Rakuin no Monshou – CapĂtulo 6 – Volume 1
Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded
Light Novel Online – CapĂtulo 06:
[Batalha na Fortaleza Zaim]
Depois disso, Mephius e Garbera, que sempre foram inimigos mortais, ficaram completamente desalinhados e sĂł conseguiram encarar a fortaleza de Zaim Ă sua frente.
Passados cerca de cinco dias desde o inĂcio da campanha, a desconfiança em relação ao prĂncipe Gil tambĂ©m aumentou no campo de Mephius. Havia rumores de que ele nĂŁo interferia nos planos de Ryucown porque queria conquistar os sentimentos de sua futura esposa, a princesa Vileena.
Mas como não havia nenhum desenvolvimento no assunto, até a própria Vileena sentia como se estivesse pisando em ovos.
Falando sobre o que Orba fazia naquele momento, ele vagava pelo acampamento sempre que tinha a chance. Embora nunca desse ordens importantes para atacar, ficava por aà fazendo pedidos estranhos aqui e ali, e todos no acampamento tinham dificuldade em lidar com eles. Os pedidos iam desde o posicionamento dos guardas até o cardåpio do jantar.
â NĂŁo se afaste muito daqui, alteza. Nunca se sabe onde os soldados de Garbera podem estar escondidos! â gritaram os soldados Mephianos enquanto Orba descia as encostas da ĂĄrea montanhosa. Eles faziam parte do mesmo grupo, entĂŁo nĂŁo era milagre que houvesse soldados de Garbera entre eles.
EntĂŁo, galopando ladeira abaixo, Gowen sussurrou no ouvido de Orba:
â Orba, seja mais cuidadoso.
Gowen e os outros, como guarda-costas pessoais, eram encarados com olhares vazios pelos demais soldados. Aqueles ex-escravos haviam sido nomeados guardas imperiais por um capricho do prĂncipe. Deixando os nobres de lado, os gladiadores eram alvo natural do Ăłdio e da inveja dos soldados convencidos, que se vangloriavam de arriscar suas vidas a serviço de Mephius.
â O outro lado dessa floresta? â Orba perguntou aos aldeĂ”es que trouxera consigo, sem se importar.
Eles eram Garberanos, Ă© claro. O fato de quem lhes falava ser o prĂncipe de Mephius complicava as coisas, mas estar cercados por soldados armados com espadas e armas naquele momento, obviamente, nĂŁo os deixava com vontade de se opor ou enganĂĄ-lo.
â HĂĄ um rio. O leito Ă© largo, mas, ainda assim, se os soldados do Lorde Ryucown avançarem em grande nĂșmero por ali, serĂŁo vistos facilmente deste acampamento.
Orba ficou na ponta dos pĂ©s. No inĂcio, sĂł enxergara a paisagem comum de um rio. Mas agora percebeu que, se concentrassem os soldados ali, provavelmente seriam avistados de imediato.
â Quais sĂŁo suas ordens? â Gowen perguntou, mantendo um tom respeitoso diante dos soldados. â Basicamente, serĂĄ quase impossĂvel preparar uma emboscada contra as forças de Ryucown aqui.
â Se for Ryucown.
Dando sua resposta enigmĂĄtica, Orba partiu para outro local. Aqui e ali, alguns soldados e oficiais curvavam a cabeça, mas, embora fizessem a saudação perfeita, quase nĂŁo havia respeito em seus olhos quando viam o “prĂncipe Gil”. Ele atĂ© ouviu vozes sussurrando que prefeririam confinar o prĂncipe Gil e nomear o general Oubary como comandante, se isso significasse evitar que a vitĂłria escapasse de suas mĂŁos.
Deixando os soldados para trås, Orba dirigiu-se aos cercados onde os dragÔes eram mantidos. Os dragÔes menores, usados na guerra, estavam todos amontoados ali. Entre eles, viam-se as formas dos dragÔes médios e grandes do grupo Tarkas. Havia domadores empregados pelo exército, mas Orba chamou Hou Ran, que se tornara membro da Guarda Imperial.
â Orba, jĂĄ tirou a mĂĄscara?
â Ahh â um sorriso tenso surgiu em seu rosto devido Ă s palavras diretas de Ran. â Como estĂŁo os dragĂ”es?
â Os filhotes do exĂ©rcito estĂŁo sempre de mau humor. Quase todos estĂŁo drogados. NĂŁo consigo me conformar com isso, Orba. Faça algo com aqueles caras, jĂĄ que vocĂȘ ficou tĂŁo importante.
Parecia que Ran tambĂ©m estava de mau humor. Com “aqueles caras”, ela provavelmente se referia aos domadores.
â Entendi. Mas mesmo como prĂncipe Ă© impossĂvel resolver isso agora. Por enquanto, vou garantir que os dragĂ”es do Grupo nĂŁo recebam mais drogas. Estou sendo levado para lĂĄ e para cĂĄ, mas se os dragĂ”es ficarem irritados, terei mais um problema para resolver.
â Ăbvio.
Em relação à mudança repentina de ambiente, talvez ela fosse quem mais se adaptara. Esticando a mão entre as grades, acariciou os focinhos dos dragÔes como sempre fazia, para surpresa dos outros domadores.
EntĂŁo, enquanto Orba e os outros perambulavam pelo acampamento, depararam-se com um problema surgindo na borda do acampamento, quando o sol jĂĄ se punha. A pessoa em questĂŁo era a princesa Vileena, do Reino de Garbera. A escotilha do hangar do navio de guerra estava aberta. VĂĄrias aeronaves velozes de reconhecimento estavam alinhadas, mas Vileena era impedida pelos soldados de embarcar em uma.
â Soltem-me! â Vileena disse, corajosa como sempre. â Larguem-me! Ă inĂștil tentar me impedir!
â Mas, Vossa Alteza. A senhorita Ă© uma convidada aqui em Mephius. AlĂ©m de protegĂȘ-la, nĂŁo podemos acompanhĂĄ-la a lugar algum sem ordens expressas.
â Por isso eu disse que irei sozinha! â Vileena retrucou, agitada, quando seus olhos encontraram os de Orba, que se aproximava. â Se querem ordens, por que nĂŁo perguntam ao prĂncipe ali?
â Tudo bem, recuem â Orba ordenou.
Depois que os soldados se afastaram com olhares insatisfeitos, apenas ele e a princesa ficaram no hangar. Ainda com a mão no assento da aeronave, Vileena lançou-lhe um olhar fugaz. As aeronaves de Mephius eram modeladas principalmente como wyverns, mas, para além disso, quase não havia diferenças em relação aos modelos de Garbera.
â O que estĂĄ tentando fazer? â ele perguntou.
â O quĂȘ? â a jovem princesa ergueu uma sobrancelha. â Posso fazer uma pergunta de volta? O que vocĂȘ quer fazer, Vossa Alteza? Ă porque vocĂȘ nĂŁo faz nada que sĂł me resta agir.
â Oh? EstĂĄ me dizendo que vai se juntar aos seus compatriotas e derramar sangue?
