficientes.
â Boas maneiras Ă mesa, estudo da cultura mephiana, memorizar nomes e feitos dos imperadores, passar uma hora por dia em frente ao espelho corrigindo postura e sorriso… coisas que talvez eu nunca use na vida. Qual o sentido nisso?
â Tudo ânissoâ Ă© necessĂĄrio.
â JĂĄ estou farto de aprender rostos e nomes daqueles velhos. Traga os documentos militares. Pode colocĂĄ-los ao lado dos registros de batalhas recentes.
Deitou-se no sofå, fingindo não ouvir as recriminaçÔes de Dinn. Fedom parecera irritado, mas Orba, o gladiador conhecido como Tigre de Ferro, também vinha acumulando frustraçÔes.
Fora recrutado por Fedom como sósia, mas Orba nunca tive a intenção de o obedecer cegamente. Mesmo usando essa posição, ele alcançaria seu objetivo:
Vingar-se daqueles que lhe tiraram tudo. E recuperar o que perdera.
Finalmente chegara ao ponto onde, com suas próprias mãos, poderia aproximar-se de seus objetivos. Mas a situação se estagnou recentemente.
â Hoje, vinte pedidos de audiĂȘncia foram recusados. Rodloom-sama jĂĄ solicitou cinco vezes, Ineli-sama tambĂ©m, e Baton-sama… se lembra dele, Ă© um dos melhores amigos do prĂncipe, veio duas vezes. Um mĂȘs precioso jĂĄ se passou desde sua primeira campanha, e isso sĂł parecerĂĄ mais estranho.
Por um mĂȘs, Fedom confinara Orba no quarto do prĂncipe. Sob o pretexto de que o estresse da primeira campanha e a mudança abrupta de ambiente afetaram sua saĂșde, ele foi proibido de participar de assuntos oficiais e de receber visitas. Durante esse tempo, dedicou-se a tornar Orba mais parecido com o prĂncipe, pouco a pouco.
Naturalmente, Orba acumulara conhecimento e dominou as boas maneiras. Obrigado a repetir atividades sem sentido, incapaz de procurar por sua mĂŁe, irmĂŁo e Alice, sua paciĂȘncia chegou ao limite absoluto.
â Como Fedom-sama nĂŁo estĂĄ ciente da situação aqui, acha que resolverĂĄ tudo dizendo “Recuse as audiĂȘncias”, mas precisa se colocar no lugar de quem recusa. Todos finalmente começaram a ver o prĂncipe sob nova luz apĂłs sua primeira campanha, e agora isso â Dinn resmungou, mas hesitou.
â Ele Ă© um tolo? â Orba interrompeu. â Se eu ainda estiver traumatizado pela primeira campanha, questionarĂŁo o que o âherĂłicoâ prĂncipe fez durante a batalha, e descobrirĂŁo que ele nĂŁo seguiu o decreto para lutar, apenas tremendo de medo.
â Q-Quer dar um passeio?
â Foi algo que acabei de inventar. NĂŁo Ă© bom? O antigo prĂncipe era assim. Isso nos livraria de suspeitas.
O problema Ă©…
Brincando, Orba pensou em outra coisa. Quando Fedom esteve ali momentos antes, havia algo que nĂŁo conseguiu perguntar.
…qual dos dois Ă© o verdadeiro âtoloâ?
Um sĂłsia normalmente sĂł atuaria em momentos cruciais. NĂŁo haveria necessidade de mantĂȘ-lo, especialmente em tempos de paz. Fedom alegara risco de assassinato mesmo em Solon, explicação que deveria bastar, mas Orba nĂŁo acreditava naquilo.
AlĂ©m disso…
Quando a batalha em na fortaleza de Zaim terminou, Fedom deixou escapar que ninguĂ©m mais sabia sobre a substituição do prĂncipe. Nesse caso, talvez apenas Fedom estivesse envolvido no plano. Se fosse verdade, nem Orba, que enfrentou a morte por dois anos como espadachim-escravo nas arenas, conseguiria abalar a sensação arrepiante que isso lhe causara.
Ninguém saber implicava que Fedom enganava todos em Mephius, exceto a si mesmo. Orba também não podia descansar. Sua vida dependia disso.
â O festival da fundação de Mephius se aproxima. Um festival que reĂșne todo o paĂs. Se nĂŁo aparecer, a situação piorarĂĄ. AtĂ© quando Fedom-sama…
Nesse momento, um sino tocou. Dinn atendeu. Além da porta, ouviu-se a voz de Ineli. Logo após a imperatriz morrer, Guhl casou-se novamente, e a filha de sua nova esposa, Ineli, tornara-se meia-irmã mais nova de Gil.
Terminada a discussĂŁo acalorada, Dinn voltou. Seu rosto mostrava exaustĂŁo.
â Essa pessoa Ă© a mais difĂcil.
â O que houve?
â O habitual convite para sair dos seus amigos e o comentĂĄrio: “Em vez de ficar trancado nesse quarto com esse corpo fraco, ele precisa de recreação.”
â Entendo â disse Orba, distraĂdo. â Naquela vez, o que Gowen lhe disse?
â Ah, perguntou se poderĂamos ir juntos Ă residĂȘncia do general Saian apĂłs seu convite.
â EntĂŁo vamos atĂ© Ineli e o grupo. Resolverei os dois compromissos de uma vez. Leve a mensagem a ela.
â Mas Fedom-sama disse…
â Ă melhor eu aprender alguns rostos de perto. Usemos este estratagema: o prĂncipe estĂĄ de mau humor devido Ă saĂșde. NinguĂ©m estranharĂĄ se agir um pouco diferente, especialmente em casa. Se for sĂł um pouco, funcionarĂĄ.
Orba nĂŁo tinha intenção de ficar parado como Dinn. Recusava-se Ă inação. Por maior que fosse, aquele quarto era como uma prisĂŁo, e a impaciĂȘncia e insegurança o esmagavam a cada dia.
Isto tambĂ©m Ă© uma batalha. Tornar-me completamente o prĂncipe me aproximarĂĄ de Alice e minha famĂlia â murmurou para convencer-se.
E em Solon, havia mais alguém incapaz de dissipar sua crescente irritação.
â Que tal este vestido? Como se compara ao branco e vĂvido de antes? Ah, mas talvez o segundo vestido seja melhor, pois Ă© mephiano… Mas entĂŁo a tiara que trouxe de meu paĂs nĂŁo combinarĂĄ. Precisarei perguntar Ă s criadas aqui e agradecĂȘ-las depois.
â Aham, sim.
Num aposento nos fundos dos aposentos femininos, enquanto Theresia agitava-se, Vileena mal se mexia. Como convidada de Garbera, a princesa de catorze anos experimentava vestidos e adornos. Ao vĂȘ-la, atĂ© os inimigos de seus pais franziriam o rosto.
â Francamente, na corte de Garbera, nĂŁo importa quĂŁo famoso fosse o designer. Ao anunciar que uma princesa precisava de roupas, uma pilha apareceria em seu quarto em uma semana. Pisar nelas era o que significava ser princesa.
â Certo.
â Solon, longe de rotas comerciais marĂtimas, tem poucos tecidos de qualidade. Mesmo sendo meu primeiro conjunto sob medida, se soubesse que era necessĂĄrio encomendar com trĂȘs meses de antecedĂȘncia, teria tomado medidas antes do casamento.
â Ă mesmo?
