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Grieving Soul – Capítulo 1 – Volume 9

 

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 09

Capítulo 01:
[Para Onde a Maldição Foi]


Controlando a respiração, ela se posicionou atrás de seu mestre. Mantendo concentração total e se preparando para qualquer coisa, Tino Shade adotou o estado de espírito compartilhado por todos os Caçadores de Tesouros de elite.

Já fazia algum tempo que seu mestre não pedia sua proteção. Com tantos inimigos, era normal que ele levasse uma escolta quando saía. Às vezes, ele também levava uma mesmo quando não ia sair.

A proteção em si provavelmente nem era o ponto principal. O objetivo real dele era, muito provavelmente, avaliar a força de quem quer que estivesse com ele. Por um lado, Tino tinha sido selecionada para o dever de guarda, quando era muito menos experiente, e por outro, um Nível 8 não precisava de proteção para começo de história.

Geralmente, um membro da Grieving Souls era escolhido para o dever de guarda. Eles eram pessoas ocupadas, mas era comum que pelo menos um deles estivesse livre, então, desde que não estivessem em uma caçada, Tino raramente entrava na mira. Hoje, foi simplesmente uma questão de sorte que Tino fosse a única com a agenda vazia.

Tino estava transbordando com um nível saudável de tensão e animação. Embora visse seu mestre com bastante regularidade, fazia muito mais tempo desde que foram apenas os dois, sem a Liz. As circunstâncias não poderiam ser mais ideais.

Às vezes, o dever de guarda envolvia uma Provação, às vezes não. Se algo peculiar acontecesse, geralmente era durante a primeira opção, mas seu conhecimento sobre o mestre dizia que esta era definitivamente a segunda. Afinal, a recente onda de incidentes bizarros com maldições tinha mais ou menos se acalmado, e Krai disse que não planejava sair por enquanto.

Após ser engolida por aquele baú Relíquia aterrorizante, que parecia que ele chamava de Mimicky, ela tinha cumprido sua cota de Provações, embora modestamente. Ela custava a acreditar que algo mais aconteceria. Em outras palavras, isso era um encontro, de certa forma. Eles podiam não ir a lugar nenhum, mas era como um encontro. Um daqueles encontros em casa, talvez.

As pessoas finalmente tinham começado a trabalhar no lounge destruído, e a limpeza estava progredindo bem. Com as rachaduras no chão e em outros lugares já desaparecidas, tudo o que restava era substituir o vidro e os móveis, e seria como se o ataque nunca tivesse acontecido. O pensamento da paz retornando fez Tino soltar um suspiro de alívio.

O lounge brilhava sob a luz do sol. Lá, em um canto do local, seu mestre estava em uma mesa, sentado de frente para o Tapete.

Com o Mimicky, talvez a Relíquia mais aterrorizante que Tino já vira, de lado, seu mestre parecia mortalmente sério. O Tapete à sua frente não era um simples tapete. Era uma das Relíquias mais famosas que existiam, um Tapete Voador. Tentar comprar um para si mesmo provavelmente custaria pelo menos cem milhões de gild.

No entanto, o Tapete não era nem um mero Tapete Voador. De acordo com a Lucia, essa Relíquia do cofre do castelo imperial era uma coisa instável que não permitia montadores. Se você tentasse forçar, o Tapete virava e te jogava no chão. Naquele ponto, era praticamente um item amaldiçoado.

Pensar nisso a lembrou do recente alvoroço das maldições. O boato era que seu mestre estava conectado a todos eles. Depois, havia o fato de que o anel que ela encontrou no Mimicky e deu ao seu mestre, o qual ele colocou alegremente, era o Anel Eremita, um item com o poder de atrair maldições.

Mestre, será que o senhor gosta mesmo de coisas amaldiçoadas?

Sentado diante de seu dono, o Tapete estava ainda mais plácido. Suas pernas (?) estavam cruzadas, e ele segurava seu café intocado em uma mão (?) enquanto olhava (?) para Krai. Ele estava agindo como se fosse alguém importante. Se ele não fosse uma Relíquia, e se o trabalho de Tino não fosse montar guarda atrás das costas de seu mestre, ela teria colocado esse Tapete no seu devido lugar.

Ela não era estranha ao comportamento espontâneo de seu mestre, mas não conseguia imaginar o que ele estava planejando desta vez. E pensar que ela presumiu que teria uma chance há muito esperada de conversar e talvez até sair para comer doces com ele.

Silenciando a respiração, ela permaneceu como um cavaleiro leal e observou a situação se desenrolar. Um momento atrás, seu mestre tinha fechado os olhos e juntado as mãos, mas agora eles se abriam lentamente de novo.

— Sabe, acho que você é capaz de mais do que estou vendo agora — ele disse, olhando diretamente para o Tapete. — Como você deve saber, Tapetes Voadores são bem famosos no que diz respeito a Relíquias, e você é tão prático quanto uma Bolsa Mágica. Além disso, em termos de tamanho, capacidade de carga, velocidade, consumo de mana e tudo mais, você tem especificações altas em todos os sentidos que um Tapete Voador deveria ter. Você tem mais potencial do que qualquer outra Relíquia que eu possuo. Você deveria se orgulhar disso.

Silêncio.

— Acredite em si mesmo, Carpy-kun. Não sei como era a sua vida antes, mas você não pode continuar vadiando com outros tapetes desse jeito. Você é um homem destinado a coisas maiores! Estou te avisando, como amigo. Voe! Deixe as pessoas te montarem! Nenhuma altura é grande demais para você, ninguém consegue superar sua velocidade!

O Mestre está… dando um sermão no Tapete dele.

Enquanto ouvia seu mestre, o Tapete batucava seu dedo indicador (?) na mesa. Ele estava evidentemente interessado em ouvir, embora Tino não conseguisse nem arriscar um palpite de onde poderiam estar as orelhas dele. Seu mestre certamente tinha uma grande variedade de Relíquias. A compreensão dela sobre o assunto estava mostrando suas limitações.

Mas por que seu mestre estava tão fixado no Tapete Voador, afinal? Grande parte da fama e dos preços extravagantes dos Tapetes Voadores vinha do fato de que muitos mercadores estavam desesperados para colocar as mãos em um. Se um caçador quisesse voar, ele poderia simplesmente fazer isso por conta própria. Tino não conseguia fazer isso, mas não devia ser difícil para um Nível 8 conseguir. Seu mestre também tinha a opção de voar com a Lucia em sua vassoura.

Enquanto Tino observava inquietamente, seu mestre continuou com uma paixão ainda maior.

— Se é confiança que te falta, podemos treinar juntos. Eu estarei lá em cada passo do caminho. Vamos expandir suas possibilidades, um passo de cada vez.

Será que essa coisa sequer dá passos? E se você pode ser tão gentil com um Tapete, não pode ser gentil comigo?!

Ele não a tinha elogiado nem mesmo quando ela recuperou aquele anel depois de ser comida pelo baú do tesouro. Embora pequeno, havia uma parte dela que desejava poder renascer como uma Relíquia. Ela queria ser acompanhada um passo de cada vez.

O Tapete estava completamente indiferente à abordagem humilde de seu mestre. Já Tino, no entanto, ficaria feliz a ponto de abanar o rabo se ele falasse assim com ela.

Não, me perdoe, Mestre. Pode haver algum outro lado nisso. Não seria a primeira vez que você indiretamente nos deu alguma lição especial.

— Olhe para o Mimicky. Quantas Bolsas Mágicas você já viu como aquela? Quase quero dizer que nem preciso de tantas funções! Mas se você se dedicar, então poderá alcançar o mesmo nível.

Parecendo desesperado, seu mestre estendeu a mão enquanto falava. O Tapete a afastou com um tapa. Uma recepção tão fria causou uma mudança na expressão de seu mestre.

Mestre, por que você parece tão… feliz!?

Isso não continuaria. Tino podia ter sido trazida aqui meramente para proteção, mas não conseguia mais suportar ver o desrespeito desse Tapete. Alguém poderia entrar no lounge a qualquer momento. Depois de finalmente conseguir uma chance de ficar sozinha com seu mestre, ela era, em vez disso, a vela. Ela não via razão para que o encontro deles fosse arruinado por um objeto inanimado, mesmo que fosse uma Relíquia.

Colocando uma expressão estoica, ela bateu as mãos para chamar a atenção de seu mestre.

— Mestre, deixe isso comigo. Com as técnicas que a Lucia me ensinou, eu vou domar esse, er, Carpy-kun, não é?

— Eh, você não precisa fazer isso. O Carpy-kun é capaz quando se esforça.

— Não, eu preciso! Se isso continuar, vai abrir um mau precedente que outros podem seguir!

Tino se recusava a deixar qualquer um se aproveitar da bondade de seu mestre. O Carpy-kun deveria ser atingido por uma das Mil Provações. E ela certamente queria trocar de lugar com ele! Tino era capaz quando se esforçava.

Embora ela tivesse realizado muitas missões antes, domar um têxtil era a primeira vez. Parecendo muito séria, ela tomou uma postura cautelosa e se aproximou lentamente do Tapete. O Tapete simplesmente deu de ombros (?) para ela e flutuou para cima, sobre a cabeça dela, e para trás das costas de seu mestre, onde ele se pressionou.

Tino engoliu em seco. Que movimento fluido foi aquele. Esta não era uma Relíquia comum se pudesse passar por cima da cabeça dela daquele jeito. Exatamente o que ela esperaria de uma Relíquia na qual seu mestre via tanto potencial.

— Ah, que audácia. Não, usar o Mestre como escudo é covardia. E, Mestre, por favor, não deixe ele se safar com isso!

— Espere aí. Se eu não posso montá-lo, talvez eu possa usá-lo como uma capa?

Enquanto dava voz a essa ideia bizarra, ele tentou amarrar as mãos do Tapete à sua frente. Não adiantou nada. Não se podia confiar em seu mestre em momentos como este. Respirando fundo, Tino fortaleceu sua determinação. Ela virou uma chave interna, fazendo seu batimento cardíaco acelerar um pouco. Seu coração vibrava tanto que a assustava. Ela sentiu um calor dominar seu corpo. Embora não fosse nada comparado ao que a Liz conseguia fazer, Tino tinha aprendido recentemente uma espécie de Sombra Partida incompleta.

Seus sentidos estavam mais aguçados, e ela sentiu uma dor aguda na nuca. Seus músculos tremiam, implorando para liberar seu poder. Ela não tinha imaginado que seria assim que demonstraria essa sua habilidade pela primeira vez, mas agora não era hora de ser exigente.

Este Tapete não escaparia. Ela agarraria a coisa rebelde, e depois?

— Se você não ouvir o Mestre, eu vou te torcer como um trapo.

— T-Tino?! Acalme-se!

Seu mestre tentou freneticamente chamar o nome dela, mas era porque ele agia assim que o Tapete se aproveitava dele. Se ele tratasse o Tapete como tratava Tino, o Tapete poderia passar a respeitá-lo, mas ele escolheu não fazer isso. Que discriminação.

Você vai dar uma Provação ao Tapete ou vai me mimar igualmente? Escolha, Mestre!

Usar seu mestre como escudo era inútil. Tino tinha a vantagem do treinamento. Um tapete que se entregava aos prazeres da carne e da bebida (?) não era páreo para alguém que tinha sido treinado por Provações brutais. Ela ia arrancar aquele tapete das costas de seu mestre e ensinar-lhe algum respeito.

Tino observava cada movimento do Tapete. O contorno dele era diferente de um humano, mas se ela pegasse seus movimentos quando começassem, ela deveria ser capaz de lê-lo. Se ela ensinasse com sucesso uma lição ao Tapete, seu mestre pensaria melhor dela, e ela tinha certeza de que ele finalmente a recompensaria.

Ela dava respirações curtas. Talvez intimidado por ela, a mão (?) do Tapete tremeu. Ele estava prestes a voar no mesmo instante — mas houve um ruído repentino vindo da entrada. Tino foi instantaneamente lembrada de que seu objetivo principal era proteger seu mestre. Ela direcionou sua atenção para o som, bem a tempo de ver uma figura humana desabando.

Um homem vestido em armadura tinha entrado no lounge. Ele não estava usando o tipo de armadura que priorizava a leveza, como a maioria dos caçadores preferia, mas uma armadura de cavaleiro que tanto projetava poder quanto agradava aos olhos. Ele não estava usando capacete, provavelmente porque estavam na cidade. Com seus sentidos aguçados por sua pseudo Sombra Partida, Tino foi capaz de reconhecer o rosto do homem antes que ele caísse.

Seu mestre deu um pulo quando ouviu o barulho. Seus olhos estavam bem abertos.

— Q-Quem é esse?

— É o Hugh, Mestre! Hugh Regland da Ordem Zero! O homem que disse impensadamente que queria ser seu aprendiz!

— Ah. Aaaahhh.

Uma resposta vaga. Ele estava falando sério ou estava brincando? Tino tinha certeza — quase certeza — de que ele estava brincando. Deve ter sido o jeito dele de checar se Tino conseguia se lembrar. Considerando que a Liz o nocauteou e o trouxe para dentro, e então ele abruptamente pediu para ser o aprendiz de seu mestre, ele tinha deixado uma impressão que o tornava difícil de esquecer. Com aparência semelhante à do Ark, ele era um homem desagradável, mas isso não mudava o fato de que ele era um cavaleiro de uma ordem famosamente seletiva. O que diabos tinha acontecido com ele?

Ainda em sua cadeira, seu mestre respirou fundo e sussurrou: — Ele morreu?

— Ele está vivo, Mestre. O coração dele está batendo, embora ele pareça estar exausto.

Tino aproximou-se timidamente do cavaleiro caído. Sua armadura, que estava habilmente polida quando se conheceram, estava agora enegrecida com fuligem e coberta de pequenos arranhões. Seu cabelo estava desalinhado e ele exalava um cheiro estranho. Era o cheiro de esgoto. Ela o cutucou com a ponta do sapato. Parecia que ele não tinha sofrido nenhum ferimento grave.

— Mestre, o que devemos fazer? Não acho que ele vá morrer se o deixarmos em paz.

— Hmmm. Bom, então. Por que não deixá-lo aí?

Ele disse isso com o Tapete ainda agarrado às suas costas.

Mestre, você não acha que há um pouco de discrepância entre como você trata as pessoas e como trata esse Tapete? Este homem é um nobre, para constar…

Enquanto Tino se perguntava o que fazer, Hugh de repente começou a se mover. Ele deve ter recuperado a consciência. Ele não parecia ter forças para se levantar, mas com movimentos sofridos, conseguiu virar-se de costas. Apenas olhando para o rosto dele, ficava claro que ele tinha encontrado algo que não se via todo dia.

Não restava um traço do visual vigoroso inicial que ele tinha. Quando ele chegou pela primeira vez, a Liz o nocauteou, mas ele parecia muito pior agora. Suas bochechas estavam encovadas e ele tinha olheiras profundas. Ele tinha uma barba rala no queixo e sua pele estava seca. Exausto também, como se estivesse perdido na selva por dias a fio. No entanto, olhar em seus olhos ligeiramente abertos revelava um brilho em suas pupilas.

Quando viu Tino, um pequeno sorriso de alívio formou-se em seus lábios. Ele ergueu os braços, como se reunisse o resto de suas forças, apresentando o que estivera segurando contra o peito.

— Leve isto — ele disse lentamente — para o mentor.

— Hm?!

Foi puro reflexo. O trabalho de um Ladino era batedor de inimigos, detectar armadilhas e fazer outras coisas que pudessem manter a equipe longe do perigo. Esperar até ver e entender era lento demais. Para o perigo real, um Ladino precisava de intuição.

Tino deu um passo para trás, percebendo apenas alguns segundos depois que tinha recuado. Quando se viu sem fôlego, percebeu que tinha esquecido de respirar. Cada habilidade que ela desenvolvera para detectar perigo estava agora alertando-a no volume máximo.

O Mimicky era uma Relíquia aterrorizante, mas faltava-lhe um ar de perigo. Isso, no entanto, deixaria até mesmo um civil destreinado cauteloso no momento em que pusesse os olhos nele. O que Hugh estendia era uma pequena caixa de madeira. Embora belamente decorada, não era nenhuma Relíquia, apenas uma caixa comum. Mas seu miasma era tudo menos comum.

Ela sentiu um calafrio profundo. Isso era muito mais sinistro do que qualquer fantasma que ela já tivesse encontrado. Os sinos de alarme em sua cabeça não paravam. Na verdade, era estranho que ela não tivesse notado até Hugh tê-lo erguido. Ela não sabia o que havia dentro, mas havia uma coisa de que tinha certeza — isso era algo que nenhum humano poderia manipular.

Ela tinha certeza de que Hugh estava ciente de quão arrepiante era aquela caixa. Ela tinha certeza de que até uma pessoa comum ficaria longe dela. Parecia-lhe um milagre que ele tivesse conseguido trazê-la até aqui. Com um miasma tão denso, apenas tocá-la deveria ser o suficiente para desgastar o espírito. Mesmo que não causasse dor física, o espírito influenciava a carne.

Os braços de Hugh tremiam enquanto ele segurava a caixa. — E-Eu consegui — ele disse com uma voz rouca. — Diga a ele. C-Cu…

— Conseguiu o quê? Dizer o quê? Cu? O que eu deveria dizer?!

Havia tantas coisas que ela queria perguntar a ele. Onde ele encontrou isso? O que era? Por que ele trouxe para cá? Isso era algo que a Igreja do Espírito Radiante deveria selar firmemente.

No entanto, não havia tempo suficiente para isso. Hugh estava em seu limite e, uma vez que perdesse a consciência, provavelmente não se levantaria por um bom tempo. Tino precisava de uma pista, não importava quão pequena.

Perdendo finalmente as forças, os braços que seguravam a caixa caíram no chão. A caixa saltou pelo chão, parando quando bateu em uma parede. Com um olhar vago nos olhos, Hugh ofereceu suas palavras finais.

— Itens… amaldiçoados. RN.

— Hm?!

O último fio de sua consciência se rompeu e o corpo de Hugh ficou mole. Forçando seus membros rígidos a se moverem, Tino virou-se na direção de seu mestre. Até a Relíquia parecia capaz de entender o perigo atual, já que o Carpy-kun estava se agarrando (?) muito mais firmemente ao Krai.

Dando à Relíquia uma atenção excessiva, ele disse em sua voz relaxada de sempre: — Eh, eu não preciso disso.

Agora Tino entendia tudo.

Aaah. A Provação ainda não acabou. Espere, Mestre, eu não posso fazer nada sobre isso! Nem em um milhão de anos! Oh. Isso é por causa do anel que eu te dei?! Claro, essa é uma Relíquia que atrai maldições…

Seu mestre tinha colocado os membros de seu clã em todos os tipos de tribulações e, embora alguns tivessem sido feridos, eles tinham mal — muito mal — conseguido evitar qualquer morte. Foi um milagre tornado possível por sua rara clarividência e artifício sobre-humano.

No entanto, o mesmo não poderia ser dito da caixa de Hugh. Isso iria matá-los. Embora ela não pudesse dizer o que havia dentro, mesmo alguém fortalecido por Mana Material como Tino não duraria um segundo contra o que quer que fosse. Havia uma lacuna enorme entre isso e qualquer coisa que ela tivesse superado antes. O pensamento de tentar conquistá-lo nem passou pela cabeça dela.

Será que seu mestre tinha aumentado a dificuldade porque ela tinha melhorado recentemente? Se ela pudesse mantê-la fechada, poderia levá-la à Igreja do Espírito Radiante, e talvez eles pudessem fazer algo a respeito? Medo e confusão a mantinham no lugar. Isso e a culpa de que isso pudesse ser por causa do anel que ela encontrou. Eles teriam que correr. Isso não era algo que um caçador pudesse gerenciar.

Mestre, corra. Entre em contato com a Igreja do Espírito Radiante. Eu fico aqui!

Nem sua boca nem sua língua se moviam. Ela conseguiu mover o rosto apenas um pouco. Ela tinha fé que o olhar em seus olhos passaria a mensagem.

Com um aceno, seu mestre levantou-se e passou por sua forma congelada. Ele pegou a caixa do chão e, embora não pudesse ter falhado em notar o miasma, abriu-a com completa indiferença.

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Desta vez, com certeza, o Senhor Cautela estaria acabado.

Caminhando pelas ruas movimentadas da capital imperial de Zebrudia, a Raposinha soltou um suspiro que continha uma infinidade de emoções. Pensar que um humano tolo poderia, por um segundo sequer, triunfar sobre uma raposa sagrada em uma batalha de inteligência seria um erro. Foi por causa disso que o Senhor Cautela carecia de respeito adequado pela Raposinha e até começou a mandar mensagens para ela como se fossem amigos.

Mas o resultado desta batalha de inteligência corrigiria tudo isso.

Ela deu a ele itens amaldiçoados RN, e fez um movimento suave. Ela entregou em suas mãos o item amaldiçoado mais hediondo guardado no cofre da Pousada Peregrina. Ela estava encantada com sua própria habilidade.

Os contratos da Pousada Peregrina eram justos para ambas as partes. A natureza do contrato variava dependendo de quando o intruso chegava, mas como o caso do Senhor Cautela provou, esses contratos podiam danificar a Pousada Peregrina tanto quanto os intrusos.

Como resultado de um contrato anterior, eles confiscaram um item amaldiçoado de um intruso Espírito Nobre, para o azar da raposa fantasma. Apenas olhar para este item era o suficiente para deixar claro que algum poder horrível estava à espreita dentro dele. O Irmão Raposa provavelmente estava certo de que esta maldição não iria atrás de fantasmas. Estava em um estado latente, mas se fosse liberada no mundo, seria demais para as mãos dos humanos. Sem ter para onde direcionar sua ira enquanto residia na Pousada Peregrina, a maldição fervia há anos, tornando-se cada vez mais forte.

Mesmo aquele homem sem nenhum senso de cautela certamente ficaria receoso perto da caixa. Apenas imaginar seu rosto em pânico era o suficiente para compensar tudo o que a Raposinha fora forçada a suportar até agora. Desta vez, aquele homem definitivamente pediria desculpas por sua irreverência. Ele pediria desculpas e soluçaria enquanto implorava para que ela fizesse algo. E ela o recusaria com todo o seu coração. Ela o faria admitir a derrota. Ela o faria rastejar e servi-la tofu frito.

Seu plano no Festival do Guerreiro Supremo fora um fracasso colossal. No final, suas ações beneficiaram o Senhor Cautela e, embora ela tivesse deixado o inimigo dele escapar, ele aparentemente ainda não tinha percebido isso. Se ela tivesse desistido depois disso, o Senhor Cautela nunca aprenderia a lição.

