Grieving Soul â CapĂtulo 5 â Volume 7
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire
Light Novel Online – Volume 07 – CapĂtulo 05:
[O Festival do Guerreiro Supremo]
O dia do destino havia chegado, e eu estava com dor de barriga no momento em que acordei.
Lucia me arrastou para fora da cama, gritando:
â Se controla! VocĂȘ acha que pode lutar desse jeito? NĂŁo Ă© contra um caçador qualquer que vocĂȘ vai lutar!
â NĂŁo dĂĄ. Minhas RelĂquias estĂŁo descarregadas.
â Eu carreguei elas.
Eu nĂŁo tinha dormido nem perto do suficiente. Tudo por causa daquela maldita chave do torneio. Eu nĂŁo ia sair de casa. Desde o inĂcio atĂ© agora, eu disse que nĂŁo iria participar, e em nenhum momento demonstrei vontade de ir. Mas mesmo pra mim, era pouco provĂĄvel que tivesse outro cara por aĂ com exatamente o mesmo nome e sobrenome que o meu.
Então, qual a causa mais provåvel disso? Alguma cagada do império? Eu só quero ir pra casa.
â VocĂȘ nĂŁo parece bem â comentou Liz. Ela estava treinando com Luke a manhĂŁ toda. â Normalmente vocĂȘ fica calmo, nĂŁo importa o que aconteça.
Eu nunca me sinto bem! pensei, enquanto forçava meu corpo a levantar.
â Agora, agora, Krai â disse Sitri, sorrindo e batendo palmas â, se o Krai na chave for um Krai diferente do nosso Krai Krai Krai…
Ela tinha quebrado de vez. Talvez eu tenha batido demais na cabeça dela? Talvez ela só gostasse de ver minhas reaçÔes enquanto começava a alinhar poçÔes na minha frente.
â Aqui temos uma poção de cura, um explosivo, um veneno, um paralisante, um indutor de sono, uma de recuperação de mana…
Ela estava quebrada, mas algumas funçÔes ainda funcionavam.
Balancei a cabeça, dizendo a mim mesmo para nĂŁo tirar conclusĂ”es precipitadas. Era possĂvel que o eu da chave fosse outro eu. Se existia um sĂłsia, entĂŁo talvez existisse um verdadeiro (nĂŁo, eu nĂŁo sei o que isso quer dizer). Eu estava tĂŁo nervoso e em pĂąnico que parecia que ia vomitar.
Lucia suspirou e disse:
â Por que vocĂȘ aceitou o ingresso se nĂŁo queria participar?
â Porque eu queria assistir.
â E eu nĂŁo tĂŽ te dizendo desde sempre que esse Ă© ingresso de participante?!
Dava vontade de dar uns tapas no meu eu do passado por ser tĂŁo relaxado. E se eu realmente fosse participar… o que isso significava pra princesa? AliĂĄs, eu nem tava vendo ela por perto. SerĂĄ que ela fugiu?
â Se estiver procurando pela Princesa Murina, ela vai assistir dos assentos VIP. Ela Ă© da famĂlia imperial, como vocĂȘ sabe.
Fiquei repetindo pra mim mesmo pra nĂŁo me preocupar, que eu com certeza nĂŁo ia participar, entĂŁo nĂŁo tinha com o que me preocupar.
â SĂł pra ter certeza, dĂĄ pra desistir no Festival do Guerreiro Supremo? â perguntou Sitri, ainda meio fora da casinha.
â Ah, oficialmente, acho que dĂĄ sim â respondeu Lucia.
â O quĂȘ?! â gritou Luke. â Nem ferrando que vou deixar alguĂ©m estragar a diversĂŁo desse jeito! Vai provar do aço antes de fugir!
â Luke, sua espada Ă© de madeira â lembrou Liz.
De qualquer forma, provavelmente não teria um gosto bom. Enquanto escutava a conversa deles, Lucia soltou um suspiro profundo. Ao contrårio de mim, todo mundo tava animado. Até mesmo Lucia e Ansem estavam cheios de energia.
â Com o exercĂcio de ontem, tĂŽ melhor do que nunca! â disse Luke. â Vai me dar um bom espetĂĄculo, nĂ©, Krai?!
â A princesa começou a chorar quando recebeu um monte de ordens de uma vez â lembrou Liz. â Mas eu me diverti.
Eu mal podia acreditar que era da mesma espécie que esses dois.
Continuei repetindo pra mim mesmo que ia dar tudo certo, que era outra pessoa na chave do torneio. E se â e isso Ă© um se muito improvĂĄvel â eu acabasse realmente participando do torneio, estaria tudo certo contanto que meu oponente nĂŁo fosse o Luke.
Respirei fundo e sorri. Sorrir Ă© a Ășnica coisa que o ser humano consegue fazer quando estĂĄ impotente. Me virei e olhei para meus amigos.
â EntĂŁo â falei, tentando ser o mais durĂŁo possĂvel â, estĂŁo prontos pra fazer histĂłria?
(De acordo com uma certa definição de “histĂłria”.)
Eles gritaram em unĂssono.
O local do torneio, a famosa arena de Kreat, ainda nem tinha sido aberta, mas jĂĄ era o centro de uma tempestade de aplausos e gritos fervorosos. Me deu arrepios. Perto da arena estavam dezenas de pessoas, com uma variedade absurda de armas.
Dava atĂ© a impressĂŁo de que uma guerra tava prestes a começar, mas o Festival do Guerreiro Supremo era, de certo modo, exatamente isso. Era um lugar pra decidir quem era o mais forte, mas todo ano acabava com mais de uma morte. Ăs vezes, caçadores colocavam o orgulho acima da prĂłpria vida.
â E aĂ, Krai? TĂĄ com cara de quem vai morrer â disse Sven.
â Eu sempre tenho essa cara â respondi.
â SĂ©rio mesmo? Senhor? VocĂȘ Ă© o primeiro, nĂ©? â cutucou Kris.
TĂnhamos nos encontrado com a Obsidian Cross, a Starlight e o resto do pessoal da Primeiros Passos que veio torcer por nĂłs. Aparentemente, eu estava com uma cara tĂŁo ruim que o Kris e o Sven notaram de primeira que algo estava errado. Todo mundo achava que eu ia lutar, mas nĂŁo tinha a menor vontade de tentar desfazer esse mal-entendido.
Fala alguma coisa, porra! Se acham que tĂŽ envolvido nisso, deviam ter me falado antes!
Exceto que eles tinham falado.
â Essa Ă© minha cara de prĂ©-luta â falei, tentando soar descolado e resistindo Ă vontade de sair correndo.
â O quĂȘ? Senhor?
Não era só a Sitri que estava quebrada. Eu também estava.
â Ontem Ă noite eu tava com tanta coisa na cabeça que nĂŁo consegui dormir â falei.
JĂĄ fazia um tempo que isso nĂŁo acontecia. Dormir bem era uma das minhas poucas qualidades.
â Te entendo, Krai! â gritou Luke, sem se importar com a multidĂŁo. â Ontem Ă noite eu tava tĂŁo animado que levantei e fui treinar uns golpes!
NĂŁo me compara com vocĂȘ.
â Me fez preocupar Ă toa! â disse Kris. â Hmph. SĂł nĂŁo paga mico, tĂĄ? Senhor!
â Tava com muita coisa na cabeça pra dormir â disse Sven com um sorrisinho. â EntĂŁo quer dizer que estĂĄ levando isso a sĂ©rio? Isso Ă© raro de ver.
â Boa sorte, Mestre! â disse Tino. â TĂŽ prontĂssima. Apostei todo o meu dinheiro em vocĂȘ!
TĂĄ tudo bem. Vai ficar tudo bem. A Sitri vai compensar a Tino pelas perdas, entĂŁo tĂĄ tudo certo.
Não sou eu quem vai entrar. A salvação vem pra quem acredita, e eu acreditava que não ia estar no torneio. Eu com certeza não ia lutar!
O funcionĂĄrio no portĂŁo olhou para o meu ingresso com os olhos arregalados. â âSenhor Krai Andrey.â Hm. NĂŁo foi vocĂȘ que eu deixei entrar mais cedo?
Isso me pegou de surpresa. â Hm?!
â Tem certeza de que nĂŁo era Krahi Andrihee? â perguntou Sitri.
O funcionĂĄrio do portĂŁo me olhou com desconfiança. â Tenho certeza de que nĂŁo me enganei. JĂĄ deixei esse homem entrar.
Espera. SerĂĄ? SERĂ MESMO?
Claro. Eu nunca disse que ia lutar, e não via como alguém podia confundir estar no ringue com estar fora dele. Que bagunça confusa. Quem era esse tal de Krai Andrey? Pensei em apostar nele.
Talvez fosse indelicado da minha parte, mas me senti imediatamente muito melhor. Um sorriso se formou no meu rosto, o que deixou Lucia desconfiada.
â Por que vocĂȘ tĂĄ tĂŁo feliz? â ela perguntou.
â AliĂĄs â falei para o funcionĂĄrio â, tem alguma desafiante chamada Murina Atolm Zebrudia?
JĂĄ que estava ali, resolvi perguntar.
â NĂŁo, nĂŁo tem. Espera. Zebrudia?
Eu nĂŁo tinha visto o nome dela na tabela nem nada, mas ouvir isso foi um alĂvio.
â De qualquer forma, ele pode entrar de novo? â perguntou Sitri.
â VocĂȘ tambĂ©m perdeu sua pulseira de guerreiro? Eu disse que nĂŁo podia emitir outra. Aqui, nĂŁo perca dessa vez. Agora, boa sorte lĂĄ dentro.
Graças à intromissão não solicitada da Sitri, uma pulseira foi presa ao meu pulso.
Pulseira de guerreiro. Ha ha. NĂŁo preciso disso. NĂŁo sou um guerreiro.
â Krai Andrey, vocĂȘ estarĂĄ na primeira luta, entĂŁo por aqui.
â Acaba com eles, Krai Baby!
Ha ha ha, relaxa. EstĂŁo falando de outro Krai Andrey.
â
â Aqui Ă© a sala de espera.
Ha ha ha. âSala de espera.â Esperar o quĂȘ, se eu sĂł vim assistir? A Ășnica luta que me interessa Ă© a luta pra segurar meu copo.
A porta bateu com força. Voltei à realidade.
A sala de espera era simples. Os Ășnicos mĂłveis eram uma cadeira, uma mesa e uma mini geladeira. Olhei para cima e vi que o teto nĂŁo era muito alto. Sem bons esconderijos.
O que eu tĂŽ fazendo aqui? Diz que nĂŁo, Krai!
Minha segurança relativa tinha deixado meu cérebro vazio.
Olhei ao redor, mas não vi ninguém que pudesse me explicar o que estava acontecendo. Pior ainda: o Krai, o verdadeiro Krai, que deveria estar na sala, não estava ali. E também não havia lugar onde ele pudesse se esconder.
Apelei para minha Ășltima esperança e abri a mini geladeira. â Kraiii, vocĂȘ tĂĄ aqui?
Dentro sĂł havia algumas garrafas de ĂĄgua. Droga. Eu nem achava mesmo que ele estaria ali, mas agora era certeza â ele nĂŁo estava na sala.
NĂŁo. Eu ainda nĂŁo sabia disso com certeza. Era possĂvel que Krai Andrey fosse um ser vivo lĂquido. NĂŁo me lembrava de haver restriçÔes sobre quais raças podiam participar.
Ainda na negação, fui tirando as garrafas uma por uma. â Kraiii, Ă© vocĂȘ? â murmurei, sem vida. â Ou Ă© vocĂȘ? Ou talvez vocĂȘ?
â Eeeep! â a garrafa dâĂĄgua soltou um gritinho.
Mais uma vez, voltei Ă realidade.
â Preciso ir ao banheiro â disse eu.
Não era hora pra negação, nem pra alucinação auditiva.
Krai de verdade, onde vocĂȘ tĂĄ?
Na sala de espera vazia, a mini geladeira se abriu silenciosamente. Sem que ninguém a tocasse, uma das garrafas de ågua rolou para o chão. E então, a Pequena Irmã Raposa voltou à sua forma original.
A primeira coisa que fez foi respirar fundo. Precisava se acalmar. Estava tĂŁo assustada que suas orelhas pontudas tinham aparecido. Mexeu as orelhas, escutando com atenção para saber se mais alguĂ©m estava por perto. Quando teve certeza de que estava sozinha, soltou um suspiro de alĂvio.
Que humano assustador. Aquela tinha sido a primeira vez que ela se transformava em um objeto inanimado, mas estava tão confiante nas suas habilidades de transformação que mal conseguia acreditar em como ele quase a encurralou. Mas no fim, ela venceu. Seu disfarce tinha enganado o Senhor Cautela. Pensou que tudo estava perdido quando deixou escapar um gritinho, mas ele não percebeu.
Mas era agora que a verdadeira luta começava. Ela estava diante de alguém que tinha dado trabalho tanto para sua mãe quanto para seu irmão mais velho. Ela tinha certeza de que seu plano era sólido, mas não podia prever o que poderia colocar tudo a perder.
Ela realmente nĂŁo esperava que aquele homem fosse entrar naquela sala. Ainda assim, conseguiu contornar a situação virando uma garrafa dâĂĄgua. Pensando bem, ele ia mesmo participar do torneio, entĂŁo era natural que tivesse acabado ali.
â Interessante â murmurou.
A Peregrine Lodge tinha uma regra: se vocĂȘ perdesse uma batalha de inteligĂȘncia, nĂŁo podia buscar vingança. Mas ela se recusava a aceitar a derrota. Por causa da derrota anterior, a Pequena IrmĂŁ Raposa tinha sido rotulada de glutona pelos outros. Era uma memĂłria humilhante.
Ela não podia se vingar, mas podia preparar um novo duelo. Dessa vez, ela tomaria a iniciativa. Serå que um cabeça-oca que nem tinha percebido a verdadeira natureza do seu Smartphone seria capaz de notar suas tramas?
Ela não ia poupar nenhum recurso. Fechou os olhos e ergueu o dedo indicador, preparando uma magia. Com isso, o Senhor Cautela ficaria preso no banheiro por um tempo, sem conseguir sair. Enquanto ele tropeçasse por lå, sua reputação ruiria. E quando fosse encontrado, seria alvo de vaias e zombarias.
Satisfeita com seu trabalho, ela deu um ĂĄgil mortal e assumiu a forma de Krai Andrey.
Sob um céu sem nuvens, uma agitação fervorosa tomava um estådio grande o bastante para comportar dezenas de milhares de pessoas. Finalmente, o Festival do Guerreiro Supremo estava prestes a começar. A maioria dos assentos estava ocupada, e todos aguardavam para testemunhar o nascimento de um campeão.
Tino e os caçadores da First Steps Primeiros Passos receberam assentos especiais reservados para amigos dos participantes. Esses lugares especiais eram os mais prĂłximos da arena. Em um torneio que atraĂa o melhor de todas as raças e vocaçÔes, os ataques podiam atingir ĂĄreas bem amplas. Esses conhecidos serviam, se necessĂĄrio, como uma espĂ©cie de barreira de contenção.
Ao olhar ao redor, Tino só via guerreiros experientes. Naturalmente, ela ficou tensa, tentando aliviar o nervosismo com respiraçÔes profundas. Isso chamou a atenção de dois espectadores ao lado: Sven Anger, da Obsidian Cross, e Kris, da Starlight.
â Nem me diga que vocĂȘ tĂĄ nervosa. O show nem começou!
â Ă, ele tem razĂŁo. Fomos convidados pelo fracote humano, temos que agir como se merecĂȘssemos isso!
No entanto, Kris parecia tĂŁo nervosa quanto Tino. JĂĄ Sven, estava completamente tranquilo.
