Grieving Soul – Capítulo 4 – Volume 8

 

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 08

CapĂ­tulo 04:
[A Maldição Mais Forte]


Mais um dia, mais um bocejo solto enquanto eu fazia meu polimento diĂĄrio de RelĂ­quias. A capital imperial tinha visto uma sĂ©rie de incidentes nos Ășltimos dias, mas este dia, como o

anterior, estava ótimo. Preguiçosamente, tomando um sol que entrava pelas minhas janelas feitas sob medida, me tornei extremamente consciente de como a paz era agradåvel.

Enquanto saboreava a serenidade, houve uma batida na minha porta, seguida por Eva entrando com um jornal em uma das mãos. Entregar um jornal e dar seu relatório matinal (exceto que jå era meio-dia) fazia parte de sua rotina diåria. Eu havia dito a ela que não precisava se incomodar com isso, mas alguém tão diligente quanto ela jamais negligenciaria se reportar ao chefe.

EntĂŁo ela me informou concisamente sobre o estado da capital.

— Parece que o impĂ©rio estĂĄ levando a profecia do Divinarium muito a sĂ©rio — ela disse. — Para começar, eles estĂŁo adotando uma abordagem bastante agressiva para coletar informaçÔes.

— Hmm. Isso não soa bem. Tem acontecido muita coisa por aqui ultimamente.

Eva nĂŁo disse nada.

Sim, eu cometi alguns erros, mas se o Santo da Espada não tivesse me dado aquele cajado estranho, o incidente na ZAM nem teria acontecido em primeiro lugar. Vamos apenas ignorar o fato de que Eliza foi o ponto de partida de tudo isso. Se eu mencionasse isso para ela, ela poderia parar de me trazer Relíquias, o que me deixaria triste. Além disso, quando ela me trazia tantos itens, não havia nada de estranho em um ou dois itens amaldiçoados se misturarem.

Depois de quase um dia inteiro, Sitri ainda nĂŁo havia voltado. Pensei que ela teria notado imediatamente que o conteĂșdo da garrafa de ĂĄgua tinha sido trocado, entĂŁo ela devia estar ocupada com algum outro assunto. Em geral, eu era o Ășnico membro dos Grieving Souls com tempo livre nas mĂŁos.

Enquanto eu entrava no modo de conservação de energia, uma das pessoas ocupadas, Eva, me disse: — Pelo que parece, a igreja tem algo grande.

— Eu não fiz nada!

— Isso Ă© verdade?

Eu nĂŁo respondi.

Eva me olhou desconfiada. Acho que ela jĂĄ tinha descoberto que eu fui a causa do problema lĂĄ na Academia de Magia.

Eu nĂŁo fiz isso. Eu nĂŁo fiz nada.

Eu quase nĂŁo tinha nada a ver com a igreja. A Ășnica coisa que tĂ­nhamos em comum era que Ansem era um membro da igreja.

Havia vårias figuras que eram chamadas de deuses. A igreja de Ansem reverenciava o Deus Omnilucente como a divindade suprema. Uma das divindades mais reconhecidas no mundo, eles eram a fonte da magia sagrada, ou seja, feitiços de cura.

O termo “ClĂ©rigo” geralmente se referia a pessoas que adoravam este deus e pegavam emprestado seu poder. Da mesma forma, muitos caçadores podiam ser contados entre os devotos, incluindo praticamente todos os Paladinos por aĂ­. Na Obsidian Cross, um grupo onde todos tinham alguma forma de capacidade de cura, apenas a Maga deles, Marietta, nĂŁo era uma devota.

Como a capital imperial era uma cidade tĂŁo imensa, a Igreja do EspĂ­rito Radiante tinha uma grande presença para corresponder. Mas, ao mesmo tempo, a igreja tendia a nĂŁo interagir muito com estranhos. VocĂȘ podia se juntar se quisesse, mas eles nĂŁo eram proativos em recrutar.

Segundo Ansem, isso se devia ao fato de os poderes do Deus Omnilucente serem finitos. Algo sobre como se o nĂșmero de fiĂ©is aumentasse, tambĂ©m aumentaria o nĂșmero de pessoas usando os poderes do deus, o que reduziria o poder que um indivĂ­duo poderia receber. Tecnicamente, esse era para ser um dos segredos mais bem guardados da igreja. É um mundo avarento.

Apesar de sua abordagem passiva ao recrutamento, a igreja tinha seguidores em todo o mundo, um testemunho da utilidade dos poderes do Deus Omnilucente. Na verdade, quando fui ver Ansem uma vez, ele pareceu entender mal e fez questão de me encarar com visível desaprovação. Eu era o melhor amigo do Ansem! O melhor amigo dele! E, hã, o irmão da Lucia.

Pensei por um momento, rugas se formando na minha testa.

— É possível que eu tenha feito algo? — eu disse.

— Eu não sei como devo responder a isso — Eva respondeu. — Alguma coisa lhe vem à mente?

— NĂŁo, nada. Mas vocĂȘ poderia dizer o mesmo sobre o lance com o Santo da Espada e o lance com a Árvore do Mundo Negro.

Eva olhou para mim em silĂȘncio.

Nop. Tentei pensar, mas nada surgiu. Além disso, como Ansem não era como Luke ou Liz no sentido de que não me arrastava por aí, eu nem tinha chegado perto de uma igreja ultimamente. Balancei a cabeça para mim mesmo, satisfeito com minha própria preguiça.

— Bem — Eva disse com um pequeno suspiro — a Igreja do EspĂ­rito Radiante se especializa em assuntos pertinentes a maldiçÔes. Acredito que eles estĂŁo atĂ© envolvidos na salvaguarda da capital imperial.

— Eu entendo que Ansem está ocupado, mas — eu verifiquei o relógio — ele deve estar aqui em breve.

Era mais ou menos aquela hora do dia em que minha guarda mudava, e hoje Ansem estaria de plantão. Para ser justo, ele era um dos Paladinos mais populares dentro da igreja. Em termos de admiradores, ele provavelmente superava até Lucia. Lembre-se, a igreja gostava tanto dele que lhe concedeu aquela Relíquia de armadura.

Talvez ele não pudesse se afastar quando tanto alvoroço sobre aquela profecia estava causando tantas dores de cabeça. Ultimamente, eu não tive muitas chances de conversar com Ansem e estava com vontade de falar com ele.

Acho que quando ele chegar aqui, eu sĂł vou dizer a ele que nĂŁo tenho para onde ir hoje, entĂŁo ele nĂŁo precisa se incomodar.

O jornal falava sobre o ataque à academia de magia, mas dizia quase nada sobre a causa. Acho que a Professora Seyge estava mantendo a verdade em segredo. Percebendo uma linha que dizia que ninguém havia morrido no incidente, soltei um suspiro de alívio. Então a pedra sonora na minha mesa começou a vibrar.

Eu sentia que essa coisa disparava todo dia. Eu nĂŁo queria atender, mas nĂŁo tinha muita escolha com Eva bem ali. Deixando-o sobre a mesa, eu o ativei. A pedra ficou parada, e um breve silĂȘncio se seguiu.

— Eu vou te matar — disse uma voz tensa.

— VocĂȘ pegou o homem errado — respondi.

— Eu vou te matar! Eu nĂŁo disse para vocĂȘ parar as maldiçÔes e depois causar outro problema! Eu disse para vocĂȘ nĂŁo causar problema algum! Uma maldição seria melhor do que isso!

Ele parecia estar bem na minha frente. Machucou meus ouvidos. Que bom que eu tinha deixado a pedra na mesa. Ele parecia estar com a voltagem bem alta, mas eu nĂŁo podia ajudĂĄ-lo se ele nĂŁo me dissesse o que tinha acontecido.

— Apesar de tudo, eu sou… o irmĂŁo da Lucia, sabia?

— Eu presumo que vocĂȘ estĂĄ ciente de que neste exato momento, o caos estĂĄ irrompendo no Instituto Primus por causa de uma certa poção.

— Franz, a sua ordem lida com cada pedacinho de problema que surge na capital?

Eu gemi internamente. E vocĂȘ continua vindo atĂ© mim por causa de cada coisinha? VocĂȘ virou um dos meus fĂŁs, por acaso?

— Eu vou te matar — Franz disse em uma voz tensa e acelerada. — Houve um vazamento de um dos Alquimistas do instituto. NĂŁo terĂ­amos descoberto de outra forma! Foi a sua Alquimista que trouxe a poção! Treze cavaleiros foram perdidos quando a Terceira Ordem tentou acabar com o tumulto! Um gĂĄs paralisante os neutralizou instantaneamente! Eu nĂŁo vou limpar mais uma de suas malditas bagunças! Venha para cĂĄ agora mesmo! Desta vez, desta maldita vez, vocĂȘ vai me escutar!

Entendi. Oh, como posso dizer isso?

Eu me acalmei com uma respiração profunda e entĂŁo disse hesitantemente: 

— Mas, a questĂŁo Ă© que essa poção Ă© provavelmente leite de morango.

— HÃ?!

Aquela poção que a nossa Alquimista trouxe…

Eu não tinha certeza do que dizer. Eu poderia até dizer o nome do fabricante. Não entrava na minha cabeça pensar que leite de morango estava causando tanto alvoroço. Pelo que Franz tinha dito, Sitri não percebeu que era leite e o levou para seu antigo local.

Sitri, tente prestar atenção!

— Eu não quero suas bobagens! Na frente da academia de magia. Agora!

— Ei, nĂŁo Ă© bobagem. Eu coloquei na garrafa de metal, e ela levou.

— Hm?!

Ouvi o som de algo caindo e entĂŁo a pedra sonora ficou em silĂȘncio.

Olhei para cima e vi Eva. Ela me encarava, sua bochecha tremendo, seu corpo tremendo.

Eles estavam errados. Tudo errado. Pela primeira vez, a culpa não era minha. Se fosse de alguém, eu achava que merecia um tapinha nas costas. Se o material falso havia causado tanto alvoroço, quem sabe o que poderia ter acontecido se aquela fosse a poção de verdade?

— Ele disse que uma maldição seria melhor do que isso. Ha ha. Então vamos fazer a próxima ser uma maldição.

— Por favor, pare com isso!

O que essas pessoas queriam de mim? Tudo o que fiz foi jogar fora uma poção e colocar um pouco de leite de morango em uma garrafa.

É, aham. Eu fiz algo desnecessário: cedi ao impulso de comparar os dois lado a lado. Eu não pensei que Sitri fosse invadir naquele exato momento.

Mas ainda havia tempo. Se ela percebesse que tudo isso era um mal-entendido, nossa Alquimista excĂȘntrica certamente se acalmaria. Mesmo que a poção fosse realmente algo perigoso, toda essa loucura me parecia um pouco desnecessĂĄria, mas pensei que era melhor ficar fora dessa confusĂŁo. Pessoas corretas nĂŁo vĂŁo a lugares incorretos.

Sentado na minha cadeira, cruzei os braços e dei a Eva, que ainda estava paralisada, um sorriso firme e resoluto. — Eva, o resto está em suas mãos.

— O-O que está nas minhas mãos?! Por favor, não me deixe isso!

Oh, eu nunca ouvi Eva pedir isso. Essa Ă© uma recompensa rara.

Ouvi passos pesados, seguidos por batidas fortes na porta. Eu dei uma resposta, e a porta se abriu. Ansem encolheu os ombros e entrou.

— Ah, Ansem. Faz tempo. VocĂȘ demorou para aparecer.

— Mmm. Desculpas — disse uma voz abafada pelo visor do capacete.

Oh, nĂŁo o ouvia falar hĂĄ um tempo. Outra recompensa rara.

Eva parecia igualmente surpresa. Ansem sempre foi um homem reservado. Ele também era um homem muito educado. A estatura de Ansem superava em muito o que era normal para as pessoas, mas seu tamanho crescente foi levado em consideração durante a construção do escritório do mestre do clã. Ele não cabia nos meus aposentos pessoais, mas teria que lidar com isso. Se quisesse entrar, teria que se encolher com sua armadura.

Com os movimentos calmos, mas pesados, de um monstro grande, ele se aproximou da minha mesa. Pelo que entendi, movimentos bruscos dele eram passíveis de quebrar coisas, e era por isso que ele fazia movimentos tão lentos e cautelosos. Sua presença era imponente como sempre. Embora o conhecesse hå muito tempo, até Eva recuou diante de sua forma imponente.

— Imagino que a igreja esteja atolada com o negĂłcio da maldição? — eu disse, recostando-me na cadeira. Apesar de estar tĂŁo ocupado, meu velho amigo foi gentil o suficiente para estar comigo. — Eu odeio dizer isso depois que vocĂȘ veio atĂ© aqui, mas nĂŁo pretendo sair hoje, entĂŁo se vocĂȘ estiver ocupado, nĂŁo precisa ficar.

Caramba, eu nĂŁo sairia nem mesmo se tivesse vocĂȘ comigo!

— Não.

Com aquela simples resposta, ele se sentou no chĂŁo. Mesmo isso foi o suficiente para estremecer levemente o chĂŁo. Ele nĂŁo tinha uma arma ou escudo, mas seus punhos eram o suficiente para derrubar a maioria dos inimigos. Ele provavelmente seria o Ășltimo em pĂ© em uma batalha battle royale dos Grieving Souls. Se ele entrasse no Festival do Guerreiro Supremo, eu nĂŁo ficaria surpreso se ele ganhasse.

— Sinta-se em casa.

— Mmm.

Ansem assentiu e então ficou imóvel. Quando parava de se mover, ele se parecia menos com uma pessoa e mais com uma instalação artística.

Ele estĂĄ realmente relaxando? Bem, se ele estĂĄ bem com isso, entĂŁo eu estou bem com isso.

Eva parecia incerta sobre o que fazer com nosso visitante incomum. Seu espanto anterior havia desaparecido completamente, resultado do grande carĂĄter de Ansem. Ele era poderoso e gentil. O mundo teria sido um lugar muito pior se ele fosse tĂŁo confrontador quanto Luke e Liz. Nosso mundo se mantinha unido no que realmente importava.

Eu me levantei, peguei um spray de polimento de metal e um esfregão, e então fui até Ansem. Eu tinha acabado de polir minhas Relíquias e não tinha mais nada para fazer, então podia dar um polimento nele.

Eu borrifei as costas dele, que pareciam uma muralha, quando ele inclinou a cabeça para mim.

— Não.

— Não precisa ser tão reservado.

— Nãooo.

A Relíquia armadura não sujava facilmente, e polir não fazia muita diferença, mas ainda era melhor do que não polir. Assim que comecei a esfregar vigorosamente sua armadura arranhada, Ansem pareceu ceder e ficou imóvel novamente.

Quando terminei de polir cada centĂ­metro de sua armadura, o sol havia começado a se pĂŽr, e meu corpo gemia de dor. Minha coleção era bem grande, mas a armadura de Ansem era a Ășnica RelĂ­quia que me dava um treino sĂł de mantĂȘ-la (embora, para ser preciso, a armadura dele nĂŁo fizesse parte da minha coleção).

— Lamento de Marin, hein? E Ă© um item amaldiçoado que a igreja selou?

Ansem grunhiu e assentiu solenemente. Parecia haver verdade naqueles rumores que Eva tinha ouvido sobre a igreja ter algo grande. Ansem não falava muito, mas não era avesso à comunicação. Enquanto conversåvamos enquanto eu polia sua armadura, eu tinha entendido bem a situação. Parecia que a igreja estava se preparando para purificar um item amaldiçoado em sua posse, e Ansem faria parte da operação.

O Deus Omnilucente concedia mais do que apenas poderes de cura. Eles também possibilitavam barreiras e selamento. A Igreja do Espírito Radiante na capital imperial hå muito tempo possuía uma série de perigos cujas maldiçÔes haviam sido seladas.

As razĂ”es para esses selos variavam. Alguns eram selados porque a igreja nĂŁo achava que seria capaz de lidar com a maldição e nĂŁo tinha outras opçÔes, e alguns eram guardados porque havia uma boa chance de a maldição enfraquecer com o tempo. A Ășnica coisa que tinham em comum era que nenhum selo duraria para sempre. Rachaduras se formavam com o tempo e, embora fosse raro, os selos Ă s vezes podiam quebrar sem aviso, um fato que havia sido aprendido da maneira mais difĂ­cil.

Após conversas entre o império e os chefes da igreja, foi decidido que um dos itens mais poderosos que eles haviam selado, o Lamento de Marin, seria purificado. Como eles viam, em vez de arriscar o selo quebrar inesperadamente e causar estragos, seria melhor desfazer o selo e purificå-lo, tomando todas as precauçÔes possíveis. Uma espécie de abordagem inversa.

Parecia que o selo estava quase pronto para ser renovado de qualquer forma, mas a igreja estava tomando o caminho decisivo.

— Isso vai funcionar? — eu perguntei.

— Mmm?

Purificar maldiçÔes era ótimo e tudo mais, mas eu só esperava que a igreja não se esquecesse de que Ansem era um membro do nosso grupo. Ele era durão e calmo, mas isso não significava que ele não sentia nada.

— Devo dar uma mão? — ofereci com uma voz firme, antes que eu soubesse o que estava fazendo.

— Não.

Ele me rejeitou. Mesmo que Luke ou Liz tivessem aceito de bom grado. Mas tudo bem! Eu tinha certeza de que Ansem ficaria perfeitamente bem. Se ele precisasse de alguém, ele poderia trazer Ark ou Sven, ou talvez Lucia. A igreja pode não estar muito entusiasmada em aceitar ajuda de estranhos, mas a segurança em primeiro lugar.

— A propĂłsito, que tipo de item Ă© o Lamento de Marin?

Ansem nĂŁo respondeu.

Minha coleção tinha algumas RelĂ­quias que pareciam que poderiam ser Ășteis durante uma purificação, mas eu achei que seria melhor ficar de fora.

Eståvamos lidando com uma maldição que estava sendo purificada porque se por acaso ela se rompesse, poderia destruir a capital imperial. O selamento era um método geralmente reservado para maldiçÔes muito fortes para serem controladas de qualquer outra forma. A Igreja do Espírito Radiante era uma das melhores quando se tratava de purificaçÔes, então o cheiro de perigo era forte no ar. Se eu estragasse algo aqui, eu poderia nunca mais me recuperar disso. Embora com todos os problemas que eu causava a Ansem constantemente, eu queria ajudå-lo de alguma forma.

Ansem entĂŁo balançou a cabeça e disse de uma sĂł vez: — O Lamento de Marin Ă© um item amaldiçoado de alta patente que a igreja manteve selado por muito tempo. Usando o espĂ­rito de Marin, uma mulher que teve uma morte precoce, um Mago das Trevas criou uma arma de bruxa. Isso tem sido uma fonte de dores de cabeça para a igreja por muito tempo, tanto que imediatamente veio Ă  mente quando soubemos da profecia. Ficamos felizes em aceitar a sugestĂŁo do impĂ©rio. Com o apoio do impĂ©rio, nĂŁo hĂĄ oportunidade melhor para conduzir a purificação. VocĂȘ nĂŁo tem por que se preocupar, Krai.

Entendi. Parece selvagem.

Nada como descobrir que a igreja prĂłxima estava guardando algo tĂŁo perigoso para fazer vocĂȘ repensar morar em uma cidade grande.

— Quanto dano essa arma causou? — eu perguntei.

Ansem simplesmente grunhiu.

— E espere, Ă© definitivamente sobre isso que Ă© a profecia do Divinarium, nĂŁo Ă©? Eles disseram que era algo que poderia destruir o impĂ©rio ou o que fosse. NĂŁo pode haver maldiçÔes mais fortes do que esta, pode?

Quão aterrorizante era essa coisa se ela imediatamente vinha à mente quando havia uma profecia sobre a destruição do império? Assustador. Eu teria ficado tentado a fugir se fosse possível, mas eu não podia deixar Ansem para trås.

ApĂłs um breve silĂȘncio, Ansem balançou lentamente a cabeça e entĂŁo levantou dois dedos. — É a nĂșmero dois, eu acho. Acredito que hĂĄ uma maior.

— Mmm.

Que bom que eu nĂŁo me tornei um Paladino. OK, talvez “nĂŁo pude” fosse mais preciso.

— Vamos olhar para o lado bom — eu disse. — Vamos ficar felizes por nĂŁo ser a nĂșmero um.

— Mmm.

Eu fiz um esforço para sorrir e dei um tapinha no ombro de Ansem, ao que ele suspirou profundamente e assentiu.

Então a porta se abriu de repente, e Sitri entrou. Ficou imediatamente claro que ela havia passado por alguma provação difícil. Tropeçando na sala, seu cabelo e roupas estavam desgrenhados, e eu não conseguia dizer o que tinha acontecido, mas sua mão direita estava pressionada contra o braço esquerdo.

— Kraaai! — ela disse com uma voz manhosa e carente. — Ah, e Anssy.

— Mmm.

Ao ver seu irmĂŁo, a expressĂŁo frĂĄgil de Sitri enrijeceu.

— Qual Ă© o problema? — eu perguntei.

— N-Nada.

Corrigindo-se, ela ficou ereta e pigarreou. Ela tirou a mão do braço e limpou a poeira de seu manto. Envergonhada, ela estava vermelha até as orelhas. Bem, o importante é que ela estava sã e salva. Pelo que eu podia dizer, ela não estava ferida e parecia bem da cabeça.

Quer dizer, mesmo que nĂŁo estivesse, Ansem poderia tĂȘ-la consertado, contanto que ela ainda estivesse viva.

Mas por que ela estava fingindo estar machucada em primeiro lugar?

Enquanto olhava de soslaio para o irmĂŁo, ela se aproximou de mim, olhando para mim com olhos feitos para inspirar culpa. — Por causa da sua artimanha, o Instituto Primus foi fechado por enquanto. A maioria dos funcionĂĄrios de alto nĂ­vel foi presa. Minha credibilidade foi destruĂ­da. A Ășnica coisa que me resta Ă© ser sua espo
 ao seu lado! Por enquanto!

— T-Tudo bem…

Eu nĂŁo estava fazendo artimanhas nem nada, e embora parecesse que algo louco tinha acontecido, tive a nĂ­tida impressĂŁo de que a capital estava mais segura agora. Deve ter sido um inferno, e sinto muito que sua credibilidade tenha sumido, mas ela nĂŁo parecia tĂŁo chateada assim. Eu sei que eu disse que Ă© bom encontrar diversĂŁo em tudo, mas achei que isso estava indo longe demais.

Apesar do apuro da irmã, Ansem não demonstrou nenhuma reação particular. Tanto Liz quanto Sitri tinham personalidades fortes e, depois de passar tanto tempo perto delas, Ansem havia se tornado uma pessoa muito tolerante. Sua disposição em mimar suas irmãs era tanto uma força quanto uma fraqueza para ele.

O constrangimento por Ansem ter visto sua performance certamente subjugou Sitri. Normalmente, ela teria cedido à sua empolgação e jogado os braços em volta de mim. Em vez disso, ela olhou para o irmão com uma expressão conflituosa.

EntĂŁo, piscando, ela tirou uma pequena caixa do bolso. Dentro havia um pingente antigo em forma de cruz preso a uma corrente de metal. Uma grande joia carmesim estava incrustada no centro da cruz. Estava um pouco manchado, mas provavelmente ainda valia uma quantia considerĂĄvel.

Aceitei o pingente e o segurei contra a luz. NĂŁo parecia ser uma RelĂ­quia. Olhei cuidadosamente para a jĂłia vermelha escura, onde notei que alguma escrita estranha havia sido gravada.

— Antes de ser pego, Nickolaf escorregou isso em minhas mĂŁos. Ele disse que era um talismĂŁ com uma longa e respeitĂĄvel histĂłria. Ele disse que se vocĂȘ o mantiver perto de vocĂȘ, serĂĄ protegido por um espĂ­rito heroico.

— Entendi. Proteção de um espĂ­rito heroico, vocĂȘ diz? Parece que seria perfeito para a situação atual de Ansem.

Exceto que o mentor de Sitri não foi protegido, ele acabou preso. Serå que essa coisa realmente funcionaria? Bem, cruzes eram um símbolo sagrado que aqueles na igreja gostavam de carregar consigo. Jå que Ansem estava prestes a fazer parte de uma purificação, parecia até que essa coisa tinha vindo parar aqui apenas por causa dele. Provavelmente era melhor do que nada.

Serå que o destino causou todo aquele caos apenas para que isso acontecesse? Que dor de cabeça.

— Mmm — ele disse após uma longa pausa.

Com uma corrente minha, ajustei o comprimento do pingente e depois o coloquei em volta do pescoço de Ansem. Ele soltou um gemido baixo e retumbante.

Um ar sinistro pairava sobre a capital imperial. Comerciantes que nĂŁo estavam sediados na cidade estavam partindo como ratos fugindo de um navio que afunda, aqueles que nĂŁo podiam, estavam se preparando para o pior. A Associação de Caçadores recebeu pelo menos duas ou trĂȘs vezes o nĂșmero usual de pedidos de proteção.

O pĂșblico nĂŁo foi informado da profecia do Astral Divinarium, mas ainda podia perceber que algo estava acontecendo. Tanta coisa havia acontecido em sucessĂŁo. Houve o aprendiz do Santo da Espada, que enlouqueceu com a Espada DemonĂ­aca, aquele demĂŽnio que apareceu na Academia de Magia de Zebrudia, e depois os Alquimistas no Instituto Primus brigando por causa daquela poção. Qualquer um desses teria sido um grande incidente, mas como todos aconteceram tĂŁo perto um do outro, apenas as pessoas mais densas nĂŁo ficaram desconfiadas.

A equipe de Franz tentou emitir ordens de silĂȘncio, mas o boca a boca nĂŁo era tĂŁo facilmente silenciado. Depois de ser constantemente inundado com perguntas de nobres e comerciantes com quem ele era conhecido, Franz estava começando a atingir seu limite.

— O que diabos aquele homem planeja fazer em seguida?! Eu não consigo entender!

Ele finalmente havia estabelecido uma força-tarefa para lidar com a Raposa Sombria de Nove Caudas e estava pronto para começar a trabalhar quando essa profecia de repente apareceu. A série contínua de incidentes e a profecia que, no entanto, persistia, estavam ambas além da compreensão de Franz.

