Rakuin no Monshou – CapĂtulo 5 – Volume 2
Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded
Light Novel Online – CapĂtulo 05:
[Confronto de MĂĄscaras]
Orba deixou o campo de detenção ainda de madrugada. Seu combate seria à tarde, e a viagem de ida e volta ao palåcio levou cerca de duas horas.
Restavam apenas algumas horas para o inĂcio do espetĂĄculo. Nos arredores da arena, os gladiadores treinavam em grupos, preparando-se para a prĂłxima partida. Como no dia anterior, o lutador mascarado apareceu entre eles. E, como da Ășltima vez, tentaram ignorĂĄ-lo, embora, na verdade, nĂŁo conseguissem desviar os olhos daquela figura enigmĂĄtica.
O gladiador mascarado nĂŁo empunhava uma espada, nem se alongava. Limitava-se a circular pelo local, observando.
Desde que Pashir o insultou chamando-o de cão, os outros espadachins-escravos jå não viam Orba como um igual. Agora, ele era um inimigo a serviço de Mephius. E, de fato, a maioria dos olhares que o seguiam transbordava hostilidade.
Se Pashir, que odeia Mephius, estĂĄ tocando esse plano sozinho, entĂŁo deve estar alinhado com seus objetivos.
Era o que Orba suspeitava. Nesse caso, valia a pena aproximar-se dele e dos que compartilhavam desse ódio. Quem sabe até pudesse infiltrar-se no plano. Passou os dedos pelo rosto descoberto e começou a descer as escadas das arquibancadas. Sim, havia algum tempo que observava a arena de cima. E então, para aquele gladiador que circulava pelo terreno:
â Orba!
Chamou. NĂŁo pĂŽde evitar um sorriso irĂŽnico ao gritar o prĂłprio nome antes de saltar para a arena.
O gladiador mascarado aproximou-se. Consciente de que todos os olhos estavam voltados para eles, Orba prosseguiu:
â Devo dizer, vocĂȘ fez um Ăłtimo trabalho ontem. Encheu-me de orgulho. Mas nĂŁo pense que me contentarei com pouco.
“Orba”, ou melhor, o gladiador mascarado, permaneceu em silĂȘncio.
â Seu oponente hoje Ă© Gash, um veterano da guerra de dez anos contra Garbera. Dizem que decapitou cem homens no campo de batalha. Um monstro, temido como a Fera DemonĂaca dos Cem Mortos. Foi libertado da escravidĂŁo por seus serviços… e depois escravizado novamente por assassinar seu comandante. O povo estĂĄ ansioso para vĂȘ-lo em ação. Entendeu? O que todos querem Ă© ver aquele “herĂłi” cair diante da espada do novo campeĂŁo, vocĂȘ. E assim, meu prestĂgio como seu patrono subirĂĄ ainda mais. Escute bem, mate-o de forma rĂĄpida e limpa. NĂŁo quero um combate equilibrado. Um sĂł golpe. Entendido?
Na verdade, o gladiador mascarado nada disse, mas fingiu concordar. E entĂŁo, diante de todos, Orba arrancou-lhe a mĂĄscara com um tapa violento.
â NĂŁo me responda, escĂłria! JĂĄ se acha um herĂłi? Sabe quem foi que te tirou da escravidĂŁo? Gash Ă© forte? Sim, admito que nĂŁo Ă© fraco, mas se vocĂȘ nĂŁo for capaz de matar esse tal “grande guerreiro”, entĂŁo nĂŁo tem mais utilidade para mim! Em menos de um minuto, farei vocĂȘ voltar a ser um escravo! Entendeu?
Gritou com toda sua arrogùncia, deixando o guerreiro mascarado para trås e então, lançando um olhar fugaz aos gladiadores ao redor, que o encaravam com ódio.
â Tudo pronto â murmurou, dirigindo-se entĂŁo ao covil dos dragĂ”es, que ficava prĂłximo da arena.
As feras usadas nos jogos eram mantidas em jaulas. Havia algumas visivelmente maiores, porĂ©m ainda vazias. No Ășltimo dia, dali a dois dias, os escolhidos como Clovis e Felipe liderariam duzentos escravos contra vĂĄrios dragĂ”es adultos. As jaulas deviam estar preparadas para isso.
â Orba.
Hou Ran chamou-o pelo nome. Embora não houvesse ninguém por perto, ele ergueu os dedos aos låbios, em alerta.
â Shh!
Ela, divertida, imitou o gesto.
â Que complicação, ter dois nomes. Os dragĂ”es nĂŁo associam significado aos sons, mas posso ensinar-lhes o conceito. Qual deles devo usar?
â Escolha um.
Por mais irracional que fosse, guardava rancor de Ran. Mas agora jĂĄ se esquecera disso.
â E entĂŁo, qual Baian eu montaria melhor?
A batalha contra Gash nas semifinais seria montado em um dragão de porte médio. Algo que até Orba só experimentou poucas vezes.
â Se procura os acostumados a cavaleiros, hĂĄ alguns. Foram treinados para guerra e obedecem a comandos. Mas este aqui seria melhor para vocĂȘ.
Acariciou o focinho do Ășnico dragĂŁo que insistia em espreitar entre as grades. Seus olhos amendoados estreitaram-se.
â Lembra dele? JĂĄ o montou antes.
â Lembro.
Assentiu, embora nĂŁo reconhecesse o animal. Como Ran disse, quando ainda era um espadachim-escravo, chegou a montar um Baian. Logo depois, Fedom apareceu e o transformou no sĂłsia do prĂncipe.
