Rakuin no Monshou – CapĂtulo 1 – Volume 1
Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded
Light Novel Online – CapĂtulo 01:
[Sangue e Ferro]
O resultado foi decidido.
O anfiteatro de Ba Roux tremeu com os gritos dos inĂșmeros espectadores reunidos que rugiam com unanimidade do vencedor. Seus pĂ©s batiam contra o chĂŁo das arquibancadas da arena, criando um abalo sĂsmico que mais parecia um terremoto.
Enquanto o vencedor estava sendo banhado pelos aplausos apaixonados e barulhentos da multidão, aquele que recebera o destino oposto permanecia imóvel sob seus pés do campeão. Até que eventualmente, o corpo sem cabeça do perdedor foi fincado por ganchos e arrastado pelas mãos de dois escravos.
O sol ainda brilhava na arena, embora jå estivesse próximo da noite. Os rostos dos espectadores estavam cobertos de suor, refletindo a luz intensamente, como se alguém os tivesse banhado com óleo, e seus olhos também brilhavam com sede de sangue, pois previam que a próxima luta seria mais uma batalha até a morte. Quem ganhou ou perdeu a luta anterior, jå não estava mais na mente deles. Apenas o calor da batalha continuou a deixar um gosto eterno nas suas bocas, pairando sobre o ar e girando ao redor da arena.
â VĂI, VĂI!
â MATE ELE! MATE ELE!
Hoje foi mais um grande sucesso. Como as pessoas mais “virtuosas” que moram na cidade, para as quais as taxas de admissĂŁo nĂŁo eram mais do que o subsĂdio semanal de uma criança, puderam assistir aos jogos, mais de mil espectadores foram reunidos.
A próxima partida foi uma batalha montada. Dois homens armados com lanças, emergindo dos portÔes leste e oeste, e cruzaram entre si a grande velocidade. Na segunda investida, um deles foi arremessado de sua montaria e, enquanto tentava se levantar novamente, o outro rapidamente saltou de sua própria montaria para dar o golpe final.
Em seguida, dois homens quase despidos, começaram a travar uma batalha com as próprias mãos.
Eles eram Espadachins-Escravos, ou os chamados Gladiadores. Em compensação por arriscar suas vidas em batalhas pĂșblicas, eles receberiam alguns trocados e a quantidade mĂnima de comida necessĂĄria para sobreviver. Alguns deles, jĂĄ nasceram como escravos, enquanto outros foram jogados na arena por causa de seus crimes, e houve atĂ© aqueles que se candidataram pessoalmente para participar neste inferno na terra.
No entanto, se um gladiador fosse bem sucedido o suficiente para se tornar um veterano, ele receberia um tipo diferente de tratamento da multidĂŁo. Um desses, chamado Shique, era um gladiador bonito, popular entre as mulheres, e tinha acabado de vencer uma disputa. Ele era estranhamente pretensioso, curvando-se da maneira que um nobre faria e notavelmente, vozes estridentes surgiram da multidĂŁo.
â VocĂȘ viu isso, irmĂŁo? O Shique acabou de ganhar!
Esta foi a voz de uma garota ainda nos anos mais tenros de idade, sentada em uma das arquibancadas entre os assentos da primeira fila. Pilares altos, que se erguiam dos cantos da esquerda e da direita, sustentavam um teto que cobria o suporte. Somente aqueles que puderam pagar uma grande quantia em dinheiro puderam ver a partida desses assentos especiais.
Pelo que parecia, o jovem descansando o queixo nas mĂŁos ao lado dela, a quem chamou de ‘irmĂŁo’, nĂŁo estava satisfeito. Com um longo pano enrolado em sua cabeça, as pontas pendendo da esquerda e da direita, como um crente em Badyne, ele deixava a impressĂŁo de estar tentando esconder o seu rosto dos olhares curiosos da multidĂŁo.
â Ahh, foi exatamente como vocĂȘ disse. â Falou ele.
â O seu gladiador venceu. EntĂŁo, jĂĄ nĂŁo foi suficiente? Podemos ir logo e comer alguma coisa? Este lugar estĂĄ me dando uma dor de cabeça.
â Mas o espetĂĄculo estĂĄ apenas começando, nĂŁo Ă©? Ou vai me dizer que o cheiro de sangue o deixou doente? VocĂȘ, o sucessor das terras de Mephius?
â Meça as suas palavras.
NĂŁo preocupada com sĂșbita alteração do jovem, a garota deu uma risada zombeteira.
A luta seguinte jĂĄ tinha começando, por isso o jovem foi forçado a ficar depois de tudo e descansou as bochechas nas mĂŁos novamente com um olhar amargo no rosto. Quanto sangue tinha que ser derramado e quantos mĂșsculos suados ela tinha que ver antes de se cansar de tudo isso?
Ele ocasionalmente lançava tĂmidos olhares para a pele branca e o rosto atraente da jovem. Ela tinha uma inocĂȘncia que correspondia Ă sua idade, mas tambĂ©m uma estranha beleza sensual e madura que… era uma visĂŁo muito mais encantadora do que a da luta selvagem acontecendo logo abaixo.
Depois de duas batalhas, um novo palco estava sendo montado na arena. Uma estaca enorme foi fincada no centro da arena e uma Ășnica mulher foi presa ao topo. Ela era bonita e deixada propositadamente com roupas rasgadas. Cada vez que ela se contorcia de dor, seus seios e coxas balançavam, atraindo assobios do pĂșblico masculino efervescido.
No entanto, a mulher não estava em posição de se incomodar com seus olhares obscenos da plateia, pois ao mesmo tempo em que a estaca foi colocada, uma grande gaiola com aproximadamente a mesma altura foi trazida. Dentro, havia uma fera furiosa com cerca de sete ou oito metros de comprimento. Suas escamas verdes e viscosas refletiam à luz do sol.
Tratava-se de um enorme dragão. Criada através de repetida reprodução seletiva por seres humanos, esta era uma variedade conhecida como [Sozos], usada por Mephius inclusive na guerra. Seus dentes enormes e cerrados, e cada uma de suas garras se estendendo de suas seis patas, eram como espadas afiadas.
Provavelmente porque estava drogada, a besta parecia ter uma ferocidade atenuada e seus instintos suprimidos. Entretanto, ser atingido por seu enorme volume ainda causaria ferimentos graves. Além disso, parecia que ela poderia explodir a gaiola de aço como um brinquedo.
â Senhoras e senhores!
De repente, um orador em pé começou a discursar de cima do palco com um alto-falante. Provavelmente ansioso para terminar seu discurso antes que a fera se libertasse.
â A seguir, Ă© o inĂcio do nosso programa. Os grandes dragĂ”es uma vez vagaram pela terra e provavelmente estabeleceram nossa cultura. Mas agora, nĂŁo sĂŁo mais do que esta simples besta sedenta por sangue que estamos desprezando. NĂŁo hĂĄ o que temer. Somos as almas corajosas, as mais puras das mentes, que assumiram o controle do mundo apĂłs uma era de viagens espaciais! Nem pelas presas e garras do dragĂŁo â para nĂŁo mencionar seu sopro terrĂvel e mortal â seremos superados! Por favor, deem uma olhada nas evidĂȘncias. Eis as figuras destes homens destemidos que desafiarĂŁo este dragĂŁo do passado! Uma besta terrĂvel deixada por um deus falso!
Do portĂŁo leste, um Ășnico gladiador avançou. Nas mĂŁos do homem, que ostentava um corpo musculoso, havia uma bola de ferro conectada a uma corrente.
â Verne da Bola de Aço!
Os aplausos da platéia ficaram ainda mais altos, pois ele era um gladiador que podia se orgulhar de ser um dos lutadores mais famosos de Ba Roux. O homem com cerca de trinta anos e uma pele escura, respondeu acenando com a mão para as senhoras e senhores da platéia.
EntĂŁo…
â Ă o tigre!
â Olhem, Ă© o Tigre de Ferro, Orba!
Um espadachim, também sozinho, saiu, mas do portão oeste.
â Que cara mais excĂȘntrico. â Comentou o jovem sobre a mĂĄscara azul de aço que cobria o rosto do gladiador.
Como se imitando um tigre, pequenas presas se projetavam dos lĂĄbios da mĂĄscara, deixando apenas um pequeno espaço para a boca desse homem chamado Orba. Cortada em duas divisĂ”es, havia aberturas onde os olhos do tigre estariam, mas naturalmente era apenas os olhos de Orba que espreitavam. E, apesar de um tigre normalmente ter orelhas arredondadas, a mĂĄscara tinha extremidades pontiagudas para os dois lados â quase como se chifres saĂssem dos cantos.

No entanto, isso foi tudo; ele nĂŁo tinha outras caracterĂsticas que o distinguissem. Em comparação com Verne, ele tinha uma estrutura corporal quase que pobre, e ele sĂł segurava uma espada longa simples e comum em sua mĂŁo.
Os espectadores começaram a ridicularizå-lo, dizendo:
â AHAHA! Olhem para o corpo magro dele! Apenas um golpe da bola de aço vai esmagĂĄ-lo completamente!
â Dizem que ele arrancou a cabeça de Meier, o BarĂŁo, na Arena de Tidan, depois de apenas dois ataques. Vamos ver se ele faz o mesmo com o nosso Verne. Continuem lutando!
â Este Ă© o Tigre de Ferro, Orba. â Disse a garota, enquanto suas bochechas coravam de emoção.
â NĂŁo Ă© a sua primeira aparição em Ba Roux? Mas ele parece jĂĄ ser bem famoso. irmĂŁo, vocĂȘ jĂĄ o conhecia?
â Como eu deveria saber?
â Nossa, que resposta fria. Tudo bem, se vocĂȘ estĂĄ tĂŁo entediado por estar aqui, por que nĂŁo fazemos uma pequena aposta neste jogo? Talvez isso acabe te deixando um pouquinho interessado.
â Uma aposta, nĂŁo Ă©? De que tipo e como?
â Simples. Desses dois prestes a lutar, quem vocĂȘ espera ganhar?
â Isso Ă© muito estupido. Como vocĂȘ chamaria isso de uma aposta? AtĂ© eu conheço esse tal de Verne e o seu fĂsico Ă© muito melhor que o do outro cara. AtĂ© um amador consegue ver isso. VocĂȘ estĂĄ apenas querendo me enganar, apostando no vencedor, nĂŁo Ă©?
â Minha nossa, como vocĂȘ Ă© difĂcil de agradar! Mas tudo bem, vocĂȘ pode ficar de mau humor assim o quanto quiser. Eu atĂ© pensei em trazĂȘ-lo junto para que pudesse se distrair um pouco. Mas jĂĄ entendi, vocĂȘ odeia passar um tempo com a Ineli. Se for esse o caso, nĂŁo se preocupe, porque eu nunca mais o convidarei para nada!
A garota virou o rosto com raiva, quando o jovem tirou as mĂŁos do queixo em pĂąnico.
â N-nĂŁo, espera! A culpa Ă© minha. Deixa que aposto no espadachim mascarado. Ă isso que vocĂȘ quer, nĂŁo Ă©?
â NĂŁo. Ineli decidiu apostar nele primeiro. VocĂȘ pode ficar com a sua bola de aço, irmĂŁo.
â HĂŁ? Por quĂȘ?
â Porque eu gosto dele.
Mesmo que vocĂȘ nĂŁo consiga ver o rosto? – era o que o jovem estava prestes a dizer, mas se deteve a tempo. Ele nĂŁo podia dar ao luxo de desagradĂĄ-la ainda mais.
â Muito bem. â Disse o orador, levantando a voz novamente.
