Grieving Soul – Capítulo 4 – Volume 7
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire
Light Novel Online – Volume 07 – Capítulo 04:
[O Verdadeiro Chefão]
— Hmmm. Não era bem o que eu estava esperando — disse Luke, mexendo distraidamente na Chave da Terra. — A princesa pode até estar de boa com isso, mas de que adianta um criminoso se eu não posso cortá-lo?
— Pois é. Tipo, tô empolgada, mas acho que não vai ser nada desafiador pra gente.
—O-O que vocês planejam me mandar fazer?
Luke estava entediado, Liz com dor de estômago, e a Princesa Murina era a mesma de sempre. Cada um reagindo de um jeito único, mas ninguém parecia exatamente animado.
— Ah. É, né — comentei.
Olhando o jornal, parecia que os crimes em Kreat estavam diminuindo. Eu acreditava que tudo estava bem quando terminava bem, mas ainda assim me perguntava por que estavam ocorrendo menos incidentes, mesmo sem meus amigos terem feito nada. Meu plano era que isso servisse tanto como alívio de estresse quanto como ataque preventivo pra assustar qualquer fora da lei. Estaria alguma força estranha envolvida?
Meus pensamentos foram interrompidos por Sitri, que entrou com uma bandeja carregando um conjunto de chá.
— Krai, trouxe um bolinho delicioso!
Diferente dos outros três, Sitri estava anormalmente animada. Era normal ela sorrir, mas o brilho nos olhos dela estava diferente. Como amiga de infância, eu percebia fácil que ela estava sentindo algo forte demais pra esconder.
— Aconteceu algo bom? — perguntei.
— Ah, imagina só—toma, deixa eu te servir um chá.
Minha querida amiga se apressou em me servir uma xícara. Tinha alguma coisa rolando, com certeza. Ela sempre foi gentil, mas não era comum ela me trazer bolo. Na real, ela só recorria a isso quando havia algo de errado. Era tipo um sinal.
Ela rapidamente arrumou o conjunto de chá, esqueceu de abrir a caixa do bolo e deu a volta, parando atrás de mim. Suas mãos frias roçaram a base do meu pescoço e eu percebi que ela não estava usando seu robe habitual.
— Deixa eu massagear seus ombros — disse ela.
Mas em vez disso, ela passou os braços ao meu redor e se encostou em mim. Com o corpo pressionado nas minhas costas, eu sentia as batidas do coração dela.
— Krai, quer que eu te empreste um dinheirinho? — ela sussurrou no meu ouvido.
Eu congelei.
— Na verdade — continuou ela, indo direto ao ponto — eu quero isso. Você vai me dar, não vai? Eu confio em você.
Eu estava disposto a dar qualquer coisa pra ela, mas fiquei com medo. Medo porque eu não fazia ideia do que ela estava falando. Sitri acariciava meu corpo com leveza e encostou os lábios na parte de trás da minha orelha. Um arrepio de prazer e terror percorreu meu corpo.
— Quando você conseguiu isso? Como conseguiu? Foi pra mim, né?
— Do que você tá falando?
— Aquilo. Eu vou cuidar direitinho, prometo. Então, por favor. Anda, Krai — disse ela, soltando um pigarro.
Lá no fundo, Sitri era uma pessoa tímida, então eu fiquei sem palavras com o quanto ela estava se esforçando. E fiquei apavorado porque eu realmente não sabia do que ela estava falando. O que eu tinha conseguido recentemente? O que eu poderia ter que nem mesmo a Sitri, com toda sua grana, podia conseguir?
— Larga ele, Yuttri! Tempo! — gritou uma voz aguda.
Liz então arremessou um vaso de flores, acertando a cabeça da irmã em cheio. Enquanto ela recuava, Ansem, que tinha se aproximado por trás, a ergueu pela nuca.
Aliás, quem é Yuttri? Alguma coisa a ver com a árvore si e a árvore ku?
— Nãããão, me solta! — ela se debatia, gritando. — Eu vou me casar com o Krai!
Ela regrediu pra uma criança. Tá bom, eu te dou. O que você quiser, só fica calma, por favor.
— Se a Lucy estivesse aqui, a gente podia transformar ela em pedra — suspirou Liz.
Ansem resmungou em concordância.
— Anssy, joga ela fora. Como se fosse um lixo. Ela vai surtar se não esfriar a cabeça.
Resmungando, Ansem abriu a janela e jogou a irmã mais nova pra fora. Os gritos dela foram se afastando conforme ela caía.
Eles sabem que a gente tá no quarto andar, né? Bom, acho que não é nada pra um caçador. Mas o que deu na Sitri?
— Não dá, Krai! Eu continuo tentando, mas não consigo carregar isso! — gritou Luke, frustrado.
O sol já tinha se posto fazia tempo. Sitri tinha recuperado um pouco da sanidade (apesar de ainda me lançar olhares carentes). Finalmente eu tinha conseguido um momento de paz, mas não conseguia parar de pensar em como meus amigos eram bagunceiros.
Luke segurava diante de mim a Chave da Terra, a Relíquia que eu tinha emprestado pra ele. Luke era um Espadachim puro, mas isso não significava que ele não tinha mana. Ele já tinha testado praticamente toda Relíquia em forma de espada da minha coleção. Diferente de mim, ele não contava com a Lúcia pra carregar as Relíquias, então tinha mana o suficiente pra encher a maioria das espadas. E se não tivesse, treinava até conseguir. Esse era o Luke Sykol.
Não era comum esse fanático por espadas desistir tão fácil. A Relíquia devia exigir uma quantidade absurda se nem assim tinha dado sinal de estar cheia. Peguei a espada das mãos dele e a puxei parcialmente da bainha.
— Chave da Terra. Chave da Terra…? — murmurei.
A lâmina enigmática era reta como uma régua e cheia de padrões. Que tipo de poder ela teria pra exigir tanta mana a ponto do Luke desistir? O jornal não dizia nada sobre suas habilidades, mas os nomes podiam dizer muita coisa.
Com um grunhido, Luke fechou o punho e proclamou em voz alta:
— Se eu não consigo usar essa espada direito, então eu preciso de mais treino! Mas eu não tenho ninguém pra cortar!
Lá vai ele, falando besteira de novo.
— Você não consegue usar porque isso não é uma espada — falei, tentando parecer descolado. — É uma chave.
Endireitei a postura e encarei Luke nos olhos. Me fiz de sério e mandei uma baita lorota.
— Luke, sabe o que toda chave precisa? A resposta é mais simples do que parece.
Como um espadachim de altíssimo nível, Luke me superava em praticamente tudo… menos em bom senso. Mas num ponto eu ainda tinha vantagem: conhecimento sobre Relíquias.
Luke pensou por um instante e respondeu, hesitante:
— Então a gente precisa de uma fechadura?
Eu tava torcendo pra ele deixar eu dizer isso… Tentando esconder meu desapontamento, suspirei e disse:
— Exatamente. Em outras palavras, isso é uma chave. Uma chave para o futuro! Coisas ruins vão acontecer se as garras do mal botarem as mãos nisso.
— O-O quê?! Garras do mal?! Quais garras do mal?!
— Isso é… tipo, sabe? Certo, são os inimigos do mundo.
—Os inimigos do mundo?! Onde eles estão? Posso cortá-los?!
Por que você tá tão empolgado? Eu só tô inventando coisa. Coisas que achei que você ia curtir.
Lucia levantou os olhos do livro, parecendo completamente de saco cheio.
Eu tinha exagerado nas histórias, e o Luke tava acreditando em tudo. Não sabia nem como responder à pergunta dele.
—É tipo, sabe — falei depois de uma pausa —, desastres naturais e tal.
—Desastres. Naturais. — repetiu Luke, desconfiado.
—Mas até isso pode ser cortado pelos melhores Espadachins! — exclamei.
Luke ficou oscilando entre choque e decepção, claramente ocupado com seus próprios sentimentos.
Eu tinha conseguido a Relíquia por causa de um mal-entendido, então o certo seria devolvê-la antes de voltar pra casa. Mas já que eu estava com ela, seria um desperdício não testá-la pelo menos uma vez antes de devolver. Eu não tinha mais nada pra fazer até o Festival do Guerreiro Supremo começar. Soltei um bocejo e coloquei a Chave da Terra na frente da Lucia.
As Raposas Brancas. As chefonas. Desde que conseguia se lembrar, Sora havia sido ensinada sobre essas figuras infernais. Nas aulas, nas orações diárias, até nas canções de ninar que ouvia quando era criança, ela aprendeu sobre a sabedoria, sorte, carisma e prudência das Raposas Brancas. Além dessas qualidades nobres, também lhe ensinaram que as Raposas Brancas eram tão cruéis quanto os próprios deuses.
