Rakuin no Monshou – CapĂ­tulo 1 – Volume 3

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Rakuin no Monshou
Emblem of the Branded

Light Novel Online – CapĂ­tulo 01:
[Saindo da Capital Imperial]


Um pardal andava perdido pelas pedras do calçamento.

Ele virou a cabeça uma vez, duas, confuso com a sensação de estar fora do lugar, e então bateu as asas, assustado.

Logo em seguida, uma rajada de vento passou quando uma sombra gigantesca cruzou o cĂ©u. À primeira vista, parecia uma criatura viva. Seu pescoço era comprido, o rosto feroz exibia presas afiadas, e as grandes asas se estendiam aos lados, um wyvern.

Mas, na verdade, não existiam dragÔes alados vivendo naquele continente. O seu uivo, agudo como o ranger do metal, vinha do motor de éter que vibrava em seu interior, e sua pele era feita do leve metal conhecido como pedra-dragão, com uma leve camada de pintura em bronze. Em resumo, tratava-se de uma aeronave do Império de Mephius.

Esses wyverns artificiais, com seus pilotos a bordo, decolavam um apĂłs o outro.

Orba ergueu o rosto para observĂĄ-los, usando a mĂŁo como viseira contra o sol.

Na frente da formação, ia um homem chamado Neil Thompson. Só pelo fato de ter certa habilidade, jå se destacava entre os demais. Neil inclinou com precisão as asas da nave, fazendo uma curva elegante, enquanto os outros tentavam acompanhå-lo às pressas, como pintinhos correndo atrås da mãe.

Mas foi justamente a ele que Orba lançou palavras de reprovação assim que pousaram.

— Este nĂŁo Ă© lugar pra fazer exibição. Preste mais atenção nos outros. No campo de batalha, vocĂȘ nĂŁo vai conseguir fazer nada sozinho. Agora, vai de novo.

Pressionados por Orba, ou melhor, pelo príncipe herdeiro do Império de Mephius, Gil Mephius, os pilotos decolaram novamente, às pressas.

— NĂŁo precisa ser tĂŁo duro, nĂ©? Acho que eles estĂŁo indo bem — disse Shique, encostando-se ao ombro de Orba.

Orba o afastou com um gesto brusco.

— NĂŁo importa o quanto estejam indo “bem” como escravos. VocĂȘ acha que eu posso me contentar com esse nĂ­vel?

No campo de treinamento, perto dos alojamentos da Guarda Imperial, haviam reconstruído uma pequena arena de gladiadores. Mesmo sendo chamada de pequena, ela era ampla por dentro e comportava uma pista de voo para aeronaves. Além disso, ficava ao lado do eståbulo dos dragÔes.

— Mas, olha, Orba — falou Gowen, o rosto de bronze endurecido —, ainda nĂŁo faz nem um mĂȘs desde que vocĂȘ criou essa unidade aĂ©rea. NĂŁo adianta perder a paciĂȘncia.

— NĂŁo esperava ouvir isso de vocĂȘ. Foi vocĂȘ quem me mandou matar depois de sĂł duas semanas de treino com espada.

— NĂŁo tem por que comparar com os escravos, tem? — retrucou Gowen, devolvendo as palavras. — Agora Ă© diferente. NĂŁo dĂĄ pra comprar quantos quiser.

Mesmo que aqueles ex-escravos fossem tĂŁo bons quanto soldados em combate individual, ainda tinham dificuldade em agir em grupo. E o fato de ser Gowen que estava treinando, do zero, a infantaria formada por esses escravos, dava mais peso Ă s palavras.

Orba não disse mais nada. Sua expressão se contraiu de leve ao cruzar os braços. O direito estava enfaixado e pendia imóvel.

JĂĄ tinha se passado cerca de meia quinzena desde o motim de Zaat Quark. Orba ainda se recuperava dos ferimentos que sofreu durante os combates do torneio de gladiadores, sem contar o tiro que levou de Zaat. Mesmo assim, uma semana antes, ele foi convocado pelo imperador e recebeu a ordem de seguir para a cidade de Apta, ao sul, territĂłrio conquistado durante os dez anos de conflito com Garbera e onde seu irmĂŁo Roan havia sido enviado. NĂŁo havia tempo para descanso. Quando Shique e Gowen achavam que ele estava trancado no quarto, enfiado em livros, encontravam-no ali, supervisionando com fervor o treinamento da Guarda Imperial.

— Ah, ficou calado de novo — comentou Shique, dando de ombros com humor. — Quando vocĂȘ fica assim, a gente começa a se preocupar. Parece atĂ© que estĂĄ tendo pensamentos perigosos.

Naquele momento, uma voz animada ecoou:

— É uma cena maravilhosa, nĂŁo Ă©?

Ao ouvir aquela voz, deslocada em meio Ă quele ambiente bruto, o rosto de Orba enrijeceu por algum motivo.

Gowen e Shique acharam graça na reação e viraram-se sorrindo.

— Me dĂłi dizer, mas nĂŁo Ă© algo que uma dama de verdade deveria estar vendo.

A figura diante deles era Vileena Owell, terceira princesa de Garbera, acompanhada de sua dama de companhia, Theresia. Os cabelos prateados brilhavam sob a luz da manhã. Desde que chegou a Mephius, ela vinha sendo mantida nos aposentos femininos, mas depois de voar junto ao príncipe durante o motim de Zaat, conquistou uma certa liberdade. Dois dias antes, ao saber no café da manhã que a Guarda Imperial faria treinamentos aéreos, exclamou que precisava ver com os próprios olhos.