â N-NĂŁo Ă© isso! Algo assimâŠ!
Prestes a explodir de raiva, Vileena respirou fundo, nĂŁo querendo se irritar com seus comentĂĄrios.
â Sem a ajuda de Mephius, as forças de Garbera serĂŁo dizimadas. O sangue jĂĄ foi derramado. NĂŁo suporto assistir a isso.
â Mesmo se eu atacar, serĂĄ inĂștil. AlĂ©m disso, nĂŁo posso fazer nada de qualquer maneira.
De repente, ele começou a falar de maneira mais descontraĂda. Conseguia manter as aparĂȘncias diante de outros nobres e generais, mas, diante dela, nĂŁo conseguia disfarçar. Essa princesa era direta demais, e, para ele, ocultar sua origem social inconscientemente lhe dava uma estranha sensação de culpa.
â O que quer dizer?
â Quero dizer que Ryucown sabe muito bem que Mephius irĂĄ atacĂĄ-lo.
â EntĂŁo vocĂȘ armou algum tipo de armadilha? Mas mesmo assim, por que age com tanta indiferença? E se eles tiverem medo e apenas tremerem, sem fazer nada?
â As coisas jĂĄ estĂŁo em movimento. NĂłs os cercamos com a “princesa Vileena” como nossa bandeira. Tenho certeza de que tudo jĂĄ começou, e logo chegarĂĄ ao fim. Mesmo que algo ainda aconteça, nĂŁo mudarĂĄ a situação atual.
â Isso…
Percebendo o que o prĂncipe insinuava, Vileena baixou a cabeça. Com o pĂŽr do sol, um leve rubor corou suas bochechas. Como se tivesse engolido novamente todos aqueles sentimentos â raiva, vergonha â, ela ergueu a cabeça.
â Reconheço minhas falhas. A verdade Ă© que eu ia me encontrar com Ryucown sozinha, embora saiba que nĂŁo posso resolver isso por mim mesma. Mas, por isso mesmo, vocĂȘ precisa sair do meu caminho. Se eu puder ao menos fazer minha voz ser ouvida quando falar com Ryucown em pessoa, jĂĄ que ambos nos consideramos garberanos, talvez seja possĂvel abrir seus olhos para outra conclusĂŁo. Algo alĂ©m de uma morte honrosa em batalha.
â Mas, acima de tudo, se perdermos vocĂȘ, provavelmente tudo desmoronarĂĄ. As mĂŁos que mal se uniram Ă s de Garbera serĂŁo cortadas.
â VocĂȘ estĂĄ certo, eu admito… â Vileena respondeu emburrada.
Seu rosto, bonito como flores no parapeito da janela, logo se distorceu de Ăłdio enquanto mordia os lĂĄbios.
CĂ©us… â Orba murmurou mentalmente â Essa princesa tem orgulho e dignidade no que diz, mas por que Ă s vezes parece que estou falando com alguĂ©m da vila?
Tendo ganhado vantagem, Orba estava prestes a dispensar a princesa quando:
â O fato de vocĂȘ estar tĂŁo calmo Ă© um mistĂ©rio para mim â ela disse. â AmanhĂŁ, as forças de Ryucown e Garbera podem se enfrentar novamente. Se isso acontecer, aqueles soldados morrerĂŁo em vĂŁo. VocĂȘ Ă© capaz de carregar os sentimentos de todos aqueles homens? NĂŁo Ă© vocĂȘ quem odeia ver vidas desperdiçadas em nome da nação e da nobreza?
Sem dĂșvida, ela dissera aquilo por ironia, mas as palavras perfuraram o coração de Orba como adagas. Ofegante, desta vez foi ele quem baixou a cabeça, envergonhado.
Ela pode ter razĂŁo…
Orba nĂŁo considerara os sentimentos dos soldados em relação Ă batalha. Era mais importante determinar o resultado do que lamentar os sacrifĂcios. Era como enxergar uma partida de xadrez. No entanto,
Esse Ă© o pensamento dos nobres que mais odeio.
E, ao mesmo tempo,
Mas acredito que, agora, isso Ă© necessĂĄrio.
Quando era apenas um garoto de uma vila rural, quando fora forçado a matar como escravo, tanto o ódio quanto a intenção de matar eram reais, mas também era verdade que não poderia vencer se quisesse proteger a vida de cada soldado.
Sob o céu flamejante, como óleo em chamas, Orba ficou paralisado, seu coração ardendo com aquela contradição.
â O que o perturba?
Como ele permanecia em silĂȘncio, claramente em estado de choque, Vileena franziu ligeiramente a testa e mudou o tom.
â Nada… â ele disse.
â Mas nĂŁo Ă© o que parece, sabia?
Orba afastou-se quando a princesa se aproximou.
â NĂŁo Ă© isso â ele respondeu. â Princesa, se as tropas Mephianas participassem ao lado de Garbera, a batalha seria mais intensa, resultando em pilhas de cadĂĄveres. Todos no exĂ©rcito de Ryucown lutam prontos para morrer. Por isso temos que esperar. Dessa forma, estou pensando nos soldados. Espere… Se eu conseguir a vitĂłria do jeito que planejo…
O final de sua frase dissolveu-se na brisa da tarde e desapareceu. Sem perceber, Orba apertava os punhos com tanta força que os mĂșsculos de seus braços se contraĂam.
No dia seguinte, ao anoitecer do sexto dia desde o acampamento, a princesa Vileena terminou sua refeição em seu quarto a bordo da nave. Embora fosse irracional pensar assim, considerando-se que estavam em um campo de batalha, ela sentia uma inquietação constante desde o amanhecer atĂ© o crepĂșsculo, passando os dias olhando para o exterior.
Era de se esperar, mas basicamente nĂŁo tinha com quem conversar, pois nĂŁo pudera trazer Theresia consigo. Havia pajens Mephianos no acampamento, mas mantinham distĂąncia de Vileena a menos que fosse estritamente necessĂĄrio.
Normalmente, Theresia estava sempre ao seu lado para cuidar rapidamente de tudo. Ela iniciava as manhãs de Vileena dedicando tempo para pentear seus cabelos. Theresia sempre se irritava porque a princesa não era tão diligente quanto ela e nunca conseguia ficar parada, mas aquela era uma rotina desde a infùncia para Vileena. Acreditava que poderia fazer isso sozinha desta vez, mas a tarefa levou muito tempo naquela manhã e foi puro tédio. Agora ela sabia que, todas as manhãs, Theresia, que tinha pouco tempo livre, sempre se esforçava para preparar diversos assuntos de conversa.
Mesmo estando no solo de sua terra natal, Garbera, sem Theresia ali, era a primeira vez que â mesmo que nĂŁo admitisse â sentia uma solidĂŁo como se tivesse sido abandonada em terras estrangeiras.
Seis dias…
Apenas isso. Mas pareciam seis anos, como se cada segundo a dilacerasse. No dia anterior, as forças de Garberanas tinham atacado a fortaleza novamente e, como sempre, Mephius apenas ofereceu apoio indiferente com bombardeios.
