Grieving Soul – Capítulo 3 – Volume 8
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 08
Capítulo 03:
[Desastres Sucessivos]
— Eu vou te proteger hoje, Krai! Por favor, relaxe e saiba que você está em boas mãos!
— Matar, matar?
Sorrindo de orelha a orelha, Sitri uniu as mãos. Matadinho, ainda magro devido à sua dieta forçada, inclinou a cabeça. Eu estava no meu lugar de costume, no meu escritório, polindo minhas Relíquias, quando a dupla desajustada fez uma pose na minha frente.
— Faz tempo que eu não te via, Sitri — eu disse.
— E estou radiante de te ver também!
Que bom e tudo mais, mas eu não tinha dito que estava radiante. Mas eu estava!
A luz quente do sol entrava pela janela atrás de mim. Era um dia tranquilo, completamente diferente da confusão com a “Espada Demoníaca”. Pelo que entendi, esse assunto havia sido encoberto por algumas pessoas poderosas.
Sitri se arrastou para trás da minha mesa como se fosse a coisa mais natural do mundo e me disse: — Krai, Lizzy me contou tudo! Você teve outro dia fascinante, ao que parece.
Cada detalhe dela sugeria que estava de bom humor. Se ela tivesse um rabo, ele com certeza estaria abanando.
Suspirei bem fundo e olhei para a Relíquia tipo coroa na minha mão. — A Liz não ficou feliz com isso.
E eu não chamaria exatamente de fascinante.
O pensamento de que eu estava prestes a ser arrastado para algo bizarro me deixou bem para baixo, mas Sitri estava borbulhando de entusiasmo.
— A Lizzy ficou muito infeliz por não estar de guarda hoje — disse Sitri com uma risadinha. — Sabe, ela teve que atrasar o turno dela. Aparentemente, ela tinha um assunto que não podia negligenciar. Mas quero que saiba que eu também estive muito ocupada ontem!
— Entendi, entendi.
Eu não entendi nada, mas “entendi”. Bem, contanto que você esteja se divertindo! Eu estou cansado.
Mas se Sitri achava que eu seria simplesmente arrastado para alguma confusão, ela estava enganada.
Segundo Franz, maldições tinham algo a ver com a situação atual. Infelizmente, Relíquias e maldições estavam intrinsecamente ligadas. Relíquias eram recriações de coisas que existiram no passado, e a taxa de surgimento delas era considerada proporcional à frequência ou quão amplamente conhecidas elas foram. Itens amaldiçoados eram formados por emoções poderosas e, como tal, quase sempre não tinham duplicatas. Portanto, não podiam ser descritos como “comuns”, uma condição para se tornar uma Relíquia.
Então, tudo isso significa que, no caso extraordinariamente raro de um item amaldiçoado se manifestar como Relíquia, ele o fez porque, embora houvesse apenas um, era muito provável que fosse um item tão aterrorizante que era conhecido por toda parte. É claro que quase todas as Relíquias que eu possuía eram seguras. Nenhuma delas era amaldiçoada, mas na remota chance de um dos meus itens causar algum problema, esse seria um dia muito ruim para mim.
Eu havia confirmado os poderes de todas as Relíquias da minha coleção, mas não podia dizer com certeza que meus amigos não fariam algo como adicionar uma peça que encontraram e depois esqueceriam de me contar. Como parte da minha manutenção, comecei a verificar os poderes delas enquanto as polia.
Com um pequeno aceno de mão, chamei Sitri para perto. Ela sorriu enquanto eu colocava a Relíquia tipo coroa recém-polida na cabeça dela.
Seus olhos se arregalaram, e ela disse, um pouco nervosa: — I-Isso pode ser o meu item amaldiçoado?
— Eu não tenho nada amaldiçoado. Essa coroa faz seu cabelo crescer um pouquinho mais rápido. Vale milhares. Não é esta. Nem esta…
Coloquei um tipo pingente cravejado com uma gema vermelha em seu pescoço, depois um tipo colar, outro tipo colar e mais outro tipo colar já que estava fazendo isso. Algumas pessoas poderiam se perguntar por que eu tinha tantos, mas as bochechas de Sitri, a “manequim”, estavam coradas, e ela parecia bem feliz.
Eu não estou te dando isso, viu?
Mas se ela realmente insistisse, eu estaria disposto a compartilhar alguns com ela. Afinal, alguns desses foram comprados com dinheiro que eu ainda devia a ela.
— Honestamente, eu não posso lidar com todas as coisinhas — eu disse. — Acabei de resolver uma grande confusão, agora mais essa. Todos estão muito dependentes de mim por causa do meu nível. Sitri, estenda o dedo.
Eu não conseguia entender por que todos depositavam tanta fé em um Nível 8 apenas no nome, que esteve em todos os tipos de confusão e nunca resolveu nenhuma delas. Com um mínimo de raciocínio, ficaria mais claro que água que eu não havia feito nada. Com essas queixas em mente, coloquei um anel após o outro em seus dedos esguios.
— K-Krai! Qual o significado disso?!
— O quê? Não tem um significado real. Isso te incomoda?
Meus amigos não eram muito de usar acessórios, daí minha pergunta. Mas Sitri balançou a cabeça vigorosamente em resposta.
Talvez estivesse fazendo cócegas ou algo assim, pois ela começou a se contorcer. — Seria isso, talvez — ela sussurrou, com as bochechas vermelhas —, um “pedido de casamento”?
— Matar, Matar…
Vendo sua mestra tão perturbada, Matadinho parecia inquieto.
Pedido de casamento? Eu acabei de dizer que não tem um significado real!
— O quão confiável você acha que é essa profecia que o Franz tem falado? — eu disse.
— As profecias do Astral Divinarium são conhecidas por se tornarem realidade — respondeu Sitri. — A lei imperial até permite que os militares usem as profecias do Divinarium como base para mobilização.
Será que se tornaria realidade? Depois de testemunhar Sora e suas revelações divinas, eu não confiava nisso de jeito nenhum. Ela era péssima nisso. Eu não a via desde que ela chegou pela primeira vez à capital imperial. Eu me perguntava como ela estava.
Eu tinha certeza de que se um hex ou o que quer que fosse fosse lançado sobre a capital imperial, seria contido antes que pudesse causar danos significativos. Eu sei que disse isso e aquilo sobre a capital, mas ainda era segura o suficiente para que eu quisesse ficar por perto.
— Mas se foi o suficiente para inspirar uma profecia dessas, deve ser algo bastante “inauspicioso”. Isso não é algo que nem mesmo um Xamã habilidoso conseguiria conjurar. Então, acho razoável que o Capitão Franz esteja desconfiado de Relíquias. Não houve relatos de grandes danos na área, e Zebrudia é meio flexível quando se trata de Relíquias. O que me lembra, meu irmão também foi colocado em alerta. A igreja é especializada em maldições, afinal.
— Você não poderia pedir proteção melhor.
Hexes eram feitiços movidos por emoções poderosas. Em comparação com a magia, que operava com base em princípios claros, os hexes eram instáveis, e sua eficácia era massivamente influenciada pela condição do conjurador.
Maldições poderosas eram geralmente algo que você não conseguiria conjurar mesmo se tentasse. As mais perigosas não eram aquelas lançadas por Xamãs, mas sim as criadas quando alguém morria carregando um rancor. Essas maldições eram excepcionalmente poderosas, muitas vezes indiscriminadas, e eram quase um tipo de desastre natural.
A maioria das maldições instáveis se dissipava rapidamente, mas isso mudava quando esse rancor era contido dentro de algo. Essas maldições eram estáveis e permaneciam mortais por muito tempo. A Espada Demoníaca que causou tanta confusão para o Santo da Espada era um exemplo de um item portador de uma maldição poderosa.
Sendo a terra santa da caça ao tesouro, Relíquias estavam constantemente fluindo para a capital a todas as horas do dia. Com isso em mente, não parecia tão ridículo que Franz tivesse me contatado. Ou parecia? Não. Definitivamente havia pessoas melhores que ele poderia ter chamado!
Coloquei um par de óculos Relíquia em Sitri, depois uma estola Relíquia em seus ombros, e não sabia bem o melhor lugar para uma corrente Relíquia, então a enrolei em volta do corpo dela por enquanto. A Sitri vestida de Relíquias estava completa.
É, não há nada que eu não reconheça. Desta vez, não fiz nada de errado.
— Fui tingida pelo seu tom — disse Sitri, com as mãos pressionadas nas bochechas. — Não posso mais me casar. Você seria tão gentil em me aceitar?
Isso não é verdade. Tenho certeza de que muitas pessoas pulariam nessa oportunidade.
Ocorreu-me que, se soubéssemos que o incidente ocorreria dentro da capital imperial, talvez pudéssemos simplesmente ir embora? Mas tive que derrubar essa ideia. Isso definitivamente convidaria a questionamentos e mal-entendidos desnecessários. Parecia que minha melhor opção era ficar quieto. Se eu não fizesse nada, então certamente nada aconteceria.
A Academia de Magia de Zebrudia havia sido fundada alguns séculos antes. O imperador da época queria avançar as artes arcanas, pois sentia que Zebrudia estava ficando para trás nesse campo. Desde então, tornou-se uma escola famosa, e com razão; era facilmente uma das melhores que existiam.
Magos poderosos eram a chave para lidar com cofres do tesouro de alto nível. No distrito norte da capital imperial, o instituto tinha um campus extenso e um prédio escolar que se assemelhava a um castelo. Era um lugar admirado por Magos e caçadores, e dizia-se que cerca de oitenta por cento de todos os Magos famosos da capital eram ex-alunos da AMZ.
Doze torres pontilhavam o perímetro do castelo. Cada uma abrigava um laboratório dirigido por um professor, e em uma delas, Anna Nodin estava recebendo ordens severas de sua Maga júnior, Lucia Rogier.
— Lembre-se, tome muito cuidado com isso! Certifique-se de não canalizar “mana” acidentalmente para ele ou algo assim!
— Hehe, eu sei, eu sei. Mesmo assim, Lúcia, você tem um irmão muito cortês. Não consigo acreditar que ele conseguiu um presente do cofre do Santo da Espada. Primeiro, aquele bastão de raio, agora este. Acho que é o que se pode esperar de um colecionador de Relíquias Nível 8; até as fontes dele são de primeira linha.
Lucia contorceu o rosto em uma expressão de desagrado, manchando temporariamente sua fisionomia. Uma Maga Nível 6, Lucia Rogier, o “Avatar da Criação”, era famosa por seu vasto repertório de feitiços, mas era justo dizer que ela era mais conhecida entre os pesquisadores por seu irmão mais velho.
O irmão mais velho de Lucia, o Mil Truques, era um dos principais caçadores da capital imperial e era a pessoa mais jovem a atingir o Nível 8. Ele também era conhecido por ser um colecionador de Relíquias. Entre os pesquisadores da AMZ, um grupo majoritariamente feminino devido à sua inclinação genética para a magia, ele havia se tornado uma espécie de ídolo. Toda vez que ele visitava, elas saíam em massa para vê-lo.
O irmão de Lúcia não era o único jovem caçador famoso; havia também Ark Rodin. No entanto, Ark não tinha parentes na AMZ, nem qualquer outra conexão com a academia, então ele raramente aparecia. Então, talvez fosse natural que o Mil Truques tivesse se tornado alvo de tanta atenção.
Anna olhou para o bastão preto que Lucia havia trazido. O eixo parecia ter sido feito por vários “cipós” se emaranhando, e uma gema brilhante estava no topo. Era um design simples, mas ela ficou surpresa com a leveza dele, mesmo quando embrulhado em um pano. Elas ainda não haviam discernido os poderes do item, mas em comparação com outras armas, Relíquias tipo bastão eram frequentemente vendidas por somas altas. Vender no local certo poderia facilmente render oito dígitos. Como os Magos tendiam a carecer de força física, muitos ficariam encantados em conseguir um bastão que pesasse muito pouco.
Mesmo que fosse para a instrutora de sua irmã, alguém teria que ser terrivelmente generoso para simplesmente dar uma coisa dessas. Ele era poderoso, rico e tinha status. Os rumores diziam que ele era um pouco excêntrico, mas isso não era necessariamente uma coisa ruim. Lúcia era bastante extraordinária, e talvez ele tivesse algo a ver com isso.
— Isso é absurdo — disse Lúcia —, ele só tem uma obsessão doentia por Relíquias! E não há garantia de que este bastão não seja—
— Eu entendi, eu entendi. Não precisa esconder seu constrangimento, eu não vou pegar seu irmão ou—
— Escondendo meu constrangimento?!
Recebendo um olhar mortal de Lucia, Anna examinou o bastão, certificando-se de que ele não entrasse em contato com sua pele. Lúcia não era o tipo de pessoa que mentiria para esconder seu constrangimento, e ouvi-la ajudaria Anna a deixar uma boa impressão em seu irmão.
— Já que estamos nisso, Anna, você tem alguma ideia sobre a identidade deste bastão?
— Eu não estou muito interessada em bastões. Mas estou interessada no seu irmão…
Lucia não respondeu a isso.
Bastões Relíquia eram um grupo diversificado. Havia aqueles que simplesmente ofereciam alta amplificação de mana, aqueles especializados em feitiços de iluminação, como o que Lucia havia trazido recentemente, e havia também a Graça do Hydrogod, que tinha sido tirada daquele traidor, o Contra-Cascata. E a menos que fosse algo razoavelmente famoso, você nunca sabia o que um bastão Relíquia fazia até testá-lo.
— Não consigo imaginar que haja muitas outras pessoas por aí guardando secretamente um bastão Relíquia como o Santo da Espada estava. E não acho que haja muitas pessoas para quem ele o daria depois de tê-lo guardado por décadas.
— Nosso líder sempre foi conhecido por suas boas descobertas.
Esta era uma Relíquia que o Santo da Espada havia mantido para si e nem sequer havia contado a ninguém sobre sua existência. Era possível que ele a valorizasse mais do que qualquer uma de suas espadas. Parecia haver verdade nos rumores que diziam que o Mil Truques era um negociador tão bom quanto os comerciantes mais astutos.
Alcançar o Nível 6 em uma idade tão jovem significava que Lucia era um verdadeiro gênio, mas seu irmão era, sem dúvida, algo além disso. Diziam que ele havia feito os livros de feitiços que levaram Lucia a ganhar o título de Avatar da Criação. Não é de admirar que ela tivesse um complexo de irmão tão forte.