â Apostei uma grana pesada nisso, entĂŁo vai ter inferno se ele fizer cagada! â resmungou Kris.
O mestre dela era um deus, por isso Tino nĂŁo hesitou em apostar todo o seu dinheiro nele. Seguindo sua sugestĂŁo, Kris fez o mesmo.
â Kris, vocĂȘ nĂŁo tĂĄ, tipo, sei lĂĄâŠ? â disse Sven, olhando pra ela com pena.
â O quĂȘ? NĂŁo, nĂŁo sei! Se tem algo pra dizer, fala logo! Senhor!
â Mestre Ă© um deus. Mestre com certeza vai vencer. Vai dar tudo certo.
Kris concordou rapidamente com Tino. â C-Certo! Ele vai ganhar, entĂŁo nĂŁo tem problema! Ele me convidou pra vir, entĂŁo Ă© claro que eu ia apostar nele! â Mas os olhos dela ainda mostravam incerteza.
Provavelmente, ela estava sentindo o mesmo aperto no peito que Tino. De qualquer forma, fosse a chance de vitória alta ou baixa, Tino não tinha escolha senão apostar no seu amado mestre. Não apostar seria demonstrar falta de fé.
â Mas o que Ă© esse chaveamento, hein?! â disse Kris, batendo na tabela do torneio. â Isso Ă© ridĂculo!
Tino pensava a mesma coisa. O primeiro adversĂĄrio do seu mestre seria Krahi Andrihee â o falso mestre. Ela jĂĄ conhecia esse falso mestre (embora seu mestre o chamasse de verdadeiro), mas nunca imaginou que os dois se encontrariam num palco tĂŁo grandioso.
Que alguém se passasse por um caçador famoso como o Mil Truques era absurdo. Mas isso só fez Tino ter ainda mais confiança na sua aposta. Afinal, não importava o que acontecesse, um falso nunca superaria o original.
Sven soltou uma gargalhada. â Mas esse cara Ă© especial. Ă um mago talentoso e cheio de material de mana.
â Ă, vocĂȘ disse que conheceu ele â respondeu Kris. â Mas se ele Ă© mesmo talentoso, Ă© ainda mais estranho ele usar um nome falso! Esse Ă© um torneio que atĂ© os EspĂritos Nobres conhecem, Senhor!

â Ouvi dizer que Ă© o nome verdadeiro dele.
â E vocĂȘ acreditou?! Eu nĂŁo engulo essa de coincidĂȘncia! Pensa bem: nomes parecidos atĂ© vai, mas nome e tĂtulo parecidos? Quais as chances?
Tino ficou inquieta. Seu mestre era um deus, mas essa situação era complicada. Ele parecia até gostar bastante do falso. A magnanimidade do seu mestre era uma de suas maiores qualidades, mas às vezes isso jogava contra ele. Prestando atenção nas conversas ao redor, parecia que nem os outros espectadores sabiam qual dos dois era o verdadeiro. Krai Andrey e Krahi Andrihee. O Mil Truques e o Mil Artes.
O mestre de Tino preferia manter o rosto em segredo, e embora seu tĂtulo fosse conhecido por muitos, seu nome e aparĂȘncia eram bem mais obscuros. Claro, isso era intencional da parte dele, mas agora acabava sendo um problema. Se Krahi vencesse, Krai Ă© que seria tratado como o impostor.
Mas isso nĂŁo mudava muita coisa para Tino; tudo o que podia fazer era dar ao seu mestre todo o apoio possĂvel. Ela deu alguns tapas nas prĂłprias bochechas. NĂŁo podia se deixar abater quando nada nem tinha acontecido ainda. Ver seu mestre lutando de perto seria uma Ăłtima oportunidade. Ela nĂŁo podia sĂł torcer â precisava tirar algum aprendizado disso.
E, logo depois, chegou a hora. O ar na arena mudou. O entusiasmo pegando fogo foi engolido por um silĂȘncio estranho. Um homem enorme entrou no ringue espaçoso. Ele era quase do tamanho de Ansem, o ImutĂĄvel. Era tambĂ©m o homem que tinha dominado o Ășltimo Festival do Guerreiro Supremo com força bruta e avassaladora.
Sob o braço direito, carregava uma barra de metal ainda maior que ele. Era feita de adamantium, o material mais pesado e resistente do mundo â com exceção de algumas RelĂquias. Tino soubera do poder daquele guerreiro no ano anterior, quando ele havia esmagado qualquer feitiço ou tĂ©cnica com nada alĂ©m dos mĂșsculos e de uma barra enorme.
SĂł de olhar para aqueles mĂșsculos expostos, Tino sentiu um calafrio. Mal podia acreditar que esse homem era da mesma espĂ©cie que ela. Seria mais um milagre dos materiais de mana que permitia a alguĂ©m ficar mais forte que um monstro ou uma besta mĂtica? Era bem provĂĄvel que todos os participantes estivessem se perguntando como seria possĂvel superar esse cara.
O antigo Guerreiro Supremo respirou fundo, e soltou uma voz que trovejou pela arena. O som sacudiu Tino, que cobriu os ouvidos imediatamente. Achava atĂ© que alguĂ©m podia desmaiar se estivesse perto demais dele. Quando vocĂȘ estĂĄ no topo do mundo, pode fazer esse tipo de coisa.
â Um ano se passou! Desafiando todas as probabilidades, mais candidatos se reuniram para disputar o tĂtulo de Guerreiro Supremo! Que o torneio comece!
Palavras simples. Mas Tino viu â os olhos do homem brilhavam como os de um predador prestes a atacar sua presa, a voz sedenta por sangue. Ele estava esperando por quem ousasse desafiĂĄ-lo.
Tino sentia que aquele homem seria o maior obståculo no caminho do seu mestre para se tornar o próximo Guerreiro Supremo. Ela o apoiaria até o fim, mas nem mesmo ela conseguia confiar totalmente que seu mestre gentil conseguiria vencer aquele monstro.
Finalmente, era hora da primeira luta começar.
Finalmente. Ele estava esperando por isso. A paixão da multidão viajava pelo ar que roçava sua pele. Cada célula do seu corpo transbordava expectativa. Krahi Andrihee, o Mil Artes, fechou os olhos, ativando um interruptor interno. Estava em condição måxima.
AtĂ© ser convidado para o grupo de Kule, Krahi era um caçador solo. Quando vocĂȘ nĂŁo tem ninguĂ©m para vir te salvar, saber se preparar para a luta num piscar de olhos Ă© essencial. Apesar de ser um mago, Krahi estava acostumado a lutar sozinho â uma vantagem e tanto nesse torneio.
De modo geral, quem era bom em combate corpo a corpo levava vantagem no Festival do Guerreiro Supremo. O prĂłprio campeĂŁo anterior era uma aberração de mĂșsculos. Krahi atĂ© tremia sĂł de olhar, mas isso nĂŁo significava que ele aceitaria perder. Ele iria vencer de novo, como jĂĄ fizera tantas outras vezes. VocĂȘ nĂŁo podia ser um caçador se nĂŁo tivesse vontade de sair por cima.
Mas, dessa vez, Krahi nĂŁo estava lutando sĂł por ele mesmo. Ele queria se tornar o prĂłximo Guerreiro Supremo para que o nome Behaving Souls virasse lenda. Era pelos amigos dele â que mesmo parecendo sempre inseguros, nunca o abandonaram.
â DĂȘ tudo de si, Krai Andrey. Depois que vocĂȘ fizer isso, eu vou carregar os seus sonhos tambĂ©m â murmurou ele, e entĂŁo entrou no ringue.
â Heh. Eles acharam que podiam enfrentar o novo chefe. Idiotas. Espera sĂł pra ver o que tĂĄ vindo.
â De fato. Mas foi por pouco, muito pouco.
Num canto das arquibancadas da arena, Galf e Sora mantinham os olhos fixos no ringue. Ambos estavam em estado lastimåvel. Galf tinha um braço quebrado engessado e se apoiava em muletas. Sora, por outro lado, não tinha ferimentos aparentes, mas o cabelo estava todo bagunçado e ela parecia exausta.
Foi velho-Fox contra novo-Fox, e o confronto foi selvagem. Assim como Galf havia previsto, a organização tentou esmagĂĄ-los com tudo o que tinha. Eles estavam em desvantagem numĂ©rica gritante, mas uma sĂ©rie de coincidĂȘncias permitiu que escapassem.
Teve o fato de que os melhores membros de Galf jå estavam reunidos com ele para a operação em Kreat. Teve o fato de que o compromisso da organização com o sigilo fez com que obter informaçÔes sobre Galf levasse tempo. Teve o apoio dos Grieving Souls, dos Cavaleiros da Tocha, e de outras organizaçÔes com as quais Galf tinha formado alianças.
O outro lado tambĂ©m parecia querer minimizar as prĂłprias perdas. Quando recuaram, provavelmente perceberam que conter a situação era impossĂvel ao verem a resistĂȘncia feroz que as forças de Galf apresentaram.
A organização estava no meio de uma operação gigantesca. Em vez de arriscar perder pessoal e comprometer as chances de sucesso, decidiram deixar Galf para depois. Ou seja, o que ele conseguiu nĂŁo foi uma vitĂłria â apenas um alĂvio temporĂĄrio.
Essa seria sua Ășltima chance de se esconder. Seus ajudantes jĂĄ tinham sido dispensados. Muitos dos bandidos que tinham se aliado a ele e aos seus subordinados estavam mortos ou feridos, restando menos da metade da força original. NĂŁo havia como vencer o prĂłximo confronto.
Mas Galf precisava ver sua missão até o fim. Isso devia ajudå-lo a entender por que tinha sido enganado.
â Eu nunca servi pra ser capanga de ninguĂ©m â disse ele. â Isso Ă© atĂ© que libertador.
â Chefe, serĂĄ que o senhor nĂŁo tĂĄ sĂł se iludindo?
Afinal, essa Donzela nĂŁo era tĂŁo ruim quanto parecia.
A dezenas de metros acima da arena de Kreat, uma silhueta flutuava no ar. Vestia um manto totalmente preto e usava uma mĂĄscara branca de raposa. Caminhava sobre o nada, observando um objeto negro â uma Pedra de TransmissĂŁo. Era Caelum Tail, um dos membros da alta cĂșpula da Raposa Sombria de Nove Caudas.
Ele mordeu o lĂĄbio, irritado com a prĂłpria falta de progresso. Esperava que as forças de Galf fossem menores. Mas nĂŁo sĂł eram numerosas, como estavam sendo lideradas com toda a astĂșcia que havia lhe rendido o posto de SĂ©tima Cauda. Mesmo com todo o apoio que havia reunido, Caelum foi forçado a recuar.
O inimigo estava claramente conspirando para rachar a Raposa por dentro, embora Caelum nĂŁo tivesse percebido isso a tempo. Galf perdeu homens, assim como ele. No fim das contas, quem mais sairia ganhando com esse conflito interno eram os inimigos.
Desestabilizar uma organização tão envolta em sigilo em tão pouco tempo exigia uma preparação absurda. Isso não vinha da Associação dos Exploradores, nem do Império. Se fosse algo tão grande, a Raposa jå teria descoberto.
O caçador de NĂvel 8, o Mil Truques, foi o homem que destruiu a Serpente, uma organização que jĂĄ rivalizou com a Raposa. Com seu histĂłrico de aniquilar inimigos por meio de coleta de informaçÔes e astĂșcia sem igual, ele era talvez o maior obstĂĄculo da Raposa. Caelum Tail ainda nĂŁo estava totalmente convencido de que o homem que ouvira pela Pedra de TransmissĂŁo era mesmo o Mil Truques, mas, considerando as habilidades dele… era possĂvel.
Mas ele era jovem e ingĂȘnuo. Ia precisar de muito mais do que isso pra assustar a Raposa.
Depois de hoje, o Mil Truques nĂŁo estaria mais em seu caminho. Existiam caçadores poderosos por aĂ, mas nenhum com habilidade tĂĄtica suficiente pra superar a Raposa. Talvez precisassem de um tempo pra se reagrupar depois dessa, mas esse era um preço pequeno pra se livrar de uma ameaça cedo no jogo.
Hoje, Rodrick Atolm Zebrudia veria a morte do homem que salvou sua vida â e a Raposa consolidaria seu status.
O chefe olhou para a chave do torneio. â Que jogada ridĂcula…
A primeira luta era Krai Andrey contra Krahi Andrihee. Um duelo que parecia piada, que as pessoas jĂĄ chamavam de “o falso contra o verdadeiro”. Caelum nĂŁo fazia ideia de como o Mil Truques tinha interferido na programação das lutas, mas estava claro que era algo malfeito demais pra enganar a Raposa.
Caelum nunca tinha visto o Mil Truques pessoalmente, mas mesmo que não soubesse qual dos dois era o verdadeiro, havia uma solução simples: mataria os dois.
Dois homens de cabelos pretos estavam no centro do imenso coliseu. A luta começaria em breve. Caelum atacaria no momento em que um deles caĂsse. As barreiras em volta do ringue sĂł serviam pra impedir ataques de sair â nĂŁo de entrar.
Caelum estreitou os olhos. Os dois pareciam minĂșsculos feijĂ”ezinhos dali de cima, mas dava pra ver que estavam conversando. Era sĂł esperar. A batalha entre o falso e o verdadeiro, o sem nome e o lendĂĄrio, nĂŁo duraria muito.
Ele retirou a RelĂquia focal, a Chave da Terra. Era hora do desespero dar as caras. Dessa vez, a Raposa mostraria seu poder ao mundo.
Mas entĂŁo, algo aconteceu lĂĄ embaixo. Caelum nĂŁo podia ouvir, mas era nĂtido que uma onda de confusĂŁo havia se espalhado de repente.
O que serĂĄ que houve?
Ele estreitou os olhos e viu que um dos homens havia levantado a mão. Então, com um estrondo e um clarão de luz, Caelum foi atingido por uma força colossal.
â O que vocĂȘ acabou de dizer? â o jovem de cabelos negros perguntou, incrĂ©dulo.
Seu nome era Krahi Andrihee, tambĂ©m conhecido como o Mil Artes. Era o oponente do Sr. Cautela â e um impostor.
A Raposinha sorriu com confiança, do mesmo jeito que o Sr. Cautela sorriria. Mais uma vez, ela olhou ao redor da arena e disse alto o suficiente pra todo mundo ouvir:
â Eu disse que Ă© uma honra conhecer o verdadeiro. Mas isso acaba hoje. Eu vou te derrotar e me tornar o verdadeiro Mil Truques!
Era um plano perfeito. Por dentro, ela atĂ© se deu um tapinha nas costas. A capacidade de bolar esse plano no exato momento em que viu a chave do torneio… isso sĂł podia ser sinal de um gĂȘnio assustador.
Ela nĂŁo entendia como tinha acontecido, mas o Sr. Cautela tinha um nome respeitado entre os humanos, e esse cara tinha um nome quase idĂȘntico. O plano se apoiava nesses dois fatos. O objetivo da Raposinha era fazer parecer que o Sr. Cautela era o falso. Ele atĂ© podia negar depois, mas nĂŁo faria diferença quando milhares de pessoas tivessem ouvido ele dizer o contrĂĄrio. Sua reputação nĂŁo se recuperaria tĂŁo fĂĄcil.
Agora era sĂł perder a luta antes que o Sr. Cautela se recuperasse do feitiço que o fez se perder por aĂ. Ele perderia sem nem ter a chance de pisar no ringue! A Raposinha atĂ© visualizou o rostinho chocado dele.
Krahi Andrihee deu um passo para trĂĄs e sussurrou â O quĂȘ? Do que vocĂȘ tĂĄ falando?