Claro que nĂŁo apenas Garbera estava insatisfeita, mas vozes tambĂ©m se levantavam no lado mephiano. Vileena sabia que nĂŁo apenas os oficiais, mas tambĂ©m alguns soldados rasos criticavam o prĂncipe.
Desperdiçando forças desse jeito, Garbera teria que desistir do apoio de Mephius e pedir mais reforços à capital. E mesmo que as tropas mephianas aumentassem, Ende provavelmente não ousaria invadir território garberano. Considerando isso, parecia ser também o motivo pelo qual o lado garberano evitava criticar Mephius publicamente.
Pois, se isso acontecesse, a guerra sĂł se intensificaria. Como o prĂncipe dissera, Ryucown nĂŁo cederia diante da força bruta. No entanto, havia tambĂ©m soldados que se juntaram a ele. E segundo as palavras de um oficial que estivera no acampamento anteontem:
â Os familiares daqueles que seguem Ryucown, os muito velhos ou doentes para ir Ă fortaleza com ele, todos cometeram suicĂdio.
Ou assim ela ouvira.
Provavelmente nĂŁo suportaram a humilhação de serem expostos como famĂlia traidora, e, se capturados, seriam acorrentados e usados como refĂ©ns. Ela se perguntava qual era a verdade. Mas, por isso, os soldados que seguiam Ryucown estavam preparados para tudo. No caso deles, isso sĂł fortalecia seus laços. Continuariam lutando com todas as forças atĂ© o Ășltimo homem cair sob balas.
Vileena levantou-se pela enésima vez naquele dia. Caminhou ao longo da parede do quarto e olhou as cordas que conectavam as aeronaves. Deu alguns passos e então, pela enésima vez, voltou.
Mordeu o lĂĄbio inferior. Era um mau hĂĄbito que Theresia sempre a repreendia por ter.
âAqueles da realeza nĂŁo devem revelar seus verdadeiros sentimentos. Quando todos o irritam, ria; quando todos riem, mostre seriedade. Vossa Alteza, seu rosto Ă© o rosto de seu paĂs.â
Ela sabia o que significava. NĂŁo podia ser uma princesa rebelde para sempre. Pois, desta vez, suas açÔes impulsivas poderiam influenciar o paĂs. Sem hesitar, Vileena levantou-se novamente. Embora sua ideia de falar diretamente com Ryucown tivesse sido rejeitada, nĂŁo podia descartar essa possibilidade. Decidiu encontrar Gil Mephius mais uma vez.
Embora haja rumores de que ele nĂŁo quer sair do acampamento…
Diziam que em Mephius, esperavam uma batalha fĂĄcil, e queriam se livrar deste conflito infrutĂfero o quanto antes. E a fonte desses rumores nĂŁo era Garbera, mas vinha do acampamento mephiano. VĂĄrios soldados ouviram, vazado pela guarda imperial, que o prĂncipe temperamental jĂĄ estava cansado de “brincar de soldado” e queria voltar correndo ao palĂĄcio.
Vileena, com a raiva flamejante como sempre, estivera prestes a confrontar Gil e exigir explicaçÔes. No entanto, Theresia comentara antes que ainda nĂŁo podia formar uma opiniĂŁo sobre ele, e Vileena pensava o mesmo. Acreditava que o motivo de ele nĂŁo ordenar um ataque nĂŁo era covardia, mas sim porque nĂŁo percebia ou nĂŁo se importava com as crĂticas ao seu redor.
Ele estĂĄ pensando em algo.
Na conversa de ontem, Gil fiz um comentĂĄrio que sugeria isso. O problema era ele. Assim como no caso de Ryucown, se quisesse entender suas verdadeiras intençÔes, precisaria se aproximar para ver o que havia em seu coração. Se descobrisse esse “algo”, e se pudessem trabalhar juntos, seria Ăłtimo.
Isso mesmo. Eu esqueci completamente!
Vileena lembrou-se de sua determinação inicial nesse casamento. Investigar os assuntos internos de Mephius e manipular o prĂncipe “tolo”. Deixou escapar um sorriso sem querer.
Isso mesmo, isso mesmo! O prĂncipe e eu podemos pensar juntos nisso, e se ele nĂŁo gostar, eu simplesmente o chutarei atĂ© que goste.
Coincidentemente, enquanto se sentia ridicularizando a si mesma, ouviu-se uma batida leve na porta justo quando ela ia se levantar.
â PrĂncipe Gil?
Sentindo-se pega de surpresa, como se suas intençÔes tivessem sido expostas, Vileena pronunciou seu nome no impulso. A porta abriu-se e seu rosto corou. Era apenas um pajem buscando sua bandeja. Vileena forçou um sorriso incomum, com as bochechas ardendo de vergonha, e entregou a bandeja com suas próprias mãos.
Então, quando ele curvou a cabeça graciosamente, ela notou que não era o pajem habitual.
â Princesa…
Ao ouvir a tensão em sua voz, um mau pressentimento cruzou seu coração.
â Por favor, ouça-me com calma, se desejar â ele sussurrou. â Venho do acampamento garberano. Mas nĂŁo Ă© porque simplesmente desejo uma audiĂȘnciaâŠ
Foi naquela noite.
Um homem de aparĂȘncia desleixada entrou no quarto do prĂncipe Gil. Ele fazia parte da guarda pessoal, mas, para seu pesar, havia se infiltrado no acampamento garberano pouco antes de se encontrar com uma figura importante de Mephius â o gladiador conhecido como Iver.
Rapidamente, chamou Gowen e Shique, que ficaram surpresos ao ver Orba vestindo uma armadura.
â O que estĂĄ acontecendo, Orba?
â VocĂȘ ouviu algo de Iver? NĂŁo me diga que o inimigo nĂŁo Ă© Ryucown, mas o exĂ©rcito Garberano!
Nos Ășltimos dias, eram eles dois que mais se espantavam com as açÔes insensatas de Orba. Apesar das palavras que ele proferiu a seguir, seu semblante permaneceu indiferente.
â Isso mesmo â ele disse, mostrando-lhes algo que segurava na mĂŁo. â Eles pretendem nos atacar de uma vez. Apressem-se com os preparativos. Eu levarei nosso presente e darei um jeito nisso.
Uma mĂĄscara de ferro, imitando o rosto de um tigre, brilhou opaca sob a luz do quarto.
âââ
O sol estava quase se pondo.
Um pequeno grupo se aproximou da base da colina onde Mephius havia montado seu acampamento. Havia, Ă© claro, uma vigilĂąncia rĂgida no local, mas eles passaram facilmente pelo portĂŁo que ali fora erguido. Apresentaram-se como representantes do acampamento garberano, alegando terem marcado um conselho de guerra com o lado mephiano.
No entanto… o horĂĄrio combinado era, na verdade, uma hora depois.
Ao atravessarem o portão, observaram cuidadosamente os arredores. Então, no momento preciso, um de seus membros incendiou o depósito de pólvora no sopé da colina.
