Grieving Soul – Capítulo 2 – Volume 9
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 09
Capítulo 02:
[Aqueles Que Foram Amaldiçoados]
— Mmmm. N-Não, Mestre. Agora não é hora para ficar aí acenando— Ah! Eu estava sonhando?
Tino Shade era uma caçadora. Através da experiência e das lições da Liz, ela foi treinada para que pudesse responder a qualquer situação, não importava o quão cansada estivesse. Ela se sentou em sua cama encharcada de suor e, ao fazer isso, as memórias do incidente da maldição de ontem voltaram correndo, fazendo-a segurar a cabeça e soltar um suspiro profundo.
Tino testemunhou pessoalmente tudo se desenrolar, mas ainda assim, aquilo provava estar além de sua compreensão, como algum ato divino. Ela não entendia o propósito de nada que levou ao baú, mas o que aconteceu dentro do Mimicky atingiu uma nova magnitude de incompreensibilidade. No início, achava que tinha entendido a situação até certo ponto, mas no final, enquanto fugia por sua vida, tudo terminou em questão de minutos.
A última coisa que viu foi aquela cidade estranha sendo inundada por água negra, e seu mestre acenando calmamente com a mão. Aquele ataque, embora não tivesse certeza se podia sequer chamá-lo assim, era definitivamente grande demais para qualquer humano suportar. Era um poder avassalador e místico, demais até para um exército. Ela mal conseguia acreditar que alguém pudesse fazer algo a respeito daquilo tudo sozinho. Tino estava sempre elogiando seu mestre como um deus, mas até ela estava um pouco, não, bastante perturbada. Tinha certeza absoluta de que ele ia selar a maldição dentro do Mimicky.
Pensando bem, o Mestre nunca me deu uma resposta clara quando sugeri isso…
Ela não era estranha aos seus métodos únicos, mas não se via alcançando-o, não importa quantos anos ou mesmo décadas treinasse, apesar de terem dito que era bastante talentosa. Além disso, aquele foi um oponente que dominou até os outros membros da Grieving Souls. Exceto que, quando olhava dessa forma, a jovem não conseguia entender por que ele se deu ao trabalho de levar a maldição por toda a cidade.
Não me diga… que foi para testar todos eles…!?
Ao longo de todos os pesadelos que suportaram, o que caiu sobre eles ontem foi definitivamente um dos piores. Seu corpo estava esgotado, assim como seu espírito. Passar por várias Provações a levou a pensar que estava acostumada a esses tipos de desafios, mas esse encontro aterrorizante a ensinou que ainda havia muito o que desconhecia sobre o mundo.
Ela não conseguia se lembrar claramente do que aconteceu após ser resgatada do Mimicky. Naquele ponto, já tinha perdido contato com a realidade. Na época, estava como um zumbi, incapaz de fazer nada além de escapar com seu mestre, que acabou de fazer algo tão extraordinário que a aterrorizava. Dizem que os humanos temem o que não conseguem entender, e eram provavelmente os instintos da Tino que estavam segurando as rédeas.
Tino queria tanto dormir. Desejava rastejar para a cama e não pensar em mais nada, mas agora não era hora para isso. Embora seu corpo estivesse rígido, recuperou-se o suficiente para que pudesse pelo menos caminhar por aí. Ontem, ela fez uma tentativa vergonhosa de escapar; agora precisava recuperar sua honra. Seu mestre devia estar preocupado com ela. Achava que ele estava; realmente esperava que sim.
Como em tantas outras manhãs, foi graças ao seu treinamento rigoroso que conseguiu sair da cama. Instigando seu espírito parcialmente quebrado a seguir em frente, tomou um banho e se vestiu rapidamente. Sabia como continuar quando queria fugir, seguir em frente antes que o impulso a deixasse cair de volta.
No caminho para a Casa do Clã, a capital imperial estava cheia de conversas sobre a maldição. A sede do clã Primeiros Passos estava como de costume, uma presença imponente em uma das melhores áreas da cidade. Era quase estranho o quão pouco mudou apesar de um ataque de um demônio monstruoso. Ouviu dizer que maldições nascidas das vontades de criaturas vivas só podiam ferir aqueles que também vivem e respiram, e parecia que aquilo era verdade. E se ela era supostamente um ser vivo, e continuava sendo um após ser perseguida por aquela maldição, então basicamente…
O Mestre é um Deus!
Preparando-se, subiu correndo as escadas para o escritório do mestre do clã. Abriu a porta e encontrou o centro do caos de ontem, seu mestre, segurando um cajado e parado diante do Mimicky. Prestes a dizer olá, parou no caminho e ficou observando.
— Tudo bem, Mimicky. Repita depois de mim: o-lá.
O Mimicky não disse nada.
Mestre, eu te imploro, por favor, pare de fazer coisas tão estranhas!
Tino queria pensar nas excentricidades de seu mestre como algo bom, mas seu coração não conseguia acompanhar as mudanças rápidas em seu comportamento. Percebendo-a, ele sorriu, cajado ainda na mão.
— Ah, Tino, bom dia. Está se sentindo melhor?
— S-Sim, e estou feliz em ver que o senhor também está bem. — Ela encarou com um olhar de súplica e falou hesitante. — A propósito… o que exatamente o senhor está fazendo?
Parecia que ele estava conversando com o baú do tesouro. Talvez estivesse apenas um pouco cansada. O cajado que ele segurava tinha uma grande gema fixada no topo e parecia vagamente cerimonial. Tinha-o visto algumas vezes ao visitar os aposentos dele. Não sabia que tipo de poderes o objeto possuía, mas se ele escolheu trazê-lo para fora no dia seguinte ao caos com a maldição, então devia ser incrível, algo que não conseguia nem imaginar.
Ele sorriu.
— Eu queria ver se conseguia conversar com o Mimicky. Afinal, este baú do tesouro é muito especial.
— É-É mesmo?
Eu não entendo. Claro, o Mimicky tem uma boca, mas…
Após resolver o problema da maldição, e distribuir Provações como se fossem doces, ele deveria ser a pessoa mais procurada na capital imperial. Nobres e a Associação de Caçadores deveriam estar chamando por ele para aprender o que ele sabia. Ir direto para a Casa do Clã já era questionável o suficiente; por que ele estava apenas brincando aqui?
Tino não sabia por quê, mas sentiu seu coração bater mais forte. Com certeza, aquilo não era amor. Tinham dito a ela que um caçador experiente não podia ser abalado por nada, e realmente queria saber quando chegaria a esse ponto. No momento, sentia-se mais próxima do ponto de resignação.
— Cara, que saco — disse seu mestre. — Depois de ontem, começou a aparecer todo esse pessoal querendo falar comigo. Agora a Eva está toda ocupada.
— Hm?
Aquilo explicaria por que ele conseguia conversar casualmente com seu baú do tesouro. A Vice-Mestra do Clã, Eva, passou talvez por tantas provações quanto Tino. Eva podia não ter estado em nenhum perigo mortal, mas o artifício sobre-humano a transformou em um bode expiatório, então era difícil dizer quem estava em pior situação.
A palavra “bode expiatório” fez as coisas clicarem na cabeça de Tino.
— Se a Eva-san está sendo sacri-! Sendo enviada no seu lugar, isso significa que o senhor está lidando com outra coisa?
— Ahh, sim. É isso. Estou muito ocupado com outra coisa. Além disso, mesmo que eu atendesse aos chamados deles, não há muito que eu possa fazer por eles. Hmmm. Tenho certeza de que o Carpy-kun tem vontade própria, então acho que isso significa que o Volta ao Mundo não funciona sem voz.
Enquanto Krai murmurava para si mesmo, o Carpy-kun permanecia completamente sem resposta. Enquanto isso, a mente de Tino estava em outro lugar. Ideias flutuavam por sua cabeça, nenhuma delas bem-vinda. Nada de bom acontecia quando seu mestre dizia que estava ocupado com outras coisas. Poderia haver uma calamidade iminente ainda pior do que aquelas maldições? Ela mal conseguia imaginar algo pior do que aquele Espírito Nobre.
Será que o incidente ainda não acabou?
— M-Mestre? Sobre as maldições de ontem—
Ele apontou para a mesa.
— Oh, elas devem estar bem ali. Mas a Eliza levou a gema…
Havia um cajado e uma espada negros colocados na frente de um ursinho de pelúcia com um pingente de cruz no pescoço. O anel que Tino encontrou dentro do Mimicky foi enfiado no braço do urso.
— UM CONJUNTO DE CINCO?!
— Mas vou devolver a espada e o cajado. Assim que alguém me pedir.
Ele realmente estava apenas mexendo com as maldições que causaram estragos na capital imperial. A gema espiritual, a mais aterrorizante do grupo, não estava aqui, mas ele ainda estava brincando com fogo. Claro, isso poderia ser um sinal de como ele tinha tudo sob controle, mas observar aquilo estava acabando com o coração da Tino. Seu coração estava sempre batendo forte; que bem poderia vir de torná-lo ainda pior?
— Ah, é mesmo. — Ele olhou para Tino como se tivesse acabado de perceber algo. — Tinha uma coisa que eu queria conversar com você.
— P-Pode falar. O que é?
O Mestre quer falar comigo?
Seu coração bateu ainda mais rápido, logo quando ela achou que ele atingiu seu limite. Nesse ritmo, ela poderia acabar adquirindo a Sombra Partida da Liz. A técnica envolvia acelerar deliberadamente o próprio coração para ganhar uma explosão de velocidade, mas sem o treinamento adequado, poderia fazer o coração explodir. Seu corpo parecia quente. Quente, mas frio. Seus nervos a estavam sobrecarregando, fazendo-a sentir que poderia desabar.
Seu mestre abriu a boca, prestes a continuar, quando a porta se escancarou.
— Krai Baby, isso é ruim! Venha rápido!
Liz voou para dentro da sala. Tino tremeu por reflexo. Liz, no entanto, ignorou-a e foi direto para o Krai. Ela era uma pessoa de pavio curto, mas era raro vê-la tão em pânico. O mestre da Tino estava tão perplexo quanto ela.
— O-O que aconteceu?
— Só vem!
Ele olhou ao redor freneticamente enquanto Liz agarrava sua mão. Seu olhar parou em Tino, mas se o amigo de infância da Liz não conseguia pará-la, então Tino também não conseguiria.
— Tudo bem, eu vou! Tino, você também.
— Hein? Ah, t-tudo bem.
Ele empurrou o cajado para ela. Ela devia assumir que deveria trazê-lo consigo? Liz só pediu pelo Krai, mas se ele disse para ela vir junto, então ela tinha pouca escolha a não ser ir. Arrastado pela Liz, ele seguiu adiante, parecendo desconfortável. Segurando o cajado pesado, Tino certificou-se de não ficar para trás.
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Depois de passar de repente pelo meu escritório, Liz me puxou para fora, onde as conversas a respeito das maldições que haviam se espalhado recentemente ainda continuavam. Felizmente, parecia que não se espalhou a notícia de que eu era a fonte de tudo aquilo. Provavelmente porque seria um grande problema se todos soubessem que um caçador de Nível 8 causou tantos problemas. Como eu deixei a limpeza para a Eva, tinha certeza de que se acalmaria em breve. Ao lidar com o público, confiar nela era a estratégia ideal.
Todos olhavam enquanto Liz me arrastava. Como eu era egoísta demais para não compartilhar o sofrimento, Tino não estava longe atrás, cambaleando enquanto carregava o Volta ao Mundo.
Por que você está carregando esse cajado? Não é pesado?
Liz me levou a algum lugar onde eu andava terminando muito ultimamente, o dojo do Santo da Espada. Algo deve ter acontecido, já que o portão destruído estava cruzado por fita de isolamento e uma multidão estava reunida do lado de fora. Bem na frente estavam alguns cavaleiros severos conversando entre si. Liz rompeu a multidão e me levou para além do portão.
O que vi naquele terreno amplo me deixou sem palavras. Havia dezenas de estátuas que lembravam espadachins. Tino soltou um pequeno grito. Respirando fundo, aproximei-me de uma delas. Sua expressão era séria, seus olhos bem abertos. A espada que segurava não era de pedra, mas uma real. A coisa toda foi tão bem feita que era sobrenatural.
Com o sangue fugindo de seu rosto, Tino puxou minha manga.
— P-Poderia ser isto…
— E-Estas são algumas estátuas muito bem feitas…
Não me lembro de haver estátuas da última vez que estive aqui, mas talvez seja impressão minha?
Olhei para elas uma de cada vez, dando em algumas uma batidinha leve. Cada uma era intrincadamente feita e não havia duas idênticas. Na verdade, eram humanos. Por mais que eu não quisesse acreditar, era óbvio até para mim.
Essas pessoas foram transformadas em pedra. Que estraaanho.
— B-Bem, tenho certeza de que isso acontece o tempo todo.
Os olhos finos e brilhantes de Tino se arregalaram.
— Hein? O quê?! I-Isso acontece com frequência?!
— É, você vê isso o tempo todo na mitologia e nesse tipo de coisa.
Eu tinha uma boa ideia da causa de tudo aquilo. Ontem mesmo, tal causa esteve me perseguindo por aí. Não eram apenas dez ou vinte estátuas; havia toneladas delas.
Quem disse que o incidente de ontem não teve quase nenhuma baixa estava mentindo descaradamente.
Liz me chamou com a mão.
— Krai Baby, aqui!
Eu já queria vomitar, mas achei melhor ir até ela. Ao lado da Liz havia uma gaiola de pedra. Lá dentro, uma estátua agarrava as barras, sua boca escancarada em um rugido. Era o Luke. Perto dali estava o Santo da Espada, segurando gravemente uma espada. Eu tinha mais ou menos previsto isso, mas ficar cara a cara com aquilo realmente me tirou o fôlego.
O Luke era poderoso, mas sempre se especializou em poder ofensivo. Ele sofreu uma série de ferimentos graves ao longo dos anos porque sempre liderava o ataque apesar de sua falta de defesas, e aflições eram sua maior fraqueza. Ainda assim, com o seu Mana Material, eu estava sob a impressão de que ele não sofreu nenhum ferimento sério ultimamente.
Chegando bem perto, olhei nos olhos abertos do Luke, mas não consegui fazer com que focassem em mim.
Certo, aquela maldição disse algo sobre garantir que ele nunca mais segurasse uma espada na vida.
— Krai Baby, o Luke ainda está vivo, não está?
De alguma forma, lutei contra minha perplexidade e me fiz parecer sério.
— P-Por enquanto, que tal colocarmos uma máscara ou algo nele para que a poeira não se acumule em sua boca?
A primeira coisa que você faz quando é jogado em uma situação desconcertante é organizar os fatos. Assim que souberam que eu era um caçador de Nível 8, os cavaleiros estavam dispostos a compartilhar o que tinham aprendido através de suas investigações. Segundo eles, a notícia deste incidente não se espalhou porque todas as testemunhas foram transformadas em pedra. Além disso, a maioria dos cavaleiros esteve fora da capital para escoltar o Espírito Nobre Xamã, e o resto estava espalhado investigando os incidentes das maldições. A combinação dessas circunstâncias significava que a informação sobre as estátuas demorou a circular.
Os dojos dirigidos pelo Santo da Espada eram uma das instituições mais importantes do império. Quando os cavaleiros estavam com pouco pessoal, aprendizes eram frequentemente mobilizados para eliminar monstros e bandidos. Não havia como dizer quão grande poderia ser a perda deles.
Pelo que parecia, todos no dojo principal foram transformados em pedra. Acho que aquele Espírito Nobre amaldiçoado… acho que a Eliza a chamou de Shero? Realmente não gostou do comportamento maníaco do Luke. Verifiquei cada uma das estátuas. Entre elas, encontrei aquele cara que tinha se apaixonado pela Lucia.
Várias e várias vezes, examinei seus rostos solenes. — Cara, quem diria que eles seriam transformados em pedra? — suspirei.
