Rakuin no Monshou – CapĂ­tulo 3 – Volume 1

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Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded

Light Novel Online – CapĂ­tulo 03:
[Uma Nova MĂĄscara]


Nos Ășltimos dias, Tarkas parecia mais ocupado que o normal, correndo de um lado para o outro, e quanto mais ocupado ele ficava, mais animado parecia se tornar. TĂŁo leve eram seus pĂ©s que pareciam ter ganhado asas, exibindo o que parecia o ĂĄpice do orgulho.

Quer fosse construindo um estĂĄdio exclusivo para o uso do Grupo de Gladiadores Tarkas, ou planejando comprar uma dĂșzia de uma nova espĂ©cie de dragĂŁo, Tarkas tinha planos grandiosos para seus espadachins-escravos. Mas, como sempre, Orba nĂŁo pensava da mesma forma.

— Se conseguir chamar a atenção da famĂ­lia imperial, talvez eu pense em recompensĂĄ-lo, Orba. O oponente tambĂ©m estarĂĄ excepcionalmente preparado, entĂŁo faça uma boa luta. Olhe, se vocĂȘ nĂŁo conseguir se animar, terĂĄ que fazer como sempre faz.

Embora Tarkas batesse em seu ombro com um sorriso de orelha a orelha, aquilo tinha um gosto estranho, para ser sincero. Gowen, que ouvira tudo, também deu um risinho irÎnico, mas logo assumiu uma expressão séria.

— NĂŁo tenho dĂșvidas de que o Grupo de Gladiadores Tarkas Ă© uma grande empresa neste ramo. Mesmo assim, nunca ouvi falar que Tarkas tivesse conexĂ”es com a famĂ­lia imperial ou outros do alto escalĂŁos. Ele sĂł trabalhou com nobres como Fedom, o Senhor de Birac e diretor do GrĂȘmio dos Gladiadores. Embora Tarkas aparentemente sĂł o tenha conhecido pessoalmente durante reuniĂ”es. No entanto, atĂ© agora, ele nunca recebeu um Ășnico trabalho direto de Fedom. Mas acho que este Ă© um trabalho enorme. Sempre disse a ele que seria melhor pedir cooperação de outros lugares, mas Tarkas recusou todas.

— VocĂȘ Ă© propenso a se preocupar, velho — disse Shique, encolhendo os ombros. — NĂŁo estĂĄ tudo indo bem? Mesmo que ganhemos a desaprovação deles, nĂŁo seremos nĂłs que perderemos a cabeça. Significa apenas que teremos que encontrar outro lugar para lutar como gladiadores.

Orba compartilhava do mesmo sentimento. Pouco importava onde ele estivesse, a Ășnica maneira de um gladiador garantir sua vida era ganhar ouro e se isso significasse que seu caminho para a liberdade estivesse um passo mais prĂłximo, ele continuaria a lutar onde quer que fosse. Era simples assim.

Vårios dias se passaram após isso, e os preparativos para a partida até o Vale de Seirin finalmente começaram. Eles carregaram suas armas e armaduras nas carroças, e realizaram a årdua tarefa de tirar os dragÔes de suas gaiolas.

Dentro do amplo abrigo dos dragĂ”es, Orba observava em silĂȘncio enquanto Hou Ran guiava os dragĂ”es. Embora jĂĄ tivesse visto vĂĄrios treinadores de animais por ali, ele nĂŁo conhecia outro ser humano que pudesse lidar com dragĂ”es daquela forma.

Houve um treinador especialista que conseguia “fazer trĂȘs Sozos dançarem ao som da mĂșsica” usando uma flauta, que os alimentava todos os dias em um horĂĄrio fixo, escovava gentilmente seus focinhos e mantinha essa rotina diariamente. Ele foi morto facilmente, devorado pelos Sozos em um momento de capricho.

Essa era, essencialmente, a natureza de um dragĂŁo.

Um humano que mostrasse afeto e os treinasse poderia obter resultados atĂ© certo ponto, mas nunca havia algo como certeza absoluta. Mesmo dragĂ”es que deveriam estar domesticados hĂĄ muito tempo guardavam ressentimento profundo. Na realidade, nĂŁo se podia ter tanta certeza de sua inteligĂȘncia, jĂĄ que eram enganados por humanos que armavam armadilhas elaboradas, como buracos e paredes desmoronadas.

Mas, até onde ele sabia, entre esses dragÔes, Orba nunca vira um momento em que as ordens de Ran não parecessem eficazes. E ela não usava chicotes ou os atraía com iscas. Ran apenas assovia baixinho, e eles se alinhavam como soldados bem treinados, carregando seus corpos enormes na direção da mão que ela estendia.

No entanto, parecia haver diferenças individuais entre eles.

— Orba. Me ajude em vez de ficar só olhando.

Com palavras levemente irritadas, Ran cruzou os braços perto de um dragão Baian de tamanho médio. Ele havia se encolhido no canto da gaiola e não parecia disposto a se mover. Embora Orba não achasse que fosse seu lugar culpå-lo por ignorar as ordens de Ran, ao se aproximar do canto, parecia que o dragão não sairia dali de jeito nenhum.

— O que devo fazer? Amarrar uma corrente no pescoço dele?

Uma arma tranquilizante mal fazia efeito em um Baian. No entanto, era preciso muita mĂŁo de obra para puxĂĄ-lo com correntes. O Baian de tamanho mĂ©dio era bem mais baixo que um Sozos, mas seus ombros ainda estavam na altura da cabeça de um homem adulto. Tinha cerca de trĂȘs metros de comprimento, e a pele rugosa de seu corpo era como uma armadura ao toque. Pequenas escamas angulares em forma de pente se alinhavam, dando-lhe a aparĂȘncia de um lagarto atroz.

— VocĂȘ deveria subir, Orba.

— O que quer dizer?

Orba ficou surpreso. NĂŁo que nĂŁo houvesse jogos de gladiadores em que montavam em Baians, mas era extremamente difĂ­cil colocar alguĂ©m nĂŁo familiarizado em suas costas. Resumindo, vocĂȘ nunca sabia quando o dragĂŁo iria sacudi-lo e esmagĂĄ-lo, e, enquanto isso, vocĂȘ tinha que tentar matar seu oponente. A intenção era entreter o pĂșblico com a emoção da situação, mas, sem magia ou o efeito de drogas, era impossĂ­vel lidar com os Baians, que pareciam tanques pesados.

— DragĂ”es sĂŁo diferentes de bestas. Mesmo que sejam degenerados, dragĂ”es tĂȘm a inteligĂȘncia de um dragĂŁo. Humanos simplesmente nĂŁo conseguem entendĂȘ-la. Mas vocĂȘ estarĂĄ bem, Orba. Eles certamente abriram seus coraçÔes.

Quando os lĂĄbios da garota se separaram, ela falou como se estivesse cantando. No entanto, pelo conteĂșdo, que praticamente ordenava a Orba que “morresse”, era incompreensĂ­vel atĂ© para um gladiador. Mas, como mencionado anteriormente, a verdade era que ele nunca vira alguĂ©m mais habilidoso em lidar com dragĂ”es do que ela. AlĂ©m disso, ao ver seu sorriso caracterĂ­stico e desprotegido, por alguma razĂŁo misteriosa, ele estava disposto a acreditar em qualquer coisa absurda que ela dissesse.

Orba se aproximou lentamente do Baian. O dragĂŁo começou a chutar as patas traseiras no chĂŁo, soltando um Ășnico rosnado e puxando a lĂ­ngua, que era bifurcada, para dentro e para fora inquietamente, enquanto olhava para Orba com olhos semelhantes a contas de vidro.

Orba instantaneamente reuniu sua coragem. Ao se mover para o lado, transmitiu-a para as pernas e pulou em direção às costas do dragão e, em um instante, ele aterrissou na parte traseira do dragão. Para evitar ser jogado fora, Orba envolveu os braços ao redor do pescoço grosso. Embora inesperadamente, parecia quase como se o sangue quente do dragão fosse transmitido ao tocå-lo, e Orba naturalmente não sabia se havia alguma mudança na mentalidade do dragão. No entanto, o Baian lentamente se levantou e começou a caminhar em direção ao lugar guiado pela jovem.