Em um Ășnico instante, a noite tranquila do acampamento foi dilacerada. Uma explosĂŁo ensurdecedora ecoou, seguida de labaredas que se alastravam por todos os lados.
Aproveitando o caos que se instalara, como se tivessem cutucado um vespeiro, o som de cavalaria aproximou-se do lado oposto à explosão. Uma das sentinelas, que primeiro percebeu a aproximação da unidade de dragoneiros garberanos, morreu quando as garras de um dragão o rasgaram como papel.
Quase ao mesmo tempo, os portÔes principais da fortaleza de Zaim rangeram ao se abrir. Um grupo de elite, dragoneiros, cavaleiros e aeronaves, irrompeu com a força de um canhão.
Tinham um Ășnico objetivo: a aeronave de comando do exĂ©rcito mephiano, a Dhum.
O ataque surpresa deixou Oubary incapaz de reagir adequadamente.
â Ativem a propulsĂŁo de Ă©ter atĂ© o nĂvel trĂȘs imediatamente e elevem-se! Ordenem aos dragoneiros que protejam a nave de comando!
Ele pressentia que enviar um mensageiro por aeronave jĂĄ seria tarde demais.
Parecia que o prĂncipe, em meio Ă emergĂȘncia, trancara-se em seus aposentos e nĂŁo sairia. Sem perceber, Oubary rangia os dentes.
â Malditos garberanos!
Ele bateu o punho no painel de controle. A traição dos garberanos e o ataque do exĂ©rcito de Ryucown, Ă© claro, nĂŁo podiam ser coincidĂȘncias. A suspeita de que tudo foi planejado desde o inĂcio cruzou a mente dos lĂderes mephianos. Talvez tivessem tentado afastar o exĂ©rcito de Mephius desde o princĂpio, encenando toda essa rebeliĂŁo de Ryucown.
â Reorganizem as formaçÔes de batalha agora mesmo! Ataquem o exĂ©rcito de Ryucown pela frente e as forças garberanas pelo flanco!
â NĂŁo podemos, general Oubary!
O comandante dos DragĂ”es Alados, Rogue, imediatamente se opĂŽs. Sua armadura estava mal ajustada, provavelmente vestida Ă s pressas â ele certamente acabara de acordar.
â Se ficarmos parados, seremos esmagados em um ataque em pinça! Ă melhor preparar uma retirada imediata e abandonar este acampamento!
Oubary quase gritou com ele, mas conteve-se a tempo. Aquele general, dez anos mais velho, percorrera inĂșmeros campos de batalha. E ninguĂ©m esperava que Oubary, conhecido por sua abordagem de força bruta, conseguisse lidar com uma situação dessas. Assim como naquela vez no Forte Apta, no sul.
â Merda!
Oubary mordeu os lĂĄbios finos, contrariando sua postura habitual. Tudo aconteceu justo quando ele achou que seria a oportunidade perfeita para se destacar. A culpa era do prĂncipe e de sua abordagem otimista de “vamos esperar para ver”. Parecia que teriam que abandonar a fortaleza afinal. E, se assim fosse, seria quase impossĂvel silenciar a facção anti-monarquista de Garbera.
â O prĂncipe ainda nĂŁo saiu? â Simon invadiu a ponte, gritando, vindo de outro corredor.
â Um pajem e seus guarda-costas estĂŁo protegendo a porta. NinguĂ©m passa sem a ordem expressa do prĂncipe.
â Ele veio para cĂĄ e essa Ă© sua ordem!? â Simon gritou, sem querer, diante do soldado. Parecia um homem completamente diferente de seu eu habitual, imediatamente se arrependeu.
â E a princesa Vileena?
â Sim. VĂĄrios guarda-costas do prĂncipe tambĂ©m a escoltam.
Ele fora rĂĄpido em preparar tudo. Enquanto suas suspeitas sobre o prĂncipe aumentavam, ainda era uma emergĂȘncia. Havia outras prioridades.
â NĂŁo conseguiram contato com o quartel-general garberano?
No fundo da ponte, Fedom gritava até ficar rouco.
â Enviamos uma aeronave hĂĄ algum tempo, mas ela ainda nĂŁo retornou.
Whoosh…
Naquele momento, um vento forte sacudiu a nave de comando. Com tudo isso, nem mesmo as formaçÔes de batalha puderam ser organizadas. Uma aeronave pequena precisava acumular apenas uma pequena quantidade de Ă©ter, mas seu raio de ação cobria, no mĂĄximo, alguns quilĂŽmetros. Precisavam aumentar a distĂąncia deste local o mais rĂĄpido possĂvel.
Mas seria rĂĄpido o suficiente?
Com sua força principal jå fora do forte, não conseguiriam mais reagir ao ataque.
A nave, que mal começara a se mover, era alvo de bombas que caĂam como chuva. Duas, trĂȘs vezes â e as pernas de Simon continuavam a tremer.
Enquanto isso, na Fortaleza de Zaim…
No andar superior da fortaleza, havia um salĂŁo amplo, cercado por varandas em todos os lados, de onde se podia ver os fogos da guerra consumindo os soldados. Na varanda que dava para o campo de batalha, uma Ășnica aeronave estava escondida, preparada para evacuar o comandante caso a fortaleza caĂsse.
No entanto ele, um homem imóvel como uma eståtua, com os reflexos das chamas distantes brilhando em seus olhos, não tinha a menor intenção de uså-la. Ela só estava ali porque seus seguidores imploraram, a todo custo, que ele tivesse um meio de fuga.
Vestido armadura e com uma espada pendurada nas costas, ele era alto e, apesar da juventude, emanava uma grandiosidade que mantinha os outros Ă distĂąncia. Permanecia absolutamente imĂłvel, uma mĂŁo no cavanhaque bem aparado, parecendo-se com um daqueles herĂłis retratados nas pinturas que adornavam os corredores dos castelos.
Ele era Ryucown, outrora um cavaleiro do Reino de Garbera, general da Segunda Frota AĂ©rea. Um homem que jĂĄ almejara a glĂłria nacional, mas que agora recebia Ăłdio e desdĂ©m de Mephius â e era temido por muitos. Ali, ele observava as chamas que consumiam os frutos de sua estratĂ©gia.
Era um ataque surpresa, coordenado com o acampamento garberano. A infiltração de agitadores entre as tropas inimigas dera resultados. Segundo os Ășltimos relatos, um grupo de generais e soldados rebeldes, nĂŁo mais que cem homens, lançaria um ataque surpresa naquela noite sem lua. O caos tambĂ©m se instalaria no quartel-general garberano. Convencidos de que Mephius estava cercado por inimigos, talvez nĂŁo conseguissem enviar reforços a tempo.
Primeiro, leia as linhas do inimigo. Depois, trace sua estratĂ©gia. Antes de desferir o golpe, certifique-se de que ele serĂĄ certeiro. Este pode ser o Ășltimo movimento que vocĂȘ farĂĄ.
Foi entĂŁo que…
â Milorde!