â Se ficar mais dependente dos outros, talvez nĂŁo tenha chance de se aproximar da imperatriz, sua madrasta. EstĂĄ preocupada com vestido e tiara. Tornar-se noiva Ă© entrar na famĂlia do parceiro. Para ser um casal harmonioso, tais esforços sĂŁo necessĂĄrios… Ah, mas se bem me lembro, a atual imperatriz Ă© a segunda esposa. Como o prĂncipe nĂŁo Ă© seu filho, talvez nĂŁo se importe com sua esposa?
â Sim.
Vileena olhou-se novamente no espelho. Theresia encarou-a e, apĂłs um momento, respirou fundo.
â Vileena-sama!
â Eek!
Vileena sobressaltou-se. â Gritar nos meus ouvidos assim…
â Se nĂŁo usasse este volume, a princesa nĂŁo me ouviria â Theresia inflou o peito. â A princesa escolhe roupas para o festival da fundação como se fosse problema alheio. Geralmente, quando mulheres escolhem vestidos e acessĂłrios, ficam inquietas, incapazes de se acalmar. Antecipando seu parceiro ou enfrentando inseguranças, elas divertem-se enquanto se preocupam.
â Quanto a isso, tenho total confiança em vocĂȘ. Se Ă© sua opiniĂŁo…
â Oh, fico lisonjeada com tal elogio… e? O que realmente pensa? PartilharĂĄ comigo? EstĂĄ pensando em como nĂŁo anda de aeronave ultimamente, ou em voar pelos cĂ©us? Ou, se nĂŁo Ă© voar, entĂŁo em passar tempo fazendo manutenção, ou sentir o cheiro de Ăłleo. Ah! Deve ser sobre por que o prĂncipe nĂŁo a visitou.
â Essa Ășltima foi totalmente desnecessĂĄria!
Vileena franziu o rosto, mas nĂŁo conseguiu esconder o sorriso. Theresia sempre fora uma adversĂĄria formidĂĄvel. Numa batalha direta, ela a dominaria. EntĂŁo, encolhendo os ombros:
â Bem, desde seu retorno da primeira campanha, ele se trancou no quarto o tempo todo. O frĂĄgil prĂncipe Ă© quase como uma princesa.
â JĂĄ se passou um mĂȘs, e ele nĂŁo permitiu que ninguĂ©m o visse. Para uma donzela apaixonada, Ă© tempo demais…

â De qualquer jeito! â Vileena interrompeu com força. â NĂŁo estou escondendo nada. Estou irritada. Quanto tempo mais vai durar essa situação constrangedora? A data do casamento nem foi decidida e minhas atividades continuam restritas. Vou ser sincera: isso nĂŁo tem a menor graça!
â Haaa..
Diante dessa afirmação, Theresia nĂŁo soube o que fazer. Mas tambĂ©m queria entender as palavras da princesa. Independentemente da influĂȘncia de Garbera, a cerimĂŽnia de casamento fora adiada indefinidamente. Havia pouquĂssimos lugares onde Vileena poderia circular livremente, e sua irritação sĂł aumentava com o passar dos dias.
Originalmente, mesmo em sua terra natal, ela era uma princesa cheia de energia que nunca ficava no mesmo lugar por muito tempo. Passar dias inteiros confinada nos seus aposentos era algo que ela nĂŁo aceitava de jeito nenhum. Ăs vezes comparecia a chĂĄs e jantares quando convidada pelas nobres, mas sofria horrores para manter um sorriso falso no rosto.
â O prĂncipe tambĂ©m parece ter esquecido completamente que sua noiva estĂĄ aqui. Mas em situaçÔes como essa, nĂŁo existe aquela coisa? Ele poderia trocar cartas e mandar mensagens pelo camareiro, nĂŁo?
â Ă comum nas histĂłrias. A carta viria com um poema de amor.
â Ă claro que ficaria furiosa se ele nem ao menos me dissesse suas intençÔes. E para piorar, hĂĄ problemas em Mephius, nĂŁo importa por onde se olhe. O imperador se recusa a explicar seu julgamento contra Islan, que parece ter sido preso. Isso seria impensĂĄvel em Garbera. Seus vassalos, no entanto, nĂŁo o desafiam nem protestam, sĂł ficam espiando sua expressĂŁo e tomando cuidado para nĂŁo irritĂĄ-lo.
Ela estå certa, pensou Theresia. Normalmente não dava atenção a rumores, mas conhecia Vileena hå muito tempo e preferiu ficar quieta.
â Se os conselheiros nĂŁo podem adverti-lo por medo, entĂŁo o prĂncipe deveria intermediar. O imperador pode achar repreensĂ”es desagradĂĄveis, mas se vierem de Gil, seu prĂłprio filho e sucessor, talvez ele dĂȘ ouvidos.
â Verdade.
â E mesmo assim, ele nĂŁo superou sua saĂșde frĂĄgil nem se recuperou da doença que pegou no front. Se ele se importa com o futuro do paĂs, deveria se esforçar ao mĂĄximo. Se fosse meu avĂŽ, com certeza o repreenderia por falta de coragem.
â Falando nisso, vocĂȘ quer se encontrar com o prĂncipe, nĂŁo Ă©? Nesse caso â Theresia bateu palmas â, como devemos preparar o presente de recuperação?
â Presente de recuperação?
Na verdade, Theresia esperou o momento certo para tocar no assunto. Era Ăłbvio que Vileena jĂĄ tinha considerado isso, mas era difĂcil para ela admitir que iria pessoalmente ver o noivo que a negligenciava hĂĄ tanto tempo.
â Vamos lĂĄ, a princesa nĂŁo queria conquistar o prĂncipe? Para fazĂȘ-lo se apaixonar perdidamente por vocĂȘ, certo? Para isso, alguns preparativos sĂŁo necessĂĄrios. E esta Theresia, em quem vocĂȘ deposita toda sua confiança, farĂĄ de vocĂȘ a mulher mais bonita de Mephius!
Imediatamente, Theresia começou a escolher roupas que encantariam o futuro marido.
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â O que vocĂȘ acha de sua alteza, prĂncipe Gil?
â Como assim? â Ineli inclinou a cabeça.
â VocĂȘ sabe muito bem do que estou falando â disse o interlocutor, fazendo beicinho. Era Baton Cadmos.
â Ainda nĂŁo consigo acreditar. Que o prĂncipe herdeiro Gil tenha conseguido mĂ©ritos em sua primeira campanha.
Montados em cavalos no topo de uma colina, os jovens que esperavam o prĂncipe Gil tinham cerca de vinte anos, todos filhos de nobres importantes, mas nenhum era o primogĂȘnito de suas famĂlias. O prĂłprio Baton, terceiro filho da Casa Cadmos, jĂĄ tinha 19 anos e passava os dias sem fazer nada de Ăștil.
Os rapazes concordaram em unĂssono.
â Ă verdade. Parece que hĂĄ vĂĄrios rumores tambĂ©m.
â Rumores?
â Que ele foi enviado Ă primeira campanha sĂł para ganhar mĂ©ritos e parecer mais adequado como sucessor, por exemplo. Depois da vitĂłria, Oubary reclamou que teve dificuldades sob seu comando.
â NĂŁo estĂĄ um pouco atrasado? Sua Majestade jĂĄ declarou publicamente que ele Ă© inĂștil.
â Ă justamente por isso agora. A famĂlia imperial nĂŁo tem outro herdeiro homem adequado. A menos que vocĂȘ case e tenha um marido, aĂ seria diferente.
