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Grieving Soul – Capítulo 3 – Volume 9

 

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 09

Capítulo 03:
[O Corredor da Árvore Divina]


Depois de cinco dias viajando de carruagem e passando por várias cidades, Eliza nos levou a uma vasta floresta. Esse mar de árvores ficava na base de uma cordilheira que formava a fronteira sul de Zebrudia.

O mapa sugeria que a área não era tão grande, mas a densa vegetação parecia decidida a barrar qualquer intruso humano. Como esperado, não havia estradas por ali. Embora houvesse vãos largos o suficiente para as carruagens passarem, elas balançavam e saltavam no terreno acidentado. Se não fosse pela Férias Perfeitas, eu estaria tudo menos perfeitamente confortável.

Também tínhamos atravessado montanhas durante nossas férias e, embora fossem antigas, havia estradas. Essas matas não pareciam tão traiçoeiras quanto aquelas montanhas, mas eu tinha certeza de que ainda haveria uma boa quantidade de monstros. As linhas ley geralmente passavam por florestas e ao longo de montanhas. Como o Mana Material fortalecia as criaturas, lugares assim eram perigosos em algum nível.

Entre uma estrada antiga com reputação de perigosa e uma floresta intocada com monstros ocasionais, qual você acha que é a mais perigosa? A resposta: as duas são perigosas!

Saindo da carruagem, olhei ao redor, certificando-me de ficar escondido na sombra de Ansem. Então me ocorreu que ainda estávamos dentro das fronteiras do império. Isso significava que Yggdra ficava dentro do império? Diziam que uma árvore gigantesca, a Árvore do Mundo, ficava em Yggdra. Onde estaria ela?

Eu procurava pela Árvore do Mundo de um lado para o outro quando ouvi Tino perguntar algo a Eliza. Correndo ao lado da carruagem e respirando com dificuldade, ela disse:

— Umm, Ellie, Yggdra fica dentro de Zebrudia? Ainda não saímos do império…

Em vez de Eliza, ela recebeu uma resposta bem ácida de Lapis.

— Hmph, que pergunta idiota. Yggdra raramente permite a entrada até de outros Espíritos Nobres. Jamais estaria situada no reino dos humanos.

Embora claramente irritada, Tino não disse nada. Como eu estava pensando a mesma coisa, não podia deixá-la no vácuo.

— Não, acho que é uma boa pergunta — eu disse. — Afinal, Yggdra é uma terra de lendas. É perfeitamente normal não saber onde fica.

— Humano fracote — Kris interveio, franzindo a testa — o jeito que você disse isso… O quanto você sabe, exatamente? Senhor?

O quê? Eu não sei de nada. Por isso eu disse que é perfeitamente normal não saber!

— Yggdra não fica no império — Eliza disse em seu tom preguiçoso de sempre. — No entanto, existe um caminho para Yggdra. É uma trilha onde só se pode entrar com um convite ou com um habitante de Yggdra para te guiar.

— O Corredor da Árvore Divina — acrescentou Lapis. — Enfrentando guerra após guerra, a família imperial de Yggdra inventou um novo meio de transporte que utiliza o poder das linhas ley. É uma estrada invisível que pode ser encontrada em qualquer floresta habitada por Espíritos Nobres.

— Utiliza as linhas ley — disse Sitri com admiração. — Isso é certamente o tipo de engenhosidade arcana que eu esperaria de uma terra de conjuradores. No entanto, no império, pesquisas envolvendo o poder das linhas ley são estritamente proibidas por lei.

Um caminho disponível apenas para os escolhidos, é? Parece algo saído de um conto de aventuras.

Florestas eram lugares perigosos dos quais eu nunca guardava boas lembranças, mas esta poderia ser diferente se nossa segurança estivesse garantida.

— Faz tempo que não fazemos um piquenique — eu disse. — Pode ser divertido.

— Como medida de segurança contra intrusos, o Corredor da Árvore Divina está repleto de monstros e bestas míticas de poder inigualável — disse Lapis. — Existem monstros extintos em qualquer outro lugar e bestas sagradas que são extremamente raras no mundo exterior. Lembre-se, a trilha existe sobre as linhas ley. Essas criaturas não são como as que você encontraria em qualquer Cofre do Tesouro comum. É claro, entendo que ficaremos bem se tivermos um guia para nos mostrar o caminho certo.

Ah, que horror. Por que não disse isso antes? Eu não teria sugerido um piquenique.

Os olhos de Liz brilharam ao ouvir o que Lapis dizia. Ela ainda devia estar de mau humor por causa daquele lorde monstro, ou quem quer que fosse, ter escapado.

— Hmmm. Parece divertido, não é, Krai Baby? — ela disse. — Talvez devêssemos ir pelo caminho errado de propósito?

— Bem, não temos o Luke conosco…

— Isso só significa que sobra mais para o resto de nós. Não é verdade, T?

Você tem cada ideia maluca.

Embora houvesse a possibilidade de Luke continuar sendo uma estátua para sempre se não nos apressássemos, Liz não parecia nem um pouco preocupada. Quer dizer, era o Luke, afinal de contas.

— Agora, Vagante — disse Lapis — você já fez os preparativos necessários, não fez?

— Naturalmente — disse Eliza. Olhando para suas longas pernas, ela parecia incomodada com algo.

Estou confiando em você. Embora eu ache que, agora que chegamos até aqui, dar meia-volta não é realmente uma opção.

Liz e Sitri exalavam antecipação. Embora Lucia parecesse calma, como irmão dela, eu percebia que estava animada. Como eu não conseguiria voltar para a capital imperial sozinho, estava preso a elas, custasse o que custasse. Tino provavelmente viria comigo se eu voltasse, mas isso não resolveria o problema do lorde monstro.

Eliza removeu uma bolsa pendurada na cintura e a virou na palma da mão. De lá saíram seis pedras, todas com tons de arco-íris. Longas e estreitas, estavam envoltas em cordões de couro. Eliza entregou uma pedra para cada um dos Grieving Souls e guardou uma para si.

— Estas são Cynosures — disse ela ao me entregar uma. — Deveríamos ter um guia, mas contanto que você tenha sua Cynosure, não se perderá no caminho para Yggdra. Ou foi o que me disseram.

Ohh, então essa pedra vai nos guiar? Pergunto-me como funciona.

Enquanto eu piscava e ouvia distraidamente, Liz ergueu o cordão de couro da dela. A pedra preciosa girou lentamente.

— Isso é tipo uma bússola? — ela perguntou.

— Exato.

Então era isso. Esperta como sempre, Liz. Elas definitivamente não eram magnéticas, embora eu não fosse tão obtuso a ponto de apontar tal detalhe técnico. Eu tinha algumas Relíquias que podiam indicar caminhos através de algum poder misterioso, então não era algo inédito.

— Então essas são as chaves das quais ouvi rumores — disse Lapis, franzindo a testa. — Você não tem nenhuma para nós?

— Estas apenas mostram o caminho — respondeu Eliza. — Se vocês nos seguirem, não se perderão.

Eu estava ficando com a impressão de que a estrada para Yggdra era mais simples do que eu pensava.

— Elas teriam sido concedidas a nós se não tivéssemos concordado em cooperar com aquele capitão dos cavaleiros — murmurou um membro da Starlight, encarando diretamente uma das Cynosures.

— Mmm, não tenho certeza se algum de vocês seria capaz de influenciar aquela rainha dos Espíritos Nobres — eu disse. — Não acha?

— O-O que você disse?!

O membro da Starlight pareceu indignado. Digo, a sorte foi metade da razão pela qual Eliza teve sucesso em primeiro lugar. Com o orgulho que têm, um Espírito Nobre jamais usaria um plano que envolvesse alegar que um humano era seu parceiro. Eliza só conseguiu porque era do tipo que agia conforme suas próprias regras.

Pensando bem, não é meio rude que a rainha tenha sido obliterada só porque a Eliza disse que um humano era o parceiro dela?

Virei-me para Eliza, esperando que ela me apoiasse, mas ela apenas parecia perplexa. Olhando para eles, percebi que, embora os Espíritos Nobres devessem ser um grupo unido, eu não via nada disso entre Eliza e a Starlight. Não parecia que estavam em maus termos nem nada, mas eu não queria criar intrigas desnecessárias.

Com um pequeno suspiro, estendi a bússola que acabara de receber.

— Bem, não faz sentido brigar por isso. Aqui, eu te dou a minha.

Fiz isso de boa-fé, mas Kris pareceu completamente atônita. Seus companheiros atrás dela me olharam com expressões tensas. Dada a beleza deles, havia uma certa pressão nos olhares assustadores que me lançavam. Mas eu estava acostumado a ganhar a ira de tudo sob o sol. Se serve de consolo, suas figuras esbeltas diminuíam o impacto.

— Você é realmente bom em chutar as pessoas quando elas estão por baixo. Senhor.

— Não entenda errado, Mil Truques! — disparou Lapis. — Não nos humilhe! Não queremos sua piedade. Essas gemas provam que você conquistou o reconhecimento da família imperial. Não teria sentido dar uma para nós!

Eu não estava fazendo isso por piedade nem nada. É que eu provavelmente nunca usaria essa bússola de novo, e tínhamos um total de seis. Mas se queriam dizer não, que assim fosse. Colocando a pedra no bolso, bati as mãos para tirar o pó.

— Se mudarem de ideia, é só falar.

— Ugh. Vagante, onde está esse guia que você mencionou?!

— Na floresta.

— Então vamos nos encontrar com ele! Vamos recuperar o Espada Proteana!

A voz fria de Lapis me deu um calafrio na espinha. Elas estavam realmente empolgadas para isso. Foi quando senti que provavelmente não teria outra chance de mencionar o assunto. Estalei os dedos e fiz o Mimicky cuspir uma Relíquia.

— É verdade, falando em Cynosures, eu tenho isto aqui!

— Mmm. Isso é uma bússola de placa? Senhor?

A Relíquia que eu retirei era uma bússola de placa que cabia na palma da minha mão. Cada parte dela, da agulha à placa, era feita de pedra negra. Um estranho padrão vermelho estava esculpido na agulha. Às vezes, o senso de direção de uma pessoa não ajudava muito a navegar em Cofres do Tesouro de alto nível. Relíquias de bússola, que tinham o potencial de mostrar o caminho certo dentro dos cofres, tinham uma demanda altíssima.

Liz olhou feio para a Relíquia que eu orgulhosamente exibi.

— O quê?! Krai Baby, você ainda tem isso?

Sitri parecia desconfortável, e Lucia massageava a cabeça como se estivesse com dor. Provavelmente era melhor que eu também não pudesse ver o rosto de Ansem.

Kris olhou para o objeto com os olhos arregalados.

— Uma Relíquia de bússola — disse ela com uma intensidade desnecessária. — É uma daquelas bússolas famosas que sempre mostram para onde ir?

Eu sabia que podia contar com a nobre “não-fracote” para morder a isca.

O termo “Relíquia de bússola” na verdade abrangia algumas variedades diferentes. Havia as simples que mostravam os pontos cardeais, as extremamente úteis que indicavam amplamente o caminho certo a seguir, e as que apontavam para itens ou lugares específicos, cujo valor mudava radicalmente dependendo do que indicavam. Mas o que eu tinha era única em seu tipo.

Com a agulha ainda girando, coloquei a bússola na mão de Kris e sorri para ela.

— Heh, não exatamente. Esta faz o oposto.

— O quê? O… o oposto?

— Esta é a Bússola dos Tolos. O infortúnio aguarda em qualquer direção que ela aponte.

Existiam várias Relíquias de bússola, mas pouquíssimas mostravam qual caminho era perigoso. Com esse tipo de tecnologia disponível, a maioria das pessoas não faria algo assim, mas sim um item que apontasse para a segurança. Portanto, indicar a direção de monstros, fantasmas e outros perigos tornava esta Relíquia única.

— P-Para que você vai usar isso? Senhor? — Kris perguntou com uma voz aguda.

Tino empalideceu e olhou para o outro lado.

— Nada demais. Eu só estava com ela — respondi.

Eu só queria exibir uma Relíquia rara. Devo acrescentar que a razão pela qual meus amigos amantes de batalhas olhavam para ela com desgosto era que ela tinha causado todo tipo de inferno para nós quando a testei pela primeira vez.

— Hrmm. E-Eu consigo ver uma utilidade, dependendo de como você usa. Senhor. É só evitar para onde ela está apontando.

Ela estava realmente tentando me dar apoio nessa.

No momento seguinte, a agulha giratória parou abruptamente. Ela apontava na direção em que estávamos seguindo o tempo todo.

— E-Ei. Senhor. Isso significa que…

— Bem, não vamos nos preocupar demais com isso. Você não pode ser um caçador se sempre fugir do perigo.

— Ah…

Peguei a Relíquia de bússola de volta. Para ser sincero, havia uma razão para eu não levar isso comigo sempre que saía. Veja bem, não importava o que eu fizesse, ela sempre apontava na direção que eu queria ir. Além disso, esta Relíquia apenas indicava direções, não distâncias. “Infortúnio” ainda poderia se referir a uma gama de magnitudes e qualidades, então nada seria feito se eu sempre obedecesse a esta bússola. Caramba, eu estava sempre sem sorte, com bússola especial ou não.

Kai, guarde essa coisa sinistra e continue andando — disse Eliza inquieta, verificando o chão constantemente. — Até chegarmos ao ponto de encontro, estaremos em território perigoso.

Entendo. Então esse negócio de Corredor da Árvore Divina é seguro com um guia, mas não estaremos seguros até chegarmos lá. Entendido, entendido.

De algum lugar na floresta, ouvi um grito bizarro que lembrava vagamente o de uma criança. Eu não precisava adivinhar como isso terminaria.

Que chatice era essa. Soltando um suspiro de resignação, eu disse:

— Ainda nada que valha o meu tempo. Kris, Lapis, cuidem disso. Oh, e evitem feitiços de relâmpago.

Embora fizesse tempo desde a última vez que trabalhei com elas, os poderes da Starlight estavam muito além do que eu recordava. A força delas sempre fora um fato conhecido, mas, ao mesmo tempo, elas nunca davam tudo de si quando lutavam ao lado de humanos. Desta vez, porém, estavam se esforçando ao máximo.

Não que não tivessem aptidões e falhas, mas quando se tratava de poder ofensivo, eu ainda diria que eram uma das melhores equipes dos Primeiros Passos. Nesse aspecto, elas superavam até a Obsidian Cross, que as vencia em termos de nível médio. Trazer o poder de fogo era o que uma equipe de magi fazia de melhor.

Lapis e sua equipe repeliram onda após onda de monstros com absoluta facilidade. Lâminas de vento e água voavam entre as árvores, atingindo monstros com precisão enquanto deixavam a floresta inalterada. Achei que Lucia poderia aprender uma coisa ou duas com elas, já que focava apenas no poder de fogo e na área de efeito.

— Vocês estão realmente dando tudo de si — eu disse.

— Não ficaremos em dívida com você — Lapis respondeu rabugenta.

Não acho que elas estejam em seu estado calmo e controlado habitual.

Recolhendo materiais deixados para trás, Sitri aproximou-se e cutucou meu ombro.

— Parece que elas não estão nada satisfeitas por terem sido excluídas do incidente da Pedra Espiritual — disse ela com alegria. — A culpa é delas por nunca tentarem cair nas suas graças.

O que essa garota está falando? Eu nunca as excluí.

Como o mais fraco, eu geralmente ficava na retaguarda durante as expedições. Mesmo com Ansem na vanguarda, nenhuma quantidade de Anéis de Proteção seria suficiente para me impedir de me machucar. Sendo esse o caso, eu naturalmente ia para trás, onde os magi estavam. Deixando de lado as ideias de Sitri, acho que Lapis estava oferecendo seu apoio aqui para pagar a dívida (?) que tinha comigo.

— Vá para o chão, humano!

— Se você é um Nível 8, não fique apenas perambulando, humano!

— Você está na linha de fogo, humano!