Nascida da antiga agência de inteligência de uma nação extinta, a organização cresceu geração após geração graças às habilidades diversas das chefes. Elas lutaram, conquistaram, firmaram alianças e lentamente fincaram os dentes em todas as nações possíveis.
As máscaras de raposa eram apenas símbolos. As Donzelas, que adoravam os deuses raposas, reverenciavam a primeira máscara conquistada pela chefona. Um símbolo unificador era necessário para consolidar a fundação da organização, e agora que tinham um, a Raposa Sombria de Nove Caudas estava completamente formada.
A máscara branca era prova do status de chefia. A herdeira da máscara era escolhida pela força, não por linhagem, garantindo competição constante e acirrada. Assim, quem estivesse no topo era, sem dúvida, a mais forte da organização. Com os recursos, influência e tecnologia da Raposa, nem mesmo um caçador de alto nível podia se opor à chefona.
E essa mesma criatura agora estava ordenando que Sora fizesse tofu frito.
—Rápido. Faça mais.
—S-Sim, chefona…
Sora não entendia por que estava fazendo aquilo. “Confusão” já não era suficiente pra descrever o estado mental dela. Era uma surpresa atrás da outra. Se ela já tinha ficado surpresa ao descobrir que a chefona falsa e a verdadeira se conheciam, também ficou surpresa ao saber que ambas queriam a mesma coisa dela.
Quem era amigo? Quem era inimigo? O que era certo? O que Sora deveria fazer?
A chefona tinha aparência de uma garotinha. Por algum tipo de providência, ela emanava uma aura calorosa enquanto observava Sora na frigideira. Sora focou no trabalho, colocando mais uma fatia de tofu no óleo. O coração dela batia tão forte que parecia que ia explodir. Tinha certeza de que, se parasse de mexer as mãos, seria morta. Não fazia sentido nenhum, mas era isso que o olhar intenso da chefona dizia.
Pensando bem, a Raposa Falsa era bem mais tranquila. Ele dava ordens, mas nunca forçava ou ameaçava. A raposa verdadeira era bem diferente. Um após o outro, os blocos de tofu frito sumiam na boca da verdadeira chefona. Sora não aguentava mais.
A Raposa Branca lambeu o prato com delicadeza antes de fuzilar Sora com o olhar e dizer:
—Desse jeito não vamos conseguir dominar o mundo. Mais um.
Oh, Raposa Falsa, por favor volte!
As duas raposas davam exatamente a mesma ordem, mas essa Raposa Branca era inegavelmente a verdadeira.
—C-C-Com licença, mas como tofu frito vai permitir que a gente—
—O Sr. Cautela já devia ter te explicado. Vamos fazer bentôs de inarizushi.
—V-Vocês tão brincando, né?
—Rápido. Mais tofu. Se não fizer, pode acabar sendo frita.
A voz dela deixava claro que não estava brincando.
Era impossível. Sora não aguentaria muito mais. Não sabia nem a quem culpar. Além disso, conquistar o mundo com marmitas era impossível! E essas marmitas nunca iam ficar prontas se essa garota continuasse comendo cada pedaço pronto!
Do nada, a Raposa Branca conjurou um sofá e se jogou nele, balançando as pernas enquanto mexia no smartphone. Não parecia nem um pouco motivada.
—Rápido — disse a Raposa Branca. — Não olhe. Trabalhe.
—Hm. Chefona, a senhora não veio pra Kreat ajudar na operação?
Sora não sabia muito sobre a operação atual, mas se alguém tão ocupada estava vindo até ali, devia ser algo excepcional. Não devia ter tempo pra vender… quer dizer, fazer tofu frito.
—Isso não importa — respondeu a chefona. — Agora, cozinhe.
—O resultado dessa operação pode mudar os rumos da nossa organização! — protestou Sora.
—Hmm. Esse bloco aí. Oitenta e três pontos.
Sora estava perdida. Essa aqui era ainda mais obtusa que a Raposa Falsa. Sora até admitia que a Raposa Branca era uma pessoa impressionante. Mas como ela tinha levado a Raposa a tamanha grandiosidade? Qual era o propósito do tofu frito? Por que uma sacerdotisa tinha que cozinhar? Era algum tipo de punição? Ela ia passar o resto da vida na frigideira porque foi enganada a fazer tofu frito?
O inferno existia e Sora estava nele. Se iam executá-la, era melhor fazer isso logo de uma vez. Enquanto esses pensamentos passavam pela mente dela, a porta se escancarou, e entrou a fonte de todos os seus problemas. Ele não estava usando a máscara, então nem dava pra chamá-lo de raposa… mas isso já não importava.
—Oh, Raposa Falsa, esperei tanto pelo seu retorno!
—Sério?! O que foi?
Ela já não ligava mais. Estava tudo bem com a Raposa Falsa. Não queria mais nada com aquela maníaca do tofu frito. Que tipo de Donzela podia se orgulhar de si mesma cheirando a óleo? Ela correu até a Raposa Falsa, que a olhou, meio abobalhado.
Pela primeira vez, Sora sentiu um fio de respeito pela Raposa Falsa. Num duelo verbal entre a verdadeira Raposa de gelar a alma e a Raposa Falsa de cabeça vazia, a verdadeira foi derrotada com uma única resposta:
—Sr. Cautela, você deve não ter senso nenhum de cautela se ousa me enfrentar — disse a Raposa Verdadeira.
—Você não tem dó de fazer a Sora trabalhar tanto assim?! — rebateu a Raposa Falsa. — Se quer tanto tofu frito, faça você mesma!
FOI VOCÊ quem me fez fritar tofu no começo!
A Raposa Branca se encolheu. Então bateu palmas e empurrou Sora pra fora do caminho pra pegar os ingredientes. Agarrou um pedaço de tofu e começou a fritar.

Sora não tinha notado antes, mas havia uma cauda fina saindo da parte inferior das costas da Raposa Branca. Ela não se lembrava de ter visto aquilo antes — seria mais uma prova de que essa era a verdadeira Raposa Branca? Ao observar aquela cauda balançando de um lado para o outro, ela sentiu um cansaço absurdo.
A Raposa Falsa entrou na cozinha, enxugou a testa e disse com aquele sorrisinho desajeitado de sempre:
— Pronto, problema resolvido. Muito bem.
— Quem é você, afinal? — perguntou Sora.
— Ela ficava me mandando pensamentos sobre o tofu como se fosse alguma crítica gastronômica, acredita?
Então era por isso que a Raposa Branca ficava pegando o celular toda hora? Ela estava se comunicando com a Raposa Falsa?!
Eles são amigos mesmo?! Como isso aconteceu?!
— Então, quando é que você vai voltar pra casa? — perguntou a Raposa Falsa.
— Quando eu me entediar — ela respondeu.
Não é quando a operação terminar?!
Sora não fazia ideia de como ia explicar isso pro Galf. No instante seguinte, a Pedra de Comunicação no seu bolso começou a vibrar. Era uma linha de emergência exclusiva para as Donzelas Sagradas da Raposa, e o uso dela foi uma das coisas que ela aprendeu no templo principal. Alguém devia estar preocupado com ela.
Ela tinha esquecido completamente que estava carregando aquela pedra. Nada no treinamento preparou ela pra uma bagunça como essa. Mas ela não ia falhar de novo — dessa vez, colocaria suas habilidades em prática. Olhou para a Raposa Branca. A verdadeira e a falsa estavam lado a lado, fritando tofu juntas.
— Então quando é que você virou a chefe delas? — perguntou a Raposa Falsa, dando de ombros.
— Isso aqui tá ruim — foi tudo o que a Raposa Branca disse enquanto limpava o prato.
Sora se esgueirou até um canto e ativou a Pedra de Comunicação. Ia relatar a situação para o templo principal. Normalmente, compartilhar esse tipo de informação seria contra o protocolo, mas as Donzelas podiam falar livremente entre si.
— Hm? Mais uma vez? De novo, a falsa chefe, que eu tinha certeza que era a verdadeira por causa da máscara legítima, parece ser amiga da verdadeira chefe, que eu achava que podia ser a falsa, e pra piorar, elas planejam vender bentôs de inarizushi pelo país inteiro! Isso faz sentido pra você? Pois pra mim não! Pergunta pra chefe então! Céus!
Sora parecia à beira de um colapso, então suas instrutoras tentaram acalmá-la.
— Sora, mantenha a calma. A Raposa Branca deve estar a caminho da sua posição.
— Eu disse que ela já chegou! Apareceu do nada e começou a mandar eu fritar—
— A vontade da Raposa Branca às vezes pode estar além da compreensão de pessoas comuns, mas não consigo imaginar que ela diria algo tão absurdo. O objetivo das Raposas Brancas é a destruição! Destruir o mundo para que ele renasça! Isso nunca mudou desde a nossa fundação!