â Entre Orba e Verne, quem assumirĂĄ o papel do herĂłi para libertar esta mulher? Ou serĂĄ que esses dois rivais lutarĂŁo em vĂŁo, quando a gaiola se romper e esta pobre e bela dama acabar no estĂŽmago do dragĂŁo?
A partir daĂ, os dois espadachins lutariam entre si e o vencedor resgataria a mulher – ou, como o orador estabeleceu, “uma certa princesa de um paĂs em ruĂnas” – das garras do dragĂŁo, recebendo uma noite de amor como recompensa. Ou ao menos, este era o cenĂĄrio montado.
Os dois avançaram ao mesmo tempo e, ao se aproximarem, a falta de fĂsico de Orba ficou ainda mais aparente. Verne entĂŁo, falou com uma voz alta o suficiente para ser ouvida pelos espectadores que estavam nos assentos da primeira fila.
â EntĂŁo, vocĂȘ se considera um tigre, hein? Eu jĂĄ ouvi falar do seu nome, mas nĂŁo hĂĄ nada menos confiĂĄvel do que um boato. VocĂȘ pode tentar esconder seu rosto com essa mĂĄscara, sĂł que eu posso ver muito bem a pele que tem por baixo, se moleque.
Os lĂĄbios grossos de Verne se curvaram em um sorriso.
â Tenho certeza de que a mĂĄscara Ă© apenas um blefe para que as pessoas nĂŁo tirem sarro de vocĂȘ. VocĂȘ nĂŁo Ă© um tigre, Ă© apenas um vira-lata sarnento! Vou ensinar a vocĂȘ como se luta um homem de verdade!
Enfrentando Verne, que tremia os ombros de tanto rir, Orba não respondeu. Provavelmente achando que ele havia sucumbido ao nervosismo, Verne lançou um olhar zombador, assumiu uma postura defensiva e coloco a pesada bola de ferro ligada a uma corrente por cima do ombro.
â Começar!
A voz do orador ainda anunciava o inĂcio da luta, mas simplesmente desapareceu no meio da algazarra cada vez maior dos aplausos da platĂ©ia. Em um instante, Verne fez a sua jogada.
Ele arremeçou a bola de ferro com toda a sua força. A princĂpio, o espadachim mascarado estava prestes a avançar, mas, como se tivesse entrado em pĂąnico, ele de repente recuou. Houve uma pequena faĂsca quando a bola de ferro raspou contra a mĂĄscara e isso foi o suficiente para levar Verne a perseguir o atrapalhado Orba.
A enorme bola de ferro, que era muito maior que uma cabeça humana, se aproximou sibilando com o vento, mas Orba continuou a evitå-la dando um passo para trås.
Ele rolou no chĂŁo, pulou excessivamente para o lado e finalmente se precipitou fazendo um gesto evasivo – que convidou a risada da plateia.
â Olhe para isso, seu precioso espadachim estĂĄ completamente encurralado!”, disse o mesmo jovem. “Ou vai me dizer que a culpa Ă© da luta que nĂŁo foi justa?
â VocĂȘ acha isso? â A menina disse, olhando para a frente enquanto colocava um dedo nos lĂĄbios carnudos e floridos.
â Se Ă© assim, entĂŁo por que a partida nĂŁo terminou ainda?”
â Isso porque o oponente dele continua correndo de um lugar para outro.
â Eu fico curiosa para saber como Ă© que o Verne nĂŁo consegue alcançar um opoente tĂŁo desajeitado, vocĂȘ nĂŁo concorda?
O jovem queria dizer algo em troca, mas manteve a boca fechada. Enquanto observava, ele percebeu que Orba nĂŁo estava fugindo aleatoriamente, mas sim mantendo um circulo ao redor do seu oponente, garantindo uma distĂąncia fixa entre os dois. E nĂŁo sĂł isso, parecia que o Verne jĂĄ nĂŁo era capaz de atacar e perseguir seu oponente tĂŁo rĂĄpido quanto antes.
Provavelmente por ter perdido a paciĂȘncia, Verne colocou toda a sua força em mais um golpe, mas a bola de ferro perdeu o controle e voou apenas por cima do ombro de orba que â embora parecesse Ăłbvio para os espectadores que essa era uma oportunidade de ouro â apenas revidou com um leve empurrĂŁo da espada, se afastando mais uma vez em seguida.
â LEVE A SĂRIO!
â PARE DE BRINCAR!
A platéia parou de rir e começou a vaiar na arena. Não apenas para Orba, mas também para Verne, que não parecia capaz de derrubar seu oponente em constante fuga.
â SEU DESGRAĂADO! â Rugiu Verne.
Quando ele tentou correr na Orba na diagonal, a garota de repente levantou a voz, “Ah!”, Surpresa.
Orba, que até agora só recuara para trås, de repente começou a avançar. Parando de correr, Verne também aproveitou a oportunidade para dar outro golpe.
Ele então inclinou o corpo para a direita, evitando a bola de ferro e, enquanto girava com a ponta dos dedos do pé esquerdo, levantou a espada em um corte diagonal. No momento em que a corrente foi cortada, um som estranho e claro ecoou por toda a arena, então Orba torceu o corpo novamente e balançou a espada para baixo com a força de um raio.
O crĂąnio de Verne foi dividido ao meio e o gigante caĂu logo em seguida.
â M-MagnĂfico! â Gritou o orador.
No entanto, por ter acontecido tĂŁo de repente e a ter chegado a uma conclusĂŁo tĂŁo inesperada, o pĂșblico parecia um tanto perplexo. Embora o silĂȘncio constrangedor envolvesse a arena, o vencedor nĂŁo parecia se importar de qualquer maneira e subiu para a estaca e, emprestando as mĂŁos de vĂĄrios escravos para levantĂĄ-la do chĂŁo, usou sua espada para cortar as cordas que mantinham a mulher prisioneira.
Com um grito de alegria, ela se agarrou alegremente ao pescoço dele, apenas para ser afastada com um olhar confuso no rosto, quando Orba imediatamente começou a retornar ao portão dele.
A garota no assento especial – tambĂ©m estava olhando boquiaberta o fechar das cortinas para o espetĂĄculo – mas ela lentamente começou a formar em seus lĂĄbios um sorriso. Aquele gladiador chamado Orba, parecia alheio ao pĂșblico, como se afirmando que a Ășnica razĂŁo de ele estar aqui hoje era lutar e matar como lhe fora ordenado.
â Ele… matou o Verne.
â Com um sĂł golpe.
ApĂłs aquele momento de silĂȘncio, as vozes louvando Orba começaram a se levantar pouco a pouco. Agora que o clima deixou de ser desconfortĂĄvel para os visitantes da arena, eles lentamente começaram a aplaudir e abater os pĂ©s nas arquibancadas. EntĂŁo, quando tudo tinha quase voltado ao estado em que deveria ser, o ar tremeu violentamente.
Foi o rugido do dragĂŁo Sozos.
Talvez o efeito da droga tivesse terminado ou fosse uma reação instintiva ao cheiro de sangue, mas de repente, o dragĂŁo começou a balançar seu corpo enorme da direita para a esquerda, quebrando uma parte da gaiola. Um dos escravos que estava no processo de rebocar tudo foi agarrado por um braço enorme e seu torso desapareceu sem qualquer resistĂȘncia na boca do dragĂŁo.
O som de ossos sendo triturados pode ser ouvido e, ao mesmo tempo em que o som horrĂvel de deglutir ressoou, a arena foi inundada por gritos. No meio de todo o medo e pĂąnico repentinos, o Sozos estendeu os seus membros com bastante calma e emergiu da gaiola quebrada.
Sendo puxado para a multidão que se esforçava para ser o primeiro a escapar, o jovem de antes quase caiu no chão. Mas então, ele foi puxado por uma mão do lado.
â Por aqui! Depressa!
Era um dos soldados que guardava os assentos especiais. Enquanto balançava com uma espada e uma pistola, ele tentou trazer o jovem de volta para dentro.
â E-espera. E a Ineli!?
Embora tentasse resistir, ele conseguiu se mover livremente por causa da multidĂŁo tentando fugir que o arrastava.
EntĂŁo, ele ouviu um forte grito.
Para alĂ©m do muro de contenção que separava o pĂșblico da zona de batalha, a figura de ninguĂ©m menos que a prĂłpria Ineli estava parada diante das ameaçadoras patas do enorme Sozos. A garota que foi empurrada pela multidĂŁo para fora da galeria, ficou pĂĄlida ao ponto em que parecia que estar prestes a perder a consciĂȘncia a qualquer momento.
O focinho longo do dragão se abriu de cima para baixo. Quando as fileiras de presas, semelhantes a espadas afiadas e pontiagudas, se abriram, formaram longos fios baba. O jovem estava prestes a desviar os olhos involuntariamente, quando uma fina faixa de sangue jorrou do pescoço do Sozos.
Os guardas da arena chegaram carregando suas armas. No entanto, por estarem muito perto dos assentos da plateia, eles sĂł podiam atirar Ă queima-roupa e, do jeito que estavam, mal tinham coragem de se aproximar. Enquanto eles estavam em conflito com o que fazer, o Sozos se virou rapidamente e os atingiu com um Ășnico golpe de rabo, enviando vĂĄrios deles para longe.
A garota desabou no chĂŁo, com olhos arregalados olhando para os arredores.
EntĂŁo, por aqueles olhos, ela viu.
Uma sombra passando pelo flanco do Sozos como uma rajada de vento. Pouco antes de se chocar contra a parede de tijolos que separava os assentos do ringue, a sombra chutou contra a parede e subiu no ar. Um homem com uma måscara de ferro imitando a um tigre entrou na vista da garota, e a figura de Orba, o gladiador, pousou no topo da cabeça do Sozos.
Mesmo tendo acabado de testemunhĂĄ-lo correndo em direção ao Sozos por trĂĄs, enquanto o dragĂŁo estava distraĂdo pelas balas, ela nĂŁo conseguiu acreditar no que via.
Apesar do corpo magro de Orba, suas articulaçÔes e mĂșsculos pareciam fortalecer seus braços como aço quando ele segurou com firmeza o pescoço do dragĂŁo. Enquanto apertava ainda mais o pescoço entre as pernas, ele o segurou firme com um braço e, com o outro, enfiou a espada na cabeça.
O dragão girou sua longa cauda e abalou o chão batendo os pés, mas não importava o quanto lutasse, ele foi incapaz de se livrar do gladiador. Orba sacudiu a espada uma segunda vez. Então, sacodiu uma terceira, até que rasgou escamas tão duras quanto uma armadura de ferro, e pedaços de carne e sangue foram espalhados pelo chão. No entanto, a espada quebrou quando chegou ele a sacodiu uma quarta, mas foi bem na hora que os outros gladiadores chegaram correndo.
â ORBA!!!
Recebendo uma espada lançada por um espadachim de pele marrom, Orba mais uma vez a levantou para dar um quinto ataque, seguindo exatamente o mesmo processo de antes, enterrando completamente a lùmina bem no meio da cabeça do dragão.
Seus olhos dourados se reviraram para o céu e, pouco antes do enorme corpo da criatura desabar no chão, o espadachim desceu do pescoço, caindo ao lado dos assentos dos convidados.
A garota, ainda ajoelhada no chão, o encarava. Era quase como se ele viesse de um conto de fadas, pois ela se sentia como se fosse uma princesa apanhada por um bruxo malvado, e, apesar do olhar apaixonado dela, com um coração palpitante, de todas as coisas, o pretenso gladiador-herói continuou sua caminhada de volta para o ringue, ignorando-a completamente.
Ainda havia uma nuvem de medo pairando sobre a arena enquanto ele lhe mostrava as costas e se despedia, mas ao invés de exalar o ar de um vencedor, Orba parecia mais uma figura solitåria que dificilmente poderia suportar os olhares da multidão.