Seu novo plano, por outro lado, era perfeito. Tomando todas as precauções possíveis, ela analisou as circunstâncias e então empurrou um item perigoso e amaldiçoado para Hugh, que recebera ordens de procurar tal item. Uma vez contado como Hugh encontrou a caixa, qualquer velho idiota seria capaz de deduzir que isso era obra da Raposinha. Aquele homem também seria forçado a perceber que trouxera o desastre sobre a capital imperial porque subestimara a progênie de um deus. Isto era o que acontecia quando você antagonizava as raposas espectrais conhecidas por causar estragos em seus inimigos.

Ela sentiu uma mudança no vento.

Os humanos ainda não tinham percebido, mas ela sabia que tinha começado. Uma gema sagrada com um passado trágico. Conhecida em todo o mundo humano, era um objeto vil de poderes malignos deixado para trás por uma longa linhagem de Espíritos Nobres. Uma semente de carnificina que uma vez fora removida do mundo e armazenada na Pousada Peregrina estava agora começando a brotar.

O ar estava estagnado. Ela observava a Casa do Clã, onde o Senhor Cautela estava no momento. Nuvens escuras giravam no céu acima. Ela estivera um pouco preocupada porque aquela caixa fora projetada para proteger a maldição em seu interior, mas parecia que fora aberta como ela esperava.

Em um piscar de olhos, as energias malignas em expansão cobririam a cidade inteira. A calamidade cairia sobre milhões de pessoas. Pelo que a Raposinha podia dizer, o Senhor Cautela carecia de muitas coisas além de apenas cautela, mas mesmo que ele estivesse escondendo seus poderes, não poderia possivelmente manter tantas pessoas seguras de uma maldição tão disseminada. Inferno, a própria Raposinha não seria capaz de retirar facilmente uma maldição depois que ela começasse a se espalhar.

Agora ela assistiria e veria o que aquele homem sem senso de cautela faria diante de poderes que excediam a compreensão humana. Satisfeita por as coisas estarem indo conforme o planejado, ela cruzou os braços e acenou para si mesma.

Então ela notou algo antinatural.

— Hm? A maldição. Não está se espalhando?

Ela não duvidava que aquelas nuvens acima da Casa do Clã eram a inimizade da maldição ganhando forma. É que, se as lendas dos humanos fossem verdadeiras, aquelas nuvens deveriam cobrir instantaneamente a nação. No entanto, não apenas não estavam saindo, como estavam paradas acima da Casa do Clã.

Aquela maldição fora formada pelas incursões e destruição causadas pelos humanos durante uma guerra. Com sua fixação nas vidas dos humanos e em suas sociedades, a capital imperial de Zebrudia era um alvo ideal para ela.

Isso não poderia estar acontecendo. Depois de tantos anos, aquela gema amaldiçoada já tinha esquecido sua forma e se tornado um poder ambíguo que atacava indiscriminadamente. Ela deveria estar tentando matar tantos humanos quanto pudesse. Não havia como humanos controlarem esta maldição, nem era algo que pudessem purificar.

Afastar-se da Casa do Clã para poder assistir à sua vitória de longe provara ser um erro. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas ir investigar significaria sua derrota. Ela se viu esfregando os olhos enquanto olhava para as nuvens. As nuvens giratórias retorceram-se como serpentes antes de desaparecerem na Casa do Clã.

Era como se tivessem sido sugadas.

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Peguei a caixa belamente gravada depois que ela fora jogada de forma imprudente no chão. Então, cuidadosamente, abri a tampa e uma fumaça preta como um céu de tempestade irrompeu. Ela atingiu o teto e derivou em direção às janelas ainda quebradas do lounge, mas não mostrava sinais de diminuir. Movia-se implacavelmente, como as cachoeiras que Luke usava para seu treinamento. Era tão absurdo que tudo o que eu podia fazer era rir. Isso era da Otohime?

Enquanto eu estava lá, piscando, Tino olhou para mim com uma palidez fantasmagórica.

— O-O-O que você está fazendo? Mestre?

— Hein?

Ela me dera um olhar de desculpas que dizia: E se o conteúdo estiver danificado? Sinto muito, Mestre, então eu quis deixá-la à vontade. Não é como se eu tivesse qualquer ideia do que estava acontecendo, de qualquer maneira. Eu tinha esquecido do Hugh até que Tino me lembrou dele, e não tinha ideia de por que ele tinha desmaiado, por que estava aqui ou o que era aquela caixa que ele trouxera. Eu podia parecer calmo porque estava acostumado a coisas assim acontecendo, mas estava bastante perplexo.

Se a aparência servisse de indicação, essa fumaça não era nada boa. Talvez “névoa” fosse uma palavra melhor para descrevê-la. A fumaça expelida por incêndios era terrível quando inalada, e eu não tinha ideia do que aconteceria se deixasse essa névoa me cobrir.

Tino cambaleou em minha direção. — M-Mestre, lá f-fora, tem algo ruim…

— Ora, ora, relaxe…

Ventilação. Ventilação é importante. Talvez eu devesse deixá-la sair em vez de deixar encher a sala. E não é como se eu pudesse fazer algo a respeito.

Tossindo fumaça, olhei para a caixa. Onde eles conseguiram empacotar toda aquela fumaça? Não parecia uma Relíquia. Notei um brilho vermelho em meio à fumaça. Era uma gema, uma bastante grande. Como eu tinha meus Anéis de Proteção, estava pronto para enfiar a mão e agarrá-la, mas me vi sendo puxado para trás.

Tropecei e a caixa caiu das minhas mãos. Foi o Tapete, ainda em mim como uma capa, que me puxou de volta. Enquanto eu processava isso, a fumaça convergiu para o lugar onde eu acabara de estar.

— Eek! — Tino gritou enquanto recuava.

A fumaça que tinha saído pelas janelas quebradas retornou para a Casa do Clã. Movia-se de forma antinatural, como se tivesse vontade própria. O ritmo com que irrompia da caixa agora parecia lento comparado à cascata atual.

Será? O Carpy-kun me salvou?! Eh, acho que é mais fácil acreditar que ele só queria se salvar. Talvez aquela atitude fria dele seja calculada?!

— M-Mestre, isso…

A fumaça que retornava estava toda se reunindo em um só ponto. Era belo e sinistro, como algo de outro mundo. Eu já tinha visto minha cota de coisas malucas, mas nem eu conseguia me impedir de dar um passo atrás. Com seus sentidos aguçados, Tino provavelmente tinha uma ideia melhor de quão perigosa essa coisa era. Ela estava pronta para a batalha, mas seus dentes estavam batendo.

Por que voltou depois de sair da Casa do Clã? Não precisava fazer isso.

A fumaça reunida engrossou e ganhou forma. Curiosamente, lembrou-me de quando o Lamento de Marin fora selado. No entanto, houve preparativos feitos durante aquela purificação. Aqui, não tínhamos círculo mágico de barreira em camadas, nem Ark, Franz ou qualquer outra pessoa.

Neste ponto, a fumaça nem era mais fumaça de verdade. A névoa negra amalgamada formara um contorno humanoide claro, então a escuridão fluiu dela, revelando uma garota com os olhos fechados. Era a mesma configuração de Marin, mas esta garota não era tão decrépita quanto Marin. Nem era humana.

Com orelhas pontudas e feições esculpidas, ela era um Espírito Nobre. Vestia um manto negro que caía até o chão, como algo condizente com um magi. Em volta do pescoço pendia um pingente chamativo. Era vermelho-sangue e tinha um brilho enfeitiçante. Olhando para ele, senti meu coração acelerar e meu fôlego parar na garganta. Meu instinto me dizia que era aquilo que estava na caixa. Era algo inútil de se pensar, mas lembrei-me de como os Espíritos Nobres eram especialistas em maldições.

Essa coisa não podia estar viva. Suas pernas não tocavam o chão, nem ela tinha o ar de algo vivo. Nem eu precisei deliberar se aquilo era amigo ou inimigo.

Acalme-se, Krai Andrey. A Tino está aqui e, como você é tecnicamente o mestre do clã, não pode passar vergonha agora.

Então, o que eu deveria fazer? Correr? Pedir ajuda? Ajuda de quem? É claro que isso aconteceu depois de eu ter devolvido o Pedra Sonora para o Franz. Dadas as circunstâncias, eu tinha que negociar; eu estava sem outras opções.

Fantasmas, monstros, maldições, eu era impotente contra todos eles. Teria que adotar a abordagem de amor e paz. Eu não tinha sempre salvo minha pele através de rastejamentos e negociações amigáveis? Mesmo os Espíritos Nobres, geralmente pouco afáveis, tinham algumas almas gentis entre eles. Eu só tinha que fingir que aquela figura era a Kris ou a Eliza.

Ergui minha mão direita e sorri enquanto me aproximava do misterioso Espírito Nobre. Então os olhos dela se abriram. Aquelas pupilas brilhavam. Meus músculos congelaram, prendendo-me no lugar como um sapo diante de uma cobra. Eu não me senti com medo em si, mas era possível que minha própria alma estivesse sendo intimidada.

Aqueles dois olhos derivaram em minha direção, mas não se fixaram em mim. Segui a direção deles e encontrei a fonte de sua fixação — o anel. Na minha mão direita, levantada para mostrar que eu não pretendia fazer mal, eu tinha um anel de madeira no dedo indicador. Recuperado de dentro do Mimicky pela Tino, este era o Anel Eremita, uma Relíquia que diziam atrair maldições.

Agora que penso nisso, a escrita gravada no anel e o desenho na caixa são bem parecidos.

O ódio fervia profundamente nos olhos do Espírito Nobre. Ela tinha um rosto atraente e mantinha uma expressão nivelada, mas, se algo, isso tornava suas emoções ardentes ainda mais aparentes. Tentei imediatamente remover o anel, mas, como eu esperava, ele não se moveu. Tentei de tudo, enquanto o Espírito Nobre estendia a mão; como se guiados por seu braço, uma série de objetos negros em forma de lança avançaram de trás dela.

Embora as lanças não fossem particularmente rápidas, não havia como eu esquivá-las. O Carpy-kun subitamente se enrolou em mim por trás e me puxou para trás. As lanças, embora eu continuasse me referindo a elas assim, eram onduladas como algas, mal conseguiram me alcançar quando foram desviadas por um Anel de Proteção.

Se você vai fazer isso, não demore, Carpy-kun.

Mas suponho que se eu não o tivesse enrolado em mim como uma capa, ele teria simplesmente voado sozinho. Sorte a minha.

Graças ao puxão dele, meu corpo foi sacudido para fora do estado de paralisia do sono em que eu estava. Ainda sendo arrastado, tropecei pelo caminho. Mais uma vez, fios de algas perseguidores conseguiram me atingir, esgotando outro Anel de Proteção.

Droga, eles não erram! Se continuar assim, vou ficar sem anéis e morrer! Alguém, me salve. Oh. A igreja! Se conseguirmos chegar à igreja, aposto que eles serão capazes de fazer algo a respeito! O Ansem está lá, afinal!

Eu tinha a sensação de que o Carpy-kun estaria disposto a voar agora que as coisas estavam ficando críticas. Para nossa sorte, as janelas do lounge estavam quebradas e eu ainda podia aguentar mais alguns golpes. Era meu dia de sorte. Corri até uma Tino aterrorizada e agarrei a mão dela. Eu não podia deixar a pobre e inocente garota para trás. Hugh, bem, ele era um sacrifício necessário.

Se sairmos vivos dessa, vou ter muitas perguntas sobre por que ele me trouxe aquela coisa bizarra.

— Vamos, Tino!

— Ah, Mestre!

Corri em direção aos vidros quebrados. Eu não movia meu corpo assim há um tempo. O Carpy-kun desviou graciosamente do enxame de lanças que chegavam. Cada um dos projéteis persistentes conectou perfeitamente com minha cabeça antes de ser bloqueado por um Anel de Proteção. Tino não foi atingida, felizmente, mas eu tinha certeza de que essas lanças estavam vindo deliberadamente apenas para mim. Não doía nem nada, embora me assustasse para caramba.

As algas negras rastejavam pelo chão atrás de nós. Uma podridão negra corroia o piso de cerâmica recém-reparado. Pensei em enviar a conta para o Espírito Nobre. Parecia que a figura de escuridão condensada era capaz de retrair e estender a fumaça sombria à vontade. Era meio legal, mas como ela estava fazendo aquilo? O que era aquela coisa?

Infelizmente, eu não tinha tempo para perguntas irrelevantes. Preparei-me e pulei pela janela, trazendo Tino comigo.

— Voe, Carpy-kun!

Agora é sua chance de mostrar do que você é feito.

Senti o puxão da gravidade. Então, talvez obedecendo às minhas ordens, talvez apenas tentando salvar sua própria vida, as bordas do Carpy-kun começaram a se erguer. Então o nó na frente do meu pescoço se desfez e minha visão ficou de cabeça para baixo. Ainda segurando a mão de Tino, estávamos prestes a cair de cabeça da Casa do Clã quando Tino conseguiu agarrar as bordas do Tapete, puxando-nos para o céu.

Se eu fosse o que estivesse mais perto do Tapete, definitivamente não teria sido capaz de pegar aquilo. Boa, Tino!

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Tinha que destruir.

Em seu âmago, tudo o que restava era aquele sentimento e nada mais. Estava consciente e retinha memórias de estar viva. No entanto, diante de emoções fortes o suficiente para se manifestarem como fenômenos, as memórias eram como um seixo na estrada.

Apenas uma coisa importava: que a rainha dos Espíritos Nobres terminasse o que deveria ter feito há muito tempo. Naquelas florestas há muito habitadas por seu povo, ela expulsou os humanos e protegeu seus semelhantes de quaisquer intrusos que entrassem sem o devido respeito ou reverência. A guerra deles com os humanos era inegavelmente uma questão existencial. A derrota significaria extinção ou escravidão pelos humanos. Os grandes poderes da rainha dos Espírito Nobre existiam justamente para evitar isso.

De fato, mesmo que sua própria carne chegasse à ruína.

Despertando após um longo período de silêncio, viu-se em uma cidade inacreditavelmente grande e repleta do inimigo. Detectou edifícios massivos em linhas que se estendiam até o horizonte e mais formas de vida do que poderiam ser contadas. Eram mais de dez vezes os Espíritos Nobres que outrora viveram na floresta que ela governara.

No entanto, nenhuma quantidade de força ou número de seus inimigos mudaria o que ela tinha que fazer. Memórias vieram à tona, alimentando desejos assassinos e amaldiçoados. Durante a guerra, muitos camaradas pereceram, assim como os invasores. Tragédias e juramentos surgiram em grandes números.

Mataria tantos inimigos quanto pudesse, salvaria tantos aliados quanto pudesse. Lavaria sangue com sangue, sobrescreveria tragédia com tragédia. O medo daria origem ao medo, a animosidade proliferaria. Exatamente como sempre fora. Não havia mais espaço em seu coração para lamentar essas verdades. Agindo quase por instinto, deixou que o conflito e o desejo de matar fluíssem pela cidade.

Então, abruptamente, trouxe sua consciência de volta ao foco.

Em sua longa e sangrenta história, nada em existência tinha prioridade sobre a eliminação daqueles que massacraram os Espíritos Nobres. No entanto, algo muito incômodo estava atualmente exigindo atenção. Tal experiência inovadora restaurou a racionalidade a uma mente que antes não pensava em nada além de aniquilação. Revertendo de uma forma destinada ao assassinato eficiente para sua forma original, seus olhos caíram sobre um único homem comum.

Era um humano jovem, esquecível em todos os sentidos. Seu porte era totalmente diferente do de um guerreiro. Normalmente, ela nem sequer o teria reconhecido ou notado se o esmagasse como um inseto. E ainda assim, por alguma razão, olhar para este homem incitava uma irritação inexplicável. A fúria ardente nas profundezas exigia que este homem morresse antes de qualquer outra pessoa. O rancor proclamava que matá-lo seria equivalente a matar um milhão, um bilhão de outros humanos. Logicamente, sabia que tal coisa não poderia ser verdade; sabia que dizimar esta cidade deveria ter prioridade. Mas tinha que atacar este homem.

Rangendo os dentes, ela o encarou a poucos metros de distância. Foi quando avistou o familiar anel de madeira que ele usava no dedo. Há muito tempo, seus companheiros o usavam para atrair e subjugar maldições. Porque este homem tinha aquele anel não estava claro, mas não havia erro sobre o que era.

Isso explicaria a irritação fervente. Agora ela sabia a razão. Entendia inteiramente. Tudo estava claro e aparente. Aliviada, respirou fundo.

Então ela atacou, impulsionada pelo puro instinto. O homem desviou cada golpe.

Ela entendeu. Mas isso não importava. Não haveria reconsideração, hesitação, contenção ou qualquer outra chatice dessas. Ela simplesmente destruiria, como seu poder e instintos comandavam.

Assaltado por uma enxurrada de ataques, o jovem começou a correr. Pendurado e à deriva enquanto era puxado por um tapete bizarro, ele movia-se como uma isca de pesca. Pendurado no tapete, ele rapidamente se distanciou dela. Milhares de seres humanos que mereciam a morte olhavam para ele com os olhos arregalados. Eles provavelmente não conseguiam entender o que estavam vendo.

Não importa. A aniquilação desta cidade pode esperar.

Uma voz de razão a repreendeu. Oh, o que você está fazendo, rainha dos Espíritos Nobres?, disse a voz. Como a guardiã de um povo tão orgulhoso pode ser enganada por uma ferramenta como aquela? Você sabe que está sendo usada. Que tolice.

Com uma dor lancinante na cabeça, uma raiva assassina e abrasadora alterou sua forma. Então, fazendo algo que fizera raramente desde que se tornara uma maldição, ela falou.

— PEREÇA! NÃO HÁ ESCAPE, NEM EM UMA ETERNIDADE!

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Nenhuma quantidade de Mil Provações poderia ter preparado Tino para esta série de reviravoltas e absurdos. Seu espírito era uma chama vacilante ao vento. Ela estava confiante de que isso era pior do que qualquer Provação enfrentada por ela ou qualquer outra pessoa.

Não importava sua força, os humanos ainda tinham limitações. Esse poder estranho, no entanto, superava essas limitações com facilidade. Em seu último vislumbre, Tino vira as orelhas pontudas indicativas de um Espírito Nobre. Aquela era provavelmente a Pedra Espiritual Carmesim Amaldiçoada, a famosa maldição nascida pela rainha para erradicar os humanos.

Naquele momento, Tino teve um pensamento muito agudo: Quando o Mestre designa uma Provação, ele não pega leve!!!

Esta era uma maldição de horror inigualável. Uma maldição que outrora mergulhara o mundo em um abismo de medo. Verdadeiramente, não poderia haver melhor maneira de encerrar esta cadeia de maldições. Embora pudesse encerrar também a vida dela.

Seu mestre estava puxando a mão dela e cobrindo-a de ataques, mas esta era uma vez em que ela não conseguia se alegrar com isso. Aquela coisa não considerava Tino uma inimiga, mas um simples toque dela seria o suficiente para matá-la.

Em sua mão direita, ela segurava o Tapete; na esquerda, segurava a mão de seu mestre. Seu treinamento tinha valido a pena.

Não, aquilo foi um teste.

Seu mestre nunca pularia do lounge sem pensar, então aquilo deve ter sido um teste para ver se ela conseguia pegá-lo. Ele era o mal puro. Tino teria chorado se tivesse o luxo, mas era tudo o que podia fazer para continuar respirando e manter seu coração em luta. O Tapete estava voando pelo céu com facilidade, mas isso não fazia nada para acalmá-la.

— Você está bem, Tino? — seu mestre perguntou casualmente enquanto pendia abaixo dela. — Eu sou muito pesado?

— Hein? D-Do que você está falando? Como você poderia ser pesado para mim?!

— Eh. Ah. Sim, uh-huh.

Tino estava recebendo seu treinamento da Liz; ela poderia carregar seu mestre e mais dez pessoas e ainda ter espaço de sobra.

Então eu realmente preciso de mais Provações, Mestre?

O Tapete voava em alta velocidade. Infelizmente, não parecia que eles tinham tempo para subir em cima dele. Mas eles não precisavam. Contanto que pudessem fugir daquela coisa, nada mais importava.

Pessoas no chão olhavam paralisadas para a cena deles pendurados em um tapete, voando. Tino achava que eles deveriam estar evacuando, não olhando para o céu. Ela detectara uma fúria extraordinária naquela maldição. Se isso fosse descarregado na cidade, então até a capital imperial de Zebrudia poderia encontrar seu fim.

Seu mestre soltou um suspiro profundo, talvez de alívio.

— Vamos para a Igreja do Espírito Radiante. O mais rápido possível.

Por favor, faça algo sobre aquela coisa. O mais rápido possível. Você pode fazer algo sobre isso?! Algo vai ser feito, certo?!

Tino tinha a sensação de que nem os especialistas da Igreja do Espírito Radiante seriam capazes de resolver isso. Se alguém pudesse resolver isso, merecia mais do que ser Nível 10. Tino tinha planejado ter um encontro com seu mestre hoje, e que encontro acabou sendo. Ela ansiava pelos dias em que sair significava apenas ser capturada por bandidos.

— Nós a perdemos? — ele perguntou, completamente relaxado. Incrivelmente despreocupado, como sempre.

Espere, Mestre, você não está segurando minha mão? Parece que sou a única segurando.

Ela engoliu essas palavras antes de proferi-las, então virou-se e olhou para a Casa do Clã ao longe. O Carpy-kun era uma Relíquia veloz. Tudo o que ela conseguia ver da Casa do Clã era o pináculo. Apenas o pináculo…

— E-Ela se transformou. Mestre, ela está vindo atrás de nós!

— Hein?!

Naquele momento, uma criatura negra de membros longos, parecida com um macaco, estava subindo pela Casa do Clã. Dado o tamanho do pináculo, a criatura deve ter tido algumas dezenas de metros de altura. Não mostrando interesse nos civis, seus olhos ofuscantes estavam focados apenas nos dois.

Não, não nos dois; Tino não sentia o olhar dele. Estava olhando apenas para o mestre dela. Olhando em retrospecto, a criatura só tinha ido atrás do Krai na Casa do Clã.

Talvez aquela coisa queira o Krai? Se ele me deixasse lá atrás, eu definitivamente não seria pega no fogo cruz— Não, não!

Com um balançar de cabeça, Tino restaurou seu coração fiel. Foi por causa do anel que ela encontrara que seu mestre estava sendo atacado, em primeiro lugar. Ele dissera que tudo isso estava de acordo com o plano, mas mesmo que estivesse, Tino era ainda, sem dúvida, a razão pela qual isso estava acontecendo.