Sora concordaria. Ou melhor, teria concordado. Mas agora… agora não mais. As coisas tinham mudado. Ela se virou e olhou para a Raposa Branca, que encarava intensamente a frigideira.
— Ó Raposa Branca, o que tem mais importância pra você: tofu frito ou o renascimento do mundo? — perguntou Sora.
A resposta foi breve. A Raposa Branca olhou para a jovem sacerdotisa e disse:
— Hã?
— V-Vocês ouviram isso?! — Sora disse na Pedra de Comunicação. — Como eu suspeitava, o tofu frito é prioridade. Por sua culpa, o humor da Raposa Branca foi por água abaixo!
— Calma, Sora. Respira fundo. A Raposa Branca nunca agiria assim!
— Não posso fazer isso. Essa é a vontade dos deuses. A Raposa Branca decretou que devemos unificar o mundo através do tofu frito!
A voz de Sora estava falhando. Por que a antiga instrutora não conseguia entender?
— Acalme-se, Sora — insistiu ela. — Deixe-me falar com a Raposa Branca. Eu a conheço.
— Eu não posso…
Sora não tinha coragem de pedir pra aquela figura aterradora falar na Pedra de Comunicação. A Raposa Branca olhava pra ela como se estivesse encarando lixo. Sora acreditava de verdade que, se baixasse a guarda, ia acabar sendo frita.
— O que foi? — perguntou a Raposa Falsa, percebendo que ela estava aflita.
Pelo visto, a falsa era mais simpática que a verdadeira. Sora reafirmou seu compromisso com a Raposa Falsa. A verdadeira era demais pra ela.
— Meu superior quer falar com a chefe — ela disse.
— Oh, isso é uma Pedra de Comunicação. Esses negócios são bem úteis. Mas eu tenho algo melhor — um Smartphone!
A Raposa Falsa pegou a Pedra da Sora com a maior boa vontade. Aí foi até a Raposa Branca e puxou a orelha dela. O coração de Sora quase parou ao ver alguém tratando a Raposa Branca daquele jeito.
— O que foi? — disse a Raposa Branca, lançando um olhar mortal pra Raposa Falsa. Por um momento, uma aura assassina tão intensa envolveu o ambiente que Sora quase desmaiou. Mas a Raposa Falsa continuou sorrindo. Sora já suspeitava, mas agora tinha certeza: esse homem era incapaz de sentir medo.
— Uma das suas quer falar com você — ele disse pra Raposa Branca.
Ela não respondeu.
— Vai lá, eu cuido da frigideira.
Claramente irritada, a Raposa Branca aceitou a Pedra de Comunicação.
A instrutora foi direto ao ponto.
— Ó Raposa Branca, faz tempo que não tenho o privilégio de falar com você — disse a antiga instrutora de Sora. — Pelo que ouvi, minha aluna tola tem se portado de forma nada cordial. E também tem dito umas coisas estranhas… algo sobre redimir o mundo com tofu frito.
A Raposa Branca se sentou no balcão e cruzou as pernas. A cauda dela brilhou levemente. Limpou a garganta e disse:
— Há quanto tempo, velha raposa. Você ouviu direito. Através do tofu frito, pretendemos provocar a morte e o renascimento do mundo. Essa é a vontade dos deuses raposa.
A voz dela não era nada parecida com aquela de antes, acomodada e displicente. Era a voz de um jovem. Baixa, mas poderosa — e estranhamente carismática. A Raposa Falsa olhou para ela de olhos arregalados. O olhar dele não estava nem perto da frigideira.
—Como é que é?! Ó Raposa Branca, isso está totalmente fora da linha que vínhamos seguin—
—Nem mais uma palavra. Vamos reorganizar nossa organização para que ela se torne ideal na produção de tofu frito. Quem se opuser será apagado.
—Mas as outras Raposas Brancas—ah, deixa pra lá. E-Então, o que deseja que façamos?!
A Raposa Branca olhou para a frigideira e pulou do balcão. —Frite tofu —respondeu. Ela falou com a voz normal, mas Sora não tinha certeza se sua instrutora atônita sequer tinha notado.
A Raposa Branca jogou a Pedra Sonora de volta para Sora e, com pesar, retirou uma fatia de tofu frito que havia passado do ponto.
Era isso. A organização tinha acabado. Talvez, ao menos agora, sua instrutora entendesse que Sora não era a culpada.
No fim, a Raposa Branca só parou de fritar tofu quando os ingredientes preparados pela Raposa Falsa acabaram. Vale mencionar que ela comeu cada pedacinho assim que ficava pronto, então não sobrou nada.
Enquanto Sora desejava nunca mais sentir cheiro de óleo na vida, a Raposa Branca parecia decepcionada. Ela tinha comido o suficiente para mais de uma dúzia de adultos, mas ainda não estava satisfeita. Ficava falando em conquistar o mundo com tofu frito, mas claramente só queria comer.
Incapaz de suportar o silêncio, Sora comentou: —Ó Raposa Branca, parece que você gosta bastante de tofu frito.
—Nem tanto —respondeu, incomodada.
Mas ela tinha se empanturrado daquele tofu frito todo. Aquilo devia ter mais massa que o corpo inteiro dela, mas sua barriga continuava tão chapada quanto antes. A Raposa Branca não disse mais nada. Sora não sabia o que falar, mas então não precisou.
—Se você não fritar mais tofu pra mim em dez segundos, eu vou—
—Com licença —disse Sora, interrompendo. —Como você e a Raposa Falsa—digo, o Mil Truques—se conhecem?
A Raposa Branca não respondeu de imediato.
Sora sentiu como se tivesse desviado de uma bala. Sabia que os chefes eram pessoas com quem se devia ter cuidado, mas essa aqui parecia considerar “moderação” um conceito alienígena. Enquanto tentava acalmar seu coração acelerado, a Raposa Branca abriu a boca lentamente, um brilho suave emanando de sua cauda.
—Senhor Cautela —disse ela— é um consultor. Nós o contratamos para que nossa organização possa fazer a transição para produtora de tofu frito.
Aquilo era absurdo. Para começo de conversa, não havia motivo para uma organização secreta produzir tofu frito. Será que as outras Raposas Brancas sabiam disso? E quem era esse tal de Senhor Cautela?
—Claro que os outros portadores de máscara sabem disso. ‘Senhor Cautela’ é um apelido do Mil Truques. É assim que nos referimos a ele.
Sora ficou surpresa. Era quase como se a Raposa Branca estivesse lendo sua mente.
Só a ideia de que os outros chefes sabiam desse plano já a deixava apavorada. O que estava acontecendo com essa organização? O que tinha acontecido com ela? A chefe ficava falando sobre dominar o mundo com tofu frito, mas isso não era algo que grupos como o deles faziam. Mesmo em uma estrutura de comando que exigia lealdade absoluta aos superiores, Sora não conseguia imaginar os outros membros mostrando qualquer entusiasmo por isso.
Os de cima decidiam as regras, mas talvez a chefe estivesse tentando dizer que a Fox nunca decolaria se continuasse sendo uma sociedade subterrânea? Sora talvez nem tivesse o direito de saber, mas o que diabos significava essa história de morte e renascimento do mundo via tofu frito? Essas e outras perguntas sem resposta giravam em sua cabeça.
—Sou eu quem decide as regras —disse a Raposa Branca enquanto balançava a cauda luminosa. —Hoje em dia, sociedades subterrâneas não têm mais futuro. Você não tem permissão para saber sobre a morte e o renascimento.
—E-Entendo.
Sora não sentia que podia argumentar com aquilo. Será que essa aparente capacidade de ler sua mente era mais uma prova da grandeza da chefe? Sora começou a tremer, o que pareceu deixar a Raposa Branca estranhamente satisfeita.
—Mas devo dizer, ó Raposa Branca, podemos até estar planejando refazer o mundo com tofu frito, mas a sede ainda não emitiu ordens oficiais. Isso não vai causar confusão entre nossos membros?
Era uma coisa Sora não saber disso, mas até alguém com o posto de Galf também desconhecia essa mudança de curso. Mesmo com toda a dedicação ao sigilo, isso parecia sem precedentes.
Então, pela primeira vez, a Raposa Branca fez uma pergunta para Sora.
—O que você acha, Sora?
Bem, ela achava que deviam usar as redes de comunicação da organização para garantir que todos soubessem do novo plano. Mesmo sendo uma mudança repentina, a situação atual estava muito fora do padrão da Fox.
Coordenação era uma das suas forças. Se as ordens para fritar tofu viessem pela cadeia de comando normal, os outros membros achariam estranho, mas ainda assim seguiriam. Mas não havia chance da Raposa Branca ignorar isso.
