Rakuin no Monshou – CapĂtulo 4 – Volume 1
Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded
Light Novel Online – CapĂtulo 04:
[No Vale Seirin]
No que dizia respeito a Simon Rodloom, Fedom, o Senhor de Birac, não demonstrava nenhum sinal de mudança de ideia.
Apesar do conselho ter se tornado uma existĂȘncia meramente nominal devido ao fortalecimento da autoridade da casa imperial, Simon ainda era um aristocrata influente. Ele acompanhava os movimentos dos outros nobres atĂ© certo ponto, seus princĂpios e reivindicaçÔes, e tambĂ©m pretendia compreender sua situação.
De acordo com as observaçÔes de Simon, Fedom era claramente um membro da facção anti-imperial.
Ele havia persuadido o imperador, que na verdade desejava continuar a guerra com Garbera, e como lĂder do grupo que promovia as negociaçÔes de paz, tinha conquistado apoio para si mesmo na Corte Imperial. Embora suas habilidades como lĂder, assim como sua sabedoria, fossem um tanto limitadas, ele era muito melhor em comparação ao outro grupo de nobres corruptos.
No entanto, Fedom estava definitivamente agindo de maneira estranha. Desde a festa da noite anterior â nĂŁo, desde que partiram para o Vale de Seirin â ele estava, por algum motivo, grudado no prĂncipe Gil, como uma babĂĄ intrometida.
SerĂĄ que seu repentino interesse em educar o prĂncipe foi apenas para transformĂĄ-lo em um fantoche a seu serviço? â Essa ideia passou pela mente de Simon, mas nĂŁo seria um pouco tarde demais para tomar tal atitude agora?
A propĂłsito, tambĂ©m estava relacionado ao prĂłprio prĂncipe. AtĂ© onde ele sabia, o prĂncipe Gil e Fedom mal haviam trocado palavras. Quando o prĂncipe andava com seus jovens camaradas, Simon sempre o ouvira chamar o homem de “aquele porco manipulador” pelas costas.
Como ele parecia aceitar tĂŁo prontamente os conselhos de Fedom â ou, pior ainda â parecia depender dele?
AlĂ©m de confirmar isso em um encontro privado com o prĂncipe, Simon ainda tinha muito trabalho a fazer. Uma delegação do Principado de Ende tambĂ©m havia chegado Ă s pressas para os parabĂ©ns, embora fosse incomum que tivessem decidido vir apenas uma semana antes. No inĂcio, tambĂ©m houve conversas sobre Ende e Garbera formarem um laço atravĂ©s do noivado de parceiros reais, mas provavelmente nĂŁo passava das muitas possibilidades que Ende e Garbera tinham em mente. Simon estava pressionado a recebĂȘ-los.
Mas em outro lugar,
â Aquele bastardo ingrato do Orba!
Era Tarkas, bufando rudemente e andando de um lado para outro no quarto.
Quando pensou na visita repentina do nobre Mephiano Fedom, mesmo que tĂŁo abrupta, ele se perguntou por que o homem havia comprado Orba sem pedir consentimento.
â Quem o criou fui eu! Merda, ele estava prestes a ganhar seu salĂĄrio como espadachim, quando, de todas as coisas, teve que ser levado por algum nobre…!
â NĂłs tambĂ©m nĂŁo entendemos, embora.
Ele havia convocado Shique, Gowen e Gilliam, seus principais espadachins, em uma sala privada nos penhascos, reservada para o uso de Tarkas. Eles estavam lå porque teve de mudar os pares da competição devido à partida repentina de Orba.
â EntĂŁo, por que decidiram tirar o Orba tĂŁo de repente? Embora aquele garoto seja um bom espadachim, ele seria ponta de lança dos jogos em celebração ao casamento. Se ele simplesmente quisesse comprar Orba por suas habilidades, acho que deveria tĂȘ-lo feito participar das lutas.
â Eu tambĂ©m gostaria de saber! Aquele filho da puta! â disse Tarkas. â Mesmo que tenha sido comprado por um nobre, poderia pelo menos ter se oferecido para a Ășltima batalha como um favor. Desgraçado ingrato!
â Talvez fosse porque terĂamos que nos matar em combate. Vou celebrar sua nova vida, mas nĂŁo consigo me acostumar com esse sentimento, e me incomoda que ele tenha partido sem dizer uma palavra.
â Oh, Gilliam. AtĂ© um homem como vocĂȘ fica solitĂĄrio quando um conhecido vai embora?
â Cale a boca, Shique! Eu sĂł me arrependo de nĂŁo ter acertado as contas com aquele cara!
â Bem, nĂŁo hĂĄ nada que possamos fazer agora que ele nĂŁo estĂĄ aqui. Vamos pensar em alguns confrontos emocionantes â disse Gowen, tentando acalmar todos.
Naturalmente, ele também se sentia um pouco estranho ultimamente.
Ele não tinha tempo para descobrir o que havia acontecido. Tinha que verificar a condição dos novatos que Tarkas comprou e, como isso era diferente do procedimento usual, também precisava revisar cada espadachim.
No entanto, algo pesava levemente na cabeça de Gowen era se Orba, que ansiava por um futuro mesmo quando seu corpo e mente eram castigados, estava agora vivendo aquele mesmo futuro.
Enquanto as pessoas se movimentavam freneticamente ao seu redor,
O ex-gladiador Orba parecia ter tempo de sobra, sendo praticamente deixado sozinho. Ser designado como dublĂȘ estava bom, mas ele nĂŁo podia falar a menos que Fedom sussurrasse as palavras para ele, como um ventrĂloquo.
Ă estranho…
Aqueles nobres haviam arrancado seu irmĂŁo para ser soldado. NĂŁo apenas abandonaram sua vila, mas, de todas as coisas, a nobreza brandiu suas lĂąminas para contra os prĂłprios cidadĂŁos, levaram Alice embora, fizeram com que ele caĂsse na escravidĂŁo e o obrigaram a usar aquela mĂĄscara.
Talvez por um capricho do destino, mas um daqueles nobres Mephianos arrancou Orba de sua vida de escravidĂŁo e ordenou que ele se tornasse o substituto para uma das figuras mais importantes da famĂlia imperial.
Roubo, extorsĂŁo e trĂĄfico ilegal de armas â tendo vivido bebendo ĂĄgua dos esgotos, ele nĂŁo podia deixar de pensar que era um motivo de riso para o prĂncipe herdeiro. Embora o fato de ainda nĂŁo saber o que o dia seguinte lhe reservava fosse semelhante a ser um escravo.
No entanto â estando do outro lado daquelas ruas escuras â talvez agora ele pudesse esperar encontrar um ponto, sim, apenas um ponto de luz. Como dublĂȘ do prĂncipe, ele teria a oportunidade de entrar em contato com figuras importantes, alĂ©m de Fedom, Ă© claro. NĂŁo seria estranho encontrar entre eles aquele que queimou sua vila â o general Oubary.
Embora Orba tivesse levado uma pancada na cabeça naquela Ă©poca e sĂł o tivesse visto por um breve momento e com a vista embaçada, durante aqueles dois anos como gladiador, ele nĂŁo esquecera seu rosto por um Ășnico dia. AtĂ© agora, ele voltava vividamente Ă sua mente.
â Gil-sama.
Se nos encontrarmos novamente…
O que eu deveria fazer entĂŁo?
O jovem espadachim, que teve sua mĂĄscara removida, continuou afundado em pensamentos incessantes. Ele pensaria em uma maneira de dar ao cara a morte mais miserĂĄvel e concebĂvel neste mundo. AlĂ©m disso, se conseguisse encontrar Oubary, poderia traçar as linhas de volta ao tempo em que foi separado de Alice e de sua mĂŁe. AlĂ©m disso, embora ele mesmo nĂŁo esperasse muito disso â pois nĂŁo podia desejar o inimaginĂĄvel repetidamente e virtualmente esperar por um milagre â se encontrasse outras pessoas recrutadas como soldados por Oubary, elas poderiam saber algo sobre o paradeiro de seu irmĂŁo Roan.
â Gil-sama, prĂncipe. PrĂncipe Gil!