â Este aqui Ă© o melhor para vocĂȘ. Ele estĂĄ afeiçoado a vocĂȘ. Viu? EstĂĄ tĂŁo feliz por causa da sua presença.
Os olhos do Baian brilharam. Ele bufou com a lĂngua oscilando entre as presas.
â …NĂŁo estou percebendo. Como sempre.
Falou, despreocupado. Ganhar o afeto de um dragĂŁo era o mesmo que ser visto como comida.
â Por outro lado, qual seria o mais difĂcil de dominar?
â O que farĂĄ se eu disser? â Ran franziu a testa, intrigada. â Vai empurrĂĄ-lo para seu oponente?
â E se eu o fizer?
â Covarde.
â Chama-se estratĂ©gia. â Orba sorriu, mostrando os dentes brancos.
Depois disso, retornou ao palĂĄcio e, ao entardecer, voltou para a arena, mas desta vez, Ă© claro, trajando sua mĂĄscara de tigre e armadura de couro.
No dia seguinte, os quatro finalistas seriam escolhidos para os tĂtulos de Clovis e Felipe, enfrentando-se em duelos individuais. Naquele dia, as arquibancadas para os nobres estavam um terço ocupadas devido as eliminatĂłrias que definiriam os quatro finalistas.
Pouco antes do meio-dia, o imperador Guhl Mephius apareceu, acompanhado por vĂĄrios vassalos. O soberano nĂŁo era particularmente fĂŁ dos jogos e, no ano anterior, raramente comparecera, exceto na final. Todos comentavam que Orba tinha despertado seu interesse.
Mas quem talvez chamasse ainda mais atenção que o imperador era a presença de Vileena Owell. Como nunca compareceu a eventos pĂșblicos atĂ© entĂŁo, a platĂ©ia chegou a esquecer momentaneamente os combates para admirar a princesa estrangeira.
Entre as lutas do dia, ocorreria a cerimĂŽnia de maioridade.
Quatro jovens nobres, todos com doze anos ou mais, apresentaram-se. Romus, filho de Rogue Saian, era o mais novo. Mas quem mais chamou atenção foi Lannie Lorgo, segunda filha do Comandante Odyne Lorgo. A garota demonstrava coragem inquebrantåvel, nem pestanejando quando trouxeram o dragão até ela.
O pescoço do Baian estava envolto em correntes, seguras por soldados musculosos. Lannie saltou sobre o dorso da fera e a controlou com facilidade. Ao ser ovacionada, fez uma reverĂȘncia digna de uma dama.
Ao descer, sorriu para Romus, que aguardava sua vez, e sussurrou algo em seu ouvido. Para quem observava, parecia estar dando conselhos e encorajando o garoto.
â ParabĂ©ns por nĂŁo ter fugido como um covarde. Mas Ă© inĂștil. Antes que comece a chorar, por que nĂŁo diz que estĂĄ com dor de barriga?
Foi o que realmente disse. Os dois sempre tiveram essa relação.
Logo chegou a vez de Romus. Os soldados incentivaram-no, mas ele, sem avançar, olhou ao redor, buscando algo.
â Papai nĂŁo virĂĄ salvĂĄ-lo â cochichou Lannie.
Foi quando avistou Hou Ran no portão dos gladiadores. Ela sorriu e acenou. Ele correspondeu com determinação e avançou corajosamente em direção ao dragão, pulando em seu dorso.
O corpo da fera contorceu-se. Ainda que jovem, seu movimento foi suficiente para arrastar os soldados que seguravam as correntes. Romus quase caiu, provocando gritos de horror na plateia. Mas o garoto manteve a calma. Deitado sobre o dragão, colocou uma mão em seu pescoço. A fera emitiu um grunhido baixo, acalmou-se e, por fim, começou a mover-se.
Os maiores aplausos daquele dia foram para Romus.
Seus pais suspiraram aliviados. Lannie, longe de irritar-se por ter o holofote roubado, ficou paralisada em choque.
A cerimĂŽnia terminou sem incidentes, dando lugar a mais combates. Todos os gladiadores eram veteranos, vitoriosos desde o primeiro dia. As arquibancadas estremeciam de ansiedade.
Indiferente ao frenesi ao redor, Theresia falou com o rosto pĂĄlido:
â Princesa, a vez do Orba ainda estĂĄ por vir? Sinceramente, nĂŁo suporto assistir. Avise-me quando chegar sua hora. AtĂ© lĂĄ, ficarei de olhos fechados.
â Que absurdo Ă© esse, em nome de Garbera?
A prĂłpria expressĂŁo de Vileena nĂŁo era das melhores. Membros voavam, entranhas jorravam. Mas ela nĂŁo desviava o olhar, apenas apertava os punhos sobre os joelhos.
Logo trouxeram um Baian pelo portĂŁo leste. As prĂłximas lutas seriam montadas. Ou seja, era quase a vez de Orba. Por algum motivo, Vileena recuperou as cores ao ouvir:
â Princesa.
O pajem do imperador ajoelhou-se diante dela.
â Sua Majestade convida-a para assistir ao jogo em sua companhia. Sua acompanhante tambĂ©m Ă© bem-vinda.
Vileena e Theresia trocaram olhares.
â Aceito.
NĂŁo havia motivo para recusar. Enquanto caminhavam, Theresia puxou sua manga e sussurrou:
â Imploro, nĂŁo mencione o Lorde Kaiser. Num estĂĄdio, esses homens estĂŁo mais exaltados que o normal. Um passo em falso pode levar a um desastre.