A cauda da Raposa Branca parou de se mover. Ela falou em voz baixa:
—Posso perguntar, só pra ter certeza, Sora… você está familiarizada com essa cadeia de comando?
—N-Não, não estou. Isso não é algo que uma mera sacerdotisa saberia.
O que a Raposa Branca queria dizer com isso? Não havia motivo para Sora conhecer a cadeia de comando dos chefes!
—Entendo…
A Raposa Branca mergulhou num silêncio pensativo. Então ouviram uma batida na porta.
—Chefe, está aí?
Era a voz de Galf.
—S-Só um momento, por favor! —gritou Sora.
Seria o primeiro encontro de Galf com essa Raposa Branca, sem contar que ele ainda não tinha percebido que a Raposa Falsa era uma impostora. O mal-entendido sobre a identidade de Sora já havia sido resolvido… exceto que Galf ainda não sabia disso.
—Ó Raposa Branca, esse é o responsável pela operação atual. O que devo fazer?
—Deixe-o entrar.
Com isso, Sora não teve escolha a não ser destrancar a porta. Então se virou e ficou boquiaberta.
Quem estava ali era alguém que havia saído mais cedo—a Raposa Falsa. Não havia sinal da Raposa Branca que conversava com Sora momentos atrás. A altura e aparência da Raposa Falsa eram as mesmas, mas seu porte agora era mais digno, sua presença mais imponente.
Galf empalideceu ao ver essa nova figura. —O-Opa. Voltei —anunciou.
Com um aceno régio, a Falsa Raposa sentou-se no balcão e cruzou as pernas. — Bem-vindo de volta, Galf. Não precisa me contar nada. Eu vejo no seu rosto. Você fez o que te ordenei.
—Ah — gaguejou Galf, ajoelhando-se sobre um dos joelhos. — Estou honrado—
—Você acha que eu mudei, não é? — O chefe sorriu. — Aquilo tudo não passou de uma encenação. Ao me retratar como um completo fracasso, eu estava testando você. E você provou bem a sua lealdade.
Galf ficou pasmo com a mudança completa. E foi então que Sora notou. Saindo da parte de trás da Falsa Raposa, havia um rabo. Ela teve um péssimo pressentimento.
—Agora, não precisa se humilhar. Eu cumpro minhas promessas. Vou confiar a você essa máscara — e nosso objetivo atual.
—Objetivo?
Então a falsa Falsa Raposa — que na verdade era a Raposa Branca — falou com uma confiança que a verdadeira Falsa Raposa jamais conseguiria. — O Plano A em andamento — o plano de aniquilação que seria executado durante o Festival do Guerreiro Supremo — está cancelado. Dediquem todos os recursos disponíveis à produção de tofu frito. Com sua estrutura de comando, transmita isso aos seus subordinados.
Fantasmas eram recriações de memórias passadas. Não eram criaturas vivas, então eram guiados por instintos diferentes. Seu comportamento vinha das histórias que os criaram. As raposas espectrais incrivelmente poderosas do Peregrine Lodge não eram exceção.
A Raposinha não podia ignorar esse impulso. Ela não precisava comer, nem se considerava aliada do Sr. Cautela. Mas os impulsos gravados em seu espírito a faziam arder de desejo por aquilo que os humanos chamavam de tofu frito.
E para a Raposinha, travar batalhas de astúcia e pregar peças nos humanos era sua razão de existir.
—O-O Raposa Branca, você tem certeza disso? — perguntou a jovem de manto branco.
—Está tudo certo — respondeu friamente a Raposinha. Ela já tinha respondido a essa pergunta tantas vezes que havia perdido a conta. — Tudo foi calculado com precisão. Está tudo resolvido.
—E-Entendido. Estou seguindo suas ordens. Suas ordens…
A Raposinha não tinha interesse nos assuntos dos humanos. Ela era um fantasma nascido de um deus. Em outras palavras, ela própria era uma deusa. E os deuses podiam ser coléricos. Meros mortais não significavam nada para eles. Ela só obedecia ao Sr. Cautela porque tinham feito um acordo.
Milhares de pessoas poderiam morrer, organizações poderiam ser destruídas, mas a Raposinha ainda era apenas uma raposa. Se havia alguém culpado, era quem deixava que lhe passassem a perna depois de uns truques ou uma leve leitura mental. Essas pessoas deveriam ter seguido o exemplo do Sr. Cautela. Aquele humano tinha tão poucos pensamentos produtivos que chegava a ser desconcertante. Era como se ele deixasse, de propósito, que as raposas o influenciassem. Agora ela entendia como sua mãe tinha perdido.
Pode parecer estranho, mas pessoas como ele eram os oponentes mais difíceis em batalhas de astúcia. Nem mesmo a Raposinha sabia o que fazer com ele. Ainda assim, quando estava trancada no cofre do tesouro, as oportunidades de enganar humanos eram raríssimas. Seu rabo começou a balançar rapidamente.
Foi então que a Pedra Sonora que a sacerdotisa havia lhe dado começou a vibrar. Ela atendeu, mas não ouviu nada. Inclinou a cabeça, analisando por um momento, quando uma voz surgiu de repente.
—Identifique-se.
Ela não disse nada. Estava preparada para aceitar um possível fracasso. Mesmo seus poderes tinham limites. Ela não podia fazer tudo, e algumas coisas fazia melhor que outras. Enganar pessoas à distância era algo com o qual tinha dificuldades. Essa pessoa em específico seria especialmente complicada, pois parecia ter uma mente bem protegida. Ela conseguia vislumbrar alguns pensamentos. A voz era poderosa, a ponto de abalar até mesmo um grande fantasma.
Agora, de quem tomaria a forma? Sora? Galf? A antiga instrutora de Sora? A Raposinha não se importava com os assuntos deles, mas também não era ignorante. Esfregou o rabo e pensou. Então teve uma ideia genial.
Hoje eu tô impossível.
Ela mudou a voz para imitar a do Sr. Cautela e disse: — Prazer em conhecê-lo, chefe. Embora talvez seja estranho dizer isso. Afinal, eu venho observando você há um bom tempo. Alguns me chamam de Mil Truques. Eu não conheço a cautela e diria que sou seu adversário.
Passei o dia de boa na estalagem. Nem sei bem por quê, mas dessa vez as coisas estavam indo a meu favor. Depois de ser atacado por Trogloditas nas férias e encontrar o Peregrine Lodge durante o serviço de escolta, as coisas finalmente pareciam melhorar.
Enquanto pegava mais um pedacinho de chocolate, Sitri se aproximou silenciosamente e sussurrou:
—Então, Krai, falta muito?
—Falta muito pra quê?
Ela já tinha se acalmado um pouco depois de ser jogada pela janela, mas ainda estava com o astral lá em cima. O que será que tinha acontecido com ela?
Com as bochechas coradas, ela segurou minha mão e disse:
—Ai, Krai, você e suas piadas. Tô falando das Raposas. Raposas. Se você me der elas, tem muita coisa que eu gostaria de fazer.
—Ah, isso.
Aquilo não me dizia nada, mas mesmo assim balancei a cabeça. Ultimamente andava aparecendo raposa por tudo quanto é canto, mas parecia que ela estava falando daqueles fanáticos por máscaras.
Agora que pensei… Eu nem sei o nome oficial deles. É, tanto faz.
Coloquei um chocolate na boca e disse:
—Não vou te entregar elas.
—Hã?! U-um, você tá brincando, né?
—Elas nem são minhas pra eu entregar.
Ela arfou:
—Isso foi uma mentira? Krai, você mentiu pra mim?!
Não lembro de ter dito que ia dar as Raposas pra ela.
—Bom, eu já fiz bastante disso…
Contei nos dedos. Tinha empurrado a princesa imperial pros outros Grieving Souls, Galf e Touka pros outros Grieving Souls, a Raposinha pra Sora e ainda fiz a Sora cozinhar tofu frito. Tava só deixando as coisas fluírem, mas talvez eu devesse ter pensado um pouco mais. Eu só queria que dar a máscara fosse o suficiente pra me perdoarem.
Mas como foi que eu vim parar aqui mesmo? Estranho.
— Sim, eu também queria fazer isso!
Sitri se apertou contra mim e sacudiu meus ombros. Levei um pedaço de chocolate até seus lábios, mas ela balançou a cabeça. Mais um comportamento infantil vindo dela.
Eu também queria fazer isso. Mas eu não planejava fazer isso. E o que seria isso, afinal?
— Não acredito em você, Krai! Mesmo depois de todo o dinheiro que te emprestei! Depois de ter comprado uma cozinha pra você fritar tofu!
— Ha ha ha. Você é muito gentil, Sitri.
