Grieving Soul – Capítulo 6 – Volume 7

 

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire

Light Novel Online – Volume 07 – CapĂ­tulo 06:
[EpĂ­logo: Let This Grieving Soul Retire, Parte Sete]


No que diabos eu tinha me metido?

Quando abri os olhos, estava em um mundo de cinza opaco. Galf segurava um monte de måscaras de raposa e dançava com a Sora, a Raposinha, e o Krahi. Nada daquilo fazia muito sentido, mas a impressão que dava era que eles estavam se divertindo de verdade.

Dei um tapa na cabeça tentando lembrar por que eu estava ali, mas não veio nada. Serå que eu tinha morrido? Céu? Inferno? O céu cintilava com relùmpagos que não faziam barulho e nem tinham força. Olhei de novo para o pessoal dançando sob aquele céu silencioso e decidi que o melhor seria desistir de entender e só aceitar.

Pisquei devagar, quando senti alguém agarrando meu braço por trås.

— Por que essa cara tão pra baixo, meu ex-CM?

Era a Touka, lĂ­der dos Cavaleiros da Tocha. AtrĂĄs dela estavam os membros da sua equipe, todos com armaduras combinando por cor, de mĂŁos dadas, dançando em cĂ­rculo. NĂŁo estavam fazendo nenhum passo elaborado, mas sĂł o nĂșmero de pessoas ali jĂĄ fazia a cena impressionante.

De repente, percebi que tinha algo estranho no que a Touka tinha dito. — Hm? Ex-CM?

— Ainda estĂĄ grogue? JĂĄ faz um tempo que vocĂȘ se aposentou da caça e do posto de mestre do clĂŁ, nĂŁo foi?

Aposentado. Esfreguei os olhos. EntĂŁo eu tinha me aposentado? NĂŁo lembrava disso acontecendo, mas a Touka nĂŁo era exatamente conhecida por fazer piadas.

— Agora precisamos terminar a missão de hoje. Estamos dançando — declarou com um sorriso largo, uma expressão rara nela.

Os cavaleiros soltaram as mãos uns dos outros e começaram uma dança de passos råpidos e curtos. O círculo foi se expandindo conforme mais gente se juntava. Vi Franz, Arnold, Greg, o imperador, Murina, Kecha e Telm entrando, enquanto a Inferno Abissal preenchia o céu com chamas multicoloridas. De repente, alguém me levantou e me colocou nos ombros.

— ParabĂ©ns, Krai Baby! — gritaram.

E entĂŁo eu acordei. Me dei conta de que estava em uma cama.

— Que sonho maluco.

Meu pijama estava encharcado de suor. Esfreguei os olhos, segurei a cabeça e olhei ao redor. Ainda estava tentando entender onde estava, mas conseguia ouvir a voz da Liz, animada como sempre.

— Bom dia, Krai Baby! Que foi? Um sonho doido?

Os olhos dela brilhavam com aquela energia cega de sempre.

Aos poucos, comecei a lembrar do que tinha acontecido antes de apagar. O dia tinha começado comigo sendo forçado a participar do Festival do Guerreiro Supremo. Teve a garrafa de ĂĄgua falante, os relĂąmpagos caindo, a Raposinha lutando no meu lugar, depois o presidente do clube aparecendo do nada e tocando o terror. Era um absurdo completo, atĂ© mais do que o sonho que eu tinha tido. Vai ver
 nĂŁo foi sonho?

— EntĂŁo — disse Liz, percebendo minha confusĂŁo Ăłbvia —, vocĂȘ desmaiou quando tudo acabou. TĂĄ bem? O mĂ©dico disse que nĂŁo tinha nada de errado com vocĂȘ.

Entendi
 eu acho?

Mexi os braços, toquei as mãos e os pés. Nada doía.

— Bom dia, Krai — disse Sitri com um sorriso. — Eu conferi tudo. O mĂ©dico disse que vocĂȘ apagou de exaustĂŁo.

Eu tinha tanta resistĂȘncia quanto uma pessoa comum. O dia anterior foi uma sequĂȘncia de estresse e coisas mudando tĂŁo rĂĄpido que eu mal conseguia acompanhar, e no final ainda teve um terremoto forte. NĂŁo era estranho um fracote como eu ter desmaiado.

Hm? Ontem?

Olhei pela janela — a luz do sol entrava forte. — Estou bem. Aliás, quanto tempo eu dormi? — perguntei pra Sitri.

Ela pareceu pensar um pouco, entĂŁo levantou o dedo indicador. Um dia? Uma noite? Nem foi tanto quanto eu achei. Eu jĂĄ ia suspirar de alĂ­vio quando ela levantou um segundo dedo
 depois um terceiro
 e um quarto. Quando eu ainda tentava entender, ela começou a abaixar os dedos atĂ© sĂł restarem dois. Sitri sorriu quando viu minha cara de choque.

LĂĄ vem ela com as piadas estranhas de novo.

— Dois dias? Dormi dois dias? — perguntei. — Eu sei que tava cansado, mas isso parece exagero.

— Não, tî fazendo o sinal da paz — respondeu ela.

— Ele não precisa dessas suas palhaçadas confusas! — disse Liz, e deu um tapão na Sitri por mim.

A Sitri tava bem fora do normal. Tinha comido algo estranho? Eu jĂĄ ia comentar quando o Luke entrou correndo, do jeito dele.

— Opa, Krai! Acordado! Olha sĂł, o Gerente de Filial Gark disse que nĂŁo quer ter que te caçar de novo…

— Ah, finalmente acordado, irmĂŁo. Nossa, vocĂȘ faz ideia do quanto me preocupei?

— Mmm.

Nunca descobri exatamente quantos dias tinham se passado, mas parecia que as coisas tinham acalmado.

Ainda meio preso entre o sono e a realidade, ouvi a Sitri pigarrear. Ela deu um passo Ă  frente, assumindo seu papel habitual de porta-voz do grupo. — Agora, por onde começo? Acho que vocĂȘ quer saber o tamanho do estrago e como o inimigo conseguiu escapar mesmo com toda a vantagem que tĂ­nhamos.

— Oooh. Isso Ă© terrĂ­vel.

NĂŁo consegui evitar engolir em seco. A arena tinha sido destruĂ­da. O coliseu, que ficava no centro de Kreat e era um sĂ­mbolo da cidade, estava em ruĂ­nas. Aquela construção que antes me fazia olhar pra cima pra ver o topo, agora era sĂł um monte de escombros. O Ășnico vestĂ­gio de que aquilo jĂĄ foi algo era a placa de pedra na entrada. Fissuras cobriam a rua de paralelepĂ­pedos, mostrando o quanto o chĂŁo tremeu. Duvidava que muita gente acreditasse que tudo aquilo tinha sido causado por uma Ășnica RelĂ­quia.

Me senti péssimo ao ver tanta gente trabalhando pra limpar os destroços. Quando a Sitri me contou o que tinha acontecido, tudo o que consegui dizer foi:

— Hã?

Aparentemente, o homem que estava no ringue era a Raposa maligna que o Gark e todo mundo estavam perseguindo, e ele tentou usar a Chave da Terra pra acabar com o mundo. Parecia piada, mas com um estrago daquele, nĂŁo dava pra duvidar.