— Este filhote nasceu hĂĄ apenas meio ano — disse Hou Ran enquanto guiava a besta. — Mesmo apĂłs meio ano, seu corpo jĂĄ nĂŁo Ă© menor que o de um adulto. No entanto, eles ainda sĂŁo crianças no coração. Mesmo assim, entre os treinadores de animais, hĂĄ aqueles que nĂŁo conseguem ver a distinção.

Os quatro Baians foram colocados em uma nova gaiola com um sistema de polia. Essa gaiola poderia ser puxada por dois Sozos ou um Ășnico Houban, mas como os Sozos eram considerados imprevisĂ­veis — embora Hou Ran dissesse que os dragĂ”es Baians eram na verdade os mais caprichosos, jĂĄ que era impossĂ­vel suprimir um completamente — eles passariam a jornada em uma gaiola.

Então, enquanto todos estavam apressados nos preparativos, a uma hora da partida, dragÔes de pequeno porte de repente invadiram o campo de parada.

Eram trĂȘs Tengos em fila. Eles eram ainda menores que os Baians e, por causa de sua capacidade de manobrar em curvas fechadas eram frequentemente usados no campo de batalha em vez de cavalos. Suas cabeças grandes se assemelhavam Ă s de pĂĄssaros, com pescoços longos quase curvados ao chĂŁo, e se moviam saltitando sobre duas pernas finas.

Quando os dragÔes pararam bruscamente, o líder dos cavaleiros, quase lançado ao chão pela força, caiu.

— Droga, Ă© por isso que dragĂ”es…

O homem, cuspindo a areia que parecia ter entrado em sua boca, tinha seu corpo rechonchudo coberto por uma tĂșnica roxa. A julgar por sua aparĂȘncia, ele parecia um mercador rico que ganhava dinheiro fĂĄcil. As duas figuras atrĂĄs dele, tambĂ©m montadas em seus respectivos dragĂ”es, desceram rapidamente e estenderam a mĂŁo ao homem que parecia ser seu patrĂŁo, enquanto Hou Ran corria em sua direção.

O Tengo da frente havia dobrado as pernas e se agachado. Provavelmente havia sido sobrecarregado, pois vomitava uma espuma branca pela boca. Ran estava prestes a acariciar a nuca do dragĂŁo quando,

— NĂŁo se aproxime de Sua ExcelĂȘncia, escrava!

Houve o golpe Ășnico de um chicote. Embora Ran tentasse imediatamente pular para trĂĄs, ela caiu e arranhou o tornozelo. Ran nĂŁo fugiu, no entanto, mas encarou o soldado armado bem Ă  sua frente. Ele ainda era um soldado jovem, e quando notou o cabelo e a pele de Ran, sua expressĂŁo ficou ainda mais furiosa.

— A tribo que adora o Deus DragĂŁo, hein? Malditos selvagens impertinentes…

A tendĂȘncia de menosprezar os nĂŽmades, que nĂŁo possuĂ­am territĂłrio fixo, como um povo incivilizado era forte em todas as terras. Nesse sentido, assim como no caso de Orba, Tarkas era completamente pragmĂĄtico.

O soldado brandiu o chicote mais uma vez.

Mas logo depois, ele soltou um gemido baixo e ficou rĂ­gido. A mĂŁo de Orba veio de lado, agarrou seu pulso e o torceu para cima. Enquanto ele se contorcia de dor, curvando a coluna, foi chutado para frente.

— NĂŁo sei onde estĂĄ sua “ExcelĂȘncia”, mas temos nossos prĂłprios mĂ©todos aqui. Se vocĂȘ odeia se misturar com escravos, nĂŁo deveria pisar em um antro de escravos. Por favor, retire-se.

Ele arrancou o chicote do soldado e o jogou no chĂŁo.

— V-VocĂȘ! Saiba seu lugar, caramba!

O soldado estava prestes a se levantar e sacar a espada da cintura quando,

— Espere! Espere, Orba!

Tarkas corria em sua direção. Ele usou toda sua força para impulsionar seu corpo robusto, que era proporcional ao do homem de tĂșnica.

— S-Seu idiota! Basicamente, vocĂȘ nĂŁo deveria falar fora de hora. Volte imediatamente para os preparativos!! …Ohh, Fedom-sama, se houve alguma falta de cortesia, peço humildemente seu perdĂŁo. Especialmente considerando que sua excelĂȘncia veio pessoalmente a um lugar tĂŁo sĂłrdido como este…

— Ah, pode relaxar. NĂŁo precisa se curvar, Tarkas — disse o homem de tĂșnica, esfregando as mĂŁos e apertando a mĂŁo do mercador de escravos. — Tenho negĂłcios com este homem aqui. Orba? Sim, era Orba. VocĂȘ.

Ele apontou o dedo para a mĂĄscara que Orba, que estava prestes a partir apoiando o ombro de Ran, usava.

Naturalmente, Tarkas ficou surpreso, mas Orba também. Em primeiro lugar, era bastante raro que alguém de fora se referisse a um espadachim-escravo pelo nome.

Orba parou. Quando tentou se lembrar onde ouvira o nome Fedom antes, o rosto se distorceu de forma bizarra, jå que não se parecia com o de nenhuma pessoa que Orba jå vira até então. Só muito depois ele percebeu que era um sorriso, sufocando o desdém usual por escravos, como se tentasse adivinhar seu humor geral.

Naquele momento, ele esqueceu completamente aquela expressão estranha, pois o homem começou a dirigir palavras inesperadas a Orba.

— VocĂȘ se lembra de mim? NĂŁo, talvez nĂŁo se lembre. Na Ă©poca, vocĂȘ mal estava consciente. Sou um membro do conselho da Dinastia Imperial de Mephius, o Senhor de Birac. TambĂ©m atuo como chefe do GrĂȘmio dos Gladiadores, e fui eu quem colocou essa mĂĄscara em vocĂȘ.

Era a primeira vez que ele entrava no escritĂłrio de Tarkas sem o prĂłprio dono presente. Mas, Ă© claro, ele nĂŁo se importava com algo assim. Acima de tudo, os olhos famintos de Orba estavam fixos no homem diante dele — aquele que se chamava Fedom, um aristocrata proeminente de Mephius.

— O que hĂĄ com esses olhos? Parece que vocĂȘ imediatamente sacaria uma espada e cortaria minha cabeça, se tivesse uma.

Eu poderia atĂ© estrangulĂĄ-lo atĂ© a morte com as mĂŁos nuas, pensou Orba, mas Ă© claro que nĂŁo disse essas palavras em voz alta. Ao lado de Fedom estava um menino que poderia ser um pajem, um jovem pĂĄlido semelhante a um criado, e um soldado que era o Ășnico armado. Seria realmente descuidado.

— Mesmo que vocĂȘ guarde rancor de mim, Ă© como se estivesse culpando a pessoa errada. NĂŁo Ă© por minha causa que vocĂȘ foi aprisionado, mas por causa de seus prĂłprios crimes.

— EntĂŁo…

Foi a primeira vez que Orba abriu a boca desde que o homem chamara seu nome.

— Por que vocĂȘ me fez usar essa mĂĄscara? Isso Ă© o que vocĂȘs nobres chamam de diversĂŁo? NĂŁo importa o quanto eu sofra, porque sou apenas um escravo!?

— Cuidado com suas palavras, moleque! — o soldado gritou com raiva.

Mas Fedom disse:

— Eu nĂŁo me importo. NĂŁo tenho a liberdade de brincar com escravos que nĂŁo tĂȘm certeza do seu amanhĂŁ — ele continuou. — No entanto… sĂł porque seus dias eram incertos, sim, como Ă© admirĂĄvel que vocĂȘ tenha sobrevivido atĂ© hoje. Naquela Ă©poca, vocĂȘ nĂŁo passava de uma criança. Ter sobrevivido como gladiador por dois anos… pode ser chamado de sorte? NĂŁo. Em vez de algo como sorte, isso Ă©, como dizem, capricho do destino? Supostamente, isso decide a vida de todos os humanos desde o instante da criação do universo, certo?

Ele virou a cabeça para o jovem atrås dele. O jovem deu um sorriso fino e acariciou levemente o queixo. Embora, de certa forma, fosse mais desrespeitoso do que a atitude de Orba entre a nobreza de Mephius, Fedom não mostrou sinais de que estava incomodado com isso.