Embora talvez fosse injusto presumir que outra pessoa poderia ter lidado melhor com essa situação. As coisas estavam acontecendo muito rapidamente, e as conexÔes só eram reveladas após um exame mais detalhado. Eles estavam cooperando com as outras ordens de cavaleiros, mas ainda não tinham mãos suficientes. Não havia muito que pudessem fazer quando um novo incidente surgia enquanto ainda estavam investigando o anterior.

Então houve o incidente no Instituto Primus, o pior até agora.

— Leite de morango?! Ele acha que estamos de brincadeira aqui?!

Era algo saído de um pesadelo. Os praticantes experientes da maior instituição de Alquimia da capital tinham sido todos enganados. O fato de todos terem perdido a cabeça por causa de uma garrafa de leite de morango era um constrangimento que a história certamente não esqueceria.

Todos os Alquimistas envolvidos na luta foram presos. Mesmo que houvesse verdade em suas alegaçÔes de que foram enganados, isso não mudava o fato de que aquela poção era uma substùncia ilegal.

AlĂ©m disso, eles nĂŁo podiam punir o Mil Truques por seu envolvimento. Eles poderiam talvez acusĂĄ-lo de fraude, mas Franz estava preocupado que aquele homem pudesse dizer algo como: “Se o que eu fiz foi fraude, entĂŁo eu apenas lhes darei o item real.” Mesmo que as chances disso fossem mĂ­nimas, ele nĂŁo queria arriscar.

Franz de fato disse àquele homem para parar com as maldiçÔes, mas isso não era uma sugestão para causar outras formas de caos! Não ajudava o fato de que ele provavelmente fez isso estando totalmente ciente do que Franz queria dizer.

— Mas CapitĂŁo — disse outro cavaleiro ao ouvir seu murmĂșrio com palavrĂ”es — se a profecia permanece apesar de vĂĄrios desastres terem ocorrido e sido resolvidos, isso significa que ela estĂĄ indicando algo ainda mais letal?

— Pessoalmente, eu nem tinha imaginado que o Santo da Espada estava guardando algo tão mortal.

Com tantas RelĂ­quias e pessoas, era natural que a capital imperial tivesse uma infinidade de itens perigosos. Magos e Alquimistas eram propensos a guardar segredos, e atĂ© mesmo nobres se encontravam como proprietĂĄrios de todos os tipos de objetos. O cofre no castelo imperial nĂŁo era exceção; uma verificação de seu conteĂșdo certamente revelaria algo. Os itens expostos pelo Mil Truques eram provavelmente apenas a ponta do iceberg.

A poção de escravização ilegal, Chama de Morango, revelou-se falsa. De acordo com as investigaçÔes, Sitri alegou tĂȘ-la obtido na academia de magia, mas Franz nĂŁo ficaria surpreso se ela estivesse secretamente guardando a poção real.

Logo apĂłs o surgimento da profecia, Franz havia despachado cavaleiros para vasculhar a capital em busca de itens perigosos, mas eles nĂŁo descobriram muito. Eles tambĂ©m investigaram o Santo da Espada, a Academia de Magia de Zebrudia e o Instituto Primus. Nada havia surgido. Os cavaleiros tinham autoridade, mas nĂŁo o tipo que lhes permitiria mandar uma busca sem evidĂȘncias adequadas.

Se lhes faltava mão de obra, eles também tinham obståculos em seu caminho. O måximo que conseguiam fazer era conduzir entrevistas. Enquanto isso, o Mil Truques estava obtendo informaçÔes por meios que lhes eram proibidos.

Na maioria das vezes, as maldiçÔes exigiam circunstùncias específicas para serem ativadas. Muitas pessoas que possuíam itens amaldiçoados não sabiam disso. Neste caso, o Santo da Espada não tinha percebido o perigo que aquele cajado representava. Não estava claro como o Mil Truques havia descoberto que aquela coisa era amaldiçoada quando nem mesmo seu dono sabia, mas ele adotou sua abordagem caótica usual assim que a obteve.

SerĂĄ que o Mil Truques estava tentando determinar o assunto da profecia? Ele estaria aplicando sua astĂșcia Sobre-humana para erradicar cada provĂĄvel candidato?

Com um grunhido, Franz sacudiu a cabeça, limpando este pensamento aterrorizante de sua mente. O Franz do passado sem dĂșvida teria ordenado que o Mil Truques fosse interrogado. Mas as coisas eram diferentes agora. Nos Ășltimos meses, Franz havia suportado todo tipo de problema ao interagir com aquele homem. Ele jĂĄ havia ordenado a Hugh que lidasse com ele e nĂŁo tinha mais recursos para gastar com ele. O Mil Truques simplesmente o ignoraria, entĂŁo Franz nĂŁo se incomodaria.

— Vamos direcionar alguns de nossos homens para a igreja — disse Franz em voz baixa. — Na improvĂĄvel eventualidade de o item amaldiçoado se manifestar, o dano pode ser muito maior do que, nĂŁo, pode atĂ© se estender a civis.

O Lamento de Marin era um dos itens amaldiçoados mais aterrorizantes de que eles tinham conhecimento. Criado através de um rito vil realizado por um Mago dos tempos antigos, o Lamento de Marin havia matado pessoas por toda a terra, eventualmente tirando a vida de seu criador. Era muito provåvel que fosse a isso que a profecia do Divinarium estava se referindo.

No entanto, o Lamento de Marin havia liberado sua ira hå muito tempo. Sendo geradas por emoçÔes poderosas, as maldiçÔes tendiam a enfraquecer com o tempo, e as técnicas de barreira e purificação da igreja haviam melhorado ao longo dos anos.

Além do mais, aparentemente, a igreja jå estava fazendo preparativos para purificar o Lamento de Marin. Esta operação simplesmente exigiu que eles adiantassem um pouco a data. Agora, com a total cooperação do império, a falha era inconcebível.

— NĂłs recrutamos a ajuda das organizaçÔes necessĂĄrias — um cavaleiro relatou. — TambĂ©m estivemos em contato com Ark Rodin, e o ImutĂĄvel estarĂĄ lĂĄ tambĂ©m. Estamos prontos para tudo.

O Imutåvel era o melhor Paladino na capital imperial. Ele não vinha de uma família nobre, nem frequentou uma academia de cavaleiros, mas foi considerado digno de uma oferta especial para se tornar um cavaleiro. Suas habilidades excepcionais em combate e cura o tornaram tão altamente considerado quanto Ark Rodin. Além disso, ele também era um membro dos Grieving Souls.

Pensando bem, Ark Rodin também é um membro do Primeiros Passos.

— Como aquele homem faz amigos? — Franz se perguntou em voz alta.

Talvez ele tivesse boa sorte nesse aspecto; talvez todos que se envolviam com ele crescessem com seus percalços. Isso não importava para Franz. Não mudava as opçÔes disponíveis para ele. Se fosse pela glória do império, ele teria que suportar o que viesse pela frente.

E assim chegou o dia da operação.

Com a purificação se aproximando, o trĂĄfego na estrada para a igreja estava sendo restringido. Embora a operação estivesse sendo mantida em segredo do pĂșblico em geral, todo o pessoal indo e vindo da igreja fazia com que as pessoas que passavam direcionassem olhares preocupados aos cavaleiros de plantĂŁo.

Embora fosse um distante segundo lugar, a filial de Zebrudia da Igreja do EspĂ­rito Radiante era o segundo maior edifĂ­cio da capital, perdendo apenas para o castelo imperial. Isso era claro mesmo Ă  distĂąncia. Ao contrĂĄrio do castelo imperial, que era uma personificação do utilitarismo, as inĂșmeras torres brancas que subiam e o emblema solar da igreja mostravam um refinamento estĂ©tico que a tornava agradĂĄvel de se olhar.

— Sabe, faz um tempo que não venho aqui — eu disse.

— Mmm — Ansem grunhiu, caminhando pesadamente ao meu lado.

A igreja provavelmente nĂŁo tinha um Paladino mais famoso que Ansem. Isso se devia em parte ao seu alto nĂ­vel, suas habilidades de cura, sua afabilidade e, claro, sua estatura maciça. Diferente de suas irmĂŁs, sua reputação era absolutamente impecĂĄvel. Ele nĂŁo saĂ­a em fĂșria como Liz, e nĂŁo tinha colapsos ocasionais como Sitri. Com tanta estabilidade, ele realmente merecia o tĂ­tulo de ImutĂĄvel.

Quando ele estava por perto, absolutamente ninguĂ©m me dava atenção, algo pelo qual eu era totalmente grato. É como dizem sobre abrigo: Se for se esconder debaixo de uma ĂĄrvore, que seja uma bem grande.

Olhando em volta, parecia que a escala desta operação era tão grande quanto Ansem havia dito. Na estrada para a igreja, vi não apenas padres e cavaleiros, mas também caçadores. No caso do Santo da Espada e da academia de magia, o problema ocorreu abruptamente, mas com preparaçÔes tão sólidas, eståvamos prontos para praticamente tudo.

E, acima de tudo, eu estou aqui.

Soltei um suspiro de alĂ­vio e dei um tapinha na perna de Ansem, que parecia um pilar. — Desta vez, farei o que puder! Exceto que isso nĂŁo Ă© realmente nada!

ApĂłs uma pausa, ele soltou um grunhido lento.

Normalmente, eu nunca chegaria perto de algo como uma purificação de maldição, mas desta vez era especial. Ansem estava aqui e eu havia aprendido com a experiĂȘncia. Por meu simples e silencioso melhor amigo, eu estava disposto a dar uma mĂŁo. Talvez se eu estivesse presente na cena, ninguĂ©m provavelmente reclamaria, nĂŁo importa o que acontecesse.

Os preparativos estavam em andamento no påtio da igreja, um grande espaço pavimentado com pedra. Quando Ansem e eu entramos, o clero, vestido em suas vestes austeras, começou a murmurar animadamente entre si enquanto lançava olhares favoråveis a Ansem. Então suas expressÔes estóicas retornaram quando me viram à sua sombra.

Ansem era uma fonte de orgulho para a igreja da capital imperial. Eu, enquanto isso, era seu amigo sem importĂąncia que ele mantinha por perto por algum motivo. Quando vocĂȘ tambĂ©m considera todas as bagunças que eu estava constantemente causando para

Ansem, nĂŁo era de admirar que essas pessoas nĂŁo olhassem para mim com carinho. Dada a minha amizade com Ansem, nenhuma das pessoas iria me criticar abertamente, mas isso ainda significava apenas que eu estava usando-o como cobertura.

O ar no påtio estava estranhamente sereno. Um grande círculo mågico estava desenhado no chão, provavelmente para a implantação de barreiras. Em rituais como este, quanto maior o escopo, mais atenção precisava ser dada à preparação. Quando eu ainda acompanhava meus amigos em caçadas, aprendi isso através das muitas vezes que assisti Ansem montar barreiras.

Todos os rostos formidåveis alistados para a purificação jå haviam se reunido no påtio. Reconheci alguns deles.

Eu toquei o joelho de Ansem e disse: — VocĂȘ nĂŁo precisa se preocupar em me manter seguro. Eu vou perambular por aĂ­, entĂŁo vocĂȘ pode ir se tiver algum lugar onde precise estar.

ApĂłs um atraso, ele grunhiu. Ansem nĂŁo era bom em se autopromover, e como seu velho amigo, eu geralmente conseguia dizer o que ele estava pensando. Eu nĂŁo achava que estaria correndo perigo em uma igreja, de todos os lugares, e nĂŁo queria atrapalhar seu trabalho.

Com passos pesados, Ansem se afastou em direção ao centro do påtio. Levantei os braços e respirei fundo. Algo neste lugar me fazia sentir que minha alma estava sendo purificada só de estar por perto. Agindo um pouco como um turista, eu observei os preparativos continuarem quando de repente ouvi uma voz grave.

— K-Krai, o que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui?!

Eu me encolhi. — Hm?!

Virando na direção da voz, vi o famoso gerente da filial da Associação de Caçadores na capital imperial, Gark Welter. Tudo o que precisĂĄvamos era de Luke e estaria perfeito. Eu encontrei Gark no Festival do Guerreiro Supremo, mas fazia muito mais tempo desde a Ășltima vez que vi Ark. NĂŁo muito atrĂĄs dele estava o resto do grupo de Ark Brave.

Ark olhou para mim com os olhos arregalados. Embora o resto de seu grupo estivesse me lançando olhares feios, Ark demonstrava uma magnanimidade que mostrava que ele era digno do título de Herói. Vamos apenas ignorar o fato de que ele nunca estava por perto quando eu precisava dele.

Encontrar Ark em um dia como hoje parecia um sinal de boa sorte. Eu estava me sentindo mais seguro a cada momento.

— Estou tão feliz que todos puderam vir — eu disse.

A sobrancelha de Gark estremeceu.

Eu nĂŁo tinha feito nada ainda, entĂŁo esperava que ele nĂŁo esperasse que eu me humilhasse. Normalmente, eu nunca chegaria perto de algo tĂŁo perigoso, mas eu estava aqui puramente para observar Ansem trabalhando.

Eu nĂŁo sabia por que, mas Gark parecia incrivelmente tenso. Foi entĂŁo que algo me ocorreu.

— Estou sempre vindo ao seu chamado — eu disse, batendo as mĂŁos — mas desta vez eu apareci antes mesmo de vocĂȘ ter que pedir!

Gark recuou.

É isso que chamam de astĂșcia sobre-humana?

Eu dei a Gark um sorriso firme e resoluto. Com a bochecha tremendo, ele se aproximou de mim. Eu instintivamente dei um passo para trĂĄs.

— Krai — ele disse em voz baixa —, o-o que vocĂȘ estĂĄ planejando fazer desta vez?!

— Hã? Não me entenda mal, estou aqui só para ver o Ansem fazer o trabalho dele.

Em geral, eu nunca fazia nada. Claro, vocĂȘ poderia dizer que nĂŁo fazer nada era errado Ă  sua maneira, e vocĂȘ teria razĂŁo, mas desta vez, eu realmente nĂŁo fiz nada de errado.

Eu fiquei ereto, e Gark colocou uma mĂŁo no meu ombro.

— Krai, eu nĂŁo quero bobagens — ele disse. Seu tom era de advertĂȘncia, mas ele tinha um olhar assassino nos olhos. — Estou perguntando o que vocĂȘ planeja fazer desta vez. VocĂȘ me entende? O que estamos lidando desta vez, na verdade, esta nĂŁo Ă© a primeira vez, Ă© um verdadeiro pesadelo. Esta Ă© uma maldição, algo que joga por regras diferentes. VocĂȘ percebe que isso Ă© algo tĂŁo forte que a igreja pediu ajuda Ă  Associação, certo? Eles atĂ© usaram de influĂȘncia para fazer o Ark voltar. E esta nĂŁo Ă© apenas uma maldição qualquer, Ă© uma arma. Treze padres deram suas vidas para selar essa coisa.

— Eu nĂŁo me importaria em saber como vocĂȘ conseguiu trazer o Ark para cĂĄ.

Se possĂ­vel, eu gostaria de uma Pedra Sonora para contatĂĄ-lo diretamente. Mas acho que Isabella ou outra pessoa do grupo dele me impediria se eu tentasse.

E selar isso custou treze vidas? Eu nĂŁo sabia disso.

O Gerente da Filial Gark me encarou em silĂȘncio. Acho que ele estava controlando a voz, jĂĄ que estĂĄvamos em uma igreja? Assim que eu estava cedendo Ă  pressĂŁo e considerando me humilhar, Ark interveio.

— Ora, ora, senhor, tenho certeza de que Krai tem seus prĂłprios motivos. E nunca Ă© demais ter caçadores de alto nĂ­vel. O senhor deveria saber que eu tambĂ©m lidei com maldiçÔes apenas algumas vezes. Certo, Krai?

— Certo, Ark!

É isso. Este Ă© o Ark. Bem-vindo de volta, Ark! Como sempre, bonito por dentro e por fora!

Um sorriso deslumbrado se formou no meu rosto antes que eu pudesse evitar, provocando suspiros do resto do grupo de Ark Brave.

— Por tudo que ele aguenta, Ark continua a mimar esse cara.

— Esperem aí — eu protestei — houve muitos problemas porque o Ark não estava por perto. Teve Arnold, a vez que o imperador precisou de um guarda-costas, a Raposa, o Festival do Guerreiro Supremo, e eu acabei lidando com tudo isso.

— S-SĂ©rio? — disse Ark com um sorriso sofrido. — Parece muita coisa.

Olhando para trĂĄs, percebi a frequĂȘncia com que me encontrava procurando por ele. Mas ele nĂŁo estava por perto e pronto. NĂŁo adiantaria dizer que ele estava por perto se nĂŁo estivesse.

Com Ark e Ansem presentes, esta operação estava praticamente garantida de sucesso. Mas esse era exatamente o tipo de circunstĂąncia que gerava complacĂȘncia, entĂŁo pensei em bancar o advogado do diabo um pouco. — Podemos ter uma abundĂąncia de poder do nosso lado — eu disse, dando um tapinha no ombro de Ark — mas pelo que posso dizer, esta Ă© uma verdadeira fera que estamos purificando aqui. NĂŁo baixem a guarda!

Ouvir meu encorajamento fez a compostura geralmente brilhante de Ark enrijecer. As sobrancelhas de Gark tremeram espasmódicamente, e o sindicato do crime local olhou para mim, com o sangue escoado de seus rostos. Isabella, Ewe e o resto do grupo de Ark pareciam semelhantes. Era apenas um aviso leve, mas eles estavam mostrando reaçÔes tão exageradas. Eu não sabia o que fazer.

Um silĂȘncio desconfortĂĄvel nos alcançou. Gark tentou quebrar a tensĂŁo com palavras lentas e forçadas.

— E-Esta operação foi planejada com o mĂ­nimo detalhe. A maldição enfraqueceu enquanto estava selada, e estamos agindo sob a suposição de que Ă© uma maldição poderosa. Sem mencionar que os padres de hoje tambĂ©m sĂŁo muito mais capazes do que os do passado.

Isso Ă© perfeito. Quase nĂŁo hĂĄ como isso dar errado. Um pouco mais de “advogado do diabo” e estaremos ainda mais perfeitos.

— Mas o mundo está cheio de surpresas — eu disse.

Fui recebido com silĂȘncio. Tirei uma breve pausa da vida firme e resoluta e tentei me justificar.

— Ha ha ha, e-eu estou brincando. Só estou fazendo uma piada.

Os olhares poderosos que eu estava recebendo me forçaram a me render. Eu poderia estar acostumado a receber hostilidade, e Gark era uma coisa, mas eu não conseguia suportar isso vindo de Ark. Gark abriu a boca e estava prestes a dar um passo em minha direção, mas parou quando ouvimos um grito perplexo.

— IrmĂŁo?! Por que vocĂȘ estĂĄ aqui? Ah. N-NĂŁo me diga. VocĂȘ vai fazer parte disso?

— O-OlĂĄ…

Eu me virei e vi Lucia entrando na igreja. Ela correu até nós, seu olhar ficando desconfiado à medida que se aproximava, sua expressão geral tão grave quanto a de Ark e a do gerente da filial. Eu não tinha percebido que ela estaria aqui.

Isso Ă© um aparte, mas Lucia sĂł me chamava de “irmĂŁo” quando estava perturbada. Com sua fase rebelde, ela relutava em me chamar de irmĂŁo e optava por me chamar de “lĂ­der” o mĂĄximo que podia. Mas Ă s vezes ela caĂ­a nos velhos hĂĄbitos.

Agora, suponho que algo estĂĄ te deixando em pĂąnico?

Atrås de Lucia havia uma pequena multidão de rostos que eu reconheci. Eram os membros da Starlight, bem como alguns outros Magos do Primeiros Passos. Com movimentos graciosos, a líder da Starlight, Lapis, avançou, sua testa bonita franzida.

— Hmph. Se o Mil Truques está vindo para a linha de frente, devo presumir que não estamos lidando com uma maldição benigna?

— Fraco humano! Eu ouvi tudo sobre o que vocĂȘ tem feito! Senhor! Droga, o Festival do Guerreiro Supremo acabou de terminar, mas ouço dizer que vocĂȘ jĂĄ estĂĄ causando todo tipo de confusĂŁo!

No momento em que entrei em sua visĂŁo, Kris começou a me atacar. De forma diferente do normal, ela estava acompanhada pelos outros membros do seu grupo, e todos estavam lhe lançando olhares exasperados. Senti que era meu dia de sorte, por ver tantos EspĂ­ritos Nobres bonitos reunidos em um sĂł lugar. Os Ășnicos com quem eu realmente estava familiarizado eram Kris e Lapis.

— NĂŁo Ă© sempre que vocĂȘs ajudam em trabalhos como este — eu disse.

Todos os Espíritos Nobres tendiam a viver pelas suas próprias regras. Eles não se preocupavam com a autoridade e não estavam presos às mesmas restriçÔes que os humanos. Lapis inflou as narinas ao ouvir meu comentårio. Eu invejava sua capacidade de tornar até os movimentos mais casuais pitorescos.

— MaldiçÔes sĂŁo o nosso domĂ­nio — ela disse. — As maldiçÔes dos humanos sĂŁo brincadeira de criança comparadas Ă s nossas. Quando Lucia pediu nossa ajuda, eu dificilmente poderia recusar.

— Qual Ă©, fraco humano, nĂŁo me diga que vocĂȘ nĂŁo conhece a lenda da Pedra Espiritual Carmesim Amaldiçoada!

— Minha instrutora pediu minha ajuda — Lucia acrescentou. — Ela estĂĄ mais do que ocupada lidando com as consequĂȘncias da Árvore do Mundo Negro, entĂŁo eu acabei aqui. Certamente nĂŁo esperava encontrar vocĂȘ aqui.

Entendi, entendi. Lucia os arrastou junto.

Lapis e seu grupo estavam sendo incrivelmente maleĂĄveis. NĂŁo que fossem pessoas mĂĄs, mas eu estava disposto a apostar que mostrar suas habilidades para a igreja os ajudaria a se encaixar na sociedade humana.

— Ahhh, a lenda da Pedra Espiritual, a amaldiçoada. Sim, essa. Sim…

— Se vocĂȘ nĂŁo sabe, nĂŁo tente proteger seu estranho senso de orgulho! Senhor!

Sabe, hĂĄ algumas coisas que Ă© melhor nĂŁo sabermos.

Com uma voz melancĂłlica, Lapis dissipou nossa troca de palavras bobas.

— Recuperar a Pedra Espiritual Ă© algo que desejamos hĂĄ muitas eras. É uma das razĂ”es pelas quais deixamos a floresta. Pensamos que era possĂ­vel que este tumulto por causa de uma maldição pudesse estar relacionado Ă  nossa busca, mas parece que nĂŁo. A Pedra Espiritual nĂŁo Ă© algo que pode ser selado por mĂŁos humanas.

Ocorreu-me que Eliza havia mencionado uma vez que suas perambulaçÔes eram em parte porque ela estava procurando por algo. Talvez ela também estivesse procurando pela Pedra Espiritual.

Lucia pigarreou. Parecia que ela tinha se acalmado um pouco. — O ponto Ă©, lĂ­der, por favor, nĂŁo interfira.

Bem, sim, vocĂȘ nĂŁo precisa me dizer isso. E eu nĂŁo me lembro de ter tentado interferir.

Notei o elenco resplandecente que tínhamos para esta operação. Dava para perceber que a igreja estava determinada a não falhar. E assim que esse pensamento me ocorreu, ouvi mais um grito perplexo.

— K-Krai Andrey?! O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui? Eu nĂŁo pedi para vocĂȘ estar aqui!

Seguido por um grande grupo de cavaleiros e atraindo olhares do clero, estava um homem com quem eu me envolvi muito ultimamente. Ele parecia ter visto um fantasma. Os cavaleiros atrĂĄs dele usavam armaduras polidas e unificadas, que tinham um senso de ordem diferente do estilo puro da igreja.

— Ah. Franz. Yoohoo.

Oops. Eu acidentalmente o chamei com a maneira casual que eu usava na Pedra Sonora.

Franz marchou direto atĂ© mim, agarrou meu colarinho e começou a me sacudir para frente e para trĂĄs. — E o que poderia explicar mais uma aparição sua?! Que diabos estĂĄ acontecendo?! Algum palpite?! A profecia estĂĄ se referindo a uma maldição?! Desembucha logo!

Meus olhos pareciam que iam começar a girar. Ataques de balanço eram um dos poucos perigos contra os quais os Anéis de Segurança não protegiam.

Acho que ele nĂŁo gostou do “yoohoo” se estava reagindo tĂŁo fortemente a isso. Ele me disse para vir, agora estava reclamando que eu estava aqui. O que essas pessoas pensavam que eu era?

Por alguma razĂŁo, ninguĂ©m veio me salvar do empurrĂŁo de Franz. Eu nĂŁo esperava muito de Ark, mas atĂ© Lucia e Kris, pessoas que me ajudavam com bastante frequĂȘncia, estavam apenas me olhando com exasperação.

Ai, ai. NĂŁo me sinto bem. Sinto-me fraco.

— CapitĂŁo Franz, a conferĂȘncia estĂĄ prestes a começar.

— Tsk. Mil Truques, teremos uma longa conversa mais tarde! Sobre isso, e a Espada Demoníaca, e a academia!

Quando ele me soltou, eu tropecei e quase caí, mas me mantive de pé agarrando o cajado estendido de Lucia. Tudo isso quando eu tinha vindo aqui apenas para assistir um pouco.

— Franz tem algo contra mim?

— VocĂȘ mereceu. Senhor. Tenho certeza de que vocĂȘ Ă© responsĂĄvel pela maioria dos cabelos grisalhos dele!

Eu nĂŁo tinha certeza do que dizer. O EspĂ­rito Nobre nĂŁo-fraco cutucou meu ombro, enquanto Lucia olhava para mim acusadoramente.

Saibam que eu sou o irmão da Lucia! E o melhor amigo do Ansem! E o melhor amigo tanto da Liz quanto do Luke! Sabe, talvez seja natural que eu atraia tanta atenção.