Um soldado adentrou o salĂŁo, uniu os calcanhares e inclinou-se em uma respeitosa reverĂȘncia. Ryucown ainda mantinha o posto de guarda militar, mas desde que liderara um exĂ©rcito de mil seguidores, todos passaram a chamĂĄ-lo de “lorde“. No fim, eram todos camaradas que haviam escapado de inĂșmeras lĂąminas e sobrevivido a chuvas de balas juntos.
Muitos deles perderam companheiros ou familiares para Mephius. E, ainda que fosse por causa do talento de Ryucown, isso forjara entre eles um laço inquebråvel.
â Permita-me parabenizĂĄ-lo. Os soldados acabaram de retornar da nave Dhum.
â Ah, Ă© mesmo?
â Sim. A princesa Vileena tambĂ©m foi trazida em segurança.
O soldado anunciou isso em voz alta, com lĂĄgrimas nos olhos. Essa era sua esperança mais sincera. No momento, os seguidores de Ryucown nĂŁo passavam de rebeldes, nĂŁo importava o quanto sofressem por seu paĂs ou quĂŁo puras fossem suas intençÔes. Mas, para assegurar seus nomes na histĂłria, ou melhor, para mudar o rumo do futuro de Garbera, ele precisava da princesa Vileena.
Se conseguisse conquistĂĄ-la, poderia assumir o movimento polĂtico atravĂ©s da linhagem real garberana. Ela era idolatrada pelo povo, e isso lhe daria o apoio da nação. AlĂ©m disso, Ryucown estava convencido de que a princesa tinha o espĂrito mais forte entre todos os membros da famĂlia real.
â Ela nĂŁo foi ferida, foi?
â NĂŁo.
â Muito bem. Tragam-na atĂ© mim.
Pouco depois, escoltada por um soldado, Vileena entrou no salĂŁo.
Seu rosto estava pĂĄlido como papel, mas seus olhos, ainda vivos, fitaram Ryucown com intensidade.
Ele sentiu uma pontada de nostalgia. Eles haviam se encontrado um ano atrĂĄs, quando ficaram noivos, mas Ryucown lembrou-se de um tempo ainda mais antigo, quando Vileena tinha apenas nove anos.
Durante a rebelião de Bateaux, quando a fizeram de refém, Ryucown infiltrou-se no castelo com um grupo de elite para derrotar o traidor. Quem os guiara fora a própria princesa. Mesmo sendo uma criança, ela mostrara-se astuta, e Ryucown admirara sua coragem.
Depois, o herĂłi que decapitou Bateaux ajoelhou-se diante da princesa e recebera um beijo em sua face.
Foram quatro, talvez cinco anos desde entĂŁo. Naturalmente, seu corpo amadurecera. Ainda mantinha um ar juvenil, mas em trĂȘs anos, seria uma beldade capaz de causar problemas nĂŁo sĂł em Garbera, mas em todos os reinos vizinhos, e talvez atĂ© no mundo alĂ©m-mar.
Ryucown inclinou-se respeitosamente.
â HĂĄ quanto tempo, Vossa Alteza.
â General Ryucown. VocĂȘ…
Vileena atirou as palavras como uma flecha, como se tentasse mascarar sua hesitação com vigor.
Seu coração parecia em tumulto. Para Ryucown, ela lembrava um pequeno barco de madeira, com as velas içadas alto demais, subindo sobre ondas brancas, tĂŁo imprevisĂvel que nem mesmo o timoneiro saberia para onde iria.
Cerca de dez minutos antes do ataque, um homem disfarçado de pajem aparecera em seus aposentos na Dhum, afirmando ser um enviado do acampamento garberano. Ele revelou que parte de Garbera, em conluio com Ryucown, planejava um ataque surpresa à nave de comando.
â Princesa, irei levĂĄ-la atĂ© o Lorde Ryucown.
Vileena empalideceu e, num ato impulsivo, levantou-se para avisar o prĂncipe.
â Perdoe-me…
Querendo ou nĂŁo por aquela reação, o soldado agira rĂĄpido. VĂĄrios outros, que aguardavam nos fundos, impediram-na de gritar ou se mover, tapando sua boca e imobilizando seus braços e pernas. Enquanto resistia, sua consciĂȘncia esvaĂa-se lentamente â eles provavelmente haviam embebido um pano com uma droga sonĂfera.
Quando acordou, estava na Fortaleza de Zaim, com as chamas do campo de batalha refletindo em seus olhos.
â VocĂȘ…
â Sei muito bem o que espera que eu faça â Ryucown interrompeu suavemente as palavras de Vileena.
O vigor habitual não estava nos olhos da princesa enquanto ela o encarava. Suas emoçÔes ardiam como fogo, mas, por algum motivo, não transbordavam. Assim como Ryucown, sentimentos profundos despertavam nela após tanto tempo.
Um ano atrĂĄs, quando ficaram noivos, Ryucown, que enfrentou incontĂĄveis batalhas na linha de frente, sequer conseguia olhĂĄ-la nos olhos.
Agora, seus traços nobres estavam mais evidentes, marcados pelo cansaço e pela dor. Seu refinamento urbano fora corroĂdo, ou talvez substituĂdo por algo mais selvagem. A armadura prateada que vestia fora presente do prĂłprio rei quando tornou-se cavaleiro.
â No entanto, devo manter minhas convicçÔes. Com todo o respeito, o povo nĂŁo segue mais a famĂlia real. A linhagem Ă© importante, mas se dependermos apenas dela, o paĂs entrarĂĄ em declĂnio.
â Mas uma guerra civil sĂł arruinarĂĄ Garbera! Por que prolongar uma batalha tĂŁo inĂștil?
â NĂŁo estou deixarei que isso se arraste. Na verdade, o inĂcio desta batalha terminarĂĄ com uma grande vitĂłria nossa. E nossa vitĂłria terĂĄ um impacto duradouro e imenso. Garbera temerĂĄ novos rebeldes surgindo em seu territĂłrio, tornando impossĂvel mobilizar grandes tropas. Para proteger sua honra, Mephius tambĂ©m nĂŁo terĂĄ escolha a nĂŁo ser entrar em campo. Quando perceberem que nĂŁo podem vencer facilmente, usarĂŁo isso como desculpa para recuar imediatamente. E quando isso acontecer… sĂł serĂĄ necessĂĄrio um Ășltimo golpe decisivo para acabar com tudo.
Fora da fortaleza, a batalha continuava a rugir.
Enquanto o fogo da guerra iluminavam a noite, desafiando a escuridĂŁo, Vileena cerrou os punhos delicados. Ela nĂŁo queria ver aquilo. Era exatamente por isso que havia decidido se casar com o prĂncipe de Mephius, endurecendo seu coração.
â Pretendo me tornar um mĂĄrtir para lançar os alicerces da paz â Ryucown disse, mostrando-lhe seu manto negro forrado de vermelho. â Por favor… confie sua vida a mim.
Mais ao longe, duas, trĂȘs vezes, o som de canhĂ”es ecoou.

