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Grieving Soul – Capítulo 4 – Volume 9

 

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 09

Capítulo 04:
[A Terra dos Espíritos Nobres]


Após seguir Selene por pouco menos de uma hora, chegamos a uma vila tão paradisíaca que pensei termos tropeçado em um conto de fadas. Um riacho cristalino corria por perto, e as casas repousavam sobre os galhos de árvores imensas.

Eu sabia que os Espíritos Nobres nasciam na natureza e viviam em harmonia com ela. Presumi que o desdém deles por metal fosse devido a alguma falta de civilização, mas descobri que estava totalmente errado, eles apenas se desenvolveram em uma direção diferente da nossa. Como Selene nos informou, não eram muitos os Espíritos Nobres que habitavam Yggdra. No entanto, todos eram proficientes com magia e construíram suas vidas garantindo a cooperação dos elementais.

Um suspiro escapou dos meus lábios. Nunca pensei que uma vila como esta pudesse realmente existir. Olhando ao redor, tive um breve vislumbre de porque os caçadores tinham tanto prazer em atravessar terras inexploradas.

O que mais me chamou a atenção, acima de tudo, foi a Árvore. Olhando para os céus, era difícil não ver algo tão gigantesco. Me disseram que estava a poucos quilômetros de nós, mas seu tamanho colossal ferrou com meu senso de distância. Estava tão longe, mas eu não conseguia ver o topo. Incontáveis folhas verdes caíam dos galhos, me lembrando da nevasca de pétalas que ocorreu durante a formação do Jardim Prismático.

Então esta é a terra natal dos Espíritos Nobres?

A visão da terra lendária deixou até meus amigos experientes em aventuras transbordando de excitação. Selene pode ter nos dado um sermão pesado no caminho para cá, mas encontrar alegria em tudo era algo em que essa equipe brilhava.

— Hmm, a Mana Material aqui é bem denso — disse Sitri, olhando para as palmas das mãos abertas. — Isso está no mesmo nível de um Cofre do Tesouro de alto nível. Na verdade, é estranho que um Cofre do Tesouro não tenha se formado até agora…

— Parece, Líder, que há verdade nas lendas urbanas que dizem que a Árvore do Mundo circula a mana do mundo.

— É, aham.

Eu já tinha ouvido ocasionalmente que a Árvore do Mundo repousava no centro das linhas ley, mas fiquei chocado ao saber que era verdade.

— Qualquer humano com alta absorção de Mana Material ficaria intoxicado. — Lapis franziu o testa. Era a primeira vez dela aqui também. — Embora eu tenha certeza de que os Grieving Souls não são estranhos a Cofres do Tesouro de alto nível…

— Entendo. Provavelmente não deveríamos ficar aqui por muito tempo. Mas eu vou ficar bem.

A intoxicação por Mana Material acontecia quando caçadores com alta absorção entravam em Cofres do Tesouro, ou quando alguém excedia rapidamente seu limite. Embora geralmente fosse melhor ter uma maior absorção de Mana Material, a intoxicação era um dos poucos deméritos dessa característica. Como alguém com quase nenhum poder de absorção, eu invejava meus amigos.

— Não se force, Desu — disse Kris com uma careta. Quase parecia que ela estava me avisando. — Com nossa baixa absorção, estamos bem, mas ouvi dizer que não há muito o que fazer para anular a intoxicação.

Se eles acham que a absorção deles é baixa, é porque não viram a minha; eu poderia andar pela Pousada Peregrina sem efeitos colaterais.

— Não se preocupe — eu disse a ela. — Podemos simplesmente ir para casa antes que a intoxicação comece.

Kris estava certa em dizer que a intoxicação não era algo que se pudesse repelir. Mesmo que eu ficasse bem, meus amigos não ficariam. Embora saquear cofres os tivesse acostumado a condições como alta Mana Material, isso não significava necessariamente que fosse menos desagradável para eles.

— Você ouviu o que eu disse? — Kris murmurou. — Por que você está tão confiante?

— Hm?

Eu não estava realmente confiante; só queria terminar nossa tarefa e ir para casa. Embora Selene tivesse nos contado apenas o básico do que Yggdra estava enfrentando, foi o suficiente para eu perceber que era um problema grande demais para resolvermos. Claro, estávamos dispostos a ajudar de qualquer maneira que pudéssemos, mas a própria Selene mal parecia acreditar que havia uma saída para isso.

Alguém consegue resolver isso?

Ela disse que muita Mana Material havia se acumulado ao redor da Árvore do Mundo, formando um Cofre do Tesouro. No entanto, quebrar a maldição do Luke era o motivo de estarmos aqui, e eu não ia perder isso de vista.

Olhando gravemente para a Árvore do Mundo, Selene se recompôs e disse:

— Por mais que eu gostaria de ouvir exatamente como você encontrou Shero, nossa prioridade deve ser quebrar a maldição de petrificação que ela lançou.

Se nada mais, parecia que nosso primeiro objetivo seria moleza.

Assim que tirei a estátua do Luke do Mimicky, Selene o examinou de perto.

— Receio que esta maldição seja poderosa demais — disse ela, parecendo frustrada. — Mesmo levando em conta os poderes da falecida rainha, ela deve ter odiado verdadeiramente este homem para lançar uma maldição tão profunda.

— Hein? Isso significa que você não pode quebrá-la?

Isso é inesperado. Eliza nos disse que um magi de Yggdra seria capaz de libertar o Luke. Cara, como ele conseguiu ficar tão mal assim? Bem, eu sempre achei que algo assim pudesse acontecer com ele.

Ainda assim, isso era muito ruim. Desperdiçamos muito tempo viajando para Yggdra. Seria um dia triste se a maldição progredisse além do ponto de recuperação.

— Para ser precisa, quebrar a maldição aqui seria impossível — disse Selene, irritada. — Se realizarmos o ritual no local correto…

— E onde fica isso?

— Sob a Árvore do Mundo. É da árvore que recebemos nossos grandes poderes…

Aquele era o lugar do qual ela acabara de nos dizer que não podíamos nos aproximar. Mais uma vez, nosso timing não poderia ser pior. Sitri então bateu as palmas das mãos como se tivesse uma ideia. Ela tinha se acostumado um pouco demais com crises.

Espere, talvez estejamos tirando conclusões precipitadas?

— Umm, não me leve a mal — eu disse, não querendo desistir —, mas existem magis mais fortes ou algo assim? Alguém que possa curar o Luke sem ir até a Árvore do Mundo? Pelo que ouvi, os Espíritos Nobres mais poderosos são os da família imperial?

Pelo que eu sabia, era absolutamente inaceitável para um humano pedir algo à família imperial, mas a vida do Luke estava em risco aqui. No ritmo em que estávamos, ele acabaria virando um enfeite da Casa do Clã.

O lábio de Selene tremeu.

— E-Eu sou da família imperial — disse ela com a voz tensa. — Minhas desculpas, humano.

A Árvore do Mundo era a árvore divina que governava as energias do mundo. Ela ficava no centro das linhas ley do nosso astro e ajudava na circulação da Mana Material, dando assim a este local a maior concentração de Mana Material do mundo. Em busca dessa energia, hordas de monstros poderosos e bestas míticas se reuniam ali.

Para evitar que a árvore fosse mal utilizada, os antigos Espíritos Nobres fundaram uma nação ao redor da Árvore do Mundo e usaram suas habilidades mágicas superiores para repelir intrusos. Foi assim que Yggdra surgiu, e seus habitantes, como Selene, serviam como guardiões da Árvore do Mundo desde então.

Uma fonte cristalina gotejava dentro de um belo jardim no centro de Yggdra. Enquanto olhava para a imponente Árvore do Mundo, a princesa imperial dos Espíritos Nobres, Selene Yggdra Frestle, continuou sua explicação.

— A Mana Material não apenas aprimora as formas de vida. Humanos, animais e plantas passam por uma mudança fundamental ao absorver Mana Material. Nossa baixa capacidade de absorção nos dá, aos Espíritos Nobres, uma resistência mais forte aos seus efeitos, permitindo-nos chegar mais perto da Árvore do Mundo do que qualquer outra pessoa. No entanto, isso não significa que sejamos imunes.

— Hmm, então seu mana tranquilo é o resultado de anos imersa em Mana Material — disse Lapis, sem nenhum calor especial. Acho que não era apenas com humanos que ela era rude.

Ouvindo uma resposta tão fria de uma colega Espírito Nobre, Selene franziu a testa.

— É apenas uma questão de qualidades inatas. Habitantes de Yggdra com absorção de Mana Material especialmente baixa são escolhidos como guardiões. Deixe-me corrigir, aqueles com absorção especialmente baixa e uma forte disposição para a magia. — Selene olhou para mim. — Embora, evidentemente, meus poderes pareçam insuficientes aos olhos deste humano.

Não foi isso que eu disse. É só que, dado que você tinha sido engolida por aquele elemental, acho que qualquer um assumiria que você não era a pessoa que estávamos procurando.

Entre ela e Murina, eu estava começando a achar que havia algum motivo para as princesas imperiais não conseguirem ficar paradas em seus castelos.

Quando Selene me viu (fingindo) não notar seus olhares, ela voltou seus olhos para Lapis.

— Oh, que seja. Lapis Fulgor, parece que há algo que você deseja me dizer.

Após lhe lançar um olhar de consternação, Lapis bufou e falou como uma represa rompida.

— Vou aceitar a oferta então. Há apenas uma pergunta que eu gostaria de uma resposta. Existe um motivo para vocês terem expulsado a maioria dos Espíritos Nobres de Yggdra, limitado a entrada, tudo isso enquanto continuam a espalhar sua fé na Árvore do Mundo?

Expulsaram a maioria?

A voz de Lapis era baixa, mas carregava um peso inegável. A existência de alguma tensão subjacente entre os Espíritos Nobres explicaria por que ela estava tão fixada na pedra amaldiçoada.

Eliza observava com seu habitual olhar vago enquanto Lapis continuava.

— Estando trancada em Yggdra, você pode não saber disso, mas somos alvo de perseguição há muito tempo. Se houver alguma verdade no que me contaram, vocês ficaram em silêncio mesmo quando a floresta de Shero foi queimada e centenas de nossa espécie massacrados.

— Lapis Fulgor, você fala de uma era que já se foi há muito tempo. Embora isso tenha sido antes do meu nascimento, tenho certeza de que meus ancestrais não tomaram essa decisão sem a devida consideração. Havia necessidades diferentes para aqueles enviados para fora e aqueles que permaneceram dentro.

Lapis a encarou em silêncio.

— Não pedirei seu perdão — continuou Selene. Ela mantinha a cabeça erguida, sua voz imbuída de convicção. Naquele momento, ela tinha o carisma condizente com uma princesa imperial. — No entanto, peço que entenda. Nós não os abandonamos. Shero Iyris Frestle — não, as rainhas de cada floresta são da mesma linhagem que eu. O motivo pelo qual a rainha de Yggdra expulsou tantos Espíritos Nobres todos aqueles anos atrás foi para garantir a continuação da nossa espécie. Embora entendêssemos os muitos perigos do mundo exterior, acreditava-se que seria mais seguro do que permanecer aqui.

O que isso significa? O mundo exterior estava cheio de hostis.

Lapis não interrompeu nenhuma vez, o que me fez pensar que tudo aquilo era informação nova para ela também. Ela apenas olhava atentamente para Selene, como se tentasse determinar se ela estava mentindo ou não.

— Em seu orgulho, os ancestrais imperiais de Shero escolheram proteger seus parentes além de Yggdra, e assim se separaram dos meus ancestrais. Mesmo assim, todos vocês ainda estão conectados aos habitantes de Yggdra. Assim, embora seja raramente utilizado, garantimos que ainda seja possível nos contatar. Eliza Peck —

O olhar de Selene mudou para Eliza, que estava em pé, ereta. Embora ela finalmente tivesse devolvido algo que procurava há tanto tempo, ainda mantinha seu próprio ritmo. Mesmo ouvir seu nome de repente não a fez nem sequer vacilar. Pelo menos ela estava bem animada quando encontrou a pedra da maldição pela primeira vez, mas eu ainda ficava impressionado com o abismo entre o estado “ligado” e “desligado” dela. Eu só não entendia por que ela estava “desligada” na frente de alguém tão importante.

— — você nos prestou um grande serviço. Agora, não passou despercebido por mim. Os Espíritos Nobres errantes, como você, vieram da floresta de Shero, não vieram?

Silenciosamente, Eliza olhou para Selene com seus olhos sonolentos e acenou com a cabeça.

Aja adequadamente, só desta vez. Não me diga que algo está te deixando perfeitamente confortável.

— A decisão de Shero de liberar uma maldição de forma imprudente não é de forma alguma perdoável. No entanto, sinto-me mais do que capaz de empatizar com ela. Habitantes de Yggdra e humanos carregam alguma responsabilidade pelo que aconteceu. No entanto, nosso mandato foi cumprido. Sinto que deve ser o destino que a trouxe de volta de seu longo hiato neste momento.

Selene deu um suspiro emocional. Então foi Yggdra que ordenou a busca pela pedra. Isso era legal, mas eu ainda precisava saber o que íamos fazer em relação ao Luke. Eu esperava que a maldição sobre ele pudesse quebrar agora que Shero estava apaziguada, mas esta maldição carecia desse tipo de cortesia.

— Agora, humano — não, Krai Andrey — disse Selene em uma voz sonora ao se virar para mim. — Ouvi sua história em linhas gerais. Você encontrou a pedra amaldiçoada e depois a trouxe para Eliza. Em nome de Yggdra, estendo minha gratidão a você também.

— Não precisa. Eu não fiz nada demais.

Por que todos os Espíritos Nobres tinham olhos como pedras preciosas? Eliza e o Starlight não eram exceções. Eu não conseguia relaxar com olhos tão cristalinos sobre mim.

Além disso, o que Eliza disse a Selene? Dizer que eu trouxe a pedra amaldiçoada para ela era uma simplificação excessiva, não importa como você olhasse. Por enquanto, apenas mantive um sorriso de “sujeito durão”.

Limpando a garganta, Selene disse um pouco relutante:

— Normalmente, ofereceríamos algum sinal de gratidão; no entanto, como mencionei no caminho para cá, Yggdra está enfrentando uma crise. Não há nada que possamos oferecer.

— Ah. Tá bom.

Eu não quis soar tão seco quando disse isso. É que encontrar a pedra amaldiçoada foi um acidente, e eu não estava pedindo recompensa; ao mesmo tempo, eu não conseguia o que realmente tinha vindo buscar. Não sabíamos quanto tempo mais levaria até que Luke estivesse completamente petrificado.

Se Selene não pudesse quebrar a maldição, teríamos que procurar outros métodos. Ir para a sede da Igreja do Espírito Radiante parecia uma possibilidade. Por melhor curandeiro que o Ansem fosse, ele ainda tinha muito a aprender sobre como lidar com maldições. Havia uma chance de outros membros da igreja saberem algo.

Inclinando a cabeça, franzi a testa enquanto pensava no assunto. Ou talvez ele fosse curado se removêssemos a camada externa?

— Estamos verdadeiramente gratos — disse Selene, com o rosto escurecendo. — Se desejar, por favor, sinta-se à vontade para levar algo de Yggdra.

— O quê? Oh, não, não é isso…

Os Espíritos Nobres já preferiam interagir com os seus. Se eu fizesse a princesa imperial deles baixar a cabeça, o Starlight poderia não querer mais nada comigo.

Justo quando eu ia dizer algo, um estrondo alto sacudiu o ar. Selene congelou. A fonte do som era Liz. Com um olhar de irritação, a ponta de seu pé revestido por uma Relíquia estava enterrada no chão. Ela deve ter chutado o solo com toda a força. Ela estava apenas ouvindo quietamente, então o que era aquilo? Selene não era a única surpresa — meu coração estava disparado.

Enquanto Selene permanecia atordoada, Liz caminhou na frente dela e estalou a língua.

— Isso está demorando uma eternidade! Você deveria ser uma princesa imperial, mas continua perdendo nosso tempo com isso! Não consegue perceber o que o Krai Baby quer? Ele está ficando muito puto!

Não. Eu não estou. Eu não estou ficando puto! E eu não quero nada.

Já nos tinham dito que eles eram incapazes de quebrar a maldição. Não fazia sentido dizer para fazerem o que não podiam. Talvez houvesse algo que a Liz quisesse, mas tirar algo de Yggdra em seu estado atual parecia bem baixo.

— Ei, Liz, espera aí —

Tentei pará-la, mas ela já tinha passado do ponto de ouvir. Sua tendência de ir com tudo era tanto uma característica boa quanto ruim. Ignorando-me completamente, ela foi até Selene e a levantou pelo colarinho.

— Não precisamos do seu agradecimento — rosnou ela, com um brilho intenso nos olhos. — Somos pessoas ocupadas. É por isso que o Krai Baby está dizendo para você se apressar e nos mostrar o Cofre do Tesouro maluco que apareceu na base da Árvore do Mundo!

Selene ficou atônita.

Não é isso que eu estou dizendo. Liz, você só quer ir para o cofre, não é?

Ela não tinha ido a nenhum cofre de alto nível recentemente. Na verdade, ela já tinha conquistado todos os cofres perto da capital imperial, então talvez visse incidentes como este como um golpe de sorte.

— Você entende o que está dizendo? — disse Selene. — A área ao redor da Árvore do Mundo é perigosa. A densidade de Mana Material está muito além de qualquer Cofre do Tesouro no mundo exterior. Yggdra está no centro do mundo; aqueles monstros são diferentes de quaisquer outros.

— E daí?! Como você pode saber se não os enfrentou?! Você não pode ser um caçador se tiver medo de uma luta difícil! Certo?

Liz olhou para mim, como se pedisse para eu apoiá-la. Seus olhos rosa-claro brilhavam com vitalidade, e um leve tom escarlate estava em suas bochechas. Era uma expressão de duas partes irritação, oito partes alegria.

Mesmo que acabemos lutando contra monstros por qualquer motivo, nossa prioridade é o Luke. Por favor, não esqueça disso.

Selene estava absolutamente perplexa. Ela provavelmente nunca tinha sido agarrada pelo colarinho antes.

Observando-nos com os braços cruzados, Lapis bufou e disse:

— Bárbara como sempre. No entanto, não negarei que aqueles com poder têm a obrigação de usá-lo, e temos nosso orgulho como Espíritos Nobres. Muito bem, Mil Truques. Vou seguir sua liderança aqui.

— Oh. Uh, tudo bem.

