Grieving Soul â CapĂtulo 2 â Volume 8
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 08
CapĂtulo 02:
[Objetos Amaldiçoados]
Girei na minha cadeira e chequei o jornal. Graças ao pedido que levei a Franz, o jornal estava notoriamente vazio de qualquer menção aos eventos no distrito em decadĂȘncia que dominaram a primeira pĂĄgina de ontem.
NĂŁo tinha passado nem um dia desde que liguei para ele na Pedra Sonora, mas ele jĂĄ tinha feito um trabalho fantĂĄstico alterando o fluxo de informaçÔes. A lição aqui era que a influĂȘncia de um nobre era mais poderosa do que as conexĂ”es que Eva passou anos construindo.
Depois de verificar se havia algum outro artigo interessante, fechei o jornal e assenti com satisfação. Por causa dos esforços dele, hoje parecia ser o dia em que eu finalmente conseguiria relaxar e não fazer nada.
Soltei um bocejo, o que pareceu ser o ponto de ruptura para minha irmĂŁ, que estava por perto no sofĂĄ. Ela se levantou e disse:
â O que vocĂȘ planeja fazer hoje?
â Mmm? Hoje. Certo. Hoje vou recuperar minhas forças.
â Isso foi o que vocĂȘ fez ontem!
Eu evadi o olhar sem humor dela com meus métodos habituais.
â Bem, paciĂȘncia Ă© uma virtudeâ
â Por favor, nĂŁo me diga que vocĂȘ estĂĄ tentando justificar nĂŁo fazer nada.
LĂșcia era uma pessoa diligente. Ela costumava sorrir um pouco mais quando Ă©ramos crianças, mas sua personalidade nĂŁo tinha mudado. Ela sempre se manteve controlada e nunca perdia um compromisso. Ao contrĂĄrio de alguns de nossos amigos, ela geralmente nunca quebrava as regras e garantia de estudar diariamente. Um dia de folga por semana era o suficiente para ela. Se alguĂ©m tinha mudado, esse alguĂ©m era eu.
Seu olhar constante de desagrado era provavelmente porque ela estava em uma fase rebelde, e talvez porque pensasse que eu era um completo inĂștil. Na verdade, era louvĂĄvel que ela nĂŁo tivesse se livrado de mim. NĂŁo posso dizer que teria sido capaz de fazer o mesmo na posição dela.
â Aposto que todos os meus talentos e diligĂȘncia foram sugados por vocĂȘ â eu disse, reprimindo um bocejo e sentando no meu lugar habitual.
O olhar dela ficou alguns graus mais frio.
â NĂŁo somos nem parentes de sangue!
NĂŁo, escuta, quando vocĂȘ tem uma irmĂŁ mais nova tĂŁo competente, Ă© natural que vocĂȘ regrida. Ă uma questĂŁo de equilĂbrio.
Ter uma Grande Maga na minha famĂlia tambĂ©m me deu padrĂ”es irrealistas para Magos. LĂșcia era, pelo menos em parte, culpada pela forma como Kris, a Inferno Abissal, e muitos outros Magos estavam sempre chateados comigo.
â NĂŁo Ă© sempre que vocĂȘ me guarda dois dias seguidos â comentei.
â NinguĂ©m mais estava disponĂvel hoje â ela resmungou. â Somos pessoas ocupadas, vou te lembrar. AmanhĂŁ serĂĄ outra pessoa.
Eu nĂŁo tinha queixas. Com LĂșcia por perto, eu podia usar minhas RelĂquias o quanto quisesse, e fiquei feliz por termos a chance de passar um tempo como irmĂŁos juntos. Isso tinha se tornado algo raro ultimamente.
Antes de deixar nossa cidade natal, meus pais me disseram para proteger LĂșcia, mesmo que isso significasse me colocar em perigo. Sem querer me gabar, mas eu nĂŁo achava que havia uma Ășnica pessoa melhor do que eu quando se tratava de ser atingido primeiro.
Em desacordo com sua imensa estatura, Ansem tinha reflexos e velocidade. Ambos tinham sido, de certa forma, temperados por mim. Ele sempre me protegeria em qualquer situação, tornando-o o homem mais confiåvel do nosso grupo.
Apesar de finalmente termos um tempo entre irmĂŁos, LĂșcia estava com um humor terrivelmente pĂ©ssimo. Mas, assim que esse pensamento me ocorreu, tive uma ideia.
â Aqui â eu disse, batendo as palmas. â JĂĄ que vocĂȘ estĂĄ por perto, por que nĂŁo fazemos um novo grimĂłrio, como costumĂĄvamos fazer?
Quando ela estava apenas começando como Maga, eu frequentemente a importunava para fazer grimórios. O pensamento trouxe um sorriso nostålgico ao meu rosto.
â E-E â ela disse freneticamente â nĂłs nĂŁo sabemos o que os atacantes podem tentar, e eu sou a mais versĂĄtil! E a mamĂŁe me disse para cuidar de vocĂȘ.
â Hum, onde estĂŁo minhas canetas e cadernos?
â Ă-Ă isso mesmo! Minha instrutora vive me dizendo para te levar lĂĄ! VocĂȘ poderia vir comigo algum dia desses? Ela estĂĄ bem chateada porque de repente cancelei meu exame por causa do Festival do Guerreiro Supremoâ
â Eu tive! Que tal uma magia que transforma sua instrutora em um sapo?
â HĂŁ?! NĂŁo! Pare com isso!
Vermelha de raiva, Lucia tentou tirar a caneta de mim. Eu afastei meu braço, evadindo o toque dela. Como Maga, ela não era uma fisiculturista como Luke e Liz, mas ainda era mais forte do que eu. Ela me vencia em talento, treinamento e material de mana.
No entanto, ela estava naquela idade, entĂŁo, ao contrĂĄrio de, digamos, Liz ou Sitri, ela estava fazendo tudo o que podia para evitar contato fĂsico. Isso tornava fĂĄcil para mim desviar dela. AlĂ©m do mais, ao contrĂĄrio de Liz, ela nĂŁo conseguia se mover mais rĂĄpido do que eu podia piscar.
â Eu vou fazer isso â eu disse. â Vou transformĂĄ-la em um sapo. Sua instrutora deve ter um mau olho para as pessoas.
â HĂŁ?! Pare de dizer bobagens!
Ao contrĂĄrio das mentoras de alguns dos meus outros amigos, a instrutora de LĂșcia era uma pessoa estudiosa e racional, mas era exatamente isso que a tornava uma pessoa que vocĂȘ nĂŁo queria irritar. NĂŁo era que ela faria uma expressĂŁo assustadora ou ficaria violenta; ela apenas emitia uma pressĂŁo sufocante, e eu nĂŁo conhecia muitas outras pessoas capazes disso. O Ășnico mĂ©todo de sobrevivĂȘncia que eu conhecia era ficar perfeitamente Ă vontade.
Isso, no entanto, era algo que eu queria evitar. Ela era alguĂ©m que tinha feito muito por LĂșcia, entĂŁo eu tentava ser o mais afĂĄvel possĂvel com ela. O fato de LĂșcia ter perdido o exame acabou ajudando a resolver o incidente com a Chave da Terra, entĂŁo eu nĂŁo achava que a instrutora dela tivesse qualquer razĂŁo para estar muito chateada. Muita destruição tinha sido mitigada graças a LĂșcia.
â Eu tive.
â Pare de desviar! O quĂȘ? O que Ă©? Ei! IrmĂŁo! Ei!
Talvez eu pudesse confiar em Franz para resolver isso também. Nem mesmo um dos principais Magos do império poderia retrucar um nobre poderoso. E não é como se Franz pudesse gostar menos de mim a essa altura.
Cara, eu estou demais hoje. Todos deveriam ter um nobre entre seus conhecidos.
LĂșcia tentou se esgueirar por trĂĄs de mim, entĂŁo virei-lhe as costas e mantive a caneta longe. NĂŁo havia um propĂłsito real em tirar a caneta de mim, e se ela realmente quisesse, poderia ter usado magia, mas ela nĂŁo iria tĂŁo longe.
Certo, costumĂĄvamos brincar assim o tempo todo, pensei. No momento seguinte, fiz contato visual com uma Corrente Pombo (nĂŁo que ela realmente tivesse olhos) fora da minha janela. Outra carta de Matthis. Isso significava que eu tinha que parar de brincar com LĂșcia.
â Aqui, um momento â eu disse, entregando-lhe a caneta e abrindo a janela.
â HĂŁ?! Ah. Certo.
Matthis tinha acabado de me dizer que nĂŁo poderia vir fazer uma avaliação, entĂŁo o que ele poderia querer? Abri a carta e a examinei seriamente. LĂșcia ainda estava boquiaberta com a caneta. Li a carta uma vez, de novo, uma terceira vez, e mais uma vez por precaução. Tirei um momento para pensar, entĂŁo assenti.
â Tudo bem, LĂșcia, prepare-se para sair. Estamos indo para a casa do Santo da Espada agora mesmo!
â HĂŁ? O quĂȘ? O que aconteceu com nĂŁo sair?! O que tem nessa carta?!
â Esse era o plano, mas as coisas mudaram. NĂŁo acho que haja algo errado, mas vou me arrumar.
â Entendido.
A carta de Matthis era chocante. Aparentemente, na noite anterior, uma poderosa Espada DemonĂaca causou um incidente no dojo do Santo da Espada. Um Espadachim foi possuĂdo pela espada e iniciou um ataque desenfreado, resultando em uma dĂșzia de aprendizes feridos por cortes.
RelĂquias eram uma fonte de problemas bastante comum na capital imperial. Normalmente, eu apenas diria: âDroga, que azarâ, mas este incidente estava soando sinos demais. A mĂĄ notĂcia era que o dono do dojo, o Santo da Espada, nĂŁo estava presente na noite passada. A boa notĂcia era que, quando ele voltou pela manhĂŁ, conseguiu subjugar o Espadachim desenfreado e ninguĂ©m foi morto.
Matthis estava me contatando porque o Santo da Espada lhe havia trazido a RelĂquia para exame. Aparentemente, esta lĂąmina tinha as mesmas caracterĂsticas distintivas daquela que eu havia pedido para ele avaliar.
Eu nem tinha imaginado que aquilo era uma Espada DemonĂaca. NĂŁo senti nada quando a toquei, mas talvez isso fosse porque ela era do tipo que escolhe seu portador? Ou talvez sĂł ativasse Ă noite ou algo assim?
Seja como for, eu podia ter certeza de que nĂŁo deveria ter entregado aquilo a Luke. Ele nĂŁo era de forma alguma um cara mau, mas seu amor por espadas era anormal. Ele jĂĄ havia sido enfeitiçado por Espadas DemonĂacas antes, e eu podia facilmente imaginĂĄ-lo cortando alegremente seus colegas.
Mas isso era realmente diferente do seu eu habitual?
Qualquer que fosse o caso, esta nĂŁo era hora de dizer que eu nĂŁo queria sair. O Santo da Espada nĂŁo era apenas um mestre em sua arte, ele tambĂ©m era alguĂ©m que valorizava a cortesia. Embora eu nĂŁo tivesse tido a intenção de causar dano, meu presente tinha feito exatamente isso, o que significava que eu faria bem em me desculpar o mais rĂĄpido possĂvel.
O jornal nĂŁo mencionou nada parecido com este incidente, entĂŁo presumi que nada de muito terrĂvel tinha acontecido. Mas se eu tentasse agir como se a culpa nĂŁo fosse minha, definitivamente acabaria sendo fatiado. O Santo da Espada pode me perdoar, mas seus aprendizes eram um bando cruel. A Inferno Abissal tinha a força de uma legiĂŁo, mas os aprendizes do Santo da Espada tinham ainda mais. NĂŁo haveria lugar para mim na capital imperial se eu os irritasse.
à uma situação perigosa e estamos com pressa, então vamos pelo ar. Teremos que pegar o Tapete Voador ou a sua vassoura.
Eu ainda nĂŁo tinha controle total sobre o Tapete Voador. No entanto, como a vassoura de LĂșcia nĂŁo era uma RelĂquia, eu tinha que ir atrĂĄs dela. Ela nĂŁo me deixava fazer isso com muita frequĂȘncia, pois achava embaraçoso.
LĂșcia hesitou ao ouvir minha sugestĂŁo. â M-Muito bem â ela disse com uma voz baixa. â VocĂȘ pode ir atrĂĄs de mim. Aquele Tapete nĂŁo Ă© bom. Mas nĂŁo farei isso de novo.
â Valeu. MĂŁos Ă obra. Eu tenho que me trocar, entĂŁo vocĂȘ poderia aprontar a vassoura?
O Santo da Espada era um homem gentil, mas ele ainda era o mentor de Luke. NĂŁo havia como saber o que poderia acontecer.
Tenho que preparar minhas RelĂquias. Tenho que pedir a Franz para mediar. Tenho que manter o dano ao mĂnimo. NĂŁo podemos mudar o que jĂĄ aconteceu, mas tenho que garantir que o Santo da Espada nĂŁo fique mal na foto. Sim.
O Santo da Espada gostava de guerreiros, então ele definitivamente me perdoaria se eu não mostrasse hesitação ao me desculpar! Eu queria acreditar que isso daria certo!
Respirei fundo e, com a Pedra Sonora conectada a Franz em uma mĂŁo, corri para meus aposentos privados.
Nadoli e os outros aprendizes tinham estudado com o maior Espadachim da capital imperial e visto muitas armas famosas. Mas mesmo para eles, esta espada tinha um brilho encantador que era absolutamente Ășnico.
Em Zebrudia, espadas poderosas nĂŁo costumavam acabar nas mĂŁos de Espadachins puros, mas sim nas daqueles que eram caçadores. Nesta terra sagrada da caça ao tesouro, RelĂquias fluĂam a todo momento, mas apenas um pequeno nĂșmero delas eram do tipo espada, e apenas um punhado delas eram realmente poderosas. AlĂ©m disso, espadas eram um dos tipos de armas mais populares entre os caçadores, entĂŁo a maioria das espadas de qualidade acabava sendo usada pelo seu descobridor.
Na rara ocasiĂŁo em que uma poderosa arma do tipo espada entrava no mercado, nĂŁo se podia dizer por quanto ela seria vendida. Havia muitas rivalidades entre caçadores cobiçosos e nobres. Mesmo para um aprendiz do Santo da Espada, obter tal RelĂquia era um sonho distante.
Ă claro, havia obras-primas entre aquelas produzidas pelos ferreiros modernos. Estas eram mais do que suficientes para lutar contra fantasmas e monstros. Hoje em dia, as espadas eram bastante acessĂveis, e Nadoli e os outros aprendizes tinham as suas prĂłprias. Ainda assim, uma arma RelĂquia era, no entanto, algo que todos os Espadachins na capital imperial ansiavam. Se alguma coisa, aprender com o Santo da Espada lhes dava muitas chances de contemplar tais obras, tornando seu desejo mais forte do que o de seus colegas.
O aprendiz que havia trazido esta espada era um homem excĂȘntrico, o mais problemĂĄtico de todos os aprendizes. Era Luke Sykol, O Mil LĂąminas. Mais do que qualquer homem na capital imperial, ele amava e era amado por espadas. Seu pedido de aprendizado veio do nada, e ele quase instantaneamente se tornou um dos mais fortes do dojo.
Apesar das muitas anedotas ridĂculas sobre ele, como o fato de sua espada de verdade ter sido confiscada por causa de sua inclinação a cortar pessoas indiscriminadamente, ele era um membro de um dos melhores grupos de caça ao tesouro na capital imperial.
Cada um dos aprendizes do Santo da Espada foi admitido porque tinha potencial. No entanto, era preciso mais do que habilidade com a lĂąmina para eliminar os fantasmas que habitavam os Cofres. Limpar cofres exigia sorte, habilidade e companheiros confiĂĄveis, ainda mais nos cofres de alto nĂvel, onde RelĂquias apareciam com maior frequĂȘncia.
Contudo, embora ele tivesse quase matado muitos de seus colegas aprendizes durante as lutas, e fosse falho tanto como pessoa quanto como Espadachim, ele era, sem dĂșvida, um caçador de primeira linha. Para alguĂ©m que havia limpado muitos cofres alĂ©m dos caçadores normais, mesmo uma RelĂquia do tipo espada provavelmente nĂŁo valia a pena se preocupar.