— Parece que usou um poder diferente do que uma besta mítica poderia usar. — Com uma palidez fantasmagórica, Tino inspecionou uma estátua. — Estou impressionada que tenha funcionado em alguém como o Luke…
Algumas bestas míticas, como o cocatriz, eram capazes de transformar seus inimigos em pedra. No entanto, elas compunham uma parte muito pequena dos monstros por aí, e a resiliência reforçada pelo Mana Material tinha um efeito maior em aflições fatais. Em um certo nível, os caçadores simplesmente não eram afetados por ataques petrificantes. Que todos em um dojo renomado tenham sido transformados em pedra era quase impossível de acreditar.
— O método de cura dependerá de como a petrificação foi infligida. Nós definitivamente seremos capazes de curá-los. Já ouvi falar de pessoas usando poções, ou às vezes magia!
Enquanto Liz ia chamar o Ansem, fiz o meu melhor para consolar a Tino. No entanto, a visão de todas essas estátuas mal parecia real. Eu vi todos os tipos de coisas desde que me tornei um Caçador de Tesouros, mas petrificação foi a primeira vez.
Não muito longe do Luke estava o Santo da Espada, ainda segurando uma lâmina. Olhando para ela, percebi o quão detalhadas essas estátuas eram. Ele era um homem famoso, com estátuas dele em vários de seus dojos, mas eu nunca vi uma tão bem feita. As outras estátuas que eu vi supostamente incluíam alguns embelezamentos do escultor, mas nada podia se comparar ao impacto da coisa real.
No entanto, enquanto eu olhava para ele, um leve sentimento de insatisfação brotou dentro de mim. Eu acreditei no poder do Santo da Espada. Pensei que, se houvesse alguém que pudesse cortar uma maldição, poderia ser ele. Claro, eu não podia reclamar abertamente que ele não apenas falhou em fazer qualquer coisa, como também acabou petrificado. Mas ele não poderia ter pelo menos feito um pouco mais?
— Depois de ouvir que você superou uma maldição, eu esperava mais de você — sussurrei enquanto olhava naqueles olhos arregalados que não piscavam.
— Uh, ummm, M-Mestre?
Não que eu tenha qualquer direito de dizer isso depois de ter corrido por aí sem rumo. Bem, ele é uma estátua, então acho que dá no mesmo.
A magia do Ansem ou as poções da Sitri provavelmente resolveriam o problema. Ou talvez pudéssemos apenas perguntar a um Espírito Nobre, já que a maldição de um Espírito Nobre causou isso. Com uma máscara agora sobre sua boca, dei um tapinha na estátua do Luke. Respirei fundo quando senti aquela superfície fria.
Ah, meu Deus, finalmente está começando a parecer real. Acho que vou vomitar.
— Ele está tão frio. O Luke se tornou o Estátuke…
— Hm? Mestre, o senhor consegue ouvir algo vindo do Luke?
— Hein?
Aquilo me pegou de surpresa. Olhei para o Luke e escutei atentamente. Era fraco, mas eu podia de fato ouvir algo estranho. Era uma voz, mas mais como um estrondo que você sentia nas entranhas. Encostei o ouvido mais perto e, com certeza, a fonte era a estátua do Luke.
— O que poderia ser? — Tino perguntou.
— Bem, é uma estátua do Luke…
O Luke sempre teve uma inclinação para fazer coisas inacreditáveis, então nada era absurdo demais quando se tratava dele.
Será o batimento cardíaco dele? Um gemido? Um rugido? Não é como se eu pudesse quebrá-lo para descobrir.
O grande cajado aninhado nos braços da Tino chamou minha atenção. Aquele era o Volta ao Mundo, um cajado Relíquia que tornava possível a comunicação com qualquer criatura. Era coloquialmente conhecido como um cajado de tradução, mas o que ele fazia era tecnicamente algo um pouco diferente. Ele não analisava palavras, mas transmitia as intenções por trás dos sons. Portanto, não podia traduzir texto e não funcionaria se não houvesse som.
Embora não funcionasse no Mimicky ou no Carpy-kun, se houvesse vontade por trás desses ruídos vindos do Luke, então o cajado deveria ser capaz de transmitir o que significavam. Tino me observou seriamente enquanto eu pegava o cajado e o ativava. Exatamente como eu esperava, ele me informou o que o estrondo significava.
Franzi a testa, o que foi imediatamente seguido pela chegada da Liz. Com ela, não trazia apenas o Ansem, mas toda a equipe Grieving Souls, incluindo a Eliza. Aquilo não acontecia com frequência.
— Krai Baby, eu trouxe todo mundo!
Assenti.
— Mmm.
Todos vieram correndo em nossa direção.
— Nossa — disse Sitri. Sua mão cobriu a boca em uma demonstração do que parecia ser um choque exagerado. — Quem diria que o Santo da Espada e seus alunos poderiam ser aniquilados assim?
Ansem grunhiu em concordância.
— Por que o Luke está dentro de uma gaiola? — Lucia perguntou com exasperação.
Bem, estamos falando do Luke. Cara, vocês não parecem muito abalados com isso.
Não apenas ele sobreviveu a ter seus membros explodidos e ser engolido por monstros, o Luke atualmente abrigava um grande reservatório de Mana Material dentro dele. Apesar de se especializar em poder de ataque, ele passou por todo tipo de provação e ainda se saiu bem. Todos na equipe, inclusive eu, estávamos plenamente cientes do tipo de coisa de que ele era capaz.
Com sua habitual letargia, Eliza deu um passo à frente e inspecionou a estátua. Ela supostamente estava se preparando para levar a gema de volta para sua terra natal, mas evidentemente ainda não partiu.
Após uma breve verificação, ela olhou para cima.
— Como foi uma maldição que os petrificou, um quebrador de maldições pode desfazê-la. Eu acredito.
— Ansem, se puder fazer as honras — eu disse.
Ele assentiu.
— Mmm…
Temos que resolver isso antes que o Franz volte. Ele pode não se importar com o Luke, mas se descobrir que o Santo da Espada foi transformado em pedra, vai me encher o saco de todo jeito.
Ansem ergueu os braços e começou a recitar um quebrador de maldições. Poderes de cura temperados por anos de aventuras brutais começaram a chover sobre o terreno do dojo. Luzes dançantes e cintilantes afundaram nas estátuas cinzas. Os cavaleiros na entrada ofegaram diante da visão de outro mundo.
Os efeitos foram imediatos. Espalhando-se para fora dos pontos tocados pelas luzes, as estátuas começaram a mudar. Em menos de um minuto, do topo da cabeça até a sola dos pés, eles estavam de volta ao normal. De repente, dezenas de pessoas estavam inspirando ao mesmo tempo. Agora feitos de carne mais uma vez, os espadachins cambalearam e caíram de joelhos.
— Hah. Haaah…
— Ah. E-Estamos salvos. Achei que seríamos pedra para sempre…
Respirando fundo, eles abriam e fechavam os punhos. Pareciam estar todos conscientes, se um pouco abalados. Eu sempre podia contar com o bom e velho Ansem. Era bom ver essas pessoas vivas. Eu não era diretamente culpado pelo que aconteceu com elas, mas se qualquer uma delas tivesse morrido, eu teria ficado me sentindo bem culpado. Enquanto eu soltava um suspiro de alívio, um Soln agora recolorido veio até nós. Eu não fiquei muito chocado ao ver que ele parecia bastante calmo comparado aos seus alunos vacilantes.
Sem se incomodar com a forma imponente do Ansem, ele nos agradeceu com uma voz rouca. — Vocês nos salvaram, e têm o meu agradecimento por isso. Maldito seja eu se não fiquei surpreso ao saber que existem poderes como esses. Aterrorizante que algo possa transformar tantas pessoas em pedra sem aviso.
— Mmm…
Espadachins eram poderosos em um nível individual, mas não chegavam perto da versatilidade dos Magi. Aquilo continuava sendo verdade, não importava quão aberrações de Mana Material eles fossem. Se a maldição tivesse sido direcionada a alguém como o instrutor da Lucia ou da Sitri, eles poderiam tê-la parado? De qualquer forma, eles não teriam sido transformados em pedra se não fosse por mim.
Freneticamente, inseri-me na conversa deles. — Que nada, se for o caso, eu é que deveria estar me desculpando por não ter vindo antes. Eu nunca esperaria petrificação, de todas as coisas…
Ao me ver curvar, a expressão do Soln mudou daquela de desculpas que ele mostrou ao Ansem para uma de desagrado.
— É mesmo? — Havia aspereza em sua voz e olhar. — A propósito, espero que me perdoe por não estar à altura das suas expectativas.
Aquilo enviou um choque através de mim. Meus olhos se arregalaram.
Hein? Isso significa que ele conseguia ouvir tudo apesar de estar transformado em pedra? Ainda bem que não o chamei de incompetente nem nada.
— O quê? Oh, não, não é nada para se envergonhar. Aquela foi uma maldição muito poderosa, e esse não é o tipo de coisa que se pode enfrentar com uma espada. O Luke também foi transformado em pedra e tudo. Como todos estão bem agora, acho que devemos apenas dizer que tudo está bem quando termina bem.
Soln grunhiu. — O que aconteceu com aquela maldição?
— Bem, ora, ora…
Não olhe para mim assim. Se você não conseguiu lidar com isso, acha que qualquer outro espadachim conseguiria?
Quebrando sob seu olhar penetrante, escondi-me atrás do Ansem.
— Temos uma emergência! — Sitri gritou. — O Luke não se recuperou! Irmão!
— Hm?! Mmm…
Girei na direção dela. Exatamente como ela disse, o Luke ainda era uma estátua. Ele definitivamente foi banhado pela magia do Ansem, no entanto, nem sequer um dedo foi curado. Ansem tentou o quebrador de maldições novamente, iluminando o corpo do Luke com uma luz que irradiava poder divino. Exatamente como pensei, nada aconteceu.
Eliza arrastou-se para a frente e tocou sua cabeça. — Uma maldição bastante poderosa foi colocada nele. Um humano não será capaz de quebrá-la.
Soln franziu a testa. — Quem irritou a maldição, er, o alvo da maldição foi o Luke. Nós não recebemos nada além das ondas de choque.
Entendo. Eu deveria estar me desculpando aqui? Quem mais além do Luke poderia provocar mais preocupação do que até o Santo da Espada? Quero dizer, ele realmente deixou a maldição bem assustada.
Eliza olhou para mim com olhos sonolentos. — A maldição deve ser quebrada antes que devore todo o seu ser. Precisamos de um Espírito Nobre — um Xamã especial. Eu já preciso voltar de qualquer maneira, então você pode vir também. Para a nossa terra natal, Yggdra.
Então, no final, ainda temos que confiar em um Espírito Nobre Xamã, hein? Bem, não há muito que eu possa fazer sobre isso.
Lucia piscou algumas vezes. — Mas essa não é uma terra extraordinariamente reclusa? Ouvi dizer que eles não deixam humanos entrarem. Além disso, acredito que a equipe da Lápis estava trazendo um Espírito Nobre Xamã para cá.
Yggdra, a terra dos Espíritos Nobres. Nenhuma outra terra era tão famosa entre aqueles que nunca estiveram lá. Nem é preciso dizer que nós também nunca a visitamos. Sem inclinação para serem gananciosos, os Espíritos Nobres não demonstravam interesse em dinheiro ou poder e tendiam a não interagir com outras raças. Não apenas caçadores, mas nobres e grandes mercadores tentaram entrar em Yggdra, todos sem nenhum sucesso.
Com a equipe da Lápis trazendo um Espírito Nobre Xamã para a capital imperial, esperar por eles não era nossa melhor opção? Eliza considerou a ideia por um momento, depois balançou a cabeça.
— Com a Pedra Amaldiçoada da Shero, eles nos deixarão entrar. E o Luke precisa ser tratado o mais rápido possível.
Lucia me lançou um olhar aguçado.
— Pedra Amaldiçoada da Shero?
Antes que ela pudesse dizer mais nada, bati palmas.
— Bem, isso é um raio de luz. Tudo bem, não vamos perder tempo trazendo essa estátua para que ela possa ser curada.
O Luke nunca teria sido transformado em estátua se não fosse por aquela pedra amaldiçoada, mas reclamar não ia nos fazer nenhum bem a esta altura. Além disso, não havia razão para ficarem bravos comigo por causa daquela pedra. O Hugh foi quem a trouxe, para começar. Exceto que eu fui quem levou a maldição por toda a cidade.
Dei à Lucia um sorriso evasivo, mas ela apenas franziu a testa.
— Como o senhor consegue ser o seu eu habitual quando o Luke foi transformado em pedra?
Coloquei uma fachada de endurecido.
— É apenas o corpo dele que foi transformado em pedra. O Luke ainda é o Luke.
— Entendo. Isso é muito profundo, Mestre — Tino concordou.
Ansem grunhiu.
Eu não achava que havia nada de profundo naquilo. Eu ficaria bem apavorado se todos, menos eu, tivessem sido libertados de alguma maldição. É que eu por acaso sabia o que o Luke estava sentindo porque tinha usado o Volta ao Mundo mais cedo. Os sons vindos de dentro da estátua do Luke Sykol significavam o seguinte:
— Corte a maldição! Corte a maldição! Corte a maldição! Corte a maldição! Corte a maldição! Corte a maldição!
Dito isso, esperar que eu me preocupasse era pedir demais.
Apesar de sua semelhança com os humanos, os Espíritos Nobres ainda eram uma raça diferente. Eram inteligentes, com uma forte inclinação para a magia. Viviam muito mais tempo do que os humanos, que os consideravam excepcionalmente bonitos, e supostamente outrora acreditavam que os Espíritos Nobres fossem deuses. Eles provavelmente seriam os governantes do mundo se não fosse o fato de que os humanos se propagavam mais rápido e tinham uma maior capacidade para o Mana Material.
Eu não estava muito familiarizado com todos os detalhes, mas as relações entre nós e os Espíritos Nobres podiam ser complicadas e flutuaram conforme os tempos passavam. Já fomos adorados por eles, mas também já os desdenhamos e travamos guerras contra eles em outros momentos. Atualmente, estávamos em termos razoáveis; embora não fossem desdenhados em todas as cidades, ainda era raro vê-los nelas. Aquilo se mantinha até em uma cidade grande como a capital imperial de Zebrudia, então eu tinha certeza de que eram uma visão rara em outras terras também.
Parte da Primeiros Passos era a Starlight, uma equipe composta inteiramente por Espíritos Nobres, mas aquilo estava longe de ser normal. Eram um grupo orgulhoso, e viver entre humanos apenas os tornava menos motivados a se conformar com nossos costumes. Eram o oposto polar de mim, alguém que podia se rastejar diante de qualquer um.
Mesmo depois de todos esses anos, a terra natal deles ainda era um lugar envolto em mistério. Aquela era Yggdra, o ponto de origem dos Espíritos Nobres. Todo mundo conhecia o nome, mas ninguém nunca esteve lá. Ainda assim, não havia dúvida de sua existência.
Yggdra fazia aparições regulares na Pousada Peregrina Mensal, uma revista de ocultismo que cobria lendas urbanas e muito mais. Eu também me interessei e pesquisei a respeito em várias ocasiões. É claro que nunca pensei que chegaria o dia em que realmente iria para lá.
Deixando a Sitri e os outros recuperando a estátua do Luke, voltei para o meu escritório. Os olhos da Eva se arregalaram quando lhe contei minha história.
— Yggdra? — ela sussurrou. — Se você realmente for, isso será uma conquista enorme.
Poderia ter parecido uma reação pequena, mas estando perto dela há anos, eu conseguia dizer que ela estava bastante surpresa. E deveria estar. Como Lucia disse, nenhum humano jamais entrou na terra natal dos Espíritos Nobres antes. Não apenas isso, conversando com alguns da Starlight, aprendi que, mesmo para os Espíritos Nobres, era difícil reentrar uma vez que você tivesse saído.