Isso explicava por que tudo parecia brutal demais para um simples encontro de fãs de måscaras de raposa. Mas isso queria dizer que eu estava na frente de um cara perigoso esse tempo todo, sem nenhum Anel de Segurança para me proteger?! Ainda bem que o perigo imediato tinha passado. Senão eu jå estaria vomitando.

NĂŁo foi sĂł azar que causou esse caos todo; foi todo mundo usando imagem de raposa pra tudo. SĂł deixou tudo ainda mais confuso. Tinha, claro, a Pequena IrmĂŁ Raposa fantasma, mas tambĂ©m as Raposas boas e mĂĄs em Kreat, o que dava um total de trĂȘs grupos parecidos. Nem precisava ser como eu, qualquer um teria entendido tudo errado de algum jeito.

— É um milagre a destruição nĂŁo ter ido alĂ©m disso — comentou Lucia, que aparentemente tinha desmaiado por exaustĂŁo de mana. — Teve hora que achei que estĂĄvamos todos condenados.

Ansem assentiu com um “Mmm” solene.

Disseram que Lucia e os outros magos tinham se esforçado ao måximo para conter os danos. Se não fosse por eles, a destruição teria ido muito além da arena. Ou seja, era o padrão de sempre: eu fazia besteira e os outros limpavam a bagunça. Só que dessa vez, o estrago tinha sido monumental.

Uma pequena caravana de carroças parou do lado de fora dos escombros, onde começaram a carregar os destroços.

— Bem, não houve fatalidades, então acho que podemos considerar um resultado positivo — disse Sitri, observando as carroças indo embora.

— Hm? NinguĂ©m morreu? — perguntei.

— É, tinha um monte de caçadores por perto e tambĂ©m o Sr. Gerente da Filial — respondeu Liz. — Faz sentido que ninguĂ©m tenha batido as botas.

— Da mesma forma, eu distribuĂ­ — digo, entreguei poçÔes. Sem cobrar nada em troca — disse Sitri. — Ansem tambĂ©m teve um desempenho espetacular.

— E eu pude cortar muita coisa! — declarou Luke, com um orgulho inexplicável.

Eu só queria que ele fizesse outra coisa além de cortar.

Isso me lembrou do quanto os caçadores eram incrĂ­veis, conseguindo evitar mortes mesmo com uma estrutura gigantesca desabando. Se tivesse havido algum erro, nĂŁo era difĂ­cil imaginar eu sendo o Ășnico a bater as botas.

— Agora que a Raposa tentou usar a Chave da Terra, o impĂ©rio estĂĄ tomando uma postura mais agressiva para caçå-los — disse Sitri, me cutucando alegremente com o cotovelo. — É uma virada total em relação Ă  postura anterior. Parece que o impĂ©rio nĂŁo ficou nada feliz com o que rolou hoje.

Fiquei aliviado por ela conseguir achar graça em tudo, mas duvidava que ela fosse continuar tão alegre se soubesse que fui eu quem ativou a Relíquia. Mesmo que tenham interrompido no meio, o estrago que eu quase causei jå era motivo mais que suficiente pra pena de morte. Eu podia dizer que foi porque tropecei, mas duvido que iam comprar essa. No fim das contas, a Raposa queria ativar a Chave da Terra, então o que mudou foi só o caminho, não o destino.

— Foi a Raposa — disse Sitri, ao me ver franzindo a testa.

— É, mas eu tambĂ©m tive um pouco de culpa—

— VocĂȘ nĂŁo teve culpa nenhuma. Foi tudo obra da Raposa.

— Mas—

— Foi a Raposa.

Ela estava estranhamente insistente nesse ponto. Luke, Lucia e Liz também mostraram apoio.

— NĂŁo entendi muito bem, mas a culpa Ă© da Raposa!

— Sim. Foi tudo culpa da Raposa.

— Claro que foi culpa deles. VocĂȘ foi Ăłtimo. A gente devia estar bravo com a Raposa. Ah, e com os organizadores do torneio, que cancelaram tudo por causa de um pequeno contratempo!

Pelo que parecia, a culpa era da Raposa e ponto final. Eu ainda achava que tinha tido pelo menos uma parte na confusĂŁo. No mĂ­nimo, os organizadores do torneio nĂŁo tinham feito nada de errado. Fiquei com pena de quem estava ansioso pelo Festival do Guerreiro Supremo, mas eventos geralmente sĂŁo cancelados quando o local vira um monte de entulho.

Suspirei e olhei para Sitri, que claramente nĂŁo estava disposta a me ouvir argumentar. — Mas a Raposa nĂŁo Ă© a Ășnica vilĂŁ aqui. VocĂȘ tambĂ©m jĂĄ fez muita coisa errada — falei.

— Hã?!

Ansem assentiu de novo. — Mmm.

Bom, o que estava feito, estava feito. O que me preocupava agora era o que as pessoas iam esperar de mim, considerando meu nĂ­vel alto. Eu tinha acabado de ter aquele encontro maluco com o Peregrine Lodge e agora isso. A aposentadoria tranquila que eu sonhava ainda estava longe.

Respirei fundo, me espreguicei e segui meus amigos, deixando para trĂĄs as ruĂ­nas da arena.

— Encontrem aquele homem com a mĂĄscara de raposa, custe o que custar! — esbravejou Franz. — Com os ferimentos que sofreu, ele deve estar por perto! Façam o que for preciso, a dignidade do impĂ©rio estĂĄ em jogo! Aquele homem estava tirando sarro da nossa cara ao deixar um alvo ferido escapar?! Façam o governo local cooperar! Foram eles que nos ignoraram quando demos o alerta! E ainda deixaram a Princesa Murina ser atacada!

Soldados e funcionĂĄrios civis saĂ­ram correndo. JĂĄ fazia um dia inteiro desde o incidente no Festival do Guerreiro Supremo, mas o imperador e sua comitiva ainda estavam agitados como uma colmeia raivosa. Ajudando o pai, Murina recebia um relatĂłrio atrĂĄs do outro.

— Nosso alvo estava gravemente ferido — disse Rodrick. — Não aceito que ele tenha simplesmente sumido sem deixar rastro. Ele não teria recebido aquele golpe do Guerreiro Supremo de propósito se não estivesse com pouca mana.

— Já cercamos o coliseu — respondeu Murina — e cortamos todas as possíveis rotas de fuga. Mesmo assim, não houve nenhum relato de avistamento.

Rodrick nĂŁo disse nada, mas sua expressĂŁo estava mais severa do que nunca. Seus olhos brilhavam ferozmente, como uma espada desembainhada. Murina e Franz trocaram palavras rĂĄpidas, mas pararam quando um subordinado apareceu com um relatĂłrio.

— Capitão Franz, terminamos de coletar o sangue deixado na arena. É o suficiente pra enviar ao Divinário.

— NĂŁo gosto de recorrer a medidas tĂŁo incertas, mas acho que nĂŁo temos escolha — comentou Rodrick. — Assim que tivermos uma noção da posição geral deles, viramos cada pedra na ĂĄrea. Agora, creio que nĂŁo hĂĄ mais motivo para permanecermos nessa terra. TambĂ©m precisamos solicitar a cooperação de outras naçÔes.