— AlĂ©m disso, vocĂȘ era praticamente uma criança na Ă©poca, mas seu fĂ­sico tambĂ©m se tornou consideravelmente mais adulto nesses dois anos. VocĂȘ nĂŁo seria a mesma pessoa se nĂŁo fosse pela mĂĄscara… Hmph, o timing estĂĄ um pouco fora, no entanto. DĂȘ mais um ano e seu corpo teria se desenvolvido cada vez mais, mas tambĂ©m poderia ter acabado mal.

Claro, Orba não tinha absolutamente nenhuma ideia do que esse homem estava falando. Fedom falava como se tivesse se reunido com um velho amigo que sentia falta, enquanto, para Orba, aquilo tinha sido uma maldição, por assim dizer, jå que a måscara sempre separou seu rosto do exterior com ferro durante aqueles dois anos, durante os quais continuou a queimar seu rosto ferozmente por um período.

Ele se debatera, manchado de sangue por tentar arrancar a måscara com as unhas, e quebrou os tornozelos onde a corrente prendia seus pés devido às suas lutas. E, cada vez, Orba amaldiçoava tudo pelo destino que perdera e pelo destino que recebera em troca.

De fato, por dois anos, aquela måscara estivera com Orba, que ainda não aceitara as dificuldades e mortes, e ela se tornara o próprio símbolo de sua determinação em recuperar o que lhe fora tirado pela mesma mão que tirou sua mãe, irmão e Alice.

E entĂŁo, de repente, um nobre desconhecido apareceu diante dele, dizendo que foi ele quem o fez usĂĄ-la. Era como Fedom dissera, se ele tivesse uma espada Ă  mĂŁo… NĂŁo, poderia ser uma espada ou uma adaga, ou apenas um vaso muito pesado, qualquer coisa por perto que pudesse ser usada para matar. No instante em que Fedom mostrasse uma abertura, ele saltaria e a esmagaria no rosto do homem. Claro, mesmo agora, ainda nĂŁo era tarde demais para isso.

Mas, independentemente de Fedom saber ou nĂŁo sobre o potencial suicĂ­dio duplo de Orba, o homem continuou a protelar.

— Muito bem, Orba. Vou tirar essa máscara, bem aqui neste lugar.

— O quĂȘ?

— E isso nĂŁo Ă© tudo. A partir de agora, vocĂȘ tambĂ©m serĂĄ liberado de seu status de escravo. NĂŁo hĂĄ mais necessidade de vocĂȘ pegar uma espada e matar. No entanto, isso nĂŁo significa que vocĂȘ serĂĄ um homem livre. É simples, estas sĂŁo as condiçÔes. Daqui a pouco, Tarkas o deixarĂĄ sob minha custĂłdia, mas nĂŁo Ă© mais do que isso.

— Espere-!

— E durante esse tempo, vocĂȘ nĂŁo vai contrariar minhas palavras e fazer o que digo. NĂŁo hĂĄ necessidade de ter medo. É muito mais fĂĄcil do que estar entre escravos e matar uns aos outros. VocĂȘ apenas me obedecerĂĄ como um fantoche. No entanto—

— Espere!

Orba deixou escapar um grito sem querer. Ele balançou a cabeça irritado diante do Fedom sem palavras à sua frente.

— Se vocĂȘ Ă© quem me fez usar essa mĂĄscara, por que agora de repente vem removĂȘ-la? E por que vocĂȘ me libertaria da escravidĂŁo se eu ainda tiver que seguir suas ordens? Que tipo de piada Ă© essa!? Qual Ă© a razĂŁo de vocĂȘ querer remover minha mĂĄscara aqui e agora? Por que vocĂȘ me fez usĂĄ-la em primeiro lugar? VocĂȘs, bastardos, manipularam tĂŁo facilmente o destino de uma pessoa para suas prĂłprias satisfaçÔes caprichosas! Quanto mais entretenimento vocĂȘs buscam!?

Embora não estivesse interessado nas palavras em si, provavelmente porque não conseguia entender quanto sofrimento havia sido incluído naquele período de dois anos, Fedom se encolheu, surpreso. Ele trocou de lugar com o soldado, que avançou para proteger seu mestre. Orba encarou a figura de Fedom sobre o ombro do soldado, enquanto um brilho afiado surgia em seus olhos por trås da måscara.

— O que vocĂȘ pretende fazer ao tirar a mĂĄscara, me libertar da escravidĂŁo e me comprar? EstĂĄ criando algum tipo de assassino infantil!?

— E-Espere. Espere, eu digo.

Desta vez, era Fedom quem assumia o controle. Escondido atrĂĄs das costas do soldado, ele enxugou o suor da testa.

— Eu entendo. No entanto, nĂŁo temos tempo suficiente e este nĂŁo Ă© o lugar. Seria melhor se eu dissesse que vocĂȘ serĂĄ morto se nĂŁo seguir minhas ordens?

— EntĂŁo Ă© melhor vocĂȘ começar a falar logo! O que pretende fazer comigo!?

O pomo de AdĂŁo do soldado subiu e desceu. Mesmo que fosse apenas uma pessoa desarmada Ă  sua frente, parecia que ele estava enfrentando um animal carnĂ­voro com aqueles olhos dourados e brilhantes encarando-o.

Nobre e escravo. Basicamente, os dois nem deveriam se olhar nos olhos, mas a aura de intimidação que invertia essas posiçÔes entre eles estava gradualmente ocupando a sala. Então,

— Tudo bem, espere um pouco.

O jovem estudante interveio na conversa. Ele deu um passo Ă  frente, posicionando-se entre Orba e Fedom.

— Esta nĂŁo Ă© uma histĂłria extremamente complicada. Mas para explicĂĄ-la desde o inĂ­cio, certamente leva um tempo precioso. O que devo fazer para tentar convencĂȘ-lo primeiro? Posso começar tirando a mĂĄscara?

— Uma vez removida, ela não pode ser usada novamente — disse Fedom, infeliz. — Se esse cara disser que não vai obedecer depois, qualquer vantagem, exceto matá-lo, desaparece.

— HĂĄ inĂșmeras maneiras de fazer isso. Gostaria que vocĂȘ tivesse fĂ© em mim.

Enquanto ouvia a estranha troca entre os dois, Orba percebeu que o homem, que parecia um jovem, na verdade tinha uma idade considerĂĄvel. Ele tinha uma voz um tanto rouca, e seus cabelos eram misturados com fios brancos.

— Entendo, Hermann. Vá em frente.

Recebendo a permissĂŁo de Fedom, o homem chamado Hermann se dirigiu ao lado de Orba. Orba recuou por reflexo e se surpreendeu quando sentiu os dedos do homem se fixarem firmemente em sua mĂĄscara.

Orba era capaz de determinar a distùncia de sua própria espada e lança, e também medir instantaneamente o alcance de ataque de seu oponente. Esse era o talento que Orba também tinha dois anos atrås, e o que o fez sobreviver por tanto tempo.

E, no entanto, Hermann conseguiu se aproximar silencia e facilmente de seu peito.

— Não tenha medo — disse Hermann com um sorriso. Tendo aplicado os dedos na máscara, ele se aproximou ainda mais de seu rosto.

— Essa mĂĄscara nĂŁo sai nem com força sobre-humana. AlĂ©m disso, nĂŁo existe algo como uma “chave” para removĂȘ-la. Mas acho que vocĂȘ sabe disso melhor do que ninguĂ©m depois desses dois anos, certo?

Orba duvidou se quem estava usando a mĂĄscara nĂŁo era Hermann. Seria porque parecia que ele havia colocado pele humana em sua face e, na verdade, estava escondendo seu verdadeiro rosto por trĂĄs dela? A pele estava estranhamente rĂ­gida e, dependendo do Ăąngulo da luz, ele poderia nĂŁo parecer um jovem afinal.

Mas, acima de tudo, eram aqueles dois olhos fitando-o. Diferente de sua expressĂŁo facial, apenas os olhos emitiam uma luz afiada semelhante Ă  de uma espada. O homem nĂŁo se parecia com nenhum dos muitos oponentes formidĂĄveis que Orba enfrentara, mas ele foi tomado por um medo que superava todos eles.

— NĂŁo me toque — disse Orba, tremendo, sem querer admitir para si mesmo que havia perdido suas presas. — AlĂ©m disso, se vocĂȘ nĂŁo tem uma chave, como vai remover a mĂĄscara?