â I-Ineli! EstĂĄ tudo bem!?
Ela voltou os olhos para o jovem que havia trazido. Ele que veio correndo até ela com a respiração ofegante e de repente, uma sensação estranha tomou de conta dela. Embora só os tivesse visto de relance, os olhos por baixo da måscara do espadachim pareciam se assemelhar aos do jovem.
No meio de toda esta confusão, havia ainda um outro homem que concentrou um longo olhar nas costas de Orba, porém surpreso por um motivo diferente.
â NĂŁo pode ser… VocĂȘ ainda estĂĄ vivo?
Ele limpou levemente o suor do queixo com as costas da mĂŁo. De pĂ©, por trĂĄs do jovem – um homem que tambĂ©m estava nos assentos especiais – ele estava falando sozinho, maravilhado, enquanto o cheiro Ășnico de sangue flutuava.
â Orba, era assim que se chamava? Dois anos… Dois longos anos, hein…
â Dois anos…
O gladiador Orba, encarando a escuridĂŁo que o rodeava, murmurou essas palavras em sua boca. Apesar de fazer apenas dois anos desde que ingressou neste ramo de trabalho, ele jĂĄ estava atolado atĂ© o pescoço com as dificuldades, o sangue e os cadĂĄveres. Quantas vezes lutou por sua vida, apenas para ter os pĂ©s acorrentados, passar a noite nas senzalas dos escravos, onde seu Ășnico passatempo era treinar a manhĂŁ inteira para continuar vivendo como um espadachim-escravo? E entĂŁo, no dia seguinte haveria uma nova luta.
Ninguém, exceto o próprio Orba, esperava que ele fosse capaz de viver por mais de cinco batalhas. Dois anos atrås, quando pisou na arena pela primeira vez, ele só tinha quatorze anos. Seu corpo era ainda mais magro do que agora e mal conseguia segurar uma arma também.
No entanto, no momento da verdade, ele sobreviveu. Ele brandiu a arma em suas mĂŁos, escolhida entre as poucas que ele conseguia empunhar dentro dos limites de sua força. A Ășnica coisa que sabia era correr para cima do inimigo de forma imprudente, mas a medida em que ganhava experiĂȘncia, sua habilidade, a espessura de cada fibra muscular, o domĂnio de novas armas, bem como os cadĂĄveres do adversĂĄrio por onde pisava, aumentava toda vez em que emergia vitorioso.
Assim, dois anos se passaram. Orba não sabia se isso era muito ou pouco tempo e, às vezes, ele pensava que em si mesmo como uma pessoa consideravelmente velha. Ao mesmo tempo, ele também pensava que ainda era aquele garoto que não sabia nada sobre lutar até a morte.
De qualquer forma, talvez isso tenha a ver com o fato de ele não ter sido abençoado com a oportunidade de ver o próprio rosto. Deitado de bruços, ele ainda estava com a mesma måscara de ferro que usou no ringue de batalha. Por ela nunca ter sido removida durante esses dois anos, os outros espadachins-escravos do mesmo Grupo Gladiatorial Tarkas não tinham como saber sua verdadeira face.
â Levantem-se, seus escravos! VocĂȘs acham ruim ter de acordar dedo? Pois saibam que hoje vai ser o pior dia das suas vidas!
Quando a manhĂŁ chegou, outro dia para os escravos teve inĂcio. O supervisor geral dos escravos e responsĂĄvel por treinar os espadachins-escravos, Gowen, colocou todos para fora de suas celas e os fez limpar as acomodaçÔes.
Quando terminaram, ainda tinha os cuidados com os leĂ”es, serpentes, javalis, tigres e similares â em suma, todos os animais utilizados ââna arena. Em particular, cuidar dos dragĂ”es era um trabalho ĂĄrduo. Mesmo os dragĂ”es de pequeno e mĂ©dio porte eram demais para uma Ășnica pessoa, mas cuidar dos enormes Sozos de tamanho grande foi ainda pior. Embora fosse esperado que os escravos morressem pela espada, muitos tambĂ©m encontraram seu fim esmagados por esses dragĂ”es que foram propositadamente treinados para nĂŁo se acostumarem com seres humanos.
Orba pĂŽs os pĂ©s na enorme jaula dos dragĂ”es, que era muito maior do que as habitaçÔes dos escravos â muito, muito maior do que elas â que mais se assemelhava ao pĂĄtio de um castelo. No entanto, ele parou quando percebeu as costas de uma mulher.
O nome dela era Hou Ran. De todos os outros escravos ordenados a alimentar os dragĂ”es, ela foi a Ășnica que conseguia tocar diretamente as suas escamas. Obviamente, os dragĂ”es foram acorrentados nas suas pernas e no pescoço, mas isso nĂŁo era, de forma alguma, garantia de que o exemplo de ontem nĂŁo se repetiria. A uma distĂąncia que faria atĂ© um gladiador hesitar, ela cumprimentou cada dragĂŁo um por um, tocando gentilmente as escamas com a ponta dos dedos.
â Orba.
Dizendo o nome dele, ela rapidamente se virou.
â Parece que fui descoberto.
â Foi a “voz” dos dragĂ”es quem me disse.
Ran sorriu. Ela parecia realmente inadequada em um campo de detenção só para homens, sem mencionar os violentos espadachins-escravos. Orba ainda não tinha se acostumado com seu sorriso indefeso.
Sua pele como ébano polido, combinada com cabelos que pareciam ter empalidecido, emitia um charme misterioso. Originåria da tribo nÎmade dos adoradores do Deus Dragão, que vagavam pelas montanhas ao oeste de Mephius, diferente de seus parentes reclusos, Ran estava cheia de curiosidade sobre o mundo a fora e, por isso, embarcou secretamente em caravana que passava por perto de sua tribo. Como ela nunca o contou exatamente o que aconteceu depois disso, ele não sabia quando foi que Tarkas a comprou, ou como ela conseguia cuidar dos dragÔes sozinha assim.
â Eles sabem o meu nome?
â Suas “vozes” vĂȘm como imagens na minha cabeça. Todos conhecem o seu rosto, Orba. VocĂȘ Ă© querido pelos dragĂ”es.
Embora pareça tolice, os olhos de Ran passavam uma impressĂŁo profunda, como se o atraĂsse para as profundezas do mar. Ou melhor, como se possuĂssem algum tipo de conhecimento antigo, perdido para sempre pelos homens civilizados.
Do outro lado da cerca, os dragÔes de pequeno porte colocavam seus focinhos para fora da gaiola, rosnando e bufando para ele.
â NĂŁo Ă© assim que se parece â disse Orba com um leve sorriso.
Quando ele chegou, dois anos atrås, Hou Ran jå estava no campo de detenção. Naquela época, ela não fazia sequer contato visual com os outros escravos de Tarkas, muito menos abrir a boca para ele. Para ter um pouco de entretenimento, os escravos logo começaram a apostar se eles veriam primeiro o rosto de Orba ou a voz de Ran.
Mas, uma vez, Ran estava prestes a ser violentada por um grupo recém-chegado de Espadachins-Escravos, quando Orba chegou e espancou a todos. Desde então, ela vem ao menos trocado algumas palavras com ele.
â Ouvi dizer que vocĂȘ foi atacado por um Sozos em Ba Roux.
â Fui eu quem o atacou, na verdade. O Sozos começou a ficar violento.
â Mesmo com as drogas, Ă© inĂștil tentar aprisionar seu coração pela força. Se eu tivesse supervisionado, isso nunca teria acontecido.

Ela mordeu os låbios, mas não por estar frustrada pelo que aconteceu com Orba ou os espectadores. Com a figura da garota acariciando a nuca de um dragão da raça Baian no canto da vista, Orba terminou seu trabalho e deixou a jaula dos dragÔes para trås.
Após a alimentação dos animais e a limpeza, era a vez de conferir seus armamentos. Jå que suas vidas dependiam dessas armas, os gladiadores cuidadosamente conferiam uma a uma. No entanto, sempre que chegava a hora de fazer a manutenção, guardas fortemente armados ficavam de guarda, vigiando cada movimento deles. Naturalmente, essa era uma medida necessåria para evitar que qualquer revolta acontecesse.
EntĂŁo, depois de terminarem de comer uma quantidade lamentĂĄvel de pĂŁo e sopa â enquanto que os sobreviventes da lua do dia anterior eram servidos com carne e frutas como recompensa â eles começariam seu treinamento atĂ© o meio dia. Da mesma forma de quando fizeram a manutenção das armas, soldados foram colocados para vigiar, mas, havia uma diferença agora, as correntes que os prendiam pelas pernas tinham sido retiradas.
Espadachins escravos que sobreviviam por mais de dois anos como Orba eram extremamente raros. Vidas foram perdidas uma após a outra, enquanto novas faces iam aparecendo rotineiramente ao longo dos dias. Gowen os ensinava incansavelmente o trabalho de pés necessårio ao se manejar uma arma ou uma espada, e os acompanhava até que estivesse totalmente preparados.
Orba tambĂ©m engajava em lutas-treino com os recĂ©m-chegados. Algumas vezes, eles cruzavam espadas, assim como numa luta de verdade, e nĂŁo era incomum que alguĂ©m acabasse perdendo um pedaço dos seus membros ou Ă s vezes a prĂłpria vida no meio de um treino…
Hoje, porém não houve casualidades, mas isso não significava que eles estavam com sorte. No dia seguinte, um destino ainda mais miseråvel poderia acontecer e uma morte sangrenta os espreitava a todo instante.
Quando o rosto de todos os espadachins-escravos se nublou e suas peles se cobriram de suor e areia, Orba foi até a cerca que separava o campo de treinamento do corredor que levava até o outro lado, e avistou a figura de Tarkas.
Gritando “Descansar!” para um novato, Orba correu logo em seguida na direção dele.
Percebendo a aproximação do homem mascarado, Tarkas parou o que estava fazendo. Um sentimento de desconfiança era sentido em sua face envelhecida.
â O que vocĂȘ quer, Tigre de Ferro? Ah… bom trabalho ontem.
O seu rosto dizia que ele acabara de se lembrar que precisava jogar um osso para seu fiel cĂŁo.
â Verne se tornou um gladiador famoso muito rĂĄpido e por isso os outros grupos de gladiadores começaram insistir que gostariam de colocĂĄ-lo contra vocĂȘ. “Assim, nĂłs nĂŁo conseguirĂamos recuperar todo o dinheiro que investimos nele?”. NĂŁo me venham com essa merda! Bem, eu suponho que preciso agradecĂȘ-lo por se livrar dele por mim. Agora, quanto a ter matado aquele Sozos…
â Tarkas, quanto mais tempo eu vou precisar continuar ganhando?
â Como Ă©?
â JĂĄ faz dois anos e eu continuei ganhando o tempo todo. Quantas vezes vou ter que ser o “evento principal” como ontem? NĂŁo estĂĄ na hora de vocĂȘ tirar essas correntes dos meus pĂ©s?
Espadachins-escravos, todos eles, quando comprados, eram obtidos através de um contrato com algum um comerciante. Embora parecesse que Tarkas dificilmente lidava com isso diretamente.
â NĂŁo pense que eu nĂŁo saiba ler. AtĂ© um escravo deveria ter o direito de examinar o seu contrato. Eu tenho esperado aqui, Tarkas! Eu deveria ter saĂdo hĂĄ muito tempo!
Quando Orba falou isso na sua cara, Tarkas lançou um olhar furioso com os olhos.