â Surpreso? NĂŁo esperava que houvesse um impostor? Acha que foi coincidĂȘncia a gente ter se conhecido?!
Ela sĂł precisou ler o coração dele e ligar os pontos. Com os poderes dela, nĂŁo foi nada difĂcil. Mas esse cara, Krahi Andrihee â ele era estranho. Os olhos eram claros, o coração livre de mĂĄs intençÔes, e a alma brilhava como cristal. E ele empunhava um bastĂŁo que era uma RelĂquia. O nome dele era quase igual ao do Sr. Cautela, mas tudo entre os dois era diferente. Mesmo sendo muito mais forte que o Sr. Cautela, Krahi parecia ocupar uma posição inferior na vida.
Mas o que mais intrigava a Pequena IrmĂŁ Raposa era que esse jovem nem sabia quem era o Mil Truques, apesar da fama suposta do Sr. Cautela. Que mundo estranho esses humanos viviam. No entanto, isso jogava a favor dela. Se Krahi estivesse imitando o Mil Truques de propĂłsito, isso complicaria, mas nĂŁo era o caso aqui.
Os cĂ©us disseram Ă Pequena IrmĂŁ Raposa para enganar, e era isso que ela faria. Krahi, o pĂșblico, o Sr. Cautela, todos eles.
Ela abriu os braços num gesto de despreocupação. Sentia os incontåveis olhares pesando sobre ela. Eram olhares de curiosidade, confusão, desprezo. Ela adorava a desordem. O caos era o que as raposas espectrais do Peregrine Lodge desejavam.
Krahi deu um passo Ă frente â NĂŁo precisa dizer isso, Krai. NĂŁo existe esse negĂłcio de verdadeiro ou falso. â A voz dele era suave e trĂȘmula, mas ressoava com força estranha. Os olhos negros, da mesma cor dos do Sr. Cautela, brilhavam. â NinguĂ©m pode virar outra pessoa. Eu nĂŁo posso virar vocĂȘ, e vocĂȘ nĂŁo pode virar eu! Mas a gente nem precisa! VocĂȘ jĂĄ Ă© incrĂvel sendo vocĂȘ â Krai Andrey!
Do que esse humano tava falando? A Pequena IrmĂŁ Raposa nĂŁo sabia o que pensar desse homem, que nĂŁo dava sinais de ter percebido o truque dela. O pĂșblico, por outro lado, estava hipnotizado pela voz firme dele.
â NĂŁo me incomoda se vocĂȘ me admira. NĂŁo me incomoda se nossos tĂtulos sĂŁo parecidos. Mas, por favor, nĂŁo faça algo tĂŁo triste quanto se anular pra tentar ser eu. VocĂȘ jĂĄ provou sua grandeza sĂł por estar aqui. Isso nĂŁo teria acontecido se vocĂȘ fosse sĂł uma imitação. VocĂȘ Ă© Krai Andrey, e vocĂȘ me admira! NĂŁo negue isso. Aceite quem vocĂȘ Ă©! E quando fizer isso, vou ficar mais do que feliz em te enfrentar! Vamos nos encontrar de novo, nesta mesma arena!
A plateia explodiu em aplausos. Devem ter achado que aquilo era parte da apresentação. Agora, ninguém esperava nada do Sr. Cautela. Era mais ou menos isso que a Pequena Irmã Raposa queria, mas não exatamente.
ApĂłs considerar por um instante, ela levantou a mĂŁo, fazendo a arena silenciar. O plano era que o Sr. Cautela virasse motivo de piada, mas tudo o que ela tava recebendo era pena.
â Que bobagem, meu contraparte autĂȘntico â disse ela. â Eu vou te derrotar aqui e agora. Isso Ă© o Festival do Guerreiro Supremo, a gente tem que lutar antes de começar com esses discursos exagerados. Ou serĂĄ que vocĂȘ acha que nĂŁo consegue ganhar?
Por um instante, Krahi pareceu triste, mas logo respondeu com um rugido. O vento soprou, fazendo seu casaco preto esvoaçar. Os olhos da Pequena Irmã Raposa se fixaram no bastão dele. Era de metal, com um cristal dourado no topo. E foi aà que caiu a ficha.
â Eu nĂŁo vou perder pra uma versĂŁo falsa de vocĂȘ! â proclamou Krahi. â VĂĄ atrĂĄs dos seus prĂłprios objetivos e ideais atĂ© conseguir descobrir quem vocĂȘ Ă© de verdade! Isso Ă© mais por vocĂȘ do que por qualquer outra pessoa, Krai Andrey!
Krahi Andrihee era talentoso, tinha experiĂȘncia e um espĂrito inabalĂĄvel. Mas sua maior arma era aquele bastĂŁo. Raios estalavam dentro do cristal no topo. Aquilo era uma RelĂquia, especializada em amplificar um Ășnico elemento. Ela reunia o mana no corpo do usuĂĄrio e o amplificava de forma brutal.
A Pequena IrmĂŁ Raposa deu um passo para trĂĄs. Esse cara. Ele era um Magus do RelĂąmpago, e mais do que isso â era tĂŁo obcecado pelo elemento que ignorava todos os outros.
O céu e o ar trovejaram.
â Pro seu prĂłprio bem, eu nĂŁo vou me segurar! â gritou Krahi Andrihee, o Mil Artes. â O poder dos deuses, temperado sem piedade! Fique firme e me enfrente, eu sou o Supremo Voltaico, Krahi Andrihee!
A Pequena IrmĂŁ Raposa nĂŁo conseguiu evitar de olhar pro alto, onde um Ășnico raio piscava vindo dos cĂ©us.
Sentada com as pernas cruzadas, Kutri Smyat estalou a lĂngua ao ver o raio. â Ele continua absurdamente forte. Na real, tĂĄ atĂ© melhor.
â O poder dele Ă© de verdade. Ele nĂŁo precisa da gente â concordou Elizabeth Smyat, suspirando.
Os membros dos Bereaving Souls tentavam manter perfil baixo enquanto assistiam Ă luta. Krahi era forte. Embora o nome soasse como o de uma cĂłpia, o poder dele era genuĂno â e ridĂculo.
Krahi era um cara simples. Simples e fåcil de enganar, o que foi como Izabee e os outros conseguiram passar a perna nele. Também era por isso que ele não sabia usar uma grande variedade de feitiços.
Mas ele era, de fato, poderoso. Krahi Andrihee dominava os relĂąmpagos, que alguns consideravam a forma mais difĂcil da magia. Esses feitiços cegantes e estrondosos Ă s vezes eram chamados de magia dos campeĂ”es, e Krahi era completamente apaixonado por eles.
Krahi jĂĄ tinha atuado sozinho. Era um caçador solo. Mesmo que nĂŁo tivesse sido batizado com um nome tĂŁo parecido com o do Mil Truques, ele ainda assim teria feito sucesso. Praticamente todo o talento dele era dedicado Ă magia de raio. O tĂtulo de Mil Artes foi algo que os Bereaving Souls inventaram, mas nem eles, nem Krahi, tinham sido os responsĂĄveis pelo apelido de “Supremo Voltaico”. Se Krahi fosse acabar com algum tĂtulo, provavelmente seria esse mesmo.
IncontĂĄveis relĂąmpagos cortavam o ar dentro da arena. A barreira resistente se distorcia a cada impacto violento que interceptava. Esse definitivamente nĂŁo era o tipo de magia que se usaria normalmente contra um oponente humano, mas Krahi nĂŁo ia deixar isso impedir ele.
â Isso nĂŁo Ă© bom â murmurou Kule Saicool. Seu rosto jĂĄ estava pĂĄlido o dia inteiro, e agora ele segurava o estĂŽmago. â Ele ainda nĂŁo sabe o que o outro cara tĂĄ tramando.
â Vai, acaba com esse falsificador! â gritou Lusha, torcendo mesmo enquanto tremia com os choques no ar.
Krahi era, sem dĂșvida, talentoso. Mas Kule nĂŁo achava que ele conseguiria vencer alguĂ©m do NĂvel 8. Desde que entrou para os Bereaving Souls, Krahi ficou limitado a explorar salĂ”es de nĂveis mais baixos do que costumava, o que significava que ele nunca ia alĂ©m do NĂvel 5 agora. Se nĂŁo tivesse se juntado a esse grupo, Krahi provavelmente teria continuado caçando sozinho e se tornado um Magus ainda mais poderoso. Por isso, Kule nĂŁo conseguia evitar aquele arrependimento amargo.
âNinguĂ©m pode se tornar outra pessoa.â
Engraçado como aquelas palavras atingiram Kule e os outros membros dos Bereaving Souls como um golpe crĂtico. O que Krahi pensaria se soubesse a verdade? O uso de nomes parecidos com os do grupo original nĂŁo enganaria ninguĂ©m acima da idade escolar. Um dia, Krahi ia perceber o que estavam fazendo. Mas agora que tinham ido tĂŁo longe, nĂŁo havia mais como voltar.
O Supremo Voltaico ergueu seu cajado, aumentando a velocidade dos disparos, os impactos e a luz cegante que vinham com eles. Aquilo era o Trovão Celestial, o feitiço de raio mais poderoso que existia, ainda mais avançado que a Tempestade Calamitosa. Era um feitiço catastrófico que muitos caçadores passavam a vida inteira sem testemunhar. Definitivamente não era algo que se conjurava contra uma pessoa.
Os relĂąmpagos nĂŁo davam sinal de parar. Os disparos incessantes tornavam impossĂvel enxergar Krahi, mas ele era sensato o bastante para interromper o ataque se o oponente tivesse caĂdo. Se a tempestade ainda nĂŁo tinha passado, entĂŁo o inimigo ainda estava de pĂ©.
Kule nĂŁo entendia por que o verdadeiro tinha se proclamado um impostor, mas o Mil Truques era um estrategista. Com certeza tinha algum plano obscuro em mente. Nem mesmo Kule conseguiria simplesmente abandonar Krahi depois de ter ido tĂŁo longe com ele, e sabia que os outros membros dos Bereaving Souls sentiam o mesmo.
Talvez o Mil Truques os perdoasse, se provassem que não tinham må intenção. Se ele não estivesse interessado em mostrar misericórdia, teria desmascarado todos de cara, em vez de se declarar como impostor.
Kule tremia enquanto os relùmpagos continuavam sem trégua. Olhou de relance para o lado dos apoiadores do verdadeiro. Eram todos dos Grieving Souls, torcendo alto e completamente ilesos pelos raios.
â Vai! Acaba com ele! Arrebenta tudo! â alguns gritavam. A princĂpio, Kule achou que estivessem torcendo pelo verdadeiro, mas agora jĂĄ estava duvidando. Um deles, Sven Anger, o Golpe da Tempestade, parecia especialmente animado. Pelo jeito, os aliados do Mil Truques nĂŁo ligavam muito pro discurso esquisito que o lĂder do clĂŁ tinha feito.
Kule desistiu de tentar entender. Afinal, âSortida Proteanaâ era sĂł uma tentativa meia-boca de copiar a âEspada Proteanaâ. Ele nunca conseguiria fazer jus ao tĂtulo que se deu.
De repente, os relĂąmpagos cessaram.
â ImpossĂvel â disse Krahi no meio da fumaça. â Desviar de um jĂĄ seria difĂcil, mas vocĂȘ conseguiu evitar todos. O que Ă© vocĂȘ, Krai Andrey?!
Ops. Ela não tinha intenção de desviar de todos.
O feitiço de grande escala havia queimado o chão instantaneamente. Cercada por nuvens de poeira flutuando no ar, a Pequena Irmã Raposa não sabia muito bem o que fazer. Não esperava que Krahi fosse capaz de algo tão poderoso. Magia humana não era algo com que ela tivesse muita familiaridade, mas começava a entender como ele tinha conseguido conjurar um feitiço que ultrapassava tanto as habilidades humanas normais.
A mana no corpo dele era inclinada exclusivamente para relĂąmpagos, e o cajado que empunhava amplificava exatamente esse tipo de feitiço, permitindo que ele evocasse raios capazes de rasgar os cĂ©us. A precisĂŁo era praticamente nula, mas esse era o preço de lançar feitiços de baixo custo e altĂssimo dano em sucessĂŁo rĂĄpida.
Krahi provavelmente era incapaz de usar qualquer magia que nĂŁo fosse do tipo elĂ©trico. No fim das contas, era apenas um Magus do RelĂąmpago â nem mais, nem menos.
Ele abriu e fechou as mĂŁos, confuso com a falta de resultado apĂłs seu bombardeio.
â SerĂĄ que estou com pouco controle? NĂŁo, talvez meu corpo hesite em te atacar? Mas feitiços de relĂąmpago sempre encontram um alvo, desde que estejam perto o bastante. Embora… acho que nĂŁo adianta ficar pensando nisso.
Normalmente, aquilo jĂĄ teria sido mais do que suficiente. Qualquer um conseguiria ver que os ataques de Krahi foram destrutivos demais.
A Pequena IrmĂŁ Raposa tinha evitado os feitiços por puro reflexo. Ela nĂŁo lidava bem com relĂąmpagos. Era um instinto que carregava desde sua existĂȘncia como ser vivo. E aquelas nĂŁo eram circunstĂąncias ideais â o material de mana do mundo exterior era escasso. Se tivesse sido atingida, teria sentido de verdade.
Krahi girou seu cajado, encarando a Pequena IrmĂŁ Raposa.
â Se vocĂȘ desviar de dez, chamarei cem. Se escapar de cem, chamarei mil! NĂŁo precisa ficar tĂmido! Vamos ver se consegue resistir a mil golpes dos cĂ©us!
Como se respondessem ao seu chamado, os cĂ©us acima brilharam e ribombaram. Aquele homem nĂŁo estava mirando na oponente â pretendia incinerar a arena inteira. Que surpresa descobrir que um humano podia ser tĂŁo formidĂĄvel. Ele era perigoso o bastante para ameaçar a prĂłpria MĂŁe Raposa, uma deusa de verdade.
Os humanos nĂŁo eram pra ser criaturas racionais?
Apesar de tudo isso, a Pequena IrmĂŁ Raposa nĂŁo podia simplesmente contra-atacar. Primeiro, porque estava ali pra pregar suas peças, mas tambĂ©m havia outro problema â ela tinha pouquĂssimos meios de ataque. Os fantasmas do Peregrine Lodge eram movidos pelo desejo de enganar, nĂŁo de matar. E se fossem tirar uma vida, nĂŁo o fariam diretamente nem sem provocação.
Ela precisava perder essa luta. Precisava encontrar um jeito. Precisava se apressar antes que o feitiço lançado no Sr. Cautela se desfizesse. Fitando a tempestade elétrica intensa e ofuscante à sua frente, ela deu um passo desesperado.
A troca estranha e quase cĂŽmica entre os dois desafiantes terminou, dando lugar instantaneamente a uma batalha de tirar o fĂŽlego. O primeiro raio jĂĄ era algo digno de se ver, mas quando virou uma saraivada, a cena parecia mais uma retribuição divina do que magia lançada por um Ășnico mago.
No começo, Tino ficou confusa com a confiança do falso mestre e o verdadeiro mestre se declarando impostor, mas o espetĂĄculo da luta apagou qualquer pensamento desnecessĂĄrio da mente dela. Aquele homem, Krahi Andrihee, tinha um nome parecido com o do seu mestre â e habilidades extraordinĂĄrias para acompanhar. A força e a velocidade dos ataques dele eram de primeira. Em termos de poder com relĂąmpagos, Tino tinha certeza de que Krahi superava atĂ© Arnold.
E mesmo assim, a resposta do mestre dela foi simplesmente inacreditĂĄvel â ele avançou.
â E-ele â ela gaguejou â, ele desviou dos raios?