— Então, se eu conquistar o coração do seu irmão, terei uma irmãzinha fofa além de tudo.
— Você não conseguiria lidar com o nosso líder de grupo. Não venha chorar para mim se começar a se aproximar dos seus limites.
A expressão de Lucia fez Anna retirar a afirmação. Parecia que, se quisesse conquistar o irmão mais velho, teria primeiro que fazer amizade com a irmã mais nova.
— Eu estou só brincando, é sério. E claro, o bastão ficará em segurança até que a professora possa examiná-lo. Mesmo que seja amaldiçoado, devemos estar seguras assim, certo?
Anna já havia sido chamada de gênio às vezes, mas definitivamente não possuía o mesmo nível de talento que a garota à sua frente. Anna provavelmente seria comparada desfavoravelmente a ela, sem mencionar que o caçador Nível 8 mais jovem era provavelmente bastante popular entre as moças. Ser apenas a colega mais velha de sua irmã não daria a menor vantagem.
Ela tinha que aproveitar esta chance para ganhar alguns pontos, por poucos que fossem. A chance dela viria um dia, ela tinha certeza disso.
— Anna — disse Lucia, interrompendo suas ilusões —, você está aqui há muito tempo, não é? Você acha que a professora pode estar guardando algo em segredo?
— Algo secreto? Quer dizer, ela é uma Magus, e tenho certeza de que qualquer pessoa que se torne professora aqui teria uma coisa ou duas que preferiria manter escondidas. Ah. Acho que posso ter uma ideia!
Os olhos de Lucia se arregalaram. Ela era uma jovem Maga excepcional, mas tinha uma tendência a não ver o que estava ao seu redor. Ela estava tão absorta em sua pesquisa e caça que perdia todas as fofocas da academia.
Anna olhou furtivamente ao redor em uma tentativa de deixar Lucia animada; essa garota era sempre tão calma. — É apenas um “boato” — disse Anna em voz baixa —, mas dizem que, desde o primeiro diretor, há algo especial que tem sido secretamente passado de um diretor para o próximo. Supostamente, é algo lendário. Os professores apenas dão risada quando você pergunta sobre isso, mas o fazem com um olhar sério nos olhos. Então, o que você supõe que seja essa coisa?
— Talvez uma poção ou uma criatura mágica? — disse Lucia. Ela parecia cansada, mas ainda havia um toque de convicção.
— Espere, então você sabe sobre isso?
— Não. Esta é a primeira vez que ouço. É só que, a partir de hoje, Siddy, a Alquimista, estará de guarda.
Anna piscou confusa. Guarda? Alquimista? Do que ela está falando?
— Desta vez, eu sei o que ele está aprontando — disse Lucia. Ela estava cerrando o punho e parecia estar falando sozinha. — Eu não vou deixá-lo escapar como ele sempre faz. Desta vez, eu vou pará-lo.
Suspenso no ar por um dispositivo mágico estava um bastão preto. Ao redor dele estavam Magos de toda a academia. De um modo geral, havia dois tipos de Magos: os pesquisadores que se “reclusavam” em seus laboratórios e trabalhavam para estabelecer teorias da magia, e os implementadores que não se importavam com a teoria e só queriam aprender a usar os poderes arcanos.
A maioria se enquadrava na segunda categoria, os melhores se tornando cavaleiros e caçadores de tesouros. No entanto, aqueles que permaneciam na academia por um longo período geralmente pertenciam à primeira categoria. Ao ouvirem falar do misterioso bastão que Lucia havia trazido, eles se reuniram ao redor, cochichando uns com os outros.
— Ah, então isso estava no cofre do Santo da Espada? Nunca o vi antes.
— Eu entendo que durante seu treinamento, Soln Rowell viajou pelo mundo e conquistou vários cofres do tesouro. Se pudéssemos confirmar onde ele obteve isso, talvez pudéssemos fazer o mesmo por seus poderes.
— Poderia ser algum tipo de Bastão demoníaco vegetal? No entanto, sua cor, sua forma…
— Quem mais além do irmão da Lucia conseguiria tirar um bastão tão valioso daquele teimoso do Santo da Espada?
Um deles tinha uma queixa para Lucia, que estava de braços cruzados e um brilho nos olhos.
— Nós realmente precisamos nos abster de tocá-lo? Não podemos usar luvas?
— Não podemos. Não se sabe o que pode acontecer, então não corra riscos desnecessários!
Em meio a esta multidão de Magos que amavam a pesquisa mais do que a própria vida, o bastão permaneceu intocado porque Lucia “afastava” qualquer encrenqueiro que tentasse colocar as mãos nele. Os pesquisadores tendiam a carecer da destreza mágica dos implementadores. Absorver grandes quantidades de material de mana diariamente e lidar regularmente com problemas causados pelos membros do seu grupo significava que ninguém conseguiria passar por Lucia.
Assim que teve certeza de que não havia mais desordeiros, Lucia voltou sua atenção para Anna. — Anna, o que é que isso tem de seguro?!
— Bem, o que se pode fazer? — Anna respondeu com uma risada calorosa. — Não tem como os Magos daqui não virem ver algo do cofre do Santo da Espada. Nem mesmo bastões Relíquia normais chegam até nós.
Bastões Relíquia eram tanto materiais de pesquisa valiosos quanto armas poderosas. Na raríssima ocasião em que um era recuperado de um cofre de tesouro, eles raramente acabavam na academia por razões financeiras. Uma nova Relíquia sendo trazida era uma grande notícia, o suficiente para atrair pesquisadores das outras torres.
— Além disso, se o escondêssemos, isso só atrairia o tipo errado de gente — continuou Anna. — Não é mais seguro mantê-lo aqui, à vista de todos, até que a professora volte?
— Ah, talvez você esteja certa.
Só porque eles estavam mais interessados em teorias do que no grande poder da magia, isso não significava que os pesquisadores pudessem ser subestimados. Eles não apenas estavam sempre dedicando seus corações ao próprio trabalho, mas também estavam “enamorados” pela pesquisa de seus colegas. Algumas pessoas podiam ser muito implacáveis quando queriam. Na verdade, manter o bastão escondido era a opção mais perigosa.
— Especialmente porque você é uma caçadora, Lucia. E ainda há o fato de que seu amado irmão é famoso por colecionar Relíquias.
As sobrancelhas de Lucia se contraíram, e ela soltou um suspiro de resignação. — Mmm.
Parecia que Lucia não gostava muito de ouvir seu irmão recebendo elogios. Ele era supostamente um pouco estranho, mas ter um Nível 8 como irmão era algo para se orgulhar. O que ela não gostava? Ela estava realmente preocupada que alguém pudesse tirá-lo dela?
Francamente, Anna achava que não adiantava se preocupar. Mesmo que o rosto dele não fosse amplamente conhecido, ser um Nível 8 era suficiente para tornar alguém famoso. Em uma nação onde os caçadores tinham status elevado, alcançar um nível tão alto poderia atrair pedidos de casamento de nobres poderosos.
Ainda assim, Lucia estava muito nervosa quando se tratava de seu irmão. Seu eu racional de sempre não se preocuparia com algo do cofre do Santo da Espada sendo amaldiçoado, ou pensaria que seu irmão estava atrás do tesouro da academia.
— Na verdade, acho mais provável que seu irmão esteja oferecendo o bastão Relíquia como um pedido de desculpas por fazer você perder seu exame e irritar a professora.
Anna ficou surpresa quando Lucia não apareceu para seu exame de certificação avançada de bastão espiritual composto. Exigindo tanto experiência em pesquisa em uma academia quanto uma recomendação de um professor, era uma das certificações de magia mais difíceis que se podia obter. Aparentemente, ela tinha seus motivos para perder o exame, mas, embora aparecer e falhar fosse uma coisa, não aparecer de jeito nenhum manchava a reputação de sua professora.
— M-Meu irmão não é do tipo que faria algo tão normal!
— Mesmo assim — disse Anna com um sorriso — tenho certeza de que o humor da professora vai melhorar se ela receber um bastão do cofre do Santo da Espada. Ela começou recentemente a procurar um bastão, então o timing não poderia ser melhor.
A pesquisa mágica era quase sempre acompanhada por um certo grau de perigo. Assim como aconteceu com o bastão especializado em raio que Lucia havia trazido recentemente, sempre havia um pouco de risco envolvido.
— Ah, esquece! — disse Lucia com uma birra incomum.
Anna pensou que ela tinha passado outra noite em claro trabalhando em um feitiço, mas descobriu que Lucia tinha um lado cativante. Não era preciso ter uma personalidade como a de Anna para ser tentado a provocar esta jovem Maga.
Provavelmente tendo chegado tarde e perdido a chance de ver o bastão de perto, uma garota de outra torre se aproximou de Lucia. — Ei, Lucia, seu irmão vem?
— Não vem. Ele está ocupado. Eu vou te lembrar que ele é um Nível 8!
— O quê? Mas ele veio com você da última vez!
— Ele não virá!
Lucia dirigiu um olhar gélido para a garota insatisfeita. Era bem conhecido entre os pesquisadores que Lucia havia trazido seu irmão com ela para sua iniciação. Mesmo agora, algumas pessoas ainda não haviam se esquecido disso. Com a voz fria e a aura imponente de Lucia, os Magos começaram a perder o interesse no bastão intocável e a direcionar sua atenção para ela.
Então, houve um breve grito. Lucia se virou na direção de onde ele veio. Uma das “vinhas” que compunham o bastão preto-azeviche se estendeu e estava agarrando alguém.
— E-Eu disse para não tocar! O que você fez?!
— Nada. Eu não toquei—
A voz deles foi cortada. As vinhas enlaçadoras continuaram do braço até a parte superior do tronco. Rígido de choque, o sangue esvaiu-se do rosto deles. O bastão inchou. As vinhas cresceram mais longas e mais grossas a ponto de mal se assemelharem ao bastão como havia aparecido pela primeira vez.
Em meio ao clamor, uma vinha se dirigiu a outro Mago próximo, paralisado no lugar. Ela se moveu rapidamente, como uma cobra capturando sua presa. O primeiro Mago foi jogado de lado. Lucia correu e o examinou. Não havia feridas visíveis neles, e o coração estava batendo. No entanto, a tez estava pálida, eles estavam completamente inconscientes e suando profusamente.
Estes eram os sintomas de “esgotamento de mana”.
— Está absorvendo “mana”?! Q-Que coisa é essa?!
A metade inferior do bastão se bifurcou em duas e as usou como pernas para descer do suporte de exibição. Os movimentos “animalescos” fizeram os Magos anteriormente encantados recuarem. As vinhas continuaram a crescer mais longas e mais grossas. Parecia menos um bastão e mais um “monstro vegetal”.
Com um grito, um dos Magos começou a atacar. Outros fizeram o mesmo e, logo, “cortinas de chamas”, “lâminas de vento” e “pedaços de gelo” estavam atingindo a coisa por todos os lados. Mas então, o bastão começou a tremer violentamente. As feridas deixadas pelos feitiços foram instantaneamente seladas, e as vinhas ficaram ainda maiores. Foi como se as vinhas tivessem absorvido a energia do ataque.
Percebendo isso, Anna deu um passo para trás. — Poderia ser uma criatura antimágica? O que está acontecendo?!
— Viu? O que eu disse?! — gritou Lucia. — Ah, meu irmão estúpido! Eu não sou como o Luke! Eu não queria isso! Eu nem sequer toquei!
— É hora para isso?!
Os Magos se dispersaram como formigas. O ex-bastão jogou para o lado os Magos que estava drenando, quase como se dissesse que não eram mais úteis. Então ele olhou tanto para Lucia quanto para Anna, antes de se fixar em Lucia. Ela apertou os lábios e esfregou as pulseiras em seus pulsos.
— Que seja — ela disse, estendendo o dedo. — Venha. Eu não vou deixar meu irmão se safar dessa!
— Lucia! Nem você pode enfrentar algo imune à magia!
Após um momento olhando para Lucia (não que ele realmente tivesse olhos), o ex-bastão mudou sua postura. Ele se virou e usou habilmente suas novas pernas para disparar. Com dois braços estendidos, ele agarrou alguns Magos que tinham sido lentos em sua fuga. Lucia não queria imaginar o quão grande esse misterioso bastão poderia ficar ao beber “mana”. Eles estavam na maior academia arcana do império, um lugar que havia nutrido centenas de jovens Magos até se tornarem especialistas.
Tendo crescido demais para a porta, o ex-bastão destruiu o batente ao se mover para o corredor.
— Ei! Aonde você está indo?!
Com uma expressão feroz no rosto, Lucia o perseguiu. Não mostrando hesitação em caçar uma monstruosidade. Exatamente o que se poderia esperar de uma caçadora Nível 6.
Anna olhou ao redor para a sala de armazenamento demolida e para seus colegas, todos caídos por “esgotamento de mana”. Pensando no que aconteceria quando a professora voltasse, ela agarrou a cabeça.
— O que eu vou fazer…
As irmãs Smart eram opostos polares em suas personalidades. Liz era simples, despretensiosa, honesta e ocasionalmente agia de forma madura. Sitri, enquanto isso, era racional, composta, organizada e ocasionalmente agia de forma infantil. Além disso, Sitri gostava mais de dar do que de receber. Isso era provavelmente parte do porquê ela era tão bem-sucedida como Alquimista.
Eu gostava do jeito que Liz me arrastava, preguiçoso como eu era, mas achava reconfortante o jeito que Sitri acelerava minha descida à indolência (A propósito, a pessoa que eu achava mais tranquilizadora era, naturalmente, Ansem. Suponho que ter duas irmãs mais novas animadas o havia moldado).
Decorada com Relíquias e incrivelmente alegre, Sitri cozinhou uma refeição para mim. Eu a comi enquanto observava o Matadinho se exercitar. Sitri manteve seu sorriso o tempo todo. Como eu não planejava sair do meu quarto, ter uma guarda não parecia realmente necessário, mas acho que ela estava se divertindo.
Enquanto eu soltava um bocejo, Sitri se aproximou de mim com entusiasmo.
— Ah, Krai, acabei de me lembrar. Dê uma olhada! À luz da nossa conversa de ontem, eu trouxe alguns materiais de pesquisa!
— Materiais de pesquisa? Que tipo?
— É o Compêndio de Maldições. É uma compilação especial de todos os fenômenos perigosos e itens amaldiçoados conhecidos, então não está à venda. Eu passei por muitos problemas para roubar…. conseguir isso para você!