Eu não tinha dito nada, na verdade. Quando pensei sobre isso, porém, esta poderia ser a melhor maneira de salvar o Luke. Afinal, não precisávamos necessariamente conquistar o Cofre do Tesouro que se formou. Se Selene estivesse certa, quebrar a maldição exigia apenas o ambiente correto. Poderíamos nos esgueirar até a Árvore do Mundo e, se algum Fantasma aparecesse, alguns de nós poderiam detê-los para ganhar tempo para a cura.

Além disso, cuidar do problema central ali não seria fácil. Embora eu estivesse presente na formação de Cofres do Tesouro, nunca vi um ser destruído. Eles não eram exatamente algo que você pudesse simplesmente queimar.

— B-Bem, ela tem um ponto — eu disse. Não via o que podia fazer a não ser aceitar. — Parece que precisamos nos aproximar da Árvore do Mundo se quisermos quebrar a maldição do Luke.

— Parece que o que dizem sobre a autoconfiança humana é verdade — disse Selene com um suspiro exasperado. — Ou talvez você seja simplesmente imprudente?

Ela acertou em cheio. Caçadores não tinham consideração pelo valor da vida. Eu queria me rastejar de volta para dentro do Mimicky.

Alheia ao meu terror, Selene colocou nossa determinação à prova.

— A Mana Material reunido ao redor da Árvore do Mundo está atingindo a capacidade máxima, nos aproximando da destruição. O transbordamento está afetando até mesmo o Corredor da Árvore Divina e as aberrações resultantes somam dezenas de milhares. Apenas se aproximar da vizinhança da Árvore do Mundo é uma tarefa perigosa. A maioria dos elementais que ajudaram a construir Yggdra sofreram mudanças. Nenhuma de nossas preparações de batalha serviu de nada. Sabendo disso, vocês ainda seguiriam em frente em uma tentativa de salvar seu amigo?

Você realmente poderia ter mencionado tudo isso antes. Como eu pensei, seria mais rápido ir para outro lugar. Exceto que acho que não há como parar esse pessoal agora.

Normalmente, o Luke estaria correndo solto, e a Liz estaria dando bronca nele. No entanto, agora que o Luke não estava aqui, era a Liz que estava se envolvendo em loucura, e não havia ninguém para detê-la.

Eu estava fazendo o meu melhor para pensar em uma maneira de dizer “não” gentilmente quando Sitri levantou a mão direita.

— Tenho uma pergunta, Selene, se estiver tudo bem.

Selene virou seu rosto de boneca para Sitri.

— O que seria?

Com um sorriso brilhante, nossa Alquimista bateu as palmas das mãos.

— A natureza da Mana Material é imutável. Ele flui através do solo via linhas ley, e Fantasmas e Cofres do Tesouro se formam onde quer que haja poder. Tem sido assim desde sempre. Agora, pelo que ouvi, como sua escolha de enviar as pessoas embora e fazer preparativos para a batalha, só posso presumir que vocês, de Yggdra, têm uma ideia precisa do que há de errado com a Árvore do Mundo, bem como do perigo que ela representa. Estou errada?

Ela falou em termos claros e concisos. Ela também foi certeira. Eu não tinha notado antes, mas a família imperial tinha enviado seu povo embora antes da maldição de Shero entrar em fúria. Pelo menos mil anos atrás, em outras palavras.

Selene ficou atônita por um breve segundo antes de recuperar a compostura.

— Está correto — disse ela com um aceno. — Sabemos há muito tempo da destruição iminente apresentada pela Árvore do Mundo. Temos trabalhado para detê-la e, de fato, conseguimos atrasá-la. No entanto, os poderes acumulados superaram em muito nossas previsões mais selvagens.

— Entendo — eu disse. — Isso deve ser difícil.

— Isso é um eufemismo, Desu.

Você sabe o que está por vir, mas não pode fazer nada a respeito. É, eu já passei por isso.

Kris teria que me perdoar por usar um eufemismo. Este não era meu problema para resolver. Por mais frio que pudesse ser, a destruição de Yggdra teria, em última análise, muito pouco efeito na minha vida na capital imperial. Se não tivéssemos vindo aqui para quebrar a maldição do Luke, não teríamos nos envolvido nisso e teríamos ficado na capital, sem saber do perigo da Árvore do Mundo.

Embora a frase “anomalia na Árvore do Mundo” soasse como algo perigoso, não oferecia detalhes. Acho que a razão pela qual eu frequentemente parecia imperturbável era simplesmente porque eu nunca tinha ideia do que estava acontecendo. Então, enquanto eu permanecia em silêncio, Sitri alegremente falava por mim.

— Podemos não viver tanto quanto os Espíritos Nobres, mas mantivemos registros detalhados e realizamos investigações sobre os caminhos que percorremos. Este astro viu várias civilizações caírem e novas nascerem. Embora possamos apenas fazer suposições baseadas no que os Cofres do Tesouro recriam, não ignoramos os detalhes. Por exemplo, podemos arriscar palpites sobre o que aconteceu quando algumas dessas civilizações chegaram à ruína.

Ouvi Kris engolir seco. Todos estavam encantados com o discurso de Sitri. Embora ela sempre tivesse passado a maior parte do tempo na biblioteca lendo livros, eu ficava impressionado com o quão conhecedora ela havia se tornado. Mas havia uma coisa sobre isso que não batia — por que minha querida amiga parecia tão feliz?

— Tenho certeza de que Krai chegou à mesma conclusão, mas aqui está o que eu montei a partir do que Selene nos disse: vocês, de Yggdra, estão esperando a destruição da Árvore do Mundo. É uma suposição justa?

E-Ei, nada disso sequer passou pela minha cabeça.

Olhei para Selene e nossos olhos se encontraram. Aqueles olhos claros, verde-água, agiam como um espelho, refletindo meu rosto de tonto. Ficamos assim por apenas um momento antes de ela desviar o olhar como se nada tivesse acontecido. Eu estava rezando para que a suposição da Sitri estivesse errada, mas a reação da Selene dizia tudo.

Olhei para a Árvore do Mundo. Seu tamanho enorme e folhas aparentemente infinitas a fizeram parecer quase mística quando a vi pela primeira vez, mas agora a visão dela era estranhamente inquietante.

— Essa — disse Selene após um minuto de silêncio — é uma suposição justa. A destruição da Árvore do Mundo não é apenas um problema de Yggdra. Há poucas coisas que podem se manifestar perto da Árvore do Mundo, a fonte das linhas ley. Nós, de Yggdra, apelidamos assim o Cofre do Tesouro que uma vez apareceu, e aparecerá novamente, ali. — Após respirar fundo, Selene continuou em um sussurro. — O início do fim do mundo. Onde o portador da calamidade descerá — Santuário das Origens. Não acontecerá imediatamente, mas em um futuro próximo, um deus Fantasma nascido da Árvore do Mundo trará o fim da civilização.

Para algo que começou como uma missão para curar o Luke, isso escalou de forma selvagem. Entre todas aquelas maldições e a Chave da Terra, nosso mundo estava repleto de perigos. Só desta vez, olhar para o outro lado simplesmente não era uma opção. Eu tinha que fazer algo, mas isso era demais para mim. Isso, eu tinha certeza, era um trabalho para o Ark.

— Quão distante está esse futuro próximo? — perguntei temerariamente.

Quer escolhêssemos pensar em um plano de ação ou reunir forças, não aconteceria em um instante. Se o mundo acabasse, haveria problemas maiores do que a petrificação do Luke.

Respirando fundo, Selene empalideceu.

— Não demorará muito. De acordo com nossos registros, há um processo necessário para a descida do deus. O palco já foi montado. Tudo o que resta é que a quantidade necessária de Mana Material se acumule. Pelos nossos cálculos, isso poderia ocorrer em menos de duzentos — não, talvez até cem anos! Devemos estar preparados para o pior!

— É-É, aham.

Cem anos, você disse? É verdade, vocês vivem vidas bem longas.

Embora o fim do mundo em cem anos soasse bem ruim, não havia chance de eu ainda estar por aqui para ver. Com o seu Mana Material, meus amigos provavelmente ainda estariam vivos naquele ponto, mas eu com certeza absoluta não estaria.

Senti-me um pouco melhor agora. Batendo as palmas das mãos, virei-me e olhei para meus companheiros.

— Bem, entrar em pânico não nos levará a lugar nenhum. Tive uma ideia. Pode não parecer, mas cem anos é muito tempo, então vamos nos preocupar com isso depois que o Luke voltar ao normal.

Então vamos voltar para a capital e fazer — digo, pedir para o Ark cuidar disso.

Já estávamos bem avançados na noite quando terminamos nossas discussões.

Tive que subir uma escada em uma árvore para chegar à casinha aconchegante que Selene havia preparado para nós. Não era luxuosa, mas tinha todas as necessidades e era confortável o suficiente. Mais importante, porém, tinha uma varanda na qual eu podia sair para ter uma vista incrível do céu noturno. Diferente da capital imperial, Yggdra emitia muito pouca luz artificial, não deixando nada interferir nas estrelas cintilantes.

Respirei fundo, deixando o ar fresco e puro encher meus pulmões. Embora tivéssemos enfrentado alguns obstáculos grandes no Corredor da Árvore Divina, e depois recebido uma notícia bombástica sobre o fim do mundo, olhar para o céu estrelado fez vir até aqui valer a pena.

Parada ao meu lado, Sitri disse com um brilho nos olhos:

— Eu certamente não esperava encontrar uma pista sobre a destruição de civilizações passadas quando partimos para Yggdra. Embora eu tivesse minhas suspeitas de que os Espíritos Nobres poderiam saber de algo, dada a sua longevidade. Não está feliz por termos vindo, Krai?! A teoria da destruição por um deus Fantasma de repente parece muito mais crível!

— É, aham.

Ela estava realmente animada, considerando que era a civilização dela em risco, mesmo que fosse daqui a cem anos. Ainda assim, um deus apocalíptico se manifestando. Seria ele mais forte que as raposas da Pousada Peregrina? Uma parte de mim queria saber, outra parte não.

Pelo menos tínhamos garantido a cooperação da Selene em quebrar a maldição do Luke. Felizmente, não parecia que o feitiço em si fosse tão complicado, nem precisaríamos fazer preparativos como a igreja fez ao purificar o Lamento de Marin. O único problema restante era o que fazer com os poderosos Fantasmas que diziam aparecer dentro do Cofre do Tesouro, mas eu teria que deixar os outros caçadores cuidarem disso.

— Eu certamente não achava que Yggdra estava mantendo algo assim em segredo — disse Lapis, descontente como sempre. — Sei que a reverência dos habitantes de Yggdra por sua cidade é profunda, mas parece que eles mantiveram suas bocas fechadas apesar de tudo o que sabem. Eliza, você estava ciente de algo disso?

— Não. Tudo o que foi passado para os Nobres do Deserto foi o seu mandato. Acho que eles tinham medo de que a informação vazasse. Não é difícil ver como as coisas poderiam ficar complicadas se a verdade sobre a Árvore do Mundo se tornasse conhecida.

— Hmph. E agora que perderam qualquer motivo para serem tão reservados, estão revelando a verdade. Bastardos inconsiderados, preparando-se para uma luta impossível de vencer e considerando as consequências de uma derrota, incluindo como garantir que a informação seja passada adiante. Cem anos. Míseros cem anos.

— Não há muito o que se possa fazer em cem anos.

Não muito? Até eu ficaria um pouco mais forte se treinasse por cem anos.

Eu estava apenas começando a perceber quão insana era a lacuna de percepção entre humanos e Espíritos Nobres.

— No entanto, Mestre, mesmo se conseguirmos quebrar a maldição do Luke, aquele é um Cofre do Tesouro do tipo santuário, certo? — disse Tino. Sendo uma Ladra, ela estava inspecionando curiosamente a casa. — O que podemos fazer sobre isso? Podemos matar um deus?

Digo, eu não diria que é impossível.

Minha prioridade era o Luke. O cofre era a segunda ou terceira; eu só não podia dizer isso na frente do Starlight. Eu teria que dizer eventualmente, mas agora não era o momento. Não podíamos descartar a possibilidade de o Luke cortar o cofre de tesouro assim que voltasse ao normal.

— Embora eu não possa garantir que nenhuma delas funcionará, acho que temos algumas opções. Já que estamos falando do fim do mundo, vamos fazer tudo o que for possível.

— Você está certo, Mestre! Se houver qualquer maneira de eu ajudar, não hesite em me chamar!

— Então que tal você fazer algo em relação ao Cofre do Tesouro?

— Hein?!

Eu estava apenas brincando, mas Tino estava de olhos arregalados e tremendo levemente.

— Líder, por favor, seja razoável com ela!

Não sei por que, mas Lucia estava excepcionalmente distraída até dizer aquilo.

Para mim, “fazer tudo o que podemos” significava transformar isso em um problema para o Ark resolver. No entanto, ninguém ficaria feliz comigo se eu mencionasse isso, mesmo se eu dissesse que era um ato de Senhor Cautela. O único problema era que Yggdra era tão inacessível quanto possível. Eu não podia ir para casa por conta própria, já que a Bússola dos Tolos só mostrava como chegar aqui. Eu teria que pedir à Selene ou a alguém para usar um feitiço para me lançar de volta, ou refazer nossos passos pelo Corredor da Árvore Divina.

Se isso não fosse ruim o suficiente, os monstros ao longo daquele caminho haviam perdido o controle e crescido em número. Chegou ao ponto em que um elemental guardião designado pela família imperial de Yggdra foi arrastado pela loucura. Eu queria vomitar só de pensar no que poderia acontecer se alguém com azar crônico como o meu entrasse lá. Se curar o Luke exigia ir a um lugar ainda pior, então eu não tinha certeza do que poderia contribuir além de algumas orações.

Fazendo um espacate com o tronco pressionado contra o chão, Liz olhou para cima com um sorriso.

— Mal posso esperar para ver o que tem lá fora. E você?

Se você já não percebeu, eu ficaria bem em nunca ver o que tem lá fora.

Não precisávamos sair imediatamente, e teríamos que fazer algumas investigações preliminares antes de começar. Disseram-nos que o número de Fantasmas flutuava de dia para dia. Quanto menos inimigos tivéssemos que lutar, melhor. E tínhamos exatamente a Ladra para garantir que isso acontecesse.

— Desculpe, Eliza, mas posso pedir para você fazer o reconhecimento do Santuário das Origens? Precisamos descobrir quando cronometrar a cura do Luke.

— Entendido.

— Hein?! Por que ela e não eu?! Eu também posso fazer reconhecimento!

— Porque, Liz, você iria “testar” os Fantasmas.

Claro, eu não tinha dúvidas quanto aos talentos da Liz; é que ela tinha essa crença de que conseguir o primeiro sangue era um privilégio especial de Ladra. Sem mencionar que Eliza a superava quando se tratava de detecção. Qualquer outro nos Grieving Souls teria tomado a mesma decisão.

Com ela ainda no chão, caminhei até Liz e coloquei a mão em sua cabeça.

— Você vai se soltar mais tarde. Se a oportunidade se apresentar.

— Tá booom. — Ela franziu os lábios para mostrar sua insatisfação, depois voltou aos seus alongamentos. — Isso é uma promessa, ok?

Já tínhamos enfrentado perigo dezenas de vezes antes, e apenas uma ou duas vezes tínhamos passado por isso sem luta. Eu teria que ser um idiota para pensar que as coisas se encaixariam logo desta vez. Embora eu não me importasse com o fervor de batalha deles, eu confiava na proeza de luta dos meus amigos — eu tinha certeza de que eles poderiam repelir até mesmo os Fantasmas de um cofre diferente de qualquer outro.

Assim que tirássemos a maldição do Luke, eu planejava inventar algum motivo para sair da floresta. Agora, isso não seria fugir. Às vezes, um breve recuo pode ser um benefício tático, só isso. Na capital imperial, poderíamos recrutar todo tipo de gente, e poderíamos até encontrar uma solução para o problema da Árvore do Mundo.

Kris olhou para mim com desconfiança, provavelmente porque sentiu que eu estava planejando algo.

— Humano fraco, realmente temos uma chance nisso? Desu?

— Sempre há circunstâncias imprevisíveis. Não há como ter cem por cento de certeza.

Falando em circunstâncias imprevisíveis, o que aconteceu com aquela garota que fingiu ser do Starlight para poder tirar a Bússola dos Tolos de mim?

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Embora todos caíssem sob o mesmo termo genérico, “monstro” englobava uma vasta gama de criaturas poderosas que antagonizavam a humanidade. A história da humanidade poderia ser resumida na história de suas batalhas contra monstros. Nações e assentamentos humanos eram geralmente estabelecidos longe dos territórios de bestas ameaçadoras.

Embora muitas pessoas passassem a vida inteira sem encontrar um monstro poderoso, seria incorreto dizer que os humanos governavam o mundo. Monstros viviam perto de crateras vulcânicas ferventes, em colônias robustas fundadas em vastos desertos, nas profundezas das florestas, entre as ruínas de fortalezas, silenciosamente dentro de imensas cavernas que se estendiam por centenas de quilômetros, escondidos entre cidades humanas e muito mais.

Viajando pelo mundo, Uno e seus companheiros haviam lutado e coletado miríades de monstros. Diferente dos Fantasmas dos Cofres do Tesouro, monstros eram criaturas vivas, um fato que acarretava uma série de inconvenientes.

Para o Night Parade, o Corredor da Árvore Divina provou ser tanto o céu quanto o inferno — os sons incessantes de feitiços ofensivos. Os rugidos de monstros seguidos pelo retinir metálico de seus ataques ricocheteavam na armadura do astrovore. Os monstros nesta trilha mística estavam muito além de qualquer coisa que tivessem lutado anteriormente.

A Mana Material no ar era anormalmente denso, e os monstros tinham muitas características incomuns. Uno e seus companheiros eram todos especialistas quando se tratava de monstros, mas nem mesmo eles reconheciam algumas das bestas com as quais cruzaram.

Ela se viu buscando cobertura atrás do astrovore para fugir do ácido cuspido por uma grande serpente, depois desviando para o lado para evitar um feitiço lançado por um elemental voador. Mesmo suas estimativas mais seguras colocavam cada um desses monstros em um mínimo de Nível 6 pelas métricas da Associação de Caçadores.

Com inimigos como esses, até mesmo um projétil perdido era perigoso. Essa era uma fraqueza para esse trio de Controladores: eles eram razoavelmente frágeis em comparação aos monstros sob seu comando. Uno foi forçada a ficar fora do caminho, pois ser atingida seria o fim para ela.

— Eu nunca vi tantas bestas míticas e elementais! — disse ela entre respirações ofegantes. — Verdadeiramente, os Espíritos Nobres têm uma bela segurança!