â Eh?
Sendo chamado em um tom tĂŁo firme, Orba olhou para o lado.
A princesa Vileena estava sentada a uma distĂąncia nĂŁo muito longe dele. Ela estava em frente ao altar, no lugar onde o vale era mais profundo, olhando para a ĂĄrea. Apenas Vileena e Orba estavam sentados em cadeiras, com um grupo robusto de soldados ao redor, enquanto na frente do altar, sacerdotes entoavam hinos de oração e bĂȘnção.
â No que vocĂȘ estĂĄ pensando?
â Em nada â respondeu Orba secamente.
NĂŁo era possĂvel para Fedom estar por perto durante a cerimĂŽnia, entĂŁo ele lhe dissera para “nĂŁo dizer nada” por enquanto. Virando o rosto para frente, ele fingiu estar concentrado na cerimĂŽnia.
â Isso Ă© mentira â decidiu Vileena, tambĂ©m em um tom seco.
O quĂȘ…? Mentira?
O timing foi tão perfeito que Orba não pÎde ignorar, e ele novamente lançou um olhar para a princesa do Reino de Garbera.
Ela estava novamente trajando um vestido, mas diferente do da festa de ontem, e usava uma tiara informal na cabeça. De tão perto, era surpreendente. Embora parecesse apenas uma garotinha na primeira vez que se encontraram cara a cara, quando ela virava o rosto com uma expressão séria de vez em quando, parecia realmente madura.
Ele se perguntou se era por causa de seus traços bem definidos, embora Orba achasse que seu rosto parecia muito com o de uma boneca. No momento, exceto por serem de nascimentos diferentes, ela parecia quase igual a Orba. Apenas se movendo quando mandada, e apenas falando quando alguém dizia.
De fato, quando ele pensava nisso, era disso que se tratava este casamento. Embora ela tivesse apenas catorze anos, em contraste com seus verdadeiros desejos, ela tinha que se tornar a esposa de um homem que conhecera apenas no dia anterior, e ainda por cima de um paĂs que antes era inimigo. Embora ele nĂŁo conseguisse sentir simpatia por alguĂ©m como ela, que nascera em uma famĂlia real, ela parecia ter suas prĂłprias dificuldades tambĂ©m.
EntĂŁo, Ă© a mesma coisa para todo mundo.
De repente, aquela voz lhe veio Ă memĂłria.
Ninguém sabe que tipo de pessoa ele serå. Todos anseiam por um mundo que não conhecem e buscam um sentido para a vida pela qual nasceram, mesmo que seja um sacerdote ou um membro da realeza.
Era exatamente como Roan dissera, pensou Orba profundamente em seu Ăntimo.
â VocĂȘ estĂĄ realmente perdido em pensamentos.
Quando ela novamente lhe dirigiu a palavra sem motivo aparente, Orba respondeu com rudeza:
â E daĂ?
Vileena soltou uma risadinha.
â Por um bom tempo, achei que vocĂȘ tinha um olhar assustador Ă s vezes, mas agora parece sorrir, pensando em algo agradĂĄvel. Por favor, diga-me, vocĂȘ que estĂĄ prestes a se tornar meu marido. O que o incomoda em um dia tĂŁo belo, e o que estaria em suas lembranças que nĂŁo consegue evitar?
A cerimĂŽnia prosseguiu. Haviam grelhado um dragĂŁo recĂ©m-abatido naquela manhĂŁ, e enquanto espalhavam os ossos pela base do vale, os sacerdotes entoavam suas preces. Invocavam as almas dos dragĂ”es que outrora governaram este planeta para proteger a prosperidade do paĂs.
â SerĂĄ que os Ryuujin, se voltarem, podem nĂŁo necessariamente abençoar este lugar?
Quando a humanidade chegou a este planeta, os dragĂ”es apenas vagavam pelos campos e pensavam em nada alĂ©m de encher seus estĂŽmagos â em suma, haviam se degenerado ao nĂvel de bestas.
No entanto, escavaçÔes revelaram ruĂnas de cidades enormes e artefatos de propĂłsito desconhecido em vĂĄrios lugares do planeta, alĂ©m de traços de uma civilização mĂĄgica que possivelmente utilizava alguma forma de Ether*. A humanidade sĂł conseguiu dominar sua primeira “magia”, Zodias, algum tempo depois, e essa bĂȘnção da sabedoria supostamente fora obtida das ruĂnas dracĂŽnicas. Acreditava-se que os dragĂ”es antigos formavam o corpo inteligente que governara este planeta, provavelmente milhares de anos antes da chegada da humanidade.
Rudy: O Ether, segundo AristĂłteles, era um quinto elemento (Fogo, Vento, Terra e Ăgua) puro e incorruptĂvel que preenchia o espaço celeste. Este estava presente tambĂ©m no ar e era a origem de todas as coisas no universo. Outros povos o chamavam de ManĂĄ, ou Mana, Ki, Chakra, Ă© a essĂȘncia da magia.
O costume de chamar esses dragĂ”es ancestrais de “Deuses DragĂ”es” ou “Ryuujin” (Povo DragĂŁo) era particularmente Mephiano, e houve um tempo em que constituĂa a fĂ© religiosa de todo o paĂs. Embora agora fosse uma mera sombra do que fora, para rituais importantes como este, o sacerdote que presidia a cerimĂŽnia era escolhido entre as tribos nĂŽmades que viviam perto da fronteira de Mephius, onde as raĂzes da FĂ© Ryuujin se encontravam.
â Como eu disse, nĂŁo Ă© nada.
Novamente, Orba encerrou o assunto abruptamente.
Ele recebera uma breve explicação do pajem Dinn sobre a história da Fé Ryuujin, mas naturalmente não se importava muito com isso. Assim, não conseguia dizer se Vileena estava brincando ou não.
Se as relaçÔes entre o prĂncipe de verdade e essa garota ficarem ruins depois disso, nĂŁo serei eu quem vai assumir a responsabilidade, Fedom-sama.
Por outro lado, Vileena finalmente suspirou, perdendo-se em seus prĂłprios pensamentos. Para Garbera, a ideia de dragĂ”es possuĂrem uma civilização igual ou superior Ă humana no passado nĂŁo passava de uma lenda sobre “deuses dragĂ”es”. Portanto, ela nĂŁo conseguia enxergar essa cerimĂŽnia como algo sagrado. E embora estivesse completamente entediada, quando olhou para a pessoa ao seu lado â o prĂncipe Gil, que se tornaria seu marido quando a cerimĂŽnia terminasse â nĂŁo pĂŽde evitar se distrair. EntĂŁo, para aliviar um pouco o tĂ©dio, decidiu provocĂĄ-lo levemente. Mas, talvez revelando seu “verdadeiro carĂĄter”, embora ela se esforçasse para parecer uma dama, o prĂncipe era genuinamente rude. NĂŁo sĂł isso, seu modo breve de falar a irritava profundamente.
SerĂĄ que Ă© vergonha?, ela se perguntou. Durante o banquete da noite passada, nĂŁo percebera nenhum comportamento ressentido dele em relação a mulheres. Mas quando pensou que ele poderia ser um pouco como Ryucown, Vileena sentiu-se ofendida consigo mesma. NĂŁo havia como o mais bravo general de Garbera se parecer com alguĂ©m que era chamado de “imbecil” aqui em Mephius.
De qualquer forma, isso Ă© a mesmo que na guerra. Para enganar o inimigo, preciso manter o ritmo neste lugar.
Vileena manteve o sorriso, fingindo nĂŁo estar ofendida. Seria Ăłtimo se o prĂncipe se apaixonasse loucamente por ela. No entanto, nĂŁo sabia se isso funcionaria caso ele jĂĄ estivesse envolvido com outra moça. De qualquer forma, bastaria continuar sorrindo.
Meu avÎ também disse que amava meu sorriso acima de tudo. Então, nesse caso, não devo errar.
As preces tediosas dos sacerdotes logo terminariam, e então as batalhas dos espadachins-escravos finalmente começariam.