Em nosso vasto mundo, eu tinha quase certeza de ser o único humano defendido por um círculo de Espíritos Nobres. Elas eram boca-suja e disparavam feitiços sem parar. Fora Lapis e Kris, não acho que os outros membros tivessem falado comigo assim desde a primeira vez que nos conhecemos.

— Honestamente, o que diabos vocês estão fazendo, tentando bajulá-lo?! — Kris gritou para os membros de sua equipe, agitando os braços no ar. — Vocês não vão chegar a lugar nenhum sendo tão óbvias! Parem com isso! Não aguento assistir nem mais um segundo disso!

Bajulando? É isso mesmo que está acontecendo? Estão tentando me bajular? Além disso, hum, eu não sei o nome de nenhuma dessas pessoas.

— Ainda assim — disse Kris entre respirações pesadas — nada de bom acontece quando estou perto de você! Senhor! Podemos estar em uma floresta, mas este é um número absurdo de monstros! Você não está fazendo essa merda de propósito, está?! Senhor?!

— Você acha? Parece bem normal para mim.

— Você é que já está anestesiado!

O rosto de Kris estava completamente vermelho, provavelmente porque ela estava lançando feitiços enquanto caminhava. A magia consumia tanto mana quanto resistência mental. Eu via olhares semelhantes de exaustão em Lapis e nos outros Espíritos Nobres.

— Os monstros gostam bastante de você, Líder — disse Lucia com um suspiro. Ela estivera conjurando tanto quanto as outras, mas não mostrava sinal de exaustão.

Se eles gostam de mim, então não deveriam, sei lá, não me atacar? Eles sempre vêm direto em minha direção…

Parada na frente com Liz, Eliza virou-se para nós. Com seus sensores de monstros disparando constantemente, a exaustão estava estampada em seu rosto.

— Vamos fazer… uma pequena pausa. Todo mundo está usando magia demais.

— Você está levando isso muito a sério, Ellie — comentou Liz. — Escute, se você mantiver essa tensão enquanto viaja com o Krai Baby, vai se desgastar. Não adianta ficar vigiando tão longe se vamos ser atacados de qualquer jeito!

Kai… — Eliza me olhou com aqueles seus olhos sonolentos, mas eu não fazia ideia do que deveria dizer.

Sentado em cima do Mimicky, decidi convocar uma breve pausa. Olhando para as duas equipes, havia um contraste nítido entre nós e a Starlight. Enquanto elas estavam sentadas no chão, todos nós estávamos bem dispostos.

Liz levara Tino para fazer o reconhecimento adiante, enquanto Sitri e Lucia separavam os materiais de monstros que haviam coletado. Por alguma razão, éramos atacados com frequência, o que significava que, se as pausas não fossem usadas para organizar os espólios, uma boa parte seria deixada para trás.

Kai, vou seguir com elas. Fique de olho aqui — disse Eliza antes de partir na direção em que Liz e Tino haviam desaparecido.

Não sei o que você quer que eu faça. Minhas habilidades de detecção são negativas.

Por outro lado, tínhamos conosco vários Espíritos Nobres, que eram naturalmente bons com magia e silvicultura. Todas pareciam estar em alerta, então não vi nada com que me preocupar. Soltando um bocejo, vi-me olhando na direção que a Cynosure indicava, quando ouvi uma voz repentina vinda de trás.

— H-Humano. Você estaria disposto a me emprestar isso?

A voz trêmula vinha de uma garota encapuzada. Eu não sabia o nome dela, nem ela parecia familiar, mas imaginei que devia fazer parte da Starlight. Seu olhar nervoso estava direcionado para a Cynosure que girava lentamente.

Viu, eu sabia que vocês iam querer emprestado. Honestamente, Espíritos Nobres são orgulhosos demais.

— Claro que estou disposto a emprestar. Provavelmente será muito mais útil para você do que para mim.

Atirei a Cynosure, e a garota desconhecida a pegou freneticamente, depois fez uma reverência para mim. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se virou e correu de volta pelo caminho de onde viemos.

— Cara, eu entendo que vocês conhecem o caminho da floresta, mas sair por conta própria ainda é perigoso…

O que ela está fazendo voltando para trás? Puxa, esses Espíritos Nobres amam a liberdade tanto quanto os Grieving Souls.

Olhando para a estrada, um pouco exasperado, Kris, encarregada de garantir que todos estivéssemos bem, aproximou-se de mim.

— Você realmente relaxa não importa o que esteja acontecendo. Senhor.

— Bem, estou acostumado com esse tipo de coisa. Mais importante, porém, uma das suas integrantes acabou de sair correndo naquela direção. Separar-se do grupo assim não deve ser seguro.

Não era sempre que eu sentia necessidade de apontar os erros de outra pessoa. Ao ouvir isso, Kris piscou algumas vezes antes de ir verificar sua equipe.

— Hmm? Está todo mundo aqui. Do que você está falando? Senhor?

Hã?

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Tendo completado sua missão com sucesso, Uno retornou para Adler nas profundezas da floresta. A jovem entregou a Adler uma pedra preciosa que brilhava misteriosamente, a qual ela ergueu na altura dos olhos. Um suspiro de admiração escapou de seus lábios. A pedra estranha envolta em cordões de couro, a Cynosure, apontava para uma direção e não se movia dali.

— Bom trabalho, Uno. Então esta é a Cynosure de que o Mil Truques estava falando…

— E-Eu não acredito — protestou Uno, pálida como um fantasma. — Como um caçador famoso pôde falhar em perceber que seu grupo ganhou subitamente uma pessoa?

Adler respondeu com um de ombros. Ela sabia que precisariam de uma dessas chaves, ou o que quer que fossem, para fazer o que pretendiam. Se realmente houvesse um lugar infestado de bestas sagradas e criaturas primordiais, isso ajudaria em seus objetivos.

Vigiando o Mil Truques, eles conseguiram segui-lo. No entanto, isso estava se provando inútil, já que os caçadores estavam eliminando todos os monstros antes que a Sombra Partida pudesse alcançá-los. Em outras palavras, precisavam descobrir uma maneira de passar à frente deles. Tudo isso fazia sentido. O que não fazia sentido era o plano idiota que haviam empregado.

Adler lambeu os lábios.

— Mas funcionou até agora, não funcionou? — ela provocou Uno. — Talvez pessoas inteligentes sejam mais suscetíveis a truques bobos do que você imagina.

— D-Diz a pessoa que se recusou a fazer ela mesma!

— Uno, só você consegue fazer uma fuga limpa. A Submersão Dimensional do seu espírito sagrado é perfeita para escapar.

— Isso não serve de nada se pegarem ela antes que ela submerja — disse Quint com um bufo. Ele estava sentado por perto, de pernas cruzadas. — Aquele não é um caçador normal, é um Nível 8.

Uno jogou o capuz para trás, revelando um rosto contraído e carrancudo para Quint.

A designação de Nível 8 era significativa. Como uma comandante de monstros, Uno se mantinha em forma, mas não era apta para o combate. Enquanto isso, um certo grau de competência em batalha era exigido para qualquer caçador alcançar um nível alto. Embora não quisesse admitir, Quint estava certo. Sem monstros de combate, ela não seria páreo para o Mil Truques. Bem, mesmo se tivesse monstros de combate, Uno provavelmente não conseguiria vencer sozinha.

Embora estivessem enfrentando um colega Controlador, este era de um calibre diferente deles. Ele montava um baú de tesouro que nunca tinham visto e não mostrava interesse em tentar subjugar nenhum dos monstros que o atacavam. Se alguém da Sombra Partida estivesse na posição dele, ficaria mais do que feliz em incorporar aqueles monstros em seus exércitos. Não, para além disso, aquele homem estava envolto em enigmas.

Adler franziu a testa e olhou atentamente para Uno.

— Acho que seria pedir demais se eu dissesse que você deveria ter levado a Relíquia também. Embora eu adorasse tê-la.

— Coooomo eu ia levar aquilo?! Só de surrupiar aquela gema já foi um milagre! Além disso, se aquela coisa mostra o caminho para o infortúnio, imagino que nos direcionaria para longe dos monstros!

O homem havia removido vários itens misteriosos daquele baú de tesouro. Ele estava tão imperturbável com os monstros que se aproximavam que nem se deu ao trabalho de se juntar à luta. Não apenas isso, ele exibira uma corrente conectando 106 algemas. Ele pretendia colocar aquilo no astrovore? Era uma ideia absurda. Só porque era chamado de centopeia, não significava que tinha realmente cem pernas, e aquela corrente era pequena demais para o astrovore, para começar.

No entanto, aquele homem não parecia nem um pouco estar brincando. Era perturbador de uma maneira diferente de Adler, que sempre dava ordens a Uno e Quint com uma confiança inabalável.

A Sombra Partida ainda não havia mostrado sua verdadeira força. Embora tivessem certeza de possuir a vantagem numérica, nunca se sentiram tão incertos antes de uma batalha.

— Além disso, se você estiver correta, Lady Adler, então o inimigo já percebeu que estava sendo vigiado pelo espelho manifesto. Ainda estou lutando para aceitar que a missão realmente correu tão bem.

Capaz de ver a grandes distâncias, o espelho manifesto era um monstro extraordinariamente raro, conhecido por apenas um punhado de pessoas. Deveria ser impossível saber se você estava sendo observado por ele, mas aquele homem anteriormente olhara diretamente nos olhos deles. Embora fosse difícil de acreditar, se aquele homem realmente os tivesse notado, então por que estava disposto a ajudar seus inimigos entregando uma Cynosure?

Percebendo como Uno estava ficando inquieta quando ninguém sugeria nada, os lábios de Adler se curvaram em um sorriso e ela soltou uma gargalhada.

— Veja bem, eu tive uma ideia, Uno. Acho que este é o Mil Truques agindo com complacência.

— Hã? Hããã?!

Enquanto acariciava a cabeça de Yuden, a centopeia astrovorosa, seu familiar favorito, Adler pressionou um dedo contra seus lábios negros. Seus olhos índigo eram escuros como o próprio abismo, ameaçando puxá-lo para suas profundezas.

— O Mil Truques está nos deixando seguir em frente. Concordo com você, Uno. Não há como ele ter falhado em perceber o que você estava tentando. Só um idiota total não notaria que seu grupo subitamente ficou maior. Sem mencionar que nunca ouvi falar de um caçador que não soubesse os nomes e rostos dos membros de sua própria equipe.

— P-Perdoe-me, Lady Adler, mas isso significa que você me enviou lá quando na verdade não achava que iria…

— Primeiro, você nem é um Espírito Nobre, e segundo, vi como você foi antinatural. Aquele homem é um ator habilidoso.

— E-Este é o problema com os humanos… — Com o rosto corado, Uno estava fervendo. Será que Adler percebia o quão envergonhada ela ficara tentando encenar um papel para o qual nem era adequada?

Adler levantou-se e, ao fazer isso, um vento frio soprou pelas árvores. Uno sentiu um calafrio na espinha. A fonte da brisa era a própria Adler. Seus lábios sorriam, mas ela não demonstrava alegria alguma.

— Adler, você está falando sério sobre isso. — De olhos arregalados, Quint olhou para ela com entusiasmo.

— É claro que estou. Se fomos autorizados a seguir adiante, isso deve significar que uma batalha foi suficiente para eles decidirem que estamos vários níveis abaixo deles.

Seus olhos estavam frios e sua voz firme. Era preciso manter a compostura calma ao subjugar monstros, mas Uno sentia que Adler poderia explodir a qualquer momento. Seus punhos estavam cerrados tão forte que os nós dos dedos perderam a cor. A equipe de Adler, a Sombra Partida, era imbatível. Não eram particularmente famosos, mas isso era porque aniquilavam completamente seus oponentes. No entanto, até um idiota deveria ser capaz de entender o poder deles apenas olhando para a horda de Adler.

Apesar das humilhações, isso estaria bem se o oponente fosse um caçador. Exceto que o incrivelmente improvável aconteceu: o oponente era um colega Controlador. Se um lorde de monstros vira suas forças e ainda assim os julgou inferiores, então nem Uno podia deixar de ficar irritada.

Após um momento olhando silenciosamente para o nada e segurando suas emoções, Adler relaxou os punhos e lambeu os lábios.

— Aceitaremos sua generosidade, Mil Truques. Tenho interesse naquelas bestas que espreitam em qualquer estrada que os Espíritos Nobres fizeram. Você chamou de Corredor da Árvore Divina? Nunca ouvi falar…

— É, mas Adler, e se for uma armadilha? Talvez aquele homem não consiga domar aqueles monstros malucos ou o que quer que seja, então está usando eles como armadilha para nós.

Ele tem razão, pensou Uno. Isso é certamente possível.

Ouvindo essa opinião incomumente construtiva de Quint, que geralmente não se importava muito em pensar, ela se viu observando Adler de perto. Embora pudessem de fato controlar monstros, isso não significava que era um processo simples. Trazer um monstro sob o comando de alguém geralmente exigia derrotar tal criatura. O fracasso significava a morte.

No entanto, Adler respondeu com completa certeza.

— Essa é uma possibilidade, Quint. Se domarmos um monstro que aquele homem não conseguiu, isso nos tornaria superiores. Também aumentaríamos nosso poder, o que significaria matar dois coelhos com uma cajadada só.

— Bem, acho que sim?

Eles realmente adotaram uma abordagem simples. Nem Adler nem Quint estavam considerando o que poderia acontecer caso falhassem. Se estivessem lidando com um humano comum, a vitória provavelmente estaria ao seu alcance. Mas se estivessem enfrentando outro Controlador, então a força de seus monstros seria um fator chave. Mesmo um Controlador habilidoso poderia perder se tivesse monstros fracos.

O inquietante era que aquele homem definitivamente ainda não mostrara sequer um décimo de seu poder. O Mil Truques estivera exibindo alegremente uma bússola que apontava o caminho para o infortúnio. O que isso significava era que ele se tornara forte ao aceitar quaisquer problemas que a vida lançasse em seu caminho. Os monstros que lhe davam sua confiança muito provavelmente foram domados após superar batalhas cruéis.

No entanto, a sorte já fora lançada. Agora que esse fogo nela fora aceso, Adler não pararia mesmo se estivesse enfrentando um oponente superior. Isso também era, provavelmente, um traço necessário para qualquer lorde monstro.

— Entraremos na estrada primeiro — disse Adler. — Antes que aquele homem consiga, daremos uma olhada naqueles monstros soltos pelos Espíritos Nobres.

Não havia como discutir com ela. Assim como o Mil Truques fazia, Adler possuía a habilidade de fazer as pessoas fazerem o que ela dizia. A Sombra Partida era o exército de Adler, a Avatar da Criação. Se ela tomasse uma decisão, seus subordinados não tinham escolha a não ser fazer o melhor para vê-la cumprida. No pior dos cenários, Uno poderia usar seus monstros para escapar.

Após um breve suspiro, ela estampou um sorriso e levantou-se.

— Bem, então não vamos perder tempo! Acho que deveríamos montar um obstáculo para segurá-los, e então avançar enquanto estão ocupados. Quint, esta é a sua graaande chance de compensar seu fracasso do outro dia!

Quint soltou um suspiro de resignação.

— Quero perguntar por que sempre sou eu que tenho que fazer coisas assim. Mas depois de ser nocauteado com um só golpe, meu orgulho está em jogo aqui.

A floresta sussurrou como se concordasse com ele. Zork, o ciclope negro espadachim, sentou-se com as pernas cruzadas e olhou para Quint com um olho aguçado. De todos os exércitos de Adler, o de Quint era o maior. Era tão grande que era impossível viajar com todos eles na maioria das circunstâncias. De fato, quando encontraram os Grieving Souls nas planícies, apenas uma pequena fração do exército estava com eles. Números são poder. Independentemente da qualidade, a habilidade de comandar tão vastas hordas de monstros fazia dele um general digno.

— Quint, faça tudo o que puder para impedi-los de avançar — disse Adler. — Como você vai apenas confiar nos números, podemos compensar as perdas mais tarde.

— Contra um colega Controlador, eu vou estar apenas atrasando eles, hein? Hmmm. Não vou usar o Zork aqui.

