Grieving Soul â CapĂtulo 3 â Volume 8
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 08
CapĂtulo 03:
[Desastres Sucessivos]
â Eu vou te proteger hoje, Krai! Por favor, relaxe e saiba que vocĂȘ estĂĄ em boas mĂŁos!
â Matar, matar?
Sorrindo de orelha a orelha, Sitri uniu as mĂŁos. Matadinho, ainda magro devido Ă sua dieta forçada, inclinou a cabeça. Eu estava no meu lugar de costume, no meu escritĂłrio, polindo minhas RelĂquias, quando a dupla desajustada fez uma pose na minha frente.
â Faz tempo que eu nĂŁo te via, Sitri â eu disse.
â E estou radiante de te ver tambĂ©m!
Que bom e tudo mais, mas eu nĂŁo tinha dito que estava radiante. Mas eu estava!
A luz quente do sol entrava pela janela atrĂĄs de mim. Era um dia tranquilo, completamente diferente da confusĂŁo com a “Espada DemonĂaca”. Pelo que entendi, esse assunto havia sido encoberto por algumas pessoas poderosas.
Sitri se arrastou para trĂĄs da minha mesa como se fosse a coisa mais natural do mundo e me disse: â Krai, Lizzy me contou tudo! VocĂȘ teve outro dia fascinante, ao que parece.
Cada detalhe dela sugeria que estava de bom humor. Se ela tivesse um rabo, ele com certeza estaria abanando.
Suspirei bem fundo e olhei para a RelĂquia tipo coroa na minha mĂŁo. â A Liz nĂŁo ficou feliz com isso.
E eu nĂŁo chamaria exatamente de fascinante.
O pensamento de que eu estava prestes a ser arrastado para algo bizarro me deixou bem para baixo, mas Sitri estava borbulhando de entusiasmo.
â A Lizzy ficou muito infeliz por nĂŁo estar de guarda hoje â disse Sitri com uma risadinha. â Sabe, ela teve que atrasar o turno dela. Aparentemente, ela tinha um assunto que nĂŁo podia negligenciar. Mas quero que saiba que eu tambĂ©m estive muito ocupada ontem!
â Entendi, entendi.
Eu nĂŁo entendi nada, mas “entendi”. Bem, contanto que vocĂȘ esteja se divertindo! Eu estou cansado.
Mas se Sitri achava que eu seria simplesmente arrastado para alguma confusĂŁo, ela estava enganada.
Segundo Franz, maldiçÔes tinham algo a ver com a situação atual. Infelizmente, RelĂquias e maldiçÔes estavam intrinsecamente ligadas. RelĂquias eram recriaçÔes de coisas que existiram no passado, e a taxa de surgimento delas era considerada proporcional Ă frequĂȘncia ou quĂŁo amplamente conhecidas elas foram. Itens amaldiçoados eram formados por emoçÔes poderosas e, como tal, quase sempre nĂŁo tinham duplicatas. Portanto, nĂŁo podiam ser descritos como “comuns”, uma condição para se tornar uma RelĂquia.
EntĂŁo, tudo isso significa que, no caso extraordinariamente raro de um item amaldiçoado se manifestar como RelĂquia, ele o fez porque, embora houvesse apenas um, era muito provĂĄvel que fosse um item tĂŁo aterrorizante que era conhecido por toda parte. Ă claro que quase todas as RelĂquias que eu possuĂa eram seguras. Nenhuma delas era amaldiçoada, mas na remota chance de um dos meus itens causar algum problema, esse seria um dia muito ruim para mim.
Eu havia confirmado os poderes de todas as RelĂquias da minha coleção, mas nĂŁo podia dizer com certeza que meus amigos nĂŁo fariam algo como adicionar uma peça que encontraram e depois esqueceriam de me contar. Como parte da minha manutenção, comecei a verificar os poderes delas enquanto as polia.
Com um pequeno aceno de mĂŁo, chamei Sitri para perto. Ela sorriu enquanto eu colocava a RelĂquia tipo coroa recĂ©m-polida na cabeça dela.
Seus olhos se arregalaram, e ela disse, um pouco nervosa: â I-Isso pode ser o meu item amaldiçoado?
â Eu nĂŁo tenho nada amaldiçoado. Essa coroa faz seu cabelo crescer um pouquinho mais rĂĄpido. Vale milhares. NĂŁo Ă© esta. Nem esta…
Coloquei um tipo pingente cravejado com uma gema vermelha em seu pescoço, depois um tipo colar, outro tipo colar e mais outro tipo colar jĂĄ que estava fazendo isso. Algumas pessoas poderiam se perguntar por que eu tinha tantos, mas as bochechas de Sitri, a “manequim”, estavam coradas, e ela parecia bem feliz.
Eu nĂŁo estou te dando isso, viu?
Mas se ela realmente insistisse, eu estaria disposto a compartilhar alguns com ela. Afinal, alguns desses foram comprados com dinheiro que eu ainda devia a ela.
â Honestamente, eu nĂŁo posso lidar com todas as coisinhas â eu disse. â Acabei de resolver uma grande confusĂŁo, agora mais essa. Todos estĂŁo muito dependentes de mim por causa do meu nĂvel. Sitri, estenda o dedo.
Eu nĂŁo conseguia entender por que todos depositavam tanta fĂ© em um NĂvel 8 apenas no nome, que esteve em todos os tipos de confusĂŁo e nunca resolveu nenhuma delas. Com um mĂnimo de raciocĂnio, ficaria mais claro que ĂĄgua que eu nĂŁo havia feito nada. Com essas queixas em mente, coloquei um anel apĂłs o outro em seus dedos esguios.
â K-Krai! Qual o significado disso?!
â O quĂȘ? NĂŁo tem um significado real. Isso te incomoda?
Meus amigos não eram muito de usar acessórios, daà minha pergunta. Mas Sitri balançou a cabeça vigorosamente em resposta.
Talvez estivesse fazendo cĂłcegas ou algo assim, pois ela começou a se contorcer. â Seria isso, talvez â ela sussurrou, com as bochechas vermelhas â, um “pedido de casamento”?
â Matar, Matar…
Vendo sua mestra tĂŁo perturbada, Matadinho parecia inquieto.
Pedido de casamento? Eu acabei de dizer que nĂŁo tem um significado real!
â O quĂŁo confiĂĄvel vocĂȘ acha que Ă© essa profecia que o Franz tem falado? â eu disse.
â As profecias do Astral Divinarium sĂŁo conhecidas por se tornarem realidade â respondeu Sitri. â A lei imperial atĂ© permite que os militares usem as profecias do Divinarium como base para mobilização.
Serå que se tornaria realidade? Depois de testemunhar Sora e suas revelaçÔes divinas, eu não confiava nisso de jeito nenhum. Ela era péssima nisso. Eu não a via desde que ela chegou pela primeira vez à capital imperial. Eu me perguntava como ela estava.
Eu tinha certeza de que se um hex ou o que quer que fosse fosse lançado sobre a capital imperial, seria contido antes que pudesse causar danos significativos. Eu sei que disse isso e aquilo sobre a capital, mas ainda era segura o suficiente para que eu quisesse ficar por perto.
â Mas se foi o suficiente para inspirar uma profecia dessas, deve ser algo bastante “inauspicioso”. Isso nĂŁo Ă© algo que nem mesmo um XamĂŁ habilidoso conseguiria conjurar. EntĂŁo, acho razoĂĄvel que o CapitĂŁo Franz esteja desconfiado de RelĂquias. NĂŁo houve relatos de grandes danos na ĂĄrea, e Zebrudia Ă© meio flexĂvel quando se trata de RelĂquias. O que me lembra, meu irmĂŁo tambĂ©m foi colocado em alerta. A igreja Ă© especializada em maldiçÔes, afinal.
â VocĂȘ nĂŁo poderia pedir proteção melhor.
Hexes eram feitiços movidos por emoçÔes poderosas. Em comparação com a magia, que operava com base em princĂpios claros, os hexes eram instĂĄveis, e sua eficĂĄcia era massivamente influenciada pela condição do conjurador.
MaldiçÔes poderosas eram geralmente algo que vocĂȘ nĂŁo conseguiria conjurar mesmo se tentasse. As mais perigosas nĂŁo eram aquelas lançadas por XamĂŁs, mas sim as criadas quando alguĂ©m morria carregando um rancor. Essas maldiçÔes eram excepcionalmente poderosas, muitas vezes indiscriminadas, e eram quase um tipo de desastre natural.
A maioria das maldiçÔes instĂĄveis se dissipava rapidamente, mas isso mudava quando esse rancor era contido dentro de algo. Essas maldiçÔes eram estĂĄveis e permaneciam mortais por muito tempo. A Espada DemonĂaca que causou tanta confusĂŁo para o Santo da Espada era um exemplo de um item portador de uma maldição poderosa.
Sendo a terra santa da caça ao tesouro, RelĂquias estavam constantemente fluindo para a capital a todas as horas do dia. Com isso em mente, nĂŁo parecia tĂŁo ridĂculo que Franz tivesse me contatado. Ou parecia? NĂŁo. Definitivamente havia pessoas melhores que ele poderia ter chamado!
Coloquei um par de Ăłculos RelĂquia em Sitri, depois uma estola RelĂquia em seus ombros, e nĂŁo sabia bem o melhor lugar para uma corrente RelĂquia, entĂŁo a enrolei em volta do corpo dela por enquanto. A Sitri vestida de RelĂquias estava completa.
Ă, nĂŁo hĂĄ nada que eu nĂŁo reconheça. Desta vez, nĂŁo fiz nada de errado.
â Fui tingida pelo seu tom â disse Sitri, com as mĂŁos pressionadas nas bochechas. â NĂŁo posso mais me casar. VocĂȘ seria tĂŁo gentil em me aceitar?
Isso nĂŁo Ă© verdade. Tenho certeza de que muitas pessoas pulariam nessa oportunidade.
Ocorreu-me que, se soubéssemos que o incidente ocorreria dentro da capital imperial, talvez pudéssemos simplesmente ir embora? Mas tive que derrubar essa ideia. Isso definitivamente convidaria a questionamentos e mal-entendidos desnecessårios. Parecia que minha melhor opção era ficar quieto. Se eu não fizesse nada, então certamente nada aconteceria.
A Academia de Magia de Zebrudia havia sido fundada alguns séculos antes. O imperador da época queria avançar as artes arcanas, pois sentia que Zebrudia estava ficando para trås nesse campo. Desde então, tornou-se uma escola famosa, e com razão; era facilmente uma das melhores que existiam.
Magos poderosos eram a chave para lidar com cofres do tesouro de alto nĂvel. No distrito norte da capital imperial, o instituto tinha um campus extenso e um prĂ©dio escolar que se assemelhava a um castelo. Era um lugar admirado por Magos e caçadores, e dizia-se que cerca de oitenta por cento de todos os Magos famosos da capital eram ex-alunos da AMZ.
Doze torres pontilhavam o perĂmetro do castelo. Cada uma abrigava um laboratĂłrio dirigido por um professor, e em uma delas, Anna Nodin estava recebendo ordens severas de sua Maga jĂșnior, Lucia Rogier.
â Lembre-se, tome muito cuidado com isso! Certifique-se de nĂŁo canalizar “mana” acidentalmente para ele ou algo assim!
â Hehe, eu sei, eu sei. Mesmo assim, LĂșcia, vocĂȘ tem um irmĂŁo muito cortĂȘs. NĂŁo consigo acreditar que ele conseguiu um presente do cofre do Santo da Espada. Primeiro, aquele bastĂŁo de raio, agora este. Acho que Ă© o que se pode esperar de um colecionador de RelĂquias NĂvel 8; atĂ© as fontes dele sĂŁo de primeira linha.
Lucia contorceu o rosto em uma expressĂŁo de desagrado, manchando temporariamente sua fisionomia. Uma Maga NĂvel 6, Lucia Rogier, o “Avatar da Criação”, era famosa por seu vasto repertĂłrio de feitiços, mas era justo dizer que ela era mais conhecida entre os pesquisadores por seu irmĂŁo mais velho.
O irmĂŁo mais velho de Lucia, o Mil Truques, era um dos principais caçadores da capital imperial e era a pessoa mais jovem a atingir o NĂvel 8. Ele tambĂ©m era conhecido por ser um colecionador de RelĂquias. Entre os pesquisadores da AMZ, um grupo majoritariamente feminino devido Ă sua inclinação genĂ©tica para a magia, ele havia se tornado uma espĂ©cie de Ădolo. Toda vez que ele visitava, elas saĂam em massa para vĂȘ-lo.
O irmĂŁo de LĂșcia nĂŁo era o Ășnico jovem caçador famoso; havia tambĂ©m Ark Rodin. No entanto, Ark nĂŁo tinha parentes na AMZ, nem qualquer outra conexĂŁo com a academia, entĂŁo ele raramente aparecia. EntĂŁo, talvez fosse natural que o Mil Truques tivesse se tornado alvo de tanta atenção.
Anna olhou para o bastĂŁo preto que Lucia havia trazido. O eixo parecia ter sido feito por vĂĄrios “cipĂłs” se emaranhando, e uma gema brilhante estava no topo. Era um design simples, mas ela ficou surpresa com a leveza dele, mesmo quando embrulhado em um pano. Elas ainda nĂŁo haviam discernido os poderes do item, mas em comparação com outras armas, RelĂquias tipo bastĂŁo eram frequentemente vendidas por somas altas. Vender no local certo poderia facilmente render oito dĂgitos. Como os Magos tendiam a carecer de força fĂsica, muitos ficariam encantados em conseguir um bastĂŁo que pesasse muito pouco.
Mesmo que fosse para a instrutora de sua irmĂŁ, alguĂ©m teria que ser terrivelmente generoso para simplesmente dar uma coisa dessas. Ele era poderoso, rico e tinha status. Os rumores diziam que ele era um pouco excĂȘntrico, mas isso nĂŁo era necessariamente uma coisa ruim. LĂșcia era bastante extraordinĂĄria, e talvez ele tivesse algo a ver com isso.
â Isso Ă© absurdo â disse LĂșcia â, ele sĂł tem uma obsessĂŁo doentia por RelĂquias! E nĂŁo hĂĄ garantia de que este bastĂŁo nĂŁo sejaâ
â Eu entendi, eu entendi. NĂŁo precisa esconder seu constrangimento, eu nĂŁo vou pegar seu irmĂŁo ouâ
â Escondendo meu constrangimento?!
Recebendo um olhar mortal de Lucia, Anna examinou o bastĂŁo, certificando-se de que ele nĂŁo entrasse em contato com sua pele. LĂșcia nĂŁo era o tipo de pessoa que mentiria para esconder seu constrangimento, e ouvi-la ajudaria Anna a deixar uma boa impressĂŁo em seu irmĂŁo.
â JĂĄ que estamos nisso, Anna, vocĂȘ tem alguma ideia sobre a identidade deste bastĂŁo?
â Eu nĂŁo estou muito interessada em bastĂ”es. Mas estou interessada no seu irmĂŁo…
Lucia nĂŁo respondeu a isso.
BastĂ”es RelĂquia eram um grupo diversificado. Havia aqueles que simplesmente ofereciam alta amplificação de mana, aqueles especializados em feitiços de iluminação, como o que Lucia havia trazido recentemente, e havia tambĂ©m a Graça do Hydrogod, que tinha sido tirada daquele traidor, o Contra-Cascata. E a menos que fosse algo razoavelmente famoso, vocĂȘ nunca sabia o que um bastĂŁo RelĂquia fazia atĂ© testĂĄ-lo.
â NĂŁo consigo imaginar que haja muitas outras pessoas por aĂ guardando secretamente um bastĂŁo RelĂquia como o Santo da Espada estava. E nĂŁo acho que haja muitas pessoas para quem ele o daria depois de tĂȘ-lo guardado por dĂ©cadas.
â Nosso lĂder sempre foi conhecido por suas boas descobertas.
Esta era uma RelĂquia que o Santo da Espada havia mantido para si e nem sequer havia contado a ninguĂ©m sobre sua existĂȘncia. Era possĂvel que ele a valorizasse mais do que qualquer uma de suas espadas. Parecia haver verdade nos rumores que diziam que o Mil Truques era um negociador tĂŁo bom quanto os comerciantes mais astutos.
Alcançar o NĂvel 6 em uma idade tĂŁo jovem significava que Lucia era um verdadeiro gĂȘnio, mas seu irmĂŁo era, sem dĂșvida, algo alĂ©m disso. Diziam que ele havia feito os livros de feitiços que levaram Lucia a ganhar o tĂtulo de Avatar da Criação. NĂŁo Ă© de admirar que ela tivesse um complexo de irmĂŁo tĂŁo forte.