â EntĂŁo, para onde planeja ir? VocĂȘ pode atĂ© escapar das minhas mĂŁos, mas ainda continuarĂĄ sendo um criminoso! VocĂȘ nĂŁo tem dinheiro para pagar a fiança da pena que ainda te resta. Ou talvez vocĂȘ queira trabalhar nas minas de Tsaga ao longo da fronteira oeste? Gases venenosos, bestas devoradoras de homens, tribos Geblin que caçam humanos e – Ă© claro – trabalho extremamente miserĂĄvel e rigoroso. VocĂȘ acha que um inferno assim Ă© melhor do que aqui? Se nĂŁo, entĂŁo trate de voltar logo para o treino e nunca mais fale comigo como se fĂŽssemos iguais! NĂŁo atĂ© que vocĂȘ tenha se tornado espadachim completo que ganha seu prĂłprio salĂĄrio!
Enfiando o dedo na cara de Orba, Tarkas rapidamente saiu, indo para o escritório. Atrås dele, rostos desconhecidos seguiram o exemplo. Considerando que este era um lugar onde as pernas estavam amarradas em correntes, provavelmente eram escravos recém-adquiridos.
Orba ficou calado. Seus olhos estavam cheios de raiva, no entanto, mas as palavras de Tarkas tambĂ©m nĂŁo eram mentiras. Em relação Ă lei de Mephius, vocĂȘ pode basicamente, vender sua vida ou ir para a prisĂŁo. Assim como as Minas de Tsaga das quais Tarkas falou – ele deveria solicitar o serviço pĂșblico do paĂs, acompanhado pelos perigos, e se vender como escravo lĂĄ?
Segurando a cerca com força em suas mãos, seus dedos acabaram ficando dormentes antes que ele percebesse.
Orba permaneceu ali parado no lugar.
â O que vocĂȘ estĂĄ fazendo, Orba!? Volte jĂĄ aqui!
Depois de finalmente ser repreendido por Gowen, ele voltou a praticar. Como sempre.
Poucas horas depois, após lavar o corpo com um copo cheio de ågua, chegou a hora da segunda refeição do dia. Orba, arredondando seu corpo como um corcunda no canto da sala de jantar, estava quase abraçando sua comida. Como håbito, ele não podia fazer uma refeição sem ler um livro.
Foi entĂŁo…
â Bom trabalho na luta de ontem, Orba.
Outro espadachim-escravo, aquele chamado Shique, chegou se apoiando nas costas de Obra, que logo empurrou para trĂĄs com a mĂŁo.
â Verne da Bola de Aço. Quando ouvi que a luta tinha sido arranja, eu nĂŁo sabia o que fazer. Cheguei atĂ© a considerar em atirar nele de fora da arena, caso vocĂȘ ficasse numa situação de vida ou morte.
â Fica longe de mim. A menos Ă© claro que vocĂȘ queira que eu esmurre essa sua carinha bonita.
â Wow, que assustador. Mas eu nĂŁo me importaria de ficar com uma cicatriz no meu lindo rosto se isso criar uma ligação entre vocĂȘ e eu.
Apesar do comportamento zombeteiro de Shique, era difĂcil de se dizer se ele estava falando sĂ©rio ou nĂŁo. De qualquer forma, Orba nĂŁo queria socializar com ele tambĂ©m.
O belo Shique deixou seus cabelos crescerem e usava até mesmo maquiagem antes de uma luta na arena, assim, ele se tornou extremamente popular entre as mulheres. Embora o mesmo se auto proclame um imenso misógino.
Rudy: Misógino é alguém que tem aversão a mulheres. à diferente de um Ginófobo, que tem um medo incontrolåvel de mulheres.
â Mas, eu nĂŁo esperava menos de vocĂȘ, Orba. Mesmo sem a minha ajuda, vocĂȘ conseguiu fazer uma performance magnĂfica. Isso nĂŁo te faz agora, tanto em nome como na realidade, o melhor gladiador de Tarkas?
â Eu nĂŁo diria que foi âmagnĂficaâ.
De repente, o homem encarregado de treinar os gladiadores, Gowen, fez a sua aparição. Embora Orba tivesse uma cara aborrecida quando ele se sentou na mesma mesa, a verdade era que não se incomodava.
â VocĂȘ se saiu bem, mas se arriscou demais. Quando partiu para cima, ainda era muito cedo. Ă pĂ©ssimo hĂĄbito seu partir para cima quando estĂĄ encurralado, mesmo que seja sĂł um pouco. VocĂȘ deveria colocar mais esforço em assegurar a sua dominĂąncia. Quanto ao Verne, embora ele fosse um espadachim brilhante, o ponto fraco dele era nĂŁo saber aproveitar as fraquezas do oponente. Qualquer um com mais experiĂȘncia iria facilmente perceber esse seu pavio curto e puxar o tapete dos seus pĂ©s.
Gowen era um homem com cabelos grisalhos no meio dos seus cinquenta anos, mas apesar disso, se corpo bronzeado era forte. Além disso, o olhar afiado que ele dava aos outros espadachins-escravos foi cheio de intensidade.
â Mas o oponente dele era o Verne. Querendo ou nĂŁo, aquele cara estava em perfeita forma.
Uma outra voz se juntou ao grupo. Desta vez, foi o gigante nĂșmero um do Grupo Gladiatorial Tarkas, Gilliam.
Ele esteve na mesma arena que Orba e Shique no dia anterior, carregando um machado de batalha no ombro, e com isso, os trĂȘs gladiadores mais fortes estavam reunidos. Com longos cabelos ruivos em tanta desordem quanto possĂvel, seu rosto, sorrindo com dentes cerrados, parecia tĂŁo intimidador quanto o de um leĂŁo selvagem.
â Quando soube que vocĂȘ tinha que lutar contra o Verne, sinceramente achei que vocĂȘ tinha ficado sem sorte. Bem, vocĂȘ nĂŁo tem habilidades ruins, mas, como sempre, nĂŁo sabe o que significa ser um gladiador. NĂŁo vale nada se vocĂȘ ganhar sem graça. NĂŁo vai satisfazer o pĂșblico assim. A maneira como tu continuou correndo de um lado pro outro e, de repente, decidiu a partida com um sĂł golpe, nĂŁo foi nada divertido. VocĂȘ precisa abater o oponente lutando de frente com ele.
Para um espadachim-escravo, nĂŁo se tratava apenas de vencer a partida. VocĂȘ tinha que ser popular, em suma, garantir que muitos espectadores viessem apenas para vĂȘ-lo. Gladiadores sem fama, depois de ganharem uma pilha de dinheiro para seus donos, seriam atirados contra dragĂ”es ou feras, apenas para satisfazer os desejos sĂĄdicos do pĂșblico.
Foi por isso que os gladiadores – todos eles – se esforçaram para aprimorar suas habilidades e tambĂ©m tentaram apelar para o pĂșblico com personalidades chamativas, a fim de sobreviver. Alguns decoraram seu corpo com armaduras berrantes, outros fizeram um show arrastando o coração de seu oponente apĂłs a morte, enquanto teve aqueles pintaram seus corpos com tatuagens misteriosas.
Quanto a Shique, ele afirmou dramaticamente ser “um descendente de uma antiga dinastia real”.
â Desta vez, venha contra mim, Orba. Vou te ensinar o que Ă© lutar de verdade!
â NĂŁo interessado.
â Haha, vocĂȘ tem medo de mim?
â Ah, como estou com medo. Muito, muito medo… Se estiver feliz agora, vĂĄ embora e nĂŁo em encha mais.
â NĂŁo fode comigo, seu pequeno bastardo!
Enquanto Orba continuava comendo com seu comportamento habitual, Gilliam o empurrou pelas costas.
â Pare com isso! â Ordenou Gowen.
Se houvesse qualquer perturbação, os soldados de Tarkas viriam correndo. E assim, Gillian fez a sua saĂda com a cara vermelha de raiva.
â Agora que parei para pensar nisso, um grupo estranho de novatos apareceu hoje.
Disse Gowen, depois que se lembrou o que aconteceu durante o dia. Aparentemente, ele se referia ao grupo que Orba viu seguindo Tarkas hoje mais cedo.
â Estranho? Tipo, com chifres no cabelo e um rabo enorme saindo das costas? â Perguntou um espadachim-escravo chamado Kain.
Ele era apenas um garoto, da mesma idade que Orba, que chegou por volta de um ano atrĂĄs e acabou se estabelecendo. Ele nĂŁo era muito forte fisicamente ou mesmo segurando uma a espada, mas mostrou grande destreza ao manejar pistolas ou rifles.
â Ou quem sabe, algum sobrevivente da tribo Ryuujin? Soa meio que romĂąntico, nĂŁo?
Rudy: Ryuujin, povo dragĂŁo. Outra parte importante do folclore Ă© a existĂȘncia de Geblins. Eles nĂŁo dĂŁo as caras na histĂłria, mas aparentemente Ă© alguma referĂȘncia aos Goblins.
â Ryuujins, Geblins, ou qualquer outra coisa que apareça, eu nĂŁo ficaria nem um pouco surpreso. Afinal, essa Ă© uma companhia de espadachins-escravos, um lugar para toda e qualquer raça.
â Na verdade, a histĂłria Ă© muito mais simples do que vocĂȘs imaginam. Pelo que eu ouvi dizer, nenhum deles tem qualquer habilidade com espada.
â Como Ă©?
Kain moveu os braços para os lados, indicando que não tinha o menor interesse.
â Eu quase nĂŁo acreditei quando me disseram que o Tarkas comprou um bando de inĂșteis sem nem pestanejar. Mas aparentemente, ele estava com um humor muito bom mesmo depois disso.
â Oh?
â Eu sei. AlguĂ©m como o Tarkas, que sempre fica hipnotizado pelo brilho do ouro, fazer algo assim pode soar estranho, nĂŁo Ă©?
â Mas, sĂ©rio. De bom humor? Aquele cara? â Disse Orba, se lembrando da reação de Tarkas hoje mais cedo.
â Eu o conheço a mais tempo do que vocĂȘs. A Ășnica coisa capaz de deixar aquele homem de bom humor Ă© a chance de fazer uma boa grana.
â Eu me pergunto se algum nobre veio visitĂĄ-lo sobre uma exibição ou coisa assim. Talvez esses novatos sejam de origem nobre e tenham sido trazidos por causar alguma ofensa polĂtica contra o ImpĂ©rio Mephius, ou coisa assim. Poderia ser, uma execução pĂșblica usando os dragĂ”es?
â VocĂȘ parece estranhamente animado com isso. Tanto que atĂ© acho difĂcil de ler a expressĂŁo no seu rosto.
â De qualquer forma, onde estĂĄ o meu livro novo? Faz trĂȘs meses que o pedi.
Perdendo o interesse na conversa, Orba perguntou sobre outra coisa e os demais tambĂ©m passaram a conversar sobre questĂ”es diferentes. AmanhĂŁ, eles provavelmente se enfrentariam como inimigos, mesmo sendo gladiadores Ă serviço do mesmo empregador. A ideia de aprofundar uma amizade mais do que o necessĂĄrio nunca esteve na mente de Orba desde o inĂcio.
â Ahh, jĂĄ foi comprado. EstarĂĄ aqui amanhĂŁ. No entanto… embora pareça um pouco tarde para dizer isso, vocĂȘ tambĂ©m Ă© meio excĂȘntrico. Entre os caras daqui, mesmo aqueles que sabem ler e escrever, duvido que algum jĂĄ tenham lido mais de cem palavras em tuda sua vida.
Devorando o pedaço de uma pele de galinha, Gowen olhou para Orba.
â Ăs vezes, atĂ© eu penso em arrancar essa sua mĂĄscara. Que tipo de rosto tem aĂ por baixo? HĂĄ momentos em que acho que vocĂȘ Ă© apenas um jovem pirralho selvagem e hĂĄ vezes em que acho que vocĂȘ Ă© um homem de cabeça fria que jĂĄ sobreviveu a inĂșmeros campos de batalha. Ontem foi assim. VocĂȘ tomou as açÔes apropriadas contra um Sozos sem vacilar um instante sequer.