Ela acompanhava os movimentos das aeronaves com os olhos semicerrados e as bochechas coradas de leve.

Ela Ă© mesmo uma princesa diferente.

Orba reafirmou esse pensamento.

Depois da missĂŁo em Apta, eles se casariam oficialmente como o imperador Guhl havia declarado. Mas essa informação tinha sido passada para Gil apenas, sem nenhum anĂșncio pĂșblico. Com as negociaçÔes em torno do casamento ainda indefinidas, Vileena continuava em uma posição frĂĄgil.

— O prĂ­ncipe Ă© perfeccionista demais — comentou Shique, voltando de propĂłsito ao assunto anterior. — Diz pra eles voarem em formação como a unidade aĂ©rea de Garbera depois de menos de um mĂȘs de treino.

— Eu nĂŁo… — tentou retrucar Orba, mas antes que completasse…

— Tudo tem um começo. Treinamento aĂ©reo, em especial, sempre envolve riscos. Se nĂŁo prestar atenção Ă  condição dos pilotos, Ă  manutenção das aeronaves e tudo mais, a unidade serĂĄ destruĂ­da antes mesmo de amadurecer, Alteza.

Vileena falava com propriedade. Era uma especialista em aeronaves. Mesmo com seu rosto jovem, a voz saĂ­a firme.

— Mas tambĂ©m nĂŁo falta muito para partirmos.

Orba desviou o olhar. Vileena tentava encarĂĄ-lo diretamente.

— NĂŁo daria pra continuar o treinamento em Apta? — sugeriu Shique. — Parece atĂ© que vocĂȘ acha que Ax vai declarar guerra assim que chegarmos lĂĄ.

O motim de Zaat foi sufocado por Orba, mas aconteceu durante o festival de fundação, diante de vĂĄrios emissĂĄrios estrangeiros. A notĂ­cia se espalhou rĂĄpido e, para piorar, surgiram relatos de movimentaçÔes suspeitas vindas da provĂ­ncia de TaĂșlia, ao sudoeste de Mephius.

TaĂșlia fazia fronteira com Apta. Era possĂ­vel que o general Ax Bazgan aproveitasse o momento em que Apta fosse devolvida por Garbera para marchar com seu exĂ©rcito.

Por causa do motim, Guhl Mephius mal conseguia confiar até mesmo em seus mais antigos vassalos. Foi por isso que colocou seu filho legítimo, Gil, no comando das tropas de Apta, julgando que seria arriscado dividir as forças naquele momento.

— Seria problemĂĄtico se eu nĂŁo deixasse tudo pronto o quanto antes. Aprendi isso com o caso do Zaat. NĂŁo importa o quĂŁo pacĂ­fica tenha sido nossa aliança com Garbera, as brasas da revolta ainda queimam aqui dentro. Melhor pecar por excesso do que negligĂȘncia.

— Falando em Zaat Quark, não vi mais a Ineli desde o incidente. Vossa Alteza chegou a encontrá-la?

— Ineli?

Orba se surpreendeu com o nome inesperado.

— Não. — Balançou a cabeça.

Vileena franziu a testa, irritada.

— Preste mais atenção nas coisas fora do exĂ©rcito tambĂ©m. Ser feita refĂ©m por Zaat deve ter sido um trauma. NĂŁo estĂĄ trancada no quarto desde entĂŁo? Estava pensando em visitĂĄ-la, que tal irmos juntos?

— Bom, eu…

Orba hesitou. Como Vileena mencionou, Ineli foi feita refém no meio da confusão, e, quando ele e Vileena chegaram para salvå-la, ela tinha uma arma apontada contra si. Mas o que Orba lembrava agora era a cena da festa, em que Ineli e Vileena trocavam olhares de ódio junto à fonte.

A princesa de Garbera parecia ter esquecido daquilo. Mas Ineli… era outra histĂłria. Sabendo do seu jeito, ser salva pela rival que tanto detestava devia ter sido humilhante.

— Acho melhor vocĂȘ nĂŁo ir.

— Por que diz isso?

— Bom, se ela ficou abalada com o que aconteceu, talvez seja melhor deixar quieto. Se eu ou a princesa aparecermos lá, pode acabar trazendo as lembranças ruins a tona.

— Viu, Alteza? Eu lhe disse — comentou Theresia. — Concordo com o prĂ­ncipe. Se estĂĄ preocupada com ela, o melhor Ă© deixar que se recupere sozinha.

— O que Ă© isso agora? O prĂ­ncipe e atĂ© vocĂȘ, Theresia, estĂŁo tratando meus sentimentos como se eu fosse uma criança sem noção.

Ela logo fez beicinho e bateu o pé no chão. E, na verdade, era bem por isso mesmo que Orba ficou sem palavras. Apesar de jovem, era uma princesa esperta, mas quando se tratava de relaçÔes humanas, parecia inocente demais.

Orba olhou de relance para Theresia.

Deve ser difĂ­cil pra ela.

A dama se assustou de leve com o olhar, mas abaixou os olhos e riu, como quem dizia Ă© mesmo.

Droga!

Orba também se assustou. Tinha olhado para Theresia como Orba, não como o príncipe. Provavelmente foi isso que surpreendeu a criada.