Quint levantou-se e assobiou com dois dedos na boca. O som agudo ecoou por toda a floresta. Ao comandar uma força grande, era crucial ser capaz de transmitir ordens a cada unidade. Quint tinha a habilidade incomum de dar comandos específicos via assobio, algo que nem Uno nem Adler conseguiam fazer.

O chão tremeu e, ao longe, houve rugidos, rugidos vigorosos de guerreiros prontos para a batalha.

Após um pequeno suspiro, Quint virou-se para Adler e disse:

— Ordenei a todas as unidades na floresta, além das que estão aqui conosco, que se dividam em pequenos esquadrões e ataquem esporadicamente. Disse a eles para lutarem até a morte, mesmo que enfrentem magi. Mas, você sabe, você entende isso, certo? Estou jogando fora uma força que venho construindo há muito tempo. Preciso de resultados que façam isso valer a pena.

Quint lançou a Adler um olhar avassalador, ao qual ela apenas deu de ombros.

— Com certeza, General. Não vai demorar muito para eu lhe dar um exército melhor do que nunca.

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O infortúnio nunca é algo razoável. Incidentes sempre surgem do nada. Por exemplo: encontrar subitamente carcaças de dragão na beira da estrada, tornar-se amigo de pessoas que por acaso são criminosos, e deparar-se com um Cofre do Tesouro lendário enquanto voa pelo céu. Além disso, houve a vez em que um Espírito Nobre, que não deveria estar lá em primeiro lugar, pediu-me a gema que eu acabara de receber de Eliza. E eu a entreguei.

Avançamos pela floresta o mais rápido que pudemos. Mover-se por um terreno acidentado em alta velocidade significava que as carruagens, já instáveis, tornaram-se praticamente impossíveis de usar. Eu não teria sido capaz de suportar se não fosse pela Férias Perfeitas.

Sentei-me no topo da carruagem e agi como se estivesse no comando. O clima não poderia estar pior. À exceção de Kris, todos na Starlight me lançavam olhares mais frios do que qualquer outro. Era bem razoável que estivessem com raiva; do ponto de vista deles, eu simplesmente entregara uma gema dos Espíritos Nobres para alguém que aparecera do nada. Achei que mostrar-me fora da carruagem os acalmaria um pouco, mas não estava surtindo muito efeito.

— Você tem um verdadeiro talento para fazer merdas insanas sem aviso. Senhor.

— B-Beeem, aquilo era definitivamente um elemental. Dirigiu-se a mim como “humano” e não pode haver ninguém nesta floresta além de nós.

Eliza entregara as Cynosures lá na entrada da floresta, então como alguém além de nós saberia sobre elas, para começar? Ou talvez fosse uma interferência de alguém de Yggdra? Eu ouvira dizer que anos vivendo nas florestas tornaram muitos Espíritos Nobres nem um pouco fãs de humanos. Poderíamos realmente descartar a possibilidade de que isso fosse uma conspiração de uma pequena parcela deles?

Mais importante ainda, pareço terrivelmente suscetível a ser arrastado para conspirações.

— Independentemente disso, as coisas ficarão ruins se tentarem algo. Vamos nos apressar — disse Eliza, correndo ao lado de Kris. Ela não parecia particularmente zangada, embora eu tivesse pisado na bola e perdido o item que ela se esforçara para obter. Sentia que ela estava meio conformada a esta altura. Minha falta de jeito fora exibida plenamente logo na primeira vez que nos conhecemos, então tenho certeza de que ela estava acostumada.

Estou sempre criando problemas para o resto do grupo. Preciso tirar um tempo para pensar sobre isso.

Nossa causadora de problemas desaparecera pela estrada de onde viemos. Mesmo supondo que ela quisesse nos prejudicar, ainda seria fácil para nós chegarmos a Yggdra antes dela. Também tínhamos conosco Eliza, que já estivera em contato com a terra natal dos Espíritos Nobres.

Com Ansem assumindo a liderança, os pés trovejando enquanto abria caminho, encontramos pouquíssimos monstros após nossa pausa. Embora não fosse tão rápido quanto Liz, sua força física estava muito além de qualquer outra pessoa na equipe. Quando ele corria, o chão tremia e a poeira subia. Em áreas arborizadas, ele podia derrubar árvores enquanto avançava. No entanto, ele geralmente evitava fazer isso porque era algo intenso e estranho de se contemplar.

— Cara. O Ansem é realmente humano? Senhor?

— Ele é capaz de mais. Ele ainda está tentando reduzir o dano que deixa para trás.

— O quê?

Ninguém conseguia chegar perto de Ansem quando ele realmente se tornava violento.

Sentada no ombro de seu irmão para não ser pisoteada acidentalmente, Liz vigiava nossa frente. De repente, ela se virou e gritou:

— Krai Baby, algo está vindo!

— Hã?

Algo está vindo? O que é?

Embora Ansem fosse gentil e leal, ele parecia um monstro à primeira vista agora que crescera tanto. A única razão pela qual não causava pânico na capital imperial era que crescera gradualmente à medida que acumulava mais feitos, o que significava que todos já sabiam sobre ele. Embora isso não impedisse os recém-chegados de surtarem.

O que poderia possivelmente se aproximar de nós enquanto Ansem avançava? Fantasmas não tinham senso de autopreservação, então poderia ter sido um deles, mas havia algum Cofre do Tesouro por perto?

Não, talvez seja apenas alguém aqui para nos cumprimentar? Tenho quase certeza de que a Eliza já falou sobre o Ansem para eles.

— Ansem, pare — chamei. — Eles podem estar aqui para nos receber.

— Mmm.

Ao ouvir meu pedido repentino, Ansem abaixou-se e freou com uma agilidade que não parecia possível com sua estrutura grande. A parada súbita deixou pegadas massivas em seu rastro. Ele colidiu com uma árvore, que caiu com um estalo alto. Como sempre, ele vivia em uma escala imensa.

Enquanto eu assentia com admiração, as árvores balançaram e de lá saiu o nosso “comitê de boas-vindas”. Era uma criatura estranha vestida com uma armadura azul-escura sem juntas e uma espada na mão. Caminhava sobre duas pernas e tinha uma cabeça como um capacete integral, do qual dois grandes olhos saltavam. Além do mais, eram olhos compostos.

— Uma formiga de batalha… — sussurrou Sitri, franzindo a testa.

Agora que ela dissera isso, eu conseguia ver a semelhança. Nesse caso, o que eu pensava ser armadura devia ser sua pele. Parados, Ansem e a formiga de batalha encararam-se. Por trás, ainda mais formigas apareceram. Tinham olhos compostos e uma pele tanto resistente quanto lisa. Suas espadas eram todas semelhantes, dando-lhes um visual uniforme. Não se pareciam com nada que tivéssemos encontrado na floresta. Seu porte sugeria que eram espertas e prontas para lutar.

Hmm, podemos ter certeza de que são monstros? Dizem que os Espíritos Nobres das florestas fazem amizade com os animais. Elas podem ter um visual incomum, mas talvez sejam guardiãs de Yggdra?

Justo quando esse pensamento passou pela minha mente, um dos guerreiros formiga olhou para mim. Mesmo que Ansem oferecesse um alvo óbvio, e Lucia, Eliza e outros estivessem entre nós, a formiga ainda me notou. Tomei isso como um sinal de que estavam aqui para nos cumprimentar.

Após respirar fundo, sorri e chamei por elas de cima da carruagem.

— Que bom ver vocês. Estávamos esperando…

As formigas não disseram nada.

Os olhos de Kris se arregalaram.

— Hã? Como assim, “estávamos esperando” por elas? Senhor?

As formigas de batalha olharam para mim com seus olhos compostos cintilantes. No momento em que eu estava prestes a pular da carruagem, algo voou da vegetação atrás delas. Não consegui nem reagir, apenas observei com terror. Liz apareceu do nada diante de mim, segurando uma flecha na mão.

Então, se eu estiver certo, aquilo foi disparado contra mim.

— Podemos atacar agora? — ela perguntou com a voz trêmula. — Parece que há um monte delas. É isso que você quis dizer quando disse que elas estão aqui para nos cumprimentar?

Hm? Elas são na verdade apenas monstros?

Um ar estranho soprou enquanto mais formigas apareciam não apenas à nossa frente, mas de todos os lados. Parecíamos estar cercados. Uma das integrantes da Starlight soltou um pequeno grito. Eu não conseguia julgar o número exato com a visibilidade ruim, mas havia pelo menos dezenas delas. Parecia que eram o tipo de monstros que se moviam em bandos. Bem, eram formigas, afinal de contas. Formigas muito ousadas, se estavam dispostas a entrar no alcance de Ansem.

— C-Com certeza — eu disse. — Já que você tem a oportunidade, Ansem, pode ir com tudo.

O círculo de monstros apertava-se lentamente. Pigarreei e sentei-me de volta na carruagem.

— Talvez o Ansem esteja com um bocado de estresse acumulado? — sugeriu Lucia.

O turbilhão de Ansem era brutal o suficiente para que até a prodígio magi parecesse desconfortável com isso. Ele chutava impiedosamente as formigas de batalha para fora do caminho enquanto avançava pelo enxame. Tanto árvores quanto formigas eram lançadas pelo ar, apenas para atingir o chão com estrondos trovejantes. Qualquer um que conhecesse aquele jovem bondoso provavelmente nunca adivinharia que era ele agora (Ansem ainda era bondoso agora, note bem).

— Eu assumiria que ele apenas quer usar todos os recursos, já que faz tanto tempo que não sai em uma aventura com o Krai — disse Sitri enquanto guiava a carruagem.

Isso não respondia realmente à pergunta de Lucia sobre o estresse.

— Lizzy, há tantas delas! — gritou Tino enquanto chutava uma formiga que evitara os ataques de Ansem. — Não deveria haver formigas de batalha em uma floresta como esta!

Ela soava sombria e movia-se com intensidade rápida, mas eu percebia por sua expressão que ela não estava nem perto de seu limite. Embora Tino sempre fosse uma aprendiz rápida, suas melhorias recentes vinham ocorrendo em um ritmo notável. Como seu caçador veterano, sentia-me ao mesmo tempo satisfeito e um pouco deixado para trás. Ela até aprendera a controlar o tapete antes de mim…

Liz estava limpando o que quer que Ansem e Tino deixassem passar quando se virou abruptamente para mim.

— Isso só pode significar uma coisa! Certo, Krai Baby?

— É, uh-huh.

Não havia nada incomum em monstros — mesmo os poderosos — aparecendo onde não deveriam. Além disso, contos de campeões eram todos sobre lutar contra ondas de monstros.

Kris mantinha uma produção consistente de feitiços. Do jeito que estávamos cercados, ela podia direcionar um feitiço para qualquer lugar e ainda atingir algum monstro.

— B-Bem, isso não é tão ruim quanto dragões gélidos aparecendo em uma cidade. Senhor — disse ela enquanto ofegava e limpava a testa.

Sim, exatamente!

Uma vez que você tem uma experiência ruim, tudo o que se segue será comparado à primeira. Nem eu estava constantemente atualizando meu ranking de incidentes insanos.

Eu estivera pensando sobre isso desde a luta com aquela pessoa lorde monstro, mas tínhamos realmente um poder de fogo sério do nosso lado aqui. Os Grieving Souls já eram uma equipe que se destacava no poder ofensivo. Quando combinados com uma equipe que conseguia lançar feitiços com a mesma facilidade com que respirava, tornávamo-nos uma força de destruição imensa.

Embora se aproximassem de todas as direções, as formigas eram mantidas à distância. Claro, estavam armadas, mas uma espada nunca poderia se igualar ao alcance de um feitiço. Enquanto desencadeavam uma série de golpes devastadores, as magi da Starlight eram exatamente como muitos humanos as imaginavam — belas, mas frias e calculistas.

— Isso é… isso é uma guerra?

Após lançar uma lâmina de ar que retalhou cinco formigas de batalha, Lapis me encarou por um breve segundo.

— Hmph. Não apenas monstros como estes estão aparecendo em uma floresta de Espíritos Nobres, mas parece que estão tentando retardar nosso avanço. Você não saberia de nada sobre isso, saberia?

Desnecessário dizer que eu não sabia de nada. Nem fora minha a decisão de entrar nesta floresta, para começar. Justo quando abri a boca para oferecer essas objeções, Eliza cortou com uma voz conciliadora.

— Temos preocupações maiores no momento. Precisamos nos apressar para o ponto de encontro.

— Isso mesmo, Eliza — eu disse. — Essa conversa pode esperar até chegarmos a Yggdra. Podemos ter um bom bate-papo noturno sobre isso.

Não tenho certeza se devo ficar feliz por ela estar do meu lado ou triste por ter perdido minha chance de me defender. Eh, está tudo bem. Elas podem esquecer isso até o anoitecer. Vamos mudar de assunto.

— Cara, mal posso acreditar que temos todos esses monstros empunhando espadas, enquanto nosso maníaco por espadas residente é uma estátua.

— Ele estava dizendo que queria testar a Retalhadora de Mil Homens — disse Lucia enquanto usava um feitiço de água para parar uma saraivada de flechas direcionadas a mim.

As coisas realmente não estavam correndo a favor dele desta vez.

— Bem, com o Ansem se soltando, ele não seria capaz de entrar na briga de qualquer maneira — acrescentou Lucia após ouvir um grito calamitoso de Ansem.

Com a maior parte da atenção do enxame voltada para ele, ele sacudiu o corpo e rugiu. Apenas com a força do seu tremor, dispersou as formigas que se agarravam a ele. Em seguida, lançou-as ao ar com seus braços e pernas gigantescos. Quando estava realmente em fúria, ele não prestava muita atenção à precisão. Lucia era a única pessoa que conseguia encaixar um ataque em alguém sendo combatido por Ansem.

— De fato, parece que o objetivo delas é nos atrasar. São unidades de sacrifício — disse Sitri do assento do cocheiro com um bater de palmas. — As carruagens podem não ser rápidas o suficiente. Eu digo que devemos abandoná-las.

— Hã?! — gritou Kris. — Mesmo que fôssemos loucas o suficiente para fazer isso, e os cavalos?!

— Hm? Nossos cavalos são treinados para escapar de monstros e retornar para casa. A Starlight não faz o mesmo?

A sobrancelha de Lapis tremeu ao ouvir isso.

Qualquer cavalo capaz de puxar a carruagem de um caçador e viajar por terras perigosas era valioso. Abandonar os cavalos da carruagem da Starlight teria sido particularmente difícil, pois eram tão bonitos que até eu me via cativado por eles, e eu não tinha muito interesse em cavalos.

Outra coisa: o que Sitri disse não era inteiramente verdade. Não era que treinávamos nossos cavalos daquela maneira; era apenas que aqueles que ela descreveu foram os únicos que sobreviveram. Nossa carruagem era atacada com um pouco de frequência demais.

Independentemente disso, não havia necessidade de abandoná-los agora que tínhamos o Mimicky. Embora os cavalos fossem grandes, a boca do Mimicky também era; se tentássemos, deveríamos conseguir fazê-los caber. Exceto que talvez tivéssemos que deixar as carruagens para trás.

Eu estava feliz que minhas Relíquias estavam se provando úteis pela primeira vez em tanto tempo. Sempre soube que bolsas mágicas eram as melhores. Estalei os dedos e dei as ordens ao Mimicky.

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— Eles são tão poderosos quanto quando lutamos com eles pela primeira vez! São imparáveis. Que diabos de monstro é aquele? É mais forte que o Zork. Onde o encontraram?

De olhos brilhando, Quint observava o espelho manifesto. Ele mostrava um gigante de armadura repelindo um exército de formigas de batalha sem sofrer sequer um arranhão. Formigas de batalha eram um tipo de monstro altamente social, particularmente no combate, onde exibiam uma coordenação a par com guerreiros humanos treinados. Ele tinha que admitir estar impressionado com a forma como o gigante rompia as fileiras altamente organizadas das formigas.

— Tudo o que sabemos é que é um humanoide — comentou Uno. — O que me fascina mais é aquele monstro baú de tesouro.