Até onde eu sabia, nenhum Caçador de Tesouros jamais alcançou Yggdra. A maioria dos caçadores de alto nível era do tipo problemático que só ficava mais determinado quando lhe diziam que não podia entrar em um lugar. Se aquela terra ainda conseguiu permanecer intocada, sua segurança devia ser algo extraordinário.
Agora, nem precisa ser dito, mas Yggdra ficava nas profundezas de uma floresta, uma floresta formidável cheia de monstros e feras míticas com as quais até caçadores experientes lutavam. Todos os caçadores sonhavam em ser os primeiros a pisar onde ninguém mais pisou.
Divertido com a visão da surpresa da Eva, adotei uma postura de endurecido e disse: — Nunca pensei que estaria enfrentando um lugar onde nenhum outro caçador jamais pôs os pés antes…
Eu disse “enfrentando”, mas se a Eliza fosse digna de confiança, então seríamos convidados a entrar. Se não, eu teria desistido na hora. Sim, eu estava interessado em um lugar de lendas, mas não me sentia disposto a desafiar uma terra proibida que nem mesmo caçadores de alto nível conseguiam alcançar. Veja bem, Espíritos Nobres não tinham muito senso de humor; eram superpoderosos e se especializavam em magia, o que era ideal para repelir intrusos.
— Se precisar de alguma coisa, eu providenciarei — disse Eva.
— Ahh, obrigado. Mas provavelmente ficarei bem. Afinal, eu tenho isto. — Deixando-me levar, dei um tapinha na minha cabeça.
Esfregando as têmporas, Eva suspirou. Brincadeiras à parte, a Sitri supostamente cuidaria dos preparativos. Tudo o que eu tinha que pensar era em quais presentes trazer para os Espíritos Nobres. Aparentemente, as únicas pessoas capazes de quebrar a maldição no Luke eram bastante especiais, até mesmo para os padrões dos Espíritos Nobres. E poucas pessoas eram melhores do que eu em irritar figurões.
Achei que tinha que trazer algo bem legal. Mesmo que acabasse sendo um gesto desnecessário, você nunca errava com uma demonstração de humildade. Para minha sorte, nosso clã tinha a Starlight, e eu confiava na minha habilidade de escolher presentes.
— Informações sobre Yggdra estão em alta demanda — disse Eva hesitante. — É bastante famosa, já que os Espíritos Nobres estão totalmente indispostos a discuti-la. Se você trouxer algo para compartilhar, esse tipo de conquista pode te aproximar do Nível 9.
Que proposta aterrorizante.
— Conquistas? Não me importo com elas. Nem um pouco.
— Imaginei que você diria isso…
Por que eu faria algo tão perigoso? Nada de bom viria de irritar os Espíritos Nobres. Especialmente quando eu tinha acabado de começar a me dar bem com a equipe da Lápis. Mesmo que eles estivessem de acordo com eu trazendo informações de volta, eu não estava planejando, não se fazer isso fizesse o Gark tentar aumentar meu nível. Pelo que eu entendia, se a filial dele produzisse um caçador de Nível 9, isso seria uma grande honra para ele como gerente da filial. Honestamente, não fazia tantos anos que eu cheguei ao Nível 8. Não que eu me importasse com glória ou algo assim, mas a moça piromaníaca poderia ter algo contra mim se eu atingisse o Nível 9.
Então tive uma ideia. Olhei para cima e perguntei:
— Eva, por que você não vem conosco?
— Hm?! E-Eu ficarei aqui.
Vai? Que pena. Alguém sensato como ela teria sido uma presença tranquilizadora na viagem. Desta vez, iríamos como convidados. Mesmo que Yggdra estivesse em uma floresta traiçoeira, não deveria ser tão perigoso. Uma pessoa comum deveria ser capaz de chegar lá. E se não pudesse, então eu certamente não queria estar indo para aquele lado.
— Eu me pergunto se a equipe da Lápis irá conosco — refleti em voz alta. — Estou um pouco inquieto por ter apenas a Eliza. Ela consegue ser tão instável.
— A Starlight ainda está fora da capital, trabalhando na questão do Lamento de Marin. Não fui informada sobre quando eles podem retornar.
— Hmmm. Que droga.
A operação do Franz envolvendo o Espírito Nobre Xamã era um assunto importante que chegaria a redirecionar o tráfego na cidade. Ele já deveria ter sido contatado agora, mas dar meia-volta provavelmente não era tão simples.
Ahhh, ninguém nunca está por perto quando eu preciso deles.
Com este pensamento egoísta em mente, soltei um bocejo. Foi quando a porta subitamente se abriu, acompanhada por uma voz aguda.
— Hah, hah. Ei! H-Humano fraco, quando é que o senhor vai parar de nos enrolar?! Desu?!
— Oh? Que bom momento.
Entrou a Kris Argent, uma integrante da Starlight, a equipe de que acabávamos de falar. Ela estava em seu manto habitual, mas tinha uma mochila, e sua respiração estava ofegante e seu cabelo desalinhado como se estivesse correndo. Mesmo assim, havia algo pitoresco nela, provando que os Espíritos Nobres realmente se davam bem. Observei com olhos arregalados enquanto ela cambaleava até a minha mesa e batia o punho nela.
— B-Bom momento é o caramba! Desu! Hah, hah…
— Você não voltou para a floresta para ajudar o Franz?
— Estávamos tendo uma viagem tranquila quando, de repente, fomos contatadas pela capital imperial e tivemos que dar meia-volta! Desu! Parece que o senhor fez um passeio selvagem pela cidade enquanto estávamos fora!
— B-Bem, aconteceu isso e aquilo…
— Isso? E aquilo? Lá vem o senhor de novo! Então o que aconteceu com a maldição?! Desu?!
Ela fazia questão de parecer descontente. Apesar do que dizia, parecia que estava genuinamente preocupada. Dei de ombros e coloquei uma voz de endurecido, para não deixá-la ainda mais preocupada.
— Bem, ela não vai mais nos dar problemas. Ela nos manteve ocupados por um tempo, mas com a ajuda da Eliza, resolvemos tudo. Oh, é verdade. Ela estava dizendo que aquela maldição veio de alguma rainha dos Espíritos Nobres…
— E-Então era a Pedra Amaldiçoada da Shero?! Como isso aconteceu?! Desu!?
Kris gritou comigo de uma distância bem curta. Havia lágrimas se formando em seus olhos e seus ombros tremiam por algum motivo.
O que deu nela? O que ela quis dizer com “como”?
Piscando, observei-a de perto. Eu geralmente aproveitava esses momentos para refletir sobre o que fiz. Aquilo era porque eu geralmente tinha feito algo errado. No entanto, nada me vinha à mente desta vez. Além disso, o Hugh é quem trouxe aquela coisa em primeiro lug— Meus olhos se arregalaram. É verdade, a Kris e a Lápis estavam dizendo algo sobre uma rainha dos Espíritos Nobres.
Elas tinham mencionado na igreja e novamente antes de partirem para buscar o Espírito Nobre Xamã. Eu apenas ignorei como conversa fiada, mas talvez aquela maldição me perseguindo fosse aquela de que elas estiveram falando? Aquilo explicaria a forte reação da Eliza. No entanto, eu confiei a gema à Eliza, e não havia nada de incomum em dar prioridade aos membros da própria equipe. Embora eu não pudesse dar a gema para ela, tinha que pensar em uma maneira de fazê-la aceitar aquilo. Foi quando me lembrei de que tinha algo ainda melhor.
Bati palmas, pegando a Kris de surpresa, e disse:
— Ahh, sobre isso. Heh heh heh, eu não tenho a gema espiritual, mas tenho algo melhor. Aqui, vou te mostrar.
— O-O quê? Algo melhor? Do que o senhor está falando?
Exatamente o que eu disse, nada mais. E ao contrário daquela gema, esta coisa não tenta te matar. Levantei-me e caminhei até o canto onde o Mimicky estava sentado, e chamei a Kris, muito confusa, para perto. Olhando para o Mimicky, meu baú do tesouro ideal, ela franziu a testa.
— É um baú do tesouro — disse ela. — É, esses são muito bons? Eu acho. Mas é completamente irrelevante! Desu!
— Ahh, eu quero guardar a Kris, mas ela é pesada demais para miiiiim. Talvez alguém me ajude?
— Hein?! Do que diabos o senhor está falando? Eu não sou pesada. De-!
Ela não terminou a frase. O Mimicky desenvolveu braços e a comeu inteira em um piscar de olhos. Alguns segundos se passaram. Eva, observando nossa troca de olhares tensa, estava congelada. Ela saiu de seu estupor e correu até mim.
— O-O que o senhor está fazendo?! — ela gritou.
— O Mimicky, veja bem, tem uma função de armazenamento automático. Bastante atencioso, não diria?
Se eu pudesse armazenar itens maiores que a boca do Mimicky, estaríamos feitos, mas pedir por isso seria apenas ser ganancioso. As funções que ele já tinha conflituavam com meu entendimento da realidade. Aposto que aquilo realmente pegou a Kris de surpresa. A esta altura, a taxa de sucesso de emboscada do Mimicky era de cem por cento, o que era absolutamente aterrorizante. Se as pessoas pudessem sair sozinhas, então eu não teria nada a reclamar.
— A-Apresse-se e tire-a daí de dentro…
— Ah, é mesmo… Ah!
— O quê?! Qual é o problema?!
Achei que estava esquecendo algo — eu queria que a Tino me ensinasse a usar o Carpy-kun. Honestamente, aquele meu Tapete tem tanto potencial quanto o Mimicky.
Eh, talvez isso seja ir um pouco longe demais. Agora que eu sabia o que estava me incomodando, estendi a mão para a tampa para poder tirar a Kris.
Foi quando ouvi uma voz fria.
— Mil Truques, disseram-me que você obteve a gema espiritual e depois a entregou à Vagante.
Lapis e o resto da Starlight entraram pela porta que Kris deixou aberta. Cada uma delas tinha uma disposição natural para a magia e uma aparência excepcional. Sua líder, Lapis, sempre teve um comportamento gélido, mas eu nunca a vi tão fria assim. Achei que tivessem retornado direto para a capital exatamente como a Kris fez, no entanto, não compartilhavam seu desalinho.
Com tudo o que a Starlight fazia por mim, eu não queria azedar nosso relacionamento por causa de um simples mal-entendido. Esfregando as mãos, caminhei até ela.
— O-Ora, ora, foi apenas um golpe de má sorte que sua equipe não estivesse por perto na hora…
— Hmph. Você poderia dizer isso. Não vou perguntar como você encontrou a gema espiritual, e o que você faz com ela é da sua conta, mas você se deu ao trabalho de nos tirar da capital imperial. Será que aquele truque de mestre foi mais do seu artifício sobre-humano?
Oh, é assim que parece? Todo mundo quer mesmo aquela gema. Para que querem algo tão perigoso?
Ainda assim, deixando de lado o fato de que tudo aquilo foi um grande mal-entendido, se a equipe de um amigo e um dos membros da minha equipe quisessem a mesma coisa, é claro que eu daria prioridade ao último.
— Desculpe — eu disse — mas a Eliza também queria. Perdoe-me, mas você colocaria os membros da sua própria equipe em primeiro lugar, não colocaria?
Além disso, eu nunca toquei naquela gema espiritual ou o que quer que fosse, e adoraria ter a Lapis e sua gangue por perto. Se estivessem na cidade, toda a bagunça poderia ter sido resolvida logo de cara, e então o Luke não teria sido transformado em pedra. Ouvindo meu ponto de vista muito razoável, Lapis me encarou por um momento antes de sua raiva se dissipar.
— Hmph. Não posso argumentar contra isso. Mas não pense que isso acontecerá novamente, Mil Truques.
Sua voz era fria o suficiente para congelar minhas entranhas, mas como aquilo foi o máximo, chamei isso de vitória. Eu ouvi dizer que os Espíritos Nobres tinham um forte senso de lealdade como resultado de suas longas vidas, então não fiquei surpreso que meu argumento a convencesse. Mas, cara, eu não tinha percebido que tantas pessoas estavam de olho na gema. Pelo canto do olho, vi a Eva soltando um suspiro de alívio. Se a Lapis não ia objetar, então ninguém mais na Starlight o faria. Aqui, já que estamos com todo mundo junto, deveríamos nos reunir como nos velhos tempos. Podemos todos comer alguma coisa. Batendo palmas, coloquei um sorriso de endurecido e olhei para a Lapis.
Liz segurou a gema vermelha e a examinou. Agora colocada confortavelmente em uma caixa, sua superfície cintilante, transparente e livre de impurezas, era uma indicação clara de que aquela era uma peça soberba. Enquanto olhava para dentro dela, sentia que ela poderia simplesmente puxá-la para dentro. Talvez fosse devido às suas propriedades mágicas, ou talvez todas as gemas fossem assim. Depois de examiná-la por alguns minutos, ela piscou.
— Hmm. Então esta é a Pedra Amaldiçoada da Shero? Parece qualquer gema velha para mim.
— Isso é simplesmente porque a maldição foi subjugada — disse Eliza. — Outras maldições não são nada comparadas aos poderes de Vossa Majestade.
— A lenda da Cursed Crimson Spiritstone é bastante famosa. — Sitri vestia uma expressão sombria. — Eu sabia que ela tinha desaparecido, mas nunca pensei que pudesse aparecer na capital imperial.
O caos recente continha nada além de surpresas. A Espada Demoníaca que seduziu os aprendizes do Santo da Espada. A Árvore do Mundo Corrompida, que anulava feitiços. A poção proibida que levou várias nações à ruína. Depois, havia a arma amaldiçoada, que a Igreja do Espírito Radiante desistiu de purificar. Cada uma sozinha era o suficiente para causar agitação na capital imperial.
E, no entanto, todas elas empalideciam diante da gema. Nenhuma delas podia igualar a infâmia ou a escala de destruição causada pela Pedra Amaldiçoada da Shero. Determinada a aniquilar toda a humanidade, esta gema foi outrora a calamidade encarnada. Por o que deve ter sido uma razão muito boa, sua linha de vítimas teve uma parada abrupta. Algumas pessoas chegaram ao ponto de especular que, se não tivesse acontecido, a humanidade já teria sido aniquilada.
— A maldição estava ativa — disse Eliza. — É improvável que estivesse na capital imperial durante todo este tempo.
— Ainda assim, mal posso acreditar que você conseguiu lidar com uma maldição tão inigualável. — Lucia franziu a testa. — Nossos ataques quase não tiveram efeito.
Ansem assentiu. — Mmm.
Ataques convencionais nunca foram particularmente eficazes contra maldições, e aquela maldição estava muito acima de seus pares. Afinal, golpes dos melhores da capital imperial não lhe fizeram nada. Os ataques da Lucia pareciam ter tido algum efeito, mas quanto progresso ela poderia realmente ter feito se continuasse lançando feitiços daquela forma? Com tempo suficiente, ela poderia ter descoberto uma fraqueza, mas a maldição poderia ter feito muito mais vítimas nesse meio-tempo.
— Tivemos que usar a cabeça — disse Eliza com aquele olhar sonolento habitual nos olhos. — É tudo graças ao Cae.
— Hmmm. Bem, fico feliz que tenha funcionado — disse Liz. — Agora temos que cuidar do Luke.
— Poções não funcionaram — disse Sitri — e, como Eliza explicou, aquela não é a sua petrificação típica.
Petrificação vinha em formas diferentes. Se esta fosse uma simples petrificação física, então uma poção ou algo do tipo resolveria facilmente. No entanto, o que estava devorando o Luke era algo totalmente diferente. Aquela era uma maldição maligna que desviava até mesmo os poderes purificadores do Ansem Smart, um dos curandeiros mais capazes da capital imperial. O Luke podia ter sido o petrificado, mas era improvável que a Lucia ou a Liz ou qualquer uma delas tivesse se saído melhor contra a maldição. Eliza assentiu. Ela parecia tão séria que mal lembrava seu eu habitual.