— Enfim — disse Orba, tentando mudar o clima —, vou esperar paciente pelos resultados da unidade aĂ©rea. Agora vou ver como estĂŁo os dragĂ”es…

Ele se virou para o estĂĄbulo ao lado do campo, mas bem naquele momento percebeu algumas figuras vindo em sua direção. À frente, pulando animada, vinha uma garotinha. Parou diante de Orba, puxou a barra da saia e fez uma reverĂȘncia.

— SaudaçÔes, Alteza Imperial.

— Aah.

Era Lannie Lorgo, filha do general Odyne Lorgo, com seus treze anos. Durante o festival de fundação, ela tinha montado em um dragão e feito a cerimÎnia de maioridade.

— Anda logo! Oh, Romus, vocĂȘ nĂŁo tem medo de dragĂ”es, mas Ă© tĂ­mido com pessoas.

Chamou alto o garoto que vinha devagar atrås dela. Como sempre, a saudação do menino diante do príncipe foi fraca.

— Que moleza a sua.

— NĂŁo Ă© que ele seja mole, Ă© que a senhorita aqui Ă© forte demais — brincou Orba. — Sua coragem Ă© admirĂĄvel. Mas o estĂĄbulo dos dragĂ”es nĂŁo Ă© lugar pra brincadeira.

— Oh, príncipe, não estamos andando por aí à toa — respondeu Lannie com um ar de dama refinada. — O Romus vem aqui todos os dias. Como veterana, fiquei preocupada.

— É mesmo? Romus, está querendo se tornar um dragoneiro?

— NĂŁo estĂĄ, Alteza. Romus, vocĂȘ vem aqui por causa do dragĂŁo, nĂ©? NĂŁo Ă© porque quer ser dragoneiro, certo?

— E-e o que vocĂȘ tem com isso?

Romus ficou vermelho. Mais alguém se aproximava do eståbulo. Era Hou Ran, domadora de dragÔes designada para a tropa imperial do príncipe. Provavelmente estava observando o treino. Mesmo quando não estava, passava os dias ali cuidando dos dragÔes.

— Não precisa se preocupar com o Romus.

Ran falou direto, como se tivesse ouvido a conversa toda.

— Ele jĂĄ estĂĄ mais acostumado com os dragĂ”es que o prĂłprio Orba. Daqui a meio ano, talvez atĂ© entenda a “voz” deles. A chance de ser atacado no estĂĄbulo Ă© quase nula.

Theresia soltou um leve suspiro de admiração. Ela achava o visual nÎmade de Ran incomum, e sua combinação de pele escura, corpo proporcional e cabelo claro era hipnotizante.

— Se vocĂȘ diz, deve ser verdade. Como estĂŁo os dragĂ”es? JĂĄ escolheu quais vĂŁo com a gente pra Apta?

— Dou conta, desde que estejam no meu alcance. Mas ninguĂ©m aqui tem o talento de Romus. Antes de escolher os dragĂ”es, Orba precisa escolher os soldados.

— C-certo.

— AlĂ©m disso, nĂŁo sĂŁo dragĂ”es demais pra irmos sem o transporte? Com esse nĂșmero, nĂŁo dou conta sozinha.

— Sem o transporte?

Shique se alarmou.

— Por quĂȘ? Marchar atĂ© Apta leva uma semana. Levar dragĂ”es e armas seria bem mais fĂĄcil com transporte.

— Quero ser visto. Ou melhor, aplaudido pelo povo.

A resposta de Orba foi seca. E nesses momentos, ficava claro que ele nĂŁo queria se estender no assunto. Shique e Gowen jĂĄ conheciam esse lado dele, entĂŁo nĂŁo insistiram.

— Orba, Ă©?

Mas Vileena parecia fixada em outra coisa. O olhar de Orba dizia claramente: lĂĄ vem problema.

— Esse espadachim tem a confiança de todos, hein. Aconteceu no festival, e agora ele tambĂ©m recebeu vĂĄrias responsabilidades importantes.

— Ah, Ă©. Ele… Ă© Ăștil.

Orba gaguejou e lançou um olhar disfarçado para Ran. Vileena se irritou um pouco.

— Mas ele ficou bem ferido na arena, nĂŁo foi? VocĂȘ tambĂ©m se machucou, mas deveria cuidar melhor dos seus subordinados.

— É… tem razĂŁo.

— Por mais forte que vocĂȘ seja, prĂ­ncipe, nem todos conseguem acompanhar esse ritmo. Acima de tudo, vossa alteza nĂŁo pode continuar perdendo mais ninguĂ©m. Se nĂŁo permitir que eles expressem suas opiniĂ”es e apenas exigir obediĂȘncia cega, nĂŁo importa o quanto Orba seja um bom espadachim, atĂ© ele vai acabar…

— Ha!

Naquele instante, Ran soltou um riso curto, quase um escårnio. Por um momento, todos ficaram sem reação, sem saber exatamente para quem aquele desprezo fora dirigido.

— Parece que a princesa tem um certo carinho pelo Orba.

Seus låbios se curvaram num sorriso fino e aberto. Em seguida, virou as costas e retornou ao eståbulo dos dragÔes. Romus correu atrås dela, e Lannie foi logo depois, apressada. Orba e os demais os acompanharam com o olhar, atÎnitos.