Rodrick estava decidido a usar todos os meios possĂ­veis para esmagar a Raposa. JĂĄ Murina, por conhecer de forma vaga o lado menos conhecido da histĂłria, se sentia dividida. Ela entendia que qualquer organização disposta a liberar uma arma tĂŁo terrĂ­vel precisava ser punida, mas tambĂ©m sabia que uma certa pessoa havia se infiltrado entre eles… e brincado com suas intençÔes.

— AlĂ©m disso — disse o subordinado, visivelmente desconfortĂĄvel —, a Alquimista de Grieving Souls pediu que compartilhemos um pouco do sangue da Raposa com ela…

Franz ficou tenso ao ouvir isso, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Rodrick se adiantou:

— Depois de tudo que esse grupo fez, dificilmente podemos recusar. DĂȘ uma parte Ă  Alquimista, mas garanta que sobre o suficiente pro DivinĂĄrio fazer seu trabalho. NĂŁo gosto da reserva dele, mas temos uma dĂ­vida ao Mil Truques, tanto por isso quanto por Murina.

— Suponho que teremos que formalizar o pedido de cooperação assim que a situação se estabilizar — disse Franz. — NĂŁo podemos depender demais dele, mas ele tem… um acesso inexplicĂĄvel a informaçÔes.

Murina concordava com ele. Lembrava do Mil Truques como alguém que parecia caótico, mas estranhamente racional. Ainda havia coisas que ela não entendia, mas provavelmente era porque não possuía as informaçÔes certas. Agora ela compreendia por que ele tinha a fama de ser tão perspicaz. Mesmo tendo recebido treinamento direto de Grieving Souls, ainda não era capaz de executar nenhuma artimanha além-humana.

— Pai — ela disse —, tenho a impressão de que o plano atual do Mil Truques ainda está em andamento.

— Tem algum motivo pra acreditar nisso, Murina?

— Nada concreto. No entanto, percebi que tudo que aquele homem faz tem camadas. Não acho que ele acabou naquele palco por acidente.

Murina estava apenas especulando, mas falava com confiança. Ela sabia de algo que seu pai não sabia — o Mil Truques havia conseguido se infiltrar numa organização que todos os outros nem tinham conseguido rastrear. Tinha certeza de que ele já sabia dos planos da Raposa para o torneio, e por isso acreditava que havia um motivo por trás de ter deixado o homem da máscara escapar. Ainda assim, achou melhor não contar nem a Franz, nem ao pai, que ele tinha tido contato direto com a Raposa.

Ambos a olharam, um pouco surpresos. Murina respirou fundo e se preparou. Franz e seu pai estavam prestes a levar outro choque.

— Pai, vocĂȘ confiaria essa missĂŁo a mim? Talvez eu nĂŁo pareça, mas jĂĄ provei ser capaz de superar os Mil Desafios daquele homem. Tenho certeza de que posso ser Ăștil.

— VocĂȘ pode ter exagerado um pouco no treinamento dela, Mil Truques — murmurou Rodrick. — O que, em nome de tudo, vocĂȘ fez com a minha filha?

Caelum Cauda reinava como um dos chefes da Raposa hå muito tempo, mas nunca havia chegado tão perto da morte. Sua mana estava quase esgotada e ele havia sofrido ferimentos graves. Para piorar, a traição de Galf o deixou sem as rotas de fuga que havia preparado. Com toda a dedicação à discrição, não havia nada que os membros da Raposa temessem mais do que serem capturados.

Quando o Guerreiro Supremo começou a persegui-lo, Caelum estava indefeso. Se aquela garota misteriosa nĂŁo tivesse aparecido, escapar teria sido extremamente difĂ­cil. Havia algo nela que parecia mĂ­stico, atĂ© sobrenatural. Mas o que mais chamou a atenção de Caelum foi o fato de ela usar uma mĂĄscara idĂȘntica Ă  dele.

Ele presumiu que fosse mais um obstĂĄculo querendo detĂȘ-lo, mas ela disse que o ajudaria a escapar. Ele mal conseguia lembrar o que aconteceu depois disso. Tudo que podia afirmar com certeza era que a garota permitiu que ele fugisse de Kreat sem dar de cara com o Guerreiro Supremo nem com os soldados que estavam Ă  sua procura.

Caelum suspirou aliviado. Tinha chegado a uma casa segura de emergĂȘncia numa cidade prĂłxima. No entanto, apesar de ter escapado do perigo imediato, ainda era cedo para relaxar. A Raposa jĂĄ assumia que um dia se encontraria em guerra total com o impĂ©rio — mas isso era algo que supostamente estava bem distante no futuro. Agora, estavam prestes a entrar num conflito ĂĄrduo, ainda mais com a perda de um de seus bens mais valiosos, a Chave da Terra.

E quanto ao grupo enviado para assassinar a princesa imperial? Se tivessem tido sucesso, jĂĄ deveriam ter retornado Ă  base. Mas, se o impensĂĄvel tivesse acontecido e tivessem falhado… entĂŁo provavelmente estavam mortos.

Caelum fechou os olhos e deixou o corpo relaxar, mantendo os outros sentidos atentos ao redor. Pensou na garota que o salvara. A postura, os poderes anormais, a máscara que ela usava. Se não fazia parte da organização, então só havia uma possibilidade — ela veio da Peregrine Lodge, o cofre que havia dado forma à Raposa de Nove Caudas. Ela devia ser descendente da divindade que habitava o cofre.

Muito tempo atrås, o fundador da Raposa encontrou esse cofre de tesouros e recebeu uma måscara do deus que vivia ali. Para a organização, qualquer um que obtivesse uma måscara do cofre era alguém considerado digno pelos deuses.

Ao mesmo tempo, no entanto, o culto Ă  raposa era apenas um nome para justificar a causa deles. Quem encontrava o cofre e recebia uma mĂĄscara de um dos fantasmas — por sorte ou destino — era promovido Ă s altas esferas da Raposa. SĂł isso. Da mesma forma, nĂŁo havia nenhuma razĂŁo profunda por trĂĄs dos privilĂ©gios especiais concedidos aos sacerdotes. No fundo, a Raposa era algo que nasceu dos escombros de uma antiga agĂȘncia de inteligĂȘncia extinta.

Nem Ă© preciso dizer que a Peregrine Lodge nĂŁo era uma aliada. A Raposa jĂĄ tinha enfrentado muitos perigos e nunca uma prole do deus apareceu para ajudar. Afinal, nĂŁo fazia sentido que um fantasma vagasse para longe de seu cofre sagrado.

Aquela garota havia dito: — VocĂȘ Ă© inimigo do Sr. Cautela. Vou ajudĂĄ-lo a escapar. Da prĂłxima vez, a vitĂłria serĂĄ minha!

O que aquilo queria dizer? Quem era o Sr. Cautela? Era o nome verdadeiro? Um codinome? Como alguém conseguia um codinome como aquele? E o que a fuga de Caelum tinha a ver com a vitória dela?

Por mais que pensasse, não chegava a nenhuma resposta. Pelo contexto, era possível que esse “Sr. Cautela” fosse o próprio Mil Truques, já que era ele quem Caelum vinha enfrentando.

“Chega disso”, disse a si mesmo. “VocĂȘ precisa descansar.”

A fundação da organização havia sido abalada. Na situação atual, enfrentar o Mil Truques era perigoso demais. Independentemente da identidade daquela garota, o melhor seria considerĂĄ-la uma aliada Ăștil.