— Agora, nĂłs tambĂ©m vamos — disse Gark, coçando a cabeça. — A igreja estĂĄ liderando esta operação.

— Tomem cuiiidaaado — eu disse.

— VocĂȘ estĂĄ vindo conosco!

Eu tinha alguns pensamentos próprios sobre isso, considerando que todos estavam acabando de perguntar por que eu estava aqui. Mas eu não vi que outras opçÔes eu tinha. Se eu não fosse para a reunião, eu poderia estar em perigo se algo acontecesse.

— Tudo bem, mas eu não vou dizer nada.

— Apenas venha!

A igreja na capital imperial havia sido reconstruĂ­da para acomodar o tamanho de Ansem. O salĂŁo que estava sendo usado como sala de conferĂȘncias tinha um teto alto o suficiente para ele caber facilmente e vinha com um assento especial sĂł para ele. Era a prova de que sua força e realizaçÔes nĂŁo passaram despercebidas.

NĂŁo se relacionava com seu trabalho como caçador, entĂŁo eu nĂŁo sabia muito sobre isso, mas aparentemente, ele havia feito um excelente trabalho em um incidente envolvendo alguĂ©m conectado aos escalĂ”es superiores da igreja. Ansem nĂŁo falava muito sobre si mesmo, entĂŁo quando eu vi o nome que ele estava fazendo para si, fiquei orgulhoso, aliviado e encorajado a tentar o meu melhor. Exceto que eu nĂŁo faria a Ășltima parte.

A conferĂȘncia começou em silĂȘncio. Tive a impressĂŁo de que o plano de purificar o Lamento de Marin era lĂłgico, baseado em nĂșmeros concretos. MaldiçÔes nasciam de sentimentos fortes. O poder de uma maldição podia ser influenciado pela circunstĂąncia e pelas capacidades do conjurador, o que as tornava passĂ­veis de desafiar as expectativas. Esse poder tambĂ©m era conhecido por se degradar com o tempo.

As tĂ©cnicas de selamento da Igreja do EspĂ­rito Radiante foram desenvolvidas com a intenção de purificar uma maldição assim que ela fosse enfraquecida. O plano deles envolvia medir a força do Lamento de Marin com base na destruição que havia causado no passado, consultar os registros de inĂșmeras outras maldiçÔes para estimar o poder atual de Marin e, finalmente, atacĂĄ-lo com uma força mais forte do que essa estimativa.

Em todos os aspectos, eles haviam reunido poder de fogo mais do que suficiente para dominar Marin se ele permanecesse em perfeitas condiçÔes. Houve uma explicação detalhada das técnicas envolvidas, que foram além da minha compreensão, mas eu não ia reclamar disso.

Eu tive minhas dĂșvidas quando ouvi pela primeira vez que a igreja planejava liberar uma maldição e purificĂĄ-la em resposta Ă  profecia, mas agora eu entendia por que o impĂ©rio estava tĂŁo disposto a permitir isso. Quando vocĂȘ adicionava Ark, Lucia, os membros da Starlight e mais, o fracasso parecia impossĂ­vel. Caramba, eu nĂŁo tinha certeza se vocĂȘ conseguiria uma equipe melhor se tentasse. VocĂȘ poderia chamar Luke, mas maldiçÔes provavelmente nĂŁo eram algo que pudessem ser cortadas.

Assim que o båsico foi explicado, o padre idoso na cabeceira da mesa se levantou e começou a falar. Seu nome era Edgar, e ele supervisionava as igrejas na capital imperial e havia feito muito por Ansem. Seu olhar era plåcido como a superfície de uma praia matinal. Ele tinha o rosto de alguém que não faria mal a uma mosca, mas me disseram que ele jå foi um Paladino capaz.

— Reunimos aqui o melhor que a capital imperial tem a oferecer — ele disse. — Com a ajuda de cavaleiros, a Associação de Caçadores, Magos da Academia de Magia de Zebrudia e mais, acredito que Ă© bastante improvĂĄvel que a purificação falhe. AlguĂ©m tem alguma ressalva?

Sua voz tinha aquela indiferença que vocĂȘ via em pessoas que trabalhavam em funçÔes eclesiĂĄsticas. Ele meio que me lembrava Sora, a Sacerdotisa da Raposa Sagrada, mas era difĂ­cil imaginar que esse cara fosse incompetente. Ele nĂŁo era como aquele falso orĂĄculo.

Eu assenti sem realmente pensar, quando de repente, Franz se levantou de seu assento ao longo da parede esquerda. Todos os olhos se voltaram para ele.

— Entendemos como isso vai se desenrolar — ele disse com uma voz que se propagava bem. — No entanto, eu gostaria de solicitar uma camada extra de precaução por precaução. Pessoal extra, ou talvez preparativos para resselar a maldição caso a purificação falhe.

— Garantimos uma força que excede atĂ© mesmo a força estimada mais alta da maldição — disse Edgar com uma careta. — HĂĄ algo que o deixa incerto?

Edgar olhou para Franz com os olhos semicerrados. Os outros padres ficaram inquietos, pegos de surpresa pelo pedido de Franz. Era difícil imaginar muitas pessoas além de Franz sendo capazes de falar em uma sala como esta. Eu não entendi tudo, mas acho que havia alguma falha no plano?

Por alguma razão, Franz olhou para mim, um sorriso se formando. — É uma preocupação menor, mas não tem faltado caos ultimamente. É do melhor interesse de Zebrudia que não tenhamos mais confusão.

Barreiras eram usadas em locais como a arena do Festival do Guerreiro Supremo. Eram uma forma de magia onde quanto mais potente o feitiço, mais tempo levava para ser preparado.

Utilizando mĂșltiplos catalisadores raros, vĂĄrios padres passavam horas colocando uma barreira. Era um trabalho intrincado onde era melhor ter um grupo com um nĂ­vel de habilidade mĂ©dio decente, em vez de apenas um conjurador excepcional. Neste campo, os padres superavam em muito os caçadores.

Movendo silenciosamente as mãos, os padres da Igreja do Espírito Radiante continuavam seu trabalho. Eles estavam utilizando um círculo mågico de barreira em camadas, uma nova técnica que aprimorava a eficåcia através da construção de um objeto tridimensional, em vez dos métodos usuais de desenhar em uma superfície plana. A desvantagem era que a construção exigia catalisadores maiores, mais tempo e habilidades técnicas mais elevadas, mas esta não era a hora de se preocupar com coisas assim.

Eu sabia muito sobre Relíquias, mas não estava nem perto de ser tão familiarizado com maldiçÔes. Achei a explicação da igreja incrivelmente fascinante. Por exemplo, eu não sabia que as maldiçÔes podiam fazer mais do que apenas levar as pessoas à loucura; elas também podiam formar corpos próprios.

O plano era simples. O Lamento de Marin seria deslacrado no círculo mågico em camadas. Uma vez que a maldição fosse enfraquecida pelas barreiras e pelos ataques de além das barreiras, os padres usariam um ritual divino para purificar e apagar a maldição em sua totalidade.

Forçando-me a parecer que sabia o que estava acontecendo, observei o espaço ritual e vi os reforços de Franz chegarem pelo grande portão. Os recém-chegados não eram os cavaleiros habituais de espada e escudo. Eles vestiam armaduras prateadas e carregavam armas de fogo, algumas grandes o suficiente para exigirem as duas mãos para serem carregadas.

As armas eram menores do que as que os cavaleiros lobos no Covil do Lobo Branco tinham, mas seus canos longos e estreitos me diziam que essas coisas eram de Ășltima geração. Havia vinte e cinco cavaleiros no total. Os padres começaram a zunir quando viram os estranhos cavaleiros. Enquanto isso, Franz olhou para mim, dando-me um sorriso quase vilanesco.

— Hmhmhm. Essa Ă© uma unidade experimental. Essas armas usam balas de prata talismĂąnicas, podem disparar atĂ© cinquenta projĂ©teis em um segundo, e nĂŁo sĂŁo baratas. Eu pensei que o Instituto Primus estava jogando dinheiro fora quando desenvolveram essas coisas, mas acho que vocĂȘ nunca sabe o que pode ser Ăștil! Com isso, essa maldição estĂĄ praticamente morta, Mil Truques!

— Fraco humano, presumo que vocĂȘ fez algo com Franz enquanto eu nĂŁo estava olhando? Senhor?

— Que deselegante. Humanos são tão bárbaros.

O que diabos o império estå fazendo, criando esquadrÔes de fuzilamento com balas de prata?

Armas de fogo nĂŁo eram uma forma de arma muito popular. A razĂŁo para isso era simples: Fantasmas e monstros geralmente nĂŁo podiam ser parados por algumas balas. Era mais rĂĄpido para um caçador aprimorado por material de mana atingi-los, e usar pĂłlvora para disparar um projĂ©til era muito lento para caçadores e monstros poderosos. AlĂ©m disso, quando vocĂȘ adiciona a possibilidade de ficar sem munição, nĂŁo era de admirar porque nĂŁo eram difundidas. E se essas balas eram de prata, usar essas armas devia ser ridiculamente caro.

Estranhamente confiante, Franz sinalizou para os cavaleiros entrarem em formação. Movendo-se em perfeita sintonia, o esquadrão se dividiu em dois e formou linhas fora do círculo mågico. Eles estavam montando um fogo cruzado, os maníacos sedentos por sangue.

ApĂłs repetidas rodadas de discussĂ”es, a conferĂȘncia terminou com a opiniĂŁo de Franz sendo aceita. Isso foi em parte porque esses caras eram uma ordem oficial de cavaleiros, e tambĂ©m porque Gark ofereceu seu apoio Ă  ideia. Considerando que os padres deveriam ser as figuras centrais nesta operação, eu nĂŁo tinha certeza de onde vinha o entusiasmo de Franz.

— Tudo porque nosso líder está sempre dizendo coisas que não deveria — disse Lucia com um suspiro.

— Dado o que estamos enfrentando, não acho que possamos ser cautelosos demais — respondeu Ark.

— Sim, vocĂȘ estĂĄ certo, Ark — eu disse. Eu cruzei os braços e assenti. Meu senso de segurança estava disparando. — NĂŁo faz mal ser cauteloso.

Fui recebido com silĂȘncio. Eu realmente gostaria que eles parassem de ficar tĂŁo estranhos toda vez que eu dizia algo.

No momento seguinte, Ansem e vĂĄrios padres saĂ­ram do prĂ©dio da igreja e se juntaram a nĂłs. VocĂȘ podia realmente ver o quanto Ansem se destacava na multidĂŁo. Apenas ao caminhar, ele sacudia o chĂŁo. Edgar foi direto para Franz, e alguns padres colocaram uma caixa na frente dele. Eu dei um passo para trĂĄs, com medo de que o item amaldiçoado estivesse lĂĄ dentro, mas nĂŁo era o caso.

— Inicialmente, nĂŁo tĂ­nhamos planos de usar isso — disse Edgar com um dedo severo diante dos lĂĄbios — mas esta Ă© uma RelĂ­quia que a igreja tem mantido em estoque. Isso deve aliviar algumas de suas preocupaçÔes, CapitĂŁo Franz — ele disse ao abrir a caixa.

Quando eu vi, meus olhos saltaram e soltei um suspiro.

— Isso Ă©…

LĂĄ dentro havia uma corrente com um lustre de mĂșltiplas cores. Era tĂŁo grossa quanto meu polegar, mas longa o suficiente para preencher a caixa. O tipo corrente era uma das categorias mais diversas de RelĂ­quias. Eu tinha algumas delas na minha coleção. Havia muitas coisas que um item tipo corrente podia fazer, mas o timing significava que isso era quase certamente
.

— É conhecida como Pilar de Luz. É uma corrente feita de luz e funciona atĂ© mesmo em entidades incorpĂłreas. Com sua capacidade de prender qualquer alvo, Ă© uma peça especial, mesmo entre nossa coleção.

— Oooh. NĂŁo Ă© sempre que vocĂȘ vĂȘ uma corrente que realmente prende coisas.

Isso me rendeu alguns olhares.

Veja bem, muitas Relíquias de corrente eram itens de brincadeira. Se alguma coisa, por haver tantos tipos, as funcionais eram bem incomuns. Minha Corrente Perseguidora era uma coisa triste que, embora pudesse perseguir e prender inimigos, qualquer um com um pouco de força podia se libertar ou quebrå-la. Acho que isso ainda a colocava acima de uma Corrente Gato, que nem sequer perseguia alvos.

Assim que tive permissĂŁo, toquei na corrente e a levantei. Ela tinha um peso considerĂĄvel para algo tĂŁo fino. Eu tinha certeza de que era feita de metal, mas parecia lisa como seda. SĂł isso jĂĄ deixava claro que esta era algo que nossa tecnologia nĂŁo conseguia replicar.

— LĂ­der, vocĂȘ descobriu alguma coisa? — Lucia me perguntou.

Serå que consigo negociar através do Ansem para comprar isto? Não?

Era uma corrente bem longa. Segurando-a, eu podia ver a luz atravĂ©s dela. Franzi a testa enquanto a examinava. Embora eu pudesse parecer firme e resoluto, eu nĂŁo estava tendo um Ășnico pensamento produtivo.

A beleza da corrente era cativante. Seus poderes não pareciam particularmente interessantes, mas não era bem assim que eu decidia o valor de uma Relíquia. Eu simplesmente gostava de Relíquias, e esta corrente não estava na minha enciclopédia.

QuĂŁo longa Ă© essa coisa?

Se estivĂ©ssemos em um ambiente privado, eu teria feito algo como pegar uma ponta e enrolĂĄ-la em Lucia, mas eu pelo menos tinha a consciĂȘncia de perceber que esta nĂŁo era a hora para isso. Eu queria olhar mais um pouco, mas a coloquei de volta relutantemente e soltei um suspiro. Deixe para a Igreja do EspĂ­rito Radiante, que abrange o mundo, ter algo tĂŁo interessante.

— Mmm. Isso parece bom — eu disse. — Temos força suficiente? Eu diria?

— Por que isso foi uma pergunta? — Lucia perguntou.

Tínhamos vårios padres e caçadores de primeira linha. Uma unidade experimental que podia chover balas de prata, e uma Relíquia de corrente. Nossas fileiras eram inquebråveis.

— Há tão pouco para me deixar incomodado, que isso realmente está me incomodando.

— VocĂȘ pode dizer algo que nĂŁo seja bobagem? Senhor?

Kris sĂł estava dizendo isso porque nĂŁo conhecia o meu eu habitual. Proteger o imperador foi apenas um pequeno capĂ­tulo no livro de casos de Krai Andrey.

Edgar assentiu algumas vezes, notando todas as pessoas olhando para nós. — Agora que nos foi dada a aprovação do Mil Truques, vamos começar os preparativos. Ansem.

A menos que eu estivesse apenas imaginando coisas, o grunhido de Ansem era mais profundo do que o normal.

Agora, eu vou para um local seguro e assistir um pouco.

— Hmph. Que assunto mesquinho. Eu tive minhas dĂșvidas, mas suponho que nĂŁo apareceria tĂŁo facilmente.

A lĂ­der da Starlight, Lapis Fulgor, estava murmurando descontente enquanto observava o ritual prosseguir. Ao ouvi-la, Kris olhou fascinada.

— Mas Ă© bem interessante. Madame. VocĂȘ nunca veria armas como aquelas sendo usadas em uma maldição na floresta.

— É bĂĄrbaro. Eles estĂŁo enfrentando uma maldição, caso vocĂȘ tenha esquecido. Embora eu suponha que essas coisas possam funcionar contra uma produzida por um humano.

Mesmo os EspĂ­ritos Nobres geralmente sabiam da Igreja do EspĂ­rito Radiante. A magia que eles usavam era diferente da dos EspĂ­ritos Nobres, mas o EspĂ­rito Radiante que eles adoravam era claramente poderoso. Havia tambĂ©m situaçÔes em que os poderes do EspĂ­rito Radiante eram mais Ășteis do que os dos EspĂ­ritos Nobres. O feitiço que eles estavam preparando nĂŁo era familiar para Kris e Lapis, mas elas nĂŁo tinham dĂșvidas quanto Ă  sua função.

Não se sabia o quão fortes eram as energias malignas do Lamento de Marin, mas havia um grau de sensatez nos cålculos da igreja. Se Lapis e seus parentes estivessem realizando isso, eles teriam tomado um caminho que se inclinasse um pouco mais para a força individual, mas isso era uma questão de diferenças culturais. Não havia necessidade de intervir por algo tão pequeno.

Ainda assim, elas ficaram desapontadas quando se tratou de seu objetivo real. A profecia havia alimentado suas esperanças.

Kris piscou enquanto observava atentamente o ritual avançar. — Talvez realmente não esteja entre os humanos. Madame.

— Foi definitivamente levada por um humano. Ela anseia por sangue humano.

— Isso foi há mais de mil anos. Madame. E não causou nenhum dano recentemente.

A lenda da Pedra Espiritual Carmesim Amaldiçoada era conhecida até mesmo entre os humanos. No entanto, não muitos deles sabiam que não era uma lenda, mas algo que realmente existia. Isso porque os Espíritos Nobres não estavam dispostos a falar sobre isso e os humanos viviam vidas muito curtas.

Hå muito tempo, quando ainda existia um laço de amizade entre a humanidade e os Espíritos Nobres, uma grande guerra eclodiu entre os dois. Uma floresta foi queimada, a rainha dos Espíritos Nobres foi morta, e a prova de sua estatura, a Pedra Espiritual Carmesim, foi roubada. A inimizade extrema transformou aquela pedra em algo amaldiçoado.

Agora imbuĂ­da de uma maldição por sangue real, a pedra passou de dono para dono. Em seu rastro, ela deixou uma trilha de cadĂĄveres humanos que superava o nĂșmero de EspĂ­ritos Nobres que haviam sido mortos pela humanidade. AtĂ© os dias atuais, a pedra continuava a viajar por aĂ­.

Um Espírito Nobre nunca mataria um dos seus por causa de um tesouro. Eles conheciam a força de vontade encontrada naqueles que não estavam longe da morte. Este era exatamente o tipo de tragédia que um humano cobiçoso causaria.

Com o passar dos anos, a guerra entre os humanos e os Nobres chegou ao fim. Era difícil dizer que as duas raças estavam em boas condiçÔes agora, mas havia Espíritos Nobres descendo para os assentamentos humanos. Mas a pedra roubada ainda estava perdida. O retorno de sua joia era algo que todos os Espíritos Nobres ansiavam.

— VocĂȘ acha que ele simplesmente desapareceria por conta prĂłpria? — Lapis bufou para o pensamento ingĂȘnuo de Kris. — Nossas vidas sĂŁo longas, assim como nosso rancor. As energias malignas naquela pedra sĂŁo como o desejo em forma.

Um desejo que nĂŁo seria saciado. O ressentimento contra aqueles incendiĂĄrios nĂŁo desapareceria mesmo se milhares e milhares deles fossem mortos. Para purificar essa mĂĄ vontade seria necessĂĄria a destruição ou a negociação; a interferĂȘncia de fora era impossĂ­vel. Algo como a purificação que estava sendo realizada no Lamento de Marin jamais funcionaria.

— Hm. Imagino que se acabasse nas mĂŁos da igreja, eles nos devolveriam. Eles sabem o quĂŁo perigoso Ă©.

Se nĂŁo causou nenhum dano recentemente, foi porque um selo provavelmente havia sido colocado nele. Mas a Pedra Espiritual nĂŁo era algo que pudesse ser mantido Ă  distĂąncia tĂŁo facilmente.

— Mas — disse Kris —, todos nĂłs procuramos por anos sem encontrĂĄ-lo, entĂŁo provavelmente nĂŁo vai simplesmente aparecer
 Ah! O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aĂ­ em cima?! Senhor?!

A voz de Kris mudou instantaneamente de séria para perplexa. No topo de um grande arco, o Mil Truques estava sentado como um ornamento, com as pernas balançando para o lado. Ele olhou para Kris enquanto ela agitava os braços para ele.

— Pensei que teria uma boa vista daqui — ele disse casualmente.

— Pare de brincar! Senhor! Todos estĂŁo levando isso a sĂ©rio, e isso deveria incluir vocĂȘ! NĂŁo Ă© Ă  toa que Franz estĂĄ sempre…

Aquele homem. Duvido que ele saiba alguma coisa sobre o que estĂĄ acontecendo.

Aquele era um olhar de genuína confusão que ele usava quando Kris mencionou a Pedra Espiritual. Parecia que mesmo um caçador de Nível 8 não podia ser bom em tudo. Honestamente, por que Eliza, a Andarilho, o achava tão agradåvel de ter por perto?

Vårias pessoas da igreja entraram carregando uma caixa firmemente presa por correntes. Deve ser isso que eles usavam para guardar o Lamento de Marin. Eles colocaram a caixa no centro do círculo mågico, não muito longe de Lapis e seu grupo. Vendo os humanos ficarem tensos, Lapis descruzou os braços.

Não era o que ela esperava, mas ela pensou que poderia aproveitar esta chance para observar uma maldição feita por um humano.

Havia uma tensĂŁo palpĂĄvel no pĂĄtio. O cĂ­rculo mĂĄgico no chĂŁo estava cercado por cavaleiros, caçadores e padres. Apesar desses preparativos extensivos, eles nĂŁo demonstravam qualquer indĂ­cio de complacĂȘncia. Embora ela tivesse acabado de reclamar sobre isso e aquilo, Kris estava de volta com o resto de seu grupo, focada no cĂ­rculo.

Eu observava tudo isso do alto do portão, onde estava empoleirado em um ornamento, com as pernas balançando para o lado. Eu exibia um sorriso firme e resoluto. Embora eu tivesse pedido a Lucia para me colocar aqui para que eu pudesse ter uma vista literal de påssaro, também era porque este era o melhor lugar para ficar fora do caminho. Lå embaixo, uma bala perdida poderia vir em minha direção, e eu não queria ser uma possível barreira para a purificação.

O círculo mågico de barreira em camadas consistia em um círculo mågico desenhado no chão cercado por treze pilares. Pelo que entendi, esses pilares adicionavam uma dimensão extra ao círculo porque tinham palavras mågicas gravadas neles. Eles eram grossos o suficiente para eu mal conseguir abraçar um, o que me fez pensar que não seriam fåceis de desmoronar. As lacunas entre eles eram grandes o suficiente para Ansem passar, mas do meu ponto de vista, o círculo ainda parecia uma cela de prisão.

— Que ritual elaborado…

Muito bom. Muito bom. Pensando bem, faz um tempo que nĂŁo consigo assistir a uma das lutas de Ansem ou Ark.

Ao comando do Padre, a caixa envolta em correntes foi colocada no centro do cĂ­rculo mĂĄgico. Eu peguei meu Smartphone e tirei uma foto, depois a enviei para a IrmĂŁzinha Raposa. “Itens Amaldiçoados AGORA”, eu escrevi.

— Iniciaremos agora a purificação do Lamento de Marin. Lembrem-se de seguir o plano, todos.

O Padre de repente olhou para cima, fazendo contato visual comigo. Eu lhe dei um sorriso sem sentido, mas significativo, e então assenti, pretendendo transmitir minha gratidão por todos os seus esforços por Ansem. Os olhos do Padre se arregalaram.

Então os padres cercando os pilares levantaram os braços em uníssono. Então eu senti: uma onda de energia emitida do centro do círculo. Os pilares ficaram conectados por uma rede de raios, e um padrão bizarro flutuou no ar. Círculos mågicos eram uma forma de magia que utilizava uma forma de escrita, por assim dizer. Em outras circunstùncias, eu teria achado a paisagem de outro mundo cativante.

Fora do círculo, Ansem esperava, imóvel como uma rocha. O selo ainda não tinha sido quebrado, mas a caixa começou a tremer, suas correntes chacoalhando. Era uma visão estranha, a maneira como ela se movia, quase como se estivesse se contorcendo de dor.

— Armas prontas!

Ouvindo a ordem de Franz, os cavaleiros levantaram suas armas. Quase como um coral, os padres começaram a entoar um encantamento, e os caçadores entraram em posiçÔes de combate. Parecia que o inferno poderia se soltar a qualquer momento. O Ășnico que nĂŁo estava se preparando era eu. Mas eu mantive meu sorriso.

O Padre levantou um cajado e gritou com uma voz que se propagava: — Liberem o selo.

Quase como se estivesse esperando por aquele momento, as correntes que selavam a caixa se partiram de uma vez. A atmosfera santificada da igreja desapareceu em um instante. Quando a caixa se abriu, foi acompanhada por um grito arrepiante, como o lamento melancĂłlico de uma mulher morrendo.

Da minha perspectiva de cima, eu vi — ou melhor, vislumbrei — algo encharcado de sangue. No mesmo momento, os padres começaram a recitar oraçÔes. A caixa foi envolvida em luz dourada, e chamas alcançaram o teto. Um grito inaudĂ­vel, muito maior do que o primeiro, sacudiu o chĂŁo. O brilho e o calor das chamas purificadoras forçaram os cavaleiros e caçadores a recuar.

O plano era que a purificação começasse de verdade assim que a maldição tivesse sido enfraquecida pelo cĂ­rculo, mas eu nĂŁo tinha tanta certeza de que essa coisa estava enfraquecendo. Assim como eles disseram, a maldição se assemelhava a uma mulher. Eu digo “assemelhava” porque seus olhos, nariz, rosto, cabelo, corpo, tudo estava envolto em preto e se desfazendo. Parecia exatamente como eu esperava que um espĂ­rito dos mortos fosse, mas eu nĂŁo tinha ideia se essa era a forma normal dela ou se as chamas tinham algo a ver com isso.

Mantendo sua forma apesar das chamas, a maldição esticou a cabeça para fora da labareda. Como se tivesse antecipado isso, Ark direcionou sua lùmina para ela. Tudo parou por um momento. O barulho, o tremor, tudo desapareceu por um instante. Eu nem conseguia ouvir os encantamentos.

O raio azul disparado da ponta da espada de Ark perfurou o Lamento de Marin. A boca da garota se abriu. Seus longos braços se debateram em dor, mas foram desviados pelo relùmpago que corria entre os pilares.