Ela ficara sobressaltada com a visão dele engolindo aqueles cavalos. Não achava que tivessem sido comidos, o que sugeria que poderiam ser removidos com a mesma facilidade. Embora o baú parecesse ter suas próprias restrições, ainda parecia ter um nível de utilidade comparável ao espelho manifesto. Em um mundo perfeito, ela teria perguntado onde o haviam obtido.

Sua suposição inicial estava se provando correta — estavam enfrentando uma força formidável. Apesar de tudo o que a Sombra Partida já superara, provavelmente teriam tempos difíceis pela frente. No entanto, monstros desconhecidos eram algo bom.

Enquanto Uno e Quint conversavam ansiosamente, Adler soltou um bufo descontente.

— Ainda assim, eles estão sendo contidos. Ou talvez estejam se deixando conter? Hmm. Então este é o Corredor da Árvore Divina? Não me parece nada além de um portão decrépito…

Pelas últimas horas, eles estiveram seguindo a orientação da Cynosure. Estavam seguindo por uma trilha de animais quando ela parou abruptamente em um portão de pedra coberto de musgo. Embora fosse estranhamente místico, ainda parecia nada mais do que uma ruína antiga. Além do portão havia mais floresta, e era para lá que a Cynosure apontava — para as profundezas verdes que careciam sequer de uma estrada.

— É um caminho mágico? — ela se perguntou. — Não parece grande coisa. Você não o notaria de outra forma.

— Mas se eu me concentrar, consigo sentir beeem de leve uma força misteriosa em ação — disse Uno.

A floresta estava silenciosa além do portão. Não conseguiam nem ouvir o vento soprando. Contra intuitivamente, isso sugeria que o que havia adiante era algo mais do que apenas matas.

Semicerrando os olhos para as árvores, Adler chutou uma pedra com irritação. Enrolado por perto, as antenas de Yuden moviam-se como se estivessem em alerta. Para um monstro primordial como a centopeia astrovorus, a maioria dos monstros não passava de sustento.

— Yuden parece animado. Não vejo isso todo dia — comentou ela. — Parece que temos algo poderoso esperando adiante. Vocês dois estão prontos?

— Com certeza! — disse Uno.

— Não faz sentido voltar agora, Sua Majestade — acrescentou Quint. — Vamos domar algo mais forte que o Ansem!

Adler atravessou o portão sem hesitar, com Uno e Quint logo atrás. Com passos que faziam o chão tremer, Zork foi em seguida, e então o astrovore soltou um rugido enquanto se forçava a passar. Quando a carapaça dura da centopeia colidiu com o portão, fendas se formaram e a estrutura colapsou. Então, tudo ficou em silêncio.

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Após abandonar as carruagens, avançamos o mais rápido que pudemos enquanto eliminávamos as formigas de batalha e outros monstros. Tudo o que mudou para mim foi que passei de andar na carruagem para andar no Mimicky. Mas o resto da equipe estava imparável agora que não tinha mais a carruagem para sobrecarregá-los.

Eles tinham vigor em abundância e ausência de medo. De bônus, tínhamos a Starlight, que sabia tudo sobre florestas. O problema podia ter um jeito de vir até mim, mas era difícil ver algo dando errado nessas condições.

Eu estava assentindo com satisfação diante da visão dos meus amigos frenéticos quando ouvi um estrondo abafado, seguido pelo nosso vanguarda, Ansem, afundando no chão.

— Anssy?! — gritou Tino.

— Ahh, isso foi um alçapão? — perguntei.

Com Ansem enterrado até o pescoço, formigas de batalha jorraram da folhagem. Devem ter antecipado nosso curso e armado uma armadilha para nós. Que monstros espertos. Cercados por soldados armados, houve um breve intervalo de silêncio.

Mas isso foi rapidamente quebrado por um rugido.

Mimicky deu um passo cauteloso para trás. O chão estrondou e, em seguida, uma figura grande voou para cima com velocidade incrível. Ansem pulara. Ele era tão pesado quanto se poderia esperar, mas a maior parte de seu Mana Material fora alocada para a força física (suas habilidades de cura de primeira classe eram produto de um esforço monumental).

Ansem não era de modo algum lento. Pará-lo com um alçapão era impossível. Enterrá-lo não levaria a lugar nenhum — um fato que eu sabia por ter testemunhado em primeira mão. Ouvi o som crocante de algo duro sendo esmagado. Após pousar sobre as formigas que se aglomeravam, Ansem balançou os braços, limpando tudo ao seu redor. Nem uma legião de espadas e lanças, nem uma chuva de flechas disparadas da sombra das árvores conseguiram romper suas defesas obstinadas. Eu não tinha certeza de quem deveria ser o monstro aqui.

Mesmo se Sitri estivesse certa de que estes eram peões de sacrifício, havia algumas coisas neste mundo que não podiam ser superadas pela força de vontade. E se pudessem, isso não era necessariamente algo bom.

Depois de abater uma horda de formigas, Ansem retomou o avanço como se nada tivesse acontecido. Todos na Starlight estavam pálidos como fantasmas, e eu realmente não podia culpá-las por estarem chocadas com o que acabáramos de assistir. Olhando rapidamente para trás, vi um caminho repleto de uma pletora perturbadora de cadáveres de monstros.

Espero que façamos um caminho diferente na volta.

Logo que pensei isso, Ansem parou pela primeira vez. Eliza caminhou até mim, voltando seus olhos vagos para cima, já que eu ainda estava no Mimicky.

Kai, chegamos — disse ela simplesmente.

— Vamos dar uma olhada…

Desmontando do Mimicky, segui o dedo indicador de Eliza, que me levou a uma rocha maciça. No entanto, em instantes percebi que não era apenas uma rocha; era claramente feita por mãos humanas. Embora estivesse coberta de musgo, fora esculpida. Eliza retirou sua Cynosure e a segurou diante dos olhos. Após girar um pouco em seu cordão, a gema parou, apontando diretamente para a rocha.

— Aqui finalmente. Então este é o portão do famoso Corredor da Árvore Divina? Parece que colapsou… espere. Não deveria haver alguém aqui para nos receber? — perguntou Lapis com uma careta.

— Não sei. Deveria haver alguém esperando por nós. Algo não está certo.

Eliza então olhou para mim. Havia algo que eu deveria estar fazendo? Eu geralmente conseguia dizer o que meus amigos de infância estavam pensando, mas ainda não chegara a esse ponto com Eliza. Comecei fazendo uma expressão de dúvida, ao que Kris franziu sua testa finamente moldada.

— Se o portão colapsou, então não podemos entrar, podemos? Senhor? O que você acha?

— Isso não é problema — disse Eliza. — Este portão é nada mais do que um ponto de referência. Pode ter certeza disso porque a Cynosure está apontando para além dele.

— Fico feliz que não tenhamos caminhado tudo isso por nada, mas isso deveria ser um encontro, certo? — disse Liz. — Qual é a sua decisão, Krai Baby?

Hmmm. Deixe-me ver…

Uma das integrantes da equipe de Lapis falou com voz trêmula.

— H-Humano, isso é claramente porque você deu a Cyno

Achei que ela tinha um ponto, mas Lapis a cortou, parecendo ainda mais descontente do que antes.

— Pare com isso. Esqueceu? Concordamos que, enquanto estivermos no clã, mostraremos respeito ao mestre do clã. Em outras palavras, a este homem.

— Eu sei disso. Mal meu, humano.

Apesar de tudo, Lapis ainda se importava com essas pequenas formalidades. O Espírito Nobre caiu em um silêncio emburrado. Ainda assim, era verdade que eu tinha errado. Eu não tinha certeza se a destruição do portão e a falta de um comitê de boas-vindas eram culpa minha (afinal, a destruição do portão não mudava nada), mas precisávamos avaliar a situação o mais rápido possível.

Aceitando a Cynosure de Eliza, lancei meu olhar sobre o grupo.

— Vamos começar entrando.

Embora eu tenha feito soar decidido, recebi uma resposta bem surpreendente.

Kai — sussurrou Eliza, de olhos arregalados.

— H-Humano fracote, isso é…

— Irmão, o-o que você fez desta vez?!

— Hã?

Todos olhavam para a minha mão. Piscando, olhei para a Cynosure. Ela estivera completamente imóvel quando Eliza a entregara para mim, mas agora estava girando sem parar, apesar da ausência de vento. Meus olhos se arregalaram.

— Hm?! Por que está fazendo isso?

— Como diabos nós deveríamos saber?! Senhor?!

Sem saber o que mais fazer, devolvi a Cynosure para Eliza. Ela continuou girando.

Poderia estar quebrada? Tudo o que fiz foi segurá-la.

— I-Isso não é bom — eu disse.

— Q-Quem além do Krai conseguiria fazer isso? — disse Sitri, com um esforço em seu sorriso habitual.

— Mmm — resmungou Ansem com resignação.

Eu fiz algo errado? Não. Não, eu não fiz. O que eu poderia ter feito?

— I-Isso é definitivamente um fenômeno natural — eu disse. — Não dizem que depósitos minerais interferem com bússolas magnéticas?

— Isso não é magnético! Senhor!

Bem, sim, é verdade. Além disso, estava parada até um momento atrás.

Com um suspiro curto, removi a Relíquia de bússola do meu bolso. Abri a tampa e soltei um suspiro muito mais longo. Como eu esperava, a agulha estava apontada para o portão. Para piorar, não havia como eu voltar atrás, dado o clima no ar. Na verdade, ficar para trás tinha mais chances de me matar. Se eu quisesse salvar o Luke, teria que seguir em frente.

— Eh, tenho certeza de que está tudo bem. Que tal irmos indo? Em que ordem vocês vão?

A estrada adiante era de magia. Provavelmente não haveria nenhum monstro formiga, e deixar Ansem causar destruição provavelmente seria uma má ideia. Ainda assim, eu não estava mais confortável confiando na Liz. Com seu amor pelo desconhecido, nossa equipe tendia a agir de forma desenfreada. Eu estava prestes a fazer meu trabalho como líder pela primeira vez em muito tempo quando Eliza deu um passo à frente, com um olhar incomumente sério no rosto.

— Eu liderarei o caminho, Kai. Isso não é um jogo.

Após passar pelo portão arruinado, Eliza nos guiou pelo tal caminho mágico. Diferente da caminhada infestada de monstros que havíamos acabado de fazer, tudo estava surpreendentemente tranquilo assim que atravessamos o portão. Havia algo divino e reconfortante na floresta imóvel iluminada pela luz do sol atravessando as copas.

O terreno era terrivelmente acidentado, mas isso não me afetava, montado no Mimicky. Se eu fosse realmente ganancioso, diria que sentar no tapete teria sido perfeito, mas não se deve pedir demais.

A Cynosure continuava girando tão rápido que eu achava até engraçado. O que eu inicialmente pensara ser apenas uma gema envolta em cordões era muito mais animado do que eu esperava. Eu não tinha absolutamente nenhuma ideia de que tipo de poder permitia que se movesse daquela forma.

— Cara, está silencioso — disse Liz. Com as mãos cruzadas atrás da cabeça, ela parecia terrivelmente entediada.

Tino, por outro lado, respondeu enquanto vigiava vigilantemente nossos arredores.

— Mas sinto como se algo estivesse interferindo com os meus sentidos.

— Hmph. Você é esperta — disse Lapis. — Um feitiço esotérico está sendo usado para distorcer o espaço. Qualquer um que não tome o caminho correto acabará vagando pela floresta para sempre. Normalmente, aquela Cynosure estaria indicando para onde ir…

Lapis olhou para mim. Era um olhar frio, mas não tão duro quanto os que eu recebia do resto da Starlight. Os únicos Espíritos Nobres do meu lado eram Eliza e Kris, ambas bem familiarizadas com minha falta de jeito.

Respirei fundo.

— E-Então, basicamente, isso significa que não existe um caminho correto? — eu disse em uma tentativa de animar o ambiente.

— Como você sequer conseguiu fazer isso? Senhor? — perguntou Kris. — Não deveriam existir muitos seres capazes de interferir em um de nossos feitiços esotéricos.

Isso é o que eu gostaria de saber. Pensando bem, para que precisamos de um guia? Existe apenas um caminho.

— No entanto, só consigo ver um caminho — murmurou Tino, justamente o que eu estivera pensando, poupando-me o trabalho de dizer.

— Hmph. Há mais do que apenas o que você vê com seus olhos, Tino Shade — disse Lapis com um franzir de testa. — Só parece assim porque temos a Vagante liderando o caminho.

Os olhos de Tino se arregalaram.

— Hm?

No mesmo momento, uma estrada apareceu ao nosso redor, embora não houvesse nada lá instantes atrás. Era pura magia, eu nem vi a estrada aparecer. Eu tinha tanta certeza de que não houvera nada ali que comecei a duvidar de minhas próprias memórias.

— E-Ela apenas… — Tino arquejou com admiração.

— Um feitiço esotérico nobre. Oh, que fascinante — disse Sitri.

— Mas é bem injusto — disse Liz. — Sem um guia, você só tem que ir pela intuição, não é? Eu conseguiria chegar, no entanto.

Honestamente, ela provavelmente não estava errada. Uma boa Ladra tinha esse tipo de Sexto Sentido. Embora pudesse ser um problema às vezes, não havia ninguém que eu preferisse ter nesta situação mais do que Liz. Assenti com uma confiança infundada quando ela subitamente se virou e me deu um grande sorriso.

— E nós temos você conosco, Krai Baby.

— Hã? É, uh-huh.

Eu realmente não sei o que ela espera que eu faça. Mas agora alguns dos Espíritos Nobres estão me lançando olhares severos.

Eliza continuou a liderar o caminho. Apesar de minha certeza de que algo nos atacaria, não vi o menor sinal de um monstro. Será que as criaturas viciosas que supostamente espreitavam no Corredor da Árvore Divina estavam de férias ou algo assim?

Depois de um pouco de caminhada, nossos arredores subitamente se abriram. Eliza parou, e Liz soltou um assobio baixo. Meus olhos se arregalaram. A floresta densa abrira-se subitamente em uma área ampla, como uma praça. Nela, havia inúmeras estruturas como o portão que tínhamos visto antes, todas levando para caminhos diferentes. Algo no cenário me lembrava um Cofre do Tesouro. Formados pelo Mana Material de todo o mundo, os cofres às vezes assumiam uma atmosfera sobrenatural.

Não inteiramente certo do porquê, lambi os lábios e disse com voz decidida:

— Hm. Então é aqui que eles param de brincar. Isso está ficando interessante.

— A única razão pela qual nada aconteceu ainda é porque temos a Eliza liderando o caminho! Senhor! — disse Kris no momento em que terminei minha frase.

Após um suspiro lânguido, o olhar de Eliza derivou de um portão para o seguinte.

— Você consegue chegar até aqui se seus sentidos forem aguçados o suficiente. Mas ir além sem uma Cynosure é difícil. Seria como vagar sem rumo em um vasto deserto.

— Você tem razão — disse Liz — não estou sentindo nada. Isso pode ser complicado.

Semicerrando os olhos, ela focou seus sentidos por alguns segundos antes de soltar um resmungo cativante. Eliza vagara pelo mundo sozinha, e Liz possuía qualidades que poucos Ladres tinham, mas ambas estavam perplexas. A Cynosure ainda girava em círculos. Pensando que eu poderia muito bem verificar a Bússola dos Tolos, vi que ela também girava e girava. Eu também estava sentindo vontade de girar.

— Você realmente não trouxe nada de útil. Senhor — disse Kris com um suspiro ao me ver encarando a Relíquia giratória.

— Oh, como você pôde, Kris? — disse Sitri, sempre pronta a tomar meu lado em qualquer situação. — Só porque é verdade não significa que você deva dizer. A coleção do Krai é cheia de Relíquias encantadoras! Você deveria saber que ele uma vez me deu uma Relíquia que combinava perfeitamente comigo!

Daria para dizer que ela estava me defendendo? Sim, minha coleção era composta principalmente de esquisitices, mas havia algumas com valor prático.

Desembarcando do Mimicky, bati as mãos e disse:

— Hm. Acho que entendi.