— Aquela moça — disse Theresia, pigarreando logo depois —, nĂŁo lhe parece um tanto… desprovida de modos? Agir assim na frente do prĂ­ncipe herdeiro e da princesa Vileena…

— Ah. Que vergonha. Peço desculpas pela falta de educação da minha filha adotiva.

Gowen abaixou a cabeça grisalha. Era a primeira vez que Orba via aquele homem corpulento curvar-se tão formalmente.

Mas Theresia nĂŁo estava realmente zangada. Prova disso foi o comentĂĄrio seguinte:

— Aquela jovem — repetiu, pausando como para dar mais peso Ă s palavras — Ă© por acaso amante do senhor Orba?

— A-absurdo! Por que pensaria isso?

— Não vejo absurdo algum. Só me pareceu que havia algo entre eles.

— E por que exatamente?

— Ora, quem pode saber? Mas achei o comportamento de vossa alteza estranhamente desorganizado. Pode ser um sinal de que está apaixonado por Sir Orba.

Absurdo… Orba murmurou outra vez, desviando o rosto. Conhecia Hou Ran hĂĄ mais de dois anos, e nunca tinha percebido qualquer sentimento por ela. Talvez nunca tivesse sentido nada mesmo, ou talvez nĂŁo devesse sentir. Justamente por isso, ter aquilo apontado assim o deixou incomodado.

Por um tempo, Orba e os demais observaram o treinamento da unidade aérea de forma distraída. Pouco antes do meio-dia, Vileena e Theresia se retiraram da plataforma. A princesa também acompanharia o grupo até Apta, e ainda havia bagagens a preparar.

Quando Orba enfim pensou que teria um momento de descanso, escutou um comentĂĄrio inesperado de Shique.

— A princesa nĂŁo estĂĄ muito animada, nĂ©?

— Mesmo? Não percebi muita diferença. Se esse for o humor dela pra baixo, então a Vileena de sempre vai ser uma adversária bem mais difícil do que Ryucown ou Pashir.

— Orba… Ă©, vocĂȘ realmente nĂŁo entende nada das sutilezas femininas.

— E vocĂȘ, que odeia mulheres, entende?

— NĂŁo Ă© porque nĂŁo entendo que as detesto. É porque entendo demais que nĂŁo suporto.

Na época em que era gladiador, Shique era incrivelmente popular entre as mulheres. Muitas damas da nobreza chegavam a oferecer verdadeiras fortunas ao mercador de escravos Tarkas para se tornarem suas patronas. E a todas, Shique recusava com desprezo.

— Ainda assim, nem Ă© algo tĂŁo complicado. Ela provavelmente ouviu os rumores sobre as tensĂ”es entre Garbera e Ende. E claro, nĂŁo Ă© o tipo de princesa que ficaria indiferente Ă s dificuldades do prĂłprio reino.

— É difĂ­cil dizer que Garbera se recuperou completamente da rebeliĂŁo do Ryucown — concordou Gowen. — Com Mephius foi diferente. Conseguimos impedir antes que começasse. Para os outros, parece atĂ© que o problema jĂĄ foi resolvido. Mas eles foram traĂ­dos por um dos generais mais respeitados. Isso deixa marcas.

— Não dou a mínima pros problemas de outros países — cortou Orba, encerrando o assunto.

Em seguida, chamou o capitĂŁo Neil de volta e deu fim ao treinamento. Outra unidade usaria o campo logo em seguida. Com Pashir Ă  frente, eram formados por escravos que haviam participado da rebeliĂŁo recente, homens que Orba decidiu incorporar Ă s suas tropas.

Por terem se aproveitado da rebeliĂŁo provocada por Zaat, ele nĂŁo podia simplesmente tornĂĄ-los soldados regulares. Assim, os designou como escravos de guerra, subordinados Ă  Guarda Imperial.

Orba nĂŁo tinha mais o que fazer ali. JĂĄ havia conquistado o Ăłdio daqueles homens ao impedir a rebeliĂŁo e nĂŁo pretendia piorar as coisas permanecendo no local.

Com isso, confiou o treinamento ao próprio Gowen, homem que antes supervisionava os espadachins-escravos e dominava os métodos de treino.

— Deixo o resto com vocĂȘ.

— Aah.

Orba saiu Ă s pressas do campo de treinamento.

Shique permaneceu ali e notou o riso abafado de Gowen, escondido sob a barba.

— Que foi?

— Nada. É que ele disse “deixo o resto com vocĂȘ”… Em menos de dois anos, aquele pirralho virou outra pessoa.

— E se acostumou rápido demais com a posição.

— O estranho nĂŁo Ă© sĂł ele. Eu tambĂ©m acabei me acostumando a tudo isso.

— É — concordou Shique com um sorriso leve. — Hoje em dia, jĂĄ nĂŁo me surpreendo com nada do que ele diz ou faz. Se eu nĂŁo me acostumar, minha saĂșde vai pro ralo.

Enquanto Shique sorria, Gowen olhou para a figura de Orba se afastando ao longe.

— Seria bom se fosse sĂł uma questĂŁo de costume. Mas ultimamente… ele anda se entregando demais ao papel de prĂ­ncipe herdeiro.

Essa Ășltima frase, dita num murmĂșrio, perdeu-se no vento e na areia soprada pelo sol de Solon ao alcançar o meio-dia.

◇◇◇

“O imperador Guhl Mephius parou de sorrir”. Orba perdeu as contas de quantas vezes ouviu esses murmĂșrios dentro do palĂĄcio.