Nós tínhamos facilmente a vantagem. Nesse ritmo, a purificação estaria completa antes que Ansem tivesse que fazer qualquer coisa. As barreiras cuidadosamente estabelecidas não pareciam que iriam quebrar facilmente. Parecia que muitos de nós seríamos desnecessårios. Kris estava até fazendo uma careta e cobrindo os ouvidos.

Mas foi entĂŁo que Franz gritou com uma voz que se igualava ao trovĂŁo ribombante.

— NÃO BAIXEM A GUARDA! FOGO!

— Que lunĂĄtico…

Ao comando de Franz, todos os cavaleiros começaram a disparar. O påtio foi abalado por uma cacofonia violenta de um tipo diferente da do relùmpago de Ark. Tiros eram algo que até caçadores raramente ouviam.

As armas produzidas pelo Instituto Primus liberaram uma tempestade de balas. Liberar cinquenta tiros por segundo parecia induzir um bom recuo, empurrando os canos para longe de seu alvo. Mas a precisĂŁo nĂŁo significava nada quando vocĂȘ podia fazer chover balas. Eu estava boquiaberto com o clarĂŁo do tiro e o combate muito pouco cavalheiresco. Franz, no entanto, parecia estar se divertindo.

— Ha ha ha! Que tal isso, Mil Truques?! Esta Ă© a força dos cavaleiros de Zebrudia!

NĂŁo, de jeito nenhum vocĂȘ pode chamar isso de “isso”.

Parecia que eles estavam pelo menos fazendo o mĂ­nimo e nĂŁo atirando nos pilares. A barragem de balas rasgou o Lamento de Marin e a caixa de onde ela havia emergido. Sua figura translĂșcida e em chamas voou para trĂĄs. Ela era incorpĂłrea, mas como Franz havia dito, as balas ainda estavam infligindo dano.

Seu rosto carbonizado se contorceu em agonia, seu corpo não mais escondido pelas chamas. Ao contrårio das minhas expectativas, ela parecia uma criança, humana. Eu tinha ouvido que a fonte do Lamento de Marin era uma garota chamada Marin, mas eu não tinha percebido que as maldiçÔes podiam tomar a forma do que as havia gerado. Ela parecia frågil à primeira vista, mas isso tornava ainda mais aterrorizante pensar que ela havia consumido os coraçÔes de milhares de pessoas e destruído mais do que algumas cidades.

Ei, isso nĂŁo Ă© um pouco overkill?

— Isso Ă© terrĂ­vel, Ă© como se estivĂ©ssemos implicando com um fraco — eu disse para mim mesmo.

— LĂ­der, isso Ă© uma maldição! — minha irmĂŁ retrucou enquanto me olhava com raiva. Ela ainda nĂŁo teve a chance de ajudar.

Acho que caçadores temíveis não eram facilmente influenciåveis.

Perto dali, Lapis franziu sua bela testa enquanto ela e seu grupo assistiam. — Hmm. Nada mal para algo que ganhou forma por humanos. Algo verdadeiramente maligno deve ter ocorrido.

— Isso explica por que a igreja colocou tanto esforço em seus preparativos. Madame.

Lapis nĂŁo era surpresa, mas se alguĂ©m tĂŁo gentil quanto Kris estava chegando Ă  mesma conclusĂŁo, entĂŁo eu comecei a me sentir como um idiota por pensar que isso era apenas bullying. Lembrei-me de ter ouvido que alguns fantasmas podiam se disfarçar de fracos e atacar quando vocĂȘ baixava a guarda. Talvez vocĂȘ nĂŁo pudesse se tornar um caçador se permitisse ser enganado pelas aparĂȘncias.

— Oh. É realmente tão poderosa?! — eu disse.

— Poupe-me do escĂĄrnio. NĂŁo Ă© nada comparado a vocĂȘ — disse Lapis com um olhar glacial.

Isso foi um elogio que acabei de ouvir?

Sendo atingida por ataques ferozes, Marin foi jogada pelo círculo e ricocheteou nas barreiras como uma bola de borracha. Todo o tempo gasto trazendo os pilares e gravando-os parecia ter valido a pena. Eu estava começando a pensar que a corrente não seria necessåria.

— Está enfraquecendo! — Gark gritou, parado não muito longe dos caçadores. — Está funcionando! Só mais um pouco!

O fervor violento dos cavaleiros e dos padres significava que Ark era o Ășnico caçador que teve a chance de fazer algo. NĂłs realmente tĂ­nhamos poder de fogo mais do que suficiente. EntĂŁo eu tive uma ideia: se eu tentasse bancar o advogado do diabo aqui, talvez eu pudesse manchar minha reputação como um artĂ­fice sobre-humano.

Cara, eu estou pegando fogo hoje.

— Hm. Não tenho tanta certeza disso — eu disse.

— VocĂȘ pode parar com isso?! Senhor?!

— Ouça-me, podemos realmente ver algo interessante.

— Ah, seu fracasso humano!

Na época em que eu ainda estava tentando cumprir meu papel como líder de grupo, eu sempre tentava me exibir dessa forma. Desnecessårio dizer, não era nada mais do que uma fachada, pois mesmo naquela época, eu não era capaz de muita coisa.

Marin arranhou a cabeça e soltou um lamento triste digno de seu nome. Era um aglomerado de todas as emoçÔes negativas. Era um grito sem som e sem significado, mas a emoção, o impulso assassino, era muito aparente. Mesmo através da barreira, era poderoso o suficiente para gelar meu coração.

Chamas sombrias irromperam de seu pequeno corpo. Elas consumiram as chamas douradas, desviaram os raios e incineraram as balas que se aproximavam. Ainda assim, mesmo uma arma de bruxa que havia devorado incontåveis vidas não era pårea para o auge das técnicas da igreja. Envolta em chamas, Marin bateu contra a borda da barreira, mas ela poderia muito bem ter estado batendo em uma parede.

Os pilares tremeram e suas bases ficaram enegrecidas, mas as chamas permaneceram firmemente dentro dos limites da barreira. Os padres disseram que consultaram registros para estimar seu poder, e parecia que seus cålculos estavam corretos. As chamas negras começaram a regredir gradualmente. A maldição estava enfraquecendo, exatamente como a igreja havia previsto.

Entre a barreira, o relùmpago e as balas, eu não sabia o que estava funcionando e o que não estava, mas isso era o suficiente para matar um dragão. Talvez decidindo que Marin havia sido enfraquecida o suficiente, Edgar se virou e disse algo a Ansem. Isso significava que era hora da purificação.

Mesmo que tivesse sido enfraquecida, eu tinha a impressão de que eliminar uma maldição inteiramente era uma coisa bem difícil. Especialmente quando se tratava de algo de uma magnitude como o Lamento de Marin, até a Igreja do Espírito Radiante teve que usar seus melhores milagres. Isso me dizia que eu deveria me orgulhar por Ansem ter sido selecionado para desempenhar um papel importante.

Ansem assentiu para o Padre e entĂŁo entrou na barreira. Ele foi o primeiro a fazĂȘ-lo desde que os ataques começaram.

Ansem Smart, o ImutĂĄvel, era considerado o melhor Paladino na capital imperial. Todos, exceto eu, nos Grieving Souls tinham algum aspecto em que eram insuperĂĄveis. No caso de Ansem, isso seria provavelmente sua imensa resiliĂȘncia.

Sua estatura gigante o tornava mais resistente do que aço; ele podia curar e defender com os poderes do EspĂ­rito Radiante, e tinha alto material de mana. Nenhum ataque podia afetĂĄ-lo. Ele era o ImutĂĄvel. Essa resiliĂȘncia se aplicava naturalmente a ataques fĂ­sicos, mas tambĂ©m a todo o resto, incluindo ataques mĂĄgicos, mudanças ambientais, venenos, paralisantes, outras drogas, doenças e atĂ© mesmo maldiçÔes.

Temperado pelos venenos de Sitri, pelos feitiços de Lucia, pelas espadas de Luke, pelo egoísmo de Liz, pelo espírito livre de Eliza e pelos meus raios, Ansem tinha todos os perigos sob controle. Mesmo diante de uma maldição extraordinariamente perigosa, ele avançou sem medo ou hesitação.

Quando ele passou corajosamente pela barreira, Marin virou seus olhos selvagens em direção a ele. As chamas sombrias que queimavam seu corpo atacaram Ansem. No entanto, essa manifestação de malĂ­cia nem sequer o abalou. Ele avançou, nĂŁo se intimidando com as energias malignas atacando seu corpo, fazendo Marin recuar pela primeira vez. Ela deve ter percebido o imenso poder alojado em seu corpo. Essa arma de bruxa, capaz apenas de lançar angĂșstia, reteve vestĂ­gios de uma vontade?

Infelizmente para ela, a årea do círculo não era tão ampla que ela pudesse escapar de Ansem. Ela rapidamente se viu de costas para uma parede. Sem ter para onde correr, Marin soltou um grito excepcionalmente alto. Ansem começou a estender o braço. Tudo o que restava era que os milagres da igreja purificassem esta arma lamentåvel forjada a partir da natureza vil da humanidade.

Ou assim pensĂĄvamos.

Os ombros de Ansem tremeram, e seu braço parou de repente. Todos os padres ofegaram e encararam em choque. Percebendo que a situação havia mudado, Franz perdeu a atitude arrogante com que havia comandado seus cavaleiros. Agora seus olhos estavam arregalados o måximo que podiam.

— O-O quĂȘ? O que diabos Ă© isso — nĂŁo, quando foi que isso chegou lĂĄ?

Em algum momento, uma figura estranha começou a se contorcer no espaço entre Ansem e Marin. A figura era preta. À primeira vista, parecia um aglomerado, mas então se desenrolou, levantou-se e ficou claro que era um humanoide. Era um cavaleiro. Era a silhueta de um cavaleiro, cada centímetro envolto em preto. Era um înix inquietante que engolia a luz, como se um buraco tivesse se aberto no mundo. No brilho intenso do círculo mágico, eles eram impossíveis de ignorar.

Talvez a mais confusa de todas fosse o alvo da purificação: Marin. O que era apenas uma silhueta instantaneamente ganhou textura e profundidade. Num piscar de olhos, uma mera sombra havia se tornado um cavaleiro negro terrível.

O cavaleiro parou na frente do Lamento de Marin e desembainhou uma espada, quase como se para protegĂȘ-la. O enegrecimento dos pilares acelerou.

— Um poder desconhecido?! — Edgar gritou. — Destruam-no!

— FOGO! MATEM-NO!

Tendo parado para a purificação, o tiroteio foi retomado. Balas de prata lacraram o interior do círculo.

A igreja havia considerado todos os tipos de contingĂȘncias ao planejar esta operação. Para citar algumas, eles consideraram o que poderia acontecer se o Lamento de Marin fosse mais forte do que o previsto, ou o que fazer se Ansem ficasse incapacitado. No entanto, dificilmente se poderia culpĂĄ-los por nĂŁo considerarem a possibilidade de reforços se manifestarem. Uma maldição que havia sido selada por anos nĂŁo poderia possivelmente ter aliados e, a pedido de Franz, havia cavaleiros de plantĂŁo para impedir que alguĂ©m entrasse pelo lado de fora.

O corpo titùnico de Ansem era como uma parede. Para qualquer pessoa no chão, era provavelmente difícil saber o que estava acontecendo. Mas, ironicamente, estar sentado no topo do ornamento do portão me permitia ver a situação em que ele estava.

O Padre chamou-o de um poder desconhecido, mas isso nĂŁo estava certo. Eu tinha visto claramente. Eu nĂŁo pude evitar esfregar os olhos.

Aquele cavaleiro. Ele veio do pingente que Sitri nos deu. Oh, isto Ă© um pesadelo?

O cavaleiro enfiou sua espada no chão. Algum tipo de líquido preto semelhante a sangue jorrou da superfície, formando uma cortina. Por algum poder misterioso, as balas vindo de ambos os lados ricochetearam no líquido em erupção. O queixo de Franz caiu de forma pouco lisonjeira.

Então Ansem soltou um rugido ao avançar, com o punho levantado.

Era a forma mais primitiva de conjuração de feitiços do mundo.

Tradicionalmente, magia era o uso de mana para alimentar passos prescritos que causavam fenĂŽmenos. Os passos podiam envolver sons, escrita, gesticulaçÔes e respiração. No entanto, uma porcentagem muito pequena de pessoas podia induzir fenĂŽmenos apenas pensando. Aqueles com a aptidĂŁo certa podiam usar essa magia primitiva. Ela era Ășnica em sua falta de classificação, poderosa porque apenas certas pessoas podiam usĂĄ-la e impossĂ­vel de controlar.

Capazes de Ă s vezes causar danos generalizados independentemente da vontade de alguĂ©m, as pessoas as consideravam com medo como “maldiçÔes”, e aqueles que as usavam intencionalmente eram chamados de XamĂŁs, para distingui-los dos Magos.

Ela era a inimizade temível nascida da pesquisa de um Xamã deploråvel. Medo, rancor, inveja, raiva, agonia, intenção assassina. As emoçÔes fortes que produziam maldiçÔes eram frequentemente negativas.

O XamĂŁ reuniu qualquer pessoa que pudesse, contanto que tivessem a aptidĂŁo certa, homens e mulheres, jovens e velhos, e nĂŁo lhes deu escolha a nĂŁo ser matar uns aos outros. Eles foram deixados no escuro, sem outras opçÔes de sobrevivĂȘncia. Sangue deu lugar a mais sangue, rancor convidou mais rancor, e desejos assassinos tomaram forma.

EntĂŁo, quando a Ășltima pessoa em pĂ©, Marin, atingiu os limites de sua força, uma nova arma de bruxa, sem precedentes, nasceu. O desejo de matar perdeu seu alvo e seu significado, mas a emoção persistiu nĂŁo diluĂ­da.

Ela sĂł queria matar, pois essa era sua Ășnica razĂŁo para viver. Para ela, o impulso de matar era um dado adquirido, tanto quanto respirar.

Ele era o resultado daqueles que foram se salvar.

Seguindo seu suserano, que havia sido expulso de amigos, família e condado, um cavaleiro leal tombou antes que pudesse completar seu dever. Ele deixou para trås um pingente, que absorveu seu arrependimento por não poder proteger seu suserano até o fim, e seu ódio por aqueles que difamaram seu suserano como se fosse um demÎnio e tentaram executå-lo.

Todas as emoçÔes, exceto o desejo de defender os fracos, foram cortadas, incutindo no pingente amaldiçoado uma natureza protetora. A inocĂȘncia ou culpa daqueles que ele protegia nĂŁo era da sua conta. O fato de as acusaçÔes dirigidas ao suserano do cavaleiro serem verdadeiras e crĂ­veis, o fato de a lĂĄbia e a natureza cruel de seu suserano terem matado centenas de inocentes, eram irrelevantes. NĂŁo importava quem; o cavaleiro sĂł desejava proteger os desprezados.

As emoçÔes que formavam maldiçÔes eram puras, mas multifacetadas. Havia aqueles que ele não conseguia proteger. Havia aqueles que não dependiam dele. MaldiçÔes de diferentes eras e diferentes sentimentos podiam se misturar e dar forma a algo novo.

O que ocorreu aqui foi algo que vocĂȘ provavelmente poderia viajar pelo mundo e nĂŁo ver novamente. Os padres que haviam levantado o selo, os cavaleiros blindados e os caçadores, todos encararam com espanto as duas maldiçÔes.

Membros apodrecidos envoltos em preto. Uma figura envolta em trapos e mal conseguindo se assemelhar a uma pessoa. Ela começou a se contorcer, e entĂŁo, em questĂŁo de segundos, se tornou algo tangivelmente humano. A fĂșria assassina que estava se encolhendo diante da luz recuperou sua clareza.

O cavaleiro, revitalizado com algo para proteger, e o espírito amaldiçoado, agora muito mais ansioso para matar, ambos enfrentaram os ataques que chegavam e liberaram sua força.

Depois de surgir do nada, o misterioso cavaleiro negro sacou uma espada preta como o vazio e cortou as balas que chegavam enquanto a cortina bloqueava os raios. Ansem balançou o punho, mas o cavaleiro negro conseguiu bloqueå-lo com sua lùmina, enviando faíscas em todas as direçÔes acompanhadas por um som metålico agudo.

Os pilares do cĂ­rculo mĂĄgico de barreira em camadas continuaram a escurecer, rachaduras se formando em suas superfĂ­cies. Poderia ter sido poderoso e de ponta, mas ainda tinha seus limites.

Poder de Bruxa era o termo usado para descrever a força de uma maldição. O cĂ­rculo mĂĄgico de barreira em camadas foi construĂ­do com a intenção de ser mais do que suficiente para lidar com o poder de bruxa de Marin e mantĂȘ-la selada. Mas vocĂȘ tambĂ©m poderia ver isso como seu limite superior. A igreja disse que construiu a barreira para estar entre cento e cinquenta a cento e oitenta por cento do poder de bruxa estimado mais alto de Marin. Portanto, se a barreira nĂŁo estava aguentando, entĂŁo este cavaleiro negro deve ter sido, no mĂ­nimo, tĂŁo forte quanto Marin.

Mas o que diabos é isso? Isso também é uma maldição? Ahhh, droga, Sitri!

A situação havia sido instantaneamente invertida. Os padres que direcionavam um feitiço de fora da barreira estavam mostrando sinais de fadiga.

— Aumentem o poder! Não podemos deixá-los escapar! — gritou Edgar. — No mínimo, temos que eliminar um—

— Matem eles! Eles são o desastre da profecia!

Edgar estava mantendo um ar calmo, mas sua expressĂŁo era grave. Mas isso nĂŁo era nada comparado a Franz, que estava gritando ordens selvagens com os olhos injetados de sangue.

Ele olhou para mim agora. Para quĂȘ?

As defesas do cavaleiro negro eram impenetrĂĄveis. Luz sagrada, balas, ele bloqueou tudo com seu corpo, nĂŁo deixando nada passar por ele para Marin, que havia mudado consideravelmente desde sua chegada.

Anteriormente, ela parecia cerca de trinta por cento humana, agora estava mais perto de setenta. As chamas sombrias haviam se transformado em um vestido preto azeviche, e seu rosto vago e decrĂ©pito agora tinha uma fisionomia clara, com olhos, nariz e boca. Ela nĂŁo se parecia mais com os Ășltimos lampejos de uma vela. Ela havia ficado claramente mais forte. Mas se ela era uma maldição que matava tudo e todos, nĂŁo era estranho que ela nĂŁo estivesse atacando o cavaleiro negro?

Então, as chamas de Înix emanando do Lamento de Marin envolveram o cavaleiro. Sua forma miseråvel sofreu outra mudança. Sua armadura brilhou em roxo, e sua mão esquerda agora segurava um imenso escudo negro que parecia poder bloquear qualquer coisa que viesse em sua direção. Como se tivesse sido nutrida, sua espada cresceu em comprimento e agora estava envolta em chamas estígias. Esses dois estavam em sinergia.

Kris bateu o pĂ© no chĂŁo e gritou para mim: — Fraco humano! NĂŁo hĂĄ nada de interessante nisso! Senhor!

— C-Calma! Ah, eu sei! É aqui que começa a ficar interessante!

— IrmĂŁo, vocĂȘ pode, por favor, parar de brincar?

— Pare com os jogos, Mil Truques! O que Ă© aquela coisa?!

Kris, Lucia e Franz gritaram comigo, mas eu pensei que eles fariam melhor em se concentrar na purificação. Eles realmente tinham que colocar a culpa de tudo em mim? Bem, desta vez, eu realmente era meio culpado.

Droga, eu deveria ter usado o Férias Perfeitas.

Eu estava com medo de que, se eu me levantasse, pudesse cair e me machucar, entĂŁo permaneci sentado enquanto os animava.

— Força, Ansem! VocĂȘ consegue!

Um rugido que faria um dragĂŁo ter inveja ecoou por todo o terreno do ritual. Em rĂĄpida sucessĂŁo, Ansem brandiu os punhos contra a espada e o escudo bonitos, mas perturbadores. Parecia que seu soco anterior tinha sido apenas uma forma de testar o terreno.

Seus golpes eram impetuosos, mas eram suficientes para, literalmente, sacudir o chão. Tudo tremia com a força dos punhos de ferro de Ansem. Ele era um homem grande, o que o tornava naturalmente duråvel, mas também era poderoso. O material de mana aprimorava uma pessoa conforme seu coração desejava, então eles podiam permanecer esguios enquanto eram estranhamente fortes, como Liz. Mas, como também vimos com o antigo Guerreiro Supremo, a força e a fortaleza muscular ainda estavam interligadas.

O material de mana fez Ansem crescer em tamanho, ao mesmo tempo em que lhe deu a força de um herói mitológico. Os Grieving Souls lutavam regularmente, mas nunca faziam queda de braço porque quando se tratava de força pura, Ansem era simplesmente imbatível. Com sua constituição e poder sobre-humanos, seus ataques não precisavam de poder sagrado para serem esmagadoramente destrutivos. Ansem podia achatar uma pessoa normal, mesmo que estivesse vestida com armadura.

Diante dos punhos de Ansem, o cavaleiro negro fez manobras evasivas pela primeira vez. Ele abandonou o escudo que Marin lhe havia concedido e recuou. Um punho bateu no escudo abandonado, dobrando-o como um galho e arremessando-o para o alto. O Lamento de Marin disparou chamas nos pés de Ansem, mas elas falharam em impedi-lo.

O círculo mågico deveria ter sido do lado mais largo, mas ficou bem apertado com um Ansem Smart descontrolado lå dentro. Ele não carregava uma espada ou escudo hoje, mas seus braços tinham um alcance melhor do que a maioria das armas.

O cavaleiro balançou a espada enquanto recuava. Enquanto a espada viajava em um arco vertical, Ansem balançou o punho. Embora tivesse sido reforçada, a espada do cavaleiro ainda era minĂșscula em comparação com Ansem. Recebendo um golpe no flanco, o cavaleiro perdeu o controle da arma, a lĂąmina cravando no chĂŁo. Ele parou por um segundo, como se estivesse atordoado.

Ansem parecia menos um Paladino e mais algum tipo de besta. Se algo ali parecia uma maldição, era ele. Dado o quão afeiçoados eles eram ao meu amigo, presumi que os padres sabiam tudo sobre ele, mas suas expressÔes estavam rígidas como gelo.

— Força, Ansem! VocĂȘ consegue super fazer isso!

Ele continuou com outro rugido.

Sua fĂșria violenta nĂŁo deixou espaço para que os cavaleiros ou outros caçadores dessem uma mĂŁo. Seria muito fĂĄcil atingi-lo acidentalmente. No entanto, a Ășnica pessoa acostumada a cooperar com Ansem, Lucia, nĂŁo teve medo de partir para a ofensiva.

— Tempestade de Granizo!

De suas mãos emergiu um tornado carregado de gelo, que cresceu num piscar de olhos e engoliu o círculo mågico e Ansem com ele. Esse tipo de magia, feitiços avançados com amplas åreas de efeito, era a especialidade de Lucia. Eles também se destacavam em apelo visual. Lembro-me de ter dito a ela com entusiasmo o quão legal era esse feitiço quando ela o mostrou pela primeira vez. Fazer coisas como voar em uma vassoura a levou a ser tratada como uma Maga de truques, mas ela era uma conjuradora de feitiços de verdade.

Um som de raspagem se misturou ao uivo do vento. Todos olharam para Lucia, horrorizados por ela lançar um feitiço de aniquilação de grande escala sobre o amigo.

Ela pigarreou. — Um feitiço como este nĂŁo Ă© nada para Ansem — ela explicou.

Uma silhueta rugindo se movia dentro da tempestade de gelo. Este era um feitiço que frequentemente transformava monstros em fitas, mas ele estava acostumado com isso. Honestamente, senti que ele tinha o direito de reclamar um pouco.

— Aquilo Ă© realmente uma criatura orgĂąnica? Senhor? Ele estĂĄ se movendo dentro do feitiço da Lucia — disse Kris, com o rosto contraĂ­do.

Achei que ela estava exagerando um pouco com isso, mas tive que admitir que também lutei para acreditar que Ansem jå foi do lado pequeno.

Lapis estreitou os olhos, com uma expressĂŁo perturbada no rosto. — Mas com este feitiço, ninguĂ©m de fora pode oferecer qualquer assistĂȘncia.

— Olhe, fraco humano! AtĂ© Ark nĂŁo sabe o que fazer! Senhor! — Kris acrescentou.

Não era apenas Ark; Franz e seus cavaleiros estavam igualmente confusos. Por causa do Vendaval de Granizo, nenhum ataque à distùncia podia atingir seu alvo, não que alguém pudesse ter um tiro claro de qualquer maneira. Embora qualquer um que não estivesse acostumado a lutar ao lado de Ansem não teria sido capaz de ajudar em primeiro lugar.

— Krai, use seu cĂ©rebro! — gritou Gark na frente dos caçadores. Eu nĂŁo sabia por que isso estava sendo direcionado a mim.

— Sim, sobre isso, desculpe pela Lucia — eu disse. — É que Ă© assim que abordamos todas as lutas.

Lucia não disse nada, mas simplesmente abaixou a cabeça envergonhada. A escala e a duração de um feitiço geralmente dependiam da habilidade de um Mago, e a Tempestade de Granizo dela não parecia que iria desaparecer tão cedo. Assim como não hå como recuperar uma bala disparada, a maioria dos feitiços não podia ser desfeita depois de lançada.

Os Grieving Souls operavam com uma mentalidade de “perdeu, playboy”, o que levou a isso. Lucia podia parecer sensata, mas ela tinha absolutamente mĂșsculos no lugar do cĂ©rebro. Ela nĂŁo era tĂŁo ruim quanto Liz ou Luke, mas ainda era mais sedenta por sangue do que o caçador mĂ©dio. E vocĂȘ poderia dizer a mesma coisa sobre Ansem. VocĂȘ nĂŁo poderia se tornar um caçador de alto nĂ­vel sem um forte senso de amor pelo campo de batalha.