â Como era de se esperar de vocĂȘ, Theresia. Sempre atenta.
Gracejou, mas ao encontrar os olhos do imperador, curvou-se sem disfarçar a ansiedade. Guhl Mephius ofereceu-lhe o assento ao seu lado. E, como se combinado, anunciaram os nomes dos próximos gladiadores.
O guerreiro mascarado Orba e Gash, o gladiador que outrora conquistara glórias na guerra. A aparição dos dois fez a arena explodir em gritos.
â O novo herĂłi e o antigo â Guhl Mephius comentou. â Pelo futuro deste paĂs, percebi que alguns usam truques para se destacar como novos herĂłis. Mas nĂŁo permitirei isso aqui. Aqueles que nĂŁo abrem seu prĂłprio caminho com sua prĂłpria força nĂŁo merecem o tĂtulo.
Vileena nĂŁo respondeu. O imperador perguntou:
â Gosta dos jogos, princesa?
â NĂŁo â respondeu ela, ignorando o horror de Theresia. â SĂŁo avassaladores. Sinceramente, o cheiro de sangue e o fervor daqui estĂŁo me deixando tonta.
O imperador riu.
â Diz as mesmas coisas que Lana. â Mencionou a falecida imperatriz. â O rĂłtulo de selvageria que outros paĂses nos dĂŁo Ă©, admito, merecido. Mas esse espetĂĄculo Ă© tĂŁo necessĂĄrio ao povo quanto o pĂŁo em suas mesas. NĂŁo sĂł produz guerreiros poderosos, mas preserva nosso carĂĄter bĂ©lico. Os homens reĂșnem-se sob uma espada forte. E porque acreditam estar protegidos por ela, vivem em paz. Algo que a princesa deve compreender.
â …
â Bem, a paz com Garbera estĂĄ estabelecida. No prĂłximo ano, espero convidar pilotos garberanos para uma competição de aeronaves. SerĂĄ festivo. Conto com sua ajuda.
Falou meio a brincar. Vileena baixou os olhos, pensativa. Aquele imperador parecia um velho bondoso, mas certamente jogaria aos dragĂ”es qualquer vassalo que ousasse contradizĂȘ-lo hoje. Ela via isso nos rostos tensos dos estadistas. Compreendia, mas nĂŁo cederia.
Orba e Gash avançaram para o centro. Entre todos os gladiadores famosos em Solon, esses dois se destacavam. Seus nomes ecoavam pela arena. O imperador observou o alvoroço antes de perguntar:
â Quem acha que vencerĂĄ, princesa?
â NĂŁo entendo os meandros da espada. Apenas desejo que Orba vença.
â Compreendo. Ele Ă© o escravo que invadiu Fortaleza Zaim e a resgatou. Natural apoiĂĄ-lo.
â Posso perguntar em quem o senhor aposta, Vossa Majestade?
â Depende de quem a deusa da sorte abençoar â respondeu Guhl, seco. â …Ă o que eu diria, mas seria rude. Que tal uma aposta? Se a princesa torce por Orba, eu aposto em Gash.
â O quĂȘâŠ?
â NĂŁo se preocupe. Ă apenas um jogo. Se a princesa vencer, concederei qualquer desejo. E se eu vencer…
â …NĂŁo tenho nada a oferecer.
â Gostaria da honra de nomear meu neto.
Vileena ficou sem fĂŽlego. Aquela frase trouxe de volta memĂłrias de seu avĂŽ, o antigo rei Ainn Owell, em sua villa real.
Que tipo de criança vocĂȘ terĂĄ?
Quero vĂȘ-la embalando o bebĂȘ em seus braços.
Guhl Mephius e Ainn Owell. Dois anciĂŁos tĂŁo diferentes quanto dia e noite, unidos pelo pensamento de um neto.
Vileena ficou sem palavras. Foi quando o arauto anunciou:
â Guerreiros que se aproximam da morte, prestem homenagem a Sua Majestade Imperial!
Orba e Gash viraram-se para o imperador. Com uma mão no peito, ergueram as lanças ao céu.
Dois Baians, um tamanho maior que os usados na cerimÎnia anterior, foram trazidos para a arena. Seus chifres reluziam e seus corpos transbordavam energia. DragÔes plenamente preparados para a batalha.
Orba e Gash afastaram-se, rompendo o contato visual. O corpo de Gash era completamente depilado, coberto por tatuagens multicoloridas, talvez um costume de sua terra natal, ou apenas adereços para impressionar como Gladiador. Em porte e aparĂȘncia, lembrava Verne, a quem Orba enfrentou em Ba Roux, mas diferia no modo como lambia os lĂĄbios com a lĂngua vermelha, exalando crueldade pura.
Agora montariam os Baians, numa recriação do herói Clovis, que lutou em batalhas sobre dragÔes.
Orba tinha pouca experiĂȘncia como cavaleiro.
E pior
Olhou para o Baian ao seu lado sem completar o pensamento. Uma inquietação tomou conta dele. NĂŁo apenas pela inexperiĂȘncia, mas porque sua estratĂ©gia ia alĂ©m da simples vitĂłria.
Ao sinal, ambos montaram. Orba ajustou-se à sela, enfiou os pés nos estribos e pegou duas lanças do assistente: uma lança-dragão de dez metros, pesada o suficiente para ser apoiada no anel da sela quando não em uso, e uma lança comum de dois metros. Na outra mão, um pequeno broquel.

â Comecem!