Diziam que fazia parte da cerimĂŽnia que, quando os ossos dos dragĂ”es se transformassem em cinzas e fossem derramados no chĂŁo, o sangue dos homens seria oferecido. No entanto, o que faziam mal se diferenciava das batalhas de gladiadores comuns. A Ășnica diferença era que as palavras introdutĂłrias eram um pouco mais formais que o habitual. A arena, um terreno nivelado no fundo do vale com apenas algumas estacas cravadas no chĂŁo, era ainda mais simples que o normal.
LĂĄ, os gladiadores estavam alinhados nos lados leste e oeste. Orba reconheceu Tarkas, Gowen e muitos outros rostos conhecidos, e um sorriso incomumente jovial surgiu em seu rosto.
Duvido que esses caras imaginem que estou bem aqui.
Embora Tarkas provavelmente estivesse furioso por ele ter partido tão subitamente, justamente por ter sido tão råpido, não lhe ocorreria que ele estaria observando de uma posição tão elevada.
Vileena, por outro lado, apesar de ter sido informada anteriormente, observava com pensamentos sombrios sobre os escravos que em breve se matariam. NĂŁo havia escravidĂŁo em Garbera, o principal motivo pelo qual falavam mal de Mephius como um paĂs de bĂĄrbaros.
Insatisfeitos com a guerra, fizeram questão de humilhar escravos e forçå-los a se matarem como espetåculo?
Quando a adivinhação terminou, o primeiro grupo avançou. Os movimentos dos gladiadores eram um pouco desajeitados, mas talvez fosse devido ao ambiente desconhecido â pelo menos atĂ© o final do primeiro round, quando o perdedor se tornou um cadĂĄver estirado no chĂŁo.
Em Garbera e Ende, com restriçÔes às companhias de escravos no entretenimento, não havia oportunidade de ver uma luta de gladiadores. Assim, embora os enviados inicialmente tivessem preconceitos e parecessem indignados com o som do choque das espadas, logo se viram curvados sobre as arquibancadas, punhos cerrados, torcendo junto com o povo Mephiano e aplaudindo.
Vileena logo enjoou. Então, pensando em Sua Alteza, espiou novamente para o lado. Quando viu um enorme sorriso estampado em seu rosto, sentiu renovada decepção. Por mais que olhasse, era óbvio que ele se deleitava vendo-os se matarem, do fundo do coração. Ela imaginara que ele gostaria, mas não nessa medida.
De repente, nĂŁo conseguiu mais conter seus sentimentos. O desdĂ©m que sentia por seu parceiro transformou-se em repulsa. Tudo aconteceu tĂŁo rĂĄpido que ela mesma ficou perplexa. Lembrou-se de como, atĂ© entĂŁo, precisara reprimir constantemente suas emoçÔes. Mesmo sendo a princesa de um paĂs que dissera colocar sua nação Ă frente de si mesma, ela tinha apenas catorze anos.
NĂŁo posso, nĂŁo posso!
Vileena cerrou os punhos com força no colo.
Isso tambĂ©m Ă© uma batalha. Isso tambĂ©m Ă© uma provação, Vileena. Meu corpo foi empurrado para frente. NĂŁo posso deixar meu espĂrito fraquejar assim.
Shique avançou na arena. Os aplausos se concentraram naquele gladiador singular, com o rosto pintado de branco de forma decadente. PorĂ©m, ao olhar para seu oponente… Orba arqueou as sobrancelhas.
Ă o…
Por algum motivo, era um dos novatos que Tarkas contratara em seu bom humor. Considerando as habilidades de Shique, era Ăłbvio que o oponente nĂŁo estava Ă altura. Mesmo que conseguisse animar a luta, Tarkas fizera um mau negĂłcio. Isso acabaria em um instante.
Shique empunhou suas espadas gĂȘmeas caracterĂsticas â ambas de lĂąmina Ășnica e comprimento mĂ©dio. O novato posicionou-se nervosamente do outro lado. Tudo acabaria num piscar de olhos, ou assim Orba pensou naquele momento.
Mas enquanto pensava nisso, ouviu um estrondo ensurdecedor pelo chão, que tremeu violentamente sob seus pés. Naquele lapso de tempo, uma nuvem densa de poeira ergueu-se do outro lado da arena.
Os soldados que olharam para a poeira, em direção ao que quer que fosse, foram os primeiros a cair. Embora estivessem armados com lanças e rifles ao redor da arena, não esperavam por algo tão repentino e foram esmagados sob as patas de um dragão. Assim que manchas de sangue pintaram o chão de vermelho vivo, um dragão escamoso, coberto de muco em algumas partes, emergiu da nuvem de poeira. A massa enorme avançava.
Era um dragĂŁo do tipo grande, Sozos. Correntes deveriam estar amarradas a suas patas, e naturalmente ele deveria estar trancado em uma gaiola, mas o dragĂŁo se libertara e mais deles apareceram de uma sĂł vez.
â O-O QUĂEEEE!?
Um soldado, atordoado com a morte de seus colegas, disparou seu rifle. No momento em que abaixou a arma, uma garra afiada, trĂȘs vezes mais alta que ele, abateu-se sobre seu corpo, transformando-o imediatamente em uma massa de carne ensanguentada. EntĂŁo os outros soldados prĂłximos gritaram como mulheres, largaram suas armas e saĂram correndo. Seus gritos e berros logo se misturaram ao estrondo do chĂŁo.
â O-O quĂȘ? O que estĂĄ acontecendo?
â Por que os dragĂ”es estĂŁo enfurecidos?
Uma multidĂŁo começou a vociferar sob as tendas. Os dragĂ”es que seriam usados pelos gladiadores quebraram suas gaiolas e estavam em fĂșria. Alguns pegaram espadas e rifles e correram para os guardas, outros fugiram o mais rĂĄpido possĂvel, e alguns gritavam ordens para seus subordinados â tudo em meio ao caos.
Orba levantou-se de sua cadeira. Por um momento, nĂŁo conseguiu ver Shique sob a nuvem de poeira. EntĂŁo um dos gladiadores â o prĂłximo a lutar â foi chutado violentamente por um Baian. E outro, alguĂ©m do Grupo Tarkas que tentou atacar impetuosamente suas barrigas, foi esmagado por um Sozos.
Então, avistou uma pequena silhueta entre os dragÔes. Era Hou Ran. Ela provavelmente corria em lågrimas, tentando impedir os dragÔes. Vårias vezes quase foi atingida por suas patas.
DĂȘ-me um rifle!
Orba quase gritou essas palavras, prestes a arrancar um rifle de um dos guardas. No entanto, interrompeu-se ao sentir uma dor aguda em sua testa.
â Ah!
Guiado pelo instinto e não pela razão, Orba rapidamente escondeu-se sob a mesa. Algo voava alto no céu, em grande velocidade. Alguém com intenção de matar. Quando tomou forma, teve a sensação de que mirava no chão.
Um sniper!
Misturado ao som das patas dos dragĂ”es, aos gritos das pessoas e Ă s vozes iradas, vinha nitidamente o disparo de um rifle que lhe vibrou os tĂmpanos.
Num piscar de olhos, a arena abaixo foi coberta por uma nuvem de poeira. Ao ver o tumulto Ă sua frente, que mais parecia um campo de batalha, Vileena pulou do assento.
Conseguindo avistar os dragĂ”es em fĂșria e as vĂĄrias vĂtimas que caĂam sob seus ataques, seus olhos buscaram reflexivamente uma aeronave. Se conseguisse intervir pelos ares, talvez pudesse atrair a atenção dos dragĂ”es. Certamente haveria algum modelo antigo de nave de reconhecimento entre as embarcaçÔes da força de defesa Mephiana.
â Ei, vocĂȘ, nĂŁo se aproxime mais!
â Que grosseria! De toda a gente presente, quem diabosâ uaaah!
Um distĂșrbio irrompeu entre os guardas que antes formavam uma linha organizada. E nĂŁo era por causa dos dragĂ”es. Um homem corria em direção a eles, e embora dois soldados tentassem detĂȘ-lo, foram abatidos em instantes.
Quem seriaâ!?