â VocĂȘ estĂĄ me elogiando ou nĂŁo?
â Estou te elogiando. AlĂ©m de pegar uma espada e lutar por si mesmo, vocĂȘ considera as circunstĂąncias com calma. Embora, se nĂŁo fosse por esse seu pavio curto, eu acho que vocĂȘ serviria melhor como lĂder de um time. VocĂȘ gosta de livros sobre histĂłria e pessoas, fica absorvido nisso atĂ© tarde da noite e devora todo o conhecimento.
Quando eles se viram pela primeira vez, isto Ă©, quando Tarkas comprou Orba, o rosto dele jĂĄ tinha sido coberto pela mĂĄscara. Desde entĂŁo, ela nunca tinha sido removida uma Ășnica vez. Claro, todo mundo queria saber o motivo. Todo mundo queria ver o rosto por trĂĄs dela. Por isso, os escravos tentavam adivinhar qual era a origem daquele menino.
No inĂcio, Gowen estava preocupado que Orba e os outros escravos começassem a trocar socos por causa da curiosidade deles. Foi entĂŁo que meio ano depois, ele teve a ideia de espalhar o rumor de que âum feitiço colocou uma maldição naquela mĂĄscaraâ e assim, quando completou um ano desde a sua chegada, ninguĂ©m mais o questionou sobre isso. Embora, sempre que chega algum novato, a primeira coisa que eles fazem Ă© ir perguntar sobre isso, mas agora Orba jĂĄ Ă© capaz de ignorĂĄ-los completamente.
â O que Ă© que se ganha lendo um livro? Ao menos no lugar onde eu nasci, ninguĂ©m ganha mais respeito, independente de quantos desses vocĂȘ tenha.
â Isso faz parecer que vocĂȘ foi criado por alguma tribo de macacos ou de Geblins.
â Olhe como vocĂȘ fala comigo, Orba. Considerando as circunstĂąncias, eu acho que tenho sido muito bom com vocĂȘ. Se isso nĂŁo te agrada, entĂŁo posso muito bem adotar a sua mesma atitude.
Agir como se não tivesse entendido a piada era um dos håbitos que Gowen mais gostava. Orba respondeu com um sorriso no rosto, mas inesperadamente, o responsåvel por treinar os espadachins-escravos respondeu com um olhar ainda mais a sério.
â Normalmente, um espadachim-escravo se preocupa apenas em dar o melhor para viver outro dia. Alguns conseguem sair dessa vida infernal, mas, como a maioria nĂŁo consegue viver sem cometer algum tipo de crime, muitos acabam sendo gladiadores pela vida toda. Apesar de que a âvida todaâ, provavelmente serĂĄ bem curta⊠Mas vocĂȘ Ă© diferente, Orba. VocĂȘ nĂŁo se deixou ser engolido pela carnificina e continua focando no seu futuro. Eu sempre me perguntei o que falar para um homem assim? Deveria aconselhĂĄ-lo a esquecer disso e viver o agora? Mesmo depois de te ver insistindo tanto apesar do inferno em que vivemos? Ou serĂĄ que eu deveria te falar para nunca perder a esperança? Talvez isso te desse a coragem suficiente para superar isso.
â Velho, por acaso nĂŁo andou bebendo escondido? VocĂȘ estĂĄ muito mais que o normal hoje.
â Ei, eu estou tentando ser sĂ©rio aqui.
Gowen sacodiu a cabeça para os lados em desapontamento, mas Orba decidiu apenas considerar que ele tinha realmente ficado bĂȘbado. Afinal, o treinador dos escravos jamais permaneceria em silĂȘncio depois de ser chamado de âvelhoâ.
â Pelo que vocĂȘ luta, Orba? Pelos outros espadachins-escravos? Por si mesmo? Ou por algum outro objetivo em sua vida?
â E-Eu mesmo q-queria saber…
Gaguejando como uma criança, Orba desviou o rosto. Ele não queria que seus sentimentos internos fossem expostos.
Terminando o jatar, Orba saiu rapidamente do refeitĂłrio. Embora gladiadores pudessem andar livremente, nĂŁo tinha nada alĂ©m do refeitĂłrio e dos quartos no campo de detenção. Poiam chamar de “quarto”, mas a verdade era que nĂŁo diferia muito de um estĂĄbulo onde o gado ficava preso. Quando ele se deitou em um canto, Orba olhou para suas prĂłprias mĂŁos.
Fazia dois anos desde entĂŁo. Ainda hoje, ele conseguia se lembrar de tudo perfeitamente. E se ele nĂŁo tivesse vivido isso pessoalmente, esses “dois anos” nĂŁo seriam mais que um nĂșmero. Por dois anos, Orba mal se manteve vivo, cercado pelo cheiro de sangue, tripas e ferro.
No entanto, ele matou, sobreviveu, fez tudo de novo, e qual era o sentido disso tudo?
Ele se virou chĂŁo. Seu corpo jĂĄ havia se acostumado com a sensação da mĂĄscara dura tocando o solo. Foi como disse Tarkas, mesmo que deixasse de ser um escravo, ele nĂŁo sabia mais como viver uma vida “limpa”, mas parecia que Gowen tinha entendido uma coisa errado – Orba nĂŁo tinha esperanças para um futuro melhor. Tudo o que ele tinha era…
Sob a sombra fina formada pelas presas da måscara, Orba rangeu seus dentes com força.
Mesmo que eu sobreviva a tudo isso, o que vou fazer depois?
NĂŁo havia mais retorno. Ele jĂĄ estava cansado de repetir as coisas indefinidamente na arena. JĂĄ estava cansado dos massacres, do sangue, das lutas, de matar uns aos outros. Em seu caminho, ele nunca foi capaz de pensar que “estĂĄ tudo bem, nĂŁo importa” ou “com o tempo, ficarĂĄ mais fĂĄcil”.
Uma raiva inexplicĂĄvel emanava de seus olhos, do outro lado da mĂĄscara.
Eu vou pegar a minha vida de volta de volta. Eu vou tomar tudo o que Ă© meu outra vez. E para aqueles que tiraram tudo de mim, mesmo que nĂŁo seja o suficiente, farei com que experimentem toda a dor e os gritos agonizantes das pessoas que matei nos Ășltimos dois anos.
â EntĂŁo era aqui que vocĂȘ estava, Orba.
O irmĂŁo de Orba, Roan, mostrou seu rosto.
Orba, que estava olhando para o céu noturno, rudemente averteu os olhos. Como punição por ir brincar ao invés de cuidar dos animais, sua mãe o tinha deixado sem jantar e ele agora estava do lado de fora do celeiro, emburrado por conta própria. Seu rosto, assim como os joelhos com os quais enterrava a cabeça, estavam cheios de arranhÔes.
â VocĂȘ andou brigando de novo?
â NĂŁo, eu nĂŁo briguei…
Orba tinha um temperamento difĂcil e por isso sempre acabava entrando em uma briga com as crianças da vizinhança. Ele chegou ao ponto de ir atĂ© a aldeia vizinha carregando uma espada de madeira para brigar.
Os aldeĂ”es que o avistaram, correndo aos tropeços por entre os campos, riram dizendo “ah, lĂĄ vai o Orba de novo”, enquanto acenavam com as mĂŁos, o assistindo. Claro, depois de cada uma de suas brigas, sua mĂŁe o repreendia com um sermĂŁo que quase nĂŁo tinha fim.
â Por que vocĂȘ nĂŁo segue o exemplo do seu irmĂŁo!? â Era o que ela sempre dizia.
O seu irmĂŁo era capaz de fazer qualquer coisa. Quando pequeno, ele sempre folheava um livro velho que seu pai tinha trazido em uma das muitas viagens que fez para a aldeia vizinha e assim, memorizou cada linha que o pai lia, aprendendo a ler e a escrever por conta prĂłpria. Roan, tambĂ©m aprendeu, ainda cedo, a fazer cĂĄlculos simples de matemĂĄtica e assim, quando completou dez anos, conseguiu um trabalho como assistente de um comerciante depois de implorar muito. Com isso, ele passou a ajudar tambĂ©m nas despesas de sua famĂlia.
Orba, por outro lado, embora tivesse aprendido a ler e escrever com seu irmão, era péssimo em matemåtica e, acima de tudo, não sabia o que fazer com seu sangue fervente. Quase todas as noites, ele passava horas sem dormir, olhando para o teto. Seu sangue estava sempre gritando no escuro. Depois de cada briga, as suas feridas pareciam arder, como se este sangue ruim tentasse saltar para fora de suas veias.
Nessas horas, ele ficava de pĂ© e ia para fora, onde agarrava a sua espada de madeira encostada em um canto do celeiro. NĂŁo importava quantas vezes a mĂŁe confiscasse a arma de brinquedo do menino, Orba sempre fazia uma novinha do zero. NĂŁo era incomum tambĂ©m vĂȘ-lo balançando a arma atĂ© amanhecer.
â Eu nĂŁo me importo que vocĂȘ saia arrumando brigas.
Disse Roan, sentando-se ao lado dele.
â Mas vocĂȘ tem que ajudar em casa tambĂ©m. A vida de uma mĂŁe viĂșva Ă© muito difĂcil. VocĂȘ sabe nĂ©?
Em algum ponto ao longo da fronteira ao sul de Mephius, tinha um lugar conhecido como “Vale da Seca”. Embora um rio secar fosse uma ocorrĂȘncia bem comum em Mephius, neste lugar de terras ĂĄridas, cujo o nome fora esquecido pelos mapas, havia uma vila onde Orba cresceu.
Seu pai morreu quando ele tinha dois ou trĂȘs anos, por isso ele nĂŁo tinha qualquer lembrança dele. Tudo o que sabia era que o pai tinha morrido num desmoronamento, enquanto trabalhava escavando um tĂșnel na fortaleza de Apta, ao sul da vila. Perfurar os penhascos Ăngremes ao invĂ©s de construir edifĂcios, foi uma prĂĄtica comum na construção civil em Mephius.
âSeu pai nasceu apenas para cavar buracos no chĂŁoâ, ele lembrou que, um dia, sua mĂŁe lhe disse essas palavras em um tom que nĂŁo era nem de pesar ou ironia. Dito isso, ela mesma tambĂ©m nĂŁo era alguĂ©m que sentia prazer em uma vida de dar duro desde a alvorada atĂ© o crepĂșsculo, todo santo dia. Ela arava os campos estĂ©reis, uma vez ao mĂȘs vendia na cidade de Apta as roupas e toalhas que fazia, e cozinhava uma sopa quase insossa para os dois filhos, sem nunca se cansar disso.
Orba tambĂ©m vivia uma vida incolor, tendo como Ășnico prazer, a companhia de seu irmĂŁo quando o mesmo voltava para casa duas ou trĂȘs vezes por mĂȘs, trazendo muitos livros diferentes.
Livros sobre o Mundo Antigo, de quando a civilização humana deixou seu ninho, para explorar mundos novos. Livros sobre o Rei Mågico Zodias e, acima de tudo, romances históricos com ilustraçÔes coloridas ou histórias heróicas, deixaram Orba totalmente absorvido.
Bravos herĂłis balançando suas espadas para salvar reinos cheios de perigos, lindas donzelas em roupas finas, aprisionadas em torres altas, dragĂ”es ferozes revividos de antigas ruĂnas â coisas que ele nunca experimentou na vida e as muitas aventuras deslumbrantes que o deixavam perplexo. No entanto, ao fechar os livros, ele estaria de volta Ă quela pequena e miserĂĄvel rotina de desespero.