— O que tem de engraçado em me fazer chorar?!
— Você sempre teve um dom pras lágrimas de crocodilo.
Eu estava falando sério. Desde que éramos crianças, ela vivia me enganando com lágrimas falsas. Talvez por ser a caçula de três irmãos, Sitri era ótima em conseguir o que queria e fazer com que os outros a mimassem.
Ela estava encostada em mim, mas não pesava nada, tinha um corpo bonito e não pressionava demais, então não me incomodava. Na verdade, pensei que ela poderia cobrar por isso.
Enquanto brincávamos, uma sombra se projetou sobre nós. Antes mesmo que eu pensasse em perguntar o motivo, uma espada curta foi enfiada na minha frente. A sombra era da Lucia. Alguma coisa tinha acontecido; ela estava pálida como um fantasma.
— Irmão! — ela arfou. — Eu consegui, mesmo com o preço que paguei!
— O-o que foi? — perguntei. — Você tá péssima.
— Lucy! Eu tô no meio de uma negociação com o Krai, então cai fora! — disse Sitri, com os olhos marejados.
Eu nem sabia que estávamos negociando.
Lucia a ignorou e disse com uma voz cansada:
— De algum jeito… eu consegui carregar com sucesso a Chave da Terra. Essa foi a maior quantidade de mana que já coloquei em uma Relíquia. Nem dez anos seriam suficientes pro Luke carregar isso. Que tipo de Relíquia é essa?
— Oh. Oh! Valeu! Isso é ótimo.
Só então percebi que a espada enfiada na minha frente era uma Relíquia. Pra ser sincero, achei que iam me matar. Me soltei do abraço da Sitri e peguei a Relíquia. Anos carregando Relíquias tinham dado a ela uma reserva de mana maior que a de Espíritos Nobres. Eu não esperava que essa espada fosse uma provação até mesmo pra ela, que conseguia carregar todos os meus Anéis de Segurança com facilidade.
— Hmmm. Bem, se o poder dela for proporcional à carga necessária — disse ela, com uma careta e a voz começando a tremer —, provavelmente é comparável à Fortaleza Flutuante.
— Você só pode estar brincando. Isso é uma Relíquia do tipo espada!
A Relíquia mencionada por Lucia exigia mais mana do que qualquer outra no mundo. Ela deve ter se esforçado muito pra carregar essa espada. Eu mal conseguia lembrar da última vez que a vi tão pálida. O Festival do Guerreiro Supremo estava chegando, e mesmo assim ela se forçou a fazer algo tão extremo.
Por ora, deslizei a espada no cinto e disse:
— Você devia descansar um pouco. Vem, eu te levo.
Estendi o braço e envolvi os ombros dela. Eu não era mais forte que uma pessoa comum, mas isso não importava quando o corpo miúdo da Lucia era tão leve.
— Yah! — ela gritou. — N-não precisa! Eu consigo ir sozinha!
Ela parou de gritar quando percebeu que eu não ia ceder. Agir no improviso era meu modo padrão de vida, mas nem eu aceitava sobrecarregar minha irmãzinha. Ela não disse nada quando a coloquei na cama, provavelmente de vergonha por estar sendo ajudada pelo irmão inútil.
— Pode se inspirar na Lusha e depender do seu irmão — falei. — Diferente daquelas duas, a gente é irmão de verdade.
— Tá pedindo pra apanhar?!
Ok, não tô pedindo tanto contato assim.
Lucia se enfiou debaixo das cobertas e então disse, falando super rápido:
— Você não tem nada melhor pra fazer do que ficar me dizendo bobagens? Eu tô bem. Na verdade, ficar sem mana ajuda no meu crescimento. Obrigada. Agora vai, você não tem coisas pra resolver?
— Na real, tô bem livre agora.
Houve um momento de silêncio prolongado antes que ela dissesse:
— Eu preciso me trocar, então sai!
Achei que finalmente tinha conseguido agir como um bom irmão, mas pelo visto não era tão simples assim.
E agora, como eu faço a Sitri mudar de ideia?
Infelizmente, Liz e Ansem estavam fora. Na verdade, essa falta de predadores naturais devia ser exatamente o motivo pelo qual a Sitri escolheu esse momento pra atacar. Ela sabia muito bem como virar o jogo a favor dela.
Voltei pra sala e encontrei Sitri sem as lágrimas falsas, mas com um sorriso muito suspeito.
— A Lucy tá bem? — ela perguntou.
— Tá, foi aquilo de sempre. Vai ficar bem depois de descansar um pouco, foi só exaustão de mana.
Eu tinha minhas dúvidas, mas se fosse preciso, podia pedir uma poção de mana pra Sitri.
— Ah, que ótimo! — disse ela. — Eeeentão, acabei de lembrar que tenho algo muito especial pra te mostrar!
— Hm?
— Eu diria que é comparável à Chave da Terra! Se isso não te convencer a me entregar a Raposa, nada mais vai!
Cobrindo a boca com a mão e rindo, Sitri parecia extremamente confiante. Só que, não importava o que ela mostrasse, o Clube de Fãs da Máscara de Raposa não era meu pra entregar.
Mantive minhas expectativas bem baixas enquanto observava Sitri bater palmas duas vezes. A porta se abriu e o parceiro da Sitri, Matadinho, entrou correndo. Ele estava esquelético depois de passar fome na missão de escolta e usava sua habitual sunguinha e sacola de papel. Mas nas costas, carregava uma bolsa grande o bastante pra caber uma criança. O macho cinzento arfava, algo que eu acho que nunca tinha visto antes.
Acho que ele é uma criatura viva, afinal.
— Pedi pra ele vir o mais rápido que pudesse — explicou Sitri. — Mas não era exatamente uma distância curta que ele tinha que percorrer.
— Não força ele. Mas pera… você trouxe ele? Ele não tava com a carruagem, achei que tinha ficado pra tomar conta das coisas.
— Eu tive que trazer a Drink e a Akasha, já que planejo usar elas no Festival do Guerreiro Supremo, então tive que fazer sacrifícios. Pedi ajuda pra Talia, mas acabou sendo demais pra ela.
Ela vai levar o Drink e aquele golem com ela? Mas que diabos é esse torneio?
— Agora, veja! Este é o resultado da minha mais recente pesquisa e vai atender perfeitamente às suas exigências! Depois de ver isso, você ainda vai insistir que não pode ceder a Raposa para mim?
Matadinho virou a sacola de cabeça para baixo, e o conteúdo caiu sobre o carpete. Meu cérebro travou quando vi o que estava dentro da sacola. Era uma criança. Ela tinha cabelos azul-celeste e estava completamente nua. Não fez nenhum barulho, apesar de ter sido jogada no chão sem o menor cuidado. Lentamente, ela levantou os olhos para mim.
Quando vi seu rosto, meu coração quase parou — era o rosto da Princesa Murina. Não havia como confundir. Cabelos sedosos e bem cuidados, olhos inteligentes e uma aura geral de fragilidade. Não era uma sósia, podia muito bem ser a própria princesa imperial.
Minha primeira reação foi pensar que isso talvez fizesse parte de algum tipo de treinamento, mas então me contive. Não havia motivo para deixar a princesa imperial perambulando sem roupas! Em algum nível insano, até dava pra justificar colocá-la em treinamentos infernais e até deixá-la ser carregada em uma sacola por um bombado esquelético de sunga de banana, mas deixá-la pelada? Aí não dá. O Franz vai me matar.
E por que ela não dizia nada? Ela tava de boa com isso? Era pra ser algum tipo de presente? O que eu faria se alguém visse isso?
Espero virar uma pedra na próxima vida.
— Então, o que achou do meu tour de force, o Matadinho Mk.2? — perguntou Sitri.
Você fez isso só pra eu ser “matadinhado”?
— Você gostou? Ela é idêntica à Sua Alteza Imperial!
— N-Não. Essa aí é a Princesa Murina, não é?
— Exato! Eu a fiz com o sangue que coletei. Mesmo no meio das pesquisas, dei o meu máximo. Com a falta de tempo e os deveres de treinar a verdadeira, até sacrifiquei meu sono. Investi até parte dos meus fundos nesse projeto! Mas como você disse que Sua Alteza Imperial precisava estar em um nível para competir no Festival do Guerreiro Supremo, não vi outra saída…
— VOCÊ fez isso?!
Cuspi meu chocolate sem querer. Meu coração disparou de medo.
Quanto mais eu olhava, mais percebia o quão profunda era a semelhança entre o Matadinho Mk.2 e a Princesa Murina. No entanto, ela era um pouco mais alta e, mais importante, eu duvidava que a verdadeira princesa imperial permaneceria tão obediente nessa situação. Mas o que mais me incomodava era o jeito como a Sitri agia como se tudo fosse culpa minha.