Eu vou vomitar, Mestre…

— Ela está se transformando?! Por quê?!

— Ela está… ela está apenas cedendo a impulsos ruins, Mestre.

— Impulsos ruins?! Impulsos ruins fazem as coisas se transformarem?!

Quando Tino cedeu a impulsos ruins e colocou aquela máscara, ela de fato se transformou. Não, não, aquilo era diferente.

Usando tanto os braços quanto as pernas, o macaco colossal saltava de telhado em telhado. Usando a paisagem urbana como sua estrada, a criatura viajava com uma velocidade incrível. Os prédios em que pisava não mostravam sinais de desmoronamento, o que significava que não devia ser tão pesada quanto parecia.

Ondas de gritos irromperam conforme as pessoas notavam o demônio de pés leves. Mas enquanto ele ficasse nos telhados, as pessoas lá embaixo não seriam esmagadas. O problema real era que ele não parecia nem um pouco inclinado a desistir de Tino e de seu mestre.

O ódio queimava em seus olhos. A própria fumaça daquela caixa parecia maliciosa, e agora era como se toda aquela raiva dispersa tivesse sido condensada.

— Mais rápido, Carpy-kun! — Tino implorou. — Para a igreja!

— Tino, o Carpy-kun não faz o que as pessoas dize-!

O Carpy-kun acelerou. Agora era como se ele tivesse se tornado o vento. Tino tinha certeza de que se ela e seu mestre fizessem um tour pela capital enquanto estivessem no topo do Tapete, seria maravilhoso.

Apesar de sua aceleração, o macaco ainda se movia mais rápido. Ela estava apenas medindo no olho, mas tinha quase certeza de que o macaco estava alcançando-os lentamente. Suas habilidades inatas e o comprimento de suas passadas eram demais para o Tapete.

Eles só tinham que ser gratos pelo macaco não poder voar. Tino queria tentar desacelerá-lo com um ataque à distância, mas não tinha como fazer isso.

— Não funcionou, Mestre! Ele ainda vai nos alcançar!

— C-Certo… M-Mas ficaremos bem.

Por alguma razão, ele parecia desanimado, mas quando olhou para cima, tinha um daqueles sorrisos destinados a ajudar a esquecer qualquer perigo iminente. Era um sorriso que a inquietava.

— Estaremos na Igreja do Espírito Radiante em breve. Exatamente como eu planejei. Depois disso, uh, o Ansem vai fazer alguma coisa!

I-Isso não é um plano. Anssy, por favor, dê o seu melhor.

A Igreja do Espírito Radiante apareceu à vista. Havia um grande portão construído com Anssy em mente e um baluarte branco-giz evocativo de um castelo. A igreja tinha experiência em maldições, bem como em cura. Boatos diziam que todos os edifícios da igreja foram construídos para serem resilientes. Eles alegavam que as igrejas, especialmente as grandes, tinham fortificações equivalentes a castelos porque abrigavam itens perigosos.

Do lado de fora da igreja, padres olhavam em choque para o Tapete que chegava. Quando viram que ele estava sendo perseguido por um macaco que era evidentemente algum tipo de maldição, o sangue fugiu de seus rostos. Vários paladinos posicionados correram freneticamente para fora. Seus movimentos eram refinados e indicativos de seu treinamento incansável, mas aquilo não ia ajudar muito diante da maldição que se aproximava. Armas convencionais provavelmente não ajudariam muito aqui. O macaco parecia que poderia ignorar o tiro de um canhão.

Ansem saiu pelo portão, sem o capacete.

Krai acenou com a mão. — Ansem, o resto é com você! — ele gritou.

Pela primeira vez, Tino viu um leve sinal de estresse no rosto geralmente plácido de Ansem.

Assim que o macaco estava a cerca de dez metros deles, ele saltou no ar. O Carpy-kun subiu rapidamente, por cima do muro, antes de mergulhar no pátio da igreja, passando pelo Lamento de Marin, aquela maldição aguardando purificação. Tino tinha ouvido tudo sobre isso.

O macaco baixou os braços, demolindo sem esforço o próprio muro por onde eles acabavam de passar.

Ostentando uma estrutura extraordinariamente grande, Ansem Smart era um dos melhores paladinos da capital imperial. Com altos atributos físicos e habilidades de cura excepcionais, ele podia ser silencioso, mas era o membro mais famoso da Grieving Souls.

Pelo que Tino podia dizer, Anssy era mais confiável do que qualquer outro membro da equipe. Ele era quase o mais estável. Ele não era tão intenso quanto os outros e não era difícil entender por que ele tinha o segundo nível mais alto depois de Krai, mas, ainda assim, Tino não achava que seria fácil para ele derrubar aquele demônio sozinho.

O Tapete deslizou para o pátio e, assim que seus pés tocaram o chão, eles olharam de volta para o portão. O macaco sombrio o destruíra em um golpe. Embora os muros fossem resistentes como os que cercariam um castelo, poderiam muito bem ter sido feitos de blocos de montar. Foi pura sorte que impediu que qualquer ataque atingisse o Lamento de Marin.

Luzes estalaram ao redor dos braços gigantescos do macaco. Aquilo era obra de barreiras destinadas a repelir qualquer um que caminhasse com a escuridão. No entanto, o macaco não parecia estar sentindo nenhum tipo de dor e não demorou muito para que houvesse um som de trituração seguido pelas luzes se apagando.

Tino engoliu em seco enquanto observava. Aquela coisa era poderosa demais. Pensar que as barreiras da filial principal da capital da Igreja do Espírito Radiante não podiam fazer nada. Destroços choveram. O ar tremeu.

— E-Estamos sob ataque! — os padres gritaram, embora fosse um pouco tarde para isso.

Visto de perto, o macaco era esmagadoramente massivo. Era um demônio grande o suficiente para fazer Anssy parecer pequeno. Os padres estavam todos completamente intimidados pelo poder do demônio. Não que Tino estivesse em posição de falar, mas algo lhe dizia que eles tinham perdido antes mesmo da batalha começar.

Nesse momento, Ark Rodin e o resto da Ark Brave surgiram correndo da igreja. Ele não estava vestido com roupas casuais, mas com armadura. Sua espada estava desembainhada, pronto para lutar. Tino ofegou de pura surpresa. Mesmo como um membro devoto da Equipe Krai, Tino tinha que admitir que a figura radiante de Ark era a de um campeão.

— O quê?! O que é aquilo?! — gritou Isabella, a magi.

— Que poder horrível… — disse Ewe, a santa.

— Ele atravessou as barreiras com facilidade — observou Armelle, a (para usar as palavras de seu mestre) Guerreira.

De pé à frente de sua equipe, Ark soltou um pequeno suspiro. — Franz disse que a raposa poderia atacar, mas eu certamente não esperava um macaco. O que está acontecendo?

Ark Rodin e Ansem Smart estavam ambos entre os Níveis 7 mais prolíficos da capital imperial. Embora fosse fraco, eles ofereciam um vislumbre de esperança. Embora parecesse que nenhum humano poderia vencer o macaco, esses dois poderiam mudar isso.

No momento seguinte, caçadores adicionais apareceram de dentro da igreja.

— Ugh, o que é aquilo?!

— N-Não podemos lutar contra isso!

Alguns Tino reconhecia, outros não. Havia tanto caçadores que empalideciam diante do poder do macaco poderoso, quanto aqueles que preparavam suas armas e se prontificavam para a batalha. Nem todos naquele grupo eram necessariamente de elite, mas se tinham uma coisa a seu favor, eram os números. Incluindo os padres, havia talvez quase cem do lado deles. Eles estavam diante de um inimigo poderoso, mas com uma grande força que incluía Ark e Anssy, então talvez…

Mas ouvi dizer que a operação para purificar o Lamento de Marin já tinha terminado. Então por que todas essas pessoas estão de prontidão?

Tino piscou enquanto tentava entender isso.

— Ohhh, olhe quantos caçadores estão aqui — disse seu mestre atrás dela.

Ah! Isso poderia ser parte do plano dele?!

Devia ser. Ela tinha certeza disso. Abrir a caixa, liberar a maldição, preparar lutadores para uma emboscada na igreja, uma posição vantajosa, e então atrair a maldição para cá. Poderia isso não ser chamado de artifício sobre-humano?

Nesse caso, já que ele trouxera Tino para cá, ela também era parte daquela força? Enquanto ela estava lá, perplexa, o macaco gigante olhou para os caçadores.

Então a batalha começou.

Ark canalizou poder em sua Relíquia, uma lâmina que era quase sinônimo de seu nome. Brandindo uma espada, Anssy avançou. Outros caçadores começaram ataques coordenados à distância. Os padres começaram a oferecer orações, que trouxeram pilares de luz. Uma barragem implacável de ataques atingiu o macaco massivo, que ele ignorou enquanto fazia uma investida furiosa direto para Krai.

Ele não tinha interesse em nenhum dos padres ou caçadores. Anssy tentou agarrar as pernas do macaco, mas ele simplesmente saltou sobre ele, então desferiu o punho contra o mestre de Tino. Embora o ataque não fosse destinado a ela, ela sofreria danos colaterais. Exatamente quando ela estava prestes a correr para a segurança, o braço negro como breu foi queimado por uma luz branca ofuscante.

Levou um momento para ela processar. Ark tinha feito aquilo. Ark tinha atacado. A Espada Sagrada História era uma arma lendária, que diziam ser capaz de fender até o Deus Celestial. A luz liberada pela espada de Ark Rodin transformara o braço do macaco miserável em poeira. Exatamente o que você esperaria de uma Relíquia que se especializava em puro poder de fogo. O homem empunhando tal Relíquia podia ser pseudo bonito e inferior ao seu mestre, mas ele ainda era muito uma das figuras principais nesta era dourada da caça ao tesouro.

Faltando um braço, o macaco encarou Ark por um momento. Tino começou a pensar que eles tinham uma chance de eliminar aquela maldição. O pensamento disso trouxe um sorriso ao seu rosto. Ark, no entanto, parecia muito mais amargo.

— Não é bom. É duro demais — ele murmurou. — Eu liberei todo o poder restante, mas só arranquei um braço. Não tenho história suficiente para derrubá-lo.

Hein? Não é bom?

— Ark, o braço que você arrancou! — Isabella gritou.

Num piscar de olhos, o braço se regenerou ao seu estado original. Alguns monstros tinham altas capacidades regenerativas, mas aquilo era outra coisa. Além do mais, o macaco nem parecia se importar que seu braço tivesse sido explodido.

Mestre, parece que estamos ferrados.

Parecia que aquela era uma Provação sem solução.

O macaco soltou um uivo. O som dele rasgou a igreja e cambaleou Tino. Ela ouviu corpos caindo. Olhou em volta e viu que cerca de metade dos padres tinham sido derrubados. Alguns dos caçadores também tinham atingido o chão. Tino sentiu-se uma idiota por pensar, por um momento sequer, que poderiam vencer.

O macaco fixou seu olhar novamente em Krai. Então, depois de ter sido ignorado antes, Anssy golpeou o macaco em uma tentativa de atrair sua atenção. Embora sua lâmina brilhante tenha se enterrado na perna do macaco, arrancando a escuridão, o macaco não apenas não mostrou sinal de dor, como nem sequer reconheceu Anssy. Ele nem sequer desacelerou o demônio. Foi um movimento corajoso, mas não era o que aquela batalha exigia.

— Que poder terrível e trágico. Me entristece pensar que o Lamento de Marin não é a única maldição dessa magnitude — disse um homem com a voz trêmula. Tino reconheceu aquele homem. Era o Padre Edgar, o padre que tinha feito tanto pelo Ansem.

Krai bateu as palmas das mãos, como se aquilo o tivesse lembrado de algo.

— J-Já sei. Se for esse o caso, por que não desfazemos o selo do Lamento de Marin e fazemos os dois lutarem?

Isso não seria insanamente arriscado?

— N-Não… — o reticente Ansem opinou enquanto balançava desesperadamente sua espada contra o macaco.

Os caçadores obstinados esqueceram a batalha por um momento e todos olharam para Krai ao ouvirem sua sugestão.

— Ansem, vá quebrar aquele selo! Se não conseguirmos vencer com uma força como esta, então essa é a nossa única opção!

— N-Não…

— A-Acalme-se, Mil Truques. O Lamento de Marin não é algo que você possa usar para sua conveniência.

Tanto Ansem quanto o Padre Edgar detiveram Krai. E por que diabos não o fariam? Eles estavam ansiosos por qualquer plano que pudesse lhes dar uma chance de lutar, mas este era excêntrico demais. Quando percebeu que ninguém estava apoiando seu plano, Krai franziu a testa, emburrado.

Então ele olhou para Tino.

Hein?! O-O que foi?! Por que você está olhando para mim, Mestre?!

Ela deu um passo para trás automaticamente. Seu mestre não disse nada. No entanto, aqueles olhos negros olhavam diretamente para ela. Seu olhar não era particularmente intenso, nem ele a estava coagindo. No entanto, aquele olhar era o suficiente para fazê-la sentir que não tinha outras opções.

Com um grunhido, ela cedeu ao impulso e saiu em disparada, deixando suas pernas a carregarem pelo pátio cheio de pessoas caídas. Ela desejou que alguém a parasse, mas ninguém o fez. Afinal, como uma Ladina, velocidade era sua especialidade, sem mencionar que os caçadores estavam todos se concentrando na maldição. E além disso, o verdadeiro inimigo, o macaco sombrio, não tinha interesse nela.

Ela passou pelo demônio com uma facilidade surpreendente, saltou em direção às duas maldições presas no ar e escalou o Lamento de Marin, usando as correntes que prendiam o corpo de Marin como apoios. Os olhos da garota amaldiçoada se arregalaram quando viu Tino. É justo dizer que até uma maldição ficaria bem desprevenida se alguém de repente tentasse desfazer seu selo.

Nada naquilo parecia uma boa ideia para Tino, mas Marin não podia ser tão ruim quanto aquele macaco. Ela só precisava acreditar.

— Tino?! — Isabella gritou. Ela estava segurando seu cajado, preparando um feitiço ofensivo avançado. — Volte a si!

— Sinto muito, sinto muito, mas o Mestre me disse para fazer isso!

— É por isso que estamos dizendo para você se controlar! Ele não disse porcaria nenhuma!

— Não se precipite, Tinoooo!

Todos diziam para Tino parar. Enfrentando uma resistência tão forte, Tino sentiu que estava fazendo algo idiota, até suicida. Mas ela não tinha escolha. Ela era a serva leal de seu mestre. O que ele dizia era absoluto. Seu artifício sobre-humano era absoluto. Seu mestre era perfeito. Seu único defeito era que ele parecia não ter consideração pelas dificuldades de ninguém…

Além disso, talvez combater uma maldição com outra maldição não fosse uma ideia tão ruim. Tino não sabia muito sobre maldições, mas seu mestre não diria algo sem a devida consideração!

Tino reuniu suas forças. As correntes saíram tão facilmente que ela custou a acreditar que faziam parte de uma Relíquia poderosa. As energias sombrias de Marin tornaram-se uma magnitude mais fortes, atingindo Tino com uma onda de tontura.

O macaco cessou seu ataque fervoroso contra Krai e olhou para Tino pela primeira vez. Aparentemente, nem mesmo aquele demônio podia ignorar a pior maldição da igreja. Isso poderia funcionar. Com toda a sua força, Tino arrancou as correntes que perfuravam Marin. As correntes atingiram o chão com um tilintar leve. O impulso de tirá-las fez Tino cair também.

Um lamento que congelava a alma varreu o pátio. Tino sentiu um calafrio, como se algo a estivesse escovando logo abaixo de sua pele. Isso foi seguido por um som próximo de metal batendo em algo duro. Quando ela olhou para cima, viu que o cavaleiro no abraço de Marin havia pousado no chão e agora se levantava de uma posição ajoelhada. Embora sua armadura tivesse sido esmagada e surrada, agora parecia nova em folha.

Ele absorveu a energia liberada pelo macaco?

Marin ficou atrás do cavaleiro negro. O macaco olhou furioso para os seres recém-libertados. Suas auras colidiram e se misturaram, alterando completamente o ar purificado da igreja. As auras estavam tão entrelaçadas que Tino não conseguia dizer qual delas estava em vantagem.

Marin e o macaco se encararam, reconhecendo um ao outro. Padre Edgar, Ansem, Ark, Krai, todos engoliram em seco enquanto observavam. Talvez eles pudessem realmente esperar pela destruição mútua entre as maldições? Se não fosse isso, o vencedor deveria sair com uma boa quantidade de dano. Tino juntou as mãos e rezou.

O macaco subitamente desviou o olhar e soltou um rugido ensurdecedor. Seu corpo encolheu como um balão murchando e, após alguns segundos, o Espírito Nobre da Casa do Clã estava lá. Embora este corpo fosse menor, sua presença havia aumentado imensamente. Talvez o poder radiante daquele macaco massivo estivesse agora sendo condensado nesta forma menor.

Uma parte do trabalho de um Ladino era avaliar a força dos inimigos. Embora os poderes do macaco tivessem sido vagos, ela tinha uma imagem melhor agora que aquele poder havia sido condensado. Ambos tinham uma força diferente de tudo que Tino já vira, mas comparando os dois, o Espírito Nobre era muito superior. Ela estava confiante de que nem o Lamento de Marin poderia vencer esta batalha.

O cavaleiro negro golpeou a forma verdadeira da maldição, mas viu-se perfurado por um braço, um que saía do abdômen do Espírito Nobre. Forma não significava nada para uma maldição, uma manifestação de intenso rancor. Ela tinha rédea solta sobre forma e tamanho.

Marin fez uma pausa e soltou um lamento ainda mais alto. O Espírito Nobre aproximou-se lentamente.

— Ummm. Mestre? De onde eu estou, parece que eles estão conversando.

— É, pois é…

Pensando bem, os Espíritos Nobres não eram especialistas nas artes de maldições? Era por isso que estavam falando em trazer um Xamã Nobre para fazer algo a respeito do Lamento de Marin.

O Espírito Nobre virou-se para Tino e seu mestre. O braço que perfurava o cavaleiro negro foi removido, permitindo que ele se levantasse sobre seus próprios pés novamente. Ele não parecia danificado. O Lamento de Marin cessou seu lamento e olhou para Krai. As auras malignas emaranhadas começaram a formar uma única e massiva aura.

— Isso é ruim — Ansem gemeu.

Todos pensavam a mesma coisa: as maldições não iam se aniquilar.

Silenciosamente, Krai olhou ao redor antes de dizer com uma voz preocupada: — Talvez eles se deem bem e possamos dar o dia por encerrado?

— Parece que é isso que vai acontecer?!

Marin, o cavaleiro negro e o Espírito Nobre amaldiçoado atacaram todos de uma vez. Ansem e todos os membros da Ark Brave se moveram para interceptá-los. Isso era ruim. Até um deles era demais; agora havia três.

Felizmente, eles estavam atrás do Krai. Enquanto fugiam, eles deveriam ser capazes de manter o dano ao mínimo. E eles poderiam usar esse tempo para pensar em um plano! Agarrando a mão de seu mestre, Tino pulou a bordo do Tapete Voador que flutuava.

— Voe, Carpy-kun! — ela gritou.

O Carpy-kun subiu aos céus em alta velocidade. Tino agarrou a mão de seu mestre quando a inércia quase o fez cair.

— J-Já sei! — ele disse enquanto pendia exatamente como estivera antes. — Vamos até a Sitri! Se ela não estiver em um de seus humores engraçados, ela deve ser capaz de fazer algo a respeito disso!

E-Estou confiando em você, Mestre.

As maldições os perseguiram. O Espírito Nobre era o mais forte entre eles, mas o Lamento de Marin e o misterioso cavaleiro das trevas também eram ameaças imediatas. Seus miasmas misturados formaram uma nuvem negra que corroeu o céu sobre a capital imperial.

Ela tinha ouvido falar dos fantasmas etéreos que residiam dentro dos Cofres do Tesouro, mas Tino tinha muito pouca experiência lutando contra tais criaturas. Se essas coisas fossem um pouco — não, muito mais fracas, então isso poderia constituir uma boa experiência para ela, mas isso era demais para ela.

Mestre, acho que você está me dando crédito demais. Eu sou peixe pequeno. E se aquele janota não conseguiu matar essas coisas, então como eu deveria conseguir?!

Enquanto pilotava desesperadamente o Carpy-kun, ela olhou para seu mestre, pendurado abaixo dela. Mesmo agora, ele era o seu eu habitual. Ele tinha algum plano que ela não conseguia sequer imaginar? Ele geralmente tinha. Ela sempre enfrentava um perigo iminente, apenas para mal conseguir sair viva. Exceto que saber disso não tornava uma situação assustadora nem um pouco menos assustadora. Era seu entendimento que a linha entre a vida e a morte era algo que você não deveria pisar regularmente.

Parecia que um Herói não conseguia sequer desacelerar essas maldições, muito menos derrotá-las. Inferno, aquelas barreiras robustas nem sequer chamaram a atenção da maldição quando ela fez uma investida direta contra Krai. Não havia nada que Tino pudesse fazer sobre algo assim.

— É realmente difícil ser o Senhor Popular.

— Mestre, está mudando! De novo!

O macaco da igreja começou a se contorcer e se retorcer, sua forma mudando. Espíritos Nobres também eram conhecidos como guardiões dos bosques. Em seus assentamentos nas profundezas das florestas, eles faziam amizade com a flora e a fauna e recrutavam sua ajuda para defender suas terras. Espíritos Nobres raramente falavam sobre si mesmos, mas o folclore dizia que os melhores guardiões da floresta chegavam ao ponto de pegar emprestados os poderes dos monstros. Talvez esse empréstimo de poder envolvesse transformações mágicas?

A nova forma da maldição era a de um dragão, um negro como breu, uma criatura das trevas com asas em forma de lâmina. Era alguns tamanhos menor que o macaco de antes, mas isso não fazia Tino se sentir melhor. Com esta forma, ele agora podia voar. O cavaleiro negro e Marin montavam em suas costas. Com certeza era uma visão inusitada.

— É um dragão. É um dragão!

— Acha que ele pode voar?

Claro que ele podia voar. Era um dragão, e não uma coisa pateta como aquele dragão das fontes termais (exceto que o adulto era capaz de voar). Cercado por nuvens negras de miasma, o dragão estígio abriu as asas e ganhou os céus. A visão apocalíptica incitou gritos por toda a capital imperial. Havia uma boa chance de que, mesmo que resolvessem isso sem danos sérios, algum dano irreversível já tivesse sido causado.