O antigo imperador costumava brincar na frente de seus vassalos e encher os salĂ”es com sua voz jovial, ou pelo menos foi o que Orba ouviu dizer. O prĂłprio Orba sĂł o encontrou algumas poucas vezes desde que começou a se passar por seu filho legĂ­timo, entĂŁo nĂŁo conhecia esse “antigo” imperador.

O mais notĂĄvel era que o imperador nĂŁo soltou nem uma risada apĂłs a rebeliĂŁo de Zaat. Seus lĂĄbios se curvaram em franzidos, e ele constantemente apoiou o rosto nas mĂŁos, de mau humor.

“Arrepios sempre que ele me olha.” Esses sussurros tambĂ©m ecoaram incontĂĄveis vezes em seus ouvidos. O imperador trabalhou sem descanso para aumentar a autoridade da famĂ­lia imperial, ou, mais precisamente, a sua prĂłpria.

— NĂŁo hĂĄ mais ninguĂ©m que possa fazer uma Ășnica objeção a Sua Majestade.

Fedom murmurou pouco antes, com um rosto quase trĂȘmulo.

— Se fossem vassalos como Colyne, satisfeitos em apenas seguir ordens, atĂ© seria tolerĂĄvel… mas para nobres orgulhosos como eu, que nutrem o mĂ­nimo de preocupação pelo futuro de Mephius, se atĂ© esse orgulho for considerado um incĂŽmodo e sermos descartados pelo imperador, entĂŁo mais vale estarmos mortos.

Simon Rodloom


Esse foi o primeiro nome que veio à mente de Orba. Durante o festival, quando compartilhou o café da manhã com o imperador, Simon expressou suas opiniÔes sem medo, mesmo logo após Zaat ser confinado.

Se é esse homem, serå que ele não se oporia ao imperador sem pensar em ganho pessoal ou autopreservação quando necessårio?

Hm?

Orba torceu os lĂĄbios, surpreso por ter pensado algo assim. Nunca imaginou que um dia consideraria um nobre de Mephius sequer minimamente digno de respeito, especialmente depois de ter sido um gladiador.

Agora, bem à sua frente, com a cabeça baixa e os olhos fixos em nenhum ponto específico enquanto continuava suas preces, estava o próprio imperador, Guhl Mephius.

Na Torre Negra, coração da capital imperial de Solon. Os soldados de guarda reconheceram Orba e se curvaram. Eles o guiaram atĂ© o subsolo da torre. No caminho, passaram por inĂșmeras pessoas, homens seminus carregando pedras e entulho. A maioria era de escravos ou criminosos.

No subsolo, havia um certo MausolĂ©u do Deus DragĂŁo, ainda em construção. Enquanto o Templo do Deus DragĂŁo era erguido perto do palĂĄcio, todo o mausolĂ©u seria transferido para ali.

O imperador jå estava lå, diante de uma enorme escultura que representava a forma do Deus Dragão. Aquele era o local onde realizavam rituais para orar por colheitas abundantes, pouco antes do festival começar. Aquela pintura também seria esculpida e instalada no templo.

Orba cumprimentou com palavras polidas, mas o imperador respondeu apenas com um grunhido e um aceno, ocupado em dar ordens aos presentes.

Ele esperou. Muito.

Dez minutos se passaram até que o imperador se afastou do grupo. Orba baixou a cabeça novamente.

— Partirei depois de amanhã.

— Entendo.

O imperador passou por ele sem parar, mas, de repente, hesitou e encarou o rosto de Orba.

— VocĂȘ estĂĄ cada vez mais parecido com sua mĂŁe.

— H-Hahah! S-SĂ©rio?

Até o famoso gladiador sentiu um suor frio escorrer. O imperador recomeçou a caminhar, e Orba o seguiu.

— NĂŁo Ă© sĂł o rosto. Muitos dizem que vocĂȘ mudou, como se fosse outra pessoa. E Ă© ver esses mesmos bajuladores afirmando que vocĂȘ herdou meu sangue que me irrita.

— Apenas segui conselhos dos meus homens.

AtrĂĄs e Ă  frente deles, estavam os Guardas Imperiais, mas mantinham distĂąncia. Na fria caverna artificial, um silĂȘncio arrepiante tomou conta, enquanto as vozes e figuras dos escravos se distanciavam.

— Foi o mesmo com Zaat? AlguĂ©m lhe deu conselhos? Certamente nĂŁo fui eu. NĂŁo fui avisado.

— Sim. N-nĂŁo, quero dizer… o plano foi meu. SĂł estava inseguro e busquei a sabedoria de Fedom. Mas nĂŁo mencionei o nome de Zaat nem a urgĂȘncia, apenas uma hipĂłtese.

— E foi sugestĂŁo de quem mirar justamente na hora da rebeliĂŁo? Se me avisasse, teria sufocado Zaat em silĂȘncio, sem que os embaixadores estrangeiros notassem.

O imperador parou. À frente, só havia um precipício de cinquenta metros. A luz fraca de uma vela tremeluzia sobre sua sombra.

— NĂŁo vou me justificar. Queria… uma conquista que me tornasse reconhecido. NĂŁo pensei nos soldados ou embaixadores, fui apenas insensato. Peço perdĂŁo.

— Isso Ă© mentira.

O imperador falou friamente. Orba engoliu seco.

— NĂŁo, Ă© mentira. VocĂȘ nĂŁo confia em mim.

— Eu não-!