Parecia absurdo. Raios talvez nĂŁo fossem mais rĂĄpidos que a luz, mas ainda assim eram rĂĄpidos demais para reflexos humanos. No entanto, o mestre dela se esquivava calmamente entre os feixes. Da perspectiva dela, parecia atĂ© que os raios estavam tentando evitar acertĂĄ-lo. Aquilo nĂŁo era algo que se explicava com artefatos sobrenaturais. Era o poder de um NĂvel 8.
A magia de Krahi era mais intensa do que ela esperava, mas Tino ainda acreditava que seu mestre levava vantagem.
â Hmm â murmurou Siddy, sentada ao lado de Tino. â NĂŁo Ă© o Krai de verdade. EntĂŁo foi por isso que ele fez aquela cĂłpia que eu vi na cozinha…
â O quĂȘ?! â gritou Tino.
â Ă, vocĂȘ tem razĂŁo â acrescentou Lizzy. â O Krai BebĂȘ nĂŁo correria assim. Ele nĂŁo curte muito mexer o corpo.
â SerĂĄ que ele interferiu nos feitiços? SerĂĄ que desviou? â murmurava Lucy consigo mesma. â Como ele fez isso? Nem pareceu magiaâ
â Ă fruto de treinamento, oras! â exclamou Luke. â Tenho certeza de que eu aguentaria os ataques, mas desviar assim? Preciso tentar tambĂ©m!
Ansem resmungou em concordĂąncia.
Ou seja, nĂŁo eram sĂł as irmĂŁs Smart que duvidavam da identidade do Krai no ringue. Tino voltou os olhos para a arena. Estava longe, mas, pelo que conseguia ver, era seu mestre ali â com aquelas capacidades divinas e tudo. Mas se os amigos dele nĂŁo achavam que era ele, entĂŁo devia ser outra pessoa no ringue.
Sua mente ficou em branco por um instante.
â Ahh â disse ela, com a voz tomada pela resignação â, entĂŁo essa Ă© a Provação da vez…
Mestre, Ă© contra as regras mandar outra pessoa no seu lugar. E de onde vocĂȘ tirou esse sĂłsia?
Mas agora que pensava bem, o mestre dela tinha mesmo dito que não participaria. Então ele realmente falava sério.
***
Quando viu seu oponente desviando dos raios enquanto se aproximava, a reação de Krahi foi sorrir â por incrĂvel que pareça.
â Isso aĂ! Vem com tudo! Quero ver vocĂȘ desviar disso!
Sem perder um milésimo de segundo, uma salva de flechas elétricas voou na direção do falso Krai, que desviou saltando no ar. Péssima escolha; nenhuma habilidade permitiria escapar dos ataques seguintes enquanto ainda estivesse no ar. Como se jå esperasse por isso, Krahi apontou seu cajado para Krai.
â Era isso que eu tava esperando, Krai! Agora encare a fĂșria dos cĂ©us! Lança Teovoltaica!
â Esse feitiço nĂŁo existe â suspirou Lucia. â Deve ser alguma invenção dele.
Um som de estalo surgiu, e uma lança começou a se formar na ponta do cajado de Krahi. Era envolta por uma teia violeta, mas essa arma galvĂąnica nĂŁo era feita de pura energia â ela brilhava como se fosse metĂĄlica. Era feita de mana condensada. Ele havia conjurado uma arma de maneira semelhante Ă forma como RelĂquias sĂŁo forjadas a partir de mana material!
Por si só, feitiços de relùmpago jå eram absurdamente destrutivos. O que aconteceria se essa mana fosse condensada?
Sem hesitar, Krahi lançou o projĂ©til de morte certa contra o falso mestre â que bloqueou o ataque com uma lança idĂȘntica. Tino mal conseguia conter a surpresa. As duas lanças reluzentes colidiram, liberando ondas de pura destruição. Tino tinha certeza de que ouviu o som de uma parte da barreira protetora se rompendo.
A plateia começou a gritar, mas logo foi silenciada pelas ondas de energia, pelas luzes ofuscantes, pelo calor intenso. Ansem, os outros na primeira fileira e os Magos contratados pela organização do torneio usaram suas habilidades para remendar o buraco na barreira.
Poeira flutuava por toda parte. Os relĂąmpagos haviam cessado, mas redemoinhos de nuvens ainda pairavam no alto. Tino voltou os olhos para o ringue.
â Nunca imaginei que vocĂȘ fosse usar o mesmo feitiço que eu, no exato mesmo momento â e sem nem ter um cajado.
Um Krahi Andrihee ferido estava de pĂ© no centro da arena carbonizada. O falso mestre estava caĂdo contra a parede.
â VocĂȘ replicou meu feitiço naquele fragmento de segundo? â Krahi perguntou enquanto inspecionava seu cajado. â Se nĂŁo fosse por ele, eu teria sido derrotado. Ă como se vocĂȘ fosse um reflexo meu. Ah, perdĂŁo â escolha ruim de palavras.
Ah, entĂŁo vou perder todo o meu dinheiro no fim das contas. O sangue sumiu do rosto de Tino. Ao lado dela, Kris reagia da mesma forma, pensando exatamente o mesmo.
A luta estava decidida. Nem mesmo o falso mestre conseguiria se levantar depois de um ataque daqueles. Diferente do verdadeiro, esse ainda nĂŁo havia aprendido a transcender os relĂąmpagos. Ela tinha certeza de que nĂŁo podia errar ao apostar no mestre. Embora estivesse frustrada, nĂŁo podia revelar que era um impostor no ringue. Isso mancharia mais a honra de Krai do que se ele tivesse lutado e perdido pessoalmente.
â Ărbitro, este homem nĂŁo vai se levantar â anunciou Krahi, com uma voz que ecoou por toda a arena. Em seguida, voltou-se para Krai. â Parece que vocĂȘ tentou anular meu ataque com um seu. O fato de ainda estar inteiro Ă© prova das suas habilidades. Lutou bem, Krai. Vou chamar um mĂ©dico para vocĂȘ.
O årbitro finalmente começou a se mexer, como se tivesse se lembrado de sua função. Clérigos correram até o falso mestre para iniciar os cuidados de cura.
Tino percebeu algo. Algo que preferia nĂŁo ter visto. Perto da entrada, seu mestre espiava de trĂĄs de uma pilastra. O outro estava caĂdo de costas, cercado por ClĂ©rigos. NĂŁo era preciso ser um gĂȘnio para saber qual dos dois era o verdadeiro Krai Andrey.
Seu mestre olhava de um lado para o outro, como se estivesse fazendo algo que nĂŁo devia. Isso nĂŁo era comum nele. Estaria em pĂąnico? Ou serĂĄ que procurava por alguma coisa? Talvez nĂŁo tivesse previsto que sua cĂłpia perderia?
â Ah, Ă© o Krai BebĂȘ â disse Lizzy, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ela estava animada para vĂȘ-lo lutar, mas nĂŁo parecia nem um pouco incomodada. Tino nĂŁo compartilhava do mesmo sentimento.
Mestre, sĂł dessa vez, queria que vocĂȘ pensasse no que acabou de fazer. Lizzy podia atĂ© encher ela de porrada por pensar isso, mas Tino sentia que precisava dizer algo. Ela estava realmente empolgada para vĂȘ-lo em ação.
Agora que podia comparar facilmente os dois, a diferença entre o verdadeiro e o impostor era gritante. O falso havia demonstrado uma audåcia que o verdadeiro jamais teria. Tino não desgostou dessa ousadia, mas se sentia uma idiota por não ter percebido antes.
Como ele planejava sair dessa? Se estava se mostrando, entĂŁo presumivelmente ainda havia mais alguma parte naquele estratagema. Ele nĂŁo apareceria Ă toa, mas o que seria? Provavelmente nĂŁo era para pedir uma revanche.
E foi justo quando esse pensamento passou pela sua cabeça que aquilo caiu do cĂ©u. Aterrissou na arena, chamando a atenção de todos no pĂșblico. Flutuando como uma folha, pousou atrĂĄs de Krahi sem fazer um som. Um murmĂșrio de confusĂŁo se espalhou entre os espectadores, que ainda estavam se recuperando do combate intenso que tinham acabado de presenciar.
Era uma pessoa. Um homem vestido com uma tĂșnica totalmente preta, o rosto escondido por uma mĂĄscara de raposa branca. Krahi se virou, e embora surpreso com a chegada repentina, ainda assim se aproximou do homem.
â Quem Ă© vocĂȘ? De onde caiu? Me desculpe, mas a prĂłxima luta vai começarâ
â Vamos poupar os discursos â respondeu o homem, com a respiração pesada. â Palavras sĂŁo desnecessĂĄrias. Prepare-se para morrer, Mil Truques.
O homem de tĂșnica entĂŁo levantou o braço.
Parecia que eu tinha vivido um sonho esquisito, onde passei alguns minutos no banheiro fingindo que estava em outro lugar. Quando finalmente tive coragem de sair, dei de cara com Krahi e um homem usando uma måscara de raposa no meio da arena. E pra completar essa palhaçada toda, eu estava jogado no chão, num canto.
â Entendi. EntĂŁo isso Ă©… uhhhh. Resumindo, Ă©…
Resumindo o quĂȘ? Nem consegui formular uma teoria. Era um insulto Ă minha inteligĂȘncia.
O homem de tĂșnica preta e mĂĄscara branca levantou a mĂŁo direita. A mĂĄscara era do mesmo modelo que a minha, mas dava pra ver pelo contorno que ele nĂŁo era o Galf. Ele abaixou a mĂŁo, e no exato momento, um estrondo ensurdecedor ecoou.

Foi como se uma bomba invisĂvel tivesse explodido. Naturalmente, eu nĂŁo tinha como fazer nada a respeito. Meus AnĂ©is de Proteção me livraram da onda de choque e do barulho ensurdecedor, mas ainda dava pra ouvir o leve som de rachaduras se formando na barreira da arena. O outro eu e os ClĂ©rigos ao redor dele foram arremessados no ar. NĂŁo dava pra enxergar muito bem com tanta poeira, mas consegui ouvir a voz do Krahi.
â O-O que pensa que estĂĄ fazendo?! Sua luta nem começou! E que poder Ă© esse?!
Eu sĂł conseguia tropeçar de um lado pro outro na poeira. Mas dĂĄ pra dizer que esse sou eu em qualquer Ă©poca, passado, presente ou futuro. Continuei ouvindo explosĂ”es. Algumas vezes, vi um brilho na barreira bem na minha frente, o que indicava que as ondas de choque estavam fortes o bastante pra ativar o Anel de Proteção. Parecia que eu ia morrer sem nem entender o que estava acontecendo â o que, infelizmente, nĂŁo era novidade pra mim.
Comecei me escondendo atrĂĄs de uma pilastra e respirando fundo. Tentei me acalmar. Essa era a minha batalha, afinal. Eu sĂł precisava resolver uma coisa de cada vez… e talvez tudo se esclarecesse.
JĂĄ sei! Vou me humilhar!
â Urk! Controle-se! â ouvi Krahi dizer. â Boca do Firmamento!
Um raio imenso caiu do cĂ©u. Como o Ansem nĂŁo estava por perto, Ă© claro que foi atraĂdo pra mim. Meus AnĂ©is de Proteção aguentaram o tranco, mas o arco acima da minha cabeça começou a desmoronar.
â Isso nĂŁo foiâ Aaargh! â gritou Krahi em meio aos gritos da plateia.
â Eu queria saber do que vocĂȘ era capaz â disse o homem mascarado, com os ombros arfando. â E Ă© sĂł isso? PatĂ©tico!
As explosÔes continuaram, embora eu só conseguisse ver poeira girando ao redor. Ouvi o choro dos céus e a voz tensa de Krahi.
â Eu nĂŁo vou deixar vocĂȘ vencer!
Ele estava preparando um feitiço de raio poderoso.
â Krahi! Presta atenção onde vocĂȘ tĂĄ mirando! â gritei, sem nem pensar.
â AHHH! TROVĂO DOS CĂUS!
O cĂ©u se encheu de luz e a arena tremeu violentamente. Que magia assustadora. Quando eu falei pra ele tomar cuidado com a mira, nĂŁo era porque eu queria que ele acertasse o vilĂŁo â era sĂł pra nĂŁo acertar a mim. Meus AnĂ©is de Proteção impediram que eu fosse eletrocutado, mas se nĂŁo fossem minhas RelĂquias de corrente, os raios nem teriam sido atraĂdos pra mim. Minha Ășnica outra defesa contra trovĂŁo era o Ansem para-raios, mas ele estava longe demais.
Mas afinal, quem diabos Ă© esse cara mascarado?
Mais uma explosĂŁo me atingiu sem efeito, e entĂŁo tudo parou.
â NĂŁo pode ser â arfou Krahi. â Eu tinha certeza de que meus feitiços acertaram! Como ainda estĂĄ de pĂ© depois de levar tantos?!
â Ă inĂștil â disse o homem mascarado. â Se Ă© o cĂ©u que vocĂȘ manipula, entĂŁo Ă© o firmamento que minhas mĂŁos comandam! Agora aprenda o que significa provocar minha ira!
Meus olhos se arregalaram. Parecia que, enfim, as peças do quebra-cabeça tinham se encaixado. Tive um momento de dĂșvida, mas logo tive certeza â esse cara mascarado era algum figurĂŁo do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa. Eu nĂŁo tinha querido me passar por ele nem dar ordens em seu nome, mas dava pra entender porque ele estaria irritado.
NĂŁo sabia exatamente por que ele estava indo atrĂĄs do Krahi, mas considerando a semelhança nos nossos tĂtulos, era bem provĂĄvel que o mascarado tivesse recebido informaçÔes erradas. Eu conhecia bem esse tipo de situação â acontecia direto comigo.
Droga, Sora, foi por isso que eu falei pra vocĂȘ pedir desculpas e esclarecer qualquer mal-entendido logo de cara.
Pra ser justo, esse cara também não devia bater muito bem da cabeça se achava que aparecer no meio do torneio era uma boa ideia. O Clube de Fãs da Måscara de Raposa era só um bando de maluco? Tudo bem, mas podiam aprender a não causar problema pros outros.
Agora que tinha chegado nesse ponto, nĂŁo via outra saĂda alĂ©m de me desculpar de verdade. O problema era que fazer isso no meio de uma batalha era mais fĂĄcil falar do que fazer. Gritos e berros, explosĂ”es e raios, o chĂŁo tremendo… sĂł as ondas de choque jĂĄ seriam o bastante pra me mandar pelos ares. E nĂŁo era como se muita gente tivesse AnĂ©is de Proteção, entĂŁo ninguĂ©m ia se meter entre esses dois â mesmo que essa luta nĂŁo tivesse nada a ver com o torneio.
Mas eu sabia que ia me sentir mal se deixasse o Krahi resolver tudo. Eu sabia como era levar bronca por algo que vocĂȘ nem fez.
Ă agora. Hora de usar aquilo.
Em outras palavras, eu nĂŁo fazia ideia do que fazer.
â NĂŁo tem mais nada que vocĂȘ possa fazer â disse uma voz.
Senti algo cutucar minha perna. Quando olhei pra baixo, vi a Pequena Raposa me encarando. A tĂșnica branca dela estava suja de terra e rasgada em alguns pontos, mas ela nĂŁo parecia ferida. Eu estava tĂŁo confuso que nem sabia o que dizer.
Se contorcendo, ela disse em voz baixa:
â Me transformei em vocĂȘ.
Ah! EntĂŁo aquele âeuâ desmaiado era ela, transformada na minha aparĂȘncia. Eu jĂĄ tinha presenciado esse poder uma vez, entĂŁo deveria ter sacado antes. Mas ainda assim, nĂŁo explicava o porquĂȘ.