â Desculpe por isso â Ineli mostrou a lĂngua. â Bom, o irmĂŁo que conheço nĂŁo tem nada a ver com o que ouvi sobre ele no campo de batalha.
â Por isso, vamos testĂĄ-lo â Baton disse com um sorriso malicioso.
â Baton, quando vocĂȘ tem essas ideias, nada de bom acontece.
â Vai ficar tudo bem. NinguĂ©m vai se machucar. SĂł quero ver como ele vai reagir. Se aquele prĂncipe que lutou tĂŁo bravamente vai manter a compostura quando confrontado com o valentĂŁo do bairro.
â Entendo â Ineli fez uma expressĂŁo exagerada. â Realmente, vocĂȘ tem uma personalidade maravilhosa, Lorde Cadmos!
â Shh! LĂĄ vem ele.
Os guardas acompanhando o prĂncipe Gil Mephius apareceram no horizonte. Todos cumprimentaram com educação.
â Ah â Gil acenou com desleixo. Seu rosto estava pĂĄlido, o que era compreensĂvel para alguĂ©m que estivera acamado e com cansaço mental da batalha.
â Faz tanto tempo, Vossa Alteza. Agora, todos, vamos saudar o novo herĂłi de Mephius! â Baton gracejou, fazendo todos rirem. Gil manteve uma expressĂŁo sĂ©ria, sem sorrir. Os guardas foram dispensados e Gil montou em seu cavalo.
Orba se juntou ao grupo enquanto cavalgavam lentamente. Aparentemente, Ineli sugerira o passeio a cavalo cerca de trinta minutos antes no palĂĄcio. âO tempo finalmente melhorou. Vamos dar uma voltaâ, propĂŽs. Havia outros cinco acompanhantes, todos filhos de nobres importantes e conhecidos do prĂncipe desde a infĂąncia, segundo informaçÔes que Dinn coletara antes.
Para Orba, a primeira exposição ao sol em um mĂȘs era maravilhosa. O vento acariciava seu rosto e o aroma dos jardins do palĂĄcio nĂŁo era desagradĂĄvel, mas ele nĂŁo baixou a guarda. Com uma expressĂŁo carrancuda, Orba prestava atenção nas conversas, analisando personalidades e relaçÔes de poder.
Isto também é uma batalha.
â NĂŁo pode animar um pouco? â Ineli apareceu por trĂĄs, abraçando sua cintura com braços surpreendentemente delicados.
â Eu nĂŁo deveria ter vindo â Orba desviou o olhar. â Queria dormir mais um dia.
â Isso nĂŁo pode. Se o prĂncipe recusasse um convite, atĂ© nĂłs serĂamos forçados a encontrar aquele grosseiro do Rogue sozinhos â Troa Hergei, um jovem que se debruçava sobre o pescoço do cavalo com ar lastimĂĄvel, fez uma careta.
â O quĂȘ? A casa do Rogue de novo? â Baton resmungou, entediado.
â Isso mesmo.
â VocĂȘs sempre foram tĂŁo prĂłximos, assim?
â Ele me apoiou na primeira campanha. NĂŁo parava de falar sobre histĂłrias de guerra e insistia que eu o acompanhasse pelo menos uma vez.
â Oh? Apoio em batalha, hein? Nada menos que o esperado do futuro sucessor do ImpĂ©rio Mephius, parece que vocĂȘ jĂĄ nĂŁo Ă© mais a criança que conhecĂamos. Termos como “apoio”, com todo respeito, sĂŁo palavras impensĂĄveis da sua boca. SerĂĄ que vocĂȘ jĂĄ superou nossos tempos de brincadeira?
Baton, apenas um ano mais velho que o prĂncipe â e consequentemente dois anos mais velho que Orba â falava com um ar de superioridade que era, francamente, desagradĂĄvel. Seu fĂsico era imponente, mas seus modos mostravam que ainda era imaturo.
Maldito nobre insolente.
NĂŁo apenas Baton, mas todos os outros rapazes menosprezavam o prĂncipe Gil. Andar com esse tipo de companhia significava que Gil ou era muito paciente ou simplesmente nĂŁo percebia nada.
Logo avistaram a Torre Negra no centro de Solon Ă esquerda, enquanto cavalgavam pelas colinas, chegando finalmente Ă mansĂŁo de Rogue Saian.
Rogue abriu os portÔes, recebendo a todos com um sorriso.
â Ah, se nĂŁo Ă© o prĂncipe! Desculpe o incĂŽmodo e espero que esteja com saĂșde. Afinal, o prĂncipe ainda Ă© jovem. Coma bastante para recuperar as energias, beba atĂ© esquentar o sangue e afaste todas as doenças num instante.
O vigoroso Rogue jĂĄ estava no pĂĄtio, assando carne e servindo vĂĄrios tipos de vinho. Antes da chegada, Gowen trocou sorrisos com Orba. Antigo supervisor, agora era oficial da Guarda Imperial do prĂncipe. Rogue e Gowen tinham se dado bem na campanha anterior, como veteranos de batalha.
â Oh?
A presença de Hou Ran chamou a atenção de Baton. Sua pele negra brilhava sob o sol.
â Essa raça nĂŁo Ă© comum em Solon. De quem ela Ă© convidada?
â Minha filha adotiva. Hou Ran tambĂ©m Ă© oficial interina da Guarda Imperial.
Gowen respondeu com expressĂŁo levemente alterada. ApĂłs a batalha em Zaim Fortress, ela nĂŁo puderia ficar nos alojamentos da Guarda, entĂŁo Orba arranjou uma casa sob os cuidados de Gowen.
Baton nĂŁo tirou os olhos curiosos de Ran, que ignorou completamente a conversa. TĂpico dela, Orba mal conseguia conter um sorriso.
A esposa de Rogue apareceu, levando uma criança pela mão, e cumprimentou.
â Este Ă© o prĂncipe de Mephius. Romus, nĂŁo vai cumprimentĂĄ-lo?
Era um menino de uns doze anos, com ar semelhante ao de Dinn â reservado, murmurando apenas algumas palavras antes de se esconder atrĂĄs de Rogue.
â Que neto adorĂĄvel.
â Nada disso! Ă um filho inĂștil.
Com esse comentĂĄrio, Ineli evitou dar sua opiniĂŁo. A esposa de Rogue parecia bem mais jovem que ele.
â A Ășnica coisa que herdou foi minha covardia. AtĂ© agora, tem medo de sair. Me pergunto se conseguirĂĄ passar pela cerimĂŽnia de maioridade.
O festival da fundação seria na prĂłxima semana, incluindo uma cerimĂŽnia de maioridade para filhos de nobres, e um evento Ășnico: cavalgar publicamente um dragĂŁo. Usavam filhotes de poucos meses, mas cujos dentes podiam matar um adulto. No passado, havia vĂtimas todos os anos.
Diferente de antes, agora o evento era raro. A cada alguns anos, famĂlias como os Saian, com tradição militar, exibiam seus filhos orgulhosamente. Desta vez, Rogue certamente queria que Romus participasse.
â Imploro que Vossa Alteza detenha meu marido. Tal prova Ă© impossĂvel para Romus. Tudo que ele lembrarĂĄ serĂĄ a cena horrĂvel…
â Chega. NĂŁo incomode o prĂncipe com nossos problemas familiares. NĂŁo se preocupe, ele vai treinar muito. NĂŁo Ă©, Romus?