— SĂł queria uma conquista? Se hĂĄ algo que mudou em vocĂȘ, Ă© como ousa dar uma desculpa tĂŁo insolente.

Os olhos do imperador, iluminados pelas chamas, pareceram envolver seu corpo e alma como uma serpente. Orba nada disse, apenas baixou a cabeça, envergonhado.

— Entendo. Um filho de dragĂŁo Ă© um dragĂŁo. Para nĂłs, da linhagem do Deus DragĂŁo Mephius, talvez vocĂȘ nĂŁo possa ser um filhote para sempre.

As palavras nĂŁo tinham orgulho nem desprezo. O imperador se aproximou de Orba, que ainda olhava para baixo.

— Mas vocĂȘ puxou muito mais sua mĂŁe. NĂŁo sĂł o rosto, mas o carĂĄter. No fim, vocĂȘ se desvia dos costumes imperiais e nĂŁo abre seu coração para mim. Herdou essa fragilidade.

Depois de encarĂĄ-lo uma Ășltima vez, passou por seu ombro.

— Muito bem. Se começou a crescer asas de dragão, então cumpra as expectativas e contenha Ax Bazgan. Em duas semanas, as tropas de Oubary se juntarão às suas. Se for só para defender a fortaleza, serão suficientes.

Oubary.

Naquele momento, uma chama quente acendeu no coração gelado de Orba.

Entre as tropas que levava para Apta, estavam cinquenta homens emprestados da DivisĂŁo dos Capacetes Negros de Oubary. O prĂłprio Oubary foi enviado ao sudeste de Mephius com quinhentos homens para suprimir uma revolta de escravos em Kiluro.

Durante o tumulto na Grande Arena, Oubary desapareceu rapidamente, gerando desconfiança do imperador e dos nobres. Agora, ele tentava limpar seu nome.

— Use-os como quiser. Comande como desejar. Em troca, nĂŁo ouvirei queixas. De qualquer forma, vocĂȘ me despreza. PreocupaçÔes seriam inĂșteis.

O imperador se afastou, seu eco carregado de escårnio. Orba suspirou, aliviado por não ter sua identidade revelada. Mas uma sensação estranha o atravessou.

Pais…

Todos os pais sĂŁo assim? Odeiam e desprezam seus prĂłprios filhos, ou serĂĄ que sĂł os nobres sĂŁo tĂŁo estranhos?

Orba nĂŁo tinha memĂłrias de seu pai. Mas lembrava dos rostos de sua vila. Havia adultos que o trataram como um filho, alguns o repreenderam por suas travessuras, outros riram, dizendo que jĂĄ foram iguais. Na Ă©poca, ele os achou irritantes, mas agora, sem tĂȘ-los mais, sentiu atĂ© uma ponta de saudade.

— Pai.

Impulsionado pela chama interna, Orba chamou o imperador.

— O quĂȘ?

Seu rosto mostrou apenas irritação. Orba ergueu os olhos.

— Se posso “usar como quiser”, entĂŁo nĂŁo se importa se eu usar essas tropas para levar a cabeça de Ax, certo?

— Como?

— E, no amanhecer seguinte, tomar a cidade fortaleza de TaĂșlia, que Ax ocupa.

Um silĂȘncio pesado pairou.

Segundos depois, o imperador explodiu:

— Seu tolo!

E entĂŁo riu, uma gargalhada que ecoou pelas paredes.

— Seu tolo, eu disse para fazer como quiser! Vá em frente! Quero ver esse dragãozinho que mal sabe bater as asas tentar!

Os soldados, assustados com o rumor de que o imperador parou de sorrir, correram para ver. Ele os afastou com um gesto e partiu, ainda rindo.

◇◇◇

Nos poucos dias restantes até a partida, Orba afundou em uma enxurrada de documentos, livros e papéis entregues em seu quarto.

A lista incluiu oficiais e capitães das tropas que o acompanhariam. Entre os Capacetes Negros, estava Bane, um pedido pessoal de Orba. Também estava Pashir, entre os escravos de guerra, e Mira, a atendente. O resto eram nobres menores ou filhos tardios de casas prestigiadas, buscando oportunidades.

— AtĂ© nobres tĂȘm suas circunstĂąncias.

O camareiro Dinn trouxe mais livros.

— Meus braços já estão inchados. — O menino franziu o rosto. — Não vai me treinar e me mandar para a guerra, vai?

— VocĂȘ que estĂĄ dizendo.

Orba folheou um livro sobre os paĂ­ses vizinhos de Mephius. Precisava de informaçÔes, especialmente sobre TaĂșlia e o oeste, mas quase nada existia.

— O comĂ©rcio com o oeste Ă© proibido hĂĄ mais de um sĂ©culo. Desde os tempos de Zer Tauran.

— SĂ©rio?

Orba fechou o livro, pensativo.

— Se falar com o imperador adiantasse, jĂĄ teria todas as informaçÔes.

Dinn suspirou.

— PrĂ­ncipe, antes que vocĂȘ mergulhe em pensamentos, decida o que quer comer. O chef nĂŁo aceitarĂĄ “qualquer coisa” como resposta!

E assim, Dinn cumpriu seu dever, enquanto Orba mergulhou mais fundo em seus planos.

◇◇◇

Os portÔes oeste de Solon fervilhavam com a multidão que veio se despedir do príncipe Gil e suas tropas.