— Mestre, existe algum segredo nisso?!

Vou mostrar a vocês como minhas Relíquias podem ser úteis!

Era verdade que a Bússola dos Tolos não ajudaria em nada, e também era verdade que eu não tinha nenhuma Relíquia que pudesse revelar o caminho certo (se tivesse, eu as teria usado há muito tempo). No entanto, eu ainda tinha uma maneira de encontrar o curso correto. Olhei para uma Tino muito vigilante.

Às vezes, pensar em termos simples era o caminho mais rápido para uma solução. De fato, se não sabíamos quais rotas eram perigosas, poderíamos verificar do céu! Mesmo se estivéssemos fora do chão, sua agudeza de Ladra deveria permitir que ela descobrisse as coisas.

— Que maneira rude de colocar — eu disse a Kris. — Com o Carpy-kun, podemos verificar os caminhos de—

— Mestre, isso significa que é a minha vez?! Carpy-kun!

Entendendo tudo pelas minhas palavras e olhar, Tino saltou. Flutuando ali perto, o Carpy-kun zuniu e a pegou. Ao seu assobio, ele disparou para o céu. A compreensão silenciosa entre ela e o Carpy-kun era algo com que eu sonhava. Existiam graus de sinergia entre caçadores e Relíquias, e parecia que Tino se sincronizava muito bem com o Carpy-kun. Isso me entristecia, mas era assim que as coisas eram. Mesmo se eu fosse um colega tapete, o Carpy-kun ainda preferiria a Tino a mim. Dado que ela também trabalhava bem com a Máscara da Ganância, a máscara da Éclair, eu estava começando a achar que ela tinha mais dom para o uso de Relíquias do que eu.

Com uma explosão de velocidade, Tino e o Carpy-kun deslizaram pelo ar, fazendo uma ascensão rápida. Kris observava com olhos arregalados e saltados, e ouvi Eliza murmurar um pequeno “Ah”. Então, logo após passar além dos galhos mais altos, houve um som áspero e eles foram subitamente repelidos. Tino espiralou para baixo e colidiu comigo. Meus Anéis de Proteção permitiram que eu a segurasse sem sofrer um arranhão, mas ela não tinha tal proteção.

Olhei hesitante para baixo. Enquanto tentava se encolher, ela olhou para cima para mim. Nossos olhos se encontraram. Seu rosto inexpressivo ficou cada vez mais vermelho e ela saltou para trás.

— D-D-Desculpe, Mestre! Oh, ah, obrigada! Por me segurar— Lizzy, não é o que parece! I-Isso foi um acidente. Não foi…

Eu não disse nada.

Não se preocupe, está tudo bem. Além disso, aquilo foi menos um amparo e mais uma colisão.

Com meus Anéis de Proteção, eu era apenas uma parede. Embora eles tivessem me protegido do choque quando a envolvi, Tino sentira cada pedaço do impacto. Ela acabara de colidir com um muro…

Você está firme como um coco. Não está na hora de subir de nível?

Liz parecia irritada, provavelmente nada entusiasmada com o estado de sua aprendiz. Balancei a cabeça para ela, fazendo-a suspirar. Tino não era a única crescendo; Liz também estava melhorando lentamente.

— A rota aérea está selada — disse Eliza com um suspiro muito profundo. — Não podemos trapacear. Você será repelido, como a Tino foi.

— Ahh, não havia como vencer um labirinto mágico com um método tão simples. — Sitri aproximou-se de Tino com um sorriso assustador no rosto, fazendo-a estremecer. — Lembre-se, T, sempre espere o Krai terminar suas frases.

Digo, ela fez o que eu estava insinuando, mesmo que tenha começado antes de eu terminar.

As integrantes da Starlight sussurravam entre si enquanto nos olhavam com gravidade. Espíritos Nobres tinham um forte senso de camaradagem. Se eu continuasse assim, a opinião delas sobre mim, que já estava no fundo do poço, ficaria ainda pior. Eu estava bem com isso, só não achava que agora fosse o momento.

— Tudo bem — eu disse com um bater de palmas. — Graças à Tino, agora sabemos que o céu não é uma opção. Vamos pelo portão como deveríamos.

— Se você não se recompor, a Tino vai te dar um soco. Senhor.

— E-Eu nunca faria isso, Mestre!

Depois de tudo em que te arrastei, quase quero que você me bata. É claro que eu morreria se você fizesse isso, então teria que se segurar.

Com resignação, Liz colocou a mão no quadril e disse:

— Bem, posso falar com a T sobre o comportamento dela mais tarde. Agora, Krai Baby, o que vamos fazer?

— Hã? Oh, sim. O que deveríamos fazer?

Ahh, você está me fazendo decidir de novo. Tudo bem, tudo bem. A propósito, qual caminho é o certo? A Cynosure não está ajudando.

Não havia nada de incomum em Liz deferir ao meu julgamento, mas até Eliza estava me observando silenciosamente.

Olhei ao redor para os portões, fingindo inspecioná-los. Provavelmente é bem óbvio, mas eu não tinha esperança de dizer qual era o correto. Afinal, nem Liz conseguia descobrir. Parei diante de um portão escolhido ao acaso e todos se aproximaram atrás de mim. Embora eu costumasse me sentir enjoado com a menor coisa, agora eu estava bem, exceto em circunstâncias extremas.

— É esse aí? Senhor?

— Você poderia explicar sua base, líder? — perguntou Lucia com uma expressão que carecia de um pingo de fé. Como era mistificador que ela claramente não acreditasse em mim, mas ainda assim achasse que eu poderia ter uma base.

— Intuição, eu acho? — Toquei minha cabeça sem nenhuma razão real.

Um breve silêncio. Todos olharam para mim como se eu fosse louco.

Eliza deu um passo à frente.

Kai. Espere.

Embora ela parecesse estar olhando vagamente para o portão, não era o caso. Espíritos Nobres eram conhecidos por terem um talento inato para magia e sentidos especiais, por isso tantos deles se tornavam magi ou Ladres. Não havia como um humano replicar esses sentidos. Ladres nobres tinham excelentes instintos de sobrevivência, e Eliza superava a maioria de seus pares.

Ela examinou o portão por alguns segundos. Olhando para mim com reprovação, balançou a cabeça.

— Este não.

— H-Humano fracote! — gritou Kris.

Todas da Starlight me olharam com irritação. Parecia que eu estava fora do alvo. Eliza não explicara seu julgamento mais do que eu, mas acho que confiavam nela mais do que em mim.

Com uma tosse curta, caminhei até o próximo portão.

— Aquilo foi uma piada. Algo me diz que este é o portão certo.

Eliza aproximou-se obedientemente do portão e imediatamente balançou a cabeça.

— Este também não.

— Mestre…

Todos olhavam para mim. Sitri tinha um sorriso suave e Lucia soltou um suspiro profundo. O clima estava ficando tenso, mas isso não teria acontecido se Eliza tivesse apenas nos mostrado o portão certo. Embora a Starlight estivesse apenas me encarando, pareciam que poderiam explodir a qualquer momento.

— Bem, parece que é melhor eu deixar isso com você, Eliza.

— Entendido.

Você deveria ter feito isso desde o começo.

Todos assistimos enquanto Eliza cambaleava de um portão para outro. Cada verificação levava um segundo, o que poderia ser mais rápido do que quando eu fingia verificar. Eventualmente, ela foi para um portão no lado menor. Após ficar em frente a ele por um curto período, virou-se para o nosso lado com um olhar implorante.

— Este é o menos agourento.

— Hmm, então essa é a sua escolha? Nada mal.

— A Ellie— digo, os Espíritos Nobres têm sentidos incríveis, não têm, Mestre?

É, uh-huh. Menos agourento, você diz? Quem dera eu tivesse alguns desses sentidos especiais.

Era bem comum para mim sentir que algo não era agourento, embora eu nunca estivesse certo. Eliza, no entanto, usava seus sentidos durante caçadas solo, então imagino que algumas pessoas fossem mais aguçadas que outras.

Caminhei até o portão que ela escolhera. Como os outros, era feito de pedra e coberto de musgo. Eu também não sentia nada de agourento, mas, por outro lado, eu não conseguia ver nenhuma diferença entre este e os dois que eu havia escolhido. No entanto, nossa taxa de enfrentar perigo certo caíra desde que adicionamos Eliza à equipe, então eu tinha fé em suas habilidades. (A taxa de perigo da Eliza, por sinal, disparou depois de se juntar à nossa equipe. Pergunto-me o porquê.)

Depois de dar alguns tapinhas sem rumo no portão, eu estava prestes a marchar para dentro quando Eliza disparou contra mim.

— Espere, Kai!

— Hm?! O-O quê?

Eliza me empurrou para o lado antes de olhar para o portão. Ela tinha um olhar de intensidade incomum; suas orelhas pontudas tremeram levemente. Por fim, virou-se para mim, parecendo totalmente perplexa.

— Não é este portão.

— Hã?

— Ele se tornou inseguro agora mesmo.

O que isso significa?

Lucia e Sitri trocaram olhares, sugerindo que aquilo era algo novo para elas.

Eliza recomeçou suas inspeções. Após passar por todos os portões, ela retornou a um.

— Este aqui. Tenho certeza.

Não era para haver apenas um— Sabe de uma coisa, deixa para lá.

Não é como se tivéssemos qualquer outra maneira de saber o caminho certo. Aquela Cynosure estava apenas girando.

Com um olhar de adoração, Lapis deslizou até o portão, sua equipe a seguindo de perto.

— Hmph. Vagante, você é aguçada até para os nossos padrões, e escapou de um labirinto subterrâneo intrincado sem se perder uma única vez. Embora apenas por um segundo, você hesitou aqui. O feitiço da família imperial não é para ser levado de brincadeira.

A Eliza fez isso? Hã.

Em defesa dela, até caçadores de primeira linha cometiam erros. Daí vinha o provérbio “Até caçadores de primeira linha Kaim em alçapões”.

— Hmm. É, algo nele parece estranho. — Liz inclinou a cabeça enquanto olhava para o portão. — Como é lá dentro?

— O espaço está distorcido ali. — Lucia usava uma expressão de consternação. — O fluxo de ar e luz é diferente, o que explicaria por que até alguém com sentidos aguçados pode se perder. É o seu pior inimigo, Liz.

Aquela foi uma reação rara vinda delas.

Meu julgamento deve ter sido muito bom, já que fui eu quem trouxe Eliza para a nossa equipe. Excepcionalmente satisfeito comigo mesmo, caminhei até o portão e esfreguei sua superfície áspera. No momento em que eu estava prestes a entrar, ouvi Eliza gritar.

Kai, espere!

— Hã?

Puxando minha mão, ela se colocou na minha frente. Após alguns segundos de silêncio perscrutador, ela soltou um suspiro profundo.

— Não é este portão.

Eu não conseguia esconder a surpresa no meu rosto.

— O quê? De novo?

— Estava tudo bem um momento atrás, mas agora não está mais — disse ela, quase defensivamente. — Kai, você fez alguma coisa?

Antes que eu percebesse, eu estava verificando as expressões de todos. Eliza estava perplexa, e Sitri continuava a sorrir apesar das circunstâncias. Depois havia a Starlight, todas me olhando com olhares gélidos. Eu estremeci. Embora eu nunca tenha sido bom em ler o ambiente e muitas vezes fosse repreendido por isso, a tensão aqui não passava despercebida por mim.

Isso é, uh, outro mal-entendido?

— N-Não, eu não fiz nada.

Na verdade, eu queria perguntar se alguém mais fizera algo, e o que estava acontecendo, para começar. Eu não estava tentando fazer nada, nem tinha habilidades específicas. Claro, o tempo fora ruim, mas por que achavam que eu era o culpado?

Ah. Ahhh.

Batendo o punho na palma da mão, esfreguei então a superfície áspera do portão. Tino deu um passo cauteloso para trás. Eu estava prestes a explicar que não estava fazendo aquilo por nenhuma razão real quando uma integrante da Starlight murmurou algo.

— Já chega de seus joguinhos, humano.

— Ei. — Lapis virou-se e lançou à sua companheira de equipe um olhar severo.

No entanto, o Espírito Nobre permaneceu imperturbável. Ela devia ter chegado ao seu limite.

— Não, apenas desta vez, deixe-me dizer — ela continuou. — Lapis, você está bem com isso? Não negarei que garantir a pedra amaldiçoada foi um trabalho impressionante, mas ele não apenas ostentou essa conquista, como também se aproveitou de nossa obediência silenciosa para zombar de nós. Como Espíritos Nobres, temos nosso orgulho, e ele não tolera esse tipo de comportamento.

Hã? Obediência silenciosa? O quê? Quando? Vocês estiveram me lançando olhares desagradáveis esse tempo todo.

Houve uma curta disputa de olhares antes de Lapis suspirar e afastar-se para o lado. A caçadora da Starlight deu um passo à frente. Ela tinha uma estrutura fina e era apenas um pouco mais alta que eu. Seu olhar era penetrante, mas ela era bonita o suficiente para que eu não me importasse. Havia uma razão para serem consideradas a equipe mais bonita dos Primeiros Passos. Bem, a ideia não teria surgido se elas também não fossem uma equipe habilidosa, mas metade da razão pela qual as trouxemos para o clã fora porque sabíamos que atrairiam clientes (foi ideia da Sitri).

Eu percebia pelo olhar dela que ela não tinha uma opinião elevada sobre mim, mas ela ainda não era tão ruim quanto a maioria de sua espécie. Alguns Espíritos Nobres estavam constantemente ridicularizando os humanos, enquanto outros estariam sorrindo enquanto tramavam secretamente contra você. A honestidade direta da Starlight, por si só, as tornava muito fáceis de lidar. Por outro lado, é justo mencionar que a razão pela qual apenas Kris e Lapis iam à Casa do Clã era que as outras eram propensas a causar confusão.

Minha maior preocupação era o clima em queda livre da minha própria equipe. Fora apenas porque a Starlight fazia parte do nosso clã que elas ainda não haviam feito nada. Mas eu não via a paciência delas durando muito mais tempo. Embora seus temperamentos tivessem melhorado ao longo dos anos, elas ainda tinham seus limites.

Enquanto isso, seria preciso mais do que os Grievers para fazer a Starlight recuar.

— E agora, o que eu faço?

Antes que eu chegasse a uma conclusão, a caçadora da Starlight abriu a boca. Eu me perguntava que tipo de abuso verbal ela teria reservado para mim, mas Eliza a interrompeu. Ela se colocou à minha frente de forma protetora e disse, com sua voz sonolenta de sempre:

— Espere. Não deveríamos assumir que a culpa é do Kai.

— É! A Eliza tem razão! Senhora. — Kris foi rápida em intervir, compartilhando sua própria opinião. — Pense bem. Não importa que tipo de humano ele seja, ele não poderia interferir no feitiço de um Espírito Nobre.

Fazer amizade com ela provou ser uma boa jogada. A outra caçadora da Starlight ficou surpresa com a objeção de sua companheira. Presumi que, embora estivesse acostumada com as reprimendas de Lapis, ser questionada por Kris, a membra mais jovem do grupo, era algo bem diferente.

Houve um silêncio momentâneo, então a Espírito Nobre loira lançou um olhar breve e duvidoso em minha direção.

— Tudo bem, então. Embora eu não acredite no Mil Truques, aceitarei isso. Contanto que a Vagante possa fornecer uma explicação convincente.

— Pode ser uma coincidência — disse Eliza com certa relutância.

Vendo isso, a Espírito Nobre mais baixa deu um sorriso desdenhoso.

— Ora, que ideia engraçada. Você esqueceu que isso é obra da nossa família imperial? Nunca ouvi falar de problemas surgindo no Corredor da Árvore Divina. E você vai me dizer que é coincidência que a primeira mudança aconteceu logo depois que ele tocou em um portão? Teria que ser estúpido para acreditar. Se for realmente o caso, todas na Starlight não apenas faremos uma reverência e pediremos desculpas, como seguiremos qualquer ordem que você der. Não importa qual seja.