— A vontade por trás dessa maldição é forte. A única maneira de quebrar esta maldição é com um Xamã tão poderoso quanto Vossa Majestade. Talvez precisemos ver um dos altos escalões de Yggdra. A família imperial, isto é. Se não, ele continuará sendo uma estátua para sempre.
Não importa o quão ocupado eu ficasse, nunca negligenciava o cuidado com minhas Relíquias. Em meus aposentos privados, obtidos através do uso gratuito da minha autoridade como mestre do clã, as Relíquias cobriam as paredes. Eu mantinha um rodízio de polimento para garantir que todas permanecessem bonitas e brilhantes. Como a Lucia passava em intervalos regulares para carregá-las, elas nunca ficavam sem mana.
Preparação era essencial para qualquer tipo de viagem. Sitri estaria colocando os suprimentos em ordem, mas eu tinha que escolher quais Relíquias traria. Como ele era uma Relíquia autopropulsada, eu trouxe o Mimicky comigo. Agora eu estava sentado em cima dele enquanto navegava pelas muitas Relíquias que colecionei ao longo dos anos. Algumas tinham valor sentimental, outras eu tinha comprado do Matthis por capricho. Algumas eu usava com frequência, outras acumulavam poeira. Para uma viagem como esta, não ia ser fácil escolher quais Relíquias seriam úteis. Mas foi exatamente por isso que eu desenvolvi minhas habilidades como colecionador de Relíquias.
Embora houvesse alguns mal-entendidos entre nós, eu aprendi algumas coisas novas enquanto conversava com a Starlight durante uma refeição. Segundo elas, Yggdra era um lugar especial, até para os Espíritos Nobres. Aquilo não era para dizer que era o maior de seus assentamentos ou algo assim. Yggdra era o lar da divina Árvore do Mundo, que formava as raízes para os muitos assentamentos nobres nas florestas do mundo. Eu tinha a sensação de que suas longas vidas eram a razão pela qual davam tanto valor a essas raízes. Fiquei surpreso ao saber que Yggdra era praticamente adorada por alguns dos Espíritos Nobres que viviam em outros lugares.
Yggdra estava situada nas profundezas de uma floresta vasta que era cruzada por inúmeras linhas ley e patrulhada por monstros formidáveis. A própria floresta era um verdadeiro labirinto, que diziam causar problemas até mesmo para os Espíritos Nobres acostumados a atravessar bosques, e a própria estrada estava escondida. Eliza anunciou que iríamos para Yggdra como se não fosse nada demais, mas a equipe da Lápis me deu a impressão de que não seria tão fácil.
Droga, Eliza. Eu quase entrei nisso despreparado.
Bem, mesmo sem o aviso da Lápis, eu teria trazido algumas Relíquias, e as coisas sempre ficavam um pouco malucas, não importa o que eu trouxesse comigo. Mas eu não estava indo sozinho nesta viagem. Eu tinha todos na Grieving Souls e tinha convidado a Starlight (quer dizer, elas pareciam que queriam vir). Com minhas Relíquias incluídas, seria melhor eu desistir se aquilo não fosse o suficiente. Olhando orgulhosamente para minha coleção, balancei a cabeça para mim mesmo.
— Hmm. Já que não teremos o Luke conosco, acho que posso trazer uma espada…
Eu não podia carregar Relíquias do tipo espada quando o Luke estava por perto porque ele ficaria olhando inquieto para a lâmina como se quisesse tocá-la. A vasta maioria das Relíquias do tipo espada tinha poderes adequados para o combate. Como a Espada do Purgatório que eu tirei do Gilbert, muitas delas permitiam ataques elementais, tornando-as trunfos para caçadores mais fracos. No entanto, esses ataques não te levariam a lugar nenhum nos Cofres do Tesouro de nível mais alto que a Grieving Souls enfrentava.
Embora eu não soubesse exatamente quão perigosa a estrada à frente seria, eu nem ia considerar a ideia de ajudar nas batalhas, já que nunca fui útil em um combate sequer. Por enquanto, decidi levar a Ar Silencioso, a lâmina transparente que eu também levei para o Covil do Lobo Branco. Ela era uma forte candidata ao posto de minha primeira ou segunda espada favorita na coleção. Não era apenas esteticamente agradável, mas eu também era muito grato pelo que ela fazia.
A Ar Silencioso era capaz de manipular o peso. Era, por um lado, uma arma muito técnica com a qual você podia desequilibrar seu oponente mudando livremente o peso da lâmina. Mas, veja bem, ela também tinha uma função oculta útil até para quem não era espadachim. Os poderes da Ar Silencioso aplicavam-se não apenas à própria espada, mas a tudo o que você carregava. Não apenas isso, você ainda podia ativá-la mesmo se ela estivesse em uma bainha e nas suas costas. Exatamente, com esta espada nas costas, um fraco como eu podia carregar Relíquias e bagagem, não importava o quão pesadas fossem. Ela apenas anulava o peso, então carregar objetos grandes ainda era perigoso e limitava os movimentos, mas aquilo não era um problema, já que eu não era exatamente ágil nem nos melhores momentos.
Com isso, posso carregar dez Ansens. Exceto que morrerei se a carga acabar.
Bati o punho na palma da mão. Já sei. Já que faz tanto tempo, talvez eu devesse trazer o conjunto espalhafatoso e florido de espadas.
O conjunto espalhafatoso e florido de espadas era uma coleção de Relíquias do tipo espada desnecessariamente berrantes. Algumas estavam lá devido à sua aparência, enquanto outras mantinham seu lugar por causa de suas habilidades. Pegue, por exemplo, a Field Star, uma Relíquia que, quando ativada, faria um raio de luz brilhar dos céus sobre o usuário; a Kaito-Kosame, que faria cair um pouco de chuva (três milímetros no máximo) ao ser desembainhada; a Não firas o fraco, Oh Campeão, uma espadona espalhafatosa que não podia ferir ninguém, não importa o quão forte você a balançasse.
Essas eram espadas decepcionantes que seriam vendidas a preço de banana no mercado. Os nomes impressionantes, aliás, vieram de descobridores tentando vendê-las pelo maior valor possível. Sem méritos além de seu visual, alguns poderiam dizer que era melhor não carregar nada do que essas espadas lamentáveis, e como um não combatente, eu quase nunca tinha a chance de usá-las. Eu não via utilidade nelas desta vez, mas gostava da aparência delas e elas mereciam um pouco de tempo sob o sol.
Certo. Se é uma floresta, então com certeza haverá todo tipo de flora e fauna…
Espíritos Nobres eram famosos por sua coexistência com a natureza. Eu ouvi dizer que não era raro aqueles que partiam para o mundo exterior terem parceiros animais. Com certeza aqueles na floresta faziam o mesmo. Com meu sortimento eclético de Relíquias, eu estava pronto até para momentos como este. Por exemplo, eu tinha um apito chamado Melhor Amigo do Homem, que atraía toda e qualquer criatura canina nas proximidades. Havia a Relíquia do tipo comida enlatada, Apanhador de Gatos, a melhor maneira de trazer qualquer felino. Eu tinha uma Relíquia do tipo perfume, cujo aroma faria qualquer fera, carnívoro, herbívoro e qualquer coisa entre eles, salivar. Isso e muito mais, eu tinha de todos os tipos.
Apenas ouvir sobre seus poderes poderia fazê-los parecer úteis o suficiente, mas nenhum podia realmente ajudar a domesticar as criaturas que atraíam. Além disso, os animais frequentemente partiam para o ataque, pensando que o usuário da Relíquia estava tentando sequestrá-los, então não eram exatamente muito procurados. Embora alguns dos meus amigos tivessem se divertido um pouco com eles por um tempo.
Minha coleção abrigava muitas outras Relíquias que poderiam ou não ser úteis em uma variedade de situações, satisfazendo cada nicho estranho que houvesse. Embora muito poucas delas tivessem utilidade em caçadas, muitas eram raras sem nenhuma razão aparente, ou divertidas de se olhar, então talvez fossem úteis para fazer amizade com os habitantes de Yggdra. Depois de alguns minutos examinando minha amada coleção, eu ainda não conseguia chegar a uma decisão, então me levantei e bati na tampa do baú.
— Coma tudo, Mimicky.
O Mimicky, a Relíquia super superior, mãos à obra. Sorrateiro como sempre, ele saltou sem fazer som, abriu a boca e, com braços brotando de seus lados, pegou e engoliu cada Relíquia. Ele realmente parecia um monstro. As funções do Mimicky realmente não conheciam limites.
Bati rapidamente na tampa dele quando notei um item que ele estava prestes a comer. Ele parou obedientemente, deixando a Relíquia cair no chão. Conhecida como Sela Negra de Estábulo, era uma Relíquia do tipo sela com uma textura de couro preto. Seu efeito era que ela não sairia a menos que você a removesse deliberadamente. No entanto, como a maioria das selas já era construída dessa forma, sendo Relíquia ou não, aquilo era uma ninharia de item que poucas pessoas valorizavam. Eu tinha esquecido que até a possuía.
Olhando de um lado para o outro entre a sela e meu leal baú do tesouro, assenti. Mmm. Com o Mimicky, acho que posso ser um Nível 8.
Ele se movia por conta própria, era completamente seguro e tinha uma cidade dentro dele. Não havia outros caçadores com um baú do tesouro como este. Ultimamente, eu estivera esquecendo que era um Caçador de Tesouros, mas o que era mais caçador-de-tesouros do que isto?
Com batidas pesadas, descemos a escadaria da sede do clã. Senti como se uma nova porta tivesse sido aberta para mim. Os membros do clã por quem passamos olhavam para nós com medo e choque, mas não deixei que aquilo me afetasse. Descendo as escadas, escancaramos a porta, entrando no lounge. Todos se viraram instantaneamente para o nosso lado, vendo-me em todo o meu entusiasmo. O Lyle cuspiu sua bebida. Vários caçadores que se levantaram achando que algo estava errado agora olhavam para nós com perplexidade. Em seu assento habitual, Tino soltou um pequeno ganido e recuou um passo.
— M-Mestre?! O que é desta vez?!
— O-O que você está fazendo, Krai?! E-E esse baú do tesouro…
— Heh. Olhem só, pensei em um novo uso para as minhas Relíquias.
Eu tinha a Relíquia do tipo camisa floral, Férias Perfeitas, mantendo-me perfeitamente confortável, e a Relíquia do tipo sela, Sela Negra de Estábulo, para me manter ereto. Assim veio o advento do Krai Andrey, o primeiro cavaleiro de baú do tesouro do mundo. Normalmente, não haveria como colocar uma sela nas costas planas e rígidas do Mimicky, mas aquilo não era um problema com a Sela Negra de Estábulo, que absolutamente não sairia até que alguém a removesse de propósito. Então, para resolver os solavancos que vinham ao montar uma montaria, eu tinha a Férias Perfeitas. Era uma excelente exibição de sinergia, apenas possível para um colecionador de Relíquias que reunia até Relíquias de lixo e estava ciente de todos os seus poderes.
Acho que o único inconveniente eram os passos estrondosos? Por conta própria, o Mimicky era sorrateiro como uma cobra se aproximando de sua presa, mas acho que mudei isso. Ainda assim, mesmo com isso em mente, esse arranjo era completamente viável. Cheio de um senso de orgulho que não sentia há muito tempo, dei um tapinha no Mimicky. Ao contrário de um certo têxtil, ele fazia o que eu dizia.
O rosto do Lyle estava contraído.
— A-A maioria das pessoas não tentaria isso na prática, no entanto! Você tem alguma ideia de como está parecendo?
Assim foi sua opinião mordaz. Apesar de sua lealdade habitual, Tino parecia insegura sobre como reagir.
— Um. Uhhh. O-O senhor parece muito legal, Mestre.
Hmph. Não espero que alguém que consiga montar no Carpy-kun entenda como me sinto.
De certa forma, era apenas natural para um Caçador de Tesouros montar em um baú do tesouro e, ao contrário do Carpy-kun, este podia armazenar itens. Eu não estava amargurado nem nada. Tino começou a tremer quando o Mimicky aproximou-se dela com passos trovejantes. Após ser engolida e sacudida, eu não conseguia imaginar que ela tivesse boas memórias associadas a ele.
— Claro, mas você ficaria surpresa com o quão rápido ele é — eu disse. — E, ao contrário de uma criatura viva, ele não se cansa.
— N-Não que eu ache que o senhor faria isso, mas Mestre, o senhor não está planejando ir até Yggdra assim, está?
— Acha que é uma má ideia?
Ela balançou a cabeça. — N-Nem um pouco…
Se você tem algo a dizer…
Honestamente, era bom demais para desistir. Fazê-lo nos seguir era uma possibilidade, mas se ele ficasse sem mana e parasse de se mover, então aquilo poderia nos colocar em uma situação complicada. Eu sabia disso por experiência própria, tendo perdido o rastro do Carpy-kun uma vez. Além disso, nosso objetivo era curar o Luke. Se precisássemos solicitar ajuda da família imperial dos Espíritos Nobres, um grupo conhecido por não ser amigável com humanos, então causar uma forte impressão parecia uma boa ideia. Eu precisava do Mimicky se fosse carregar todas as minhas Relíquias, e se ele vinha junto, então eu poderia muito bem montá-lo.
Tino engoliu em seco, então pareceu chegar a uma decisão. — M-Mas— Certo! Um, montar no topo do Mimicky tornará mais difícil reagir a surpresas, não é, Mestre?
— Isso não importa.
Veja bem, o faro do Mimicky para o perigo e suas habilidades são todos melhores que os meus. No máximo, acho que ficarei mais seguro em cima dele. Se eu precisar, posso me esconder dentro dele, e ser uma Relíquia significa que ele é bastante resistente.
— O-Oh. Tudo bem. Mestre, o senhor está realmente tão ansioso para montar em um baú do tesouro? — ela perguntou enquanto vestia um olhar que continha apreensão, medo, exasperação e tristeza.
Eu montaria no Tapete se pudesse. Estou invejoso de que você o aprendeu em um instante.
— Preparativos completos! — gritei, forçando um pouco. — Para Yggdra nós vamos!
— T-Talvez eu saia do clã — o Lyle murmurou com uma risada seca.
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Com o intuito de ouvir os detalhes sobre o incidente da profecia, Gark Welter, gerente da filial da capital imperial da Associação de Caçadores, dirigiu-se à sede do clã Primeiros Passos. Lá, ele ouviu algo que o deixou perplexo, embora tenha sido proferido como uma simples conversa fiada.
O caçador de Nível 8, Krai Andrey, o Mil Truques, era um homem conhecido por fazer o inesperado desde o início de sua carreira como caçador. Veja agora mesmo; Gark viera até aqui porque Krai levara uma maldição por toda a capital imperial enquanto voava em um tapete. Não importa quantas vezes acontecesse, ele nunca conseguia se acostumar com o comportamento imprevisível e sem precedentes daquele homem.
No entanto, o que Krai acabara de lhe dizer foi o suficiente para fazê-lo esquecer todas as outras tarefas em sua mente. Respondendo a uma infinidade de inquéritos de nobres e do império, e mobilizando um grande número de caçadores, a Associação de Caçadores estava trabalhando dia e noite sem descanso. No entanto, aquilo empurrou tudo aquilo para fora de sua mente. Kaina e os outros funcionários da Associação com ele estavam igualmente atordoados.
— Yggdra — disse ele — a lendária capital dos Espíritos Nobres, você diz? Bem, acho que não deveria ficar muito surpreso, vindo de você. Aprontando mais loucuras, vejo. Aquele lugar é tão inacessível que nem sequer temos uma filial da Associação por lá.
— Bem, eu terei a Eliza me mostrando o caminho.