Romus nĂŁo concordou nem discordou, sĂł olhou para o pai, indeciso entre o medo do dragĂŁo e o de irritĂĄ-lo. Rogue disse que pegaria um filhote emprestado do campo de treinamento militar para Romus praticar.
â Um dia, espero que ele queira entrar na escola de oficiais de dragĂ”es alados. Mas primeiro, Romus precisa mostrar espĂrito nobre diante das multidĂ”es.
DragĂ”es alados â literalmente dragĂ”es com asas â existiam apenas nas ilhas vulcĂąnicas ao sul do planeta.
Em Mephius, os oficiais de dragÔes alados comandavam mais de cem homens e operavam naves voadoras movidas a [Pedra-Dragão]. O próprio Rogue Saian tinha essa patente, com autoridade sobre esquadras inteiras.
â Agora, se jĂĄ comeu, vĂĄ cuidar dos dragĂ”es, Romus. VocĂȘ precisa de prĂĄtica.
Romus se despediu formalmente e saiu.
Orba e os outros permaneceram sentados enquanto servos cortavam carne e legumes e preparavam vinho. Orba recusou o vinho com um gesto, pois nĂŁo tinha tolerĂąncia ao ĂĄlcool e nĂŁo podia arriscar falar demais bĂȘbado. Durante a refeição, Rogue contou histĂłrias de guerra e Orba limitou-se a confirmĂĄ-las.
â NĂŁo estamos interessados em suas histĂłrias â Baton e os outros disseram, entediados. Ineli, surpreendentemente, era a Ășnica interessada, ouvindo atentamente sobre a batalha.
â Princesa, vejo que vocĂȘ tem o espĂrito de uma guerreira â Rogue disse, satisfeito. â SĂł queria que meu filho fosse assim.
Quando a histĂłria chegou ao ponto em que, graças Ă astĂșcia do prĂncipe, conseguiram invadir a fortaleza onde guerreiros habilidosos esperavam, Ineli bateu as mĂŁos, lembrando-se de algo.
â Ah, sim! Sempre quis perguntar quando te visse, irmĂŁo. NĂŁo foi um gladiador quem derrotou Ryucown? Fiquei surpresa ao ouvir seu nome. Lembra dele? O Tigre de Ferro, Orba!
Orba, que estava apreciando o chĂĄ, de repente engasgou.
â VocĂȘ viu em Ba Roux, nĂŁo? Aquele que me salvou do dragĂŁo Sozo!
â S-sim.
â Sabia que ele entrou para sua Guarda Imperial? NĂŁo pode me apresentar a ele?
â E o que vocĂȘ farĂĄ quando conhecer esse gladiador? â Baton fez uma careta.
Ineli ignorou-o e continuou:
â Nunca o agradeci por me salvar. E queria conversar com quem enfrentou o general Ryucown. Como ele era, quĂŁo bom com a espada? NĂŁo Ă© emocionante? Estou tĂŁo perto de quem viveu um momento histĂłrico!
Ineli continuou animada, sem perceber a expressĂŁo sombria de Orba.
â Ah, teria sido Ăłtimo se Ryucown tivesse sido capturado e forçado a lutar com Orba na arena. A batalha da fortaleza recriada, e se Orba cortasse sua cabeça, o festival ficaria animadoâ
Boom! Orba bateu o copo na mesa, silenciando Ineli. Todos olharam para ele, que tremia.
â PrĂncipe.
Gowen inclinou-se, enchendo novamente o copo de Orba. Seu olhar dizia claramente: controle-se. Orba acenou levemente.
Virando-se para Ineli, disse, tentando acalmar os Ăąnimos:
â VocĂȘ o conhecerĂĄ em breve.
â SĂ©rio?
â Mas nĂŁo espere alguĂ©m interessante. Ele nĂŁo tem educação. SĂł vai te deixar irritada.
â Tudo bem, eu sou tolerante. NĂŁo espero que todos ajam igual. NĂŁo se conversa com um dragĂŁo da mesma forma que com pessoas, nĂŁo Ă©?
Orba esforçou-se para disfarçar seu desconforto. O incidente com Hou Ran veio Ă mente. Esperou que a garota que alegava ouvir a “voz” dos dragĂ”es aparecesse, mas ela nĂŁo estava.
Enquanto todos conversavam, Baton levantou-se, olhando ao redor como se procurasse alguém.
Entre a mansão e o jardim havia um cercado. Dentro, um filhote de Baian de cerca de dois metros sibilava ameaçadoramente para Romus, que estava diante da grade.
Por um tempo, ficou a distùncia, assustado, mas pegou um pedaço de carne e aproximou-se. Com pernas quase desenvolvidas e garras afiadas, mal podia ser chamado de filhote.
Romus jogou a carne, que caiu diante da grade. Tentou empurrå-la com o pé.
Gawrr! O dragĂŁo rugiu, batendo a cabeça nas barras. Romus caiu para trĂĄs, tentando fugir. O Baian pegou a comida com a lĂngua.
â Seu…!
Romus perdeu a paciĂȘncia. âSeu, seu, seu!â Pegou uma lança de trĂȘs pontas ao lado da grade â ferramenta para lidar com dragĂ”es, com pontas embotadas para nĂŁo feri-los â e golpeou a cabeça do animal.
O dragão gritou, recuando. Romus golpeou novamente, acertando perto do olho. Quando ia atacar mais uma vez, Hou Ran apareceu, agarrando seu braço.
â Cuidado â disse ela, empurrando-o para o lado.
Romus caiu, ouvindo o rugido ensurdecedor. O dragĂŁo ergueu-se, mostrando os dentes, pronto para atacar.
â Cuidado â Ran repetiu.
Por um instante, Romus nĂŁo soube se ela falava com ele ou com o dragĂŁo. EntĂŁo a garota esticou a mĂŁo e acariciou a garganta do Baian.
Para seu espanto, o dragão, antes agressivo, emitiu um som suave e abaixou a cabeça. Ran acariciou sua testa.
â Venha.
Ela estendeu a outra mĂŁo para Romus, que aproximou-se nervoso.
â VocĂȘ tem medo do dragĂŁo?
â N-nĂŁo tenho. Mas ele pode atacar vocĂȘ.
â Porque vocĂȘ tem medo, o dragĂŁo tambĂ©m tem.
â O quĂȘ?
Romus hesitou quando ela pegou sua mão e a levou em direção à grade.
â Filhotes sĂŁo como espelhos. Refletem seu coração. Olhe em seus olhos e sinta.
Ele respirou fundo e encarou os olhos vĂtreos do dragĂŁo. NĂŁo percebeu emoçÔes, mas, inexplicavelmente, manteve a mĂŁo de Ran e tocou as escamas.
Sentiu um calor percorrer seu corpo, como se recebesse pancadas na testa. Quando percebeu, estava chorando, enquanto Ran abraçava suas costas.
â VocĂȘ Ă© forte â sussurrou ela. â E tem potencial. Ouviu sua “voz”, nĂŁo? NĂŁo precisa mais ter medo. Mas tambĂ©m nĂŁo mostre as costas. DragĂ”es e humanos sĂŁo diferentes: como criam laços, como falam, como passam o tempo, como ficam felizes. VocĂȘ deve entender isso.
â Que cena tocante.