Os cavaleiros estavam em movimento, mas por razões obscuras, havia uma escassez notável deles. Não era como se este dragão fosse algo que pudesse ser derrubado do chão, de qualquer maneira.

Tino suspeitava que, se o pretendido artifício sobre-humano de seu mestre falhasse e ele acabasse morto, isso ainda não aplacaria a raiva daquela coisa. Sem dúvida, seu mestre tinha o destino da capital imperial em suas mãos. Tino tinha que fazer tudo o que pudesse.

— Mestre, para onde devo levá-lo?! Eu o levarei para onde você pedir.

— Oh? Aquela ali não é a Sitri?

— Hm?! Ah.

Tino olhou para onde seu mestre estava apontando. Lá estava a Sitri. Ela estava saindo de um prédio degradado, não muito longe da via principal. Não ficou claro no início, já que ela usava uma máscara de gás robusta que cobria toda a sua cabeça, mas era definitivamente ela. O homem ao lado dela devia ser um Alquimista do Instituto Primus.

Enquanto pilotava o Carpy-kun, Tino vasculhou suas memórias.

O que era aquele prédio mesmo? Oh, é verdade!

Ela tinha quase certeza de que aquela era uma entrada para os esgotos da cidade. Monstros viviam perto das entradas daqueles canais labirínticos aterrorizantes. Tino conseguia se lembrar de ter muito medo deles quando era criança. Poucas pessoas entravam nos esgotos, então que tipo de negócio Sitri tinha lá? De qualquer forma, ela foi para onde seu mestre indicou. Sitri ficou momentaneamente surpresa com a visão deles chegando subitamente no Tapete Voador, mas ela removeu sua máscara de gás e lhes deu um sorriso radiante.

— Krai, no momento perfeito! Estávamos investigando a água e os ecossistemas nos esgotos! Lá embaixo, fizemos uma descoberta incrível. Veja bem, estávamos esperando realizar experimentos com o Chama de Morango

— Hmph. Eu tenho algumas coisas a dizer, mas elas podem esperar. No momento, quero verificar a eficácia da poção de escravização — disse o Alquimista mais velho. Seu rosto estava contraído em uma expressão sombria.

Eles disseram isso depois de verem Tino encharcada de suor no topo do Tapete, e Krai pendurado abaixo dela. Será que todos os alquimistas ficavam obcecados quando algo chamava sua atenção?

Aquelas três maldições estarão aqui a qualquer momento.

— É-É? — Krai disse. Ele estava igualmente surpreso como Tino. Ele não sabia o que dizer à saudação alegre da Sitri.

Agora, diga, Mestre. Diga à Sitri que você quer que ela faça algo sobre aquelas maldições!

Olhando para Tino com os olhos semicerrados, Sitri envolveu Krai com os braços, que estava indiferente como sempre. Parecia que ela não estava nada satisfeita com o fato de Tino ter vindo com ele. Mas se ela conseguia ver o pânico aparente de Tino e Krai pendurado no Tapete, e ainda assim de alguma forma pensar que os dois estavam em um encontro, então Sitri precisava examinar os olhos.

— Como esperado, a poção diluiu e perdeu a eficácia, mas nos deparamos com uma lenda urbana! Tenho certeza de que você vai querer saber sobre isso, Krai. Havia um dragão nos esgotos. Um Dragão do Esgoto! Se a Chama de Morango realmente funcionar, então ele deve te obedecer.

U-Um Dragão do Esgoto?

A frase desconhecida fez Tino congelar. Ouvindo um rugido do dragão amaldiçoado, Sitri olhou para o céu pela primeira vez. Então, como se tivesse uma ideia, seu mestre bateu com a mão na palma da outra.

Você está falando sério, Mestre?

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O plano do humano era tão tolo que nem chegava a ser humorístico, apenas irritante. Se ele achava que poderia lutar contra um Espírito Nobre com outra variedade de maldição, então os humanos realmente eram tolos, exatamente como sempre foram. No entanto, havia evidências de que aquele homem era especialmente estúpido. As duas maldições que aquele homem havia liberado eram poderosas, mas não tinham chance contra ela.

Estava claro que aquelas duas maldições não estavam com força total. Segundo sua estimativa, esses dois haviam abrigado vontades mais fortes até recentemente. Como resultado de terem sido colocados juntos, sua raiva começara a se dissipar. Isso ficava claro pela maneira como o cavaleiro permanecia protetoramente na frente da garota. Maldições tendiam a enfraquecer quando sua angústia desaparecia e elas perdiam um lugar para direcionar sua raiva. Uma maldição verdadeira não se daria ao trabalho de tentar salvar outra.

Normalmente, ela teria acabado de comer as duas maldições. A única razão pela qual ela as tornou suas aliadas foi para mostrar àquele homem imperturbável as profundezas de sua própria idiotice. O plano deu meio certo, meio errado. O homem ficou surpreso, mas não com medo. Não apenas isso, quando ele fugiu da igreja, ela fez uma pausa por puro espanto. A igreja deveria ter sido a melhor chance de vitória do homem. A menos que houvesse ainda mais em seu plano?

Essa gentalha virá depois. Isso é garantido. Aquele homem não deve escapar.

Ela mudou sua forma para uma com asas, então deixou seus dois novos servos em suas costas antes de decolar em perseguição. No entanto, deixando de lado o cavaleiro, a garota amaldiçoada não parecia particularmente inclinada a matar o homem. Talvez fosse sua falta de presença ou vontade de lutar. Talvez ela tivesse pena dele. Aquele homem possuía um espírito notavelmente comum, mas persistir em não mostrar vontade de resistir era a maneira ideal de lidar com muitas maldições.

Mas isso não importava. Ela simplesmente rugiu de raiva. Destruir aquele homem e lançar uma maldição sobre sua existência. Embora uma parte de sua raiva fosse sem dúvida causada pelo poder do anel, ainda era inequivocamente errado um humano usar algo fabricado por um Espírito Nobre.

O homem correu para dentro de um prédio rígido e antigo. Quando as barreiras da igreja não fizeram nada, por que ele pensaria que uma estrutura como aquela faria alguma coisa? Ela estava prestes a derrubar o prédio com um único sopro quando sentiu inúmeras presenças abaixo do solo. Coisas grandes, coisas pequenas. Insetos, pequenos animais. Na confusão da vida, havia o brilho de uma grande.

O prédio tremeu, seu portão de metal voou e saiu um dragão, um com a pele cinza e imunda. Tinha as costas espinhosas junto com um couro temperado pela água poluída. Estar na escuridão por tanto tempo fizera seus olhos regredirem, deixando-o inapto a perceber a luz. Seguindo atrás do dragão, veio uma inundação de ratos, morcegos, ogrelings e outras criaturas comuns da floresta.

Do subsolo? Ele está manipulando as criaturas subterrâneas? Que tipo de técnica seria essa—

— VAAAIIII, DRAGÃO DO ESGOTO! — o homem gritou de dentro do prédio. Apesar de seu fervor, sua voz não sugeria nenhuma vontade de lutar.

O que diabos ele está tentando fazer?

Este dragão não seria páreo para ela. Mas ela também não gostava da ideia de seguir os planos daquele homem. Espíritos Nobres eram excelentes em falar com monstros, animais e plantas. Ela rapidamente parou antes de reverter à sua forma original. Sem ter onde ficar, as outras duas maldições despencaram no chão.

Ao ver ela e as outras duas maldições, o dragão encharcado de esgoto deu um passo atrás, temeroso.

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Sitri era linda, nunca perdia a compostura e possuía muito poucos defeitos. No entanto, essa mulher de gênio excepcional tendia a ter um mau funcionamento ao lidar com o mestre de Tino. Tino observava com incerteza enquanto o Dragão do EsgotoDragoto, para abreviar — começava sua batalha com a maldição suprema.

Ela não sabia o que Sitri andara fazendo, mas custava a imaginar que eles tivessem qualquer chance de vencer isto. Este dragão podia ter sido o tema de lendas urbanas, mas esta maldição era realmente lendária. Já se provara além das capacidades de Ansem e Ark.

Tino nunca tinha ouvido falar de um dragão de esgoto, para começar. Sitri provavelmente inventara o nome. Tino era uma integrante de carteirinha da Equipe Krai, e ela conhecia as habilidades de Sitri, mas tinha que se perguntar se eles realmente tinham alguma esperança de vitória aqui.

Seu mestre parecia estar se divertindo estranhamente bem enquanto dirigia o dragão de esgoto. A uma curta distância, Sitri e o idoso alquimista conversavam em vozes baixas.

— Não demorará muito para que possamos ver em primeira mão a eficácia do Chama de Morango.

— Ainda assim, não sei o que são esses três, mas esse é um miasma temível. Mesmo que ele liberte todos os monstros dos esgotos, não tenho certeza se ele pode—

— Está tudo bem. Krai deve ser capaz de fazer funcionar. Aqui, que tal isto? Talvez se o dragão de esgoto e os outros monstros forem comidos, então os efeitos da poção de escravização serão transferidos?

Totalmente alheia à situação, ela parecia muito confiante.

Sitri, não acho que aquelas maldições vão comer o dragão de esgoto. E espere, isso significa que você percebe que o dragão não pode vencer em uma luta direta? Se você disse “Que tal isto”, então você não sabe realmente o que o Mestre está planejando, não é?!

O dragão de esgoto, supostamente sob o controle de Krai, parecia temeroso da maldição. Se Tino lembrava corretamente, aquele demônio dos esgotos nem sequer atacava grandes grupos de pessoas. Como ele deveria vencer uma maldição que enfrentara Ark e seus aliados de frente?

Sitri olhou para Tino, que estava rezando pelo artifício sobre-humano de seu mestre, e disse: — E se realmente tivermos que fazer isso, podemos usar T— e se isso falhar, Matadinho— como isca para podermos fugir! Para que possamos nos reagrupar.

Tino virou o rosto para longe da Sitri e de suas ideias insanas.

Eu sabia que você não entendia, Sitri. Aquela coisa está atrás do Mestre! Temos que encontrar alguma maneira de combatê-la se quisermos salvá-lo!

Se Tino ou Killliam ou qualquer um ficasse para trás, a maldição ainda perseguiria Krai.

Às ordens de Krai, o dragão de esgoto e as outras feras variadas que chamavam os esgotos de lar convergiram todos para o Espírito Nobre amaldiçoado. E então pararam a alguns metros de seu alvo.

— Sitri, eles não estão indo…

— Parece que seus instintos estão paralisando seus corpos.

Tino se perguntou com que frequência se via uma batalha onde o vencedor iminente era tão óbvio. Ela não acreditou por um segundo que as maldições pudessem perder. Ela achava que teria tido uma chance melhor.

Quando o Espírito Nobre avançou um passo, as criaturas do esgoto recuaram um passo. Estava terrivelmente desequilibrado. Como Tino esperava, o Espírito Nobre não ia comer o dragão de esgoto. Não que ela achasse que faria diferença de qualquer maneira.

Não! Isso não muda o fato de que o Mestre escolheu vir aqui! Ele já operou milagres antes. Talvez este dragão específico seja a fraqueza da maldição—

— Você consegue, dragão de esgoto!

— Gugyawr!

Ouvindo o incentivo de Krai, o dragão de esgoto soltou um rugido no que parecia ser uma tentativa de se animar. No entanto, ele não deu um único passo à frente. Vendo-se naquele dragão, Tino ficou bastante triste.

Algumas coisas que não podem ser superadas apenas através da motivação. O que ele está tentando fazer?

Seu mestre deu às criaturas do esgoto um olhar perplexo. Então, pela primeira vez, o Espírito Nobre falou.

— Sumam, fracos.

Era uma voz fria o suficiente para congelar o coração. Ao ouvi-la, o dragão de esgoto soltou um rugido que mais parecia um grito antes de disparar em direção ao prédio decrépito, e depois de volta para os esgotos. Da mesma forma, as outras criaturas o seguiram. Tino mal conseguiu se esquivar para o lado e evitar ser pisoteada pelo bando que se movia como uma onda gigante.

Aquilo nem foi uma luta. E espere, eles não deveriam ouvir o Mestre?!

O próprio Krai estava piscando em confusão.

Com um olhar de choque, Sitri virou-se para o Alquimista ao lado dela. — Nickolaf, como antecipamos, a porção amaldiçoada da poção está tendo um efeito.

— A maldição mais forte a anulou, removendo a cunha? Ou a diluição a enfraqueceu?

Agora não é hora para análises. Não há mais nada que possamos fazer?

O Espírito Nobre olhou para as pessoas restantes e soltou um bufo de deboche. Atrás dele, Marin parecia terrivelmente preocupada.

Uma maldição está tendo pena de nós?!

Um frasco dançou pelo ar. Sitri o jogara. O recipiente de líquido prateado pousou bem na frente da maldição, quebrando-se.

Então não houve som.

O cérebro de Tino foi sacudido violentamente. Ela voou para trás, colidindo com uma parede. Vendo o buraco no chão e a parede desmoronada, ela finalmente entendeu o que havia acontecido — a poção havia explodido. Sitri realmente foi lá e usou aquilo no meio da cidade sem aviso prévio. Não apenas isso, mas a poção havia ficado mais forte desde as férias.

Suportando a dor, Tino se levantou. Usando a entrada decrépita do esgoto como cobertura, Sitri prosseguiu com mais poções.

— Tome isso, e aquilo! Quando ouvi que eram maldições desta vez, fiz poções purificadoras detonantes! Esta é a estreia delas!

— Por favor. Por favor, controle-se. Sitri.

Entre as explosões, Tino ouviu não o Lamento de Marin, mas sim os Gritos de Terror de Marin. Isso parecia um pouco físico demais para ser purificação. Além disso, nem mesmo as poções de Sitri iam matar aquela coisa! Ansem estivera impotente, afinal!

Sitri estava mostrando uma sede de sangue real para alguém que provavelmente estava ciente de quão pouca chance de vitória ela tinha. A última poção branca saiu, criando uma coluna de fumaça em um tom de branco não natural. Era uma bomba de fumaça.

Tino teve uma percepção.

Sitri planeja fugir com o Mestre.

Tino não ia aceitar isso. Colocando dois dedos na boca, ela assobiou o mais alto que pôde. Em resposta, o Carpy-kun voou de seu esconderijo atrás do prédio e foi até ela. Não adiantava ficar aqui. Como esperado, Sitri não conseguiu salvar a situação. Eles nem chegaram a assistir a uma batalha de monstros gigantes.

Por que viemos aqui, Mestre?

Ela pulou em cima do Carpy-kun que se aproximava. Sem desacelerar por um segundo, ela mergulhou na fumaça, agarrou a mão de seu mestre enquanto ele permanecia ali imponentemente, e o puxou para cima. Tino estava operando em capacidade máxima; cada célula de seu corpo estava trabalhando para gerenciar este desastre. Ela agora tinha uma compreensão sem precedentes da disposição e intensidade de seu mestre, mas ainda assim não teve escolha a não ser fazer a pergunta.

— Mestre, para onde agora?! — ela perguntou, agarrada ao Tapete e sacudindo-o.

— Tino, quando você ficou tão boa com o Carpy-kun?

— Mestre, eles estão vindo atrás de nós de novo! Mesmo depois de termos escapado pela fumaça!

Sentindo algo atrás dela, Tino girou e viu uma massa negra saindo da fumaça. A nuvem fora espessa o suficiente para que ela mal conseguisse ver alguns centímetros à sua frente, no entanto, as maldições sabiam exatamente onde eles estavam. Isso confirmou a suspeita de Tino de que eles não estavam sendo rastreados visualmente, mas por algum poder especial. Deus, como eram persistentes.

Talvez percebendo que era ineficiente assumir uma forma grande, ela os perseguiu de cima de um pássaro negro. Ela se movia ainda mais rápido do que em suas iterações anteriores. Embora a maldição não tivesse sofrido nenhum dano, ela evidentemente ficara ainda mais zangada. Depois de ter um dragão de esgoto solto sobre ela, e então poções estranhas arremessadas contra ela, até uma maldição ia ficar irritada.

— Carpy-kun, mais rápido!

Por alguma razão, Krai tinha um olhar distante nos olhos. Às ordens de Tino, o Carpy-kun acelerou. Ela não sabia quão rápido eles estavam indo, mas um espaço estava se formando entre eles e as maldições. Isso lhes daria um pouco de tempo. Tino tornara-se bastante adepta em pilotar o Tapete. Ela se perguntou quão bom aquilo poderia ter sido se não estivessem no meio de uma emergência. Ainda assim, aquele encontro com Sitri deveria tê-la deixado ciente do que estava acontecendo. Se eles resistissem o suficiente, talvez ela aparecesse com algum tipo de contramedida. E no momento em que esse pensamento cruzou a mente de Tino, seus olhos se arregalaram.

Poderia ser? Era isso que ele estava tentando realizar?!

— Tudo bem, Tino — seu mestre disse, pendurado no Tapete — vamos para a Lucia agora. Para a Academia de Magia de Zebrudia! A Lucia deve ser capaz de fazer alguma coisa, e a Professora Seyge também está lá! Aquela moça piromaníaca pode estar lá também…

— Mestre… Tudo bem. Nós iremos.

Lucy. Não era difícil imaginar que talvez a Lucy e o Inferno Abissal pudessem fazer alguma coisa. Além disso, ela ouvira dizer que Seyge Claster, a Imortal, tinha sangue de Espírito Nobre nela. Eles poderiam encontrar uma pista que levasse à vitória.

Mestre, não fique bravo, mas não deveríamos ter ido para lá primeiro?

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Ferrou.

Esta maldição era tão insana que mal parecia real. Achei que poderia estar tendo um sonho estranho ou algo assim. Aproveitando o voo, observei com um leve sorriso enquanto o Espírito Nobre nos perseguia de cima de um pássaro. Tudo estava acontecendo em um ritmo vertiginoso, uma sensação que eu não sentia há algum tempo.

Eu não conseguia acreditar que havia algo que Ansem e Ark não pudessem derrotar. Hugh fizera uma descoberta e tanto. Onde diabos ele conseguiu aquela caixa? Fazer Marin e o cavaleiro negro lutarem contra a maldição parecera uma boa ideia na hora, mas acabou funcionando contra nós. Quando ouvi que poderia controlar o dragão de esgoto, pensei que poderia ter algo, mas isso também fracassou. Nada estava funcionando.

E o que é um dragão de esgoto, afinal?

Mas não importava quão perigosa fosse a situação, isso não mudava o que eu podia fazer. E isso era nada.

Tino em algum momento se tornara uma especialista em comandar o Tapete. Mesmo que ele sempre me ignorasse, ele pulava na oportunidade de seguir as ordens da Tino. Que Relíquia absurda. Decidi ter uma conversa com ele assim que isso terminasse.

Provavelmente não era fácil, mas o Carpy-kun estava mal conseguindo ficar à frente do Espírito Nobre. Mesmo com minha visão, eu conseguia ver o olhar de ódio em seu rosto. Cara, esse é um Espírito Nobre muito zangado.

Sem mais nada para fazer, olhei de perto para a fonte desta confusão — o anel de madeira que atraía maldições. É uma coisa boba de se pensar sobre uma Relíquia, mas eu realmente me perguntava como essa coisa funcionava, se podia exigir a atenção total de uma maldição que era inteligente o suficiente para falar. Havia muitas Relíquias que atraíam coisas, mas esta era desconcertante.

O que me lembra, Kechachakka conseguia atrair dragões.

Claro, eu não ia culpar a Tino por isso, mesmo que tenha sido ela quem me deu este anel. Ela tinha boas intenções e arriscara sua própria segurança para obtê-lo. A culpa era minha, pois eu fora quem o colocara sem pensar.

Fiz uma tentativa superficial de remover o anel. E ele se moveu. Nenhuma resistência.

Hein?

Olhei perplexo. Olhei para Tino, verifiquei o anel e depois observei cuidadosamente nosso perseguidor. Não era difícil adivinhar por que o anel se movera; ele devia ter ficado sem mana. Não devia ter muito para começar. Eu quase não tinha mana e, sem nada para dar, não importava se esta Relíquia era capaz de sugar de seu usuário.

A questão é: quando a mana acabou? Eu não consegui tirá-lo durante a avaliação de Matthis, nem quando o examinei na Casa do Clã.

Independentemente disso, se eu jogasse o anel de lado, a maldição deveria parar de me perseguir. Que sorte. Mas no momento em que eu estava prestes a descartá-lo, percebi que se eu jogasse este anel fora, a maldição não começaria a atacar a cidade? O único lado positivo aqui era que, enquanto a maldição estivesse atrás de mim, o resto da capital estaria pelo menos seguro. Ansem e Ark podem ter falhado em pará-la, mas caçadores de elite como eles devem ser capazes de encontrar uma solução se tiverem tempo suficiente. E embora a maldição fosse rápida, a Mestra do Tapete Tino conseguia superá-la.

Mesmo se eu jogar a capital aos lobos, acabarei amaldiçoado também. E posso descartar o anel a qualquer momento.

Acho que só temos uma opção.

— Tino, tive uma ideia fantástica! Que tal darmos uma volta ao mundo neste Tapete?

— Mestre, do que você está falando?! — ela gritou em resposta.

Por enquanto, eu queria que me deixassem subir no Tapete para não ter que ficar pendurado. Mas talvez eu estivesse pedindo demais. Havia algum truque para montá-lo?

Certifiquei-me de que o anel sem mana estivesse bem ajustado ao meu dedo, então dei uma olhada no Espírito Nobre. Eu não conseguia dizer se ele percebera que o anel estava sem carga. Quero dizer, achei meio estranho que ele ainda estivesse me perseguindo mesmo estando sem mana, mas achei que deveria focar em atrair sua atenção.

O que eu faço? O que eu faço?

Aqui, por enquanto, vou acenar.

Esperando por amor e paz, coloquei um sorriso e acenei com a mão entusiasticamente. A expressão do Espírito Nobre endureceu. Atrás dele, por razões além de mim, o Lamento de Marin estava balançando a cabeça rapidamente. O cavaleiro negro ergueu sua espada acima da cabeça. Ele estava planejando totalmente arremessá-la em mim.

Não se incomode. Ainda tenho três Anéis de Proteção sobrando. Desista.

Exatamente quando dei de ombros com resignação, um tornado de chamas subiu do chão e envolveu o Espírito Nobre.

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Houve uma luz tão ofuscante quanto o sol, e ela sentiu um calor intenso atrás dela. Os olhos de Tino saltaram quando viu o repentino furacão de fogo irrompendo de baixo.

Embora Lucy conseguisse gerenciar ataques de água ferozes, a magia de fogo era geralmente o mais forte dos feitiços que envolviam a manipulação da natureza. A habilidade de reduzir qualquer coisa a cinzas significava que feitiços de fogo eram coisas complicadas que exigiam consideração cuidadosa dos arredores, tornando-se um elemento que a maioria dos caçadores mantinha à distância.