â EntĂŁo, se eu conquistar o coração do seu irmĂŁo, terei uma irmĂŁzinha fofa alĂ©m de tudo.
â VocĂȘ nĂŁo conseguiria lidar com o nosso lĂder de grupo. NĂŁo venha chorar para mim se começar a se aproximar dos seus limites.
A expressão de Lucia fez Anna retirar a afirmação. Parecia que, se quisesse conquistar o irmão mais velho, teria primeiro que fazer amizade com a irmã mais nova.
â Eu estou sĂł brincando, Ă© sĂ©rio. E claro, o bastĂŁo ficarĂĄ em segurança atĂ© que a professora possa examinĂĄ-lo. Mesmo que seja amaldiçoado, devemos estar seguras assim, certo?
Anna jĂĄ havia sido chamada de gĂȘnio Ă s vezes, mas definitivamente nĂŁo possuĂa o mesmo nĂvel de talento que a garota Ă sua frente. Anna provavelmente seria comparada desfavoravelmente a ela, sem mencionar que o caçador NĂvel 8 mais jovem era provavelmente bastante popular entre as moças. Ser apenas a colega mais velha de sua irmĂŁ nĂŁo daria a menor vantagem.
Ela tinha que aproveitar esta chance para ganhar alguns pontos, por poucos que fossem. A chance dela viria um dia, ela tinha certeza disso.
â Anna â disse Lucia, interrompendo suas ilusĂ”es â, vocĂȘ estĂĄ aqui hĂĄ muito tempo, nĂŁo Ă©? VocĂȘ acha que a professora pode estar guardando algo em segredo?
â Algo secreto? Quer dizer, ela Ă© uma Magus, e tenho certeza de que qualquer pessoa que se torne professora aqui teria uma coisa ou duas que preferiria manter escondidas. Ah. Acho que posso ter uma ideia!
Os olhos de Lucia se arregalaram. Ela era uma jovem Maga excepcional, mas tinha uma tendĂȘncia a nĂŁo ver o que estava ao seu redor. Ela estava tĂŁo absorta em sua pesquisa e caça que perdia todas as fofocas da academia.
Anna olhou furtivamente ao redor em uma tentativa de deixar Lucia animada; essa garota era sempre tĂŁo calma. â Ă apenas um “boato” â disse Anna em voz baixa â, mas dizem que, desde o primeiro diretor, hĂĄ algo especial que tem sido secretamente passado de um diretor para o prĂłximo. Supostamente, Ă© algo lendĂĄrio. Os professores apenas dĂŁo risada quando vocĂȘ pergunta sobre isso, mas o fazem com um olhar sĂ©rio nos olhos. EntĂŁo, o que vocĂȘ supĂ”e que seja essa coisa?
â Talvez uma poção ou uma criatura mĂĄgica? â disse Lucia. Ela parecia cansada, mas ainda havia um toque de convicção.
â Espere, entĂŁo vocĂȘ sabe sobre isso?
â NĂŁo. Esta Ă© a primeira vez que ouço. Ă sĂł que, a partir de hoje, Siddy, a Alquimista, estarĂĄ de guarda.
Anna piscou confusa. Guarda? Alquimista? Do que ela estĂĄ falando?
â Desta vez, eu sei o que ele estĂĄ aprontando â disse Lucia. Ela estava cerrando o punho e parecia estar falando sozinha. â Eu nĂŁo vou deixĂĄ-lo escapar como ele sempre faz. Desta vez, eu vou parĂĄ-lo.
Suspenso no ar por um dispositivo mĂĄgico estava um bastĂŁo preto. Ao redor dele estavam Magos de toda a academia. De um modo geral, havia dois tipos de Magos: os pesquisadores que se “reclusavam” em seus laboratĂłrios e trabalhavam para estabelecer teorias da magia, e os implementadores que nĂŁo se importavam com a teoria e sĂł queriam aprender a usar os poderes arcanos.
A maioria se enquadrava na segunda categoria, os melhores se tornando cavaleiros e caçadores de tesouros. No entanto, aqueles que permaneciam na academia por um longo perĂodo geralmente pertenciam Ă primeira categoria. Ao ouvirem falar do misterioso bastĂŁo que Lucia havia trazido, eles se reuniram ao redor, cochichando uns com os outros.
â Ah, entĂŁo isso estava no cofre do Santo da Espada? Nunca o vi antes.
â Eu entendo que durante seu treinamento, Soln Rowell viajou pelo mundo e conquistou vĂĄrios cofres do tesouro. Se pudĂ©ssemos confirmar onde ele obteve isso, talvez pudĂ©ssemos fazer o mesmo por seus poderes.
â Poderia ser algum tipo de BastĂŁo demonĂaco vegetal? No entanto, sua cor, sua forma…
â Quem mais alĂ©m do irmĂŁo da Lucia conseguiria tirar um bastĂŁo tĂŁo valioso daquele teimoso do Santo da Espada?
Um deles tinha uma queixa para Lucia, que estava de braços cruzados e um brilho nos olhos.
â NĂłs realmente precisamos nos abster de tocĂĄ-lo? NĂŁo podemos usar luvas?
â NĂŁo podemos. NĂŁo se sabe o que pode acontecer, entĂŁo nĂŁo corra riscos desnecessĂĄrios!
Em meio a esta multidĂŁo de Magos que amavam a pesquisa mais do que a prĂłpria vida, o bastĂŁo permaneceu intocado porque Lucia “afastava” qualquer encrenqueiro que tentasse colocar as mĂŁos nele. Os pesquisadores tendiam a carecer da destreza mĂĄgica dos implementadores. Absorver grandes quantidades de material de mana diariamente e lidar regularmente com problemas causados pelos membros do seu grupo significava que ninguĂ©m conseguiria passar por Lucia.
Assim que teve certeza de que nĂŁo havia mais desordeiros, Lucia voltou sua atenção para Anna. â Anna, o que Ă© que isso tem de seguro?!
â Bem, o que se pode fazer? â Anna respondeu com uma risada calorosa. â NĂŁo tem como os Magos daqui nĂŁo virem ver algo do cofre do Santo da Espada. Nem mesmo bastĂ”es RelĂquia normais chegam atĂ© nĂłs.
BastĂ”es RelĂquia eram tanto materiais de pesquisa valiosos quanto armas poderosas. Na rarĂssima ocasiĂŁo em que um era recuperado de um cofre de tesouro, eles raramente acabavam na academia por razĂ”es financeiras. Uma nova RelĂquia sendo trazida era uma grande notĂcia, o suficiente para atrair pesquisadores das outras torres.
â AlĂ©m disso, se o escondĂȘssemos, isso sĂł atrairia o tipo errado de gente â continuou Anna. â NĂŁo Ă© mais seguro mantĂȘ-lo aqui, Ă vista de todos, atĂ© que a professora volte?
â Ah, talvez vocĂȘ esteja certa.
SĂł porque eles estavam mais interessados em teorias do que no grande poder da magia, isso nĂŁo significava que os pesquisadores pudessem ser subestimados. Eles nĂŁo apenas estavam sempre dedicando seus coraçÔes ao prĂłprio trabalho, mas tambĂ©m estavam “enamorados” pela pesquisa de seus colegas. Algumas pessoas podiam ser muito implacĂĄveis quando queriam. Na verdade, manter o bastĂŁo escondido era a opção mais perigosa.
â Especialmente porque vocĂȘ Ă© uma caçadora, Lucia. E ainda hĂĄ o fato de que seu amado irmĂŁo Ă© famoso por colecionar RelĂquias.
As sobrancelhas de Lucia se contraĂram, e ela soltou um suspiro de resignação. â Mmm.
Parecia que Lucia nĂŁo gostava muito de ouvir seu irmĂŁo recebendo elogios. Ele era supostamente um pouco estranho, mas ter um NĂvel 8 como irmĂŁo era algo para se orgulhar. O que ela nĂŁo gostava? Ela estava realmente preocupada que alguĂ©m pudesse tirĂĄ-lo dela?
Francamente, Anna achava que nĂŁo adiantava se preocupar. Mesmo que o rosto dele nĂŁo fosse amplamente conhecido, ser um NĂvel 8 era suficiente para tornar alguĂ©m famoso. Em uma nação onde os caçadores tinham status elevado, alcançar um nĂvel tĂŁo alto poderia atrair pedidos de casamento de nobres poderosos.
Ainda assim, Lucia estava muito nervosa quando se tratava de seu irmão. Seu eu racional de sempre não se preocuparia com algo do cofre do Santo da Espada sendo amaldiçoado, ou pensaria que seu irmão estava atrås do tesouro da academia.
â Na verdade, acho mais provĂĄvel que seu irmĂŁo esteja oferecendo o bastĂŁo RelĂquia como um pedido de desculpas por fazer vocĂȘ perder seu exame e irritar a professora.
Anna ficou surpresa quando Lucia nĂŁo apareceu para seu exame de certificação avançada de bastĂŁo espiritual composto. Exigindo tanto experiĂȘncia em pesquisa em uma academia quanto uma recomendação de um professor, era uma das certificaçÔes de magia mais difĂceis que se podia obter. Aparentemente, ela tinha seus motivos para perder o exame, mas, embora aparecer e falhar fosse uma coisa, nĂŁo aparecer de jeito nenhum manchava a reputação de sua professora.
â M-Meu irmĂŁo nĂŁo Ă© do tipo que faria algo tĂŁo normal!
â Mesmo assim â disse Anna com um sorriso â tenho certeza de que o humor da professora vai melhorar se ela receber um bastĂŁo do cofre do Santo da Espada. Ela começou recentemente a procurar um bastĂŁo, entĂŁo o timing nĂŁo poderia ser melhor.
A pesquisa mĂĄgica era quase sempre acompanhada por um certo grau de perigo. Assim como aconteceu com o bastĂŁo especializado em raio que Lucia havia trazido recentemente, sempre havia um pouco de risco envolvido.
â Ah, esquece! â disse Lucia com uma birra incomum.
Anna pensou que ela tinha passado outra noite em claro trabalhando em um feitiço, mas descobriu que Lucia tinha um lado cativante. Não era preciso ter uma personalidade como a de Anna para ser tentado a provocar esta jovem Maga.
Provavelmente tendo chegado tarde e perdido a chance de ver o bastĂŁo de perto, uma garota de outra torre se aproximou de Lucia. â Ei, Lucia, seu irmĂŁo vem?
â NĂŁo vem. Ele estĂĄ ocupado. Eu vou te lembrar que ele Ă© um NĂvel 8!
â O quĂȘ? Mas ele veio com vocĂȘ da Ășltima vez!
â Ele nĂŁo virĂĄ!
Lucia dirigiu um olhar gélido para a garota insatisfeita. Era bem conhecido entre os pesquisadores que Lucia havia trazido seu irmão com ela para sua iniciação. Mesmo agora, algumas pessoas ainda não haviam se esquecido disso. Com a voz fria e a aura imponente de Lucia, os Magos começaram a perder o interesse no bastão intocåvel e a direcionar sua atenção para ela.
EntĂŁo, houve um breve grito. Lucia se virou na direção de onde ele veio. Uma das “vinhas” que compunham o bastĂŁo preto-azeviche se estendeu e estava agarrando alguĂ©m.
â E-Eu disse para nĂŁo tocar! O que vocĂȘ fez?!
â Nada. Eu nĂŁo toqueiâ
A voz deles foi cortada. As vinhas enlaçadoras continuaram do braço atĂ© a parte superior do tronco. RĂgido de choque, o sangue esvaiu-se do rosto deles. O bastĂŁo inchou. As vinhas cresceram mais longas e mais grossas a ponto de mal se assemelharem ao bastĂŁo como havia aparecido pela primeira vez.
Em meio ao clamor, uma vinha se dirigiu a outro Mago prĂłximo, paralisado no lugar. Ela se moveu rapidamente, como uma cobra capturando sua presa. O primeiro Mago foi jogado de lado. Lucia correu e o examinou. NĂŁo havia feridas visĂveis neles, e o coração estava batendo. No entanto, a tez estava pĂĄlida, eles estavam completamente inconscientes e suando profusamente.
Estes eram os sintomas de “esgotamento de mana”.
â EstĂĄ absorvendo “mana”?! Q-Que coisa Ă© essa?!
A metade inferior do bastĂŁo se bifurcou em duas e as usou como pernas para descer do suporte de exibição. Os movimentos “animalescos” fizeram os Magos anteriormente encantados recuarem. As vinhas continuaram a crescer mais longas e mais grossas. Parecia menos um bastĂŁo e mais um “monstro vegetal”.
Com um grito, um dos Magos começou a atacar. Outros fizeram o mesmo e, logo, “cortinas de chamas”, “lĂąminas de vento” e “pedaços de gelo” estavam atingindo a coisa por todos os lados. Mas entĂŁo, o bastĂŁo começou a tremer violentamente. As feridas deixadas pelos feitiços foram instantaneamente seladas, e as vinhas ficaram ainda maiores. Foi como se as vinhas tivessem absorvido a energia do ataque.
Percebendo isso, Anna deu um passo para trĂĄs. â Poderia ser uma criatura antimĂĄgica? O que estĂĄ acontecendo?!
â Viu? O que eu disse?! â gritou Lucia. â Ah, meu irmĂŁo estĂșpido! Eu nĂŁo sou como o Luke! Eu nĂŁo queria isso! Eu nem sequer toquei!
â Ă hora para isso?!
Os Magos se dispersaram como formigas. O ex-bastĂŁo jogou para o lado os Magos que estava drenando, quase como se dissesse que nĂŁo eram mais Ășteis. EntĂŁo ele olhou tanto para Lucia quanto para Anna, antes de se fixar em Lucia. Ela apertou os lĂĄbios e esfregou as pulseiras em seus pulsos.
â Que seja â ela disse, estendendo o dedo. â Venha. Eu nĂŁo vou deixar meu irmĂŁo se safar dessa!
â Lucia! Nem vocĂȘ pode enfrentar algo imune Ă magia!
ApĂłs um momento olhando para Lucia (nĂŁo que ele realmente tivesse olhos), o ex-bastĂŁo mudou sua postura. Ele se virou e usou habilmente suas novas pernas para disparar. Com dois braços estendidos, ele agarrou alguns Magos que tinham sido lentos em sua fuga. Lucia nĂŁo queria imaginar o quĂŁo grande esse misterioso bastĂŁo poderia ficar ao beber “mana”. Eles estavam na maior academia arcana do impĂ©rio, um lugar que havia nutrido centenas de jovens Magos atĂ© se tornarem especialistas.
Tendo crescido demais para a porta, o ex-bastĂŁo destruiu o batente ao se mover para o corredor.
â Ei! Aonde vocĂȘ estĂĄ indo?!
Com uma expressĂŁo feroz no rosto, Lucia o perseguiu. NĂŁo mostrando hesitação em caçar uma monstruosidade. Exatamente o que se poderia esperar de uma caçadora NĂvel 6.
Anna olhou ao redor para a sala de armazenamento demolida e para seus colegas, todos caĂdos por “esgotamento de mana”. Pensando no que aconteceria quando a professora voltasse, ela agarrou a cabeça.
â O que eu vou fazer…
As irmĂŁs Smart eram opostos polares em suas personalidades. Liz era simples, despretensiosa, honesta e ocasionalmente agia de forma madura. Sitri, enquanto isso, era racional, composta, organizada e ocasionalmente agia de forma infantil. AlĂ©m disso, Sitri gostava mais de dar do que de receber. Isso era provavelmente parte do porquĂȘ ela era tĂŁo bem-sucedida como Alquimista.
Eu gostava do jeito que Liz me arrastava, preguiçoso como eu era, mas achava reconfortante o jeito que Sitri acelerava minha descida Ă indolĂȘncia (A propĂłsito, a pessoa que eu achava mais tranquilizadora era, naturalmente, Ansem. Suponho que ter duas irmĂŁs mais novas animadas o havia moldado).
Decorada com RelĂquias e incrivelmente alegre, Sitri cozinhou uma refeição para mim. Eu a comi enquanto observava o Matadinho se exercitar. Sitri manteve seu sorriso o tempo todo. Como eu nĂŁo planejava sair do meu quarto, ter uma guarda nĂŁo parecia realmente necessĂĄrio, mas acho que ela estava se divertindo.
Enquanto eu soltava um bocejo, Sitri se aproximou de mim com entusiasmo.
â Ah, Krai, acabei de me lembrar. DĂȘ uma olhada! Ă luz da nossa conversa de ontem, eu trouxe alguns materiais de pesquisa!
â Materiais de pesquisa? Que tipo?