— A chave foi algo que eu inventei. Eu disse para não ter medo. Agora, depois de dois anos, vou libertá-lo.

Antes que Orba pudesse retrucar, houve sinais de dedos se mexendo e tocando. Parecia vir de dentro do prĂłprio corpo de Orba.

Um som feroz ecoou. Parecia que o mundo inteiro começara a rachar, enquanto a måscara de Orba começava a se mover. Ao perceber que não sentia nenhum apego por terem estado juntos por esses dois anos, enquanto ela lentamente se movia para os lados, de repente caiu. Ela caiu com um som estranhamente doce e estridente no chão. Incapaz de se mover depois disso, Orba acariciou suavemente suas bochechas.

Era uma sensação deslumbrante, sem emitir som, e ele imediatamente cobriu os olhos com a mão. Embora parecesse que Hermann usara algum tipo de ataque mågico, na verdade, ele jå sabia a resposta. De alguma forma, isso era mais chocante para ele do que alguém mirando em sua vida a curta distùncia, o que fez seu corpo tremer.

Orba — amplamente reconhecido como um espadachim de primeira classe que, uma vez que pegava uma espada, não temia nada — irritou-se consigo mesmo por agora estar se assustando como uma criança e lentamente abriu os olhos.

Havia a figura de Fedom parada, imĂłvel. NĂŁo, nĂŁo era sĂł ele. O soldado presente e o pajem tambĂ©m estavam olhando fixamente, de boca aberta. Eles nĂŁo moviam um Ășnico mĂșsculo.

EntĂŁo, de repente, o jovem soldado se mexeu. Parecia que ele voltara a si, quando de repente se ajoelhou no chĂŁo.

— P-PrĂ­ncipe herdeiro!? — o jovem disse com uma voz trĂȘmula. — Isso… p-peço desculpas pela minha grosseria. Eu nĂŁo sabia que vocĂȘ era o prĂ­ncipe. Por favor, imploro seu perdĂŁo!

— ImpossĂ­vel — disse Fedom. Seu corpo gordo tremia por completo. — É impossĂ­vel! Mas… mas, Hermann. Ele nĂŁo se parecia nem um pouco assim antes. Mesmo levando dois anos em consideração, eu nunca esperaria uma imagem espelhada como esta…

— É por isso que se chama feitiçaria — Hermann riu com uma voz abafada. — Eu nĂŁo te disse? Com sorte ao seu lado, esse homem certamente se tornarĂĄ Ăștil ao mestre.

Por um tempo, nenhum som saiu da boca de ninguém.

Orba claramente perdeu a consciĂȘncia de sua voz e corpo. Ele timidamente tocava suas bochechas de carne e osso. NĂŁo havia toque de ferro. Aquela mĂĄscara dura e fria estava completamente ausente, substituĂ­da por uma pele quente e macia. Meio atordoado, Orba se perguntou se tudo isso nĂŁo seria apenas um sonho.

— Quer um espelho?

O Ășnico calmo, Hermann, indiscriminadamente revirou a mesa de Tarkas, pegou um espelho de mĂŁo e o jogou para Orba. Ao pegĂĄ-lo em suas mĂŁos, Orba olhou para ele com a respiração presa.

Um homem de rosto pålido e olhos estreitos o encarava. Esses dois anos, sempre que ele olhava em um espelho, apenas aquela måscara de ferro imitando um tigre aparecia diante dele. Inicialmente, ele sentiu que não havia como confundir isso com a realidade, mas logo, Orba teve uma sensação desconfortåvel que obstruía sua felicidade.

Era definitivamente seu prĂłprio rosto. E, no entanto, algo estava diferente. Embora seus olhos, nariz e boca certamente tivessem permanecido os mesmos, ele tinha a suspeita de que certos Ăąngulos sutis haviam mudado.

Dois anos se passaram. Era possĂ­vel que ele tivesse esquecido seu prĂłprio rosto?

NĂŁo… mas ele nĂŁo sabia o motivo disso. Afinal, ele tinha a sensação de que seus olhos estavam estranhamente afiados em comparação com antes, seus lĂĄbios haviam ficado um pouco mais finos e seu nariz parecia ter ficado ligeiramente maior.

— Bem, então.

Fedom quebrou abruptamente o silĂȘncio que fluĂ­a atĂ© entĂŁo.

— Se for assim, suas intençÔes nĂŁo serĂŁo mais um problema. Parece que vocĂȘ foi decidido hĂĄ dois anos. Por algum poder dos deuses, demĂŽnios, o Deus DragĂŁo antigo, ou talvez atĂ© uma existĂȘncia da qual nĂŁo sabemos o nome. Sem isso, vocĂȘ nunca poderia ser tĂŁo parecido.

No momento em que Orba sentiu vontade de perguntar sobre o que ele estava falando, Fedom imediatamente fez uma declaração.

— VocĂȘ jĂĄ nĂŁo Ă© mais este “Orba”. Claro, vocĂȘ tambĂ©m nĂŁo Ă© mais um espadachim-escravo. A partir do momento em que a mĂĄscara foi removida, vocĂȘ nasceu de novo como uma pessoa diferente. Mais do que isso, vocĂȘ nem Ă© um homem comum que se pode encontrar em qualquer lugar. Entendeu? A partir de hoje, vocĂȘ graciosamente se tornou o conhecido herdeiro do trono da Dinastia Imperial de Mephius, Gil Mephius!

Fedom imediatamente tirou Orba do campo de treinamento de gladiadores do Tarkas. Como tudo foi feito tĂŁo rapidamente, por um momento, nem parecia que ele havia sido libertado da escravidĂŁo. Estava mais para terem chegado a um acordo sem informar Tarkas sobre isso.

Como Orba obviamente não esperava que seu inferno como espadachim-escravo terminasse de repente dessa forma, ele não sentiu que realmente havia sido libertado. Mais do que isso, ele realmente não sabia em cujas mãos havia caído e quais planos para o futuro ele seria envolvido, como sempre aconteceu desde sua infùncia até agora.

Fedom possuía vårias mansÔes espalhadas pelo território de Mephius. Embora ele tenha levado Orba para uma delas, por algum motivo, Orba foi instruído a cobrir o rosto com um manto durante o trajeto.

Fedom levou Orba a um quarto com um tapete estendido por todo o chĂŁo, trancou a porta e disse que ele finalmente poderia tirar o manto. O soldado e o pajem que tambĂ©m estiveram no campo de treinamento eram os Ășnicos outros presentes na sala. O mago chamado Hermann havia desaparecido.

Depois que ele tirou o manto, todos os presentes mais uma vez olharam atentamente para seu rosto.

— NĂŁo importa quantas vezes eu veja… isso. Parece que alguĂ©m estĂĄ pregando peças na minha mente. Como se vocĂȘ fosse realmente o prĂ­ncipe imperial de Mephius, Gil, e estivesse me testando.

— Sou eu que nĂŁo entendo essa merda! O prĂ­ncipe imperial de Mephius!? Do que diabos vocĂȘ estĂĄ falando? Fale de um jeito que um gladiador como eu possa entender!

Orba estava ficando consideravelmente irritado. Sem se ofender com sua maneira insolente de falar, Fedom balançou a cabeça.

— Naturalmente — ele disse, e começou do início.

A histĂłria remontava a dois anos atrĂĄs. Do dia em que Orba foi preso.

Fedom, que era o Senhor de Birac, originalmente não daria atenção ao relatório sobre a prisão de Orba, jå que ele era apenas um criminoso insignificante, mas, por algum motivo, ele recebeu uma mensagem urgente dos guardas da cidade.

Mas quando ele deu uma Ășnica olhada na figura de Orba deitado em sua cela, nĂŁo pĂŽde evitar soltar uma voz de surpresa.

— VocĂȘ realmente se parecia muito com o prĂ­ncipe herdeiro de Mephius.

Fedom refletiu sobre isso por um tempo. Mesmo nos melhores momentos, o prĂ­ncipe herdeiro era conhecido por seus maneirismos excĂȘntricos. Embora ninguĂ©m realmente acreditasse que o prĂ­ncipe apareceria na arena como um gladiador, dĂșvidas sobre sua linhagem poderiam manchar a dignidade da famĂ­lia imperial e, no mĂĄximo, causar problemas no futuro distante, o que, por sua vez, poderia questionar a lealdade de Fedom.