Vendo que eu ainda estava meio perdido, ela logo completou:
â Me transformei em vocĂȘ. E perdi. Pra manchar sua reputação.
â VocĂȘ o quĂȘ?
Por causa da mĂĄscara, nĂŁo dava pra ler bem a expressĂŁo dela, mas o rabo dizia tudo o que eu precisava saber.
EntĂŁo ela Ă© boazinha, afinal?
â O-O-Obrigado? De verdade.
A Pequena Raposa recuou, as orelhinhas surgindo no topo da cabeça como um reflexo. Ela entendeu que eu nĂŁo queria participar do torneio, tomou meu lugar e ainda prejudicou minha reputação de propĂłsito ao perder. Eu nem sabia o que dizer pra ela. Tinha achado que ela era uma viciada em tofu frito, mas no fim era esperta pra caramba. Ainda bem que a gente (e por âa genteâ, quero dizer a Sora) fez todo aquele tofu pra ela.
â V-VocĂȘ tĂĄ zoando â ela disse, dando um passo pra trĂĄs.
â NĂŁo, Ă© sĂ©rio mesmo â falei animado. â Eu jĂĄ tava ficando doido com esse Festival do Guerreiro Supremo. NĂŁo sabia o que fazer. Mas agora que perdi, posso simplesmente ir embora. VocĂȘ nĂŁo tem ideia do alĂvio que isso Ă©.
Isso sem falar no estrago na reputação. Agora só faltava fazer aquele homem mascarado me perdoar. A menos que essa raposinha estivesse disposta a cuidar disso também? Sem pensar, estendi a mão para tocar suas orelhas, mas ela afastou minha mão com um tapa.
Ela tremia de raiva, mas sua voz, quando falou, era como gelo.
â Eu te odeio, Sr. Cautela.
â HĂŁ?
â O Sr. Cautela nĂŁo tem cautela nenhuma.
Isso era um bordão ou algo assim? Pode parar com isso. Até eu consigo perceber quando estou em perigo.
â SĂł tĂŽ acostumado com isso â respondi.
â Lembre-se disso â ela disse, virando-se, com o rabo roçando na minha perna.
No momento seguinte, tudo mudou. Minhas pernas bambearam e eu mal consegui ficar de pé. Senti o impacto de mais uma explosão ensurdecedora de raios e outro Anel de Proteção ativando. Se eu contei certo, só me restava um.
Olhei para cima e vi o homem mascarado a um braço de distĂąncia de mim. Achei que meu coração fosse parar, mas parece que nĂŁo fui o Ășnico pego de surpresa. Ele recuou, se movendo como se deslizasse pelo chĂŁo.
Olhei ao redor, tentando entender o que tinha acontecido o mais rĂĄpido possĂvel. Pelo que percebi, a IrmĂŁzinha Raposa me jogou bem no meio do caos. Aquele talento estava sendo desperdiçado com ela.
Achei que um sorriso estilo detetive durão seria um bom começo.
â Veja sĂł… No fim das contas, ela Ă© uma boa menina.
Se ao menos ela tivesse me dado um tempinho pra me preparar…
Esse desdobramento inesperado numa luta que jĂĄ era chocante causou comoção entre o pĂșblico. Quase ninguĂ©m parecia entender o que estava acontecendo. No Festival do Guerreiro Supremo, surpresas aconteciam de vez em quando, assim como ataques a um desafiante, mas ninguĂ©m jamais tinha invadido a arena.
De uma tribuna de luxo, longe e alta acima do ringue, Rodrick Atolm Zebrudia observava a luta confusa.
â EntĂŁo vocĂȘ veio, Raposa â resmungou. â Bem ousada de se mostrar diante de tanta gente.
â Nunca imaginei que interromperiam o torneio â disse Franz. Ele agora estava com uma expressĂŁo sĂ©ria, mas antes parecia atĂ© um pouco satisfeito ao ver o Mil Truques em apuros.
No entanto, Murina tinha outra coisa na cabeça.
Hm? Aquela mĂĄscara. Ă a mesma que o Mil Truques estava usando mais cedo.
Ela não estava passando por algo como o treinamento brutal de recentemente, nem travando uma batalha violenta como a de anteontem, mas mesmo assim começou a suar frio.
Ela sabia que o pai estava envolvido num conflito com uma organização chamada “Raposa Sombria de Nove Caudas”, mas nĂŁo sabia mais nada alĂ©m disso. Na verdade, fez questĂŁo de nĂŁo saber. Pensava que, se soubesse de algo, sua mĂĄ sorte poderia piorar tudo. EntĂŁo ficou quieta, sĂł observando a luta.
â Aquele homem… A mĂĄscara dele Ă© igual Ă que aquele fantasma usava na cĂąmara do tesouro â comentou Rodrick.
â Parece que hĂĄ mesmo algum fundo de verdade nos rumores de que tĂȘm ligação com aquela cĂąmara â disse Franz.
Murina relembrou os acontecimentos recentes. Teve o treinamento pesado, depois, ao sair da capital imperial, o Mil Truques de repente colocou a mĂĄscara que pegou no cofre. Um grupo estranho foi enviado para lutar ao lado dos Grieving Souls e dos Cavaleiros da Tocha, todos usando mĂĄscaras de raposa enquanto agiam. E nĂŁo foram sĂł eles â atĂ© os inimigos usavam mĂĄscaras vulpinas variadas.
Agora que tinha sido dispensada de suas obrigaçÔes, as perguntas começaram a surgir. Quem eram aquelas pessoas? Com o que, afinal, ela estava lutando? Até agora, não tinha parado pra pensar nisso. Ser forçada de repente a comandar umas cem pessoas não lhe deu o luxo de refletir sobre o motivo de tudo aquilo. Superar o novo Julgamento jå estava consumindo sua mente por completo.
Ela tinha ouvido dizer que a Raposa Sombria de Nove Caudas era uma organização habilidosa e escorregadia; dificilmente tantos membros apareceriam de uma só vez. Mesmo assim, Murina estava cheia de incertezas.
â Veja como ele saiu ileso mesmo depois de levar tantos raios. Que habilidade â disse Rodrick, com olhar grave.
â Imagino que seja alguma artimanha dele â respondeu Franz.
O bombardeio de raios era realmente algo impressionante. Magia de raio era considerada a magia dos campeÔes. Não era fåcil de aprender, mas o poder que oferecia compensava a dificuldade.
Esse tal de Krahi tinha um nome que parecia uma piada, mas seu poder era autĂȘntico. Mesmo depois de todo o treinamento, Murina nĂŁo duraria um minuto debaixo daquela tempestade. Se o Festival do Guerreiro Supremo era um evento para pessoas como essa, Murina tinha ainda mais certeza de que o Mil Truques era completamente maluco por ter querido que ela participasse.
Da mesma forma, aquele homem de måscara de raposa devia ser um aberração se não estava nem um pouco abalado pelos raios mortais. Suas roupas estavam queimadas aqui e ali, mas ele mesmo não mostrava sinais de dano. Como podia ter suportado com tanta facilidade um golpe que até empurrou o Mil Truques, famoso pela sua Barreira Absoluta?
NĂŁo. Espera aĂ â pensou Murina, com a bochecha se contraindo. Os Mil Desafios nĂŁo tinham a fama de levar as pessoas atĂ© o limite? E o Mil Truques tinha inicialmente desejado que ela entrasse nesse torneio. Mas, segundo Sitri, Murina nĂŁo atingiu o desenvolvimento esperado. SerĂĄ que comandar aquelas pessoas nĂŁo era o Desafio de verdade? SerĂĄ que o verdadeiro era esse campo de batalha?! Mas entĂŁo… mudaram de ideia no meio do caminho? Mudaram para isso?
â Mas o Mil Truques tambĂ©m estĂĄ ileso… â argumentou Franz.
Ele tinha razão. Depois de ser derrubado por aquela impressionante lança dourada, o Mil Truques agora estava de pé diante do homem mascarado, sem nenhum ferimento. Ele tinha colocado Murina na berlinda, mas era a primeira vez que ela o via em ação.
Por um momento, quase parecia que Krai havia perdido para Krahi. Serå que o treinamento dela havia mudado porque ele percebeu que Murina jamais venceria o Magus do Relùmpago? Até que ponto isso estava dentro do plano? Ela não fazia ideia do que era planejado e do que estava sendo improvisado.
Sem perceber, Murina havia se levantado do assento, hipnotizada pela batalha lĂĄ embaixo.
â Alteza Imperial, a senhorita pode cair se se inclinar demais â alertou Franz.
Murina respondeu sem hesitar nem por um segundo:
â NĂŁo se preocupe, Sir Franz. Agora, eu preciso ver como isso vai terminar.
Franz ficou um pouco surpreso, mas logo se recompĂŽs:
â Como desejar. Garantirei que nada lhe aconteça.
LĂĄ embaixo, duas figuras com capacidades sobre-humanas incompreensĂveis se enfrentavam. ApĂłs derrubar Krahi rapidamente, o homem mascarado agora observava Krai com atenção redobrada.
â Pode-se chamar isso de Defesa Absoluta contra Recuperação Hiperativa â comentou Franz.
Os ataques do homem mascarado eram invisĂveis. Ele nĂŁo usava relĂąmpagos nem fogo. Eles sĂł conseguiam acompanhar o fluxo do ar e tentar entender que tipo de poder ele usava graças Ă s nuvens de poeira. Se o ar estivesse limpo, nĂŁo teriam a menor pista.
Krahi estava caĂdo atrĂĄs de Krai. Ainda segurava seu cajado, mas seus membros estavam retorcidos de formas que nĂŁo deveriam estar. Krahi e Murina haviam lutado lado a lado, entĂŁo ela torcia para que ele saĂsse vivo dali.
Foi entĂŁo que Franz repassou uma mensagem recebida de um guarda:
â Alteza Imperial, solicitamos permissĂŁo para mobilizar nossas forças. Apesar de que formar uma linha de defesa em tĂŁo pouco tempo nĂŁo serĂĄ fĂĄcil.
â Malditos Kreatianos. Eles recusaram nosso pedido por mais guardas mesmo depois de termos avisado que algo poderia acontecer!
â Os guardas que estĂŁo conosco foram posicionados pela arena. A Raposa nĂŁo vai escapar.
â Muito bem. Mas, se decidirem voar, entĂŁo nĂŁo hĂĄ nada que possamos fazer a respeito â disse Franz, embora claramente nĂŁo gostasse de admitir isso.
As pessoas contra quem Murina havia lutado na noite anterior provavelmente eram apenas peÔes, mas ainda assim mostraram a força da Raposa. Os soldados de Zebrudia eram os melhores, mas a Raposa tinha, entre outras coisas, a vantagem numérica. Ela acreditava que esse duelo estava acontecendo porque o Mil Truques havia manipulado os acontecimentos para isso.
â TambĂ©m solicitamos ajuda aos outros desafiantes â acrescentou Franz. â Embora eu nĂŁo saiba quantos estarĂŁo dispostos a cooperar.
â NĂŁo se preocupe. Ă bem provĂĄvel que tudo isso esteja conforme o plano do Mil Truques.
â O que quer dizer com isso, Alteza Imperial?!
â Basta assistir com atenção. Se eu estiver certa, ele tende a ser um pouco… exagerado.
Mesmo assim, ela ainda achava tudo aquilo um exagero, se isso realmente fazia parte de seu Desafio.
â Entendo. JĂĄ estava com a sensação de que tinha algo errado â disse o homem mascarado com uma voz retumbante. â Aquele nĂŁo parecia o tipo de homem que declararia guerra contra nĂłs. Mas vocĂȘ Ă© o verdadeiro, nĂŁo Ă©? NĂŁo importa. Ă sĂł mais um obstĂĄculo que eu preciso eliminar.
O Mil Truques não respondeu. Apenas sorriu. Sem demonstrar a menor preocupação, encarou o homem mascarado diretamente, criando um contraste marcante entre os dois. Após um breve momento, disse:
â Primeiro, deixe-me começar pedindo desculpas. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer.
Ele olhava para o homem mascarado, mas a natureza de suas palavras levou Murina a acreditar que elas eram direcionadas a Krahi.
O homem deu um passo cauteloso para trĂĄs. Sua voz, agora baixa e cheia de desprezo, respondeu:
â Um ou dois de vocĂȘs nĂŁo fazem diferença. Arrependa-se da sua tolice… e morra.
â NĂŁo fique tĂŁo bravo. Eu cometi um erro. Fui meio bobo mesmo. Mas me escute, o jeito como vocĂȘ administra sua organização tambĂ©m Ă© parte do problema aqui.
â O quĂȘ?!
Os cĂ©us se iluminaram. Um clarĂŁo resplandecente, mais intenso que qualquer raio anterior, atingiu nĂŁo o homem mascarado, mas o prĂłprio Mil Truques. Murina arfou. Franz ficou em choque. O homem mascarado recuou um passo. No entanto, Krai permaneceu impassĂvel mesmo apĂłs receber o que parecia uma punição divina. O braço de Krahi, que estava erguido, caiu frouxamente.
â Eu vou pedir desculpas, entĂŁo poderia me perdoar? â continuou o Mil Truques, como se absolutamente nada tivesse acontecido.
â Hm. Entendo â disse o homem mascarado, com a respiração ofegante. â VocĂȘ Ă© bem diferente do falso. Mas serĂĄ que consegue manter a calma depois disso? â disse, sacando sua espada.
â Como ele pode estar com a Chave da Terra?! â exclamou Franz, com a voz trĂȘmula. â O Mil Truques Ă© quem devia estar mantendo ela segura!
â Franz, ordene aos Magos que assumam posição defensiva! â gritou Rodrick.
Serå que não era aquela Espada Proteana que ficava balançando isso como se fosse um brinquedo?, pensou Murina, mas de jeito nenhum podia dizer aquilo em voz alta.
Devia ser algo realmente perigoso, ou seu pai não teria se levantado da cadeira e começado a dar ordens.
â Se o que lemos for verdade, evacuar agora nĂŁo vai adiantar! Parem aquele homem ou esta terra poderĂĄ ser destruĂda!
Murina estava impotente. Apesar de todo o seu treinamento, não havia nada que pudesse fazer. Justo quando começou a cerrar o punho de frustração, um dos guardas imperiais entrou correndo na tribuna.
â CapitĂŁo, estamos sendo atacados! â disse, ofegante. â Invasores com mĂĄscaras de raposa. E a Princesa Murina!
Franz imediatamente olhou para Murina, que apenas piscou, surpresa. Quando o guarda conseguiu respirar normalmente, fez seu relatĂłrio direito:
â A, hĂŁ, falsa Princesa Murina estĂĄ enfrentando os invasores!
Havia outras crianças na famĂlia imperial, mas Murina claramente destoava das demais. Era frĂĄgil, raramente fazia apariçÔes pĂșblicas e mantinha o contato com outras pessoas no mĂnimo possĂvel. NĂŁo possuĂa a habilidade marcial que se esperava de membros da sua famĂlia e era a Ășnica entre os irmĂŁos que nĂŁo demonstrava qualquer talento em especial.
Pra completar, ainda recebia tratamento especial do imperador. Ele sempre designava os melhores guardas imperiais para protegĂȘ-la e a levava com ele para conferĂȘncias. Em Zebrudia, fraqueza era um pecado â mas o imperador abria uma exceção pra ela.
Por isso, era natural que a raposa a escolhesse como alvo.
Era difĂcil desestabilizar um paĂs poderoso que construiu sua prosperidade na era dourada da caça a tesouros. O Imperador Rodrick era uma figura inabalĂĄvel. Tinha Ă disposição alguns dos melhores guardas do impĂ©rio â e ele mesmo tambĂ©m era perigoso; assassinĂĄ-lo teria um custo altĂssimo. E mesmo que conseguissem, um herdeiro formidĂĄvel estaria pronto pra assumir seu lugar. O novo imperador poderia unir o povo, enfurecido pela perda do lĂder, e obliterar a enfraquecida Fox.