No entanto, havia uma Magi na capital imperial conhecida pelo uso da magia de fogo.

Lá embaixo, Tino viu os prédios da Academia de Magia de Zebrudia, ainda danificados, ainda em processo de restauração de suas barreiras. O tornado viera de seu amplo pátio.

— O-O Inferno Abissal. — As palavras escaparam dos lábios de Tino. — Ela está realmente aqui!

— Ohhh.

Seu mestre pareceu impressionado com o tornado carmesim, uma visão bela e aterrorizante ao mesmo tempo.

Podiam ser maldições irradiando miasma, mas ainda era preciso ser um verdadeiro demônio para lançar um feitiço ofensivo sem fazer qualquer tipo de confirmação. Tino agora entendia por que o Inferno Abissal era coloquialmente chamada de bruxa. Sendo um Nível 8, sua insanidade era… ainda não no mesmo grau que a do mestre de Tino.

— Hee hee hee! — Houve uma gargalhada vinda do pátio. — Carne, ossos, sangue em cinzas! Queime tudo!

Tino ouvira dizer que a razão pela qual o Inferno Abissal, tema de tantas lendas por seus poderes conflagratórios, ainda não fora presa era porque ela supostamente incinerava qualquer evidência de seus erros. Eram apenas boatos, mas eram assustadores da mesma forma.

No entanto, maldições não eram seres vivos. Elas nem sequer tinham necessariamente formas corpóreas. Um feitiço causaria algum dano, mas é por isso que purificar maldições geralmente era deixado para a igreja. Uma Magi do calibre do Inferno Abissal deve saber disso também.

O Espírito Nobre irrompeu do tornado de fogo. Como Tino esperava, o feitiço não fizera quase nada, mas agora os olhos da maldição estavam voltados para cima com raiva. Suas bochechas tremeram, e ela estava prestes a abrir a boca quando um dragão de chama pura começou a morder as três maldições. Até Tino achou aquilo um pouco perturbador.

Ela usou dois feitiços ofensivos de primeira classe seguidos sem pensar no efeito que eles poderiam ter. O cajado dela pensa por ela, não é?

O Inferno Abissal parecia pensar que, se algo não estava pegando fogo, então você deveria lançar chamas até que pegasse. Mordendo o Espírito Nobre, o dragão vermelhão traçou um padrão errático pelo céu. Como o ataque anterior, isso atraiu a atenção das pessoas da capital imperial, embora talvez por razões diferentes.

Foi quando Lucy fez uma aparição galante no topo de sua vassoura. Seu manto ondulava ao vento e ela parecia estar em um humor ainda pior do que o normal. Ela atingiu uma altura que a colocou no nível dos olhos de Krai enquanto ele pendia do Tapete, então igualou a velocidade deles.

— Irmão! — ela gritou. — O que você trouxe com você?!

— Não sei, só pensei que você pudesse ser capaz de fazer algo a respeito.

— H-HUUUH?! QUE SACO! VOCÊ SEMPRE, SEMPRE…

Obrigada por sempre, sempre carregar tanto nas costas, Lucy.

O Espírito Nobre libertou-se do dragão, então, com os olhos o mais abertos possível, investiu contra Krai. O pássaro parecia estar bem, o que significava que provavelmente não era corpóreo. O Espírito Nobre estava perdendo o controle. Até Marin e o cavaleiro negro pareciam se acovardar diante de sua raiva.

É verdade. Espíritos Nobres das florestas geralmente não gostam de feitiços de fogo.

Era a única fraqueza de uma raça que, de outra forma, se destacava em assuntos arcanos. Isso era provavelmente devido ao risco potencial de incêndios florestais. Espíritos Nobres raramente usavam feitiços de fogo e não eram muito fãs do elemento como um todo. Além disso, qualquer um ficaria bravo se alguém de repente os banhasse em chamas.

Ei, por que está vindo contra nós quando o Inferno Abissal é quem lançou aqueles feitiços?!

— Irmão, vá para um prédio.

Lucy virou em um arco amplo, não hesitando em se colocar na frente da maldição. Ansem e Sitri também impediram destemidamente a maldição, mas Tino ainda achava que Lucy estava sendo incrivelmente audaciosa. Ela não achava que conseguiria fazer o mesmo.

Ainda em sua vassoura, Lucy ergueu a mão direita. O bracelete em seu pulso começou a brilhar intensamente. O vento moveu-se em um movimento circular, agitando as bordas de seu manto. Ela formara um pequeno vórtice. Ele gradualmente se moldou em um dragão imenso que foi então solto sobre as três maldições. Marin liberou ondas de sombra, mas o dragão engoliu tanto aquelas quanto as maldições. Foi um espetáculo ainda maior do que Sitri lançando explosivos para todos os lados.

Subitamente, uma luz carmesim cintilante subiu de baixo. Atingiu o dragão de água, incendiando-o como lenha encharcada de óleo.

— HA HA HA! QUEIME ATÉ O CHÃO!

— Minhas desculpas, Krai! Nossa Mestra do Clã está um pouco animada e feliz em queimar coisas depois de obter as cinzas daquela Árvore do Mundo Corrompida do outro dia!

Ao lado do Inferno Abissal e curvando a cabeça estava um Magi familiar, Artbaran do Hidden Curse. Ele parecia estar tendo um dia estressante. Krai sorriu e acenou para Artbaran antes de olhar para Tino.

— Tino, vamos para aquele prédio enorme!

— S-Sim. Mestre.

Seguindo suas ordens, ela manobrou o Carpy-kun, fugindo para um prédio grande que tinha muitos Magi reunidos do lado de fora. Depois de fazer um pouso suave na frente do prédio, ainda segurando a mão dele, eles passaram pela multidão de Magi ainda confusos e empurraram as portas duplas. O prédio parecia ser um auditório. Lá dentro havia ainda mais Magi, e no centro estava um cajado negro como jato colocado sobre um pedestal.

Tino não pôde deixar de ofegar. Embora ela não pudesse ver mana como os Magi, ela tinha o olfato de uma Ladina. Ela não precisava ser uma Magi para dizer que o cajado abrigava um poder considerável.

Mestre, será? Sim! Você sabia sobre este cajado.

Tino começou a se lembrar da proeza mágica que seu mestre demonstrara no Festival do Guerreiro Supremo.

Não, não, aquele era aquele mestre falso…

Mas era lógico que o real seria melhor que o impostor. Além disso, mesmo que não fosse o Krai real que lutara contra Krahi, fora definitivamente o Krai real que parara aquela espada Relíquia monstruosa. Seria este o dia em que seus poderes até então ocultos seriam visíveis para todos verem? Tino engoliu em seco enquanto observava seu mestre se aproximar do cajado. À medida que ele se aproximava…

Ele nem sequer moveu as pernas. Ele parou onde estava, piscando enquanto olhava para os Magi ao redor.

— Umm, Mestre, precisamos nos apressar — Tino ofereceu hesitantemente.

Foi quando o teto desabou.

Destroços choveram enquanto o dragão de água irrompia, perfurando o centro do salão. Os Magi da academia gritaram e fugiram como pequenas aranhas. Embora fossem talentosos, tinham muito pouca experiência de combate. Tino rapidamente puxou seu mestre para longe de qualquer detrito caindo. Seria um sinal de que ela se tornara dessensibilizada se achasse que a perda de um único auditório era um preço justo a pagar por derrotar esta maldição?

Infelizmente, ela ainda conseguia senti-la em algum lugar.

Enquanto Tino puxava gentilmente o Carpy-kun para mais perto, ela viu luzes negras subirem como vapor da cratera que fora escavada pelo dragão de água. Outra tentativa fracassada. Suas suspeitas estavam se provando verdadeiras; a mera magia não seria suficiente para derrubar aquela coisa. Se os sentidos de Tino fossem confiáveis, o poder abrigado naquelas luzes não mudara em nada.

Como diabos o Mestre planeja derrotar isso?

Tino começou a estabilizar sua respiração, mas antes mesmo de terminar, Lucy entrou pelo buraco escancarado no teto. Ela desenvolvera orelhas e uma cauda muito semelhantes às de uma raposa. Luz era emitida pelos braceletes em seus pulsos. Seu contorno oscilou — então havia mais de uma dela.

Tino ouvira falar disso. Era uma técnica de clonagem usada por Telm, o Contra Cascata, o traidor que fora descoberto durante a viagem para a conferência. Talvez Lucy tivesse ouvido falar deste feitiço e o recriado? Cercando a cratera, a pequena horda de Lucys começou um encantamento. Luz apareceu em um amplo raio acima do buraco enquanto elas tomavam forma. Espadas formadas de água. Dezenas delas, cada uma irradiando uma mana temível. Lucia tinha um suprimento quase infinito de mana, mas havia um tom vermelho em suas bochechas. Ela devia estar realmente se esforçando.

A aura sombria que subia oscilou; as maldições flutuaram do buraco. De uma só vez, Lucy liberou as lâminas, lançando-as com a velocidade de uma bala. O olhar de ódio da maldição mudou para um de choque antes que as lâminas que chegavam enviassem seu corpo magro voando para trás. Foi então que Tino teve a certeza de que apenas uma fração de energia estava abrigada no corpo daquela maldição.

Talvez ciente disso, talvez não, Lucy continuou seu turbilhão de espadas. O Espírito Nobre tentou evitá-las, mas elas eram rápidas demais para permitir isso. A magia de água era conhecida por não ser letal, mas este encontro sugeriu a Tino que talvez fosse apenas uma questão de habilidade.

Cada ataque individual raspava apenas um pouco do poder da maldição, mas as lâminas eram abundantes. Não era preciso ser um especialista para adivinhar que aquela chuva de espadas não era um feitiço destinado a ser usado em apenas alguns alvos. O chão tremia a cada golpe, cavando um fosso enorme dentro do auditório. Os poucos magi que não haviam fugido observavam maravilhados o poder brutal em exibição.

— Oh. Oh! Oooh! Lucia, isso é incrível! Vai, vai! — gritou Krai, em uma torcida nada encorajadora.

— Rgh. Eu não me importo! Por favor! Apenas fique para trás, irmão! — ela gritou para ele, com o rosto vermelho.

Era verdade que a magia era mais eficaz contra maldições do que os ataques físicos. Ainda assim, Tino sentia que os poderes e o repertório da Lucia deviam estar se expandindo o tempo todo, já que ela agora conseguia desgastar uma maldição lendária que nem mesmo a Igreja do Espírito Radiante conseguira purificar.

— Urgh. Urghk.

A série de ataques destruíra o chão e arremessara o Espírito Nobre para longe. O cavaleiro negro e Marin também estiveram impotentes contra a investida.

Será que isso vai mesmo funcionar?

Tendo sido atingido uma vez por Ark, o Espírito Nobre fora agora envolvido pela luz pela segunda vez hoje. O olhar do ser amaldiçoado subitamente parou em um ponto: o cajado negro. Ele fora colocado em um pedestal, mas as ondas de choque dos ataques da Lucia o fizeram cair. No momento em que viu o cajado, seu rosto se contraiu em surpresa. Então, as luzes negras ao redor dele se apagaram. Sua expressão tornou-se vazia.

Tino perdera a conta de quantas vezes sentira um calafrio agourento na espinha hoje. Sentindo algo, Lucia interrompeu seus ataques. Tremendo da cabeça aos pés, o Espírito Nobre tocou o cajado.

Hm? Não me diga que estamos em apuros?

— Umm, Mestre?

— O-Ohhh, i-isso…

O rosto do Espírito Nobre se contorceu violentamente. Não estava mostrando a inimizade de antes, mas Tino ainda tinha certeza de que aquela era a calmaria antes da tempestade. Ele não disse nada, mas estava furioso.

Tino era mestre em todas as coisas relativas ao seu mestre. Ela já havia coletado informações sobre os problemas anteriores com maldições. Diziam que uma Árvore do Mundo falsa tivera um surto na academia e destruíra um dos prédios. Tudo terminou quando o Inferno Abissal a queimou. Então, as cinzas deixadas para trás foram divididas e distribuídas devido ao seu valor como ingrediente de ferramenta mágica.

Sabendo disso, Tino conseguia adivinhar o que estava acontecendo. Sua experiência com as Mil Provações não foi em vão. Os Espíritos Nobres consideravam a Árvore do Mundo divina. Eles tinham uma cultura distinta e um desdém por tudo o que consideravam impuro. Esta maldição parecia ainda manter um vestígio de seu eu anterior. Como tal indivíduo reagiria à visão de uma imitação da Árvore do Mundo?

O cajado flutuou e a mão da maldição se fechou em volta dele. A temperatura despencou em um piscar de olhos.

— U-Uma imitação da Árvore do Mundo — disse ela em uma voz que ecoava como as profundezas do inferno. — Feita por humanos? Humanos insignificantes?! O quê? O QUE É ISSO?!

A selvageria pura daquela voz paralisou Tino por um segundo. O cabelo curto do Espírito Nobre oscilou enquanto crescia, pulsando como se fosse impulsionado por sua raiva. Lucia disparou freneticamente outra rajada de espadas, que o cabelo rebateu.

Diziam que a força de uma maldição era proporcional à força dos sentimentos que a moviam. Agora mesmo, ela estava mostrando uma fúria assassina, violenta e de parar o coração. Tino só precisava mover um dedo para alcançar o Carpy-kun, mas as circunstâncias não permitiam seu uso.

A fala do Espírito Nobre não estava mais fragmentada. Seus olhos olharam além da Lucia, para Tino. Ou melhor, para seu mestre, parado ao lado dela. O olhar em seus olhos ia além da intimidação; era como nada mais neste mundo.

Krai estremeceu e disse: — É impressão minha ou está um pouco frio aqui?

— A-Agora é hora de… Hein?!

E-Eu consigo me mexer!

Uma interjeição vinda do fundo do coração restaurou a liberdade de movimento de Tino. A forma anterior da maldição já era notável; Tino não achava que Lucia pudesse fazer nada agora que ela mudara. Por sorte, a atenção da maldição não estava na Lucia.

Tino encostou no Carpy-kun, agarrou o braço de seu mestre e pulou a bordo. Com movimentos rápidos e um julgamento excepcionalmente bom, o Carpy-kun compreendeu as intenções de Tino e disparou. Sentindo uma fúria diferente de tudo o que Tino já sentira, eles voaram para fora do auditório.

Na saída, passaram pelo Inferno Abissal. Elas fizeram contato visual. Atrás deles, Tino ouviu ventos uivantes, que ela presumiu ser Lucia lançando um feitiço. O Inferno Abissal não mostrou surpresa ao vê-los. Ela simplesmente sorriu e ergueu seu cajado.

Lambent Ashbringer!

Tino sentiu um vento abrasador soprar contra suas costas. Uma barricada de vento fora erguida para isolar as maldições de Tino e Krai, e agora estava absorvendo as chamas negras do Inferno Abissal, transformando-se em uma parede de fogo. Lucia deve ter percebido que a maldição estava fixada em Krai, pois mudara de uma abordagem ofensiva para uma de contenção.

Sempre se pode contar com a Lucia, pensou Tino enquanto soltava um suspiro de alívio.

Foi quando uma lança de luz sinistra irrompeu pela parede de fogo e atingiu seu mestre. Ela brilhava em preto e branco, diferente de tudo o que Tino já vira. Por apenas um momento, ela avistou o rosto do Espírito Nobre através da fresta na parede. Fervendo de raiva, seus olhos brilhavam intensamente, seu grande sorriso desejando a morte de seu mestre.

O terror daquilo a fez congelar. Se aquele rosto tivesse sido direcionado a ela, Tino nunca mais seria capaz de ir ao banheiro sozinha à noite.

— Acho que sobrou mais um — sussurrou seu mestre abruptamente, com um olhar endurecido no rosto.

— Hein? Um o quê?!

E o que está acontecendo com o seu corpo se você recebeu esse golpe sem nenhum dano?!

Depois de tantos casos semelhantes, Tino não pensava mais muito nisso quando seu mestre recebia um golpe e permanecia ileso, mas se aquela lança a tivesse atingido, não sobraria um centímetro dela. Como aquilo fazia sentido? Ela sentiu uma renovada sensação de horror diante da anormalidade de seu mestre.

— Tino — ele disse muito seriamente — esta é a nossa operação final. Vamos até o Luke.

— Hein?! Para quê?! O-O que está acontecendo?!

Por que ir ao Luke agora? Ele seria o menos útil… Não, não. Acalme-se. Controle-se, Tino Shade. Ele não terá muita utilidade aqui, mas agora você é apenas uma transportadora. Pense. Pelo menos tente adivinhar a intenção do Mestre.

— E-Entendido — disse ela após um breve silêncio. Ela estava lutando com aquilo. — Estou entendendo corretamente, Mestre? Você está dizendo que a espada do Luke abrirá o futuro?

Ele pareceu perplexo com essa ideia.

— Não, é que o Luke é o único que sobrou…

Mestre, também tem a Liz…

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Cara, eu tinha tanta certeza de que a Lucia de orelhas e cauda seria capaz de dar um jeito em alguma coisa. E agora, o que eu vou fazer?

Eu tinha perdido qualquer fé que tivesse em mim mesmo. Além disso, a única razão pela qual eu sobrevivi a cada encontro com o perigo até agora foram os meus amigos. Se eles não podiam resolver isso, então não havia nada que eu pudesse fazer.

A maldição ainda estava nos perseguindo com sua habitual persistência obstinada. Se havia uma coisa pela qual eu podia estar feliz, era que o rancor dela não estava mais sendo direcionado apenas a mim. Eu já tinha gastado um Anel de Proteção quando ela me encarou, e outro quando me atingiu depois de romper a parede de chamas, deixando-me com apenas um sobrando.

É fácil se espantar com a ideia de que o olhar dela foi suficiente para ativar um Anel de Proteção. No entanto, se você se lembrar, o Kechachakka gritando e batendo os pés naquela aeronave foi o suficiente para queimar constantemente o meu estoque. Suponho que maldições fossem simplesmente capazes de coisas assim.

Houve um momento em que pensei que os ataques da Lucia poderiam realmente acabar com a maldição, mas quando me virei e olhei para trás, ela parecia forte como sempre. Isso tudo era devido àquele estranho cajado negro no auditório. Até a maldição tocar aquele cajado, Lucia a estava repelindo. Mas tudo fora virado de cabeça para baixo, tudo por causa do cajado.

O pássaro negro deslizava pelo céu atrás de nós, com o Espírito Nobre translúcido em suas costas. Atrás dele estavam o cavaleiro negro e o Lamento de Marin, que segurava o cajado no alto. Enquanto isso, tínhamos o Carpy-kun, a Mestra do Tapete Tino e eu pendurado como isca. Eles definitivamente tinham a vantagem aqui.

Talvez eles me perdoem se eu rastejar.

Só restava mais uma gota de esperança para nos agarrarmos, e era o Luke. Nem eu achava que usar uma espada para cortar uma maldição seria fácil, mas foi onde o processo de eliminação nos deixou. Bem, também tinha a Liz e a Eliza, mas eu não sabia onde elas estavam!

Achei interessante que a Professora Seyge não estivesse de volta na academia. Havia tantos outros magi lá, então onde diabos ela estava? Honestamente, ela nunca estava por perto quando eu precisava dela! (E sempre por perto quando eu não a queria lá.)

De repente, avistei o Arnold nas multidões barulhentas lá embaixo. Ele e sua grande equipe olhavam para nós com incredulidade. Com tão poucas opções disponíveis, tentei pedir ajuda a ele.

— Arnold! Você pode fazer algo sobre isso?!

— Ah?!

Parecia que ele era incapaz de responder. Continuamos, passando bem por cima da cabeça dele. Ele não deveria estar mais acostumado com situações complicadas, sendo Nível 7 e tudo mais? Juro, certas pessoas…

E onde estava o Franz durante todo esse caos?! Ele não deveria manter a capital imperial segura? Não estava segura agora! Eu até tinha devolvido a Pedra Sonora dele no pior momento possível. Honestamente! Cada um deles!

Achando que não fazia sentido ficar apenas pendurado no Tapete, comecei a gritar. Se eu chamasse, alguém poderia responder. Eu não queria causar uma cena, mas estava contra a parede.

— Fraaanz! Capitão Franz da Ordem Zero! Me ajuuudaaa!

— Mestre?!

— A capital está em perigo! Fraaanz! Rápido! Tem uma maldição louca! As coisas não estão boas!

— Eu vou te matar, eu vou te matar, eu vou te matar! — gritou o Espírito Nobre enquanto nos perseguia. Ela estava se movendo assustadoramente rápido, mas o Carpy-kun mal conseguia ficar à frente.

— Carpy-kun, desvie!

Seguindo as ordens brilhantes de Tino, o Carpy-kun desviou da flecha de luz que chegava. Com apenas um Anel de Proteção, eu estava incrivelmente grato por termos evitado o projétil. É que eu queria ser quem dava a ordem, sabe? Eu ainda nem conseguia montar em cima, mas a Tino estava dominando técnicas têxteis incríveis. Não era justo.

Depois de mais alguns minutos fugindo para salvar nossas vidas, chegamos ao dojo do Santo da Espada, aquele que o Luke já tinha fendido em dois anteriormente. No pátio, dezenas de aprendizes do renomado espadachim balançavam espadas.

É verdade. Ele disse algo sobre treinar para vencer uma maldição, não disse? Cara, eu estou com tudo hoje.

(Óbvio desespero.)

Talvez o estimado Santo da Espada fosse capaz de cortar a maldição. Ouvi dizer que ele fora capaz de subjugar a Espada Demoníaca. Quando os alunos nos notaram, começaram a conversar e a apontar em nossa direção. Isso seria divertido se fôssemos apenas Tino e eu, mas tínhamos três maldições nos perseguindo. Soln olhava com os olhos arregalados. Ao lado dele, Luke mostrou uma reação semelhante.

— Soooln! Luke! — eu berrei para eles. — É com vocês!

— O quê?!

— Deixe comigo, Krai! RAAAUUUGH!

Movendo-se por puro reflexo, Luke avançou. Ele provavelmente nem tinha pensado muito no que estava enfrentando. Esse era exatamente o tipo de homem que meu amigo de infância, Luke Sykol, era.

Tino ordenou que o Tapete descesse. Com seus atributos absurdamente altos, Luke passou por nós e saltou no ar.

— Mestre. O Luke. Aquilo é uma espada de madeira.

— RAAAUUUGH!