Os escravos soltaram as correntes que prendiam os dragÔes. O Baian de Orba rugiu com tanta força que derrubou um dos homens.
â Avancem!
Do outro lado, Gash inclinou-se sobre seu dragĂŁo, que partiu em galope.
Orba lutava para controlar sua montaria. O Baian ergueu-se nas patas traseiras, tentando derrubå-lo. Enquanto se equilibrava, Gash aproximou-se veloz. Sem tempo para desviar, Orba jogou-se contra o dorso do dragão e agarrou-se com força. Um impacto violento sacudiu seu corpo como se um punho gigante o esmagasse. Ossos estalaram, dentes rangendo como se fossem partir.
Gash, claro, recuperou-se primeiro. Girou a ponta da lança que arranhara o flanco do dragão de Orba e, no mesmo movimento, atacou com a lança curta.
Orba bloqueou com o escudo. Frustrado, Gash preparou-se para outro golpe, mas seu dragĂŁo debateu-se violentamente, desequilibrando-o.
â Tss.
Seu Baian golpeava com garras e cauda, pescoço retorcido como se quisesse cravar os dentes na garganta do oponente. Orba e Gash trocaram golpes entre colisĂ”es. Era como lutar num barco Ă deriva â mais importante que acertar o inimigo era mantĂȘ-lo longe do prĂłprio dragĂŁo. Mas a diferença de habilidade era gritante. Gash nĂŁo sobrevivera a cem batalhas Ă toa. Dominava os dragĂ”es como poucos, enquanto Orba mal se equilibrava. Um erro mĂnimo seria fatal.
Agarrado ao Baian, focando apenas na defesa, Orba provocou:
â SĂł isso? Gash, o matador de cem homens, nĂŁo Ă© digno do elmo de Clovis! O povo quer sua cabeça. Morra e alimente os dragĂ”es!
Gash mergulhou de cima, lança apontada. Orba ergueu o escudo enquanto era sacudido como um boneco.
Quase ao mesmo tempo, seu Baian esticou o pescoço, pronto para morder. Gash ergueu a lança-dragão, acompanhando os movimentos da fera.
â Moleque â rosnou entre dentes cerrados. â Diz isso com essa habilidade patĂ©tica? Vai engolir suas palavras!
Chutou o Baian, recuou e disparou para um canto da arena. Sangue jorrava de feridas abertas por lanças e dentes.
Quando Orba percebeu a segunda investida, jĂĄ era tarde para reagir. A distĂąncia era intransponĂvel.
Engoliu seco. Deveria enfrentar o choque ou nĂŁo?
A plateia sustinha a respiração.
E lĂĄ vem â
Ergueu a lança-dragão, assumiu posição e soltou um grito que ecoou sob a måscara de ferro.
Do outro lado:
â Eyyyyyaaa!
A voz de Gash cortou o ar.
Inclinado, ele investiu. A luz refletida na ponta de sua lança cegou o Baian de Orba por um instante. O animal recuou, desviando a lança de Orba.
â Caiu na armadilha!
Antes da colisĂŁo, Gash soltou os estribos. Orba, desequilibrado, foi arremessado ao chĂŁo.
As costas bateram no solo. Gash aproveitou para atacar Orba, ainda atordoado.
Orba rolou no chĂŁo duro, desviando por um triz e entĂŁo, levantou-se rapidamente.
Mas estava sem armas. A visĂŁo ainda turva da queda.
Os dragÔes lutavam furiosamente atrås dele. Gash avançou sob a nuvem de poeira.
Nas arquibancadas dos nobres, Vileena desviou o olhar instintivamente.
Mesmo com a måscara, via-se que Orba estava atordoado, com seus movimentos descoordenados. Esquecendo-se de que estava ao lado do imperador, Vileena abriu a boca quando a lança de Gash mirou a måscara:
â Orba!
Uma voz trovejou das arquibancadas, vinda dos portÔes.
Orba abriu os olhos de repente e, com agilidade surpreendente, esquivou-se de Gash. Cada golpe da lança cortava o ar contra sua måscara, com sangue escorrndo pelo pescoço e ombros.
EntĂŁo, Orba parou abruptamente. Gash viu a chance e atacou em diagonal â um movimento previsĂvel. Orba desviou, agarrou o braço estendido, chutou o joelho e jogou-o para frente.
Era impossĂvel distinguir qual dragĂŁo pertencia a quem, mas um finalmente imobilizou o outro, pronto para cravar os dentes. O Baian imobilizado debateu-se, chicoteando a cauda â que acertou Gash no peito.
Engasgando com sangue, Gash cambaleou, com suas tatuagens coloridas agora vermelhas.
Orba pegou a lança que Gash deixou cair e, sem hesitar, cravou-a no coração.
Um calafrio percorreu Orba ao sentir a lança perfurar. Sangue respingou em sua måscara ao puxå-la de volta. Ele ficou imóvel por um momento, sem limpar o sangue fumegante.
A plateia explodiu em aplausos.
Vileena afundou na cadeira, soltando um suspiro de alĂvio. SĂł entĂŁo percebeu que estivera sem respirar.
â Vileena-sama, pode soltar minha mĂŁo agora.
Theresia falou. Ela apertara a mĂŁo da criada sem perceber e, ao soltĂĄ-la, viu a marca vermelha de seus dedos.
â Parece que a princesa venceu.
O imperador levantou-se. Vileena tentou fazer o mesmo, mas ele a tranquilizou:
â Quando decidir o que deseja, nĂŁo hesite em pedir. O imperador de Mephius cumpre suas promessas.