Foi então que Caelum ouviu uma voz atrás de si. Era uma voz feminina — e gelada.

— Heh heh heh. VocĂȘ nĂŁo parece nada bem, Caelum.

O susto o fez abrir os olhos de imediato e soltar um suspiro pesado. Percebeu que uma sombra alta havia surgido no cĂŽmodo. Ela usava um manto e carregava uma espada presa na cintura. No rosto, uma mĂĄscara parecida com a de Caelum. A Raposa tinha muitas caudas, e Caelum nĂŁo era a Ășnica.

— Onde estĂŁo seus modos? Este Ă© o meu domĂ­nio, Cauda da LĂąmina.

— Engraçado vocĂȘ dizer isso. Ou acha que sou ignorante? Os rumores chegaram atĂ© mim. Seu bichinho de estimação te traiu e todo mundo que vocĂȘ mobilizou acabou ferido. Nossa organização estĂĄ desmoronando e a sede virou um caos.

Caelum franziu o cenho. Ela havia acertado em cheio. De fato, suas operaçÔes recentes estavam longe de ter um bom resultado. Além da perda desastrosa da Cascata Reversa e do Chamador de DragÔes, um plano que vinha sendo desenvolvido hå anos agora tinha ido por ågua abaixo. Normalmente, um chefe invadir o território do outro seria uma violação de protocolo, mas Caelum não estava em posição de protestar.

— Nada que não possamos recuperar — disse ele. — Agora sabemos como nosso inimigo age, e tenho certeza de que o caos na sede será resolvido em breve.

Caelum começou a achar que, talvez, a presença da Cauda da Lùmina ali fosse um golpe de sorte. Até mesmo o Mil Truques provavelmente precisaria de um tempo para entender o novo cenårio. Dentro das fileiras astutas da Raposa, a Cauda da Lùmina se destacava como uma militante fervorosa, e seus talentos não ficavam atrås dos de Caelum. Apesar de preferir lidar com isso pessoalmente, tudo daria certo se mandasse essa mulher atrås do Mil Truques. A morte daquele caçador seria um golpe consideråvel contra o império.

— JĂĄ me contaram por alto o que aconteceu — disse a Cauda da LĂąmina, num tom baixo. — EntĂŁo diga, Caelum, como vocĂȘ escapou? Fugir nĂŁo deve ter sido fĂĄcil estando esgotado assim.

Então ela tinha subordinados monitorando a situação? Isso também era uma violação de protocolo, mas, dessa vez, Caelum estava grato.

Ele respirou fundo e se esforçou para manter a compostura. — VocĂȘ pode nĂŁo acreditar, mas fui salvo por uma descendente do deus raposa. Recebemos a bĂȘnção deles.

Houve um longo silĂȘncio antes de Blade Tail responder. — Entendo.

Caelum nĂŁo esperava uma resposta tĂŁo seca. Blade Tail nĂŁo fez mais perguntas; simplesmente sacou sua espada. Era uma lĂąmina curva, com pouco mais de um metro de comprimento, marcada por um padrĂŁo distinto. Era uma RelĂ­quia, com uma superfĂ­cie estranha que parecia quase molhada. Sua impressĂŁo abissal era hipnotizante; parecia mais uma obra de arte do que uma arma. A superfĂ­cie metĂĄlica cintilava de forma suave. Blade Tail parecia apenas parada, mas Caelum nĂŁo conseguia enxergar uma Ășnica abertura.

— O que vocĂȘ pretende fazer? — perguntou ele. Lançar uma magia nĂŁo seria problema agora que havia recuperado a maior parte de suas forças.

Blade Tail bufou. — Eu estava curiosa para saber qual desculpa vocĂȘ daria, mas… um deus? Caelum Tail, o estrategista, caiu muito baixo. VocĂȘ estĂĄ sob suspeita de colocar a organização em risco por ter liberado nossa arma estratĂ©gica, a Chave da Terra. TambĂ©m hĂĄ suspeitas de que entregou uma mĂĄscara secretamente a um subordinado para desestabilizar a sede. Eu vou te apagar aqui e agora.

Caelum se levantou de um salto. — O quĂȘ?!

Ele a encarou, mas nĂŁo conseguia decifrar sua expressĂŁo por causa da mĂĄscara. A voz dela, no entanto, carregava desprezo e pena. Ela apontou a lĂąmina para ele.

— NĂŁo se preocupe. Raposas nĂŁo morrem, sĂł ganham novos rabos. Teremos que mostrar nossa gratidĂŁo ao Mil Truques por impedir a destruição. Quanto ao comando da regiĂŁo de Zebrudia, nĂŁo teremos problema em encontrar alguĂ©m novo para assumir.

O Mil Truques. Essas palavras provocaram um choque em Caelum. Alarmes dispararam em sua mente. Pensando bem, os movimentos recentes do Mil Truques pareciam precisos e cirĂșrgicos. Era quase como se ele soubesse cada passo da operação de Caelum. Nenhum estrategista, por mais talentoso que fosse, conseguiria algo assim sem ter pleno conhecimento dos planos e mĂ©todos da Fox.

AliĂĄs, a resistĂȘncia feroz de Galf tambĂ©m era estranha. SerĂĄ que algum truque bastaria para motivĂĄ-lo a montar uma resistĂȘncia tĂŁo grande? NĂŁo faria mais sentido se houvesse algo a mais por trĂĄs?

E ainda tinha a descendente divina aparecendo para resgatå-lo no momento exato. Se alguém fosse capaz de manipular a prole de um deus raposa, mesmo que minimamente, teria que ser uma das sacerdotisas.

Serå que tudo isso tinha sido um plano para arruinar Caelum? Para fazer isso sem que ele percebesse, seria necessåria uma autoridade consideråvel. Seria necessårio o apoio de alguém dos escalÔes mais altos da Fox. De fato, Caelum vinha tentando entender como alguém tão prudente quanto Galf pÎde ser enganado tão completamente.

Ele deixou seu mana começar a circular. Diziam que Blade Tail não era exatamente boa em tramas, mas talvez tudo isso fosse apenas um blefe?

— NĂŁo me diga… — disse ele. — VocĂȘ usou o Mil Truques para semear essa confusĂŁo?

— Hm? Vejo que não adianta continuar essa conversa — respondeu Blade Tail — a traidora — com um bufo, antes de preparar sua lñmina.

Os membros do Primeiros Passos estavam reunidos em um prédio próximo à filial da Associação dos Exploradores em Kreat.

— Mestreee! VocĂȘ acordou! — Tino correu atĂ© mim, mas foi bloqueada por Sitri.

Sven arqueou uma sobrancelha, claramente exasperado. — VocĂȘ fez mais uma loucura daquelas, nĂ© — suspirou.

Pelo que parecia, enquanto eu estava inconsciente, os caçadores que estavam na plateia tinham feito um belo trabalho. Sob a direção de Gark e da Inferno Abissal, os Magos mantiveram a Chave da Terra sob controle, enquanto os que não podiam ajudar nisso protegiam os civis e coordenavam a evacuação.

Pode não ter sido intencional, mas, como fui quem ativou a Relíquia, eu me sentia profundamente envergonhado. Cocei a cabeça e disse, meio sem graça:

— Cara, isso aĂ­ foi realmente uma encrenca e tanto em que a gente se meteu…

— “Se meteu”?! — Eva, que tinha se empenhado em organizar todo mundo, ajustou os óculos e me lançou um olhar cheio de suspeita. Será que ela tinha percebido que eu tinha tropeçado?