Baton apareceu, fazendo piada. Envergonhado, Romus levantou-se e enxugou as lĂĄgrimas. Baton aproximou-se de Hou Ran.
â Dizem que vocĂȘ esteve num campo de escravos masculinos? O que fazia lĂĄ? Ajudava os homens a aliviar o tĂ©dio?
Ran encarou-o, impassĂvel. Baton lambeu os lĂĄbios, como um predador.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© ruim.
â Mesmo?
â Uma mulher que cheira a esterco de dragĂŁo de vez em quando nĂŁo Ă© nada ruim. Mesmo na Guarda Imperial, deve estar entediada. Deveria trabalhar em minha mansĂŁo. Tornarei uma experiĂȘncia “boa”. Melhor que escravos ou dragĂ”es inĂșteis.
Ran olhou por cima do ombro dele e viu Orba encostado na parede, observando. Ela sorriu para o nobre.
â Gosto de homens fortes.
â Pois eu tenho poder â Baton sorriu. â O suficiente para mantĂȘ-la.
â Isso nĂŁo basta. TerĂĄ que me mostrar sua força, como esta criança fez.
Ela apontou para Romus e o Baian. Baton riu.
â Os dragĂ”es sĂŁo seu padrĂŁo, seguidora da FĂ© Ryuujin? Se esse garoto conseguiu, eu tambĂ©m. AtĂ© matei um Baian na caça anual.
Com confiança, Baton tocou a cabeça do dragão. Sorriu vitorioso, sem notar o olhar de Ran fixo no animal.
O Baian abriu a boca, saliva escorrendo, e rugiu, erguendo-se.
â W-Waahhh!
Baton pulou para trås. O dragão golpeou as grades furiosamente. Baton afastou-se, batendo o quadril, até sentir-se seguro. Seu rosto estava pålido.
â Que pena.
Ran virou-se, cuspindo desprezo com o olhar. Dirigiu-se a Orba. Antes que ele pudesse chamĂĄ-la, ela antecipou-se.
â VocĂȘ estava me testando.
Pisou em seu pé. Orba pulou de surpresa.
â VocĂȘ estava observando o que eu fazia. Sabia que nĂŁo era seu lugar. Ainda assim, quis testar nossa amizade.
â E-espere. Ei, Hou Ran…
Era verdade, mas Orba nĂŁo esperava que ela ficasse tĂŁo brava. De certa forma, entendia menos os sentimentos de uma garota que a “voz” dos dragĂ”es.
Dinn aproveitou o tempo enquanto o prĂncipe estava fora para limpar minuciosamente o quarto. Fazer isso sozinho seria trabalho demais, entĂŁo ele conversou com o grĂŁo-camareiro e conseguiu ajuda de vĂĄrios outros. NĂŁo era incomum que vĂĄrias pessoas fossem designadas para cuidar de um membro da famĂlia imperial. Quem havia arranjado para que apenas Dinn fosse encarregado da tarefa era ninguĂ©m menos que Fedom, com medo de que a verdadeira identidade de Orba fosse descoberta. A razĂŁo oficial era porque o prĂncipe de temperamento explosivo nĂŁo confiava em nenhum outro camareiro alĂ©m de Dinn.
De qualquer forma, ele terminou pouco depois do meio-dia. Os outros camareiros se despediram e, quando ele soltou um suspiro de alĂvio, o sino anunciando visitas tocou. Os soldados que atuavam como guarda-costas do quarto haviam tocado.
De alguma forma, Dinn teve um mau pressentimento sobre isso.
âââ
â Aconteceu alguma coisa?
Ineli sussurrou sorrateira em seu ouvido, apontando para Baton, que claramente estava de mau humor. Sua expressĂŁo brincalhĂŁo irritou Orba.
â Ele levou um fora de uma garota. Deixe-o em paz.
Ele respondeu, mais ou menos acostumado agora. Ineli deu uma risadinha e, pegando a mão de Orba, a envolveu em seus braços surpreendentemente delicados. Foi uma jogada bastante habilidosa, e então Orba a sentiu chamar para o lado:
â O que vocĂȘ vai fazer agora, Baton? Se quiser voltar e chorar, nĂŁo vou te impedir.
â NĂŁo brinque comigo. Tem um lugar que quero conferir. Ă uma loja conhecida que atĂ© o prĂncipe aprovaria com prazer.
Era Ăłbvio que Orba nĂŁo tinha como saber, mas para Baton, este seria o evento principal do dia.
Os cavalos ficaram na residĂȘncia Saian, e Baton foi o primeiro a tomar a frente e começar a caminhar.
O distrito sudoeste era separado pela ĂĄrea do palĂĄcio e das residĂȘncias nobres pelo rio Sazan. Assim que entraram no Distrito da Cidade, fizeram algumas curvas aqui e ali e se afastaram da estrada principal. O forte cheiro de lixo, fez Ineli tampar o nariz com desprezo e os outros garotos tambĂ©m trocaram olhares preocupados.
â Tem certeza que este Ă© o lugar certo, Baton?
Até Troa, que deveria estar ciente do plano, perguntou isso com preocupação. Baton bufou.
Afinal, eles foram criados como filhos de famĂlias abastadas.
Era improvĂĄvel que nobres pisassem em um lugar desses sem guarda-costas. Mas para Baton, era uma visĂŁo familiar. Cansado de seus dias habituais de tĂ©dio, ele frequentava esses lugares com frequĂȘncia. Era parte de suas aventuras em busca de emoçÔes.
â Ei, espera aĂ!
Vårios homens malvestidos vieram na direção da voz e se aproximaram deles. Um deles assobiou.
â Vejam sĂł, um grupo de jovens senhores bem-vestidos.
â Ă perigoso aqui, sabem? Porque tem um monte de gente mĂĄ por perto. Eles vĂŁo rapidamente tirar tudo de vocĂȘs.
â Como somos gente boa, vamos ajudar vocĂȘs a sair daqui, entĂŁo se nos derem algo de valor, ficaremos muito contentes.
Estavam vestidos com trapos, parecendo bandidos, mas todos eles eram conhecidos de Baton.
Eles conferiram a Baton, financeiramente bem-sucedido, a posição de lĂder e costumavam andar em âgruposâ por essas partes. Ăs vezes, chegavam a simular extorsĂ”es e roubos.
â NĂŁo brinquem comigo! â Baton se animou, tudo de acordo com o plano. â Como se darĂamos o mĂnimo de dinheiro para passar por caras como vocĂȘs. Seus inĂșteis, sumam!
â Como Ă© que Ă©!?
O homem na frente cuspiu e entĂŁo sacou uma adaga de suas costas.
Ineli recuou e deu um grito instintivo. Baton deu um tapinha casual em suas costas. âĂ uma atuaçãoâ, ele sussurrou, e entĂŁo continuou:
â Como vamos resolver isso…
Ele encarou o prĂncipe, que parecia atordoado. O prĂncipe permanecera em silĂȘncio o tempo todo. Baton teve o pensamento desdenhoso de que ele estava tremendo de medo, sem saber o que dizer.
Dizem que ele teve sucesso em sua primeira campanha? E o que esse prĂncipe mimado pode fazer em uma situação de vida ou morte?
Os dois se conheciam hĂĄ muito tempo e sempre saĂam juntos, mas no coração de Baton, ele sempre desprezou o prĂncipe. Ele se considerava um homem muito mais capaz, e agora aquele prĂncipe era aclamado como herĂłi. Por isso, ele queria tornĂĄ-lo um idiota em pĂșblico. Queria que seus amigos vissem as habilidades do prĂncipe sob a perspectiva do que elas realmente eram.