Com o tempo, Nadoli aprendeu que o lĂder do grupo de Luke, o Mil Truques, era um colecionador de RelĂquias e tinha um bom nĂșmero de espadas em sua posse. NĂŁo havia nada de surpreendente nisso. O mentor de Nadoli, Soln Rowell, nĂŁo era um caçador, mas suas habilidades superavam as de muitos caçadores de alto nĂvel. Mais do que alguns grandes caçadores foram seus ex-alunos, e alguns lhe trouxeram espadas RelĂquias como um gesto de gratidĂŁo.
â Nosso lĂder, Krai, disse que esta era uma boa oportunidade e que eu deveria trazer isso â disse Luke.
O mentor deles estava em outro lugar. Normalmente, era impensåvel que aprendizes vissem um presente antes de seu mestre. No entanto, Luke não hesitou ao remover o pano preto e, em seguida, tirar a espada de sua bainha. Quando ele o fez, o tempo parou. No momento em que a viram, todos os aprendizes, com exceção de Luke, ofegaram.
A grande maioria das RelĂquias do tipo espada tinha suas origens na era do armamento mĂĄgico avançado. As armas daquela era nĂŁo eram apenas poderosas, mas tambĂ©m possuĂam beleza artĂstica. Esta, no entanto, era diferente de qualquer uma que conheciam.
A lĂąmina sinistra tinha um brilho vermelho, sua borda estava sem um Ășnico dente e reluzia com um brilho estranho. SĂł de olhar para ela os deixava inquietos. NĂŁo era de admirar que todos os aprendizes estivessem olhando para ela com olhos injetados, isso era algo demonĂaco.
Se isso aparecesse em um leilĂŁo, nobres, mercadores e caçadores estariam dando lances com intensidade raivosa. As espadas do mentor deles eram todas belas obras, mas nenhuma delas exigia atenção absoluta da maneira que esta peça diante deles fazia. Era humilhante pensar que um caçador de alto nĂvel era capaz de simplesmente dar algo assim como presente.
HĂŁ? â Luke sussurrou apreensivo. â Isso Ă© engraçado, eu poderia jurar que isso era preto.
As palavras de Luke não alcançaram os ouvidos de Nadoli. Seu coração palpitava, suas mãos tremiam e sua boca estava seca. Usou toda a sua força e conseguiu desviar o olhar da espada e olhar para Luke.
â Ei, para alguĂ©m que gosta tanto de espadas, como vocĂȘ pode dar isso de presente?
Luke nunca foi alguém limitado pelo bom senso. Se Nadoli se encontrasse na posição de Luke, jamais consideraria dar a espada a outra pessoa.
Luke olhou para ele inexpressivamente e apenas disse:
â Eu sei o que vocĂȘ quer dizer, mas Krai me disse para dar isso ao meu mentor. AlĂ©m disso, pense bem. Se eu possuĂsse isso eu nĂŁo poderia cortar o portador dela, certo?
â Entendi.
Na verdade, ele nĂŁo entendeu. O que Luke disse era incompreensĂvel para Nadoli, mas ele havia respondido sem pensar. Tudo bem. Ele poderia esquecer Luke por enquanto. O problema era o que fazer com esta espada.
Este era um presente para o mentor dele. Nadoli e os outros aprendizes estavam todos orgulhosos dele. Eles o respeitavam. Pegar uma espada destinada a ele seria imperdoĂĄvel, mas a alma de Espadachim de Nadoli sussurrava para ele. Era uma voz silenciosa, mas ele podia ouvi-la da mesma forma.
âSe vocĂȘ nunca pegar esta lĂąmina, pode realmente continuar como um Espadachim?â
â Tudo bem â disse Nadoli. â Mas esta espada Ă© uma RelĂquia. NĂŁo hĂĄ garantia de que nĂŁo seja uma Espada DemonĂaca, ou algum outro tipo de objeto amaldiçoado que prejudica seu portador. NĂŁo podemos dar algo perigoso ao nosso mentor.
Sua visão estava embaçada. Ele estava surpreso com a força por trås de sua própria voz. O
que ele disse era impossĂvel. Ele sabia que havia espadas que afetavam seus portadores de maneiras negativas, mas essas eram extremamente raras, e esta tinha vindo do Mil Truques. Isso nĂŁo poderia ser algo perigoso.
Mesmo que nĂŁo soubesse os resultados, Nadoli estava confiante de que eles jĂĄ haviam testado esta lĂąmina para descobrir seus poderes. NinguĂ©m era tĂŁo descuidado a ponto de dar uma RelĂquia desconhecida de presente, mesmo que o destinatĂĄrio fosse um poderoso Espadachim.
Embora as palavras de Nadoli soassem como uma desculpa, até para seus próprios ouvidos, Luke não parecia particularmente chateado.
â Hum â ele disse. â Ă, acho que vocĂȘ tem razĂŁo nisso.
Uma sensação inidentificåvel de prazer dominou Nadoli. Luke havia dado sua palavra. Mas este era Luke; talvez ele estivesse apenas sendo legal? Não importava. Nadoli não estava planejando roubar a espada. Ele só queria segurar a espada, balançå-la, apenas uma vez. Apenas uma vez. Provavelmente pensando a mesma coisa, os outros aprendizes se aglomeraram ao redor da espada e engoliram em seco.
Antes que alguém pudesse se adiantar, Nadoli falou com a mesma voz poderosa que usava ao treinar com os outros aprendizes.
â Se for esse o caso, permita-me testĂĄ-la antes que seja entregue ao nosso mentor. Por que nĂŁo garantimos que esta espada nĂŁo seja amaldiçoada?
Magia de voo nĂŁo era exatamente segura. Havia vĂĄrias maneiras de voar, como manipular a gravidade ou o vento, mas manter o equilĂbrio era difĂcil, independentemente do mĂ©todo. Apenas se fazer flutuar era administrĂĄvel, mas tentar se mover era onde a dificuldade aparecia. Falhar significava cair no chĂŁo, entĂŁo mesmo os melhores Magos muitas vezes lutavam com a magia de voo. Por esta razĂŁo, RelĂquias aviĂĄrias e criaturas aladas montĂĄveis eram caras.
Como permitir que apenas a prĂłpria pessoa voasse jĂĄ era difĂcil, havia um problema exponencialmente maior envolvido em voar com vĂĄrias pessoas. Era o suficiente para levar muitas naçÔes a formar Magos especializados apenas em magia de voo.
Enquanto isso, LĂșcia conhecia uma sĂ©rie de feitiços para voar.
Ficar em pĂ© e estĂĄvel no ar dependia diretamente das habilidades motoras do conjurador. No entanto, LĂșcia Rogier, O Avatar da Criação, tinha se esforçado ao mĂĄximo para igualar o grimĂłrio que eu havia feito com sonhos celestiais em mente. Eu tinha certeza de que nada era impossĂvel para ela. Provavelmente.
â Escuta, vocĂȘ precisa se segurar forte â ela disse severamente. â Eu posso ter pegado o jeito enquanto usava Kuuton, mas manter o equilĂbrio Ă© muito difĂcil.
â Ah, aquele feitiço com a pipa? VocĂȘ realmente tem umas ideias engraçadas.
â Hm?! Minha nossa!
Eu podia me lembrar vagamente de alguma história que lemos hå muito tempo que tinha uma cena com uma pipa. Talvez ela tivesse se inspirado nisso e desenvolvido um feitiço?
Heh. Acho que ela Ă© a irmĂŁ mais nova, afinal.
Assim que LĂșcia montou no cajado, quero dizer, vassoura, subi atrĂĄs dela. NĂŁo conseguia acreditar que ela podia cavalgar confortavelmente em algo tĂŁo estreito. Eu sĂł tinha andado na vassoura algumas vezes, mas cada vez me deixava com o traseiro dolorido.
â Talvez a pipa fosse melhor â eu disse.
Apenas se apresse e agarre-se!
Se ela ia latir para mim assim, entĂŁo nĂŁo vi outra escolha e a abracei. Quando ela terminou sua encantação, a vassoura começou a subir lentamente. Senti meu corpo cambalear. Com uma superfĂcie tĂŁo estreita, era difĂcil manter meu centro de gravidade estĂĄvel mesmo segurando Lucia.
Pude senti-la inspirar profundamente. EntĂŁo a vassoura acelerou instantaneamente. No momento seguinte, tĂnhamos voado pela janela do meu escritĂłrio. Tudo o que pude fazer foi tentar me segurar. Enquanto escoltava o imperador, segurar Kris em cima do corcel de ferro havia sido um calvĂĄrio, e aquilo nĂŁo era nem de longe tĂŁo rĂĄpido quanto a vassoura de Lucia.
Magos que podiam voar pelo ar Ă vontade eram tĂŁo poderosos que algumas naçÔes construĂam unidades militares em torno deles. A vassoura se aproximou de um prĂ©dio em velocidade vertiginosa, apenas para mudar de direção bem antes de colidir. Começamos a subir, as intensas Forças G me fazendo soltar um ruĂdo como um sapo sendo esmagado.
Agora que penso nisso, esta Ă© a primeira vez que ando na vassoura em uma cidade.
â Urgh. Eu nĂŁo consigo…
â NĂŁo faça esses ruĂdos estranhos! â Lucia gritou enquanto eu me agarrava desesperadamente a ela. â Eu consigo! Ă sua culpa que eu nĂŁo consiga controlĂĄ-la com tanta precisĂŁo!
â VocĂȘ estĂĄ indo muito rĂĄpido.
Minha visão girava e pensei que poderia vomitar. Meus Anéis de Segurança não estavam me ajudando, o que sugeria que as Forças G não atendiam às condiçÔes necessårias para ativå-los. Provavelmente, mal falhavam em atingir o limite. Não que eu achasse que me faria algum bem se ativassem.
Meu mundo girou e se torceu. Olhei rapidamente para baixo e vi dezenas de pessoas minĂșsculas tagarelando e apontando para o sĂșbito aparecimento de Lucia, a bruxa, voando em sua vassoura. EstĂĄvamos sobre a rua principal, que geralmente estava movimentada com carruagens indo e vindo, mas agora estavam quase todas paradas, com a atenção em nĂłs.
Mesmo em um lugar tão populoso quanto a capital imperial, não era todo dia que se via pessoas voando pelo céu. A velocidade da vassoura aumentou ainda mais, deixando os curiosos para trås.
â NĂŁo podemos permanecer estĂĄveis se eu diminuir a velocidade! â Lucia gritou por cima do vento rugindo. â VocĂȘ entende?! Como Ă© difĂcil?! Ficar ereta?! Assim?!
O vento era esmagador. Eu lutava para respirar. Eu senti que ela nem sempre voava em velocidades tĂŁo altas. Ou serĂĄ que eu tinha ficado mais fraco? Assim como com a vassoura, senti a pressĂŁo do ar ao usar o Andarilho Noturno, mas acho que aquela RelĂquia vinha com algum tipo de contramedida para suavizar o impacto.
Lucia â eu disse, absolutamente perplexo â vocĂȘ ficou boa â O quĂȘ?!
Por um momento, Lucia desapareceu. NĂŁo. Eu Ă© que desapareci.
Meu corpo inclinou. Meus braços relaxaram. No momento em que percebi algo disso, eu jå estava caindo. Agora não era o vento me puxando, mas sim o chão. Eu estava indefeso. Isso, no entanto, não me impediu de ficar à vontade. Eu estava acostumado a cair, e tinha meus Anéis de Segurança.
Lucia gritou quando percebeu que eu tinha caĂdo, seus berros ecoando por toda a capital imperial.
â POR QUĂ?! IRMĂOOO!
Lucia geralmente era calma, mas agora estava pålida como um fantasma e gritando entre respiraçÔes ofegantes.
â Eu nĂŁo entendo!
â Bela defesa!
â IrmĂŁo, por favor, nĂŁo brinque sobre isso!
Eu não sabia o que dizer. Eu não estava tentando fazer piadas. O que ela esperava? Eu até caà do corcel de ferro, então é claro que minhas mãos escorregariam se fÎssemos tão råpido quanto fomos. Que bom que Lucia era tão confiåvel. Kris também era confiåvel, mas não tanto quanto minha irmã. Mesmo que não fÎssemos parentes de sangue, eu estava orgulhoso de ser o irmão mais velho dela.
â NĂŁo consigo acreditar que vocĂȘ conseguiu descer e me pegar â eu disse. â VocĂȘ realmente sabe voar nisso.
Acho que foi uma espécie de acrobacia? Quando eu estava em queda livre, ela me alcançou, gritando o tempo todo, estendeu a mão e me pegou com o braço direito. Era o tipo de coisa que virava lenda.
Agora eu tinha me acostumado com a velocidade da vassoura. A paisagem urbana vista de cima era tĂŁo bonita que quase me esqueci de manter meu aperto em Lucia.
â Mais uma vez â ela disse â, eu aprendi uma habilidade completamente inĂștil.
â Bem, aprender Ă© construir experiĂȘncias â eu respondi.
â HĂŁ?! Apenas peça desculpas!
Talvez ela tivesse razĂŁo. Talvez eu estivesse, um pouco demais, acostumado a fugir das garras da morte. Bem, fugir nĂŁo era bem a palavra certa.
Certificando-me de não puxar o cabelo dela, apertei meu abraço para não cair novamente.
â VocĂȘ me salvou de verdade naquela hora â eu disse.
Na prĂłxima, nĂŁo vou me incomodar.
Todos deveriam ter uma Maga competente como irmĂŁ mais nova. Ela recarregava minha RelĂquia, e se nĂŁo fosse por ela, eu teria desmoronado hĂĄ muito tempo. Bem, mesmo sem Luke e os outros, eu teria desmoronado.
Ou talvez se nĂŁo fosse por eles, eu estaria aposentado e vivendo uma vida pacĂfica? No momento em que isso me veio Ă mente, parei de pensar. O futuro Ă© o que importa, nĂŁo o passado.
Mudando meu ritmo, aguentei o vento e olhei para frente, onde vi algo inacreditåvel. Não pude evitar esfregar os olhos e olhar novamente. Eståvamos indo em direção ao lugar onde o dojo do Santo da Espada deveria estar.
â Que engraçado â eu disse. â NĂŁo havia um prĂ©dio grande aqui?
Lucia nĂŁo respondeu.
Soln Rowell, o Santo da Espada, era considerado o Espadachim mais forte da capital imperial. Embora ele nĂŁo fosse um caçador de tesouros, as habilidades que ele havia dedicado sua vida a aprimorar eram superadas por apenas alguns caçadores de alto nĂvel, e ele era considerado um dos melhores Espadachins de todos os tempos.
Em uma terra como Zebrudia, onde as habilidades marciais eram exaltadas, ele era naturalmente um homem de renome, com autoridade comparĂĄvel aos nobres mais poderosos. Se contĂĄssemos as filiais, ele tinha dezenas de dojos sĂł na capital imperial.
Se a memĂłria nĂŁo falhava, o prĂ©dio aqui era um presente doado em sinal de respeito por um aprendiz que tambĂ©m era da nobreza. Era o dojo principal, e deveria estar aqui. Eu conseguia me lembrar da emoção que senti, dos gritos de alegria que Luke e eu havĂamos soltado quando o vimos pela primeira vez. Agora, nĂŁo havia sequer um vestĂgio restante.
Espere, nĂŁo. Talvez haja isso de vestĂgio.
â Eles demoliram? â eu me perguntei. â Era bem novo.
Lucia nĂŁo disse nada.
Agora havia uma montanha de escombros onde antes existia uma enorme årea de treinamento. Ao redor, havia uma multidão agitada de curiosos e cavaleiros aqui para manter a ordem. Havia uma parede ou pilar esporådico ainda de pé, mas isso obviamente levaria algum tempo para ser reparado.
No entanto, o que chamou minha atenção foi a caracterĂstica marcante do dojo. Era uma torre alta no centro do prĂ©dio. Agora tinha sumido. Bem, nĂŁo tinha sumido. Ela estava lĂĄ, mas estava cerca de um terço mais curta. Eu nĂŁo estava imaginando. Eu podia dizer, com o telhado desaparecido e tudo. Tudo o que pude fazer foi rir.