Aproveitando o Ămpeto, as forças de Ryucown pressionavam o exĂ©rcito mephiano com força.
Surpreendidos pelo ataque inesperado e pela traição de um grupo de garberanos, as tropas mephianas estavam completamente dispersas. Alguns soldados tentavam escapar das chamas pulando para dentro das naves de guerra, que ainda ganhava altitude, enquanto outros abandonavam o navio em debandada.
Era papel do lĂder inspirar coragem e unir os soldados em combate. No entanto, aqueles homens que agora agiam de forma tĂŁo desonrosa eram veteranos da guerra de dez anos contra Garbera. Muitos atĂ© haviam sido condecorados por atos de bravura.
Se tivessem um bom comandante, dez em cada cem homens escolheriam morrer para permitir sua fuga. Mas, infelizmente, o prĂncipe que deveria cumprir esse papel nĂŁo dera nenhuma ordem, e era evidente que o capitĂŁo Oubary perdera a compostura. O pĂąnico contaminara atĂ© os soldados rasos.
â Isso nĂŁo estĂĄ nada bom â resmungou o grande general Rogue, que emergira no convĂ©s para avaliar a situação.
Considerando recuar, ele analisou friamente o campo de batalha. Ainda tinham superioridade numérica, mas sabia que essa vantagem podia evaporar em um piscar de olhos.
Oubary não era um mau comandante. Quando tinha o vento a seu favor, conseguia transformar até o mais hesitante dos soldados em um herói. Porém, da mesma forma, em situaçÔes adversas, contagiava todos ao redor com seu desespero.
Eles precisavam de alguém com firmeza. Alguém que agisse com vigor.
â NĂŁo hĂĄ como eu deixar meus ossos serem enterrados em terras garberanas â Rogue murmurou para si mesmo, um protesto vindo do fundo de seu coração.
Nenhum general deveria desejar um local ou forma especĂfica para morrer. Mas cabia a ele proteger o prĂncipe em batalha ou, ao menos, garantir-lhe uma morte nobre.
Lembrou-se de sua famĂlia, deixada para trĂĄs em Mephius. Enquanto pensava nisso, soldados mephianos correram em sua direção, apenas para tombarem com balas atravessando suas cabeças. Seus uniformes estavam manchados de sangue como em um desenho infantil. Rogue colocou o capacete e sacou sua espada com um clarĂŁo metĂĄlico.
â Venham, traidores de Garbera! Se quiserem dar mais um passo, terĂŁo que passar por cima do cadĂĄver de Rogue Saian! Mas este velho nĂŁo morrerĂĄ sozinho! Levarei cem, nĂŁo, mil homens comigo! Quem quiser me enfrentar, pense em sua famĂlia uma Ășltima vez!
Enquanto rajadas de balas vinham do inimigo, Rogue saltou da nave que começava a ganhar altitude. Vårios soldados, inspirados por seu discurso, reuniram-se ao redor do velho general. O inimigo avançava como uma avalanche. Uma bala arranhou sua bochecha esquerda; outra perfurou o maxilar de um soldado ao seu lado, que caiu de costas.
Justamente quando Rogue se preparava para investir contra eles com um sorriso mortal, uma voz cortante ecoou:
â FOGO!
O grito vinha não do inimigo, mas do bosque no alto de uma colina próxima às forças de Ryucown. Uma saraivada de tiros råpidos seguiu-se, derrubando cavaleiros e dragÔes em jorros de sangue.
Quando os disparos cessaram, outra ordem foi dada:
â ATACAR!
Espadachins emergiram dos arbustos, brandindo lùminas reluzentes. Seu ataque foi tão feroz que cabeças e membros voaram, misturando-se à escuridão da noite.
â Ohhh… â Rogue soltou um suspiro de admiração quando o chĂŁo tremeu.
DragÔes de porte médio surgiram atrås das linhas inimigas, guiados por dragoneieros montados em espécimes menores.
â Avante, avante!
â Abram caminho, ou serĂŁo esmagados!
Aqueles dragÔes deviam estar escondidos desde o pÎr do sol, aguardando o momento certo. Nem Ryucown nem Rogue esperavam por isso.
Era uma tĂĄtica ensinada por Hou Ran. DifĂcil de acreditar que uma Ășnica pessoa pudesse fazer tamanha diferença no campo de batalha.
Ataque em pinça.
As tropas de Ryucown caĂram no caos.
Rogue nĂŁo esperou mais e tambĂ©m partiu para o ataque. Com um golpe preciso, decepou o braço de um soldado que tentava embarcar na aeronave, seja porque estava fugindo do inimigo, ou talvez buscando a cabeça do prĂncipe.
Enquanto o sangue escorria de sua lùmina, o general correu em direção ao comandante que liderava o ataque surpresa.
Era um homem de cabelos brancos e pele bronzeada, de idade prĂłxima Ă sua.
â Um aliado? Com todo respeito, nĂŁo reconheço seu rosto.
â Ah, bem… â O comandante de cabelos brancos, Gowen, sorriu sem jeito. â Somos a Guarda Imperial do PrĂncipe Gil Mephius. AtĂ© pouco tempo atrĂĄs, Ă©ramos apenas gladiadores.
â O quĂȘ?
Rogue ficou pasmo. Ouvira falar que o prĂncipe recrutou gladiadores como guarda-costas, mas considerara apenas mais um capricho do “prĂncipe tolo”.
No entanto, aqueles homens tinham a coragem digna de estandartes. Com espĂrito indomĂĄvel, devastavam as fileiras de Ryucown usando espadas, machados, lanças e armas de fogo com maestria.
Era exatamente por isso que Orba os trouxe como trunfo. Ele nĂŁo confiava em suas caracterĂsticas individuais, mas sabia que eram indisciplinados, agindo por instinto. PorĂ©m, como prĂncipe, fizera uma promessa: aqueles que trouxessem cabeças inimigas receberiam recompensas, inclusive sua liberdade.
Pela primeira vez, matar lhes dava a chance de ganhar a prĂłpria vida de volta. Por ouro e liberdade, enfrentariam mil lĂąminas e chuvas de bombas sem hesitar.
â Mesmo assim, Ă© impressionante. Montar uma emboscada e deter o avanço inimigo numa emergĂȘncia dessas…
â NĂŁo, nĂŁo. Tudo foi ideia do prĂncipe. AlguĂ©m como eu nĂŁo teria tal capacidade.
Gowen, sem querer, usou uma linguagem mais formal diante do comandante mephiano, tentando manter a dignidade de um guarda imperial.
â O prĂncipe percebeu sinais de traição no acampamento garberano e previu que as forças de Ryucown atacariam. Nos posicionou de antemĂŁo no caminho deles. Ele estudou o terreno durante o dia e-! ARTILHARIA, alvejem aquela aeronave inimiga!
Interrompeu-se para dar novas ordens.
â O quĂȘ? â Rogue murmurou novamente.
Como ordenado, uma salva de bombas atingiu o flanco inimigo. Um dragão Goll de porte médio rugiu e caiu.