Esse é um nome inquietante. Eu aprecio o entusiasmo, mas eu nunca pedi para você fazer isso!
Sitri colocou um texto denso com um design sinistro na minha frente, e então se inclinou em mim por trás. A sensação fria das Relíquias tilintando misturou-se com o calor do corpo dela e a sensação suave pressionando contra mim.
— Se eu te disser qual eu quero, você me dá? — ela sussurrou no meu ouvido.
Eu não dou.
Parecia que rumores estranhos haviam começado a se propagar novamente.
— A maioria dos itens amaldiçoados é mantida escondida — ela me disse. — É porque simplesmente saber sobre eles pode ser perigoso. Este é um livro muito precioso. Eu o consegui para você. Para você.
Ela realmente enfatizou esse último ponto, mas embora eu colecionasse Relíquias, eu não estava interessado em coisas amaldiçoadas. Não havia nada que eu pudesse ter feito sobre a Espada Demoníaca trazida pela Eliza porque eu não havia percebido o que era. E essa coisa tinha que ter um nome aliterativo?
Dada a diligência geral de Sitri, fiquei curioso sobre o que ela poderia querer, mas não havia como algo assim estar simplesmente por aí em algum lugar da capital imperial. Coisas assim não eram proibidas por lei? Talvez apenas a posse fosse permitida? Qualquer coisa com um lado negativo tendia a ter poder suficiente para compensá-lo.
Sitri esfregou-se na parte de trás do meu pescoço. Eu me apoiei em um cotovelo e folheei até uma página aleatória perto do final. Havia uma imagem de uma árvore inquietante que era preta do tronco até a ponta de seus galhos. Eu li o texto que a acompanhava.
— O que é isso? A Árvore do Mundo Negra. Foi feita por uma civilização mágica como um substituto para a Árvore do Mundo, uma árvore mística que é completamente única. Ao contrário da árvore original, que extrai poder das linhas de ley e circula mana por todo o mundo, a Árvore do Mundo Negra ataca criaturas vivas e rouba sua mana. Diz-se que uma Árvore do Mundo Negra totalmente crescida espalhará suas raízes em todas as direções e criará um ermo mágico.
— A civilização certamente mudaria se as pessoas não pudessem mais usar magia — disse Sitri.
— Entendi. Acho que não é grande coisa. Quer dizer, eu não preciso de magia.
Eu não podia usá-la, afinal. Claro, não poder carregar minhas Relíquias seria “menos do que ideal”, mas maldições eram coisas que eu esperava que mutilassem e matassem. Acho que nem sempre era o caso.
A Árvore do Mundo era uma árvore mística de lenda. Dizia-se ser um dos melhores materiais possíveis para fazer um bastão, ostentando uma amplificação de “mana” extrema que superava até mesmo as Relíquias. No entanto, era incerto se isso era realmente verdade. Eu tinha ouvido dizer que havia apenas uma, e estava nas profundezas de uma floresta gerenciada por “Espíritos Nobres”, que adoravam a árvore. Mas eu achei isso bem duvidoso; nem mesmo os membros da “Starlight” nunca a tinham visto antes.
Mas eu me pergunto se eles ficariam enfurecidos com este desenho de uma “Árvore do Mundo Negra”. Eles levariam isso como um insulto?
Então, qual era o alvo de Sitri? Vendo o brilho em seus olhos, pensei que a melhor opção fosse perguntar a ela. Mas isso foi interrompido pela porta que se abriu. Com um olhar de pânico, Eva entrou correndo. Quase no exato momento, a Pedra Sonora de Franz começou a vibrar.
— Krai, más notícias! A Academia de Magia de Zebrudia foi destruída por um imenso monstro desconhecido!
— O quê? Que história é essa?
A Academia de Magia de Zebrudia era a principal escola orientada para a magia do império. Era a academia à qual pertencia a professora de Lucia. Seu campus era enorme, e o prédio da escola era robusto. Com múltiplos feitiços de barreira instalados, era um dos lugares mais seguros da capital. Não poderia ser destruída por um monstro. Eu ouvi dizer que aquele lugar podia suportar um ataque de dragão.
Isso deve ser informação errada. Um monstro imenso não deveria ter conseguido entrar lá em primeiro lugar. Sitri e Matadinho estavam ambos de olhos arregalados. Sem fôlego, Eva se aproximou e bateu a mão na mesa. Ela estava prestes a dizer algo quando viu o livro aberto na minha frente.
— É-É isso! — ela gritou. — Isso se parece com aquilo!
Bem, isso não é bom. Ela não está fazendo sentido. Por que ela está tão agitada?
O tempo todo, a Pedra Sonora continuava a vibrar irritantemente. O que Franz queria? Eu estava ocupado.
Eu me acalmei com uma respiração profunda e tentei parecer sério. — Eva, isso não é um monstro. É algo amaldiçoado.
— Isso mal importa! Olhe, lá!
Eva contornou a mesa, foi para trás de mim e apontou para a janela. Eu me levantei obedientemente e olhei, assim como Sitri. Ao longe, para além de muitos edifícios, pude ver algo escuro e gigante que não estava ali antes. Devia ser bem grande se eu podia vê-lo por cima desses prédios.
Esfreguei os olhos.
— Nada demais, certo, Krai? — disse Sitri enquanto cutucava meu ombro.
— Sim, aham.
Não era grande coisa e não tinha nada a ver comigo.
Hm? O que é isso? Eu tenho que ir? Bem, Lucia pode estar lá. E eu terei Sitri comigo, então acho que posso ir dar uma olhada.
Com a Pedra Sonora em uma das mãos, Sitri e eu saímos. Como era perigoso, Eva ficou para trás para tomar conta do forte. Teria sido muito ruim para nós se ela tivesse vindo junto e se machucado. Se possível, eu também gostaria de tomar conta do forte, mas eu não estava em posição de levantar objeções.
— O que está acontecendo, Mil Truques?! Desastres sucessivos não são normais na capital imperial!
— Bem, eu não sei o que você quer que eu faça.
— Você me acha estúpido?! Eu investiguei! Eu sei que sua irmã está matriculada na AMZ!
— Sim, isso é verdade. Mas isso não é o suficiente para que a culpa seja minha…
A voz incessante e estrondosa de Franz deixou claro que ele havia decidido que eu era o responsável por isso. É verdade, eu era azarado e um Nível 8, mas eu não gostava do jeito que ele empurrava todos os problemas para cima de mim. Havia outros dois Nível 8 nesta cidade; o que eles estavam fazendo?
— Que droga de coisa é essa?! Você tem uma ideia, não tem?!
— O quê? Não presuma que eu sei de tudo — eu respondi. — Essa coisa, no entanto, é provavelmente a Árvore do Mundo Negra.
— Hm?! Ah, seu filho da mãe!
Algo escuro se contorcia no céu distante, e gritos constantes ecoavam pela avenida principal. Se eu podia ver de onde estávamos, devia ter centenas de metros de altura. Era definitivamente maior que um dragão. Como algo assim tinha entrado na capital imperial? Pensei que a cidade estivesse em alerta por causa de alguma profecia ou algo assim.
O que eu devo fazer quando chegar lá? Tudo que eu realmente posso fazer é mandar a Sitri nessa direção. Eu sou necessário?
— Minha nossa, olhe o tamanho disso! É facilmente uma ameaça de Classe A, você não diria, Krai?
Ah, Deus, ela parece tão satisfeita.
Com um brilho nos olhos, Sitri colocou uma mão sobre a boca e segurou minha mão com a outra. Em seu aperto, eu não podia fugir.
Calma. Calma, Krai Andrey.
Com algo tão grande, eu tinha certeza de que as pessoas mais fortes da cidade iriam convergir para aquela coisa e “esmagá-la”. Eu duvidava que ataques físicos pudessem fazer alguma coisa, mas se aquela fosse realmente a “Árvore do Mundo Negra”, então como uma árvore, ela deveria ser fraca contra o fogo.
Queime! Queime!
— Se eu estiver certo — eu disse —, essa coisa é fraca contra o fogo. Precisamos da Maldição Oculta. Precisamos do poder do Inferno Abissal.
— Entendido — Franz respondeu com um grunhido. — Solicitaremos a cooperação deles, então você deve seguir para lá imediatamente! Aquela academia é um pilar do império; perdê-la seria um grande golpe.
Com aquelas palavras alarmantes, a Pedra Sonora foi cortada. Ele deveria ter ligado para a velhota antes de me contatar. Estávamos lidando com uma academia de magia e tudo mais. Aquele lugar não era o antigo point dela? Eu franzi a testa para a Pedra Sonora na minha mão, o que Sitri observou com confusão.
— Hum, Krai. Me perdoe se estou falando fora de hora, mas se o que o Compêndio de Maldições diz é verdade, então aquela árvore é capaz de absorver mana. Atacar com magia não seria uma má ideia?
— Ahh. B-Bem, estou disposto a admitir que não é inteiramente impossível pensar potencialmente dessa forma. E-Eu tenho certeza que está tudo bem.
Nós tínhamos acabado de olhar o livro há pouco tempo, mas eu já havia esquecido o que ele dizia. Não admira que eu estivesse sempre estragando tudo. Mas mesmo que pudesse absorver “mana” e tudo mais, era uma árvore, afinal. Isso não deveria significar que as chamas da velhota seriam capazes de fazer algo a respeito?
E se ela não puder. Bem. Er. Você é um Nível 8, por favor, descubra algo.
Lucia muito provavelmente havia se envolvido nisso, e não apenas ela era muito mais forte do que eu, mas da última vez que verifiquei, ela tinha muitos amigos na academia. Talvez eu pudesse ficar de fora dessa.
Pessoas estavam fugindo em terror. O caos havia se espalhado mais do que eu previra. Uma sirene soou como se o mundo estivesse se aproximando de seus últimos dias. Eu percebi que havia subestimado o tamanho da Árvore do Mundo Negra. Cavaleiros da paz gritavam, guiando as pessoas para a segurança. Eu gostaria de poder ter sido guiado para a segurança.
— Uau, olhe como é grande!
Mesmo tentando não ser muito duro, eu ainda achava que o QI da Sitri havia caído consideravelmente quando a vi pulando para cima e para baixo, animada. Ela não estava com medo?
Com o Matadinho ao nosso lado, as pessoas em fuga mantiveram uma grande distância de nós, criando um vão na multidão.
— Ei — eu disse para a Sitri enquanto continuávamos a andar — eu estava pensando, não há algo incrivelmente durão em andar na direção oposta a uma multidão em fuga?
— Há! — ela guinchou. — Krai, você é incrível!
Eu também queria guinchar, e não por alegria ou constrangimento. Fazia tempo que eu não sentia tanta vontade de vomitar.
Um cavaleiro com um grande escudo, imperturbado pelo Matadinho, correu até nós. — Vocês dois! É perigoso aqui! Não estão vendo aquela coisa?! Saiam daqui!
Eu adoraria sair daqui.
— Não se preocupe — disse Sitri —, nós vamos cuidar daquela coisa. Você não está ciente do caçador Nível 8, o Mil Truques?
Cara, eu adoraria sair daqui.
Surpreso com as palavras de Sitri, o gentil cavaleiro nos deixou. Parecia que, embora os caçadores de alto nível frequentemente recebessem tratamento preferencial, quando necessário, esperava-se que eles colocassem suas vidas em risco ainda mais do que os cavaleiros.
Caminhando por aquela estrada que eu havia percorrido com Lucia há muito tempo, o prédio da escola entrou em vista. Parecia que a “Academia de Magia de Zebrudia” estava em perigo sem precedentes. Eles conduziam coisas como exames de magia arriscados, e os terrenos da academia eram expansivos. O grande edifício foi projetado como um castelo, seis de suas Torres abrigando o escritório de um professor. Elas estavam agora envoltas em grandes vinhas negras.
A árvore. Está se movendo. As árvores sempre faziam isso? O que as pessoas que fizeram isso estavam pensando?
As vinhas se contorcendo rapidamente agarravam pessoas e as jogavam como lixo. Dezenas de Magos, provavelmente estudantes da academia, estavam reunidos ao redor do castelo e disparando feitiços contra ele, mas a árvore não parava.
Sitri olhou atentamente para a árvore, nossa caminhada provavelmente a havia acalmado um pouco. — Havia fantasmas assim no Jardim Prismático.
— Hum. Eu não me lembro.
Infelizmente, eu estava inconsciente na época!
Havia realmente algo que pudéssemos fazer sobre essa coisa? Felizmente, as barreiras estavam impedindo que o dano se espalhasse para além do campus, mas elas não durariam para sempre contra algo desse tamanho.
Então o céu escureceu, e um tornado cheio de pedaços de gelo se formou no centro dos terrenos da escola. Era um feitiço ofensivo de grande área.
— Essa deve ser a Tempestade de Granizo de Lucy.
O tornado cresceu cada vez mais antes de colidir com a Árvore do Mundo Negra. O som de algo duro rangendo misturou-se com o vento rugidor. Os Magos no chão se agarraram para não serem levados pelas ondas de choque. Ser atingido por um feitiço ofensivo avançado havia arrancado uma parte da árvore. Mas então ela simplesmente ficou maior.
— Está crescendo?!
As feridas profundas se fecharam novamente, e a árvore se expandiu. Mesmo a essa distância, eu podia vê-la inchando.
Acho que nem sempre foi tão grande. Que coisa é essa? Ahhh…
— Ahh, droga, Lucia. Você foi lá e deu água à planta.
Fogo é a chave. Fogo. Plantas são fracas contra o fogo, faz sentido. Mas eu entendo, a especialidade da Lucia é água.
A árvore estava enrolada em torno de uma das torres. Mesmo depois de atingi-la tantas vezes, os Magos se firmaram e se prepararam para atacar novamente. O rastro de vinhas apertou, e um som de rachadura veio da torre. Eu acho que a árvore estava determinada a derrubar o laboratório de alguém. Talvez houvesse algo lá dentro?
No momento seguinte, bolas de fogo imensas irromperam pelas nuvens escuras acima.
— Ah, inferno, por que isso está acontecendo? — disse uma voz rouca.
Um arrepio percorreu minha espinha. Era a senhora piromaníaca. Ela estava aqui para nos salvar!
Encoberta em chamas, a Inferno Abissal apareceu. Seguindo atrás dela, havia vários Magos, todos ostentando o logotipo da Maldição Oculta. Olhando mais de perto, notei que Kris e seu grupo também estavam lá por algum motivo.