â EstĂŁo reformando? Lucia, isso parece mais baixo que o normal? Ha ha ha.
Ela permaneceu em silĂȘncio. Minha risada seca desapareceu com o vento.
Isso nĂŁo pode ser real! Como? Como vocĂȘ encurta uma torre assim? HĂŁ?
Por que algo tĂŁo grande nĂŁo estava nos jornais? Isso definitivamente foi resultado de um desastre. O que era estranho era que os outros edifĂcios estavam bem. Provavelmente nĂŁo era visĂvel do chĂŁo, mas a superfĂcie da torre sugeria que ela tinha sido…
Apertei meus braços em torno de Lucia, que ainda não estava dizendo nada.
â Olha, Lucia. Parece quase que foi cortada com uma espada. Mas isso nĂŁo pode ser!
VocĂȘ precisaria de uma lĂąmina enorme! Ei, diga alguma coisa. Lucia?
Finalmente, ela respondeu.
â IrmĂŁo, seu idiota â ela murmurou.
Isso parecia ruim. Era possĂvel que a culpa fosse minha. AlguĂ©m havia se ferido? Quem fez isso? Foi Luke? Eu poderia resolver isso com dinheiro e sĂșplicas? Eu poderia simplesmente dizer que nunca imaginei que algo assim aconteceria? E como uma espada havia destruĂdo um prĂ©dio? Isso nĂŁo era estranho?
E-Eu quero fugir. Mas nĂŁo posso.
Talvez se eu estivesse sozinho, mas eu estava aqui com minha irmĂŁzinha. Ela jĂĄ tinha visto meu lado ruim muitas vezes, mas eu ainda tinha meu orgulho.
â Parece que hĂĄ pessoas reunidas no dojo â ela disse. â Acho que vejo Luke tambĂ©m. Vou nos levar para lĂĄ.
Mantendo um aperto firme em Lucia, movi minha cabeça para que pudesse ver o centro do prĂ©dio destruĂdo. Ela estava certa, eu podia ver algumas figuras em meio aos escombros.
â VocĂȘ Ă© terrivelmente corajosa, Lucia.
O Santo da Espada supostamente se orgulhava muito deste prĂ©dio. Mesmo que eu estivesse apenas indiretamente relacionado, eu nĂŁo tinha ideia do que ele poderia me dizer agora que havia sido destruĂdo. NĂŁo ajudava o fato de Luke estar sempre lhe causando problemas. Luke era sĂ©rio quando se tratava de assuntos como força e espadas, mas nĂŁo tinha boas maneiras e nĂŁo demonstrava respeito por dinheiro e autoridade.
Considerando que alguns deles eram nobres, tenho certeza de que alguns dos colegas aprendizes de Luke jĂĄ nĂŁo gostavam dele. Isso sĂł jogou lenha na fogueira.
â De quem Ă© a culpa disso? De quem?!
â S-Segura aĂ. SĂł um momento. Eu nĂŁo pensei, ah, certo! Eu nĂŁo pensei que alguĂ©m tĂŁo inabalĂĄvel quanto o homem considerado o Espadachim mais forte de Zebrudia perderia para uma Espada DemonĂaca.
Ela nĂŁo disse nada.
AlĂ©m disso, eu nem sabia que aquilo era uma Espada DemonĂaca. Claro, parecia bastante sinistra, mas Luke e eu tĂnhamos estado com ela. Droga de Eliza. Ela sempre ficava olhando para o horizonte, mas de alguma forma conseguiu encontrar um verdadeiro pesadelo de item.
Enquanto eu tentava inventar uma nova desculpa, Lucia silenciosamente mudou de curso e acelerou.
Nadoli havia falhado. Para um aprendiz direto do Santo da Espada, isso era uma desgraça. Ele estava disposto a abrir o estÎmago para se arrepender. Seu braço direito decepado, a dor que atormentava seu corpo, nada disso o incomodava tanto quanto o choque do que havia acontecido.
Havia apenas uma razĂŁo pela qual ele havia se impedido de tirar a prĂłpria vida.
â Cara, que noite incrĂvel. Eu sabia que Espadas DemonĂacas deixavam as pessoas muito fortes, mas caramba, eu nĂŁo esperava tanto. Krai, seu gĂȘnio maluco!
â Urgh. O que houve de genial nisso?!
Era por causa do homem sorridente e coberto de poeira Ă sua frente. Embora ele fosse quem havia trazido a origem de tudo aquilo, Luke Sykol nĂŁo apenas parecia desprovido de malĂcia, mas estava de Ăłtimo humor. Na frente deste homem, Nadoli nĂŁo podia, de jeito nenhum, cortar o prĂłprio estĂŽmago.
Um renomado dojo que havia produzido incontĂĄveis grandes Espadachins agora estava em ruĂnas. O portĂŁo imponente, as paredes externas e o teto estavam todos arruinados. Era difĂcil pensar que alguĂ©m olharia para isso e imaginaria que tudo havia sido causado por uma Ășnica espada.
Mesmo depois de limpo, o cheiro de sangue ainda pairava no ar. Normalmente seria improvĂĄvel que uma Ășnica espada causasse tanta destruição, mas aquela nĂŁo era uma espada comum que o Mil Truques havia enviado.
Espadas DemonĂacas vinham em diversas variedades. Algumas concediam poder em troca de algo, algumas mudavam de função dependendo dos talentos de seus portadores, enquanto outras escolhiam seus portadores e os elevavam a Espadachins de primeira linha. Nem todas as espadas da Era do Armamento MĂĄgico Avançado podiam ser compreendidas atravĂ©s da sensibilidade moderna.
NĂŁo foi atĂ© que tudo acabasse que Nadoli percebeu que esta lĂąmina era perigosa atĂ© mesmo para os padrĂ”es de uma Espada DemonĂaca. No momento em que agarrou aquela espada enfeitiçante, sentiu um desejo irresistĂvel de brandir a lĂąmina e uma sensação de onipotĂȘncia, como se o mundo inteiro fosse seu para tomar.
Todos os Espadachins sentiam uma estranha sensação de euforia ao segurar uma espada pela primeira vez, mas aquilo era algo vårias milhares de vezes mais forte que havia exilado todas as outras emoçÔes de Nadoli.
Geralmente se esperava que os Espadachins não apenas soubessem como brandir uma lùmina, mas também tivessem bom caråter. Isso era para que pudessem usar suas habilidades adquiridas de forma adequada. Era em parte porque Luke dedicava toda a sua paixão unicamente à esgrima que ele ainda não era considerado um dos melhores.
Nadoli deveria ter percebido antes. Ele deveria ter ficado em guarda no momento em que sentiu aquelas pontadas sinistras, no momento em que pĂŽs os olhos na espada. Ele deveria ter resistido aos seus impulsos e exercido autocontrole. Ele deveria ter sido um modelo para seus colegas aprendizes.
Um desejo por força. Inveja. Animosidade. Vaidade. Espadas DemonĂacas podiam se agarrar Ă fraqueza do coração humano. Muitas dessas lĂąminas eram capazes de inspirar medo, mas tambĂ©m eram poderosas, com formas belas Ă altura. Um simples golpe com esta poderia cortar o mundo. Era leve como uma pena. Podia cortar tudo, atĂ© o ar, sem impedimentos. Em termos de puro poder, esta Espada DemonĂaca provavelmente tinha poucos rivais.
Ela se adaptou Ă mĂŁo de Nadoli quase como se tivesse se tornado parte dele, como se sempre estivesse ali. NĂŁo, nĂŁo era isso. Quando Nadoli a agarrou, sentiu como se ele fizesse parte dela, como se cortar criaturas fosse sua razĂŁo de existir.
Luke era um manĂaco que nĂŁo apenas nĂŁo se incomodou com os ataques de um colega aprendiz, mas realmente começou a contra-atacar. Embora se nĂŁo fosse por ele, Nadoli poderia ter matado todos os outros aprendizes. Claro, se Luke nĂŁo tivesse trazido aquela espada, nada disso teria acontecido em primeiro lugar.
Luke Sykol era um garoto-problema. Ele tinha uma paixĂŁo direta por golpear e tinha cortado muitas pessoas, incluindo colegas aprendizes. No entanto, ele nĂŁo havia destruĂdo muitos edifĂcios. Arruinar o dojo e causar tanto alvoroço a ponto de forasteiros ouvirem falar disso era a primeira vez. Cavaleiros jĂĄ haviam chegado para perguntar o que havia acontecido. NĂŁo haveria como esconder isso, nem seria perdoado.
Nadoli podia se lembrar claramente do que havia acontecido enquanto estava Ă mercĂȘ da Espada DemonĂaca. Gravado na parte de trĂĄs de suas pĂĄlpebras estava a visĂŁo do rosto inexpressivo de seu mentor quando ele chegou para encontrar o dojo em ruĂnas, os aprendizes caĂdos, um de seus aprendizes possuĂdo por uma Espada DemonĂaca, e Luke ansiosamente contra-atacando.
O mau desempenho de seus aprendizes afetava a reputação do próprio Santo da Espada. Este incidente era responsabilidade de Nadoli. Embora seu mentor pudesse perdoå-lo, isso não vinha ao caso.
â Ahhh. Aquilo foi Ăłtimo â disse Luke. â Super forte. Deixe para o Krai me entender de verdade. Era isso que eu queria! O Ășnico problema foi que eu nĂŁo pude lutar com o nosso mentor, jĂĄ que ele nĂŁo estava aqui e tudo o mais.
â V-VocĂȘ Ă© um pateta! â disse Nadoli. â Nosso mentor jamais cederia a uma Espada DemonĂaca!
As pilhas de aprendizes caĂdos foram todas levadas para que seus ferimentos pudessem ser tratados. As Ășnicas pessoas que restavam eram aquelas que haviam chegado depois do ocorrido. As poças de sangue haviam sido limpas e as partes do corpo decepadas removidas.
Na noite passada, os Ășnicos no dojo eram aqueles que mostravam dedicação excepcional. Mas muitas dessas vĂtimas nĂŁo tinham sido cortadas por Nadoli. Ele olhou feio para Luke, que estava mais do que feliz em lutar contra ele.
Nadoli nĂŁo foi o Ășnico a sucumbir ao fascĂnio da Espada DemonĂaca. Quando ele nĂŁo conseguia mais se mover, outro aprendiz foi atraĂdo pela espada, e quando este nĂŁo conseguia mais se mover, outro aprendiz foi atraĂdo e atacou Luke, a Ășnica pessoa nĂŁo afetada pela espada.
Mesmo uma Espada DemonĂaca ainda dependia da força de seu portador. Depois de derrubar Nadoli, Luke deveria ter sido capaz de levar os outros aprendizes para uma distĂąncia segura antes que qualquer um deles pudesse alcançar a espada.
No entanto, este homem…
A fonte desta tragédia agora havia sumido. Ela foi devolvida à sua bainha e embrulhada no pano em que Luke a trouxe antes de ser levada por seu mentor. Assim que fosse examinada por um especialista, ficaria claro o quão perigosa era aquela espada. Isso também deveria ajudå-los a entender o que o Mil Truques estava pensando quando a enviou.
Enquanto Nadoli estava sentado, fumegando, Luke cruzou os braços e olhou para ele.
â NĂŁo precisa ficar tĂŁo melancĂłlico â ele disse alegremente. â Ansem pode substituir um braço perdido! Esse tipo de coisa Ă© a especialidade dele! Temos algumas pessoas que precisam da ajuda dele, entĂŁo serĂĄ um bom treino para ele.
O prĂłprio Luke tinha vĂĄrios ferimentos, mas nĂŁo parecia estar sentindo dor alguma.
â N-NĂŁo Ă© esse o problema!
Ele era tĂŁo casual. NinguĂ©m jamais pensaria que ele tinha acabado de cortar tantas pessoas. NinguĂ©m pensaria que ele quase tinha matado tantas pessoas. Mesmo depois de ser repreendido por Nadoli, ele nem sequer estremeceu. Os aprendizes reunidos olhavam gravemente para os dois. Eles nĂŁo diziam nada, em parte porque estavam deixando o julgamento para seu mentor, mas tambĂ©m porque Luke ocupava uma posição Ășnica entre eles.
As palavras nĂŁo tinham efeito sobre Luke. Apesar disso, ele estava transbordando de talento, amava espadas mais do que qualquer um e nĂŁo tinha escrĂșpulos em cortar e ser cortado. Ele nĂŁo cedia Ă autoridade e perseguia ambiçÔes por força, o que lhe rendeu muitos amigos e inimigos.
Seu maior problema, no entanto, era que ele era tĂŁo irrestrito que nĂŁo era difĂcil imaginĂĄ-lo cortando colegas aprendizes e destruindo o dojo mesmo sem o envolvimento de alguma Espada DemonĂaca. Se Nadoli nĂŁo tivesse se envolvido diretamente e tivesse apenas ouvido falar disso depois, ele provavelmente teria apenas ignorado como mais um comportamento selvagem de Luke. Depois de todos esses anos, Nadoli o conhecia bem.
Por que ele ainda estava tĂŁo profundamente chateado com alguĂ©m imune a palavras? AtĂ© mesmo o mentor deles havia parado de falar com o prĂłprio Luke e, em vez disso, começou a procurar o lĂder de seu grupo, o Mil Truques.
Foi a inexperiĂȘncia de Nadoli que permitiu que ele fosse atraĂdo por aquela espada. Ele nĂŁo podia mostrar o rosto para a famĂlia, amigos ou seu mentor. Ao mesmo tempo, no entanto, ele ainda tinha objeçÔes que sentia a necessidade de levantar, por mais patĂ©ticas que pudessem ter sido.
â NĂŁo estou mais falando com vocĂȘ! â disse Nadoli a Luke. â Deixe-me falar com o Mil Truques! Eu quero falar com o seu lĂder! Eu preciso saber o que ele estava pensando quando nos enviou aquela espada! VocĂȘ entende? VocĂȘ pode nĂŁo saber disso, Luke, mas nesta terra, enviar uma Espada DemonĂaca a alguĂ©m sem aviso Ă© uma violação da lei! Eu me recuso a acreditar que ele era ignorante! Eu nĂŁo engulo isso! Eu nĂŁo me importo com o que nosso mentor diga, eu quero falar com o Mil Truques!
â O quĂȘ? Calma, Nadoli. Krai nĂŁo fez nada de errado. Eu perguntei se ele tinha alguĂ©m que eu pudesse cortar. AĂ ele me deu isso.
Quem diabos responderia a um pedido como esse dando uma espada que corroĂa o coração das pessoas? Nem mesmo um NĂvel 8 deveria fazer coisas assim. NĂŁo era sĂł Luke? NinguĂ©m dos Grieving Souls tinha qualquer consideração pela lei? E deixa para lĂĄ. Por que Luke estava pedindo alguĂ©m que ele pudesse cortar?!
Nadoli resistiu à dor surda que sentia em seu abdÎmen. Talvez em sua empolgação, ele tivesse reaberto acidentalmente seus ferimentos. Ele começou a se sentir fraco, mas tinha que aguentar. Ele não se permitiria nem mesmo visitar um médico até que tivesse resolvido isso. Ele tinha que aguentar firme pelo menos até que seu mentor retornasse.
Luke olhou abruptamente para cima e começou a acenar com a mão.
â Ah, Ă© o Krai! Por aqui! â ele gritou.
â O-O quĂȘ?!
Nadoli ignorou os protestos de seu corpo e forçou-se a ficar de pé, onde foi então atingido por uma forte rajada de vento. Tendo sido impulsionado por pura força de vontade, seus joelhos cederam e ele caiu para trås. Sentindo formigamento por todo o corpo, ele soltou um grito sem voz. Os outros aprendizes abriram um espaço.
EntĂŁo, descendo Ă sua frente, estava uma garota de cabelos pretos. Ela estava montada em uma vassoura e era estranhamente bela. Seu cabelo liso se estendia atĂ© a cintura, e sua pele pĂĄlida nĂŁo tinha uma Ășnica falha. Embora sem calor, ela era bonita e carregava uma aura de inteligĂȘncia. Seu traje de Maga preto-puro tinha um estilo discreto, mas sua impressĂŁo mĂstica lhe caĂa perfeitamente.