— Você pode guardar seus soluços para depois! Tem mais vindo!

Zork, o ciclope das trevas, era o favorito pessoal do general do Night Parade, Quint Ghent. A clava do ciclope atingiu a serpente mítica, soprando para longe junto com ela outros monstros que estavam esperando por uma chance de atacar. Com um grito agudo, o astrovore repeliu uma multidão de inimigos que se aproximavam.

No entanto, os monstros do Corredor da Árvore Divina não mostravam o menor sinal de que poderiam recuar. O ciclope comandado por Quint e o parceiro de Adler, a centopeia, eram ambas criaturas que um dia dominaram seus respectivos domínios. A maioria dos monstros saberia instintivamente quando estava enfrentando um inimigo superior e, assim, recuaria. Nenhum dos Controladores jamais vira algo assim.

Criaturas como Zork e o astrovore valiam cada uma por mil soldados. Eram monstros poderosos que haviam sido treinados para serem ainda mais mortais. Isso, porém, não significava que fossem invencíveis ou imunes à fadiga de batalha.

Após ser atingida por Zork, a serpente se recuperou de um ataque que teria deixado a maioria dos monstros no chão. Sacudir um golpe de um monstro que brilhava no combate corpo a corpo exigia uma durabilidade imensa. A serpente sofreu algum dano, mas seus olhos frios ainda mantinham a mesma determinação feroz.

— Adler, tem algo de estranho com esses caras — chamou Quint. — É como se não sentissem medo ou dor!

— Deve haver uma explicação. A Mana Material aqui é denso demais para ser natural. Apenas estar acima de uma linha ley não é suficiente para explicar isso, não diria, Uno?

Os olhos de Uno, a Mestra do Espírito Sagrado, tinham um poder especial de ver aquilo que de outra forma seria invisível. Embora um feitiço especial estivesse distorcendo o espaço ao redor deles, ela podia distinguir claramente um fluxo de Mana Material indo em uma direção. Em um Cofre do Tesouro típico, ela podia ver a mana fluindo para cima a partir do solo — ou, para ser precisa, das linhas ley. Isso era claramente diferente — a mana estava jorrando de fora.

Sem dúvida, era isso que estava tornando os monstros ali tão poderosos. A Mana Material aprimorava as criaturas parcialmente à força. Se o feitiço dos Espíritos Nobres estivesse por trás desse poder bizarro em exibição, então eles estavam cometendo um ato de crueldade.

— É isso mesmo! — Uno respondeu. — Posso sentir correntes imensas de mana de fora causando interferência mágica! Tenho certeza de que os Espíritos Nobres estão aprimorando forçosamente esses monstros como uma forma de reforçar suas defesas!

Levantando um braço, ela apontou na direção de onde a mana estava vindo. Embora ela não pudesse distinguir os detalhes do feitiço, ela não achava que os Espíritos Nobres teriam alguém capaz de ver a Mana Material.

— Adler, vamos mesmo continuar indo?! — Quint gritou. — Se seguirmos pelo caminho que a Bússola dos Tolos está apontando, não seremos atacados, certo?!

— E qual seria o objetivo disso? — ela respondeu. — Nosso objetivo aqui é garantir novos combatentes. Ir pelo caminho da Bússola é exatamente o que o Mil Truques espera que façamos. Se precisarmos correr, podemos fazer isso a qualquer momento.

— Bem, sim — disse Uno —, você não está errada…

— Se for o caso, você deveria estar animada! — Os lábios de Adler se retorceram em um sorriso audacioso. — Os Espíritos Nobres podem ter mexido com esses monstros, mas podemos apenas fazer o que sempre fazemos! Vamos superar essas bestas, fazê-las se submeter e depois fazê-las nos servir! É assim que ficamos mais fortes, e é como sempre ficaremos! Se pudermos trazer esses monstros para o nosso lado, seremos imparáveis!

— Isso é verdadeee, mas eles não estão cedendo!

Uma lâmina de vento passou pelo astrovore, deixando um ferimento raso e sangrento na bochecha de Adler. A centopeia era robusta como um baluarte, mas não podia bloquear tudo, especialmente enfrentando tantas ameaças.

— Lady Adler! — Uno gritou antes de perceber.

Apesar do corte, Adler permaneceu destemida.

— Eu posso aguentar isso — ela ronronou. — Eles podem cortar um pouco mais fundo, e eu ainda ficarei bem.

Como se fosse um sinal, o astrovore desfez o rolo defensivo que formara ao redor dos Controladores e se moveu. Yuden era uma centopeia astrovore, um monstro que outrora fora o rei de uma era agora há muito tempo passada. Após pesquisar em um tomo antigo, Adler o descobriu à espreita em uma ruína ancestral.

A fera ergueu o corpo, depois disparou para frente como uma víbora. Sua camada externa era mais durável que a maioria dos metais. Podia correr mais rápido do que o som podia viajar. Com sua estrutura grande, fez um penhasco desmoronar e árvores caírem enquanto atravessava os monstros que pululavam. Essas bestas aprimoradas não eram nada comparadas ao astrovore. Tendo vivido por milhares de anos, seus poderes superavam os dos dragões mais fortes.

Até os monstros que suportaram ataques de Zork agora estavam imóveis no chão, seus corpos crivados de buracos. Enquanto Yuden derrubava seus inimigos, suas inúmeras pernas afiadas perfuravam suas peles. O astrovore carregava toxinas poderosas que podiam incapacitar rapidamente as mais fortes das bestas míticas. Era por isso que as pessoas antigas outrora temiam essa criatura como uma das bestas mais fortes vivas. No entanto, os monstros não estavam mortos, pois a centopeia tinha várias toxinas à sua disposição.

A vitalidade de Yuden garantia que ele pudesse sobreviver facilmente até mesmo sendo despedaçado ou a um ataque cruel dos Grieving Souls. Havia também seu poder esmagador, coroado pela habilidade de subjugar alvos com uma variedade de toxinas. Certamente, pouquíssimos seres em existência poderiam vencer em uma luta direta contra o que era um dos monstros mais fortes do mundo.

— Em um golpe, ele derruba o que o Zork não conseguiu. — Quint gemeu, um pouco frustrado. — Essa coisa ainda me apavora.

Adler bufou.

— No entanto, não foi o suficiente para os Grieving Souls. Uno, vá conquistar os monstros que acabamos de derrubar. Se eles perderam tão rápido para o Yuden, provavelmente não serão páreo para aqueles caçadores, mas com monstros suficientes, podemos pelo menos dar problemas a eles. Oh, e não se esforce demais. Há muito mais de onde esses monstros vieram.

— Como desejar. Maaas eu não sei se terei muito sucesso em conquistá-los.

Alguns monstros não eram facilmente domesticados. Muitos deles não podiam ser comunicados, e questões como sorte e compatibilidade eram sempre um fator. O truque para domesticar monstros era estabelecer uma hierarquia clara através de exibições de poder. Muitos monstros eram instintivamente atraídos por seres poderosos. A demonstração de força esmagadora de Yuden deveria facilitar a tarefa de Uno.

O fato de não haver monstros mais fortes do que o astrovore era um grande alívio. A situação mais perigosa em que um Controlador poderia se encontrar era ao enfrentar uma ameaça mais forte do que qualquer coisa sob seu comando. Esse era o verdadeiro teste da coragem de um Controlador.

Adler de repente olhou para Uno. Ela teve um mau pressentimento sobre o brilho silencioso nos olhos de sua líder. Embora ela tivesse sido jogada para lá e para cá à mercê dos Grieving Souls anteriormente, ela estava sempre sendo jogada para lá e para cá à mercê de Adler.

— Mas alguns daqueles caçadores podem usar feitiços de ataque, então não vejo sentido em preencher nossas fileiras com mediocridade. Uno, você disse algo sobre a Mana Material fluindo de fora, certo?

— Eu disse — a bochecha de Uno começou a tremer. — Oh, não me diga…

Adler estreitou os olhos. Não havia como mudar a ideia dela quando ficava assim.

— Eu não sei o que pode estar ali, mas se houver uma fonte de Mana Material, então é lá que os monstros mais fortes devem estar. Não consigo pensar em lugar melhor para ir enquanto reforçamos nossas forças.

Embora houvesse certamente uma medida de lógica naquela ideia, ela assumia que tudo continuaria a correr como esperavam. A ideia de Adler era perigosa. Eles sentiram a força dos monstros no Corredor da Árvore Divina e descobriram que nenhum podia vencer o astrovore, mas tal garantia não poderia durar muito mais tempo. Mesmo que nada maior que Yuden aparecesse, isso não significava necessariamente que os Controladores sairiam ilesos.

Antes disso, no entanto, ela não tinha certeza se eles poderiam atravessar esse Mana Material denso antes que a intoxicação começasse. Havia uma chance muito boa de que eles se vissem incapacitados se isso acontecesse. E esse era apenas o começo das preocupações de Uno.

No entanto, Adler estava fazendo sua proposta perfeitamente ciente de tudo isso.

— Se você coloca dessa forma, Adler, eu não posso dizer não — disse Quint. — Depois de ver os monstros que este lugar tem a oferecer, não tenho certeza se consigo voltar para os nanicos lá fora.

Com um suspiro, ele desembainhou sua espada, o que significava que provavelmente pretendia lutar ao lado de seu servo, Zork. Se Adler e Quint estavam ambos decididos a ir, Uno não podia detê-los. Seus monstros eram poderosos, mas não foram feitos para o combate, nem suas habilidades podiam ser usadas em sucessão rápida.

— Vamos correr no momento em que estivermos em apuros, ok? — disse ela. — Não podemos deixar este lugar ser o nosso fim.

— Eu sei, Uno — Adler respondeu. — Aprendemos que o astrovore pode lidar com o que está aqui, e temos suprimentos de sobra. Vamos arrasar este lugar e mostrar àquele homem o que acontece quando você nos subestima.

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Em nossa era de caça ao tesouro, os Cofres do Tesouro invariavelmente atraíam atenção. Pesquisas sobre cofres e Relíquias eram realizadas globalmente, e até mesmo a Associação de Caçadores ocasionalmente encomendava investigações. Embora ainda houvesse muitos mistérios e irregularidades cercando os cofres, essa pesquisa provou valer a pena, pois a Associação tinha uma compreensão sólida das características e tendências dos cofres.

A aparência externa de um cofre era um bom indicador de seu nível de dificuldade. Agora, o tipo considerado mais perigoso era…

— Tenho certeza de que é um cofre do tipo santuário — disse Eliza languidamente. Ela acabara de retornar de seu reconhecimento. — Dada a força da Mana Material, eu tinha minhas suspeitas. Os habitantes de Yggdra estavam certos.

Cofres do Tesouro do tipo santuário eram conhecidos por não terem truques, mas ostentarem os Fantasmas mais fortes do mundo. Eram considerados versões mais avançadas dos já difíceis cofres do tipo castelo. O que os separava era que os chefes dos tipos santuário eram Fantasmas divinos, e o cofre se dissiparia após a derrota deles.

De modo geral, a queda de um cofre do tipo santuário era um evento histórico. A Casa Rodin ganhou seu nome como uma linhagem de heróis através da conquista do Santuário do Deus Celestial. Xerxes Zequenz, Nível 10 e considerado um dos maiores caçadores vivos, limpou o Cofre do Tesouro. Embora ser do tipo santuário pudesse envolver todo tipo de possibilidades, podíamos pelo menos ter certeza de que, fosse o que fosse, não seria fácil nem mesmo para os Grieving Souls derrotar.

— Não consigo ver isso correndo bem com tantos Fantasmas já formados. — Parada com Eliza, Liz franziu a testa, absorta em pensamentos. — Mmm. Isso vai ser um inferno do início ao fim. Acho que temos um novo objetivo para trabalhar!

— Entendo — respondi. — A propósito, eu pedi para a Eliza fazer o reconhecimento.

Eu sei como seus instintos de Ladra estavam te incitando a ir, mas, por favor, mostre algum autocontrole.

— Qual é, não é nada demais. É perigoso ir sozinha, e deixei a Ellie fazer as coisas importantes. Eu estava lá para protegê-la!

É, aham. E por que a Tino está atrás de você, parecendo que está prestes a dar seu último suspiro?

Meus amigos eram profissionais de elite quando se tratava de Cofres do Tesouro. Mesmo em Zebrudia, ninguém tinha enfrentado tantos cofres de alto nível quanto eles. Com seu conhecimento e experiência abundantes, eu confiava no julgamento da Liz e da Eliza sobre isso.

Liz tinha um excesso de orgulho e sede de sangue e pularia para enfrentar qualquer cofre que tivesse a mínima chance de limpar. Se apenas olhar para o Santuário das Origens fosse suficiente para ela dizer que parecia um inferno do início ao fim, então o cofre devia ser algo insano.

— Quebrar a maldição não exigirá que entremos no santuário interno — disse Eliza com um suspiro profundo. — Luke pode ser curado se o levarmos para perto da entrada. Tudo o que precisamos é que a Selene receba os poderes da Árvore do Mundo.

— Eh, tudo bem — respondeu Liz. — Além disso, se limpássemos aquele cofre sem o Luke, ele ficaria bem deprimido depois.

— É! Aham.

Oh, então só precisamos nos aproximar da entrada? Que bom. Isso pode funcionar, afinal.

Com a Liz a bordo, tudo o que precisávamos era descobrir o momento certo. Talvez isso corresse melhor do que o esperado.

— Uma vez que tenhamos quebrado a petrificação do Luke, teremos que fazer algo em relação àquele Cofre do Tesouro — disse Sitri enquanto folheava um livro. Nunca perdendo o ritmo, ela recebeu permissão da Selene para navegar na biblioteca de Yggdra. — Este será nosso primeiro cofre do tipo santuário, mas se as lendas forem dignas de crédito, até que energia suficiente seja acumulada, a fonte do cofre deve estar dentro do santuário interno. Essa fonte será o ovo de um deus adormecido. Se cuidarmos do ovo, o poder deve se dispersar e o cofre desaparecerá. Apagar um cofre normal é um negócio complicado, mas santuários são um pouco diferentes nesse aspecto, felizmente.

— Isso é algo fácil de fazer? — perguntei.

— Até onde eu sei, ninguém nunca conseguiu. Esses deuses adormecidos são considerados aglomerados de energia instável. Embora possam não estar acordados, um ataque descuidado pode resultar em tudo dentro de centenas de quilômetros sendo reduzido a cinzas. Agora, com o mundo em jogo, isso pode ser um sacrifício digno — É isso! Talvez desta forma, você possa ser o primeiro a ter sucesso, Krai!

Que conclusão estranha para se chegar. Primeiro a ter sucesso, hein? Meus olhos se arregalaram quando algo me ocorreu. Não, espere. Centenas de quilômetros reduzidos a cinzas? Isso não soa bem, mas talvez pudéssemos sobreviver a isso com os Anéis de Proteção?

Eu tinha anéis suficientes para nossas equipes e, embora a área fosse incinerada, isso era melhor do que o fim da civilização. Pensei que isso poderia ser um vislumbre de esperança. Se parecesse que isso não funcionaria, então, bem, poderíamos deixar esse problema para as gerações futuras.

— Cae, Selene disse que gostaria que você decidisse quando faremos nosso movimento.

Ela quer saber quando? Eh, suponho que ela seja uma Espírito Nobre importante. Aposto que ela precisará cuidar de seus preparativos.

— Quantos Fantasmas havia hoje? — perguntei, com medo da resposta que poderia receber. Ainda tínhamos algum tempo antes do Luke ser totalmente petrificado. Eu queria ir quando houvesse o menor número possível de Fantasmas.

Após um breve silêncio, Eliza respondeu com uma voz pesada:

— Perto da entrada, havia cerca de trezentos Fantasmas diferentes de tudo o que já vi. Além disso, havia uma presença não identificável dentro do próprio cofre. Se fôssemos fazer um ataque direto, eu diria que a falha é a opção mais provável, embora por uma margem pequena.

Eu provavelmente deveria estar feliz que nossas chances são tão altas assim, não deveria? Deus, eu tenho o dom de arranjar problemas no que deveria ser um passeio no parque.

Liz, Sitri, Lucia, Tino e Ansem estavam todos esperando pela minha decisão. Tomar essas decisões era o trabalho do líder. Lançando um olhar para a estátua do Luke no canto, coloquei um sorriso de “sujeito durão”.

— Vamos esperar. Agora não é a hora.

Senti-me mal pelo Luke, mas não podíamos lidar com trezentos Fantasmas anormais. Ele apenas teria que ser uma pedra por mais um tempo até que o momento fosse propício.

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Yggdra era uma cidade significativa para os Espíritos Nobres. Embora vivessem vidas tranquilas em florestas profundas ao redor do mundo, todos continuavam a contar contos sobre sua Yggdra. Assim, esta grande cidade formada na raiz do mundo era a terra natal de todos os Espíritos Nobres.

Como era para todos do Starlight, esta era a primeira vez de Kris Argent visitando Yggdra. Na verdade, os pais dos pais dos seus pais provavelmente não estiveram aqui. Embora os humanos não estivessem particularmente cientes da Espécie Nobre até que Shero liberasse sua maldição, isso aconteceu muito tempo depois do grande êxodo de Yggdra para outras florestas. Não foram apenas os humanos que esta lendária cidade afastou. Na verdade, ela teve que repelir muitos outros admiradores Espíritos Nobres que vinham à cidade após crescerem ouvindo suas lendas.

Apenas aqueles considerados como tendo feito grandes contribuições à espécie eram autorizados a entrar em Yggdra. Foi por isso que o Starlight procurou pela Pedra Amaldiçoada de Shero enquanto trabalhavam como caçadores. Eles dificilmente eram os únicos engajados na busca. Embora entrar em Yggdra como uma espécie de “brinde” já fosse inesperado, a discussão com a princesa imperial proporcionou um choque ainda maior.

Eles caminharam pela terra com que um dia sonharam. O ar era fresco e a brisa roçava suas bochechas. A visão de casas construídas em árvores maciças que se banhavam na generosidade do sol era diferente da floresta em que Kris fora criada, mas ela sentia como se tivesse voltado para casa.

Incontáveis anos se passaram desde que tantos Espíritos Nobres deixaram Yggdra e se espalharam pelo mundo. Embora os parentes mais velhos fossem talvez diferentes, os mais jovens, como Kris, não possuíam uma reverência fanática pela terra natal. Como as perguntas mordazes da Lapis sugeriram, eles tinham suas ressalvas com esta cidade. Assentamentos de Espíritos Nobres foram atacados em nome de obter informações sobre Yggdra.