Ansem soltou outro rugido estrondoso. Ele deu continuidade com mais ataques, aproveitando o medo de Marin e do cavaleiro negro da Tempestade de Granizo. Uma silhueta preta e uma silhueta branca se misturaram no tornado. Eu nĂŁo conseguia ver muito, mas podia dizer que Ansem estava aplicando pressĂŁo. Presumi que o grito agudo de Marin estava apenas sendo abafado pelos rugidos de Ansem.

Seu håbito de rugir durante os ataques era um håbito que ele desenvolveu logo após os Grieving Souls começarem a caçar. Era aparentemente sua maneira de superar sua timidez, mas agora que ele era um gigante, ele apenas parecia ter ficado berserk.

Atingindo o limite de sua resistĂȘncia, o cavaleiro negro foi arremessado para fora da Tempestade de Granizo. Dados os amassados na metade superior de sua armadura, eu tinha certeza de que um humano teria morrido hĂĄ muito tempo. Ele se chocou contra um dos pilares, que agora estava quase todo enegrecido.

EntĂŁo…

— O quĂȘ?! — Lucia gritou com uma voz estĂșpida. Ela provavelmente se sentiu da mesma forma que eu.

— Ah. Quebrou.

O pilar grosso caiu, e o cĂ­rculo mĂĄgico de barreira em camadas desapareceu. O cĂ­rculo mĂĄgico nĂŁo estava ali apenas para impedir que a maldição escapasse; estava ali para enfraquecĂȘ-la. Uma seção da barreira se desvaneceu, fazendo a temperatura cair de repente. Senti um arrepio sinistro na espinha. Um dos meus AnĂ©is de Segurança ativou do nada. Tudo foi abalado por um lamento ensurdecedor. O sangue escoou dos rostos dos cavaleiros e caçadores. Alguns deles caĂ­ram de joelhos como se tivessem perdido a força.

O Lamento de Marin recebeu seu nome por sua capacidade de causar destruição através de seus lamentos. Deve ter sido disso que meu Anel de Segurança me protegeu. A utilidade defensiva desses anéis era elogiada por um bom motivo.

A Tempestade de Granizo se esvaiu, fazendo o tornado desaparecer, revelando Marin. Ela tinha olhos escuros e cabelo despenteado. Sua forma nĂŁo havia mudado, mas a aura ao seu redor havia se intensificado. Seu contorno humanoide apenas a tornava ainda mais perturbadora.

— Eu não acredito. — Edgar engoliu em seco. — Como ela ainda pode ter tanto poder sobrando?

Desimpedida, o Lamento de Marin ficou de pé sobre pernas inståveis e então disparou. Rugindo violentamente, com os pés abrindo crateras no chão, Ansem a perseguiu e deu um soco nela. Marin gritou ao conseguir desviar do golpe por pouco. Ela voou até o cavaleiro ferido e imóvel e o pegou nos braços.

Ansem era poderoso, mas um de seus poucos defeitos era sua pouca precisão. A desvantagem de dar mais socos era que menos deles acertavam o alvo. Ele atacou a garota (o que parecia ser) que embalava o cavaleiro. Com um Paladino desferindo socos do tamanho de rochas, a temível maldição aproveitou sua liberdade para fugir, gritando enquanto escapava. As outras pessoas presentes pareciam não ser afetadas pela maldição, o que significava que eram provavelmente apenas gritos comuns que ela estava emitindo.

Gravemente, Marin rapidamente examinou a multidão que a cercava, depois olhou para mim, sentado no topo da saída. Nossos olhos se encontraram. Eu balancei a cabeça por instinto, mas ela deslizou em minha direção. Carregando o cavaleiro, ela correu pelo ar. Não havia absolutamente ninguém na frente do portão, mas ela veio até mim, no topo do ornamento. Ela nem sequer hesitou.

Para que vocĂȘ estĂĄ vindo para cĂĄ?

Isso sempre acontecia. Ninguém nunca me escutava.

O Lamento de Marin soltou um lamento frenético. O som por si só era suficiente para congelar sua alma, e os padres que a cercavam tentando parå-la todos desmaiaram. Não havia nada que eu pudesse fazer a não ser sorrir.

Puxa vida. Eu sei que digo isso muito, mas isso nĂŁo aconteceria se vocĂȘs usassem AnĂ©is de Segurança!

Cruzei os braços e olhei para a maldição que se aproximava. O tempo pareceu desacelerar, fazendo um Ășnico segundo parecer dez ou vinte. Eu nĂŁo corri nem me escondi. Eu sabia como essas coisas funcionavam. Ela me perseguiria mesmo se eu tentasse fugir ou me esconder!

O Lamento de Marin continuou a correr. AtrĂĄs dela, Ansem corria como uma fera selvagem, ataques de Ark, Lucia e Starlight se aproximando de todos os Ăąngulos. Eu pensei que poderia estar no inferno.

NĂŁo que haja algo que eu possa fazer a respeito!

O Lamento de Marin estendeu a mĂŁo, como se pedisse ajuda. Com a mĂŁo estendida Ă  minha frente, eu automaticamente estendi a minha. Era um terrĂ­vel hĂĄbito meu.

EntĂŁo, os olhos de Marin se arregalaram e ela parou imediatamente. Congelada no ar, a corrente a perfurou por trĂĄs. Ela observou vagamente enquanto o objeto luminescente irrompia de seu peito.

A corrente veio de todas as direçÔes, perfurando Marin e o cavaleiro que ela segurava em seus braços. Era a corrente que o Padre havia preparado por precaução, o Pilar de Luz.

Olhando para ela na caixa, parecia enganosamente longa, o que era aparentemente porque eram, na verdade, mĂșltiplas correntes.

Virei-me para Edgar e o vi lançando a corrente final. Os elos de luz cravaram na parte de trås da cabeça de Marin. Sua boca se abriu e fechou, mas não emitiu som. O ar começou a recuperar sua atmosfera purificada.

Edgar soltou um suspiro e limpou o suor da testa. — CĂ©us, eu realmente tive que usĂĄ-la. Eu sei que nĂŁo tinha muita escolha, mas agora que eles estĂŁo presos no ar, montar um cĂ­rculo mĂĄgico nĂŁo serĂĄ fĂĄcil. Tudo o que podemos fazer Ă© deixar esses dois selados aĂ­ por enquanto.

Aliviado ao ver que o Lamento de Marin havia parado, Ansem soltou um gemido de irritação. Deixe para uma Relíquia restringir algo que nem mesmo o mais recente círculo mågico de barreira em camadas poderia controlar totalmente.

— Eu me perguntei o que vocĂȘ estava fazendo lĂĄ em cima, mas agora eu entendi! Eu deveria saber. Muito bem! — Gark, evidentemente cego, me elogiou.

Enquanto estava perfurada e contida no ar, Marin mantinha seu olhar rancoroso fixo em mim.

NĂŁo olhe para mim assim. Eu nĂŁo fiz nada de errado. NĂŁo tente me alcançar de novo, vocĂȘ me assustou!

Um cĂ­rculo mĂĄgico estava sendo rapidamente montado no pĂĄtio. Enquanto isso, uma conferĂȘncia foi realizada em uma sala onde eles podiam ficar de olho no Lamento de Marin e no cavaleiro negro, ainda no ar e atravessados pela corrente. Em estado de alerta, Edgar soltou um suspiro profundo enquanto examinava os rostos reunidos.

— Estamos nos agarrando Ă s menores chances aqui — ele disse. — Aquilo certamente nĂŁo foi o tipo de emergĂȘncia que havĂ­amos previsto. Quem sabe o que poderia ter acontecido se nĂŁo tivĂ©ssemos preparado a RelĂ­quia, graças Ă  sugestĂŁo do Sir Franz.

— NĂŁo era o tipo de coisa que alguĂ©m poderia ter previsto — Franz respondeu. — Nada que pudĂ©ssemos ter feito. NĂŁo Ă© mesmo, Mil Truques?

— Huh. Ah. Sim, aham.

Enquanto eu estava viajando, Franz de repente jogou a bola para mim, então eu rapidamente assenti com a cabeça. Eu ouvi suspiros audíveis de Ark, Kris, Lucia, Gark e mais. Quem teria pensado que um cavaleiro emergiria daquele pingente de cruz? Eu estava confiante de que tinha visto uma boa variedade de coisas, mas parecia que ainda havia muito além do horizonte.

Vou apenas guardar isso para mim. Ninguém viu o que aconteceu.

Ainda assim, o que os humanos desta terra estĂŁo fazendo escondendo tanta merda perigosa?

Franz silenciosamente dirigiu um olhar letal para mim.

Olhar para mim assim não vai ajudar. Devo apenas começar a me humilhar?

— NĂŁo obstante — disse nosso bom amigo Ark — o Lamento de Marin Ă©, sem dĂșvida, uma das maldiçÔes mais fortes que jĂĄ enfrentei. Entendo que nosso papel era enfraquecer a maldição, mas nem meus feitiços avançados nem os de Lucia serviram para fazer mais do que impedir seu avanço.

— Parecia ter algum efeito no cavaleiro, mas tudo simplesmente passou atravĂ©s do Lamento de Marin — disse Gark com uma careta. Como ex-caçador, ele sabia muito sobre derrubar fantasmas e monstros. — NĂŁo parecia que Ă©ramos totalmente ineficazes, mas isso Ă© algo diferente de um monstro visitante.

Ele estava certo. Era difícil pensar em muitos monstros que pudessem enfrentar o relùmpago de Ark e a Tempestade de Granizo de Lucia de frente e permanecerem ativos. O papel principal de Ark não era como Mago, mas Lucia era capaz de derrubar um dragão do céu. Eu tinha certeza de que metade da razão pela qual aqueles pilares quebraram foi por causa dela, mesmo que todos estivessem fingindo que não.

— De fato — disse Edgar. — Parece que as tĂ©cnicas esotĂ©ricas da igreja sĂŁo a Ășnica maneira de resolver isso. Eles estĂŁo imunes Ă  interferĂȘncia externa enquanto estiverem presos pelo Pilar de Luz. Quanto a como vamos tentar a purificação novamente… isso Ă© algo que ainda precisamos descobrir. O cĂ­rculo mĂĄgico de barreira em camadas nĂŁo funcionarĂĄ se eles estiverem no ar, e duas maldiçÔes desse poder reunidas em um sĂł lugar Ă© algo que nunca vimos antes.

— Entendi. Acho que isso corresponde à profecia do Divinarium.

A propĂłsito, Franz, nĂŁo consigo deixar de notar o jeito que vocĂȘ continua olhando na minha direção.

Este nĂŁo parecia um bom momento para falar desnecessariamente. TĂ­nhamos um elenco de estrelas, e Ă s vezes Ă© melhor simplesmente nĂŁo dizer nada.

Eu cruzei os braços e assenti sem realmente saber com o que estava concordando. Foi então que nossos membros até então inativos, a Starlight, se manifestaram. Tive a impressão de que eles estavam esperando por isso.

— Magia tem pouco efeito sobre maldiçÔes. A melhor maneira de lidar com elas Ă© com poderes de natureza semelhante.

— Em nossas florestas, este papel Ă© dado a Nobres que passam anos cultivando a fortaleza mental.

Eles sĂŁo XamĂŁs que empunham um tipo de poder diferente do resto de nĂłs. Senhor. Aqueles nascidos nas linhagens certas desenvolveram a aptidĂŁo ao longo de muitos anos! Senhor!

— Como a ira dela não se desvaneceu, enfrentar uma maldição desta magnitude por meios diretos não será fácil.

Os EspĂ­ritos Nobres todos se manifestaram. Chamar esse grupo de minimamente obrigado soava como um exagero, mas eles definitivamente eram Ășteis em tais momentos.

Eles estĂŁo implicando com a Kris, nĂŁo estĂŁo? Ela fala assim porque lhe foi dito para ser educada, mas por que ela Ă© a Ășnica que estĂĄ fazendo aquela coisa estranha de “Senhor”?

O Padre assentiu profundamente e olhou para Marin com um olhar vagamente piedoso. — A ira dela nĂŁo se desvaneceu, hein? Acho que nĂŁo hĂĄ nada que possamos fazer sobre isso. A origem do Lamento de Marin Ă© trĂĄgica. Ela tambĂ©m Ă© uma vĂ­tima, em certo sentido.

Eu não sabia o que havia acontecido com Marin, mas tive dificuldade em ver isso dessa forma depois de todo o caos que ela havia causado. Enquanto eu mergulhava em um falso estado de contemplação, Lapis estreitou os olhos e fez uma sugestão surpreendente.

— Purificar isso serĂĄ um fardo pesado para as mĂŁos de um humano. Zebrudia tem sido gentil conosco. Se necessĂĄrio, como as maldiçÔes sĂŁo o nosso domĂ­nio, podemos chamar um XamĂŁ de nossa floresta…

— Meu Deus, um Xamã Nobre?

Gark olhou em choque para Lapis e para o Padre. Por um tempo, a Starlight foi um dos grupos mais problemĂĄticos na capital imperial, entĂŁo talvez isso tenha estimulado esta decisĂŁo delas. Eu nĂŁo as conhecia muito bem, mas pensei que elas se tornaram um pouco mais maleĂĄveis desde que se juntaram ao nosso clĂŁ.

Pensando bem, Kechachakka Ă© um XamĂŁ. Quer saber o que ele estĂĄ fazendo hoje em dia. Ele ainda estĂĄ na Peregrine Lodge?

— No entanto, os XamĂŁs da floresta desprezam humanos — disse Lapis. — Trazer um atĂ© aqui exigirĂĄ a cooperação de Zebrudia. E, hmph, imagino que a igreja tem sua imagem a manter.

— Entendo. Admitirei que, se o cĂ­rculo mĂĄgico de barreira em camadas nĂŁo for suficiente, nĂŁo consigo imaginar que a igreja central tenha algo que seja. Realisticamente, Ansem Ă© o Ășnico membro de nossa filial que pode purificar Marin. Mas nessas condiçÔes, a maldição provavelmente escaparĂĄ.

Ansem soltou um gemido preocupado. Se uma maldição que irradiava ódio e impulsos homicidas (e tinha sido libertada de suas amarras) optaria por fugir, então eu acho que era realmente possível ser forte demais.

Recebi ordens para tornar o lidar com a profecia minha prioridade mĂĄxima — disse Franz. — Vou assumir a responsabilidade pela aquisição de tudo o que precisarmos. Se isso Ă© o que Ă© preciso para parar a profecia, considerarei um bom negĂłcio.

Com tantas pessoas capazes, tĂ­nhamos recursos para lidar com qualquer coisa. Eu me senti realmente deslocado.

Com um aceno altivo e uma voz fria, Lapis disse: — Os EspĂ­ritos Nobres evitam metal como regra geral. As Ășnicas exceçÔes sĂŁo ouro e prata. Prepare uma carruagem feita apenas de flores e pedras preciosas, e providencie para que seja puxada por unicĂłrnios ou grifos. O XamĂŁ nĂŁo se importa com multidĂ”es de humanos, entĂŁo vocĂȘ deve bloquear a via principal na chegada deles. Trate-os como trataria a realeza.

Eu tinha certeza de que não nos esforçåvamos tanto nem pela realeza. O fato de Lapis parecer estar falando sinceramente tornava tudo ainda mais preocupante. Franz fez uma careta, provavelmente pensando em todos os passos que seriam necessårios para fechar a via principal.

— NĂŁo hĂĄ alternativas? — ele perguntou. — E aquela professora, Seyge Claster? Ela Ă© uma Maga Nobre.

— Hmph. VocĂȘ deve estar brincando, essa mulher Ă© apenas metade de uma Nobre. E talvez eu nĂŁo devesse esperar que um humano saiba disso, mas Magos e XamĂŁs operam com princĂ­pios diferentes.

Franz tinha muito trabalho pela frente. Mas desta vez, eu realmente nĂŁo contribuĂ­ para seus problemas. Na verdade, pode-se dizer que, como Lucia, Ark, Ansem e todos na Starlight eram membros do Primeiros Passos, eu ajudei muito.

Sim, eu sei. Essa mesma linha de pensamento Ă© o motivo pelo qual meu nĂ­vel Ă© tĂŁo alto!

Franz, o Padre e Lapis todos se ocuparam fazendo planos futuros. Sem ter o que fazer, eu olhava distraidamente pela janela para o Lamento de Marin.

— Algo te incomodando, Krai? — Gark me perguntou do nada.

— Hm? Na verdade, nĂŁo…

Eu nem tinha dito nada. A nĂŁo ser que esse fosse o problema?

O olhar de todos gradualmente se voltou para mim. O olhar não divertido de Lucia era particularmente doloroso. Teria ficado claro que eu não estava prestando atenção?

Me incomodando. Algo estĂĄ me incomodando. NĂŁo, nada me vem Ă  mente.

Então eu tive algo. Não tinha nada a ver com nosso atual apuro, mas estava me incomodando. Era a Liz. Na minha rotação de guarda, a vez dela seria a próxima. Eu não via sentido em ter a proteção dela, jå que estava me metendo em todo tipo de caos de qualquer maneira, mas não pensei que ela me escutaria se eu lhe dissesse para não aparecer.

Sem mencionar que ela sabia que Luke e todos os outros tinham ganhado algo, então ela estava presumindo que ganharia algo também. A verdade era que todas as coisas que eu havia dado aos meus amigos eram nada além de problemas, mas ela não se importaria com algo assim. Se eu não lhe desse algo, ela absolutamente causaria um alvoroço.

Oh, o que eu vou fazer sobre isso?

— Se hĂĄ algo, agora Ă© a hora de dizer — Gark avisou, interrompendo meus pensamentos nĂŁo relacionados.

— Sim, eu não acho que haja realmente algo.

— NĂŁo importa quĂŁo pequeno! — disse Franz desnecessariamente. — Toda vez, vocĂȘ diz isso, e depois sai e faz alguma coisa!

O que eu fiz para merecer uma opiniĂŁo tĂŁo baixa?

Tive a sensação de que isso nĂŁo seria resolvido a menos que eu dissesse algo. Eu pigarreei e disse me desculpando: — NĂŁo tem nada a ver com o assunto em questĂŁo, mas ummm. Ah. Certo. Eu realmente gostaria de um baĂș de tesouro ou algum outro tipo de objeto trancado.

— Do que vocĂȘ estĂĄ balbuciando?

— O importante Ă© que esteja trancado. Um baĂș de tesouro velho, de madeira, que seja agradĂĄvel aos olhos.

Liz, veja bem, amava baĂșs de tesouro trancados. Quanto mais complexo o cadeado, melhor. Quanto mais se assemelhasse Ă  imagem estereotipada de um baĂș de tesouro, melhor. Neste caso, nem importava o que estava dentro. Se eu a elogiasse quando ela abrisse a caixa, ela ficaria satisfeita.

Todos olharam para mim com desconfiança. Até o Padre parecia incerto sobre o que fazer.

Acho que eu nĂŁo deveria ter dito isso, afinal. Eu vou procurar um no caminho para casa.

Com a conversa encerrada, deixei a igreja junto com Lucia e todos da Starlight. Estiquei minhas costas, oprimido pela sensação de liberdade. Lucia suspirou enquanto me observava.

Apesar da minha estranha declaração interrompendo as coisas, eles tiveram uma troca de ideias barulhenta e franca, após a qual concordamos em solicitar a ajuda do Xamã Nobre. Até então, a maldição permaneceria contida pela Relíquia. O fato de aqueles dois estarem em uma posição tão visível claramente irritou o Padre, mas eu pensei que isso daria uma bela peça de decoração avant-garde.

Embora mais deles tivessem começado a passar tempo entre nós, os Espíritos Nobres geralmente não se misturavam bem com os humanos. Ao lidar com um Xamã reverenciado entre seus companheiros Nobres, qualquer tipo de erro poderia se expandir para um incidente internacional. Durante toda a discussão, Franz pareceu profundamente insatisfeito. Ser alguém da estatura dele não deve ter sido fåcil.

— Sugiro que se apresse — disse Lapis a ele assim que estĂĄvamos lĂĄ fora. — Entraremos em contato com nossa floresta o mais rĂĄpido possĂ­vel. VocĂȘ precisa começar a se preparar.

— Isso pode levar algum tempo — ele respondeu. — Entraremos em contato com vocĂȘs assim que os preparativos estiverem concluĂ­dos. Terei uma Pedra Sonora  pronta. Mil Truques, entregue a pedra que lhe emprestei. NĂŁo vejo vocĂȘ precisando mais dela.

— O quĂȘ? Eu tinha certeza de que vocĂȘ estava me dando…

— Nem a pau! Mesmo na capital imperial, elas sĂŁo ativos estratĂ©gicos preciosos!

Eu não tinha certeza do que pensar quando ele a entregou pela primeira vez, mas descobri que ter uma linha direta com Franz era bem conveniente. Relutantemente, devolvi a pedra, que ele tirou da minha mão e deu a Lapis. Assim que ela a guardou, Franz me lançou um olhar irascível.

— Posso presumir que não há mais nada te preocupando? — ele perguntou.

— Mmm, na verdade, não.

Sei lĂĄ, acho que na verdade nĂŁo sei o que estĂĄ acontecendo.

NĂŁo tenho orgulho de dizer, mas eu estava assentindo simplesmente porque todo mundo estava!

— É o que vocĂȘ sempre diz! E o que foi aquela declaração aleatĂłria de mais cedo? Essa palhaçada Ă© a contrapartida das suas habilidades desumanas?! Para que serve o baĂș de tesouro?!

Eu não disse que é irrelevante? Apenas esqueça isso.

— Puxa, Franz, se acalme — eu disse. — Com o que hĂĄ para se preocupar quando temos um time dos sonhos aqui? Com Ark, Gark, Lucia e Ansem, estamos prontos em todas as frentes. NinguĂ©m se feriu durante a purificação e, com um grupo como o nosso, podemos lidar com qualquer tipo de maldição. NĂŁo precisa colocar tudo nos meus ombros.

Franz rangeu os dentes.

Pode me revistar o quanto quiser, nĂŁo hĂĄ nada para encontrar. VocĂȘ nĂŁo viu que precisei da ajuda de Lucia para subir naquele portĂŁo? Toda vez que algo dĂĄ errado, vocĂȘs todos trazem para mim.

Eu nĂŁo estava exatamente ocioso. Eu estava muito ocupado descansando, e eu precisava comprar um baĂș de tesouro.

— Eu sĂł vim desta vez como precaução e acabei nĂŁo fazendo nada, certo? Deixe-me ser claro, eu sou muito mais mundano do que vocĂȘ parece pensar que sou. Tudo que faço Ă© causar problemas.

— E-EntĂŁo vocĂȘ percebe?! Maldito! Quem vocĂȘ pensa que Ă©?!

Droga. Talvez eu nĂŁo devesse ter dito isso?!

Assim que eu estava prestes a me esconder atrås de Lucia, o chão tremeu. Eu me virei e vi Ansem nos chamando (não que ele estivesse realmente chamando, per se). Ele não estava usando o capacete pela primeira vez, e tinha alguns padres o seguindo. Franz interrompeu sua reprimenda quando os viu. Ansem era grande o suficiente para mal conseguir passar por baixo do portão. Com uma presença como aquela, qualquer um calaria a boca se o visse se aproximando.

Mas o que ele quer? Eu me perguntei enquanto ele pigarreava. Quando ele falou, percebi hĂĄ quanto tempo eu nĂŁo ouvia sua voz sem abafamento.

— Krai, sobre sua necessidade de um baĂș de tesouro, a igreja tem algo. Venha conosco.

— Bem-vindo de volta, Krai. Como foi a igreja?

— Tudo bem, eu acho. Eu não ia lá há um tempo, mas parece que Ansem ainda está se dando bem com eles.

Enquanto subia a escada para o escritório do mestre do clã, encontrei Eva. Com todos difamando meu bom nome, a presença imutåvel de Eva era uma fonte de salvação.

— Tudo bem. Tudo bem? Krai, vocĂȘ acha que eu sou totalmente ignorante?

— Tudo bem.

Cara, Ansem era realmente impressionante. Mesmo que não fosse um caçador gigantesco, servir à igreja parecia muito trabalho. Se ele conseguia fazer amizade com todos lå, então acho que o que estå por dentro é mais importante do que o de fora.

Além disso, ele me disse que um punhado de pessoas além de nós notou que o cavaleiro negro havia emergido do pingente. Isso significava que todas as testemunhas haviam decidido não culpå-lo e estavam de boca fechada. Quantas açÔes virtuosas ele fez em sua vida anterior para ganhar esse tipo de respeito? Como alguém que estava sempre sendo alvo de suspeitas infundadas, eu o invejava. O que eu não invejava era o quão despreocupada Lucia estava em deixå-lo ser engolido pela Tempestade de Granizo dela.

Talvez eu siga o exemplo de Ansem e viva uma vida honesta. Mas eu estou vivendo honestamente! Eu nĂŁo sei o que estĂĄ acontecendo!

— Krai — Eva disse, parecendo insatisfeita — vocĂȘ parece estar de um humor estranhamente bom.

— Ahh. É tão óbvio assim?

— Considerando o tumulto na Igreja do Espírito Radiante, estou um pouco confusa.

NĂŁo Ă© que eu estivesse animado por causa do que tinha acontecido na igreja. Era porque, no final de tudo, eu ganhei um pequeno presente. Todo mundo deveria ter um excelente melhor amigo de infĂąncia. Como eu era sempre quem recebia, eu estava de olho em uma chance de um dia retribuir.

— A Starlight disse que vai resolver a confusão na igreja. Todo mundo está em pñnico por causa da profecia ou o que quer que seja, mas eu tenho a sensação de que tudo será resolvido tranquilamente. Muita coisa aconteceu em rápida sucessão, e eu estou cansado.

Eva nĂŁo respondeu a isso.

Embora eu nĂŁo tivesse feito nada, minha falta total de resistĂȘncia significava que eu estava exausto sĂł de ver tudo de perto.

Notei que Eva estava olhando para mim intensamente. Seus olhos penetrantes estavam sob uma testa franzida, focados como se houvesse algo escrito no meu rosto. Eu dei um passo para trĂĄs sem pensar.

— O-O quĂȘ?