NinguĂ©m voava em vassouras. NĂŁo fora dos contos de fadas. Nadoli esqueceu de respirar. Esqueceu sua dor, esqueceu sua raiva. Talvez os outros aprendizes sentissem o mesmo, jĂĄ que ninguĂ©m disse nada sobre o sĂșbito aparecimento desta misteriosa Maga de conto de fadas.
Em meio ao silĂȘncio abrupto, apenas Luke nĂŁo foi afetado.
â Krai! VocĂȘ veio! â ele disse, soando estranhamente satisfeito. â Aquilo foi o mĂĄximo. Eu cortava um, e outro agarrava a espada e vinha para cima de mim. Aquela coisa tinha um corte e tanto.
â L-Luke?! â gritou Nadoli. â Do que vocĂȘ estĂĄ falando? O Mil Truques Ă© um homem.
Isso não podia estar certo. Nadoli jå tinha visto o Mil Truques antes. Ele estava lå quando Luke se juntou ao dojo, e ele havia visitado vårias vezes depois disso. Ele era um homem com cabelos e olhos pretos, com um rosto que poderia ser educadamente descrito como gentil ou rudemente descrito como sem graça.
Mas havia a questĂŁo do gĂȘnero. O Mil Truques era um homem! NĂŁo alguma garota bonita. A Ășnica coisa que tinham em comum era a cor dos cabelos e dos olhos, e dizer isso era um insulto Ă garota.
Os aprendizes supostamente temperaram suas mentes e coraçÔes sob o Santo da Espada, mas estavam recuando. Alguns deles nem sequer estavam escondendo seus olhares de escrutĂnio.
A força vinha de muitas formas. Muito poucos dos aprendizes do Santo da Espada eram mulheres, e a maioria delas tinha um fĂsico poderoso comparĂĄvel a Nadoli e aos outros. Para muitos Espadachins, embora nunca admitissem sob qualquer coação, era seu sonho proteger uma Maga frĂĄgil, trĂĄgica e adorĂĄvel.
Enquanto todos os outros aprendizes ficaram sem fĂŽlego, Luke piscou, depois franziu a testa.
â HĂŁ? Ah. LĂșcia Ă© a irmĂŁ mais nova do Krai. Embora eu nĂŁo a veja muito em uma vassoura. O que foi, LĂșcia? Treinando?
â Na verdade â ela disse apĂłs uma pausa. Sua voz carregava um toque agradĂĄvel.
Nadoli duvidou de seus ouvidos. A irmĂŁ de Krai?! Isso nĂŁo podia ser.
EntĂŁo, do fundo da vassoura desceu a fonte de toda essa loucura.
â O Krai estĂĄ aqui â Luke, ensopado em sangue, sussurrou fervorosamente. â Isso nĂŁo acontece hĂĄ muito tempo!
Ele parecia de bom humor, embora eu nĂŁo tivesse a menor ideia do porquĂȘ.
O dano parecia ruim de cima, mas parecia ainda pior visto de perto. Eu não tinha absolutamente nenhuma ideia do que havia acontecido, mas a visão da torre quebrada, dos portÔes que agora eram escombros e das rachaduras profundas que cicatrizavam o chão faziam meu estÎmago embrulhar.
Eu nĂŁo tinha absolutamente nenhuma ideia do que havia acontecido, mas senti vĂĄrios olhares fixos em mim. Os estudantes do estimado Santo da Espada se levantaram do chĂŁo como zumbis. Eu nĂŁo tinha absolutamente nenhuma ideia do que havia acontecido, mas Luke estava encharcado de sangue e inexplicavelmente alegre.
Eu nĂŁo tenho absolutamente nenhuma ideia do que aconteceu! Absolutamente nenhuma!
Lucia agarrou a cabeça e soltou um suspiro. Ela provavelmente estava pensando que tinha mais uma bagunça para resolver. Ela nĂŁo estava errada; terĂamos outra catĂĄstrofe se deixĂĄssemos Luke limpar.
Grupos se resumem a assistĂȘncia mĂștua, pensei enquanto lhe dava um tapinha nas costas.
â NĂŁo tem muita gente querendo lutar comigo ultimamente, e minha lĂąmina estava ficando sedenta por sangue. Obrigado, Krai! Para siempre!
â No gracias, para siempre, yay!
Luke estendeu a mĂŁo para um high five, entĂŁo eu o acompanhei e o satisfiz. Fiquei feliz por ele estar se divertindo. Mas, como suspeitava, nĂŁo era o prĂłprio sangue dele que o cobria. NĂłs o fizemos usar uma espada de madeira para evitar que ele cortasse pessoas indiscriminadamente, mas nĂŁo adiantava se ele continuasse fazendo isso de qualquer maneira!
Mas esta dificilmente era a primeira vez que eu queria dizer isso a ele. Esta também dificilmente era a primeira vez que ele causava problemas para o Santo da Espada. A maioria das pessoas morreria se fosse cortada por Luke, mas um Espadachim com material de mana era feito de material resistente. Sua vitalidade superava o normal para um humano. Se alguém tivesse morrido, ele estaria com muito mais problemas, então ele mais uma vez evitou isso por pouco. Os ataques violentos de Luke jå foram uma grande fonte de ansiedade para mim, mas agora eu estava acostumado com eles.
â VocĂȘ estĂĄ bem? â perguntei. Pensei que seria bom, jĂĄ que eu era amigo dele e tudo mais.
â Sim, estou bem. Consegui desviar da maioria deles. Se eu tivesse que dizer, este Ă© o meu Ășnico ferimento enorme.
Luke arregaçou a manga, revelando um braço musculoso com um corte horizontal profundo. Obviamente era um corte profundo. Eu teria morrido com algo assim, mas Luke não parecia estar sentindo dor alguma.
O que estĂĄ acontecendo com o seu corpo?
Enquanto eu lutava por palavras, Luke calmamente ajeitou a manga e olhou para Lucia.
â Certo, Lucia â ele disse. â VocĂȘ poderia ligar para o Ansem? Temos vĂĄrios caras com braços faltando.
Eu podia ouvir aqueles caras dizendo alguma coisa.
Pensei que poderia deixar os feridos sob os cuidados de LĂșcia e simplesmente nĂŁo pensar muito em nada disso, mas os olhares estavam ficando insuportavelmente intensos. As pessoas neste dojo me tratavam como se eu fosse responsĂĄvel pelo comportamento de Luke. Ou talvez fosse mais preciso dizer que Luke nĂŁo ouvia as pessoas, entĂŁo todas as reclamaçÔes acabavam sendo direcionadas a mim.
Que bagunça ele havia causado desta vez. Luke adorava cortar pessoas, mas se ele quase destruiu o dojo, talvez estivesse testando uma nova técnica ou algo assim?
Fingi nĂŁo notar os inĂșmeros olhares sobre mim e tentei melhorar o clima.
â C-Caramba, faz tempo que eu nĂŁo venho aqui. Algo mudou neste lugar?
SilĂȘncio.
â Sei lĂĄ, sĂł parece mais aberto â continuei. â M-Mas eu diria que isso tem o seu prĂłprio charme.
Grilos.
Cedi rapidamente e me desculpei.
â D-Desculpe. Eu nunca imaginei que isso aconteceria. Os aprendizes do Soln sĂŁo todos de primeira linha, afinal. Nem mesmo o artĂfice sobre-humano poderia ter previsto isso. Aqui, vocĂȘs podem enviar uma fatura para o Primeiros Passos…
Eu sei que parecia que eu estava dando desculpas, mas a culpa era toda do Luke. Do Luke.
Olhei novamente para o terreno. Escombros podiam ser limpos com magia, mas nem mesmo Lucia havia aprendido um feitiço que pudesse consertar coisas que haviam sido quebradas. Fiquei particularmente preocupado com a torre torta. Isso parecia que custaria dinheiro, o que significava que este não era um trabalho para Lucia, mas sim para Sitri ou Eva.
Eu tive! Podemos pedir a ajuda da Ryuulan! Mesmo que ainda nĂŁo consigamos nos comunicar!
Foi então que percebi que não estava ouvindo nenhuma das reclamaçÔes que os aprendizes normalmente estariam me enviando. Depois de evitar constantemente olhar para eles, olhei timidamente em sua direção. Eles estavam olhando para mim, mas não em mim. Eles estavam olhando para trås de mim, para minha irmã sombria.
Ocorreu-me que esta poderia ser a primeira vez que Lucia vinha ao dojo. Era na direção oposta Ă academia onde ela estudava. Os Ășnicos Grievers que vinham aqui Ă©ramos eu, ou Ansem se houvesse pessoas para serem curadas.
O que Ă© isso tudo?
Por alguma razĂŁo, os aprendizes estavam todos parados, como se congelados por magia de gelo.
â Congelar ao ver a irmĂŁ de alguĂ©m Ă© terrivelmente rude â eu disse.
â N-Nos perdoe â gaguejou o que estava na frente, sem jeito. â Ă que, ela Ă© muito bonita…
O quĂȘ?
â HĂŁ? Do que vocĂȘ estĂĄ falando, Nadoli? â disse Luke.
NĂŁo consegui evitar olhar para Lucia, que estava piscando, intrigada. Esta era a primeira vez. Eu realmente nĂŁo sabia o que fazer, mas fiz uma tentativa.
â SĂł porque Ă© verdade nĂŁo faz com que seja um elogio â eu disse hesitantemente.
â I-IrmĂŁo?!
Os aprendizes começaram a tagarelar entre si.
Oh?
Talvez esses caras fossem fracos a Lucia da mesma forma que Matthis era fraco a Tino. Apesar de seus exteriores rĂșsticos, esses caras na verdade tinham um lado fofo.
â VocĂȘ precisa treinar mais o seu espĂrito, meu amigo â eu disse, dando uma palmadinha jovial nas costas do que estava na frente.
â Urgh. D-Desculpe…
â Viu, Ă© por isso que vocĂȘ foi cortado pelo Luke.
â Hm?! E-Eu nĂŁo acho que tenha nada a ver comâ
Certo. Da próxima vez que eles quiserem reclamar, trarei Lucia comigo. Eu me pergunto se isso também funcionarå no Santo da Espada.
Esses caras devem ser muito moles se ficaram atordoados por apenas uma garota. Pensei que eles dissessem que treinar a mente, o corpo e a técnica era fundamental para a esgrima da escola Soln, mas esses caras estavam falhando feio. Por outro lado, Luke era estupidamente forte, embora carecesse de um aspecto muito crucial, então talvez eu não devesse dizer nada.
Ao contrĂĄrio de Tino, LĂșcia nĂŁo parecia se importar nem um pouco que eu estivesse usando-a para meu benefĂcio. Ela recuperou a compostura, pigarreou alto e começou a gritar comigo.
â Esqueça isso! O que vocĂȘ planeja fazer? Isso aconteceu porque vocĂȘ descuidadamente deu aquela coisa ao Luke! Magia nĂŁo pode consertar isso, e mesmo que pudesse, este Ă© um dojo com uma histĂłria profundaâ
â Sim, uh-hum.
â Me escute!
Calma, calma, Lucia.
Nada neste mundo pode ser desfeito. NĂŁo hĂĄ retorno ao passado. Ă uma das poucas coisas que aprendi no meu tempo como caçador. Tudo o que podĂamos fazer era viver com orgulho, agarrados Ă s nossas memĂłrias do dojo. Sentindo que havia alcançado a iluminação, fiquei parado e deixei LĂșcia me atazanar.
EntĂŁo, o aprendiz mais velho gritou de repente, sua voz alta soando ĂĄspera em meus ouvidos.
â NĂŁo Ă© problema. Senhor. Nossa inaptidĂŁo Ă© a culpada. Senhorita LĂșcia, nĂŁo hĂĄ necessidade de vocĂȘ se preocupar. Senhora.
Ele estava olhando atentamente para LĂșcia, nĂŁo para mim. Exatamente como eu esperava. Embora eu tenha ficado confuso com o modo como ele falou, como Kris.
â A senhora nĂŁo precisa se sentir mal pelo dojo arruinado! Senhora! AtravĂ©s do nosso treinamento intenso, estamos sempre fazendo coisas como abrir buracos nas paredes. Eu falarei com o nosso mentor! Senhora!
â VocĂȘ ouviu ele, LĂșcia â eu disse. â Ele diz que nĂŁo hĂĄ necessidade de se preocupar. Que grupo de pessoas legal.
â Ah, cĂ©us!
Eu estava bastante confiante de que tudo ficaria bem. Veja bem, atĂ© mesmo os caras sem braços estavam vidrados na Lucia. SerĂĄ que todos os Espadachins tinham algum gosto especĂfico em comum ou algo assim?
Com tudo resolvido, não havia razão para ficarmos por perto por mais tempo. Precisåvamos sair antes que alguém desagradåvel se aproximasse da minha querida irmã. Ela parecia exasperada e desconfortåvel. Agarrei o braço dela e, então, ouvi uma voz cortante vinda de além do terreno de treinamento cheio de escombros.
â Seus aprendizes de meio-inteligentes! Chamam a si mesmos de Espadachins, mas deixam uma garota tirar o equilĂbrio de vocĂȘs?!
NĂŁo era uma voz alta, mas era nĂtida, como uma lĂąmina desembainhada. Isso me forçou a ficar ereto. Os aprendizes se viraram de repente. Caminhando sobre os destroços estava um velho de quimono. Ele nĂŁo era um homem grande, mas tinha uma constituição esguia, despojada de qualquer gordura desnecessĂĄria. Suas mĂŁos e pernas envelhecidas eram ossudas, mas ainda ostentavam uma força imensa, no mesmo nĂvel de um caçador ativo, e retinham grande parte da habilidade que ele tinha no seu auge.
Com uma infinidade de elogios, ele ainda vinha em primeiro lugar ao discutir quem poderia ser o maior Espadachim do império. Ele era Soln Rowell, o Santo da Espada. Ele era o mentor que Luke tinha conseguido quando veio para Zebrudia. Ele também era o homem que tornara nosso amigo jå talentoso ainda mais perigoso.
â M-M-Mas senhor! â disse o aprendiz mais velho com a voz trĂȘmula. â Realmente foi nossa prĂłpria incompetĂȘncia que permitiu que a Espada DemonĂacaâ
â Se era assim que vocĂȘ via desde o inĂcio, entĂŁo aceito essa explicação. O que me diz?
O Santo da Espada encarou o aprendiz. Ele deveria estar na casa dos oitenta, mas o brilho em seus olhos não mostrava sinais de fragilidade. Entre pessoas como ele e a Inferno Abissal, esta nação estava cheia de velhotes vigorosos. Eh, acho que isso era bom.
Os aprendizes nĂŁo tinham certeza de como responder Ă pergunta de seu mentor que nĂŁo era realmente uma pergunta, mas, eventualmente, o mais velho se manifestou.
â Tenho vergonha de admitir que perdi minha presença de espĂrito, mesmo que a visĂŁo de algo que admiro, uma Maga de cabelos pretos, seja a culpada â ele disse com a voz tensa. â Entre isso e ceder Ă tentação apresentada por uma Espada DemonĂaca, estou profundamente envergonhado pela falta de força de vontade que demonstrei.
Ă, isso Ă© bem vergonhoso. Honestamente.
Havia muitos Magos de cabelos pretos por aĂ. Tipo Krahi Andrihee!
Espere um momento. Percebi que o aprendiz havia dito algo interessante. Eu tinha certeza de que Luke havia sido possuĂdo pela Espada DemonĂaca, resultando em todas as pessoas feridas. Mas talvez nĂŁo fosse isso? Quando eu realmente pensei sobre isso, se alguĂ©m como Luke começasse a brandir uma Espada DemonĂaca, a maioria desses aprendizes estariam mortos.
EntĂŁo eu tinha me preocupado Ă toa.
Tudo bem. Vamos para casa.
â Bem, entĂŁo â eu disse â se Ă© sĂł isso, vou deixar o resto com o senhor…
Virei-me e passei pelo Santo da Espada. EntĂŁo senti uma mĂŁo no meu ombro. Era leve, mas eu ainda estava firmemente preso no lugar. Eu me virei e fiz contato visual. Em uma inversĂŁo do que aconteceu antes, Soln estava me dando um sorriso significativo. EntĂŁo ele se afastou, ainda me segurando.