O grupo de cavaleiros na frente acenava com suas bandeiras de lança enquanto respondia aos vivas do povo com acenos. Entre os selecionados da Guarda Imperial estava Shique. Com uma beleza irritantemente perfeita para um homem, sua figura elegante montada no cavalo especialmente inflamou os gritos animados das mulheres e crianças.

Enquanto os dragÔes sob comando de Oubary e os artilheiros de Odyne Lorgo passavam, a carruagem da princesa Vileena apareceu com o rangido de suas rodas. Os aplausos alegres quando Vileena sorriu e acenou pela janela foram notavelmente altos.

E quando um novo grupo de cavaleiros surgiu atrĂĄs como sua escolta, as ruas se encheram de um burburinho diferente.

Montado em seu imponente cavalo branco, estava o príncipe herdeiro de Mephius, Gil Mephius. Sua armadura prateada refletia os raios de sol como se emitisse um brilho poderoso. Em contraste, ao seu lado estava um cavalo negro, montado pelo gladiador com a måscara de ferro. A dupla recebeu aplausos frenéticos.

— Gil-sama!

— Priiiincipe!

— Olhem, Ă© o “ClĂłvis”, Orba!

A combinação do jovem príncipe que salvou o país da rebelião e seu fiel guerreiro mascarado era uma história digna de ser lembrada, aumentando sua popularidade entre o povo.

Gil limitou-se a soltar uma mĂŁo das rĂ©deas e erguĂȘ-la levemente, mas Orba, incapaz de resistir Ă  tempestade de aplausos, acenou freneticamente com os dois braços, chegando a ficar em pĂ© nos estribos enquanto fazia o cavalo dar pequenos saltos. O pĂșblico adorou, e ele, levado pelo entusiasmo, repetiu o truque vĂĄrias vezes quase escorregando e caindo no final.

— Seu idiota! — O verdadeiro Orba, disfarçado de Gil, gritou com o rosto vermelho. — Comporte-se!

O “Orba” repreendido, na verdade o guarda imperial Kain, fazendo o papel de seu sĂłsia, deixou os ombros caĂ­dos. Os aplausos se transformaram em uma cascata de risadas.

— Bem, acho que isso tambĂ©m serve como propaganda antes da partida.

Sobre as muralhas dos portÔes, Fedom Aulin observava a cena.

Como senhor de Birac, ele permaneceu em Solon mesmo apĂłs o festival, alegando ter “assuntos pendentes”. Na verdade, estava ocupado consolidando sua facção polĂ­tica em torno do falso prĂ­ncipe.

— O prĂ­ncipe construiu sua fama com a campanha contra Ryucown e o incidente com Zaat — sussurrou um jovem alto ao seu lado, aparentemente um conselheiro. — Esse apoio popular serĂĄ um bom impulso. TambĂ©m reforça a dignidade da famĂ­lia imperial.

— Hum. Existem maneiras melhores de manter a dignidade — Fedom resmungou. — Olhe essas tropas. MantĂȘm formação, mas no fundo sĂŁo um amontoado de peças desconexas: ex-escravos gladiadores como guardas imperiais, escravos de guerra que recentemente se rebelaram, e apenas cem soldados regulares. Se o exĂ©rcito de TaĂșlia atacar com força, nĂŁo durariam trĂȘs dias.

Fedom duvidava dos rumores sobre Ax Bazgan planejando atacar Apta. Se o imperador realmente acreditasse nisso, teria enviado mais reforços.

SerĂĄ que ele quer deixar o prĂ­ncipe morrer de forma tĂŁo Ăłbvia?

O som contĂ­nuo dos aplausos ao “prĂ­ncipe Gil” fez Fedom ranger os dentes. O que mais o preocupava agora era o boato de que Melissa, segunda esposa do imperador, estava grĂĄvida. Se fosse verdade, isso mudaria completamente o jogo polĂ­tico.

Maldito, Guhl. VocĂȘ quer afastar o prĂ­ncipe do centro do poder justo quando sua popularidade cresce?

Fedom era o arquiteto da farsa que substituiu o verdadeiro Gil Mephius pelo gladiador Orba — um crime punĂ­vel com a morte de toda sua famĂ­lia. Suas noites eram de insĂŽnia, pressionado pela urgĂȘncia de consolidar sua facção antes que a verdade viesse Ă  tona.

Ele precisava de aliados que apoiassem o príncipe sem questionar o sistema imperial, sonhando com uma nova ordem sob o comando de Gil. Mas agora, quando seus planos começavam a frutificar, o príncipe era enviado para uma fortaleza distante.

As duas semanas antes da chegada das tropas de Oubary serĂŁo decisivas.

Sua maior preocupação era Orba, propenso a agir por conta própria e ignorar seus conselhos. Com forças tão limitadas e desorganizadas, ele mal teria margem para manobras audaciosas.

— Ainda assim… aquele maldito deixou palavras estranhas.

Pouco antes de partir, Orba fez um pedido peculiar a Fedom: queria que sua nau capitùnia, a Doom, ancorasse temporariamente em Birac com alguns oficiais de dragÔes alados.

— É só deixar o navio lá. Eles o moverão quando eu precisar.

— Por que diabos faria algo tão desnecessário?

— Chama-se preparação. Não se preocupe, continuarei fingindo ser o príncipe. O verdadeiro Gil permanece em Solon de qualquer forma. Cuide dele.

— Parece que vocĂȘ estĂĄ gostando desse jogo de guerra, “prĂ­ncipe”.