â Mas nĂŁo recebemos nenhuma ordem.
â Bem… Pessoas como nĂłs nĂŁo conseguem ler os pensamentos do prĂncipe o tempo todo â Gowen respondeu solenemente. â Mas se ele previu a traição entre os garberanos, em uma situação onde nĂŁo sabia quem era aliado ou inimigo, talvez temesse vazar informaçÔes cruciais.
â “Se quiser enganar o inimigo…” Certo?
Rogue suspirou, olhando para o céu, mas logo recuperou a postura e observou as tropas inimigas se aproximando.
â General, precisamos recuar por agora â disse Gowen. â Precisamos nos reagrupar na Dhum e pĂŽr fim a este combate.
â Concordo.
Os dois ficaram ombro a ombro, como velhos camaradas, e coordenaram a retirada de suas tropas. Enquanto recuavam, Gowen observou os reforços inimigos se aproximando com ainda mais Ămpeto.
O moral deles nĂŁo cairia tĂŁo fĂĄcil.
Embora não dissesse em voz alta, Gowen não se iludia com a pequena vitória. Seu objetivo não era apenas deter o inimigo ou auxiliar a fuga da aeronave de comando, ele precisava imobilizar o grosso das forças de Ryucown a qualquer custo.
Mas atĂ© agora tudo saiu como planejado, Orba. Caso contrĂĄrio, vocĂȘ estaria em perigo.
Nesse momento, uma sensação gelada percorreu seu corpo quando um canhão atingiu uma årvore próxima, espalhando estilhaços e fogo. Ele se agachou, protegeu-se e correu em direção ao Dhum. O sangue de veterano em suas veias, hå muito adormecido, voltava a ferver.
âââ
â Os gladiadores?
Simon recebeu a notĂcia e ficou sem palavras. Ă claro que era difĂcil acreditar de repente. Mas era verdade que o ataque inimigo havia enfraquecido.
Naquele momento, o pajem Dinn e vĂĄrios guardas imperiais entraram na ponte de comando.
â Tenho ordens do prĂncipe.
â O quĂȘ?
Oubary mostrou os dentes, tĂŁo surpreso quanto Simon.
â Depois de tudo isso, que tipo de “ordens” nosso prĂncipe herdeiro trĂȘmulo tem?
â Cuide com suas palavras! â Dinn falou, deixando a agitação transparecer em seu rosto.
â Foi decisĂŁo do prĂncipe investir com sua prĂłpria guarda pessoal.
Oubary encarou o garoto. Ele estava ladeado por homens de aparĂȘncia rude Ă sua esquerda e direita. Mas mesmo agora, achava que isso devia ser algum tipo de piada.
Foi entĂŁo que Dinn transmitiu a mensagem do prĂncipe para os presentes na ponte. Os soldados abaixo deveriam se organizar em tal formação para enfrentar as forças de Ryucown, pois nĂŁo demoraria para que o grosso do exĂ©rcito garberano entrasse no combate…
â Ele disse: âUm esquadrĂŁo de cavalaria e infantaria se juntarĂĄ Ă guarda imperial atĂ© que haja reforços de Garbera, para atacar os traidores de ambos os lados. A força principal se concentrarĂĄ na aeronave de comando Dhum para bombardear as forças de ataque vindas do forte.â
O interior da nave ficou em um silĂȘncio tenso quando perceberam que nĂŁo estavam fugindo da batalha.
Bem â pensou Simon, acariciando o queixo â O “atual” prĂncipe Ă© o mesmo prĂncipe que eu conheci?
â Idiotice â Oubary rosnou baixinho. â NĂŁo vamos apenas sofrer perdas se reposicionarmos nossas tropas no meio da batalha?
â NĂŁo, o nĂșmero de inimigos nĂŁo Ă© tĂŁo grande.
â General Rogue!
O velho general Rogue Saian apareceu na ponte, ofegante. Seu capacete e armadura estavam encharcados de sangue inimigo, que subia como vapor. No entanto, o sorriso em seu rosto tinha uma intensidade arrepiante.
â Graças Ă s açÔes da guarda imperial, recuperamos a moral de nossas tropas. Num momento como este, senhor Oubary, deve-se fazer um apelo.
Mas seu olhar dizia:
NĂŁo foi vocĂȘ mesmo que disse para atacar o inimigo hĂĄ pouco?
Como isso foi insinuado a Oubary, nĂŁo havia muito que ele pudesse responder.
â Exatamente â Dinn interveio desta vez. â O prĂncipe tambĂ©m estĂĄ incentivando todos do alto da ponte… NĂŁo conseguem ouvi-lo?
De fato, no convés superior, erguendo a bandeira nacional em um mastro, um homem levantava a voz para os muitos soldados ao seu redor.
Com o rosto totalmente coberto por um capacete, vestindo uma armadura prateada, o “prĂncipe” repreendia os soldados que continuavam a fugir do caos, incentivando-os a retornar Ă s suas fileiras.
â Por favor, prĂncipe.
Embora o “prĂncipe” levantasse a voz, ele tremia sob toda aquela armadura. Seu fĂsico e altura eram os mesmos de Orba, ou melhor, de Gil, considerando as pessoas ali, mas na verdade era o gladiador Kain.
â Eu tenho um vocabulĂĄrio pobre. NĂŁo posso simplesmente repetir o que me foi dito… entĂŁo VĂO… LUTEM! VOCĂS SĂO SOLDADOS QUE CARREGAM O ORGULHO DE MEPHIUS. ENTENDERAM? ACABEM COM ISSO AGORA!
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Ryucown e Vileena ainda estavam frente a frente, com as luzes das chamas refletindo atrĂĄs deles.
â O que quer dizer com “confiar minha vida”?
â Quero que vocĂȘ se torne minha esposa.
A proposta de Ryucown foi direta ao ponto, e Vileena sentiu como se sua respiração parasse por um momento. Ela apertou novamente suas mãos pequenas e imediatamente recuperou a força de sua determinação.
â E o que vocĂȘ planeja depois disso?
â Vou declarar que um novo rei ascendeu ao trono de Garbera.
Ele puxou a espada que estava pendurada em suas costas e fez seu anĂșncio como se tivesse acabado de pensar nisso.
â O que vocĂȘ acha que pode alcançar com apenas um forte?
â Se derrotarmos o exĂ©rcito de Mephius hoje, muitos oficiais e soldados virĂŁo para mim. Revoltas surgirĂŁo por toda Garbera, acelerando os preparativos para meus planos.
â E tudo isso acabarĂĄ ajudando Ende. Se vocĂȘ conseguir isso, mais cedo ou mais tarde toda Garbera serĂĄ subjugada por Ende.
â NĂŁo sou tĂŁo tolo assim. Ende voltou sua atenção para Mephius. Tudo o que querem Ă© obter uma posição no oeste. Melhor ainda se Garbera estiver em desordem, para que nĂŁo precisem se preocupar com ela. Ă por isso que nĂŁo se manifestaram abertamente nem enviaram homens. Eu tambĂ©m nĂŁo faria. Mesmo que nĂŁo tenhamos sucesso aqui, estaremos atendendo ao plano deles de aumentar as hostilidades com Mephius novamente. Embora seja difĂcil confiar verdadeiramente em uma aliança tĂŁo relutante, Ă© muito melhor do que a humilhação de unir forças com Mephius.