Será que essas pessoas são compelidas a falar sem parar até caírem de um penhasco?

Todas, exceto Lapis e Kris, aceitaram essa aposta bizarra. Lapis deu de ombros e disse com resignação:

— Uma ideia interessante. Mil Truques, eu presidirei esta partida. Não como a líder da Starlight, mas como uma parte neutra. Espíritos Nobres não mentem. Se ficar provado que você não tem culpa, então, pela nossa honra como Espíritos Nobres, garantirei que elas cumpram a palavra.

Kris disparou contra a declaração ousada:

— É, Lapis, faz logo disso um problema que não é seu! Eu também quero ficar fora dessa! Senhora!

Lapis mostrou habilidades de evasão impressionantes. Eu estava até com um pouco de inveja. Por sinal, se acabasse provado que a culpa era minha, o que eu teria que fazer?

As outras integrantes da Starlight ficaram desconcertadas por um segundo, mas logo recuperaram a compostura. Uma delas apontou o dedo para mim.

— Pois bem, se estivermos certas…

— Agora já sabemos o que a Starlight quer — Sitri interrompeu batendo as mãos. — Não vamos perder tempo provando que o Krai não fez nada de errado!

Sitri não ia deixá-las darem um pio, uma precaução caso vencessem a aposta. Ela aprendera alguns truques para sobreviver no mundo implacável dos alquimistas. Não era uma jogada justa, mas eu estava enfrentando falsas acusações ali.

Percebendo o que Sitri pretendia, Lucia suspirou.

— Mas como você vai provar isso, Siddy? Não é fácil provar o que alguém não fez…

Ouvindo as dúvidas de Lucia, Sitri girou nos calcanhares para nos encarar.

— É simples — declarou ela. — Se o Krai não é a causa, então os mesmos resultados acontecerão sem ele. Eliza, por favor, verifique todos os portões novamente. Se houver algum problema, isso mostrará que o Krai não tem culpa!

Bem, eu não posso dizer que não vi isso vindo.

— Finalmente entendi — Lucia nos disse em voz baixa. — Parece que o espaço-tempo dentro dos portões está instável. Pelo que entendi, é por isso que eles se tornavam perigosos instantes depois de a Eliza determinar que um era seguro. Presumo que isso seja proposital. As Cynosures são ferramentas feitas para permitir a passagem por esses labirintos que flutuam constantemente. Suspeito que não existam diferenças significativas entre os vários portões.

Embora Liz fosse nossa Ladra, entender e explicar engenhocas mágicas era quase sempre o trabalho de Lucia. Devido à frequência de armadilhas em Cofres do Tesouro de alto nível, ela naturalmente se tornara muito boa nisso. Lucia era, aparentemente, uma escolha melhor para o Corredor da Árvore Divina do que Liz.

As membras da Starlight assentiram enquanto a ouviam.

— Entendo — disse uma delas. — Então o que você está dizendo, Lucia Rogier, é que é apenas uma coincidência que a Vagante dê o sinal de alerta toda vez que o Mil Truques, seu irmão, se aproxima de um portão.

— Interferir em um feitiço de espaço-tempo tão imenso não é possível para um humano — Lucia começou a gritar, ficando vermelha. — Vocês deveriam estar muito mais cientes dos poderes da sua família imperial do que nós!

— O próximo — disse Eliza com uma voz cansada — é este aqui.

Eu já havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquilo.

Mil Truques — disse Lapis — embora eu seja uma parte neutra aqui, não vai demorar muito para eu ser forçada a declarar sua derrota. Isso é coincidência demais.

— Comece a levar isso a sério! Senhor! Se você conseguisse ao menos se aproximar de um portão sem nada acontecer, isso nos daria algum espaço para negociar!

As companheiras de Kris zombaram dela.

— Você está tentando o impossível, Kris. Foi você quem nos disse que o Mil Truques é um homem que não sabe quando recuar.

O que diabos a Kris disse sobre mim?

A essa altura, nenhuma delas acreditava que esse problema com o portão não fosse obra minha. Para ser justo, eu não podia culpá-las por isso. Eu provavelmente chegaria à mesma conclusão se estivesse no lugar delas.

Estávamos tentando provar minha inocência por quase uma hora. Toda vez que eu me aproximava de um portão escolhido por Eliza, ele se tornava perigoso. Em essência, todos eram seguros até eu chegar perto. Esses portões estavam decididos a me pegar, e eu não sabia explicar o porquê. Que poder estava agindo contra mim quando eu nem sequer tinha feito nada? Eu realmente não tinha ideia.

— Eh, você sempre teve uma sorte engraçada, Krai Baby.

— Mestre…

— Perdoe-me, Krai. Eu não previ que isso aconteceria.

— Mmm.

Até Ansem parecia estar sem saber o que fazer.

Independente da nossa aposta com a Starlight, ser parado ali era um problema. Luke ainda era uma estátua, e Eliza dissera que as coisas se complicariam se a maldição não fosse quebrada logo. Tínhamos que fazer algo para atravessar esse bloqueio que mudava constantemente.

E se… o seguinte? E se eu ficasse para trás e todos os outros continuassem?

Parecia que o Corredor da Árvore Divina me odiava o suficiente para tornar qualquer caminho perigoso se eu chegasse perto demais. Olhando pelo outro lado, Eliza não dava o alarme até que eu me aproximasse. Essa era minha forma de tirar o melhor de uma situação ruim. Eu estaria razoavelmente seguro se esperasse dentro do Mimicky, e não é como se eu estivesse determinado a ver Yggdra nem nada. O objetivo desta jornada era curar o Luke; qualquer outra coisa era secundária.

Estou cansado. Só quero me enfiar na cama e dormir um pouco.

Pensando bem, comecei a me perguntar se talvez tudo isso não estivesse sendo causado pelos Espíritos Nobres que criaram este labirinto. A família imperial deles nunca fora conhecida por gostar de humanos. Se eles criaram este feitiço, provavelmente poderiam manipulá-lo livremente, e eu conseguia facilmente imaginá-los tentando dificultar a vida de um humano. Se não fosse isso, poderiam estar testando meus poderes.

— Não estamos chegando a lugar nenhum — eu disse. — Vamos fazer deste o último. Estamos perdendo tempo aqui.

— Entendido. Por aqui, Kai.

Minhas suspeitas estarem certas ou erradas não mudaria o fato de que não havia nada que eu pudesse fazer. Preparando-me, caminhei em direção ao portão que Eliza indicara. Então olhei para algo que estivera me incomodando. Entre os muitos portões na praça, havia apenas um que se destacava dos demais, mas não que tivesse um formato ou cor diferente, ou brilhasse, nem nada do tipo.

— Ei, Eliza, o que é aquele portão caindo aos pedaços? — perguntei.

— Não sei, mas ele leva ao caminho mais perigoso daqui. Fique longe dele.

Ah, entendi.

Como os resultados eram os mesmos com todos os portões, pensei que poderíamos tentar o caindo aos pedaços, mas se ela disse para não ir, então não vi motivo para discutir. Com um dar de ombros, fui até o portão. Eliza não disse nada, apenas observou de perto. Lucia interrompeu sua explicação. Ela, Tino, Liz e Sitri assistiam com a respiração suspensa. Faltavam apenas cinquenta centímetros, e eu ainda estava bem.

— Você entendeu, não entendeu?! — gritou uma membra da Starlight ao lado de Lucia.

— Irmão, eu descobri o que está causando isso! Eu posso conter as oscilações! Deixe comigo!

É, eu sei. Eu só tenho que tocar, certo?

Havia duas circunstâncias sob as quais Eliza daria o sinal vermelho. Ou quando eu tocava o portão ou quando chegava perto o suficiente para entrar. Como elas queriam, passei a mão pela superfície áspera do portão. Desnecessário dizer, mas eu não estava fazendo nada além disso. No entanto, isso foi seguido pelos gritos roucos de Lucia.

— Irmão, o espaço está oscilando! O que você está fazendo?!

Você só pode estar brincando comigo. Eu não estou fazendo nada! Você não disse que nenhum humano poderia interferir neste feitiço?!

Eliza ainda não dissera nada, mas eu percebia que aquilo não ia funcionar. Quase desistindo, virei-me para encarar Eliza e fiquei chocado com o que vi. Ela estava olhando fixamente para o portão, seus olhos carmesins bem abertos sem sequer piscar. Como uma boneca, ela não se movia um centímetro. Essa era certamente uma resposta diferente. Acenando as mãos na frente dela, finalmente consegui fazê-la sair do transe.

— Algo está vindo — disse ela.

Não houve passos ou qualquer outro sinal de alerta. Embora eu achasse que senti uma mudança no ar. Explorar Cofres do Tesouro desconhecidos aguçava a intuição de um caçador. Eu não tinha nenhum talento de Ladra, mas a mudança foi óbvia o suficiente para que eu percebesse em um instante. Dei um passo atrás, apesar de mim mesmo. A tensão era palpável.

Embora estivessem me lançando olhares de desprezo instantes atrás, as integrantes da Starlight soltavam gritos de surpresa.

— O que está causando esse fluxo?! O que você fez, humano?!

— Veja você mesma.

Eu não posso responder a essa pergunta. Eu não fiz nada, para começar. Uma sombra enorme caiu sobre o caminho coberto de mato no lado oposto do portão. Então, lentamente, entrou em vista — uma grande esfera translúcida. Cintilando à luz do sol, a figura flutuava acima do chão. Embora não se parecesse com nenhum tipo de animal, havia um par de olhos carmesins e uma boca em sua metade superior. Em todos os Cofres do Tesouro que visitei, nunca vi um demônio como este.

Enquanto se aproximava silenciosamente de nós, duas palavras escaparam de meus lábios:

— Um slime?

— Não seja idiota! Não tem como aquilo ser um slime! Senhor! — Kris gritou. Com o suor frio escorrendo pelo rosto, ela preparou seu cajado. — Aquilo é um elemental ou um espírito divino!

Não me entenda mal, eu não achava realmente que fosse um slime, mas o slime da Sitri tornava difícil ter certeza absoluta.

Perdendo a postura serena que costumava manter, uma sombra sombria caiu sobre o rosto de Lapis.

— Elementais são os próprios poderes que compõem o nosso mundo. São fontes de energia que ganharam vida. Luto para imaginar que um tão poderoso teria permissão para vagar livremente. Não apenas isso, não consigo detectar a vontade encontrada na maioria dos elementais superiores.

Aquilo é um elemental? Ah. Eu sei sobre esses.

Lucia tinha um que guardava em um frasco, e eu já vira outros magi com elementais sob seu comando. O que se aproximava de nós, no entanto, era bem diferente.

— Existe alguma chance de estarmos em perigo? — perguntei.

— Ninguém poderia comandar isso — Lapis respondeu. — Não recomendo tentar lutar. Embora elementais superiores sejam inteligentes o suficiente para se negociar, este não tem vontade própria. É como um deus caído.

— O que você está tentando fazer, humano?! — disse uma das muitas vozes abafadas resmungando contra mim. — Isso não é o tipo de coisa que você pode usar nas suas Mil Provações ou como quer que as chame!

Não sei como deveria me defender dessa acusação. E quantas pessoas já ouviram falar das Mil Provações? Foi quando notei algo. Uma pessoa flutuava na borda da esfera massiva. A julgar pelo formato de suas orelhas, era um Espírito Nobre. Seu manto verde-claro balançava preguiçosamente.

— O que é aquilo? — disse uma membra da Starlight, notando-a. — Tem alguém ali dentro? Dentro do elemental? Isso não poderia… mas então… O que diabos está acontecendo?

Eu não conseguia dizer se ela estava viva, mas certamente não invejava sua situação. No entanto, era com um elemental que estávamos lidando. Sem saber o que fazer, recuei e chamei minha sempre confiável irmã.

— Lucia.

Ela respondeu instantaneamente. Parada ao meu lado, olhava fixamente para o elemental que se aproximava. Pelo canto do olho, vi que ela empalidecia. Ser uma Magi provavelmente a tornava ciente de exatamente que tipo de ameaça tínhamos diante de nós. Independentemente disso, nossa equipe nunca enfrentara um obstáculo que não pudéssemos superar.

Embora parecesse que teríamos uma luta difícil pela frente, Lucia estava equipada com o conhecimento que ganhara na academia. Eu confiava que ela encontraria uma solução que a Starlight nem sequer imaginaria. Depositando todas as minhas esperanças nela, disse o nome da minha irmã novamente.

— Lucia.

— E-Eu te ouvi! — disse ela com uma voz firme, apesar do tremor. Ela estendeu seu cajado e começou uma incantação. — HAILSTORM!

Não foi isso que eu quis dizer!

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O que diabos é isso?

Esquecendo que estava em um campo de batalha, Astor Fyron, Magi da Starlight, olhou para o nada. Sem um momento de hesitação, a Magi humana acabara de atacar um elemental superior diferente de qualquer um que Astor vira em sua floresta natal. Embora a humana o estivesse fazendo sob as ordens de seu líder, ninguém na Starlight conseguia processar aquilo.

Elementais eram a própria natureza. Enquanto elementais inferiores podiam ser comandados, opor-se a um da magnitude diante delas era efetivamente o mesmo que opor-se à fúria da natureza. Para piorar, esse elemental perdera o senso de razão, tornando-se nada mais do que um espírito de energia que tudo consome. Como uma das melhores magi da capital imperial e comandante de seu próprio elemental, Lucia deveria estar ciente do perigo que enfrentava.

Astor já esquecera a zombaria anterior. Aquela luta era mais do que sem esperança.

Uma membra da Starlight recuperou os sentidos e correu até o Mil Truques.

— Diga a ela para parar! Você vê o quão poderoso é aquilo, não vê?!

A Avatar da Criação era uma Magi digna de respeito. Embora caçadores fossem responsáveis pelas próprias ações, não podiam apenas ficar paradas assistindo àquilo. Com sua expressão monótona de sempre, o Mil Truques não hesitou, mesmo quando agarrado subitamente por uma membra da Starlight. Ele, no entanto, mostrou a ela um sorriso niilista.

— Hmph. Você acha que ela pode ser parada agora?

As palavras mágicas tornaram-se poder, e o poder começou a agitar-se. Hailstorm, o feitiço avançado lançado por Lucia Rogier, brilhou intensamente ao colidir com o elemental. Ondas de choque formaram uma tempestade furiosa que dilacerou os arredores.

Quando o feitiço passou, apenas uma pessoa ainda estava firme em seus pés. Astor e suas companheiras haviam mobilizado rapidamente feitiços de proteção. Até Ansem, aquele conhecido como o Imutável, mudara a postura para resistir às explosões. No entanto, aquele homem estava lá parado, sorrindo como se nada tivesse acontecido. Astor não conseguia entender o que ele estava tentando realizar. Tudo o que podia dizer era que o Mil Truques usara algum poder ou outro para interferir no Corredor da Árvore Divina e provocar aquela situação.

— H-Humano fracote! N-Não tem nada que possamos fazer sobre isso?! Senhor?!

Kris, a única caçadora da Starlight além de Lapis a conhecer aquele homem, falou por toda a sua equipe. Embora não tivesse sido atingida diretamente, a força fora suficiente para despentear seu cabelo e drenar o sangue de seu rosto. Sua reação não era irracional.

No entanto, o Mil Truques pareceu bastante surpreso.

— Hã?

Espere um pouco. “Hã?” Sobre o que esse imbecil está dando “hã”?!

Ele não atraiu realmente esse elemental em nome de uma daquelas suas Mil Provações idiotas, atraiu?! Apesar da perícia da Starlight, apesar de estarem perto daquelas criaturas desde o nascimento, aquela batalha estava além de suas capacidades. As Provações eram famosas por serem insanas, e todas tinham ouvido os contos muitas vezes, mas nenhuma delas achou que chegaria a esse ponto. Por mais que fosse uma quebra de etiqueta, Astor planejava dar um soco na cara dele assim que tudo terminasse.