Touka, por outro lado, sĂł deu de ombros. — NĂŁo tenho do que reclamar. O Festival do Guerreiro Supremo pode atĂ© ter sido cancelado, mas essa foi uma boa oportunidade para fazermos nosso nome.

Touka superou rĂĄpido a chance perdida de glĂłria. Achei isso bem maduro da parte dela. Ou talvez ela nunca tenha se importado tanto, considerando como valoriza dinheiro mais do que fama.

Tino se aproximou devagar, para nĂŁo acionar a Barreira Sitri. — Mestre, vocĂȘ jĂĄ estĂĄ curado?

— Tî bem. Só cansado.

— SĂł cansado? — repetiu Kris. — Ah, qual Ă©! VocĂȘ tĂĄ dizendo que tĂĄ “sĂł cansado” depois de segurar uma coisa daquele tamanho?! A gente ficou preocupada! Senhor!

O jeito descarado dela era o de sempre. Pelo que eu percebi, ninguém parecia realmente preocupado.

— “Segurar”? Hã? Eu segurei?

— Como assim?! Senhor? Eu vi com meus prĂłprios olhos! Um EspĂ­rito Nobre nunca erra ao ler mana. Eu diria que vocĂȘ segurou… trinta—nĂŁo, trinta e cinco por cento!

Trinta por cento. Trinta e cinco por cento?

Infelizmente, tudo que eu conseguia perceber era que o mana emanando da Chave da Terra era algo imenso. NĂŁo fazia ideia se trinta e cinco por cento era muito ou pouco.

Depois de me observar em silĂȘncio por um tempo, a lĂ­der da Luz Estelar, Lapis, soltou um suspiro. descruzou as pernas e se levantou do assento. Caminhou atĂ© mim e me encarou com olhos claros e indecifrĂĄveis.

— Hmph. Isso definitivamente nĂŁo Ă© algo que se espera de um humano. Onde, exatamente, no seu corpo, fica todo esse mana? Mesmo de perto, nĂŁo consigo detectar nem um traço. Na sua irmĂŁ, Lucia, vejo um grande rio… mas em vocĂȘ, nada.

Lucia segurou a cabeça e soltou um suspiro bem longo.

Era verdade que eu tinha tentado conter a relíquia. Achei que tinha falhado, mas parece que acabei conseguindo sem perceber. Vai ver eu realmente consigo fazer alguma coisa quando me esforço?

— Hmm, consegui segurar ela, sim — falei. — Tentei parar de vez, mas aí já era demais pra mim. Assim como todo mundo, ainda tenho muito o que crescer.

— Parece que ainda tem seu espĂ­rito de luta, senhor. Mas, sĂ©rio, o que estĂĄ acontecendo no seu corpo? Pelo que a gente entende de mana, nĂŁo devia ser possĂ­vel vocĂȘ usar tanto e ainda ficar de boa. Senhor.

Sem pensar muito, Kris estendeu a mĂŁo pra mim, mas levou um susto quando Sitri afastou ela com um tapa.

— Sem encostar — disse Sitri com um sorriso.

— Só um pouquinho não vai fazer mal, senhora.

— Eu disse que nĂŁo. Te deixei negociar a transferĂȘncia da Lucy, mas nunca te dei permissĂŁo pra encostar no Krai.

Kris nĂŁo respondeu, mas tentou de novo, teimosa. Sitri afastou ela de novo sem hesitar. Eu nem sabia que as duas se davam tĂŁo bem assim.

No instante seguinte, Sven fez uma cara como se tivesse lembrado de algo.

— Ah, Ă© mesmo, Krai. Seu sĂłsia apareceu por aqui faz pouco tempo. Disse que queria te ver antes de sair da cidade.

***

Krahi e o grupo dele estavam hospedados numa pousada mais modesta, uns bons níveis abaixo da nossa. Com os membros do grupo atrás dele — todos com cara de quem não dormia há dias —, as primeiras palavras que ele soltou foram cheias de espanto.

— EntĂŁo… VocĂȘ Ă© um caçador famoso.

O incidente no torneio tinha sido ruim de vårias formas, mas se fosse para apontar quem mais sofreu com tudo aquilo, acho que seria justo dizer que foi o Krahi. Eu também me dei mal, sendo jogado à força no torneio, tomando raio na cabeça e tudo mais, mas o Krahi foi confundido comigo e atacado por aquele cara da måscara de raposa.

Mesmo assim, ele tava calmo como sempre. NĂŁo parecia incomodado com o fato de eu ter escondido meu nĂ­vel dele. Pra ser justo, apesar de nĂŁo ter revelado meu nome real, o tĂ­tulo Mil Truques era conhecido por muita gente. NĂŁo sei nem o que pensar se ele nĂŁo conhecia. Talvez essa magnanimidade dele fosse o sinal de que ele realmente merecia estar no NĂ­vel 8.

Se a Sitri estivesse aqui, teria continuado a conversa por mim, gentil como sempre. Mas infelizmente, o Ășnico que me acompanhava era o Luke. Sem ninguĂ©m pra me dar cobertura, fiquei em silĂȘncio, sem saber o que dizer.

— Queria ter te encontrado antes, mas sĂł me recuperei agora hĂĄ pouco — continuou Krahi. — Aquele meu Ășltimo raio foi um pouco exagerado.

— Ah, o que me acertou.

Lembrei bem daquele raio. Foi o que gastou meu Ășltimo Anel de Segurança. Pensando bem, o cara da mĂĄscara nunca me atacou diretamente, mas levei umas boas porradas desse aqui.

A magia de raio era chamada de magia dos campeĂ”es nĂŁo sĂł porque era poderosa, mas porque tambĂ©m era uma das mais difĂ­ceis de controlar. Especificamente, era complicado acertar o alvo certo. Em resumo, feitiços de raio serviam bem para torrar ĂĄreas grandes, mas nĂŁo eram ideais para acertar um alvo especĂ­fico. Mesmo com um controle impecĂĄvel, um raio ainda podia sair do rumo se o Ansem — ou qualquer azarado — estivesse por perto.

Como eu sabia disso? Porque a Lucia me contou! Ela nĂŁo usava magia de raio, mas acho que nem preciso explicar por quĂȘ. Nunca vou esquecer a cara dela quando tentou um feitiço de raio pela primeira vez e me acertou sem querer.

Krahi assentiu e passou a mão no cabelo. Tinha algo nesse gesto que me irritava, mas também combinava com ele.

— Fiquei sabendo do que aconteceu. NĂŁo sei nem o que dizer. Parece que vocĂȘ se segurou para atrair a Raposa.

— Hã?

Como Ă© que a histĂłria chegou a esse ponto? NĂŁo tinha um pingo de verdade no que ele tava falando. Os boatos deviam ter ganhado vida prĂłpria. Mas explicar a verdade seria complicado. Em especial, a parte de que o “eu” com quem o Krahi lutou nem era realmente eu.

Olhei pra trås e vi o Luke assentindo com cara de quem entendeu tudo. Ele claramente não sabia de nada. Era um cara apaixonado, mas completamente desligado com o que não chamava a atenção dele.

Nossos olhares se cruzaram por um momento. Ele entĂŁo deu um passo Ă  frente e suspirou, exasperado.