Krai deu de ombros com sua habitual falta de zelo. Uma maldição transformara seu velho amigo Luke em pedra, mas ele não parecia nem um pouco perturbado. Um convite para Yggdra não era algo que você mencionava casualmente com uma frase como: “Desculpe, mas vou para Yggdra, então não posso ajudar a coletar informações”. Nem era algo que você pudesse explicar simplesmente dizendo: “Bem, eu terei a Eliza me mostrando o caminho”.
Espíritos Nobres nunca foram muito acolhedores com estranhos. Yggdra poderia ser considerada algo como uma terra sagrada para eles e, a menos que Gark estivesse enganado, nenhum caçador jamais estivera lá. Muitos deles tentaram alcançar a terra misteriosa, mas todos falharam. Como a família imperial se recusava a deixar a floresta, eles não podiam ser negociados, e sua magia misteriosa tornava a força e a autoridade sem sentido. Até mesmo informações sobre esta terra eram notavelmente escassas.
Aquela era uma boa oportunidade. Nenhum membro da família imperial dos Espíritos Nobres jamais estivera disposto a se encontrar com um humano antes. Gark mal conseguia imaginar os lucros a serem obtidos se aquilo levasse ao estabelecimento de relações com Yggdra. E se soubessem que um Caçador de Tesouros fora o responsável por aquilo, então os caçadores seriam tidos em uma consideração ainda mais alta.
Subjugar aquela gema amaldiçoada fora uma grande conquista, mas estabelecer comunicações entre a Associação de Caçadores e Yggdra seria ainda maior. Seria o tipo de boa ação que ninguém questionaria e qualquer um entenderia o mérito.
— Tudo bem — disse Gark. — Mais contato com os Espíritos Nobres seria uma bênção para Zebrudia. Nós cuidaremos das consequências da profecia. Mas se vamos fazer isso, certifique-se de sentar e conversar com eles. Se puder, tente ver se consegue estabelecer uma filial da Associação por lá.
— Oh! Uma filial, hein? Bem, se for necessário. Agora, estou deixando as coisas da profecia com você.
Embora ele geralmente fizesse careta ao ouvir os pedidos do Gark, Krai estava estranhamente amigável, balançando a cabeça vigorosamente. Parecia horrivelmente relaxado para alguém prestes a lidar não apenas com os muito inconstantes Espíritos Nobres, mas com membros de sua família imperial ainda por cima. Seria aquele o visual de um Nível 8 em seu elemento?
— Vá mostrar a eles do que os Caçadores de Tesouros são feitos! — Gark disse.
— Eu irei, eu irei. Terei todos os Grieving Souls e a Starlight comigo. Também trarei muitas Relíquias—
— Se você conseguir isso, estará a apenas alguns passos do Nível 9. — Gark mal conseguia conter a animação em sua voz. — Chegar ao Nível 9 exige recomendações de várias filiais e a aprovação da sede, mas não vejo nenhuma delas protelando.
Os critérios para promoções tornavam-se cada vez mais rigorosos quanto maior a classificação de um caçador. Particularmente no Nível 9, a confiança e as conquistas anteriores eram mais importantes que o poder bruto, e atender aos requisitos para fazer o exame de promoção era difícil. Para alguém tão jovem quanto Krai chegar a esse ponto era incomum.
— Ahh. Mmm. — Em uma mudança em relação a um momento atrás, Krai agora estava fazendo careta. — Bem, deixe-me apenas dizer que não é por isso que estou indo para Yggdra. Meu objetivo real, a razão de eu estar indo para lá, é apenas para quebrar a maldição no Luke.
Lá vamos nós de novo, pensou Gark. Por que esse cara não se importa com o nível dele?
O Nível 9 era algo pelo qual a maioria dos caçadores não podia ousar lutar, no entanto, este homem com o talento para buscá-lo estava completamente desmotivado. Não era de admirar que o mundo estivesse em um estado tão lamentável. Gark adoraria ter enviado alguém da Associação para acompanhá-lo, mas lidar com os Espíritos Nobres era algo delicado.
Gark respirou fundo. Franzindo a testa, olhou Krai nos olhos e deu-lhe um lembrete importante. — Se isso der errado, causará uma ruptura entre nós e os Espíritos Nobres. Estou contando com você.
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Estava quase amanhecendo e eu estava do lado de fora dos portões da capital imperial. Mesmo em uma cidade tão grande como esta, as coisas ficavam silenciosas nas primeiras horas da manhã. Cavaleiros em patrulha e mercadores que acordavam cedo eram praticamente as únicas pessoas de um lado para o outro. Para alguém que geralmente acordava por volta do meio-dia, era algo como uma visão nova.
Uma carruagem gravada com a caveira sorridente, o símbolo da Grieving Souls, já estava estacionada do lado de fora. Caminhando com a Lucia, soltei um bocejo e comecei a reclamar da minha conversa com o Gark.
— Honestamente, o Gark está sempre dificultando as coisas para mim. Toda vez que algo surge, ele tenta aumentar o meu nível.
— Isso é porque você está sempre tentando evitar fazer o exame de promoção!
Não é o nível deles, então por que tanta gente faz barulho com isso? Será que essas pessoas não percebem que eu quero me aposentar?
Bem, pelo menos eu conseguira tornar o problema da profecia um problema do Gark. Poupei-me de outro encontro com a raiva do Franz. Afinal, eu estivera gritando o nome dele lá atrás. Parada perto da carruagem, a Sitri veio correndo ao nos ver.
— Bom dia, Krai! Preparativos todos completos. Olhe, até a estátua do Luke está segura!
Ela vestia suas roupas de viagem habituais e estava incrivelmente animada, dada a hora. Atrás dela, o Killiam estava carregando a estátua nas costas e dizendo matar, matar. Ele não recuperara nada de sua massa depois que seu episódio anterior com a fome o emagrecera. Como o Luke ainda queria matar a maldição, eles eram um bom par.
— A Starlight está aqui? — perguntei.
— Ainda não. Estamos um pouco adiantados, então tenho certeza de que chegarão em breve. Ah, Mimicky, bom dia.
O Mimicky se escondeu atrás de mim quando ela o cumprimentou. Parecia que ele não lidava bem com a Sitri, provavelmente porque ela olhara para ele como uma presa quando se conheceram. Você poderia ver a Liz ou o Luke fazerem esse tipo de expressão com frequência, mas era raro para a Sitri.
Bem, ela sempre quis uma Bolsa Mágica.
Já fazia um bom tempo desde que a Grieving Souls toda fora em uma expedição. Expedição poderia parecer uma palavra estranha, já que não estávamos indo para um Cofre do Tesouro, mas a floresta de Yggdra era bastante hostil.
Ainda assim, convite ou não, eu não estaria fazendo isso se o Luke não tivesse sido transformado em pedra.
— Bom dia, Krai Baby!
— Bom dia, Mestre.
Como de costume, a Liz estava cheia de energia e tinha a Tino a seguindo. Se estavam chegando juntas, a Liz deve ter dormido na casa da Tino. Já sabia disso, mas, cara, eu realmente sou o único aqui que não acorda cedo.
Nosso grupo tinha duas equipes: Grieving Souls e Starlight. Mais pessoas significavam mais bagagem, e mais bagagem significava que teríamos que usar uma carruagem grande. Escolher quais equipamentos carregar era uma parte complicada da caça ao tesouro. Trazer provisões era particularmente importante ao fazer uma caminhada de vários dias para um Cofre do Tesouro distante, mas aquilo aumentava muito a carga. Mais bagagem significava mais peso, o que tornava mais difícil correr quando algo acontecia, e você podia perder muito se seus suprimentos fossem atingidos. Nós não éramos exceção, tendo perdido muitos itens para monstros e fantasmas. No entanto, uma carga leve demais limitava as situações para as quais você podia estar preparado.
O Mimicky, no entanto, cuidava de tudo aquilo. Quase todos os nossos suprimentos pesados, água, comida e equipamentos de acampamento estavam armazenados dentro do Mimicky. Nós carregávamos apenas o mínimo necessário para evitar despertar suspeitas. O Mimicky era uma Relíquia que eu não achava que muitas pessoas deveriam conhecer. Bolsa Mágicas já eram itens valiosos e úteis; se uma com as capacidades do Mimicky se tornasse conhecida, nações, mercadores e bandidos estariam todos fazendo o que pudessem para roubá-lo. Eu podia me safar montando em uma Relíquia, mas não podia deixar que se espalhasse que ele era uma Bolsa Mágica.
Eu sei que é um pouco tarde para dizer isso, já que ele já comeu vários membros do clã, mas não posso deixar muita gente saber sobre ele. Falando nisso, será que a Starlight sabe sobre ele?
Em seguida, nos encontramos com o Ansem, que estivera hospedado na igreja. Depois veio uma Eliza muito distraída. Não que ela fosse particularmente tensa, mas parecia excepcionalmente lânguida.
Oh, entendo. Não sou o único que não acorda cedo.
— Bom dia, Eliza — eu disse. — Estamos seguindo sua liderança hoje.
Eliza olhou para mim vagamente, depois assentiu. Lucia franziu a testa.
— Eliza, você está bem? Não parece estar muito bem.
— Minhas pernas — disse ela — estão me dizendo para correr do Cae.
E o que isso significa?
Poderia não parecer, mas eu não era o Krai habitual. Dada a nossa destinação, eu tinha cada uma das minhas Relíquias comigo e todas estavam carregadas para valer. Eu era o mais forte que já fora. Não, espere, com o Krahi por aí, acho que este é o segundo mais forte. Ela não tinha nada com que se preocupar. Se aquilo não fosse o suficiente, então nada seria.
Eliza desabou na carruagem. Sentindo o olhar de alguém, virei-me e vi a Tino me observando de forma peculiar. Eu estava sentindo que a visão dela sobre mim estivera mudando ultimamente. Eu fora bastante dependente dela durante o último incidente e me fizera parecer mal na frente dela, mas ainda queria tentar reparar minha imagem um pouquinho. Não me sentia tão motivado há algum tempo.
— Tino, você vai entrar? — perguntei.
— Hein? Ah, um, Mestre, eu estou aqui apenas para me despedir— Ah! Esqueça! E-Estou honrada que o senhor me traga junto novamente!
Após um olhar para a Liz, Tino saltou para dentro da carruagem. Senti que fizera algo que não precisava. Bem, uh, não podemos realmente usar o Carpy-kun sem a Tino. Sentado no topo do Mimicky, esperei pela Lapis e seu grupo. O céu ficou mais brilhante e o tráfego aumentou lentamente, mas não havia sinal delas.
Sentada ao meu lado, Lucia olhou para o relógio nos portões e disse: — Estão terrivelmente atrasadas. Elas costumam aparecer quando dizem que vão.
— Acha que aconteceu alguma coisa?
Não que eu seja contra esperar um pouco…
Após trinta minutos cheios de bocejos, elas finalmente chegaram. Parecia que algo realmente acontecera, pois todas elas, Lapis incluída, vestiam expressões sombrias.
— Perdoem nossa chegada tardia — disse ela em uma voz mais baixa que o habitual.
— Tudo bem — hesitei — mas aconteceu alguma coisa?
Todas pareciam vagamente inquietas. A maioria dos Espíritos Nobres era racional e sempre tinha um comportamento calmo, então vê-las todas perturbadas era bastante preocupante. Lapis olhou ao redor, depois franziu o cenho.
— Sim. A Kris desapareceu. Ela estava conosco quando voltamos para a capital imperial. Você sabe de alguma coisa?
… Ah.
— M-Me dá um tempo, pelo amor de Deus. Desu.
Sentada em nossa carruagem, agora em movimento, a Kris tremia, com lágrimas nos olhos.
— Desculpe, desculpe — pedi desculpas. — Eu pretendia te tirar de lá imediatamente, mas aconteceu de aparecer um visitante.
— C-Como diabos o senhor esqueceu?! Desu?! Controle-se! Senhor. Qual foi o propósito de me colocar lá dentro? Se o senhor tem um plano, adoraria ouvir!
— Quer dizer, já que eu o tinha, queria mostrar minha nova Relíquia.
— Mestre… — Tino, que também fora comida pelo baú, sussurrou com uma voz seca.
Não, sério, eu ia tirá-la de lá imediatamente. Isso tudo é porque minha conversa com a Lapis se arrastou. Ainda bem que me lembrei agora.
— Achei que ia ficar lá embaixo pelo resto da minha vida. Você tem alguma ideia de quão assustador foi ser jogada na escuridão?
— Você chorou?
— N-Não! Eu nunca faria isso! E eu tinha bastante o que comer lá embaixo…
Aqueles seriam os suprimentos. Ainda assim, naquele lugar, ela ficaria bem sem comida. No entanto, apesar de seus protestos, a Kris não parecia muito bem. Acho que isso é natural, já que ela ficara presa por dois dias. Havia camas macias lá embaixo, e eu tinha certeza de que havia mais a ser encontrado se você procurasse, mas não saber se algum dia seria capaz de sair deve ter sido um fardo enorme. As roupas da Kris estavam amarrotadas e havia olheiras sob seus olhos. Ofereci uma oração por todos os padres que estiveram presos lá por décadas.
— Irmão, peça desculpas direito para ela!
— Bem, você é quem baixou a guarda. — Dando um tapinha no ombro da Kris, Liz entregou-lhe uma garrafa. — Aqui, tome um pouco de bebida.
Minha querida amiga Liz geralmente ficava do meu lado, não importa o que acontecesse, então eu devo ter feito algo muito ruim se ela estava consolando a Kris em vez de me defender. Elas estavam em uma carruagem diferente agora, mas o resto da Starlight tinha me lançado olhares gelados. Se isso não tivesse acontecido logo antes da nossa viagem para Yggdra, eles poderiam ter deixado o clã.
— As pessoas vão dizer que não sou apto para ser o mestre do clã — eu disse.
— Não se demita. Desu.
— Eu nem sugeri isso.
— Você não precisa! Não quando você causa tanta confusão toda vez que as eleições para mestre do clã chegam!
Nos Primeiros Passos, o cargo de mestre do clã não era estático, sendo decidido por eleições regulares. Isso tinha sido estabelecido durante a fundação, e era algo que nenhum outro clã fazia. Até agora, ninguém mais ocupou o cargo, mas divago.
Alcancei o fundo da carruagem e tirei um saco de nozes de Mimicky. Entreguei-as para Kris.
— Sinto muito mesmo. Aqui, como pedido de desculpas, te dou essas nozes.
— O que são essas? Desu?
— Hã? São nozes amiuz. Tipo as de quando estávamos escolhendo o imperador.
— Fraco humano, você sempre carrega essas coisas por aí?
Mais uma vez, esse era o poder de Mimicky. Ele estava abastecido com todos os itens que eu conseguia imaginar. Além do que a Sitri queria guardar, eu também incluí Relíquias, roupas e até lanches. Essa seria minha chance de provar o valor de Mimicky. Pensando bem, eu nunca tinha andado por aí com tantas Relíquias. Muitas delas tinham poderes que nada mais poderia replicar, então parecia que eu poderia finalmente ser útil. Colecionar Relíquias era divertido, mas nada era melhor do que a sensação de ajudar em uma batalha.
Soltei um suspiro carregado de muitas emoções.
— Talvez finalmente tenha chegado a hora da minha coleção ser útil.
— Quando você só tem itens inúteis? — disse Lucia. — Você está sempre, sempre comprando nada além de esquisitices.
Você não precisa ser tão direta sobre isso.
Claro, minhas Relíquias raramente tinham feito algo útil, mas as usadas pela Sitri e pela Liz eram tecnicamente da minha coleção.
— Bem, as ferramentas não podem ser culpadas — eu disse.
— Isso não significa que você pode? Desu?
As Relíquias não faziam nada de errado, e nem eu; era apenas que os problemas sempre se aglutinavam ao meu redor. Até as minhas Relíquias tinham seus usos, é que coisas estranhas continuavam acontecendo e eu estava farto de ser arrastado para isso, droga.