â AMBOS FAZEM POUCA DIFERENĂA! â Vileena confessou em voz alta, com toda a força que estivera contendo. â Faz pouca diferença para nossos cidadĂŁos. Quantos milhares de pessoas se tornarĂŁo vĂtimas de seus planos egoĂstas e orgulho fĂștil?
Vileena nem percebeu que essas eram as mesmas palavras que o prĂncipe Gil usara contra ela antes. Ryucown, por outro lado, nĂŁo deu trĂ©gua.
â Sua famĂlia real nĂŁo foi erguida sobre uma pilha de cadĂĄveres? Vamos acabar com esse argumento infantil. Tendo o verdadeiro orgulho de Garbera, agi apenas porque quero fazer uma nação de verdadeiros cavaleiros! Olhe para o mundo, princesa! Este Ă© um conflito que acabarĂĄ com um governo de traição, opressĂŁo e duplicidade! SĂŁo apenas os cavaleiros de espĂrito puro que podem verdadeiramente salvar este mundo!
â ……
â A cavalaria Ă© uma coisa maravilhosa! Os eleitos sĂŁo impelidos a uma autodisciplina em seu dever, sempre desejando ter um espĂrito puro. Esses sĂŁo o tipo certo de pessoas para conduzir nossa polĂtica. Ă bom que os camponeses dependam de alguĂ©m chamado rei ou imperador em tempos difĂceis, mas o paĂs sĂł estĂĄ envolvido em uma guerra sangrenta devido Ă simples ganĂąncia. Como estĂĄ, Garbera, o paĂs dos cavaleiros, perdeu seu ideal de orgulho. EntĂŁo, primeiro terei que mudar Garbera, nĂŁo, devo devolvĂȘ-la Ă s suas raĂzes! Garbera, como um verdadeiro paĂs de cavaleiros!
â Aplaudo seu patriotismo. Mas se Ă© assim, para que vocĂȘ precisa de um corpo comprometido com a famĂlia real mephiana?
â O que quer dizer?
â O que quero dizer Ă© que este corpo jĂĄ trocou seus votos matrimoniais…
Era uma mentira, e obviamente Vileena nĂŁo podia deixar de sentir repulsa por dentro. No entanto, ela nĂŁo hesitou nem um pouco. Ela queria esmagar completamente esse Ryucown, que parecia estar completamente possuĂdo por algo.
â VocĂȘ mente, Vossa Alteza… VocĂȘ conhecer as sutilezas de um homem e uma mulher? Tal ato nĂŁo Ă© possĂvel.
â VocĂȘ sĂł diz isso porque nĂŁo quer aceitar. Agora, se eu perdi essa pureza de que tanto fala, e se jĂĄ fui possuĂda por essa “existĂȘncia imunda” de um mephiano, vocĂȘ deveria me apunhalar com essa espada agora mesmo. NĂŁo Ă© esse o seu ideal?
Vileena falou em lågrimas, apertando a ponta da espada com os dedos e pressionando-a contra seu pescoço.
Ryucown abriu os olhos amplamente. Mais ao longe, o som da artilharia rugiu novamente como um trovĂŁo. O guerreiro garberano segurando a espada e a princesa aclamada como a flor de Garbera se encararam.
â VocĂȘ ficou tĂŁo satisfeita com Mephius?
â Se simplesmente os rotularmos como bĂĄrbaros, sĂł podemos ser acusados de ignorĂąncia. AlĂ©m disso, o paĂs nĂŁo tem nenhum laço de sangue. Ă como vocĂȘ disse. A famĂlia real nĂŁo Ă© uma pedra fundamental, o senso de orgulho de seus vassalos e seu povo Ă© o mesmo. â vocĂȘ pode encontrar a mesma luz naquela nação. Quem, afinal, seguirĂĄ um homem que pode decidir sozinho o que Ă© esse orgulho?
â VocĂȘ abandonou seu orgulho e seu paĂs, princesa â Ryucown decidiu. â Ou talvez possamos concluir que a jovem princesa Vileena cresceu. A senhorita tem o espĂrito de um soldado. No entanto… por causa disso, serĂĄ um obstĂĄculo para nossa causa. Se sua alteza viver e nĂŁo puder reconhecer nossos pontos de vista…
Ele subitamente puxou sua espada para trĂĄs. No entanto, parecia bastante imponente ao colocĂĄ-la sobre o ombro.
â … Eu pelo menos quero que proteja o orgulho da famĂlia real garberana morrendo.
â O quĂȘ?
â Infelizmente, em retaliação pela traição de Garbera Ă sua aliança, nossa princesa Vileena foi morta pelas mĂŁos do prĂncipe de Mephius.
â Se isso acontecer â Vileena falou, com a voz rouca. â Garbera nĂŁo se unirĂĄ sob uma Ășnica causa?
â A situação sĂł pode melhorar daqui para frente.
Vileena desviou os olhos da ponta da espada. Lå ela viu os olhos de Ryucown, tão calmos como sempre. O que era tão diferente nele do jovem que se infiltrara em um castelo com apenas alguns homens cinco anos atrås? Era o mesmo naquela época? Esta era a ação de um homem que sinceramente acreditava nos ideais ardentes que tinha quando jovem e não deixaria que esses ideais envelhecessem.
â Adeus, princesa. A primeira condecoração que recebi em minha vida foi seu beijo infantil.
Sua espada desenhou um arco cintilante. A princesa sĂł piscou uma vez durante aquele tempo. Uma lĂĄgrima caiu no instante em que ela baixou as pĂĄlpebras, refletindo a espada que se aproximava.
Vileena estava chorando. Ela estava frustrada com sua prĂłpria impotĂȘncia, embora realmente acreditasse que poderia entrar em um acordo com ele se se encontrassem cara a cara. Este ato de violĂȘncia causado pela “pureza” de Ryucown a desanimou. Pela primeira vez desde que nasceu, Vileena sentiu desespero, e estava destinada a ter sua vida terminada imediatamente depois.
Então, o brilho da espada foi direcionado para o pescoço esbelto de Vileena.
Cling!
Um tilintar requintado interrompeu o arco da espada pouco antes de alcançå-la. Era uma adaga que foi subitamente lançada, e Ryucown mudara a trajetória de sua espada para interceptå-la.
â QUEM Ă VOCĂ!?
Ele voltou seu olhar para a entrada, de onde um espadachim surgiu entre os pilares. Embora estivesse vestido com uma armadura garberana, Ryucown nĂŁo reconheceu aquele rosto. Ou melhor, nĂŁo conseguia discernir o rosto do homem.
O espadachim que avançou, carregando uma espada em sua mão direita, tinha o rosto coberto por uma måscara de ferro.
Tradução feita por fãs.
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