Do outro lado das arquibancadas, Noue soltou um “Oh?” curioso. Nada ali o impressionava. Apesar de dizer-se fĂŁ dos jogos, sĂł se interessava por estratĂ©gia e guerra â ou melhor, por nada que nĂŁo envolvesse seu intelecto.
EntĂŁo era Gash. Tenho quase certeza de que ele estava no plano… Bem, nĂŁo importa. Habilidade nĂŁo Ă© requisito. Basta uma faĂsca de rebeliĂŁo para que o pus acumulado em Mephius incendeie.
Mas Noue voltou sua atenção para outro lugar. O prĂncipe Gil nĂŁo estava entre os nobres. Viera a Mephius para estudĂĄ-lo, mas atĂ© seu faro estratĂ©gico falhava diante de tĂŁo poucas informaçÔes. NĂŁo que importasse agora. Se tudo ocorresse como planejado, provaria que sua capacidade ainda estava afiada. Assim, perdia o interesse em Gil.
Ao retirar-se, Orba cruzou com Pashir, que lutaria em seguida. Desta vez, seus papéis invertiam-se. Cambaleando, quase esbarrou nele.
â Por quĂȘ?
Orba perguntou.
â Por que gritou meu nome?
â Oh, entĂŁo ouviu. â Pashir nĂŁo diminuiu o passo. â Parece que paguei minha dĂvida.
â DĂvida?
â NĂŁo com vocĂȘ. Com o prĂncipe que serve.
Sem outra palavra, seguiu para a arena.
Pashir enfrentaria outro gladiador invicto, tambĂ©m montado. Como veterano, dominava os dragĂ”es com facilidade. No segundo ataque, perfurou o Baian inimigo, caminhou sobre o dragĂŁo tombado e fincou a lança no guerreiro caĂdo.
Assim, definiram-se os quatro finalistas. Tornaram-se apostas nĂŁo sĂł no estĂĄdio, mas em toda Solon. “Ele vai vencer”, “NĂŁo, ele Ă© melhor”. Eram os melhores entre os melhores, cada um com seus defensores fanĂĄticos.
Com o fim dos jogos, veio a execução de Kaiser Islan. Vileena, é claro, recusou-se a assistir e retirou-se com Theresia. Quase nenhum mephiano foi para casa, até aquilo era entretenimento.
â Se…
Vileena refletiu em voz alta.
â Se eu tivesse pedido ao imperador para poupar Kaiser como minha recompensa… o que ele teria feito?
â SĂł de pensar, me dĂĄ calafrios, princesa.
Theresia estremeceu. Sabia que sua mestra era capaz de tudo.
O cair da noite trouxe silĂȘncio Ă arena, como se o tumulto da tarde fosse um delĂrio. Sob o sol poente, o cheiro de sangue e vĂsceras ainda pairava no ar. Foi nesse cenĂĄrio que o prĂncipe Gil Mephius apareceu pela segunda vez, ignorando o supervisor alarmado.
Encontrou Orba saindo da enfermaria, ainda cambaleante. As lesĂ”es da batalha o deixavam longe da forma ideal para a prĂłxima luta. AtĂ© manejar o chicote doĂa.
â Tem algo a dizer por si mesmo, Orba?
O guerreiro mascarado manteve-se em silĂȘncio.
â Dificuldades contra um oponente como Gash? E ainda manejou seu dragĂŁo pior que um escravo? Estaria melhor no estĂŽmago da fera.
â Deve estar satisfeito por me humilhar.
O prĂncipe agarrou a mĂĄscara e sacudiu. O espadachim nĂŁo resistiu, mas tambĂ©m nĂŁo desviou o olhar.
â O que hĂĄ com esses olhos?
Arrancou um chicote de um guarda e golpeou o homem mascarado. O manto rasgou-se, seguido por um gemido. Outro golpe.
â NĂŁo suporto esse seu olhar insolente… quando nĂŁo passa de gado sob meu comando!
Chutou o rosto do espadachim, depois puxou-o pelo braço.
â Venha!
Os escravos observaram em silĂȘncio enquanto Gil arrastava o homem para um local isolado. SĂł entĂŁo soltou-o.
â Foi cruel, Orba.
A voz do espadachim era dolorida. Claro, o prĂncipe “Gil” era o prĂłprio Orba, sendo o homem sob a mĂĄscara Kain, um gladiador com fĂsico similar.
â Fui brando, sabia?
Dizer que fui cruel… Para mim foi pior.
O verdadeiro ferido era Orba. Além das lesÔes nas costas e cintura, seus ombros estavam machucados pela queda. Não havia fraturas, mas estava longe de estar em condiçÔes para a próxima batalha.
â NĂŁo me importo de ser o espadachim mascarado, mas serĂĄ que nĂŁo arranja um trabalho mais fĂĄcil?
â Vou pensar no assunto.
Orba recuperou o elmo e a armadura de couro, transformando-se novamente no gladiador mascarado. Jogou o chicote para Kain.
â Levo isso de volta?
â NĂŁo. Use para me bater.
â Ah, dispenso. NĂŁo te odeio tanto.
â Idiota â Orba sorriu. â Preciso das marcas.
Kain obedeceu, relutante. JĂĄ atuara como sĂłsia do prĂncipe antes, sem saber que Orba era o verdadeiro Gil. Desta vez, porĂ©m, Orba revelou sua identidade.
â Sabia que era misterioso, mas nunca imaginei que fosse o prĂncipe. SerĂĄ que Ă© aquilo? Foi traĂdo, jogado na escravidĂŁo, mas sobreviveu e agora vai retomar seu reino? Que histĂłria!