Os membros do clã de Magos de elite da capital não hesitaram ao entrar no campus, levantaram seus bastões em uníssono e começaram a conjurar. Chamas, luzes e rajadas encheram o céu plúmbeo e atingiram a Árvore do Mundo Negra. Desnecessário dizer, liderando o esforço estava a velhota, rindo maniacamente.
Ela é cem vezes mais assustadora do que a árvore. Ela é coisa de pesadelo.
— HA HA HA HA! QUEIME! QUEIME! VOLTE ÀS CINZAS!
Com medo de que eu pudesse ser transformado em cinzas, eu instintivamente me escondi na sombra do prédio.
Bolas de fogo choveram como meteoros. Eu não conseguia entender por que aquela velhota havia decidido aprender um feitiço tão perigoso. Mesmo a algumas centenas de metros de distância, eu podia sentir o vento queimando. Ainda assim, havia algo reconfortante em saber que, se a árvore se virasse para o meu lado, eu teria a velhota mais assustadora do mundo ao meu lado.
Isso deve ser o suficiente para transformar aquela árvore detestável em—
— Krai, a árvore está ficando maior?
Eu esfreguei os olhos em silêncio. Assim como Sitri havia dito, envolta em chamas furiosas de carmesim, a Árvore do Mundo Negra não estava virando cinzas, mas sim crescendo. Percebendo que algo estava errado, a Inferno Abissal sorriu grandiosamente.
— Olhe só…
As chamas caindo aumentaram em intensidade, mas sem efeito. Embora eu pensasse que poderia acabar como uma pilha de cinzas. Eu mal podia acreditar que havia algo no nosso mundo que a magia da velhota não pudesse queimar até o chão.
— Ahh, talvez, er — eu disse — isso seja fotossíntese?
— Hum. Fotossíntese — Sitri respondeu. — E-Eu entendi?
Para crescer bem, uma planta requer luz, água e um clima quente. Mas eu não deveria ter ficado surpreso ao ver que uma árvore do mundo não caía facilmente. Mas se as chamas da Inferno Abissal não eram suficientes, então o que seria? O tronco havia ficado tão grande que eu estava disposto a apostar que era mais alto do que qualquer outro edifício na capital imperial. Foi aqui que me lembrei de ter ouvido que a verdadeira Árvore do Mundo era tão grande que alcançava os céus.
Mais uma vez, Kris estava gritando observações caluniosas.
— Auuuugh! Mentiroso humano! Assim como com os dragões gélidos, você mentiu para nós! Senhor! Essa coisa definitivamente não é fraca contra o fogo! Senhor!

É fotossíntese. A árvore está fazendo fotossíntese. Nós só não temos poder de fogo suficiente. Eu tenho certeza disso. Podemos fazer isso se nos esforçarmos de verdade!
Eu os incentivei em silêncio, das sombras.
— Acalme-se, Kris! — a Inferno Abissal trovejou. — Talvez a gente só não tenha poder de fogo suficiente. Vamos usar um feitiço ritual!
Depois de disparar chamas à vontade, você ainda não está satisfeita? Talvez fogo não seja a fraqueza dela! Escute a Kris!
Os membros da Maldição Oculta se espalharam rapidamente. Simplificando, um feitiço ritual era um feitiço poderoso lançado por múltiplos conjuradores trabalhando em conjunto. A Inferno Abissal já podia comandar a força de um exército inteiro; eu lutava para imaginar o que aconteceria se ela trabalhasse com um grupo. Se não fossem cuidadosos, poderiam explodir a escola inteira.
— O sangue subiu à cabeça dela — comentou Sitri. — Inteiramente à cabeça dela. Se bem me lembro, ela disse uma vez que não suporta a ideia de haver algo que ela não possa queimar.
— Entendi. Agora eu sei por que ela me persegue.
Eu estava genuinamente aterrorizado com a possibilidade de ela um dia queimar todos os meus Anéis de Segurança. Você não deveria ficar mais calma com a idade?!
Eu podia ouvir a velhota rindo. Os feitiços de Lucia apagavam quaisquer chamas errantes. Raios irromperam no céu escuro. A árvore ficou maior. Grandes rachaduras se formaram na torre. Eu não tinha ideia de como aquele prédio ainda estava de pé.
Os Magos da Maldição Oculta se posicionaram ao redor de um grande círculo mágico que havia se formado no chão. Talvez sentindo o perigo, as vinhas da árvore se torceram e giraram ao soltar a torre, e então atingiram simultaneamente os Magos.
Assim que a velhota estava prestes a levantar seu bastão, a árvore parou subitamente de se expandir. Ela começou a tremer levemente, e então flores roxas “floresceram” nas pontas de suas vinhas. As vinhas direcionadas ao “círculo mágico” permaneceram no lugar, não mostrando sinais de que pudessem se mover mais um centímetro.
Hã. Então a árvore produz flores. O livro não mencionou isso.
— É isso?! É isso que você está me dando?! — Sitri me pegou alegremente em um abraço voador. — Eu não sei o que é, mas tenho certeza de que posso fazer uma poção incrível com isso!
— AFASTE-SE! PURGAÇÃO INCANDESCENTE!
— Ah.
A Inferno Abissal brandiu seu bastão sem pausa. Inúmeras lâminas de chama voaram do círculo mágico e empalaram a Árvore do Mundo Negra, incendiando-a. As chamas violentas envolveram a árvore. Então, o que antes estava ileso pelos feitiços atacantes não era mais do que cinzas.
— Eu não vou. Eu me recuso terminantemente!
— Ora, ora, não diga isso. Precisamos nos apressar e coletar o que pudermos!
Eu não entendo o que você está dizendo. Isso não tem mais a ver com você do que comigo, certo?
Com Sitri empurrando minhas costas, seguimos para o prédio da escola, onde a torre central ainda estava intacta. Os restos queimados da Árvore do Mundo Negra cobriam o campus como neve. Os Magos tinham todos desmaiado de exaustão. Talvez por causa do feitiço lançado pela Inferno Abissal, o ar estava bastante quente, o suficiente para me fazer suar com um pouco de caminhada.
Isso conta como destruição ambiental, não conta?
Claro, eu tinha acabado de vibrar com a vitória, mas fiquei realmente aterrorizado ao pensar que aquela velhota havia queimado aquela árvore em um só golpe. Nem mesmo os ataques combinados de dezenas de outros Magos haviam conseguido isso.
Se não fosse pela Sitri estar comigo, eu teria me feito de idiota e voltado para a casa do clã. Por que era que sempre que os outros Grievers estavam por perto, eu me via (como resultado direto da presença deles) agindo corretamente?
Sem absolutamente nenhuma motivação, eu deixei Sitri me empurrar quando minha Pedra Sonora de repente começou a vibrar.
Ah, Franz, você é tão problemático.
Mas pelo menos este incidente deveria ter deixado claro para ele que a velha piromaníaca era muito mais poderosa e útil do que eu.
— E aí, Franz. A Árvore do Mundo Negra foi cuidada com sucesso.
— F-Foi?! — ele disse entre respirações pesadas. — Q-Que bom!
Eu achei que era uma ótima notícia, mas ele estava tão ranzinza quanto sempre.
— Eu não entendo muito, mas acho que vamos para a torre queimada para coletar algo.
— Hã?! Coletar?! O que você vai coletar?!
Eu não sabia. Eu disse “algo”, não disse?!
Olhei casualmente para a torre parcialmente destruída, e então me virei quando ouvi um grito de vitória atrasado. A velhota estava ordenando aos seus subordinados da Maldição Oculta que recolhessem as cinzas.
— Não relaxem ainda! A árvore pode ter sido queimada, mas a “mana” que ela absorveu ainda está aqui! Aquela coisa, não era um mero monstro. Agora, recolham as cinzas!
Com o brilho zeloso em seus olhos, ela tinha o comportamento temível de uma bruxa de tempos passados. Suas palavras eram estranhamente enérgicas, difíceis de desobedecer. Eu acho que ela não teria chegado ao Nível 8 se tudo o que pudesse fazer fosse botar fogo nas coisas.
Por enquanto, pensei em relatar minha nova informação a Franz.
— Parece que aquilo não era um mero monstro — eu disse a ele.
— Eu percebi isso! Meros monstros não aparecem de repente e rompem múltiplas barreiras para chegar a uma academia de magia!
Franz era um cara tenso, com certeza. A ordem dele era a melhor das melhores, idolatrada por civis, mas Franz me fazia pensar que talvez eles não merecessem toda aquela reverência.
— Não deve ser fácil ser um cavaleiro. Você tem que responder por coisas que não são sua culpa, você tem tantas pessoas que precisa proteger, é muita coisa.
— Seu. Rato. Desgraçado. Droga. A-A profecia. Ela não desapareceu!
Ele não parecia estar muito bem. E por que aquela profecia ainda estava lá? Havia um lapso de tempo ou algo assim? Era difícil imaginar algo mais grave do que a demolição parcial da principal academia de magia da capital imperial.
Meus pensamentos foram interrompidos por uma montanha de cinzas sendo levada pelo vento, seguida por Lucia que surgiu. Quando ela tinha sido enterrada daquele jeito? Escurecida com cinzas, ela instantaneamente se virou na minha direção, quase como mágica, e então caminhou irritada até mim.
O que você quer que eu diga?
— Desculpa, a Lucia está chegando, então eu tenho que desligar.
— E-Ei! Nós não terminamos—
— Krai, vamos fugir enquanto o Matadinho ganha tempo para nós!
Por quê?!
Ouvindo as palavras de Sitri, Matadinho seguiu suas ordens e rapidamente se colocou entre nós e Lucia. Minha irmã foi pega de surpresa por um breve momento, mas então sua expressão escureceu consideravelmente.
— Irmão! Siddy!
— Vamos, Krai!
Uhhh. Mas, er, eu quero falar com ela!
Lucia nos chamou para parar. A Inferno Abissal deu ordens. Matadinho rugiu. Sitri cutucou minhas costas com uma força incomum enquanto eu me permitia ser levado para dentro da torre.
Talvez por causa da monstruosidade enfurecida, quase não havia ninguém dentro da torre. Eles devem ter saído para ajudar a combater a coisa.
— A Academia de Magia de Zebrudia é um tesouro! — Sitri me disse alegremente, ainda empurrando minhas costas. — Afinal, é uma das instituições mais antigas de Zebrudia, e funciona como instituto de pesquisa e academia! Há rumores de que o cofre deles abriga uma Relíquia que assustaria até mesmo um caçador. Definitivamente vale a pena coletar!
— Ah, entendi.
Que história é essa de coletar?
Caminhamos por um corredor que era bem antigo, ou, para usar termos educados, exalava história. Depois, subimos uma escada em espiral que ia para a parte superior da torre. Como todos os Magos na academia podiam voar, esta escada era famosa por ser amplamente inutilizada.
Fazia tempo desde a última vez que estive aqui, mas eu ainda conseguia me lembrar vividamente de como foi acompanhar Lucia em sua iniciação. Os retratos de ex-alunos famosos nas paredes e as intrincadas estátuas de dragões colocadas aqui e ali eram de bom gosto e maravilhosos. A atmosfera dentro da torre era notavelmente diferente da de fora, o que aparentemente era resultado da “mana” densa emitida pelos estudantes e professores.
Enquanto caminhávamos, eu refletia sobre velhas memórias. Lucia era normalmente bem “composta”, mas aquela tinha sido uma das poucas ocasiões em que a vi um tanto nervosa. Ainda assim, admito que eu estava cem vezes mais nervoso do que ela.
De repente, não senti Sitri pressionando minhas costas.
— Ah? Não tem ninguém aqui? — ela disse com uma voz quieta, mas claramente animada. — Talvez a gente leve não apenas uma Relíquia, mas o cofre inteiro? Esse é o nosso plano?!
— Esse não é o nosso plano…
Que ideia absurda. Levar o cofre inteiro só nos tornaria ladrões. Talvez esta não fosse realmente a Sitri, mas uma Liz pós-corte de cabelo? Não, nem eu conseguiria confundir as duas com uma iluminação tão boa. Além disso, apesar de ser uma Ladra, Liz não era gananciosa.
Sitri fez uma expressão muito desapontada. Eu estava com medo de que ela pudesse pegar algo se eu tirasse os olhos dela. Antes que ela pudesse pensar em qualquer outra ideia ardilosa, agarrei a mão dela e a arrastei escada acima comigo.
— Ah.
— Vamos lá, temos que nos apressar e ir ver a instrutora da Lucia.
Hã? A propósito, por que estávamos subindo esta torre? Não é como se tivéssemos negócios com a instrutora da Lucia.
Isso era ruim. Eu não conseguia evitar ser levado pelo fluxo da Sitri. Eu tinha me pegado usando a palavra coletar sem pensar em nada. Eu não sei, talvez minha cabeça não estivesse funcionando direito.
— Entendi — disse Sitri. — Então vamos coletar diretamente com a mentora da Lucy!
— De certa forma, eu acho que sua boa intuição funciona contra você.
Era tão boa que eu nem conseguia entender do que ela estava falando. Ou talvez minha intuição fosse apenas muito ruim.
Eu quero ir para casa.
No momento em que soltei um suspiro profundo, um círculo mágico brilhante se formou aos nossos pés. Letras estranhas amontoadas nos circulavam.
— O que é isso?! — disse Sitri enquanto olhava freneticamente ao redor.
— Ah, estamos apenas sendo chamados.
Houve um círculo mágico semelhante quando visitei pela primeira vez com Lucia. Eles só podiam ser usados dentro da academia, mas esses círculos de teletransporte, como eram chamados, podiam ser usados para trazer alguém à força até você. Eu entrei em pânico quando vi um pela primeira vez, mas esta era minha segunda vez, então eu estava acostumado.
Eu estava prestes a explicar isso para Sitri quando meu corpo falhou e caí de joelhos. Meus membros pareciam fracos. Provavelmente na mesma situação, Sitri desabou contra mim.
Hã? Pensei que este fosse o mesmo da última vez?
Incapaz até mesmo de gritar, senti-me desfalecer. Então tudo esmaeceu.
Quando voltei a mim, estava sentado em um tapete carmesim que parecia muito caro. A primeira coisa que senti foi algo fazendo cócegas na minha bochecha. Inclinei meu pescoço e olhei para o lado, onde vi um tom de rosa familiar. Parecia que Sitri estava encostada em mim. Tentei então mover meus braços e pernas, o que me fez perceber que estavam presos com correntes.