Claro que Baton nĂŁo tinha como saber os sentimentos que Gil â Orba â estava nutrindo naquele momento. Porque ele nunca imaginaria que Gil tinha trocado de lugar com um ex-gladiador, tambĂ©m nĂŁo era exagero que Orba sentisse uma estranha nostalgia com aquela situação.
O cheiro caracterĂstico, os becos, a extorsĂŁo ameaçadora com lĂąminas e o roubo â essas eram as Ășnicas coisas que ele experimentara quando criança. Nos poucos anos apĂłs Oubary queimar sua vila atĂ© se tornar um gladiador, ele viveu bebendo ĂĄgua lamacenta das piores partes da cidade.
Diante de seus olhos, viu vĂĄrios homens brandindo suas adagas.
â E aĂ, qual Ă© o problema? Se suas bocas nĂŁo funcionam, entĂŁo que tal eu abri-las Ă força para vocĂȘs?
O garoto apontou sua adaga para a boca de Orba. Orba nĂŁo se afastou, olhando atentamente alĂ©m da lĂąmina e observando seus oponentes. Eles eram quatro. Todos provavelmente carregavam armas. Ele trazia uma pistola e uma adaga nas costas. Se conseguisse uma chance, estava totalmente confiante de que poderia vencĂȘ-los, mas nĂŁo podia se dar ao luxo de fazer isso com muita habilidade na presença de Ineli e dos outros.
O que fazer entĂŁo…
Enquanto Orba pensava em um comportamento principesco que pudesse tirĂĄ-los daquela situação, Baton de repente esticou a mĂŁo e afastou a adaga diante da boca do prĂncipe.
â VocĂȘs nĂŁo deveriam exagerar nas brincadeiras, ou vĂŁo se arrepender â Baton disse com um ar triunfante.
Ele jĂĄ estava satisfeito, tendo conseguido mostrar a inutilidade do prĂncipe na frente de seus melhores amigos.
â Somos nobres de Mephius. Se vocĂȘs ousarem nos ferir, serĂŁo enforcados num piscar de olhos. Vamos deixar isso pra lĂĄ. Agora sumam!
Essa era a frase combinada, mas os homens opostos não mostraram o menor sinal de intimidação; estavam sorrindo. E para piorar:
â Oh? Nobres, Ă©?
Assustado, Baton se virou para enfrentar a voz que chamou. Havia outros trĂȘs homens se aproximando, vestidos com trapos como os outros. Mas ele nĂŁo se lembrava de tĂȘ-los chamado para esse teatro.
â Agora que vejo melhor, diria que vocĂȘs sĂŁo a coisa real. Ouvimos sua conversinha e nĂŁo pudemos deixar de pensar nas coisas incrivelmente poderosas que disseram.
â Ora, nĂŁo Ă© uma presa maior do que eu imaginava.
â Seus bastardos! â Baton soltou em voz baixa. Ele estava bem ciente da cor que drenava de seu rosto. Eles haviam concordado com o plano proposto por Baton e armado uma armadilha por conta prĂłpria.
â O-o que vocĂȘs vĂŁo fazer? Se Ă© dinheiro que querem, eu com certeza vou depois…
â NĂŁo precisamos do seu troco, garoto Cadmos. Com tantos refĂ©ns, nĂŁo se importariam se exigĂssemos ainda mais dinheiro, nĂŁo Ă©?
Ineli deu outro grito estridente; um dos bandidos havia colocado as mĂŁos em seu vestido.
â Essas sĂŁo roupas bem bonitas. Quero levar pra minha filha.
â S-solta! Seu plebeu, tire suas mĂŁos sujas de mim!
Ineli deu um tapa em sua bochecha. Foi uma ação reflexiva que tensionou a situação.
â Essa putinha!
â Quem Ă© realmente o sujo, seus malditos nobres de Mephius! Façam!
â E-esperem! Esperem, eu disse!
Baton gritou, enquanto as pernas de Ineli cediam. Com uma expressão frenética:
â Q-quem estĂĄ aqui Ă© o prĂncipe herdeiro de Mephius! VocĂȘs devem entender que nĂŁo vĂŁo escapar impunesâŠ!
â O prĂncipe, Ă© isso?
Uma expressĂŁo alegre surgiu em seus rostos, contrariando as expectativas de Baton, mas um deles direcionou olhos cheios de Ăłdio para seu âconvidadoâ. Ele era o homem mais velho do grupo.
â PrĂncipe de Mephius! Quem diria que eu o encontraria aqui! Ele foi o responsĂĄvel pela desgraça de Layla! NĂŁo posso deixar que esse cara escape daqui inteiro!
Novamente, o mesmo homem agiu sozinho e sacou sua espada. A espada desembainhada deixou os jovens sem palavras e paralisados, enquanto um deles pensava:
Layla?
Ao ouvir o nome pela primeira vez, ele guardou na memĂłria sua conexĂŁo com esses homens.
â Primeiro, entregue essa arma. Na verdade, fique aĂ mesmo. Eu pego.
Seguindo as instruçÔes do homem que primeiro sacou a espada, Orba levou as mãos para as costas.
O tempo que parecia parado continuou a fluir. Orba rapidamente alcançou a outra metade de seu corpo e sacou a arma das costas. âEspera!â enquanto os companheiros bandidos chamavam, Orba rapidamente puxou o gatilho.
Tendo levado um tiro no peito do pé, o homem desmaiou de agonia. Orba não hesitou. Em uma situação com muitos inimigos, perder a chance de dar o primeiro golpe era fatal.
â SEU FILHO DA PUTA!
â CONTANTO QUE ELE ESTEJA VIVO, NĂO ME IMPORTO O QUE FAĂAM! TIREM A ARMA DELE! CORTE SEU BRAĂO INTEIRO!
Ele esquivou-se habilmente do homem que o atacou por trĂĄs.
â Corram! â Orba gritou.
Ele praticamente chutou Baton por trĂĄs, empurrando-o para o lado. Eles nĂŁo precisaram de mais incentivo, e quando os outros bandidos perseguiram os garotos, foram recebidos com outra rajada de balas por Orba. Eles caĂram de lado enquanto sangue jorrava de seus corpos.
â AGORA VOCĂ VAI VER!
Os homens restantes correram para Orba. Estavam a curta distĂąncia, e Orba, julgando que a pistola nĂŁo poderia ser manuseada adequadamente tĂŁo perto, chutou o joelho do homem Ă frente, arrancando a espada curta de suas mĂŁos. Duas, trĂȘs vezes ele repeliu a chuva de adagas.
Uma cor de surpresa e impaciĂȘncia pairava nos rostos sujos dos homens. Eles haviam concordado em sequestrar um bando de riquinhos jovens e mimados, mas tendo deixado todos escaparem, os nobres certamente voltariam com guardas e matariam a todos eles.
â SEU MERDINHA!
Com habilidade inesperada, ele cortou para baixo, diagonalmente pelos ombros de um homem, tropeçando.
â CERQUEM ELE!
E no instante em que Orba ouviu o brado, saltou para trås. Ele bloqueou a lùmina que vinha na sua direção usando, em sua mão direita, a espada que tomou de um dos bandidos para realizar um movimento ascendente na vertical e, com a adaga presa nas costas, esfaqueou o homem no peito com a esquerda.