â VocĂȘs Grievers acham que meus aprendizes sĂŁo descartĂĄveis ou algo assim?
Soln Rowell, o Santo da Espada, era famoso por ser um Espadachim sensato. Ele não era apenas talentoso, mas também fez contribuiçÔes consideråveis para a arte da esgrima. Ele pegou as técnicas que lhe foram ensinadas e as transformou em seu próprio estilo, a esgrima da escola Soln. Era conhecida em todo o império e no exterior.
Os estudantes da escola Soln eram muito mais poderosos do que os de outras escolas, e dizia-se atĂ© que eram pĂĄreo para caçadores aprimorados por material de mana. Soln e seus aprendizes eram confiĂĄveis pela nobreza e considerados uma das forças que mantinham Zebrudia segura. Em outras palavras, eles recebiam um nĂvel de respeito semelhante ao dos cavaleiros.
NĂŁo muito tempo atrĂĄs, eles haviam enviado Luke para ajudar na segurança do Encontro da LĂąmina Branca. Ou, para reformular isso, ele tinha a autoridade para enviar um manĂaco por cortes para uma reuniĂŁo importante e nĂŁo entrou em pĂąnico quando o manĂaco enlouqueceu. Isso nĂŁo Ă© incrĂvel?!
Basicamente, o que estou querendo dizer Ă© que, tendo aprendido com a esgrima da escola Soln e absorvido rapidamente material de mana, Luke era o mais perigoso de todo o nosso grupo. Eu nĂŁo podia continuar assumindo a responsabilidade por ele.
Soln continuou a me repreender enquanto me arrastava. Lucia suspirou e nos seguiu, mas nĂŁo me ajudou.
â Sabe, eu estava pensando que precisava ter um papo com vocĂȘ. VocĂȘ tem ideia de quantas reclamaçÔes chegam atĂ© mim por causa do Luke? VocĂȘ tem? Eu tenho oitenta anos e ainda nĂŁo consigo deixar meus sucessores assumirem confortavelmente!
â Sinto muito por tudo que ele fez.

Mas ele não era em parte o culpado? Ele foi quem permitiu que Luke treinasse seu corpo e técnicas sem treinar sua mente.
â Eu o enviei para o Encontro da LĂąmina Branca porque ele disse que ouviria os guardas, mas entĂŁo ele os ignorou. Ele nĂŁo fez o trabalho que disse que faria em troca de permissĂŁo para participar do Festival do Guerreiro Supremo. Ele testa novas tĂ©cnicas estranhas nos aprendizes mais jovens, testa novas tĂ©cnicas estranhas nos aprendizes novos, ele testa novas tĂ©cnicas estranhas em mim.
Cara, ele estå sempre testando novas técnicas estranhas. Pelo menos isso significa que ele estå ocupado!
â A fim de temperar seu espĂrito, eu o fiz meditar, ler livros, sentar sob cachoeiras, instruir aprendizes mais jovens, aprender tĂ©cnicas nĂŁo letais, aceitar trabalhos trazidos a nĂłs, fazer guarda, mas nada muda! Depois de tudo isso, ele ainda faz o que quer! Ele leva os outros aprendizes para invadir cofres do tesouro, atacar esconderijos de bandidos e desafiar outros dojos usando nosso nome sem permissĂŁo! VocĂȘ entende como Ă© tentar fazer aquele homem pensar em qualquer coisa alĂ©m de espadas?!
Soln parecia muito farto. Acho que sua irritação estava se acumulando desde que eu não apareci por lå ultimamente. Eu queria fugir, mas ele não estava me soltando. Ele me arrastou para dentro de sua propriedade.
â Eu acho que isso Ă©, ah, algo que o senhor deveria dizer ao prĂłprio Luke â eu disse. Eu me sentia como gado prestes a ser vendido.
â Ah? VocĂȘ acha que eu nĂŁo tentei?
â Eu nĂŁo acho que isso seja algo que o senhor deveria dizer a mim â eu disse sem pensar.
â IrmĂŁo?!
Soln não demonstrou reação. Ele era realmente um grande homem. Franz jå teria explodido de raiva a essa altura.
Reuni um sorriso vindo direto do meu coração e disse alegremente:
â Luke estĂĄ feliz por ter o senhor como mentor. Eu nĂŁo consigo pensar em mais ninguĂ©m para quem eu possa, nĂŁo, para quem eu iria querer confiĂĄ-lo!
â VocĂȘ realmente achou que isso funcionaria comigo?! Eu pensei que ele poderia se acalmar se ele se casasse, mas quando eu o apresentei a uma parceira em potencial, ele a cortou!
HĂŁ?! Nunca ouvi falar disso.
Ele tentou arrumar uma esposa para Luke. Esse cara era mais ousado do que eu pensava. Eu era amigo de infĂąncia de Luke, e nem mesmo eu era corajoso o suficiente para fazer isso. Isso exigiria extrema sutileza. Luke tendia a falar sobre praticamente qualquer coisa e, agora, isso Ă© apenas suposição minha, se ele nĂŁo me contou sobre isso, entĂŁo era possĂvel que ele nĂŁo tivesse percebido que a garota era uma parceira em potencial.
â Eu acho â eu disse â que ele vĂȘ todo mundo como um de dois tipos: aqueles que ele pode cortar e aqueles que ele nĂŁo deve. Que cara problemĂĄtico. Ă possĂvel que essa pessoa fosse uma Espadachim?
â EntĂŁo Luke cortarĂĄ qualquer um, contanto que seja um Espadachim? Ă isso?
â Bem, contanto que sejam um pouco fortes, sim. Ă por isso que o fazemos carregar aquela espada de madeira.
Eu não sei se a culpa era do material de mana ou do treinamento de Soln, mas o poder de Luke não conhecia restriçÔes. Que a fortuna sorria para Luke, o maverick!
â Luke foi quem disse que concordaria em encontrĂĄ-la se ela fosse uma Espadachim forte!
â Vamos parar de falar sobre isso. NĂŁo estamos chegando a lugar nenhum, e nĂŁo adianta tocar nesse assunto comigo. Tenho certeza de que isso se resolverĂĄ sozinho se dermos tempo.
Eu realmente nĂŁo acreditava nisso. Para começar, ouvi dizer que o prĂłprio Soln costumava ser um verdadeiro “pavio curto”. Mas minha previsĂŁo poderia se tornar realidade. Eu queria acreditar que era possĂvel.
â Ainda assim â eu disse â, eu estou ensinando ele a nĂŁo mirar nas partes vitais! Nem mesmo Ansem pode trazĂȘ-los de volta se estiverem mortos.
Soln nĂŁo disse nada.
Com esse clima estranho pairando sobre nĂłs, ele me arrastou contra a minha vontade para dentro de sua propriedade, apenas me soltando quando chegamos a uma bela sala com piso de tatame. A mansĂŁo de Soln foi construĂda em um estilo distinto do resto da capital imperial. Se eu tivesse que comparar com algo, diria que era como os resorts de ĂĄguas termais em Suls.
Tirei meus sapatos e deixei que ele me mostrasse um quarto. EntĂŁo, antes que ele pudesse me dizer qualquer coisa, sentei-me sobre as pernas e plantei as mĂŁos e a cabeça no chĂŁo, tudo como se fosse completamente natural. Era para usar sapatos na maioria dos edifĂcios da capital, entĂŁo a maioria das pessoas nĂŁo estava acostumada a sentar com as pernas dobradas sob elas. Mas eu era diferente. Pelo contrĂĄrio, o conforto do piso adequado me deixava insatisfeito.
Soln nĂŁo mostrou nenhuma reação particular Ă minha sĂșplica. Talvez ele estivesse, para pegar emprestado o vocabulĂĄrio da esgrima da escola Soln, calmo como a superfĂcie de um lago imĂłvel. AtĂ© LĂșcia estava demonstrando mais reação, ela estava perplexa.
Soln sentou-se Ă minha frente e disse:
Recebi o relatĂłrio do Sir Franz. Dizia: ‘O desastre cairĂĄ sobre Zebrudia’. Ele acha que esse desastre virĂĄ como algum tipo de maldição.
HĂŁ? O que Ă© isso? Isso Ă© novidade para mim. Eu acabei de falar com Franz sobre mediar com esse cara para mim, mas ele nĂŁo mencionou nada disso…
Soln dobrou as pernas e cruzou os braços, depois olhou para mim com um olhar penetrante.
â Ă… â eu disse â tipo uma liquidação de desastres. Quantos jĂĄ tivemos em uma temporada?
â VocĂȘ estĂĄ tentando me dizer que estĂĄ acostumado com isso, Mil Truques?
NĂŁo, nĂŁo Ă© bem isso que eu queria dizer. Mesmo que nĂŁo seja difĂcil para mim pensar em alguns exemplos recentes.
Ă um palpite como a capital imperial se manteve pacĂfica com tanta coisa acontecendo. Seria possĂvel que os cofres do tesouro anormais e a Raposa e tudo mais nĂŁo fossem tĂŁo importantes quanto eu pensava? Se pessoas como Ark sempre sumiam quando eu precisava delas, era porque elas estavam realmente impedindo desastres sem o meu conhecimento?
Vou ter que perguntar a ele na prĂłxima vez que tiver a chance.
â O que nĂŁo entendo â disse Soln â Ă© por que vocĂȘ mandou trazer aquela Espada DemonĂaca. Luke pode ter impedido, e talvez nada teria acontecido se meus alunos fossem mais bem treinados, mas se ela nĂŁo tivesse sido trazida para nĂłs em primeiro lugar, entĂŁo nada disso teria acontecido. Ou hĂĄ algo que nĂŁo estou entendendo?
NĂŁo havia raiva em seus olhos, mas isso era absolutamente aterrorizante.
Eu preciso de uma boa desculpa. NĂŁo, talvez eu devesse ser honesto? Talvez ele fosse mais propenso a me perdoar assim? NĂŁo parece que terei ajuda da Lucia…
â E-Essa espada era amaldiçoada? â Eu estava escolhendo minhas palavras com cuidado para nĂŁo piorar o humor dele. â Bem, deixando de lado os resultados, eu a dei ao Luke com a intenção de mostrar minha gratidĂŁo por tudo que o senhor fez pelo meu amigo. Nunca pensei por um momento que algo assim aconteceria.
â Hum. Uma demonstração de gratidĂŁo, vocĂȘ diz?
Claro, foi uma decisĂŁo precipitada da minha parte. Aquela espada era bastante sinistra. Mas se ele tinha um problema, eu preferiria que ele falasse com a Eliza, que me deu a espada em primeiro lugar. Embora ela provavelmente apenas a tenha me dado sem pensar.
â Luke e eu a desembainhamos, mas nenhum de nĂłs ficou possuĂdo ou algo assim. EntĂŁo, como eu poderia imaginar que ela possuiria seus aprendizes?! Eu nĂŁo poderia! Nem mesmo o artĂfice sobre-humano poderia prever isso!
IrmĂŁo, vocĂȘ estĂĄ mudando sua histĂłria. VocĂȘ deveria ter falado com ele pelo menos de antemĂŁo.
Lucia, de que lado vocĂȘ estĂĄ?
Soln permaneceu inexpressivo. Seu olhar silencioso era assustador, mas de uma forma diferente daquela senhora piromanĂaca. Pensei que conseguiria passar por isso, mas isso nĂŁo parecia provĂĄvel.
â A-AlĂ©m disso â eu adicionei rapidamente â, eu nĂŁo sabia que seus aprendizes seriam tĂŁo fracos na presença da Lucia.
Ao ouvir isso, os olhos de Soln se contraĂram pela primeira vez. A ideia de que a principal escola de esgrima da capital tinha uma fraqueza como essa era… divertida. Mas tambĂ©m senti que tinha uma ideia de por que eles nĂŁo conseguiam vencer Luke. Estar perto de pessoas como Liz e Krahi me ensinou que todos com força excepcional tinham que abrir mĂŁo de parte de sua humanidade em troca, espere, nĂŁo. O Ark existe. Desculpe. Nem todos renunciaram Ă sua humanidade.
Infelizmente para os aprendizes, eu nĂŁo vou entregar a Lucia.
NĂŁo a menos que eles possam me vencer.
Claro, ganhar o direito de me desafiar exigia primeiro derrotar todos do Primeiros Passos. Ă uma regra da vida que, se vocĂȘ quer desafiar a pessoa no Ășltimo andar, vocĂȘ tem que primeiro vencer todos nos andares de baixo.
Enquanto eu pensava sobre esses assuntos inĂșteis, algumas dezenas de segundos se passaram em silĂȘncio atĂ© que Soln abriu seus lĂĄbios secos. Ele parecia calmo, mas poderia ser apenas o tipo que parecia inexpressivo quando estava com raiva. Tipo a Lucia.
â Ah, que chato â disse Soln, parecendo irritado. â Uma verdadeira dor de cabeça. Pensar que isso foi um presente.
â Bem, eu nĂŁo chamaria de.. De fato, Ă© uma Ăłtima lĂąmina. Provavelmente. â Eu estava tentando freneticamente me safar disso. â Se vocĂȘ tiver a força para empunhĂĄ-la, sem dĂșvida serĂĄ Ăștil para o senhor. Provavelmente!
â Muito bem â Soln soltou um pequeno suspiro â isso significa que tenho que lhe dar algo em troca. Espere aqui um minuto.
Hm? Talvez ele nĂŁo esteja tĂŁo bravo assim, afinal?
Soln saiu da sala. Nem mesmo eu estava disposto a arriscar escapar pelo banheiro.
Sentada ao meu lado com uma postura igualmente boa, Lucia disse:
â VocĂȘ precisa exercer alguma restrição! Ă o mentor do Luke com quem vocĂȘ estava falando!
D-Desculpe. Mas tudo que eu disse era verdade. Eu nĂŁo vou entregar vocĂȘ para nenhum desses aprendizes.
â O-O quĂȘ? NinguĂ©m disse nada sobre isso!
â Qualquer um que queira vocĂȘ terĂĄ que primeiro derrotar o Luke.
Claro, eu nĂŁo disse que eu necessariamente a entregaria mesmo que eles derrotassem Luke. Os sentimentos de Lucia sobre o assunto eram o que mais importava. Apesar de tudo, quando saĂmos de nossa cidade natal, nossos pais me disseram para cuidar de⊠nĂŁo. Eles nĂŁo me disseram nada disso. Na verdade, tristemente, era o contrĂĄrio.
Eu mantive minha postura rĂgida o tempo todo, atĂ© que Soln retornou pouco depois. Ele olhou para mim antes de colocar algo em forma de bastĂŁo envolto em tecido sobre a mesa.
â Obrigado por esperar â ele disse. â Nem mesmo meu cofre tem muito que se compare Ă quela espada. Esta Ă© uma peça rara que consegui hĂĄ muito tempo.
Soln removeu o tecido. Pensei que ele poderia estar me dando uma espada ou algo assim, mas debaixo do tecido havia um cajado. Era um cajado preto-Înix de cerca de dois metros de comprimento e parecia estar envolto em vinhas densas. No topo havia uma grande gema, o que o fazia se assemelhar um pouco ao meu cajado de tradução, o Mundo Redondo.
Certamente parecia caro, mas eu tinha que me perguntar por que estava no depĂłsito do Santo da Espada. Dei a Soln um olhar questionador.
â Isso â ele disse com um sorriso â acabou nas minhas mĂŁos hĂĄ muito tempo. Eu sou um Espadachim, entĂŁo nĂŁo sei muito sobre essas coisas, mas me disseram que pode amplificar a mana como nada mais por aĂ. Pensei que o Mil Truques pudesse usar isso. Eu acho que isso seria vendido por uma boa soma, mas espero que vocĂȘ nĂŁo faça isso.
â Ohh. Isso Ă© realmente algo.
Eu aceito.
Alguns santos oferecem suas bĂȘnçãos, este me deu um cajado. Eu nĂŁo usava cajados, mas fiquei feliz por ter mais um item na minha coleção. Lucia olhou para ele, com os olhos arregalados de choque.