— VocĂȘ nĂŁo entende nada — disse ele pro Krahi. — VocĂȘ falou que ele se segurou? NĂŁo, aquilo tudo fazia parte do plano do Krai. Nem eu entendo direito.

Se vocĂȘ “nem entende direito”, entĂŁo fica quieto, por favor.

Eu nĂŁo sabia o que fazer pra resolver aquilo numa boa. Apesar de nĂŁo poder contar a verdade, ainda queria desfazer algumas das ideias erradas do Krahi.

— Krai, me responde uma coisa — disse ele, sĂ©rio. — Quando vocĂȘ caiu com o meu raio, aquilo foi sĂł atuação?

Essa era a minha chance! Minha chance de parecer um pouco menos impressionante! Não sei por que isso tinha que ser tão difícil, sendo que eu nunca fui impressionante pra começo de conversa!

— NĂŁo, nunca conseguiria atuar tĂŁo bem assim — respondi. — NĂŁo posso entrar em detalhes, mas foi um feitiço assustador que fez aquilo comigo. Quando se trata de controlar o raio, sĂł consigo pensar numa pessoa mais habilidosa que vocĂȘ.

Nenhum campeão comum conseguiria fazer aquilo. Mesmo com minha visão ruim, que não serve para avaliar a força dos outros, eu tinha certeza de que nem o Arnold — que era Nível 7 e conhecido como Relñmpago Estrondoso — conseguiria fazer igual.

E quem era essa pessoa? Ninguém menos que Ark Rodin. Eu era um devoto fiel do Ark, e diferente do Krahi, conhecia ele fazia tempo e jå tinha pedido vårios favores.

Sem dizer nada, Krahi fechou os olhos. Depois de um tempo, assentiu.

— Entendo. Era o que eu suspeitava, por mais absurdo que pareça. AtĂ© agora, achei que nĂŁo tinha igual no controle do raio. Mas devo aceitar que nĂŁo Ă© bem assim.

Ele me encarou diretamente nos olhos. Talvez por frustração, seu punho cerrado tremia. NĂŁo existia caçador no mundo que gostasse de perder. Mas eu simplesmente nĂŁo podia dizer que achava Krahi melhor que Ark Rodin, o TrovĂŁo ArgĂȘnteo. E eu ainda era tendencioso a favor do Ark. Eu dava noventa e nove pontos pra ele, e daria cem se ele nĂŁo desaparecesse toda vez que eu mais precisava dele.

— Eu admito, Krai Andrey — ele declarou. — NĂŁo consigo superar vocĂȘ quando se trata de magia de trovĂŁo.

— Hã? — Eu não sabia nem o que responder. O que ele tava falando? Será que levar um raio na cabeça bagunçou alguma coisa lá dentro? Era uma piada? Alguma encenação digna de Mil Truques?

Krahi continuou com uma energia meio… estranha.

— NĂŁo precisa fingir. Eu percebo. VocĂȘ se deixou ser atingido de propĂłsito para absorver o poder dos raios!

Eu nĂŁo fazia ideia do que Krahi tava falando, mas Luke se empolgou na hora.

— Ele absorveu o raio?! Caralho, isso Ă© foda! Eu quero tentar! Manda um raio em mim!

Alguém corta esse papo com uma piada, por favor.

— Antes de desmaiar, senti os poderes daquele cara da mĂĄscara e tambĂ©m um pouco da Chave de Terra. Nenhum humano conseguiria conter essas forças ao mesmo tempo! A nĂŁo ser que tivesse pegado emprestado o poder da prĂłpria natureza! E antes que vocĂȘ diga qualquer coisa, tenho mais provas. VocĂȘ tambĂ©m levou o raio que era pra atingir o cara da mĂĄscara.

Levei o raio? VocĂȘ me acertou! Bom, pelo menos admiro a criatividade.

— VocĂȘ redirecionou os feitiços dos outros conjuradores para transformar o poder deles no seu prĂłprio — continuou Krahi. — Isso Ă© territĂłrio desconhecido pra mim. VocĂȘ Ă© o verdadeiro Supremo Voltaico. NĂŁo, vai alĂ©m disso. VocĂȘ Ă© o Divino Voltaico!

Talvez esse cara nĂŁo seja tĂŁo equilibrado assim…

Foquei no mais urgente — esclarecer os mal-entendidos.

— E-Esse raio me atingiu porque vocĂȘ nĂŁo conseguiu controlar—

Parei e dei um passo pra trås. O cabelo do Krahi estava soltando faíscas. Quando Magos poderosos sentem emoçÔes intensas, essas coisas acontecem.

— Tomei minha decisĂŁo, Divino Voltaico — ele proclamou, apontando o dedo pra mim. — Vou superar vocĂȘ! Vou aprender o segredo de absorver trovĂ”es e depois ir alĂ©m! Fiquei triste que o Festival do Guerreiro Supremo foi cancelado, mas valeu a pena ter vindo atĂ© aqui! Meus olhos se abriram! Vou ficar mais forte! Com nossos tĂ­tulos parecidos, nĂŁo tenho dĂșvidas de que foi o destino que nos uniu!

NĂŁo, eu tava falando do Ark. Se eu achasse que era melhor que vocĂȘ, nĂŁo teria falado daquele jeito! Por mais que eu quisesse explicar isso, nĂŁo consegui dizer nada diante da empolgação eletrificada de Krahi.

Seus olhos brilhavam e ele parecia prestes a explodir de entusiasmo.

— Vamos lutar de novo um dia. Nunca vou esquecer que alguĂ©m me superou no caminho dos trovĂ”es. Vou fazer questĂŁo de que todos saibam que o Supremo Voltaico tem um superior: o Divino Voltaico! Nossa prĂłxima luta vai ser digna do tĂ­tulo. AtĂ© conseguir te derrotar, vou ceder o tĂ­tulo a vocĂȘ!

De algum jeito, eu tinha acabado de ganhar o tĂ­tulo de “Divino Voltaico”. Os boatos nĂŁo tinham sĂł criado vida prĂłpria, tinham alcançado a divindade. Caçadores de alto nĂ­vel eram todos malucos.

Num movimento elegante e dramĂĄtico, Krahi se virou. Queria ter a Ășltima palavra.

Preciso impedir ele. Droga, nĂŁo consigo pensar com esse barulho de faĂ­sca irritante.

Consegui abrir a boca e gritar:

— Espera, Krahi! VocĂȘ jĂĄ me superou!

Krahi congelou.

— O que foi que vocĂȘ disse? — Ele se virou, com as faĂ­scas ficando ainda mais intensas. A essa altura, eu jĂĄ nĂŁo sabia se ele tinha controle real sobre os prĂłprios poderes. — SĂł pra constar, de que forma eu te superei? — perguntou com desconfiança.

Em todas as possĂ­veis, na verdade. Eu nem conseguia pensar em algo que fizesse melhor. Mas ele nĂŁo ia acreditar se eu nĂŁo fosse especĂ­fico. SĂł nĂŁo sabia o que exatamente dizer.

AtrĂĄs do Krahi estavam os membros da sua equipe. A Ășnica que eu jĂĄ conhecia era a Lusha, mas todos batiam com as descriçÔes que ouvi. Um rapaz ruivo de Ăłculos (provavelmente Kule), uma Ladina com roupas espalhafatosas e um peitĂŁo (provavelmente Izabee), e uma mulher com cara de maga suspeita (provavelmente Kutri).