A palavra travou em sua garganta, engasgada num nó de saliva. Ao avistar a espada ensanguentada, reconheceu o homem que deveria estar lutando na arena. A princesa de Garbera mal esquivou de um golpe lateral, mas tropeçou na barra do vestido comprido e caiu.
Os outros guardas, distraĂdos pelos dragĂ”es, moviam-se desordenadamente. Vileena rolou ĂĄgil no chĂŁo e arrancou a arma da cintura de um soldado caĂdo. FaĂscas saltaram diante dela â a lĂąmina de aço cravara-se no solo, mas em seguida foi erguida novamente.
Seu campo de visĂŁo fixou-se na ponta da espada, como se tivesse mergulhado na sombra da morte. EntĂŁo, de repente, outra lĂąmina interceptou o golpe vindo de lado.
â Seu oponente sou eu.
A voz vinha de trĂĄs do homem â era o gladiador que lutara contra ele momentos antes. Seus lĂĄbios vermelhos curvaram-se num sorriso enigmĂĄtico.
â Assim que os dragĂ”es apareceram, vocĂȘ veio direto para cĂĄ. Quem Ă© vocĂȘ?
â Maldito!
O homem gritou com voz rouca e, sem soltar a empunhadura, girou o corpo e puxou uma adaga da cintura. Com um movimento råpido o bastante para cortar o vento, mirou o peito do gladiador. Porém, aquele gladiador, Shique, inclinou os ombros, desviou a adaga com a segunda espada e cravou a primeira no peito do adversårio.
Quando o homem caiu a seus pés com olhos arregalados de surpresa, Vileena suspirou aliviada.
Um assassino…
Era como se mĂŁos frias apertassem seu coração. EntĂŁo, ao perceber a situação, voltou-se para o lado do prĂncipe Gil. Ele se aglomerava com outras pessoas sob uma mesa, apenas o rosto visĂvel, observando silenciosamente o caos. Embora sua segurança fosse prioritĂĄria, nĂŁo pĂŽde evitar que a decepção crescesse. Enquanto sua noiva era atacada, ele tremia sozinho.
Foi entĂŁo que Vileena sobressaltou-se quando Gil olhara diretamente para ela. Mas nĂŁo havia traço de medo naqueles olhos, apenas…
â Princesa, venha aqui e deite-se â disse Gil ou melhor, Orba, Ă© claro.
Puxou meio Ă força o braço da princesa e, apĂłs deitĂĄ-la de bruços como ele, o prĂncipe chamou:
â Shique!
O gladiator congelou, genuinamente surpreso. Vendo aquela expressão, Orba sentiu vontade de brincar, apesar da situação.
â Sou seu fĂŁ â declarou, antes de assumir um tom sĂ©rio. â Os dragĂ”es sĂŁo sĂł distração. HĂĄ um atirador mirando em nĂłs. Descubra onde ele estĂĄ.
â Ha… hahah…
Ser abordado pessoalmente pelo prĂncipe deixou Shique perplexo, mas ele partiu em ação, ainda que olhando para trĂĄs a cada instante. Enquanto isso, Orba espreitava por baixo da mesa, expondo-se e recuando repetidamente, atĂ© que um disparo ecoou, alcançando tambĂ©m os ouvidos de Vileena.
Se usando como isca?
Ela compreendeu num relĂąmpago. Ele usara o prĂłprio corpo como chamariz para revelar a posição do atirador. Afinal, que tipo de prĂncipe era aquele?
Um Sozos emergiu do caos no vale, aproximando-se.
â Alteza! Princesa! Por aqui!
Dois homens irromperam entre os guardas. Finalmente, alguĂ©m em sĂŁ consciĂȘncia viera ajudĂĄ-los. Orba julgou ser hora de partir. Levantou-se e puxou a mĂŁo de Vileena, que o seguiu sem resistir.
Ele corria. Talvez esperasse algo assim ao assumir o papel de duplo, mas agora não havia tempo para reflexÔes. Embora preocupado com os gladiadores, a interrupção dos tiros sugeria que estavam a salvo.
De mĂŁos dadas, Orba e Vileena olharam para trĂĄs repetidas vezes enquanto adentravam uma caverna sob os penhascos, guiados pelos soldados.
â Entrem nesta passagem secreta! Ela leva ao outro lado!
Ao golpear um dos pilares com o punho, o soldado fez a parede de rocha girar, revelando uma abertura estreita.
â Depressa! â instaram a princesa.
No instante em que Vileena foi empurrada para dentro, a parede selou-se atrĂĄs dela.
â O quĂȘ?
Ela voltou-se para a escuridĂŁo, procurando inutilmente um interruptor. Do outro lado, vozes discutiam. Seria uma emboscada?
â Princesa Vileena!
A voz veio do fundo do tĂșnel. Dois soldados com armaduras nĂŁo-mephianas aproximaram-se, lampiĂ”es em mĂŁos.
â Venha conosco. Um navio vem buscĂĄ-la.
â Navio? O que querem dizer?
â Um navio para levĂĄ-la destas terras bĂĄrbaras, para um lugar digno de sua linhagem.
â VocĂȘs…
Enquanto um pressentimento a assaltava, um disparo ecoou atrĂĄs da parede grossa.
Foi no exato momento em que Vileena adentrou a passagem secreta.
â Ei, o que estĂĄ acontecendo!?
VĂĄrios soldados que pareciam guardar o interior do penhasco aproximaram-se. Um dos homens que guiara Orba golpeou novamente o pilar, deixando Vileena sozinha no tĂșnel.
â NĂłs tambĂ©m nĂŁo sabemos. Mas tudo estĂĄ indo conforme o plano.
Enquanto falava, o homem sacou uma arma das costas e disparou.
Quase no mesmo instante em que o guarda Ă frente desabou com um jorro de sangue, outro soldado investiu contra os flancos com a espada desembainhada. Sem tempo para reagir, um apĂłs outro foram abatidos.
Orba permaneceu com as costas contra a parede, observando aquele desenvolvimento abrupto. Não parecia uma discórdia interna. Considerando que Vileena estava sozinha na passagem secreta, era provåvel que aqueles soldados estivessem envolvidos com o ataque dos dragÔes e o atirador furtivo.
Discretamente, Orba pegou uma espada de um soldado caĂdo e a escondeu atrĂĄs das costas. A batalha diante dele terminara.
â PatĂ©ticos â cuspiu o soldado que disparara, voltando-se para Orba. â O que fazemos com o prĂncipe?
â Vamos usĂĄ-lo como refĂ©m. Venha cĂĄ, vocĂȘ!
O homem com a espada estendeu a mĂŁo, a mesma mĂŁo que, surpreendendo os guardas, matara seis homens em segundos. Sem capacete, seu rosto transbordava arrogĂąncia.
â Q-Quem… quem sĂŁo vocĂȘs?
Tremendo, Orba escorregou pela parede. Os dois sorriam, o sangue das vĂtimas salpicando seus rostos.
â Hmph, nĂŁo sabia que o prĂncipe da Grande Dinastia Imperial era tĂŁo patĂ©tico. Sem seus bajuladores, nĂŁo passa de um inĂștil.
â Um como vocĂȘ desposaria Vileena-sama? RidĂculo. Mancharia o sangue nobre de Garbera. Venha, PrĂncipe Imbecil de Mephius!
Orba gritou e fugiu do braço estendido.
â NĂŁo tenho tempo para brincadeiras. Venha jĂĄ!
Enquanto o soldado o perseguia rindo, Orba girou subitamente e desferiu um golpe com a espada oculta. Saltando sobre o homem caĂdo, atingiu o ombro do outro, que ainda segurava a arma.
â M-MALDITO!
Com a empunhadura da espada, golpeou o rosto do adversĂĄrio, que desmaiou ajoelhado.
Nesse momento, outros guardas mephianos surgiram do outro lado da caverna, atraĂdos pelo tumulto. Orba explicou rapidamente a situação, ordenou que capturassem os inimigos inconscientes e insistiu para abrirem a passagem secreta. O processo, porĂ©m, demorou devido Ă ausĂȘncia do soldado responsĂĄvel.