Kain dramatizava, deixando Orba sem saber o quanto realmente entendia.
Maldito seja, Kain.
ApĂłs os preparativos, Orba apoiou-se na parede e arrastou-se para fora. Metade era atuação, metade dor real. As primeiras chicotadas foram leves, mas ele insistira: “Mais forte!” E Kain obedeceu. Marcas profundas sulcavam seus braços, pernas e costas. Sangue fresco escorria pelo pescoço.
Ao chegar onde os escravos estavam, Orba desabou. Um espetĂĄculo lastimĂĄvel, mas necessĂĄrio. EntĂŁo, uma mĂŁo estendeu-se. Era Pashir.
â Ainda pretende ser o cĂŁo do prĂncipe depois disso?
A voz era calma, mas o rosto, distorcido de raiva.
â Quem sabe?
Respondeu, indiferente, certo de que Pashir caĂra em sua armadilha. Ele escolheu de propĂłsito um Baian difĂcil e deu a Gash um dragĂŁo treinado para guerra.
â Podem chamĂĄ-lo de herĂłi, mas vocĂȘ Ă© descartĂĄvel. Sabe disso.
â O que vocĂȘ sabe? â Orba cuspiu sangue no chĂŁo. â Sou um escravo. Como guarda imperial, sĂł obedeço ordens. E alĂ©m disso? Vai dizer que, com seu braço orgulhoso, destruirĂĄ Mephius agora?
Pashir fitou os olhos ardentes de Orba, sem palavras.
âââ
Naquela noite, Pashir sentou-se ao lado de Orba no refeitório. Na presença da escrava Mira, que os servia, Pashir começou a murmurar sobre seu passado.
Ele cresceu numa vila a oeste de Mephius e perdeu os pais ainda criança. Para sustentar a si mesmo e Ă irmĂŁ mais nova, seu Ășnico familiar restante, começou a trabalhar numa mina prĂłxima. As condiçÔes eram brutais, sem qualquer medida de segurança. Morte por exaustĂŁo ou desabamentos eram frequentes. Por mais que protestassem, nada mudava. Os donos das minas os viam como escravos.
Mesmo assim, era um trabalho cobiçado. Pashir continuou em silĂȘncio.
â Por que nasci? O que poderia fazer? Nunca pensei nisso. Estava vivo. Era o que importava.
Pashir falou. Ouvindo apenas os murmĂșrios dos outros escravos, Orba sentiu-se transportado de volta Ă prĂłpria Ă©poca de escravo.
AtĂ© que um incidente arruinou atĂ© mesmo o frĂĄgil desejo de Pashir. Sua irmĂŁ, apĂłs conseguir carne no mercado, foi atĂ© a mina procurĂĄ-lo. O homem a quem perguntou pelo irmĂŁo era um supervisor conhecido por sua luxĂșria.
Mentiu, dizendo que Pashir cometera um crime terrĂvel. Levou a garota para dentro e violentou-a.
â Por acaso passei por lĂĄ â seja por sorte do Deus DragĂŁo ou por alguma piada cruel de um deus maligno.
Tomado pela fĂșria acumulada, Pashir espancou o supervisor atĂ© a morte. NĂŁo foi surpresa que o venderam como escravo. JĂĄ havia se passavam cinco anos desde entĂŁo, mas ele continuava sobrevivendo de arena em arena.
Pashir, o Braço Forte.
Orba lembrou-se do nome. Um veterano, um espadachim-escravo condenado por crimes imperdoĂĄveis. Como Orba, tinha um estilo de luta simples, sem adornos ou personalidade extravagante. Lutava de forma direta e vencia. Por isso, seu nome nĂŁo era famoso.
Mas sĂŁo justamente esses os mais perigosos.
â Talvez seja sĂł boato â Pashir bebeu o caldo frio e insosso antes de continuar, sem expressĂŁo.
â Mas ouvi que minha irmĂŁ tambĂ©m foi escravizada. Claro, nĂŁo sei onde ela estĂĄ. Como poderia? Amaldiçoo Mephius. Jurei destruĂ-la. Mesmo que eu morra no caminho, minha alma possuirĂĄ quem me matar e garantirĂĄ que todos paguem.
â …
â O mesmo vale para mim. As centenas de gladiadores que matei… suas almas grudaram em mim. Dia e noite, sussurram, “Mate os mephianos. Queime os nobres ainda vivos. Tome de volta tudo que roubaram de nĂłs. Essa Ă© sua missĂŁo, assassino.”
Soldados armados vigiavam os cantos do refeitĂłrio, mas Orba os ignorou.
â Mas do jeito que as coisas estĂŁo, nada mudarĂĄ. SĂł aumentarĂĄ o nĂșmero de almas em seus ombros.
â Exato. Se continuarmos assim, pelo menos.
Pashir era jovem e escravo, mas emanava uma presença mais pesada que qualquer comandante mephiano que Orba jå vira.
Depois, Orba tambĂ©m falou de seu passado. Algo que detestava mencionar. Mas para ganhar confiança, nĂŁo tinha escolha. NĂŁo exagerou nem fingiu. Era sua verdade, a que julgou necessĂĄria para enganar Pashir. Contou como o exĂ©rcito de Mephius queimou sua vila, como roubaram sua famĂlia. Suas mĂŁos tremeram. Seu corpo inteiro estremeceu. A imagem de Oubary veio Ă mente. Por que a chance de matĂĄ-lo sempre escapa? A resposta era Ăłbvia. E por ser Ăłbvia, precisava fingir que nĂŁo era.