â Ă o CompĂȘndio de MaldiçÔes. Ă uma compilação especial de todos os fenĂŽmenos perigosos e itens amaldiçoados conhecidos, entĂŁo nĂŁo estĂĄ Ă venda. Eu passei por muitos problemas para roubarâŠ. conseguir isso para vocĂȘ!
Esse Ă© um nome inquietante. Eu aprecio o entusiasmo, mas eu nunca pedi para vocĂȘ fazer isso!
Sitri colocou um texto denso com um design sinistro na minha frente, e entĂŁo se inclinou em mim por trĂĄs. A sensação fria das RelĂquias tilintando misturou-se com o calor do corpo dela e a sensação suave pressionando contra mim.
â Se eu te disser qual eu quero, vocĂȘ me dĂĄ? â ela sussurrou no meu ouvido.
Eu nĂŁo dou.
Parecia que rumores estranhos haviam começado a se propagar novamente.
â A maioria dos itens amaldiçoados Ă© mantida escondida â ela me disse. â Ă porque simplesmente saber sobre eles pode ser perigoso. Este Ă© um livro muito precioso. Eu o consegui para vocĂȘ. Para vocĂȘ.
Ela realmente enfatizou esse Ășltimo ponto, mas embora eu colecionasse RelĂquias, eu nĂŁo estava interessado em coisas amaldiçoadas. NĂŁo havia nada que eu pudesse ter feito sobre a Espada DemonĂaca trazida pela Eliza porque eu nĂŁo havia percebido o que era. E essa coisa tinha que ter um nome aliterativo?
Dada a diligĂȘncia geral de Sitri, fiquei curioso sobre o que ela poderia querer, mas nĂŁo havia como algo assim estar simplesmente por aĂ em algum lugar da capital imperial. Coisas assim nĂŁo eram proibidas por lei? Talvez apenas a posse fosse permitida? Qualquer coisa com um lado negativo tendia a ter poder suficiente para compensĂĄ-lo.
Sitri esfregou-se na parte de trås do meu pescoço. Eu me apoiei em um cotovelo e folheei até uma pågina aleatória perto do final. Havia uma imagem de uma årvore inquietante que era preta do tronco até a ponta de seus galhos. Eu li o texto que a acompanhava.
â O que Ă© isso? A Ărvore do Mundo Negra. Foi feita por uma civilização mĂĄgica como um substituto para a Ărvore do Mundo, uma ĂĄrvore mĂstica que Ă© completamente Ășnica. Ao contrĂĄrio da ĂĄrvore original, que extrai poder das linhas de ley e circula mana por todo o mundo, a Ărvore do Mundo Negra ataca criaturas vivas e rouba sua mana. Diz-se que uma Ărvore do Mundo Negra totalmente crescida espalharĂĄ suas raĂzes em todas as direçÔes e criarĂĄ um ermo mĂĄgico.
â A civilização certamente mudaria se as pessoas nĂŁo pudessem mais usar magia â disse Sitri.
â Entendi. Acho que nĂŁo Ă© grande coisa. Quer dizer, eu nĂŁo preciso de magia.
Eu nĂŁo podia usĂĄ-la, afinal. Claro, nĂŁo poder carregar minhas RelĂquias seria “menos do que ideal”, mas maldiçÔes eram coisas que eu esperava que mutilassem e matassem. Acho que nem sempre era o caso.
A Ărvore do Mundo era uma ĂĄrvore mĂstica de lenda. Dizia-se ser um dos melhores materiais possĂveis para fazer um bastĂŁo, ostentando uma amplificação de “mana” extrema que superava atĂ© mesmo as RelĂquias. No entanto, era incerto se isso era realmente verdade. Eu tinha ouvido dizer que havia apenas uma, e estava nas profundezas de uma floresta gerenciada por “EspĂritos Nobres”, que adoravam a ĂĄrvore. Mas eu achei isso bem duvidoso; nem mesmo os membros da “Starlight” nunca a tinham visto antes.
Mas eu me pergunto se eles ficariam enfurecidos com este desenho de uma “Ărvore do Mundo Negra”. Eles levariam isso como um insulto?
Então, qual era o alvo de Sitri? Vendo o brilho em seus olhos, pensei que a melhor opção fosse perguntar a ela. Mas isso foi interrompido pela porta que se abriu. Com um olhar de pùnico, Eva entrou correndo. Quase no exato momento, a Pedra Sonora de Franz começou a vibrar.
â Krai, mĂĄs notĂcias! A Academia de Magia de Zebrudia foi destruĂda por um imenso monstro desconhecido!
â O quĂȘ? Que histĂłria Ă© essa?
A Academia de Magia de Zebrudia era a principal escola orientada para a magia do impĂ©rio. Era a academia Ă qual pertencia a professora de Lucia. Seu campus era enorme, e o prĂ©dio da escola era robusto. Com mĂșltiplos feitiços de barreira instalados, era um dos lugares mais seguros da capital. NĂŁo poderia ser destruĂda por um monstro. Eu ouvi dizer que aquele lugar podia suportar um ataque de dragĂŁo.
Isso deve ser informação errada. Um monstro imenso não deveria ter conseguido entrar lå em primeiro lugar. Sitri e Matadinho estavam ambos de olhos arregalados. Sem fÎlego, Eva se aproximou e bateu a mão na mesa. Ela estava prestes a dizer algo quando viu o livro aberto na minha frente.
â Ă-Ă isso! â ela gritou. â Isso se parece com aquilo!
Bem, isso nĂŁo Ă© bom. Ela nĂŁo estĂĄ fazendo sentido. Por que ela estĂĄ tĂŁo agitada?
O tempo todo, a Pedra Sonora continuava a vibrar irritantemente. O que Franz queria? Eu estava ocupado.
Eu me acalmei com uma respiração profunda e tentei parecer sĂ©rio. â Eva, isso nĂŁo Ă© um monstro. Ă algo amaldiçoado.
â Isso mal importa! Olhe, lĂĄ!
Eva contornou a mesa, foi para trĂĄs de mim e apontou para a janela. Eu me levantei obedientemente e olhei, assim como Sitri. Ao longe, para alĂ©m de muitos edifĂcios, pude ver algo escuro e gigante que nĂŁo estava ali antes. Devia ser bem grande se eu podia vĂȘ-lo por cima desses prĂ©dios.
Esfreguei os olhos.
â Nada demais, certo, Krai? â disse Sitri enquanto cutucava meu ombro.
â Sim, aham.
NĂŁo era grande coisa e nĂŁo tinha nada a ver comigo.
Hm? O que Ă© isso? Eu tenho que ir? Bem, Lucia pode estar lĂĄ. E eu terei Sitri comigo, entĂŁo acho que posso ir dar uma olhada.
Com a Pedra Sonora em uma das mĂŁos, Sitri e eu saĂmos. Como era perigoso, Eva ficou para trĂĄs para tomar conta do forte. Teria sido muito ruim para nĂłs se ela tivesse vindo junto e se machucado. Se possĂvel, eu tambĂ©m gostaria de tomar conta do forte, mas eu nĂŁo estava em posição de levantar objeçÔes.
â O que estĂĄ acontecendo, Mil Truques?! Desastres sucessivos nĂŁo sĂŁo normais na capital imperial!
â Bem, eu nĂŁo sei o que vocĂȘ quer que eu faça.
â VocĂȘ me acha estĂșpido?! Eu investiguei! Eu sei que sua irmĂŁ estĂĄ matriculada na AMZ!
â Sim, isso Ă© verdade. Mas isso nĂŁo Ă© o suficiente para que a culpa seja minha…
A voz incessante e estrondosa de Franz deixou claro que ele havia decidido que eu era o responsĂĄvel por isso. Ă verdade, eu era azarado e um NĂvel 8, mas eu nĂŁo gostava do jeito que ele empurrava todos os problemas para cima de mim. Havia outros dois NĂvel 8 nesta cidade; o que eles estavam fazendo?
â Que droga de coisa Ă© essa?! VocĂȘ tem uma ideia, nĂŁo tem?!
â O quĂȘ? NĂŁo presuma que eu sei de tudo â eu respondi. â Essa coisa, no entanto, Ă© provavelmente a Ărvore do Mundo Negra.
â Hm?! Ah, seu filho da mĂŁe!
Algo escuro se contorcia no céu distante, e gritos constantes ecoavam pela avenida principal. Se eu podia ver de onde eståvamos, devia ter centenas de metros de altura. Era definitivamente maior que um dragão. Como algo assim tinha entrado na capital imperial? Pensei que a cidade estivesse em alerta por causa de alguma profecia ou algo assim.
O que eu devo fazer quando chegar lå? Tudo que eu realmente posso fazer é mandar a Sitri nessa direção. Eu sou necessårio?
â Minha nossa, olhe o tamanho disso! Ă facilmente uma ameaça de Classe A, vocĂȘ nĂŁo diria, Krai?
Ah, Deus, ela parece tĂŁo satisfeita.
Com um brilho nos olhos, Sitri colocou uma mĂŁo sobre a boca e segurou minha mĂŁo com a outra. Em seu aperto, eu nĂŁo podia fugir.
Calma. Calma, Krai Andrey.
Com algo tĂŁo grande, eu tinha certeza de que as pessoas mais fortes da cidade iriam convergir para aquela coisa e “esmagĂĄ-la”. Eu duvidava que ataques fĂsicos pudessem fazer alguma coisa, mas se aquela fosse realmente a “Ărvore do Mundo Negra”, entĂŁo como uma ĂĄrvore, ela deveria ser fraca contra o fogo.
Queime! Queime!
â Se eu estiver certo â eu disse â, essa coisa Ă© fraca contra o fogo. Precisamos da Maldição Oculta. Precisamos do poder do Inferno Abissal.
â Entendido â Franz respondeu com um grunhido. â Solicitaremos a cooperação deles, entĂŁo vocĂȘ deve seguir para lĂĄ imediatamente! Aquela academia Ă© um pilar do impĂ©rio; perdĂȘ-la seria um grande golpe.
Com aquelas palavras alarmantes, a Pedra Sonora foi cortada. Ele deveria ter ligado para a velhota antes de me contatar. EstĂĄvamos lidando com uma academia de magia e tudo mais. Aquele lugar nĂŁo era o antigo point dela? Eu franzi a testa para a Pedra Sonora na minha mĂŁo, o que Sitri observou com confusĂŁo.
â Hum, Krai. Me perdoe se estou falando fora de hora, mas se o que o CompĂȘndio de MaldiçÔes diz Ă© verdade, entĂŁo aquela ĂĄrvore Ă© capaz de absorver mana. Atacar com magia nĂŁo seria uma mĂĄ ideia?
â Ahh. B-Bem, estou disposto a admitir que nĂŁo Ă© inteiramente impossĂvel pensar potencialmente dessa forma. E-Eu tenho certeza que estĂĄ tudo bem.
NĂłs tĂnhamos acabado de olhar o livro hĂĄ pouco tempo, mas eu jĂĄ havia esquecido o que ele dizia. NĂŁo admira que eu estivesse sempre estragando tudo. Mas mesmo que pudesse absorver “mana” e tudo mais, era uma ĂĄrvore, afinal. Isso nĂŁo deveria significar que as chamas da velhota seriam capazes de fazer algo a respeito?
E se ela nĂŁo puder. Bem. Er. VocĂȘ Ă© um NĂvel 8, por favor, descubra algo.
Lucia muito provavelmente havia se envolvido nisso, e nĂŁo apenas ela era muito mais forte do que eu, mas da Ășltima vez que verifiquei, ela tinha muitos amigos na academia. Talvez eu pudesse ficar de fora dessa.
Pessoas estavam fugindo em terror. O caos havia se espalhado mais do que eu previra. Uma sirene soou como se o mundo estivesse se aproximando de seus Ășltimos dias. Eu percebi que havia subestimado o tamanho da Ărvore do Mundo Negra. Cavaleiros da paz gritavam, guiando as pessoas para a segurança. Eu gostaria de poder ter sido guiado para a segurança.
â Uau, olhe como Ă© grande!
Mesmo tentando nĂŁo ser muito duro, eu ainda achava que o QI da Sitri havia caĂdo consideravelmente quando a vi pulando para cima e para baixo, animada. Ela nĂŁo estava com medo?
Com o Matadinho ao nosso lado, as pessoas em fuga mantiveram uma grande distĂąncia de nĂłs, criando um vĂŁo na multidĂŁo.
â Ei â eu disse para a Sitri enquanto continuĂĄvamos a andar â eu estava pensando, nĂŁo hĂĄ algo incrivelmente durĂŁo em andar na direção oposta a uma multidĂŁo em fuga?
â HĂĄ! â ela guinchou. â Krai, vocĂȘ Ă© incrĂvel!
Eu também queria guinchar, e não por alegria ou constrangimento. Fazia tempo que eu não sentia tanta vontade de vomitar.
Um cavaleiro com um grande escudo, imperturbado pelo Matadinho, correu atĂ© nĂłs. â VocĂȘs dois! Ă perigoso aqui! NĂŁo estĂŁo vendo aquela coisa?! Saiam daqui!
Eu adoraria sair daqui.
â NĂŁo se preocupe â disse Sitri â, nĂłs vamos cuidar daquela coisa. VocĂȘ nĂŁo estĂĄ ciente do caçador NĂvel 8, o Mil Truques?
Cara, eu adoraria sair daqui.
Surpreso com as palavras de Sitri, o gentil cavaleiro nos deixou. Parecia que, embora os caçadores de alto nĂvel frequentemente recebessem tratamento preferencial, quando necessĂĄrio, esperava-se que eles colocassem suas vidas em risco ainda mais do que os cavaleiros.
Caminhando por aquela estrada que eu havia percorrido com Lucia hĂĄ muito tempo, o prĂ©dio da escola entrou em vista. Parecia que a “Academia de Magia de Zebrudia” estava em perigo sem precedentes. Eles conduziam coisas como exames de magia arriscados, e os terrenos da academia eram expansivos. O grande edifĂcio foi projetado como um castelo, seis de suas Torres abrigando o escritĂłrio de um professor. Elas estavam agora envoltas em grandes vinhas negras.
A ĂĄrvore. EstĂĄ se movendo. As ĂĄrvores sempre faziam isso? O que as pessoas que fizeram isso estavam pensando?
As vinhas se contorcendo rapidamente agarravam pessoas e as jogavam como lixo. Dezenas de Magos, provavelmente estudantes da academia, estavam reunidos ao redor do castelo e disparando feitiços contra ele, mas a årvore não parava.
Sitri olhou atentamente para a ĂĄrvore, nossa caminhada provavelmente a havia acalmado um pouco. â Havia fantasmas assim no Jardim PrismĂĄtico.
â Hum. Eu nĂŁo me lembro.
Infelizmente, eu estava inconsciente na época!
Havia realmente algo que pudéssemos fazer sobre essa coisa? Felizmente, as barreiras estavam impedindo que o dano se espalhasse para além do campus, mas elas não durariam para sempre contra algo desse tamanho.
Então o céu escureceu, e um tornado cheio de pedaços de gelo se formou no centro dos terrenos da escola. Era um feitiço ofensivo de grande årea.
â Essa deve ser a Tempestade de Granizo de Lucy.
O tornado cresceu cada vez mais antes de colidir com a Ărvore do Mundo Negra. O som de algo duro rangendo misturou-se com o vento rugidor. Os Magos no chĂŁo se agarraram para nĂŁo serem levados pelas ondas de choque. Ser atingido por um feitiço ofensivo avançado havia arrancado uma parte da ĂĄrvore. Mas entĂŁo ela simplesmente ficou maior.
â EstĂĄ crescendo?!
As feridas profundas se fecharam novamente, e a ĂĄrvore se expandiu. Mesmo a essa distĂąncia, eu podia vĂȘ-la inchando.
Acho que nem sempre foi tĂŁo grande. Que coisa Ă© essa? Ahhh…
â Ahh, droga, Lucia. VocĂȘ foi lĂĄ e deu ĂĄgua Ă planta.
Fogo Ă© a chave. Fogo. Plantas sĂŁo fracas contra o fogo, faz sentido. Mas eu entendo, a especialidade da Lucia Ă© ĂĄgua.
A årvore estava enrolada em torno de uma das torres. Mesmo depois de atingi-la tantas vezes, os Magos se firmaram e se prepararam para atacar novamente. O rastro de vinhas apertou, e um som de rachadura veio da torre. Eu acho que a årvore estava determinada a derrubar o laboratório de alguém. Talvez houvesse algo lå dentro?
No momento seguinte, bolas de fogo imensas irromperam pelas nuvens escuras acima.
â Ah, inferno, por que isso estĂĄ acontecendo? â disse uma voz rouca.
Um arrepio percorreu minha espinha. Era a senhora piromanĂaca. Ela estava aqui para nos salvar!