— Krai, parece que temos bandidos! — Sitri gritou do banco do motorista, ignorando Kris. — O que devemos fazer?
— Bandidos? Você está brincando? Como poderia haver bandidos tão perto de uma cidade?! Madame?!
Embora a objeção de Kris fosse muito razoável, Lucia e Liz não estavam preocupadas. Bandidos e monstros eram uma parte padrão de viajar. Olhe para a nossa viagem com o imperador; enfrentamos todos os tipos de perigo naquela jornada.
— Eles são novos aqui? — Liz perguntou bocejando.
— Parece que sim — Sitri respondeu. — Pelo menos, não me lembro de haver bandidos estabelecidos nesta área.
Meu Deus, não se pode ir a lugar nenhum sem encontrar caras malvados.
Kris me deu um olhar azedo. Eu apenas suspirei e dei de ombros.
— Odeio dizer isso, mas não acho que este palco seja para mim. Lucia, Liz, Eliza, Kris, cuidem deles.
Infelizmente, nada na minha coleção podia derrotar monstros ou bandidos. Daí minha necessidade de proteção.
— Ouvido! Vamos, T!
— Oh céus, acabamos de sair da capital imperial!
— Você tem que ser tão arrogante sobre isso?! Desu?!
Com o que pareceu um grito, Kris seguiu Liz e Lucia para fora da carruagem.
Elas também têm a Starlight nas costas, então isso deve ser fácil. Lanças ou canhões, deem o seu pior, bandidos.
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Nas profundezas da floresta, havia um local misterioso. Folhas flutuavam lentamente até o chão. A folhagem verde brilhava sob a luz do sol. Água cristalina brotava de uma nascente e rastejava pelo solo.
Duas figuras, ambas altas e esbeltas, estavam naquele espaço pitoresco. Eles vestiam mantos da cor de folhas brotando, seus rostos excepcionalmente bonitos com contornos elegantes e fluidos. Seus olhos claros brilhavam em um verde claro e quase te puxavam para dentro. Uma harmonia indescritível existia entre eles e o ambiente. Você não precisava estar muito familiarizado com os Espíritos Nobres para saber que era isso que os dois eram.
Os Espíritos Nobres estavam em algum lugar entre humanos e elementais, sendo estes últimos a própria personificação da natureza. Eles eram mais próximos dos humanos do que os elementais, e mais próximos dos elementais do que os humanos. Conhecidos por sua boa aparência e proeza mágica, eram uma raça mística que raramente saía para a luz artificial trazida pelo avanço tecnológico.
Ouvindo notícias do mundo exterior pela primeira vez em muito tempo, um deles parecia desanimado.
— Shero foi encontrada? — ela sussurrou.
Esta era a Princesa Nobre, uma indivíduo de particular reverência.
— Dizem que um dos nômades a encontrou e a acalmou com a ajuda de um humano. Os poderes malignos de Shero permeavam a carta, então deve ser verdade — o outro, um homem de aparência séria, respondeu.
Shero era conhecida mais amplamente do que qualquer outra rainha dos Espíritos Nobres. Ela desempenhou um grande papel em repelir os humanos com maldições e tornar conhecido o poder dos Espíritos Nobres. Entre os humanos, ela era temida. Entre os Espíritos Nobres, ela era saudada como uma campeã e uma figura tabu.
Quando as relações com os humanos finalmente se estabilizaram, a tarefa de recuperar a gema amaldiçoada tornou-se um assunto urgente. Furiosa com a destruição de sua floresta, Shero, considerada um ser superior entre seu povo, desencadeou uma maldição que nenhum humano poderia suportar. Os nômades, referidos como Nobres do Deserto pelos humanos, eram descendentes dos Espíritos Nobres que uma vez viveram na floresta de Shero.
Os Espíritos Nobres normalmente cresciam absorvendo o mana das florestas, mas gerações mudando de lugar para lugar transformaram esses aqui. Se o povo errante tinha algo a relatar, significava que eles finalmente haviam cumprido seu dever.
— Eles disseram que querem vir aqui para devolvê-la pessoalmente — o homem continuou. — Como a ordem foi emitida por Yggdra, eles têm todo o direito de fazê-lo.
Enquanto o riacho borbulhava, houve um breve silêncio.
— Isso — a Princesa Nobre finalmente disse, franzindo as sobrancelhas —, será um problema. Yggdra não está atualmente em condições de receber estranhos.
— Está bem ruim. Não acredito que Shero foi encontrada agora, logo agora. Não, talvez eu deva dizer que este é um bom momento. Qualquer atraso e estaríamos ocupados demais para aceitar Shero de volta.
— De fato. Não devemos recusá-los. Shero é um de nós.
Com um suspiro, a Princesa Nobre olhou para os céus. Ela observou uma árvore imponente que rompia o firmamento. Com um tronco e galhos que cutucavam as nuvens, ninguém sabia ao certo quão alta aquela árvore era. Absorvendo Mana Material das linhas ley, este era um dos sistemas que gerenciava as energias de seu astro. Era a Árvore do Mundo.
No entanto, após muitos anos sendo gerenciada por Yggdra, a árvore agora tentava se libertar de seu controle. Um acúmulo de Mana Material já havia transformado os arredores da base da árvore em uma zona hostil que nem mesmo o povo de Yggdra conseguia se aproximar. Os guerreiros de Yggdra tentaram acalmar a árvore, mas ainda não haviam encontrado um método eficaz.
— Embora normalmente mostrássemos a eles nossa gratidão mais profunda, vamos mandá-los de volta, mesmo que tenhamos que inventar um motivo. Se fossem todos companheiros Espíritos Nobres, poderia ser diferente, mas não devemos trazer humanos para isso.
— Como desejar. Não tenho certeza se eles conseguirão chegar até nós, para começar, já que a floresta também está sendo afetada pela Árvore do Mundo. Bondade, que bando de humanos azarados.
Um pouco antes, e a floresta não seria tão perigosa. Um pouco depois, e eles teriam sido capazes de detectar o perigo antes de fazer a tentativa. O momento deles não poderia ser pior. Ainda assim, a Princesa Nobre não podia negar-lhes uma visita.
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Monstros e bandidos eram quase inauditos nos arredores da capital de Zebrudia. Embora o império fosse vasto, cavaleiros habilidosos e caçadores garantiam que as estradas fossem seguras em um nível não visto em nações de escala comparável. Embora expulsar até o último perigo certamente não fosse viável, praticamente não havia grandes ameaças se você tivesse uma escolta. Já fazia algum tempo que Kris passava regularmente por esses campos, e ela nunca havia encontrado um inimigo sério. Até o dia em que estava guardando o imperador, claro.
Ouvindo as ordens desanimadas de Krai, ela voou pela porta da carruagem. Era muito raro haver bandidos por aqui, mas ela tinha aliados muito maiores desta vez. Planejando cuidar disso rapidamente e depois retornar à carruagem, ela olhou para frente, pronta para qualquer coisa.
— O que é aquilo?! — ela gritou quando viu o que estava vindo em sua direção.
— Minhas pernas estão me dizendo para correr — Eliza resmungou enquanto se arrastava para fora da carruagem.
A estrada era cercada por planícies que não ofereciam lugar para se esconder. Qualquer um que tentasse se aproximar poderia ser avistado imediatamente. Quaisquer bandidos que escolhessem atacar viajantes em áreas de visibilidade tão alta teriam que ser extraordinariamente confiantes ou estúpidos. Na experiência de Kris, o último era muito mais comum do que o primeiro.
No entanto, mesmo a essa distância, ela percebia que aqueles que se aproximavam não eram meros idiotas. Eles estavam provavelmente a algumas centenas de metros de distância, mas ela conseguia ouvir seus passos e sentir o chão tremer. Aquelas silhuetas não eram humanas, mas também não batiam com as de nenhuma horda normal de monstros.
Ela percebeu por que Sitri conseguiu dizer que eram bandidos quando ainda estavam tão longe. Um calafrio misterioso percorreu sua espinha. A massa que se aproximava continha tanto humanos quanto monstros. Correndo na frente do bando, estava uma enorme lacraia carmesim. Ela conseguia distinguir algumas silhuetas humanas e suas bagagens em cima dela. Em seus flancos, havia uma grande variedade de monstros, incluindo alguns que Kris já havia lutado e outros que ela nunca tinha sequer visto. Alguns deles eram até maiores que Ansem.
A horda estava se movendo muito mais rápido do que os cavalos podiam puxar suas carruagens. Kris mal conseguia acreditar em seus olhos. Embora tivesse ouvido falar de pessoas que podiam comandar monstros, ela acreditava que seus servos eram limitados a algumas variedades altamente inteligentes. No entanto, o grupo que ela via diante de si incluía monstros que definitivamente não eram tão inteligentes assim. Aquela horda, embora “exército” parecesse uma palavra melhor, era definitivamente anormal.
— Eles estão montando nos monstros? — Kris murmurou.

— Qualquer bandido normal daria meia-volta e fugiria ao ver o Ansem.
Sem se abalar com a visão bizarra, uma Liz extremamente empolgada cerrou o punho e lambeu os lábios.
— Hmm. Isso pode ficar interessante.
As carruagens pararam, o que significava que planejavam lutar contra a força que se aproximava bem ali. Lápis saiu da carruagem traseira e franziu a testa.
— Eles têm até um ciclope. Humpf, é maior que o Imutável.
— Mmm.
— Aquele não é um ciclope comum. Pertence a uma subespécie muito mais forte que a comum. Acredito que deveriam ser incrivelmente raros — Sitri observou casualmente do banco do motorista de sua carruagem. Após folhear um caderno bem gasto, ela soltou um pequeno suspiro. — Como eu pensava, não há um mandado de prisão para eles. Embora tenha ouvido rumores recentemente de outras nações sendo aterrorizadas por bandidos com monstros sob seu comando. Dizem que eles até derrotaram exércitos profissionais.
— E-Então, Sitri, isso significa que…
— É difícil emitir um mandado quando não há sobreviventes, e rumores de pessoas comandando monstros são o tipo de coisa que você geralmente deve ignorar.
— Então é um Desconhecido então. Desu.
Os alvos normalmente tinham classificações atribuídas pela Associação de Caçadores, mas era natural que alguns ainda não tivessem uma missão vinculada a eles. Esses alvos não registrados, sem classificação ou recompensa associada, e com pouquíssima informação disponível, eram conhecidos como Desconhecidos entre os caçadores.
— Eles definitivamente estão chegando mais perto. Desu.
A horda ainda estava um pouco distante, mas eles já deveriam ser capazes de ver as duas equipes de caçadores, especialmente considerando que alguns dos monstros estavam voando. Do céu, até mesmo os números deles seriam imediatamente aparentes. Havia sede de sangue no vento. Se eles corressem, a horda provavelmente iria persegui-los.
— O Ansem é conhecido por muitos e se destaca — Sitri comentou. — Eles provavelmente já descobriram quem somos.
— Com certeza, eles nos superam em número… — Lápis disse calmamente. — Humpf. Temos bastante tempo para preparar feitiços. Podemos lidar com isso, mas talvez o Mil Truques seja tão gentil a ponto de nos mostrar do que é capaz?
A Starlight não consistia apenas inteiramente de magi, mas todos eram Espíritos Nobres, que possuíam um talento natural para o arcano. Atacar de longas distâncias era o que faziam de melhor, e era difícil imaginar que muitas coisas pudessem resistir à magia deles. E ali estavam eles, em um campo sem obstruções.
— O fraco humano nos disse para “cuidar deles”. Desu — Kris disse enquanto entrava sorrateiramente em um estado mental de conjuração.
Lápis ficou surpresa.
— Ele o quê?
Um vento frio soprou de repente sobre eles. Kris não pôde deixar de observar maravilhada. Um pequeno tornado havia se formado no campo sem que ela percebesse. Estava cheio de estilhaços de gelo brilhantes e crescia cada vez mais conforme se movia pelo chão em direção ao alvo.
O tornado era um feitiço ofensivo de água de área ampla; não havia necessidade de perguntar quem o havia conjurado. Os membros da Starlight eram todos adeptos de feitiços de água e vento, mas nenhum deles era tão rápido em atacar. Kris e Lápis nem haviam terminado a conversa.
Com os olhos arregalados, Lápis olhou para Lucia.
— Você conjurou um feitiço a essa distância?
— Reduzir os números é o meu trabalho, entende… — ela explicou.
— Lucia, a Liz nem começou a correr ainda.
Claro, a maioria dos feitiços era de fato destinada a ser usada à distância, mas eles ainda tinham alcances ideais. Longe demais, e sua eficácia começava a cair. Nem mesmo a Starlight atacaria quando o inimigo ainda estivesse tão distante.
Kris já tinha visto esse feitiço, Hailstorm, lá atrás, quando a Igreja do Espírito Radiante estava tentando quebrar o Lamento de Marin. No entanto, o que Lucia acabara de conjurar era diferente — havia sido personalizado para distâncias ultralongas. Da última vez, o tornado tornou-se enorme em questão de segundos, mas este estava crescendo mais gradualmente. Em outras palavras, a magi que era Lucia Rogier personalizava seus feitiços com batalhas de longo alcance em mente.
Lucia, eu sei que há uma vantagem em atacar primeiro, mas nem temos certeza de que são bandidos.
Levantando nuvens de poeira, as fileiras dos monstros foram lançadas ao caos pelo tornado. Embora o Hailstorm normalmente não fosse um feitiço com um raio terrivelmente amplo, este já havia crescido tanto que obstruía a visão da horda que avançava. Crescer tanto assim só reduzia ainda mais seu poder, mas se o objetivo era desgastar a força do inimigo, não se poderia pedir um feitiço melhor.
Em um instante, os bandidos foram engolidos pelo tornado. Gotículas pretas misturavam-se ao gelo brilhante.
— Não dá para pular lá no meio com aquilo lá fora logo de cara — Liz resmungou com um suspiro. — Vai rasgar minha pele toda.
— A Lucia teve que aprender esse feitiço porque você e o Luke sempre avançam imediatamente! — Sitri argumentou. — E como ela teve que usá-lo tanto, só ficou melhor nisso.
— É o direito de um magi atacar à distância! — Lucia acrescentou.
— Ainda assim, você não precisava aprender um que durasse tanto tempo…
Os membros da Grieving Souls discutiam sem qualquer sinal de tensão. Talvez consumindo o último de seu mana, o Hailstorm começou a encolher rapidamente. Surpreendentemente, os bandidos ainda estavam em formação. Eles mantiveram cerca de metade de seus números, mas, se algo, era chocante que não tivessem perdido mais. A lacraia na frente era claramente feita de um material resistente, pois estava perfeitamente bem. O que restou da horda começou a se mover mais uma vez. Não apenas isso, eles estavam mais rápidos do que antes.
— Ah, alguns sobreviveram—
Antes que Sitri pudesse terminar a frase, Lucia imediatamente gritou:
— Hailstorm! Hailstorm!
— De novo?!
Dois tornados prateados apareceram e, assim como da última vez, cresceram enquanto rasgavam o campo. Com sua velocidade e amplitude, vê-los chegando não tornaria a tarefa de evitá-los mais fácil.
Depois de lançar três grandes feitiços, Lucia nem estava sem fôlego. Sua reserva de mana era algo a ser temido. No entanto, usar feitiços poderosos causava um desgaste mental. Ela deve ter sido treinada no limite entre a vida e a morte para conseguir fazer três conjurações de grande porte em um período tão curto e ainda permanecer tão composta. Ela estava planejando ir para a guerra ou algo assim? Não havia muitas situações que exigissem feitiços de ataque de área tão vasta.
— Vamos, T! — Liz disse com um grunhido. — Se isso continuar, a Lucia vai pegar todos eles antes de termos nossa chance!