Talvez essa árvore nem seja a mais inteligente da floresta…
Será que isso era mesmo melhor do que ter a verdadeira princesa imperial diante de mim? Não sei dizer.
— Preparar Sua Alteza para o Festival do Guerreiro Supremo se mostrou além das nossas capacidades — disse Sitri. — Mas eu antecipei essa possibilidade. Não haverá problemas se usarmos o Matadinho Mk.2! O que acha?! Sua querida Sitri criou uma nova criatura mágica para atender perfeitamente aos pedidos absurdos de seu amado Krai! E ainda assim, vai continuar insistindo em não me dar a Raposa?!
— Sitri, você tá me ameaçando?!
Sitri arregalou os olhos. — Hã?
Eu também fiz a mesma cara pra ela. — Hã?
Matadinho Mk.2 piscou algumas vezes e me encarou. Abriu os lábios delicados e disse com uma voz suave como um sino: — Matar, matar…
Não havia a menor chance de que mandar uma impostora pro torneio fosse acabar bem. Sem contar que com certeza haveria gente que se oporia ao uso de sangue imperial para criar um clone. Será que a Sitri vivia só de curiosidade? Quando vi aquele frasco de sangue, só gemi e olhei pro outro lado. Como eu ia imaginar que ela faria algo assim?! Onde ela conseguiu essa tecnologia?!
Enquanto uma objeção atrás da outra pipocava na minha cabeça, a princesa imperial se aproximou de mim e ficou parada, como se aguardasse ordens. Assim como o Matadinho Mk.1, ela tinha um forte senso de lealdade. O cômodo ficou em silêncio. Nem o Matadinho nem a Princesa Matadinha se mexeram.
Pensa, Krai Andrey, o artífice super-humano! Você consegue! Como vai sair dessa? Isso pode ser demais pra… não, mesmo sendo um artífice super-humano, não teria solução pra isso. Nem o Krahi daria conta!
Meu cérebro não tava funcionando. Forcei minha boca a se abrir e disse: — Você resolveu pegar outra depois de ganhar na loteria ou algo assim?
— Krai, hum, meu experimento foi um sucesso. Por favor, me elogie.
— Você é incrível, Sitri.
Ela aproximou a cabeça de mim e eu a elogiei como se tivesse sido programado pra isso. A cabeça dela era macia. Passei a mão em seus cabelos suaves e, ao perceber que agora não era hora disso, dei um tapinha nela. Sitri soltou um gritinho de alegria.
Eu é que devia estar gritando, sua árvore estúpida!
— Ah, a propósito, houve três tentativas fracassadas antes de eu conseguir uma bem-sucedida — ela acrescentou.
Fingi que não ouvi nada e continuei pensando.
Espera. Um corpo duplo. Será que dá pra usá-la como corpo duplo? Mas o Matadinho Mk.2 — não, a Matadinha — só fala “matar, matar.” Será que dá pra dizer que isso faz parte do treinamento? Não dá!
— Eu terminei a tempo pro torneio — disse Sitri. — Ah, mal posso esperar pra exibir ela!
Não, você não pode exibir ela! Seu coração é feito de aço, é?
Não dava pra contar com a normalmente confiável Sitri. Eu tinha que pensar por conta própria. Tinha que arrumar um jeito de sair dessa.
Depois de ler o jornal e saber das novidades com suas amigas do comércio, Eva soltou um suspiro bem profundo.
— Parece que estão aprontando alguma coisa.
Tudo estava tranquilo em Kreat, o que era incomum pra essa época do ano. No entanto, a causa dessa calmaria lhe escapava. Ataques aos participantes eram praticamente garantidos quando o Festival do Guerreiro Supremo se aproximava. As autoridades locais tentaram evitar que a panela de agressões transbordasse, mas ainda não tinham encontrado uma solução eficaz. E, mesmo assim, esse ano a paz parecia ter chegado por conta própria.
Algumas pessoas estavam apenas agradecidas pela tranquilidade, enquanto outras tinham certeza de que aquilo era a calmaria antes da tempestade. Eva não sabia ao certo se aquilo era obra do Krai — e, se fosse, como ele teria conseguido conter os ataques, sendo que os responsáveis e seus motivos eram tão diversos? Mesmo assim, ela tinha a impressão de que, mais uma vez, não haveria muito o que ela pudesse fazer para ajudar.
Considerando o total desinteresse de Krai por glória, ela havia ficado desconfiada quando ele disse que participaria do Festival do Guerreiro Supremo. Será que ele realmente tinha se interessado pelo torneio? Mesmo revendo todas as experiências que teve no passado, ela não conseguia ter certeza. Não importava quantos anos estivesse ao lado dele, ele ainda era o Mil Truques.
Ela se forçou a se acalmar e parar de se preocupar. Se ele precisasse da ajuda dela, viria procurá-la. Colocou o jornal de lado e respirou fundo, quando ouviu uma batida repentina na porta.
— Eva, me ajuda!
— E-Eu bem que disse pra mim mesma que isso podia acontecer! Mas não tão rápido assim!
Ela já imaginava que algo poderia acontecer, mas não tinha tido tempo suficiente pra se preparar psicologicamente. Destrancou a porta, e entrou o mestre do clã, com sua expressão desleixada de sempre. Carregando uma mochila enorme, Sitri veio logo atrás. Krai olhou ao redor para se certificar de que não havia mais ninguém no cômodo e soltou um suspiro.
— Então, qual é o problema? — perguntou Eva. — Não posso fazer nada sem informação.
Não era a primeira vez que Krai recorria a Eva em busca de ajuda. Na maioria das vezes, ele só precisava que ela negociasse ou resolvesse alguma confusão — o que não era difícil, mas cansativo. Esse homem conseguia resolver todo tipo de crise, mas havia algumas coisas com as quais até ele tinha dificuldade. Eva se preparou para mais uma dessas.
— Vai me ajudar? — ele perguntou, como se quisesse ter certeza. Apesar de ser extremamente capaz, ele sempre parecia inseguro.
— Claro, se for algo que eu possa…
Mais uma vez, ele suspirou, dessa vez aliviado. Apontou para a mochila e disse num tom baixo:
— Primeiro, quero que veja isso.
Sitri abriu a mochila e despejou o conteúdo no chão. O cérebro de Eva travou. No chão estava a princesa imperial, Murina Atolm Zebrudia, vestindo um casaco uns bons números maior do que ela. Tinha uma expressão estoica, mas era inconfundivelmente ela. A última coisa que Eva tinha ouvido era que Krai deveria estar atuando como mentor dela.
— O quê?! Por que ela estava dentro da mochila? E por que está vestida assim?
— Então… na verdade, essa aqui é falsa. A princesa imperial de verdade está nas aulas agora. Mais cedo, ela não estava vestindo nada, então emprestei umas roupas minhas.
Eva ficou atônita. A princesa imperial, no entanto, apenas a encarava, sem mover um músculo, além de algumas piscadas lentas. O cérebro de Eva começou lentamente a funcionar de novo. Em todos os aspectos, a garota diante dela parecia ser a princesa imperial. Sua capacidade de formular uma resposta para aquela situação absurda vinha da sua experiência prévia com situações igualmente absurdas.
Temendo começar a hiperventilar, ela se acalmou e respondeu num sussurro:
— Pode… explicar melhor?
— Ela é um ser fabricado. É uma loucura.
— Ser… fabricado.
Eva deixou aquelas palavras se assentarem na mente. Realmente era uma loucura. O mestre do clã muitas vezes entrava em pânico por besteira, mas dessa vez a coisa era séria.
Ela deu outra olhada na princesa imperial falsa. Cor do cabelo, dos olhos, estrutura corporal — era idêntica à princesa Murina. A única diferença estava na expressão. A princesa imperial que Eva conhecia vivia com um ar desconfortável, como se estivesse sempre prestes a chorar. Mas essa aqui estava tão serena que era impossível saber no que estava pensando.
Não podia ser uma sósia, nem alguém disfarçado. Nem mesmo uma irmã gêmea. Eva se orgulhava de sua capacidade de memorizar rostos e enxergar através de fachadas, mas nem ela conseguia distinguir essa garota da princesa verdadeira.
Devagar, seu cérebro voltou a funcionar. Pensa, pensa, pensa, dizia para si mesma. Qual seria o propósito disso? Por que fizeram isso? Uma substituta? Não, isso era desumano demais. E, se fosse só isso, Krai não estaria tão nervoso. E quem teria criado esse ser? O império, muito menos o imperador, jamais teria dado permissão para algo assim. Tanto do ponto de vista tecnológico quanto ético, isso não poderia ter sido feito por um laboratório comum.