No entanto, eles não eram tão frios que não pudessem sentir nada após ouvir a história de Selene. Era improvável que a princesa imperial estivesse mentindo. Embora não pudessem aceitar completamente suas explicações, podiam ao menos entendê-las. Além disso, Espíritos Nobres não abandonavam seus parentes. Após saber que a Árvore do Mundo traria uma calamidade que poderia acabar com a civilização, e que o povo de Yggdra estava fazendo tudo em seu poder para detê-la, o Starlight sentiu que tinha a responsabilidade de fazer algo.

Passar décadas e décadas banhando-se nas energias irradiadas pela Árvore do Mundo significava que os habitantes de Yggdra tinham poderes arcanos que ofuscavam os da Kris e seus companheiros. No entanto, o Starlight tinha experiência. Eles de fato conquistaram Cofres do Tesouro. Mais importante, tinham aliados que fizeram no exterior. Se combinassem seus poderes, ela tinha certeza de que poderiam acabar com esse cataclismo antes que se manifestasse.

Embora seus companheiros, como Astor, tivessem a princípio duvidado dos talentos do Mil Truques e criticado tudo o que ele fazia, eles passaram a reconhecer suas habilidades. Não apenas ele acalmou um elemental furioso e resgatou a parenta presa lá dentro, como aceitara prontamente do elemental um pedido que a maioria das pessoas teria recusado.

Esta nem era a luta dele, para começar — era dos Espíritos Nobres. O Starlight estava pronto para colocar suas vidas nas mãos dele. Nem precisava dizer que estavam prontos para fazer o que pudessem para ajudar a quebrar a maldição do Luke. O que seria Mana Material demais para um humano era a medida certa para um Espírito Nobre.

Eles passaram uma semana explorando Yggdra, pesquisando incidentes anteriores de fúria da Árvore do Mundo, coletando materiais da floresta e meditando para aprimorar sua magia.

— A propósito, Kris, quando o Mil Truques vai se mover? — Astor perguntou relutantemente. Ela fora anteriormente a mais antagônica a ele. — Estamos prontos, agora estamos apenas esperando…

— Não tem como eu saber. Desu.

Exatamente a mesma coisa estava em sua mente. Todos os dias na última semana, Krai estivera enviando Eliza para fazer o reconhecimento do cofre e adiando a operação. Eles pensaram que ele quereria que a maldição fosse quebrada imediatamente, dado que era o membro de sua equipe e amigo de infância que fora petrificado. No entanto, depois de todos esses dias, ele nem sequer fizera qualquer tipo de preparativo. Passava seus dias passeando por Yggdra, trancando-se em seu quarto e conversando com Selene. Ele era tão indiferente que chegava a ser inquietante.

— O quê, então você também não sabe? — Astor disse zombeteiramente. — Mesmo sendo você a única sempre mencionando ele —

— Cale a boca! Eu não estou sempre mencionando ele! Desu! E não é como se eu não tivesse algumas pistas!

O humano fraco tinha uma maneira única de pensar. Apesar de seu tempo perto dele, ainda havia muito sobre sua louvada astúcia de Senhor Cautela que não fazia sentido para Kris. No entanto, esta não era a primeira vez que ela o via fazer algo semelhante ao seu atual adiamento. Durante aquela viagem inesquecível para a conferência, o Mil Truques convencera Franz no último minuto a adiar a jornada de aeronave por alguns dias.

Mesmo em retrospecto, ela não tinha certeza de qual fora o objetivo daquilo. Dizer que fora para fazer a aeronave encontrar a Pousada Peregrina ou para armar uma Provação soava para ela como conclusões prematuras. Ao adiar o cronograma, ele obtivera aquele cajado estranho, que não servira de nada no final. Se aquilo era realmente o que ele buscava, ela só podia presumir que ele estava fazendo tudo o que podia para deixá-la irritada. Quaisquer que fossem seus planos, os resultados foram que os traidores foram descobertos e a conferência foi um sucesso. De uma forma ou de outra, tudo se encaixava.

— O humano fraco está — Kris escolheu suas palavras com cuidado — esperando pelo momento certo. Desu. Ele já fez isso antes.

— Momento certo? O que isso significa? Eu sei que ele está verificando o número de Fantasmas diariamente, mas isso certamente não vai diminuir, vai?

— Eu realmente não saberia te dizer.

Astor parecia bastante duvidosa, e Kris não podia culpá-la de forma alguma. Fantasmas não eram seres vivos; eram criações de Mana Material represado. Havia muitos fatores desconhecidos para prever a formação e dissipação de Fantasmas, mas havia algumas coisas que se sabiam com certeza. Era impossível imaginar que esses Fantasmas pudessem desaparecer sem alguma ocorrência especial.

Para um Cofre do Tesouro normal, era certamente possível que a população de Fantasmas diminuísse. A Mana Material que compunha um cofre poderia se dissipar no ar, e a densidade menor resultante poderia fazer os Fantasmas desaparecerem. Mas isso não ia acontecer aqui, no centro das linhas ley. Descansando sob a Árvore do Mundo, o Santuário das Origens estava transbordando de Mana Material. Não haveria dissipação aqui; de acordo com Selene, os níveis de Mana Material do cofre estavam aumentando constantemente. Em vez de diminuir, eles só podiam esperar que o número de Fantasmas aumentasse. O tempo não estava a favor deles aqui. Estavam enfrentando o tipo mais forte de cofre que existia.

Talvez o humano fraco esteja esperando que o número deles aumente antes de nos dar uma Provação —

Kris balançou a cabeça, descartando o pensamento. Ela não sabia o que Krai Andrey tinha descoberto. Havia apenas uma coisa que ela sabia. Ninguém no Starlight tinha mais experiência com as Mil Provações do que Kris.

— Não consigo adivinhar o que exatamente ele pode estar tramando. Desu. Tudo o que sei com certeza é que vamos ver algo interessante. Algo que ninguém previu. Prepare-se.

Lembrando-se de experiências anteriores, Kris sorriu. No entanto, apesar das suas melhores intenções, era um sorriso forçado.

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O tempo voou num piscar de olhos. Yggdra era um lugar muito mais seguro do que eu antecipara. Não demorou muito para que eu estivesse confortável entre o que a princípio parecia um cenário alienígena. Os Espíritos Nobres acreditavam em viver em harmonia com a natureza, e as ruas de Yggdra personificavam esse ideal. Comparado à capital imperial, o tempo fluía em um ritmo calmo aqui; ar puro e água eram abundantes, o verde brilhante e flores desabrochando adornavam tudo. Para um humano, isso parecia o paraíso. Mesmo sendo alguém que tirava total prazer dos benefícios da civilização, eu gostava de descansar aqui.

Uma semana se passara desde nossa chegada. Apenas algumas vezes tive a chance de conhecer algum morador local. Na rara ocasião em que avistava alguém, eles corriam imediatamente. Embora, de acordo com Selene, Yggdra tivesse poucos residentes para começar. Embora vivessem vidas longas, os Espíritos Nobres sempre se propagaram mais lentamente que os humanos, então seus números já eram baixos. Adicione a isso a decisão de barrar as idas e vindas da cidade. Talvez a população deles estivesse em um lento declínio.

Eu esperava que um bando de caçadores ávidos por estímulos achasse este lugar entediante, mas meus amigos pareciam felizes o suficiente. Considerei natural que o Starlight estivesse satisfeito, já que ansiavam vir para cá, mas meus amigos pareciam estar gostando de toda a nova flora, fauna e implementos mágicos.

O que mais me surpreendeu, no entanto, foi que Selene estava disposta a cooperar conosco. Pensei que isso poderia ser em parte porque eu tinha atendido ao pedido do elemental (exceto que aquilo fora mais um acidente), mas, aparentemente, Selene sempre fora interessada no mundo exterior. Quando ela olhava para nós, eu não sentia nada do desdém que sentia nos olhares dos Espíritos Nobres que conheci no exterior.

Cofres do Tesouro são formados pelo acúmulo de Mana Material. Embora a Árvore do Mundo tivesse o poder de garantir que a Mana Material fluísse suavemente, evitávamos a formação de Cofres do Tesouro, monstros e Fantasmas exaurindo a energia antes que ela pudesse se acumular. O Corredor da Árvore Divina pelo qual vocês passaram não é apenas um meio de evitar intrusos, mas também um feitiço feito para consumir o excesso de Mana Material que a Árvore do Mundo não consegue processar.

Estávamos sentados em uma praça ensolarada no centro de Yggdra, ouvindo Selene falar. Ansem e eu não servíamos para nada ali, mas era difícil falar algo enquanto Lucia e Sitri ouviam com tanta atenção. Eu não entendia tudo perfeitamente, mas isso não me impedia de ser, no mínimo, curioso. Parecia haver verdade na noção de que os Espíritos Nobres possuíam tecnologias mágicas que superavam as nossas.

— Agora eu entendo — disse Lucia com um suspiro. — Eu certamente tive dificuldade em entender como vocês poderiam lançar um feitiço tão grandioso. Eu conseguia conceber como poderiam fazer apenas um caminho para Yggdra, mas conectá-lo a florestas por todo o mundo me pareceu incrivelmente intenso em termos de mana.

— De fato — Selene respondeu com uma risadinha. — Manter o Corredor da Árvore Divina seria impossível para qualquer conjurador, não importa suas habilidades. O Corredor da Árvore Divina reúne poder através de sua conexão com a Árvore do Mundo via as linhas ley. Agora, essa energia não corre diretamente para a Árvore do Mundo; a energia deve passar por Yggdra primeiro. Embora eu tenha dito que esta terra foi estabelecida para proteger a Árvore do Mundo, é mais uma relação simbiótica.

— Em terras humanas, pesquisar a conversão de Mana Material é proibido. — Sitri franziu a testa. — Algumas pessoas muito cabeças-duras insistem que é perigoso demais… — Ela parou e deu de ombros.

A lei limitava estritamente as pesquisas e investigações sobre Mana Material, tornando-as praticamente um tabu. Esta fora uma decisão informada por incidentes causados por pesquisas de Mana Material.

— Eu dificilmente posso culpá-los — respondeu Selene. — Mesmo para nós, a Mana Material é perigoso de manusear. O feitiço que formou o Corredor da Árvore Divina foi o resultado de um plano desesperado que colocou toda a nossa proeza mágica à prova. Disseram-me que Milesse, o elemental que me engoliu uma semana antes, originalmente não era tão poderosa e só atingiu seu estado atual ao absorver continuamente as energias das linhas ley. De acordo com nossas observações, a Mana Material fluindo através das linhas ley está aumentando, lenta mas firmemente. Embora a causa seja incerta, o perigo deste mundo pode ser inevitável.

— Em cem anos? — eu soltei.

Tremendo, Selene virou-se para mim.

— Sim — disse ela gravemente. — Em cem anos.

É, isso está longe demais para parecer tangível. Como será o mundo daqui a um século?

Selene me lançou um olhar engraçado quando me viu suspirando.

— Vocês, humanos, me intrigam. Demonstram tão pouco medo quando a calamidade está bem diante de seus olhos. Não poucos habitantes de Yggdra abandonaram sua terra por puro terror. Na verdade, abandonar esta terra lhes servirá de pouco se o deus da destruição tomar forma. Nenhum lugar estará seguro.

— Estamos com medo, como qualquer um estaria. É só que, sabe, virá em algum momento ou outro.

E parece que esse momento está bem no futuro.

— Você se conformou com isso então? Todos os humanos são como você?

— Não, tenho certeza de que haveria muita comoção se contássemos às pessoas em casa sobre isso.

Pessoas como Franz estariam causando um grande alvoroço. Não pude evitar sorrir ao imaginá-lo correndo de um lado para o outro em pânico. Não posso dizer isso com orgulho, mas um mero caçador como eu e um nobre de uma grande nação como ele tinham sensos de responsabilidade diferentes.

Vou mandar uma carta para ele quando voltarmos.

— Entendo. Embora eu tenha ouvido histórias, os caçadores são verdadeiramente incríveis — disse Selene com admiração, completamente alheia ao que eu estava pensando.

— Isso é porque o Krai não é um caçador comum! — disse Sitri. — Há uma boa razão para ele ter sobrevivido a tantas provações. Ele resolveu múltiplos incidentes importantes —

— É — eu a interrompi com um sorriso sem graça.

Ela estava certa de que eu não era um caçador comum, embora eu queira dizer isso em um sentido ruim. Não que eu pudesse realmente dizer, mas não fora por nenhum bom motivo que eu sobrevivi àquelas provações, e cada um daqueles incidentes foi resolvido graças aos meus amigos. Sem mencionar que nenhum deles terminara sem sua justa dose de caos. Embora eu ache que as pessoas que despejaram todo aquele problema em cima de mim compartilhavam parte da culpa.

— Honestamente, Líder — disse Lucia com um suspiro. — Agora. Quando vamos quebrar a maldição do Luke? Uma semana já se passou.

Eu estava pensando a mesma coisa.

Eu estava pronto para quebrar a maldição tanto quanto o resto deles. Estava ansioso para ir para casa. O único problema era que, de acordo com Eliza, os Fantasmas não estavam diminuindo. Sua estimativa original colocava nossas chances de sucesso em pouco menos de cinquenta por cento, uma cifra que agora estava caindo constantemente. Na verdade, a contagem de Fantasmas estava apenas aumentando. A essa altura, deveríamos ter ido no primeiro dia, mas era tarde demais para dizer isso.

Bem, iremos na próxima vez que a Eliza relatar menos Fantasmas. Eles não podem continuar aumentando para sempre.

Foi quando notei que Lucia não estava agindo como de costume. Sua pele branca quase transparente, aquele cabelo comprido que você só via em magi, suas roupas, tudo aquilo era o mesmo.

— Hm? Lucia, você está cansada?

A menos que eu estivesse imaginando coisas, sua voz não tinha o vigor habitual. Ela sempre fora uma trabalhadora árdua capaz de autocontrole, então eu podia dizer que algo nela estava diferente.

Seus olhos se arregalaram.

— Sim, sinto-me um pouco lenta. Só isso — disse ela relutantemente. — Não sou estranha à intoxicação por Mana Material, então posso suportá-la por curtos períodos, mas já se passou uma semana…

— Lucy tem uma das maiores absorções de todos os Grieving Souls — acrescentou Sitri. Vendo Lucia segurar a cabeça, ela correu e olhou fixamente em seus olhos. — Com minha absorção menor, ainda estou bem, embora possa sentir os efeitos chegando. No entanto, não há nada que você possa fazer sobre a intoxicação além de esperar que seu corpo se aclimate.

É verdade. Intoxicação.

Kris tinha me avisado sobre isso, mas tinha escapado da minha mente já que todo mundo parecia bem. Embora os efeitos fossem ainda menores, provavelmente não seria uma boa ideia ficar em Yggdra por muito tempo. Eu, enquanto isso, estava perfeitamente bem.

Com uma pequena tosse, Lucia fixou seu olhar em mim.

— Líder, ainda não estou incapacitada. Eu apreciaria muito se pudéssemos realizar a operação o quanto antes.

— Tem razão.

Sem o Luke, Lucia era nossa principal fonte de poder de fogo. Estava decidido — realizaríamos a operação amanhã, a menos que o relatório da Eliza contivesse algo urgente. Eu esperara uma semana por algum sinal de diminuição de Fantasmas, mas o exato oposto estava acontecendo. Sem mencionar o limite de tempo com o qual estávamos trabalhando. Se as coisas só iam ficar mais arriscadas, então era melhor fazer nosso movimento enquanto Lucia ainda podia ajudar.

Foi quando Eliza voltou do seu reconhecimento. Ela cuidava da maior parte da vigilância enquanto a Liz fornecia proteção. Tino, à beira de um desmaio, fora junto como parte das suas lições. Elas foram como um trio assim em todas as saídas, no entanto, algo nelas estava diferente desta vez.

Após correr até mim, Liz parou para recuperar o fôlego.

— Temos novidades, Krai Baby! Vimos menos Fantasmas do que ontem! Você fez alguma coisa?

— É verdade. É uma diferença da noite para o dia — disse Eliza. — Parece haver alguns dentro do cofre, mas só pudemos ver um punhado de Fantasmas do lado de fora. Com tão poucos, ganhar tempo deve ser fácil. Eu acredito.

Hein? Sério?

Piscando, olhei para a Liz e a Eliza, mas nenhuma delas parecia estar brincando. Lucia, Sitri e Selene estavam todas boquiabertas. Sentado de pernas cruzadas no chão, Ansem franziu a testa. Embora eu não entendesse o porquê, as chances tinham mudado a nosso favor.

Será que isso é uma recompensa por alguma boa ação que eu fiz? O que eu fiz recentemente? Fosse o que fosse, eu não podia deixar essa chance escapar. Limpando a garganta, virei-me e olhei para meus amigos.

— Parece que a hora chegou. Vamos purificar o Luke.

Assim que ele fosse curado, ele poderia cortar o Cofre do Tesouro e estaríamos feitos.

Então o dia chegara. Levantando-me de uma cama um pouco dura, fiquei de pé e soltei um bocejo. Eu estava em perfeitas condições, embora meus nervos estivessem bem desgastados porque eu veria um cofre de alto nível pela primeira vez em um bom tempo. Mesmo assim, o Férias Perfeitas deveria cuidar disso, sem problemas.

Eu dizia a mim mesmo que ficaríamos bem, que o vento estava a nosso favor. Não importa as condições, Cofres do Tesouro eram lugares perigosos, mas não teríamos uma oportunidade melhor para curar o Luke. O que eu precisava era de determinação. Por mais inútil que eu fosse ser nesta missão, um líder não poderia ficar para trás se todos os outros estivessem indo.

Dei-me um tapa revigorante na bochecha. Tendo carregado minhas Relíquias na noite anterior, eu estava pronto. Depois de me limpar e me vestir, terminei colocando o Férias Perfeitas.

A sala de estar acabou se revelando vazia. Ninguém estava lá para me cumprimentar exceto o Mimicky, sentado no canto. Todos os outros provavelmente já estavam acordados e se preparando para a luta. Além de apenas equipar os itens necessários, garantir que você estivesse na condição correta era um processo indispensável para qualquer caçador que esperasse sair vivo.

No caso da Lucia, isso significava meditação; para a Liz, envolvia exercícios leves; para o Ansem, orações; golpes de prática para o Luke, et cetera. Todos os caçadores de primeira linha tinham um ritual que acionava algum interruptor interno para eles.

As constantes encaradas com a morte fizeram com que todos na Grieving Souls fossem capazes de entrar no modo de combate num instante. Desta vez, no entanto, talvez fosse necessário algo mais do que o esforço total de sempre.