Pensando apenas em me matar, o Espírito Nobre ficou momentaneamente atordoado ao ver Luke se aproximando. Marin tremeu de susto. Luke cortou uma flecha de luz que chegava. A flecha quebrou sua espada ao meio, mas isso não o impediu de balançar a espada em um golpe vertical, fendendo tudo.

Tino olhou com espanto. Eu estava sem palavras. No entanto, quem ficou mais surpresa de todos nós foi a própria indivíduo que foi cortada, o Espírito Nobre. As duas metades do Espírito Nobre se colaram instantaneamente.

— Ahhh! — gritou Luke. — Grudou de novo! Eu ainda sou um amador!

Dificilmente. Acho que essa coisa é mesmo incorpórea. Se quer saber, estou surpreso que você conseguiu cortá-la com uma espada de madeira, sendo que a magia da Lucia e as purificações do Ansem não fizeram quase nada!

Luke jogou de lado a metade que sobrou de sua espada de madeira.

— O-O quê? — disse o Espírito Nobre, esfregando vagamente onde fora cortada. — O que é você?!

— Ohhh! É um cavaleiro! S-Sua espada! — exclamou Luke. De onde eu estava, Luke parecia mais uma maldição do que o Espírito Nobre. Seu olhar varreu o ambiente, fixando-se então na Espada Demoníaca ao lado do Santo da Espada. — Uma espada nova! Eu vou cortar e matar, matar!

O Espírito Nobre percebeu o plano dele e estendeu um braço. Com um leve chocalhar, a Espada Demoníaca tremeu, flutuando então para a mão aberta da maldição. Soln fez uma cara que dizia: Ah, que droga. O ataque maníaco de Luke deve tê-lo distraído.

O Espírito Nobre entregou a espada para o cavaleiro negro. Então ela olhou para mim, quase como se tivesse acabado de lembrar que eu estava lá.

— C-Como ousa, humano. Soltar uma criatura tão demente contra mim…

— Acho que te devo desculpas.

— A-A Sitri usou o Luke como referência quando criou a invocação do Matadinho?

É, o Luke consegue fazer umas coisas bem incompreensíveis, e muita gente acha isso bem apavorante.

Talvez pelo choque, a aura negra ao redor das maldições enfraqueceu. Se o Luke foi capaz de fazer aquela coisa recuar, então talvez ela não soubesse o que fazer com pessoas que fogem da sua compreensão?

— E-Eu vou matar todos vocês! Que a humanidade sofra pela eternidade…

Esta maldição estava agindo de forma muito mais humana do que quando a vimos pela primeira vez. Se serve de consolo, isso a tornava menos intimidadora. No começo, eu estava apavorado porque não dava para saber o que ela faria, mas se ela ia apenas causar o caos por aí, então não era diferente de um monstro. Exceto que o poder dela estava em um nível totalmente diferente.

Depois de surrupiar uma espada de um colega de classe próximo, Luke avançou contra o Espírito Nobre. Ela apontou uma mão para baixo. O chão sob os pés de Luke começou a se dissolver em uma substância lamacenta que cobriu suas pernas.

— Você ousa me pegar de surpresa, seu ser inferior maldito!

Acho que o Luke realmente assustou o Espírito Nobre. Ela ergueu os braços e depois os baixou com força. Do céu, caiu uma saraivada de lanças negras que formaram uma espécie de gaiola.

Cara, essas frestas são bem estreitas. Eles podiam abrir só um pouquinho, e o Luke ainda estaria preso.

— Uma g-gaiola! Condizente! Com um ser inferior! Você pode ficar aí! Para sempre!

— P-Puta que pariuuu!

Luke agarrou as lanças misteriosas e, sem se importar que suas mãos estivessem sendo queimadas e suas pernas enterradas, tentou escalar as barras de sua gaiola. Em pânico, o Espírito Nobre começou rapidamente a criar um teto sobre ele.

— Fera miserável! — O Espírito Nobre estava realmente perdendo a linha. — Eu vou garantir que você nunca mais segure uma espada na vida!

Tino, que nem tinha descido do Carpy desta vez, estendeu a mão para mim.

— Mestre, vamos fugir enquanto podemos!

De alguma forma, as coisas correram melhor do que eu esperava, mas o Luke, no fim das contas, também não foi capaz de derrotar a maldição. Quero dizer, é claro que não. Você não pode matar uma maldição com uma espada. Nem vale a pena considerar isso.

Carpy subiu rapidamente. Mais uma vez, eu fiquei pendurado embaixo enquanto deixávamos o dojo caótico para trás.

Embora Luke não tivesse conseguido abater a maldição, ele nos comprou um tempo muito necessário. Não vi sinal do Espírito Nobre atrás de nós. Ele bateu o recorde de tempo segurando-a. Havia algo engraçado na ideia de que o Luke a deteve por mais tempo que a Lucia, o Ansem ou qualquer outro.

Sobrevoamos a capital imperial em um ritmo um pouco mais lento do que antes. Todo o caos tinha me deixado um pouco anestesiado ao perigo, mas, de qualquer forma, estávamos no meio de uma crise. Olhando para baixo, eu conseguia ver que a cidade fora jogada na desordem. As nuvens negras que envolveram a maldição agora se espalharam por toda a capital imperial. Talvez aquela profecia que o Franz mencionou não fosse uma metáfora?

— M-Mestre — Tino perguntou depois de respirar fundo — qual é o nosso próximo passo?

Próximo? Sei lá. Essa foi a minha última ideia.

A única ideia que me restava era manter a maldição afastada até que a equipe da Lápis chegasse com o Espírito Nobre Xamã, e apostar tudo neles. O problema é que provavelmente não tínhamos esse tipo de tempo. Se continuássemos usando o Carpy para fugir, a mana se tornaria um problema. Dependendo das capacidades de quem usa, a quantidade de mana consumida por um Tapete Voador variava. O Carpy tinha especificações bem altas, o que significava que ele também precisava de uma boa quantidade de mana. Portanto, Tino não conseguia carregá-lo e, nem precisa dizer, eu também não.

Trabalhando o cérebro freneticamente, coloquei um sorriso e falei com uma voz suave.

— O que você acha que devemos fazer, Tino?

— Hein?! Uhh…

Por enquanto, precisávamos ganhar tempo. Faríamos isso e esperaríamos que alguém nos salvasse. Essa era a nossa melhor opção. Esta cidade não carecia de caçadores excepcionais e magi e coisas do tipo. Provavelmente havia alguns Xamãs misturados por ali também. Havia uma boa chance de que o Ark e os outros estivessem pensando em um plano neste exato momento. Eu rezei para que estivessem.

Depois de gemer para si mesma, os olhos de Tino se arregalaram como se ela tivesse bolado algo. Seu cabelo estava grudado em suas bochechas, suas fitas manchadas de preto. O fato de ela ainda ter energia depois de todo esse tumulto era simplesmente incrível. O treinamento dela estava valendo a pena maravilhosamente.

— Umm — ela disse hesitante, olhando para mim com olhos pidões — talvez isso não seja o que você esperava, Mestre. Mas, se me permite, que tal selarmos a maldição dentro do Mimicky?

Eu não disse nada. Fiquei chocado demais até para deixar transparecer no rosto.

É isso!

O Mimicky era uma peça excelente, capaz de abrigar dezenas de pessoas desaparecidas. Eu tinha quase certeza de que não havia como sair pelo lado de fora, já que a saída só aparecia quando a tampa era aberta. Isso significava que eu nunca mais seria capaz de abrir a tampa, mas eu teria que conviver com isso. Eu poderia trancá-los lá dentro e depois devolver a maldição aos cuidados da igreja!

A Tino é um gênio? Eu que deveria chamá-la de “Mestre”!

Ainda tínhamos algumas coisas para resolver, mas isso era muito melhor do que não ter plano nenhum. Agora tínhamos um vislumbre de esperança. A partir de agora, eu era o Tinomestre (não sei o que isso significa).

— Caramba, Tino, você é um gênio — eu disse. — Ah, exceto que está trancado.

— Você quer dizer que minha ideia está certa?! Eu consigo abrir aquela fechadura! Vamos para a Casa do Clã! — disse ela com os olhos brilhando.

Que coisa, tudo começou lá e agora vai terminar lá. Isso não significa que deveríamos ter usado o Mimicky logo quando a maldição apareceu pela primeira vez?

Tino começou a inclinar o Carpy. Os movimentos da Relíquia estavam um pouco lentos em comparação com antes, sugerindo que ele estava com pouca mana. Exatamente quando estávamos prestes a ir para a Casa do Clã, senti um vento gelado nas costas. De longe, uma voz trovejante desabou sobre nós.

— Eu vou te matar! Voute-matar-voute-matar-voute-matar, Krai Andrey. Eu vou lembrar do seu nome, seu lixo humano, inferior e insolente.

— Eek! — gritou Tino.

De volta na direção do dojo, uma escuridão volumosa se retorcia. Tinha uma presença infinitamente mais sinistra do que as nuvens de chumbo que pairavam sobre a capital imperial. Nossa querida agressora tinha perdido a cabeça de vez.

A maldição não montava mais um pássaro negro, em vez disso, comandava a própria escuridão. A frase “tempestade furiosa” veio à mente. Cavalgando a onda sombria, o Espírito Nobre amaldiçoado veio atrás de nós. Não que ela tivesse se contido antes, mas agora o negócio era sério.

Carpy, acelere! — Tino gritou freneticamente ao notar que a maldição estava nos superando.

Carpy deu o seu melhor para fazer o que foi ordenado. Estranhamente cativante como era, não estávamos indo mais rápido. Com a rainha das maldições se aproximando de nós em cima da escuridão subjugada, Tino bateu desesperadamente no Tapete.

— Por quê?! Carpy, mais velocidade!

— Talvez ele esteja sem mana?

— Eep!

Mesmo que cheguemos à Casa do Clã inteiros, será que a Tino vai conseguir abrir a fechadura a tempo?

***********************************************************************************

— Capitão Franz, contato da capital imperial! — relatou um subordinado. — Parece que houve um ataque depois que partimos!

— Hmph. Então eu estava certo — respondeu Franz com um olhar severo. — Eu me preparei para isso. Ark Rodin e muitos outros caçadores formidáveis foram posicionados na Igreja do Espírito Radiante.

Os preparativos para receber o Espírito Nobre Xamã estavam progredindo sem problemas. Eles já tinham cavaleiros posicionados em cidades que se estendiam até as florestas habitadas por Espíritos Nobres. Eles também tinham a assistência de alguém familiarizado com a cultura deles, a Professora Seyge Claster da Academia de Magia de Zebrudia. O trabalho de Franz era trazer o Xamã para a capital imperial e purificar o Lamento de Marin o mais rápido possível.

Por mais poderosa que a Raposa Sombria de Nove Caudas fosse, eles ainda eram uma organização de humanos; eles nunca seriam capazes de romper uma barreira composta pelo Relâmpago Prateado, o Imutável e outros caçadores competentes.

— Parece que sua leitura estava certa por uma vez. Desu — elogiou Kris, a integrante da Starlight que também estivera na viagem para a conferência.

— Eu fui superado vezes demais para deixar isso acontecer de novo.

Aprendendo com a vez em que a aeronave caiu, Franz fizera um trabalho esplêndido lendo as intenções daquele homem bufão.

— Eh, n-não, veja bem… — disse o subordinado, olhando de um lado para o outro entre Kris e o Capitão Franz. — Dizem que houve danos consideráveis à capital imperial. E o Mil Truques está gritando o nome do Capitão Franz enquanto é perseguido por múltiplas maldições.

— HÃAAAAAAAAAAA!? — disse Franz após uma pausa.

Ele não pretendia falar em um tom tão baixo. Ele não pôde evitar encarar o subordinado, mas ele não deu nenhum sinal de que iria retirar o relatório.

Franz não conseguia entender. Mesmo que o quase impensável acontecesse e a capital imperial sofresse danos, o que poderia resultar no Mil Truques sendo perseguido enquanto gritava o nome de Franz?

E ele está sendo perseguido por uma maldição?

Franz estava perplexo demais para dizer qualquer coisa. Foi quando a Lápis bufou e entrou na conversa.

— Hmph. Parece que você foi superado de novo. Agora, vamos ouvir os detalhes.

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Merda, merda, merda.

Tino pilotava desesperadamente o tapete pelos céus da capital imperial. Seu coração batia como se fosse saltar do peito. Se tivesse um espelho, ela provavelmente pareceria mais pálida do que nunca na vida.

Atrás deles, o Espírito Nobre os perseguia com o ímpeto de uma avalanche. Ruídos constantes de desmoronamento eram acompanhados por tremores, sacudindo o cérebro dela. Ela tinha certeza de que a cidade estava sendo bastante castigada por tudo isso, mas Tino não tinha o luxo de se preocupar com algo assim. Se essa maldição os pegasse, eles seriam mortos. Se seu mestre morresse, não restaria ninguém para proteger a capital imperial.

Tendo até agora carregado os dois como uma brisa, o Carpy estava começando a desacelerar. A Casa do Clã estava bem na frente deles, mas será que conseguiriam chegar? Ela não precisava se virar para saber que a maldição estava se aproximando. Não fazia muito tempo que eles tinham a vantagem da velocidade, mas estavam enfrentando um inimigo de resistência sem fundo.

A garganta de Tino estava seca. Ela não suportava uma Provação há algum tempo e, como de costume, era brutal demais para parecer um treino de qualquer tipo.

— M-Mestre — ela gritou — e-eles vão nos pegar…

— Hmmm. Eu não queria usar isso, mas acho que não tenho escolha. Corrente Canina! Anel de Disparo!

Quase como para zombar dos medos de Tino, seu mestre começou a atiçar o Espírito Nobre.

Não, não, não é isso, Mestre. Eu queria que você me tranquilizasse!

A maldição não se deu ao trabalho de bloquear a corrente e os projéteis mágicos que chegavam, deixando que ambos ricocheteassem. Ela soltou um rugido, o miasma ao redor dela tornando-se uma magnitude mais denso.

— Humanooo!

Tino ouviu um som de estalo, como se o mundo estivesse sendo destruído. Os prédios ao redor deles tremeram enquanto desmoronavam. Ela não fazia ideia de que uma maldição pudesse causar tanto dano físico. Algum medo primordial lhe dizia que, se parasse agora, ficaria congelada, incapaz de se mover nunca mais.

Dever. Seu senso de dever era a única coisa que a mantinha seguindo em frente. Seu mestre estava sendo atacado por causa do anel que ela lhe dera. Ela tinha que fazer o que fosse necessário para levá-los à Casa do Clã e depois destrancar o Mimicky.

Embora ela tivesse sido treinada para ser capaz de abrir fechaduras não importa a situação, honestamente não tinha muita confiança de que conseguiria abrir o Mimicky num instante, não nessas circunstâncias. A fechadura não era tão complicada, mas considerando a velocidade da maldição, ela quase não teria tempo para trabalhar. Na pior das hipóteses, ela teria o tempo de um suspiro. Sendo generosa, ela poderia ter dez segundos. Francamente, ela sentia que seu mestre tinha fé demais nela. Mas ela não podia dizer a ele que não estava à altura. Ela já tinha dito que faria!

Ela se concentrou. Afastou qualquer pensamento sobre o perseguidor, parou de tremer e estabilizou a respiração. Abrir fechaduras era uma tarefa fácil em circunstâncias normais. Isso daria certo. Havia aquela Relíquia, a Máscara da Ganância, a que despertava seu potencial. Se a tivesse consigo, ela a teria colocado de bom grado. Mas não adiantava desejar o que não tinha.

Ela teve o primeiro vislumbre da Casa do Clã, onde tudo isso seria resolvido. A lembrança do Hugh chegando com aquela caixa parecia algo de um passado distante.

Voar para o lounge, descer do Tapete, abrir o baú. Voar para o lounge, descer do Tapete, abrir o baú. Voar para o lounge, descer do Tapete e abrir o baú.

Ela murmurava seu curso de ação para si mesma. Isso funcionaria. De todas as formas, deveria.

Acredite na vitória, Tino Shade. Mostre ao Mestre o quanto você cresceu com todas as Provações dele!

Ela conseguia ver a janela quebrada do lounge. Graças aos esforços valentes do Carpy, eles tinham chegado até aqui sem serem pegos. Ela se preparou para pular. Olhou para a Casa do Clã com determinação feroz, quando de repente começaram a cair.

Carpy?!

O Tapete estava perdendo velocidade rapidamente. Ele ficara sem mana. Tino percebeu tarde demais. Ela sentiu o puxão abrupto da gravidade. Viu o lounge muito acima dela. Eles ainda tinham alguma propulsão, mas não altura suficiente. Ela falhara. Deveria ter pulado do Carpy no momento em que tivessem chegado perto o suficiente. Ela só estivera pensando em abrir a fechadura e ignorara completamente isso.

Eles caíram. Os olhos de seu mestre se arregalaram. Ondas malignas os atingiram por trás. Tino estava prestes a gritar — quando algo sólido a atingiu por baixo. Ela tossiu. Sentiu o impacto pesado no fundo dos ossos. Era algo com o qual ela estava bem familiarizada. Principalmente por reflexo, ela apertou a mão de seu mestre. O golpe de baixo a enviou voando para cima. Em sua periferia, houve um flash de cabelo rosa.

— Pronto! Agora ande logo e leve sua bunda desajeitada para dentro!

Muito obrigada, Liz!

Ela não sentiu dor. Sua mente estava focada em outro lugar. Ela se entregou ao ímpeto enquanto voavam para dentro do lounge. Seu mestre quicou pelo chão, parando no chão não muito longe do Mimicky.

— Zero — ele disse com um sorriso grandioso e forçado.

Tino não teve tempo de pensar no que ele quis dizer com aquilo. Tendo-os seguido para dentro, o Espírito Nobre pousou no chão. Tino correu para onde o Mimicky estava no centro do lounge.

Abrir a fechadura. Abrir a fechadura. Abrir a fechadura.

Ela não pensou em mais nada. A escuridão envolveu os pés do Espírito Nobre. Cobriu o chão, as paredes e o teto. Fechou-se sobre Tino. Ela estava perdida. Não ia ter tempo suficiente para abrir o baú. Apesar dessas dúvidas latentes, ela não podia simplesmente desistir sem tentar.

Ela alcançou o baú do tesouro e seus olhos se arregalaram quando se deparou com mais uma surpresa.

Está destrancado?!

A fechadura estava no chão. Ela abriu a tampa, revelando um poço escuro como o submundo.

A Liz! A Liz deve ter percebido o que estava acontecendo e abriu o baú! Abrir fechaduras é o trabalho dela—

Exatamente quando esse pensamento cruzou sua mente, Tino foi atingida por uma percepção chocante.

Será que conseguimos colocar o Espírito Nobre dentro do Mimicky?

— Acabou. Humano! Nunca conheci ninguém tão detestável quanto você!

A maldição era lúcida demais para acabar no baú por acidente. Ela poderia erguer o baú e avançar contra a maldição com ele, mas Tino não era delirante o suficiente para achar que isso funcionaria. Ela olhou para o mestre. Ele estava piscando, quase como se esperasse por algo. Mesmo nessas circunstâncias, ele era, como sempre, deus. Se possível, Tino gostaria de ter recebido sua bênção.

Com uma expressão demoníaca, o Espírito Nobre caminhou em direção a eles. No momento seguinte, Marin e o cavaleiro negro saltaram de trás e entraram no caminho. Marin parecia menos lamentosa e mais como se quisesse chorar. A expressão do cavaleiro negro estava escondida atrás do capacete, mas ele provavelmente estava se sentindo da mesma forma. Embora esses dois fossem bem poderosos para os padrões humanos, eles eram definitivamente alguns graus inferiores ao demônio diante deles.

Vendo Marin erguer seu cajado e o cavaleiro negro preparar sua lâmina, o Espírito Nobre franziu a testa.

E não fez mais nada.

Aconteceu sem aviso. Por trás, o Lamento de Marin e o negro foram jogados para o lado por tentáculos negros, sendo então engolidos com uma velocidade assustadora. Acabou antes mesmo que Tino pudesse piscar, e ela era uma Ladina. As duas maldições provavelmente nem perceberam o que tinha acontecido com elas.

A maldição restante, a mais forte delas, olhou para Krai. Sua bochecha tremeu e ela falou em voz baixa.

— Patético. Inútil. Será que a sua fraqueza ressoou com eles? Estavam eles presos pelo sentimento? Foi esse o seu movimento final, Krai Andrey?

Krai dissera uma vez que, como todos os Espíritos Nobres eram bonitos, eles — exceto pela Kris — eram assustadores quando enfurecidos. De fato, o rosto diante deles era cativante demais e horrível demais para parecer qualquer coisa do mundo deles.

Krai levou a mão à boca e deu um passo para trás. — Ahh, como pôde? E com seus aliados, ainda por cima…

Até ele fora pego de surpresa ali. Ou talvez a visão simplesmente o tivesse sobrecarregado. Então ele tropeçou no Mimicky aberto, caindo de costas dentro do baú.

O Espírito Nobre observou em silêncio. Seus olhos encontraram os de Tino. Ela não pôde evitar balançar a cabeça.

Ah, entendi agora, Mestre! Meu trabalho é tirar você daí de dentro! Eu consigo fazer isso, sem problemas. Contanto que eu não seja morta!

Os ombros do Espírito Nobre tremeram, sua forma oscilando. Então…

— E-EU VOU TE MATAR! VOCÊ OUSA, VOCÊ OUSA ZOMBAR DE MIM?!

— …ela soltou um rugido.

Com um choque que torceu suas entranhas, as pernas de Tino cederam sob ela. A forma do Espírito Nobre se desfez, transformando-se em um líquido negro viscoso. Incapaz de sequer gritar, Tino observou o líquido cair em cascata para dentro do Mimicky como uma torrente furiosa.

Tino demorou a reagir a esse desenvolvimento inesperado. Não, mesmo que não tivesse demorado, ela não tinha o poder de resistir. Embora ela não fosse o alvo do líquido, estar perto do baú significava que ela ainda foi pega pela inundação, sua corrente rápida a puxando. Ela forçou seus membros congelados a se moverem enquanto tentava se libertar, mas não conseguia lutar contra aquilo. Com o último resto de suas forças, ela soltou um grito.

— Liiiiz, me desculpaaa!

********************************************************************************

Em um espaço sem paredes, chão ou teto, com meu corpo livre da gravidade, flutuei suavemente até o fundo. Eu estava em um vasto espaço permeado por escuridão total. Eu sabia o que tinha acontecido: eu tinha prendido o pé em algo e caído. Caído dentro do baú do tesouro. Uma falha completa de percepção.

Então este é o interior do Mimicky, hein?