Encoberta em chamas, a Inferno Abissal apareceu. Seguindo atrås dela, havia vårios Magos, todos ostentando o logotipo da Maldição Oculta. Olhando mais de perto, notei que Kris e seu grupo também estavam lå por algum motivo.
Os membros do clĂŁ de Magos de elite da capital nĂŁo hesitaram ao entrar no campus, levantaram seus bastĂ”es em unĂssono e começaram a conjurar. Chamas, luzes e rajadas encheram o cĂ©u plĂșmbeo e atingiram a Ărvore do Mundo Negra. DesnecessĂĄrio dizer, liderando o esforço estava a velhota, rindo maniacamente.
Ela Ă© cem vezes mais assustadora do que a ĂĄrvore. Ela Ă© coisa de pesadelo.
â HA HA HA HA! QUEIME! QUEIME! VOLTE ĂS CINZAS!
Com medo de que eu pudesse ser transformado em cinzas, eu instintivamente me escondi na sombra do prédio.
Bolas de fogo choveram como meteoros. Eu não conseguia entender por que aquela velhota havia decidido aprender um feitiço tão perigoso. Mesmo a algumas centenas de metros de distùncia, eu podia sentir o vento queimando. Ainda assim, havia algo reconfortante em saber que, se a årvore se virasse para o meu lado, eu teria a velhota mais assustadora do mundo ao meu lado.
Isso deve ser o suficiente para transformar aquela ĂĄrvore detestĂĄvel emâ
â Krai, a ĂĄrvore estĂĄ ficando maior?
Eu esfreguei os olhos em silĂȘncio. Assim como Sitri havia dito, envolta em chamas furiosas de carmesim, a Ărvore do Mundo Negra nĂŁo estava virando cinzas, mas sim crescendo. Percebendo que algo estava errado, a Inferno Abissal sorriu grandiosamente.
â Olhe sĂł…
As chamas caindo aumentaram em intensidade, mas sem efeito. Embora eu pensasse que poderia acabar como uma pilha de cinzas. Eu mal podia acreditar que havia algo no nosso mundo que a magia da velhota não pudesse queimar até o chão.
â Ahh, talvez, er â eu disse â isso seja fotossĂntese?
â Hum. FotossĂntese â Sitri respondeu. â E-Eu entendi?
Para crescer bem, uma planta requer luz, ĂĄgua e um clima quente. Mas eu nĂŁo deveria ter ficado surpreso ao ver que uma ĂĄrvore do mundo nĂŁo caĂa facilmente. Mas se as chamas da Inferno Abissal nĂŁo eram suficientes, entĂŁo o que seria? O tronco havia ficado tĂŁo grande que eu estava disposto a apostar que era mais alto do que qualquer outro edifĂcio na capital imperial. Foi aqui que me lembrei de ter ouvido que a verdadeira Ărvore do Mundo era tĂŁo grande que alcançava os cĂ©us.
Mais uma vez, Kris estava gritando observaçÔes caluniosas.
â Auuuugh! Mentiroso humano! Assim como com os dragĂ”es gĂ©lidos, vocĂȘ mentiu para nĂłs! Senhor! Essa coisa definitivamente nĂŁo Ă© fraca contra o fogo! Senhor!

Ă fotossĂntese. A ĂĄrvore estĂĄ fazendo fotossĂntese. NĂłs sĂł nĂŁo temos poder de fogo suficiente. Eu tenho certeza disso. Podemos fazer isso se nos esforçarmos de verdade!
Eu os incentivei em silĂȘncio, das sombras.
â Acalme-se, Kris! â a Inferno Abissal trovejou. â Talvez a gente sĂł nĂŁo tenha poder de fogo suficiente. Vamos usar um feitiço ritual!
Depois de disparar chamas Ă vontade, vocĂȘ ainda nĂŁo estĂĄ satisfeita? Talvez fogo nĂŁo seja a fraqueza dela! Escute a Kris!
Os membros da Maldição Oculta se espalharam rapidamente. Simplificando, um feitiço ritual era um feitiço poderoso lançado por mĂșltiplos conjuradores trabalhando em conjunto. A Inferno Abissal jĂĄ podia comandar a força de um exĂ©rcito inteiro; eu lutava para imaginar o que aconteceria se ela trabalhasse com um grupo. Se nĂŁo fossem cuidadosos, poderiam explodir a escola inteira.
â O sangue subiu Ă cabeça dela â comentou Sitri. â Inteiramente Ă cabeça dela. Se bem me lembro, ela disse uma vez que nĂŁo suporta a ideia de haver algo que ela nĂŁo possa queimar.
â Entendi. Agora eu sei por que ela me persegue.
Eu estava genuinamente aterrorizado com a possibilidade de ela um dia queimar todos os meus AnĂ©is de Segurança. VocĂȘ nĂŁo deveria ficar mais calma com a idade?!
Eu podia ouvir a velhota rindo. Os feitiços de Lucia apagavam quaisquer chamas errantes. Raios irromperam no céu escuro. A årvore ficou maior. Grandes rachaduras se formaram na torre. Eu não tinha ideia de como aquele prédio ainda estava de pé.
Os Magos da Maldição Oculta se posicionaram ao redor de um grande cĂrculo mĂĄgico que havia se formado no chĂŁo. Talvez sentindo o perigo, as vinhas da ĂĄrvore se torceram e giraram ao soltar a torre, e entĂŁo atingiram simultaneamente os Magos.
Assim que a velhota estava prestes a levantar seu bastĂŁo, a ĂĄrvore parou subitamente de se expandir. Ela começou a tremer levemente, e entĂŁo flores roxas “floresceram” nas pontas de suas vinhas. As vinhas direcionadas ao “cĂrculo mĂĄgico” permaneceram no lugar, nĂŁo mostrando sinais de que pudessem se mover mais um centĂmetro.
HĂŁ. EntĂŁo a ĂĄrvore produz flores. O livro nĂŁo mencionou isso.
â Ă isso?! Ă isso que vocĂȘ estĂĄ me dando?! â Sitri me pegou alegremente em um abraço voador. â Eu nĂŁo sei o que Ă©, mas tenho certeza de que posso fazer uma poção incrĂvel com isso!
â AFASTE-SE! PURGAĂĂO INCANDESCENTE!
â Ah.
A Inferno Abissal brandiu seu bastĂŁo sem pausa. InĂșmeras lĂąminas de chama voaram do cĂrculo mĂĄgico e empalaram a Ărvore do Mundo Negra, incendiando-a. As chamas violentas envolveram a ĂĄrvore. EntĂŁo, o que antes estava ileso pelos feitiços atacantes nĂŁo era mais do que cinzas.
â Eu nĂŁo vou. Eu me recuso terminantemente!
â Ora, ora, nĂŁo diga isso. Precisamos nos apressar e coletar o que pudermos!
Eu nĂŁo entendo o que vocĂȘ estĂĄ dizendo. Isso nĂŁo tem mais a ver com vocĂȘ do que comigo, certo?
Com Sitri empurrando minhas costas, seguimos para o prĂ©dio da escola, onde a torre central ainda estava intacta. Os restos queimados da Ărvore do Mundo Negra cobriam o campus como neve. Os Magos tinham todos desmaiado de exaustĂŁo. Talvez por causa do feitiço lançado pela Inferno Abissal, o ar estava bastante quente, o suficiente para me fazer suar com um pouco de caminhada.
Isso conta como destruição ambiental, não conta?
Claro, eu tinha acabado de vibrar com a vitĂłria, mas fiquei realmente aterrorizado ao pensar que aquela velhota havia queimado aquela ĂĄrvore em um sĂł golpe. Nem mesmo os ataques combinados de dezenas de outros Magos haviam conseguido isso.
Se não fosse pela Sitri estar comigo, eu teria me feito de idiota e voltado para a casa do clã. Por que era que sempre que os outros Grievers estavam por perto, eu me via (como resultado direto da presença deles) agindo corretamente?
Sem absolutamente nenhuma motivação, eu deixei Sitri me empurrar quando minha Pedra Sonora de repente começou a vibrar.
Ah, Franz, vocĂȘ Ă© tĂŁo problemĂĄtico.
Mas pelo menos este incidente deveria ter deixado claro para ele que a velha piromanĂaca era muito mais poderosa e Ăștil do que eu.
â E aĂ, Franz. A Ărvore do Mundo Negra foi cuidada com sucesso.
â F-Foi?! â ele disse entre respiraçÔes pesadas. â Q-Que bom!
Eu achei que era uma Ăłtima notĂcia, mas ele estava tĂŁo ranzinza quanto sempre.
â Eu nĂŁo entendo muito, mas acho que vamos para a torre queimada para coletar algo.
â HĂŁ?! Coletar?! O que vocĂȘ vai coletar?!
Eu nĂŁo sabia. Eu disse “algo”, nĂŁo disse?!
Olhei casualmente para a torre parcialmente destruĂda, e entĂŁo me virei quando ouvi um grito de vitĂłria atrasado. A velhota estava ordenando aos seus subordinados da Maldição Oculta que recolhessem as cinzas.
â NĂŁo relaxem ainda! A ĂĄrvore pode ter sido queimada, mas a “mana” que ela absorveu ainda estĂĄ aqui! Aquela coisa, nĂŁo era um mero monstro. Agora, recolham as cinzas!
Com o brilho zeloso em seus olhos, ela tinha o comportamento temĂvel de uma bruxa de tempos passados. Suas palavras eram estranhamente enĂ©rgicas, difĂceis de desobedecer. Eu acho que ela nĂŁo teria chegado ao NĂvel 8 se tudo o que pudesse fazer fosse botar fogo nas coisas.
Por enquanto, pensei em relatar minha nova informação a Franz.
â Parece que aquilo nĂŁo era um mero monstro â eu disse a ele.
â Eu percebi isso! Meros monstros nĂŁo aparecem de repente e rompem mĂșltiplas barreiras para chegar a uma academia de magia!
Franz era um cara tenso, com certeza. A ordem dele era a melhor das melhores, idolatrada por civis, mas Franz me fazia pensar que talvez eles nĂŁo merecessem toda aquela reverĂȘncia.
â NĂŁo deve ser fĂĄcil ser um cavaleiro. VocĂȘ tem que responder por coisas que nĂŁo sĂŁo sua culpa, vocĂȘ tem tantas pessoas que precisa proteger, Ă© muita coisa.
â Seu. Rato. Desgraçado. Droga. A-A profecia. Ela nĂŁo desapareceu!
Ele nĂŁo parecia estar muito bem. E por que aquela profecia ainda estava lĂĄ? Havia um lapso de tempo ou algo assim? Era difĂcil imaginar algo mais grave do que a demolição parcial da principal academia de magia da capital imperial.
Meus pensamentos foram interrompidos por uma montanha de cinzas sendo levada pelo vento, seguida por Lucia que surgiu. Quando ela tinha sido enterrada daquele jeito? Escurecida com cinzas, ela instantaneamente se virou na minha direção, quase como mågica, e então caminhou irritada até mim.
O que vocĂȘ quer que eu diga?
â Desculpa, a Lucia estĂĄ chegando, entĂŁo eu tenho que desligar.
â E-Ei! NĂłs nĂŁo terminamosâ
â Krai, vamos fugir enquanto o Matadinho ganha tempo para nĂłs!
Por quĂȘ?!
Ouvindo as palavras de Sitri, Matadinho seguiu suas ordens e rapidamente se colocou entre nĂłs e Lucia. Minha irmĂŁ foi pega de surpresa por um breve momento, mas entĂŁo sua expressĂŁo escureceu consideravelmente.
â IrmĂŁo! Siddy!
â Vamos, Krai!
Uhhh. Mas, er, eu quero falar com ela!
Lucia nos chamou para parar. A Inferno Abissal deu ordens. Matadinho rugiu. Sitri cutucou minhas costas com uma força incomum enquanto eu me permitia ser levado para dentro da torre.
Talvez por causa da monstruosidade enfurecida, quase nĂŁo havia ninguĂ©m dentro da torre. Eles devem ter saĂdo para ajudar a combater a coisa.
â A Academia de Magia de Zebrudia Ă© um tesouro! â Sitri me disse alegremente, ainda empurrando minhas costas. â Afinal, Ă© uma das instituiçÔes mais antigas de Zebrudia, e funciona como instituto de pesquisa e academia! HĂĄ rumores de que o cofre deles abriga uma RelĂquia que assustaria atĂ© mesmo um caçador. Definitivamente vale a pena coletar!
â Ah, entendi.
Que histĂłria Ă© essa de coletar?
Caminhamos por um corredor que era bem antigo, ou, para usar termos educados, exalava histĂłria. Depois, subimos uma escada em espiral que ia para a parte superior da torre. Como todos os Magos na academia podiam voar, esta escada era famosa por ser amplamente inutilizada.
Fazia tempo desde a Ășltima vez que estive aqui, mas eu ainda conseguia me lembrar vividamente de como foi acompanhar Lucia em sua iniciação. Os retratos de ex-alunos famosos nas paredes e as intrincadas estĂĄtuas de dragĂ”es colocadas aqui e ali eram de bom gosto e maravilhosos. A atmosfera dentro da torre era notavelmente diferente da de fora, o que aparentemente era resultado da “mana” densa emitida pelos estudantes e professores.
Enquanto caminhĂĄvamos, eu refletia sobre velhas memĂłrias. Lucia era normalmente bem “composta”, mas aquela tinha sido uma das poucas ocasiĂ”es em que a vi um tanto nervosa. Ainda assim, admito que eu estava cem vezes mais nervoso do que ela.
De repente, nĂŁo senti Sitri pressionando minhas costas.
â Ah? NĂŁo tem ninguĂ©m aqui? â ela disse com uma voz quieta, mas claramente animada. â Talvez a gente leve nĂŁo apenas uma RelĂquia, mas o cofre inteiro? Esse Ă© o nosso plano?!
â Esse nĂŁo Ă© o nosso plano…
Que ideia absurda. Levar o cofre inteiro só nos tornaria ladrÔes. Talvez esta não fosse realmente a Sitri, mas uma Liz pós-corte de cabelo? Não, nem eu conseguiria confundir as duas com uma iluminação tão boa. Além disso, apesar de ser uma Ladra, Liz não era gananciosa.
Sitri fez uma expressĂŁo muito desapontada. Eu estava com medo de que ela pudesse pegar algo se eu tirasse os olhos dela. Antes que ela pudesse pensar em qualquer outra ideia ardilosa, agarrei a mĂŁo dela e a arrastei escada acima comigo.
â Ah.
â Vamos lĂĄ, temos que nos apressar e ir ver a instrutora da Lucia.
Hã? A propósito, por que eståvamos subindo esta torre? Não é como se tivéssemos negócios com a instrutora da Lucia.
Isso era ruim. Eu não conseguia evitar ser levado pelo fluxo da Sitri. Eu tinha me pegado usando a palavra coletar sem pensar em nada. Eu não sei, talvez minha cabeça não estivesse funcionando direito.
â Entendi â disse Sitri. â EntĂŁo vamos coletar diretamente com a mentora da Lucy!
â De certa forma, eu acho que sua boa intuição funciona contra vocĂȘ.
Era tão boa que eu nem conseguia entender do que ela estava falando. Ou talvez minha intuição fosse apenas muito ruim.
Eu quero ir para casa.
No momento em que soltei um suspiro profundo, um cĂrculo mĂĄgico brilhante se formou aos nossos pĂ©s. Letras estranhas amontoadas nos circulavam.
â O que Ă© isso?! â disse Sitri enquanto olhava freneticamente ao redor.
â Ah, estamos apenas sendo chamados.
Houve um cĂrculo mĂĄgico semelhante quando visitei pela primeira vez com Lucia. Eles sĂł podiam ser usados dentro da academia, mas esses cĂrculos de teletransporte, como eram chamados, podiam ser usados para trazer alguĂ©m Ă força atĂ© vocĂȘ. Eu entrei em pĂąnico quando vi um pela primeira vez, mas esta era minha segunda vez, entĂŁo eu estava acostumado.
Eu estava prestes a explicar isso para Sitri quando meu corpo falhou e caà de joelhos. Meus membros pareciam fracos. Provavelmente na mesma situação, Sitri desabou contra mim.
HĂŁ? Pensei que este fosse o mesmo da Ășltima vez?
Incapaz até mesmo de gritar, senti-me desfalecer. Então tudo esmaeceu.
Quando voltei a mim, estava sentado em um tapete carmesim que parecia muito caro. A primeira coisa que senti foi algo fazendo cócegas na minha bochecha. Inclinei meu pescoço e olhei para o lado, onde vi um tom de rosa familiar. Parecia que Sitri estava encostada em mim. Tentei então mover meus braços e pernas, o que me fez perceber que estavam presos com correntes.