Imaginei que todos se reuniriam quando chegasse a hora. Como ainda estava um pouco cedo e eu não tinha nada melhor para fazer, eu e o Mimicky fomos para o ponto de encontro que Selene havia marcado. Era uma pequena fonte nos arredores de Yggdra, cercada por uma folhagem verdejante. A água cristalina brilhava sob a luz do sol. Diziam que aquele era um dos lugares mais sagrados de toda Yggdra.

Selene estava parada no espaço santificado, olhando para o céu. O ar estava parado, completamente imperturbável. A cena tinha a harmonia de uma pintura. Embora eu estivesse acostumado a ver Espíritos Nobres, meus olhos se arregalaram e minha respiração parou na garganta. Aquilo provavelmente era o ritual pré-batalha de Selene Yggdra Frestle.

Magis poderosos tinham uma aura distinta. Embora eu não fosse muito bom em avaliar as pessoas e não tivesse detectado nada quando a conheci, agora era imediatamente aparente para mim que Selene estava transbordando de poder.

Ao lado da fonte, havia um pequeno frasco de cristal. Ele já havia sido esvaziado. Percebendo que eu tinha chegado, Selene começou a falar, mas sem tirar os olhos do céu.

— Aquele era um elixir feito com folhas da Árvore do Mundo. Ao absorver os poderes da Árvore do Mundo, nós, os habitantes de Yggdra, podemos nos tornar um com a natureza, o que nos concede temporariamente grandes poderes. Krai Andrey, eu realmente lamento que a pessoa que encontrou e devolveu a Pedra Amaldiçoada de Shero tenha tido que se envolver nisso.

— É muita gentileza sua. Mas está tudo bem. Só estou… fazendo o que quero fazer.

O que quer dizer que eu vou transformar isso num problema para o Ark assim que a maldição do Luke for quebrada, mas será que ela sabe disso? Ela não poderia saber.

Enquanto eu tinha aprendido a não deixar o tom ácido dos Espíritos Nobres do exterior me afetar, a voz genuína de Selene me fazia sentir como se eu fosse impuro.

— Eu sou um membro da família imperial de Yggdra. Temos uma dívida com você e, no mínimo, vamos pagá-la quebrando a maldição que Shero infligiu.

— Você não precisa fazer tanto alarde por causa disso. Se isso não funcionar, pensaremos em outra coisa.

Usando a Volta ao Mundo para fazer uma verificação rápida da voz interior do Luke, confirmei que ele aguentaria mais um pouco. Pelo visto, estar petrificado não o impedia de ver o que estava acontecendo ao seu redor. A voz dentro dele gritava constantemente sobre cortar o Cofre do Tesouro. Será que era só isso que ele tinha a dizer? Ele bem que poderia ter enviado uma mensagem ou algo assim.

— Ah, esse elixir funciona em humanos? — perguntei. — Eu gostaria de tomar todas as precauções possíveis.

Mesmo que não funcionasse na Lucia, poderia funcionar nos caçadores do Starlight. Sem mencionar que a Sitri sem dúvida adoraria estudá-lo.

— Sim, acredito que funcionaria — respondeu Selene. Era uma pergunta simples, mas ela parecia tão triste ao responder. — No entanto, receio dizer que não sobrou nada. O que acabei de beber foi o último frasco. Podemos fazer mais, mas apenas quando a Árvore do Mundo voltar ao normal…

— Hein?!

O último? Aquilo era algo incrivelmente valioso? E você usou por nossa causa? Não deveria ter usado para cuidar da Árvore do Mundo?

Selene sorriu ao ver minha consternação.

— Não se preocupe. Nossa situação atual não é algo que possa ser resolvido com um único elixir. Já fizemos várias tentativas. Se não fará diferença nesse aspecto, não vejo problema em usá-lo para ajudar nossos novos amigos. Shero lança maldições poderosas, e não teremos tempo para mais do que algumas tentativas de quebrá-las. Do jeito que estou agora, posso dizer com total confiança que consigo curar seu amigo.

— Ah, entendi. Fico feliz em ouvir isso.

— Hm? Algo o está incomodando?

Eu não conseguia olhar nos olhos dela. Claro que algo estava me incomodando. Eu planejava voltar para a capital imperial assim que o Luke estivesse bem, mas o fato de ela ter usado o último elixir em nome de nos ajudar tornava tudo ainda mais difícil de contar. Agora, isso não significava que eu pudesse pedir para ela não tomar o elixir — era tarde demais para isso. Por mais que eu apreciasse o sentimento, gostaria que ela tivesse nos contado com antecedência que usaria algo tão valioso.

Selene saiu da fonte. Suas vestes grudavam em suas pernas esguias e nuas. Seus pés fizeram um leve barulho ao tocar o solo.

— Já fiz você esperar o suficiente. Agora, vamos para o Santuário das Origens.

Não adianta se preocupar com o elixir agora que ela já o usou. Vamos nos preocupar com isso quando todo o resto estiver pronto. Por ora, vamos focar em cuidar do Luke.

Todos do Starlight estavam nos esperando na estrada para a Árvore do Mundo. Eles já eram famosos por serem uma equipe de magi deslumbrantes, mas vir para Yggdra parecia tê-los vitalizado de verdade. Me disseram que suas capacidades mágicas também aumentaram desde que chegaram aqui, então acho que este lugar era uma boa combinação para eles. Com sua baixa absorção de Mana Material, uma área densa demais para a maioria dos humanos era perfeita para eles.

Embora a perspectiva de enfrentar um dos cofres mais fortes que existem deixasse todos excepcionalmente tensos, ninguém parecia particularmente assustado. Assim como Selene tinha tomado o último elixir, eles estavam resolvidos a fazer aquilo. Embora o Starlight tivesse dificuldade em se dar bem com humanos, eles eram um grupo afável e confiável quando você os conhecia.

Lápis, a líder do Starlight, estreitou os olhos quando nos viu chegar.

— Você está atrasado, Mil Truques.

Lápis Fulgor tinha uma figura esguia, um olhar aguçado e cabelos que desciam até os pés. Sua altura facilitava o pensamento de que ela estava te olhando de cima, mas eu sabia que era apenas uma ilusão de ótica.

— Estamos prontos há algum tempo — disse ela, batendo seu longo cajado contra o chão. — Não costumo dizer isso, mas não sinta necessidade de reservas. Apenas desta vez, os poderes do Starlight estão à sua disposição. Hmph. Pensando bem, você ganhou isso com nossa aposta.

— Lápis! — disse Astor, aquela cujo nome aprendi não faz muito tempo.

Com um pequeno bufo, Lápis fez algo que não costumava fazer: sorriu levemente e então ofereceu algumas palavras de incentivo para sua equipe.

— Eu sei. Não serei uma tola e insistirei que estamos fazendo isso apenas por causa da aposta. Este é um problema de Yggdra, o que o torna nosso problema também. Agora, vamos mostrar aos habitantes de Yggdra o nosso poder! Não apenas como magi, mas com todas as habilidades que aprimoramos trabalhando como caçadores.

Aquilo acendeu uma chama silenciosa de determinação em sua equipe. O Starlight era uma equipe de Nível 4, mas isso se devia à maneira fria como os Espíritos Nobres tratavam os humanos. Eu podia verificar pessoalmente que os talentos deles eram reais. Ainda assim, considerando sua disposição rude e tendência a ignorar qualquer humano que não fosse um magi, Lápis realmente tinha mudado se estava disposta a me mostrar tanta deferência.

Ela se virou para o meu lado, vendo o sorriso que eu estava dando.

— O que você está olhando? — ela se irritou.

— Ah, nada? Só estava pensando em como estou em boas mãos.

Aqueles eram todos conjuradores de primeira linha. Como Selene teria que se concentrar em quebrar a maldição, nosso sucesso dependeria da habilidade da Grieving Souls e do Starlight em eliminar os Fantasmas.

Kris olhou para cima, como se meu comentário a lembrasse de algo.

— Humano fracote, humano fracote — disse ela, cutucando meu braço.

— Sim?

— N-Não diga que está em boas mãos. Desu — disse ela com uma voz fraca. — Eu sei que somos bons no que fazemos e estamos em ótima forma, mas não podemos fazer tudo. Desu.

Você está sendo humilde pra caramba. Tem algo te preocupando?

Era a hora marcada, mas ninguém mais da Grieving Souls havia chegado ainda. Onde eles estavam? Liz, Tino e Eliza tinham ido fazer uma última verificação no cofre, mas isso não explicava a ausência da Lucia, da Sitri e do muito conspícuo Ansem.

Quando comecei a me virar para procurá-los, Eliza voltou de sua viagem de reconhecimento. Parecendo lânguida como sempre, ela caminhou até mim com um passo casual que você não esperaria ver de uma Ladra especialista.

— Kai, não há Fantasmas hoje também. Mas tenho um mau pressentimento sobre isso. Devemos nos apressar.

Um mau pressentimento, hein?

A intuição da Eliza geralmente estava certa, mas havia algo mais urgente.

— Bom trabalho lá fora. A propósito, achei que você tinha ido com a Liz e a Tino, mas não as vejo em lugar nenhum. Você sabe para onde elas foram?

Eliza piscou.

— Sinto muito. Eu esqueci. — Ela apontou para o Mimicky.

O Mimicky não era um Cofre do Tesouro comum — ele era sem precedentes. Não apenas podia armazenar criaturas vivas, ele tinha até uma cidade dentro dele. Ele também carregava todas as minhas Relíquias, e eu planejava fugir para dentro dele se as coisas ficassem feias.

— Dentro do Mimicky? Todas elas? Para quê?

— Preparativos, elas disseram.

Preparativos, você diz?

Aquilo fazia sentido, dado o espaço dentro do Mimicky. Era o suficiente para a Lucia praticar feitiços de ampla área o quanto quisesse, e era onde guardávamos nossos suprimentos. Estava praticamente implorando para ser usado como campo de treinamento.

Mas que trabalhão elas davam. Elas deveriam ter dito algo antes. Um dos problemas do Mimicky era que você precisava de alguém do lado de fora para te tirar de lá. O que elas planejavam fazer se a Eliza esquecesse que elas estavam lá dentro?

Eh, vamos deixar a bronca para depois.

— Vou buscá-las — disse a Eliza enquanto abria a tampa. — Vamos sair no momento em que estivermos fora, então espere um pouco e nos pegue. Mimicky, leve-me até a Liz e as outras. Liz e as outras.

— Entendido — respondeu Eliza.

Fazia um tempo desde a última vez que estive dentro do Mimicky. Respirando fundo, mergulhei na escuridão.

Senti uma sensação vagamente familiar de flutuação. Ao me levantar, me vi diante de um grande edifício.

— Hm? O-Onde é isso?

Escaneando os arredores, tive quase certeza de que estava na cidade onde entrei ao fugir da Shero. O Mimicky era uma Relíquia soberba. Orgulhando-se do seu trabalho como um item de armazenamento, ele se provou adaptável, como qualquer excelente dispositivo de estocagem deveria ser.

Abri a porta e entrei. O prédio parecia ser algum tipo de pousada. Um tapete grosso cobria o chão, e os móveis combinavam elegantemente forma e função. O saguão estava fracamente iluminado por uma lamparina no balcão. Presumo que a Sitri ou alguém a tenha acendido e colocado ali.

Yggdra era legal, mas este lugar também não era nada mal. Ainda não tínhamos explorado esta cidade, mas enquanto caminhava pelo interior, pensei em ficar aqui por um tempo assim que a maldição do Luke fosse resolvida.

Então as encontrei deitadas em camas num quarto de hóspedes. Ao ouvir um gemido baixo, congelei por um segundo antes de correr até elas. O primeiro que notei foi o Ansem, de lado sobre várias camas juntas. Comecei a dar tapinhas nele quando, em uma cama próxima, posicionada longe o suficiente para que o Ansem não as esmagasse acidentalmente, um volume se mexeu. Puxando cuidadosamente o edredom, vi o rosto familiar da Lucia. Só que sua aparência estava terrível, a testa coberta de suor.

— O quê? O-O que aconteceu? Gente? O que está havendo?!

Será que elas perderam a paciência e foram para o cofre ontem?

Os olhos da Lucia se abriram lentamente.

— I-Irmão, sinto muito — disse ela com a voz vacilante. — Não podemos nos mover. A intoxicação por Mana Material veio de uma vez. Achei que poderíamos estar em perigo.

— Hein? T-Todas vocês?

Havia quatro camas, além da combinação do Ansem. Todas estavam ocupadas. Caminhei até a Liz e examinei calmamente seu rosto. Essa garota, que raramente pegava até mesmo um resfriado, olhou para mim com olhos marejados.

— Achamos que poderíamos estar em apuros, então viemos para cá porque a Mana Material é ralo neste lugar. — Sua voz estava rouca e desprovida de energia. — Desculpe, Krai Baby. Você vai adiar a missão, não vai?

N-Não. Eu não posso fazer isso! Mesmo que eu adoraria! A Selene já usou o último elixir, e o Starlight está todo pronto para ir.

Eu hesitantemente verifiquei cada cama.

— Urrrgh. Como até eu peguei isso? — Sitri gemeu. — E havia algo que eu queria testar…

— Mmm — Ansem gemeu.

Tino olhou vagamente em minha direção, com a voz mais baixa do que o normal.

— Mestre, isso é uma provação? É, não é?

Não é uma provação, Tino…

Pelo que parecia, eles realmente tinham sucumbido à intoxicação por Mana Material. Fiquei aliviado ao saber que a aflição deles era algo que já tínhamos visto várias vezes antes. Com um pouco de descanso, seus corpos absorveriam o excesso de Mana Material e eles ficariam melhores do que nunca.

— Hmm, isso não explica por que todos desabaram juntos. As capacidades e taxas de absorção devem variar entre as pessoas.

Todos aqui (exceto eu) já tinham experimentado intoxicação por Mana Material, mas o grupo nunca tinha sido derrubado todo de uma vez assim. E o timing não poderia ser pior. Claro, eles pareciam meio mal antes, mas… De repente, Liz começou a se levantar, gemendo enquanto se apoiava com os braços.

Ahh, o que você está fazendo?

— Krai Baby, eu vou! Eu. Vou. Eu tenho que ir!

— É, nã-nã-não.

— Eu também, Krai. E-Eu devo conseguir me mexer logo! — disse Sitri. — Não absorvi muita Mana Material, e minha intoxicação não está tão ruim!

— É, nã-nã-não.

Vendo a Liz escorregar da cama, eu a peguei e a coloquei de volta. Seu corpo magro era leve o suficiente para que até eu pudesse levantá-la se tentasse. Geralmente, era ela quem me levantava.

Não importava quão resistente fosse o corpo de alguém, ele não conseguia superar os efeitos da intoxicação por Mana Material. Rumores diziam que ser mais forte apenas tornava os sintomas piores, mas como os efeitos podiam se estender aos sentidos para algumas pessoas, era justo assumir que a fortitude física não tinha muito a ver com isso.

Suponho que tivemos sorte de eles não terem caído dentro do Santuário das Origens. Perder a maior parte da Grieving Souls levantava sérias preocupações sobre nosso poder de fogo, mas ainda tínhamos a Eliza e o Starlight. O reconhecimento da Eliza não revelou problemas, e tudo o que tínhamos que fazer era ganhar tempo. Tentar continuava sendo nossa única opção.

— Não vejo o que mais posso fazer a não ser trabalhar com os Espíritos Nobres. A propósito, parece que nenhuma de vocês consegue se mexer, mas um enfermeiro…

— Kill, kill!

— O quê?!

Com aquele grito agudo, a criatura mágica da Sitri, o Matadinho, apareceu. Ele agora tinha um avental amarrado em seu corpo musculoso e carregava uma bacia de água.

Sabe, eu achei que ele tinha desaparecido em algum momento. Quando foi que ele…

— Você vai cuidar deles?

— Kill kill — ele respondeu, flexionando os músculos.

O Santuário das Origens era um Cofre do Tesouro que se formara na base da Árvore do Mundo. Dizia-se que este cofre aparecia quando a Mana Material do nosso astro atingia um ponto de saturação. Pouco se sabia sobre ele, inclusive que tipo de batalha ocorreu ali no passado. Isso se devia, em parte, ao fato de ter acontecido em uma era que já se fora há muito tempo, mas também porque a referida batalha não deixou sobreviventes.

Se a Árvore do Mundo realmente era um local de acúmulo de Mana Material, então o Cofre do Tesouro que se manifestava ali era, sem dúvida, um Nível 10 pelos padrões da Associação de Caçadores. Eu não conseguia imaginar que tipo de poderes esse deus deste cofre poderia ter se realmente tivessem devastado civilizações avançadas um dia em seu auge.

No entanto, evitar que isso acontecesse não era o meu trabalho. Isso poderia ser deixado para o Ark, um caçador de Nível 10, ou alguma outra pessoa formidável. Eu conhecia meus pontos fortes. Eu não estava sendo preguiçoso aqui; eu apenas não queria meter meu pescoço onde não era chamado e cometer um erro que não pudesse ser desfeito.

A incompetência é um pecado. A melhor coisa a fazer seria quebrar a maldição do Luke e depois passar o bastão para alguém melhor.

Senti mais uma vez aquela sensação familiar de flutuação. A escuridão ao meu redor foi substituída pela luz enquanto eu voltava para o mundo exterior.

Kris olhou para mim de olhos arregalados quando viu que eu estava de volta.

— O que diabos é esse equipamento? Desu?

— Eu sei que estamos indo lá para quebrar uma maldição, mas achei que não custaria nada trazer algumas armas — eu disse. — Achei que algo assim pudesse acontecer, então trouxe o básico.

Ser capaz de justificar suas ações é importante. Embora eu estivesse planejando passar o bastão para outra pessoa, tinha que garantir que Selene não pensasse que eu estava sem motivação. Com meus amigos fora de cena por enquanto, eu tinha que fazer essa tarefa eu mesmo. A princesa de Yggdra já tinha usado aquele elixir em nosso favor (não que eu tenha pedido para ela fazer isso) e, embora a questão da Árvore do Mundo estivesse num futuro distante para mim, parecia muito mais imediata para ela.

— Isso é… — Selene disse hesitantemente, tão confusa quanto Kris, — é assim que os caçadores do mundo exterior se equipam para situações terríveis?

— Absolutamente não. Desu. Apenas o humano fracote anda por aí desse jeito.

— Pode não parecer, mas todas estas são Relíquias — expliquei. — Veja bem, sou um devoto colecionador de Relíquias.