EntĂŁo, ele decidiu esconder o rosto de Orba. Foi por isso que o fez usar aquela mĂĄscara especĂ­fica.

Claro, Orba acreditava que nĂŁo era sĂł isso. Embora ele estivesse surpreso ao ouvir que se parecia com o prĂ­ncipe herdeiro, parecia um pouco exagerado solicitar a ajuda de um mago.

A dor que parecia queimar seu rosto com chamas. A sensação estranha que ele teve de si mesmo ao tocar o rosto depois de remover a måscara. Eles não levaram todas essas coisas em consideração desde o início?

Seu corpo inteiro mais uma vez fervendo de raiva, Orba fingiu estar calmo.

— Entendo o motivo de ter que usar a mĂĄscara. EntĂŁo, qual Ă© o motivo de vocĂȘ tĂȘ-la removido?

— É como eu disse antes.

— Tornar-me o prĂ­ncipe? VocĂȘ quer dizer para me tornar um sĂłsia?

— Oh? Parece que vocĂȘ estĂĄ pensando corretamente. É exatamente isso. Se Ă© tĂŁo parecido com o prĂ­ncipe, deve ser capaz de servir Ă  nação simplesmente por isso. Acho que vocĂȘ deveria se sentir honrado. AlĂ©m disso, tudo serĂĄ em troca de sua libertação da escravidĂŁo, e de sua liberdade. Certamente nĂŁo hĂĄ mais nada a dizer alĂ©m disso.

— Mephius não deveria assinar a paz com Garbera? Outra guerra está prestes a acontecer?

— Um sĂłsia nĂŁo Ă© alguĂ©m Ăștil apenas no campo de batalha. Mas se vocĂȘ sabe da paz, tambĂ©m sabe sobre o casamento do prĂ­ncipe?

— É porque eu era um dos gladiadores.

— Bem, agora vocĂȘ seguirĂĄ para o Vale de Seirin por um motivo diferente.

Fedom explicou que parecia haver muitas pessoas dentro e fora do país que não estavam à vontade com o casamento. Por algum acaso, era possível que alguém tentasse interferir no casamento, causando deliberadamente um tumulto, e alguns deles poderiam tentar assassinar o príncipe herdeiro ou a princesa de Garbera.

— A probabilidade de que o perigo alcance o prĂ­ncipe Ă© alta. Naturalmente, pretendemos realizar uma unidade de guarda impecĂĄvel. No entanto, como querĂ­amos construir uma relação de aliança mĂștua o mais rĂĄpido possĂ­vel, decidimos por este casamento Ă s pressas. Decidimos usĂĄ-lo como um seguro, caso o pior cenĂĄrio aconteça.

Orba passou um tempo pensando. Parecia que ele havia sido colocado nessa posição em um prazo muito curto. O casamento seria em trĂȘs dias. Tendo sido apenas um gladiador hĂĄ pouco tempo, ele teria que agir como um prĂ­ncipe em trĂȘs dias.

Que histĂłria absurda!

Embora ele quisesse recusar, jĂĄ que a histĂłria nĂŁo parecia ter fundamento, se fosse verdade que a maioria das circunstĂąncias mencionadas eram segredos de Estado altamente confidenciais, isso jĂĄ poderia ser uma questĂŁo de vida ou morte para Orba. Se ele recusasse, significava a morte.

Antes, Orba jå havia trocado palavras ameaçadoras, mas seu oponente não havia sido dissuadido. Suor começava a se formar vagamente em seu rosto, exposto ao ar pela primeira vez em dois anos. Isto era diferente das lutas de gladiador até agora. Não era um oponente que ele poderia vencer apenas lutando.

O prĂ­ncipe de Mephius, hein…?

Um pensamento passageiro surgiu em sua mente. Seu coração batia violentamente do outro lado de seu peito largo. Orba inspirou fundo e, mais uma vez, manteve uma aparĂȘncia calma enquanto perguntava:

— Se eu tiver que ser um sósia, por quanto tempo terei que agir como o príncipe? E quanto à parte final da cerimînia de casamento?

— Por quĂȘ? VocĂȘ deseja pular para essa parte tĂŁo rĂĄpido? — disse Fedom, rindo satisfeito. — Escusado dizer, vocĂȘ nĂŁo pode se infiltrar na cama da princesa na noite de nĂșpcias. VocĂȘ terĂĄ que manter o papel atĂ© que julguemos que foi o suficiente. NĂŁo serĂĄ por muito tempo.

— Deixe-me perguntar mais uma coisa.

— O que Ă©? Fale.

— Onde estĂĄ a garantia de que vocĂȘ nĂŁo me matarĂĄ quando isso acabar?

— O quĂȘ?

— Se descobrirem que vocĂȘ usou um sĂłsia para um casamento entre membros da realeza, podemos assumir que isso mancharĂĄ o orgulho de Garbera e a guerra pode se espalhar novamente. AtĂ© a pessoa mais insignificante que sabe sobre o sĂłsia pode comprometer a histĂłria. Mas dizem que mortos nĂŁo contam segredos, certo?

Orba lançou um olhar para o soldado e o pajem dentro da sala. O pajem jå estava pålido, mas o soldado também mostrava sinais de tremor. Fedom fez um som de desaprovação com a língua, seu bom humor dando uma virada completa.

— VocĂȘ Ă© apenas um escravo, e ainda assim pretende fazer um acordo comigo? NĂŁo hĂĄ necessidade de se preocupar com coisas desnecessĂĄrias. Mas vocĂȘ estĂĄ certo, alguĂ©m pode agir como vocĂȘ diz. Obviamente, Ă© fora de questĂŁo deixĂĄ-lo ir, jĂĄ que vocĂȘ tem o rosto do prĂ­ncipe. No entanto, e digo isso porque nĂŁo contradiz o que eu disse antes, um sĂłsia nĂŁo Ă© Ăștil apenas no momento da cerimĂŽnia de casamento, certo? Embora geralmente haja alguns inconvenientes que possam dar razĂŁo para vocĂȘ cobrir o rosto, pretendo deixĂĄ-lo levar uma vida decente como uma pessoa sob minha proteção.

Orba ficou em silĂȘncio por um tempo novamente. Seu rosto se parecia tanto com o do prĂ­ncipe herdeiro que atĂ© mesmo Fedom ficou surpreso. EntĂŁo, certamente isso nĂŁo fazia parte de seu plano original. Mas, Ă© claro, isso de forma alguma levaria a uma garantia perfeita para tudo.

— Entendo — disse Orba, dando seu consentimento. — É um acordo. Essas nĂŁo sĂŁo condiçÔes ruins. No entanto, nĂŁo tenho confiança de que alguĂ©m serĂĄ capaz de me fazer memorizar os gestos apropriados para um prĂ­ncipe herdeiro.

— EntĂŁo Ă© um acordo, pelo que posso ver. As negociaçÔes estĂŁo concluĂ­das.

Dando um sorriso, Fedom saiu de seu lugar, como se nem tivesse vindo para ficar parado e olhar para os frutos de seu trabalho.

— Venha aqui. É por isso que trouxe meu pajem Dinn, que, para começar, ensinarĂĄ a vocĂȘ as etiquetas necessĂĄrias enquanto isso.

Um perĂ­odo agitado se passou para Orba nos trĂȘs dias seguintes. Ele nĂŁo precisava limpar os alojamentos, cuidar dos dragĂ”es, praticar sua espada ou se ocupar com outros trabalhos que desgastavam sua mente e corpo. No inĂ­cio, ele presumiu que a Ășnica correção necessĂĄria era simplesmente endireitar sua postura. Jogar o peito para frente, endireitar as costas e puxar o queixo para dentro. Mas ele tambĂ©m teve que se familiarizar com uma nova maneira de andar.

O pajem, Dinn, não só tinha traços encantadores, mas também demonstrava suas habilidades como um excelente treinador, dando a Orba ordens rigorosas passo a passo.

Usando partes de sua mente que normalmente nĂŁo usava, ele honestamente ficou tĂŁo exausto que estava sem fĂŽlego, mas outro tipo de treinamento o aguardava imediatamente depois.

Dinn pegou um espelho de mĂŁo. Quando Orba perguntou o que viria a seguir, o garoto entregou-lhe o espelho e disse:

— Como sorrir — enquanto lhe dava um sorriso.