Peguei o cajado e tentei levantå-lo. O Mundo Redondo era pesado, mas este era leve o suficiente para que até eu pudesse balançå-lo com facilidade.
â Qual Ă© o nome dele? â perguntei.
â NĂŁo sei. Lembre-se, essa coisa estava dormindo no meu depĂłsito hĂĄ muito tempo.
Hmm.
Descobrir o nome dele parecia que poderia ser difĂcil, mas com tantos pontos distintos, imaginei que conseguiria algo.
â Bem, eu nĂŁo entendi muito bem o que aconteceu, mas estou feliz que tenha sido resolvido. Eu sabia que o Santo da Espada era uma pessoa magnĂąnima.
â Pelo amor de Deus. Pare de deixar as pessoas agitadas toda vez que algo acontece!
Caminhando ao meu lado, Lucia soltou um longo suspiro que parecia levar sua alma junto. Eu nĂŁo pretendia deixar ninguĂ©m agitado. Quer eu oferecesse elogios, falasse com humildade ou fosse honesto, as pessoas pareciam pensar que eu estava tentando deixĂĄ-las agitadas. Eu pensei que estava apenas sendo genuĂno.
â Cara, eu ainda nĂŁo consigo acreditar que ganhei um presente depois de causar todo aquele problema â eu disse enquanto dava uma balançada no cajado.
Cajados tendiam a estar entre as RelĂquias do tipo arma mais caras. Em particular, um podia atingir um preço astronĂŽmico se tivesse capacidades excepcionais de amplificação de mana ou algum poder especial que nĂŁo pudesse ser emulado com a tecnologia moderna. Todos os Magos ansiavam por algo como o cajado tipo pulseira de Telm ou o cajado de Krahi.
Em minhas mĂŁos nĂŁo estava apenas um cajado, mas um vindo do cofre do famoso Santo da Espada. Isso aumentou minhas expectativas ainda mais. Claro, eu nĂŁo seria capaz de usĂĄ-lo, independentemente de sua natureza, mas veja bem, cajados eram ainda mais propensos do que espadas a escolher seus portadores. Se este fosse o tipo de RelĂquia que escolhia quem poderia usĂĄ-la, discernir seus poderes poderia ser um processo muito demorado.
Com o canto do olho, Lucia me observava balançar o cajado alegremente.
â Toda vez que vocĂȘ causa um alvoroço, meus instrutores e colegas me provocam â ela resmungou. â Eles dizem: ‘Oh, seu irmĂŁo, ele foi e fez de novo!’
â Ah, Ă©? â eu respondi. â Que tal vocĂȘ dar um soco neles?
â Por favor, facilite saber quando vocĂȘ estĂĄ brincando.
Eu nunca fazia nada; era apenas que o problema vinha até mim. Nosso mundo era perigoso. Eu não podia me sentir seguro andando na rua com Lucia ao meu lado.
Minha irmĂŁ limpou a garganta e olhou diretamente para mim.
â EntĂŁo, quando vocĂȘ vai visitar minha instrutora?
â Hm? Para quĂȘ?
â Eu acabei de te dizer lĂĄ na casa do clĂŁ! Tive que cancelar alguns planos no Ășltimo momento por causa do Festival do Guerreiro Supremo, e isso a deixou zangada. Ela disse para eu trazer vocĂȘ.
Oh, vocĂȘ estava falando sĂ©rio sobre isso. Sua instrutora realmente nĂŁo tem olhos para as pessoas.
Ao contrĂĄrio de Luke, LĂșcia era uma pessoa diligente. Ă por isso que sua instrutora nĂŁo tinha uma boa opiniĂŁo sobre a forma como eu estava sempre arrastando minha talentosa irmĂŁ mais nova para problemas. Por razĂ”es diferentes, eu estava destinado a ser inundado com reclamaçÔes de ambos os mentores. Eu atĂ© recebi reclamaçÔes da famĂlia do Ark, a Casa Rodin! Eu era um dos principais coletores de reclamaçÔes. Se vocĂȘ reunisse todos que jĂĄ me enviaram uma reclamação, vocĂȘ teria a maior parte da capital imperial. Se fosse possĂvel vender reclamaçÔes, eu seria um bilionĂĄrio.
Fiz um esforço para esboçar um sorriso gentil.
â Lucia â eu disse com uma voz suave â, me levar seria a opção mais rude.
â Eu meio que estava pensando a mesma coisa. No entanto, ela me disse para trazer vocĂȘ, mesmo que eu tivesse que arrastĂĄ-lo!
Olhando feio para mim, ela agarrou minha manga. Ela estava falando sĂ©rio sobre isso. Eu era, afinal, o irmĂŁo dela. O irmĂŁo mais velho dela. Esse tĂtulo estava começando a perder seu peso, mas eu ainda sentia que era responsĂĄvel pelo bem-estar dela, mesmo que mais ninguĂ©m visse dessa forma. Se alguĂ©m quisesse falar com os pais dela ou algo assim, entĂŁo eu, o irmĂŁo NĂvel 8 dela, poderia entrar em ação. Se houvesse algo que eu pudesse fazer por ela (como ser um fiador), eu o faria. Mas era um pouco triste quando isso significava receber reclamaçÔes.
A instrutora de Lucia era uma professora no principal instituto de magia da capital imperial, a Academia de Magia Zebrudia. TambĂ©m conhecida como AMZ, a Academia de Magia Zebrudia era uma renomada escola das artes arcanas. Era um instituto honrado, com a Inferno Abissal entre seus ex-alunos. Empregava Magos que eram diferentes dos caçadores que se especializavam em conjuração prĂĄtica. Este era um verdadeiro covil do incognoscĂvel, onde a pesquisa era conduzida diariamente.
Em nĂvel individual, nenhum de seus professores era tĂŁo famoso quanto o Santo da Espada, mas sua organização o superava. Aparecer diante da instrutora de Lucia era estressante, mas de uma forma diferente do que com o Santo da Espada. Para começar, ao contrĂĄrio dos Espadachins, vocĂȘ nunca sabia o que um Mago poderia fazer com vocĂȘ. Se eu fosse ver a instrutora de Lucia, eu queria ter algo para agradĂĄ-los.
Ă isso mesmo!
Olhei para o cajado que eu tinha acabado de obter. Embora ainda não soubéssemos o que ele fazia, devia ser bastante poderoso se estava no cofre do Santo da Espada. Fiquei um pouco triste em me separar dele, mas Eliza me deu aquela espada de graça, e eu não conseguia pensar em uma maneira melhor de melhorar o humor de uma Maga. Talvez o Santo da Espada tenha antecipado que a instrutora de Lucia estaria zangada?!
Cara, eu estou demais hoje. Ă o meu dia de sorte.
â Lucia, que tal darmos isso para sua professora? VocĂȘ nĂŁo mencionou algo sobre ela estar procurando por um cajado?
Era justo presumir que a raiva dela diminuiria se lhe déssemos um cajado valioso. Eu sei que funcionaria comigo.
Lucia piscou quando ouviu minha proposta repentina. Ela olhou para mim com desconfiança.
â Hm? Sim, ela estava de fato procurando por um cajado. Mas quando eu te falei sobre isso? E acabamos de obter este.
Hmph. Eu tenho que dizer? Eu estava apenas inventando coisas.
Embora tivesse nos dito para não vender essa coisa, nada havia sido dito sobre entregå-la a outra pessoa. Eu ainda não havia me apegado a ele, e se conseguisse deixar a professora de bom humor, eu chamaria isso de um bom negócio. Além disso, era mais natural que a professora tivesse isso do que eu. As coisas devem ser colocadas onde pertencem.
â Tenho certeza de que sua instrutora ficarĂĄ satisfeita com isso. EntĂŁo vĂĄ em frente, pegue. Apenas certifique-se de dizer a ela que Ă© um presente meu. Isso deve aliviar a raiva dela.
â E-Entendo. Tem certeza de que quer dar isso de presente?
Eu empurrei o cajado para ela, e ela olhou para ele com uma preocupação incomum. Eu nĂŁo podia culpĂĄ-la; era incomum ver um cajado que era preto da ponta ao fim. O preto era evocativo de refinamento, mas no mundo das RelĂquias, era tambĂ©m a cor de maldiçÔes.
â Ha ha ha, estĂĄ tudo bem. VocĂȘ se preocupa demais, Lucia.
â E vocĂȘ nĂŁo se preocupa o suficiente.
O Santo da Espada nĂŁo havia mencionado nada sobre perigos, e eu tinha dificuldade em acreditar que alguĂ©m tĂŁo magnĂąnimo quanto ele nos daria algo perigoso. AlĂ©m disso, estarĂamos dando isso a uma profissional. Ela poderia saber mais sobre RelĂquias do tipo cajado do que a maioria dos avaliadores. E Lucia nĂŁo era do tipo que fazia as coisas descuidadamente.
â Quem sabe â eu disse â, a professora tambĂ©m pode reconhecer este cajado.
â Bem, ela Ă© muito instruĂda, e… â Lucia olhou para mim gravemente. â Ei. Se vocĂȘ sabe de alguma coisa, entĂŁo digaâ
Nesse momento, a Pedra Sonora de Franz começou a vibrar. O que ele poderia querer? Eu não queria atender a pedra, mas eu lhe devia um favor depois que ele mediou com o Santo da Espada. Jå que ele atendeu minhas ligaçÔes, seria uma quebra de etiqueta não atender a dele. Não era como se estivéssemos nos encontrando cara a cara ou algo assim.
Respirei fundo e ativei a Pedra Sonora. Tentei parecer o mais alegre possĂvel, para nĂŁo irritĂĄ-lo.
â AlĂŽ, Franz? OlĂĄ, sou eu.
â VocĂȘ sempre age assim?! Eu jĂĄ te disse, eu nĂŁo sou seu amigo!
â Eu sĂł pensei em tentar ajudar vocĂȘ a relaxar…
â E vocĂȘ pensou que eu precisaria disso de vocĂȘ?!
O mesmo Franz de sempre. Eu tento ser atencioso, mas, bem, acho que era assim que os nobres eram.
Lucia apertou os lĂĄbios e olhou para mim descontente. Ela nunca gostava de ser interrompida. Mas eu nĂŁo sabia a identidade do cajado, e mesmo que eu lhe dissesse isso, ela nĂŁo acreditaria em mim.
â Isso me lembra, obrigado pela ajuda esta manhĂŁ! Eu nĂŁo sei como vocĂȘ fez isso, mas Soln estava de bom humor. Foi obra sua, nĂŁo foi? Ele atĂ© me deu algo em troca. Se as coisas sempre dessem certo assim.
Tudo que eu tinha pedido a Franz para fazer era garantir que nĂŁo houvesse artigos estranhos de jornal sobre o que havia acontecido no lounge, mas isso nĂŁo explicava por que as coisas estavam correndo tĂŁo bem. Franz e o pessoal dele devem ter se esforçado por mim. Suponho que vocĂȘ pudesse fazer coisas assim se tivesse autoridade, embora eu ainda me sentisse um pouco mal por estar constantemente pedindo favores a ele.
Ei, Franz, quer entrar no Grieving Souls?
Tentei parecer alegre, mas a resposta de Franz foi um rugido ainda mais forte do que antes.
â Sobre isso! O que diabos vocĂȘ estĂĄ tramando?! O incidente com a Espada DemonĂaca estĂĄ resolvido, mas a profecia nĂŁo desapareceu!
â PerdĂŁo?
O grito repentino da Pedra Sonora fez com que algumas pessoas que passavam parassem por um momento, para então se apressarem em ir embora. Lucia olhou para a Pedra Sonora, depois para o cajado em suas mãos. Então ela me lançou um olhar cético.
â Maldito seja! De novo com essa atitude otimista!
Franz Argman bateu a Pedra Sonora na mesa.

Dentro da capital imperial de Zebrudia, situada perto do castelo imperial, ficava o imenso
Solar Argman. Por geraçÔes, ele tambĂ©m serviu como ponto de encontro para a Ordem Zero. A Ordem Zero era encarregada de proteger o imperador, ao mesmo tempo que realizava uma ampla gama de missĂ”es quando Sua Majestade Imperial ordenava. Embora fossem pequenos em nĂșmero em comparação com as outras ordens, eram elites com autoridade para comandar seus equivalentes se a necessidade surgisse.
A busca pela Raposa Sombria de Nove Caudas e a profecia que indicava calamidade eram mais do que suficientes para justificar a mobilização da Ordem Zero. Com suas ordens vindas diretamente do prĂłprio imperador, eles nĂŁo tinham motivos para estarem insatisfeitos, e ainda assim…
Franz levou a mão ao estÎmago dolorido. Os outros cavaleiros observavam, completamente acostumados às demonstraçÔes de raiva de seu capitão.
â O que raios ele estĂĄ pensando?! Ele definitivamente sabe que o Divinarium Ă© confiĂĄvel! Mesmo depois que sua relutĂąncia levou Ă ativação da Chave da Terra, ele nĂŁo mudou seus modos! Pelo contrĂĄrio, estĂĄ piorando! Eu nĂŁo dei a ele a Pedra Sonora para que ele pudesse me conhecer melhor!
SĂł de pensar nisso, ele se irritava. NinguĂ©m jamais havia cumprimentado Franz, o atual chefe da Casa Argman e capitĂŁo da Ordem Zero, com um “olĂĄ”. Nem mesmo o caçador mais indisciplinado faria tal coisa. Quer aquele homem estivesse fazendo isso genuinamente ou apenas para provocĂĄ-lo, Franz o achava impossĂvel de lidar. Talvez ele tivesse recebido essa personalidade como compensação por seus poderes quase divinos de manipulação e artifĂcio.
Atendendo ao pedido de Krai, Franz pressionou os jornais a nĂŁo mencionarem o incidente da Espada DemonĂaca, porque ele pensou que a profecia estava se referindo Ă espada, ou Ă sua maldição, ou algo relacionado. EntĂŁo, se Krai tivesse solicitado a ajuda do Santo da Espada para lidar com isso, Franz estava disposto a aceitar que poderia haver derramamento de sangue; ele estava atĂ© disposto a cooperar. Mas ele nĂŁo tinha imaginado por um segundo que a profecia poderia permanecer inalterada mesmo depois que o incidente tivesse sido resolvido.
â O senhor tem toda razĂŁo, CapitĂŁo â disse um jovem cavaleiro prĂłximo com um leve sorriso no rosto. â Honestamente, um mero caçador deveria saber como se comportar melhor do que agir de forma tĂŁo arrogante. HĂĄ realmente alguma necessidade de ouvi-lo? O impĂ©rio tem um excelente corpo de inteligĂȘncia prĂłprio, nĂŁo tem?
Este homem tinha acabado de ingressar na ordem. Seus olhos eram azuis, e ele tinha cabelo loiro com uma leve ondulação. CaracterĂsticas bonitas e uma constituição esguia como a dele eram raras entre a Ordem Zero, cujos membros tinham na maioria estruturas maiores. Tendo acabado de se formar na academia para cavaleiros, ele era jovem demais para ingressar na guarda imperial. AlguĂ©m deve ter grandes expectativas para ele.
Se Franz se lembrava corretamente, seu nome era Hugh Regland. Ele era de uma das casas nobres inferiores, mas havia se formado como o primeiro da classe na academia. Alguns cavaleiros tentaram impedir o recruta de oferecer sua opiniĂŁo nĂŁo solicitada, mas
Franz lhes lançou um olhar de advertĂȘncia. Ele nĂŁo havia passado muito tempo na capital imperial ultimamente, deixando-o com poucas oportunidades de conhecer novos recrutas. Esta seria uma boa oportunidade para falar com ele.
â As ordens vĂȘm de Sua Majestade Imperial â Franz respondeu com um olhar severo. Ele cruzou os braços. â O que quer dizer que devemos manter contato.
Franz considerou entregar a Pedra Sonora para outra pessoa, talvez um funcionĂĄrio pĂșblico ou o capitĂŁo de outra ordem, uma encarregada de manter a paz. No entanto, a natureza inescrutĂĄvel de Krai Andrey seria, sem dĂșvida, demais para qualquer outro nobre de Zebrudia lidar. Isso poderia levar a uma lacuna no compartilhamento de informaçÔes. No final, a opção mais sĂłlida era Franz carregar a pedra ele mesmo. Mesmo que aquele homem falasse com ele como se fossem amigos Ăntimos ou algo assim.