Eles nem podiam ser chamados de cĂłpias baratas — erraram atĂ© no gĂȘnero. Se eu nĂŁo tivesse problemas mais urgentes, teria uma conversa sĂ©ria com eles.

— Em que exatamente eu te superei? — Krahi repetiu num tom mais baixo, dando um passo à frente.

Se ele se aproximasse mais, eu ia tomar choque, entĂŁo disparei rĂĄpido:

— N-Na diversidade do seu grupo! VocĂȘ tem companheiros incrĂ­veis!

NĂŁo! NĂŁo era isso que eu queria dizer. Nem de longe!

Fiquei preocupado dele achar que era sarcasmo, mas ele sĂł me olhou de olhos arregalados, depois respirou fundo.

— De fato — disse depois de uma pausa. — VocĂȘ estĂĄ certo.

Ele acreditou?

Talvez fosse a primeira vez na vida que consegui convencer alguém de alguma coisa. Surpreso com meu próprio sucesso, eu também arregalei os olhos.

— Permita-me corrigir o que eu disse — falou num tom mais calmo que antes. — NĂłs vamos derrotar vocĂȘ.

Não! Não! Virem pra cá! Kule e Izabee — os mais normais do grupo — estavam se curvando em sinal de desculpas!

Estava começando a achar que o Bereaving Souls era o completo oposto do meu grupo. E serå que eu só ia ter que aceitar o título de Divino Voltaico agora? Bom, saber a hora de desistir era uma das poucas coisas em que eu era bom.

Foi então que Luke deu um passo à frente. Essa era a chance! Ninguém era pior de escutar que ele! Com certeza ia botar tudo nos trilhos! Rezei pros deuses.

— VocĂȘ nĂŁo entendeu nada, Supremo Voltaico — ele afirmou com convicção. — O motivo de vocĂȘ nĂŁo conseguir competir com o Divino Voltaico Ă© porque vocĂȘ nĂŁo sabe o que Ă© ficar forte de verdade!

Demorei um pouco pra processar tudo isso. Não tava conseguindo acompanhar. Era o Luke Sykol. Não o Kule, o Luke. Mas quando foi que ele decidiu me chamar de Voltaico Divino? A gente passou anos se aventurando junto e eu nunca nem usei magia de raio. Ele só tava indo na onda do que o Krahi falou? Serå que o cérebro dele é feito de espadas?

O prĂłprio Voltaico Supremo pareceu pego de surpresa com aquelas palavras, porque ficou sĂł encarando o Luke, chocado.

— Escuta aqui — continuou o Luke, com aquele tom de professor —, o motivo de vocĂȘ ter perdido pro Voltaico Divino Ă© que vocĂȘ depende de uma RelĂ­quia. Esse cajado tĂĄ te segurando! Assim como os melhores espadachins nĂŁo podem se apegar Ă  espada, um verdadeiro mago do raio nĂŁo devia precisar de RelĂ­quia para eletrocutar os inimigos. O Krai tĂĄ aĂ­ pra provar isso. Ele nunca confiou numa RelĂ­quia sequer! Se quiser ser o melhor, larga esse cajado aĂ­!

Não tinha mais salvação. Do começo ao fim, o Festival do Guerreiro Supremo foi uma completa bagunça! Decidi só deixar a correnteza me levar e dei um sorrisinho. Krahi me olhou bem sério.

E assim chegou ao fim o nosso caĂłtico Festival do Guerreiro Supremo. Ganhamos algumas coisas, perdemos outras; demos oi, demos tchau; e, como sempre, eu sĂł consegui ir com o fluxo, do inĂ­cio ao fim.

Teve um burburinho de que o incidente na arena fez o império formar uma coalizão anti-Raposas, mas isso não era problema meu. Suponho que, se havia algo em comum entre nós, era o desejo de ver criminosos mortos. Se todos os bandidos do mundo desaparecessem, meus dias seriam bem mais tranquilos.

— Sabe, Krai, acho que dessa vez vocĂȘ saiu no lucro — disse Luke. EstĂĄvamos nos preparando para deixar Kreat, e ele tava lĂĄ, polindo sua espada de madeira.

— HĂŁ? — respondi. — O que foi que vocĂȘ viu e eu nĂŁo?

Eu não ganhei nada com isso. Começou até que bem, mas no fim das contas, só fiquei com dor de cabeça. Enquanto isso, o Luke fez o que quis o tempo inteiro!

Percebendo minha descrença, ele se endireitou e explicou:

— Escuta, vocĂȘ nĂŁo foi o Ășnico que tava empolgado com o torneio. Eu vim aqui pra cortar uns carinhas casca-grossa, e no fim, sĂł vocĂȘ participou do torneio e ainda lutou com aquele cara da mĂĄscara de raposa. Eu nĂŁo tive nada disso. Eu queria lutar. Queria levar um raio. VocĂȘ ainda virou o Voltaico Divino.

PORQUE GENTE COMO VOCÊ COMEÇOU A ME CHAMAR ASSIM.

Eu até tinha algumas ressalvas com a primeira metade do discurso, mas a segunda nem fazia sentido. Eu nem sabia que tinha gente por aí querendo ser atingida por um raio.

— TĂĄ, cortar inimigos a mando da princesa atĂ© que foi divertido — ele continuou —, mas aquilo foi sĂł o aperitivo. Eu tĂŽ tentando ser um espadachim legal e calado, mas atĂ© eu tenho que falar quando roubam meu prato principal. TĂĄ me ouvindo, Krai? Eu quero cortar e matar uns vilĂ”es fortes!

O que diabos vocĂȘ andou fazendo quando eu nĂŁo tava olhando? Quer saber? Melhor nem saber.

— AtĂ© a Lucia e o Ansem tiveram mais ação que eu. Tiveram que conter aquele surto maluco de mana! NĂŁo sei o que rolou com a Sitri, mas eu vi ela fazendo aquele sinal de paz! Mas e eu? Onde estavam os meus inimigos?! Cortar escombro caindo nĂŁo tem graça nenhuma! Krai, meus inimigos! Inimigos que eu possa cortar! I-NI-MI-GOS. Isso Ă© discriminação!

Luke começou a pisar no chão feito uma criança. Eu não fazia ideia de que ele tava guardando tanta frustração.

— Olha, o Luke aqui tentou cortar o antigo Guerreiro Supremo — Liz resmungou.

— Aquele covarde! Disse que nĂŁo ia lutar comigo porque os prĂ©dios iam cair se a gente brigasse fora da arena! Como se isso fosse me impedir!

Com declaraçÔes dessas, ele nunca vai virar o próximo Santo da Espada, por mais que melhore suas habilidades.

— Já deu, Luke — Liz ralhou e agarrou ele por trás. — Estamos atrapalhando o Krai Baby, vamos sair daqui.

— HĂŁ?! VocĂȘ nĂŁo tĂĄ na mesma situação que eu?!

Liz parecia bem insatisfeita.

— Hm. É, se vocĂȘ nĂŁo estivesse, eu Ă© que estaria pisando no chĂŁo, mas nĂŁo consigo te superar nisso.