— O quê?! O-Ok, Liz!
Liz soltou um grito penetrante, que foi seguido por uma lufada de vento forte. Com passos estrondosos que sacudiam a terra, Ansem seguiu a mentora e sua aprendiz.
Uma membra chocada da Starlight colocou a mão sobre a boca e sussurrou:
— Que brutalidade. Então esses são os humanos…
— Talvez seja exatamente isso que nos falta — Lápis respondeu com um bufo. — A Pedra Espiritual estava na capital imperial. Se tivéssemos procurado com o mesmo fervor, talvez pudéssemos tê-la obtido.
— Não acho que seja bem assim — Eliza disse, com uma expressão ilegível no rosto.
Lápis estreitou os olhos ao ouvir isso. Ela não gostou de ter sido passada para trás, mas provavelmente achou que seria vergonhoso demonstrar qualquer rancor. Ela bateu as mãos e disse:
— Não vamos ficar para trás! Kris, vamos nos mover!
— Hã?! C-Como desejar!
Ouvindo suas ordens, a Starlight começou a entoar feitiços — feitiços de iluminação. Kris, a única que ainda não conseguia usar iluminação, começou a preparar um feitiço de água enquanto corria para alcançar os Grievers.
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— F-Fraco humano, você só pode estar brincando comigo! Desu!
— Mmm. Ah. Vocês terminaram?
Havia uma certa atmosfera endêmica aos campos de batalha. Gritos e brados de raiva. Cheiros, vibrações e até luzes. Em cinco anos de caça, eu havia encontrado inúmeras sensações, e todas conseguiam permanecer desagradáveis.
Ainda assim, mesmo com toda a minha experiência, eu havia me acostumado um pouco. Ajudava o fato de eu ter a Starlight e quase todos da Grieving Souls comigo desta vez. A única coisa que este grupo não poderia enfrentar seriam Cofres do Tesouro de Nível 8 para cima, ou bandidos viciosos com quantidades insanas de Mana Material, e esses tipos de inimigos não saíam por aí vagando.
O que estou tentando dizer é que nunca me senti tão seguro. Claro, isso também era porque ainda nem tínhamos chegado a Yggdra; se eu começasse a ficar tenso tão cedo, eu entraria em colapso antes de terminar.
Sentei-me ereto, levantando a cabeça do travesseiro que havia sido guardado dentro do Mimicky. Eu ainda estava um pouco sonolento, mas isso era muito melhor do que eu costumava me sentir em viagens. Normalmente, não tínhamos espaço na carruagem para eu trazer um travesseiro pessoal, mas isso mudou graças ao Mimicky!
— Hã? — Esfreguei os olhos e olhei para Kris. — Aconteceu alguma coisa?
Kris parecia bem acabada. Embora não tivesse ferimentos visíveis, ela estava coberta por uma fina camada de sujeira e seu cabelo estava uma bagunça, como se tivesse atravessado uma tempestade. Só que eu não achava que estivesse dormindo há tanto tempo assim.
Ao ver meu olhar de confusão, ela começou a tremer.
— Fraco humano, saia daqui. Desu.
Vendo que não custava nada, levantei-me e coloquei a cabeça para fora da carruagem. O que me cumprimentou foi uma montanha de cadáveres de monstros e um campo queimado. Até viajantes de outras terras elogiavam Zebrudia por suas estradas niveladas, mas o que eu via não guardava qualquer semelhança.
Meu Deus. Isso é terrível.
Saindo da carruagem, fiz uma careta com a visão dos cadáveres. Havia todo tipo de coisa morta, sendo a mais comum algum tipo de crustáceo preto que tinha mais ou menos o mesmo tamanho de um humano. Seus membros retorcidos estavam espetados esporadicamente no chão como lápides. Havia outros cadáveres mais familiares, como orcs, e pedaços de carne que não me lembravam nada. A luta deve ter sido bem intensa para deixar algo assim para trás. Era natural que Kris estivesse furiosa por eu ter dormido durante tudo aquilo.
Meus olhos se arregalaram quando notei as pequenas queimaduras perto da carruagem.
— Oh? A carruagem também foi atingida? Raios deixaram essas marcas? Caramba…
A carruagem da Grieving Souls foi construída especialmente para ser invulnerável a raios, que nos atingiam com mais frequência do que o normal.
Cara, não são muitos os monstros que conseguem usar eletricidade. Se aquela horda incluía monstros que podiam lançar raios, bem, ainda bem que eu estava dormindo.
Enquanto eu assentia para mim mesmo, Kris olhou para o lado e disse:
— Isso, hã, aquilo não foi o inimigo. Fomos nós.
— Hm?! Por quê?
— M-Mais importante, a Liz e os outros deixaram essa bagunça para nós enquanto foram perseguir o inimigo! Desu!
— O quê?! Isso é ridículo.
Claro, parece que foi uma batalha difícil, mas com a velocidade dela, a Liz nunca deixa ninguém fugir.
Ouvi um som metálico e me virei para ver Sitri saindo da sombra da pilha de cadáveres. Assim como Kris, ela estava coberta de sujeira. Em seus braços, havia uma espada larga com adornos azuis e dourados.
— E-Então você acordou! — ela disse com uma tosse. — Bom dia, Krai.
Ignorando o que estava ao redor, ela me deu um sorriso radiante. Eu tinha muito a perguntar, mas aquele sorriso me desarmou antes que eu pudesse abrir a boca.
Limpei a garganta.
— Oh, bom dia. Parece que vocês tiveram um tempo difícil por aqui. Onde está o Matadinho?
— Eu o enviei com a Liz. Podemos não ter sofrido nenhum dano real, mas eles eram mais fortes do que eu previa. Embora fossem anônimos, dado o número, a força e o fato de continuarem se movendo após serem atingidos pelos feitiços da Lucia, eu diria que devem estar por volta do Nível 7.
Isso me pegou de surpresa. Havia muitos bandidos e organizações secretas hoje em dia, mas apenas as maiores alcançavam um nível tão alto. Para colocar as coisas em perspectiva, esse era o mesmo nível de Ark e Arnold. Mais importante, porém, se Sitri disse que eram anônimos, isso significava que eram humanos, certo? Eles estavam gritando sobre bandidos, mas os cadáveres naquele monte pertenciam a monstros, então eu tinha certeza de que era isso que nos atacara.
— Não imagino que a Liz e os outros consigam acabar com eles — continuou Sitri. — Talvez conseguissem se o Luke estivesse com elas, mas alguns daqueles monstros que eles comandavam eram bem poderosos. Eles mencionaram primordiais…
— Oh? Primordiais?
Mas espere aí. Comandar monstros? Isso não deveria ser impossível?
Por enquanto, franzi a testa e assenti como se fosse algum especialista ou algo assim.
— De fato — disse Sitri, o sorriso não indo além dos lábios. — Uma delas se apresentou. A Descendente Soberana, a Mão que Guia os Sangues de Mana, Adler, a Senhora dos Monstros. Adler Dizraad da Nocturnal Parade. Foi o que ela disse.
Senhora dos Monstros. Adler, a Senhora dos Monstros, hein? Nocturnal Parade também não soa familiar.
Ainda assim, embora pessoas em todas as eras e em todos os cantos do planeta se chamassem de coisas como Senhor dos Monstros, você sempre podia ter certeza de que não tramavam nada de bom. A maioria não era grande coisa, mas olhando para o campo de batalha que deixaram para trás, eu estava começando a pensar que esse poderia não ser o caso desta vez.
Azar o meu que isso tivesse que acontecer no caminho para Yggdra.
Limpei a garganta, virei-me para Kris e depois para Sitri.
— Vamos cancelar a perseguição. Assim que os outros voltarem, partiremos para Yggdra. Não temos tempo para brincadeiras, não enquanto o Luke ainda é uma estátua.
Liz e o restante retornaram cerca de uma hora depois. Parecia que Sitri estava certa sobre aqueles bandidos saberem o que estavam fazendo. Eu só precisava olhar para eles para saber que tinha sido uma luta brutal; algum líquido verde com um cheiro estranho estava grudado nos protetores de pulso de Liz e na armadura de Ansem. Tino estava absolutamente encharcada. Lápis e o resto da Starlight pareciam bastante exaustos.
Sentado em cima do Mimicky, eu os cumprimentei com um balanço de cabeça. Tino parecia um cachorrinho deixado na chuva quando me viu.
— Fluidos corporais de alguns insetos caíram em nós — explicou Lucia com um suspiro. — Fiz o que pude para lavar, mas não consigo me livrar do cheiro. Presumo que uma das poções da Sitri resolva o problema…
— Oh, que terrível! Aqui, Tino.
Sitri sorriu e alegremente borrifou Tino com alguma poção viscosa e misteriosa. Eu sabia que as poções dela sempre funcionavam, mas ainda doía ver.
Quando Liz removeu seus protetores de pulso, vi que suas mãos estavam tremendo, o que era muito raro para ela.
— Droga, eu nunca vi um monstro centopeia como aquele — ela murmurou. — Eu sei que insetoides não caem facilmente, mas aquela coisa era dura como pedra e continuou chutando mesmo depois que eu esmaguei sua cabeça e a amarrei.
— Mmm — Ansem gemeu.
— Não foi afetado por raios nem ar frio.
Lápis viveu muito mais do que qualquer um de nós e sabia muito mais sobre monstros, mas até ela estava fazendo careta.
— Ouvi dizer que alguns monstros primordiais têm uma vitalidade inacreditável, embora nunca tenha pensado que encontraria um.
— Não há nada que possamos fazer — disse Eliza, que não era a única sem motivação.
Que diabos são esses bandidos se fizeram caçadores de elite falarem assim?
Então, para minha surpresa, percebi que eles não trouxeram nada de volta.
— Hm? Não me diga que não pegaram nenhum troféu? Quando vocês tinham quase a equipe inteira?
Eu sei que Sitri sugeriu que eles poderiam não ser capazes de acabar com eles, mas não era frequente perseguirem bandidos e voltarem de mãos vazias.
— É. Sinto muito — disse Liz. — Acho que simplesmente não estamos equipados para o que eles tinham. Embora pudéssemos tê-los pego se o Luke estivesse aqui. Muitos deles eram fortes, não apenas a centopeia. Enquanto estávamos lutando com eles, os caras que estavam montados fugiram.
— Sinto muito, Mestre — acrescentou Tino, encharcada e desanimada.
Você ficou bem resistente ultimamente, não ficou?
— Entendo — eu disse. — Bem, não é nada demais.
Bandidos não eram nada além de problemas, e quanto mais fortes eram, mais desagradáveis costumavam ser. Embora eu não achasse que isso aconteceria desta vez, os bandidos frequentemente voltavam para se vingar, simplesmente porque falhamos em acabar com eles de uma vez.
— Irmão?! — Lucia parecia perplexa. — Como você pode soar tão arrogante quando não fez nada?!
— É, ela tem razão! Desu! — Kris acrescentou, agitando os braços.
Digo, vocês poderiam me culpar? Não havia a menor chance de eu lutar contra uma centopeia gigante. Eu nem queria olhar para ela. Sendo honesto, eu tinha um desgosto particular por monstros insetoides. Insetos viscosos que faziam sons estridentes e não temiam a morte já tinham me dado um inferno muitas vezes antes.
Liz, parecendo murcha, continuou apressadamente:
— M-Mas está tudo bem! Tenho quase certeza de que eles não cairão a menos que os derrubemos! — Ela achava que eu estava olhando estranho para ela ou algo assim? — Eu nunca vi a maioria daqueles monstros antes, e não acho que a maioria dos Níveis 5 ou 6 conseguiria enfrentá-los.
Isso significa que realmente não deveríamos tê-los deixado fugir?
Bem, está tudo bem. Vou apenas fingir que não ouvi nada.
— Isso me lembra, que espada era aquela que você tinha, Sitri?
— Ah. Um dos bandidos era um Espadachim com um Mana Material razoavelmente alto — ela me contou. — A Liz conseguiu derrubá-lo antes que ele pudesse se ajustar à velocidade dela. Tenho certeza de que se o Luke estivesse lá, ele gostaria de ter lutado com aquele jovem. O próprio portador foi recuperado no caos, mas consegui pegar sua espada. Então pensei que você pudesse gostar dela!
Liz era rápida até para uma Ladina. Com isso e sua força, ela muitas vezes conseguia correr em volta de Espadachins, conhecidos por sua baixa resistência.
Se a Sitri conseguiu pegar a espada, não deveria ter capturado o dono em vez disso? Eh, eu provavelmente não deveria dizer isso em voz alta.
— Ha ha ha, mas nós tínhamos um Espadachim — eu disse, batendo na estátua do Luke. — Que pena, Luke. Parece que a coisa estava bem feia lá atrás.
— Krai Baby…
— Irmão…
Só estou brincando.
Se a Liz e a Sitri estavam desejando que ele estivesse lá, então este era realmente um momento ruim para ele estar de pedra. Normalmente, ele sairia atacando sem que ninguém dissesse nada, e antes mesmo de ter certeza do que estava enfrentando.
— Hmph. Vai dar mais trabalho, mas devemos relatar isso à Associação de Caçadores — disse Lápis, embora não parecesse nada feliz com isso. — Embora tenhamos reduzido um pouco o número deles, são atípicos demais para deixar passar. Não é qualquer um que consegue encontrar monstros primordiais, muito menos comandá-los.
Então ela queria relatar? Eu conseguia entender o porquê e sabia que era a coisa certa a se fazer, mas eu tinha outras ideias. Se fizéssemos o relatório, eu tinha quase certeza de que seria eu quem seria solicitado a eliminar aqueles bandidos. Eu mal conseguia acreditar que tínhamos topado com um inimigo que esta equipe não conseguiu acabar. Na próxima vez, eles estariam familiarizados com nossas táticas e definitivamente seriam capazes de desenvolver contramedidas. Isso era um trabalho para o Ark.
— Como a Sitri já afirmou, Yggdra é nossa prioridade — eu disse. — Enviaremos uma carta para a Associação de Caçadores ou algo assim.
— Entendido. Passarei a mensagem na próxima cidade que alcançarmos.
Eu sempre podia contar com a Sitri. Exceto da última vez, quando ela estava fora de si. Achei que fosse um bom acordo, mas Kris me olhou como se eu fosse louco.
— Não que eu esteja percebendo só agora, mas você realmente não faz nada a menos que as coisas estejam no limite. Desu.
— Bem, com licença. Saiba que eu não sou o Krai Andrey de sempre.
Afinal, estou com todas as minhas Relíquias de prontidão. Por exemplo…
Chamei o Mimicky e tirei uma corrente longa. Era uma Relíquia, longa e enferrujada, com elos grossos aos quais dezenas de algemas estavam presas. Sendo construídas de Mana Material, as Relíquias não eram afetadas por fenômenos físicos; a ferrugem era puramente estética. Esta peça era conhecida como Autoridade do Dominador, e era um dos meus itens mais intimidadores. Kris olhou para ela com os olhos arregalados.
— É uma poderosa Relíquia do tipo corrente que restringe o espírito de qualquer pessoa presa por ela, selando sua vontade de resistir — expliquei. — Com isso, até mesmo um bandido pode ser controlado com facilidade.
— F-Fraco humano, por que você tem isso? Desu?
Selar o espírito de alguém para lutar, em vez de sua força, era uma característica perversa, e a corrente tinha a aparência correspondente. Eu nunca a usei genuinamente, apenas para testar seus poderes, mas ainda achava que seria útil contra bandidos cheios de Mana Material que não podiam ser presos com algemas normais. Como bônus, uma vez que a corrente estivesse ativa, você poderia forçar qualquer pessoa presa a ela a caminhar. Daí o nome “Autoridade do Dominador“.
Notando o terror de Kris, sorri para ela. Foi quando Liz franziu a testa e disse:
— Krai Baby, me diga se entendi errado, mas você não precisa que todas as cento e seis, todos os cinquenta e três conjuntos, estejam conectados a alguém para que ela sequer trave? É defeituosa, não é?