Aquela agenda lotada, em trĂȘs dias, nĂŁo parecia poupar tempo para ele descansar a mente. Embora Orba nunca esperasse se tornar repentinamente um prĂ­ncipe herdeiro – parecia uma noção ridĂ­cula, toda vez que ele pensava em como havia sido jogado nisso – o lembrava de seu tempo como espadachim-escravo.

Eu vivi esses dois anos para quĂȘ? Fui ordenado como um cachorro estĂșpido a arriscar minha vida, matar outras pessoas, e para quĂȘ?

Ele continuou a jogar lenha na fogueira para manter a chama azul da vontade ardendo no fundo de seu coração.

Se eu fugir daqui, serei morto imediatamente ou, na melhor das hipĂłteses, voltarei a ser um escravo.

Era difĂ­cil perceber, jĂĄ que tudo aconteceu tĂŁo de repente, mas havia pelo menos um lado positivo. E se atĂ© mesmo uma Ășnica luz brilhasse em sua vida, jĂĄ que Orba havia caminhado e tateado no escuro todo esse tempo, era inegavelmente um sinal de progresso dentro dessa mudança drĂĄstica em seu ambiente.

Esses dois anos, ele quase se perdeu entre o sangue, vÎmito, fluidos espinhais e entranhas, sabendo que não poderia alcançar um lugar tranquilo. Mas não havia como ele parar de estender a mão, mesmo que o que ele visasse segurar fosse quase como tentar alcançar o céu.

Pelo menos, era isso que Orba acreditava. E assim, ele continuou a receber obedientemente a educação do garoto.

Quando o sol se pĂŽs, embora Dinn tambĂ©m o tivesse instruĂ­do a isso, ele se imergiu em uma banheira de ĂĄgua quente e limpou seu corpo. Ele podia esticar o corpo o quanto quisesse, e cortaram uma grande quantidade de seus cabelos negros desgrenhados que estavam amarrados nas costas. TambĂ©m barbearam seu rosto com uma navalha, e quando ele saiu da banheira, roupas Ă­ntimas de linho fino, uma tĂșnica de seda e calças de veludo estavam preparadas para ele.

Para dormir, ele recebeu uma cama tão grande que tinha espaço de sobra, mesmo que estendesse os braços e as pernas excessivamente. A cama o lembrava do toque das mulheres de pele clara com quem ele havia passado vårias noites quando ainda era o líder dos garotos.

Onde estou?

Enquanto vagava sonolento entre o sono e o despertar, Orba de repente ouviu sua prĂłpria voz dentro de si.

IrmĂŁo… nĂŁo consigo dormir.

Segure minha mĂŁo…

IrmĂŁo…

Vale de Seirin – a terra onde dizem que pisaram pela primeira vez neste planeta a partir da Nave de Imigrantes Espaciais. Era uma histĂłria da era mitolĂłgica, hĂĄ mais de quinhentos anos. Quando vocĂȘ ouvia o conto, parecia de fato uma terra sagrada, embora bastante exagerada, mas havia virtualmente dezenas de lugares com lendas semelhantes espalhados por todo o mundo.

O vale ficava em uma parte isolada ao sul. Escavado nos penhascos, havia um pequeno palĂĄcio construĂ­do de madeira e mĂĄrmore. Havia relevos rasos exibidos nas paredes da passagem que mostravam os muitos eventos lendĂĄrios que ocorreram desde o tempo da “descida sagrada” da nave espacial atĂ© a fundação de Mephius. Como eram decorados com muitos tipos de joias, as sombras se contorciam para frente e para trĂĄs sempre que eram iluminadas pelo fogo dos braseiros de ferro, fazendo parecer que estavam vivos e respirando.

E, o amplo salĂŁo aberto que ficava ainda mais no interior havia reunido uma enorme multidĂŁo de damas e cavalheiros. Embora estivesse dentro do penhasco, havia muita luz, e as luzes cintilantes de vidros suspensos estavam espalhadas por todo o lugar.

Um grupo de mĂșsicos mestres havia se posicionado em um canto e tocava vĂĄrias mĂșsicas, desde o estilo antigo atĂ© as mĂșsicas de ritmo acelerado atualmente populares, dependendo do pedido. VĂĄrias pessoas começaram a improvisar suas danças, e as risadas aqui e ali nĂŁo cessavam.

— PrĂ­ncipe — alguĂ©m o chamou.

— Sua Alteza, parabĂ©ns.

— Príncipe Gil!

— ParabĂ©ns pelo seu casamento.

Todas as pessoas se misturavam, embora o chamassem de “Sua Alteza” ou “PrĂ­ncipe Gil”, e o cumprimentavam com sorrisos. Orba fez exatamente o que lhe ensinaram quando foi confrontado com eles, dando um sorriso generoso e levantando levemente a mĂŁo em resposta.

Fedom estava caminhando perfeitamente perto de Orba.

— Ouça, Orba — Fedom dissera naquela manhĂŁ, quando veio buscar Orba de carruagem. Um ar tenso de um guerreiro pronto para lutar uma batalha atĂ© a morte pairava ao seu redor.

— Naturalmente, as pessoas que participam da festa do lado de Garbera, mas atĂ© mesmo as do lado de Mephius, nĂŁo foram informadas sobre sua verdadeira identidade. Afinal, nĂŁo sei de onde tal informação pode vazar. Mas o comportamento e tal da famĂ­lia imperial nĂŁo Ă© algo que vocĂȘ pode dominar em trĂȘs dias ou mais. VocĂȘ nĂŁo faz nada. VocĂȘ nĂŁo pensa em nada. VocĂȘ nĂŁo olha para nada. VocĂȘ se move quando eu digo e fala quando eu digo. Isso Ă© tudo. Entendeu?

Apesar de tudo, ele sentia que seu corpo de forma alguma estava acostumado com sua maneira de andar. Parecia-lhe difícil caminhar, mesmo comparado a ter os pés acorrentados.

Acima de tudo, eram as pessoas – as muitas pessoas. Elas estavam vestidas com roupas tĂŁo finas que seus olhos giravam, e nenhuma delas estava ignorando Orba. As que estavam por perto se curvavam, expressavam sua gratidĂŁo ou se aproximavam com as mĂŁos levantadas. E todas sorriam, dizendo a palavra “parabĂ©ns”.

As que estavam Ă  distĂąncia apontavam para Orba. Agrupando-se e conversando entre si enquanto o olhavam.

NĂŁo – nĂŁo era sobre Orba. A pessoa que eles viam em seus olhos e cumprimentavam com suas vozes nĂŁo era Orba. Ele entendia isso. Embora ele soubesse disso hĂĄ nĂŁo mais que trĂȘs dias, ainda achava impossĂ­vel se imaginar como o prĂ­ncipe herdeiro.

De repente, Orba até esqueceu como andar e mal conseguiu retribuir os cumprimentos de um de seus servos. No entanto, eles apenas interpretaram como um gesto encantador, aparentemente pensando que a tensão era causada porque ele estava prestes a ter seu primeiro encontro com sua noiva.

— Jogue o peito para frente um pouco mais — Fedom sussurrou obstinadamente em seu ouvido. — VocĂȘ nĂŁo Ă© um gladiador? Como pode ter medo de um lugar como este?

Ele queria chamĂĄ-lo de idiota, mas nĂŁo pĂŽde, e quanto mais ele se dava conta de sua maneira desajeitada de andar, mais seu rosto continuava a se contorcer. Longe de ter um comportamento digno de um prĂ­ncipe, Orba ainda nĂŁo havia se acostumado com seu prĂłprio rosto apĂłs remover a mĂĄscara de ferro.

Ele rapidamente desviou o olhar para a mesa, onde havia tanta comida disposta que, nĂŁo importa quantas pessoas estivessem neste salĂŁo, elas definitivamente nĂŁo conseguiriam comer tudo. Para piorar, nenhum prato estava vazio, pois se atĂ© mesmo um Ășnico prato vazio se destacasse, era imediatamente substituĂ­do por outro completamente cheio de iguarias.

Se ele estendesse a mão para pegar um punhado, provavelmente valeria mais do que a comida anual de um espadachim-escravo. Quando criança, ele só conseguia ver frutas coloridas e brilhantes penduradas nas beiradas, ou sentir o aroma fragrante de carne grelhada estimulando seu apetite, quando terminavam um trabalho muito grande. Mas, embora fosse apenas uma pequena quantidade, mesmo isso não era nada comparado à montanha de alimentos caros empilhados diante dele.