Embora normalmente persistisse por um breve período, o Hailstorm já havia se dissipado. A mana que formou o feitiço e a mana que fluía pelo elemental haviam se dissipado com o impacto. Apesar do golpe direto de um feitiço tão avançado, o elemental não foi afetado. Seu poder fora um pouco reduzido, mas isso estava longe de ser uma derrota.

Luzes brilharam do elemental e a terra abaixo deles gemeu. Uma força invisível agia sobre o solo. Aquilo era um nível de poder beirando a divindade. Se nem um elemental inferior era facilmente vencido, que chance aqueles humanos tinham contra um dos elementais mais poderosos que Astor já vira?

Os olhos carmesins fixaram-se no Mil Truques, ainda parado desafiadoramente. Em comparação, sua resposta foi bastante simples. Ele olhou para cima, encontrando o olhar da criatura, e sussurrou:

— Pessoal.

O que Astor testemunhou em seguida foi nada menos que desconcertante. Pelo que ela podia dizer, os Grieving Souls não pararam para discutir como proceder, mas aquela única palavra murmurada pelo Mil Truques impulsionou todos à ação. Com um rugido, Ansem avançou contra o elemental. Aproveitando a distração que ele proporcionava, Lucia começou uma encantamento, Sitri atirou algo e Liz tornou-se um borrão ao disparar.

— Eles perderam o juízo. Aquele Hailstorm não ensinou nada a eles?! Atacar de frente é o desejo de morte!

Nem todos os elementais eram inimigos insuperáveis, mas nada sobre este era comum. Enfrentá-lo despreparado não ia funcionar. Ansem atacou com uma espada feita para combinar com sua estatura imensa. Incontáveis lanças de água choveram. Houve menos de um piscar de olhos entre cada golpe.

Em resposta, o elemental começou a brilhar levemente. A espada de Ansem foi repelida, forçando-o a recuar por um momento. As lanças desapareceram de imediato. O elemental usara o imenso mana ao seu redor para criar uma barreira. Implacáveis, Ansem e Lucia golpearam uma segunda e uma terceira vez, ainda falhando em romper a defesa.

O brilho ao redor do elemental se intensificou — ele planejava usar um feitiço.

— É por isso — Astor grunhiu — que você nunca trabalha com humanos!

Um feitiço daquele elemental poderia muito provavelmente incinerar toda a área. Mesmo um humano robusto fortalecido por Mana Material não seria capaz de sobreviver a tanto poder. Na verdade, a ideia de tentar enfrentar um ser que era a própria natureza já era excessivamente audaciosa.

Astor acionou um feitiço defensivo, assim como as membras de sua equipe. O uso diário de magia tornava possível conjurar tão rapidamente. Usando múltiplas conjuradoras para invocar um feitiço composto, elas teceram uma barreira intrincada em um piscar de olhos. Era trabalho em equipe, mas poderia ser confundido com um milagre. Dito isso, não seria suficiente para bloquear um ataque de um elemental daquele calibre. Astor aprendera uma coisa ou duas durante seus anos como caçadora; ela confiava em seu julgamento situacional. Aquela barreira que ergueram não era para bloquear — era para desviar.

Uma fração de segundo após a barreira ser posicionada na frente de Ansem, o elemental liberou a energia que acumulara. O raio cegante de força imensa colidiu com a barreira, criando uma grande distorção. Então, ele envolveu o Mil Truques, que ainda estava parado distraidamente a alguns metros de distância.

Astor rangeu os dentes. O calor intenso das ondas de choque do raio queimou sua pele, mas sua atenção estava em outro lugar. Ela arquejou de pavor pelo que acontecera. Ela não pretendia aquilo. Embora não ligasse muito para aquele humano, não o desprezava tanto a ponto de querê-lo morto. Além disso, a barreira fora erguida em um instante, e ela não estivera ciente da posição dele.

Mas não importava quantas desculpas desse, não mudava o fato de que o raio desviado por sua barreira atingira o Mil Truques. Até Lapis empalidecera. O feitiço disparado contra elas fora extremamente primitivo por natureza. Usava uma quantidade imensa de mana para queimar um alvo, nada mais. No entanto, essa exata simplicidade limitava o número de manobras defensivas potenciais.

O Mil Truques quase certamente não esperava que o raio viesse em sua direção até que estivesse a centímetros de seu rosto. Com certeza, ele nunca teria ido para o lado dele se não fosse pela barreira colocada pela Starlight.

Com esses pensamentos inúteis girando em sua mente, Astor permaneceu plantada onde estava. Foi quando Kris quase a atropelou, agarrando-a pelos ombros e sacudindo-a.

— C-Calma, Astor! O humano fracote está bem!

— Hm?!

Lá estava o Mil Truques, exatamente como estava antes do ataque. Ele certamente parecia um pouco abalado, mas nem um pouco com medo do elemental.

— Essa passou perto! — disse ele.

Aquele raio não era, sem ambiguidade, algo que um humano pudesse sobreviver facilmente. Embora um Anel de Proteção ou algo do tipo pudesse ter tornado aquilo possível, um pouco mais de pânico ou medo deveria ser esperado. Então, e quanto a esse homem? Apesar da observação que fizera, ele olhava para o elemental com sua nonchalance habitual. Astor conhecia os rumores de sua Barreira Absoluta, mas vê-la pessoalmente ainda a fazia duvidar dos próprios olhos.

Embora tivesse perdido a racionalidade, o elemental pareceu entender que deveria temer alguém que pudesse sobreviver aos seus ataques. Ele mudou seu foco de Ansem para o Mil Truques.

Embora resistir a uma explosão tão imensa fosse incrível, apenas isso não derrotaria o elemental. Usar um movimento tão poderoso deixara o elemental um pouco mais fraco, mas a diferença entre ele e os caçadores ainda era insuperável. Era praticamente um milagre terem passado por aquele primeiro ataque. O tempo era tudo, e conseguir erguer uma barreira avançada no momento exato era difícil até para a Starlight. Como eles iriam superar aquilo?

O ar girou em um vórtice e, momentos depois, um acúmulo de energia que ofuscava o anterior se formou diante do elemental. No momento em que estava prestes a liberar—

— Peguei ela, Krai Baby!

— O quê?!

Astor olhou na direção da voz. Liz, em algum momento, escorregara para trás do elemental e estava removendo a companheira de raça de dentro da criatura. Com uma vara segurada na mão direita, ela rasgara o corpo do elemental, liberando uma torrente crepitante de mana. Embora o fluxo fizesse Liz ficar pálida como uma doente, ela não demonstrou medo ou hesitação.

— Aquela vara é feita de metal anti-mana, então pode romper defesas arcanas — informou-as Sitri. — Como estamos indo para Yggdra, achei possível que acabássemos lutando contra Espíritos Nobres. Parece que tomei a decisão certa.

Aquela vara deve ter sido o que Sitri atirara quando o Mil Truques dera seu comando. Isso implicava que uma única declaração fora suficiente para sua equipe entender instantaneamente seu plano. Ansem e Lucia atraíram a atenção do elemental, Sitri preparou um item adequado para a situação e Liz usou sua velocidade para resgatar a pessoa presa lá dentro.

Colocar dessa forma fazia parecer simples, mas certamente não era quando se considerava que o oponente era um elemental desconhecido e o indivíduo preso poderia estar vivo ou morto. Além disso, o Mil Truques não dissera nada específico. A Starlight não estava sem seu próprio conjunto de formações de batalha, mas nada como a telepatia que acabaram de testemunhar. Seria esse o verdadeiro poder da melhor equipe de jovens almas da capital imperial?

Sitri lançou um frasco de poção para Liz. No mesmo momento, o Mil Truques deu sua primeira ordem específica.

— Atacar!

Atacar?! Nós não vamos fugir?!

Aquilo era absurdo; não poderiam vencer. Enquanto um corte no abdômen mataria a maioria das criaturas, aquilo era um elemental, um ser com um corpo imaterial. Independentemente da surpresa de Astor, Lucia e Ansem puseram-se ao trabalho, quase como se acreditassem que o chamado de seu líder era o correto.

Tendo acompanhado de perto o desenrolar dos eventos, Lapis quebrou o silêncio.

— Hmph. Eu aprecio a exibição fascinante. Seríamos estúpidas em permanecer apenas como espectadoras. Apoiem os Grieving Souls! — gritou ela.

— O quê? Ah!

Se era assim que as coisas eram, então que fosse. Magia era a única coisa em que não podiam ser superadas. Feitiços de todos os tipos castigaram o elemental de múltiplas direções. O que normalmente seria um exagero em um monstro comum mal parecia ter efeito naquele inimigo. Após lançarem feitiço após feitiço, elas lentamente ficaram sem fôlego. Sentiram dores agudas na cabeça e a fadiga castigou seus corpos. Esses eram sinais inegáveis de privação de mana, mas não podiam parar ali.

Talvez confuso pelo massacre, o elemental permaneceu imóvel. Astor percebia que seu vasto reservatório de poder estava sendo lenta mas firmemente desgastado. No entanto, ainda os superava. Ela não conseguia imaginar como poderiam esgotar o poder do elemental antes que o delas acabasse.

O sangue já havia fugido dos rostos de Kris e Lapis. Mesmo com Lucia e seu vasto reservatório de mana, aquele elemental tinha energia demais para esgotarem. Astor continuou a conjurar com fervor impetuoso. Ela nunca se vira diante de uma batalha tão sem esperança. Cada segundo parecia minutos, dez ou vinte até. Após extrair o último de seu mana para atingir o elemental, sentiu sua força deixá-la enquanto caía no chão.

Ela não sentiu dor, apenas a exaustão puxando-a para baixo. Não conseguia mover um dedo. Seus ouvidos captavam apenas sons esporádicos de batalha. Enquanto ela e suas companheiras se drenaram completamente, o elemental perdera talvez um terço de seu poder. Se serve de algo, deveriam estar orgulhosas por terem conseguido tudo aquilo, considerando que fugir parecia ser sua única opção.

Eventualmente, os sons de luta pararam. Um silêncio arrepiante caiu sobre elas.

O que está acontecendo?

Forçando o corpo a se mover, Astor se contorceu para ter uma visão melhor. Viu todas colapsadas no chão e, no centro de tudo, o Mil Truques e o elemental parados um em frente ao outro. Mas não estavam lutando. Parecia quase que estavam conversando.

— O elemental recuperou o juízo?

************************************************************************************

Habilidades de julgamento eram um dos ativos mais importantes de um caçador. As condições de batalha podiam mudar tão rápido que fariam sua cabeça girar. Em Cofres do Tesouro que superavam a compreensão humana, não era raro que uma única resposta atrasada resultasse no fim de uma equipe.

O que estou tentando dizer aqui é que não há como eu, alguém com zero aptidão para a caça, ter uma habilidade necessária para caçar tesouros. Naquela época em que eu ainda participava das caçadas, a única razão pela qual um tolo como eu conseguia servir como nosso líder — um papel que presumo exigir bom julgamento — era porque o resto da equipe era talentoso o suficiente para compensar a diferença.

Embora eu tenha ficado surpreso quando Lucia começou a atacar, se foi isso que minha irmã — uma pesquisadora dedicada na melhor academia de magia da capital imperial — decidiu, então eu tinha certeza de que era a escolha certa. Eu só precisava lançar ordens vagas e todos responderiam conforme necessário. O problema era que, ao levar as coisas adiante dessa forma, tudo acontecia sem que eu entendesse o porquê.

Agora, como resultado de minhas próprias ordens malfeitas, encontrava-me cara a cara com um elemental misterioso. Ele tinha um corpo esférico grande. Dois olhos grandes e redondos olhavam diretamente para mim. Meus aliados estavam todos exaustos, particularmente todos na Starlight. Depois de liberarem uma ofensiva tão feroz, não conseguiam nem ficar de pé. Isso costumava acontecer muito com a Lucia quando começamos.

Meus amigos ainda estavam de pé, mas pararam para observar a situação. Com a respiração suspensa, eles nos vigiavam. Eu realmente não tinha a menor pista de como aquilo acontecera. Tudo o que eu fizera fora ser atingido por um raio de energia perdido do elemental e, depois, ordenar que todos atacassem quando vi uma abertura. Depois de ser castigado por duas das equipes mais famosas da capital, o elemental não tinha nenhum dano que eu pudesse discernir. O corte que Liz fizera para resgatar a pessoa lá dentro já havia cicatrizado.

Eu sabia que elementais eram oponentes formidáveis, mas mal podia acreditar que não apenas falhamos em combatê-lo, como nem sequer o ferimos. Embora ele pudesse ter sido desgastado, eu não tinha como confirmar.

Pelo que parecia, eu não receberia ajuda da sempre confiável Sitri, nem de Eliza, que parecia que deveria saber tudo sobre elementais. Achei que a Starlight viria em socorro aqui, mas todas estavam olhando para mim, sem mover um músculo. Vi uma delas movendo levemente os lábios, mas não consegui entender o que ela dizia. Digo, elas acabaram de me perguntar o que eu estava fazendo, e tenho certeza de que nada teria mudado se eu pudesse ouvir essa aí agora.

Agora, se eu conseguisse fazer esse elemental ir para outro lugar, ficaríamos bem. Mas como eu faço isso? Se fosse um humano, eu poderia tentar conversar com ele—

Espere. Segure as pontas.

A criatura flutuando diante de mim era a definição de um demônio, então apenas conversar provavelmente não nos levaria a lugar nenhum. Sem mencionar que Lapis disse que ele perdera a vontade. No entanto, se nossos ataques não fossem suficientes para derrotá-lo ou expulsá-lo, isso estreitava nossas opções.

Eu optaria pela rota do amor e da paz. Você nunca deve desistir de buscar o diálogo, mesmo que seja um demônio que esteja enfrentando. Mas, cara, tenho que dizer, não tenho falado com nada além de loucos ultimamente.

— Bem, acho que não tenho escolha — eu disse.

Lucia me dissera há muito tempo que negociar com elementais era feito de coração para coração. Embora eu não soubesse o porquê, o elemental parara de atacar. Era minha crença de que não era tarde demais para ter uma conversa genuína. Se as palavras não funcionassem, poderíamos usar mímica ou algo assim.

Preparando-me, respirei fundo. Abri meus braços bem largos. Justo quando eu estava prestes a abrir a boca, um brilho intenso emanou do elemental. Houve um som estranho, semelhante a um sino vindo de lugar nenhum, e o elemental mudou para uma forma humanoide. Fiquei surpreso. Presumi que ele ia atacar, mas aparentemente não. Fiquei ali parado, ainda com os braços abertos, e o elemental lentamente levantou seus próprios braços.

O que está acontecendo? E que som é esse?

Eu estava em um estado de total perplexidade.

— E-Eu não consigo acreditar que um elemental tão poderoso tentaria falar com um humano — disse Lapis. Apoiada em um joelho, ela nos observava com um olhar penetrante. — Vez após vez, você me surpreende.

— B-Bem, essas coisas acontecem às vezes.

Oh, então é isso! Aquele som é a voz dele! Agora que você mencionou, parece mesmo que está vindo do elemental bem na minha frente. Sinceramente, me enganou direitinho.

Mas agora que eu sabia que o elemental estava se comunicando com sons, eu tinha a solução perfeita. Era para isso que o cajado de tradução Volta ao Mundo servia. Ele ainda não se provara digno do alto preço que paguei, mas fiquei feliz em vê-lo ser útil com a estátua do Luke, e agora com o elemental.

Enquanto assentia com tudo o que o elemental dizia, chamei o Mimicky. Exceto que meu baú de tesouro geralmente responsivo não estava chegando nem um pouco perto.

Achei que vir quando chamado fosse uma das suas funções? Agora não é hora de brincadeira.

Quando Tino notou que eu acenava repetidamente, ela correu até o Mimicky e deu um cascudo na cabeça dele. Ele finalmente começou a se mover.

Talvez ela seja mesmo melhor com Relíquias do que— Não, pare com isso. Se a Tino me vencer nisso, meu nível será a única coisa a meu favor. Preciso recuperar minha honra.

Assim que o Mimicky se aproximou, abri sua tampa e puxei o Volta ao Mundo. Era minha hora de brilhar. Girando para encarar o elemental mais uma vez, ativei o cajado, permitindo-me entender o significado por trás daqueles sons estranhos.