Cara, o que diabos aconteceu? Uau, nĂŁo Ă© sempre que eu me recupero antes da Sitri.
Tudo foi muito repentino. Eu não conseguia pensar em mais nada além de pensamentos vagos.
â VocĂȘ estĂĄ acordado, finalmente, irmĂŁo da Lucia â disse uma voz feminina um tanto fria. Parecia vagamente familiar.
Eu olhei para cima, e minha cabeça finalmente começou a funcionar enquanto processava a cena Ă minha frente. Eu reconheci esta sala. Tinha um teto alto, e a luz do sol entrava pelos vitrais de outro mundo. A sala era cilĂndrica, suas paredes forradas com estantes que quase alcançavam o teto. Entre as prateleiras havia janelas, das quais tudo o que eu podia ver era o cĂ©u.
EstĂĄvamos cercados por inĂșmeras estacas fincadas no chĂŁo. Elas estavam provavelmente encantadas ou algo assim. Para alĂ©m das estacas estavam Magos, homens e mulheres de todas as idades, parados ao nosso redor em um cĂrculo. Diretamente na nossa frente estava a instrutora de Lucia, com um sorriso indecifrĂĄvel no rosto.
Uma professora proeminente no maior castelo arcano do império, a Academia de Magia de Zebrudia, a instrutora de Lucia não era uma humana pura. Ela parecia alguns anos mais jovem que Lucia. Ela tinha longos cabelos prateados, que mantinha presos para não atrapalhar, e olhos dourados. Ela vestia um manto volumoso que escondia o contorno de seu corpo. Mesmo alguém que não soubesse nada sobre ela ainda sentiria que algo estava estranho.

Eu nĂŁo tinha certeza se era verdade, mas diziam que ela era uma das poucas pessoas a ter o sangue de um humano e de um EspĂrito Nobre. Seu corpo tinha as caracterĂsticas distintivas de ambas as raças; embora ela fosse quase tĂŁo alta quanto a Liz, a menos que eu estivesse alucinando, a parte superior de suas orelhas era pontuda. Havia muito poucos EspĂritos Nobres na capital, mas eu nunca os ouvi falar sobre a pessoa Ă nossa frente.
A flor milagrosa de Zebrudia, uma Magus que diziam ter sido escolhida a dedo pelo prĂłprio imperador, Rodrick Atolm Zebrudia. Ela era humana, mas nĂŁo era humana. Ela era Seyge Claster, a Imortal.
Eu diria que ela tinha uma presença esmagadora. Ela não estava me encarando ou algo assim, mas eu ainda me senti intimidado. Olhei rapidamente ao redor antes de oferecer uma saudação.
â E aĂ. B-Bom dia?
O que diabos estĂĄ acontecendo?
A instrutora de Lucia ignorou meu pĂąnico e disse: â Sitri, eu sugiro que vocĂȘ pare de fingir sono. Parece que as descriçÔes de Lucia sobre vocĂȘ estavam bem precisas.
â Urmmmm â Sitri gemeu enquanto seus braços se apertavam ao meu redor.
Eu entendi. Eu aceitei. Suspirei.
â Eu entendi agora…
Embora ela estivesse falando como uma Ladra, esta nĂŁo era realmente a Liz. Era apenas a “Sitri MĂĄ”. Parecia que a Sitri de hoje era a Sitri MĂĄ.
Lucia! Eu deveria ter deixado a Lucia nos pegar antes de entrarmos na torre!
Mas era tarde demais para arrependimentos. Sem mais nada para fazer, esbocei um sorriso meio-boca.
â Iniciaremos agora o julgamento, irmĂŁo da Lucia â disse Seyge com uma voz fria. â VocĂȘ foi acusado de quase destruir esta aclamada academia. O que vocĂȘ tem a dizer em sua defesa?
Numerosos olhares pontiagudos foram direcionados para Sitri, que ainda fingia dormir, e para mim. Eu senti que nosso melhor ponto de partida seria, como sempre, avaliar a situação. Mas, mais uma vez, eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
Que base a instrutora de Lucia, Seyge, isto Ă©, tinha para suspeitar de mim por ter arruinado a academia? Todo aquele dano havia sido causado por aquela ĂĄrvore. Eu sei que eu tinha um azar terrĂvel, mas eu nĂŁo gostei da suposição de que eu havia chamado aquele demĂŽnio. Pelo contrĂĄrio, nĂŁo era muito mais provĂĄvel que um Magus em um certo instituto tivesse conduzido algum experimento estranho ou algo assim? Pelo que eu tinha ouvido, a academia nĂŁo era tĂŁo ruim quanto o Instituto Primus da Sitri. Mas da minha perspectiva, a de um espectador inofensivo, nenhuma das duas poderia ser considerada boa.
Os olhares que eu estava recebendo eram muito mais hostis do que quando vim aqui pela primeira vez com a Lucia. Naquela época, minha irmã tinha acabado de completar quinze anos, o que significava que ela havia acabado de se tornar adulta, e os olhares eram mais de curiosidade do que qualquer outra coisa.
Hmmm.
Eu permaneci em silĂȘncio, incerto sobre o que fazer.
â De acordo com nossas investigaçÔes â disse a Professora Seyge, mantendo seu tom neutro â o caçador NĂvel 8, Krai Andrey, o Mil Truques, enviou a fonte de uma criatura perigosa, uma com extraordinĂĄrias capacidades de absorção de mana, uma ameaça terrĂvel para uma escola de Magos, para o nosso meio. Como resultado, das fabulosas 127 barreiras desta academia, 115 foram completamente destruĂdas. Uma leitura rĂĄpida da lei imperial descobrirĂĄ que isso pode muito bem constituir trĂȘs crimes e um dos dez crimes capitais. Esse seria o Porte de Criatura MĂĄgica com Destruição Classe: Municipal.
Oh. Entendi. Por Krai, talvez vocĂȘ nĂŁo queira dizer o Mil Truques, mas sim o Mil Teurgias?
Mesmo depois de ouvir isso em termos tĂŁo austeros, nĂŁo me tocou. Decidi que seria melhor ficar quieto e ouvir. E quando a Sitri ia parar de fazer barulhos de sono e voltar ao seu eu normal? O cĂrculo mĂĄgico estava fazendo isso com ela?
â Das 127 barreiras â continuou a Professora Seyge â algumas delas nunca foram quebradas, e algumas utilizavam mĂ©todos agora perdidos para o tempo. Essas barreiras foram agora destruĂdas.
â Como vidro frĂĄgil â acrescentou um Mago ao lado dela, severamente.
Os outros Magos eram todos bem velhos, fazendo Seyge parecer a neta de alguĂ©m ou algo assim. Eu sabia que os EspĂritos Nobres envelheciam lentamente, mas quantos anos tinha essa professora?
Seyge assentiu em concordĂąncia. â De fato, como vidro frĂĄgil. Algumas das barreiras estavam desatualizadas, mas tinham significado acadĂȘmico. Graças aos esforços conjuntos da Inferno Abissal e de nossos Magos, a criatura mĂĄgica foi transformada em cinzas. No entanto, nosso corpo docente, Ă© claro, e muitos de nossos estudantes foram drenados Ă força de sua mana, e alguns ainda estĂŁo para se recuperar da privação. Este foi um claro ato de animosidade. Mesmo que perpetrado por um NĂvel 8, nĂŁo podemos ignorar o que aconteceu aqui.
Ah, eu entendi.
Digamos que eu fosse culpado desse crime. Eles iriam perdoar a Inferno Abissal? Aquela velhota queimou uma boa parte do castelo, e enquanto eu estava brincando com um dragão de fonte termal de férias, ela não estava trocando fogo com a Torre Akåshica nas ruas? Ela não deveria ter sido processada primeiro?
O que era estranho era que essas pessoas aparentemente nĂŁo tinham incerteza quanto Ă minha culpa. Eu nĂŁo sei que investigaçÔes eles tinham feito, mas chamar isso de julgamento era ridĂculo.
A voz de Seyge era fria, e seu rosto estava quase desprovido de expressĂŁo. Ela nunca foi muito hospitaleira comigo.
â E apesar de tudo isso, irmĂŁo da Lucia, ouvi dizer que vocĂȘ quer algo em troca. NĂŁo se sabe quĂŁo grande o caos poderia ter sido se a Inferno Abissal nĂŁo tivesse chegado e parado aquela temĂvel criatura mĂĄgica antes que ela pudesse atravessar todas as barreiras. Se isso tivesse acontecido, Ă© possĂvel que ela tivesse escapado dos terrenos da academia e trazido a ruĂna para a capital imperial.
Olhei ao redor para as dezenas de Magos nos cercando. Se lhes tinha sido concedido um assento aqui, eles deveriam estar entre os melhores da capital, embora eu não soubesse nenhum de seus nomes. à um palpite como tanta sabedoria pÎde ser reunida em uma sala, mas ninguém veio em minha defesa. E eu não queria nada em troca; a Sitri queria.
Pelo menos eu tinha o Franz. O Franz ia me ajudar. Diferente da Sitri, ele nunca se tornou o Franz Mau. Decidi pedir a ajuda dele pela Pedra Sonora assim que tivesse a chance.
â Por que nĂŁo diz nada? â A instrutora de LĂșcia perguntou desconfiada. â Se tiver alguma objeção, pelo menos nĂłs vamos escutar. Caso contrĂĄrio, de acordo com a lei imperial, vocĂȘ serĂĄ processado sob as regras da academia.
EntĂŁo a academia tem extraterritorialidade?
Lembrei de ter ouvido algo sobre isso da LĂșcia. Caso algum Mago perdesse o controle e causasse um incidente, a academia tinha permissĂŁo para autogoverno.
Acabei aqui por pura coincidĂȘncia, e veja sĂł a enrascada em que me meti. Ela disse que eu poderia objetar, mas quando foi que alguĂ©m escutou minhas alegaçÔes de inocĂȘncia? Eu queria que isso se resolvesse sem problemas, mas serĂĄ que ia acontecer?
Um dos Magos ao redor levantou a mĂŁo e entĂŁo falou.
â No entanto, Professora Seyge, ele Ă© irmĂŁo da LĂșcia. NĂŁo seria um problema processĂĄ-lo sem a permissĂŁo da LĂșcia?
Ele parecia bem sério quanto a isso.
Os outros Magos também começaram a falar.
â Os talentos da Avatar da Criação sĂŁo comparĂĄveis aos da Inferno Abissal. E embora Rosemary seja temida por fazer oceanos de fogo, LĂșcia se comporta de forma bem adequada. Ela atĂ© desenvolveu uma sĂ©rie de novos feitiços.
â Seria um problema se processar o Mil Truques tivesse um efeito profundo na LĂșcia. Podemos enfrentar uma reação adversa de todos os estudantes que a adoram.
Ao ouvir isso de seus colegas professores, Seyge franziu a testa. Parecia que minha irmĂŁ mais nova era muito popular.
LĂșcia, seu irmĂŁo estĂĄ tĂŁo feliz em ver a pessoa maravilhosa que vocĂȘ se tornou. Continue assim! SĂ©rio, continue assim, pensei enquanto beliscava os joelhos de Sitri, que continuava a me abraçar e fingir que estava dormindo.
Enquanto isso, o debate se intensificava bem na minha frente.
â Para começar, o Mil Truques jĂĄ foi selecionado para guardar o imperador. Mesmo que tenhamos permissĂŁo para administrar nossos prĂłprios tribunais, nĂŁo devemos ser muito apressados em fazĂȘ-lo. Processar este homem Ă© arriscado demais.
â NĂŁo hĂĄ questionamento sobre a culpa deste homem. NĂłs retribuĂmos tanto a gentileza quanto o antagonismo na mesma moeda. Esse Ă© o caminho dos Magos.
â Foi LĂșcia quem trouxe o item. Desafiaria toda a lĂłgica punir apenas o Mil Truques e nĂŁo ela tambĂ©m.
â Se for esse o caso, entĂŁo o manuseio descuidado do cajado pela Anna tambĂ©m merece ser notado.
â E mal se poderia nos culpar por considerar a mĂĄ administração da torre da Professora Seyge?
â Talvez isso tenha sido feito por despeito pela LĂșcia ter perdido o exame de qualificação para cajado espiritual composto avançado, para o qual ela havia recebido uma recomendação?
O exame de qualificação para cajado espiritual composto avançado. Se bem me lembrava, essa era a coisa que LĂșcia precisou faltar por causa do Festival do Guerreiro Supremo. A coisa com a ĂĄrvore nĂŁo foi minha culpa, mas me senti muito mal pelo exame!
Com cada vez mais palavras incisivas direcionadas a ela, a Professora Seyge encarou os colegas. â NĂŁo sejam estĂșpidos! Estou apenas usando os privilĂ©gios que me sĂŁo concedidos. Preciso lembrĂĄ-los que muitas das famosas barreiras de nossa morada foram destruĂdas?!
â VocĂȘ pode chamĂĄ-las de “famosas”, mas elas ficaram intocadas nos Ășltimos dez anos, apesar de seus constantes lembretes de que deveriam ser refeitas um dia. VocĂȘ nĂŁo deveria, em vez disso, ficar feliz por terem sido destruĂdas?
â VocĂȘ estĂĄ falando inteiramente com o benefĂcio da retrospectiva! Que tipo de tonto expressaria gratidĂŁo a alguĂ©m que destruiu suas barreiras sem permissĂŁo?!
O buff de “irmĂŁo da LĂșcia” era poderoso demais. Se nada mais, eu concordava mais com a Professora Seyge do que com qualquer outra pessoa. Se havia uma coisa em que eu achava que ela estava errada, era que ela parecia pensar que eu havia feito algo de errado. Ela me encarou, mesmo que eu nĂŁo fosse quem estava levantando objeçÔes.
A Maga ao lado dela, uma senhora que parecia ter o triplo da idade dela, repreendeu Seyge com uma voz estridente. â Sim, mas por favor, pense nisso de forma racional, Professora Seyge. Este homem Ă© o irmĂŁo da LĂșcia!
Hmph. Isso mesmo. Eu sou o irmĂŁo da LĂșcia Rogier. Claro, Ă© tentador dizer: “E daĂ?” E, sim, nĂłs nem somos parentes de sangue…
Pelo que pude perceber, havia duas facçÔes: aqueles que diziam que o Mil Truques deveria ser perdoado porque ele Ă© o irmĂŁo da LĂșcia, e aqueles que nĂŁo se importavam com isso e queriam puni-lo. Eu estava esperando pela facção que insistiria que o Mil Truques era inocente.
Sem saber quando seria um bom momento para me manifestar, fiquei sentado e sorri. Seyge me lançou um olhar glacial, bem parecido com os que eu recebia da LĂșcia.
â IrmĂŁo da LĂșcia, o Mil Truques, por que estĂĄ tĂŁo quieto? Por que nĂŁo fala? Apesar do que a tagarelice desnecessĂĄria possa sugerir, LĂșcia estĂĄ sob minha tutela, entĂŁo eu tenho a palavra final sobre o que acontece com ela. Diferente dos meus colegas, eu nĂŁo vou me curvar para ganhar o seu favor. Mesmo que vocĂȘ seja o irmĂŁo mais velho da minha amada pupila, nĂŁo vou lhe oferecer tratamento especial. Sua irmĂŁ me contou tudo sobre os seus mĂ©todos. Sob essa barreira, vocĂȘ nĂŁo pode se mover, nem usar magia ou essas RelĂquias que vocĂȘ tanto adora.
Eu nĂŁo tinha tentado me mover, entĂŁo nem tinha notado que nĂŁo conseguia. No momento seguinte, meus olhos se arregalaram quando algo me ocorreu.
â Ă tarde demais para fazer essa cara â disse a Professora Seyge com um bufo. â O crime exige punição, e destruir as barreiras da Academia de Magia de Zebrudia Ă© um ato sem precedentes. Os detalhes da sua punição serĂŁo decididos apĂłs uma discussĂŁo entre os chefes dos vĂĄrios departamentos da academia, mas tenho certeza de que refletirĂĄ a escala desta destruição. Prepare-se para as consequĂȘncias.
Eu nĂŁo posso usar RelĂquias nem magia. Isso significa que Sitri Ă© uma das minhas RelĂquias?
Talvez incomodada com a expressĂŁo que eu estava fazendo, a bochecha de Seyge estremeceu enquanto ela batia o cajado no chĂŁo.