SerĂĄ que aqueles que comem essas coisas todos os dias sĂŁo os mesmos que queimaram minha vila?

Mesmo pensando nisso agora, ele nĂŁo podia deixar de se lembrar, jĂĄ que as famĂ­lias nobres de Mephius estavam gravadas em seu coração como alvo de seu Ăłdio por muito tempo, nossa gente mal conseguia administrar a colheita do ano, mas eles levaram a pequena quantidade de provisĂ”es que tĂ­nhamos em estoque, queimaram tudo e ainda mataram pessoas…

Orba apertou o punho com força sob as longas mangas de suas roupas cerimoniais.

Com rostos orgulhosos, eles afirmam que algo como essa quantidade desperdiçada de comer, beber, dançar e rir é civilização e o modo de vida nobre. Eles estão olhando para o meu povo com desdém, rindo de nós.

VocĂȘs todos podem morrer!

Seus filhos da puta sĂŁo bĂĄrbaros devoradores de homens. Vou botar fogo neste lugar. VocĂȘs podem assar nas chamas, eu nĂŁo me importo! Vou elogiar seu orgulho nobre se ainda conseguirem rir enquanto seus membros estĂŁo sendo devorados!

Uma onda de raiva passou por um momento, mas logo apĂłs a febre atingir o ĂĄpice, apenas o frio permaneceu.

Ainda nĂŁo.

Orba lutou para manter um sorriso no rosto enquanto rangia os dentes com dificuldade. Ele eventualmente os assaria e mataria, mas aqui e agora nĂŁo era o momento ou o lugar para agir.

No momento, Orba nĂŁo podia fazer nada. Essa situação de Fedom usĂĄ-lo como sĂłsia do prĂ­ncipe aconteceu tĂŁo rĂĄpido, mas algum dia ele encontraria uma oportunidade. AtĂ© lĂĄ, de certa forma, para conservar suas forças e como meio de obter informaçÔes, ele tinha que fazer o que Fedom mandava…

EntĂŁo, o barulho ao seu redor aumentou, e Orba, entendendo por experiĂȘncia que a atmosfera no salĂŁo havia mudado, tambĂ©m ergueu a cabeça. AtĂ© agora, o vento de seus olhares sĂł soprava contra Orba, mas agora havia uma rachadura na tampa.*

Uma Ășnica garota apareceu do outro lado do salĂŁo e, naturalmente, tambĂ©m atraiu os olhos de Orba. Acompanhada por uma mulher mais velha, ela entrou graciosamente com o rosto pĂĄlido inclinado.

— A terceira princesa de Garbera — Fedom sussurrou.

Embora Orba esperasse por isso, ele ainda nĂŁo conseguiu esconder sua surpresa.

Ela não é ainda só uma criança?

Esses foram os pensamentos honestos de Orba. Até os braços que saíam de suas mangas eram finos, mas, embora parecesse que ele poderia quebrå-los se apenas os agarrasse, por algum motivo ela não passava uma impressão frågil. Ele até sentiu a dignidade de tirar o fÎlego, com a coluna ereta e os longos cabelos balançando levemente ao longo de sua figura enquanto ela caminhava.

O vestido que ela segurava na barra tinha pouquíssimos bordados ou decoraçÔes requintadas, mas a falta de adornos não a impedia ou a tornava simples. O material de seda branca pura, na verdade, enfatizava ainda mais a pureza de sua beleza jovem e inocente, e sua sensualidade feminina.

— Princesa Vileena Owell. De fato, ela Ă© atualmente sua noiva. VĂĄ cumprimentĂĄ-la logo. NĂŁo seja grosseiro, mas tambĂ©m nĂŁo se rebaixe. VocĂȘ Ă© o prĂ­ncipe de Mephius, afinal.

Recuando um pouco no tempo, do outro lado estava a Terceira Princesa de Garbera, Vileena Owell.

Enquanto seguia pelo caminho atravĂ©s dos penhascos, assim como Orba, muitos olhares se voltaram para ela. Alguns deles soltaram suspiros profundos e lamentosos. Vileena, indiferente a eles de maneira quase infantil, ouvia a mĂșsica tocada pelos mĂșsicos enquanto caminhava em direção ao salĂŁo.

— Bem, acho que eles mostram pelo menos alguns sinais de civilização — disse Theresia, caminhando ao seu lado, enquanto inclinava a cabeça em concordñncia.

Sentindo o mesmo, Vileena também abaixou levemente o queixo e acenou com a cabeça.

— Mas, princesa, por favor, seja discreta com o que diz. No máximo, chame-os de “trogloditas sábios” ou “remanescentes de ogros que adoram matar uns aos outros”. — Theresia então, acrescentou, pensativa.

— Enquanto Theresia estiver perto de mim — Vileena riu —, seja em Mephius, num campo de neve remoto ou em qualquer lugar, com certeza nunca ficarei entediada.

Theresia, que estava próxima a ela desde o nascimento, sempre agiu como sua guardiã. Embora seus cabelos jå começassem a ganhar fios brancos, quando estava de bom humor, também fazia piadas perigosas como essas.

Ao entrarem no salão, Vileena ofereceu um sorriso diplomåtico enquanto vårios nobres do Império de Mephius se aproximavam para cumprimentå-la, e Theresia deu um passo obrigatório para trås, posicionando-se atrås de sua senhora.

Embora não fosse a primeira vez que ela trocava palavras com a nobreza Mephiana, até agora sempre havia sido de natureza beligerante. Portanto, a maneira superficial com que eles forçavam um ar de pessoas cultas a enojava. Quando os nobres se despediram, Vileena relaxou os ombros com letargia.

— Mesmo assim, eles parecem querer tipos bem tradicionais para suas mulheres. Quando a primeira delegação que fez o pedido de casamento mencionou meu prazer em pilotar aeronaves, seus olhos ficaram, bem, grandes e arregalados. Em Mephius, mulheres nĂŁo podem montar cavalos ou dragĂ”es, e parece que tambĂ©m nĂŁo podem usar roupas que nĂŁo cubram as pernas.

— Bem, então a princesa deve parecer bem masculina para eles. Sinto pena do seu parceiro, o príncipe Gil Mephius. Eles valorizam o “orgulho e a história” da família imperial, mas terão que aceitar que a princesa “marrenta” de Garbera, a pessoa que ficará ao lado do herdeiro do trono imperial, será feita imperatriz de todo o povo.

— É mĂștuo, somos dois iguais — disse Vileena, dando uma risada sem alegria, enquanto ajustava o enfeite no cabelo com a mĂŁo.

— Posso ser marrenta, mas o parceiro que tenho que acompanhar Ă© o primeiro prĂ­ncipe Gil Mephius, do ImpĂ©rio de Mephius. Nunca ouvi uma Ășnica palavra boa sobre ele. Mesmo que a delegação deles tenha falado bem, tentando glorificar freneticamente o prĂ­ncipe com lisonjas, foi uma cena lamentĂĄvel. Porque tudo o que disseram soou hipĂłcrita aos ouvidos, e parecia que nem eles mesmos acreditavam no que diziam.

Gil Mephius. Embora agora fosse um jovem de dezessete anos, era o primeiro herdeiro do trono imperial, destinado a assumir o Império de Mephius. Essa pessoa, que ela só havia visto em retratos, seria o marido de Vileena.

Eles se encontrariam face a face pela primeira vez agora. E no dia seguinte, de acordo com os costumes de Mephius, o ritual de casamento seria realizado no altar no topo do vale. Então, no terceiro dia, eles partiriam para a capital imperial, onde uma grande recepção seria realizada.

Não era apenas o casamento que seria consumado. Mais importante, com isso, a paz e a aliança entre Mephius e Garbera seriam estabelecidas. As batalhas que haviam florescido ao longo de dez anos finalmente chegariam ao fim.

É claro que atĂ© Vileena ansiava por isso, mas nĂŁo havia nenhum bom rumor sobre o prĂ­ncipe imperial que seria seu noivo. Diziam que ele era um covarde, nada parecido com seu pai — o atual imperador, Guhl Mephius —, que ele andava com seus jovens amigos, festejando noite apĂłs noite, e que exibia hĂĄbitos excĂȘntricos.

— Dizem que ele Ă© um tolo — Vileena havia declarado diante de seu pai quando ele lhe contou sobre o noivado.