Enquanto forçava os olhos e olhava para o alto, ativei o Olhos de Coruja, uma Relíquia que concedia visão noturna. Coisas assim aconteciam o tempo todo, então eu mantinha este anel comigo sempre que podia.

Com minha visão garantida, olhei ao redor, mas não avistei nada parecido com uma saída. Liz e Tino tinham dito que seriam capazes de sair se não tivessem se distraído. Eu não podia dizer o mesmo.

Felizmente, eu estava ileso. Tinha quase certeza de que caí de uma grande distância, mas isso era provavelmente outra das funções do Mimicky. Dessa forma, você podia armazenar itens delicados com segurança. Que baú do tesouro soberbo. Comparado a isso, o que era eu?

Rolar pelo chão do lounge gastara outro Anel de Proteção, esgotando o último do meu estoque. Isso era ruim. Se eu encontrasse aquele Espírito Nobre de novo, não sabia o que poderia fazer além de me rastejar e implorar por perdão.

Eu podia estar ferrado.

Depois de ter tanta coisa acontecendo em um dia, eu estava começando a me sentir tonto. Respirei fundo e examinei novamente meus arredores.

Meu fôlego parou na garganta.

No meio da escuridão havia uma cidade antiga. Havia prédios construídos às pressas e estradas mantidas. Havia também uma série de pilares que pareciam ser postes de iluminação. Que diabos o Mimicky tinha comido que resultou em uma cidade dentro dele? Que gula.

A propósito, como eu saio daqui? Se alguém tentar me tirar, uma saída aparecerá na minha frente ou algo assim? Eu deveria ter perguntado àquelas pessoas quando as resgatei.

Suspirei e pensei a respeito quando uma fenda no céu se formou subitamente acima de mim. Algo como lama começou a jorrar. O líquido se solidificou, assumindo a forma do Espírito Nobre.

— Sem escape. Eu vou te matar, Krai Andrey. Minha fúria não ficará insaciada.

A voz sinistra ecoou pelas ruas silenciosas e vazias. Era tarde demais para me arrepender de não estar usando o Férias Perfeitas. Eu realmente não esperava que aquela coisa fosse me perseguir tão longe. O que eu fiz para ela? Certamente ela não podia guardar rancor! E aquele anel estava sem mana!

— Krai Andrey — ela rosnou enquanto olhava ao redor — não importa onde você se esconda, eu vou te encontrar.

Hmm. Parece que ela não vai me pegar imediatamente.

Talvez fosse melhor eu ter escapado momentaneamente de sua vista. O Mimicky parecia bastante espaçoso, então havia uma chance de que, se eu ficasse quieto, a maldição desistisse e fosse para outro lugar. A Liz não estava longe, então ela poderia me tirar. Sem mencionar que as pessoas não sentiam fome nem nada nesse espaço. Ficar parado era minha melhor opção.

Evitando a maldição, entrei sorrateiramente em um prédio aleatório de dois andares. Tomando todas as precauções para não fazer o menor som, fechei a porta. No momento seguinte, o Espírito Nobre disparou algo com um estrondo explosivo. Água negra jorrou de sua pequena estrutura e uma chuva viscosa começou a cair.

— Hein?!

Era como um rio enfurecido durante uma tempestade. Em um instante, as estradas largas foram inundadas por globos espessos, encharcando a cidade. Ouvi a voz do Espírito Nobre, vinda aparentemente de lugar nenhum e de todos os lugares.

— Não há escape. Suas tentativas serão em vão. Não pense que pode me evitar, humano.

A cidade inteira vai ser inundada?!

Em pânico, girei a fechadura, mas a água negra simplesmente entrou pelas frestas da porta. A paisagem urbana não estava sendo destruída, então duvidei que a água tivesse qualquer poder de ataque inato, mas eu ainda podia dizer que nada de bom aconteceria se eu a tocasse.

Subi correndo para o segundo andar e espiei por uma janela. Estava terrível lá fora. Água negra fluía pelas ruas e lama caía de cima. Se eu não tivesse entrado, mesmo que de alguma forma conseguisse manter os pés fora da água, não haveria como escapar da chuva torrencial.

Em meio à corrente escura, avistei Tino. Ela se debatia enquanto a maré a arrastava. Agarrando um poste, ela começou a escalar desesperadamente. Não parecia que ela estava se divertindo, mas pelo menos tocar na lama não significava morte instantânea.

Ainda bem que a Tino está bem. Embora eu ache que isso significa que minhas chances de ser tirado daqui diminuíram um pouco.

— Morra, morra, morra, morra, morra.

Como um brinquedo quebrado, a voz enfurecida ecoava pela cidade. O nível da água estava aumentando gradualmente. O que começara como uma camada rasa agora atingia o primeiro degrau da escada, e não parecia que iria diminuir tão cedo. Sair também não era uma opção.

Eu estava nos meus limites físicos e mentais. Queria me deitar e dormir o mais rápido possível. Sem mais Anéis de Proteção, tudo o que eu podia fazer era rezar por um milagre, um em que a Liz ou o Ansem ou a Lucia ou alguém me tirasse daqui. Mas eu tinha baixas expectativas. Eu não era tão complacente e gostava de acreditar que tinha uma noção decente da realidade.

Olhei para trás, para todas as coisas que aconteceram desde que me tornei um caçador. Quando comecei, foi uma série infernal de eventos estranhos durante os quais mal me senti vivo. Tornar-me mestre do clã só me apresentou a encontros mais insanos, mas agora, todos pareciam boas lembranças. Quanto a arrependimentos, eu tinha apenas alguns.

Pensando nisso, percebi que tinha sido capaz de selar a maldição que o Ansem e todos os outros na igreja não tinham conseguido se livrar. Até agora, eu não fizera nada além de causar problemas para os outros, mas no final, consegui uma reviravolta digna de um Nível 8. Minha única preocupação era a Tino, mas acho que o Espírito Nobre só estava atrás de mim. Eu vira o quão forte ela se tornara, então tinha certeza de que ela encontraria um jeito de sobreviver.

Não há nada que você possa fazer pelo seu mestre agora…

Acenei sorrateiramente para ela da janela. Era o mínimo que eu podia fazer. Com lama caindo sobre ela, ela me avistou e quase começou a chorar.

Não olhe para mim assim. A maldição não deve ficar por aqui depois que me matar.

Pelo menos, eu não achava que ela iria atrás dela com tanta persistência quanto foi atrás de mim, já que durante a perseguição, ela se focara apenas em mim. Respirei fundo para acalmar os nervos. Eu provavelmente ainda tinha um pouco de tempo antes que a água me alcançasse.

Movendo-me silenciosamente, comecei a procurar por algo útil. Ainda assim, a casa em si não era tão grande. Era até menor do que a Casa Sitri. Que triste que minha caçada final terminaria em um prédio tão pequeno. Ou talvez fosse um fim apropriado?

Verifiquei os quartos um após o outro. O primeiro não deu em nada, nem mesmo móveis. Algo me dizia para não criar esperanças. Uma coisa era certa: esta casa não parecia nem de longe habitada. Tomado pela decepção, abri a porta no fim do corredor. Parecia ser um quarto. No centro do quarto espaçoso havia uma cama king-size com uma colcha fofa. Não que eu esperasse nada, mas realmente não havia nada que eu pudesse usar para virar a situação. Suspirei.

E pensar que o último quarto seria um tão destituído. Não. Dependendo de como se vê, eu posso ter tirado a sorte grande.

Olhei pelo outro lado: não é como se eu pudesse ter vencido aquela coisa mesmo se tivesse encontrado uma arma.

— Como posso ver isso como algo além de deus me dizendo para dormir? — ecoou minha voz seca e isolada.

Diziam frequentemente que caçadores não morriam em camas, mas eu tinha uma graciosamente estendida diante de mim. Tendo me aposentado em espírito da caça há muito tempo e não vendo utilidade em lutar, decidi tirar uma soneca. Mais do que isso, porém, eu estava exausto.

Eu me perguntei se acordaria e descobriria que tudo isso fora um pesadelo, e tudo agora estivesse de volta ao normal (puro escapismo). Se quer saber, eu gostaria de ter feito uma refeição e tomado um banho antes de entrar.

— Mas acho que não adianta ser ganancioso.

Com um grande bocejo, agarrei a pilha grossa de cobertores e os puxei para trás. Eu estava sem os sapatos e com o joelho no colchão quando notei algo.

Já tem alguém aqui?

Esfreguei os olhos e estendi uma mão bem temerosa. Lá, bem no centro da cama, havia um vulto encolhido. Cabelos brancos como a neve se espalhavam pelos lençóis, orelhas pontudas se projetavam para fora. Sua pele morena exposta era assim por natureza, não de um bronzeado como o da Liz. Com tudo isso e sua aura peculiar, eu senti como se estivesse olhando para um animal grande e plácido. Toquei sua pele e senti um calor saudável.

Lembrei da primeira vez que a encontramos. Ela estava perdida naquela época também. Quase sorri com a nostalgia antes de voltar a mim.

— E-Eliza?! Já é de manhã! Acorda!

O-O que você está fazendo aqui?!

Dormindo profundamente na cama estava ninguém menos que a última integrante da Grieving Souls, Eliza Peck, a Vagante. Ela era o maior espírito livre da nossa equipe, incontrolável por razões diferentes do Luke e da Liz. Um Espírito Nobre do Deserto com tendência a vagar, um péssimo senso de direção e um rosto ilegível, ela era misteriosa. Eu não tive a chance de vê-la recentemente, mas com tão poucos caçadores como ela, não achei que houvesse qualquer chance de ser um caso de identidade trocada.

Totalmente perplexo, peguei um travesseiro e comecei a bater na cabeça dela com ele. Ocorreu-me que tudo isso começara com aquela Espada Demoníaca que ela me trouxera.

— Ei, Eliza! Acorda, é sua hora de brilhar! Você não pode ocupar a minha cama!

Você é a única que tem que receber chamadas para acordar de mim!

Diante dos meus ataques, Eliza se encolheu ainda mais. Mas eu estava desesperado. Eliza podia ser tão imprestável quanto eu, mas ela era, de fato, útil para alguma coisa porque ganhara um título enquanto trabalhava como caçadora solo.

E como diabos você conseguiu cair no sono num lugar como este?! Merda! Merda, Eliza!

Depois de uma série de pancadas fofas, ela abriu os olhos parcialmente e sentou-se devagar. Olhou para mim vagamente.

— Kai?

— É, sou eu, o Kai!

Como de costume, o “r” foi deixado de fora, mas eu não ia reclamar. Ela vivia em um mundo muito mais vasto e tolerante que o meu. Um mundo em que eu queria viver!

Depois de olhar para mim com olhos vazios, ela desabou de volta na cama, quase como se puxada pela gravidade.

— Zzz…

Veja bem, Sitri. É assim que soa o sono de verdade! Nem ferrando que alguém vai achar que isso é fingimento.

Bater nela mais do que isso não ia me ajudar em nada. Estávamos ficando sem tempo. Por falta de opções melhores, agarrei um de seus braços longos jogados preguiçosamente na cama e a arrastei para fora. A visão da maldição deveria ativar um gatilho até em alguém como a Eliza.

Embora fosse uma Ladina como a Liz, ao contrário da minha amiga de infância, Eliza era bem alta. Ela não pesava tanto quanto se poderia esperar, mas erguê-la ainda era uma façanha difícil para o meu corpo frágil. Talvez fosse porque ela estava dormindo como uma pedra?

Segurando seus braços, de alguma forma consegui tirá-la da cama e colocá-la nas minhas costas. Apesar de ser movida como bagagem no meio do sono, ela não ofereceu resistência, deixando-se aos meus cuidados. Seu peito, muito desenvolvido para um Espírito Nobre, pressionou-se contra mim sem reservas, mas ela ainda não acordou.

Até a Liz mostraria um pouco mais de modéstia! Você definitivamente está amaldiçoada por alguma coisa!

Na verdade, quando a Sitri tinha seus surtos, eu também tinha a sensação de que ela estava sob os efeitos de alguma maldição. Nossa equipe tinha membros amaldiçoados demais. Normalmente, eu não pensaria nem diria isso, mas vou dizer desta vez.

— Kaaaaai, Kaaaaai…

Para de resmungar meu nome dormindo!

Com um passo trabalhoso após o outro, carreguei a Eliza para frente. A inundação viscosa provavelmente ainda estava acontecendo lá fora. Rangendo os dentes, declarei guerra ao Espírito Nobre (desespero total).

— Olhe para a nossa amiga Eliza! Você consegue manter a calma depois de ver a nossa amiga que exaspera até o Luke?!

Já sei! Talvez a maldição se acalme ao ver a Eliza. Tipo terapia com animais.

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Até agora, qualquer criatura viva tremeria de medo se a encontrasse. Alguns baixavam a cabeça ao chão em prostração, enquanto algumas raras almas tentavam purificá-la. As expressões mostradas por aquele homem, no entanto, eram diferentes de tudo o que ela já vira. Ele não se acovardou; pelo contrário, acenou com a mão e correu pela cidade enquanto confiava em estratagemas fúteis para resistir.

— Onde? Para onde você correu, Krai Andrey?!

Com a fúria proliferando, ela procurou pela cidade envolta em escuridão. A torrente furiosa de lama e a chuva que caía eram ambas parte de seu ser. Caso qualquer parte dela encostasse nele, sua posição seria revelada imediatamente. Ela já encontrara aquela garota que estivera pilotando o tapete, mas ela não importava nem um pouco.

Tudo vinha em segundo lugar depois de Krai Andrey. Ele a menosprezara. Fizera pouco dela. Rira dela. Isso era uma forma de trauma, um que ela provara há muitos anos. Até que uma maldição fatal e o desespero absoluto fossem trazidos a este homem, seu ódio pela humanidade permaneceria em segundo plano.

Fluindo por toda a cidade, ela começou a permear lentamente as casas. O homem usara equipamentos bizarros para permanecer ileso mesmo após vários ataques, mas isso não aconteceria de novo. Seu corpo não era equipado para demolição. Transformar-se em uma inundação fora feito apenas em nome de matar aquele homem. Para garantir que ele se afogasse. Para corroer suas entranhas e atormentar sua alma.

Tudo o mais era de pouca importância. Isso incluía o fato de que havia um espaço massivo dentro deste baú do tesouro, a traição das duas maldições que ela trouxera sob sua asa e até mesmo o que ela faria quando Krai Andrey estivesse morto.

Embora ele a estivesse iludindo, ela conseguia senti-lo por perto. Ele tinha que estar se escondendo em algum lugar desta cidade. Se a chuva não o estava encontrando, então talvez ele estivesse escondido dentro de um dos prédios?

— Sua luta será em vão, Krai Andrey! Não tenho perdão a oferecer a tipos como você.

Em sincronia com seu grito, a chuva se intensificou. Não havia necessidade de ser astuta; ela simplesmente se espalharia por cada centímetro desta cidade intrigante. Então tudo estaria acabado. Aquele homem era impotente contra suas energias malignas. Ele tinha equipamentos poderosos, mas nada mais.

Humanos sempre foram assim. Comparados aos Espíritos Nobres, seus corpos eram fracos, uma falha que compensavam com suas ferramentas. Então atacavam, movidos pela insolência. Apesar de serem inteligentes o suficiente para usar a linguagem, sua barbárie superava qualquer monstro da floresta. Deixavam que suas emoções ditassem suas ações.

Tema o julgamento da rainha, humano. Lamente suas transgressões e pereça.

A inundação era sua raiva. A chuva, suas lágrimas. Não importa quantos anos viessem e fossem, ela nunca esqueceria as tragédias que ocorreram, nem abandonaria sua raiva. Por agora e por toda a eternidade, ela seria a inimiga de toda a humanidade.

A água amaldiçoada aumentou lentamente. Os únicos sons nesta antiga cidade abandonada eram os da corrente e da chuva.

Ele não pode estar longe. Ele tem que estar perto. Sua presença está aqui. A aura gravitacional que ele inicialmente emitia desapareceu, no entanto…

Houve um som, um barulho alto vindo de uma das casas. Num instante, uma porção da água formou uma bola e depois se pressionou contra a janela do segundo andar da casa de onde o ruído se originara. E por apenas um breve momento, ela esqueceu sua raiva.

Abalada pela visão, a chuva e os rios que ela passara tanto tempo construindo desapareceram sem deixar rastro. No segundo andar de um prédio completamente esquecível estava Krai Andrey, aquele homem para quem nenhuma maldição poderia ser severa demais. A surpresa veio do que ele carregava nas costas. O choque puro foi suficiente para que ela, um ser que existia apenas como inimizade para amaldiçoar a humanidade, esquecesse sua raiva e fúria por um segundo.

Nas costas daquele homem estava uma de seus semelhantes. Tendo sido outrora uma guardiã dos Espíritos Nobres, certamente isso não poderia ser um erro. Aquilo era um Espírito Nobre. Embora sua pele escura e cabelos brancos fossem diferentes dos que ela conhecera, ela conseguia dizer. Sentia uma forte conexão com ela. O sangue nela era o mesmo que fluíra nela há muito tempo.

Flutuando do lado de fora da janela, ela em algum momento revertera à forma de sua vida anterior. Através do vidro, fez contato visual com Krai Andrey, pegando-o de surpresa.

As tragédias do passado vieram todas à tona. As florestas em chamas. Humanos invasores com armas selvagens otimizadas para matar. Espíritos Nobres correndo aterrorizados. Gargalhadas uivantes apoiadas pelo som das chamas. Casas que foram construídas entre os galhos e cresceram com suas árvores foram derrubadas, plataforma e tudo. Os humanos escolheram apavorantemente ir atrás das mulheres e crianças primeiro. Seus objetivos eram incertos. Ela sabia que humanos compravam e vendiam Espíritos Nobres por preços altos, mas não conseguia entender o porquê. A noção de que essas pessoas também eram seres inteligentes beirava o inacreditável. Estar em guerra mal parecia uma justificativa para o que fizeram.

Portanto, até que saciasse sua ira, nem a morte poderia detê-la. Não havia necessidade de considerar por que Krai estava carregando um Espírito Nobre. A raiva que o choque afastara começou a esquentar lentamente.

— Uma refém? Você traz uma refém diante de mim?!

Sua carne se alterou em resposta à sua fúria.

A parente estava lânguida, imóvel. Isso era além de terrível. Além de humilhante. Além de trágico. Humanos sempre foram assim, inerentemente falhos, mas capazes de usar suas mentes para o mal. Eles sequestravam crianças, faziam reféns, massacravam e capturavam qualquer um que tentasse impedi-los. Sempre recorriam a métodos inimaginavelmente vis. No entanto, tais atos bárbaros seriam inúteis aqui.

Em sua mão, uma única lança tomara forma. Era um eixo retorcido de um preto piche, que brilhava na escuridão. Esta era sua determinação, uma cristalização de sua decisão de exterminar toda a humanidade. Palavras não poderiam servir para mais nenhum propósito aqui. Este era o ponto onde todas as maldições realmente se manifestavam. Ainda assim, Krai Andrey continuava vestindo aquela expressão vazia.

Humano miserável, não vou nem te dar tempo para se arrepender.

A lança aniquilaria o humano, sem deixar para trás nem um fragmento de sua alma, tudo sem causar um arranhão na parente. Ela ergueu a lança. Não havia necessidade de força, pois a arma era letal para toda a humanidade; mesmo um guerreiro poderoso morreria em um segundo após o contato.

Ela torceu o corpo. Então, exatamente quando estava prestes a dedicar sua totalidade a arremessar a lança, Krai Andrey desabou.

— Waugh!

Ele fez um som estranho enquanto era esmagado.

Ela parou pouco antes de conseguir fazer o arremesso. Nada na forma como ele atingiu o chão sugeria que fosse uma manobra de esquiva. Era quase como se a parente fosse pesada demais para ele. Ele jazia achatado sob ela. Ela ficou congelada, ainda posada como se estivesse prestes a atacar. Foi quando a parente fez seu primeiro movimento grogue. Ela tinha um corpo esguio e bonito esculpido pela natureza. Mana tranquila corria através dela.

Palmas ao chão, ela empurrou o tronco para cima, depois se levantou lentamente. Ergueu a cabeça, seus olhos carmesim vagos fixando-se nela. Ela estava viva. Bem, isso era talvez natural já que era uma refém, mas ela parecia ilesa e se movia sem o menor sinal de desconforto. Ela conseguia sentir seu batimento cardíaco saudável e aura vívida. De pé, ela não mostrava ferimentos notáveis. Na verdade, esta parente parecia bastante forte, até mesmo em pé de igualdade com seus ancestrais.

Isso só tornava sua falta de resistência ainda mais desconcertante.

Ela perdeu a raiva e não pôde fazer nada além de olhar boquiaberta. A parente olhou ociosamente para Krai, depois agarrou sua mão flácida e o puxou para cima sem qualquer urgência particular. Era uma cena que não deveria ser possível. Que um Espírito Nobre desse a mão ao seu vilão captor humano afrontava toda a razão. Com suas emoções em desordem, ela não conseguia mais manifestar a lança em suas mãos. A arma desapareceu.

A parente envolveu Krai com os braços para mantê-lo firme sobre os pés. Depois de encará-la por bons trinta segundos ou mais, ela acenou com a cabeça e a chamou pelo nome que outrora usara.

— Vossa Majestade Rainha Shero Iyris Frestle. A guerra acabou há muito tempo. Vamos retornar para a floresta.

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É, nada supera um bom e velho diálogo. Não somos monstros nem fantasmas.

Com a Eliza me abraçando como um bicho de pelúcia, balancei a cabeça e sorri de canto. Assim como sempre, eu não entendi muito bem o que estava acontecendo, mas parecia que a Eliza tinha tido sucesso em começar uma conversa com a maldição. O Espírito Nobre amaldiçoado não parecia mais intencionado a me matar. Aquela lança bizarra apontada para mim também tinha desaparecido no ar. Eu mal conseguia acreditar que estivera preparado para morrer há apenas alguns instantes.

Atônita, o Espírito Nobre olhou para a Eliza e para o pacote embalado em seus braços (eu).

— A-A guerra acabou?

— Acabou, graças a Vossa Majestade. Os humanos aprenderam a temer os Espíritos Nobres por causa de você.

— Absurdo. Os humanos. Eles pararam de lutar?

A guerra entre nós não foi há um tempo considerável? Embora ainda não parecesse certo dizer que estávamos em bons termos, pelo menos não havia guerra acontecendo, e um pequeno número de Espíritos Nobres vivia entre os humanos. Eu não era exatamente um especialista nessas coisas, mas esta pessoa estava super atrasada no tempo.

— Esta não é alguém que você conhece, é? — perguntei.

— Kai… Bom garoto — ela sussurrou calmamente em resposta enquanto esfregava a bochecha em mim.