Nem meus subordinados, nem meus amigos, ninguĂ©m me diz “OlĂĄ”!
Na sua idade, ele nunca pensou que alguĂ©m, nem mesmo entre seus amigos ou famĂlia, pudesse lhe causar tanta angĂșstia mental. Ele tinha um excesso de raiva e nenhum lugar para dirigi-la.
â O que incomoda nosso corpo de inteligĂȘncia â disse o jovem cavaleiro com um encolher de ombros â Ă© que eles nĂŁo podem valer muito se estiverem sendo superados por um Ășnico caçador.
â Vejo que nosso novo membro Ă© ousado â Franz respondeu. â Guarde esses pensamentos para si, Hugh.
Jovens de hoje em dia. Este homem nĂŁo acabou de se referir ao corpo de inteligĂȘncia como excelente?
O corpo de inteligĂȘncia apoiava Zebrudia das sombras. A natureza de seu trabalho significava que raramente subiam ao palco, mas sua competĂȘncia era inegĂĄvel, e em vĂĄrias ocasiĂ”es eles impediram problemas antes que pudessem acontecer. Zebrudia nĂŁo estaria onde estava se nĂŁo fosse por eles.
â Mas CapitĂŁo, depois de vĂĄrios dias mantendo o Mil Truques sob vigilĂąncia constante, o corpo de inteligĂȘncia nĂŁo aprendeu nada, correto? Se o senhor me enviar, eu encontrarei algo de valor.
â Hmph. Agradeço sua confiança, mas nĂŁo estou convencido. JĂĄ vi muitos caçadores antes, mas nenhum como ele. Droga…
Embora o Mil Truques pudesse obter informaçÔes mais rĂĄpido do que o corpo de inteligĂȘncia, isso nĂŁo significava que eles eram incompetentes. No passado, Franz poderia ter concordado com Hugh, mas aquele homem havia demonstrado um nĂvel de consciĂȘncia que nĂŁo podia ser explicado apenas por uma boa rede de informaçÔes.
Ainda assim, o que eles deveriam fazer agora? No momento, eles nĂŁo sabiam de nada, alĂ©m do incidente da espada, ostensivamente relacionado Ă profecia. Assim como da Ășltima vez, tudo o que podiam fazer era reunir pessoal e fazer preparativos para que pudessem responder a qualquer situação em potencial. No entanto, sĂł o fato de lidar com a Raposa Sombria de Nove Caudas jĂĄ os havia colocado em alerta mĂĄximo e com falta de mĂŁo de obra.
Em outras palavras, eles estavam na mesma posição da Ășltima vez. Nesse ritmo, estariam novamente Ă mercĂȘ do Mil Truques. Era certamente possĂvel.
â Se ao menos a profecia do Divinarium fosse um pouco mais especĂfica â Hugh comentou, ignorante das preocupaçÔes de Franz. â AlĂ©m disso, as defesas da capital imperial sĂŁo sĂłlidas. A maioria dos feitiços lançados de fora nĂŁo terĂĄ efeito, e temos medidas para impedir que itens amaldiçoados sejam trazidos para dentro. Quanto ao assunto de Soln, o Santo da Espada, foi de escopo menor do que havĂamos previsto. Tem certeza de que nĂŁo estamos pensando demais?
Hugh falava fluentemente, com uma postura confiante.
De fato, a profecia do Divinarium havia levado Franz a antecipar dezenas de milhares de vĂtimas. Mesmo que Krai nĂŁo tivesse agido, o incidente da Espada DemonĂaca provavelmente nĂŁo teria causado tanta destruição.
Para começar, feitiços nĂŁo eram o tipo de magia que podiam causar destruição fĂsica da maneira que a maioria dos feitiços ofensivos podiam. AlĂ©m do mais, tomar contramedidas contra feitiços era fĂĄcil. Embora pudessem ser mortais para alguĂ©m que nĂŁo estivesse tomando as medidas necessĂĄrias para se proteger, tais medidas eram simples e uma parte fundamental da arte das maldiçÔes.
A histĂłrica capital imperial tinha defesas hermĂ©ticas; era justo presumir que era impossĂvel para alguĂ©m matar alguĂ©m com um feitiço lançado fora dos perĂmetros. A Ășnica exceção era, como Hugh havia mencionado, um cenĂĄrio como o caso da Espada DemonĂaca, no qual alguĂ©m trazia um item amaldiçoado para dentro da cidade. Mas o tipo de item capaz de matar milhares de pessoas nĂŁo estaria por aĂ em qualquer lugar.
Mas todos eles estavam bem cientes disso. O problema deles era que, apesar de suas defesas inabalĂĄveis, a profecia nĂŁo havia desaparecido.
â VocĂȘs estĂŁo todos deixando os nervos levarem a melhor â disse Hugh. â CapitĂŁo, nĂŁo pareça tĂŁo grave. Relaxe um pouco. O senhor nĂŁo acha que a renomada Ordem Zero deveria mostrar um pouco mais de confiança?
Franz estreitou os olhos. Os outros cavaleiros olharam para Hugh com exasperação. Disciplina infalĂvel era o que se esperava da Ordem Zero. Presumia-se que eles fossem competentes e frequentemente serviam ao lado do imperador, o que significava que tinham o dever de cumprir rigorosamente quaisquer ordens dadas a eles.
Neste aspecto, Hugh era muito leviano. Ter se formado como orador da turma sugeria que ele era talentoso. Ele era esguio, mas tinha uma boa compleição e uma aparĂȘncia elegante. Franz tinha ouvido que ele tendia a ser um pouco extravagante quando se tratava de mulheres. Ele provavelmente estava acostumado a ser coberto de elogios, com poucas falhas para chamar de suas.
De certa forma, a audåcia que ele estava exibindo diante de seu capitão era louvåvel. Infelizmente para ele, Franz jå tinha sua dose de audåcia apenas através do Mil Truques.
Por um momento, Franz deixou seu olhar perscrutador repousar sobre este jovem cavaleiro rude antes de, eventualmente, acenar lentamente.
â Hmph. Entendo. Pois bem, Hugh, tenho um trabalho para vocĂȘ. Pela sua honra como nobre, vĂĄ atĂ© o Mil Truques e arranque dele a informação que puder. Fique por perto dele por um tempo e coopere com ele. NĂŁo tente me dizer que Ă© impossĂvel.
Um momento de reflexĂŁo sugeriu que isso nĂŁo correria bem. Em termos de idade, Hugh e o Mil Truques eram semelhantes, mas eram extremamente diferentes em termos de habilidades e experiĂȘncia. Elogios como se formar em primeiro lugar na classe nĂŁo fariam bem a Hugh aqui.
Quando se tratava de audĂĄcia, aquele que vestia uma camisa floral ao escoltar o imperador vencia facilmente. Inferno, quando se tratava de ser extravagante com mulheres, era difĂcil superar o cara que supostamente devia quantidades massivas de dinheiro Ă sua amiga de infĂąncia. Que insanidade. Se havia uma coisa que Hugh tinha a seu favor, era provavelmente sua bravura. Considerando como ele acabara de falar com seu capitĂŁo, era difĂcil pensar que ele seria intimidado por um NĂvel 8.
Ter mais um cavaleiro novato por perto nĂŁo tornaria as coisas mais fĂĄceis para o resto da ordem. Nesse caso, eles poderiam dar a Hugh uma oportunidade precoce de aprender alguma humildade. Isso os beneficiaria a longo prazo.
Hugh ficou momentaneamente surpreso com a aquiescĂȘncia de Franz, mas um leve sorriso rapidamente se formou em seus lĂĄbios. Aquele sorriso, no entanto, nĂŁo alcançou seus olhos. Ele tinha força e espĂrito, e queimando nas profundezas de seus olhos estava a ambição. Talvez fosse assim que os jovens deveriam ser?
â O seu desejo Ă© uma ordem, CapitĂŁo â disse Hugh com uma reverĂȘncia que era respeitosa, mas talvez exagerada. â Eu, Hugh Regland, farei tudo ao meu alcance para garantir a sua tranquilidade.
â VĂĄ.
Firme como um bastão, Hugh deixou a sala. Franz observou-o com um olhar amargo antes de voltar sua atenção para seus outros subordinados. Como capitão da Ordem Zero, era seu dever cumprir as ordens do imperador. Ele havia providenciado a ajuda do Santo da Espada. No entanto, se a profecia persistisse, eles seguiriam a próxima pista. Eles eliminariam cada possibilidade, uma de cada vez. Era assim que os cavaleiros operavam.
â Se nĂŁo for uma questĂŁo de pura força â disse Franz â, pode ser magia. Acho que nĂŁo temos escolha. Contatem especialistas em todas as instituiçÔes e informem-los sobre o nosso trabalho. E sejam discretos sobre isso.
O CapitĂŁo Franz se preocupava demais. NĂŁo, Hugh pensou consigo mesmo, talvez eu deva ficar feliz por ter uma oportunidade tĂŁo cedo na minha carreira.
Hugh impediu que sua excitação viesse Ă tona, seguindo em direção Ă casa do clĂŁ Primeiros Passos. A Ordem Zero era a Ășnica das ordens de Zebrudia que respondia diretamente ao imperador. Eles podiam ser considerados uma das ordens mais populares e, atravĂ©s de um bom desempenho, seus membros podiam conquistar a atenção do prĂłprio imperador.
Hugh vinha de uma das casas nobres inferiores. NĂŁo era nada grandioso, mas com dois irmĂŁos mais velhos, Hugh nĂŁo tinha chance de herdar o tĂtulo de seu pai. Para alguĂ©m como ele, a guarda imperial era uma oportunidade ideal. Nesta ordem, uma grande conquista poderia muito provavelmente ser recompensada com um tĂtulo de nobre, ou talvez uma oferta de casamento com uma famĂlia nobre que carecesse de um herdeiro masculino.
Hugh era jovem. Ele não tinha capital em seu nome, mas era atraente e havia recebido uma boa educação na academia. Sua capacidade de absorver material de mana também não era ruim. Além do mais, ele era sortudo.
Zebrudia era uma verdadeira meritocracia. à por isso que alguém como Hugh, cuja casa estava mais próxima da base da hierarquia, conseguiu se formar como orador da turma. Fazer bom uso de uma excelente oportunidade obtida tão cedo depois de ingressar na ordem o faria se destacar. Ele poderia almejar o posto de vice-capitão antes de completar trinta anos.
Para o bem ou para o mal, nĂŁo faltavam boatos sobre este caçador NĂvel 8, o Mil Truques, o artĂfice sobre-humano. AtĂ© o CapitĂŁo Franz havia sido pego de surpresa por este homem, mas isso sĂł tornava ainda mais valioso para Hugh superĂĄ-lo em astĂșcia.
Os comentĂĄrios rudes de Hugh de mais cedo foram todos uma atuação de sua parte. Ele sabia que o Mil Truques nĂŁo devia ser subestimado. A Associação de Caçadores era rigorosa na atribuição de nĂveis, e esta era a terra sagrada da caça ao tesouro. Como Hugh poderia menosprezar o homem que atingiu o NĂvel 8 em uma idade mais jovem do que qualquer pessoa antes?
Atingir um nĂvel tĂŁo alto sem sequer ser de uma linhagem distinta deu-lhe algo em comum com Hugh. No entanto, o jovem cavaleiro tinha uma arma secreta que nenhum nobre provavelmente recorreria.
Quando a casa do clã surgiu à vista, ele diminuiu o passo, firmou a respiração e colocou uma expressão séria. Ele podia ver refletido nas janelas de vidro brilhantes um jovem bonito vestido com a armadura da Ordem Zero.
O capitão havia lhe dito para arrancar informaçÔes do Mil Truques e depois voltar. à claro, se fosse tão simples quanto isso, o capitão não estaria tão aborrecido. Mas ele tinha algo que nenhum outro nobre tinha. Não, era mais preciso dizer que os nobres tinham algo que ele não tinha: orgulho.
Eles estavam lidando com um homem que não podia ser movido por autoridade, dinheiro ou poder. O mal-entendido sobre isso era o motivo pelo qual o Capitão Franz não conseguiu obter nada, apesar de saber que este homem tinha informaçÔes.
Hugh era diferente. Ele deixaria temporariamente de lado seu orgulho e assumiria o controle de seu futuro. Se esta tarefa o fizesse se familiarizar com um caçador de alto nĂvel, isso tambĂ©m seria um trunfo Ăștil no futuro. Ele prosseguiu. Embora ostentasse uma fachada calma, ele tinha a mentalidade de alguĂ©m indo para a batalha.
De repente, a porta se abriu e saiu uma garota com cabelo rosa e pele bronzeada. Os olhos de Hugh se arregalaram. O cabelo comprido preso, o bronzeado saudĂĄvel, os membros esguios que ainda mostravam uma força graciosa. Com tudo isso e o equipamento escasso de uma Ladina, nĂŁo havia dĂșvida em sua mente, ela era do mesmo grupo do Mil Truques. Esta era Liz Smart, a Sombra Partida, temida por sua falta de misericĂłrdia.
Parecia que a sorte estava realmente do lado de Hugh. Ele estaria muito mais perto de cumprir seu objetivo se conquistasse a confiança de uma das amigas de infĂąncia e membros do grupo do Mil Truques. Ajudava o fato de Hugh ter alguma confiança quando se tratava de lidar com mulheres. Havia, claro, sua inteligĂȘncia e força, mas seu rosto bonito era outra das vantagens que ele havia herdado de seus pais. A maioria dos caçadores eram homens rĂșsticos, entĂŁo ele imaginou que uma aparĂȘncia mais doce seria uma arma poderosa.
Ele conseguiria. Ele seria humilde ao extremo, falaria com ela como um cavalheiro faria. Ela era conhecida por sua intensidade, mas oferecer alguns elogios excessivos ao Mil Truques deveria resolver esse problema. Ele esboçou um sorriso perfeito e se aproximou dela. Liz parou, então lentamente se virou em sua direção.
EntĂŁo Hugh perdeu abruptamente a consciĂȘncia.
Ele sentiu um forte impacto, e entĂŁo lentamente voltou a si. Quando seu cĂ©rebro estava funcionando novamente, ele nĂŁo gritou nem abriu os olhos. Ele manteve os olhos fechados e tentou disfarçar o fato de estar acordado. Como elites, os cavaleiros da Ordem Zero eram treinados em todos os tipos de habilidades. Hugh acreditava que poderia se adaptar a emergĂȘncias tĂŁo bem quanto qualquer caçador capaz.
Ele firmou a respiração e tentou entender a situação. Ele podia mover as mãos e as pernas, então provavelmente não havia sido amarrado nem nada. A dor surda na base de sua nuca era provavelmente do que quer que o tivesse nocauteado. Ele não havia baixado a guarda, mas nem sequer foi capaz de revidar.
Não exigia nenhuma dedução para descobrir quem havia feito isso. Havia poucas pessoas que atacariam livremente um cavaleiro em uma rua tão movimentada. Ele tinha ouvido dizer que aquela garota era feroz e råpida no ataque, mas isso excedeu suas expectativas. Ele subestimou os Grieving Souls.
Felizmente, o ferimento era leve. Parecia que nem mesmo a Sombra Partida mataria abruptamente alguém depois que ele se aproximou dela com um sorriso. Ele não achava que estava em uma situação ruim. Esse tipo de ataque enfureceria a maioria dos cavaleiros, mas Hugh podia suportar. Como nenhum nobre havia conseguido se dar bem com o Mil Truques até agora, isso era o que ele esperava. Hugh acreditava em si mesmo. Ele disse a si mesmo que conseguiria.
EntĂŁo ele ouviu alguns murmĂșrios. Havia a voz ĂĄspera de Liz Smart, uma voz masculina relaxada e uma voz feminina confusa.
â Esse cara aqui, Krai Baby, estava me olhando com maldade nos olhos! Ele Ă© definitivamente nosso inimigo! Certo?
â HĂŁ?! Ele estava? Ele estava olhando para vocĂȘ?