— Entendo. — Selene me examinou repetidamente da cabeça aos pés. — Então todas essas são Relíquias — disse ela com um suspiro de admiração.

Enquanto isso, Kris e Lápis, que não eram estranhas ao meu comportamento, estavam apenas um pouco exasperadas.

— Ainda acho que você deveria tentar parecer um pouco mais impressionante. Desu. Enfim, onde estão a Lucia e o resto da sua equipe?

— Não posso mudar a aparência das minhas Relíquias. Quanto à minha equipe, eles não poderão se juntar a nós. Mas com vocês, tenho certeza de que ainda ficaremos bem.

Não podíamos fazer nada quanto à intoxicação por Mana Material deles, nem podíamos adiar isso para outro dia. Manter a calma e não vacilar diante de acidentes fazia parte do trabalho de um líder. Os outros trocavam olhares, mas minha confiança avassaladora os impedia de fazer algo mais do que soltar alguns pequenos suspiros.

Eu estava apenas começando a me dar conta disso, mas podia agradecer à minha reputação de Senhor Cautela por esse tipo de resposta. Todos sempre presumiam que eu tinha algum plano em mente, embora eu não tivesse certeza se isso era necessariamente algo bom.

— Tudo bem. Tenho certeza de que há um motivo. Desu. Depois, vamos querer ouvir sobre… Por que você está carregando quatro espadas? Desu?

Cada parte de mim estava coberta de Relíquias. Eu tinha o Férias Perfeitas, permitindo-me permanecer perfeitamente confortável em qualquer situação. Depois eu tinha minhas espadas: a Atmosfera Silenciosa para aliviar meu peso; a Campo Estelar, que trazia a luz do sol; a Kaito-Kosame, que induzia uma chuva leve; e a Não Firas o Fraco, Oh Campeão, uma espada cega que, no mínimo, parecia legal. Todas essas lâminas eram as que eu achava que poderiam se beneficiar de algum tempo fora de um estojo de armazenamento.

Meu estoque generoso de Anéis de Proteção dispensava apresentações. Embora eu não pudesse oferecer muito poder de fogo, eu poderia ao menos atrair a atenção dos inimigos desse jeito. Se isso falhasse, eu poderia escapar para dentro do Mimicky.

— Não acredito que você trouxe quatro espadas. Especialmente esta — disse Astor enquanto olhava para a Não Firas o Fraco, Oh Campeão, — é uma obra de arte e tanto. Humano, você não seria um espadachim, seria?

A aparência era a única coisa que essa espada tinha a seu favor. Eu não conhecia outras espadas que o Luke pudesse brandir sem deixar uma marca. Dito isso, eu nunca o deixei empunhá-la por preocupação de que ele pudesse causar um pânico.

— Não, isso está além do meu conhecimento. No entanto, esta espada não é uma espada comum.

Com a Atmosfera Silenciosa reduzindo seu peso, consegui levantar a Não Firas o Fraco, Oh Campeão no ar com uma mão. Ao mesmo tempo, ativei a espada nas minhas costas, a Campo Estelar, e a espada no meu quadril, a Kaito-Kosame.

Agora, aquilo era o auge da coleção de Relíquias. A Não Firas o Fraco, Oh Campeão brilhava intensamente, a Kaito-Kosame trazia nuvens de chuva esparsas sobre o que tinha sido um céu limpo. Entre as gotículas finas, quase imperceptíveis, o poder da Campo Estelar rompia as nuvens para brilhar um raio de luz sobre mim.

Era a própria personificação da futilidade. O feixe de luz solar, a chuva fraca, a espada finamente trabalhada, nada daquilo significava nada. Mas me fazia ganhar destaque, e era isso que eu precisava fazer. Com tanto glamour excessivo, eu me encaixaria perfeitamente entre a multidão astuta e peculiar que compunha os caçadores de primeira linha.

Os Espíritos Nobres apertaram os olhos para me ver através da chuva e da luz solar cintilantes. Eu me banhei na sensação de superfluidade. Não só eu amava Relíquias inúteis, como destacar-se assim seria útil. Enquanto eu tivesse meus Anéis de Proteção, eu poderia servir como uma barricada. Com a maior parte do nosso grupo sendo composta por magi, eu teria que dar um passo à frente se a situação exigisse. Na verdade, eu provavelmente seria atacado de qualquer jeito. É assim que sempre acontecia.

Selene parecia absolutamente pega de surpresa pela minha teatralidade repentina. Por si sós, a chuva ou o feixe de luz seriam banais, mas na longa história de Yggdra, eu provavelmente era a primeira pessoa a ser banhada por ambos ao mesmo tempo.

Sorri enquanto aguardava as impressões deles.

— Um profeta de Yggdra disse uma vez que uma calamidade seria detida por alguém envolto em luz prateada e uma tempestade — murmurou Selene.

— Hein? Ah…

Então Yggdra também tinha profetas. Eu não tinha lembranças agradáveis em relação a profecias. Elas tinham a tendência de me trazer problemas. Parecia que não era apenas o pessoal que previa as maldições na capital imperial — profetas, videntes, todos eles pareciam estar apenas dizendo o que queriam. Parecia um bom emprego para se ter quando eu terminasse com a caça ao tesouro.

Selene olhou estranhamente para a chuva trazida pela Kaito-Kosame e para a luz do sol causada pela Campo Estelar.

— Talvez — disse ela com incerteza, — você seja aquele que deterá a calamidade?

— Você nem parece acreditar nisso. Desu — Kris interveio. Ela não mostrava muita deferência, considerando que estava falando com uma princesa.

No entanto, Kris estava certa. As nuvens negras e a chuva leve não eram uma tempestade, a luz do sol não era prateada e eu definitivamente não tinha o poder de deter uma calamidade.

— Ainda assim, esta combinação — Selene murmurou enquanto olhava para as nuvens de chuva. — Poderia ser…

Desculpe. Eu não deveria ter feito algo tão estranho.

Eu sabia que estávamos diante de uma crise global, mas ela estava realmente indo longe demais com aquela interpretação. Chamar aquilo de tempestade era um insulto às tempestades. No momento seguinte, porém, fui atingido por uma revelação.

Espere um pouco. Talvez essa profecia esteja se referindo à chegada do Ark?

Ark Rodin era um caçador de elite tão habilidoso com relâmpagos que isso lhe rendeu o título de Relâmpago Prateado. Além disso, ele era descendente de um herói que havia derrotado um deus. Será que essa profecia significava que eu deveria chamá-lo para resolver esse fiasco? Eu não tinha muita certeza sobre a parte de estar envolto em uma tempestade, mas se ele conseguia usar relâmpagos, então acho que poderia fazer isso também.

Com essa interpretação, era natural que eu retornasse à capital imperial. O destino do mundo dependia disso.

Cara, eu estou pegando fogo hoje.

— Vamos lá, acalme-se — eu disse para Selene, que ainda estava perplexa. — Sua interpretação provavelmente está fora do alvo, mas acho que sei do que se trata a profecia. É algo que eu estava considerando há um tempo, mas agora tenho certeza.

— Hm? Você tem uma ideia? Existe alguma maneira de deter esse prenúncio destrutivo?

Existe. Esta era tem um salvador chamado Ark Rodin e, para falar a verdade, sou amigo dele. Não, sou o melhor amigo dele.

Selene não saberia sobre o Ark, já que nunca tinha ido longe de Yggdra. Se tivesse, teria pensado nele no momento em que ouviu a profecia. Justo quando abri a boca para explicar isso, Lápis interrompeu.

— Hmph. Então você sabia. Diga a ela, Mil Truques, o nome da equipe que você trouxe consigo.

— Hm? É o Starlight? O-Oh.

Espera, sério?

Selene lançou um olhar de olhos arregalados para Lápis. Lápis cruzou os braços e disse como se fosse a coisa mais natural do mundo:

— A luz prateada naquela sua profecia está se referindo a nós. Nossa equipe, o Starlight, é excelente em dobrar os elementos à nossa vontade — especialmente com feitiços de relâmpago.

— Mas Lápis, e a parte sobre estar envolto nisso? Desu?

— Bem, Kris, onde quer que o Mil Truques esteja, você nunca está muito longe. Deve ser isso.

— I-Isso não é verdade! — Com o rosto vermelho, ela olhou para mim em busca de apoio. — Certo, humano fracote?!

Entendo. Agora que você coloca dessa forma, ela nunca está muito longe… Não! Estamos falando de uma profecia aqui!

Não que eu estivesse percebendo isso só agora, mas Lápis realmente não se importava em distorcer as coisas. Além disso, por mais competente que o Starlight fosse, o Ark ainda era melhor. Se eu fosse ter relâmpagos, queria os dele. Embora eu aceitasse qualquer um deles em vez do Arnold.

Lentamente, voltei meu olhar para o Starlight. Nenhum deles conseguia esconder o espanto diante da declaração da Lápis. Eu não podia culpá-los. Mesmo que aquela luz prateada estivesse se referindo a alguém habilidoso com relâmpagos, como estar envolto nela poderia se referir à Kris andando atrás de mim?

No entanto, o Ark estava na capital, enquanto o Starlight estava bem aqui e já havia oferecido assistência. Não era um bom momento para picuinhas. Discutir não mudaria o que tínhamos que fazer; apenas desperdiçaria tempo. Se esse plano não funcionasse, poderíamos resolver o problema quando chegássemos lá.

Com um suspiro, virei-me para Kris, que estava tremendo.

— Bem, vamos começar testando o seu relâmpago.

— Hm?!

Além disso, não pretendo parar nenhuma calamidade hoje.

Com Eliza na frente, seguimos para a Árvore do Mundo. Ocorreu-me que aquela talvez fosse a primeira vez que eu ia a um Cofre do Tesouro com a Eliza, mas sem mais ninguém da Grieving Souls.

Nossa equipe consistia em Eliza Peck, o Starlight, Selene e eu. E o Mimicky. O Carpy-kun tinha um hábito infeliz de desobediência, então o deixei para trás, o que quer dizer que o deixei dentro do Mimicky. Ele era praticamente a Relíquia da Tino a essa altura.

O plano era simples. Eliza iria à frente do grupo e confirmaria o número de Fantasmas. De acordo com suas descobertas, ela trabalharia com o Starlight para atrair os Fantasmas para fora, atrasá-los e então acabar com eles.

Meu trabalho era trabalhar com Selene para quebrar a maldição do Luke. Eu me perguntava o que possivelmente poderia fazer para ajudar, mas parte da função era fornecer proteção enquanto ela se concentrava em seu trabalho. Eu poderia pelo menos ganhar algum tempo para ela, e não seria o único a mantê-la segura.

O caminho pela floresta que percorríamos era bastante comum, exceto pela visão impressionante da Árvore do Mundo ficando cada vez maior. Embora eu soubesse que um tesouro mortal repousava em sua base, a visão grandiosa fazia meu coração disparar. A Árvore do Mundo Corrompida que causou tanto caos na capital imperial não era nada comparada a esta.

— A propósito, Selene — eu disse. — Não há outros magis em Yggdra? Ouvi dizer que ela é protegida por vários elementais poderosos.

— De fato. Nós, é claro, temos outros magis, mas nenhum permanece em Yggdra. Inicialmente, havia outros dois elementais do mesmo calibre que Milesse. Os controladores dos guardiões de Yggdra desafiaram o Santuário das Origens na esperança de destruir o ovo divino. Nenhum deles retornou. É porque a única elemental restante, Milesse, só obedece à família imperial que eu pessoalmente fui recebê-los.

Isso era novidade para mim, mas não era difícil de acreditar. Cofres do tipo santuário desmoronariam se o chefe fosse derrotado. Mesmo que a Árvore do Mundo estivesse agindo estranhamente, o senso de dever dos habitantes de Yggdra não os deixaria ignorar isso.

Agora eu tinha mais uma coisa com que me preocupar, mas provavelmente não seria um problema, desde que não entrássemos muito fundo no cofre. Eu esperava.

Por que você não mencionou isso antes?

— Depois de fazer todos os preparativos possíveis, os guerreiros de Yggdra partiram para o santuário interno, onde esperavam encontrar o ovo divino — continuou Selene. — No entanto, visto que nem eles nem os elementais guardiões retornaram, temo que devam ter perecido. Se possível, eu gostaria de trazê-los de volta para Yggdra, mas entendo que temos prioridades maiores. Agora, devemos quebrar a maldição do seu amigo e, depois, deteremos a recuperação do deus.

— É, aham.

Embora eu estivesse mais do que ansioso para chamar o Ark, isso não significava que eu não tivesse nada a oferecer. Eu tinha uma equipe poderosa que provavelmente estaria de pé em breve. Assim que passasse a intoxicação, eles certamente estariam dispostos a enfrentar o cofre com o Ark e sua turma.

Talvez meus amigos sejam a parte da “tempestade” de “luz prateada e uma tempestade”.

No momento seguinte, Eliza parou.

— Chegaremos ao cofre logo — disse ela. — De aqui em diante, sigam minhas instruções.

Uma rajada de vento fez uma dispersão de folhas verdes flutuar para baixo. A folha vibrante na minha mão não se parecia com nenhuma que eu já tivesse visto. Tinha vindo da Árvore do Mundo. Algumas dezenas de metros à frente, uma profusão de folhas caídas cobria o chão como um tapete. Além disso, estava a própria Árvore do Mundo.

— Antigamente — disse Selene, quase em um sussurro —, apenas folhas moribundas caíam da árvore. A Mana Material acumulado está mudando a Árvore do Mundo. Os registros antigos dizem que este é o começo do fim.

O fluxo incessante de folhas parecia quase destinado a negar a entrada. Mesmo dado o tamanho da árvore, aquilo não era normal. Eu mal conseguia acreditar que uma árvore com um tronco como uma muralha realmente existia em nosso mundo.

— Mais uma vez, ela cresceu — disse Selene em voz baixa e trêmula. — Não estava assim quando vim da última vez. Deve ser por causa do excesso de Mana Material.

Eu deveria estar perfeitamente confortável, mas até aquilo me assustou. Os membros do Starlight todos seguravam nervosamente seus cajados.

— Esta pressão que sinto… — começou Lápis. — Hmph. A Sombra Partida é humana, no entanto, ela explorou esta área diariamente, não explorou?

— Apenas um Espírito Nobre pode suportar isso por muito tempo. Kai, você está bem?

— Sim, estou bem. Obrigado por perguntar. Sou um pouco diferente da maioria dos humanos.

De alguma forma, eu sobrevivi a alguns anos explorando Cofres do Tesouro com o resto da Grieving Souls. No entanto, nunca ganhei nenhum poder. Enquanto meus amigos obviamente tinham uma afinidade inata com a Mana Material, minha falta de melhora mostrava que eu era desprovido de qualquer coisa do tipo. Mas aventurar-se com eles deveria ter me tornado um caçador competente, afinidade à parte. Interpretei isso como se eu estivesse em uma situação muito pior do que a pessoa comum.

Como a intoxicação era um produto da absorção excessiva de Mana Material, minha incapacidade quase completa de absorvê-lo significava que eu nunca sofria com uma sobrecarga. Eu estive bem até na Pousada Peregrina. Na verdade, eu queria sentir isso ao menos uma vez. Então, respirei fundo, deixando a energia arcana encher meus pulmões.

De olhos fechados, as orelhas da Eliza tremeram enquanto ela buscava a presença de ameaças. Seus olhos então se abriram e ela assentiu.

— Eu estava certa. Esta é a nossa chance. Ou eu acho que é. Há pouquíssimos Fantasmas, o suficiente para que eu possa atraí-los para longe. Eu acredito. Vou chamar a atenção deles, o Starlight fornecerá suporte de fogo.

Ela vai atrair todos eles? Por mais avoada que fosse, Eliza conseguia dar conta do recado quando era necessário.

Certo, vamos salvar o Luke.

Os galhos da Árvore do Mundo cortavam toda a luz do sol, lançando sua base em uma escuridão noturna. Seguimos em frente, esmagando camadas densas de folhas sob nossos pés. Um vento frio soprou. Astor arquejou. A Árvore do Mundo era associada à santidade, mas aquilo parecia o inferno.

O estimado Cofre do Tesouro de Nível 10, Santuário das Origens, estava se formando na base da Árvore do Mundo. Havia uma muralha de obsidiana desmoronando e mais pilares do que eu conseguia contar. Embora eu não conseguisse sentir nada vivo, o cenário parecia que poderia despertar algum medo primitivo dentro de mim se eu não estivesse perfeitamente confortável. Os caçadores experientes do Starlight estavam todos sem palavras.

— À medida que se manifesta, o cofre provavelmente está se integrando à Árvore do Mundo — disse Eliza em seu tom habitual. — Passar por aquela muralha nos levará à entrada. O chefe estará mais adiante.

A vizinhança da entrada já era bem assustadora. Também era espaçosa o suficiente para que fossem necessários mais do que algumas dezenas de Fantasmas antes que pudesse parecer apertada. Que bom que não estávamos aqui para limpar o cofre.

Preocupada, Selene olhou para a Árvore do Mundo com os olhos cerrados.

— Com tanto poder — disse ela entre respirações pesadas —, a-apenas dar um passo além da muralha deve ser suficiente para quebrar a maldição.

Então temos que passar pela muralha?

Ouvir aquilo teria me deixado enjoado se eu não estivesse perfeitamente confortável.

— Ainda é bastante espaçoso além da muralha — disse Eliza. — Aposto que esta muralha é cerimonial, não defensiva. Existem até murais.

— Espere. Algo está vindo — disse uma das integrantes do Starlight.

De uma lacuna na muralha, tive um vislumbre de uma criatura estranha. Era um lagarto gigante com um corpo preto e esguio, medindo alguns metros de comprimento. Uma sela dourada estava presa a ele, e uma máscara dourada ocultava suas feições. Embora eu nunca tivesse visto um desses antes, era bem óbvio que aqueles adornos eram obra de uma pessoa.

Santuários eram construídos por seres inteligentes em nome da adoração a deuses e, como resultado, os Fantasmas que se manifestavam em santuários eram altamente inteligentes. Aquela criatura provavelmente era um guardião deste santuário. Um olhar foi suficiente para dizer que era algo formidável.

Droga. Se eu estiver certo, aquilo é facilmente um Nível 8.

— Aquilo provavelmente é por volta do Nível 6 — sussurrou Eliza para Lápis. — Não consigo imaginar que seja um 7.

— Hmph. Então isso é apenas o ato de abertura? Isso não é um bom sinal.

— Você acha que é Nível 6? — eu disse. — Tem certeza de que não é um Nível 4 ou 5?

— Não tem a menor chance daquilo ser um 4! Desu! Que tipo de Fantasmas você anda enfrentando, humano fracote?