â Ei! O que estĂĄ pensando?! Escute-me! Anna disse que vocĂȘ queria o tesouro escondido da academia, mas isso nĂŁo passa de um rumor! VocĂȘ acha que um Mago deixaria escapar a notĂcia de algo assim?! Como todo mundo acreditou nessa bobagem, estamos sendo forçados a revelar a extensĂŁo do dano. AtĂ© que um veredito formal possa ser alcançado, vocĂȘ ficarĂĄ confinado ali! VocĂȘ deveria refletir sobre o que fez. Se os rumores começarem a se espalhar, isso afetarĂĄ a LĂșcia tambĂ©m!
Eu me perguntei se LĂșcia tinha herdado os maneirismos de sua instrutora. Ou seria o contrĂĄrio?
â Com licença â eu disse, falando pela primeira vez. Percebi que precisava voltar para casa. â Serei muito incomodado se vocĂȘ nĂŁo me deixar ir.
Em casa, tenho um bolo que estĂĄ prestes a estragar.
â Fique tĂŁo incomodado quanto quiser. NĂłs estamos em uma situação pior.
Eu sabia que ela estava tendo um dia ruim e tudo mais, mas ainda assim foi frio. Eu nunca teria vindo para cå se soubesse que isso iria acontecer. Eu tinha o mau håbito de ceder à pressão, embora nunca fosse de nenhuma ajuda na resolução de problemas.
â Puxa vida, pensar que jĂĄ tĂnhamos as mĂŁos cheias com aquela profecia do Divinarium. Causar problemas numa hora dessas Ă© uma forma de assĂ©dio e tanto.
â Ah, vocĂȘ tambĂ©m? Que coincidĂȘncia.
â Quieto. Eu posso ser a mentora da LĂșcia, mas nĂŁo sou nada disso para vocĂȘ! VocĂȘ provavelmente jĂĄ sabe disso, mas EspĂritos Nobres nĂŁo sĂŁo apenas hĂĄbeis com mana; nĂłs tambĂ©m lidamos bem com maldiçÔes. Ă porque nossas vontades sĂŁo mais fortes. A maioria das maldiçÔes grandiosas o suficiente para se qualificarem como catĂĄstrofes foram causadas por EspĂritos Nobres. Mesmo assim, nĂŁo estou gostando das perguntas bizarras com as quais estou sendo bombardeada.
Seyge passou a mĂŁo pela franja e deu um suspiro um pouco exagerado. Acho que mesmo uma Maga escolhida a dedo pelo imperador e portadora de um tĂtulo como “Imortal” ainda tinha muitas preocupaçÔes. Eu me solidarizei com ela.
Com um encolher de ombros, a professora se dirigiu à porta. Tentei impedi-la, mas descobri que não conseguia ficar de pé. Parecia menos que meu corpo não podia se mover e mais que estava ignorando os comandos do meu cérebro. Embora eu tivesse liberdade suficiente para mover a boca e beliscar o joelho de Sitri. Essas novas barreiras eram realmente impressionantes.
Ah, nĂŁo. Isso nĂŁo Ă© bom. Ei, Sitri, por quanto tempo vocĂȘ vai ficar assim?
Incapaz de contar com Sitri, eu estava prestes a desistir quando a porta foi aberta. Ao contrĂĄrio das minhas expectativas, nĂŁo era LĂșcia.
â O que Ă© isso? â disse Seyge, com a testa franzida.
â Terminamos de avaliar o dano. HĂĄ algo que vocĂȘ deveria ouvir.
Com o canto do olho, vi um Mago recĂ©m-chegado se aproximar da professora e sussurrar em seu ouvido. Seyge olhou para mim como se eu tivesse ofendido a famĂlia dela, mas ela murmurou por baixo da respiração.
â Hmm. De fato. Entendo…
â Claro, mas isso Ă© falar com retrospectiva…
Parecia que algo inesperado tinha acontecido. Ela começou a olhar para mim de forma diferente de antes. Vi seus olhos se arregalarem, e então seu rosto se contorceu.
â Originalmente era do Santo da Espada? O que aquele pirralho estava pensando?
â Sim, Ă© verdade. NĂŁo gosto da ideia de perder isso…
â Espere, hĂĄ claramente algo errado aĂ. Como isso foi acontecer?
EntĂŁo ela ficou em silĂȘncio.
O que poderia tĂȘ-la feito soar tĂŁo intensa? Depois de um pouco de espera na ignorĂąncia, o Mago saiu e Seyge solenemente se aproximou de nĂłs. Ela olhou para nĂłs por um momento antes de dar um tsc exagerado. Ela enfiou o cajado no cĂrculo mĂĄgico, fazendo-o desaparecer.
Eu pisquei confuso. Sitri ainda estava agarrada a mim.
â Droga. VocĂȘ estĂĄ liberado, irmĂŁo da LĂșcia. A situação mudou.
â Liberado? O que diabos aconteceu?
Seyge dirigiu um olhar rancoroso aos outros professores antes de dizer, muito a contragosto, para mim: â Eu nĂŁo concordo em nada com esta decisĂŁo. No entanto, descobriu-se que hĂĄ uma possibilidade de que as cinzas daquele demĂŽnio possam servir como um catalisador muito valioso. Novamente, eu nĂŁo concordo com esta decisĂŁo, mas a maioria dos professores concorda, e a decisĂŁo Ă© do diretor. Se fĂŽssemos puni-lo, isso enfraqueceria nossa reivindicação sobre essas cinzas. As balanças ficariam desequilibradas. Pelos seus padrĂ”es humanos.
â VocĂȘ me daria um pouco? â disse Sitri, finalmente voltando ao normal.
Seyge olhou brevemente para ela como se estivesse insana. Eu nĂŁo podia realmente culpar a professora. O que aconteceu com a garota que costumava ser ainda mais frĂĄgil do que eu?
â LĂșcia estĂĄ esperando lĂĄ embaixo â disse Seyge com uma voz gĂ©lida, ignorando o pedido de Sitri. â VocĂȘ nĂŁo deveria dar mais uma coisa para sua irmĂŁ se preocupar.
O que aconteceu tinha sido nada menos que um pesadelo para aquele homem. A princĂpio, ele pensou que fosse um terremoto. Com os gritos constantes e o tremor violento, ele soube que havia uma emergĂȘncia. Quando percebeu que a enorme ĂĄrvore preta estava mirando seu laboratĂłrio, ele pensou que tudo estava acabado.
De fato, enquanto roubava mana de vĂĄrios Magos, a ĂĄrvore estava sem dĂșvida mirando seu local de trabalho. Este era um laboratĂłrio que existia hĂĄ quase cem anos. A pesquisa deste homem era considerada bastante tediosa, mesmo em comparação com a de seus colegas. Mas era Ăłbvio para ele por que aquele demĂŽnio foi atrĂĄs de seu laboratĂłrio: era a poção mĂĄgica que ele possuĂa secretamente.
Era uma coisa lendĂĄria, algo que qualquer pessoa minimamente instruĂda teria ouvido falar. O perigo puro e simples levou ao extermĂnio de seus inventores, e a pesquisa e posse da poção foram proibidas.
Foi pura sorte que tal item tivesse chegado às mãos deste Mago, um homem que era levemente talentoso, mas ainda dentro dos limites da mediocridade. Tudo o que ele tinha feito foi desenterrar a poção ao cavar um buraco destinado a ser um depósito de lixo. Ele ainda conseguia se lembrar claramente do choque que sentiu quando testou as capacidades da poção pela primeira vez, confirmando sua identidade.
Se a notĂcia da existĂȘncia desta poção vazasse, isso enviaria ondas de choque por toda a capital imperial. Se ele a entregasse ao impĂ©rio, seu nome se tornaria instantaneamente conhecido por muitos. Se tornaria conhecido, e nada mais. Ele seria apenas o cara que tropeçou nela por acaso.
O que o impeliu sĂł poderia ser descrito como impulsos sombrios. Para este homem farto de sua prĂłpria falta de talento, esta poção mĂĄgica encontrada por coincidĂȘncia seria seu futuro promissor. Ele poderia conseguir o que desejasse se usasse essa poção corretamente. Embora tivesse sido apagada centenas de anos atrĂĄs e nĂŁo tivesse sido recriada desde entĂŁo, ele poderia aprender a produzir a poção em massa se a investigasse. Abrir mĂŁo de tais possibilidades e curvar-se Ă autoridade seria falhar na busca pelo conhecimento.
Mas entĂŁo tudo mudou. NĂŁo importava o que acontecesse, o pensamento da poção tinha sido suficiente para afastar seus sentimentos de descontentamento. Em Ășltima anĂĄlise, ele nĂŁo a tinha usado, jĂĄ que nĂŁo era sempre que se tinha a chance de usar uma poção da qual se tinha apenas um frasco. EntĂŁo ele nĂŁo poderia ter sido descoberto. Ele nĂŁo tinha contado a ninguĂ©m sobre a poção, nem a colegas, amigos ou famĂlia.
Ainda assim, estava claro que ele tinha estragado tudo.
Ao que parecia, aquela ĂĄrvore demonĂaca tinha vindo parar aqui por causa do irmĂŁo de LĂșcia. O homem tinha ouvido rumores sobre ele. O Mil Truques, um caçador de NĂvel 8 e irmĂŁo da prodĂgio LĂșcia Rogier. Diziam que ele sabia coisas que nĂŁo deveria saber, e tinha as habilidades para guiar o futuro.
A imensa ĂĄrvore preta havia aparecido de repente na Academia de Magia de Zebrudia, um lugar hĂĄ muito protegido por barreiras e em uma das regiĂ”es mais seguras da capital imperial. Ela nĂŁo tinha sido impedida por ataques coordenados dos Magos da academia e esmagou o castelo magicamente protegido como se tivesse sido construĂdo com blocos de montar. NĂŁo havia nada que aquele homem pudesse ter feito contra ela.
Foi boa sorte o que manteve a poção segura. Graças Ă sorte, coincidentemente, ninguĂ©m alĂ©m do homem estava presente no laboratĂłrio quando o demĂŽnio atacou. A atenção do demĂŽnio foi desviada momentaneamente. A Inferno Abissal tinha aparecido. Os escombros que caĂram nĂŁo empalaram o homem. A ĂĄrvore foi derrotada antes que pudesse retornar ao seu objetivo. O homem conseguiu fugir antes da chegada de qualquer um curioso para saber por que a ĂĄrvore estava tĂŁo focada em seu laboratĂłrio. Foi tudo graças Ă sorte.
Observando o amplo campus, ele soltou um suspiro de alĂvio enquanto via os Magos se aglomerarem nas pilhas de cinzas. Um Ășnico passo em falso o teria matado. Foi apenas por causa de uma sĂ©rie de coincidĂȘncias que ele ainda estava de pĂ©.
No entanto, o dado jĂĄ estava lançado. Se o Mil Truques soubesse da sobrevivĂȘncia do homem, o caçador recorreria novamente a medidas de força. Mesmo que nĂŁo recorresse, o comportamento da ĂĄrvore deve ter lhe dado a dica de que havia algo no laboratĂłrio do homem. Certamente o prĂłprio homem tambĂ©m seria investigado minuciosamente. Ele nĂŁo era tolo o suficiente para pensar o contrĂĄrio.
O homem tirou o frasco do bolso e olhou para ele com gravidade. Seu coração batia nervosamente como um tambor. Ele pensou que este dia poderia chegar. Ă preciso lutar para viver como se deseja neste mundo. Um caçador de NĂvel 8 era um oponente mais do que satisfatĂłrio.
Ele olhou para a torre da Professora Seyge, para onde o Mil Truques tinha ido. Com a mentalidade de alguém indo para sua batalha final, o homem começou a caminhar.
Ao sair da sala no topo da torre, descemos a escada em espiral. Nosso sequestro e censura repentinos me deixaram exausto. Isso era demais para um dia. Eu queria paz.
Caminhando ao meu lado, Sitri, agora recuperada, fez uma cara quase como se fosse uma vĂtima ali. â Nossa, que provação terrĂvel foi essa, nĂŁo acha, Krai?
Tudo o que vocĂȘ fez foi fingir que estava dormindo.
Era um tipo de inutilidade que eu raramente via nela. Mas, a essa altura, seria preciso um pouco mais para diminuir minha opinião sobre ela. Eu a olhei com reprovação, mas tudo o que ela fez foi uma cara de interrogação. Eu não conseguia igualar sua mentalidade inabalåvel.
E por que fomos em direção Ă torre de Seyge em primeiro lugar? NĂŁo tĂnhamos nenhum assunto lĂĄ nem nada. Certo. Fomos porque Sitri disse para ir. E LĂșcia nĂŁo veio conosco porque Sitri usou o Matadinho para detĂȘ-la. SerĂĄ que todo esse contratempo foi culpa da Sitri?
â Ela nos mandou para casa de mĂŁos vazias â Sitri reclamou. â Que pĂŁo-durice. VocĂȘ pensaria que uma longa vida ajudaria um EspĂrito Nobre a se livrar da ganĂąncia. DeverĂamos ter pegado um pouco em segredo. Por causa das histĂłrias da LĂșcia, fiquei cega pela minha presunção de que a professora compartilharia conosco. VocĂȘ tambĂ©m, Krai, deveria ter dito algo.
Eu nĂŁo sabia dizer se ela estava brincando ou nĂŁo.
No final, eu nunca descobri porque aqueles professores estavam tĂŁo certos de que eu era culpado.
â Antes de me julgarem, eles deveriam ter investigado os prĂłprios primeiro â eu disse.
Eu estava certo de que o desastre tinha sido causado por algum Mago conduzindo experimentos perigosos.
â Exatamente! â Sitri acrescentou, alegremente.
Bem, tudo estĂĄ bem quando acaba bem. Vamos para casa e comer um bolo.
Assim que esse pensamento me ocorreu, a porta ao nosso lado se abriu, e uma figura envolta em um manto marrom disparou na minha frente.
â Eu estava errado. Eu percebo isso agora. Eu nĂŁo pensei que vocĂȘ enviaria um demĂŽnio desses! T-Tome isto e me perdoe!
Enquanto eu estava ali, a figura enfiou uma garrafa de ĂĄgua de metal em mim, entĂŁo escalou o corrimĂŁo da escada e pulou. Fiquei paralisado por um momento, depois olhei freneticamente por cima do corrimĂŁo. A figura jĂĄ tinha sumido.
Aquilo foi algum tipo de aberração? Este lugar é assustador. Nunca mais volto aqui.
â O que Ă© isso? â perguntou Sitri.
â Sei lĂĄ â eu disse.
Se Liz estivesse aqui, ela com certeza teria pego aquela pessoa, embora se isso teria sido uma coisa boa fosse outra questĂŁo.
Vendo o brilho nos olhos dela, entreguei a garrafa de ĂĄgua para Sitri. Cautelosamente, ela abriu a tampa. Esperei alguns momentos. Ela nĂŁo disse nada, e nĂŁo parecia perigoso, entĂŁo dei uma espiada.
Girando lĂĄ dentro havia um lĂquido opaco da cor de leite de morango. Na verdade, o cheiro sugeria que era leite de morango. Eu gostava de leite de morango. Eu bebia regularmente e sempre tinha um pouco na minha geladeira. Mas esse cara tinha acabado de aparecer de repente e me entregado uma garrafa disso antes de sair correndo. Talvez ele fosse realmente uma aberração?
AtĂ© meu senso de cautela estava desenvolvido o suficiente para me dizer para nĂŁo beber leite recebido de um estranho. Eu estava totalmente perdido quando de repente notei que Sitri ainda segurava a garrafa em silĂȘncio. Eu cutuquei o ombro dela, o que pareceu trazĂȘ-la de volta a si.
â Essa cor, esse aroma â ela disse, com as bochechas coradas, a voz intensa. â SerĂĄ esta a poção lendĂĄria, selada por seu poder e pelo perigo que representa? Poderia ser a Chama de Morango? NĂŁo consigo acreditar. Supostamente, tudo foi destruĂdo? Pensar que ainda existia um pouco!
â Ohhh. EntĂŁo Ă© algo especial?
Tem “morango” no nome, entĂŁo isso Ă© sĂł leite de morango, certo?
Era inesperado, mas nĂŁo era impossĂvel para um Alquimista talentoso fazer piadas sobre poçÔes. Tomando ainda mais cuidado do que o normal, Sitri recolocou a tampa delicadamente. Eu realmente nĂŁo entendi, mas era bom que tivĂ©ssemos conseguido algo valioso. No entanto, aquele pensamento ingĂȘnuo foi seguido por algumas informaçÔes desconcertantes.
â Ă especial! â Sitri me disse com a voz trĂȘmula. â Ă uma poção de escravização extraordinĂĄria, incomparĂĄvel! Uma gota Ă© suficiente para aprisionar o corpo e o coração de uma pessoa. Ela levou trĂȘs naçÔes Ă ruĂna. O Alquimista que a fez, sua famĂlia e o mĂ©todo de produção foram supostamente extintos, mas, contra todas as probabilidades, alguns ainda existem.