(Pois bem, deposito minha confiança em você, jovem humano.)

— Ah. Tá bom.

Hã? E-Espere um minuto!

Com um aceno satisfeito, o elemental dirigiu-se ao Mimicky, cuja tampa ainda estava aberta.

(Agora, antes que eu perca o controle de mim mesmo novamente, vou me colocar para dormir dentro deste baú. O mundo ultimamente tem estado… denso demais com mana material.)

O elemental desapareceu dentro do baú de tesouro antes que eu pudesse impedi-lo. Então tudo ficou em silêncio. À primeira vista, mal se podia dizer que um elemental estivera ali em algum momento.

Uhhh. Imagino que o elemental tenha me pedido algo. Acho que ele nunca percebeu que eu não falo Elementês? Assentir provavelmente não foi a ideia mais inteligente. E agora, o que eu faço?

Tendo assistido ansiosamente à minha troca com o elemental, Lucia correu até mim.

— I-Irmão, você está bem?! Você negociou com um elemental…

Digo, não era exatamente isso que eu pretendia, por si só.

Independentemente de como chegamos aqui, conseguimos repelir o elemental, e Deus, fiquei aliviado em ver que todos estavam bem.

— Hmph. Então ele estava se afogando em mana? — disse Lapis. Embora instável, ela estava de pé agora, sugerindo que se recuperara um pouco. — Você ordenou o ataque, pretendendo desgastar sua energia e restaurar sua sanidade. A densidade de mana do ar estava me incomodando, mas se é o suficiente para enlouquecer um elemental tão poderoso, então talvez nem tudo esteja bem em Yggdra.

— É, com certeza!

Lapis evidentemente não precisava de uma Relíquia para entender o que o elemental dissera. Então minha sorte não era de todo ruim se pelo menos alguém ali sabia o que me fora pedido. Eu teria que verificar com ela mais tarde. Que alívio. Se não fosse por ela, poderíamos estar avançando sem a menor ideia do que estava acontecendo (algo que acontecia o tempo todo).

O próximo item na agenda de Lapis era lidar com suas membras de equipe exaustas.

— Bem, parece que vocês perderam a apostinha de vocês — declarou ela. — Se o que o elemental disse for verdade, então este homem não tem nada a ver com o problema do nosso portão. Não termina aí; ele também acaba de aceitar o pedido do elemental sem a menor hesitação. Eu não deveria ter que dizer a todas vocês que tipo de dívida temos com ele. Fui clara?

— Viu, o que eu disse?! Não é culpa do humano fracote!

As outras caçadoras da Starlight baixaram a cabeça em silêncio. Sua assertividade habitual tornava aquela exibição tímida ainda mais desconfortável. Além disso, mal se podia dizer que aceitei algo quando eu não fazia ideia do que estava ouvindo. E que dívida tinham comigo? Por mais que eu não gostasse de ser difamado, eu era igualmente avesso a ser elogiado por coisas que não fiz de verdade.

— Não se preocupem com isso — eu disse rapidamente a Lapis. — Eu não estava pensando nisso em termos de favores; estava apenas fazendo o que eu queria. Vocês também não precisam se incomodar com a aposta. Não foi uma aposta justa.

Com os termos da minha derrota tão ofuscados, a aposta estava bem a meu favor. Quanto ao pedido do elemental, eu ainda não decidira se ia aceitá-lo. Claro, aquele “Tá bom” escapara, mas nada estava definido ainda. O grande problema era quando verificar isso com a Lapis. Franzi a testa, esperando que a oportunidade se apresentasse.

Uma membra da Starlight levantou-se. Dando-me um olhar rancoroso, caminhou até mim, ainda cambaleando um pouco. Ela tinha traços refinados e olhos como pedras preciosas. Não pude deixar de congelar em sua presença.

— Eu— não, nós estávamos erradas — disse a Magi em voz baixa. — Por todas as nossas palavras descorteses e suspeitas injustificadas, pedimos desculpas, Mil Truques. Perdoe-nos. Senhor.

Quando a Magi baixou a cabeça, suas companheiras a seguiram. Eu realmente não esperava uma rendição completa vinda delas. O que pensariam se descobrissem que eu nem conseguia lembrar seus nomes? Agora, em minha defesa, elas nunca iam à Casa do Clã, então eu quase nunca interagia com elas.

Kris olhava desanimada para aquelas cabeças baixas, embora eu não soubesse exatamente o porquê.

— Você deveria perdoá-las. Senhor — disse ela. — Até a Astor está oferecendo um pedido de desculpas educado. É que, bem, acho que elas apenas não entendem você.

— Bem, está tudo bem — respondi. — Eu, por exemplo, não posso culpá-las por suspeitarem de mim lá atrás.

Mais do que isso, estou apenas surpreso que a Kris não seja a única que usa “Senhor” desse jeito.

Parado ali, sem saber o que fazer, vi-me cercado pelas outras membras da Starlight.

— Você é um cara legal. Senhor. Acho que tínhamos a ideia errada sobre você. Pensei que os níveis não passavam de bobagem inventada pelos humanos, mas talvez eles tenham razão em algo. Senhor.

— Você restaurou a sanidade de um elemental quase divino e também resgatou uma das nossas. Você é bom demais para ser um humano. Agora eu sei por que a Lucia te admira tanto. Senhor.

— Não apenas isso, ele nem hesitou antes de aceitar o pedido do elemental! Você conquistou um amigo! Senhor!

Todas falavam comigo com entusiasmo, seu desdém anterior desaparecera sem deixar rastro. Observando essa reviravolta, a bochecha de Lucia começou a tremer e Kris resmungou consigo mesma.

Os Espíritos Nobres eram sempre tão amigáveis assim? Ei, eu ainda não sei o que aquele elemental me pediu. Por mais que eu queira, não tenho certeza se posso recusar agora.

— Aqui, humano. Não é o suficiente, mas vou te dar um dos meus tesouros para mostrar o quanto sinto muito! Cuide bem dele! Senhor!

— Oh, n-não, eu não quero isso de verdade…

Além dos elogios efusivos, Astor tentava me dar um anel dela, um cravejado com uma gema verde. Embora eu tenha ouvido que os Espíritos Nobres eram conhecidos por serem frios com humanos e calorosos com seus amigos, acho que passamos de um para o outro rápido demais. Eu não podia aceitar algo tão precioso para ela — isso só tornaria mais difícil dizer que eu não podia cumprir o pedido do elemental. Eu também não tinha mais espaço nos dedos.

Astor pareceu momentaneamente magoada com minha recusa, mas logo teve outra ideia. Alcançando o bolso, puxou uma faca, que passou imediatamente por seu longo cabelo. Assisti em choque e total confusão enquanto uma mecha de fios dourados flutuava para baixo. Com um sorriso orgulhoso, ela me ofereceu o cabelo.

— Aqui, se você não precisa de tesouros, então compartilharei um pouco do meu cabelo com você! Um sinal da minha gratidão por aceitar o pedido do elemental. Nosso cabelo é um catalisador mágico precioso. Seja grato, algo assim normalmente é proibido para os humanos. Senhor!

Todos olharam para Astor em um silêncio atônito. Sitri, em particular, tinha a mão sobre a boca e usava uma expressão de surpresa e alegria. Era o tipo de olhar que ela fazia quando presenciava uma sorte inacreditável. Invejei a habilidade dela de focar em suas prioridades.

— Oh. Certamente.

Eu não via nenhuma maneira de dizer não, não quando o cabelo já fora cortado.

Acho que tenho que aceitar o pedido do elemental, agora que chegou a este ponto. Quero vomitar.

Kris arrastou-se até mim e perguntou lentamente:

— Aqui, humano fracote, eu deveria, uh, te dar um pouco do meu também? Senhor?

— Primeiro, você poderia fazer a Astor e as outras pararem de me chamar de senhor? É confuso.

— Hm?!

Por que você está ficando competitiva?! Eu não pedi por isso! E isso é pesadamente estranho para uma mecha de cabelo!

Por enquanto, eu poderia dar o que tinha para a Sitri, já que ela estava olhando para aquilo com olhos gananciosos. Isso não resolvia o problema dos olhares expectantes que me devoravam. Eu não pretendia restaurar a sanidade daquele elemental, nem pretendia aceitar o seu pedido. Os olhares calorosos da Starlight eram abrasadores. Que a atitude delas para comigo tivesse mudado tão severamente era simplesmente assustador. Eu realmente concordara em fazer algo tão importante?

No momento seguinte, ouvi a voz ligeiramente mal-humorada de Liz vinda de além do círculo de Espíritos Nobres.

— Krai Baby, fiz como você disse e cuidei desta garota, então venha dar uma olhada, ok?! Acho que ela está prestes a acordar!

Quase no exato momento em que nos reunimos ao redor dela, a Espírito Nobre começou a tossir.

— Ah, ahhh — disse ela com uma voz rouca.

Ela tinha um corpo magro e frágil. Seus olhos verde-claro eram do mesmo tom de seu longo cabelo, que ela mantinha preso. Tinha exatamente aquele tipo de pele de porcelana radiante que os humanos imaginavam que todos os Espíritos Nobres possuíam. Embora orelhas pontudas se projetassem entre as mechas de seu cabelo, suas feições deslumbrantes eram o suficiente para indicar que não era humana. E, eu confesso que já esperava por isso, sua altura e voz não batiam nem um pouco com a pessoa para quem eu tinha entregado minha Cynosure.

Então, quem era aquela outra então?

— Consigo detectar um fluxo constante de mana por todo o corpo dela. Sem falar no cabelo e nos olhos — disse Lapis com admiração. — Então esta é uma habitante de Yggdra? Dizem que esse povo vive em harmonia com a natureza e mantém o equilíbrio do mundo.

Hã? Dá para saber só de olhar? Cabelo e olhos verde-claro são provas de que alguém é de Yggdra?

Lucia olhou para a Espírito Nobre com os olhos arregalados.

— Não apenas consigo sentir nela um poder semelhante ao que corre pelas linhas ley, como o fluxo é desobstruído — ela arquejou. — O poder da Starlight é claramente um nível acima de qualquer humano, mas isto aqui vai ainda além.

— É um ambiente de mana plácido — acrescentou Lapis com um aceno de cabeça. — Treinando enquanto se torna um com a natureza, você pode obter um estado oposto ao seu turbilhão enfurecido, Lucia Rogier. Embora eu nunca tenha visto tal placidez antes. Na verdade, eu diria que isso a torna mais um elemental do que uma pessoa.

Espero que um dia eu encontre uma Relíquia que me permita ver a mana para que eu possa dizer coisas legais assim.

A garota de Yggdra começou a tossir, como se ainda tivesse um pouco do elemental preso na garganta.

— Acredito que ela seja o nosso guia. Tínhamos combinado de nos encontrar do lado de fora — disse Eliza. — O elemental disse que o fim do mundo está se aproximando. O que diabos aconteceu em Yggdra?

Ah, parece que vem mais problema por aí… Espera, você disse fim do mundo?

Mal consegui manter minha expressão neutra enquanto uma careta ameaçava se formar. De repente, eu não queria mais ir para Yggdra. O Luke realmente poderia ter escolhido um momento melhor para virar pedra. Embora eu não gostasse de incomodar o Ark com tarefas pequenas, aquilo era obviamente algo para ele resolver. Eu queria me esconder dentro do Mimicky, mas agora tinha aquele elemental lá dentro. Pelo menos consegui evitar que minha luta interna transparecesse no rosto.

Depois de finalmente recuperar os sentidos, a garota de Yggdra olhou para nós. Nossos olhos se encontraram. Aquelas íris verde-claro eram tão límpidas que achei que pudesse ver diretamente o coração dela. Havia algo nela muito mais etéreo do que qualquer elemental.

Seus olhos cautelosos passaram por todos nós antes de abrir seus lábios cor de rosa.

— Vocês são todos… Oh, entendo. Disseram-me que um grupo viria de fora. É verdade! Onde está Milesse?!

— Se você se refere ao elemental, ele está vivo — respondeu Eliza. — Depois de recuperar o controle, ele se abrigou em um lugar seguro. Ele nos contou o básico, mas gostaríamos de ouvir mais. O que está acontecendo aqui?

Eu não queria ouvir mais nada. Infelizmente, isso não ia acontecer, então escondi minha relutância sob uma fachada de durão.

Eliza agarrou meu armou e praticamente me empurrou para a frente da Espírito Nobre.

— Este é Krai Andrey, aquele que encontrou a pedra amaldiçoada. Ele é conhecido por ser uma das pessoas mais inteligentes da capital imperial. Se você falar com ele, talvez encontremos uma solução.

— O quê?! Eliza, não diga isso. Não sou nem um pouco inteligente. Há muitas coisas que eu não sei — eu disse com um dar de ombros.

Eu não entendia por que Eliza tinha uma opinião tão elevada de mim. Talvez ela estivesse apenas inventando as coisas conforme avançava, do mesmo jeito que eu fazia.

A garota de Yggdra olhou para mim, como se tentasse decidir se havia alguma verdade em minhas alegações de falta de inteligência.

— Pois bem. — Ela assentiu e se levantou. — Descobrir a Pedra Amaldiçoada de Shero é um grande feito, independentemente da origem de alguém. Além disso, há a questão do meu aparente resgate. Embora isso não seja algo que eu normalmente compartilharia com humanos, estou em dívida com vocês. Meu nome é Selene, e eu sou uma… guia de Yggdra. Vamos continuar em frente. Ao longo do caminho, contarei tudo sobre a destruição iminente que estamos enfrentando e as circunstâncias ao redor.

Embora tivéssemos vindo aqui apenas para curar o Luke, o clima predominante me impediu de dizer isso a ela. Eu gostaria de ser como meus amigos e dizer não quando eu quisesse. Olhando para Liz, vi-a encarando Selene com entusiasmo.

— O quê?! O mundo vai acabar? — ela dizia. — Conte-me mais! Não consegui entender nada do que aquele elemental estava falando!

Sorte a minha que a única pessoa capaz de dizer não estava dizendo sim.

Selene removeu de sua bolsa uma Cynosure como as nossas e a segurou pelo cordão de couro. Ela girou algumas vezes e depois parou totalmente. Apontava apenas para uma única direção, ao contrário das nossas que estavam descontroladas.

— As Cynosures estão fixas?

— Se as Cynosures estavam agindo de forma estranha, deve ter sido por causa de Milesse. Ela é um dos elementais mais poderosos de Yggdra.

— Espere. Um Magi de Yggdra comanda aquele elemental divino?! — perguntou Lapis.

Supostamente, quanto mais poderoso era um elemental, mais difícil era formar um contrato com ele.

Selene pareceu momentaneamente perturbada antes de balançar a cabeça.

— Não, ela simplesmente coopera conosco. Desde a antiguidade, mantemos relacionamentos próximos com os elementais. Eles normalmente fornecem proteção à floresta, embora com a instabilidade recente, eles têm nos acompanhado como escoltas. Para um elemental que protege esta floresta há tanto tempo perder o controle é, bem, sem precedentes. É completamente inesperado.

— Hmm. Completamente inesperado… — murmurei sem querer.

Selene olhou para mim.

— O quê?

— Oh, nada demais.

Embora eu não soubesse o que tinha acontecido, acabei apenas repetindo as palavras dela quando disse que aquele problema fora o suficiente para enlouquecer um guardião veterano de uma terra lendária. Não era diferente de intervir com um “É mesmo” ou um “Entendo”.

Vi-me olhando para o céu. Apesar do nome grandioso “Corredor da Árvore Divina“, o céu aqui era azul, exatamente como em qualquer outro lugar. Com um suspiro, virei-me e olhei para cada um dos meus companheiros. Eles estavam esperando pacientemente que eu terminasse minha pequena rodada de escapismo.

— Não, não é nada — eu disse. — Por enquanto, parece que não temos muito tempo. Embora eu não queira fazer promessas que não possa cumprir, vamos começar chegando a Yggdra.


Tradução: Rudeus Greyrat
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Tradução feita por fãs.
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