Ele ansiava pelos tempos antigos, como a época em que bårbaros, empunhando longas espadas, eram reis. Mas a verdade era que, desde o momento em que nasceu, foi decidido que Orba viveria sua vida bebendo åguas lamacentas e, se ele quisesse fazer mais no futuro, seria muito mais fåcil trazer os mortos de volta à vida.
â Sabe, irmĂŁo.
Disse Orba, enterrando a cabeça entre os joelhos envoltos por seus braços.
â Eu queria fazer algo muito maior. Muito mais importante.
â Orba, vocĂȘ nĂŁo tem nem dez anos direito. Esse tipo de coisa nĂŁo Ă© algo que combine com uma criança dessa idade, nĂŁo acha?
â Estou falando sĂ©rio! Olhe para os adultos em volta. Daqui a alguns anos, atĂ© eu vou ficar igual a eles. Dia apĂłs dia, vocĂȘ trabalha e trabalha, mas a vida nĂŁo melhora em nada. AĂ, mais cedo ou mais tarde, vou me casar e ter meus filhos e se a criança for um “menino rebelde” como eu, um dia ele vai me dizer que quer ir para a cidade, ser um soldado Mephian, ou pilotar uma Nave Garberan, e direi algo como, “ah, na sua idade, eu tambĂ©m sonhava com coisas assim”, e entĂŁo provavelmente rirei junto com os outros adultos enquanto bebo meu chĂĄ.
â Hahaha, mas todo mundo Ă© assim! â Roan riu, banhando pelo cĂĄlido luar.
A essa hora da noite, podia-se ouvir as vozes cantando, vindo da casa do outro lado da estrada. As vozes alegres de homens embriagados, depois de um dia duro de trabalho. Embora Orba não estivesse prestando a menor atenção nelas.
â NinguĂ©m sabe que tipo de criança o seu filho vai ser no futuro. Existem pessoas que nĂŁo conseguem viver sem trabalhar duro todos os dias, pessoas que navegam contra as ondas em um barco, velhos filĂłsofos que se enterraram em livros milenares, sacerdotes de Badyne pregando sua verdade as fiĂ©is, generais renomados voando pelos cĂ©us em aeronaves de pedra de dragĂŁo e atĂ© mesmo reis, subjugando naçÔes sob os seus pĂ©s. O que eles fazem Ă© tĂŁo diferente quanto o dia e a noite, seja encharcando suas espadas com sangue, se afogando em livros ou atĂ© mesmo invocando o nome de Deus. Nenhum deles vai ser capaz de te dar uma resposta.
â Ă claro que nĂŁo. Eles nĂŁo tĂȘm o menor interesse nas nossas condiçÔes de vida. AtĂ© mesmo o rei, que estĂĄ rodeado de luxos, os quais eu nunca terei em toda a minha vida, enche a barriga de comida deliciosa todas as noites sem nem se preocupar. Ăs vezes, ele leva um grande exĂ©rcito em uma campanha ou fica chocado com a traição de seus companheiros, mas todos os dias ele sente que estĂĄ vivo. JĂĄ eu, nem consigo imaginar em ter uma vida assim. Eu nunca serei capaz. Da mesma forma, nem os reis ou nobres conseguiriam imaginar vivendo as nossas. Essas pessoas… Sim, tome esta noite, por exemplo, eles nem mesmo considerariam olhar para a mesma lua que nĂłs, irmĂŁo.
â Eu me pergunto sobre isso… Pode ser que, exatamente porque o rei passa todos os dias assim, Ă s vezes, ele sinta vontade de morar longe da cidade. Talvez, para fugir da convivĂȘncia constrangedora da corte imperial, ele sonhe em ir atĂ© um bar fedorento e se afogar em vinho barato, ouvindo histĂłrias ridĂculas, enojado de que, todos os dias, nĂŁo consegue relaxar a guarda, nem mesmo para os seus parentes de sangue mais prĂłximos. E ele provavelmente vai pensar “Ahh, como seria bom simplesmente passar a vida suando a camisa em um trabalho ordinĂĄrio”, sem mais se preocupar em ser alvejado?
â Isso Ă© besteira. Quero dizer, por que ele iria querer uma vida que nem a nossa? SĂł porque ele nĂŁo conhece as dificuldades e inseguranças de uma vida assim. Isso nĂŁo seria um sonho, mas sim, um mero capricho dele.
â Exatamente. NĂŁo foi isso que eu te disse? NĂŁo existe um ser humano em qualquer lugar do mundo que entenda tudo, saiba o que realmente quer ou saiba quem ele realmente Ă©. Acho que todos anseiam pelo que nĂŁo sabem, pelo que nĂŁo experimentaram e tambĂ©m estĂŁo procurando onde quer que esteja seu verdadeiro destino. Nesse sentido, eles nĂŁo sĂŁo diferentes da gente, sĂŁo?
â Eu nĂŁo sei nĂŁo. IrmĂŁo, vocĂȘs estĂĄ querendo me dizer que atĂ© o rei, ou mesmo o grande sacerdote, Ă© alguĂ©m que nĂŁo estĂĄ completamente satisfeito com a vida?
Entretanto, quando o irmĂŁo estava prestes a responder…
â Que monte de baboseira difĂcil Ă© essa que vocĂȘs estĂŁo dizendo aĂ?
De repente, Alice apareceu, balançando levemente seu cabelo castanho escuro. Foi então que eles notaram que as vozes cantando da casa vizinha tinham parado completamente. Aparentemente, a garota tinha vindo mandå-los ir dormir.
Ao mesmo tempo, parecia que ela tinha escutado uma parte da conversa, dando um enorme sorriso antes de responder.
â No final, Ă© sĂł perda de tempo. Neste mundo, nĂŁo importa de onde vocĂȘ seja, em primeiro lugar, Orba, vocĂȘ tem que começar cuidando de sua mĂŁe e trabalhar com afinco, para que possa comer amanhĂŁ.
â VocĂȘ ouviu isso, irmĂŁo? Toda vez que uma mulher acha a conversa dos outros muito chata, ela diz que estĂŁo falando difĂcil, que Ă© perda de tempo, e jĂĄ vĂŁo logo achando coisas mais importantes para a gente fazer.
â Ahaha, isso Ă© verdade. â Riu Roan alegremente.
Alice era dois anos mais nova que Roan, mas trĂȘs anos mais velha que Orba. Quando eles eram mais novos, brincavam de casinha, onde a Alice era a mais velha dos trĂȘs.
Logo depois, eles começaram a falar sobre as memĂłrias daqueles dias. De quando, por sugestĂŁo de Alice, foram pescar no rio e a mesma quase se afogou ao escorregar nas pedras. Ou na vez em que foram dar uma olhada nos cavalos de uma caravana que havia chegado na aldeia e Orba inventou de tentar subir em um deles, fazendo os outros entrarem em um frenesi. Ou quando, porque um menino da outra vila falou que “viu um dragĂŁo selvagem”, os trĂȘs foram para o lugar do rumor e acabaram se perderam completamente no intrincado caminho do cĂąnion. Apesar de terem conseguido voltar para casa no mesmo dia, os trĂȘs tiveram que ouvir um longo sermĂŁo…
â Mas daquela vez, a culpa nĂŁo foi do Doug que mentiu para a gente? Falando nisso, desde entĂŁo o relacionamento de vocĂȘs dois tem sido bem ruim, nĂ© Orba? AtĂ© mesmo a sua briga de hoje foi com ele…
â Cala a boca.
Seu irmĂŁo tinha acertado bem na mosca, mas Orba apenas virou o rosto. A verdade era que a briga de hoje foi por causa da Alice, mas ele jamais admitiria isso…
No entanto, esse momento de felicidade, relembrando dos tempos em que eles brincavam juntos, foi a Ășltima vez em que Orba conseguiu conversar em paz com Roan.
Naquela tempo, a Dinastia Imperial de Mephius e o Reino de Garbera jĂĄ estavam em guerra. Rumores se espalharam de que a cavalaria Garberan tinha cruzado recentemente a fronteira e, apesar de os dois paĂses terem uma longa histĂłria de conflitos no que diz respeito Ă prĂłpria definição dessa fronteira. A Fortaleza de Apta ao sul, que ficava perto da aldeia de Orba, tambĂ©m tinha sofrido inĂșmeros ataques das tropas montadas de Garbera em vĂĄrias ocasiĂ”es.
Eventualmente, Garbera desistiu temporariamente de captura Apta e fingiu lançar um ataque por outra região.
Com isso, foi criada uma armadilha.
Visando-os quando a maioria das tropas estacionadas em Apta tinham sido realocada de volta para a capital imperial, os soldados Garberans começaram um cerco.
Naturalmente, a fortaleza foi obrigada à uma batalha defensiva desesperada. Para resistir até que reforços viessem da capital, o exército Mephian recrutou à força, homens nas aldeias vizinhas e o irmão mais velho de Orba, Roan, acabou sendo um deles.
Claro, sua mãe gritou, chorando. Se havia apenas uma esperança pela qual sua ela trabalhava duro em sua vida quase sem cor, provavelmente era o seu irmão. Embora tenha se agarrado aos soldados que tentavam tirar Roan deles, o irmão gentilmente colocou a mão no ombro dela e disse:
â EstĂĄ tudo bem, mĂŁe. A ajuda virĂĄ da capital imperial a qualquer momento. Por isso, a senhora tem que ser paciente atĂ© lĂĄ.
Além disso, o pagamento era muito melhor do que o de um assistente de comerciante, acrescentou ele com uma risada.
Orba, ao lado de Alice, estava se despedindo dele, observando as costas de vĂĄrios dos jovens da vila cruzando as camadas de rocha.
Se eu fosse um pouco maior â Orba pensou.
Eu poderia ir para a fortaleza no lugar do meu irmĂŁo. AĂ, mamĂŁe tambĂ©m nĂŁo teria que ficar tĂŁo triste e eu poderia atĂ© a vri a me destacar entre os soldados.
Depois que Roan partiu, sua mãe, que sempre foi tão devotada ao trabalho, passou quase todos os dias em oração, como se algo dentro dela tivesse se rompido completamente.
Embora, às vezes, ela se lembrasse de ficar na cozinha e preparar uma refeição, quando se tratava do menu, ela agia como se seu irmão estivesse prestes a retornar da cidade, preparando apenas a comida favorita dele. Mas quando a noite vinha e ele não retornava, ela jogava tudo fora, num acesso de raiva.
Enquanto isso, Orba arava os campos que tinham sido abandonados e tambĂ©m cuidava dos poucos animais por conta prĂłpria. Durante a noite, ele subia por uma estrada estreita, esculpida nos penhascos, e sempre olhava na direção da capital imperial, procurando as fileiras de armaduras reluzentes, as vastas nuvens de poeira deixadas pelos dragĂ”es militares em suas marchas e as figuras majestosas das aeronaves de guerra… Mas ele nunca teve a visĂŁo que esperava.
E, quando cerca de trĂȘs semanas se passaram desde que seu irmĂŁo partiu, os residentes de uma aldeia alĂ©m do vale, que era mais perto da fortaleza do que a vila deles, começaram a chegar, sem fĂŽlego.
â A FORTALEZA CAIU! â Eles gritavam.
A Fortaleza de Apta havia caĂdo perante as forças Garberans que se aproximavam. Eles disseram que os comandantes e os oficiais do exĂ©rcito fugiram, deixando os soldados para trĂĄs. NĂŁo houve reforços da capital imperial em Apta, pois eles tinham sido mandados para a cidade naturalmente fortificada de Birac, prĂłxima Ă ravina mais ao norte. Portanto, parecia que a capital imperial jĂĄ tinha decidido que aquele seria o coração da linha de defesa da fronteira sul. Apta tinha sido usada apenas para ganhar tempo.