â EntĂŁo Ă© algo especial?
â Se for real. Se reconstruirmos os mĂ©todos de produção, a dominação mundial pode ser viĂĄvel. AtĂ© agora, ninguĂ©m conseguiu replicar um efeito tĂŁo confuso, mas se tivermos uma amostraâ
â Ă, aham.
Pela empolgação, Sitri falou em tons mais baixos do que o normal, mas seu rosto estava transbordando de alegria. Peguei a garrafa de seu abraço, provocando um olhar de choque momentùneo nela.
â Krai â ela disse com uma voz doce â, vou receber minha recompensa desta vez, certo?
â Ă, aham. Depois.
â Eba!
Sitri se agarrou ao meu braço e esfregou a bochecha em mim. Eu balancei a cabeça e dei tapinhas na cabeça dela.
Definitivamente nĂŁo posso dar isso a ela. Vou me livrar disso mais tarde.
Aparentemente, enquanto LĂșcia estava sendo detida pelo Matadinho, Seyge havia passado e ordenado que ela esperasse no andar de baixo. Quando chegamos lĂĄ, encontramos Matadinho sentado com as pernas dobradas debaixo dele, e LĂșcia de mau humor.
LĂĄ fora, dezenas de Magos estavam reunindo as cinzas caĂdas. Sitri parecia que poderia se afastar na direção deles, entĂŁo a agarrei pelo braço. Parecia que ela nĂŁo tinha se recuperado totalmente do cĂrculo mĂĄgico.
NĂŁo. Olhar para mim com os olhos revirados nĂŁo vai mudar nada.
Enquanto caminhĂĄvamos, LĂșcia me contou sobre a situação. Ela me contou coisas novas enquanto parecia esperar que eu jĂĄ as soubesse.
â Sinceramente, que bagunça desgraçada. A capital imperial nĂŁo Ă© sua caixa de brinquedos, sabia?! Todo mundo fica me perguntandoâ
â B-Bem, tudo se resolveu tranquilamente o suficiente, entĂŁo acho que estĂĄ tudo bem.
â Augh!
Eu estava suando frio, mas talvez fosse um pouco tarde para isso. Parecia que a fonte da Ărvore do Mundo Negro era o cajado do Santo da Espada. Ele nem sequer tinha sido ativado, mas começou a absorver mana e cresceu em algo massivo.
Em outras palavras, o que Seyge tinha dito estava certo.
Mas a culpa não era minha. Era do Santo da Espada. Claro, eu me sentia mal por todas as dores de cabeça que Luke lhe causava, mas isso não significava que esta era uma maneira aceitåvel de se vingar. Sinceramente, aquele cara era realmente impressionante.
Sitri deveria estar tão ignorante da situação quanto eu, mas ela bateu as mãos com um olhar de entendimento no rosto.
â Entendi â ela disse. â Isso explica por que a Professora Seyge recuou. Mesmo esta academia nĂŁo iria querer começar uma briga com o Santo da Espada e seus parceiros.
â Hmm, entĂŁo um monstro nos salvou de outro?
â Meu Deus, vocĂȘs dois poderiam parar de agir como se isso nĂŁo tivesse nada a ver com vocĂȘs?!
Simplesmente nĂŁo parecia real. Olhando para trĂĄs, esta tinha sido uma sĂ©rie de eventos incrivelmente estranha. Eu tinha planejado ficar tranquilo na capital imperial por um tempo, mas aĂ o que aconteceu foi que a espada da Eliza era uma Espada DemonĂaca? E eu a dei, e em troca peguei um cajado, que entĂŁo se revelou ser algo perigoso? E agora, por alguma razĂŁo, uma poção perigosa tinha acabado nas minhas mĂŁos.
â Isso me lembra â eu disse â, havia alguma razĂŁo para aquela ĂĄrvore estar tĂŁo focada naquela torre?
â ImprovĂĄvel â LĂșcia respondeu. â Aquela ĂĄrvore foi apenas atraĂda por mana poderosa, e uma busca superficial nĂŁo encontrou nada. Mas todos os laboratĂłrios tĂȘm segredos e, pelo que entendi, Ă© possĂvel que algo tenha sido contrabandeado para fora.
â Oh. Viu, Krai, Ă s vezes coisas misteriosas acontecem â disse Sitri com um largo sorriso.
Parece que vocĂȘ tem algo a dizer.
â HĂŁ?! â LĂșcia tambĂ©m parecia ter algo a dizer. â IrmĂŁo?
NĂŁo havia nada que eu pudesse dizer. A Ășnica coisa que eu havia ganho hoje era o conhecimento de que LĂșcia era uma garota popular.
Minha Pedra Sonora vibrou. Como sempre, ele tinha um timing terrĂvel. Franz sabia que essa bagunça era minha culpa? Bem, nĂŁo era minha culpa, era, se fosse de alguĂ©m, do Santo da Espada. Mas tudo havia sido resolvido tranquilamente. NĂŁo terĂamos mais problemas com maldiçÔes ou o que quer que fosse. Nem mesmo eu pisaria em uma mina terrestre se soubesse que elas estavam Ă minha frente! E o que diabos era uma “poção de escravização”?!
Com um pequeno suspiro, ativei Pedra Sonora. A primeira coisa que ouvi foi Franz gritando.
â Mil Truques! Eu soube o que aconteceu!
â Ah. VocĂȘ sabe disso? NĂŁo se preocupe, nĂŁo teremos mais maldiçÔes ou o que quer que seja nos dando problemas.
â Ei, um momenâ
â Estou ocupado agora, entĂŁo vou desligar por aqui. AtĂ© mais.
Olhei para a Pedra Sonora. Esperei por um momento, mas ele nĂŁo vibrou novamente. Acho que ele desistiu.
Me desculpe, Franz. Estou sĂł um pouco cansado. NĂŁo se preocupe. Vou garantir que nĂŁo haja mais problemas.
â Sitri, vocĂȘ estĂĄ de um humor incrivelmente bom â eu disse.
â Bem, claro que estou â ela respondeu. â Ă a minha vez agora!
Mesmo com um olhar de soslaio, eu podia perceber o quĂŁo elevado estava o seu Ăąnimo. Ela estava girando a cada passo.
Receio que vocĂȘ nĂŁo terĂĄ uma vez. VocĂȘ Ă© minha melhor amiga, eu te devo muito dinheiro e nĂŁo quero te deixar triste, entĂŁo nĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer.
â VocĂȘ vai vir comigo para pedir desculpas depois! â disse LĂșcia.
â Sim, eu sei. VocĂȘ fez muito por mim e, como seu irmĂŁo, eu preciso me comportar! Afinal, sou seu irmĂŁo!
â Isso mesmo.
Afinal, ser o irmĂŁo dela tinha me tirado do sufoco.
Mas, no momento, eu tinha que me preocupar com Sitri. Se eu não lidasse com o assunto da poção com muito cuidado, teria que fazer muito mais do que apenas me curvar. Esquecer de fazer as coisas que eu pretendia fazer era um péssimo håbito meu.
Entrei no meu escritĂłrio. Mesmo sendo proibido para caçadores, LĂșcia e Sitri me seguiram como se fosse perfeitamente natural.
Sem realmente dizer nada, Sitri me implorou para entregar a poção. LĂșcia provavelmente nos seguiu com um olhar de descontentamento porque tinha sentido que havia algo errado com Sitri. Nossa Alquimista estava determinada a me importunar atĂ© que eu lhe desse a garrafa. Normalmente, eu nĂŁo conseguiria vencer em uma batalha de vontades contra ela. Eu raciocinaria que poderia confiar na minha querida amiga e entregaria a poção.
Mas eu ainda nĂŁo tinha esquecido como ela tinha se agarrado a mim enquanto fingia dormir.
â Esperem aqui um momento â eu disse.
Vamos resolver isso antes que eu me esqueça.
Eu as fiz esperar no meu escritĂłrio enquanto pressionava o mecanismo e seguia para meus aposentos privados. Este era um espaço projetado para que eu pudesse viver em reclusĂŁo confortĂĄvel. Havia, Ă© claro, minha coleção de RelĂquias e minha cama, mas tambĂ©m havia uma geladeira, banheiro, banheira e pia, todos conectados ao encanamento.
Com um longo alongamento, entrei no meu espaço privado e coloquei a poção na mesa. EntĂŁo meus olhos caĂram sobre a geladeira ao lado da minha cama. Abri e peguei uma garrafa de leite de morango. O bolo quase vencido tinha sido dado a mim, mas o leite era algo que eu havia comprado secretamente, porque meu desejo por doces era um segredo.
Eu servi um copo e devolvi a garrafa, depois comparei com a poção de nome estranho na mesa. Como esperado, os dois tons eram idĂȘnticos, assim como seus cheiros. Isso poderia realmente ser uma poção tĂŁo perigosa? Achei bem difĂcil de acreditar. Essa coisa era aparentemente chamada de “Chama de Morango”, o que eu acho que era porque cheirava a morangos. Havia mesmo um monte de poçÔes estranhas por aĂ.
Experimentalmente, aproximei a garrafa de ågua dos meus låbios, mas então um dos anéis que eu estava usando começou a esquentar. Era o Alerta Vermelho, um anel que podia detectar o perigo se aproximando. Não poderia estar reagindo ao leite, o que significava que a poção era claramente perigosa.
Eu nĂŁo achava que Sitri a usaria para o mal, mas ainda assim era uma poção terrĂvel que havia destruĂdo algumas naçÔes. Era muito arriscado entregĂĄ-la Ă Sitri MĂĄ.
Desculpe, mas o Mil Truques vai aprender com aqueles que vieram antes e se livrar desta poção.
Sem hesitar, despejei-a na pia. O lĂquido que parecia e cheirava exatamente como leite de morango girou enquanto descia pelo ralo. Apenas para ter certeza de que a poção nunca entraria em contato com minha pele, enchi a garrafa com ĂĄgua e a enxaguei completamente.
Que alĂvio. Zebrudia estava salva. Tudo o que eu tinha que fazer era pedir desculpas Ă Sitri. A Ășnica coisa que eu tinha feito era descartar uma poção, mas eu tinha a sensação de um trabalho completo.
Olhei fixamente para a garrafa de ĂĄgua de metal. Pensei por um momento. Meus olhos dispararam entre o leite de morango na mesa e a garrafa de ĂĄgua. Discretamente, peguei o copo e despejei cuidadosamente seu conteĂșdo na garrafa de metal recĂ©m-lavada.
Verifiquei novamente e vi que o lĂquido balançando na garrafa era indistinguĂvel do material que eu tinha acabado de descartar. A Ășnica diferença era que a RelĂquia no meu dedo nĂŁo estava me dando nenhum aviso. Que tipo de poção era idĂȘntica a leite de morango?
Enquanto eu estava ali, LĂșcia e Sitri desceram, provavelmente cansadas de me esperar.
â Krai, vocĂȘ ainda nĂŁo terminou? Hm?! O-O que vocĂȘ estĂĄ fazendo?!
â Ah, isso Ă©, hĂŁĂŁĂŁâ
Sitri correu atĂ© mim quando viu o copo e a garrafa de ĂĄgua nas minhas mĂŁos. Quando notou o conteĂșdo da garrafa de ĂĄgua e os vestĂgios de leite de morango no copo, ela me olhou com horror.
â Tem um pouco menos. N-NĂŁo me diga. VocĂȘ bebeu um pouco?!
â NĂŁoâ
â Isso Ă© ruim. Precisamos fazer um antĂdoto, e rĂĄpido. VocĂȘ bebeu tanto disso sem diluir. Na pior das hipĂłteses, vocĂȘ pode acabar virando um boneco de carne, capaz apenas de receber ordensâ
â HĂŁ?! Siddy, o que foi isso?!
Sitri estava perdendo o controle. O sangue havia sumido de sua pele jå pålida, e lågrimas estavam se formando em seus olhos. Em pùnico, ela estava quase vesga. Se alguém tão calma e controlada quanto ela estava surtando, a poção devia ser mais louca do que eu havia percebido.
Sitri pegou a garrafa de ĂĄgua das minhas mĂŁos e disse para LĂșcia com uma voz aflita: â E-Eu estou saindo! Farei o que puder para fazer um antĂdoto! Lucy, cuide do Krai!
â Ah, espeâ
Antes que alguĂ©m pudesse impedi-la, Sitri voou escada acima. Eu nem tive a chance de dizer nada. Tudo o que consegui dizer foi “Ah, isso Ă© hĂŁĂŁĂŁ” e “NĂŁo”. Naquela Ă©poca, Sitri era organizada, mas vocĂȘ ficaria surpreso com o quĂŁo distraĂda ela jĂĄ tinha sido. Acho que essa parte dela nĂŁo havia sido realmente consertada, apenas subjugada.
LĂșcia estava olhando ao redor descontroladamente. Com a falta de informação dela, eu nĂŁo podia culpĂĄ-la por achar isso incompreensĂvel.
â Eu disse a ela que nĂŁo bebi.
â Mm-mmm. IrmĂŁo, vocĂȘ se sente bem?
Agora que vocĂȘ mencionou, me sinto um pouco cansado. EntĂŁo, sim, nada fora do comum.
Fui até a geladeira e servi um copo de leite de morango gelado. Dei uma checada superficial no meu anel para ter certeza de que estava seguro, e então tomei um gole. O aroma doce de morangos se misturou ao aroma do leite encorpado. Era isso. Era leite de morango. Mas como uma profissional como Sitri havia sido enganada?
â Ela estĂĄ indo fazer um antĂdoto para leite de morango â eu disse.
Por um momento, LĂșcia olhou para mim em silĂȘncio, seu olhar se tornando tĂŁo glacial quanto o de sua professora.
â Talvez devĂȘssemos ir atrĂĄs dela? â ela disse.
Nos arredores da capital imperial ficava o distrito decadente, o setor de Zebrudia com mais crimes. Na fronteira entre ele e o distrito central, havia uma loja sombria, e lå dentro, Hugh Regland da Ordem Zero estava discutindo com o lojista. O interior estava repleto de uma variedade de itens, incluindo armaduras, armas de fogo e até medicamentos duvidosos.
Zebrudia era a mais prĂłspera de suas vizinhas, e mercadorias de todos os tipos se reuniam em sua capital. Dar uma olhada em qualquer uma das lojas perto do distrito decadente certamente revelaria um ou dois itens de contrabando. Embora houvesse repressĂ”es, era difĂcil impedir a circulação por completo.
â Esta loja nĂŁo lida com itens amaldiçoados! Como o senhor cavaleiro estĂĄ ciente, Ă© ilegal vender de mĂĄ-fĂ© tais bugigangas malignas.
â De fato, mas o senhor deve ter alguns itens escondidos debaixo do balcĂŁo, nĂŁo Ă©? Se me mostrar imediatamente, mostrarei clemĂȘncia. Tenho permissĂŁo para revirar esta loja de cabeça para baixo, sabia? Hum. Tenho certeza de que hĂĄ muitas violaçÔes apenas esperando para serem encontradas.
Ver o cavaleiro se inclinar descaradamente sobre o balcĂŁo fez o lojista rude e alguns dos clientes sombrios empalidecerem. Em Zebrudia, os cavaleiros tinham muita autoridade para reprimir criminosos, caçadores de tesouros e RelĂquias perigosas. Embora raramente o fizessem, eles tinham permissĂŁo para investigar lojas, mesmo sem provas concretas. AlĂ©m disso, havia a justificativa da profecia do Divinarium.
Mas o lojista apenas balançou a cabeça rapidamente em resposta à intimidação de Hugh.
â E-Eu nĂŁo estou mentindo, senhor. Se lidĂĄssemos com itens amaldiçoados, eu poderia acabar sendo enfeitiçado. Eu teria que ser um louco para lidar com algo assim, ou mesmo deixĂĄ-lo entrar na minha loja. As outras lojas sĂŁo iguais. â O lojista riu para si mesmo. â Bem, Ă© possĂvel que um acabe aqui sem que eu saibaâ
Detectando uma pitada de verdade no olhar persuasivo do homem, Hugh estalou a lĂngua.
â Tsk.
Este era o problema. Itens amaldiçoados eram geralmente indiscriminados. A Espada DemonĂaca encontrada pelo Mil Truques tinha sido capaz de afetar atĂ© mesmo os discĂpulos do Santo da Espada. Embora nenhum deles tivesse morrido, isso foi porque eram excelentes Espadachins. A maioria das pessoas nĂŁo conseguia suportar ser usada por um item amaldiçoado. Uma vez que um item amaldiçoado perdesse um portador, o prĂłximo provavelmente seria alguĂ©m que nĂŁo tinha discernimento.