S-Só brincadeira.

Eu estava apenas tentando parecer legal, mas minha estimativa estava longe demais do alvo.

— Há apenas três por perto — disse Eliza. — Se os atrairmos para fora, o caminho deve ficar livre por um tempo.

— Hmm. Três. Devemos ser capazes de lidar com isso. Mas estes são claramente destinados a serem montarias. Onde estão os cavaleiros?

— Talvez eles ainda não tenham se manifestado. De qualquer forma, devemos derrubá-los o mais silenciosamente que pudermos.

— Quem você pensa que nós somos? Apenas foque em chamar a atenção deles, Vagante.

O Starlight tinha um olhar predatório nos olhos. Comecei a sentir uma espécie de excitação pré-batalha estranha para mim.

— Ainda assim, não podemos ficar complacentes. Este é um cofre de Nível 10. Mil Truques, de quantos guardas você precisa? — Lápis me perguntou.

Oh, o que eu deveria dizer?

Elas não deveriam ter problemas em atrair os Fantasmas se houvesse apenas três na vizinhança. Eu estava começando a pensar que não precisaria de guardas de jeito nenhum. O outro grupo, enquanto isso, teria que derrubar três Fantasmas difíceis com apenas uma Ladra e alguns magi.

— Certo. Acho que não preciso de nenhum…

Mas talvez eu possa precisar de um ou dois? Pode haver uma emergência.

— Hmph. Imaginei. Em termos de distribuição de poder, essa é a escolha certa. Hmm. Astor, dê ao homem uma barreira de relâmpagos apenas por precaução.

— Entendido. Não saia arriscando seu pescoço lá fora, humano.

Astor apontou seu cajado para mim e disse um encantamento. Uma pequena esfera de relâmpago se formou e parou logo diante de mim. Pequenas partículas brilhantes de eletricidade roxa estalaram enquanto envolviam meu corpo.

— Esta barreira atacará por conta própria — explicou Astor. — Em um cofre como este, não fará mais do que ganhar um pouco de tempo para você, mas é melhor do que nada. Não impedirá nenhum ataque, então tome cuidado.

— O-Obrigado. Eu agradeço.

Uau, isso é incrível. Vou ter que pedir para a Lucia aprender esse feitiço. É como se eu pudesse usar magia ou algo assim.

Justo quando eu estava me animando, senti uma mão no meu ombro.

— Tome cuidado lá fora. Desu.

Hein?

— Siga o plano, Kai. Algo está errado aqui. Por favor, quebre a maldição o mais rápido que puder.

— Te dever favores demais não cai bem com o nosso orgulho. Limpar lixo está abaixo de nós, mas daremos o nosso melhor apenas desta vez. Faça o seu trabalho e não se preocupe conosco.

Uh. Ei. Sobre ter um guarda…

Observei vagamente enquanto Eliza e o Starlight se dirigiam para a entrada.

— Finalmente chegou a hora — disse Selene para mim em voz baixa. — Não se preocupe, estou preparada. Não deixarei que o sacrifício deles seja em vão.

— É. Aham.

Acho que eles conversaram um pouco enquanto eu estava distraído pelas partículas brilhantes. Sou uma vergonha.

Eliza e o Starlight moveram-se rapidamente. Paradas diante da muralha, as magi ergueram seus cajados e recitaram encantamentos. Após trocarem algumas palavras, dividiram-se em dois grupos. Houve uma rajada de vento misteriosa, levantando folhas caídas no ar.

— Vejo que eles não são estranhos a isso — observou Selene. — Eles cortarão o barulho feito pela equipe de diversão e, em seguida, eliminarão rapidamente os Fantasmas. Um plano simples, mas a execução será tudo menos isso. Tanto os que atraem quanto os que atacam têm que ser de talento soberbo.

Hmm. Eliza e o Starlight todos se encaixam nesse perfil, então devem ficar bem. É com o nosso lado que precisamos nos preocupar.

Preparativos concluídos, Eliza entrou no Cofre do Tesouro com toda a indiferença de alguém dando um passeio. Caçadores de primeira linha sempre conseguiam manter um passo natural. Selene engoliu seco. Um segundo pareceu dez, que pareceram cem.

Então, sem aviso, a muralha explodiu.

Não fez som algum. Milhares de folhas foram espalhadas pelo ar, e então Eliza emergiu da agitação. Caçando-a estavam os demônios mascarados como aquele que tínhamos vislumbrado anteriormente. Minha respiração parou na garganta. O ar tremeu e folhas giraram pelo ar. Os demônios perseguiram Eliza. Exatamente como ela disse, havia três Fantasmas. Eles esbarravam uns nos outros como se tentassem tirar os outros do caminho, como se todos quisessem chegar até ela primeiro.

Comparados aos seus movimentos ágeis, os Fantasmas de quatro patas praticamente investiam atrás dela. Seus passos brutos eram descritos mais como carga do que como corrida. Mas isso não significava que não fossem rápidos. Embora não fossem exatamente leves, compensavam com força bruta. Eles claramente superavam Eliza tanto em velocidade quanto em força.

Folhas rodopiavam e o chão tremia a cada passo. Sem precisar vê-los, Eliza mal desviava de suas patas dianteiras que desferiam golpes e de suas longas caudas que varriam o ar. Os demônios se aproximavam como uma tempestade furiosa, mas os movimentos de Eliza pareciam pura magia de onde eu estava.

Embora até a Sombra Partida às vezes fosse atingida apesar de sua velocidade sobre-humana, nada conseguia tocar Eliza, a Vagante. Habilidades de evasão divinas, sentidos aguçados e as capacidades extra-sensoriais únicas dos Espíritos Nobres abriram as portas para a caça solo para ela. Sua maior força era sua habilidade de detectar perigo, uma habilidade na qual ela tinha poucos iguais.

Eliza podia julgar o tempo e o ângulo de qualquer ataque. Com o turbilhão de folhas obstruindo sua visão, ela esquivava de seus golpes com o menor dos movimentos antes de sair correndo novamente. Competindo por sua presa, os Fantasmas a perseguiam, alheios a qualquer outra coisa. Eu não conseguia ouvir nada vindo deles, sugerindo que o Starlight tinha feito o seu trabalho. Nada seria alertado sobre sua presença se a única evidência fossem alguns tremores leves.

Selene soltou um suspiro profundo, como se o estivesse segurando esse tempo todo. Mesmo à nossa distância segura, ela estava apavorada; o sangue fugiu de seu rosto e seus braços tremiam. Apesar de toda a minha determinação, aqueles demônios ainda me aterrorizavam. Comecei a desejar ter alguma proteção ou ter esperado até que minha equipe se recuperasse.

— Devíamos voltar e tentar de novo mais tarde? — sugeri, apenas parcialmente brincando.

Os lábios de Selene se torceram, mas ela respondeu com uma voz firme.

— Não. Não deixarei que os esforços do Starlight sejam em vão. Vamos logo.

— É um jeito bom de colocar as coisas. Tudo bem, vamos tentar não chamar atenção.

Com um sorriso desesperado, olhei para frente. Disse a mim mesmo que ficaria tudo bem, já que nosso trabalho não mudaria, estivéssemos escoltados ou não.

O feitiço do Starlight estava abafando qualquer som. Por um lado, isso significava que poderíamos fazer barulho sem sermos notados pelos Fantasmas. Por outro lado, teríamos dificuldade em sentir as ações dos Fantasmas. Não que eu fosse de muita utilidade detectando inimigos de qualquer maneira. Eu tinha trazido três espadas do conjunto chamativo e floral por todo esse caminho, mas agora não tinha certeza se conseguiria me forçar a usá-las.

Correndo em um ritmo acelerado, alcançamos a muralha. Segurando a borda com força, espiei para dentro do cofre, fazendo meu coração saltar uma batida. O cenário decadente de escombros negros e pilares de pedra combinava com as descrições anteriores da Eliza. Lá, além daquelas ruínas insondáveis, estava a Árvore do Mundo.

— O cofre — sussurrou Selene, apertando seu cajado. — Ele está se formando de modo a ser um só com a Árvore do Mundo.

Vi um santuário — um santuário chocantemente intrincado se enterrando no tronco da Árvore do Mundo. A visão sinistra dele e das ruínas ao redor fez minha pele arrepiar. Eu tinha poucas dúvidas de que qualquer deus produzido por este cofre não seria do tipo bondoso.

Felizmente para nós, no entanto, parecia que os Fantasmas estavam realmente ausentes. Embora eu tivesse acabado de dizer que deveríamos voltar, ver este lugar vazio mudou minha mente. Agora eu estava feliz por ter decidido seguir em frente com a quebra da maldição. Eu não estava interessado em enfrentar uma horda daqueles lagartos demoníacos nem se tivesse meus amigos em perfeitas condições.

Selene, o Mimicky e eu entramos no espaço desolado. O ar estava frio e as folhas da Árvore do Mundo flutuavam com a brisa. As folhas aqui cobriam o chão exatamente como faziam lá fora, mas em menor número, ao que parecia.

Assim que estávamos a algumas dezenas de metros da Árvore do Mundo, Selene parou. Após dar alguns toques experimentais no chão com seu cajado, ela assentiu.

— Isso deve ser o suficiente para nos conceder os poderes que precisamos!

— Isso é mais fundo do que eu esperava. Mimicky, recupere a estátua do Luke.

Embora fosse inútil reclamar, eu achei que estaríamos um pouco mais perto da entrada.

Coloquei a estátua do Luke no chão. Toda vez que a via, não conseguia deixar de rir do absurdo dele brandindo sua espada contra uma maldição, irritando-a tanto que ela o amaldiçoou de volta. Mas, finalmente, ele estava prestes a ser seu antigo eu novamente. Eu mal podia esperar para ouvir o que ele viu e pensou enquanto era uma pedra. Ou talvez ele se revelasse bem indiferente a tudo isso.

— Posso deixar a quebra com você? — perguntei.

— Sim. Vou começar.

Fechando os olhos, Selene apertou seu cajado e respirou fundo. A luz se reuniu ao redor do cajado e o vento começou a soprar. Um ciclone se formou ao redor dela, levantando todas as folhas próximas. Dei um passo cauteloso para trás. O termo “quebra de maldição” me levou a pensar que seria algo silencioso, mas parecia que não era o caso. Você poderia ter me dito que ela estava lançando um feitiço ofensivo e eu estaria pronto para acreditar.

Meus olhos se arregalaram. Então esta era a magia da família imperial de Yggdra!

— Esta não é a minha magia em ação! — Selene gritou.

— O quê?!

Assistimos, perplexos, enquanto as folhas rodopiantes se tornavam partículas de luz. Elas começaram a flutuar em uma visão que era mística e incompreensível ao mesmo tempo. Com os olhos esbugalhados, Selene apertou meu braço distraidamente. Por um momento, lembrei-me do Jardim Prismático — o Cofre do Tesouro que se formara bem diante dos meus olhos devido a movimentos diastróficos.

As partículas se aglutinaram, brilhando intensamente por um momento antes de tomar forma. Onde não deveria haver nada, poderes que deveriam ser sem peso agora tinham tomado forma e ganho massa. O chão tremeu.

— O-O que é isso?

— Hmm. Então chegou a este ponto.

Folhas frescas caíram da Árvore do Mundo. A falta de folhas no chão me pareceu estranha, dada a taxa em que estavam caindo. Geralmente, os Fantasmas não apareciam diante dos olhos de alguém porque a Mana Material seria, em vez disso, absorvido por qualquer criatura viva próxima. No entanto, sempre havia exceções.

Quando parei para pensar, as folhas estavam caindo porque havia mais Mana Material do que a Árvore do Mundo podia processar. Aquelas folhas eram basicamente pedaços de Mana Material — mais do que o suficiente para um Fantasma se formar bem na nossa frente. E no pior momento possível, nada menos.

Os Fantasmas que tomaram forma assemelhavam-se às feras mascaradas que perseguiam a Eliza. E mais. As ruínas anteriormente desocupadas logo ficaram fervilhando com Fantasmas de todos os tipos. Havia lagartos, cães e cobras. E um cavaleiro. Eram mais do que eu podia contar, e todos tinham máscaras, aparentemente o traje padrão para todos os Fantasmas neste cofre.

Talvez se eu colocar uma máscara, eles me aceitem como um dos seus.

Eu queria correr, mas isso não ia acontecer. Estávamos no meio das ruínas e os Fantasmas apareciam por toda parte — estávamos encurralados. Ao notar Selene e eu, os Fantasmas recuaram rapidamente.

Não, nós chegamos aqui primeiro.

— O que fazemos, humano?

— Deixe-me ver…

Eu nunca pensei que algo assim pudesse acontecer. A barreira da Astor não ia me servir de muito quando havia tantos deles. Embora tivessem sido pegos de surpresa pela nossa aparição repentina, eles eram os que tinham a vantagem esmagadora. Nossa única opção era escapar para dentro do Mimicky, mas eu teria que ganhar tempo para a Selene ir primeiro, já que eu era o único com os Anéis de Proteção.

O lagarto mascarado soltou um rugido estridente. Os que perseguiam a Eliza tinham feito um som semelhante? O feitiço de abafamento significava que eu não podia saber. Justo quando ele estava prestes a saltar sobre nós, o cavaleiro ergueu o punho, parando o lagarto. Isso era um mau sinal, pois significava que esses Fantasmas eram organizados. Exatamente o tipo de coisa que se esperaria de um cofre de alto nível.

O cavaleiro desembainhou silenciosamente sua espada. Havia uma hostilidade intensa nos olhos brilhantes que espiavam por aquela máscara. Era, com toda a probabilidade, um servo do deus que estava prestes a nascer ali. Da mesma forma, provavelmente era ele quem deveria montar os lagartos.

Não vi nenhuma esperança para nós. Luke poderia ter sido capaz de enfrentar esses Fantasmas, mas não havia muito que pudesse fazer enquanto ainda fosse uma estátua, e agora não era um bom momento para tentar quebrar a maldição.

— Vou atrair a atenção deles — disse eu para Selene, sem tirar os olhos do Fantasma. — Você deve entrar no Mimicky.

Eu não tinha pensado no que fazer depois disso, mas o baú tinha bastante espaço, assim como meus amigos. Como a Eliza provavelmente voltaria para cá assim que seus Fantasmas caíssem, eu estava disposto a acreditar que as coisas funcionariam de uma forma ou de outra.

Respirando fundo, Selene assentiu.

— M-Muito bem. Não tenho desejo de atrapalhá-lo. Que a fortuna brilhe sobre você.

Atrapalhar? Não, eu estarei logo atrás de você.

Agora, como eu ia atrair a atenção de um inimigo que poderia atacar ao menor movimento errado? Por sorte — se é que se pode chamar assim — eu tinha algumas Relíquias que poderiam nos ajudar aqui. Deixar tudo pronto tinha sido divertido, mas eu não esperava realmente usá-las.

Com um sorriso, saquei a espada de aparência imponente, Não Firas o Fraco, Oh Campeão, da bainha nas minhas costas. Seu punho não era muito chamativo, mas também não era exatamente comum. Só de olhar para sua lâmina cintilante me dava calafrios. Aterrorizado pela visão da espada, o cavaleiro mascarado deu um passo cauteloso para trás. Foi quando ativei as outras Relíquias.

Nuvens finas cobriram o céu, trazendo com elas uma chuva suave. Um feixe de luz brilhou dos céus e a barreira da Astor estalou para completar o efeito. Era uma visão bem chamativa, o suficiente para atrair a atenção dos Fantasmas. Mas ainda não era o bastante. Alguns deles ainda estavam fixados na Selene. Suponho que distrair um enxame envolvente de Fantasmas não seria fácil.

Então lembrei-me de outra Relíquia que ainda não tinha usado. Era uma que eu tinha mostrado para a Kris quando estávamos na estrada. Enfiando a mão na minha bolsa, tirei as máscaras de Relíquia e as dispersei. Estas eram as Máscara Servís, pequenas máscaras que flutuavam ao meu redor como satélites. Quando inertes, tinham o tamanho da unha de um dedo mindinho, mas quando ativadas, inflavam até o tamanho de algo que se pudesse vestir e começavam a flutuar ao redor.

Esta não era uma Relíquia que servisse para qualquer propósito real. Se tanto, você ficaria melhor sem elas, já que obstruíam sua visão. No entanto, aqui estavam elas, provando ser mais úteis do que eu, seu dono, jamais antecipara.

Os Fantasmas estavam claramente inquietos; as máscaras circulando ao meu redor tinham sua atenção completa. Que pessoa formidável eu era se conseguia fazer uso de uma Relíquia inútil.

— Agora! Corra! — disse eu em voz baixa.

Não recebi resposta. Girei e vi apenas o Mimicky. Selene tinha encontrado uma abertura e escapado sem a minha ajuda. Que garota esperta. Ainda assim, fiquei aliviado. Agora eu só tinha que sair daqui, e tinha os Anéis de Proteção para fazer isso acontecer.

Houve um baque pesado, cuja fonte era um cavaleiro mascarado dando um passo à frente. Embora isso tenha trazido a atenção deles de volta para mim, ter distraído tantos Fantasmas de alto nível por quase um minuto foi mais do que eu jamais esperara. Eles poderiam atacar agora, e ainda seria tarde demais. Com meu estoque de Anéis de Proteção, eles precisariam de mais do que alguns segundos para romper minhas defesas.

Ignorando os Fantasmas, eu estava prestes a escancarar a tampa do Mimicky. Arquejei.

Não abre. Está trancado. Por que está trancado?

Inúmeros ataques atingiram minhas costas, ativando meus Anéis de Proteção, mas eu tinha preocupações maiores. Ninguém além da Selene e eu estive nessas ruínas. Se a tampa foi trancada depois que ela entrou, então isso significava que o Mimicky deve ter feito isso. Afinal, ele podia criar braços, e a fechadura era um mecanismo simples, sem mencionar que a tampa estava destrancada quando chegamos.

— Ei? O que há de errado? — perguntei, no limite da minha paciência.

Foi quando o Mimicky saltou como uma mola. Usando aquela mesma velocidade natural que lhe permitira pegar a Liz desprevenida, ele saltou no ar, mergulhando direto nas fileiras dos Fantasmas. Eu estava perplexo demais para fazer qualquer coisa. Que tipo de Relíquia foge deixando seu dono para trás?

— Entendo. Então ele foi projetado para proteger automaticamente seu conteúdo. Verdadeiramente uma Relíquia notável.

Talvez quando eu disse para correr, ele tenha pensado que isso o incluía. Eu não me importava que ele estivesse saindo daqui, mas seria pedir demais que ele esperasse até que eu estivesse dentro?