Fedom estava ocupado com seus prĂłprios esquemas.

— NĂŁo deixe que seus planos o levem longe demais. Se ficar na defensiva em Apta, nĂŁo direi nada. Mas se agir por conta prĂłpria e testar minha paciĂȘncia… Naquela hora…

— Entendi, Lorde Fedom Aulin.

Orba sorriu levemente. Aquele sorriso, de alguma forma, fez Fedom estremecer.

Ele realmente se parece com “ele”, pensou.

NĂŁo com o verdadeiro Gil Mephius. Naquele momento, Fedom viu nele a imagem do pai, Guhl Mephius, apesar da aparĂȘncia idĂȘntica ao filho.

Logo as tropas saíram dos portÔes e os aplausos gradualmente cessaram.

Fedom se virou para o jovem ao seu lado.

— O que foi, Hermann? Alguma preocupação?

O servo mago virou a cabeça lentamente. Seu rosto inexpressivo era um enigma para Fedom, às vezes parecendo um jovem, outras vezes mais velho que ele próprio.

— Temos preparativos a fazer — Fedom disse, erguendo os ombros. — Muitos exigirĂŁo sua expertise. Por enquanto, nĂŁo tolerarei que vocĂȘ aja por conta prĂłpria.

— Compreendo, meu senhor.

Hermann assentiu, mas antes de sair, lançou um Ășltimo olhar para a estrada onde o prĂ­ncipe e suas tropas desapareciam.

— Hmm.

Murmurou em voz baixa, inaudível até para Fedom.

— “Seu” destino Ă© certamente mover-se com o “vendaval”. A velocidade escapa atĂ© meus olhos.

Mas… oh.

Que estranho. O “vendaval” sopra claramente, mas o destino crucial d’Ele… este Ășnico passo futuro estĂĄ obscurecido. O que significa isso?

Sob o céu claro de Solon, a luz do sol refletia nas armaduras da comitiva, criando uma fileira de brilhos que logo desapareceram no horizonte. Em pouco tempo, não eram mais visíveis nem das torres mais altas da cidade.

— Já partiram?

O imperador Guhl nem sequer foi se despedir, passando todo o tempo em seus aposentos lidando com documentos.

— Sim — respondeu Simon Rodloom, ex-presidente do conselho. — O príncipe partiu em alto espírito. Caprichou no uniforme de suas tropas.

— Ainda Ă© uma criança.

— Acho encantador. É superando essas caracterĂ­sticas infantis que ele subirĂĄ os degraus atĂ© a maturidade.

— VocĂȘ Ă© paciente — o imperador resmungou. — Na polĂ­tica e na paternidade. E quanto ao sucessor da Casa Rodloom?

Simon sorriu timidamente. Tinha duas filhas, ambas casadas, mas ainda nĂŁo decidiu qual genro adotaria como herdeiro.

— Se me apressar, vou envelhecer de uma vez.

— TĂ­pico de vocĂȘ, Simon.

O imperador concordou sem rir.

EstĂĄ cansado? — Simon pensou. O imperador alternava entre explosĂ”es de emoção e momentos de completa apatia.

— Dois dias atrĂĄs — o imperador disse, fechando os olhos — a princesa Vileena pediu audiĂȘncia. Pode imaginar o motivo?

— Talvez o caso entre Ende e Garbera?

— Poderia ser. Mas ela nĂŁo mencionou isso. Apenas se despediu e disse: “Em breve, terei dois pais. Cuide de sua saĂșde.”

Simon entendeu a mensagem implícita: se Garbera fosse ameaçada, ela pedia que Mephius interviesse.

— Uma princesa corajosa e capaz. Às vezes desejo que Gil tivesse uma fração de suas qualidades.

— Vossa Majestade…

— Admito que Gil cresceu à sua maneira. Mas ainda não está pronto para governar. Um governante deve ver branco como preto quando necessário; ouvir todos, mas nunca hesitar diante da oposição; impor sua vontade desde o início.

— NinguĂ©m nasce pronto para liderar. Nem mesmo os maiores monarcas da histĂłria. Com todo o respeito, Vossa Majestade, o problema nĂŁo Ă© minha paciĂȘncia, mas sua impaciĂȘncia.

— Talvez eu nĂŁo tenha sido um bom pai. TambĂ©m admito isso.

O imperador encerrou o assunto, como se a conversa tivesse tomado um rumo desagradĂĄvel.

Simon tinha muito a discutir, incluindo o caso do Templo do Deus DragĂŁo, mas sentiu que todas as palavras bateriam em um muro de chumbo. O imperador estava isolado em sua solidĂŁo, teimoso em nĂŁo abandonar o trono.

Ele estĂĄ com medo, Simon percebeu subitamente, observando o imperador curvado sobre os documentos.

Medo de si mesmo, por nĂŁo ser mais o imperador de outrora. Medo de seu prĂłprio filho, fosse ele tolo ou nĂŁo. Ou talvez…

Simon conhecia bem o cansaço de décadas no poder. Aquilo parecia um pressågio.

O governo não podia permanecer nas mãos dos cansados. Sangue novo eventualmente substituiria o velho. Se o momento da transição fosse errado, o país definharia por dentro e, cedo ou tarde, pereceria.


Tradução feita por fãs.
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1 comentĂĄrio

comments user
zoritoler imol

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Anime X Novel 7 Anos

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