Odeio inimigos que se escondem e coletam informaçÔes…
O tempo era precioso. Sem entender totalmente sua prĂłpria impaciĂȘncia, Orba rosnou mentalmente.
VĂĄrios minutos apĂłs o desaparecimento de Vileena, a porta finalmente se abriu. O primeiro som que Orba ouviu foi o de homens arrastando uma mulher Ă força. Como previra, dois soldados tentavam levar Vileena pelo tĂșnel estreito.
â Soltem-me, insolentes!
A voz da princesa ecoou nas paredes da caverna. Os guardas mephianos avançaram à frente de Orba.
â Quem estĂĄ aĂ? Para onde levam a princesa?
â Selvagens estĂșpidos de Mephius! NĂŁo entendem!?
O soldado inimigo sacou uma pistola. O mephiano preparou-se para atacar, mas Orba interveio:
â Esperem! VocĂȘs podem atingir a princesa!
Nesse instante, algo inacreditĂĄvel aconteceu.
Libertando-se de um dos captores, Vileena saltou e ergueu o pé sob o vestido. Com um chute preciso, a arma caiu da mão do soldado. Orba, recuperando-se do choque, tomou uma decisão råpida.
â Agora! Sem armas de fogo! Investida!
Sob suas ordens, os soldados brandiram espadas e lanças.
Embora um dos inimigos tentou resistir, foi rapidamente dominado.
â RECUEM! RECUEM!
Os agressores fugiram, abandonando a princesa.
Os soldados mephianos os perseguiram, mas o tĂșnel era estreito demais. Um soldado de Garbera parou e disparou repetidamente, forçando-os a buscar proteção. Quando as balas acabaram, o homem pegou uma faca, cravou-a no prĂłprio pescoço e caiu morto.
Orba nĂŁo viu o desfecho. Aquele era um problema entre Mephius e Garbera â algo que nĂŁo lhe dizia respeito. Preocupado com seus companheiros, ele retornou pela caverna.
Ao chegar, o caos havia diminuĂdo. Os dragĂ”es jaziam com os longos pescoços no chĂŁo ou encostados nas encostas, vomitando sangue. Foram derrotados pelos espadachins-escravos, incluindo Gowen, e pela artilharia mephiana. Gilliam e Shique, especialmente ativos, tinham espadas encharcadas de sangue e respiração ofegante.
Porém, a tensão não desaparecera de seus rostos. Seus olhos ainda carregavam a sombra da morte. E não era sem motivo: as armas dos soldados agora apontavam para os gladiadores.
â O que significa isso, Tarkas!? â Fedom, com o rosto vermelho de raiva, esbravejou.
Os dragÔes que atacaram pertenciam ao grupo de Tarkas, e testemunhas viram gladiadores apontando espadas para Gil e Vileena. Embora Tarkas, pålido, jurasse não saber de nada, Fedom não lhe dava ouvidos. Se tivesse uma arma, provavelmente atiraria.
A maioria dos gladiadores foi desarmada e obrigada a cruzar os braços sobre a cabeça. Até os guardas, porém, pareciam confusos, afinal foram aqueles escravos que primeiro enfrentaram os dragÔes.
O ar ainda pesava com poeira, pĂłlvora e perplexidade.
â Esperem!
Orba interveio. Os soldados surpresos abriram caminho. Fedom olhou para ele e torceu os lĂĄbios.
â O quĂȘ? Quando vocĂȘ se mete assimâ!
â Com quem vocĂȘ estĂĄ falando? NĂŁo me reconhece, Fedom?
Fedom calou-se, irritado. Tarkas, vendo aquilo pela primeira vez, sorriu.
â Esse homem pode estar envolvido numa conspiração nacional. Talvez alguĂ©m o tenha usado, nĂŁo? Acredito que os responsĂĄveis que o contrataram tambĂ©m tĂȘm responsabilidade. Mas nĂŁo podemos apontar culpados. Se alguĂ©m executar um desses gladiadores sem provas, eu mesmo cortarei sua cabeça, com minha⊠nĂŁo, com a espada de Mephius!
â Concordo.
Orba virou-se, surpreso. Vileena aproximava-se. Ainda tremendo levemente, mantinha-se firme, algo impressionante, considerando o caos recente.
â Ah, princesa!
Sua criada Theresia correu para abraçå-la. Vileena sorriu fraco.
â Embora um gladiador tenha tentado matar-me, foi outro gladiador que me salvou. NĂŁo podemos concluir nada precipitadamente.
Seu vestido estava sujo, o rosto suado, os cabelos desalinhados, mas seus olhos brilhavam com clareza.
Logo apĂłs um ataque…
Em vez de entrar em pùnico, ela analisava friamente a situação. Orba, que antes a via como uma marionete, sentiu um respeito involuntårio. Aquela garota compartilhava de sua própria fibra.
â AlĂ©m disso â a princesa estrangeira baixou os olhos e cerrou os dentes â provavelmente eram subordinados do general Ryucown… de Garbera.
âââ
Naquela noite, Orba estava num quarto escavado nos penhascos â o mesmo que ocupara na vĂ©spera, adaptado para a famĂlia imperial.
Sem entender completamente a situação, julgaram perigoso retornar a uma cidade de Mephius sem reforços. Enquanto as tropas montavam defesas no vale, aguardavam reforços.
Vileena e a delegação de Ende também estavam confinadas. O ambiente tornara-se tenso.
Quando os soldados perseguiram os inimigos pelo tĂșnel, avistaram uma nave de pedra de dragĂŁo decolando do outro lado dos penhascos â um cruzador veloz, capaz de transportar dez pessoas. Provavelmente aguardava ali para raptar Vileena.
A princesa atribuĂra o ataque ao General Ryucown.
Ryucown â um famoso guerreiro de Garbera. AtĂ© Orba conhecia seu nome. Seria fĂĄcil culpar Garbera por aquele caos.
Mas…
Orba refletiu. Havia aspectos estranhos demais nessa teoria.
â Gil-sama? Gil-sama!
Ele demorou a reagir ao chamado. O pajem Dinn colocara garrafas de vinho e trĂȘs taças na mesa. Aqueles objetos diziam tudo.
â VocĂȘ ainda demora para perceber, nĂŁo?
â Nunca me chamaram assim antes â Orba encolheu os ombros. â E esse “sama” tambĂ©m soa falso. NĂŁo precisa exagerar quando estamos sozinhos.
â NĂŁo. Qualquer um pode estar espreitando. AlĂ©m disso, nĂŁo sou tĂŁo habilidoso. Se nĂŁo praticar chamĂĄ-lo de PrĂncipe Gil sempre, posso escorregar quando for crucial. VocĂȘ tambĂ©m. Se nĂŁo agir como um prĂncipe o tempo todo… pode se revelar no momento decisivo.
O garoto de doze ou treze anos falava com o orgulho de um nobre.
â “Me acostumar”, hein? â Orba olhou para a janela panorĂąmica.
As cortinas estavam fechadas, mas sabia que soldados vigiavam do lado de fora. A varanda, porém, era isolada o suficiente para evitar escutas.
Lembrou-se entĂŁo de Tarkas â o homem se curvara em gratidĂŁo apĂłs Orba intervir contra Fedom. Nunca esqueceria aquela expressĂŁo desesperada.
â Pelas taças, quem sĂŁo os convidados?
Antes que Dinn respondesse, um soldado anunciou a visita.
â Podem entrar.
Ladeados por guardas, dois homens adentraram â Gowen, o treinador de gladiadores, e Shique, o espadachim.
â Obrigado por terem vindo.
Orba foi o primeiro a falar, cumprimentando os dois homens que entraram na sala. Embora exibisse um sorriso principesco, por dentro divertia-se com o comportamento incomumente tĂmido deles. Gowen, normalmente destemido, gaguejou saudaçÔes quase inaudĂveis, enquanto Shique olhava em volta como se nĂŁo acreditasse no que via.
Era Ăłbvio que estavam assim desde que receberam o “convite do prĂncipe”. Orba teve que fazer força para nĂŁo explodir em risos.