Cara, o que diabos aconteceu? Uau, não é sempre que eu me recupero antes da Sitri.
Tudo foi muito repentino. Eu não conseguia pensar em mais nada além de pensamentos vagos.
— Você está acordado, finalmente, irmão da Lucia — disse uma voz feminina um tanto fria. Parecia vagamente familiar.
Eu olhei para cima, e minha cabeça finalmente começou a funcionar enquanto processava a cena à minha frente. Eu reconheci esta sala. Tinha um teto alto, e a luz do sol entrava pelos vitrais de outro mundo. A sala era cilíndrica, suas paredes forradas com estantes que quase alcançavam o teto. Entre as prateleiras havia janelas, das quais tudo o que eu podia ver era o céu.
Estávamos cercados por inúmeras estacas fincadas no chão. Elas estavam provavelmente encantadas ou algo assim. Para além das estacas estavam Magos, homens e mulheres de todas as idades, parados ao nosso redor em um círculo. Diretamente na nossa frente estava a instrutora de Lucia, com um sorriso indecifrável no rosto.
Uma professora proeminente no maior castelo arcano do império, a Academia de Magia de Zebrudia, a instrutora de Lucia não era uma humana pura. Ela parecia alguns anos mais jovem que Lucia. Ela tinha longos cabelos prateados, que mantinha presos para não atrapalhar, e olhos dourados. Ela vestia um manto volumoso que escondia o contorno de seu corpo. Mesmo alguém que não soubesse nada sobre ela ainda sentiria que algo estava estranho.

Eu não tinha certeza se era verdade, mas diziam que ela era uma das poucas pessoas a ter o sangue de um humano e de um Espírito Nobre. Seu corpo tinha as características distintivas de ambas as raças; embora ela fosse quase tão alta quanto a Liz, a menos que eu estivesse alucinando, a parte superior de suas orelhas era pontuda. Havia muito poucos Espíritos Nobres na capital, mas eu nunca os ouvi falar sobre a pessoa à nossa frente.
A flor milagrosa de Zebrudia, uma Magus que diziam ter sido escolhida a dedo pelo próprio imperador, Rodrick Atolm Zebrudia. Ela era humana, mas não era humana. Ela era Seyge Claster, a Imortal.
Eu diria que ela tinha uma presença esmagadora. Ela não estava me encarando ou algo assim, mas eu ainda me senti intimidado. Olhei rapidamente ao redor antes de oferecer uma saudação.
— E aí. B-Bom dia?
O que diabos está acontecendo?
A instrutora de Lucia ignorou meu pânico e disse: — Sitri, eu sugiro que você pare de fingir sono. Parece que as descrições de Lucia sobre você estavam bem precisas.
— Urmmmm — Sitri gemeu enquanto seus braços se apertavam ao meu redor.
Eu entendi. Eu aceitei. Suspirei.
— Eu entendi agora…
Embora ela estivesse falando como uma Ladra, esta não era realmente a Liz. Era apenas a “Sitri Má”. Parecia que a Sitri de hoje era a Sitri Má.
Lucia! Eu deveria ter deixado a Lucia nos pegar antes de entrarmos na torre!
Mas era tarde demais para arrependimentos. Sem mais nada para fazer, esbocei um sorriso meio-boca.
— Iniciaremos agora o julgamento, irmão da Lucia — disse Seyge com uma voz fria. — Você foi acusado de quase destruir esta aclamada academia. O que você tem a dizer em sua defesa?
Numerosos olhares pontiagudos foram direcionados para Sitri, que ainda fingia dormir, e para mim. Eu senti que nosso melhor ponto de partida seria, como sempre, avaliar a situação. Mas, mais uma vez, eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
Que base a instrutora de Lucia, Seyge, isto é, tinha para suspeitar de mim por ter arruinado a academia? Todo aquele dano havia sido causado por aquela árvore. Eu sei que eu tinha um azar terrível, mas eu não gostei da suposição de que eu havia chamado aquele demônio. Pelo contrário, não era muito mais provável que um Magus em um certo instituto tivesse conduzido algum experimento estranho ou algo assim? Pelo que eu tinha ouvido, a academia não era tão ruim quanto o Instituto Primus da Sitri. Mas da minha perspectiva, a de um espectador inofensivo, nenhuma das duas poderia ser considerada boa.
Os olhares que eu estava recebendo eram muito mais hostis do que quando vim aqui pela primeira vez com a Lucia. Naquela época, minha irmã tinha acabado de completar quinze anos, o que significava que ela havia acabado de se tornar adulta, e os olhares eram mais de curiosidade do que qualquer outra coisa.
Hmmm.
Eu permaneci em silêncio, incerto sobre o que fazer.
— De acordo com nossas investigações — disse a Professora Seyge, mantendo seu tom neutro — o caçador Nível 8, Krai Andrey, o Mil Truques, enviou a fonte de uma criatura perigosa, uma com extraordinárias capacidades de absorção de mana, uma ameaça terrível para uma escola de Magos, para o nosso meio. Como resultado, das fabulosas 127 barreiras desta academia, 115 foram completamente destruídas. Uma leitura rápida da lei imperial descobrirá que isso pode muito bem constituir três crimes e um dos dez crimes capitais. Esse seria o Porte de Criatura Mágica com Destruição Classe: Municipal.
Oh. Entendi. Por Krai, talvez você não queira dizer o Mil Truques, mas sim o Mil Teurgias?
Mesmo depois de ouvir isso em termos tão austeros, não me tocou. Decidi que seria melhor ficar quieto e ouvir. E quando a Sitri ia parar de fazer barulhos de sono e voltar ao seu eu normal? O círculo mágico estava fazendo isso com ela?
— Das 127 barreiras — continuou a Professora Seyge — algumas delas nunca foram quebradas, e algumas utilizavam métodos agora perdidos para o tempo. Essas barreiras foram agora destruídas.
— Como vidro frágil — acrescentou um Mago ao lado dela, severamente.
Os outros Magos eram todos bem velhos, fazendo Seyge parecer a neta de alguém ou algo assim. Eu sabia que os Espíritos Nobres envelheciam lentamente, mas quantos anos tinha essa professora?
Seyge assentiu em concordância. — De fato, como vidro frágil. Algumas das barreiras estavam desatualizadas, mas tinham significado acadêmico. Graças aos esforços conjuntos da Inferno Abissal e de nossos Magos, a criatura mágica foi transformada em cinzas. No entanto, nosso corpo docente, é claro, e muitos de nossos estudantes foram drenados à força de sua mana, e alguns ainda estão para se recuperar da privação. Este foi um claro ato de animosidade. Mesmo que perpetrado por um Nível 8, não podemos ignorar o que aconteceu aqui.
Ah, eu entendi.
Digamos que eu fosse culpado desse crime. Eles iriam perdoar a Inferno Abissal? Aquela velhota queimou uma boa parte do castelo, e enquanto eu estava brincando com um dragão de fonte termal de férias, ela não estava trocando fogo com a Torre Akáshica nas ruas? Ela não deveria ter sido processada primeiro?
O que era estranho era que essas pessoas aparentemente não tinham incerteza quanto à minha culpa. Eu não sei que investigações eles tinham feito, mas chamar isso de julgamento era ridículo.
A voz de Seyge era fria, e seu rosto estava quase desprovido de expressão. Ela nunca foi muito hospitaleira comigo.
— E apesar de tudo isso, irmão da Lucia, ouvi dizer que você quer algo em troca. Não se sabe quão grande o caos poderia ter sido se a Inferno Abissal não tivesse chegado e parado aquela temível criatura mágica antes que ela pudesse atravessar todas as barreiras. Se isso tivesse acontecido, é possível que ela tivesse escapado dos terrenos da academia e trazido a ruína para a capital imperial.
Olhei ao redor para as dezenas de Magos nos cercando. Se lhes tinha sido concedido um assento aqui, eles deveriam estar entre os melhores da capital, embora eu não soubesse nenhum de seus nomes. É um palpite como tanta sabedoria pôde ser reunida em uma sala, mas ninguém veio em minha defesa. E eu não queria nada em troca; a Sitri queria.
Pelo menos eu tinha o Franz. O Franz ia me ajudar. Diferente da Sitri, ele nunca se tornou o Franz Mau. Decidi pedir a ajuda dele pela Pedra Sonora assim que tivesse a chance.
— Por que não diz nada? — A instrutora de Lúcia perguntou desconfiada. — Se tiver alguma objeção, pelo menos nós vamos escutar. Caso contrário, de acordo com a lei imperial, você será processado sob as regras da academia.
Então a academia tem extraterritorialidade?
Lembrei de ter ouvido algo sobre isso da Lúcia. Caso algum Mago perdesse o controle e causasse um incidente, a academia tinha permissão para autogoverno.
Acabei aqui por pura coincidência, e veja só a enrascada em que me meti. Ela disse que eu poderia objetar, mas quando foi que alguém escutou minhas alegações de inocência? Eu queria que isso se resolvesse sem problemas, mas será que ia acontecer?
Um dos Magos ao redor levantou a mão e então falou.
— No entanto, Professora Seyge, ele é irmão da Lúcia. Não seria um problema processá-lo sem a permissão da Lúcia?
Ele parecia bem sério quanto a isso.
Os outros Magos também começaram a falar.
— Os talentos da Avatar da Criação são comparáveis aos da Inferno Abissal. E embora Rosemary seja temida por fazer oceanos de fogo, Lúcia se comporta de forma bem adequada. Ela até desenvolveu uma série de novos feitiços.
— Seria um problema se processar o Mil Truques tivesse um efeito profundo na Lúcia. Podemos enfrentar uma reação adversa de todos os estudantes que a adoram.
Ao ouvir isso de seus colegas professores, Seyge franziu a testa. Parecia que minha irmã mais nova era muito popular.
Lúcia, seu irmão está tão feliz em ver a pessoa maravilhosa que você se tornou. Continue assim! Sério, continue assim, pensei enquanto beliscava os joelhos de Sitri, que continuava a me abraçar e fingir que estava dormindo.
Enquanto isso, o debate se intensificava bem na minha frente.
— Para começar, o Mil Truques já foi selecionado para guardar o imperador. Mesmo que tenhamos permissão para administrar nossos próprios tribunais, não devemos ser muito apressados em fazê-lo. Processar este homem é arriscado demais.
— Não há questionamento sobre a culpa deste homem. Nós retribuímos tanto a gentileza quanto o antagonismo na mesma moeda. Esse é o caminho dos Magos.
— Foi Lúcia quem trouxe o item. Desafiaria toda a lógica punir apenas o Mil Truques e não ela também.
— Se for esse o caso, então o manuseio descuidado do cajado pela Anna também merece ser notado.
— E mal se poderia nos culpar por considerar a má administração da torre da Professora Seyge?
— Talvez isso tenha sido feito por despeito pela Lúcia ter perdido o exame de qualificação para cajado espiritual composto avançado, para o qual ela havia recebido uma recomendação?
O exame de qualificação para cajado espiritual composto avançado. Se bem me lembrava, essa era a coisa que Lúcia precisou faltar por causa do Festival do Guerreiro Supremo. A coisa com a árvore não foi minha culpa, mas me senti muito mal pelo exame!
Com cada vez mais palavras incisivas direcionadas a ela, a Professora Seyge encarou os colegas. — Não sejam estúpidos! Estou apenas usando os privilégios que me são concedidos. Preciso lembrá-los que muitas das famosas barreiras de nossa morada foram destruídas?!
— Você pode chamá-las de “famosas”, mas elas ficaram intocadas nos últimos dez anos, apesar de seus constantes lembretes de que deveriam ser refeitas um dia. Você não deveria, em vez disso, ficar feliz por terem sido destruídas?
— Você está falando inteiramente com o benefício da retrospectiva! Que tipo de tonto expressaria gratidão a alguém que destruiu suas barreiras sem permissão?!
O buff de “irmão da Lúcia” era poderoso demais. Se nada mais, eu concordava mais com a Professora Seyge do que com qualquer outra pessoa. Se havia uma coisa em que eu achava que ela estava errada, era que ela parecia pensar que eu havia feito algo de errado. Ela me encarou, mesmo que eu não fosse quem estava levantando objeções.
A Maga ao lado dela, uma senhora que parecia ter o triplo da idade dela, repreendeu Seyge com uma voz estridente. — Sim, mas por favor, pense nisso de forma racional, Professora Seyge. Este homem é o irmão da Lúcia!
Hmph. Isso mesmo. Eu sou o irmão da Lúcia Rogier. Claro, é tentador dizer: “E daí?” E, sim, nós nem somos parentes de sangue…
Pelo que pude perceber, havia duas facções: aqueles que diziam que o Mil Truques deveria ser perdoado porque ele é o irmão da Lúcia, e aqueles que não se importavam com isso e queriam puni-lo. Eu estava esperando pela facção que insistiria que o Mil Truques era inocente.
Sem saber quando seria um bom momento para me manifestar, fiquei sentado e sorri. Seyge me lançou um olhar glacial, bem parecido com os que eu recebia da Lúcia.
— Irmão da Lúcia, o Mil Truques, por que está tão quieto? Por que não fala? Apesar do que a tagarelice desnecessária possa sugerir, Lúcia está sob minha tutela, então eu tenho a palavra final sobre o que acontece com ela. Diferente dos meus colegas, eu não vou me curvar para ganhar o seu favor. Mesmo que você seja o irmão mais velho da minha amada pupila, não vou lhe oferecer tratamento especial. Sua irmã me contou tudo sobre os seus métodos. Sob essa barreira, você não pode se mover, nem usar magia ou essas Relíquias que você tanto adora.
Eu não tinha tentado me mover, então nem tinha notado que não conseguia. No momento seguinte, meus olhos se arregalaram quando algo me ocorreu.
— É tarde demais para fazer essa cara — disse a Professora Seyge com um bufo. — O crime exige punição, e destruir as barreiras da Academia de Magia de Zebrudia é um ato sem precedentes. Os detalhes da sua punição serão decididos após uma discussão entre os chefes dos vários departamentos da academia, mas tenho certeza de que refletirá a escala desta destruição. Prepare-se para as consequências.
Eu não posso usar Relíquias nem magia. Isso significa que Sitri é uma das minhas Relíquias?
Talvez incomodada com a expressão que eu estava fazendo, a bochecha de Seyge estremeceu enquanto ela batia o cajado no chão.