Um homem com a mesma dor. A mesma raiva. O mesmo consolo.
Antes que percebesse, a mĂŁo de Pashir repousou em seu ombro.
â O que… â começou a dizer, mas a voz sumiu. Sentia uma tristeza inexplicĂĄvel. Mais que raiva, era um luto sufocante. Orba inclinou a cabeça e apoiou-se no ombro de Pashir.
â Perdoe-me por chamĂĄ-lo de cĂŁo. VocĂȘ Ă© como eu. Um gladiador carregado por almas.
Pashir encarou Orba. Num tom mais baixo que nunca:
â Tenho algo interessante para contar. Com esses sentimentos, tenho certeza de que se juntarĂĄ a nĂłs.
AĂ vem.
Orba nunca esteve tĂŁo grato por sua mĂĄscara de ferro. Os sentimentos que surgiram dissiparam-se num instante, substituĂdos pela tensĂŁo de um guerreiro.
â Do que estĂĄ falando?
Perguntou, fingindo dĂșvida. Os escravos ao redor fitavam-no com olhares afiados. Pashir olhou para eles. Alguns assentiam em silĂȘncio.
Ficou claro que respeitavam Pashir como lĂder.
Lentamente, Pashir revelou o plano. Claro, mantiveram as vozes baixas para que os guardas nĂŁo ouvissem.
Quem diria…
Pensou Orba enquanto escutava. JĂĄ considerara algo assim, mas o plano nĂŁo era tĂŁo ousado ou perigoso quanto imaginou.
Pashir planejava usar o torneio para incitar uma rebeliĂŁo dos gladiadores.
Agiriam depois de amanhĂŁ, quando os dois vencedores fossem escolhidos para liderar duzentos escravos contra os dragĂ”es. No clĂmax do festival, com a famĂlia imperial e os nobres presentes, tomariam todos como refĂ©ns.
â Cada escravo receberĂĄ uma espada para matar os dragĂ”es. Os guardas estarĂŁo armados, claro, mas alĂ©m dos duzentos na arena, hĂĄ mais setenta gladiadores que jĂĄ lutaram. Eles começarĂŁo um tumulto para dividir a guarda palaciana. Escravos servindo os nobres tambĂ©m estĂŁo conosco. IncitarĂŁo os outros.
Um plano grandioso. DifĂcil dizer se funcionaria, mas mesmo que sim, o custo em vidas seria alto. Escravos, nobres, espectadores â todos pegos no fogo cruzado.
â VocĂȘ topa?
Pashir perguntou apenas isso. Orba sabia que a pergunta vinha carregada. Recusar significaria morte ali mesmo. Seu corpo viraria comida para dragÔes ou cinzas na fornalha da arena.
â Tenho uma condição.
â Qual?
A tensĂŁo subiu. Os escravos ao redor fitaram-no com olhos assassinos.
â Deixe-me matar o prĂncipe Gil com minhas prĂłprias mĂŁos.
Pashir curvou-se para trĂĄs e riu. Colocou a mĂŁo grossa no ombro de Orba.
â Por mim, tudo bem. â Mostrou os dentes brancos aos outros escravos. â Ele Ă© sua presa. Faça o que quiser.
Aquela noite, os escravos quase não dormiram. Deitados de forma a não despertar suspeitas, fingiam roncar enquanto sussurravam sobre o plano. Alguns gabavam-se de como humilhariam os nobres na arena. Outros sonhavam em saquear mansÔes. Alguns insistiam em incendiar Solon como manifesto. Mas a maioria só queria voltar para casa.
â NĂŁo tenho para onde voltar â disse um escravo de meia-idade com um sorriso fraco. â Vinte anos jĂĄ se passaram. Minha mĂŁe jĂĄ era velha na Ă©poca. Deve ter morrido. Nem sei se minha vila ainda existe.
Mesmo assim, insistia em voltar. Podia nĂŁo restar nada, mas lembrava-se dela. Via a si mesmo criança, sentado numa pedra, olhando para o cĂ©u. “Voltei!” NĂŁo como escravo, mas como humano.
â Pashir, e vocĂȘ? â perguntou outro escravo.
Ele pensou um pouco.
â Nunca parei para pensar.
Forçou um sorriso. Alguém brincou:
â NĂŁo vai levar a Mira?
â O quĂȘ? Como surgiu isso?
â Todos viram como vocĂȘs dois estĂŁo. Depois que fugirmos, aquele tal de Agon pode roubĂĄ-la.
Riram. Pashir virou o rosto. Nos poucos dias no campo de detenção, Mira e ele pareciam ter criado intimidade.
Enquanto observava a cena, Orba pensava em outra coisa. Nunca ouviu os nomes Oubary ou Noue entre os rebeldes. Quem quer que estivesse por trĂĄs do plano omitiu suas identidades.
O que ele ganha com uma rebeliĂŁo de escravos?
O mesmo valia para a princesa Vileena.
MatĂĄ-la no caos livraria Garbera de suspeitas, mas o que Noue ganharia com isso?
Amaldiçoou-se por sua ignorĂąncia. Se soubesse mais sobre polĂtica internacional, talvez visse o que Garbera â e Noue â pretendia com a desordem em Mephius.
Isso era diferente de uma simples luta pela sobrevivĂȘncia. Muitos interesses se entrelaçavam, exigindo conhecimento. Como na guerra e na polĂtica.
Pashir voltou a ficar sério.