Dinn também estava chocado. Esperava que Fedom ou outra figura importante de Mephius aparecesse.
â Espere… o que significa isso? NĂŁo pode convidar gladiadores sem autorização. Se Fedom-sama descobrir…
â Eu sou o prĂncipe, nĂŁo sou? NĂŁo posso fazer o que quiser? Ou preciso da sua permissĂŁo para conversar com alguĂ©m?
Ao lembrar o garoto da conversa sobre “agir como prĂncipe o tempo todo”, Dinn ficou sem resposta. Sob ordens de Orba, serviu vinho nos cĂĄlices com relutĂąncia.
â Esses homens serviram bem como gladiadores. Sem seus esforços, talvez eu nĂŁo estivesse aqui para erguer esta taça. Devemos saudĂĄ-los como herĂłis nacionais!
Ergueu o copo para o brinde. Os dois homens juntaram-se nervosamente. Orba sorveu o vinho, divertindo-se com suas reaçÔes. A bebida era suave, afinal.
O “prĂncipe Gil” parecia evitar o assunto principal, deixando os convidados cada vez mais inquietos. Foi Shique quem finalmente quebrou o gelo â aparentemente, tinha mais coragem que Gowen em situaçÔes assim.
â Achei estranho quando sua alteza falou comigo antes… mas como conhece nossos nomes?
â O prĂncipe disse que Ă© um fĂŁ â Gowen retrucou. â Mas… eu nĂŁo venho lutando na arena jĂĄ faz alguns anos. E mesmo na Ă©poca, nĂŁo fiz nada memorĂĄvel. EntĂŁo, como Sua Alteza sabe o nome de alguĂ©m como eu…
â Eu simplesmente sei â Orba franziu o rosto de propĂłsito. â Ă tĂŁo inconveniente assim? Ou um prĂncipe que acompanha lutas de gladiadores fere sua sensibilidade?
â N-NĂŁo, jamais!
â Deixa pra lĂĄ. Darei as instruçÔes mais tarde.
Sem saber que instruçÔes seriam essas, Gowen ficou tenso. Shique deu um passo à frente.
â Perdoe-nos, Alteza. Somos apenas gladiadores insignificantes. NĂŁo estamos acostumados a lugares assim, muito menos a etiqueta para falar com a realeza. Mal sabemos falar de maneira culta… Se de alguma forma o ofendemos…
Orba encarou Shique com frieza, mas entĂŁo…
â Kuh…
Finalmente não aguentou mais e soltou uma risada. Bebeu outro gole e começou a rir alto, segurando o estÎmago. Os dois homens olharam para ele, perplexos.
Dinn ficou pĂĄlido e protestou:
â PrĂncipe! PrĂncipe! â Mas Orba retrucou:
â Que prĂncipe? â Enxugou as lĂĄgrimas do rosto, rindo novamente.
â Ainda nĂŁo perceberam, Gowen? Isso nĂŁo Ă© como vocĂȘ! Mais rĂĄpido com a espada do que com palavras, hein?
Pegou uma espada curta da parede e apontou para Gowen.
â Nunca a usei muito na arena, mas foi vocĂȘ quem me ensinou o bĂĄsico. “Postura refinada, braços firmes, mas flexĂveis a partir do cotovelo“, nĂŁo foi isso?
Executou alguns passos de luta ao redor de Gowen, brandindo a espada com graça. Shique então exclamou, surpreso. Orba piscou para ele com um sorriso malicioso.
â SerĂĄ que… nĂŁo, mas… a voz Ă© bem parecida… m-mas…
Orba avançou em direção a Shique, que parecia incapaz de chegar a uma conclusão. Shique desviou do golpe com facilidade, recuando instintivamente.
â Posso marcar seu rosto? Seria um sĂmbolo do nosso laço â Orba disse, sorrindo. Enquanto Shique engolia em seco, Gowen gritou:
â Orba! â A voz ecoou, descontrolada.
Os dois sentaram-se Ă mesa, ainda atordoados, e pareciam nĂŁo ter esclarecido todas as dĂșvidas. Ouviram com espanto enquanto Orba explicava como as coisas haviam chegado Ă quele ponto. NinguĂ©m o interrompeu, e Dinn continuou servindo os trĂȘs com expressĂŁo amuada.
â Hmm â Gowen grunhiu. â Vivi muitos anos e nunca ouvi algo tĂŁo estranho. Mas, sem a mĂĄscara, seu rosto realmente parece com o do prĂncipe. Sabia que ele era jovem, mas nĂŁo tanto.
â Pensei o mesmo â Shique disse, jĂĄ completamente Ă vontade. â Na verdade, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ mais bonito assim?
Gowen balançou a cabeça.
â Mas Ă© prudente revelar isso para nĂłs? NĂŁo Ă© segredo de Estado?
â NĂŁo Ă© prudente de forma alguma â Orba respondeu rĂĄpido. â Mas fingir ser prĂncipe sozinho Ă© sufocante. Pensei que pelo menos vocĂȘs saberiam manter a boca fechada.
â Ohhh?
â O que foi esse olhar?
Shique estreitou os olhos, fazendo Orba virar o rosto, desconfortĂĄvel.
â Enfim, deixa pra lĂĄ. VocĂȘs se acostumarĂŁo com meu rosto.
â NĂŁo Ă© isso, Orba. NĂŁo Ă© sobre a mĂĄscara ter caĂdo. Algo no seu “ar” mudou.
â Meu ar?
â O gladiador em vocĂȘ parece ter sido esmagado por algo invisĂvel… mas seus olhos agora brilham o tempo todo. Antes, vocĂȘ passava uma aura perigosa que assustava os outros lutadores. Agora, parte de vocĂȘ parece… mais leve.

â No entanto, ao fingir ser o prĂncipe herdeiro, parece que carrego o peso deste paĂs nas costas? VocĂȘ estĂĄ subestimando Mephius.
â Mesmo assim â Shique retrucou com um sorriso enigmĂĄtico.
Estranhamente sentindo-se tratado como criança, Orba começou a ficar irritado.
â De qualquer forma â Gowen interveio. â Se vocĂȘ foi treinado como sĂłsia antes do casamento, significa que jĂĄ esperavam um ataque como o de hoje?
Shique também ficou sério e balançou a cabeça.
â Isso seria estranho demais, nĂŁo? Todos os soldados de Mephius foram pegos de surpresa. Se nĂŁo fossem suas ordens, Orba, estarĂamos ainda confusos, e tanto o prĂncipe quanto a princesa poderiam ter sido mortos pelo atirador.
Como esperado de um espadachim experiente, sua anĂĄlise era precisa. Orba serviu mais vinho para Gowen, que esvaziara o copo.
â Ah.
Gowen sorriu forçadamente, ainda desconfortåvel com a situação.
â Tarkas nĂŁo demonstrou nenhum sinal de que sabia de algo?
â N-NĂŁo. Ele insiste que nĂŁo sabia de nada… e nĂŁo Ă© do tipo que dissimula. Provavelmente estĂĄ dizendo a verdade.
â Mas os que tentaram matar a princesa Vileena eram novatos trazidos por ele. Se ao menos tivĂ©ssemos capturado um vivo…
Shique mordeu os lĂĄbios vermelhos. Era impossĂvel prender alguĂ©m no meio do caos. Apenas um homem fora capturado por Orba e agora estava sendo interrogado â ou torturado.
â E Hou Ran? Ela domina os dragĂ”es melhor que ninguĂ©m. Deveria saber algo sobre o ataque.
â EstĂŁo interrogando-a sobre drogas. Ela deixou que um novato cuidasse dos dragĂ”es, o que Ă© suspeito. Mas minha opiniĂŁo sobre Tarkas melhorou. Mesmo sendo da FĂ© Ryuujin, ele continua defendendo Hou Ran, embora o conselho provincial jĂĄ a considere culpada.
â EntĂŁo Tarkas pode ser um bom sujeito?
â Segundo ele, um mercador ofereceu apoio financeiro para o grupo participar dos jogos. Aceitou sem pensar e teve que admitir os novatos como contrapartida.
â Esse mercador deve ser alguĂ©m importante em Mephius, nĂŁo?