— Ei! O que está pensando?! Escute-me! Anna disse que você queria o tesouro escondido da academia, mas isso não passa de um rumor! Você acha que um Mago deixaria escapar a notícia de algo assim?! Como todo mundo acreditou nessa bobagem, estamos sendo forçados a revelar a extensão do dano. Até que um veredito formal possa ser alcançado, você ficará confinado ali! Você deveria refletir sobre o que fez. Se os rumores começarem a se espalhar, isso afetará a Lúcia também!
Eu me perguntei se Lúcia tinha herdado os maneirismos de sua instrutora. Ou seria o contrário?
— Com licença — eu disse, falando pela primeira vez. Percebi que precisava voltar para casa. — Serei muito incomodado se você não me deixar ir.
Em casa, tenho um bolo que está prestes a estragar.
— Fique tão incomodado quanto quiser. Nós estamos em uma situação pior.
Eu sabia que ela estava tendo um dia ruim e tudo mais, mas ainda assim foi frio. Eu nunca teria vindo para cá se soubesse que isso iria acontecer. Eu tinha o mau hábito de ceder à pressão, embora nunca fosse de nenhuma ajuda na resolução de problemas.
— Puxa vida, pensar que já tínhamos as mãos cheias com aquela profecia do Divinarium. Causar problemas numa hora dessas é uma forma de assédio e tanto.
— Ah, você também? Que coincidência.
— Quieto. Eu posso ser a mentora da Lúcia, mas não sou nada disso para você! Você provavelmente já sabe disso, mas Espíritos Nobres não são apenas hábeis com mana; nós também lidamos bem com maldições. É porque nossas vontades são mais fortes. A maioria das maldições grandiosas o suficiente para se qualificarem como catástrofes foram causadas por Espíritos Nobres. Mesmo assim, não estou gostando das perguntas bizarras com as quais estou sendo bombardeada.
Seyge passou a mão pela franja e deu um suspiro um pouco exagerado. Acho que mesmo uma Maga escolhida a dedo pelo imperador e portadora de um título como “Imortal” ainda tinha muitas preocupações. Eu me solidarizei com ela.
Com um encolher de ombros, a professora se dirigiu à porta. Tentei impedi-la, mas descobri que não conseguia ficar de pé. Parecia menos que meu corpo não podia se mover e mais que estava ignorando os comandos do meu cérebro. Embora eu tivesse liberdade suficiente para mover a boca e beliscar o joelho de Sitri. Essas novas barreiras eram realmente impressionantes.
Ah, não. Isso não é bom. Ei, Sitri, por quanto tempo você vai ficar assim?
Incapaz de contar com Sitri, eu estava prestes a desistir quando a porta foi aberta. Ao contrário das minhas expectativas, não era Lúcia.
— O que é isso? — disse Seyge, com a testa franzida.
— Terminamos de avaliar o dano. Há algo que você deveria ouvir.
Com o canto do olho, vi um Mago recém-chegado se aproximar da professora e sussurrar em seu ouvido. Seyge olhou para mim como se eu tivesse ofendido a família dela, mas ela murmurou por baixo da respiração.
— Hmm. De fato. Entendo…
— Claro, mas isso é falar com retrospectiva…
Parecia que algo inesperado tinha acontecido. Ela começou a olhar para mim de forma diferente de antes. Vi seus olhos se arregalarem, e então seu rosto se contorceu.
— Originalmente era do Santo da Espada? O que aquele pirralho estava pensando?
— Sim, é verdade. Não gosto da ideia de perder isso…
— Espere, há claramente algo errado aí. Como isso foi acontecer?
Então ela ficou em silêncio.
O que poderia tê-la feito soar tão intensa? Depois de um pouco de espera na ignorância, o Mago saiu e Seyge solenemente se aproximou de nós. Ela olhou para nós por um momento antes de dar um tsc exagerado. Ela enfiou o cajado no círculo mágico, fazendo-o desaparecer.
Eu pisquei confuso. Sitri ainda estava agarrada a mim.
— Droga. Você está liberado, irmão da Lúcia. A situação mudou.
— Liberado? O que diabos aconteceu?
Seyge dirigiu um olhar rancoroso aos outros professores antes de dizer, muito a contragosto, para mim: — Eu não concordo em nada com esta decisão. No entanto, descobriu-se que há uma possibilidade de que as cinzas daquele demônio possam servir como um catalisador muito valioso. Novamente, eu não concordo com esta decisão, mas a maioria dos professores concorda, e a decisão é do diretor. Se fôssemos puni-lo, isso enfraqueceria nossa reivindicação sobre essas cinzas. As balanças ficariam desequilibradas. Pelos seus padrões humanos.
— Você me daria um pouco? — disse Sitri, finalmente voltando ao normal.
Seyge olhou brevemente para ela como se estivesse insana. Eu não podia realmente culpar a professora. O que aconteceu com a garota que costumava ser ainda mais frágil do que eu?
— Lúcia está esperando lá embaixo — disse Seyge com uma voz gélida, ignorando o pedido de Sitri. — Você não deveria dar mais uma coisa para sua irmã se preocupar.
O que aconteceu tinha sido nada menos que um pesadelo para aquele homem. A princípio, ele pensou que fosse um terremoto. Com os gritos constantes e o tremor violento, ele soube que havia uma emergência. Quando percebeu que a enorme árvore preta estava mirando seu laboratório, ele pensou que tudo estava acabado.
De fato, enquanto roubava mana de vários Magos, a árvore estava sem dúvida mirando seu local de trabalho. Este era um laboratório que existia há quase cem anos. A pesquisa deste homem era considerada bastante tediosa, mesmo em comparação com a de seus colegas. Mas era óbvio para ele por que aquele demônio foi atrás de seu laboratório: era a poção mágica que ele possuía secretamente.
Era uma coisa lendária, algo que qualquer pessoa minimamente instruída teria ouvido falar. O perigo puro e simples levou ao extermínio de seus inventores, e a pesquisa e posse da poção foram proibidas.
Foi pura sorte que tal item tivesse chegado às mãos deste Mago, um homem que era levemente talentoso, mas ainda dentro dos limites da mediocridade. Tudo o que ele tinha feito foi desenterrar a poção ao cavar um buraco destinado a ser um depósito de lixo. Ele ainda conseguia se lembrar claramente do choque que sentiu quando testou as capacidades da poção pela primeira vez, confirmando sua identidade.
Se a notícia da existência desta poção vazasse, isso enviaria ondas de choque por toda a capital imperial. Se ele a entregasse ao império, seu nome se tornaria instantaneamente conhecido por muitos. Se tornaria conhecido, e nada mais. Ele seria apenas o cara que tropeçou nela por acaso.
O que o impeliu só poderia ser descrito como impulsos sombrios. Para este homem farto de sua própria falta de talento, esta poção mágica encontrada por coincidência seria seu futuro promissor. Ele poderia conseguir o que desejasse se usasse essa poção corretamente. Embora tivesse sido apagada centenas de anos atrás e não tivesse sido recriada desde então, ele poderia aprender a produzir a poção em massa se a investigasse. Abrir mão de tais possibilidades e curvar-se à autoridade seria falhar na busca pelo conhecimento.
Mas então tudo mudou. Não importava o que acontecesse, o pensamento da poção tinha sido suficiente para afastar seus sentimentos de descontentamento. Em última análise, ele não a tinha usado, já que não era sempre que se tinha a chance de usar uma poção da qual se tinha apenas um frasco. Então ele não poderia ter sido descoberto. Ele não tinha contado a ninguém sobre a poção, nem a colegas, amigos ou família.
Ainda assim, estava claro que ele tinha estragado tudo.
Ao que parecia, aquela árvore demoníaca tinha vindo parar aqui por causa do irmão de Lúcia. O homem tinha ouvido rumores sobre ele. O Mil Truques, um caçador de Nível 8 e irmão da prodígio Lúcia Rogier. Diziam que ele sabia coisas que não deveria saber, e tinha as habilidades para guiar o futuro.
A imensa árvore preta havia aparecido de repente na Academia de Magia de Zebrudia, um lugar há muito protegido por barreiras e em uma das regiões mais seguras da capital imperial. Ela não tinha sido impedida por ataques coordenados dos Magos da academia e esmagou o castelo magicamente protegido como se tivesse sido construído com blocos de montar. Não havia nada que aquele homem pudesse ter feito contra ela.
Foi boa sorte o que manteve a poção segura. Graças à sorte, coincidentemente, ninguém além do homem estava presente no laboratório quando o demônio atacou. A atenção do demônio foi desviada momentaneamente. A Inferno Abissal tinha aparecido. Os escombros que caíram não empalaram o homem. A árvore foi derrotada antes que pudesse retornar ao seu objetivo. O homem conseguiu fugir antes da chegada de qualquer um curioso para saber por que a árvore estava tão focada em seu laboratório. Foi tudo graças à sorte.
Observando o amplo campus, ele soltou um suspiro de alívio enquanto via os Magos se aglomerarem nas pilhas de cinzas. Um único passo em falso o teria matado. Foi apenas por causa de uma série de coincidências que ele ainda estava de pé.
No entanto, o dado já estava lançado. Se o Mil Truques soubesse da sobrevivência do homem, o caçador recorreria novamente a medidas de força. Mesmo que não recorresse, o comportamento da árvore deve ter lhe dado a dica de que havia algo no laboratório do homem. Certamente o próprio homem também seria investigado minuciosamente. Ele não era tolo o suficiente para pensar o contrário.
O homem tirou o frasco do bolso e olhou para ele com gravidade. Seu coração batia nervosamente como um tambor. Ele pensou que este dia poderia chegar. É preciso lutar para viver como se deseja neste mundo. Um caçador de Nível 8 era um oponente mais do que satisfatório.
Ele olhou para a torre da Professora Seyge, para onde o Mil Truques tinha ido. Com a mentalidade de alguém indo para sua batalha final, o homem começou a caminhar.
Ao sair da sala no topo da torre, descemos a escada em espiral. Nosso sequestro e censura repentinos me deixaram exausto. Isso era demais para um dia. Eu queria paz.
Caminhando ao meu lado, Sitri, agora recuperada, fez uma cara quase como se fosse uma vítima ali. — Nossa, que provação terrível foi essa, não acha, Krai?
Tudo o que você fez foi fingir que estava dormindo.
Era um tipo de inutilidade que eu raramente via nela. Mas, a essa altura, seria preciso um pouco mais para diminuir minha opinião sobre ela. Eu a olhei com reprovação, mas tudo o que ela fez foi uma cara de interrogação. Eu não conseguia igualar sua mentalidade inabalável.
E por que fomos em direção à torre de Seyge em primeiro lugar? Não tínhamos nenhum assunto lá nem nada. Certo. Fomos porque Sitri disse para ir. E Lúcia não veio conosco porque Sitri usou o Matadinho para detê-la. Será que todo esse contratempo foi culpa da Sitri?
— Ela nos mandou para casa de mãos vazias — Sitri reclamou. — Que pão-durice. Você pensaria que uma longa vida ajudaria um Espírito Nobre a se livrar da ganância. Deveríamos ter pegado um pouco em segredo. Por causa das histórias da Lúcia, fiquei cega pela minha presunção de que a professora compartilharia conosco. Você também, Krai, deveria ter dito algo.
Eu não sabia dizer se ela estava brincando ou não.
No final, eu nunca descobri porque aqueles professores estavam tão certos de que eu era culpado.
— Antes de me julgarem, eles deveriam ter investigado os próprios primeiro — eu disse.
Eu estava certo de que o desastre tinha sido causado por algum Mago conduzindo experimentos perigosos.
— Exatamente! — Sitri acrescentou, alegremente.
Bem, tudo está bem quando acaba bem. Vamos para casa e comer um bolo.
Assim que esse pensamento me ocorreu, a porta ao nosso lado se abriu, e uma figura envolta em um manto marrom disparou na minha frente.
— Eu estava errado. Eu percebo isso agora. Eu não pensei que você enviaria um demônio desses! T-Tome isto e me perdoe!
Enquanto eu estava ali, a figura enfiou uma garrafa de água de metal em mim, então escalou o corrimão da escada e pulou. Fiquei paralisado por um momento, depois olhei freneticamente por cima do corrimão. A figura já tinha sumido.
Aquilo foi algum tipo de aberração? Este lugar é assustador. Nunca mais volto aqui.
— O que é isso? — perguntou Sitri.
— Sei lá — eu disse.
Se Liz estivesse aqui, ela com certeza teria pego aquela pessoa, embora se isso teria sido uma coisa boa fosse outra questão.
Vendo o brilho nos olhos dela, entreguei a garrafa de água para Sitri. Cautelosamente, ela abriu a tampa. Esperei alguns momentos. Ela não disse nada, e não parecia perigoso, então dei uma espiada.
Girando lá dentro havia um líquido opaco da cor de leite de morango. Na verdade, o cheiro sugeria que era leite de morango. Eu gostava de leite de morango. Eu bebia regularmente e sempre tinha um pouco na minha geladeira. Mas esse cara tinha acabado de aparecer de repente e me entregado uma garrafa disso antes de sair correndo. Talvez ele fosse realmente uma aberração?
Até meu senso de cautela estava desenvolvido o suficiente para me dizer para não beber leite recebido de um estranho. Eu estava totalmente perdido quando de repente notei que Sitri ainda segurava a garrafa em silêncio. Eu cutuquei o ombro dela, o que pareceu trazê-la de volta a si.
— Essa cor, esse aroma — ela disse, com as bochechas coradas, a voz intensa. — Será esta a poção lendária, selada por seu poder e pelo perigo que representa? Poderia ser a Chama de Morango? Não consigo acreditar. Supostamente, tudo foi destruído? Pensar que ainda existia um pouco!
— Ohhh. Então é algo especial?
Tem “morango” no nome, então isso é só leite de morango, certo?
Era inesperado, mas não era impossível para um Alquimista talentoso fazer piadas sobre poções. Tomando ainda mais cuidado do que o normal, Sitri recolocou a tampa delicadamente. Eu realmente não entendi, mas era bom que tivéssemos conseguido algo valioso. No entanto, aquele pensamento ingênuo foi seguido por algumas informações desconcertantes.
— É especial! — Sitri me disse com a voz trêmula. — É uma poção de escravização extraordinária, incomparável! Uma gota é suficiente para aprisionar o corpo e o coração de uma pessoa. Ela levou três nações à ruína. O Alquimista que a fez, sua família e o método de produção foram supostamente extintos, mas, contra todas as probabilidades, alguns ainda existem.
— Então é algo especial?