Originalmente, um homem chamado Ryucown seria seu noivo. Ele era um general que comandava uma frota de aeronaves de guerra. Possuía uma coragem intrépida e era creditado por ter realizado serviços de destaque na guerra contra Mephius. Assim, o noivado dele com a terceira princesa Vileena tinha sido decidido durante os tempos de guerra.

Vileena também havia conhecido o homem em questão. Embora, francamente, seu primeiro encontro fosse algo tão dramåtico que até hoje era comentado no país, ela tinha apenas nove anos na época. Quando se reencontraram quatro anos depois, após o noivado ser arranjado, Vileena não tinha uma impressão clara do tipo de homem ele supostamente se casaria.

E entĂŁo, quando se viram novamente, Ryucown era uma pessoa incrivelmente tĂ­mida, em contraste com as histĂłrias ferozes de sucesso no campo de batalha. Ele nĂŁo conseguia pensar em uma Ășnica histĂłria para contar Ă  princesa do reino, e seu sorriso, quase como uma zombaria de si mesmo, era desajeitado. Ela nĂŁo sabia se gostava dele ou se o odiava. Apenas sabia que parecia um argumento adequado que seu casamento seria em prol de toda a nação.

No entanto, por vårios meses, a frente de guerra havia entrado em um impasse. Mephius e Garbera estavam secretamente progredindo nas negociaçÔes de paz. E apenas dois meses atrås, decidiram pelo noivado do Príncipe Herdeiro Gil com a Princesa Vileena.

Vileena tinha sentimentos conflitantes sobre isso. Por mais de dez anos, eles haviam lutado contra Mephius, e ela sabia por experiĂȘncia prĂłpria o quanto isso havia exaurido os soldados e o povo. Alguns cidadĂŁos e senhores locais apelaram por uma resistĂȘncia atĂ© o fim, mas, embora houvesse tambĂ©m alguns cavaleiros entre eles, eram uma minoria.

O pai de Vileena, Ainn Owell, o Segundo, nĂŁo tinha a personalidade audaciosa de Guhl Mephius. Diante de sua filha, ele apenas disse uma Ășnica palavra, “Por favor” e Vileena respondeu apenas com um, “Eu aceito”. Mas ela sabia que sua mĂŁe e Theresia estavam enxugando silenciosamente as lĂĄgrimas pelas suas costas.

Então, alguns dias atrås, sentindo como se sua mente e corpo estivessem sendo divididos, ela foi até seu amado avÎ, Jeorg Owell, para se despedir. A princesa orgulhosa e decidida, que adorava cavalgar e pilotar aeronaves, a quem ele até permitira manusear uma arma, e que nunca fazia concessÔes, havia se tornado como uma criança pequena diante do avÎ. Ela queria ser levantada para sempre em seu colo e encostar-se nele, para ouvir as histórias heroicas que ele sempre lhe contava.

No entanto, tudo isso foi deixado completamente de lado, e ela teve que vir para este lugar.

NĂŁo, podia-se dizer que era bom que ela pudesse proteger as memĂłrias de seu avĂŽ assim. Era por seu paĂ­s, por seu pai e por seu avĂŽ. Por eles, ela havia marchado para o territĂłrio inimigo com o espĂ­rito de uma cavaleira.

TerritĂłrio inimigo.

De fato, este era o inimigo. Até pouco tempo atrås, este era o país com o qual haviam cruzado espadas. Vileena estava agora no território desse inimigo.

Eles haviam matado muitas pessoas, algumas das quais ela até conhecia de vista. E, claro, o oponente pensava o mesmo, mas Vileena ainda não era madura o suficiente para deixar o passado para trås.

— Chegamos — sussurrou Theresia gentilmente em seu ouvido.

Vileena se acalmou. Havia muitas pessoas da nobreza de Mephius olhando em sua direção. No meio deles, estava um jovem vestindo roupas cerimoniais brancas.

— Aquele Ă© o Primeiro PrĂ­ncipe de Mephius, Gil Mephius.

— Sim — disse Vileena.

Suas bochechas eram puramente femininas, mas ela ainda estava tensa.

A outra parte também pareceu notar, e o nobre gordo ao lado do príncipe sussurrou algo em seu ouvido. Depois disso, ele se aproximou deles com uma expressão nervosa no rosto.

À primeira vista, o príncipe Gil não parecia ser o homem de mente frágil que os rumores pintavam. Ele tinha um rosto esguio, mas seu corpo parecia surpreendentemente robusto. Se apenas estufasse o peito com orgulho, pareceria um homem destemido e bonito. No entanto,

Aquele nobre que o acompanha estå tão colado a ele que parece precisar guiå-lo pela mão. Ele ainda é uma criança?

É claro que ela não fazia ideia de que ele tinha tido a mesma primeira impressão dela. Mas, para piorar, o príncipe parecia incapaz de se acalmar. Seus olhos vagavam para cá e para lá, como se fosse uma criança perdida procurando pelos pais.

Enquanto Vileena tinha a tendĂȘncia de olhar para a outra pessoa como se a estivesse avaliando completamente, recebeu uma cotovelada discreta de Theresia e rapidamente corrigiu sua expressĂŁo.

O prĂ­ncipe parou diante de Vileena. Ela baixou a cabeça, como era de cortesia, e esperou por sua saudação. No entanto, ouviu claramente uma Ășnica pigarreada, e nĂŁo parecia ter vindo do prĂ­ncipe. O nobre gordo de antes sussurrou novamente em voz baixa, e parecia estar instruindo-o sobre como cumprimentĂĄ-la.

Em uma ocasiĂŁo como essa, era de bom tom que a dama fingisse nĂŁo notar, Ă© claro, e pelo menos nĂŁo o constrangesse, ao encontrar seu parceiro de casamento pela primeira vez, e nĂŁo apenas os dois.

— É um prazer nos encontrarmos frente a frente, príncipe — disse ela.

Theresia abriu a boca surpresa. Indiferente, Vileena levantou levemente a barra do vestido com ambas as mĂŁos e curvou-se diante dele.

— Sou a filha do rei Ainn Owell, o Segundo, de Garbera, a terceira princesa Vileena. A partir de agora, adoraria me familiarizar melhor.

— Ah, sim.

Foi a primeira coisa que o príncipe disse. E então, hesitante e em voz baixa, ele se apresentou, com palavras mais vacilantes do que qualquer tipo de saudação que Vileena jå tinha ouvido.

Esse homem serĂĄ meu marido?

Ela havia treinado seu sorriso, mantendo meticulosamente a leve inclinação da cabeça, especialmente para este dia, apenas para ser vista como “modesta”. Uma raiva jorrou no coração de Vileena.

Mas, por outro lado


Um brilho de emoçÔes intensas começou a cintilar em seus olhos levemente abaixados.

Se ele Ă© um homem assim, talvez eu consiga moldĂĄ-lo Ă  minha vontade…

Se conseguisse manipular o prĂ­ncipe herdeiro, poderia eventualmente ser ela a puxar as cordas neste paĂ­s.

É como o vovĂŽ disse. Isso tambĂ©m Ă© uma batalha. Sem derramamento de sangue e sem tirar a vida de ninguĂ©m.

Se fosse possĂ­vel fazĂȘ-lo agir conforme sua vontade, poderia ser mais lucrativo para sua terra natal, Garbera, do que se tivessem vencido a guerra. Embora estivesse longe de ser uma luta com aeronaves ou armas, que eram sua especialidade, e ela teria que lutar em um campo que considerava seu ponto fraco, Vileena acreditava que, se estivesse totalmente comprometida em obter a vitĂłria, certamente encontraria um jeito.

Embora isso provasse que Vileena nĂŁo reconhecia que estaria travando uma “batalha feminina”, assim como nĂŁo via a diferença entre isso e um tiroteio, naquele momento, havia apenas uma emoção queimando ferozmente dentro dela.

Naquela hora, Theresia, que estava com ela desde criança, provavelmente foi a Ășnica que percebeu o significado por trĂĄs do sorriso de Vileena, que havia mudado. Sem saber que a mulher que se tornaria sua noiva escondia ideias tĂŁo assustadoras, o prĂ­ncipe Gil de Mephius, ainda cheio de tensĂŁo, continuou falando sobre coisas irrelevantes.


Tradução feita por fãs.
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