â Se fosse sĂł isso… â Gowen, jĂĄ recuperando a calma, franziu a testa. â O problema Ă© que sĂł temos a palavra de Tarkas. NĂŁo hĂĄ provas. Seja quem for, nĂŁo serĂĄ um inimigo comum. Algo maior estĂĄ por trĂĄs disso.
â O Reino de Garbera? â Shique sugeriu.
â Garbera estĂĄ envolvido, sem dĂșvida.
Orba mediu as palavras. Os soldados que enfrentara no tĂșnel claramente respeitavam a princesa Vileena, o que tornava tudo mais confuso. Segundo Shique, tanto ele quanto a princesa estavam na mira do atirador. Por que ajudariam-na a voltar para casa sĂł para matĂĄ-la?
Gowen coçou o queixo.
â Ende tambĂ©m poderia estar por trĂĄs disso, buscando vingança contra Mephius e Garbera. Se os dois paĂses se aliarem, Ende seria o primeiro a cair.
â NĂŁo estĂĄ se precipitando? Isso daria a Mephius motivo para atacar Ende.
â Verdade â Orba concordou. â Principalmente se ambos os nobres fossem mortos. Mephius e Garbera, antes inimigos, se uniriam para retaliar.
â Ohhh. Que discurso principesco!
â Cale a boca.
De repente, vozes agitadas ecoaram na entrada, tensionando o ambiente. Os guardas barravam alguĂ©m. Gowen e os outros se prepararam para um possĂvel ataque.
â Lamentamos. Retornem a seus aposentos â ouviu-se a voz polida dos guardas.
Sem pestanejar, Orba ordenou:
â Dinn, deixe-os entrar.
â PrĂncipe, outra vez por sua conta…
â EstĂĄ tudo bem. Pode revelar meu status social se quiser.
â Se eu fizer, vocĂȘ serĂĄ enforcado! â resmungou Dinn, mas obedeceu. Ao abrir a porta, porĂ©m, recuou surpreso.
Gowen e os outros puseram-se em pé de imediato. Orba, que também não esperava por aquilo, surpreendeu-se interiormente.
Com as mãos entrelaçadas à frente da cintura, caminhando com graça mas determinação, entrava a princesa Vileena de Garbera. Atrås dela, sua dama-de-companhia Theresia seguia com expressão igualmente resoluta.
â Embora seja imprĂłprio para uma dama Garberana entrar nos aposentos do noivo antes do casamento, as circunstĂąncias nos forçam a esta rudeza. Perdoe-nos, prĂncipe Gil.
Theresia foi a primeira a falar, curvando-se. Como a cerimĂŽnia fora interrompida, Gil e Vileena ainda nĂŁo eram oficialmente casados. Orba, usando novamente a mĂĄscara do prĂncipe, ofereceu-lhes assentos, mas Vileena permaneceu em pĂ©.
â Peço que ouça, apesar de minha falta de educação.
Seu tom era o de um soldado prestes a entrar em batalha. Ela afirmou veementemente que Garbera nĂŁo estava por trĂĄs do ataque e nĂŁo desejava reacender o conflito com Mephius.
â Mas â Orba interrompeu. â Esse Ryucown nĂŁo Ă© de Garbera?
Ao ouvir o nome, Vileena baixou os olhos por um instante, mordendo o lĂĄbio antes de recompor-se.
â Sim. Quando meu paĂs for informado, Ryucown serĂĄ destituĂdo de seu tĂtulo e perderĂĄ a nacionalidade.
â EntĂŁo foi um plano sĂł dele?
â Ă o mais provĂĄvel. Os soldados que tentaram me raptar usaram seu nome. E atualmente, sĂł ele em Garbera teria força para atacar Mephius assim.
â Ryucown?
â Exatamente.
â Que tipo de homem Ă© ele?
Seus olhos negros arregalaram-se ante a pergunta inesperada. O tom suave de Orba a pegou desprevenida.
â Bem… jĂĄ o conheci.
Ryucown vinha de um clĂŁ poderoso em territĂłrio recentemente anexado por Garbera. Seu avĂŽ servira Ă coroa, mas seu pai perdeu terras em conflitos e a famĂlia caiu na obscuridade. Aos dez anos, Ryucown jĂĄ comandava uma unidade militar. Aos treze, obteve seu primeiro feito de armas. Aos vinte, acumulava tantas conquistas que se tornara impossĂvel ignorĂĄ-lo, apesar da resistĂȘncia dos duques “puritanos”.
Aos dez anos, Ryucown jĂĄ comandava uma unidade como cavaleiro aprendiz. ApĂłs seu primeiro feito militar aos treze e inĂșmeras conquistas atĂ© os vinte, diziam que ele simplesmente nĂŁo conseguia ascender alĂ©m desse posto.
O tĂtulo de âCavaleiroâ nĂŁo era familiar em Mephius, entĂŁo Vileena explicou como sendo um nobre entre guerreiros. Em Garbera, todos que lideravam tropas sob o rei eram cavaleiros. Embora nem todos os nobres o fossem, um plebeu jamais poderia se tornar um. Ryucown, visto como um estrangeiro pelos duques mencionados anteriormente, enfrentava dificuldades para ser promovido.
A histĂłria retrocedeu cinco anos.
Naquela Ă©poca, uma rebeliĂŁo eclodiu contra a famĂlia real de Garbera.
Um homem chamado Bateaux, que aspirava liderar os duques, aliou-se a clĂŁs locais assimilados por Garbera anos antes e tornou-se o lĂder da revolta. Embora suspeitassem de envolvimento de Mephius, Vileena evitou mencionar isso.
Com nove anos na época, Vileena estava visitando a propriedade de seu avÎ, Jeorg Owell, quando Bateaux atacou o palåcio à meia-noite.
Jeorg, jå aposentado, lutou bravamente com poucos homens, mas os reforços não chegaram. Vendo a futilidade de mais mortes, ele se rendeu. O palåcio foi tomado, e Jeorg, Vileena e outros tornaram-se reféns.
Ferido durante a batalha, Jeorg sofreu graves ferimentos que o deixaram acamado. Sem médicos ou medicamentos suficientes, os sobreviventes definhavam a cada dia.
Foi então que a pequena Vileena assumiu o lugar do avÎ nas negociaçÔes. Com corpo de criança, mas coragem de leoa, ela argumentou com Bateaux:
â Mantenha-me como refĂ©m, mas liberte meu avĂŽ ferido, os soldados e as mulheres.
Impressionado, Bateaux libertou metade dos prisioneiros, mas manteve Jeorg entre os reféns.
A rebeliĂŁo, inicialmente bem-sucedida, desintegrou-se em disputas internas pelo poder. Um mĂȘs depois, apenas Bateaux permanecia no palĂĄcio, cercado e sem provisĂ”es, disposto a morrer lutando.
A determinação de Bateaux, porém, minou o moral de suas tropas. Entre os reféns, surgiram colaboradores. Alguns vigiavam os canais subterrùneos do castelo e, certa noite, criaram uma brecha na segurança.
â Fuja com seu avĂŽ â sussurraram a Vileena.
Ela recusou.
â Se fugirmos, Bateaux descobrirĂĄ a rota de fuga e matarĂĄ os que ficarem.
Jeorg, acamado mas lĂșcido, concordou com a neta. Vileena entĂŁo desenhou um mapa detalhado do palĂĄcio e entregou-o a um jovem refĂ©m:
â Leve isto Ă s tropas de Garbera lĂĄ fora.
Com essa informação, um grupo de elite infiltrou-se pelos canais. Vileena guiou-os atĂ© os refĂ©ns, que foram resgatados em silĂȘncio.
Entre esses soldados estava Ryucown, entĂŁo com 23 anos. Ao seu sinal, o exĂ©rcito atacou. Enquanto as defesas se distraĂam, Ryucown avançou sozinho e decapitou Bateaux com suas prĂłprias mĂŁos.
Que impressionante…, pensou Orba, admirando secretamente nĂŁo Ryucown, mas a pequena Vileena, negociando com rebeldes aos nove anos e arquitetando planos com o avĂŽ.