â Depois da final, o imperador entregarĂĄ pessoalmente o elmo dourado de Clovis. Mas nĂŁo serĂĄ a hora de agir, Orba. Matar o imperador nĂŁo libertarĂĄ os escravos.
Consideraram assassinar o imperado ali, mas o vencedor estaria desarmado e cercado por guardas. As chances eram baixas. E mesmo que conseguissem, sĂł pioraria a opressĂŁo sobre os escravos.
Mas…
Se a rebeliĂŁo funcionar, o que acontecerĂĄ com os escravos depois?
Orba nĂŁo falou, mas a raiva queimava em seu peito.
Tudo bem voltar para casa. Tudo bem matar os nobres. E depois? O que acontecerĂĄ com Mephius e seu povo?
Sua raiva nĂŁo era direcionada aos escravos, mas a Noue, Oubary, Zaat â e a si mesmo, por nĂŁo poder compartilhar plenamente da fĂșria deles.
HaverĂĄ muitas mortes. Os lordes provinciais, com medo da rebeliĂŁo, massacrarĂŁo os lĂderes.
Em quem estava pensando? Como? Sua mente era um caos.
De qualquer forma, parte do plano de Noue estava em suas mĂŁos. Por isso, Orba voltou a ser um espadachim-escravo. Por isso, sujou as mĂŁos de sangue.
VocĂȘ vai me pagar por isso.
Orba retornou ao palĂĄcio jĂĄ de madrugada.
Por ser festival, os guardas cumprimentaram o prĂncipe com alegria. NinguĂ©m mencionou sua “doença”.
Fazia tempo que nĂŁo passava a noite em claro, mas Orba estava desperto. NĂŁo conseguia esquecer os rostos dos escravos, sujos, mas com olhos brilhantes. A maioria nĂŁo falava do futuro. NĂŁo sabiam se viveriam atĂ© o amanhĂŁ. Era inĂștil pensar nisso. Mesmo assim, olhavam adiante.
NĂŁo que acreditassem cegamente no plano. A possibilidade da morte pesava mais.
E ainda assim, estavam dispostos a sangrar, quebrar ossos e morrer por um futuro que nunca tiveram. O que fariam se descobrissem que estavam sendo usados?
Maldição!
Orba teve vontade de chutar a parede. Seria melhor se fosse apenas um gladiador? Assim, abraçaria a raiva e lutaria contra Mephius sem pensar duas vezes. Mas o Orba de agora nĂŁo podia. Em troca da mĂĄscara de ferro, ganhara a de Gil Mephius. Para protegĂȘ-la, e o poder que vinha com ela, precisava proteger Mephius.
â Alteza.
Dinn cumprimentou-o em seus aposentos.
â Vou descansar â anunciou Orba, surpreendendo o criado.
â Espere, alteza. Vileena-sama deixou algo para vocĂȘ.
â Deixou? Ela veio aqui de novo? Dessa vez vocĂȘ a enganou?
â NĂŁo, foi Theresia quem trouxe.
Era uma medalha dourada embrulhada em tecido, presa a uma corrente fina, algo para ser usado no pescoço.
Era um costume da realeza garberana presentear aliados ou subordinados por serviços prestados. Originalmente, um sĂmbolo de amizade entre nobres jovens e seus servos.
No centro da moeda, o emblema nacional de Garbera, um cavalo e uma espada, e o nome de Vileena, simbolizando “amizade inquebrantĂĄvel e eterna”.
â “Entregue isto a Orba-sama”, ela disse.
â A Orba? NĂŁo a mim?
â A vocĂȘ, sim.
Orba entendeu. Por um momento, confundiu-se entre suas identidades.
A medalha tinha cinco centĂmetros de diĂąmetro, pequena o suficiente para ser escondida sob as roupas.
âOrba Ă© um amigo querido.â
As palavras ecoaram. Era, pelo menos, a prova da amizade de Vileena com aquele que dançava com a morte.
Depois de trocar de roupa, jogou-se na cama. Seu corpo estava exausto, mas o sono nĂŁo vinha. Embora entendesse parte do plano inimigo, muito ainda estava oculto.
Aproveitar o movimento do inimigo e tomar o controle do plano seria mais seguro. Mas causaria muitas mortes. O que fazer?
Refletiu até adormecer.
Algumas horas antes, no oeste de Solon, ocorria um problema inesperado.
Num campo de aterrissagem para aeronaves, os mecùnicos trabalhavam freneticamente. A eronave de comando da guarnição local, peça central do desfile aéreo do festival, apresentou falhas no sistema de éter. Sem tempo para consertar, precisavam de um substituto.
Foi quando Gary Lynwood, oficial da DivisĂŁo Arco Azul de Zaat, apareceu.
â Chegou no momento certo.
Seu rosto alongado e sonolento iluminou-se ao ouvir o problema.
â Num posto entre Solon e Idolo, temos um navio dragĂŁo saqueado de Garbera durante a guerra. Reformamos para estudo. Posso trazĂȘ-lo. ChegarĂĄ no meio da noite.
Os mecùnicos agradeceram. O fracasso no desfile custaria suas cabeças.
A segurança no porto era rĂgida. NinguĂ©m entrava nos navios sem autorização. Mas os guardas apenas vigiavam do lado de fora, sem inspecionar o interior.
NĂŁo sabiam que Gary â o TrovĂŁo â e seus homens aguardavam dentro. Nem que alguĂ©m sabotara a aeronave de comando de propĂłsito. Nem que o culpado era um ex-mecĂąnico disfarçado de escravo.
Tradução feita por fãs.
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