Hugh jĂĄ tinha ido a cinco lojas, e todas lhe deram a mesma resposta. Ele nĂŁo sabia como aquela Espada DemonĂaca tinha chegado Ă s mĂŁos do Mil Truques, mas este pedido era um fardo e tanto.
Ao sair da loja, Hugh viu outra com uma atmosfera sombria. Ele franziu a testa. As lojas adequadas jå haviam sido checadas por outros cavaleiros. As que desrespeitavam a lei também haviam sido investigadas. Isso significava que qualquer busca adicional exigiria contato com o tipo de canalha que era evitado até mesmo no distrito decadente.
O distrito decadente estava efetivamente se tornando uma terra com leis prĂłprias, um manancial de maldade. A Terceira Ordem havia tentado repetidamente e falhado em subjugar o poço caĂłtico. Ex-caçadores de fantasmas de alto nĂvel, organizaçÔes criminosas e sindicatos de magia todos tinham bases de operaçÔes no distrito, e as ruas labirĂnticas permaneciam sem mapeamento. Os criminosos nĂŁo sĂł controlavam a superfĂcie, mas dizia-se que tambĂ©m controlavam os esgotos.
Hugh não se considerava incompetente, mas também não achava que chegaria a algum lugar invadindo diretamente. Esta investigação exigiria que ele se livrasse daquela armadura da qual tanto se orgulhava.
O Capitão Franz provavelmente não tinha antecipado isso quando ordenou a Hugh que cooperasse com o Mil Truques em nome da obtenção de informaçÔes. No entanto, era muito provåvel que isso fosse o que seria necessårio para chamar a atenção do caçador.
Hugh achava difĂcil de acreditar que o Mil Truques o faria seu aprendiz de qualquer maneira, mas ele pensou que talvez pudesse ver algo interessante. Ele poderia vislumbrar as profundezas do poder que um NĂvel 8 comandava, aquilo que Hugh cobiçava.
Ele sorriu. Mesmo com a adversidade mais adiante, Hugh Regland seguia em frente.
Um princĂpio fundamental da Alquimia era que, se as condiçÔes fossem as mesmas, os resultados tambĂ©m seriam, nĂŁo importando o Alquimista.
A disposição certa era necessĂĄria para se tornar um bom Mago; a qualidade e a quantidade de sua mana afetavam quais feitiços eles podiam usar, bem como seu poder. A Alquimia era diferente. Considerada uma fusĂŁo de ciĂȘncia e magia, a interminĂĄvel tentativa e erro de legiĂ”es de Alquimistas medianos e um punhado de gĂȘnios desenvolveram o campo lenta mas seguramente.
Carente de alta adaptabilidade e poder para sair do perigo, a Alquimia era uma mĂĄ escolha para caçadores, fazendo com que os Alquimistas fossem gravemente negligenciados. Mas sua histĂłria remonta a muito tempo, e nĂŁo era exagero dizer que a Alquimia havia construĂdo as bases da sociedade moderna.
Com uma histĂłria tĂŁo longa, era natural que houvesse alguns resultados que foram apagados. Por exemplo, a poção de escravização, Chama de Morango. Nomeada por seu aroma de morango, esta poção foi um “resultado” que havia sido riscado.
A poção agia no cĂ©rebro de seres vivos, sendo uma Ășnica gota suficiente para reescrever a mente de qualquer criatura. Devido aos seus poderes que desafiavam as regras conhecidas das poçÔes e Ă s muitas naçÔes que foram levadas ao conflito pela Chama de Morango, a receita da poção, o inventor e a famĂlia do inventor foram todos extintos.
Tudo o que era lembrado era seu nome e suas caracterĂsticas distintivas. Rumores de sua recriação surgiam regularmente, mas nunca eram acompanhados de provas genuĂnas. Se a Chama de Morango permaneceu nĂŁo replicada mesmo depois de centenas de anos, era justo presumir que havia sido feita com ingredientes bastante raros, ou que seu inventor tinha sido um verdadeiro gĂȘnio.
A lei imperial proibia atĂ© mesmo tentar recriĂĄ-la, mas dentro da principal instituição alquĂmica do impĂ©rio, o Instituto Primus, provavelmente nĂŁo havia um Ășnico Alquimista que nĂŁo tivesse considerado tentar. Embora nem todos necessariamente pretendessem usar a dita poção, para a maioria dos Alquimistas, o processo era mais importante do que os resultados. Seu verdadeiro desejo era ser pioneiro em uma maior compreensĂŁo e obter a verdade.
O Chefe Nickolaf Smoky, do Instituto Primus, olhou para a poção trazida por uma ex-aprendiz em pĂąnico. Se isso fosse real, abalaria o mundo. Assim como nas histĂłrias, o lĂquido nesta garrafa de ĂĄgua de metal era rosa opaco e cheirava a morangos.
â ImpossĂvel. â Olhando para dentro da garrafa, ele engoliu em seco. â Eu nĂŁo pensei que restava nada disso. Eu nĂŁo acredito.
â Um Mago na Academia de Magia de Zebrudia estava guardando em segredo.
â Um Mago, hein? Eu nĂŁo sei sobre criĂĄ-la, mas suponho que armazenĂĄ-la seria viĂĄvel para um deles…
Com o quĂŁo Ășnicos eram os efeitos da Chama de Morango, acreditava-se que a poção tivesse surgido atravĂ©s de uma combinação de magia e alquimia. Olhando para a garrafa de metal, ele percebeu que ela tambĂ©m era feita de maneira especial, com um interior encantado para preservar a qualidade. Pelo menos, isso nĂŁo era uma coisa barata que vocĂȘ usaria para uma piada.
EntĂŁo, acima de tudo, havia sua ex-aprendiz em pĂąnico, Sitri Smart. Ex-membro do Instituto Primus e prodĂgio que havia se envolvido em vĂĄrios projetos, ela tambĂ©m era uma conhecida caçadora de tesouros que havia estabelecido seu prĂłprio laboratĂłrio em apenas alguns anos.
Um certo incidente lhe rendeu o tĂtulo detestĂĄvel de “IgnĂłbil” e causou sua expulsĂŁo do Instituto Primus. No entanto, ela visitava o instituto de vez em quando, mantendo contato com os vĂĄrios laboratĂłrios.
Seu cabelo e roupas estavam desgrenhados, sugerindo que ela havia corrido o mais råpido que pÎde. Seu rosto estava pålido, como se fosse desmaiar a qualquer momento. Nickolaf sabia que ela era uma Alquimista dedicada que podia realizar experimentos moralmente questionåveis sem piscar. Ele nunca a tinha visto assim. Isso, no entanto, apenas aumentou a credibilidade da poção.
â Eu preciso de um antĂdoto! Krai acidentalmente bebeu sem diluir!
Entendo. Seus afetos ainda a fazem perder a calma.
Nickolaf evitou que esses pensamentos transparecessem em seu rosto enquanto soltava um suspiro profundo. Mesmo que este fosse seu antigo local, ele achou estranho que ela não guardasse uma poção tão lendåria para si. Mas se o amor estava envolvido, isso explicaria.
Era a falha singular e fatal da Sitri Smart, de outra forma perfeita. Se nĂŁo fosse por essa falha, seu lugar como a ProdĂgio teria sido inabalĂĄvel. Embora possa nĂŁo ter acontecido com muita frequĂȘncia, dificilmente alguĂ©m poderia ser um bom Alquimista se chamados de seu amante repetidamente os fizessem empurrar experimentos importantes para outros e sair correndo para algum lugar.
A principal prioridade da Sitri normal seria a replicação, nĂŁo um antĂdoto. NĂŁo, isso valia para qualquer Alquimista. Mesmo para um item mĂtico que ficou centenas de anos sem ser replicado, uma anĂĄlise de uma amostra certamente revelaria uma ou duas dicas sobre como ele poderia ser replicado.
Se Sitri trouxe a poção sem hesitação, produzir um antĂdoto provavelmente teria sido mais difĂcil do que replicĂĄ-la. Exigiria tempo, instalaçÔes e mĂŁo de obra, nĂŁo lhe deixando, portanto, outro lugar para onde recorrer. Ela fez isso independentemente do fato de que reproduzir a poção tornaria seu nome uma lenda. Ela estava disposta a jogar fora uma chance de glĂłria.
â VocĂȘ Ă© uma Alquimista, nĂŁo pode perder a compostura! â Nickolaf gritou para ela. Ela estava tentando manter a calma, mas nĂŁo conseguia esconder seu nervosismo. â Controle-se, Sitri!
â Mas…
Em seu estado de pĂąnico, Sitri estava se esquecendo de algo importante. Se ela tivesse sua presença de espĂrito habitual, ela definitivamente teria notado. Vendo-a agindo de forma tĂŁo vergonhosa, Nickolaf se sentiu compelido a repreendĂȘ-la.
A Chama de Morango tinha uma caracterĂstica Ășnica nĂŁo encontrada em nenhuma outra poção. De acordo com as lendas, vocĂȘ podia controlar totalmente qualquer pessoa a quem vocĂȘ desse uma poção de escravização. Isso, no entanto, levantava um problema: como a poção dizia a alguĂ©m a quem eles deveriam obedecer? Ela nĂŁo escolhia apenas quem estivesse por perto. Algo tĂŁo nĂŁo confiĂĄvel nĂŁo teria sido capaz de causar tanta tragĂ©dia.
Todos os tipos de pesquisadores tinham lutado com esse enigma. Todas as informaçÔes sobre a poção tinham sido apagadas, mas consultar livros de história permitiu que eles formassem e trocassem teorias. Eles chegaram a uma conclusão inevitåvel: a poção deve ter sido feita com técnicas que iam além das da alquimia.
Para ser preciso sobre seus poderes: a poção tornava a pessoa submissa a quem a dava. Foi assim que causou tanta dor. Esta era a caracterĂstica definidora das poçÔes de escravização, a razĂŁo pela qual a Chama de Morango nĂŁo havia sido recriada em centenas de anos, e a causa de tantos Alquimistas tentarem entender essas poçÔes na esperança de produzir as suas prĂłprias. Determinar como infundir tal caracterĂstica alteraria a histĂłria da Alquimia. Com sua natureza irracional, era menos semelhante Ă arte lĂłgica da magia e mais prĂłxima da arte nĂŁo tĂŁo lĂłgica das maldiçÔes.
A existĂȘncia da Chama de Morango tornou-se conhecida e foi alvo de extermĂnio depois que um usuĂĄrio faleceu, permitindo que um de seus escravos recuperasse a sanidade e escapasse. Este incidente tambĂ©m deixou claro que a poção podia reconhecer quem deveria ser obedecido e nĂŁo podia ser enganada. Portanto, se vocĂȘ tomasse a poção, nĂŁo haveria efeito.
O Mil Truques provavelmente a testou com isso em mente. Era uma coisa incrivelmente arriscada de se fazer, mas, e Nickolaf pensava isso hĂĄ muito tempo, o Mil Truques teria sido um Alquimista muito bom.
â Um antĂdoto? â ele gemeu apĂłs um momento de hesitação. â Eu nĂŁo posso recusar um pedido se for de uma ex-aprendiz. Vou preparar uma equipe imediatamente. E serei discreto sobre isso.
O Instituto Primus não era um monólito. Nickolaf poderia ser o chefe, mas tinha inimigos em todos os cantos. Com seus variados conjuntos de ética e objetivos, tentar unificar Alquimistas era uma tarefa tola. Embora o Instituto Primus não fosse tão ferozmente competitivo quanto a Academia de Magia de Zebrudia, não era inédito alguém ser morto por ingredientes valiosos.
Esta era uma oportunidade ideal. Eles produziriam um antĂdoto, mas Nickolaf tambĂ©m tentaria replicar a poção. Se ele pudesse fazer isso com sucesso e descobrir os princĂpios por trĂĄs da poção, isso abriria a porta para um conhecimento maior. TambĂ©m poderia acender o pavio da guerra, mas como o conhecimento era aplicado nĂŁo era da conta de Nickolaf.
Ele ordenou que sua assistente de confiança iniciasse os preparativos. Ela partiu com uma expressão tensa no rosto.
Assim que ela saiu, Sitri firmou a respiração e inclinou a cabeça. â Obrigada pela sua assistĂȘncia.
Ela era uma excelente aluna. Excelente, mas com falhas. Como seu mentor, ele a achava competente e fĂĄcil de lidar.
Se o Mil Truques era um caçador de NĂvel 8, ele deveria ter uma absorção de material de mana excepcional. A capital imperial tinha pontos densos em material de mana, logo abaixo do limiar onde os fantasmas poderiam começar a aparecer, e este homem supostamente havia assumido vĂĄrios cofres do tesouro de alto nĂvel. Mesmo que a Chama de Morango tivesse levado naçÔes Ă ruĂna, era possĂvel que nĂŁo tivesse nenhum efeito em um homem como ele.
Os poderes dos caçadores de tesouros de centenas de anos atrås não eram nada parecidos com os da era atual. A cada geração, os humanos se tornavam mais adequados para absorver material de mana. Neste aspecto, a humanidade só havia melhorado, nunca declinado.
Quando aquele homem se mostrou capaz de conversar apesar de ter supostamente bebido a poção, Sitri deveria ter sido capaz de deduzir que isso nĂŁo havia tido nenhum efeito, mesmo que ela nĂŁo entendesse o porquĂȘ. Seria essa cegueira induzida pelo amor? Nickolaf havia perdido essa emoção hĂĄ muito tempo, mas o fracasso era a base do sucesso. Talvez este incidente fizesse Sitri dar uma boa olhada em si mesma.
Mas então, Nickolaf se viu atingido por uma intensa onda de tontura. O sino no canto de sua mesa começou a tocar alto. Levou apenas um momento para ele entender o que estava acontecendo. Ele colocou as mãos sobre a mesa e olhou ao redor, depois para a ventilação perto do teto.
O sino era um dispositivo que detectava gĂĄs, uma ferramenta necessĂĄria para qualquer laboratĂłrio de Alquimia. Isso era um ataque. Ele nĂŁo sabia se era paralisante, indutor de sono ou tĂłxico, mas sabia que era feito para derrubĂĄ-lo.
Como parte de seu trabalho, ele usava material de mana para reforçar sua resiliĂȘncia, entĂŁo isso era algo extraordinĂĄrio se fosse capaz de deixĂĄ-lo tonto. Apenas algumas pessoas poderiam ter liberado um ataque de gĂĄs tĂŁo profundo dentro do instituto. Sitri, sendo uma caçadora, parecia ilesa pelo ataque inesperado.
O propĂłsito do ataque era muito claro. Nickolaf selou firmemente a garrafa antes de ativar todos os golens de guarda alinhados contra a parede. Os golens esguios e feitos sob medida se alinharam Ă s suas ordens.
â Droga, eles jĂĄ nos pegaram! Eu sou o chefe, droga! Meus golens, matem quaisquer aspirantes a ladrĂ”es que vierem atrĂĄs da poção! Eu nĂŁo vou, repito, nĂŁo vou entregĂĄ-la! Sitri Ă© minha ex-aprendiz! Esta poção Ă© material para meus experimentos!
Sua assistente o traiu? Ou alguĂ©m de outro laboratĂłrio viu Sitri parecendo em pĂąnico e decidiu segui-la? De qualquer forma, todos iriam morrer. Nickolaf nunca desistiria de um ativo tĂŁo precioso. Ele pegou seu auto-antĂdoto onisciente (ainda em fase de teste) e o bebeu, aliviando sua tontura.
â Ummm â Sitri disse hesitantemente, notando a expressĂŁo tensa de Nickolaf â, eu gostaria de começar a trabalhar em um antĂdoto com toda a pressa possĂvelâ
â Sitri, se mexa! NĂŁo haverĂĄ antĂdoto se eles roubarem a poção de nĂłs! Eles farĂŁo o que puderem para tirĂĄ-la de nĂłs. Este gĂĄs Ă© de uma variedade letal!
Os golens chutaram a porta e se moveram. No mesmo momento, uma explosĂŁo feroz abalou o prĂ©dio. Vento escaldante e fragmentos de golens voaram para dentro da sala. Essas pessoas estavam prontas para matar. Eles estavam determinados a pegar a poção, mesmo que tivessem que assassinar Nickolaf. Ele nĂŁo podia deixar a notĂcia se espalhar ainda mais. Ele tinha que acabar com todos eles.
â Vamos, Sitri. Estamos em guerra!
A IgnĂłbil observou vagamente enquanto Nickolaf estava determinado, um brilho nos olhos.
Tradução: Carpeado
Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â Clicando Aqui
Apoie o autor comprando a obra original.
Compartilhe nas Redes Sociais
Publicar comentĂĄrio