â C-Cara pseudo-bonitĂŁo nĂșmero dois…
Um chute rĂĄpido enviou Hugh ao chĂŁo, que foi seguido pelo metal frio das botas RelĂquia dela o pisoteando. Sua armadura, Ășnica da sua ordem e feita de uma liga especial, gemeu. Para alguĂ©m tĂŁo magra, ela era incrivelmente forte. Mesmo na Ordem Zero, poucas pessoas eram capazes de entortar aquela armadura com pura força bruta.
Enquanto ele suportava a dor e entrava e saĂa da consciĂȘncia, Hugh ouviu uma voz acalorada.
â Ei, ele tem a armadura da guarda imperial, entĂŁo ele Ă© provavelmente alguĂ©m especial, certo? Eu nĂŁo acho que ele queira nos matar, mas eu vi o olhar estranho nos olhos dele. Ele Ă© totalmente nosso inimigo.
â C-Calma, Lizzy.
Do que essas pessoas estĂŁo falando?
Tudo o que Hugh fez foi olhar para ela. Claro, ele tinha intençÔes ocultas, mas ele nem sequer demonstrou hostilidade, muito menos qualquer tipo de intenção de matar. Ela disse que ele tinha um olhar estranho nos olhos? Ele pensou que poderia ter havido um motivo para ter sido atacado, mas isso desafiava a compreensão. Certamente as pessoas olhavam para ela o tempo todo. Ela sempre respondia assim? E ele estava vestindo a armadura da guarda imperial, então o que mais ele poderia ser?!
Hugh tinha que parar de se preocupar. Ele rapidamente suprimiu seu poço de dĂșvidas. Ele estava aqui para obter resultados, nĂŁo importava o quĂȘ. Ele tinha certeza de que o CapitĂŁo Franz nĂŁo esperava nada dele, mas isso tornava ainda mais importante que ele fosse bem-sucedido aqui. Ele tinha que pensar, nĂŁo inventar desculpas.
Eu tenho que encontrar uma maneira de passar por essa berserker.
â Cala a boca, T! Vamos, Krai Baby, eu fiz uma coisa boa, certo? Olha! Ele estĂĄ acordado, mas estĂĄ fingindo estar nocauteado! Ele estĂĄ cem por cento aprontando alguma coisa!
Ela consegue perceber?!
A bota o pressionou com mais força, e Hugh abriu os olhos. Ele rapidamente tentou se mover, mas a bota o segurava como um torno, impedindo até o menor movimento. Ele lutava para respirar. Uma respiração ofegante escapou de seus låbios. Ele podia ver Liz, um brilho nos olhos, a garota de cabelos pretos que diziam ser sua aprendiz, e ali, esparramado no sofå, estava um jovem de cabelos pretos com um olhar vagamente idiota no rosto.
Por um momento, Hugh esqueceu a dor. Este homem discreto nĂŁo lhe parecia alguĂ©m poderoso. Este homem correspondia Ă descrição dada pelo CapitĂŁo Franz, mas esse conhecimento nĂŁo facilitava acreditar que ele era um NĂvel 8. Hugh nĂŁo conseguia entender.
Ele nĂŁo conseguia elogiar este homem! Mesmo depois de vir atĂ© aqui com a intenção de agradĂĄ-lo, mesmo depois de ter prodigalizado elogios a idiotas de todas as variedades, ele nĂŁo conseguia encontrar nada que valesse a pena elogiar! Este homem nĂŁo tinha poder. Ele nĂŁo tinha Ămpeto. Ele nem sequer tinha a mesma vitalidade exalada pela Sombra Partida, nem a astĂșcia dela. Era um disfarce perfeito.
Mas era realmente um disfarce?
Comparado a outros caçadores de alto nĂvel, havia muito pouca informação facilmente disponĂvel sobre o Mil Truques. DescriçÔes de sua aparĂȘncia eram particularmente escassas, mas Hugh agora sabia por quĂȘ: nĂŁo havia nada que valesse a pena dizer. Se vocĂȘ dissesse que um caçador NĂvel 8 era um homem com cabelos e olhos pretos indistintos, poucas pessoas acreditariam em vocĂȘ. Elas duvidariam do seu julgamento.
O Mil Truques olhou na direção de Hugh, mas não para ele. Era uma expressão contente, ou para ser rude, uma de cabeça vazia, que deixava Hugh inquieto. O rosto esmagadoramente comum deste homem seria imune a lisonjas. Isso fez Hugh suar frio.
O que eu faço? O que devo fazer?
Como ele poderia conquistar a simpatia deste homem para cumprir sua tarefa? E por que ele nĂŁo dizia nada, mesmo que uma das membros de seu grupo estivesse pisando em um cavaleiro inocente?!
Hugh de alguma forma conseguiu mover os dedos apenas o suficiente para que pudesse bater no chĂŁo. EntĂŁo, o Mil Truques finalmente fez alguma coisa. Ele deu um sorriso simplĂłrio e olhou para Liz.
â B-Boa garota. VocĂȘ se saiu muito bem, Liz. Super.
â Eu me saĂ? Eu me saĂ mesmo?
â Sim, uh-hum.
Hugh tinha visto todos os tipos de grupos, mas nunca um como este. Caçadores tinham a reputação de serem brutos, mas isso mudava quando se tratava dos de nĂveis mais altos. Os nĂveis alocados pela Associação de Caçadores eram prova da proeza de um caçador, tornando esses nĂveis um pilar da Associação. Eles geralmente nĂŁo davam nĂveis altos a membros que exibiam falta de humanidade. Embora muitos caçadores trabalhassem sozinhos, praticamente qualquer um que liderasse um grupo demonstrava forte liderança informada por excelente carisma.
Mas este homem acabou de dizer “Super” e “Sim, uh-hum”. Isso dificilmente poderia ser descrito como liderança.
â Bom, bom, bom trabalho. VocĂȘ Ă© Ăłtima, Liz. Pronto, pronto.
â Hehe. Eu sabia que vocĂȘ ia querer que eu o trouxesse aqui â Liz se vangloriou ferozmente.
â Pronto, pronto â o Mil Truques murmurou. â Boa garota. Bom trabalho. Agora solte-o.
â EntĂŁo vocĂȘ vai me dar algo amaldiçoado, como fez com o Luke e a Lucy?
â Boa garota. MĂĄ garota. Pronto, pronto.
A pressão desapareceu. Segurando o peito, Hugh se levantou e viu Krai, esfregando a cabeça de Liz com um olhar vazio nos olhos. Hugh sentiu como se tivesse sido atingido por um raio. Enquanto Krai tinha um sorriso forçado e movia as mãos em um movimento automatizado, os olhos de Liz tinham um brilho vigoroso. Não havia como alguém que pudesse ler as intençÔes de Hugh apenas através de seu olhar (embora se sua leitura estava correta, era duvidoso) falhar em notar a atitude de Krai.
No entanto, esta foi a resposta dela! Que poder este homem deve ter se ele consegue ter tal efeito sobre uma manĂaca disposta a nocautear um homem vestido com as insĂgnias da guarda imperial!
Hugh usou vĂĄrias mĂĄscaras para chegar onde estava. EntĂŁo ele entendia que, embora fosse difĂcil manipular pessoas agindo, era ainda mais difĂcil manipular sendo genuĂno. Se ele conseguia mantĂȘ-la sob controle com respostas tĂŁo meio-boca, ele deve ter se esforçado muito para disciplinar a Sombra Partida!
Hugh começou a sentir que entendia por que o Mil Truques era considerado tĂŁo desconcertante e chamado de coisas como âo artĂfice sobre-humanoâ. AtĂ© agora, toda vez que Hugh conseguia lisonjear alguĂ©m, era porque ele entendia os talentos dela. Mas como ele deveria conquistar a simpatia deste homem?! O que a Sombra Partida gostava nele?
â Sabe â disse Liz â minha mentora vive me dizendo para trazer vocĂȘ. EntĂŁo, vocĂȘ virĂĄ comigo alguma hora?
â Boa garota. Boa garota. VocĂȘ Ă© Ăłtima, Liz.
â Mestre, nada do que ela fez Ă© bom.
Hugh viu a maneira como ele ignorou a garota de cabelos pretos que recuava. Ele notou seu sorriso suave e voz seca. Ele tinha certeza de que este homem, Krai Andrey, nĂŁo estava prestando atenção neles! Cada detalhe de seu comportamento deixava claro que ele nĂŁo estava prestando atenção alguma. Nem mesmo o mais astuto dos nobres ou mercadores podia se dar ao luxo de agir dessa forma. Eles nĂŁo tinham necessidade de fazĂȘ-lo em primeiro lugar.
Talvez ele pudesse fazer isso por causa de seu nĂvel alto? Sua atitude lĂąnguida e acostumada, e a forma como Liz nĂŁo se incomodava com isso. Isso nĂŁo poderia ter surgido da noite para o dia. Hugh queria entender este poder. Era diferente de qualquer tipo de liderança que ele jĂĄ tinha ouvido falar. Se ele tivesse essas habilidades, ele tambĂ©m seria capaz de ascender a grandes alturas.
Ele não se importava mais com sua missão de obter informaçÔes. Havia algo que ele tinha que saber. Ele tinha que aprender os segredos por trås do poder deste homem! Se Hugh ficasse ao lado dele, aprenderia a verdadeira natureza de seu poder? Seria capaz de tornå-la sua?
Ele observou atentamente para não perder o menor detalhe. A visão dele esfregando a cabeça de Liz distraidamente começou a parecer majestosa aos olhos de Hugh.
EntĂŁo, pela primeira vez, Krai olhou para Hugh. Ele piscou lentamente e encarou por um momento. Eventualmente, ele assentiu e disse a Liz:
â Boa garota, Liz. Agora, volte para o seu lugar.
â HĂŁ? E o meu item amaldiçoado?
â Essa Ă© uma boa garota…
â E a minha mentora?
â Essa Ă© uma boa garota!
Mesmo que ele a estivesse ignorando completamente, Liz tirou os braços de Krai e lhe deu algum espaço. Com um sorriso niilista, Krai cruzou as pernas de uma forma estranhamente exaltada. Uma sensação de profundo respeito tomou conta de Hugh. Ele endireitou a postura, colocou as mãos no chão e abaixou a cabeça.
â Krai, por favor, aceite-me como seu aprendiz.
Hugh deixou de lado sua honra. Ele até esqueceu de se apresentar, algo que raramente fazia.
â Ah. Aprendiz, hein? Sim, uh-hum. Espere. HĂŁ? â o Mil Truques respondeu com sua voz mais monĂłtona atĂ© entĂŁo.
Como diabos isso aconteceu?
Olhando para o jovem cavaleiro curvado diante de mim, eu estava sentado atordoado, tentando não pensar muito na situação. Desde que vim para a capital imperial, vårias pessoas pediram para ser meus aprendizes, mas esta era a primeira vez que um cavaleiro cujo nome eu nem sabia se curvava diante de mim. Além do mais, eu nem sequer fiz nada desta vez.
Eu estava lutando para esconder minha confusĂŁo quando, de repente, encontrei o olhar de Tino. Ela tinha vindo aqui com Liz.
â IncrĂvel como sempre, M-Mestre â ela gaguejou, tĂŁo confusa quanto eu. â Sem fazer nada, vocĂȘ conseguiu fazer um orgulhoso cavaleiro da Ordem Zero se curvar diante de vocĂȘ. Isso Ă©, ah, algo que sĂł um NĂvel 8 poderia fazer…
Se eu estava certo, parecia que ela não estava me elogiando tanto quanto estava questionando a sanidade daquele cara. Talvez Liz tivesse batido um pouco forte demais na cabeça dele quando o trouxe. Ela estava estranhamente orgulhosa de si mesma. Ela ainda estava tão afiada como sempre se nocauteou um cavaleiro sem um bom motivo.
Deixei de lado o cavaleiro curvado e me concentrei em Liz por enquanto.
â Eu jĂĄ te disse, a coisa com o Luke foi uma coincidĂȘncia. A Lucia ter conseguido aquele cajado tambĂ©m foi porque as coisas aconteceram daquele jeito. VocĂȘ pode dizer ‘Eu quero um tambĂ©m’ o quanto quiser, mas nĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer. NĂŁo Ă© uma questĂŁo de conquistas; eu nĂŁo posso te dar o que eu nĂŁo tenho.
Liz aparentemente ouviu falar sobre o que aconteceu com o Luke e achou que era incrivelmente injusto.
Liz, quantos anos vocĂȘ tem mesmo? Calma. Tudo o que vocĂȘ estĂĄ dizendo estĂĄ errado. O Luke conseguiu uma Espada DemonĂaca porque foi assim que as coisas aconteceram. NĂŁo foi uma recompensa, o cajado que dei para a Lucia nĂŁo Ă© amaldiçoado, e trazer-me subitamente um cavaleiro inconsciente nĂŁo Ă© algo a ser recompensado!
Eu tinha muitas objeçÔes que queria levantar, e estava cansado. Por que ela estava tĂŁo faminta por problemas? TĂnhamos acabado de passar por vĂĄrias provaçÔes no Festival do Guerreiro Supremo, entĂŁo como ela ainda tinha tanta energia? Se Liz ficasse violenta aqui, Franz seria o Ășnico com dor de cabeça, mas eu nĂŁo achava que ela entendia isso.
Liz permaneceu inabalĂĄvel com minha explicação, seus olhos bem formados brilhando com expectativa. Ela acreditava que eu traria mais problemas. Eu nĂŁo gostava de ser confiado dessa maneira. O caso com o Luke definitivamente aumentou as expectativas dela, e agora nĂŁo haveria como convencĂȘ-la.
Eu casualmente estendi a mĂŁo e baguncei o cabelo dela em uma tentativa de apagar aquelas memĂłrias.
â Pronto, Liz. Boa garota.
â Mmm.
As bochechas de Tino ficaram vermelhas enquanto ela observava minha preguiçosa tentativa de aplacar sua mentora. EntĂŁo, o cavaleiro no centro de tudo isso se levantou em pĂ©s instĂĄveis. Seus olhos estavam o mais arregalados possĂvel.
â M-MagnĂfico â ele disse com espanto. â Este Ă© o tipo de controle que um NĂvel 8 comanda.
â Sei lĂĄ por que, mas eu continuo me cercando de esquisitos.
â P-Por favor, guarde esses pensamentos para si, Mestre.
De que maneira parecia que eu tinha alguma coisa sob controle? Se houvesse uma maneira de controlar Liz, eu queria saber.
O jovem cavaleiro endireitou sua postura como se o pensamento tivesse acabado de lhe ocorrer. Com uma expressão digna que conquistaria o coração de qualquer mulher, ele se curvou.
â Por favor, perdoe a introdução tardia. Eu sou Hugh Regland, cavaleiro da Ordem Zero. Sob as ordens do CapitĂŁo Franz, devo servir sob o seu comando por enquanto. Por favor, nĂŁo hesite em me colocar para trabalhar!
â Que engraçado. NinguĂ©m me contou sobre isso.
Eu entenderia se tivessem mandado alguém para cooperar nas investigaçÔes, mas ter um cavaleiro para dar ordens me pareceu estranho. Aquele cara podia tentar agir todo formal e correto, mas isso não compensaria seu comportamento anterior. Embora, isso talvez fosse resultado de ter levado um nocaute da Liz, então não falei nada.
Hugh nĂŁo se intimidou com meu olhar desconfiado. Se eu estivesse no lugar dele, teria cedido Ă pressĂŁo e desviado o olhar, mas esse cara era um dos “elites”.
Hm. EntĂŁo, suponho que isso significa que Franz planeja me pĂŽr para trabalhar?
Ele nĂŁo sabia com quem estava lidando. NinguĂ©m havia lhe dito que nĂŁo existia nada mais detestĂĄvel do que um intrometido incompetente. Eu nĂŁo esperava que ninguĂ©m entendesse, mas minha preguiça era impulsionada por “princĂpios inabalĂĄveis”!
Cruzei os braços e tamborilei nos cotovelos. Dei-lhe um sorriso “durĂŁo” e disse: â Tudo bem, eu entendi. Aqui, para começar, vocĂȘ pode ir procurar um item amaldiçoado que eu possa dar para a Liz.
Tradução: Carpeado
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