Acho que ela ainda tinha um pingo de vergonha na cara. Sinceramente, eu nĂŁo fazia ideia de como o Luke esperava que eu resolvesse o problema de falta de inimigos dele.

Enquanto arrastava o Luke pra longe, Liz se virou e apontou o dedo pra mim.

— NĂŁo ache que eu tĂŽ mais feliz que o Luke! Vou fazer vocĂȘ me arranjar uma forma de compensar isso!

Parece que fiquei devendo alguma coisa pra ela. NĂŁo fazia ideia do que fazer com isso.

— SĂł pra esclarecer — disse a Lucia —, por mais que o Luke tenha falado assim, eu tambĂ©m nĂŁo tĂŽ nada satisfeita! Perdi uma prova por causa disso e ainda tive que dar um jeito naquela RelĂ­quia!

— TambĂ©m quero compensação! — lamentou Sitri, se juntando. — Perdi a Matadinha e nem consegui pegar a organização que esperava— Augh!

Lucia derrubou ela com um feitiço de vento.

— Eu vi o quanto vocĂȘ tava feliz! Fez atĂ© sinal de paz!

Que jeito cruel de cortar alguém, mesmo sendo amiga de infùncia.

Se querem saber, a culpa de tudo isso é daqueles caras com måscaras de raposa. Se for pra falar de compensação, acho que eu queria tanto quanto o resto, mas resolvi guardar pra mim.

— VocĂȘ Ă© meu Ășnico aliado, Ansem? — perguntei. — Mas duvido que vĂĄ conter a Sitri e a Liz pra mim, nĂ©?

— Mmm.

Esse “mmm” foi afirmativo?

Enquanto deixĂĄvamos a cidade, fiz questĂŁo de ignorar a conversa entre Luke e Sitri.

— Sabe, Luke, pensando bem, as coisas só tão começando. Lembra que o Krai acabou de arrumar briga com a maior organização criminosa do mundo?

— Então vamos ter vários inimigos?

— Tenho certeza!

Tinha gente demais disposta a aceitar brigas que eu nem tava oferecendo. Nesse ponto, um ou dois novos inimigos a mais jå nem faziam diferença pra gente, mas mesmo assim, achei melhor evitar sair de casa por um tempo. Bem na hora que as coisas estavam começando a sossegar.

Eu nunca fui bom em detectar presenças, então ficar de olho em inimigos que podiam ou não estar logo na próxima esquina era exaustivo, mesmo com uma certa Relíquia me mantendo perfeitamente confortåvel. Se tinha um ponto positivo, era que até eu conseguia perceber algo tão imenso quanto uma das raposas fantasmagóricas.

Bem quando comecei a revisar mentalmente se nĂŁo tinha mais nada pra fazer em Kreat, dois rostos familiares apareceram na janela da carroça ao lado da nossa. Levei a mĂŁo Ă  testa. Era a Sora e o Galf, do Clube de FĂŁs das MĂĄscaras de Raposa (nome provisĂłrio). Mas a Sora nĂŁo estava com aquelas vestes brancas puras de sempre — agora usava algo que qualquer morador da cidade usaria. Ela tambĂ©m cortou o cabelo e estava de Ăłculos. JĂĄ o Galf estava de muletas, o que me fez pensar que tinha se machucado ou algo assim.

De todas as pessoas com quem tive contato, esses dois talvez fossem os Ășnicos que eu realmente incomodei pessoalmente.

— Sora — chamei. — Como vocĂȘ tĂĄ?

A Sora quase pulou de susto. Se virou rĂĄpido pra mim e disse:

— Shhh. Bo— Quer dizer, Krai, eu não sou mais a Sora.

— Hã?! Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu um monte de coisa. Tî fugindo. Consegui uma chance que provavelmente não vai aparecer de novo.

O que foi que rolou?

— Foi vocĂȘ que deu essa oportunidade pra gente, quando enfrentou o chefĂŁo — explicou a Sora, falando rĂĄpido. — A organização tĂĄ um caos, e ouvi dizer que nosso chefe entrou numa briga com outro chefe, entĂŁo ninguĂ©m tem tempo pra se preocupar com a gente. Hehe, aposto que era isso que vocĂȘ queria quando deixou o chefĂŁo fugir, nĂ©?

— E-Era?

Pera… TĂŽ por fora. Eu lutei contra um chefĂŁo? Que histĂłria Ă© essa?

— A gente decidiu cortar nossas perdas e sair da organização — ela continuou. — O Galf Ă© um cara incrĂ­vel. Mesmo depois que a verdade veio Ă  tona, muitos dos subordinados dele ainda estĂŁo do lado dele. As chances de a gente conseguir escapar totalmente sĂŁo bem altas.

— Ei, Sora, com quem vocĂȘ tĂĄ falando aĂ­?

Um cara grandão apareceu do outro lado da carroça. Ele tinha uns seis décimos de um Ansem, e eu tinha a impressão de jå ter visto esse rosto antes.

— Hanneman, esse aqui Ă© o Krai. Nosso chefe. NĂŁo vou deixar ele abandonar a gente.

— Que Ă© isso? Ele veio ajudar a gente? Bom, de qualquer jeito, eu sĂł sigo ordens do Galf.

HĂŁ?

Esse não era o cara que atacou o museu? Aquele que o Krahi derrubou? Demorou, mas os neurÎnios começaram a funcionar. Eu enfrentei um chefão? Eu sou um chefão também? Chefão? Isso me deu uma péssima sensação, então decidi parar de pensar no assunto ali mesmo.

— Claro que ele vai ajudar a gente. Ele Ă©, afinal, o Mil Truques. Tudo dança na palma da mĂŁo dele. Ele jamais usaria a gente e sumiria depois.

A Sora falava com um tom entre a reverĂȘncia e a provocação, como se nĂŁo tivesse sido ela mesma quem insistiu em seguir com a mentira.

NĂŁo respondi de imediato, mas soltei um suspiro resignado ao ver que a Sora nĂŁo ia mudar de postura.

— Eu nĂŁo entendi muito bem, mas por que vocĂȘs nĂŁo vĂŁo pra capital imperial? LĂĄ Ă© seguro, e eu realmente acho que vocĂȘs deviam tentar vender inarizushi. Vai ser bem melhor do que fazer parte de uma organização dessas. Provavelmente.

— Galf, a capital imperial! — disse a Sora, com os olhos brilhando. — Vamos pra capital imperial! O Krai vai ajudar a gente. Que ideia esquisita. Normalmente, a gente esconderia alguĂ©m na floresta! Eu nunca fui pra capital imperial!

Essa nĂŁo era nem de longe a Sora que eu lembrava. E tenho quase certeza que esconder alguĂ©m na floresta sĂł funciona se a pessoa souber sobreviver por lĂĄ. Me envolver com a Sora de novo parecia um baita incĂŽmodo, embora por motivos diferentes dos de antes. AtrĂĄs de mim, a Sitri esperava em silĂȘncio, mas com visĂ­vel ansiedade. Segurei o braço dela e a ofereci como sacrifĂ­cio.

Hmm. Antes de ir, acho que devia dar um conselho para eles.

Olhei de novo pra Sora, segurei a vontade de vomitar e disse:

— Ah, e Ă© melhor nĂŁo colocar a palavra “Raposa” no nome do restaurante de vocĂȘs. NĂŁo vai sair nada de bom disso.


Tradução: Carpeado
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