— Se for real. Se reconstruirmos os métodos de produção, a dominação mundial pode ser viável. Até agora, ninguém conseguiu replicar um efeito tão confuso, mas se tivermos uma amostra—
— É, aham.
Pela empolgação, Sitri falou em tons mais baixos do que o normal, mas seu rosto estava transbordando de alegria. Peguei a garrafa de seu abraço, provocando um olhar de choque momentâneo nela.
— Krai — ela disse com uma voz doce —, vou receber minha recompensa desta vez, certo?
— É, aham. Depois.
— Eba!
Sitri se agarrou ao meu braço e esfregou a bochecha em mim. Eu balancei a cabeça e dei tapinhas na cabeça dela.
Definitivamente não posso dar isso a ela. Vou me livrar disso mais tarde.
Aparentemente, enquanto Lúcia estava sendo detida pelo Matadinho, Seyge havia passado e ordenado que ela esperasse no andar de baixo. Quando chegamos lá, encontramos Matadinho sentado com as pernas dobradas debaixo dele, e Lúcia de mau humor.
Lá fora, dezenas de Magos estavam reunindo as cinzas caídas. Sitri parecia que poderia se afastar na direção deles, então a agarrei pelo braço. Parecia que ela não tinha se recuperado totalmente do círculo mágico.
Não. Olhar para mim com os olhos revirados não vai mudar nada.
Enquanto caminhávamos, Lúcia me contou sobre a situação. Ela me contou coisas novas enquanto parecia esperar que eu já as soubesse.
— Sinceramente, que bagunça desgraçada. A capital imperial não é sua caixa de brinquedos, sabia?! Todo mundo fica me perguntando—
— B-Bem, tudo se resolveu tranquilamente o suficiente, então acho que está tudo bem.
— Augh!
Eu estava suando frio, mas talvez fosse um pouco tarde para isso. Parecia que a fonte da Árvore do Mundo Negro era o cajado do Santo da Espada. Ele nem sequer tinha sido ativado, mas começou a absorver mana e cresceu em algo massivo.
Em outras palavras, o que Seyge tinha dito estava certo.
Mas a culpa não era minha. Era do Santo da Espada. Claro, eu me sentia mal por todas as dores de cabeça que Luke lhe causava, mas isso não significava que esta era uma maneira aceitável de se vingar. Sinceramente, aquele cara era realmente impressionante.
Sitri deveria estar tão ignorante da situação quanto eu, mas ela bateu as mãos com um olhar de entendimento no rosto.
— Entendi — ela disse. — Isso explica por que a Professora Seyge recuou. Mesmo esta academia não iria querer começar uma briga com o Santo da Espada e seus parceiros.
— Hmm, então um monstro nos salvou de outro?
— Meu Deus, vocês dois poderiam parar de agir como se isso não tivesse nada a ver com vocês?!
Simplesmente não parecia real. Olhando para trás, esta tinha sido uma série de eventos incrivelmente estranha. Eu tinha planejado ficar tranquilo na capital imperial por um tempo, mas aí o que aconteceu foi que a espada da Eliza era uma Espada Demoníaca? E eu a dei, e em troca peguei um cajado, que então se revelou ser algo perigoso? E agora, por alguma razão, uma poção perigosa tinha acabado nas minhas mãos.
— Isso me lembra — eu disse —, havia alguma razão para aquela árvore estar tão focada naquela torre?
— Improvável — Lúcia respondeu. — Aquela árvore foi apenas atraída por mana poderosa, e uma busca superficial não encontrou nada. Mas todos os laboratórios têm segredos e, pelo que entendi, é possível que algo tenha sido contrabandeado para fora.
— Oh. Viu, Krai, às vezes coisas misteriosas acontecem — disse Sitri com um largo sorriso.
Parece que você tem algo a dizer.
— Hã?! — Lúcia também parecia ter algo a dizer. — Irmão?
Não havia nada que eu pudesse dizer. A única coisa que eu havia ganho hoje era o conhecimento de que Lúcia era uma garota popular.
Minha Pedra Sonora vibrou. Como sempre, ele tinha um timing terrível. Franz sabia que essa bagunça era minha culpa? Bem, não era minha culpa, era, se fosse de alguém, do Santo da Espada. Mas tudo havia sido resolvido tranquilamente. Não teríamos mais problemas com maldições ou o que quer que fosse. Nem mesmo eu pisaria em uma mina terrestre se soubesse que elas estavam à minha frente! E o que diabos era uma “poção de escravização”?!
Com um pequeno suspiro, ativei Pedra Sonora. A primeira coisa que ouvi foi Franz gritando.
— Mil Truques! Eu soube o que aconteceu!
— Ah. Você sabe disso? Não se preocupe, não teremos mais maldições ou o que quer que seja nos dando problemas.
— Ei, um momen—
— Estou ocupado agora, então vou desligar por aqui. Até mais.
Olhei para a Pedra Sonora. Esperei por um momento, mas ele não vibrou novamente. Acho que ele desistiu.
Me desculpe, Franz. Estou só um pouco cansado. Não se preocupe. Vou garantir que não haja mais problemas.
— Sitri, você está de um humor incrivelmente bom — eu disse.
— Bem, claro que estou — ela respondeu. — É a minha vez agora!
Mesmo com um olhar de soslaio, eu podia perceber o quão elevado estava o seu ânimo. Ela estava girando a cada passo.
Receio que você não terá uma vez. Você é minha melhor amiga, eu te devo muito dinheiro e não quero te deixar triste, então não há nada que eu possa fazer.
— Você vai vir comigo para pedir desculpas depois! — disse Lúcia.
— Sim, eu sei. Você fez muito por mim e, como seu irmão, eu preciso me comportar! Afinal, sou seu irmão!
— Isso mesmo.
Afinal, ser o irmão dela tinha me tirado do sufoco.
Mas, no momento, eu tinha que me preocupar com Sitri. Se eu não lidasse com o assunto da poção com muito cuidado, teria que fazer muito mais do que apenas me curvar. Esquecer de fazer as coisas que eu pretendia fazer era um péssimo hábito meu.
Entrei no meu escritório. Mesmo sendo proibido para caçadores, Lúcia e Sitri me seguiram como se fosse perfeitamente natural.
Sem realmente dizer nada, Sitri me implorou para entregar a poção. Lúcia provavelmente nos seguiu com um olhar de descontentamento porque tinha sentido que havia algo errado com Sitri. Nossa Alquimista estava determinada a me importunar até que eu lhe desse a garrafa. Normalmente, eu não conseguiria vencer em uma batalha de vontades contra ela. Eu raciocinaria que poderia confiar na minha querida amiga e entregaria a poção.
Mas eu ainda não tinha esquecido como ela tinha se agarrado a mim enquanto fingia dormir.
— Esperem aqui um momento — eu disse.
Vamos resolver isso antes que eu me esqueça.
Eu as fiz esperar no meu escritório enquanto pressionava o mecanismo e seguia para meus aposentos privados. Este era um espaço projetado para que eu pudesse viver em reclusão confortável. Havia, é claro, minha coleção de Relíquias e minha cama, mas também havia uma geladeira, banheiro, banheira e pia, todos conectados ao encanamento.
Com um longo alongamento, entrei no meu espaço privado e coloquei a poção na mesa. Então meus olhos caíram sobre a geladeira ao lado da minha cama. Abri e peguei uma garrafa de leite de morango. O bolo quase vencido tinha sido dado a mim, mas o leite era algo que eu havia comprado secretamente, porque meu desejo por doces era um segredo.
Eu servi um copo e devolvi a garrafa, depois comparei com a poção de nome estranho na mesa. Como esperado, os dois tons eram idênticos, assim como seus cheiros. Isso poderia realmente ser uma poção tão perigosa? Achei bem difícil de acreditar. Essa coisa era aparentemente chamada de “Chama de Morango”, o que eu acho que era porque cheirava a morangos. Havia mesmo um monte de poções estranhas por aí.
Experimentalmente, aproximei a garrafa de água dos meus lábios, mas então um dos anéis que eu estava usando começou a esquentar. Era o Alerta Vermelho, um anel que podia detectar o perigo se aproximando. Não poderia estar reagindo ao leite, o que significava que a poção era claramente perigosa.
Eu não achava que Sitri a usaria para o mal, mas ainda assim era uma poção terrível que havia destruído algumas nações. Era muito arriscado entregá-la à Sitri Má.
Desculpe, mas o Mil Truques vai aprender com aqueles que vieram antes e se livrar desta poção.
Sem hesitar, despejei-a na pia. O líquido que parecia e cheirava exatamente como leite de morango girou enquanto descia pelo ralo. Apenas para ter certeza de que a poção nunca entraria em contato com minha pele, enchi a garrafa com água e a enxaguei completamente.
Que alívio. Zebrudia estava salva. Tudo o que eu tinha que fazer era pedir desculpas à Sitri. A única coisa que eu tinha feito era descartar uma poção, mas eu tinha a sensação de um trabalho completo.
Olhei fixamente para a garrafa de água de metal. Pensei por um momento. Meus olhos dispararam entre o leite de morango na mesa e a garrafa de água. Discretamente, peguei o copo e despejei cuidadosamente seu conteúdo na garrafa de metal recém-lavada.
Verifiquei novamente e vi que o líquido balançando na garrafa era indistinguível do material que eu tinha acabado de descartar. A única diferença era que a Relíquia no meu dedo não estava me dando nenhum aviso. Que tipo de poção era idêntica a leite de morango?
Enquanto eu estava ali, Lúcia e Sitri desceram, provavelmente cansadas de me esperar.
— Krai, você ainda não terminou? Hm?! O-O que você está fazendo?!
— Ah, isso é, hããã—
Sitri correu até mim quando viu o copo e a garrafa de água nas minhas mãos. Quando notou o conteúdo da garrafa de água e os vestígios de leite de morango no copo, ela me olhou com horror.
— Tem um pouco menos. N-Não me diga. Você bebeu um pouco?!
— Não—
— Isso é ruim. Precisamos fazer um antídoto, e rápido. Você bebeu tanto disso sem diluir. Na pior das hipóteses, você pode acabar virando um boneco de carne, capaz apenas de receber ordens—
— Hã?! Siddy, o que foi isso?!
Sitri estava perdendo o controle. O sangue havia sumido de sua pele já pálida, e lágrimas estavam se formando em seus olhos. Em pânico, ela estava quase vesga. Se alguém tão calma e controlada quanto ela estava surtando, a poção devia ser mais louca do que eu havia percebido.
Sitri pegou a garrafa de água das minhas mãos e disse para Lúcia com uma voz aflita: — E-Eu estou saindo! Farei o que puder para fazer um antídoto! Lucy, cuide do Krai!
— Ah, espe—
Antes que alguém pudesse impedi-la, Sitri voou escada acima. Eu nem tive a chance de dizer nada. Tudo o que consegui dizer foi “Ah, isso é hããã” e “Não”. Naquela época, Sitri era organizada, mas você ficaria surpreso com o quão distraída ela já tinha sido. Acho que essa parte dela não havia sido realmente consertada, apenas subjugada.
Lúcia estava olhando ao redor descontroladamente. Com a falta de informação dela, eu não podia culpá-la por achar isso incompreensível.
— Eu disse a ela que não bebi.
— Mm-mmm. Irmão, você se sente bem?
Agora que você mencionou, me sinto um pouco cansado. Então, sim, nada fora do comum.
Fui até a geladeira e servi um copo de leite de morango gelado. Dei uma checada superficial no meu anel para ter certeza de que estava seguro, e então tomei um gole. O aroma doce de morangos se misturou ao aroma do leite encorpado. Era isso. Era leite de morango. Mas como uma profissional como Sitri havia sido enganada?
— Ela está indo fazer um antídoto para leite de morango — eu disse.
Por um momento, Lúcia olhou para mim em silêncio, seu olhar se tornando tão glacial quanto o de sua professora.
— Talvez devêssemos ir atrás dela? — ela disse.
Nos arredores da capital imperial ficava o distrito decadente, o setor de Zebrudia com mais crimes. Na fronteira entre ele e o distrito central, havia uma loja sombria, e lá dentro, Hugh Regland da Ordem Zero estava discutindo com o lojista. O interior estava repleto de uma variedade de itens, incluindo armaduras, armas de fogo e até medicamentos duvidosos.
Zebrudia era a mais próspera de suas vizinhas, e mercadorias de todos os tipos se reuniam em sua capital. Dar uma olhada em qualquer uma das lojas perto do distrito decadente certamente revelaria um ou dois itens de contrabando. Embora houvesse repressões, era difícil impedir a circulação por completo.
— Esta loja não lida com itens amaldiçoados! Como o senhor cavaleiro está ciente, é ilegal vender de má-fé tais bugigangas malignas.
— De fato, mas o senhor deve ter alguns itens escondidos debaixo do balcão, não é? Se me mostrar imediatamente, mostrarei clemência. Tenho permissão para revirar esta loja de cabeça para baixo, sabia? Hum. Tenho certeza de que há muitas violações apenas esperando para serem encontradas.
Ver o cavaleiro se inclinar descaradamente sobre o balcão fez o lojista rude e alguns dos clientes sombrios empalidecerem. Em Zebrudia, os cavaleiros tinham muita autoridade para reprimir criminosos, caçadores de tesouros e Relíquias perigosas. Embora raramente o fizessem, eles tinham permissão para investigar lojas, mesmo sem provas concretas. Além disso, havia a justificativa da profecia do Divinarium.
Mas o lojista apenas balançou a cabeça rapidamente em resposta à intimidação de Hugh.
— E-Eu não estou mentindo, senhor. Se lidássemos com itens amaldiçoados, eu poderia acabar sendo enfeitiçado. Eu teria que ser um louco para lidar com algo assim, ou mesmo deixá-lo entrar na minha loja. As outras lojas são iguais. — O lojista riu para si mesmo. — Bem, é possível que um acabe aqui sem que eu saiba—
Detectando uma pitada de verdade no olhar persuasivo do homem, Hugh estalou a língua.
— Tsk.
Este era o problema. Itens amaldiçoados eram geralmente indiscriminados. A Espada Demoníaca encontrada pelo Mil Truques tinha sido capaz de afetar até mesmo os discípulos do Santo da Espada. Embora nenhum deles tivesse morrido, isso foi porque eram excelentes Espadachins. A maioria das pessoas não conseguia suportar ser usada por um item amaldiçoado. Uma vez que um item amaldiçoado perdesse um portador, o próximo provavelmente seria alguém que não tinha discernimento.