Se diminuĂsse seus nĂșmeros, suas chances de sucesso aumentariam drasticamente. Ele girou a espada em sua direita em arcos, e os inimigos continuaram a cair em meio ao barulho, atĂ© que apenas um homem restou. Ele era o homem que gritara âdesgraça de Laylaâ.
â S-Seu… Seu bastardo!!
Ele apertou sua lĂąmina, pronto para atacar. O rosto barbudo do homem tremia por completo, enquanto encarava Orba. Mas nĂŁo era Orba que ele odiava. Era uma pessoa com a mesma aparĂȘncia que ele, a quem o homem detestava.
Justo quando estava prestes a atacar, Orba disparou um tiro perto de seus pés.
â ARRGHH â o homem pulou e caiu de bunda.
â Quem Ă© Layla? â Orba perguntou, estabelecendo sua mira.
â N-NĂŁo finja que nĂŁo sabe! NĂŁo vou deixar vocĂȘ dizer que esqueceu o que fez com a Layla!
â Diga. â Ele enfiou o cano em seu queixo. â Quem Ă© Layla? E o que quer dizer com se vingar?
âââ
Passou-se um bom tempo até Orba alcançar Ineli e os outros à margem do rio Sazan.
â I-irmĂŁo!
Ineli olhou para Orba como se estivesse vendo um morto voltar à vida. Orba desabou no chão no local, fingindo ter escapado por pouco de uma situação de quase morte.
â VocĂȘ estĂĄ bem!?
â D-DifĂcil. VocĂȘs, nĂŁo foi demais correr e me deixar para trĂĄs assim?
â Isso… foi a prĂłprio Alteza que nos disse para correr! â Um dos garotos disse, mas Orba fez uma cara como se nĂŁo se lembrasse de nada.
No final, depois que ficou claro que todos haviam escapado em segurança, a expressão de Ineli se transformou em uma que saboreava completamente a emoção e voltou ao normal.
â Eu nunca teria pensado que vocĂȘ simplesmente atiraria neles de repente!
â Foi muito repentino para mim tambĂ©m, e nĂŁo me lembro muito bem.
â Ei, Vossa Alteza? NĂŁo fique muito bravo ao ouvir isso, ok? Tudo isso foi…
â Ine… Princesa Ineli. â Baton tossiu violentamente para interromper Ineli. â Por favor, mantenha as informaçÔes sobre esse assunto em sigilo.
Mesmo estando sem fĂŽlego, Ineli deixou escapar um sorriso. Orba podia adivinhar mais ou menos do que se tratava, mas manteve a boca fechada. Ineli planejava, sob a alavanca do âsegredoâ, explorar Baton ao mĂĄximo.
De qualquer forma…
O assunto sobre a tal âLaylaâ pesava na mente de Orba. De acordo com o que ouviu do homem que o ameaçou, Gil Mephius exercera o privilĂ©gio exclusivo da famĂlia imperial, o âdireito Ă primeira noiteâ, em uma noiva local. Essa era Layla. Seu pai era um oficial da Guarda Imperial sob controle direto do imperador, mas apĂłs o incidente, ele explicou aos parentes e amigos prĂłximos convidados para o casamento.
â Ă a brincadeira habitual do prĂncipe. Nada vai acontecer â ele explicou.
Ninguém ficou convencido. Mas isso manchou a honra de sua filha, e o oficial imperial os fez jurar nunca revelar esse assunto a outros. Depois disso, nunca mais viram o pai e a filha. Sua mansão na cidade de Solon também, em determinado momento, foi vendida. Rumores se espalharam sobre como haviam sido mortos para silenciå-los e, antes que percebessem, as conversas sobre esse assunto cessaram.
O homem que Orba interrogou era um parente distante de Layla.
Em constante medo de quando um assassino poderia chegar, ele perdeu toda vontade de trabalhar e chegou a realizar atividades de ladrĂŁo noturno que ele mesmo desprezava. Ele odiava os nobres de Mephius e, acima de tudo, Gil Mephius.
â Agora eu entendo.
Assim que terminou de ouvir tudo, Orba abaixou sua arma. Ele partiu, deixando os homens caĂdos em poças de sangue.
Rone Jayce.
Um oficial da Guarda Imperial. Isso valia a pena investigar. A perturbação do âdireito da primeira noiteâ ocorreu logo antes de Orba se tornar o sĂłsia de Gil. AlĂ©m disso, Gil compartilhara a cama com Layla em um bar, quando o homem testemunhou ninguĂ©m menos que Fedom entrando no quarto.
O que aconteceu lĂĄ…?
No caminho de volta, sob o balanço do cavalo, Orba estava perdido em pensamentos.
â Vossa Alteza â Ineli se aproximou por trĂĄs e cutucou gentilmente Orba, sinalizando que o sol jĂĄ estava se pondo.
â Lorde Zaat estĂĄ aqui.
â Ah â Orba deixou escapar sem querer. Saindo da loja junto com vĂĄrios homens armados com espadas atuando como guarda-costas estava um homem vestido com o que poderia facilmente ser identificado como roupas de nobre, e Oubary Bilan. Esses dois pararam, parecendo ter notado o prĂncipe.
â Se nĂŁo Ă© o prĂncipe. Que lugar incomum para encontrĂĄ-lo. Presumo que esteja com boa saĂșde.
Os lĂĄbios finos e roxos de Oubary se separaram para formar um sorriso. Apenas ver seu rosto foi suficiente para Orba sentir seu corpo esquentar, e ele sĂł foi capaz de responder com um leve aceno. E a outra pessoa era:
Zaat Quark.
Graças aos retratos que Dinn o mostrou, ele foi capaz lembrar vagamente os rostos dos principais nobres de Mephius. Ele era membro do Conselho Imperial, membro da Casa Quark que existia desde a fundação de Mephius e permanecia uma famĂlia distinta nas geraçÔes sucessivas. Enquanto olhava para Orba com um porte grandioso e olhos cheios de vigor, ele abriu a boca.

â ParabĂ©ns por sua primeira campanha bem-sucedida… â Zaat Quark inclinou-se levemente. â JĂĄ se passou um mĂȘs desde entĂŁo, sĂł agora me lembrei, mas lamento informar que nĂŁo tive a oportunidade de visitĂĄ-lo atĂ© agora. Sua Majestade Imperial tambĂ©m estĂĄ preocupado. Que tal mostrar seu rosto para ele amanhĂŁ, se nĂŁo antes?
â Ah, tudo bem.
â Se os outros nobres vissem que o prĂncipe, que supostamente estĂĄ acamado doente, estĂĄ se divertindo em um lugar como este, nĂŁo haveria como impedi-los de falar mal de vocĂȘ. Mephius estĂĄ mais ou menos Ă beira de uma rebeliĂŁo. Como vocĂȘ Ă© um prĂncipe importante, tome cuidado.
De fato, ele falava com um comportamento refinado e tom gentil, apesar do olhar penetrante. Zaat nĂŁo era um dos doze generais, mas carregava o legado da Casa Quark que outrora dominava essa posição. Comparado a comandantes militares genuĂnos como Rogue ou Oubary, ele tinha poucos soldados e provavelmente nunca estivera pessoalmente em um campo de batalha. Mas aqueles olhos eram exatamente do tipo que se fixa intensamente no inimigo.
EntĂŁo… ele Ă© o lĂder da facção anti-imperial?