— Nada. Absolutamente nada. É sĂł que eu ganho a vida lendo suas expressĂ”es. A recente sĂ©rie de incidentes relacionados a maldiçÔes causou muito caos. Um grande nĂșmero de pessoas fugiu da capital imperial. Se uma resolução Ă© realmente iminente, entĂŁo temos uma oportunidade…

Eu tive a sensação de que seria melhor não perguntar mais. Com o quão perfeitamente adequada ela era para seu trabalho como vice-mestre do clã, eu tendia a esquecer que ela jå havia trabalhado para uma grande empresa comercial.

A capital imperial estava um lugar agitado recentemente. Desde o problema com a Torre Akåshica e o ataque do dragão, até o atual negócio da profecia, tanto caos em tão pouco tempo faria qualquer um querer arrumar as malas.

— VocĂȘ pode fugir se quiser — eu disse a Eva, meio a sĂ©rio.

Eu fujo com vocĂȘ.

Parecendo surpresa, Eva levantou a palma da mĂŁo direita. Em seu dedo anelar estava um anel familiar.

— Eu nĂŁo vou fugir, especialmente se vocĂȘ me confiou um Anel de Segurança. Eu sei no que estou me metendo.

Isso era muito masculino para mim. Eu nunca demonstrei esse tipo de determinação, e eu sempre usava mais de uma dĂșzia de anĂ©is.

Pelo menos parecia que este seria o fim da loucura. Eu jå estava satisfeito. Eu até devolvi a Pedra Sonora de Franz, então agora eu poderia ser preguiçoso de verdade. O caos variado havia afetado os horårios dos meus amigos, deixando-os com um novo tempo livre, então talvez pudéssemos sair todos juntos.

EntĂŁo, Eva disse algo surpreendentemente nĂŁo surpreendente.

— Eu acabei de me lembrar, Liz está aqui. Ela e Tino estão no escritório do mestre do clã.

— Oh! Exatamente como as simulaçÔes previram.

— Ela estava de muito bom humor. Algo sobre receber um presente. VocĂȘ vai ficar bem?

— Oho. Pela primeira vez, uma leitura perfeita. Nem um centĂ­metro de diferença. Meu gĂȘnio me assusta.

EstĂĄ tudo dançando na palma da minha mĂŁo? Minha astĂșcia sobre-humana estĂĄ tomando forma?

Era isso. SĂł desta vez, eu me perdoei por me deixar levar pelo ato firme e resoluto. Meus olhos eram tudo menos perspicazes, mas eu sabia tudo o que havia para saber sobre meus amigos. Depois de todos aqueles anos passados com eles, eu tinha algo a mostrar.

— HĂĄ algo que eu preciso lhe pedir — eu disse a Eva, que estava me olhando de forma desconfortĂĄvel. — A igreja deve estar enviando o melhor baĂș de tesouro deles a qualquer momento. VocĂȘ poderia me fazer um favor e pedir para alguĂ©m levĂĄ-lo para a sala de estar? — Bem, certamente. Mas Ă© um baĂș de tesouro, vocĂȘ diz?

Eu tinha certeza de que atĂ© ela ficaria surpresa com a visĂŁo dele. Em todos os meus anos como caçador, eu nunca tinha visto um baĂș de tesouro mais “baĂș de tesouro”. Liz ficaria satisfeita. Eu nĂŁo esperava de forma alguma que a Igreja do EspĂ­rito Radiante tivesse tantos baĂșs de tesouro em sua posse. Eles me disseram para escolher um eu mesmo porque nĂŁo tinham ideia do que eu estava querendo dizer, mas eu apenas ri da absurdidade disso.

No meu escritório, Liz estava segurando Tino em um mata-leão. Ela definitivamente ficou entediada enquanto me esperava. No momento em que me viu, ela jogou Tino para o lado, pouco antes que ela pudesse desmaiar. Ela voou em minha direção, tão energizada quanto Eva havia dito.

— Krai Babyy!

— Calma, calma, boa garota. Isso! Isso!

Lidando com ela com uma mão, olhei para Tino, esticada no chão. O cabelo bagunçado dela me fez pensar que elas estavam treinando ou algo assim. Eu não achava que um pouco de tédio era desculpa para ter uma luta simulada no quarto de outra pessoa.

Repreender Liz descuidadamente poderia acabar apenas dificultando a vida de Tino, entĂŁo eu apenas lancei um olhar de desaprovação. Ela nĂŁo parecia nem um pouco arrependida. Foi entĂŁo que as pontas dos dedos de Tino começaram a tremer. Ela havia recuperado a consciĂȘncia.

Ela se sentou e sacudiu a cabeça. Suas bochechas coraram quando ela me viu. — Mestre, quando vocĂȘ chegou aqui?! Sinto muito por vocĂȘ ter tido que me ver assim—

— N-NĂŁo se preocupe. Aqui, vocĂȘ tambĂ©m. Calma, calma.

Comparado a como ela costumava ser, nossa caçadora jĂșnior havia se tornado assustadoramente durĂĄvel, mental e fisicamente. Como seu mestre, eu achei que deveria ficar feliz. Mas talvez eu devesse ter ficado mais envergonhado por nĂŁo conseguir manter Liz sob controle.

O que eu vou fazer se Tino se especializar em durabilidade e se tornar gigantesca como Ansem?

No momento em que ficou de pĂ©, Liz agarrou Tino pelo braço e a empurrou na minha frente. — É quase a minha vez de ser sua guarda, certo? Eu simplesmente nĂŁo conseguia mais esperar e vim mais cedo! Eu vou dar o meu melhor! VocĂȘ pode usar a T tambĂ©m! Embora eu ache que nada muito estranho aconteceu desde o ataque Ă  sala de estar.

— Ah. Certo. Isso aconteceu.

— Aconteceu há apenas alguns dias, Mestre!

Oh, eu entendi agora. EntĂŁo a guarda diĂĄria Ă© para me proteger de mais emboscadas. Quer dizer, depois de tudo o que aconteceu, vocĂȘ terĂĄ que me perdoar por ter esquecido do ataque! Mas chega disso. Estou demonstrando um raro lampejo de gĂȘnio hoje.

Com os olhos brilhando, minha querida amiga Liz estava esperando como um cachorrinho ansioso.

— Ahem. Na verdade, Liz — eu disse de maneira imponente — há algo que eu gostaria de te dar.

Ela se animou.

— Eu achei injusto que todos, menos vocĂȘ, estivessem ganhando algo.

— Eu te amo! — ela gritou.

— L-Lizzy, controle-se.

Liz saltou, me abraçando por trĂĄs e esfregando-se nas minhas costas. O calor do corpo dela era quase o suficiente para me fazer suar. Eu tinha mais ou menos esperado uma reação como esta, mas eu nĂŁo tinha certeza de como me sentir sobre sua exuberĂąncia. Afinal, nĂłs nem sabĂ­amos o que estava dentro do baĂș de tesouro. Eu presumi que ela ficaria feliz mesmo que estivesse vazio, mas vĂȘ-la tĂŁo exultante me fez duvidar de mim mesmo.

Tino também estava sendo deixada de lado, mas ela não parecia incomodada por eu não ter arranjado nada para ela. Ela parecia muito mais preocupada com a maneira como Liz estava pressionando o nariz no meu pescoço e me cheirando persistentemente.

— Estou mandando trazer para a sala de estar—

— Woo! Mal posso esperar! Vamos! Ei? Anda!

Quase como mågica, Liz instantaneamente se moveu para a minha frente e estava puxando meu braço. Seu sorriso brilhante tocava meu coração.

VocĂȘ nĂŁo vai chorar se estiver vazio, vai?

Eu passei de me sentir um gĂȘnio para um homem esmagado pela incerteza.

— A sala de estar — Tino murmurou — ainda estĂĄ sendo consertada…

Ah, certo. Eu esqueci que estava em ruĂ­nas.

Assim como Tino havia dito, a sala de estar ainda estava em mau estado. O chĂŁo tinha uma grande rachadura e as mesas ainda estavam espalhadas. Incapaz de cumprir seu papel como um lugar para relaxar, a sala de estar nĂŁo tinha seus habitantes habituais.

Mas no momento, nada disso parecia importar para Liz. Seus olhos brilhavam, e ela estava sorrindo de orelha a orelha.

— Oh meu Deus! É um baĂș de tesouro! — ela gritou.

— VocĂȘ estĂĄ certa, Lizzy! E nĂŁo sĂł isso, Ă© de um cofre do tesouro, nĂŁo Ă©?

— Um baĂș genuĂ­no de cofre do tesouro — Eva afirmou. — Tem aquela impressĂŁo distinta.

Ao ouvir isso, Tino pareceu invejosa.

NĂŁo era chamativo. Era um baĂș de tesouro bĂĄsico, mas absolutamente impecĂĄvel. O corpo de madeira era emoldurado por metal enferrujado e tinha um grande cadeado afixado. Era grande o suficiente para Liz ou Tino caberem facilmente dentro, e pesado o suficiente para eu nĂŁo conseguir levantar. Era a imagem cuspida de um baĂș de tesouro. Eu nĂŁo conseguia imaginar um Ășnico caçador de tesouros avesso Ă  visĂŁo desta coisa, ainda mais se fossem um Ladino, um papel que envolvia abrir fechaduras.

De todas as coisas que vocĂȘ podia encontrar em um cofre do tesouro, os baĂșs de tesouro estavam entre os mais emocionantes. Um spawn raro em cofres, os prĂłprios baĂșs eram RelĂ­quias e Ă s vezes continham vĂĄrias outras RelĂ­quias. Isso era provavelmente resultado do material de mana recriando conceitos de baĂșs cheios de objetos de valor.

Havia teorias de que as RelĂ­quias de baĂșs tendiam a ser de alto nĂ­vel, e algumas pessoas realmente ficaram incrivelmente ricas encontrando baĂșs contendo mĂșltiplas RelĂ­quias raras e poderosas. Era justo dizer que encontrar um baĂș em um cofre do tesouro era o sonho de todo caçador (embora, a propĂłsito, Ă s vezes estivessem vazios).

Ao mesmo tempo, no entanto, os baĂșs de tesouro acarretavam um grande risco. A maioria deles era montada com fechaduras resistentes e armadilhas mortais. Os baĂșs RelĂ­quias eram coisas resistentes, entĂŁo quebrar o baĂș e pegar seu conteĂșdo nĂŁo era possĂ­vel. Por isso, muitos grupos queriam um Ladino que pudesse arrombar fechaduras e desarmar armadilhas. Isso tambĂ©m explicava por que baĂșs nĂŁo abertos Ă s vezes apareciam no mercado.

Eu não podia culpar ninguém por não querer tentar um desarmamento quando a falha geralmente resultava em morte. Em vårias ocasiÔes, nosso próprio grupo quase foi aniquilado dessa forma.

O depĂłsito subterrĂąneo que Ansem me trouxe continha vĂĄrios baĂșs, todos de diferentes materiais e estilos. Disseram-me que eram doaçÔes de caçadores fiĂ©is, entĂŁo tinham que ser manuseados adequadamente, e eram perigosos, entĂŁo nĂŁo podiam ser abertos sem cautela excessiva. Assim, a igreja nĂŁo sabia bem o que fazer com eles.

Eles me disseram para escolher (uma escolha de palavras engraçada), entĂŁo eu peguei o melhor dos melhores. Havia alguns outros baĂșs de madeira emoldurados em metal, mas este tinha o maior apelo estĂ©tico e “cara de baĂș de tesouro”. Mesmo que estivesse vazio, eu poderia usĂĄ-lo para guardar todas as minhas quinquilharias (ĂȘnfase em “quintas”). O Ășnico problema era que essa coisa era super pesada.

— É muito legal, nĂŁo Ă©? — eu disse. — No momento em que vi, soube que era este o baĂș que eu queria!

— Woo! Faz tanto tempo que nĂŁo abro um baĂș! Ei, T, venha aqui!

— Hã?! Tem certeza?

Respondendo ao aceno de Liz, Tino se apressou. Era fofo o jeito que ela realmente parecia hesitante em participar, mas Liz estava provavelmente usando isso como uma oportunidade de treinamento. Abrir fechaduras era um esforço muito perigoso.

Eu dei um leve toque no braço de Eva, e nos movemos para uma distĂąncia segura. A maioria das armadilhas eram de uso Ășnico, o que significava que deverĂ­amos estar bem, desde que tivĂ©ssemos nossos AnĂ©is de Segurança, mas Ă© melhor ser cauteloso.

— Krai, o que hĂĄ naquele baĂș? — Eva me perguntou em voz baixa.

— O que vocĂȘ acha?

Eva parecia considerar a fundo.

A resposta: Eu nĂŁo sei!

Pelo que eu sabia, havia apenas uma maneira de saber o que o baĂș de um cofre do tesouro continha, e era usar a RelĂ­quia lupa, Rastreador de Tesouros. No entanto, o caçador que descobriu esta RelĂ­quia desejĂĄvel foi assassinado logo apĂłs tornar sua descoberta pĂșblica, e a prĂłpria RelĂ­quia foi destruĂ­da. Um segundo Rastreador de Tesouros ainda nĂŁo havia sido encontrado.

Transbordando de empolgação, Liz verificou a fechadura, mas algo parecia intrigĂĄ-la. — Hmm? Krai Babyy, esta fechadura Ă© muito simples. E quanto a armadilhas… Hm?

Ela bateu no baĂș, depois o levantou e verificou a parte de baixo.

Liz, vocĂȘ Ă© super incrĂ­vel. Aquele baĂș Ă© muito pesado atĂ© para eu levantar. VocĂȘ Ă© realmente forte!

Abrir baĂșs RelĂ­quias exigia nĂŁo apenas conhecimento, mas tambĂ©m o uso habilidoso dos sentidos. Pode-se dizer que o uso de todos os cinco sentidos e do sexto para desafiar mecanismos desconhecidos tornava pessoas como Liz as mais adequadas para a caça ao tesouro.

Com um olhar perplexo, ela examinou o baĂș por todos os Ăąngulos. — Hmm. Que tal tentarmos simplesmente abrir?

— Concordo — disse Tino. — Não parece haver armadilhas explosivas ou algo assim.

— Vou deixar vocĂȘ fazer as honras, T. As chances de abrir baĂșs sĂŁo raras, e vocĂȘ pode usar isso como desculpa para mostrar ao Krai Babyy o quanto aprendeu.

— SĂ©rio?! Tem certeza?

Os olhos de Tino estavam bem abertos e ela parecia feliz. Eva estava surpresa, mas Liz apenas nos mostrou um sorriso orgulhoso.

É, aham! VocĂȘ Ă© uma Ăłtima professora! Mesmo que vocĂȘ a tenha acabado de estrangular!

Tino se agachou diante do cadeado pendurado na frente do baĂș. Ela tirou um grampo do cabelo e o inseriu cuidadosamente na fechadura. Assim como Liz havia dito, era um mecanismo simples. Depois de apenas alguns segundos, houve um som de clique, e o cadeado se soltou. Foi um movimento tĂŁo hĂĄbil que me lembrou Liz.

Mas isso era apenas o começo. Abrir fechaduras era importante, mas ainda mais importante era desarmar armadilhas, pois era aí que as vidas estavam em risco. Aliviada por ter o cadeado destrancado, Tino sorriu para Liz, e depois para mim. Algo em seu sorriso vanglorioso se assemelhava ao de Liz. Eu não pude evitar acenar para ela.

EntĂŁo aconteceu.

O movimento foi incrivelmente silencioso, suave e cĂŽmico.

O baĂș destrancado abriu sem um som, saltou, cobriu Tino, que ainda estava de costas para o baĂș, engoliu-a inteira e depois retornou Ă  sua posição original. Foi tudo em menos de um segundo. Liz nĂŁo conseguiu reagir, o mesmo aconteceu com Eva, e estou quase certo de que a prĂłpria Tino nĂŁo tinha ideia do que havia acontecido.

— Ah… — Eh

Liz piscou. A expressão de Eva era vaga e imóvel. Ninguém disse nada.

Esses movimentos foram suaves como os de Tino, Não, não é isso! Que bom que Eva e eu mantivemos distùncia, Também não é isso! Devo me preocupar por ela nem ter gritado?

EntĂŁo nĂŁo era um baĂș? EntĂŁo era um monstro? Ou era uma RelĂ­quia? O que era? EntĂŁo me lembrei de que quando peguei o baĂș, eles disseram algo sobre pessoas ocasionalmente desaparecerem na unidade de armazenamento. E foi por isso que me chamaram.

Com a mĂŁo sobre a boca, Eva sussurrou o que ninguĂ©m mais estava disposto a dizer. — Tino. Ela foi comida.

Eu sempre pensei que isso poderia acontecer com — Não, pare de pensar assim!

O que as pessoas desta terra estavam fazendo escondendo tanta merda perigosa?

— HĂŁ? O quuĂȘ? T?! Krai Babyy, o que Ă© essa coisa?! — Liz gritou freneticamente.

EntĂŁo o baĂș de tesouro a engoliu.

— Ah…

Meu baĂș perfeito fechou a tampa e voltou Ă  sua posição original. Eva olhou para mim vazia. O silĂȘncio reinou na sala de estar. Talvez satisfeito com uma refeição de dois, o baĂș permaneceu completamente imĂłvel. Ou talvez se moveria no momento em que um de nĂłs lhe desse as costas? Liz definitivamente estava confiando no meu julgamento ali. Faz sentido, jĂĄ que fui eu quem o trouxe e tudo mais.

Pensar que alguém tão acostumada a crises quanto Liz seria comida tão facilmente. Ela poderia ter tentado lutar! Ela poderia ter sido seu eu violento de sempre!

— K-Krai, o que diabos Ă© isso?

Eva olhou para mim com medo nĂŁo disfarçado, algo que eu raramente via nela. Eu queria dizer a ela para se acalmar, mas eu estava muito descontrolado para tirar as palavras da garganta. Mas isso estava bom. Eu tinha certeza disso. Liz havia sobrevivido a ser engolida por dragĂ”es, entĂŁo eu tinha certeza de que ela poderia se livrar de ser comida por um baĂș de tesouro. Quanto a Tino, ela teria que dar o melhor de si!

EntĂŁo o que Ă© essa coisa?

Olhei para o baĂș de tesouro comedor de homens que estava fingindo ser um baĂș de tesouro muito normal. Eu estava ciente de monstros que podiam se disfarçar de baĂșs de tesouro, mas nĂŁo achei que alguĂ©m como Liz, que havia passado por muitos desafios e desenvolvido um bom faro para o perigo, seria enganada tĂŁo facilmente.

Calma. Mantenha a calma.

Nem mesmo o meu melhor faria muito bem aqui, e havia uma boa chance de Liz ainda estar tentando escapar.

— E-Eu vou ligar para alguĂ©m. AlguĂ©m que possa destruir essa coisa. Vou ligar para o Ark!

— Oh!

Essa foi uma boa ideia. Mas como Eva estava mais calma do que eu quando eu deveria ser o acostumado a crises? Enquanto mantinha os olhos fixos no baĂș do tesouro, Eva se moveu em direção Ă  saĂ­da. EntĂŁo, no momento em que ela se preparou para sair correndo, o baĂș diminuiu a distĂąncia num instante e a comeu. Eu senti que poderia vomitar.

— Droga. Estou sonhando? Q-Que baĂș de tesouro glutĂŁo. Quanto ele aguenta?

O baĂș de tesouro retomou seu estado de disfarce.

VocĂȘ nĂŁo estĂĄ me enganando. Nem um pouco! Eu nĂŁo tenho ideia do que vou fazer se Ark acabar sendo devorado. Caramba, como Ă© que a capacidade dessa coisa Ă© claramente maior do que o seu tamanho?

Foi entĂŁo que o grupo de Lyle entrou na sala de estar.

— Agh, quando Krai chegou aqui? Que baĂș Ă© aquele ali? Augh!

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o baĂș voou para eles e engoliu o grupo todo em uma mordida. Que capacidade incrĂ­vel!

Por quĂȘ? Eles nem estavam correndo. Oh, cara, ele estĂĄ tentando eliminar todas as testemunhas?

A culpa foi toda minha. Tudo porque eu fui atraído pela sedução de querer parecer legal.

— Oh, Krai, o que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui sozinho—

— O que Ă© esse tesou— Ack!

Marietta e Sven foram ambos comidos na chegada. Eu nĂŁo sabia mais o que era o quĂȘ. Esta era uma coisa aterrorizante se podia comer um caçador de NĂ­vel 6 como se nĂŁo fosse nada. Quando pensei nisso, percebi que todos estavam sendo comidos enquanto sua atenção estava em mim. Se eles estivessem no estado de espĂ­rito que adotavam ao invadir cofres do tesouro, eu tinha certeza de que isso nĂŁo estaria acontecendo.

Talvez eu devesse me deixar ser comido logo de cara?

Claro que isso aconteceu depois que eu devolvi a Pedra Sonora. Como eu estava planejando passar o dia trancado no meu quarto, eu nĂŁo tinha nenhuma RelĂ­quia comigo. Embora eu nĂŁo tenha certeza se eu conseguiria lidar com isso, mesmo que tivesse qualquer RelĂ­quia que eu escolhesse!

— Se vocĂȘ Ă© tĂŁo voraz, deveria apenas comer uma barra de chocolate… — eu sussurrei, sem saber o que mais eu poderia fazer.

NĂŁo consigo imaginar que humanos tenham um gosto muito bom.

No momento seguinte, o baĂș de tesouro saltou para a frente, aterrissando bem na minha frente. Assustado, dei um passo para trĂĄs. E o baĂș nĂŁo fez nada. Eu parei de me mover por pura resignação, mas depois de alguns momentos, o baĂș ainda nĂŁo tinha feito nada. Depois de engolir Liz e todos os outros, essa coisa realmente nĂŁo ia me comer? Era um gourmet?

Deus, pensar que essa coisa, pesada demais para eu levantar, ainda podia se mover como uma cobra e atingir o chĂŁo sem fazer barulho. Esse tipo de furtividade me horrorizava.

Espera, aguenta aĂ­.

Meus olhos se arregalaram. Respirei fundo e me decidi. Toquei suavemente na tampa do baĂș, abri-a sĂł um pouco, deslizei uma barra de chocolate pela fenda e fechei-a novamente. Para algo tĂŁo pesado, sua tampa era bem leve. AtĂ© eu conseguia levantĂĄ-la.

— Eu dificilmente poderia pedir um baĂș de tesouro melhor. Grande capacidade, silencioso, funçÔes automĂĄticas. Suponho que tambĂ©m seja perfeitamente seguro?

O baĂș do tesouro nĂŁo respondeu. Como poderia? Era um baĂș de tesouro, afinal. NĂŁo podia falar pelos mesmos motivos que o Tapete nĂŁo podia.

Uma das RelĂ­quias mais famosas era a Bolsa MĂĄgica, uma bolsa que continha muito mais do que sua aparĂȘncia sugeria. Eu tinha apenas uma, e ela era capaz apenas de conter itens especĂ­ficos, mas essas bolsas eram raras, cobiçadas e muito Ășteis. Bolsas MĂĄgicas eram o tipo de RelĂ­quia que, embora uma que pudesse armazenar qualquer coisa fosse vendida por mais de cem milhĂ”es, raramente chegavam ao mercado.

Pensando nisso, comecei a entender como este baĂș conseguiu pegar Liz de surpresa tĂŁo facilmente. Foi porque este nĂŁo era um monstro nem um fantasma. NĂŁo era um monstro nem um fantasma, entĂŁo ela se submeteu ao meu julgamento.

Existem Bolsas MĂĄgicas que podem conter criaturas vivas?

Mais uma vez, abri a tampa. Dentro havia uma escuridĂŁo impenetrĂĄvel. Infelizmente, nĂŁo houve muita pesquisa sobre o que acontecia dentro das Bolsas MĂĄgicas. Isso era em parte porque elas geralmente nĂŁo podiam conter formas de vida.

Enfiei a mĂŁo na escuridĂŁo e peguei a barra de chocolate que havia colocado momentos antes. Havia alguns itens inĂșteis que nĂŁo permitiam remover o que vocĂȘ tinha colocado, mas parecia que este baĂș nĂŁo era um desses. Meu Tapete, que passava os dias se entregando Ă  depravação com seus tapetes namoradas, poderia aprender uma coisa ou duas com este baĂș.

— Posso adicionar e remover como quiser. Perfeito.

Com um leve snap, mordi um pedaço da barra de chocolate e saboreei a doce sensação. Comecei a desejar um pouco de chĂĄ quando recobrei o juĂ­zo. Eu nĂŁo precisava de um baĂș que pudesse engolir ladrĂ”es e agressores!

Joguei meu braço para dentro do baĂș.

— Eva. Eu quero Eva. Eu quero Eva…

Meus dedos entraram em contato com algo macio e quente. Apertei meu aperto e puxei com todas as minhas forças. Saindo da escuridão, Eva surgiu. Confusa, ela apenas sentou no chão até que finalmente compreendeu a situação e soltou um suspiro profundo. Eva com os óculos tortos era uma visão muito rara.

— E-Eu pensei que ia morrer. Estava tudo escuro, e eu não tinha ideia de qual direção era qual.

Graças a Deus ela estå viva.

Parecia que suas memĂłrias tambĂ©m estavam intactas. Foi provavelmente alguma função do baĂș que me permitiu pescĂĄ-la sozinho. Que item de qualidade.

Eva deve ter ficado assustada, pois notei lĂĄgrimas nos cantos dos seus olhos.

— É uma Bolsa MĂĄgica, entĂŁo nĂŁo havia como vocĂȘ morrer.

— Isso Ă© uma Bolsa MĂĄgica?! SĂ©rio?! — Ela correu atĂ© mim. — V-VocĂȘ deveria ter dito! Eu estava incrivelmente assustada!

Acho que ela havia recuperado suas forças. Soltei um suspiro interno de alívio enquanto me desculpava com ela. Eu também estava incrivelmente assustado. Liz e os outros eram caçadores, mas Eva era apenas uma funcionåria do clã. Com muito menos material de mana (entre outras coisas), isso deve ter sido um pesadelo. Mesmo o Anel de Segurança que eu lhe dei provavelmente não teria sido de muita utilidade!

O baĂș nĂŁo me comeu porque viu a igreja me dar? Ou Ă© porque eu o elogiei? Um verdadeiro oportunista, este.