Foi assim que a princesa imperial acabou na mira. Se ela fosse morta, o povo voltaria os olhos para o pai, que havia falhado em protegĂȘ-la. Isso mostraria a força da Fox e racharia os alicerces de Zebrudia. Eles escolheram atacar no momento em que sua proteção estaria mais fraca â enquanto o chefe executava o outro plano.
A segurança no Festival do Guerreiro Supremo era escassa, e a famĂlia imperial nĂŁo tinha muitos guardas consigo. Normalmente, o pĂșblico atrapalharia um ataque desse tipo, mas todos estavam hipnotizados pelo chefe. Eles teriam o mĂĄximo de efeito com o mĂnimo de esforço.
Ou pelo menos era isso que imaginavam.
****
â VocĂȘ tĂĄ brincando comigo…
â Matar, matar?
A Fox havia fechado a distĂąncia num instante e atacado com uma espada curta, mas ela havia desviado o golpe, com uma expressĂŁo estranha no rosto. Em sua mĂŁo pĂĄlida, estava uma espada que ela havia pegado de um dos guardas caĂdos.
Pensando bem, isso jĂĄ parecia suspeito. A quantidade e qualidade dos guardas nĂŁo era o que se esperava ao redor de uma VIP como a princesa imperial.
â NinguĂ©m disse que ela sabia manejar uma espada.
â Ouvi dizer que o Mil Truques deu umas aulas pra ela. Ă por isso que nĂŁo colocaram mais proteção?
Os guardas estavam todos no chĂŁo. Tudo o que restava era matar a princesa imperial â e eles eram trĂȘs contra uma. Mesmo assim, ela ainda estava de pĂ©.
O assassino sĂł havia bloqueado um Ășnico golpe, mas o braço jĂĄ estava dormente. O fato da princesa imperial conseguir gerar tanta força apesar de seus braços esguios sĂł podia ser resultado de material de mana.
Os assassinos haviam priorizado errado. Com o elemento surpresa, deveriam ter mirado nela primeiro â nĂŁo nos guardas. NĂŁo deviam ter dado espaço pra ela reagir. Mas agora era tarde demais para arrependimentos. Podiam ter evitado isso, mas sem Galf, sua rede de informaçÔes estava deficiente.
â A gente nĂŁo pode dizer pro chefe que nem conseguiu matar a princesa imperial â disse um dos assassinos aos colegas. No mesmo momento, dois deles avançaram de uma vez sĂł para um ataque em pinça. A princesa girou sobre os calcanhares. Um novato tropeçaria tentando uma manobra dessas, mas ela se movia quase como se estivesse dançando.
Os assassinos atacaram com força total, mas ela desviou de ambos os golpes. Girar daquela forma normalmente só deixaria alguém vulneråvel, mas aquele movimento estranho conseguiu repelir os dois ataques.
â Matar, matar, matar.
Nada em sua capacidade de rastrear visualmente os oponentes, força ou movimentos treinados indicava que ela era alguĂ©m acostumada a ser protegida. AlĂ©m disso, seus golpes nĂŁo tinham a menor hesitação de um amador, e seus olhos claros nĂŁo demonstravam medo algum. Se dessem uma brecha, ela iria aproveitar â e acabar com eles. Que papo era aquele de que ela era medrosa e sem talento?
A princesa abaixou a postura e então avançou, um brilho de intenção assassina nos olhos.
â Matar, matar?
O assassino encontrou sua lùmina com a dela e conseguiu bloqueå-la. Uma série de choques metålicos ecoou ao redor, cada troca um fardo a suportar. E pra piorar, cada golpe dela vinha mais forte que o anterior. Serå que ela ainda nem estava lutando sério? Mesmo quando atacada pelos pontos cegos, ela desviava como se tivesse olhos na nuca ou algum outro talento escondido. Não podia ser humana, aquilo.
EntĂŁo, ouviram alguĂ©m estalar os dedos. Esse era o sinal. O assassino bloqueou um golpe e recuou. Por um breve instante, viu os olhos da princesa se arregalarem antes de ela ser engolida por chamas negras. Sem soltar um grito sequer, ela foi tomada pelo fogo â resultado de uma magia lançada por outro assassino.
â Se atĂ© uma princesa da famĂlia imperial Ă© capaz disso… â disse um deles, ofegante.
â Mas a missĂŁo foi cumprida. Vamos recuarâ
Antes que o assassino pudesse terminar a frase, a princesa em chamas cambaleou pra frente e se jogou contra um deles.
â MATAR!
â O quĂȘ?! Aquilo era uma magia avançada!
â Matarmatar matarmatar matar…
A princesa se sentou sobre o assassino caĂdo e o socou repetidamente antes de se levantar. Era como algo saĂdo de um pesadelo. O cheiro de carne queimada era forte. Ainda envolta em chamas, e agora sem empunhar uma lĂąmina, a princesa atacou outro dos assassinos. Seus olhos brilhavam no meio das chamas negras.
â Isso nĂŁo pode ser humano â disse um deles.
Serå que os rumores sobre sua mediocridade eram só fachada? O império estava escondendo isso o tempo todo?
â Recuar! A gente vai recuar!
Não havia esperança pro que estava no chão. Não dava pra carregå-lo e ainda escapar com vida. Os assassinos correram o mais råpido que podiam.
â Matar. M-Ma-tar. Gill. Gillgillgill. Ki. Il.
Como ela ainda conseguia se mover? A massa de chamas negras rugia enquanto os perseguia.
Eu estava começando a pensar que, dessa vez, a gente estava realmente ferrado. Permaneci na arena cada vez mais perigosa, determinado a cumprir minha obrigação de me desculpar. Eu estava sem AnĂ©is de Segurança. Krahi, a origem do disparo que drenou meu Ășltimo anel, estava desmaiado atrĂĄs de mim. SerĂĄ que eu tinha feito algo pra ele me odiar?
Mesmo sem os AnĂ©is de Segurança, eu nĂŁo podia recuar â ainda nĂŁo tinha me desculpado. Eu nĂŁo estava ali pra lutar, estava ali pra implorar de joelhos! Estava ali pra oferecer um pedido de desculpas sincero, direto do coração! Conseguir atacar mesmo depois de ver minha humilhação patĂ©tica era algo que pouquĂssimas pessoas â quer dizer, nĂŁo, muita gente conseguia fazer. Ainda assim, fugir nĂŁo era uma opção, porque eu era imbatĂvel em levar facada nas costas.
Eu ainda nĂŁo tinha me ajoelhado, mas minha aura arrependida fez a voz do Presidente do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa (nome provisĂłrio) tremer.
â Hm. Entendo. VocĂȘ Ă© bem diferente do falso. Mas serĂĄ que consegue manter a calma depois de ver isto?
O presidente sacou sua espada. SĂł isso jĂĄ invocou um vendaval em questĂŁo de segundos. Levei as mĂŁos aos olhos pra me proteger da poeira e das rajadas cortantes. Segurando a lĂąmina com o fio voltado para trĂĄs, o presidente a ergueu com o lado chato voltado pra mim, exibindo um padrĂŁo geomĂ©trico que eu reconhecia. A RelĂquia que aterrorizava o impĂ©rio â Chave da Terra.
â Esta terra serĂĄ arruinada. Que suposição ridĂcula, a ideia de que ninguĂ©m seria capaz de controlar o poder dessa RelĂquia.
Percebi que a espada tinha invocado um ciclone, e sĂł nĂłs dois estĂĄvamos dentro dele. O vento uivante, a areia sacudida, e a força bruta nos isolaram num mundo Ă parte. SĂł que, depois de brincar com tantas RelĂquias â espadas inclusive â, eu podia afirmar que ele nĂŁo estava usando nem um pingo do poder dela.
â Vejo que vocĂȘ nĂŁo Ă© totalmente ignorante. Estaria certo se achasse que eu nem ativei a Chave da Terra.
CadĂȘ aquele papo todo de que a RelĂquia era inativĂĄvel? E por que ninguĂ©m vinha me ajudar?
â Essa RelĂquia jĂĄ fez mais de uma civilização cair de joelhos. SĂł uma fração de seu poder devastador Ă© mais do que suficiente pra obliterar essa cidadezinha!
Ă, mas o que essa cidade fez pra vocĂȘ, cara?
Beleza, a Sora tinha feito besteira ao me confundir com o chefe dela e tudo mais, e é verdade que eu também ajudei a bagunçar as coisas, mas o Kreat não tinha nada a ver com isso.
â Chega! Isso nĂŁo leva a nada! â eu disse. â A culpa foi minha. Eu admito que errei, entĂŁo vamos seguir em frente. NĂŁo foi por mal! Me desculpa! AliĂĄs, me desculpa muito mesmo!
â Por que vocĂȘ insiste…
Levantei o olhar e vi que o presidente do clube continuava o mesmo de sempre. Parecia que pedir desculpas nĂŁo ia adiantar, entĂŁo eu precisava mudar de abordagem. Eu nĂŁo fazia ideia de como ele tinha conseguido a Chave da Terra dele, mas eu tambĂ©m tinha uma. NĂŁo achei que conseguiria intimidĂĄ-lo, mas se os impulsos destrutivos dele estavam ligados Ă quela RelĂquia poderosa, talvez ver outra igual fizesse algum efeito.
Saquei minha Chave da Terra e a apontei direto pra ele, fazendo-o congelar.
â Que coincidĂȘncia â eu disse. â Eu tambĂ©m tenho uma. E, sĂł pra constar, a minha estĂĄ carregada.
A reação do presidente foi clara como o dia. Cada parte dele tremia.
â O quĂȘ? ImpossĂvel â ele sibilou. â Como?
Nada de impossĂvel. Eu tinha uma, e era isso. NĂŁo era incomum existirem vĂĄrias instĂąncias da mesma RelĂquia. Mesmo com RelĂquias superpoderosas, embora fosse mais raro, nĂŁo era impossĂvel.
Pela primeira vez, parecia que eu tinha feito a escolha certa, mas isso nĂŁo me trazia muito alĂvio. Talvez fosse pela falta de AnĂ©is de Segurança, mas se ele fosse me perdoar, eu queria que fosse logo. NĂŁo precisava desse furacĂŁo todo. Eu sĂł queria que ele visse que a gente compartilhava uma ligação como donos de RelĂquias e me perdoasse. Eu nĂŁo estava ali pra brigar.
O presidente olhou da minha espada pra dele, eliminando qualquer margem de dĂșvida. Mesmo nome, mesma RelĂquia. Me ocorreu que, contando com a que estava no museu, havia trĂȘs dessas coisas. NĂŁo era todo dia que se via algo assim.
Foi nesse momento que o presidente murmurou com a voz fervendo:
â O-O quĂȘ?
A RelĂquia que ele devia estar segurando nĂŁo estava mais lĂĄ. Posso afirmar com certeza que nĂŁo tirei os olhos dela. No momento seguinte, senti um cheiro agradĂĄvel, algo que vinha sentindo bastante ultimamente.
O presidente abriu a mão e um pequeno objeto quadrado, dourado e marrom, caiu no chão. Ele olhou para aquilo com um olhar vazio. Eu me certifiquei de que não estava ficando maluco. Franzi o cenho, questionei meus olhos, duvidei do meu próprio cérebro. Era um pedaço de tofu frito. Um cubo lindamente preparado, com cara de delicioso, de tofu frito.
Que diabos estå acontecendo? O que eu faço? Como se reage a uma coisa dessas?
â E-Ei, vocĂȘ deixou cair algo que parece gostoso â eu disse.
Ele nĂŁo respondeu.
â T-Tenho certeza que Ă© assim mesmo que a RelĂquia funciona. VocĂȘ nĂŁo fez nada de errado â tentei justificar. â Tenho certeza que a Chave da Terra Ă© sĂł um item que vira tofu frito! Aposto que a minha faz a mesma coisa!
Com um grunhido curto, o presidente levantou a cabeça devagar. Mesmo com a måscara cobrindo parte do rosto, aquela era a cara mais assustadora que eu jå tinha visto. A parte de trås do meu pescoço arrepiou e, por instinto, comecei a me preparar pra me ajoelhar. Eu não tinha poderes e jå tinha consertado muitos erros me humilhando. Pensar råpido nunca foi meu forte, mas me desculpar era uma habilidade que eu tinha aperfeiçoado.
Comecei a dobrar os joelhos, estendi as mĂŁos Ă frente, abaixei a cintura e depois a cabeça. JĂĄ tinha feito isso dezenas â talvez centenas â de vezes, atĂ© treinado de vez em quando. Aquilo tinha tudo pra ser o pedido de desculpas mais bonito que eu jĂĄ tinha feito… se meus joelhos nĂŁo tivessem falhado no meio do caminho.
â Ah.
â Hm?!
CaĂ pra frente. Fechei os olhos ao ver o chĂŁo se aproximando rĂĄpido e estendi as mĂŁos. SĂł que eu estava segurando a Chave da Terra com a mĂŁo direita. A lĂąmina foi devorada pelo chĂŁo e uma onda de choque se espalhou logo depois de seu desaparecimento.

***
A Maga do Fogo, Rosemary Purapos, o Inferno Abissal, tinha certeza de que sentira a terra gritar. Magos lidavam com forças ocultas aos olhos comuns. Detectar esse surto repentino nĂŁo exigia alguĂ©m do calibre dela; qualquer um com um mĂnimo de aptidĂŁo mĂĄgica teria notado. Era algo vasto demais para um humano controlar plenamente, mesmo que fosse um Magus de NĂvel 8.
â EntĂŁo essa Ă© a RelĂquia que disseram poder invocar calamidades? â disse Rosemary com um estalo de lĂngua. â Que bagunça.
Levantou-se do assento onde estava bastante confortĂĄvel e pegou seu cajado. O homem mascarado nĂŁo estava brincando â aquela RelĂquia realmente era capaz de dizimar o mundo. Mas por sorte, ela nĂŁo era a Ășnica Maga habilidosa ali que podia enxergar a verdade por trĂĄs das palavras dele.
A força invisĂvel penetrava a terra, fazendo o chĂŁo tremer. Pessoas gritavam enquanto a arena começava a sacudir. Aquilo nĂŁo era um terremoto, e sim um prenĂșncio do que estava por vir.
Rosemary não conseguia ver através das nuvens de poeira ao redor do ringue, mas sabia o que tinha acontecido. O garoto tinha estragado tudo. Sabia formular tåticas, mas talvez não fosse confiåvel para ir além disso. No fim, ainda era só um jovem.
Graças Ă sua vasta experiĂȘncia, Rosemary conseguia perceber que a energia que percorria a arena era pura e translĂșcida. Era o mesmo tipo de energia que o mascarado havia canalizado ao atacar Krahi. Era justo supor que essa semelhança era o motivo de o mascarado ter escolhido aquela RelĂquia especĂfica. Assim como Krahi era potencializado por seu cajado, o mascarado havia escolhido uma ferramenta com a qual tinha afinidade.
â A barreira nĂŁo vai aguentar â disse ela. â NĂŁo foi feita pra isso.
Gark se inclinou, tentando enxergar melhor. â NĂŁo consigo ver nada com essa poeira toda! Que diabos tĂĄ acontecendo aĂ?!
EntĂŁo, outra onda de choque dispersou os detritos no ar, revelando duas silhuetas segurando o cabo de uma espada cravada no chĂŁo. Uma era sem dĂșvida o Mil Truques, e a outra era o homem mascarado.