Eva sentiu um arrepio e o cheiro de conspiração no ar. Se alguém tinha capacidade de produzir uma cópia da princesa imperial, só podia ser uma organização criminosa de alto nível. Será que foi a Torre Akáshica, que causou tanto caos recentemente?
Ou talvez os inimigos que Krai enfrentou quando protegeu o imperador? Pronto. As peças se encaixaram. Krai era um Nível 8 conhecido por sua calma constante — não havia muitas entidades capazes de deixá-lo nervoso.
— Será que foi a Raposa Sombria de Nove Caudas? — perguntou ela, com enorme apreensão. — Isso é obra da Fox?
Os olhos de Krai se arregalaram. Estaria ele surpreso por Eva ter acertado com tão poucas pistas? Seus anos como braço direito dele não tinham sido à toa. Mas não era hora de se vangloriar.
— Acho que entendi agora — disse ela. — Você resgatou ela da Fox, não foi?
Houve um longo silêncio entre eles.
— É — ele respondeu, por fim.
Então Eva estava certa. Ela tinha ouvido que a Fox havia tentado — e falhado — assassinar o imperador. Mas era uma organização grande, com reputação a manter. Depois de fracassar, não era estranho que tentassem de novo, dessa vez indo atrás da filha. Krai devia ter descoberto que a Fox criou uma princesa imperial falsa e a resgatou. Será que era por isso que ele tinha aceitado o pedido para ser mentor da princesa Murina?
O suor escorria pelo rosto dele. Claramente, até ele estava tendo dificuldade para manter a calma diante daquela situação. Eva teve vontade de tapar os ouvidos, mas uma vice-mestra de clã precisava manter a compostura quando o mestre estava em perigo.
— Mantenha a calma — disse ela. — Existe só uma cópia?
— H-houveram três falhas — Krai hesitou. Ele devia ter presenciado uma verdadeira tragédia. — Ela foi a única que deu certo. Certo, Sitri?
— Oh. Sim, isso mesmo — disse ela. — Maldito seja, Fox.
Eva sentiu sua determinação se renovar ao ver seu chefe titubeante. Olhou nos olhos dele e disse:
— Sua Majestade Imperial estará entre os espectadores do Festival do Guerreiro Supremo. Devemos contatá-lo.
— Hã?!
Eu sabia que ele tentaria resolver isso sozinho.
— Krai, isso não é algo que possamos resolver sem ajuda — disse ela. — E mesmo que pudéssemos, a existência dessa impostora sugere que Sua Alteza Imperial está em perigo. Eu entendo suas capacidades, mas ainda assim acho que devemos contatá-los.
— Hmm. Você tem razão. Isso tudo é culpa do Fox. Eu sempre posso contar com você, Eva.
Não havia tempo a perder. Uma princesa imperial falsa era um trunfo com um potencial imenso. Cada segundo contava, já que Fox sem dúvida viria recuperar aquilo que haviam criado. Ter essa princesa falsa tão próxima de um dos maiores inimigos de Fox era arriscado demais. No entanto, este alojamento estava cheio de caçadores da Primeira Etapa, o que o tornava relativamente seguro.
— Eu vou contatar o império — disse Eva. — Por enquanto, deixe ela comigo. Sven está aqui, posso pedir a ele que a proteja. Krai, sua luta contra o Fox—
— Ah. Verdade.
Eva não sabia como essa luta estava se desenrolando, mas precisava fazer tudo ao seu alcance para ajudar.
— Eu tenho que lutar contra o Fox — murmurou ele. — O Fox do mal.
— Oh? Existe um Fox do bem?
Haveria colaboradores dentro da organização Fox, logo ela?
Krai lhe lançou aquele olhar incerto de sempre.
— Só alguns — disse ele.
Depois de conversar com Eva, o trabalho da Sitri acabou sendo atribuído a uma organização do submundo. Isso tava tudo errado. Eva pegou a princesa imperial falsa e saiu rapidamente do nosso quarto. O olhar grave em seu rosto não era algo que um mero mestre de clã como eu pudesse sequer pensar em contrariar.
A porta se fechou com um clique e Sitri fez bico pra mim.
— Todo o meu trabalho, minha grande revelação, tudo jogado fora. Eu planejava usá-la pra barganhar com o império.
Meu Deus. Nem um pingo de arrependimento. E o que exatamente ela esperava conseguir com essa barganha?
Lembrei do que Liz me dissera uma vez: Sitri sabia fazer de tudo, mas de tempos em tempos, tinha que fazer uma besteira. Ela usou a suspeita de envolvimento da Sitri na fuga em massa da prisão como exemplo. Na época, achei que fosse exagero… mas agora acho que a Liz podia ter razão.
E agora? O que eu faço?
Sitri me olhava com aquele ar de reprovação, mas então pareceu mudar de ideia.
— Bem, isso pode não ser algo tão ruim assim. O Fox não está exatamente em posição de protestar!
Agradeci pela atitude positiva dela, mas também achei que ela mudou de opinião rápido demais. Claro, um bando de criminosos não era do tipo que ia protestar contra acusações, mas se a verdade viesse à tona, estaríamos acabados. Isso tudo me fez pensar o que aconteceu com a Sitri inteligente, fofa e confiável que eu conhecia.
Minha salvadora habitual bateu palmas com aquele brilho nos olhos, do jeitinho de sempre.
— Certo! Vamos fazer mais algumas exigências pra eles. E se não cumprirem, podem morrer!
— Ei! Preciso te lembrar de quem é a culpa disso tudo?!
Segurei Sitri pelos ombros, o que deve ter pego ela de surpresa, já que ela cambaleou e caiu.
— Eee! — ela gritou.
Coincidentemente, ela caiu bem embaixo de mim. Um frasco com um líquido de cor chamativa rolou pela minha visão periférica.
— Ah…
Ouvi o som de vidro se quebrando. No instante seguinte, tudo virou um caos, como se tivéssemos sido arremessados dentro de uma tempestade. Atrás de mim, houve um estrondo acompanhado por um impacto escaldante, tudo desviado pelos meus Anéis de Segurança. Caí no chão e abracei Sitri, meu mundo virando de cabeça pra baixo logo em seguida. Caímos, outro anel se ativando assim que atingimos o chão. Bater a cabeça ou os pés dava no mesmo com um Anel de Segurança.
Levantamos rapidamente e vimos um buraco enorme no teto. Será que fomos atacados? Ou foi algum desastre natural? A sensação indicava algum tipo de explosivo, mas não havia sinais de queimadura.
Sitri soltou um gemido baixo.
— O quê?! O que foi isso, pelo amor?! Hã?! — gritei.
— Calma, Krai. Foi só uma poção explosiva aprimorada que escapou. Só isso.
Isso era… uma poção?! A-ah…
Por sorte, o quarto abaixo estava vazio. Mas o de cima tinha sido parcialmente destruído. Isso não era bom. Se não fossem os meus Anéis de Segurança, eu com certeza teria morrido naquela explosão. Que coisa perigosa de se carregar por aí.
— Você está bem? — perguntei.
— Claro. Eu tinha você pra me proteger. Tô ilesa!
Se eu não tivesse estado ali, o quarto nem teria sido destruído em primeiro lugar. Meu coração ainda parecia prestes a explodir dentro do peito. Os Anéis de Segurança me protegeram, mas ainda assim era difícil não ficar abalado depois de uma dessas. Eu estava prestes a vomitar.
Acho que não posso mais reclamar dela por fazer princesas falsas quando eu tô causando explosões.
Ouvi passos no andar de cima e, em seguida, o som de uma porta se abrindo. Eva olhou pra baixo através do buraco no teto.
— Oh! O que aconteceu aí embaixo?!
— Uhm…
Tendo acabado de empurrar uma grande responsabilidade pra Eva, eu não sabia bem o que dizer.
Senti os lábios da Sitri roçarem a nuca antes dela se levantar e dizer:
— Não se preocupe, estamos bem, Eva. Fomos apenas atacados. Pelo Fox.
Será possível? Sou eu o Fox?!
Eva engoliu seco, perdendo a cor. Sitri pegou minha mão e me ajudou a levantar. Cambaleei um pouco, mas logo recuperei as forças. Para o bem ou para o mal, já estava acostumado com acidentes.
— Não há mais problemas — continuou Sitri. — Eles atacaram à distância. O capanga por trás disso já fugiu com medo do Krai. Hmm. Isso exige um plano de ação. Contate Sua Majestade Imperial imediatamente!
Que resistência mental insana ela tinha. Parecia até que estava acostumada com isso.
Sven enfiou a cabeça pelo buraco. Ele devia ter ouvido o barulho também. — Oooh. Eles te pegaram mesmo.