Respirei fundo e murmurei um certo nome enquanto enfiava meu braço no baĂș. — Eu quero Liz. Eu quero Liz


Depois de saber o que tinha acontecido, Sven soltou um gemido. — Eu entendi agora. É-É sĂł mais uma das suas travessuras…

Lyle e seu grupo reagiram de forma semelhante. Eles nĂŁo pareciam zangados; em vez disso, estavam chocados por terem sido pegos desprevenidos por um baĂș de tesouro. Caçadores nĂŁo batalhavam apenas em cofres do tesouro, embora isso nĂŁo incluĂ­sse necessariamente emboscadas dentro da prĂłpria casa do clĂŁ.

Apesar de estar cercado por aqueles que acabara de comer, o baĂș permaneceu perfeitamente imĂłvel. Quanto a Sven e companhia, eles poderiam ser um bando sedento por sangue, mas nĂŁo iriam procurar vingança em um mero objeto.

— Mas, droga, uma Bolsa MĂĄgica que pode conter criaturas vivas. Se a vendĂȘssemos, poderĂ­amos construir uma segunda casa do clĂŁ.

— Tem uma capacidade e tanto. Cabemos todos nós lá dentro.

Os caçadores todos olharam para o baĂș com evidente nojo. Eles tinham razĂŁo, mas eu era o Ășnico que considerava um defeito fatal o fato de o baĂș gostar de engolir pessoas? Especialmente porque parecia que eles nĂŁo conseguiam sair sozinhos? Deixando de lado um certo Tapete que nĂŁo permitia passageiros, dedicação excessiva ao prĂłprio papel nĂŁo era necessariamente uma coisa boa.

— Krai Babyy, eu poderia ter saído, sabia? — Liz disse. Ao contrário de todos os outros, ela não estava mostrando nenhum sinal de orgulho ferido e parecia a mesma de sempre. — É que quando vi a T, tentei agarrá-la, mas a saída se fechou.

Eu me virei para Tino, mas ela estava de costas para nĂłs e tremia em silĂȘncio. Acho que Ă© isso que acontece quando vocĂȘ Ă© subitamente engolido por trĂĄs. O baĂș provavelmente a confundiu com uma ladra, jĂĄ que foi ela quem quebrou a fechadura.

— Mas essa coisa Ă© enorme, sem dĂșvida — disse Sven. — Havia uma cidade lĂĄ dentro. NĂŁo tivemos a chance de explorĂĄ-la, no entanto.

— Uma cidade?! Havia uma cidade?!

O que esse baĂș estĂĄ fazendo comendo uma cidade? Quanto ele aguenta?

Quase toda Bolsa MĂĄgica era vendida por uma quantia considerĂĄvel, entĂŁo por quanto esta seria vendida? Comecei a me perguntar se talvez o conhecimento deste baĂș nĂŁo se tornou comum porque ele come qualquer um que soubesse dele? Eu fiz a descoberta do sĂ©culo, e foi uma terrĂ­vel.

Eva ajustou os Ăłculos enquanto eu dava tapinhas no baĂș de tesouro perfeito.

— Krai, vocĂȘ estĂĄ pensando em vendĂȘ-lo para uma empresa comercial?

— Nah, eu não vou vender. Por que a pergunta?

— É que isso pode desequilibrar a balança.

AtĂ© mesmo uma Bolsa MĂĄgica normal podia afetar o mercado, entĂŁo algo com essa capacidade seria cataclĂ­smico. Eu conseguia pensar em vĂĄrios usos potenciais para ele. Tipo, talvez vocĂȘ pudesse drenar um lago ou algo assim.

Que coisa insana eu consegui. Talvez eu o faça lutar contra o Tapete.

— Hm? — disse Liz como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer. — Isso significa que a minha vez acabou?! Por quĂȘ? Onde estĂĄ a maldição? Krai Babyy, estou sendo passada para trĂĄs?

— O quĂȘ?

O que era aquilo sobre uma maldição? Por que ela queria algo assim? Eu estava falando com Luke? Quem mais insistiria que deveria passar pelo inferno porque todos os outros passaram? Acho que ela era uma espécie de Luke, mentalmente falando.

Enquanto Liz começava a fazer uma cena, os outros se preparavam para sair.

— VocĂȘ pode nos deixar de fora dessa bagunça — disse Sven. — Me dĂĄ um tempo. Vamos, Marietta, estamos indo para o campo de treinamento!

— Acho que tambĂ©m poderĂ­amos usar um pouco de treinamento. — Nunca gostando de se destacar, Lyle suspirou e se levantou. — Quem diria que seria comido por um baĂș de tesouro na prĂłpria casa do clĂŁ. E se isso deixar um trauma duradouro?

VocĂȘ nĂŁo Ă© o Ășnico traumatizado…

— Da mesma forma, eu vou descansar.

AtĂ© Eva estava me abandonando. Eu estava sendo deixado com Tino, uma Liz barulhenta, e o baĂș que causou toda essa confusĂŁo. Tudo bem. Eles podiam descansar. Eu estava acostumado com coisas assim.

— Mais uma vez, Krai Babyy! — Liz me incomodou, encostando-se nas minhas costas. — Deixa eu tentar de novo! Eu definitivamente não vou falhar desta vez! Anda!

NĂŁo Ă© que isso acabou porque vocĂȘ falhou ou algo assim. E o que vocĂȘ quer dizer com falhar?

Eu nĂŁo planejei que isso acontecesse quando lhe dei o baĂș de tesouro! Como eu poderia convencĂȘ-la disso? Ela se sentiria melhor se eu a deixasse se divertir? Eu cedi e a deixei me abraçar por trĂĄs. Mas entĂŁo ela parou de repente e olhou para Tino. Sob seu olhar severo, Tino estremeceu e olhou para o lado.

Pensando bem, vocĂȘ tem estado muito quieta desde que saiu daquele baĂș.

— VocĂȘ estĂĄ escondendo algo, T?

— Uh. Ummm. Do que vocĂȘ estĂĄ falando, Lizzy?

Seus olhos estavam se desviando. LadrÔes eram geralmente bons mentirosos, mas suponho que a hierarquia mentor-aluno atrapalhava isso. Liz pressionou os låbios no meu pescoço e depois se afastou de mim. Cerrando o punho, ela sorriu enquanto caminhava até Tino. Sentindo-se encurralada, Tino olhou em volta antes de se decidir e disparar em minha direção.

— Meeestre! Mestre, aqui!

Pega desprevenida, Liz ainda conseguiu agarrar sua perna. Tino estendeu o braço, mas caiu, batendo o rosto no chão pouco antes de poder me alcançar. No entanto, ela não parecia ferida ao levantar a cabeça e abrir a mão na minha frente. Um anel antigo rolou de sua palma. Era feito de madeira e tinha um padrão estranho nitidamente gravado em sua superfície. Também tinha a atmosfera distinta de uma Relíquia.

— I-Isso estava no chão — disse Tino, com os olhos se desviando descontroladamente —, então eu simplesmente peguei. Aí a saída fechou.

— Huuuh?! T, vocĂȘ estĂĄ dizendo que pegou meu papel?!

— N-Não, Lizzy! E-Eu não sabia o que estava fazendo!

A jovem Tino havia imitado inteiramente Liz. Honestamente, fiquei surpreso por ela ter escolhido o anel em vez da saída. Ela se tornou uma verdadeira Ladina. Liz estava atordoada, tanto que aparentemente havia esquecido de ficar brava. Tive a sensação de que, se eu não dissesse algo, Tino estaria em mais problemas do que percebia.

Eu peguei o anel e o coloquei. EntĂŁo, antes que Liz pudesse recuperar a sanidade, eu disse: — EstĂĄ tudo d-de acordo com o plano. EntĂŁo vocĂȘ pode se acalmar.

— Huh? VocĂȘ planejou isso? EntĂŁo eu nĂŁo preciso matar a T, afinal?

— É, aham.

Tino estava ficando cada vez mais pĂĄlida. Sua capacidade de se defender, apesar da disciplina rigorosa de Liz, era genuinamente incrĂ­vel. Mas esta nĂŁo era a hora de aplaudir seu crescimento; eu precisava manter Liz distraĂ­da.

— Vamos lĂĄ, se acalme, Liz. Aqui, eu tenho. Por que nĂŁo explora a cidade? Eu nĂŁo sei quem a fez, mas Ă© uma cidade dentro de um baĂș. Tenho certeza de que hĂĄ algo interessante.

Eu me virei e olhei para o baĂș.

Uma cidade dentro de um baĂș. AlguĂ©m faz ideia de quem a fez?

Liz piscou. Tino estava suando frio, embora talvez fosse um pouco tarde para isso. Sem dizer nada, eu fui atĂ© o baĂș, abri a tampa e enfiei meu braço, sem precisar adivinhar o que eu disse.

— Saia, todo mundo que estava desaparecido na igreja. Saia, todo mundo que estava desaparecido na igreja…

Mais de dez padres emergiram do baĂș de tesouro. Nem mesmo Liz conseguiu esconder sua surpresa enquanto mais e mais deles surgiam. Eles exibiram reaçÔes variadas ao emergirem. Houve alguns que pareciam duvidar dos prĂłprios olhos, enquanto outros se emocionaram Ă s lĂĄgrimas.

Liz e os outros nĂŁo ficaram lĂĄ por muito tempo, entĂŁo nĂŁo foram muito afetados, mas como algumas dessas pessoas da igreja estavam lĂĄ hĂĄ anos, eu nĂŁo podia culpĂĄ-los por chorar. Olhe para Eva; ela ficou com os olhos marejados depois de ficar lĂĄ por apenas alguns minutos.

— E-Eu nĂŁo gonsigo agradecer o suficienge! VocĂȘ realmente nos salvĂŽ!

— É, estou feliz que vocĂȘs estejam bem.

Tudo estĂĄ bem quando acaba bem.

Conversando com eles, parecia que todos foram engolidos quando acidentalmente desfizeram o cadeado enquanto limpavam o depĂłsito. Eu nĂŁo sei como vocĂȘ acidentalmente desfaz um cadeado, mas entendi como um sinal de que esses nĂŁo eram os padres mais diligentes. Pelo que parecia, nĂŁo houve muito alarme quando algum deles desapareceu.

Mas alguĂ©m nĂŁo acharia suspeito se encontrassem um cadeado desfeito quando nĂŁo era para ser o caso? Franzi a testa e examinei o baĂș. E naquele exato momento, o baĂș pegou o cadeado e o prendeu. Entendi. EntĂŁo ele tem um cadeado automĂĄtico? Que brota braços. Isso existe?

— Hmm. EntĂŁo vocĂȘs fizeram essa cidade? — Liz perguntou.

— N-NĂŁo — um deles respondeu. — Aquilo estava lĂĄ antes de nĂłs. Veja bem, lĂĄ embaixo, vocĂȘ nĂŁo sente fome nem sede…

Aquilo era realmente impressionante. Alguns cofres do tesouro operavam com regras diferentes das do nosso mundo, e este baĂș poderia ser algo semelhante. Eu podia ver todos os tipos de usos para isso, como drenar um oceano ou algo assim.

Oh. Talvez eu pudesse usĂĄ-lo para manter os ingredientes frescos?

Usos potenciais Ă  parte, esta era, sem dĂșvida, uma RelĂ­quia e tanto. Se o impĂ©rio descobrisse, eles poderiam tirĂĄ-la de mim. Todos os tipos de possibilidades terrĂ­veis começaram a me ocorrer.

Bati palmas e me virei para os padres que haviam retornado recentemente ao mundo da superfĂ­cie. — Por enquanto, por que vocĂȘs nĂŁo dizem que foram levados por espĂ­ritos e voltem para suas famĂ­lias? NĂłs cuidaremos deste baĂș, entĂŁo, por favor, mantenham o que aconteceu aqui em segredo.

Agradecendo-nos efusivamente, os padres partiram da casa do clĂŁ. Eu nĂŁo sabia o quanto eles planejavam contar ao Padre Edgar, mas, bem, acho que eu estava disposto a devolver esta coisa se eles me pedissem. Este baĂș super-capaz era mais do que eu podia lidar, e eu nĂŁo conseguia ver como o usaria. Eu poderia economizar espaço no meu quarto armazenando minhas RelĂ­quias nesta coisa, mas nĂŁo ser capaz de sair sem ajuda externa era um enorme impedimento.

Cara, eu nunca esperei que acabaria salvando alguĂ©m. A vida Ă© cheia de experiĂȘncias estranhas.

Estes Ășltimos dias foram um turbilhĂŁo de problemas estranhos, mas se algumas pessoas foram salvas como resultado, talvez nĂŁo tenha sido tudo em vĂŁo?

Eu estava pronto para encerrar as coisas, mas entĂŁo Liz olhou para mim com uma severidade incomum.

— Krai Babyy, algo me diz que esses caras vieram de períodos diferentes. Nem todos tinham o mesmo uniforme.

— Huh?

— Aposto que sem o sol, a noção de tempo deles ficou toda bagunçada. VocĂȘ acha que Ă© possĂ­vel que as pessoas nĂŁo envelheçam lĂĄ dentro?

Fiquei em silĂȘncio enquanto um calafrio percorria minhas costas. Tino cobriu os ouvidos como se estivesse tendo um mau pressentimento. Eu conseguia me identificar. Eu nĂŁo queria me envolver em mais nenhuma coisa louca.

Eles realmente foram levados por espĂ­ritos, nĂŁo foram? Acho que vou adiar fazer essa coisa lutar contra o Tapete. Isso nĂŁo Ă© algo para brincar.

Respirei fundo e tentei tirar tudo isso da minha cabeça. Claro, nosso amigo o baĂș de tesouro era um pouco assustador, mas isso ficaria bem contanto que eu nĂŁo o usasse. Felizmente, ele parecia muito bonito, entĂŁo poderia ser apenas um item de decoração de interiores.

— Bem, por enquanto, estou apenas feliz por ter visto o quanto vocĂȘs duas cresceram — eu disse, estendendo a mĂŁo e olhando para meu novo anel RelĂ­quia.

Tino pareceu incrivelmente surpresa ao ouvir isso.

— E que tipo de crescimento Ă© esse? — Liz perguntou com os lĂĄbios franzidos.

Se eu tivesse que dizer, acho que foi o fato de ela ter priorizado Tino em vez do anel. Por outro lado, o fato de Tino ter optado pela Relíquia em vez da saída provou que ela se tornou uma verdadeira caçadora.

Acho que nĂŁo aguento mais problemas. Terei que levar este anel para Matthis mais tarde.

Cantandoolarolando para mim mesmo, tirei o anel. Ou tentei. EntĂŁo me atingiu.

— Mestre, hum, o que vocĂȘ achou do anel? — Tino perguntou com um sorriso inquieto.

— Sinto que fui superada pela T. Bem, eu não vou discutir com o Krai Babyy sobre isso — disse Liz, estando mais maleável do que o normal.

Eu pigarreei e enfiei a mĂŁo no bolso. — NĂŁo Ă© tĂŁo ruim. Eu vou pedir para Matthis avaliĂĄ-lo!

Eu, ah, não consigo tirar essa coisa. Poderia ser que essa coisa é amaldiçoada? O-O que eu vou fazer?

Eu estava com um anel amaldiçoado. No que diz respeito às falhas de Relíquias, ser inamovível era bastante comum. Meio como a Espada Demoníaca de Luke que não podia ser largada enquanto estava em uso, qualquer coisa que não pudesse ser fisicamente removida ou que voltasse por conta própria se descartada era considerada amaldiçoada pelos caçadores.

Algumas RelĂ­quias ficavam assim devido ao que era para ser uma precaução contra perdĂȘ-las, mas a maioria delas eram itens aborrecidos que tinham algum tipo de efeito negativo. Claro, elas ainda eram RelĂ­quias; se sua carga acabasse, o mesmo aconteceria com sua aderĂȘncia. Exceto que a maioria desses itens tinha altas capacidades e a capacidade de drenar mana de seu usuĂĄrio.

RelĂ­quias dessa variedade eram muito provavelmente manifestaçÔes de itens amaldiçoados do passado distante. Essa teoria era fortemente apoiada pelo fato de que, assim como itens amaldiçoados, a melhor maneira de se livrar de uma RelĂ­quia inamovĂ­vel era tĂȘ-la purificada por um padre.

Antes que isso pudesse se transformar em uma provação, fomos rapidamente para a loja de Matthis. Ele não perdeu tempo olhando o item e, com o Efeito Tino melhorando seu humor, começamos a discutir este anel que não saía, apesar de não parecer particularmente apertado.

No momento em que ele soube o que havia acontecido, suas bochechas começaram a tremer. — Krai, nĂŁo me diga que vocĂȘ realmente colocou essa coisa sem pensar?!

— N-NĂŁo, de jeito nenhum…

— Seu burro! VocĂȘ estĂĄ colecionando RelĂ­quias hĂĄ quantos anos?! Ou vocĂȘ começou ontem?!

Muitas Relíquias eram amplamente desconhecidas, e muitas delas eram perigosas. É por isso que os avaliadores de Relíquias eram tão valiosos.

Tino empalideceu ao ver a expressĂŁo severa de Matthis, mas Liz estava mais do que disposta a revidar.

— Eu ouvi direito? Matthis, o alto nĂ­vel dele nĂŁo significa nada para vocĂȘ? De jeito nenhum ele colocou isso sem pensar!

Com um grunhido, Matthis me examinou. A objeção de Liz trouxe um suspiro de alívio de Tino.

É, vamos colocar isso na conta da astĂșcia sobre-humana.

Eu cruzei os braços e exibi um sorriso firme e resoluto, uma habilidade que era muito conveniente em momentos como estes.

— Não se preocupe com isso, apenas prossiga com a avaliação. Quero ver se estou no caminho certo.

— Comparando resultados, Ă©? Me dĂȘ um minuto. Eu jĂĄ vi este anel antes.

Que cara confiĂĄvel. Eu estava certo em fazer desta a minha loja de referĂȘncia.

Matthis pegou um livro grosso e feito Ă  mĂŁo dos fundos da loja. O produto de dĂ©cadas de experiĂȘncia, esta era uma enciclopĂ©dia repleta de informaçÔes, muitas delas conhecidas apenas por ele. Com um baque, ele colocou o livro e folheou-o atĂ© parar em uma determinada pĂĄgina.

— É este. Hmph. Quem mais alĂ©m dos EspĂ­ritos Nobres faria um anel de madeira? Hm. NĂŁo Ă© todo dia que vocĂȘ pega algo tĂŁo aborrecido no seu dedo. Onde vocĂȘ o encontrou?

Era definitivamente este. O anel na imagem parecia exatamente com o que estava no meu dedo. Ao lado dele estava um nome.

— Anel do Eremita? É um anel usado para treinamento?

— Foi o que os Espíritos Nobres me disseram. Apenas um punhado de avaliadores sabe disso. Eles, os Espíritos Nobres, não suportam que um de seus itens esteja solto no mundo.

Eles compartilharam esta informação conosco, esperando que os ajudasse a recuperar sua Relíquia.

Entendi. Ah, droga. Eu nĂŁo consigo imaginar isso, nĂŁo depois que Kris e Eliza definiram minha imagem de EspĂ­ritos Nobres.

Matthis continuou sua explicação com uma voz grave. Eu jĂĄ lhe havia mostrado uma boa quantidade de itens perigosos no passado, mas fazia algum tempo desde a Ășltima vez que o vi assim. O coração dele provavelmente pararia se eu lhe mostrasse o baĂș de tesouro.

— Entre os antigos EspĂ­ritos Nobres, havia alguns poucos selecionados com poder e sangue excepcionais. Eles eram os Nobres Superiores, e um de seus orĂĄculos fez este anel para obter os poderes das dimensĂ”es superiores. Isso sĂł mostra que nĂŁo sĂŁo apenas os humanos que se metem em encrenca.

Hum? Eu vou ganhar poderes de dimensÔes superiores?

Isso não parecia muito bom. Isso significava que eu teria que começar a me aventurar com meus amigos?

— Então, há algum efeito notável? — eu perguntei, um pouco animado.

Matthis respirou fundo, fez uma pausa e entĂŁo disse gravemente: — Krai, escute com atenção. Este anel atrai maldiçÔes.

Ele atrai maldiçÔes?!

— Esse Ă© um anel feito por um orĂĄculo Nobre Superior, ou seja, um XamĂŁ, para que pudessem lidar com energias malignas maiores. HĂĄ uma tĂ©cnica semelhante conhecida como kodoku, e esta Ă© uma extensĂŁo disso. O anel foi deixado de lado quando se mostrou muito eficaz, pois levou Ă  morte de vĂĄrios Nobres Superiores. Mas como ainda se fala dele, ele se manifestou como uma RelĂ­quia. A longa vida Ăștil deles nem sempre Ă© uma coisa boa. Krai, esse anel Ă© muito mais perigoso do que vocĂȘ imagina. VocĂȘ precisarĂĄ de um XamĂŁ Nobre capaz sĂł para tirĂĄ-lo. Mesmo que vocĂȘ seja um NĂ­vel 8.

Eu senti como se tivesse levado um golpe na cabeça. Tino olhou para mim com preocupação. O anel de madeira não parecia tão perigoso quanto Matthis havia dito, mas acho que é assim que alguns itens são.

Passei um momento olhando para o anel, depois estendi as mĂŁos e disse: — Ei, Matthis. Eu sei que isso Ă© repentino, mas eu nĂŁo estou usando nenhuma outra RelĂ­quia que atraia maldiçÔes, estou?

— Do que vocĂȘ estĂĄ falando?

É que eu tinha sido bombardeado com maldiçÔes desde antes de colocar essa coisa. Eu nĂŁo consigo imaginar como seria ter que lidar com ainda mais! Talvez nĂŁo houvesse espaço suficiente. Eles teriam que formar uma fila!

Eu tenho a sensação de que os dois negativos formarão um positivo. Graças a Deus isso não parece nada sério.

— Modelem seus espĂ­ritos! Ao perderem para uma Espada DemonĂ­aca, vocĂȘs desonraram nosso nome!

Os aprendizes brandiram suas espadas com determinação. Com o dano causado pela Espada Demoníaca ainda aparente, um fervor intenso, diferente de qualquer outro, havia caído sobre o dojo de Soln Rowell, o Santo da Espada.

Depois de olhar para seus alunos, Soln olhou para o seu lado, onde a fonte de todo o caos agora descansava. A Espada Demoníaca estava cravada em um pedestal e brilhava sob a luz do sol desobstruída. Teria brilhado um vermelho carmesim ameaçador ao perturbar as mentes das pessoas, como aconteceu quando Nadoli a empunhou, mas agora estava preta como o vazio.

Aquele brilho estranho enfeitiçava as pessoas e trazia loucura a qualquer um que a pegasse. Sua natureza demoníaca era real. Se Nadoli, um dos aprendizes mais talentosos, havia sido possuído, então isso era diferente de tudo que Soln jå havia visto.

Os talentos de Soln e seus alunos lhes renderam um lugar especial na capital imperial. Alguns de seus aprendizes vieram das famĂ­lias nobres mais poderosas da cidade, e Ă s vezes recebiam deferĂȘncia igual Ă  dos cavaleiros. Foi essa profunda confiança que os levou a ajudar na segurança na ReuniĂŁo da LĂąmina Branca.

Se a notĂ­cia se espalhasse de que alguns dos Espadachins deste dojo haviam sido possuĂ­dos por uma Espada DemonĂ­aca e entrado em fĂșria, sua reputação cairia, e o mesmo aconteceria com seu status. Foi graças Ă s açÔes rĂĄpidas de Sir Franz que isso ainda nĂŁo aconteceu. Embora nĂŁo pudessem disfarçar o fato de que o dojo havia sido arruinado, eles impuseram uma ordem de silĂȘncio na hora certa. Poderia haver rumores, mas enquanto nenhum estranho tivesse sido ferido e nenhuma prova existisse, nĂŁo havia razĂŁo para se preocupar.

Aparentemente, o Mil Truques havia pedido a ele para cuidar do assunto. Realmente astuto da parte dele, jĂĄ que foi ele quem enviou a espada.

O Ășnico grupo que realmente sabia o que tinha acontecido eram os prĂłprios alunos. Graças a uma demonstração de poder do prĂłprio Soln, apenas alguns aprendizes se retiraram apĂłs o incidente. Ele demonstrou o que um humano poderia alcançar atravĂ©s do treinamento para ser um Espadachim. Afinal, um dos fundamentos da escola de esgrima de Soln era treinar o coração, a mente e as tĂ©cnicas, para que se pudesse enfrentar chances impossĂ­veis com toda a sua força e manter a calma, nĂŁo importa a situação.

Por esta métrica, Nadoli ainda tinha um longo caminho a percorrer. Não importava se o Mil Truques era culpado ou não por isso; os resultados ainda eram uma fonte de constrangimento para Soln.

Ele colocou a mão no punho. Soln havia viajado por todo o mundo para dominar a lùmina. Ele duelou com muitos inimigos poderosos, foi abençoado com muitos amigos e em algum momento ganhou o título de Santo da Espada. Como uma lùmina afiada, um espírito temperado não seria quebrado por uma Espada Demoníaca amaldiçoada. O próprio Soln ainda tinha espaço para melhorias, mas ele poderia pelo menos se livrar de uma lùmina amaldiçoada.

Enviados pelo Mil Truques, os Trogloditas estavam reparando o dano do dojo com uma velocidade incrível. Não demoraria muito para que o prédio estivesse como novo, embora Soln estivesse começando a suspeitar que ele poderia parecer um pouco diferente do que costumava ser.

Os aprendizes observavam enquanto Soln segurava calmamente a Espada Demoníaca. —

HĂĄ de fato um poder terrĂ­vel Ă  espreita nesta lĂąmina — ele disse, seu olhar varrendo-os. — Esta Ă© uma arma demonĂ­aca que desvia seu portador e os engana para cometer massacres. Mas Ă© a fraqueza do coração que ela ataca. Alcancem a placididade de um lago, e vocĂȘs nĂŁo serĂŁo influenciados por uma espada.