Essa informação nĂŁo veio atravĂ©s de Dinn, mas de Fedom mencionando em algum momento. Zaat parecia ser o mais oposto ao aprisionamento de Kaiser Islan. O prĂncipe teria vacilado com isso? Enquanto Orba tinha esse pensamento, foi abruptamente interrompido.
â Bem, entĂŁo, por favor, me desculpe.
Depois de cortesmente deixar sua mensagem, ele partiu com Oubary. Orba encarou as figuras dos dois homens entrando na carruagem que esperava em frente Ă loja, ou mais precisamente, apenas Oubary.
Um dia, Orba jurou em sua mente.
Um dia eu vou queimĂĄ-lo atĂ© a morte. Isso mesmo, âum diaâ. NĂŁo agora. NĂŁo sou tĂŁo gentil a ponto de simplesmente matĂĄ-lo de qualquer jeito.
â Ă melhor nĂŁo se preocupar com isso, irmĂŁo.
Ineli interpretou o silĂȘncio de Gil como depressĂŁo pela repreensĂŁo indireta por sua ociosidade. Ela sorriu enquanto dava tapinhas em suas costas.
â Ainda assim, que combinação estranha â um dos garotos inclinou a cabeça. â Nunca vi os dois se darem tĂŁo bem atĂ© agora.
â Que seja. Vamos voltar rĂĄpido. Seremos repreendidos por outra pessoa importante.
Ou assim Baton disse, mas mesmo agora, seu rosto estava pĂĄlido. Era Ăłbvio para todos que ele estava aterrorizado com os problemas em que poderia se meter.
Que dia estranho.
Orba pensou enquanto caminhava pelo corredor do palĂĄcio.
Muitas coisas aconteceram, mas no momento, os amigos mais prĂłximos do prĂncipe ainda nĂŁo suspeitavam de sua verdadeira identidade. Podia ser considerado seu primeiro passo. Era absolutamente necessĂĄrio obter todos os direitos e privilĂ©gios que o prĂncipe possuĂa, e para isso, ele precisava aguentar vĂĄrios acontecimentos inĂșteis.
Seja como for, as batalhas nĂŁo habituais o deixaram exausto, corpo e mente.
â Dinn â ele chamou o pajem assim que abriu a porta. â NĂŁo vou precisar de banho ou refeição hoje. E tambĂ©m nĂŁo vou-
â PrĂncipe.
Orba percebeu que Dinn tinha uma expressĂŁo desconfortĂĄvel. O quarto do prĂncipe era uma suĂte de trĂȘs cĂŽmodos, e a primeira porta aberta levava a uma pequena sala onde cadeiras e um balcĂŁo eram dispostos para receber visitantes.
LĂĄ, a sombra de uma figura podia ser vista sentada em silĂȘncio sombrio. Com um Ășnico olhar, o cansaço de Orba desapareceu em parte. Era a terceira princesa de Garbera, Vileena. Com seus cabelos prateados e ricos pendurados nas costas, a beldade digna olhou diretamente para Orba.
â Dou as boas-vindas de volta, Sua Alteza o PrĂncipe Herdeiro, Gil.
â Ă, sim.
â Por favor, diga-me, para onde vocĂȘ foi?
â Bem, isso… ah, fui convidado para a casa do general.
â VocĂȘ certamente parece estar com boa saĂșde.
Todos dizem exatamente a mesma coisa.
Tal pensamento passou por sua cabeça. Ele planejou conter o sentimento, mas deve ter transparecido em seu rosto.
â Eu disse algo estranho? Sou uma convidada inexperiente em Mephius, afinal. NĂŁo estou familiarizada com a cultura e o humor deste paĂs. Ou seja, gostaria que chegĂĄssemos a um entendimento imediato, ou pelo menos, que vocĂȘ me respondesse firmemente.
â O que vocĂȘ estĂĄ tentando dizer? â Orba olhou furioso para a garota dois anos mais nova que ele. â Isso nĂŁo Ă© muito prĂłprio de uma princesa. Se tem algo a dizer, diga francamente.
â Ă mesmo? EntĂŁo, sejamos francos. PrĂncipe, vocĂȘ estĂĄ ciente do assunto sobre Kaiser Islan?
â Sim.
â âSimâ Ă© tudo que vocĂȘ tem a dizer? â suas pupilas se alargaram.
â Como eu disse, o que vocĂȘ estĂĄ tentando dizer? Apenas diga o que quer.
â JĂĄ Ă© o suficiente!
Com o rosto vermelho, Vileena levantou-se de seu assento. Orba queria deitar e descansar, mesmo que um segundo antes, mas essa atitude sĂł serviu para alimentar sua ira.
â O que quer dizer com âjĂĄ Ă© o suficienteâ? Eu nĂŁo ouvi nada ainda!
â Eu vim saber se estava tudo bem com sua alteza devido Ă doença, sĂł para descobrir que estava vadiando por aĂ atĂ© tĂŁo tarde! Se estivesse angustiado com o futuro deste paĂs, vocĂȘ pelo menos teria pensado nisso, mas pelo que parece, o assunto nĂŁo pesou nem um pouco em sua mente! NĂŁo importa o que eu diga, seria inĂștil!
â VocĂȘ tem muita coragem, criticando discretamente os outros que mal conhece com base em nada alĂ©m de especulaçÔes!
Ele mal conseguira manter uma mĂĄscara de aparĂȘncias na frente do grupo de amigos prĂłximos, e de alguma forma, diante dessa princesa de quatorze anos, ela desmoronou em pĂł. Muito provavelmente, a princesa disse a Ășnica coisa que nĂŁo deveria ser dita.
â HĂĄ coisas que uma criança nĂŁo pode entender! Antes de se intrometer nos assuntos dos outros, que tal primeiro crescer, princesa!?
â Ah, com certeza vou!
Em um instante, Vileena levantou-se com grande força, e mais rĂĄpido que Dinn pudesse soltar um âAhâ, avançou em direção a Orba. Pensando que a força viria atravĂ©s de uma palma aberta, Orba recuou instintivamente contra a parede.
â Passar bem!
Deixando essas palavras afiadas, Vileena saiu da sala com um jeito nada prĂłprio de uma princesa.
Orba relaxou as costas, escorregando pela parede.
Primeiro Ran, e agora essa princesa.
â Eu tambĂ©m sou culpado â Dinn disse com um olhar excessivamente triste.
â Quando a princesa chegou Ă tarde, eu expliquei que vocĂȘ saĂra com seus amigos.
â EntĂŁo a que horas ele voltarĂĄ? â a princesa perguntou. Pensando que seria ruim se o prĂncipe demorasse demais brincando, Dinn deu a resposta vaga: â Ele voltarĂĄ imediatamente.
â Eu repetidamente disse a ela, âAssim que ele voltar, eu avisarei imediatamenteâ, mas ela continuou esperando desta maneira…
Ela chegou no meio da tarde, e entĂŁo jĂĄ eram quatro horas, e agora passavam das cinco. Orba soltou um longo suspiro.
NĂŁo hĂĄ tempo para descansar, enquanto eu engano todo este paĂs. Droga, baixei minha guarda.
NĂŁo havia dĂșvida de que Vileena se tornaria mais uma ameaça na batalha contĂnua de Orba para manter sua falsa posição. Claro, por ser Orba, ele nĂŁo notou nem um pouco que o vestido de Vileena Owell estava era mais ousado que o habitual.
Tradução feita por fãs.
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