— Pegar cinquenta e três pessoas de uma vez parece bem difícil — admiti. — E colocar as algemas em todas elas também. Sem mencionar que nossos inimigos aqui são bem poucos em número.
— Defeituosa é uma palavra muito rude para se dizer — disse Sitri pensativamente. Ela sempre ficava do meu lado. — Se você também prender as pernas deles, precisará de apenas metade das pessoas.
Se fizéssemos isso, não poderíamos realmente forçá-los a andar, o que significa que teríamos que tentar carregá-los.
— Além disso, Líder, você percebe o quão difícil é pegar alguém vivo? — Lucia disse. — Aquelas pessoas estavam tentando nos matar!
Ansem grunhiu em concordância.
Meus amigos, que todos sabiam o quanto eu tinha desembolsado por aquela corrente, todos tinham uma reclamação ou duas. Claro que tinham. Se esta Relíquia funcionasse de maneira prática, ela nunca teria sido colocada à venda! Se essa coisa exigisse apenas, digamos, dez pessoas ou algo assim, ela facilmente teria sido vendida por dez vezes o que eu paguei.
Aqui, se não tivermos pessoas suficientes, podemos apenas completar a diferença com a Kris e quem mais estiver por perto.
Não?
Kris me olhou quase como se tivesse pena de mim. Acho que isso era melhor do que os olhares de desdém que eu estava recebendo dos outros membros da Starlight.
— Fraco humano. Você não tem nenhuma Relíquia que possa ajudar durante uma batalha? — ela perguntou.
Eu não me importava se pensassem que eu era um tolo, mas minhas Relíquias não faziam nada de errado. Eu tinha que corrigir essa calúnia.
— E-Espere. Aguente aí. Tenho muitas outras intere—Relíquias úteis. Aqui, tenho estas máscaras que crescem e flutuam ao redor do seu corpo.
— Kai. Minhas pernas estão me dizendo para correr — disse Eliza, soando desanimada.
Não tínhamos passado nenhum tempo considerável juntos ultimamente, mas as coisas estavam feias se até ela estava ficando cautelosa. Ainda assim, eu não tinha nenhuma Relíquia que pudesse ser útil em combate. Não era que eu fosse fraco, bem, eu era, mas o ponto era que meus amigos e inimigos eram apenas obscenamente fortes.
Kris suspirou.
— Tudo bem, eu entendi. — Ela deu um tapinha no meu ombro. — Podemos conversar sobre isso na carruagem, então vamos andando. Se ficarmos assim, estaremos aqui até o pôr do sol. Desu.
— Nah, eu não quero fazer isso. É apertado demais lá dentro para mostrar minhas Relíquias!
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Um grupo reuniu-se em um campo aberto a algumas dezenas de quilômetros de uma estrada de Zebrudia. Não havia nada para bloquear a visão deles, e nenhuma alma até onde a vista alcançava. No entanto, se alguém os descobrisse, seria improvável que se aproximasse deste grupo.
Eles tinham gigantes cinzentos do tamanho de pequenas colinas, insetos pretos cintilantes tão grandes quanto humanos, cavalos com asas douradas brilhantes, esqueletos diáfanos como miragens que exigiam um olhar atento para serem notados, e uma enorme centopeia carmesim que brilhava sob a luz do sol. Com esses e muitos outros monstros que não podiam ser encontrados perto da capital imperial, eles eram uma verdadeira anomalia.
Embora fossem chamados de monstros, eram criaturas vivas como qualquer outra; se uma variedade deles se reunisse, uma hierarquia se formaria. Normalmente, ter tantos monstros diferentes em um só lugar resultaria apenas em caos. O fato de estarem calmos era a prova de que alguém estava mantendo sua unidade.
Trazendo monstros e bestas míticas de todo o mundo sob seu comando, a Nocturnal Parade era um grupo incomum. Uma garota vestindo peles brancas brilhantes passou a mão contra a epiderme grossa de um grande gigante — um ciclope sombrio. Esta era Uno Silba, uma Mestra de Espíritos Sagrados.
— Parece que todos sem resistência mágica foram mortos — ela disse, franzindo os lábios. — O Zorky é super durável, e até ele está ferido! Ele pode enfrentar dez caçadores normais.
Eles haviam lutado e depois recuado. Foram forçados a deixar para trás aqueles que não podiam mais se mover. Enquanto verificava o estado dos que ainda estavam vivos, Uno olhou para um de seus companheiros.
— Eu certamente não esperava feitiços de alto nível de uma distância tão longa. Viemos de tããão longe em busca de monstros após ouvir rumores de alguma profecia, e não valeu nem um pouco a pena. O Quint estava tão confiante, mas aquela Ladina o nocauteou com um golpe e ainda levou a espada dele.
— C-Cale a boca! Eu não achei que eles atacariam através daqueles feitiços para chegar até nós! — Ouvindo as palavras provocativas de Uno, o Espadachim respondeu com claro descontentgar. Este era Quint, um jovem em uma armadura feita das carapaças de monstros insetoides. — Adler, só perdemos a ralé. Os generais e as Controladores estão todos vivos. O que devemos fazer?
Aquela pergunta foi dirigida a uma mulher com pele bronzeada e roupas feitas de couro de dragão negro. Embora fosse magra, seu olhar afiado e a lança em sua mão, obtida de um chefe de Cofre do Tesouro, davam a ela o ar de um animal selvagem. A líder da Nocturnal Parade, Adler Dizraad, soltou um pequeno suspiro.
— Eu não esperava que eles atacassem sem sequer tentar negociar — disse ela. Havia algo sedutor na voz que vinha daqueles lábios pintados de preto com batom. — Depois que o Esquadrão de Bandidos Barrel foi destruído, ninguém foi atrás daquele bando. Então aquela era a Grieving Souls? O famoso líder deles não foi visto em lugar nenhum.
— Isso mesmo — disse Uno. — Além disso, fizemos aquela longa jornada apenas para descobrir que a profecia acabou. A Grieving Souls nunca foi nosso objetivo, para começar!
Adler sorriu ironicamente diante da franqueza de Uno.
— Pensei em dar uma chance a eles já que tínhamos a oportunidade, mas isso custou um preço bem alto. Eu esperava pelo menos atacar primeiro. — Ela esfregou a superfície carmesim da centopeia Aastrovorous, a besta mítica sobre a qual estava sentada.
Aquelas vendavais viciosos carregados de fragmentos de gelo eram praticamente desastres naturais. Monstros que eles haviam aprimorado destruindo exércitos e caçadores foram soprados como folhas ao vento. O primeiro ataque eliminou a maioria dos que não tinham resistência mágica, e os ataques seguintes, lançados por precaução, colocaram metade dos sobreviventes a poucos passos da morte. Se não fosse pelo seu Mana Material e equipamentos de proteção, as Controladores não teriam se saído melhor.
Claro, os outros membros daquela equipe também não eram brincadeira. Isso incluía o Imutável (cuja presença provava ser a Grieving Souls), aquela Ladina e os Espíritos Nobres, que atacaram uma de suas próprias carruagens por algum motivo.
A Aastrovorous, uma criatura que devorara inúmeros caçadores de alto nível no passado, estava retalhada em vários lugares. O dano foi curado graças aos seus altos poderes regenerativos, mas Adler ficou chocada ao ver algo romper facilmente as defesas de sua amada Aastrovorous. A centopeia tinha uma armadura mais resistente que o aço.
Eles estavam em Zebrudia, uma terra que produzira um número não pequeno de caçadores de alto nível. Aquela era a Grieving Souls, uma equipe composta apenas por caçadores com títulos e um histórico de extermínio de grandes nomes do submundo. Embora Adler sentisse que compreendia ambos os fatos, ela tinha que admitir que suas expectativas foram superadas.
Adler Dizraad era de sangue real, descendente de um governante antigo. Embora não tivesse empregado toda a sua força, ela ainda não conseguia acreditar que suas forças tinham sido tão facilmente subjugadas.
— Se desistirmos, então termina aqui. Meu bando merece coisa melhor.
— Números são muuuito importantes, Adler — disse Uno —, especialmente quando você está enfrentando uma força grande. Embora eu ache que isso mude quando você está lutando contra um magi bizarro que consegue usar aqueles feitiços super gigantes em sucessão.
— Zebrudia não tem um monte de dragões? — Quint disse. — Tipo, eu sei que “dragões” pode significar todo tipo de criatura, mas só temos que domar o mais forte que existir.
— E oooonde vamos encontrar algo assim? Da última vez, subimos uma montanha nevada à toa, e não tenho desejo de fazer isso de novo.
O bando de Adler viajou de sua terra natal distante para Zebrudia a fim de domar novos monstros e fortalecer seus exércitos. Mas ao trazer novos monstros, ainda havia a necessidade de ser criterioso na seleção. Quanto maior um bando ficava, mais devagar se movia e mais você tinha que se preocupar com comida.
Mesmo deixando de lado as considerações de longo prazo, aumentar cegamente os números ainda era uma má ideia ao reunir companheiros. Um bando grande corria um risco maior de ser descoberto e atacado. Embora Adler estivesse confiante de que poderiam derrotar um exército profissional, até mesmo um inseto pestilento poderia ser uma fonte de irritação.
— É uma pena — disse ela. — Eu esperava que pudéssemos colocar as mãos em qualquer que fosse a ameaça que apareceu na capital imperial.
Havia rumores de algum demônio que cavaleiros e caçadores falharam em lidar. Uma unidade que pudesse derrubar um enxame de guerreiros valeria seu peso em ouro para Adler. Mas agora que ele se fora, não havia nada que pudessem fazer. Zebrudia tinha várias Linhas Ley espessas, que eram necessárias para criar monstros poderosos. Ela tinha certeza de que seriam capazes de compensar o que perderam lutando contra a Grieving Souls.
De repente, ela se lembrou de uma conversa anterior. A Aastrovorous sobre a qual estava sentada tremeu, emitindo um som baixo de chiado.
— Pensando bem, ouvi dizer que a Grieving Souls tem um amor genuíno pela batalha e frequentemente luta contra monstros difíceis pelo simples prazer disso. Dizem que eles mataram vários mutantes nomeados e outros em potencial.
— Hm? O que você quer dizer com “em potencial”? — Os olhos de Quint se arregalaram. Ele gostava de domar monstros empunhando espadas, que eram extraordinariamente raros. — Se eles apenas têm o potencial, isso significa que pouca gente sabe sobre eles, certo? Se não houver recompensa, então não há razão para matá-los.
A caça ao tesouro era apenas mais um trabalho. Se o risco não correspondesse à recompensa, então era normal não agir. Se um monstro representasse uma ameaça mortal, apenas um maníaco tentaria matá-lo antes que uma recompensa fosse oferecida.
— É por isso que ela disse que eles têm um amor genuíno pela batalha — Uno insistiu. — Senhora Adler, o que faremos?
Sua voz inocente arrancou um suspiro de Adler. Embora tivessem descoberto que a Grieving Souls era mais forte do que sua reputação sugeria, isso não significava que já haviam perdido. A Aastrovorous estava bem, junto com alguns dos outros monstros de elite de Adler.
Olhando para Uno e Quint, ela sorriu.
— Não podemos dizer que fomos derrotados sem dar a eles uma luta apropriada, podemos? Eles pareciam estar com muita pressa, e eu tenho um interesse pessoal neles. Vamos ver o que os caçadores desta terra têm a oferecer.
Ela tirou um espelho de mão violeta muito distinto. Estava adornado com asas espalhafatosas e tinha um olho gravado no verso. O que parecia ser uma ferramenta simples era na verdade um monstro conhecido por apenas alguns. Sem poderes de luta ou capacidade de sobrevivência, este espécime estranho provavelmente foi feito por alguma raça superior.
— Manifeste-se, espelho! Eu, Adler, Senhora dos Sangues de Mana, ordeno a você: mostre-me o Mil Truques!
Recebendo a ordem, o olho se contorceu. A superfície do espelho brilhou e a imagem ondulou por um momento. Adler mal conseguia acreditar no que o espelho estava lhe mostrando. Havia um jovem de cabelos pretos e um rosto comum. Ele não tinha aquela aura particular que ela via em todas as pessoas poderosas; ele parecia qualquer pessoa comum. Mas não foi isso que a surpreendeu.
Olhando por cima do ombro de Adler, a bochecha de Uno tremeu.
— Aquilo… são monstros? — ela perguntou temerosa.
A imagem do espelho mostrava o Mil Truques cavalgando no topo de um Cofre do Tesouro, guiando-o como um condutor de carruagem. Inúmeras máscaras flutuavam ao seu redor como satélites, enquanto os membros da Grieving Souls que haviam encontrado anteriormente suspiravam com exasperação.
Aquilo eram monstros. Deviam ser monstros. Adler deu por si dizendo “deviam ser” porque, mesmo com toda a sua experiência em monstros, ela nunca tinha visto ou ouvido falar de nada parecido com eles. Um Cofre do Tesouro capaz de movimento dinâmico e máscaras que flutuavam protetoramente.
A última vez que encontraram um espírito afim foi Quint.
— Ele poderia ser uma Controlador?!
As Controladores eram pessoas com o poder especial de subjugar e controlar monstros. Desde a antiguidade, seus poderes extraordinários as tornavam alvos de ostracismo. Mesmo agora, aqueles que nasciam assim estavam destinados a serem tratados como inimigos do mundo. Embora as Controladores fossem muito reais, a existência de seus poderes era mantida em segredo devido ao perigo inerente, e pouquíssimas pessoas sequer conheciam o termo “Controlador“.
— Mas Senhora Adler — disse Uno —, ele não tem a mesma presença que nós.
Quer estivessem cientes disso ou não, todas as Controladores tinham uma presença distinta. No entanto, esse homem não tinha. Mas, ao mesmo tempo, o fato de ele não tentar esconder seus poderes sugeria uma confiança imensa. Uno e Quint tinham sido diferentes. Até que Adler os descobrisse, eles não sabiam o que seus poderes significavam ou como usá-los. Estavam resignados a viver como fracos.
Mas este homem, o Mil Truques, era diferente. Ele tinha uma compreensão perfeita de seu potencial. Adler teve uma forte premonição — mesmo que escolhessem não perseguir a Grieving Souls agora, era inevitável que um dia eles se cumprimentassem como inimigos.
De repente, o Mil Truques olhou levemente para cima, seus olhos encontrando os deles. O espelho apenas refletia visões distantes; não havia como ele possivelmente estar fazendo contato visual. Ainda assim, o coração de Adler saltou uma batida, um fervor vago brotando dentro dela. Um sorriso formou-se em seu rosto. Uma senhora dos monstros de força similar, com servos poderosos. Ela nunca sequer imaginou que tal pessoa pudesse existir. Sem dúvida, este seria o inimigo mais forte que ela já enfrentara. Mas Adler trilhava um caminho que escolhera, sabendo que isso a tornava uma inimiga da humanidade.
— Oooh, eu entendi — disse Uno. — Dentro daquela armadura, o Imutável é um monstro. Eu sempre tive dificuldade em pensar que uma pessoa tão grande pudesse existir.
— Talvez a que me atingiu também seja um monstro — Quint acrescentou. — De jeito nenhum um humano avançaria contra um daqueles tornados.
Nenhum deles parecia nervoso. Aparentemente, o terror deles durou apenas um momento.
A vitória deveria ser possível para eles se o Mil Truques realmente tivesse tão poucos monstros quanto parecia. No entanto, para Adler, escolher não perseguir nunca fora uma opção, para começar. Enquanto lambia os lábios, o Mil Truques desviou o olhar, quase como se dissesse que não estava interessado. Observando-o, ela sussurrou uma declaração silenciosa.
— Não há necessidade de dois senhores. Seus monstros serão meus.
Tradução: Rudeus Greyrat
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