Hugh já tinha ido a cinco lojas, e todas lhe deram a mesma resposta. Ele não sabia como aquela Espada Demoníaca tinha chegado às mãos do Mil Truques, mas este pedido era um fardo e tanto.
Ao sair da loja, Hugh viu outra com uma atmosfera sombria. Ele franziu a testa. As lojas adequadas já haviam sido checadas por outros cavaleiros. As que desrespeitavam a lei também haviam sido investigadas. Isso significava que qualquer busca adicional exigiria contato com o tipo de canalha que era evitado até mesmo no distrito decadente.
O distrito decadente estava efetivamente se tornando uma terra com leis próprias, um manancial de maldade. A Terceira Ordem havia tentado repetidamente e falhado em subjugar o poço caótico. Ex-caçadores de fantasmas de alto nível, organizações criminosas e sindicatos de magia todos tinham bases de operações no distrito, e as ruas labirínticas permaneciam sem mapeamento. Os criminosos não só controlavam a superfície, mas dizia-se que também controlavam os esgotos.
Hugh não se considerava incompetente, mas também não achava que chegaria a algum lugar invadindo diretamente. Esta investigação exigiria que ele se livrasse daquela armadura da qual tanto se orgulhava.
O Capitão Franz provavelmente não tinha antecipado isso quando ordenou a Hugh que cooperasse com o Mil Truques em nome da obtenção de informações. No entanto, era muito provável que isso fosse o que seria necessário para chamar a atenção do caçador.
Hugh achava difícil de acreditar que o Mil Truques o faria seu aprendiz de qualquer maneira, mas ele pensou que talvez pudesse ver algo interessante. Ele poderia vislumbrar as profundezas do poder que um Nível 8 comandava, aquilo que Hugh cobiçava.
Ele sorriu. Mesmo com a adversidade mais adiante, Hugh Regland seguia em frente.
Um princípio fundamental da Alquimia era que, se as condições fossem as mesmas, os resultados também seriam, não importando o Alquimista.
A disposição certa era necessária para se tornar um bom Mago; a qualidade e a quantidade de sua mana afetavam quais feitiços eles podiam usar, bem como seu poder. A Alquimia era diferente. Considerada uma fusão de ciência e magia, a interminável tentativa e erro de legiões de Alquimistas medianos e um punhado de gênios desenvolveram o campo lenta mas seguramente.
Carente de alta adaptabilidade e poder para sair do perigo, a Alquimia era uma má escolha para caçadores, fazendo com que os Alquimistas fossem gravemente negligenciados. Mas sua história remonta a muito tempo, e não era exagero dizer que a Alquimia havia construído as bases da sociedade moderna.
Com uma história tão longa, era natural que houvesse alguns resultados que foram apagados. Por exemplo, a poção de escravização, Chama de Morango. Nomeada por seu aroma de morango, esta poção foi um “resultado” que havia sido riscado.
A poção agia no cérebro de seres vivos, sendo uma única gota suficiente para reescrever a mente de qualquer criatura. Devido aos seus poderes que desafiavam as regras conhecidas das poções e às muitas nações que foram levadas ao conflito pela Chama de Morango, a receita da poção, o inventor e a família do inventor foram todos extintos.
Tudo o que era lembrado era seu nome e suas características distintivas. Rumores de sua recriação surgiam regularmente, mas nunca eram acompanhados de provas genuínas. Se a Chama de Morango permaneceu não replicada mesmo depois de centenas de anos, era justo presumir que havia sido feita com ingredientes bastante raros, ou que seu inventor tinha sido um verdadeiro gênio.
A lei imperial proibia até mesmo tentar recriá-la, mas dentro da principal instituição alquímica do império, o Instituto Primus, provavelmente não havia um único Alquimista que não tivesse considerado tentar. Embora nem todos necessariamente pretendessem usar a dita poção, para a maioria dos Alquimistas, o processo era mais importante do que os resultados. Seu verdadeiro desejo era ser pioneiro em uma maior compreensão e obter a verdade.
O Chefe Nickolaf Smoky, do Instituto Primus, olhou para a poção trazida por uma ex-aprendiz em pânico. Se isso fosse real, abalaria o mundo. Assim como nas histórias, o líquido nesta garrafa de água de metal era rosa opaco e cheirava a morangos.
— Impossível. — Olhando para dentro da garrafa, ele engoliu em seco. — Eu não pensei que restava nada disso. Eu não acredito.
— Um Mago na Academia de Magia de Zebrudia estava guardando em segredo.
— Um Mago, hein? Eu não sei sobre criá-la, mas suponho que armazená-la seria viável para um deles…
Com o quão únicos eram os efeitos da Chama de Morango, acreditava-se que a poção tivesse surgido através de uma combinação de magia e alquimia. Olhando para a garrafa de metal, ele percebeu que ela também era feita de maneira especial, com um interior encantado para preservar a qualidade. Pelo menos, isso não era uma coisa barata que você usaria para uma piada.
Então, acima de tudo, havia sua ex-aprendiz em pânico, Sitri Smart. Ex-membro do Instituto Primus e prodígio que havia se envolvido em vários projetos, ela também era uma conhecida caçadora de tesouros que havia estabelecido seu próprio laboratório em apenas alguns anos.
Um certo incidente lhe rendeu o título detestável de “Ignóbil” e causou sua expulsão do Instituto Primus. No entanto, ela visitava o instituto de vez em quando, mantendo contato com os vários laboratórios.
Seu cabelo e roupas estavam desgrenhados, sugerindo que ela havia corrido o mais rápido que pôde. Seu rosto estava pálido, como se fosse desmaiar a qualquer momento. Nickolaf sabia que ela era uma Alquimista dedicada que podia realizar experimentos moralmente questionáveis sem piscar. Ele nunca a tinha visto assim. Isso, no entanto, apenas aumentou a credibilidade da poção.
— Eu preciso de um antídoto! Krai acidentalmente bebeu sem diluir!
Entendo. Seus afetos ainda a fazem perder a calma.
Nickolaf evitou que esses pensamentos transparecessem em seu rosto enquanto soltava um suspiro profundo. Mesmo que este fosse seu antigo local, ele achou estranho que ela não guardasse uma poção tão lendária para si. Mas se o amor estava envolvido, isso explicaria.
Era a falha singular e fatal da Sitri Smart, de outra forma perfeita. Se não fosse por essa falha, seu lugar como a Prodígio teria sido inabalável. Embora possa não ter acontecido com muita frequência, dificilmente alguém poderia ser um bom Alquimista se chamados de seu amante repetidamente os fizessem empurrar experimentos importantes para outros e sair correndo para algum lugar.
A principal prioridade da Sitri normal seria a replicação, não um antídoto. Não, isso valia para qualquer Alquimista. Mesmo para um item mítico que ficou centenas de anos sem ser replicado, uma análise de uma amostra certamente revelaria uma ou duas dicas sobre como ele poderia ser replicado.
Se Sitri trouxe a poção sem hesitação, produzir um antídoto provavelmente teria sido mais difícil do que replicá-la. Exigiria tempo, instalações e mão de obra, não lhe deixando, portanto, outro lugar para onde recorrer. Ela fez isso independentemente do fato de que reproduzir a poção tornaria seu nome uma lenda. Ela estava disposta a jogar fora uma chance de glória.
— Você é uma Alquimista, não pode perder a compostura! — Nickolaf gritou para ela. Ela estava tentando manter a calma, mas não conseguia esconder seu nervosismo. — Controle-se, Sitri!
— Mas…
Em seu estado de pânico, Sitri estava se esquecendo de algo importante. Se ela tivesse sua presença de espírito habitual, ela definitivamente teria notado. Vendo-a agindo de forma tão vergonhosa, Nickolaf se sentiu compelido a repreendê-la.
A Chama de Morango tinha uma característica única não encontrada em nenhuma outra poção. De acordo com as lendas, você podia controlar totalmente qualquer pessoa a quem você desse uma poção de escravização. Isso, no entanto, levantava um problema: como a poção dizia a alguém a quem eles deveriam obedecer? Ela não escolhia apenas quem estivesse por perto. Algo tão não confiável não teria sido capaz de causar tanta tragédia.
Todos os tipos de pesquisadores tinham lutado com esse enigma. Todas as informações sobre a poção tinham sido apagadas, mas consultar livros de história permitiu que eles formassem e trocassem teorias. Eles chegaram a uma conclusão inevitável: a poção deve ter sido feita com técnicas que iam além das da alquimia.
Para ser preciso sobre seus poderes: a poção tornava a pessoa submissa a quem a dava. Foi assim que causou tanta dor. Esta era a característica definidora das poções de escravização, a razão pela qual a Chama de Morango não havia sido recriada em centenas de anos, e a causa de tantos Alquimistas tentarem entender essas poções na esperança de produzir as suas próprias. Determinar como infundir tal característica alteraria a história da Alquimia. Com sua natureza irracional, era menos semelhante à arte lógica da magia e mais próxima da arte não tão lógica das maldições.
A existência da Chama de Morango tornou-se conhecida e foi alvo de extermínio depois que um usuário faleceu, permitindo que um de seus escravos recuperasse a sanidade e escapasse. Este incidente também deixou claro que a poção podia reconhecer quem deveria ser obedecido e não podia ser enganada. Portanto, se você tomasse a poção, não haveria efeito.
O Mil Truques provavelmente a testou com isso em mente. Era uma coisa incrivelmente arriscada de se fazer, mas, e Nickolaf pensava isso há muito tempo, o Mil Truques teria sido um Alquimista muito bom.
— Um antídoto? — ele gemeu após um momento de hesitação. — Eu não posso recusar um pedido se for de uma ex-aprendiz. Vou preparar uma equipe imediatamente. E serei discreto sobre isso.
O Instituto Primus não era um monólito. Nickolaf poderia ser o chefe, mas tinha inimigos em todos os cantos. Com seus variados conjuntos de ética e objetivos, tentar unificar Alquimistas era uma tarefa tola. Embora o Instituto Primus não fosse tão ferozmente competitivo quanto a Academia de Magia de Zebrudia, não era inédito alguém ser morto por ingredientes valiosos.
Esta era uma oportunidade ideal. Eles produziriam um antídoto, mas Nickolaf também tentaria replicar a poção. Se ele pudesse fazer isso com sucesso e descobrir os princípios por trás da poção, isso abriria a porta para um conhecimento maior. Também poderia acender o pavio da guerra, mas como o conhecimento era aplicado não era da conta de Nickolaf.
Ele ordenou que sua assistente de confiança iniciasse os preparativos. Ela partiu com uma expressão tensa no rosto.
Assim que ela saiu, Sitri firmou a respiração e inclinou a cabeça. — Obrigada pela sua assistência.
Ela era uma excelente aluna. Excelente, mas com falhas. Como seu mentor, ele a achava competente e fácil de lidar.
Se o Mil Truques era um caçador de Nível 8, ele deveria ter uma absorção de material de mana excepcional. A capital imperial tinha pontos densos em material de mana, logo abaixo do limiar onde os fantasmas poderiam começar a aparecer, e este homem supostamente havia assumido vários cofres do tesouro de alto nível. Mesmo que a Chama de Morango tivesse levado nações à ruína, era possível que não tivesse nenhum efeito em um homem como ele.
Os poderes dos caçadores de tesouros de centenas de anos atrás não eram nada parecidos com os da era atual. A cada geração, os humanos se tornavam mais adequados para absorver material de mana. Neste aspecto, a humanidade só havia melhorado, nunca declinado.
Quando aquele homem se mostrou capaz de conversar apesar de ter supostamente bebido a poção, Sitri deveria ter sido capaz de deduzir que isso não havia tido nenhum efeito, mesmo que ela não entendesse o porquê. Seria essa cegueira induzida pelo amor? Nickolaf havia perdido essa emoção há muito tempo, mas o fracasso era a base do sucesso. Talvez este incidente fizesse Sitri dar uma boa olhada em si mesma.
Mas então, Nickolaf se viu atingido por uma intensa onda de tontura. O sino no canto de sua mesa começou a tocar alto. Levou apenas um momento para ele entender o que estava acontecendo. Ele colocou as mãos sobre a mesa e olhou ao redor, depois para a ventilação perto do teto.
O sino era um dispositivo que detectava gás, uma ferramenta necessária para qualquer laboratório de Alquimia. Isso era um ataque. Ele não sabia se era paralisante, indutor de sono ou tóxico, mas sabia que era feito para derrubá-lo.
Como parte de seu trabalho, ele usava material de mana para reforçar sua resiliência, então isso era algo extraordinário se fosse capaz de deixá-lo tonto. Apenas algumas pessoas poderiam ter liberado um ataque de gás tão profundo dentro do instituto. Sitri, sendo uma caçadora, parecia ilesa pelo ataque inesperado.
O propósito do ataque era muito claro. Nickolaf selou firmemente a garrafa antes de ativar todos os golens de guarda alinhados contra a parede. Os golens esguios e feitos sob medida se alinharam às suas ordens.
— Droga, eles já nos pegaram! Eu sou o chefe, droga! Meus golens, matem quaisquer aspirantes a ladrões que vierem atrás da poção! Eu não vou, repito, não vou entregá-la! Sitri é minha ex-aprendiz! Esta poção é material para meus experimentos!
Sua assistente o traiu? Ou alguém de outro laboratório viu Sitri parecendo em pânico e decidiu segui-la? De qualquer forma, todos iriam morrer. Nickolaf nunca desistiria de um ativo tão precioso. Ele pegou seu auto-antídoto onisciente (ainda em fase de teste) e o bebeu, aliviando sua tontura.
— Ummm — Sitri disse hesitantemente, notando a expressão tensa de Nickolaf —, eu gostaria de começar a trabalhar em um antídoto com toda a pressa possível—
— Sitri, se mexa! Não haverá antídoto se eles roubarem a poção de nós! Eles farão o que puderem para tirá-la de nós. Este gás é de uma variedade letal!
Os golens chutaram a porta e se moveram. No mesmo momento, uma explosão feroz abalou o prédio. Vento escaldante e fragmentos de golens voaram para dentro da sala. Essas pessoas estavam prontas para matar. Eles estavam determinados a pegar a poção, mesmo que tivessem que assassinar Nickolaf. Ele não podia deixar a notícia se espalhar ainda mais. Ele tinha que acabar com todos eles.
— Vamos, Sitri. Estamos em guerra!
A Ignóbil observou vagamente enquanto Nickolaf estava determinado, um brilho nos olhos.
Tradução: Carpeado
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