Outra onda sacudiu a arena â pequenas rachaduras surgiram no chĂŁo e nas colunas. Ainda assim, Rosemary estava confiante de que as ondas estavam enfraquecendo. Isso sĂł podia significar uma coisa â era o sinal dela.
â NĂŁo entrem em pĂąnico! â gritou para os espectadores, que estavam prestes a mergulhar no caos. â O Mil Truques tĂĄ segurando! Ele tĂĄ nos dando uma chance de conter isso!
Se fosse liberado, o terrĂvel poder da Chave da Terra sem dĂșvida destruiria nĂŁo sĂł Kreat, mas talvez o impĂ©rio inteiro. Isso nĂŁo seria um desastre â seria um apocalipse. Mas ainda havia tempo. Aquela RelĂquia era demais para um NĂvel 8 conter por muito tempo, mas aquele era o Festival do Guerreiro Supremo; havia centenas de Magos capazes nas redondezas. Eles nĂŁo conseguiriam evitar todos os danos, mas podiam reduzir o impacto. E era exatamente isso que o Mil Truques estava fazendo.
Os que entenderam o que Rosemary quis dizer se abaixaram rapidamente e pressionaram as mĂŁos contra o chĂŁo, resistindo Ă força destrutiva que pulsava sob seus pĂ©s. A RelĂquia provavelmente nĂŁo conseguiria manter aquele nĂvel de emissĂŁo por muito tempo.
â Vou começar a evacuar o pessoal â disse Gark.
â Fique Ă vontade. Isso Ă© trabalho pra Magos. A ousadia desse garoto, fazendo os mais velhos ralar desse jeito…
Rosemary observou Gark disparar para longe. Proteger pessoas nĂŁo era exatamente o ponto forte dele, mas nĂŁo era hora de ser exigente. O Inferno Abissal suspirou fundo e entĂŁo fez algo que nĂŁo fazia hĂĄ muito tempo: reuniu todo o mana que conseguiu.
â Sigam o exemplo do Inferno Abissal! â Rodrick gritou para seus guardas. â Façam o que puderem pra minimizar os danos! NĂŁo precisam me proteger, agora vĂŁo!
Era difĂcil imaginar como as coisas podiam piorar. A Chave da Terra era uma arma de energia que, ao ser ativada, absorvia energia das linhas de mana prĂłximas e entĂŁo a liberava como força destrutiva. AtĂ© entĂŁo, ninguĂ©m sabia ao certo como a RelĂquia era usada. Ao que parecia, carregar a espada era difĂcil, mas ativĂĄ-la era simples.
Rodrick se levantou de seu assento e agarrou o corrimĂŁo, inclinando-se enquanto observava intensamente a cena abaixo. A espada brilhava enquanto o Mil Truques e a Raposa a seguravam. Como imperador de uma grande nação, Rodrick jamais podia perder a compostura. AtĂ© hoje, nunca havia deixado as emoçÔes o dominarem, nem nos momentos mais difĂceis. Mas agora, pela primeira vez na vida, sentiu uma queimação estranha dentro da cabeça.
â Malditos… Malditas raposas â rosnou. â VocĂȘs nĂŁo tĂȘm consciĂȘncia?
O Ășltimo resquĂcio de racionalidade revelou a identidade daquele sentimento â era fĂșria. Durante todas as negociaçÔes clandestinas que enfrentou, a tentativa de assassinato, atĂ© mesmo ao descobrir a cĂłpia de sua filha, ele havia suprimido essa emoção. Mas aquilo era demais.
Por conta da natureza secreta da organização, o império nunca pÎde dedicar muitos recursos para combater a Fox. Precisavam de uma justificativa apropriada pra uma ação desse tipo. Zebrudia podia até ser uma monarquia absoluta, mas se um grupo não tivesse causado danos evidentes, nem o imperador podia usar sua autoridade para esmagå-los sem sofrer represålias.
Mas isso… isso estava alĂ©m do perdĂŁo.
A chave cintilava. Segundo os registros, isso significava que estava com energia total. Uma Chave da Terra funcionando no mĂĄximo usaria as linhas de mana para alterar a paisagem ao redor. Esmagaria montanhas, afogaria continentes e muito mais.
Os textos da era do artefato original diziam que ele jamais fora usado em capacidade måxima. No entanto, de acordo com o Departamento de Investigação dos Cofres, aquela era havia sido encerrada de forma abrupta por um uso total da Chave da Terra. O que implicava que ninguém sobreviveu para escrever sobre o evento que abalou o mundo.
Rodrick nĂŁo achava que a Raposa Sombria de Nove Caudas fosse tĂŁo longe. Eles nĂŁo estavam apenas dispostos a derrubar uma nação â nĂŁo tinham escrĂșpulos em alterar o prĂłprio rosto do planeta. Eram inimigos de todos os seres vivos. Era sĂł um Ășnico golpe que estavam tentando desferir, mas um que nĂŁo podia ser permitido sob nenhuma circunstĂąncia. Era preciso um Ăłdio horrendo para estar disposto a destruir o mundo â incluindo a si mesmo.
Se soubesse que eles estavam planejando algo assim, Rodrick não teria adotado uma abordagem tão reticente. Mesmo que isso significasse arrasar Kreat e ser censurado pelas outras naçÔes, ele teria usado qualquer meio para eliminar a Fox.
Inspirou fundo, contendo a raiva em chamas dentro de sua mente. TĂ©cnicas como essa nĂŁo serviam para apagar sua fĂșria, mas sim para transformĂĄ-la em Ăłdio frio. Estreitou os olhos e encarou o homem mascarado, que segurava o cabo da lĂąmina. Rodrick cerrou os punhos com tanta força que as unhas cravaram na carne, fazendo sangue escorrer. Mas a dor, o tremor, os gritos â nada disso o alcançava.
â Eu vou te esmagar. Vou te massacrar, Fox. Vou revirar cada maldita folha de grama atĂ© ter certeza de que todos vocĂȘs estĂŁo mortos.
Fox nĂŁo era o Ășnico jogador disposto a ser implacĂĄvel.
Num instante, a raiva de Caelum Tail foi substituĂda por perplexidade. Ele mal conseguiu resistir Ă onda de choque inicial, entĂŁo agarrou a chave e canalizou mana nela ao mesmo tempo. Usou seus poderes para contra-atacar as forças destrutivas da RelĂquia, na esperança de suprimi-la, nem que fosse sĂł um pouco.
Foi atingido por um impacto brutal como nunca havia sentido antes. O Mil Truques, tambĂ©m segurando o cabo, ergueu os olhos para ele, mas nĂŁo parecia estar tentando parar a RelĂquia. Devia ter sido um milagre o que permitiu que ele resistisse ao primeiro golpe. Se tivesse sido arremessado para longe, a terra jĂĄ poderia ter sido destruĂda nos poucos segundos extras que ele levaria para se recompor. Era esse o nĂvel de devastação que a Chave da Terra podia provocar em tĂŁo pouco tempo.
Caelum nĂŁo podia se dar ao luxo de prestar atenção em mais nada. Tudo o que podia fazer era tentar conter a RelĂquia e encarar o homem Ă sua frente.
â V-VocĂȘ! â rugiu Caelum. â O que foi que vocĂȘâ?!
â HĂŁ? O que foi que euâŠ? â respondeu o outro, arregalando os olhos, mas mantendo a calma apesar das correntes destrutivas ao redor. Esse era o privilĂ©gio de quem usava a Chave da Terra. Esse homem estava parado bem no olho do furacĂŁo.
Então aquele era o Mil Truques! Um homem completamente divorciado da sanidade! Caelum queria estrangulå-lo, mas não podia se dar a esse luxo. Se perdesse o foco por um segundo que fosse, seria lançado longe.
A RelĂquia começou a brilhar, sinal de que estava em potĂȘncia mĂĄxima.
â Droga! VocĂȘ! â rosnou entre os dentes. Segurando a espada com força, a energia fluiu de suas mĂŁos para o resto do corpo. Sentia como se fosse se despedaçar. Com seu poder e sua mana, sensaçÔes como essa pareciam coisa do passado. Uma dor aguda perfurou sua cabeça, suas mĂŁos queimavam, mas ele dedicou corpo e alma a manter o controle da RelĂquia.
Nada disso teria acontecido se tudo tivesse saĂdo como planejado. O objetivo final da Fox era a destruição da civilização â mas essa morte vinha com a promessa de renascimento. A calamidade agora Ă espreita era muito maior do que aquilo que a Fox queria. Era para ser uma carta na manga â uma que eles sequer pretendiam usar. SĂł mostrar jĂĄ seria o suficiente para intimidar seus inimigos.
Aquele homem nĂŁo podia estar sĂŁo se estava disposto a usar uma arma como essa. Ele queria trazer o fim do mundo?
â Eu só⊠Eu sĂł tentei me humilhar, sĂł isso â disse ele.
Caelum estava vulnerĂĄvel a qualquer ataque, mas o Mil Truques nĂŁo fez menção de atacar. Mas seria tolice achar que ele havia ativado a RelĂquia apenas para matar Caelum.
â Se humilhar?! Do que vocĂȘ tĂĄ falando, seu maluco?!
O que ele queria dizer com isso? Como podia estar tĂŁo calmo depois de praticamente convidar o fim do mundo? Caelum simplesmente nĂŁo conseguia compreendĂȘ-lo. Krahi era forte, mas no fim das contas, era sĂł um homem de coragem. Esse cara⊠era outra histĂłria.
â M-Mas acho que vocĂȘ tambĂ©m tem um pouco de culpa nisso â disse o Mil Truques. â Olha, nĂŁo tenho nada contra vocĂȘs, entĂŁo vamos com calma…
Por quĂȘ?! Por que ele nĂŁo parava a RelĂquia, entĂŁo?! O mundo inteiro podia estar em jogo! Se nĂŁo o mundo, pelo menos todas as naçÔes daquela regiĂŁo. As linhas ley haviam mudado muito ao longo do tempo, entĂŁo nĂŁo dava pra saber atĂ© onde os danos se espalhariam, mas havia potencial para milhĂ”es de vĂtimas â ou mais.
Os Grieving Souls eram conhecidos por sua intensidade, mas isso não explicava essa insanidade. Aquele homem era um lorde entre os demÎnios, disposto a apagar a Fox, seus aliados e toda a civilização. A expressão vazia e simples dele agora aterrorizava Caelum.
O Mil Truques olhou para a espada, para as prĂłprias mĂŁos, depois para Caelum. Parecia levemente surpreso.
â Foi mal por tudo isso aĂ â disse ele.
Os Grieving Souls jĂĄ haviam superado uma porção de situaçÔes desesperadoras. Ăs vezes enfrentando monstros, outras vezes fantasmas, Ă s vezes humanos, e Ă s vezes sĂł as prĂłprias circunstĂąncias em que se encontravam. Seu bem mais precioso ao longo de tudo isso sempre foi o bom senso.
Quando a poeira baixou, Sitri avaliou a situação e se pÎs de pé num salto.
â O Mil Truques tĂĄ contendo a RelĂquia! â gritou. â Por favor, ajudem ele! Estamos correndo um perigo enorme! ENORME!
â EntĂŁo mexam a bunda! â completou Liz com a voz estridente. â NĂŁo vamos deixar o BebĂȘ Krai segurar essa sozinho, cacete!
Despertados de volta à realidade, os Magos dos Primeiros Passos começaram a agir.
â Pelo amor de Deus, irmĂŁo! â resmungou um certo mago.
Um som de ranger ecoou na arena que, supostamente, era reforçada. As ondas de choque pulsavam como um coração batendo â como se uma grande besta estivesse prestes a acordar. Qualquer um conseguia ver que as coisas nĂŁo estavam boas. Com o Inferno Abissal liderando a investida, os Magos começaram a agir â mas teriam que aproveitar cada segundo que ainda restava.
âO Mil Truques estĂĄ segurando a Fox! âgritou Sitri, enfatizando cada palavra. Seus olhos rosados vasculhavam a arena, atĂ© se fixarem no homem mascarado e no lĂder, ambos segurando a espada.
Antes que a nuvem de poeira surgisse, o mascarado estava com a RelĂquia em mĂŁos, o que dava a impressĂŁo de que ele a havia ativado. Mas Sitri percebia que nĂŁo era o caso. Ativar uma RelĂquia tĂŁo poderosa na frente de tanta gente era arriscado demais, e a Raposa Sombria de Nove Caudas nĂŁo tinha motivo algum para usĂĄ-la ali. AlĂ©m disso, mesmo Ă quela distĂąncia, era possĂvel perceber que Krai parecia ter o controle mais firme da espada.
Sitri pegou todas as poçÔes de mana que tinha e as colocou sobre uma cadeira. O cabelo de Lucia flutuava levemente, resultado do poder imenso que ela estava invocando. Com as mãos pressionadas no chão, uma enxurrada de mana desceu para o solo e começou a enfrentar as ondas de destruição.
Era uma corrida contra o tempo, e nenhum dos lados parecia entender totalmente o que estava acontecendo. Venceria quem conseguisse direcionar o fluxo da situação â e a Fox nĂŁo podia sair impune com seus planos!
âVou distribuir essas! âanunciou Sitri.
âVai nessa ârespondeu a irmĂŁ.
âAh! Eu vou tambĂ©m! ârugiu Luke.
âĂ, Luke, melhor vocĂȘ ficar aqui e conter a destruição âdisse Liz, segurando Luke pelo braço. Aquilo era uma simples questĂŁo de dividir funçÔes. Luke podia quebrar quase qualquer defesa, mas nĂŁo era exatamente Ăștil numa situação como aquela (Sitri duvidava que a espada dele fosse Ăștil diante daquela energia pulsante).
Lucia, Ansem e os outros Magos do clã faziam de tudo para conter a destruição. Se alguém estivesse prestes a atingir o limite, Liz provavelmente enfiaria uma poção de mana goela abaixo.
Com o chĂŁo tremendo, Sitri se virou e correu pelas arquibancadas, gritando o tempo todo:
âIsso Ă© uma emergĂȘncia, pessoal! O Mil Truques estĂĄ impedindo a Fox! Ajudem ele ou estaremos em grande perigo!
De joelhos, ouvi os estrondos e gritos ao redor. Segurava a Chave da Terra, que ainda brilhava e emanava um poder muito maior do que qualquer outra RelĂquia que jĂĄ usei. Sua força era evidente atĂ© mesmo pros meus sentidos embotados â e provavelmente pra qualquer um por perto.
Eu tinha falhado. NĂŁo era meu primeiro erro, mas nunca antes tinha ativado uma RelĂquia tĂŁo perigosa. Diante de mim, o presidente do clube tambĂ©m segurava o cabo. A mĂĄscara impedia que eu visse os olhos dele, mas os dentes cerrados diziam que ele estava no limite.
Respirei fundo e falei:
âCalma, calma, vamos nos acalmar. Ă isso que a gente faz nessas horas. Primeiro, vamos avaliar a situação.
Levantei o olhar e vi que o coliseu inteiro tremia violentamente. Eu nĂŁo conseguia sentir, mas dava pra perceber sĂł de olhar que a coisa estava feia. Pra piorar, a energia que pulsava da Chave da Terra nĂŁo parecia diminuir.
O que eu faço? Qual seria a melhor escolha? Nesse ritmo, algo terrĂvel podia acontecer com Kreat. Poxa. Foi por isso que eu disse que nĂŁo deviam me dar essa RelĂquia.
âVai ver essa aqui tambĂ©m vira tofu frito âsugeri.
O presidente do clube soltou um grunhido, quase um rosnado.
âEi, tĂŽ falando sĂ©rio âdisse, agarrando minha Ășltima esperança. âComo foi que vocĂȘ transformou a outra em tofu frito?
O som que ele fez parecia ter vindo direto do inferno. Acho que ele nem tinha mais forças pra falar.