E, em relação Ă s terras no meio do caminho, as forças Garberans que estavam acampadas na fortaleza, começaram a devastar tudo na vizinhança. Houve atos de pilhagem, assalto, estupros â uma invasĂŁo completa, por assim dizer.
As pessoas da aldeia recolheram seus poucos pertences e, embora quase não houvesse comida, jå que a época da colheita ainda não havia chegado, deixaram a aldeia às pressas. Os que tinham conhecidos nas proximidades correram para lå, enquanto os que não , refugiaram-se temporariamente no vale até que os soldados de Garbera fossem embora.
Obviamente, Orba os seguiu, mas no meio da fuga, percebeu que a mĂŁe nĂŁo estava por perto. Perplexo, ele voltou para a aldeia.
Além das rochas que se elevavam sobre a årea das colinas, ele podia ver o panorama completo de sua aldeia, afundando atrås da névoa noturna.
Ela tinha que estar lĂĄ. Ela tinha que esperar por seu irmĂŁo. IrmĂŁo este que provavelmente nunca mais iria voltar.
â Orba? Orba! Onde Ă© que vocĂȘ estĂĄ indo!? Orba! â Quando a voz de Alice gritou atrĂĄs dele, ele empurrou a multidĂŁo de lado e voltou com pressa.
Quando finalmente conseguiu chegar ao seu destino, nĂŁo restava uma Ășnica alma viva em sua vila. Ela ficou em completo silencio, como se estivesse morta. Aquele cenĂĄrio desolado, passou-lhe uma sensação sinistra, como se tivesse chegado a uma dimensĂŁo completamente diferente.
Do outro lado do vale, ele podia ver um grupo de homens e cavalos se aproximando, e por isso, Orba correu para sua casa com tudo o que tinha. Quando abriu a porta dos fundos, sua mĂŁe estava lĂĄ, preparando o jantar como de costume.
“Roan?” disse ela, virando-se. Mas quando seus olhos se fixaram na figura suada de Orba, seus ombros se encolheram, como se estivesse decepcionada.
â VocĂȘ ainda estava brincando lĂĄ fora, Orba? Vamos, me ajude, que o seu irmĂŁo vai chegar em breve.
LĂĄ fora, ouvia-se a rizada tenebrosa dos soldados perseguindo os animais que ficaram para trĂĄs. Com medo da fumaça que ia subindo, ele apressadamente tentou impedir a mĂŁe. Contudo…
â Mas que porra Ă© essa!? NĂŁo tem nada aqui!
â Que aldeia miserĂĄvel. Os caras em Gascon tiveram mais sorte. Eu ouvi dizer que eles conseguiram trepar com todas as mulheres.
â SerĂĄ que nĂŁo tem nem uma bebida para a gente refrescar a garganta? DĂĄ uma olhada por aĂ.
Assim que ele pensou ter ouvido aquelas vozes se aproximando, a porta foi violentamente derrubada.
TrĂȘs soldados entraram num estrondo, cada um deles equipados com uma cota de malha simples, lança e espada. Suas faces estavam enegrecidos pela poeira, deixando apenas os olhos refletindo a luz.
â Ei, gente! Achei uma mulher!
â Ah, mas ela jĂĄ nĂŁo Ă© velha? AlguĂ©m achou alguma coisa para a gente beber?
Depois de olhar para sua mãe, que segurava protetoramente Orba nas mãos, eles começaram a vandalizar a casa, fazendo o que bem entendiam. Orba estava completamente agachado, prendendo a respiração como um animalzinho tentando não atrair a atenção dos predadores.
Quando os soldados Garberans quebraram a porta, os olhos dele avistaram a espada de madeira, rolando pelo chão. Mas no final, não era nada mais do que um brinquedo de criança. Ele odiava, mais do que ninguém, ouvir esse tipo de coisa e estaria disposto a dar um olhar fulminante em qualquer um que o dissesse, mas agora, precisou lidar com a dura realidade.
EntĂŁo, enquanto os soldados vasculhavam as prateleiras, eles pegaram os rudimentares talheres de cerĂąmica de dentro da gaveta e os jogaram, fazendo um som alto, espalhando os pedacinhos quebrados pelo chĂŁo. Isso pegou Orba de surpresa, jĂĄ que eram as coisas que seu irmĂŁo Roan usava, e sua mĂŁe, que tinha sido submissa atĂ© agora, levantou-se com tanta violĂȘncia que o jogou para o lado. A partir daĂ, ela começou a se agarrar Ă s costas de um dos soldados.
â Ei, o que Ă© que vocĂȘ quer, hein?
â Heheh, parece que ela quer se divertir comigo.
Um soldado de rosto vermelho rasgou o vestido de sua mĂŁe, virou-a e tentou violĂĄ-la ali mesmo. Ele tapou a boca dela com a mĂŁo, quando ela tentou dar um grito e entĂŁo tirou uma faca pontiaguda de dentro de sua cota de malha coma outra, colocando-a bem na frente dos olhos dela.
â Pare com isso. Tem muita mulher mais bonita e mais jovem, por aĂ, te implorando para serem levadas para cama, nĂŁo tem?
â Sim, o gosto de mulheres jovens Ă© excelente, mas as velhas atĂ© que nĂŁo sĂŁo ruins.
Enquanto ele falava, seu rosto vermelho mostrou um sorriso vulgar. Foi entĂŁo que o fio de cabelo que impedia que o sangue ruim de Orba explodisse, finalmente se rompeu.
Soltando um grito estridente, ele avançou para cima do soldado em um golpe de desespero. No entanto, ele foi facilmente jogado para trĂĄs por um Ășnico braço.
Batendo com a nuca nas prateleiras, embora atordoado por um momento, Orba rangeu os dentes e se virou para frente outra vez. E, do topo da prateleira, havia algo que caiu com um estrondo. Algo longo e estreito, embrulhado em um pacote e, com a parte da frente rasgada, emitia um brilho prateado diante dos seus olhos.
Isto Ă©âŠ
Escondendo-o por reflexo, Orba rapidamente rasgou o pacote.
Como esperava, era uma espada curta, de cerca de sessenta centĂmetros de comprimento. O punho redondo tinha caracterĂsticas Mephian. Combinando com sua lĂąmina delgada, o cabo tambĂ©m era um pouco fino, cabendo perfeitamente na mĂŁo de uma criança.
Quando ele a segurou, vĂĄrias letras estavam gravadas na lĂąmina.
O, R, B, A…
Foi apenas por um instante – com os gritos de sua mĂŁe, o som do soldado de rosto vermelho removendo desordenadamente sua cota de malha e o barulho dos soldados destruindo a casa. Apesar da onda tenebrosa do sangue ruim fervendo em suas veias, ele afastou esses sentimentos na sua cabeça e, naquele instante, teve uma revelação.
A lĂąmina foi gravada apenas com âOrbaâ. Claro, ele nĂŁo sabia que tal coisa estava em sua casa e tambĂ©m nĂŁo achava que sua mĂŁe ou seus outros conhecidos teriam preparado algo assim especialmente para ele. Por tudo o que sabia, isso nĂŁo poderia ser outra coisa alĂ©m de um presente de seu irmĂŁo, Roan?
Mas Roan tinha dado todo o dinheiro em troca dos serviços militares para a mãe. Além disso, uma lùmina como essa não era vendida em uma cidade tão pequena como Apta. Provavelmente, depois de ir para a fortaleza, ele recebeu o armamento de soldado e pediu ao ferreiro que trabalhava no forte para gravar o seu nome.
E entĂŁo, deixou com a caravana que circulava da fortaleza para os vilarejos. Mas aĂ, quando chegou em sua casa, a mĂŁe deve ter recebi. No entanto, depois de pensar nisso, ela escondeu a espada para longe do alcance da vista de seu filho. Ela provavelmente achou que seria muito perigoso entregĂĄ-la para Orba, ou talvez tivesse ficado com medo de que se tivesse uma espada em mĂŁos, ele fosse embora como Roan.
De qualquer formaâŠ
â Ei, o que Ă© que vocĂȘ estĂĄ escondendo? â Gritou um dos soldados quando viu Obra agachado.
â Parece que vocĂȘ estĂĄ segurando algo valioso. Ei, por que nĂŁo me mostra?
â Isso Ă© meu!
â NĂŁo cabe a vocĂȘ, decidir! Vamos, me dĂȘ logo isso!
O soldado colocou a mão em seu ombro tentando tirå-lo do caminho com força.
Isso foi mais do que suficiente.
Vamos, venha! â Ele gritou internamente para si.
â Ei, eu disse para me mos- ARRRRRRRRGHHHHHH!!!
Virando-se, Orba balançou sua espada para baixo. Com sangue jorrando do ombro do homem, ele escorregou sob o braço do soldado e correu na direção do outro que estava violentando a sua mãe.
O homem de rosto vermelho desviou os olhos da mãe, saltou para trås e, pegando rapidamente um machado de mão, recebeu o golpe. Orba manteve-se firme e tentou fazer sua lùmina atingir o alvo, mas ainda assim, como a espada era curta e a força de uma criança jamais poderia empurrar um adulto armado. No entanto, em vez de ser facilmente superado, Orba escorregou para o lado.
â PIRRALHO DESGRAĂADO!
Ele desferiu outro golpe com intenção assassina. Orba rolou para o lado e depois de dar um giro, a ponta do machado fincou bem na frente de seus olhos. Naquele mesmo instante, seu sangue gelou.
â NĂO!
Sua mĂŁe agarrou-se aos pĂ©s do homem. Enfurecido, ele chutou as mĂŁos dela, virou-se e ergueu o machado ainda mais alto. Quando Orba viu aquilo, a tensĂŁo do seu sangue ruim – a ansiedade, irritação, raiva e outras vĂĄrias emoçÔes que estavam fervendo no corpo do menino por tanto tempo – estava prestes a ser liberada de um Ășnico ponto, como se tivesse sĂł agora tomado sua forma final.
Ele levantou-se. Segurando a espada com as duas mãos, forçou-a sob o braço lançou-se com todo o peso do corpo, nas costas indefesas do soldado.
Sem a cota de malha para protegĂȘ-lo, a espada entrou sem muita dificuldade. AtĂ© que entĂŁo, ele sentiu algo firme o barrando, mas, foi sĂł forçar um pouquinho com seus braços, que nĂŁo demorou para a ponta da lĂąmina emergir no peito do soldado.
O homem cambaleou, arrastando tambĂ©m Orba que, imediatamente soltou a espada. Batendo as cotas contra a parede, ele se virou para ver o rosto triunfante do menino. Depois, abriu e fechou a boca, provavelmente tentando dizer algum tipo de rancor, antes de vomitar uma grande quantidade de sangue. Com a lĂngua vermelha colocada para fora, ele nunca mais se moveu.
â FILHO DA PUTA!
O segundo soldado, o qual teve o ombro cortado, gritou furioso, fazendo uma careta de dor.
â VOCĂ MATOU O DOUGA, PIRRALHO IMUNDO!
O outro soldado entĂŁo correu para cima de Orba que, agora sem a espada, tudo o que ele podia fazer era receber o golpe do homem, caindo no chĂŁo e tendo o seu estĂŽmago chutado.
â MĂŁe e filho, vou pendurar a cabeça dos dois em cima do muro!
Orba ainda tentou rastejar para longe, mas o soldado ficou a ponta de uma espada bem ao lado do seu pescoço. Sua mãe também foi levantada, tendo a mão torcida e colocada na mesma posição ao lado dele. Não importa o quanto tentasse lutar, ele não conseguia se livrar do peso do homem pisando em suas costas.
â ME DEIXA EM PAZ!
â AH, Ă PRA JĂ! VOU FAZER VOCĂ DESCANĂAR EM PAZ DE UMA VEZ POR TODAS!