Espíritos Nobres envelheciam de forma diferente dos humanos. Embora eu não tivesse certeza de quão velha a Eliza era, mesmo alguém como ela não poderia ter milhares de anos. Falhei em entender como ela poderia conhecer a maldição supostamente antiga.

— Nós procuramos tanto. — Vendo minha confusão, Eliza deu uma breve explicação. — Ela é a nossa campeã. Nós ansiamos por este dia.

— Hmm. Bom, que bom para vocês.

Isso não explicava nada, mas acho que tudo bem. Se a Eliza estava satisfeita, eu não ia objetar. Eu estava apenas grato por estar vivo.

Ei, se apresentar um Espírito Nobre era o suficiente, então não poderíamos ter parado esta maldição há muito tem— Ah. A Kris e os outros não estão todos fora da cidade? Cara, eu ouvi dizer que eles estavam procurando por algo, mas esta é uma surpresa de várias camadas.

Mas, bem, tudo está bem quando termina bem, eu acho?

— Entendo. Fico feliz que vocês tenham encontrado o que estavam procurando.

Eliza acenou com a cabeça em resposta, aparentemente sem se incomodar com a minha resposta obviamente evasiva. Ela nunca foi de se preocupar com detalhes. Era parte do porquê nos dávamos tão bem.

Com o Espírito Nobre amaldiçoado ainda totalmente perplexo, Eliza repetiu para garantir.

— Não precisamos mais de nenhuma maldição… Vossa Majestade. Seu povo a aguarda.

— Urghhh. V-Você está mentindo. Tanta morte e animosidade! Vou arrancar esses humanos como ervas daninhas. K-Krai Andrey! Vou esmagar este homem tolo que zombou de mim!

O que eu vinha chamando de maldição aparentemente tinha um nome. O Espírito Nobre chamado Shero, como ela parecia ser chamada, focou seu olhar desdenhoso em mim e em mais ninguém. Pelo jeito, ela queria matar pelo menos a mim, se ninguém mais.

O que diabos eu fiz? Por favor, pare com isso. Estou sem Anéis de Proteção

Depois de alguns momentos de silêncio vago, Eliza pressionou a bochecha contra a minha cabeça e me abraçou apertado. — Sinto muito. O Kai é o meu… “Parceiro”.

— Ah, aquilo pegou ela — eu disse.

Shero congelou. Então, sem dizer uma palavra, desmoronou. Acertos críticos eram a especialidade de um Ladino, afinal. A forma de Shero desapareceu. O pingente que ela usava atingiu o chão com um tilintar. Depois de se segurar em mim por mais um tempo, Eliza recuperou lentamente o pingente e depois me mostrou um sinal de paz.

Você deve ter muita coragem se consegue me chamar de seu parceiro assim, como se não fosse nada.

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Ao saberem da emergência, eles abandonaram seus planos e voltaram direto para a capital imperial. Ao chegar, Franz encontrou a cidade agitada com o aparecimento de novas monstruosidades. Os membros da Starlight pareciam totalmente atônitos enquanto olhavam ao redor.

— Não pode ser. Esta presença…

— Uma poderosa explosão de emoção. Ainda há vestígios dela. Hmmm. Este pode ser o nosso dia de sorte. Franz, isso é obra de uma maldição, e uma muito mais poderosa do que o Lamento de Marin.

— Eu pisei na bola — disse Franz. — Descubra o que aconteceu o mais rápido possível!

Ele cometera um erro ao levar uma porção tão grande de cavaleiros para cumprimentar o Espírito Nobre Xamã. Ao retornar ao quartel-general da Ordem Zero, começou a reunir informações. O que chegava desafiava a compreensão. Houve algum macaco monstruoso que saltou pelos telhados e atacou uma igreja? Então o Lamento de Marin e o cavaleiro negro foram libertados, e um dragão apareceu nos esgotos? Então o macaco se transformou em um tipo diferente de dragão? Ele atacou a Academia de Magia de Zebrudia e o dojo do Santo da Espada? E depois de tudo isso, dissolveu-se em lama?

Era uma sequência de eventos desconcertante. O que estava claro era que eles podiam estar errados em sua interpretação da profecia e que o assunto já havia sido resolvido. Mas, seja como for, um demônio ainda correu desenfreado pelas ruas históricas de Zebrudia. Para um homem encarregado de proteger a cidade, aquilo era algo de se envergonhar.

— Os danos foram pequenos — disse Franz. — Até agora, nenhuma fatalidade foi relatada.

— Muita sorte, isso sim. Eu apostaria que a maldição estava focada em outra coisa — veio a análise calma da Lapis. — Embora nos refiramos a todas como maldições, existem variedades diferentes.

— Os lugares atacados diretamente foram a igreja, a Academia de Magia de Zebrudia e o dojo da Escola de Espadachins Soln — continuou Franz. As informações eram uma bagunça misturada, mas eles estavam analisando os fatos que tinham. — Hm. Sobrepõe-se perfeitamente ao caos recente. E se foi algo que nem o Ark conseguiu parar…

Ele não sabia de onde aquela coisa viera, mas fora o erro dos cavaleiros que permitira que ela chegasse à capital imperial. Ele acreditara que eles estavam preparados para tudo e qualquer coisa. Evidentemente, essa visão fora ingênua. No entanto, também era verdade que uma vigilância maior era impossível—

Franz parou. Ele franziu a testa.

— Por que o demônio desapareceu? — ele perguntou.

Era claramente antinatural. Por que uma maldição permaneceu sem ser impedida pela Igreja do Espírito Radiante, Ark, o Inferno Abissal e, o que era mais preocupante, por que desapareceu? E caso Lapis estivesse correta de que a maldição tinha um alvo diferente, o número de testemunhas ainda era alto demais para explicar a falta de feridos. Um calafrio repentino percorreu a espinha de Franz. Ele não gostou disso. Um incidente tão grande, tão poucas baixas. Ele sentira esse mesmo presságio não faz muito tempo.

— Franz, ainda não sabemos para onde a maldição desapareceu? Isso pode nos dizer algo — instigou Lapis com sua arrogância habitual. Ela parecia calma à primeira vista, mas a leve urgência em sua voz não passou despercebida por Franz. — Existe alguma chance de isso estar te lembrando algo?

— Não vou dizer que não está, é que, hmmm. Mesmo que eu esteja no caminho certo, isso não explicaria a falta de mortes. Estou mantendo minhas expectativas baixas, e você deveria fazer o mesmo.

Ela é arrogante, com certeza. Eu teria perdido a paciência se já não estivesse acostumado a lidar com o Mil Truques.

Um cavaleiro enviado para reunir informações invadiu a sala. Ele empurrou a porta e nem esperou recuperar o fôlego.

— Hah, hah, Capitão Franz! Descobrimos para onde a maldição foi! Parece ter desaparecido na Casa do Clã dos Primeiros Passos!

— Na. Casa do Clã. Dos. Primeiros Passos?!

Ahh, então é isso? É claro que é isso, que droga.

Percebendo a fonte de suas más premonições, a bochecha de Franz tremeu. O incidente absurdamente grande. As baixas estranhamente baixas. Até o estresse imenso pesando sobre Franz. Tudo parecia muito com uma daquelas Mil Provações. Claro, Franz não achava que nem aquele homem pudesse interferir em uma previsão do Astral Divinarium. Mas ele facilmente poderia ter recebido notícias sobre isso e planejado algum esquema estranho em torno disso. Lapis caiu em um silêncio rígido, como se algo tivesse ocorrido a ela.

Nesse momento, houve um zumbido no bolso de Franz. Era a Pedra Sonora conectada ao Divinarium  Astral. Ele congelou ao ouvir o relatório rápido deles.

— A profecia… desapareceu?

************************************************************************************

— Equipe? — ela disse, piscando e mordiscando uma barra de chocolate.

Em um deserto vasto, um golpe de má sorte e um pouco de areia movediça nos puxaram para o subsolo. Lá nos encontramos na frente de um Cofre do Tesouro diferente de qualquer outro e, com ele, um Espírito Nobre excêntrico.

A Grieving Souls era uma equipe feita de um grupo de amigos de infância. Para o bem ou para o mal, nós seis éramos íntimos. De qualquer forma, era típico que as equipes de caçadores consistissem de seis pessoas. Tínhamos todas as nossas bases cobertas no que dizia respeito às funções, mas me carregar como peso morto abria brechas em nossas defesas. Eu me atribuí a tarefa de encontrar um novo membro assim que chegássemos à capital imperial e nos estabelecêssemos— não, antes de nos estabelecermos como caçadores.

Fiz repetidas tentativas de recrutamento, mas qualquer pessoa capaz de acompanhar a Grieving Souls já tinha uma equipe, e a maioria deles não se dava bem com nossos membros obstinados. Acompanhar a investida impetuosa deles na estrada para a glória exigia tanto talento quanto um certo grau de tolerância.

Ao caminhar pelo deserto, um erro nos levou a sermos engolidos por areia movediça, o que nos trouxe a um Cofre do Tesouro bizarro. Foi nesse desvio que encontramos uma caçadora chamada Eliza, um ser raro que tinha as qualidades que eu procurava. Ela trabalhava solo e não estava em pânico nem um pouco, apesar de ter afundado na areia movediça sozinha. Na verdade, ela estava tão relaxada que começara a tirar uma soneca naquele local remoto. Eu nunca conhecera um Espírito Nobre tão agradável.

Eu não sabia como eram as habilidades dela, mas não tinha dúvidas de que ela seria capaz de se encaixar na Grieving Souls. Acima de tudo, porém, encontrá-la perdida em um lugar como esse me fez sentir uma forte afinidade por ela. E se ela se juntasse a nós, eu não seria o único propenso a tirar sonecas. Ela equilibraria a balança.

Com esses cálculos feitos, eu a convidei para nossa equipe.

Depois de um breve silêncio, ela inclinou a cabeça. — Por quê?

— Eu te dei uma barra de chocolate, não dei? Você também pode sair quando quiser, e caçar conosco é mais divertido do que fazer isso sozinha. O mais importante, é mais seguro.

Não foi um choque ver que ela tinha problemas em aceitar um convite de equipe tão abrupto. Mal se podia culpá-la, especialmente quando se considerava que convites como esse eram frequentemente usados por pessoas que procuravam se aproveitar de mulheres que caçavam.

— Tem algo que estou procurando — disse ela enquanto olhava vagamente para a barra de chocolate.

— Vamos procurar com você! Temos um talento para esse tipo de coisa!

Eu não sabia o que ela estava procurando, mas tinha certeza de que meus amigos seriam capazes de encontrar. Dei minha garantia totalmente irresponsável em uma voz endurecida, que Eliza observou através de olhos sonolentos.

Mais tarde, seríamos atingidos pelas revelações chocantes de que Eliza não estivera perdida nem nada, e que ela chegara ao Cofre do Tesouro através de uma rota diferente; ela era uma caçadora notável reconhecível por qualquer pessoa informada e, com suas excelentes habilidades de detecção, ela estava mais segura correndo solo do que em uma equipe.

Encontraríamos nossa parcela de problemas, mas olhei para trás para tudo isso com carinho. Durante tudo isso, ela nunca levantou a possibilidade de se retirar. A única falha em meus cálculos foi que a entrada dela não tornou meus episódios de preguiça nem um pouco menos conspícuos, mas pedir mais dela teria sido ganância.

— Cara, eu realmente achei que estaria ferrado desta vez.

Desabei na cadeira do meu escritório e soltei um suspiro.

— Krai, você não diz isso toda vez? — Eva perguntou com um pouco de exasperação.

— Não, sério, se você não tivesse me tirado de lá, eu teria passado uma eternidade em um mundo de escuridão. É realmente sombrio dentro daquele baú do tesouro.

Enquanto era perseguido pela maldição, e quando selado dentro do baú, achei que ia morrer. Depois que Eliza de alguma forma convenceu Shero, eu ainda estava suando com a ideia de que poderíamos estar presos lá embaixo. Eu devia minha vida à Eva. Estar na presença dela parecia a prova de que minha vida comum retornara.

Parecia que o trabalho de Eliza fora o golpe final. Uma noite se passara e a paz estava retornando gradualmente à cidade. O caos dominava os jornais, mas isso passaria com o tempo. Eu sabia que Franz cuidaria disso para mim assim que voltasse, e aquela dificilmente era a primeira vez que algo louco acontecia aqui.

Embora os artigos descrevessem a confusão, eles não entravam em nenhum tipo de detalhe, provavelmente devido à natureza sensível de tudo aquilo. Franz já estivera em contato com a mídia em relação aos incidentes das maldições, então eles provavelmente não precisavam que lhes dissessem que deveriam manter silêncio sobre isso também.

Para todas as pessoas afetadas pelo problema, o dano real fora bastante pequeno. Milagrosamente, ninguém morreu. A exaustão avassaladora fora a causa do colapso de Hugh, então ele nunca estivera em perigo mortal. No entanto, se Eliza não tivesse sido comida pelo Mimicky quando foi, eu estaria ferrado. Segundo ela, antes do nosso retorno, ela por acaso passou pelo lounge, onde encontrou o Mimicky, acionou a armadilha e foi comida. Realmente, ambos me fizeram um favor ali. Ainda assim, eu sei como ela é, mas que tipo de pessoa encontra uma cama em um lugar como aquele e simplesmente decide— Espere. Não.

Com Tino bem e Eliza encontrando o que estivera procurando, foi um final feliz no geral. É que, se uma única coisa não tivesse se encaixado, eu poderia nunca ter tido a chance de ver a luz do sol novamente. Eu não tinha certeza se já me sentira tão cansado na vida. Minha fadiga física e mental levaria mais do que o descanso de uma única noite para se recuperar. Eu queria dormir por um mês inteiro.

Talvez eu more dentro do Mimicky por um tempo.

Eva então removeu o Anel de Proteção de seu anelar direito e o colocou em minha mesa.

— Acabei de lembrar. Krai, obrigada por isso. Ele me serviu bem. Tudo acabou agora, certo?

— Hmm?

Eva suspirou ao ver como meus olhos se arregalaram.

— Graças a esse anel que você me emprestou, ele garantiu que eu não fosse afetada pela maldição. Eu estava verificando o progresso dos reparos do lounge quando você e Tino apareceram de repente, e então foram engolidos. Achei que você pudesse ter morrido…

Você está me dizendo que estava no lounge quando aquilo aconteceu?

Eu não percebera. Estava tudo acabado, mas ainda senti um calafrio percorrer minha espinha e meu coração começou a bater forte. Claro, eu esperava que a Liz, não a Eva, me resgatasse, mas, cara, isso só serve para mostrar o valor de estar preparado. Depois de todas as bagunças que eu fizera, não achei que me perdoaria se algo acontecesse com ela.

Segurei o anel entre os dedos e olhei para ele por um momento antes de estendê-lo na frente dela.

— Eu não emprestei isso para você; eu dei para você. É um benefício de funcionária. Você pode levá-lo para a Lucia carregar.

— Hein?! Funcionária-!  E-Eu não preciso disso!

— Não diga isso. Pode te ajudar da próxima vez que houver problemas.

— Por favor, certifique-se de que isso não aconteça. Por favor, eu lhe imploro.

Hein, será que a Eva acha que eu tinha algo específico em mente quando dei isso a ela?

De jeito nenhum. Não havia nada em minha mente. Olhe para o que aconteceu desta vez: eu fiquei sem Anéis de Proteção, e não é como se mais um tivesse feito uma diferença significativa de qualquer maneira. Apesar de suas caretas, agarrei a mão dela e coloquei a relíquia em seu anelar esquerdo. Agora ela estava segura. Puxa, acho que dar a ela um Anel de Proteção fora a única coisa que fiz que não piorou a situação.

Enquanto eu pensava nisso, Eva esfregou o anel, parecendo inquieta. Tentando mudar de assunto, ela apontou para o ursinho de pelúcia sentado no canto da minha mesa.

— A-A p-propósito, o que é esse bicho de pelúcia? Parece que já viu dias melhores.

— Encontrei na cidade dentro do Mimicky. Legal, não é?

— Mais um item estranho… E-Espere. Isso não é…!

Era um urso de pelúcia surrado e maltratado. Estava rasgado aqui e ali, e seu pelo, que eu presumia ter sido marrom claro um dia, estava manchado de preto em algumas partes. A coisa triste estava sem um olho e um braço. Em volta do pescoço, eu coloquei o pingente de cruz que encontrei com ele, completando o conjunto amaldiçoado.

O ursinho de pelúcia era muito provavelmente o corpo verdadeiro do Lamento de Marin. O pingente, enquanto isso, pertencia ao cavaleiro negro que estivera com ela, então eu não via o que mais poderia ser. Eu não tinha certeza se as maldições ainda persistiam ou não, mas elas me protegeram no final, por uma razão ou outra, então não consegui me impedir de trazê-las de volta comigo. Decisões impulsivas como esta eram um mau hábito meu.

Vendo que Eva estava colocando sua intuição excepcional em uso, levantei um dedo.

— Não conte nada aos outros.

— C-Certamente.

— Em breve, vou dar uma boa lavada nele e deixá-lo secar ao sol — eu disse com um sorriso. — Mas primeiro preciso substituir o enchimento.

Substituir o olho e o braço que faltavam, e depois fazer Sitri dar uma reforma nele. Relíquias não podiam ser renovadas, mas itens amaldiçoados podiam. Certamente Marin apreciaria.

Mas então, embora nenhum de nós o tenha tocado, o ursinho de pelúcia de repente caiu. Eva tremeu dramaticamente. O braço restante estava estendido em minha direção como se implorasse por ajuda. Com um suspiro, endireitei o bicho de pelúcia.

— Parece que devo manter o enchimento como está…

***********************************************************************************

Multidões de pessoas iam de um lado para o outro do lado de fora dos portões da capital imperial de Zebrudia. Era quase como se uma maldição não tivesse acabado de correr solta por ali. Poucas cidades atingiam as alturas de prosperidade que a capital imperial estava vendo atualmente. A riqueza atrai pessoas, mas elas não são necessariamente todas do tipo bom. A terra sagrada da caça ao tesouro, Zebrudia, era um lugar generoso, mas sua capital era uma cidade de problemas intermináveis.

Ao prestar apenas um pouco de atenção, ela podia ouvir misturadas a conversas sobre a maldição fofocas sobre a luta entre a Hidden Curse e a Akashic Tower, a tentativa fracassada contra a vida do imperador e muito mais. Aparentemente, a gravidade do incidente da maldição apenas o tornava menos notável.

— Por quê? — a Raposinha murmurou. Ela estava em um canto do portão que recebia pouco tráfego ou atenção.

Seu plano fora impecável. Ela pegara um item amaldiçoado de primeira linha guardado há muito tempo no depósito da Pousada Peregrina, depois usara Hugh para garantir que ele fosse passado para o Senhor Cautela, onde ele se manifestou com sucesso. No entanto, o que aconteceu depois disso foi completamente incompreensível para ela, e ela assistira a tudo de perto.

Ela não entendia por que uma maldição que deveria massacrar qualquer humano, em vez disso, se fixaria no Senhor Cautela, nem conseguia descobrir por que ele levara a maldição em uma viagem pela capital imperial. Mas mais do que isso, como um simples humano conseguira subjugá-la? Aquela maldição fora feita de uma vontade extraordinariamente poderosa. A Raposinha era a progênie de um deus, e até ela teria tido dificuldades em lidar com aquilo. Purificá-la à força teria sido difícil, e uma maldição nascida de um desejo de que toda a humanidade sofresse dificilmente se sentaria à mesa de negociações com eles. No entanto, o fato permanecia de que, apesar da maldição ter sido solta, a capital imperial ainda estava de pé, e nem uma única pessoa morrera.

Sentindo a vibração repentina de seu Smartphone, ela preguiçosamente o levou ao ouvido.

— Parece que você perdeu esta batalha de inteligência — disse a voz suave do Irmão Raposa.

A notícia deve ter chegado até ele. Sua voz não continha um pingo de culpa, mas a Raposinha respirou fundo antes de dar voz às suas objeções.

— Eu ainda não perdi. Você não pode negar que ele caiu na minha armadilha. Isto é um empate.

Embora certamente não tivesse se transformado no grande incidente que ela esperava, a cidade recebera algumas cicatrizes. Dizer que ela perdera era bastante impiedoso.

No entanto, o Irmão Raposa disse-lhe francamente: — A Pousada Peregrina perdeu uma semente de calamidade e nenhum humano foi significativamente ferido. Duvido que precise explicar, mas há poucos resultados piores do que este. Lembre-se de que um item amaldiçoado desaparecido é muito mais problemático do que um purificado. Não sei se aquele humano planejou este resultado, mas você está mentindo para si mesma se acha que não perdeu.

Não vendo margem para discussão, a Raposinha mordeu o lábio.

— É hora de você voltar para casa — disse o Irmão Raposa gentilmente. — Deuses devem ser temidos. Se você continuar a ser derrotada em batalhas de inteligência como esta, nossos poderes acabarão sendo perdidos. Você está nos envergonhando ao insistir nessas batalhas, apesar de suas repetidas derrotas. Isso não condiz com a progênie da raposa sagrada. É um pouco… cedo para você desafiar o Senhor Cautela.

Ela hesitou por um momento.

— Entendido.

De volta à Pousada Peregrina, ela mesma dissera: esta seria a última vez que tentaria uma batalha de inteligência. Ela não podia quebrar aquele contrato. Por mais que a angustiasse, ela fora totalmente derrotada.

A chamada terminou. Enquanto ela cerrava o punho em humilhação, o Smartphone vibrou mais uma vez. Quem ligava era o homem de quem acabavam de falar, o Senhor Cautela. Apesar de suas derrotas, ela ainda era a descendente de um ser superior; e-mails já eram arriscados o suficiente, mas ligar para ela provava que ele realmente não tinha senso de cautela.

— O quê é?

— Yoohoo, desculpe te ligar do nada. Pergunta estranha, mas você fez alguma coisa? Eu sei, provavelmente tive a ideia errada, mas o Hugh… um conhecido meu estava dizendo umas coisas que não faziam sentido…

Ela não disse nada.

— É, tenho certeza de que estou imaginando coisas. Desculpe! Ei, quer sair para comer tofu frito?

Verdadeiramente, nenhum senso de cautela!!! Ele não estava proclamando vitória, mas aquilo ainda a irritava. Ligar para ela só para poder fazer alguma provocação estúpida. Ele realmente achava que aquilo funcionaria com a progênie de um deus?

Sem dizer uma palavra, a Raposinha encerrou a chamada. Impulsionada pelo impulso, ela esmagou seu Smartphone no chão.


Tradução: Rudeus Greyrat
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