Fui traído pelas minhas Relíquias, com os Fantasmas me olhando com exasperação (?). Pelo menos minhas espadas ainda estavam do meu lado — elas me iluminavam e me cobriam com gotas de água, tudo para absolutamente nenhum benefício. Meus fiéis Anéis de Proteção não me ajudariam a sair daqui mais rápido, então não eram de muita ajuda. O Mimicky até deixou a estátua do Luke para trás.

Parecia que meu único fio de esperança eram a Eliza e o Starlight, exceto que tínhamos acabado de nos separar deles, e eu não tinha certeza se eles poderiam fazer algo contra uma multidão tão grande de Fantasmas. Parado ao lado da estátua do Luke, achei melhor preparar minha lâmina. Ser fraco desempenhava um papel nisso, mas estar aqui me fazia perceber o quão desesperador era estar sozinho em um campo de batalha. Eu poderia ter vomitado se não estivesse perfeitamente confortável com o Férias Perfeitas.

Sem ter como resistir ou fugir, eu estava completamente preso. Eu já tinha estado sozinho antes, como no Festival do Imperador, mas presumi que tudo aquilo fizesse parte do torneio. Depois, houve aquela vez em que a maldição de Shero me caçou dentro da cidade do Mimicky, mas eu consegui evitar ser detectado lá embaixo. Olhando para trás, cada acidente bizarro em que eu me encontrava era pior que o anterior.

Dito tudo isso, eu ainda não planejava cair facilmente. Eu ainda tinha a barreira da Astor e um Aspiration Manifest carregado com um dos feitiços da Lucia. Da última vez que verifiquei, continha um ataque de área, então eu poderia talvez causar algum dano sério se acertasse o tempo.

Vamos lá, não tenho o dia todo!

Respirei fundo e encarei os Fantasmas.

Eles se moveram de uma vez.

Os cavaleiros, lagartos e outros demônios moveram-se como uma onda, chocando-se em direção à Árvore do Mundo. Meus olhos saltaram. O chão tremeu. Corri para apoiar a estátua do Luke, que parecia que ia tombar.

Mas, em vez de irem atrás do intruso, eles se ajoelharam diante da Árvore do Mundo. Os cavaleiros mascarados baixaram as cabeças; os lagartos mascarados pressionaram seus corpos contra o chão.

Isso é a hora da oração deles ou algo assim? É um santuário, então não é impossível.

Por mais que eu tivesse dificuldade em acreditar na minha sorte, isso não mudava o fato de que os Fantasmas haviam desocupado a metade traseira das ruínas. Não querendo interromper suas orações, saí silenciosamente. Deus, se isso e a Pousada Peregrina serviam de indicadores, o senso comum não levava a lugar nenhum em um cofre de Nível 10. Absolutamente bizarro que os Fantasmas se manifestassem bem diante dos meus olhos.

Silenciosamente, para não atrair a atenção deles, dei um passo para trás enquanto desativava as três espadas chamativas e florais e as máscaras flutuantes. No momento seguinte, uma luz abrasadora me cegou. As partículas anteriores das folhas da Árvore do Mundo não eram nada comparadas a isso.

Uma massa brilhante apareceu na frente da Árvore do Mundo. Não pude deixar de parar e encarar. As ruínas ficaram inquietas. A luz girou e virou antes de tomar a forma de uma pessoa. Meu palpite era que era um novo Fantasma, muito mais poderoso que os outros ali.

Cofres frequentemente tinham Fantasmas de vários níveis. Fantasmas muito mais fracos que o chefe final, mas muito mais fortes que os comuns, eram temerosamente chamados de subchefes. Deixe para um cofre de Nível 10 trazer um subchefe para acabar com um caçador já indefeso.

O novo Fantasma era um cavaleiro com cerca de dois metros e meio de altura, vestindo uma máscara e uma armadura vermelha. As manchas cor de ferrugem sugeriam que este Fantasma era derivado de um cavaleiro específico. Por alguma razão, Fantasmas humanoides eram geralmente bem perigosos. Enquanto monstros que causaram destruição suficiente podiam receber algum epíteto, tornando-os monstros nomeados, os Fantasmas, por outro lado, eram sombras de governantes cujos nomes um dia infundiram medo nas pessoas. Por que inimigos empunhando espadas tinham que começar a aparecer justo na única vez em que o Luke estava petrificado estava totalmente além da minha compreensão.

Embora eu tenha implorado em vão para que o Fantasma não me desse atenção, ele olhou diretamente para mim, ignorando seus subordinados. Ele alcançou lentamente a espada em suas costas. O que ele sacou foi uma espada de dois gumes com adornos no punho e na guarda que quase me fizeram pensar que poderia ser cerimonial. Presumi que estava olhando para um servo do deus deste cofre.

O cavaleiro vermelho segurou a espada com as duas mãos, mantendo a lâmina erguida diante do rosto. Como se isso fosse o sinal, os outros Fantasmas todos se viraram para mim. Eu estava em um lugar genuinamente terrível, completamente indefeso. Embora minha sorte nunca tivesse sido grande, isso ainda estava além de qualquer coisa que eu tivesse imaginado. Talvez fosse assim que a maioria dos caçadores encontrava seu fim.

Como eu estava ferrado de qualquer jeito, ergui a Não Firas o Fraco, Oh Campeão diante do rosto, imitando a pose do Fantasma. Fazer isso não servia para absolutamente nada. Esta espada era a definição de livro de uma Relíquia inútil. Não só faltavam características além de ser berrante, mas era na verdade pior que uma espada normal.

Embora eu não soubesse por que, os Fantasmas ficaram inquietos, sua atenção mudando para algo atrás de mim. Senti uma brisa fria contra minhas costas.

Poderia ser?! Era a Lucia?! O Mimicky chamou ajuda? Talvez ele tenha me deixado para trás para poder trazer a Lucia e os outros. Você nunca falha, Mimicky. Bolsas mágicas podem mesmo fazer algo assim? Bem, eu aceito.

Virando-me com um sorriso no rosto, mal pude acreditar no que estava vendo. Ali, na entrada do santuário, havia uma grande fenda, e além dela havia um lugar inteiramente diferente. Eu sabia que tipo de feitiços a Lucia tinha em seu repertório, e nunca tinha visto algo assim. Eu tinha a impressão de que a magia de espaço-tempo era tão avançada que apenas alguns magi no mundo podiam usá-la.

Enquanto eu estava ali sem saber o que fazer, uma cabeça grande rastejou para fora da fenda. Pertencia a uma centopeia maciça com uma carapaça tão vermelha quanto a do cavaleiro.

— Droga, eu não achei que a fonte de energia seria um beco sem saída — disse uma voz vinda da fenda.

— Pooor isso que eu disse que devíamos dar meia-volta! Esse espaço não é bem como o mundo real! O que teria acontecido conosco se não fosse pelo meu rasgador?

A garota que me pediu a Bússola dos Tolos saiu cambaleando. Ela não estava com o capuz levantado, mas eu podia dizer que era ela pela voz. No topo da cabeça dela havia um boneco, empunhando um par gigante de tesouras. Ela foi seguida por um jovem de cabelos pretos com uma espada no quadril e depois por uma mulher de cabelos pretos carregando uma lança grande. Ela tinha pele bronzeada e um olhar aguçado, e parecia tão forte quanto a Liz.

Ela pareceu momentaneamente surpresa quando me viu, mas aquele olhar mudou para um sorriso selvagem quando viu os Fantasmas.

— Uma recepção e tanto, Mil Truques — disse ela. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. — Hmm. Então é isso que você está buscando?

Mil Truques?! O que você está fazendo aqui?

— Ha ha ha, uhhh…

Parece que vocês sabem quem eu sou. Mas quem seriam vocês?

Completamente confuso, apenas coloquei um sorriso sem graça.

— É, mas Adler — disse o jovem com a voz trêmula —, aquilo não são monstros — são Fantasmas. Você consegue domar Fantasmas?

— Hmph. Está acontecendo bem diante dos nossos olhos. Eu não esperava que aquele paraíso fosse isca, e eu definitivamente não achei que ele saberia quando apareceríamos aqui.

— Isso é impossível! Como ele poderia saber sobre o rasgador? Ninguém mais me viu usá-lo!

Eu não me importava realmente com o que eles estavam falando; eu só queria que eles decidissem se iam me ajudar ou não. Como o cavaleiro vermelho ergueu novamente sua espada ao ver os novos intrusos, os Fantasmas também mudaram seu foco. Dezenas de Fantasmas movendo-se em uníssono não perturbaram nem um pouco a mulher chamada Adler.

— Mas que me leve se não é interessante — disse ela. — Vamos mostrar a ele que não estávamos de brincadeira no Corredor da Árvore Divina.

O que eu vi então foi como um pesadelo. Uma centopeia inconcebivelmente grande rastejou da fenda, seguida por um gigante cinza de um olho só. Havia uma serpente de aparência venenosa, um lobo com pelo dourado, uma tartaruga com árvores crescendo nas costas, uma ninhada de pequenos dragões que se assemelhavam a dragões gélidos, e mais e mais. Alguns deles estavam feridos, mas isso ainda era uma força desmedida. Era um exército de monstros.

Foi quando algo me ocorreu, embora um pouco tarde — Liz e o resto do grupo tinham afugentado um grupo comandando um bando de monstros. Este era o mesmo grupo, não era? Meus amigos mencionaram algo sobre uma centopeia e uma pessoa que se apresentou como Adler. Eu não sabia como eles tinham chegado aqui, mas aquilo era uma persistência temível.

— Eu não sei se você esteve lá, Mil Truques — disse ela —, mas não ignore o Corredor da Árvore Divina.

— Encontrei alguns espadachins interessantes. O próximo exército do Quint não terá formigas de batalha — gritou o jovem.

No mesmo momento, uma multidão agitada de cartas de baralho do tamanho de humanos se reuniu e soltou um grito de guerra. Onde diabos eles encontraram essas coisas? Pelo menos descobri quem eram essas pessoas, mas não fazia ideia do que estavam falando. Bem, se nada mais, eles não pareciam estar do meu lado.

Por que tanta gente está atrás de mim? Eu quero ir para casa.

Os Fantasmas não se intimidaram com a aparição abrupta de um novo exército. Os cavaleiros mascarados montaram seus lagartos mascarados e começaram a rugir.

Com os olhos fixos nos Fantasmas atrás de mim, Adler girou sua lança.

— Parece que você conseguiu alguns monstros novos para o seu rebanho, Mil Truques — gritou ela por algum motivo. — Observe e veja o que um pouco de Mana Material fez pelo nosso exército! Todas as unidades, avançar!

Hein?

Fiquei sentado observando as forças da mestre dos monstros se chocarem com o exército de Fantasmas.

************************************************************************************

Assim que atraíram para longe e derrotaram os três Fantasmas, Eliza e o Starlight voltaram para a Árvore do Mundo. Espiando ao redor da muralha para verificar o progresso da outra equipe, Astor ficou abalada com o que viu.

— O-O que diabos?!

Incontáveis cadáveres de monstros estavam empilhados entre as ruínas. Parado no meio de tudo aquilo, ao lado da estátua do Luke, estava Krai Andrey, encharcado de sangue. Astor não pôde deixar de olhar para Eliza — fazer o reconhecimento e a diversão era o trabalho dela.

A Ladra soltou um longo, longo suspiro.

— Estava vazio antes — disse ela cansada. — Como isso…

Astor não conseguia imaginar o que poderia ter acontecido. Aqueles eram Fantasmas poderosos que Eliza atraíra. Preparando-se com antecedência, eles se colocaram em uma posição vantajosa e de alguma forma os derrubaram, mas não havia garantia de que teriam se saído tão bem se tivessem sido lançados em um combate repentino. Pensar que eles estiveram fora por uma hora, no máximo.

As pilhas de cadáveres eram amplas e variadas. Havia lagartos mascarados, os mesmos que Astor e seus companheiros haviam combatido, assim como bestas míticas e outros que não eram Fantasmas. Ela não conseguia conceber a quantidade de poder necessária para derrubar uma horda de monstros que incluía os mesmos lagartos que deram tanto trabalho ao Starlight. Ela quase certamente não teria acreditado que algo assim fosse possível se a prova não estivesse bem diante de seus olhos. Seus companheiros estavam todos sem palavras.

Kris quase tropeçou em algumas carcaças enquanto corria até o Mil Truques.

— Você está bem?! Desu?!

— O-Oh, bem-vinda de volta, Kris. Demorou bastante.

Sua voz preguiçosa não parecia nem um pouco com a de alguém que pudesse criar algo tão horrível. Ele não tinha sequer um arranhão. Em contraste com a palidez doentia da Kris, Eliza simplesmente olhou ao redor.

— Kai, você está bem? — perguntou ela. — Está ferido?

— Sim. Mais importante, parece que o grupo de vocês está em boa forma. Não se preocupem, eu só tomei um banho de sangue de monstro. Honestamente, estou a centímetros de perder o meu conforto perfeito.

Conforto perfeito? Do que este humano está falando? Aquilo tudo é respingo de sangue?!

— Parece que você teve uma luta bem — Lápis olhou feio para os arredores horríveis —, difícil. O que aconteceu?

— É, é uma longa história, mas eu tinha certeza de que ia morrer ali atrás. Sei lá, os dois lados estavam bem equilibrados.

Equilibrados? Apenas uma olhada rápida ao redor sugeria que havia pelo menos um par de centenas de cadáveres na frente do santuário. Dizer que era uma partida equilibrada estando completamente ileso soava como nada mais do que uma piada de mau gosto.

Astor estava bem ciente de que caçadores de alto nível eram de uma raça diferente, mas aquilo era demais. Derrotar tantos sem sofrer um arranhão estava além do reino da possibilidade para qualquer um dos magi do Starlight, e todos eles se especializavam em poder de fogo. O Avatar da Criação provavelmente não poderia ter feito algo assim. Talvez a Lucia tenha aprendido seus truques com o irmão. O que realmente aterrorizava a Astor era a disposição deste humano de se fazer de palhaço apesar de sua força aparente. Um novo senso de incerteza começou a sobrecarregá-la.

— Vamos começar saindo daqui — disse o Mil Truques com um bater de palmas. — Não queremos lidar com mais nenhum Fantasma.

— Isso nem precisa ser dito. Mas e o Luke? Não parece que a maldição dele foi quebrada.

— Ah, certo, isso é —

Antes que ele pudesse continuar, uma das pilhas de cadáveres começou a se mover. Um cavaleiro mascarado com armadura vermelha manchada de sangue ergueu-se da pilha. Não era exagero dizer que cada centímetro do Fantasma estava coberto de feridas. Sua armadura estava amassada, apresentava vários cortes e fora até deformada pelo calor intenso. No entanto, sua força foi imediatamente aparente. Astor tinha certeza de que este cavaleiro era muito superior aos lagartos que sua equipe combatera.

O Fantasma removeu uma espada maciça que fora cravada no monte de cadáveres como um marco de sepultura. Não havia como pará-lo. Embora não dissesse nada, exalava uma pressão indomável apesar de seus muitos ferimentos. Lançar um feitiço levaria tempo — tempo que não tinham com este Fantasma diante deles.

O cavaleiro vermelho olhou para o Mil Truques, mas ele não vacilou. Apenas sorriu. O que quer que estivesse pensando, ele não parecia que ia atacar. Quando o Fantasma começou a se aproximar dele lentamente, Astor viu-se movendo-se para o lado.

Um Fantasma de um Cofre do Tesouro de nível superior e um dos caçadores mais fortes da capital imperial estavam parados um oposto ao outro. Mesmo das laterais, eram uma visão estranha. Apesar da clara ameaça representada pelo cavaleiro silencioso, o Mil Truques estava calmo demais para alguém enfrentando o Fantasma de um cofre do tipo santuário. Você poderia mostrar a cena para cem pessoas e todas presumiriam que a derrota do caçador era iminente.

No entanto, ele se virou do Fantasma para o Starlight e disse:

— Alguém quer lutar contra isso?

Claro que não! Olha para ele!

Foi apenas devido à condição nada ideal do Fantasma que a Astor conseguiu seguir seu próximo movimento. Em um instante, o cavaleiro ergueu sua espada cerimonial e desferiu um golpe contra o Mil Truques enquanto ele ainda olhava para o outro lado. Parecia magia. Era o tipo de corte afiado, silencioso e artístico que uma vítima poderia nem notar.

No entanto, a lâmina não atingiu seu alvo. Houve um baque surdo. Astor esqueceu de respirar. A lâmina fora interceptada por um intruso que ninguém poderia esperar.

— Hein?! C-Como isso aconteceu?! — Kris gritou.

A lâmina fora interceptada pela Espada Proteana. Para ser mais preciso, fora interceptada pela estátua de pedra do Luke Sykol, a Espada Proteana. Astor tinha certeza de que o braço dele estava abaixado, mas agora estava erguido para aparar o golpe que chegava.

— Ridículo — disse Lápis. Ela ostentava uma expressão tensa, rara para os Espíritos Nobres. — Isso é impossível! Ele deveria estar petrificado!

— Como é o Luke, não é difícil de acreditar — comentou Eliza. — Ainda mais em um lugar com Mana Material tão denso.

— A Mana Material responde aos desejos! Você está me dizendo, Vagante, que a Espada Proteana quer lutar contra o Fantasma com tanta intensidade?! Você espera que eu acredite que um humano poderia superar através da pura vontade uma maldição que a Selene não conseguiu quebrar?! N-Não. Droga. Isso fazia parte do seu plano, Mil Truques?!

Kris tremia enquanto o sangue fugia de seu rosto.

— E-Ele está se movendo mesmo petrificado! Desu!

De fato, embora ainda não estivesse livre de sua maldição, Luke estava, no entanto, se movendo. Todos, exceto a Eliza e o Mil Truques, tremiam com a visão. Até o Fantasma parecia capaz de entender que algo estava errado, pois escolheu recuar em vez de brandir sua lâmina novamente.

A voz ruidosa de Luke chegou aos ouvidos de todos.

— EU VOU FAZER ISSO! KRAI, NÃO ME TIRA DESSA! EU VOU LUTAR CONTRA O FANTASMA!

Como a boca dele poderia estar se mexendo se ele tinha sido transformado em pedra?

— Ah, claro. Vá em frente.

Com a permissão do Mil Truques, a estátua do Luke começou a andar com movimentos que dificilmente poderiam ser descritos como suaves. Aparentemente em pânico, o Fantasma saiu correndo. Luke foi atrás dele.


Tradução: Rudeus Greyrat
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