Orba deu um grito bestial de desespero em meio aquela situação de vida ou morte. No momento em que ouviu o som da lùmina rasgando contra o vento, vindo de trås, ele gritou o nome do irmão.
â ROAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNNN!!!
â O QUE ESTĂ ACONTECENDO AQUI!?
De repente, o som cortante do vento parou.
Embora a sua cabeça ainda estivesse confusa com tudo aquilo, ele sabia que não poderia ser o irmão.
Aquele que acabara de entrar na casa era um soldado Garberan, afinal. No entanto, ao contrĂĄrio dos soldados que invadiram, o homem usava uma armadura completa, com marcas de batalha por toda ela, no entanto, o seu brilho prateado ainda lhe dava um ar digno, junto com a face jovem sob o elmo.
Por um instante, ele viu os dois soldados recuando de medo por causa do novo intruso, mas, logo em seguida…
â Senhor Cavaleiro Aprendiz, Ă© exatamente como estĂĄ vendo.
â NĂłs estamos aqui para tomar a nossa merecida recompensa, depois de dar duto na batalha. SĂł porque vocĂȘ foi reconhecido e Ă© agora um âaprendizâ de cavaleiro, nĂŁo vai tentar tirar da gente o que Ă© nosso, vai?
Os dois responderam de volta, fingindo agirem de forma cortĂȘs, mas havia uma clara atmosfera de desdĂ©m vindo deles.
â AlĂ©m disso veja, nosso camarada foi morto. NĂŁo hĂĄ a menor possibilidade de deixar passar batido a morte de um de nossos valorosos guerreiros, hĂĄ?
O soldado que pisou em Orba e preparou a espada cortar fora sua cabeça. O que os seus olhos viram quando olhou para o teto, foi a ponta da espada que tiraria sua vida. Mas, de repente, um rastro de luz passou por entre eles.
â O QUE VOCĂ ESTĂ FAZENDO!
â Que pena. Vingança, nĂŁo Ă©? VocĂȘ acha que hĂĄ algum orgulho em matar uma criança?
O jovem com armadura havia desembainhado sua espada. Parecia que o homem tinha abatido aquele soldado, pois Orba percebeu que a espada que deveria ter perfurado seu coração caiu sem vida para o lado. O outro rugiu algo com uma voz rouca, o que parecia ser o nome do homem de armadura, mas ele não entendeu o que foi dito na hora.
â U-UM DOS NOSSOS…! COMO VOCĂ TEVE A CORAGEM DE MATAR UM DOS NOSSOS CAMARADAS!
â Camaradas…? Por favor, nĂŁo me coloque no mesmo nĂvel de lixo como vocĂȘs.
O soldado deu passo para trĂĄs enquanto o homem limpava o sangue de sua espada.
â Lixo, vocĂȘ disse? Mesmo vocĂȘ sendo igualzinho a gente… NĂŁo vĂĄ se achando sĂł porque teve a sorte de conseguir um feito distinto! Sempre repetindo, cavaleiro, cavaleiro, cavaleiro, como se fosse sua palavra favorita, mas quem foi que te deu esse tĂtulo!? VocĂȘ nĂŁo tem um pingo de sangue da famĂlia real! Nunca vai passar de um simples “Aprendiz” de cavaleiro! Saiba o seu lugar!
EntĂŁo, soldado que parecia estar recuando, rapidamente puxou algo de trĂĄs de suas costas e o trouxe para frente dele. Era uma besta, fixada em um pedestal longo e fino, e ele soltou o gatilho.
Naquele instante, o jovem virou-se agilmente para o lado. Dando um Ășnico giro, como se estivesse dançando, ele evitou por pouco a flecha e decapitou a cabeça do soldado. NĂŁo houve a menor hesitação. A cabeça decapitada girou no ar, atingiu a parede da casa e rolou no chĂŁo.
â Garbera Ă© um paĂs de cavaleiros. Em vez de contaminar ainda mais seu nome, receba a honra de morrer em batalha.
Sua bela aparĂȘncia, seu jeito de lutar e aquelas palavras que ele murmurava – era como se um herĂłi tivesse emergido dos livros que Orba lia o tempo todo.
â Comandante, o que Ă© esta comoção toda!?
A voz de alguĂ©m veio do lado de fora, mas o jovem simplesmente respondeu com “NĂŁo Ă© nada”, enquanto limpava a espada.
â VocĂȘ Ă© uma criança de Mephius?
Orba nĂŁo soube na hora, qual era a melhor resposta para dar, pois o nome do paĂs onde vivia, Mephius, nĂŁo foi algo fortemente atado ao seu cotidiano. Para as pessoas vivendo em sua aldeia, o mundo deles sĂł tinha um raio de dez quilĂŽmetros ao redor das casas, por isso elas nĂŁo estavam muito interessadas nas questĂ”es do paĂs ou nas disputas territoriais.
O homem deu a Orba um pequeno sorriso quando ele nĂŁo respondeu e olhou para o corpo do soldado mergulhado em uma poça de sangue. Orba congelou completamente enquanto segurava com força os ombros da mĂŁe. Ele começou a procurar se havia alguma arma ao alcance, quando…
â Fuja daqui o mais rĂĄpido que puder. â Disse o jovem.
â VocĂȘ fez isso para proteger sua mĂŁe, certo? Em seu corpo, habita a alma de um verdadeiro cavaleiro. Ao menos, bem mais do que o povo de Garbera, que parece ter esquecido completamente do caminho do âcavaleirismoâ. Vamos, fuja. Eu vou tentar impedir os saques o mĂĄximo possĂvel, mas nĂŁo tenho como segurar a todos por muito tempo.
Por algum motivo, os olhos deles o lembravam de Roan. Apoiando o ombro da mãe, que soluçava, Orba lentamente olhou para a porta dos fundos, então, puxou a mão da mãe e fugiu a toda velocidade.
O vento gĂ©lido do inverno que se aproximava, sobrou nas ruas desĂ©rticas de sua vila e tocou suas bochechas. Puxando a mĂŁe, que ficava o tempo todo repetindo “Roan, Roan” e, Ă s vezes, atĂ© gritando com ela, eles finalmente chegaram atĂ© Alice e o pessoal da aldeia estavam, apĂłs uma hora.
Depois disso, eles seguiram o pai de Alice e se dirigiram para uma aldeia que ficava quinze quilĂŽmetros ao norte, rio acima.
Orba nĂŁo sabia se o jovem de armadura tinha cumprido ou nĂŁo com sua promessa, mas pelo menos a partir dali, mais nenhum saque ocorreu no entorno de Apta, que mais tarde se tornou territĂłrio de Garbera.
No entanto, as chamas da guerra ainda assim os alcançaram.
NĂŁo houve qualquer sinal. De repente, “eles” atacaram com força total e imediatamente começaram a saquear. Homens vestidos de preto tomaram Ă força, roupas, provisĂ”es, bens, dinheiro, todas as coisas que poderiam ser arrancadas. E claro, pessoas tambĂ©m nĂŁo eram exceção.
Assim que chegaram Ă aldeia, pegaram as mulheres e qualquer homem que tentasse resistir seriam empalados por lanceiros a cavalo, ou decapitados com espadas ou mesmo levados ao fuzilamento.
Em meio a toda a confusĂŁo, Orba perdeu de vista sua mĂŁe. Assim que correu com angĂșstia e medo atrĂĄs dela, ele avistou…
â ALICE!
Alice estava tendo as mĂŁos amarradas atrĂĄs das costas. Mesmo sendo prestes a ser levada, ela ainda gritou para ele fugir.
Perdendo completamente o controle, Orba saltou para frente. A sensação de matar uma pessoa ainda permanecia em suas mĂŁos e agora ele decidiu fazer a mesma coisa de novo. Ele estendeu a mĂŁo para a espada que o soldado carregava…
Mas, no momento em que segurou a alça, um golpe forte o atingiu na nuca. O mundo ao redor começou a girar diante dos seus olhos e, quando a sua consciĂȘncia estava prestes a desvanecer, ele teve a sensação de ter ouvido a voz de Alice o chamando.
Quando acordou, Orba estava deitado de costas, com os braços abertos, no chĂŁo. Sua cabeça latejava dolorosamente e sua consciĂȘncia ainda estava um pouco turva, o fazendo questionar se tudo aquilo era um sonho ou nĂŁo.
â General Oubary, o que o senhor pretende fazer?
Ele nĂŁo sabia quanto tempo tinha se passado quando ouviu aquela voz. Entre os gritos de homens, mulheres e disparos ao redor, Orba secretamente espiou com os olhos entreabertos para o homem que tinha sido chamado de Oubary.

Em cima de um cavalo, uma pessoa tomava sem pressa uma garrava de licor, provavelmente saqueada de algum lugar. Ele era homem careca, vestindo uma armadura leve e elegante, com uma atmosfera majestosa ao seu redor. Apesar de sua figura selvagem e coerciva, ainda podia-se notar uma fina camada de batom violeta sobre os lĂĄbios do homem, dando a ele uma aparĂȘncia ainda mais estranha e assustadora em meio aquele cenĂĄrio infernal.
â Se jĂĄ pegaram tudo o que tinha de valor, queimem o resto. NĂŁo deixem um Ășnico grĂŁo de trigo para aqueles bastardos de Garbera.
Dizendo isso, o general jogou a garrafa de suas mĂŁos que caiu, se espatifando no rosto de Orba.
â A partir de agora, essa vila foi saqueada por soldados Garberans. Deixem que nossos homens se divirtam com as mulheres, mas nĂŁo se esqueça de ordenar quem matem todas quando estiverem satisfeitos. Nem mesmo pense em vender uma Ășnica como escrava, fui claro? Vou deixar isso sob a sua supervisĂŁo.
Em pouco tempo, os disparos e os gritos cessaram. O ar quente queimou a sua pele e um fedor pĂștrido encheu os seus pulmĂ”es. Quando Orba finalmente conseguiu se levantar, tudo o que ele viu foi um mar de chamas.
NĂŁo restava uma Ășnica alma viva, mas, mesmo assim, Orba continuou a se arrastar pela vila, chamando o nome de Alice e de sua mĂŁe, enquanto apagava com as mĂŁos nuas, as fagulhas das chamas que o vento trazia. No entanto, nĂŁo importava o quanto gritasse tudo que vinha do cenĂĄrio eram corpos de velhos, mulheres e crianças.
Oubary…
Com o lugar todo ardendo em brasa, o corpo de Orba ficou vermelho e sujo com a fuligem que caia de cima.
Oubary… da Fortaleza de Apta…
Ele se lembrou de jĂĄ ter ouvido aquele nome. Quando a fortaleza estava recrutando soldados com urgĂȘncia, os militares que apareceram na aldeia tinham dito que a segurança da fortaleza tinha sido confiada a um general veterano de guerra.
EntĂŁo, isso significava que quem atacou a vila foi o exĂ©rcito Mephian. Depois que a fortaleza caiu, as tropas, incluindo Oubary, fugiram para o norte, Ă frente das tropas perseguidoras de Garbera, e incendiaram a vila para onde Orba e os outros tinham escapado. Assim, eles tomaram de volta para a capital, tudo que era de valor, impedindo que caĂsse nas mĂŁos de Garbera.
Eu vou matĂĄ-los. â Jurou Orba.
Reunindo forças de onde jå não mais existiam, ele continuou caminhando, sendo alimentado apenas pelo desejo de vingança.
Embora ele nĂŁo tinha uma resposta clara se quem ele queria matar fosse Oubary, os soldados Garberans ou o Imperador Mephius, ou mesmo como atingiria esses objetivos, por enquanto, Orba continuou apenas caminhando.
Tradução feita por fãs.
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