ApĂłs sua atuação heroica, Ryucown finalmente recebeu o tĂtulo de cavaleiro por recomendação pessoal do rei Jeorg. Sua ascensĂŁo foi meteĂłrica: em termos Mephianos, equivaleria a tornar-se oficial de dragĂ”es alados.
Ryucown destacou-se nas batalhas contra Mephius e, pouco depois, foi prometido em casamento a Vileena, numa tentativa de unificar o paĂs.
â Se tivesse que descrever o carĂĄter do general Ryucown em uma palavra â Vileena disse, os lĂĄbios curvando-se levemente â seria “honesto”. Ele Ă© incapaz de enganar. Aos outros… e a si mesmo.
â A si mesmo?
â Sim â ela confirmou. â Se acreditar que meu casamento com Mephius trarĂĄ paz, ele se oporĂĄ ainda mais. NĂŁo por perder sua chance de se casar com a famĂlia real, detesto que suspeitem disso, mas porque odeia deixar a luta contra Mephius sem conclusĂŁo. Ele personifica o orgulho e a coragem de um cavaleiro como ninguĂ©m.
â Isso nĂŁo reflete o sentimento de toda Garbera?
â NĂŁo â Vileena saiu de seu devaneio, erguendo as defesas. â Muitos admiram Ryucown, e generais se opuseram ao casamento. Mas isso Ă© apenas teimosia masculina. Na corte e no paĂs, a maioria deseja o fim da guerra.
â E a senhorita Vileena?
â Eu? Claro.
A mĂŁo sobre o peito, seus olhos escureceram com uma tristeza precoce.
â Meus soldados estĂŁo exaustos, meu povo sofre hĂĄ muito tempo. NinguĂ©m deseja mais que eu essa aliança com Mephius.
Ela encarou Orba sem hesitar, revelando pela primeira vez a pessoa por trĂĄs da princesa. Seu olhar nĂŁo deixava espaço para dĂșvidas.
Exatamente o que irritou Orba.
â Seu povo, hein? â ele provocou. â A guerra começou por capricho da realeza, sem considerar o povo. Agora querem terminĂĄ-la pelo mesmo motivo. Nascer em posiçÔes diferentes nos torna estranhos uns aos outros. Melhor seria nunca ter começado essa guerra! Assim, uma princesa nĂŁo precisaria se sacrificar num casamento indesejado.
â EntĂŁo… o prĂncipe tambĂ©m nĂŁo deseja este matrimĂŽnio?
â NĂŁo somos iguais? Ontem, esses âlĂderesâ causaram banhos de sangue. Hoje nos damos as mĂŁos e fazemos as pazes. Enquanto isso, os que nĂŁo queriam lutar, ou os que encontraram algum significado na guerra, apodrecem em pilhas de cadĂĄveres! Que tipo de paz Ă© essa?
â Isso Ă©…
Vileena engoliu as palavras no instante em que as pronunciou. Embora Orba pudesse ter razĂŁo em culpar a famĂlia real, suas bochechas pĂĄlidas logo se incendiaram de vermelho e ela ergueu a voz:
â VocĂȘ pode falar dos assuntos alheios, mas foi sua famĂlia imperial que arrastou seu povo e soldados para a guerra contra nĂłs! Sua falsa ignorĂąncia nĂŁo Ă© senĂŁo uma traição aos que morreram em seu nome! NĂłs dois nascemos em famĂlias reais. Ă nosso dever devotar-nos aos interesses da nação. NĂŁo podemos evitar suprimir alegrias ou vontades pessoais. Ă natural que as pessoas louvem nosso sangue superior e se ajoelhem perante nĂłs. Sem essa consciĂȘncia, nĂŁo apenas usurpadores, mas o prĂłprio povo se levantaria contra a realeza.
â SANGUE SUPERIOR? NĂS SUPERIORES? â Orba gritou, a voz ecoando como um chicote.
Quando vivia na misĂ©ria, a ideia de “realeza” jamais cruzara sua mente. Ouvir a palavra “superior” da boca de Vileena foi como levar um soco de arrogĂąncia e escĂĄrnio.
â Entendo. Como alguĂ©m nascida “superior”, vocĂȘ pode brincar com a vida de seus sĂșditos. Decide quem vive e quem morre. O “orgulho” do seu reino nĂŁo passa de retĂłrica vazia quando vocĂȘ muda as regras para vencer. Suprimir suas vontades, hein? Que diversĂŁo hĂĄ em ver centenas, milhares, dezenas de milhares de pessoas, cada uma com seus prĂłprios sentimentos, matando-se entre si!?
â VocĂȘâŠ!
Vileena avançou furiosa, mas Theresia interceptou-a, segurando seus braços:
â Princesa!
Do outro lado, Orba tambĂ©m dera um passo Ă frente quando Dinn tentou contĂȘ-lo. Gowen e Shique ajudaram a segurĂĄ-lo.
â Soltem-me, caramba!
â (Chega, Orba) â sussurrou Shique em seu ouvido. â (HĂĄ gente chegando. Se descobrirem que vocĂȘ Ă© um sĂłsia agora, a paz com Garbera estarĂĄ perdida.)
â Acha que eu nĂŁo sei? â Orba rosnou.
Gowen completou, pressionando-o:
â (Se vazarem que a cerimĂŽnia foi feita por um impostor, nem Garbera nem a famĂlia imperial de Mephius pouparĂŁo sua vida. EntĂŁo qual foi o sentido de sobreviver dois anos como gladiador? Era esse futuro que vocĂȘ queria?)
â Solte-me, Theresia! Imediatamente!
Vileena se debatia, os olhos ardendo de fĂșria.
â Princesa, acalme-se! â Theresia insistia. â Que comportamento Ă© esse? NĂŁo pode enganar meus olhos, vocĂȘ estava prestes a esbofetear o prĂncipe!
â Aquele insolente! Pisoteia o orgulho da realeza de Garbera com a cara de uma criança que nada sabe! Por que nĂŁo bateria nele? Seria uma lição merecida!
â Sua verdadeira face estĂĄ aparecendo! Controle-se!
O tumulto lembrava crianças brigando em um estĂĄbulo de dragĂ”es. Foi entĂŁo que um novo personagem adentrou a sala â os guardas tentaram anunciĂĄ-lo, mas os gritos abafaram sua voz.
â PrĂncipe! Princesa de Garbera! â bradou Fedom Aulin, os olhos arregalados diante da cena caĂłtica.
â O que significa isso numa hora desses? Lady Vileena, mesmo numa situação como esta, contenha seus impulsos.
Os dois nĂŁo responderam, limitando-se a trocar olhares assassinos. Fedom tossiu e prosseguiu:
â Bem, Ă© conveniente que ambos estejam aqui. Naves de nosso paĂs acabam de chegar com um comunicado urgente.
Ele exibiu o documento com uma expressĂŁo que denunciava seu prĂłprio choque.
â Ontem ao amanhecer, a Fortaleza Zaim, na fronteira com Ende, foi ocupada por um exĂ©rcito autodenominado “Força Ryucown”. Alegam representar Garbera legitimamente, com total apoio da famĂlia real.
â ImpossĂvel!
Vileena empalideceu como se atingida por um raio. Orba quase comentou que ela merecia, mas reprimiu o pensamento.
â O Imperador Guhl Mephius concluiu que o ataque durante a cerimĂŽnia tambĂ©m foi obra de Ryucown. Diante desse ato vil que fere a dignidade nacional e as esperanças do povo, nossa Dinastia exige retribuição. Tropas serĂŁo enviadas sob comando do prĂncipe herdeiro, Gil Mephius, para subjugar Ryucown.
â O quĂȘ!?
â Em acordo emergencial com Garbera, obtivemos permissĂŁo para cruzar suas fronteiras. Sem passar pela capital imperial, o prĂncipe deve partir imediatamente para a Cidade Fortaleza de Idoro, no leste.
Ao terminar, Fedom suspirou profundamente. O silĂȘncio que se seguiu foi quebrado quando Orba percebeu, aquela primeira campanha seria sua.
Tradução feita por fãs.
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