Portanto, devido ao seu desejo inabalavelmente sincero e obsessivamente puro de ser um Espadachim melhor, Luke Sykol foi capaz de segurar a espada sem ser desviado. Na verdade, todas as espadas famosas podiam influenciar o coração de uma pessoa em algum grau. Qualquer um que pudesse tocar esta espada e manter sua sanidade era instantaneamente digno de ser considerado um verdadeiro Espadachim, independentemente de suas habilidades técnicas ou conquistas.

Assim como Espadas Sagradas escolhiam seus portadores, o mesmo acontecia com Espadas Demoníacas. Se usada por alguém com o coração certo, uma Espada Demoníaca poderia ser uma arma muito confiåvel.

— Qualquer um que se ache digno pode desafiar a Espada DemonĂ­aca quando quiser. Eu estarei lĂĄ para presidir. Se vocĂȘs puderem combater as artimanhas desta lĂąmina, isso provarĂĄ que entraram em uma nova fase de seu treinamento.

Com um novo e claro objetivo, os aprendizes estavam cheios de determinação renovada. Nesse ritmo, o aparecimento de um Espadachim que pudesse triunfar sobre a Espada Demoníaca não estava longe. Talvez a recente tragédia não seria sem seus benefícios.

Soln ouviu gritos de determinação de seus aprendizes. Nadoli estava entre eles. Ele havia se recuperado de seus ferimentos e estava brandindo sua espada com dedicação absoluta.

— Mestre — disse Luke, a Ășnica pessoa brandindo uma espada de madeira — onde estĂĄ meu teste?

— Luke, vocĂȘ pode aprender a nĂŁo cortar.

— Eu fiz isso hĂĄ muito tempo, quando Krai me disse para fazer. Agora, Mestre, eu quero cortar uns caras bem durĂ”es!

Lembro-me de ter te dito a mesma coisa…

Então ocorreu a Soln que talvez Luke não tenha sido desviado pela espada porque seu coração jå era desencaminhado. Soln soltou um suspiro profundo enquanto uma sensação muito ruim o dominava. Mesmo para o Santo da Espada, guiar seus alunos pelo caminho certo não era uma tarefa fåcil.

— Hmm. Isso significa que nossos problemas não foram em vão?

— Que magnĂ­fica amplificação. Este cajado Ă© comparĂĄvel a uma RelĂ­quia poderosa.

Tanto medo quanto empolgação se misturavam na voz de sua assistente Anna. Seyge Claster bateu um dedo nas tĂȘmporas enquanto começava a entender que aquelas histĂłrias que ouvia sobre o irmĂŁo de Lucia nĂŁo eram brincadeira.

Os professores mais importantes da Academia de Magia de Zebrudia estavam todos reunidos na sala de aula. Embora os reparos no prédio e nas barreiras ainda estivessem em andamento, eles se reuniram para ouvir sobre uma nova descoberta.

No centro do salĂŁo estava um cajado estranho de preto puro. Este, no entanto, nĂŁo era um cajado comum. Praticamente qualquer um minimamente versado em magia provavelmente podia ver o redemoinho que se formava enquanto ele atraĂ­a mana do ar circundante. Esta era uma caracterĂ­stica rara encontrada apenas nos melhores cajados. Um cajado superior, Ă© claro, canalizaria a mana de seu portador, mas tambĂ©m a do ar ao redor deles, convertendo-a em feitiços com extrema eficiĂȘncia.

Este cajado em particular havia sido feito das cinzas daquela Árvore do Mundo Negro, que havia causado tanta destruição. Eles ficaram surpresos ao saber que as cinzas seriam um catalisador excelente, e mais ainda ao saber que poderiam ser usadas para fazer um cajado de primeira linha. A essa altura, os professores nem pareciam estar zangados com o dano causado à academia.

— A Árvore do Mundo Negro. É justo presumir que há verdade na noção de que ela foi feita para imitar a Árvore do Mundo?

— A absorção de mana talvez seja um efeito secundĂĄrio? Considerando o que vimos, faz muito mais sentido que a absorção esteja lĂĄ para ajudar no seu crescimento. Diz-se que a Árvore do Mundo atraiu imensas quantidades de mana atravĂ©s de raĂ­zes que passaram anos e anos no chĂŁo. A absorção deste cajado tem como objetivo preencher esse mesmo papel.

Um Mago faria qualquer coisa para colocar as mĂŁos em um cajado que aprimorasse significativamente suas habilidades. Cajados de alto grau eram incrivelmente raros. Materiais, tĂ©cnicas do fabricante e o tempo de produção podiam alterar drasticamente as capacidades de um cajado, e nĂŁo havia dois idĂȘnticos. Mesmo para artesĂŁos capazes de produzir cajados de primeira linha, apenas um em cada dez produzido conseguia suportar o uso real.

Mais importante, no entanto, os cajados produzidos na era moderna eram esmagadoramente inferiores aos seus equivalentes em RelĂ­quias. Mesmo os cajados de Magos famosos raramente se manifestavam mais de uma vez, e quaisquer cajados modernos que pudessem competir com RelĂ­quias eram excessivamente caros.

Em uma instituição como a Academia de Magia de Zebrudia, cajados distintos nĂŁo eram tĂŁo raros, mas quando surgia a possibilidade de fazer um poderoso, era quase inevitĂĄvel que todos deixassem de lado seu trabalho de restaurar as barreiras para se reunirem. Seyge, que era Maga hĂĄ muito mais tempo do que sua aparĂȘncia sugeria, mal tinha visto algo parecido.

— Se o que sabemos Ă© verdade, o cajado anterior nunca enlouqueceu enquanto era usado pelo Mago que se tornou amigo do Santo da Espada. Talvez ele tenha se tornado agressivo porque sofreu deficiĂȘncia de mana depois de passar todos aqueles anos armazenado sem ser usado?

— O que significaria que os ataques de Rosemary e dos nossos Magos o saciaram? O raciocĂ­nio Ă© sĂłlido…

— Em outras palavras, o Mil Truques nos enviou este cajado antecipando este resultado?

Isso nĂŁo podia ser. Os olhos deles estavam sendo obscurecidos pela descoberta de uma vida. Se Seyge permanecesse calada, esta conversa enveredaria por um territĂłrio bizarro.

— Esperem — ela disse. — Não importa os motivos dele, não devemos perdoar o fato de que ele danificou a academia e colocou a cidade em perigo.

— Sim, mas Professora Seyge, nem mesmo o impĂ©rio disse algo. Afinal, o Mil Truques acabou de salvar a vida do imperador e impediu os planos da Raposa Sombria de Nove Caudas no Festival do Guerreiro Supremo. CriticĂĄ-lo agora nos colocaria em uma posição delicada.

Eles tinham razão. Seyge havia investigado pessoalmente o Mil Truques e, apesar de sua baixa opinião sobre o jovem, ela foi forçada a admitir que suas conquistas eram surpreendentes.

Um dos professores franziu a testa enquanto olhava para Lucia, parada cabisbaixa ao lado de Seyge. — NĂŁo sĂł isso, ele Ă© irmĂŁo da Lucia — ele disse.

— Somos irmĂŁos adotivos, Professor — Lucia corrigiu. — E eu tambĂ©m sou da opiniĂŁo de que meu irmĂŁo foi longe demais nesta situação.

Por que sua irmĂŁzinha estava do lado de Seyge quando todos os outros professores estavam do lado do Mil Truques? Se as conversas diĂĄrias dela servissem de indicação, era porque ele estava sempre criando trabalho extra para ela. Embora, estranhamente, se vocĂȘ escutasse tempo suficiente essas conversas, vocĂȘ podia ouvir um tom carinhoso na voz dela.

— Adotivo ou nĂŁo, isso Ă© irrelevante! — o professor objetou. — O problema Ă© que os custos de um conflito com ele superariam em muito os benefĂ­cios. Seria melhor usarmos nosso tempo explorando as novas possibilidades desta simulação da Árvore do Mundo, ou o que quer que seja. Se ela se expande absorvendo mana, entĂŁo, nas circunstĂąncias certas, nĂŁo podemos reproduzi-la infinitamente?

— A capacidade de reproduzir infinitamente um material no mesmo nível da Árvore do Mundo seria uma descoberta histórica.

Eles haviam superado completamente o imenso dano que a ĂĄrvore havia causado Ă  academia. Claro, com Seyge e os outros professores por perto, eles seriam capazes de gerenciar a situação caso outra fĂșria ocorresse. Ainda assim, isso nĂŁo era motivo para os professores serem tĂŁo casuais sobre a possibilidade. Mas tal declaração apenas cairia em ouvidos moucos, um fato com o qual Seyge estava mais ou menos resignada.

— Agora — disse um dos professores —, devemos discutir qual laboratório ficará encarregado de pesquisar este cajado, no entanto—

A sala congelou. As propriedades do cajado por si sĂł o tornavam um assunto fascinante. Qualquer pessoa envolvida em pesquisa mĂĄgica estaria disposta a pagar o que fosse por ele. Normalmente, os direitos iriam para quem tivesse feito o cajado, mas estas eram circunstĂąncias Ășnicas. Interromper a fĂșria do cajado exigiu os esforços de todos no corpo docente. Seyge soltou outro suspiro com a perspectiva de outra longa discussĂŁo. Mas entĂŁo o professor de antes disse algo inesperado.

— Tenho certeza de que todos vocĂȘs tĂȘm suas prĂłprias propostas, mas Lucia Rogier Ă© a irmĂŁ mais nova do Mil Truques, e ela trabalha para a Professora Seyge. Como tenho certeza de que todos estĂŁo cientes, ele fez um grimĂłrio para Lucia, e Ă© muito provĂĄvel que ele tenha nos trazido o cajado de forma semelhante, pensando nela. Eu acredito que Ă© sensato confiarmos o cajado ao laboratĂłrio da Professora Seyge. AlguĂ©m objeta?

Imediatamente, todos os outros professores olharam para Seyge. O que todos esses renomados Magos poderiam estar pensando, cedendo materiais tão preciosos para outra pessoa? Seyge olhou para seus colegas. Ninguém parecia ter objeçÔes. Não, havia algo. Seus olhares eram tão pesados que a oprimiam.

— Entendido — ela disse com uma careta. — No entanto, este cajado Ă© inegavelmente o produto dos esforços de todos, entĂŁo todos vocĂȘs serĂŁo mantidos a par de tudo o que descobrirmos.

— Isso certamente entrará para a história. Aguardamos ansiosamente o acompanhamento do seu progresso, Professora Seyge.

Este era um colar. Era uma forma de isca destinada a persuadir Seyge, a Ășnica pessoa que ainda se opunha Ă  posição atual deles, a nĂŁo sair da linha. Claro, tambĂ©m foi feito por respeito ao Mil Truques; nĂŁo havia dĂșvida na mente de ninguĂ©m de que ele prezava por sua irmĂŁ. O sentimento comum na academia era perdoĂĄ-lo. Se todas as vĂ­timas estavam se inclinando nessa direção, Seyge nĂŁo estava em posição de dizer o contrĂĄrio.

Parecia que este assunto estava resolvido. Mas isso nĂŁo significava que ela o havia perdoado. Ele jĂĄ havia distorcido os talentos de Lucia dando-lhe aquele grimĂłrio enlouquecido.

Certifique-se de transmitir nossos cumprimentos, irmã do Mil Truques — um dos professores chamou.

Ainda irritada como estava no inĂ­cio, ela cerrou o punho e gritou de volta para o professor, que era algumas boas dĂ©cadas mais velho que ela. — Somos irmĂŁos adotivos!

— Maldito Mil Truques. Usar nossa natureza como Alquimistas contra nós foi covarde!

Libertado de seu interrogatĂłrio, Nickolaf Smoky deixou a prisĂŁo com Sitri assim que ela chegou para buscĂĄ-lo. Ele sĂł havia sido detido e questionado por alguns dias, mas pareceu meses. Nickolaf era o chefe do Instituto Primus e um homem de nascimento nobre, e, portanto, tinha uma boa quantidade de poder, mas a magnitude do incidente significava que nem mesmo ele se safou ileso.

Levaria um pouco mais de tempo para que o resto dos pesquisadores voltasse ao instituto. Eles não teriam sido liberados tão facilmente se estivessem lutando pela verdadeira Chama de Morango e não apenas por leite de morango. Se nada mais, Nickolaf teria sido removido de sua posição e banido do instituto. Nesse caso, o instituto teria sido arruinado, jå que praticamente todos os membros do corpo docente estiveram envolvidos na luta.

— Sinto muito — disse Sitri, notando o aparente mau humor de Nickolaf. — Eu tambĂ©m me permiti ser enganada. Krai tem um certo senso de humor.

— Hmph. Quem esperaria que ele enganasse os prĂłprios membros do grupo? Ele Ă© tĂŁo implacĂĄvel quanto dizem.

Nickolaf tinha ouvido dizer que o Mil Truques brincou com o prĂłprio imperador enquanto o escoltava para uma conferĂȘncia. Numerosas viagens a cofres do tesouro devem ter entorpecido seu senso de cautela. Embora fosse raro alguĂ©m ficar entorpecido nĂŁo apenas com perigos, mas tambĂ©m com a autoridade, nĂŁo era inĂ©dito. O mais famoso dos campeĂ”es de Zebrudia, Solis Rodin, era uma dessas pessoas.

Sitri colocou as mĂŁos na frente do rosto, protegendo-se do olhar de Nickolaf. — Ele pode ser… excepcionalmente cruel.

Aquelas eram claramente lågrimas de crocodilo. Uma aprendiz que havia feito um nome para si mesma no mundo cruel dos Alquimistas não ia chorar por algo assim. O título de Prodígio não era apenas uma decoração bonita. Era a prova de que ela era versada em todas as habilidades necessårias a um Alquimista, incluindo jogar política.

— Oh, pare com isso. Nossa idiotice nos tornou suscetĂ­veis a tal truque. Na verdade, este incidente me ensinou quantas pessoas querem me ver morto. Sitri, presumo que nada aconteceu na minha ausĂȘncia?

— Nada. Afinal, quase todo mundo foi preso.

— Augh! Nós nunca fomos tão humilhados.

Os cavaleiros não prenderam Sitri, o que foi uma sorte para Nickolaf, jå que ela era tecnicamente sua ex-aprendiz. Em sua situação precåria, poucas pessoas estavam dispostas a se associar a ele.

Ela não foi presa porque havia provas claras de que não estava envolvida na luta. Isso, também, deve ter feito parte dos cålculos do Mil Truques. Nickolaf percebeu que sua ex-aprendiz tinha afeição por Krai Andrey, e Krai parecia dar atenção consideråvel à sua amiga de infùncia. Uma combinação que consistia no famoso artífice sobre-humano clarividente e na Prodígio alquímica seria uma força a ser reconhecida. Embora, por enquanto, Sitri não mostrasse interesse particular em ascender no mundo.

De repente, Nickolaf percebeu por que sua ex-aprendiz estava de tĂŁo bom humor, apesar das circunstĂąncias.

— Sitri, vocĂȘ roubou materiais de pesquisa dos outros departamentos enquanto todos estavam fora?

— Como ousa? — ela disse apĂłs uma pausa. — VocĂȘ me toma por alguĂ©m que faria algo tĂŁo terrĂ­vel? Que prova vocĂȘ tem?

Era preciso mais do que conhecimento e talento para se tornar a ProdĂ­gio. VocĂȘ tambĂ©m precisava de iniciativa e coragem para correr riscos. Sitri fez uma cara de quem havia sido ofendida, mas ela era uma mulher que sorria quando estava realmente ferida. Os melhores Alquimistas nĂŁo revelavam facilmente suas verdadeiras emoçÔes.

Nickolaf olhou-a diretamente nos olhos. Ela franziu a testa e tentou resistir, mas eventualmente desviou o olhar.

— Eu nĂŁo roubei nada, mas, bem, eu nĂŁo podia simplesmente deixar os cavaleiros levarem tudo. NĂŁo havia ninguĂ©m por perto, entĂŁo era uma possibilidade muito real!

— Sua maldita oportunista!

Os cavaleiros foram superados. Mesmo que os materiais fossem confiscados, cada letra e cada linha jå estavam dentro da cabeça de Sitri. Eles certamente não podiam simplesmente apagar suas memórias. Alguns desses materiais continham conhecimento que nem mesmo Nickolaf possuía, coisas que os outros departamentos estavam mantendo em segredo.

O conhecimento formava as raízes do Instituto Primus, e Sitri essencialmente roubou tudo. Claro, Nickolaf não ficaria surpreso ao saber se mais alguém tivesse usado a desordem para roubar de seu laboratório. O instituto tinha acabado de se envolver em um tumulto de grande escala; certamente deve ter havido outros membros dispostos a saquear os materiais e resultados de outros laboratórios.

Encontrar esses ladrÔes agora não seria fåcil, mas simplesmente deixå-los ir danificaria a reputação de Nickolaf. Assim que ele estava começando a considerar como lidar com isso, Sitri, com uma voz perfeitamente natural e expressão inabalåvel, disse algo que o pegou de surpresa.

Nickolaf, a verdade Ă© que uma amostra real da Chama de Morango existe. O lĂ­quido originalmente contido naquela garrafa; Krai o pegou e jogou-o no ralo.

— Do que diabos vocĂȘ estĂĄ falando?

Ele tinha uma poção lendĂĄria que poderia fazer vocĂȘ ser executado apenas por possuĂ­-la, e ele simplesmente a jogou no ralo? Mesmo poçÔes mais seguras nĂŁo eram descartadas assim. Nickolaf nĂŁo conseguia acreditar.

— Eu não o culpo por pensar isso — Sitri respondeu. — No entanto, o Mil Truques se especializa em fazer o inacreditável?

— Por que vocĂȘ disse isso como uma pergunta? Sitri, vocĂȘ estĂĄ insinuando que hĂĄ uma razĂŁo para ele ter feito algo tĂŁo insondĂĄvel?

Era uma pergunta simples, mas Nickolaf não conseguia esconder o entusiasmo em sua voz. Não importa o quão diluída, se alguma parte da poção estivesse lå, isso poderia lhes dar uma grande pista. Os esgotos da capital imperial eram vastos, mas uma busca diligente deveria revelar algo. Se nada mais, isso era muito melhor do que ser enganado a acreditar em algo que realmente não existia.

— Como tenho certeza de que vocĂȘ sabe, os esgotos sĂŁo como uma teia gigante. Se a poção de escravização acabou lĂĄ, entĂŁo nĂŁo devemos nos preocupar com ninguĂ©m a bebendo. Mesmo algo assim se diluirĂĄ rapidamente a ponto de perder sua eficĂĄcia se acabar no esgoto. Claro, eu ainda acho que seremos capazes de encontrar algumas pistas sobre como podemos reproduzi-la.

— Mas se for consumido antes de diluir… — Sitri disse. — Os esgotos sĂŁo habitados. E se isso incluir uma fera do esgoto?!

Ao longo de vårios séculos, a capital imperial se expandiu em um grau impressionante. Os esgotos foram construídos logo após a capital ter sido realocada e cresceram labirínticos ao longo dos anos. Em algum momento, ficou muito complexo para ser totalmente administrado por humanos e se tornou parte do submundo.

Muitas criaturas diferentes espreitavam no esgoto que fluĂ­a sob a cidade. Ratos, baratas, aranhas e outras pequenas criaturas. Havia tambĂ©m pessoas que haviam sido banidas do mundo da superfĂ­cie. E havia monstros. Rumores de demĂŽnios vivendo nos esgotos formavam seu prĂłprio gĂȘnero de lenda urbana.

Esses senhores do submundo espreitavam na ĂĄgua do esgoto, nadando pelo labirinto de tĂșneis em busca de novas presas. Era comumente suposto que havia monstros aquĂĄticos que passaram muitos anos vivendo no subsolo e crescendo poderosos, mas ninguĂ©m havia provado ou refutado isso.

Sempre que equipes desciam para realizar manutenção, faziam isso em grande nĂșmero, uma polĂ­tica que era resultado dos muitos cavaleiros e caçadores que foram mortos inspecionando os esgotos. Os senhores dos esgotos nĂŁo atacavam grandes grupos.

— Eu não achei que o Mil Truques teria interesse em lendas urbanas.

Caçadores são geralmente pessoas curiosas. Qualquer coisa que bebesse a Chama de Morango deve estar incapaz de se mover por enquanto. Talvez se fÎssemos agora, até uma pequena equipe seria suficiente para conduzir uma investigação?

— NĂŁo Ă© uma mĂĄ ideia. Eu tambĂ©m conheço alguns nobres interessados nesses demĂŽnios.

Mesmo que fossem suficientes para se tornarem sujeitos de lendas urbanas, os demĂŽnios ainda eram criaturas vivas. Se bebessem Chama de Morango nĂŁo diluĂ­da, estariam indefesos. Um demĂŽnio capturado poderia ser Ăștil para pesquisa alquĂ­mica. Da mesma forma, as reaçÔes de uma criatura afetada pela poção de escravização poderiam ajudar a determinar os componentes da poção.

JĂĄ que o Mil Truques estava se livrando dela de qualquer maneira, nĂŁo havia nada de errado em tentar pegar um pouco para si. Nickolaf pensou que, se levasse Sitri junto, aquele homem nĂŁo faria nada ousado.

— Prepare-se, Sitri. Estamos indo para o subsolo. NĂŁo que eu precise dizer, mas nĂŁo se esqueça do seu equipamento de proteção. Tudo isso Ă© em nome do avanço do Instituto Primus!

Se eles pudessem entender um pouco sobre os componentes da poção de escravização, ser preso seria um preço pequeno a pagar. Nickolaf esqueceu sua indignação anterior enquanto se virava e começava a dar ordens à sua ex-aprendiz.

Na frente do salão de adoração da Igreja do Espírito Radiante da capital imperial estava o homem responsåvel, Edgar Whinwood. Ele soltou um suspiro enquanto olhava para o Lamento de Marin crucificado. A igreja jå estava atolada lidando com este pesadelo, e agora o retorno dos padres desaparecidos foi adicionado à mistura caótica.

NinguĂ©m entendia o que estava acontecendo. Muitos deles haviam desaparecido anos ou dĂ©cadas atrĂĄs, e suas identidades ainda precisavam ser verificadas. Tudo o que sabiam com certeza era que esses padres haviam sido libertados pelo Mil Truques, o homem que havia tirado aquele baĂș de suas mĂŁos, e que ele havia usado a frase “levado por espĂ­ritos”.

— NĂŁo consigo imaginar como ele possivelmente poderia ter encontrado as pessoas desaparecidas em apenas meio dia. Termos como “habilidoso” nĂŁo parecem mais suficientes. Eu diria que seu amigo estĂĄ do lado bom do mundo.

Ansem, amigo de infñncia do Mil Truques e símbolo da filial da capital, assentiu. — Mmm.

Às vezes, há pessoas que podem realizar feitos inimagináveis para uma pessoa comum. Edgar ficou bastante surpreso quando Ansem apresentou seu amigo pela primeira vez. Mesmo agora, o comportamento imprevisível daquele jovem não havia mudado. No entanto, durante a purificação, aquele homem havia prendido a atenção do Capitão Franz, do Gerente da Filial Gark, de Ark Rodin e de muitos outros caçadores notáveis. Ele deve ter nascido sob a estrela de um campeão.

“Levado por espĂ­ritos”, foi isso? — disse Edgar. — Independentemente de como aconteceu, o fato Ă© que ele salvou nossos amigos. Com isso e o Lamento de Marin, estamos em dĂ­vida com ele. Nossos padres podem nĂŁo se importar muito com ele, mas a cortesia nunca deve ser negligenciada.

A razão pela qual tantos padres não gostavam daquele jovem era porque ele era o líder daquele grupo ao qual Ansem pertencia, os Grieving Souls. Eles ouviam regularmente sobre as batalhas ferozes do grupo. A notícia de como Lucia Rogier havia lançado um feitiço ofensivo avançado sobre Ansem jå estava começando a circular. Ninguém ia ouvir algo assim e sair com uma boa impressão. Ansem se tornou um caçador antes de se juntar à igreja, e ele não parecia se importar em ser atingido pelo feitiço, mas as emoçÔes humanas eram complexas.

Sua principal prioridade atual era lidar com o Lamento de Marin, mas assim que o Xamã Nobre chegasse e completasse a purificação, Edgar estava considerando convidar formalmente o jovem para a igreja para que pudessem esclarecer quaisquer ressentimentos. Aquele jovem salvou os padres desaparecidos; Edgar não achava que seus colegas pagariam tal dívida com desrespeito.

— Ainda assim — disse Edgar com um suspiro sofrido. — “Levado por espĂ­ritos”? Eu nĂŁo sei qual espĂ­rito ou deus fez isso, mas sinto que temos deuses problemĂĄticos demais neste nosso mundo.

— Mmm.

Havia o Deus Celestial do Santuårio do Deus Celestial, o cofre do tesouro Nível 10 que uma vez se manifestou fora da capital imperial. Hå um bom tempo, houve o Executor, o deus dormindo no Santuårio do Rei Sagrado, que foi o cofre que elevou o nível de Xerxes Zequenz, o caçador mais poderoso vivo. Os humanos estavam certos em temer os deuses fantasmas que se manifestavam a partir de concentraçÔes extremas de material de mana. Algumas pesquisas até sugeriram que vårias civilizaçÔes passadas foram destruídas por tais entidades sobrenaturais.

Pensar nisso fez Edgar se lembrar de algo que Ansem havia dito uma vez.

— Isso mesmo — ele disse, colocando a mĂŁo no queixo — a Raposa Celestial que vocĂȘ conheceu na Peregrine Lodge era outro desses deuses. O divino realmente pegou um gosto por vocĂȘ e seus amigos. Eu sĂł espero que nĂŁo seja um mau pressĂĄgio.

— Mm. Mm.

Ansem realmente entendeu o que Edgar estava dizendo? Sua reticĂȘncia era uma de suas poucas falhas.

O retorno dos padres desaparecidos significava mais poder de combate para a igreja. Alegadamente, alguns deles eram conjuradores capazes. Os padres recentemente exaustos também provavelmente estariam recuperados quando Lapis e seu grupo voltassem com o Xamã Nobre.

Com renovada determinação, Edgar se ajoelhou ao lado de Ansem, olhou para o céu e ofereceu uma oração ao grande deus da luz.


Tradução: Carpeado
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