Hmm.
Se fossem a mesma RelĂquia, entĂŁo essa tambĂ©m devia poder virar tofu frito. Queria soltar as mĂŁos e testar umas coisas, mas elas estavam coladas na RelĂquia. E com as mĂŁos do presidente do clube sobre as minhas, nem levantar eu conseguia. Nada estava indo do meu jeito.
TĂĄ vendo isso, Vossa Majestade Imperial? Isso Ă© o que chamam de azar.
Lutei contra a vontade de chorar e fiz uma sugestĂŁo hesitante:
âDesculpa mesmo por isso tudo, mas serĂĄ que dĂĄ pra vocĂȘ sair daĂ? Quero tentar umas coisas.
âO quĂȘ?!
Eu nĂŁo fazia ideia do motivo de estar bem, enquanto o presidente do clube parecia estar sofrendo horrores. Mas parecia que ele nĂŁo ia sair do caminho. Ainda assim, apesar de tudo, eu era NĂvel 8. Tinha que fazer alguma coisa.
Minha experiĂȘncia com RelĂquias era vasta. Era a Ășnica coisa em que eu superava meus amigos de infĂąncia. Tinha certeza de que podia fazer algo pra conter aquilo. Escolhi acreditar em mim mesmo â e confiar nas horas que passei lidando com RelĂquias. Fechei os olhos e me concentrei, focando totalmente na espada.
Foi entĂŁo que senti algo quente no rosto. Abri os olhos de repente e vi o presidente do clube cuspindo sangue. O cheiro de ferrugem invadiu meu nariz. Eu aguentava bem cheiros ruins, mas o jato virou um rio, e o sangue explodiu da boca dele. Ainda preso Ă RelĂquia, nĂŁo tinha como me esquivar.
âAck! Augh!
âHm?
O presidente do clube ergueu lentamente a mĂŁo esquerda â a que nĂŁo segurava a espada â e a colocou sobre o punho. Foi aĂ que percebi que as luzes estavam com um brilho avermelhado, e o fluxo de energia pro solo tinha aumentado em comparação a antes.
Hm? NĂŁo⊠espera. Eu tĂŽ tentando conter isso…
Tentei conter a RelĂquia, mas a luz sĂł ficou mais intensa, e as vibraçÔes, mais fortes. Pessoas eram arremessadas, gritos e berros vinham de todo lado.
Oh? Vai ver eu nĂŁo consigo conter isso…
Aquilo parecia mesmo ser diferente de qualquer outro item que jĂĄ tivesse usado. O presidente do clube estava prestes a desmaiar. Nem força pra ficar bravo comigo ele tinha mais, mas mesmo assim, continuava segurando a RelĂquia. Ele queria tanto assim essa espada?
Espera… talvez seja culpa dele eu nĂŁo conseguir controlar isso?
Desde o inĂcio, ele queria usar a Chave da Terra. A versĂŁo dele virou tofu frito sem explicação, mas isso nĂŁo quer dizer que ele nĂŁo quisesse usar a minha. Isso explicaria por que nĂŁo consegui parar o fluxo de energia.
Felizmente, o presidente do clube parecia estar chegando ao seu limite. Ele queria usar a espada, eu queria parĂĄ-la, e nenhum de nĂłs ia receber ajuda de fora. Me preparei.
â Uma disputa de força bruta, Ă© isso? EntĂŁo me mostra do que Ă© capaz â eu disse.
O presidente do clube ficou confuso quando comecei a rugir. Apertei a espada com toda a minha força e tentei conter o dilĂșvio. A RelĂquia brilhava como o sol, os tremores aumentaram, rachaduras surgiram no chĂŁo, o presidente do clube tossiu mais sangue. Parecia um mural do inferno.
A luz ofuscante me fez apertar os olhos. Eu não tinha mais Anéis de Segurança, então estava completamente desprotegido. Só me restava a determinação de não perder. Se fugir não era uma opção, tudo que eu podia fazer era seguir em frente.
A arena estava cheia dos membros do meu clĂŁ. Depois de aprender tanto com o Matadinho e fazer a Tino me acompanhar em tantas idas Ă s compras, eu nĂŁo teria cara de aparecer na frente deles se nĂŁo conseguisse controlar isso.
â Para. Com. Isso â rosnei.
â Que força… â disse ele, com a voz tomada pela dor.
O fluxo de energia nĂŁo diminuĂa nem um pouco. Achei que tivesse atingido o pico, mas ele continuava crescendo. Era difĂcil acreditar que uma espadinha fosse capaz daquilo. Jamais imaginei que o Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa tivesse alguĂ©m melhor do que eu em controlar RelĂquias. Eles eram mesmo um grupo de respeito. Eu achava que era o nĂșmero um quando o assunto era brincar comâ digo, lidar com RelĂquias… mas o mundo Ă© grande, e sempre tem alguĂ©m acima.
Mais uma vez, o presidente do clube cuspiu sangue. Sério, ele devia desistir disso e procurar ajuda. Se fosse comigo, jå teria morrido com tanto sangue perdido.
VocĂȘ tĂĄ mesmo tĂŁo desesperado pra usar isso?! Quem diabos Ă© vocĂȘ?!
Reuni toda a força que pude. EntĂŁo ouvi um estalo vindo de onde minhas mĂŁos estavam. Abri os olhos. Um breve silĂȘncio pairou, e entĂŁo a Chave da Terra se despedaçou em mil pedacinhos.
O fim chegou de forma bem repentina. Os tremores que pareciam partir o mundo pararam quase que instantaneamente. A arena estava em ruĂnas. Rachaduras pelo chĂŁo e pelas paredes. Partes do teto desabaram. Escombros por toda parte. Mas Rodrick ignorou tudo isso.
â A chave se quebrou! Prendam esse homem! â gritou ele.
Seus guardas obedeceram imediatamente e correram para dentro do ringue. Rodrick nĂŁo esperava que a espada fosse se desintegrar. RelĂquias costumavam ser resistentes, e a Chave da Terra nĂŁo devia ser exceção. Diziam que ela podia desviar golpes de espadĂ”es e sair sem nem um arranhĂŁo. Se ela se partiu, entĂŁo esse foi o preço pelo poder brutal que acabou de liberar. Ainda assim, aquilo era uma boa notĂcia para o impĂ©rio â e para o mundo todo.
Graças Ă habilidade da Chave da Terra de funcionar como elemento dissuasor, o impĂ©rio nunca teve a chance de destruĂ-la. Mas se a Raposa queria tanto assim, a ponto de usar a RelĂquia desse jeito, entĂŁo a destruição dela era essencial. Diante das circunstĂąncias, o imperador teria que aceitar a perda.
O homem de mĂĄscara se levantou cambaleando. O sangue escorrendo da boca deixava claro o quĂŁo ferido ele estava. NĂŁo dava pra saber exatamente o que o machucou, mas com certeza houve uma luta em torno da RelĂquia.
Logo depois, o Mil Truques tentou se levantar. Bambeou e caiu de joelhos. Devia estar no limite. Segurando o peito, o homem de mĂĄscara olhou para ele. O plano da Raposa falhou. A destruição foi contida, e a Chave da Terra nĂŁo existia mais. Ele devia entender bem o quĂŁo ferrado estava agora. Isso, somado Ă s feridas, tornava ainda mais assustadora a insistĂȘncia dele.
No entanto, o Mil Truques nĂŁo estava sozinho. Por pura sorte, as arquibancadas estavam cheias de gente talentosa. Graças a eles, o estrago nĂŁo foi pior. Diziam que os melhores da Raposa eram tĂŁo fortes quanto caçadores de alto nĂvel, mas aquele ali estava exausto, e seu plano tinha ido por ĂĄgua abaixo. Rodrick nĂŁo ia perder um campeĂŁo â ia garantir que o bravo caçador fosse salvo.
Rodrick respirou fundo e, mais uma vez, bradou com toda a intensidade que conseguiu reunir:
â Capturem essa Raposa, custe o que custar! Eu realizarei o desejo de quem trouxer ele atĂ© mim!
Quando Caelum Tail percebeu o quĂŁo enrascado estava, jĂĄ era tarde demais. A Chave da Terra tinha sido contida de algum jeito, mas isso era o Ășnico alĂvio que restava pra ele. Estava tonto de tanto sangrar, mas ainda conseguia avaliar a situação com clareza.
Sentia o corpo pesado. Os ferimentos eram profundos. Aquela dor e humilhação eram sensaçÔes que ele jå não conhecia fazia tempo. Tudo soava distante, como se estivesse ouvindo os gritos e o alvoroço através de um filtro. Ele sabia que devia ficar alerta, mas jå não tinha mais energia pra isso.
Pouco depois que Caelum se levantou, o Mil Truques tambĂ©m conseguiu ficar de pĂ©. Finalmente, Caelum começava a entender a grandiosidade dos planos daquele homem. O Mil Truques se levantou… e entĂŁo caiu de joelhos. Foi um movimento tĂŁo sincero, tĂŁo natural, que Caelum nĂŁo conseguiu se segurar.
â Heh heh heh. HA HA HA!
Aquele jovem era aterrorizante. De verdade, alguĂ©m que inspirava medo. ExpressĂ”es como âartifĂcio sobre-humanoâ ou qualquer frase batida assim nĂŁo eram o suficiente pra descrever. Aquele homem estava brincando com fogo infernal. As chances de sucesso eram mĂnimas, e o menor erro poderia fazer com que fosse acusado de traição. Podia atĂ© causar o fim do mundo.
Era o tipo de plano que devia ser rejeitado, independente de quem o tivesse elaborado. Isso se aplicava atĂ© mesmo Ă Sombra Sufocada de Nove Caudas â e qualquer pessoa normal nem imaginaria uma jogada dessas em primeiro lugar. Ă bem provĂĄvel que os companheiros de Caelum nem acreditassem se ele contasse.
Aquele homem nĂŁo era sĂł um estrategista. Era um lunĂĄtico.
Caelum estava encurralado. A Chave da Terra havia se despedaçado e nĂŁo existia nenhum substituto. A operação havia fracassado e acreditava-se que Fox estava por trĂĄs da ativação da RelĂquia. Eles haviam planejado mostrar apenas um fragmento do poder dela e usar isso como moeda de troca para pressionar as naçÔes do mundo.
O que tinha acabado de acontecer, no entanto, nĂŁo era um simples ato de intimidação. Se aquele homem nĂŁo hesitou em usar uma ferramenta com poder apocalĂptico, Ă© porque estava mais do que disposto a morrer se isso significasse arrastar seus inimigos com ele.
Sem dĂșvida, isso mudaria a forma como os aliados do Mil Truques o enxergavam. Eles nĂŁo conseguiriam mais olhar para ele da mesma forma. Ele havia atĂ© jogado fora o Ășnico meio de dissuasĂŁo que tinham!
Mas havia algo que Caelum nĂŁo conseguia entender â de onde o Mil Truques tinha tirado aquela informação?
â Como?! Como diabos vocĂȘ descobriu isso?! â ele gritou.
â Urgk. Acho que vou vomitar â murmurou o caçador. NĂŁo dava pra saber se aquilo era uma piada ou nĂŁo.
Os escritos que haviam informado Fox sobre a Chave da Terra nĂŁo mencionavam nada sobre ela se autodestruir quando sobrecarregada. NĂŁo existia nenhum registro da RelĂquia sendo usada em plena capacidade. Pelo que constava, os registros encontrados por Fox sugeriam que ela nunca havia sido usada, o que implicava que nĂŁo havia como saber o limite mĂĄximo da RelĂquia.
O timing tambĂ©m tinha sido perfeito. Caelum estava com apenas uma fração do seu poder quando a RelĂquia se quebrou. Onde aquele homem conseguiu uma informação que nem mesmo a rede de Fox conseguiu alcançar?
Infelizmente, Caelum nĂŁo tinha tempo para especular; ele estava em territĂłrio inimigo e gravemente ferido â nada disso fazia parte do plano. Ele precisava sair dali de qualquer jeito, mas havia algo que queria resolver primeiro.
Logo quando ia dar um passo em direção ao Mil Truques, uma sombra caiu sobre ele.
â VOCĂ VAI TER QUE PASSAR POR MIM PRIMEIRO, DESAFIANTE!
â Hm?!
A voz era ĂĄspera, mas cheia de audĂĄcia. Caelum deu um passo para trĂĄs para evitar o impacto iminente. A poucos centĂmetros Ă sua frente, uma cratera se formou com o soco de um punho gigante envolto em uma luva dourada. O chĂŁo tremeu, rachaduras se espalharam.
Caelum clicou a lĂngua ao ver quem era o intrometido â o antigo Guerreiro Supremo. Um homem que dedicou cada grama de seu mana material para fortalecer os mĂșsculos. Quando elaborou o plano original, esse era o homem que mais preocupava Caelum. Um exemplo perfeito do que acontece quando se junta talento com burrice.
â Supremo Forçudo… â murmurou Caelum.
O antigo Guerreiro Supremo respondeu com um passo firme e decidido. Criaturas feridas Ă s vezes conseguem forças inesperadas, mas isso nĂŁo o intimidava nem um pouco. Provavelmente, ele apenas seguia seus instintos â o que o levava por um caminho violento e destrutivo, onde nem a derrota nem a prĂłpria morte conseguiam detĂȘ-lo.
O Mil Truques teria que recuar. Por melhores que fossem suas habilidades, ele nĂŁo tinha como enfrentar aquele brutamontes em seu estado atual. VĂĄrios caçadores pularam na arena. Vendo Caelum recuar, o Guerreiro Supremo deu um sorriso demonĂaco e lançou um soco. Ele nĂŁo tinha sua arma habitual, mas um golpe seu era o suficiente para derrubar qualquer caçador de alto nĂvel.
â Acha que pode fugir?! â ele gritou.
Reunindo o pouco de mana que lhe restava e se movendo o mĂnimo possĂvel, Caelum desviou de um soco movido por puro instinto. Normalmente, mesmo uma rajada de golpes nĂŁo representaria ameaça para ele, mas naquele estado nĂŁo conseguia nem se defender. Outro sinal da escassez de mana era a dor aguda que sentia na cabeça. NĂŁo conseguia nem manter o equilĂbrio.
O Guerreiro Supremo começou a desferir socos menores, talvez tentando desgastar a energia de Caelum. O Fox avançou, entĂŁo saltou no ar e se deixou levar por um golpe “leve”. Mesmo com suas defesas mĂĄgicas, sentiu um impacto que quase o despedaçou por dentro. Mas era exatamente isso que ele queria. A falta de raciocĂnio do Supremo era sua força, mas tambĂ©m poderia ser sua fraqueza.
Caelum caiu de pĂ©, com as mĂŁos no chĂŁo. Os olhos do brutamontes se arregalaram ao ver o que tinha acontecido. Caelum tinha sido lançado pelo ar e caĂdo exatamente na entrada reservada para os competidores. Aquela seria sua rota de fuga. Ele correu o mais rĂĄpido que conseguiu. Sua cabeça latejava, sangue escorria dos lĂĄbios, e atrĂĄs dele podia ouvir os passos trovejantes do brutamontes e os gritos da plateia.
EntĂŁo, o ar ao seu redor mudou, e todos os sons atrĂĄs dele desapareceram. Uma garota com uma mĂĄscara parecida com a dele apareceu diante de seus olhos â como se sempre tivesse estado ali. Ela usava um manto branco, imaculado, e de suas costas saĂa um rabo da mesma cor. Seu pequeno dedo indicador estava apontado para Caelum.
â VocĂȘ Ă© inimigo do Senhor Cautela â disse ela, deixando Caelum totalmente confuso. â Vou te ajudar a escapar. Da prĂłxima vez, a vitĂłria serĂĄ minha!
Tradução: Carpeado
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