Recolhi os pedaços do meu coração despedaçado e tentei parecer durão. — Saímos ilesos. Mas não posso dizer o mesmo do piso e dos móveis.
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Numa mansão situada perto do centro de Kreat, encontrei Franz pela primeira vez em um bom tempo. A oportunidade de conversar com o imperador e seu pessoal surgiu surpreendentemente fácil — tudo graças ao talento excepcional da Eva. Ela já tinha até explicado a situação pra eles, então eu não precisei. Teria sido ainda melhor se aquele relatório não estivesse lotado de informações falsas nossas.
— Hmmm. Essa era a última coisa que eu queria ver — disse Franz. Ele estava pálido como um fantasma; nem ele conseguiu manter a compostura numa hora dessas. — Eu já imaginava que havia mais do que nossas investigações revelaram, mas não achei que a Fox fosse capaz de algo assim. Quando você disse do nada que ia tirar Sua Alteza Imperial da capital, eu quis te estraçalhar…
— Eu também não esperava por isso. Me pegou de surpresa.
Por que o Franz tá usando palavras tão agressivas? Ele não parece nem um pouco com um daqueles nobres lendários de Zebrudia.
Por que a Sitri tinha que continuar com esses experimentos perigosos? Ela já tinha feito tanta coisa, achei que podia dar uma pausa. Ou será que ela era de primeira linha justamente porque nunca parava?
A falsa Murina ficou parada em frente ao Franz sem mover um músculo. Tinha algo na postura dela que me lembrava o Matadinho. Mas essa era a única semelhança entre o Mk.1 e o Mk.2.
Sitri cruzou os braços. — Nossa, que organização horrível é a Fox — disse, como se isso não fosse obra dela.
Eu já não sabia se dava pra confiar nela de novo. Lidar com os caçadores e mercadores astutos da capital imperial deixou ela cascuda… mas será que ela também perdeu a consciência?
— Isso não pode ser só um disfarce — disse Franz. — Precisamos reportar ao Seu Majestade Imperial—
— Não é só isso — interrompeu Sitri. — Eles estão fazendo experimentos onde colocam fantasmas num liquidificador e extraem o material de mana deles! Eu vi com meus próprios olhos! Os fantasmas gritavam de raiva enquanto eram brutalmente picotados e o líquido de mana era sugado!
— O-O que foi que ela disse?! — exclamou Eva, olhando pra mim. Por algum motivo, não era só ela e o Franz — a Sitri também olhou na minha direção. Mas se alguém ali estava desnorteado, esse alguém era eu.
Com os olhos cheios de lágrimas, Sitri apertou os punhos e continuou, com a voz ainda mais aguda que antes: — E não só isso! Eles tentaram criar uma criatura mágica costurando as melhores partes de criminosos diferentes! Maldita seja, Fox!
Chega! Você tá me assustando, e eu nem sei do que tá falando!
Coloquei a mão na cabeça da Sitri, interrompendo por ali. — Bom, isso não vale a pena se preocupar.
— Não vale a pena se preocupar?! — exclamou Franz. — Extrair material de mana e criar criaturas mágicas perigosas são práticas terminantemente proibidas! Você tá calmo demais pra alguém que acabou de sobreviver a uma tentativa de vingança! Qualquer um mais fraco teria morrido!
Ah. É mesmo. Aquela poção foi feita pra matar fantasmas de alto nível.
Teria sido tudo muito mais fácil se eu não soubesse tanto quanto sei.
— É, mas já tô acostumado a ser atacado — falei.
Sem falar que também tô acostumado a fazer besteira. A vontade de me jogar no chão e pedir desculpa já tava vindo com força.
Franz cruzou os braços e ficou analisando a falsa princesa imperial. Depois de alguns momentos nisso, ele veio até mim, olhando nos meus olhos. O rosto dele tava sério, cheio de rugas de preocupação na testa.
— O laboratório foi destruído — Sitri avisou. — Não acredito que eles vão conseguir produzir mais impostoras.
— Hmph. Então você tá dizendo que evitamos o pior cenário? Mesmo que consigam fazer outra, agora que conhecemos o plano deles, podemos bolar um contra-ataque. Agora me diga, essa impostora aí não fala?
— Imagino que tenham medo de que ela diga algo errado.
— Nem confiam na própria criação. Bah, vermes miseráveis.
Sitri apenas sorriu.
Para com isso, Franz! Você tá insultando a Sitri! Ela é meio esquisita, mas não é má pessoa!
— Provavelmente ela ainda não foi programada — explicou ela. — No estado atual, diria que é inofensiva.
Franz olhou pra ela. — Você tá bem informada.
Sitri retribuiu o olhar. — Eu sou uma Alquimista. Tenho certa familiaridade com criaturas mágicas como essa.
Fiquei impressionado com a facilidade que ela tinha pra mentir.
— Muito bem — suspirou Franz. — Vamos levar a falsa princesa imperial. Depois, quero que me conte sobre esse laboratório destruído. Quero investigar assim que puder, mas no momento não temos pessoal suficiente. Por mais que eu não goste de admitir, não temos recursos pra mais do que a operação atual em Kreat. Não podemos trazer muitos cavaleiros pra uma terra estrangeira sem arriscar um incidente diplomático.
Parecia que o Franz tava atolado de trabalho. Dava pra ver o cansaço no rosto dele. Já era responsável pela segurança do imperador, agora tinha que lidar com isso também. Não devia estar sendo fácil.
— Oh, uma operação em Kreat? Tem algo acontecendo? — perguntei.
— Hm? — Franz franziu a testa e me encarou desconfiado. — A Associação não falou com você sobre isso? É sobre a Chave da Terra.
Tinham dito que a Fox tava tramando algo, mas não entrei nos detalhes.
Pera. Chave da Terra?
— Agora que mencionou, você é um colecionador de Relíquias, né? Sabe de alguma coisa?
Em resposta, saquei a Chave da Terra da bainha. Deixei a luz refletir na lâmina ornamentada. Talvez ela não fosse feita pra combate, mas era muito bonita de se ver.
— Mmm, nem eu sei muito sobre ela. Tem uma num museu, talvez você possa perguntar lá?
Franz me olhava em silêncio, totalmente atônito. Fiquei feliz que ele tenha reconhecido que eu era um colecionador, mas o mundo das Relíquias era profundo demais. Mesmo com ela nas mãos, eu não conseguia dizer muito além do óbvio: era algo especial.
Foi então que percebi que os olhos de Franz estavam quase saltando das órbitas. Movi a Relíquia, e o olhar dele a seguiu.
Guardei a espada e sorri para ele. Pensei em mencionar o museu de novo.
— Essa aqui está além até do meu conhecimento. Tem uma no museu—
—P-POR QUE VOCÊ TEM ISSO?! — ele berrou.
Uma organização que havia crescido lentamente nas sombras foi, pela primeira vez desde sua fundação, lançada ao caos.
A dedicação deles ao sigilo fazia com que seus membros estivessem quase sempre no escuro. A Fox operava com um sistema onde agentes de diversas regiões reportavam à sede; a sede investigava cuidadosamente e então disseminava informações apenas quando necessário. A maior parte da comunicação era feita por Pedras Sonoras, e os agentes não sabiam onde a sede ficava.
Esse sigilo rigoroso era uma das razões pelas quais a Fox havia conseguido permanecer tão elusiva. Mas agora, esse mesmo traço estava se voltando contra eles.
As forças-tarefa da Fox tinham certa autonomia, já que contatar a sede era um processo complicado e a organização preferia manter a comunicação ao mínimo, a menos que fosse uma emergência.
—Produzindo tofu frito? Que tipo de operação é essa?
—Recebemos um relatório de Galf dizendo que está tudo correndo como o esperado.
—Descobrimos que estão em contato com outras organizações, até mesmo com antigos inimigos.
—Deve fazer parte do plano dele. Aquele homem é cauteloso. Embora eu ache que está indo longe demais.
Na base operacional responsável pela capital imperial e áreas vizinhas, os especialistas estavam tendo dificuldade para organizar o fluxo de informações vindas dos colaboradores.
—Recebemos informações de que houve um atentado à hospedaria que abrigava o Primeiros Passos. Qual equipe fez isso?!
—Uma falsa princesa imperial apareceu?
Qualquer informação relevante exigia tempo para ser processada, mas aquilo estava demais. Enquanto nenhum relatório vinha da equipe em campo, presumiam que estava tudo sob controle. Mas aquela era a maior trama da Fox até então. Se desse errado, todas as outras operações seriam impactadas.
O atentado à hospedaria já era um problema, mas a princesa imperial falsa? Tofu frito? Isso não podia ser ignorado.
—Enviem uma equipe — disse uma voz carregada de tensão. — Algo pode estar acontecendo. E descubram qual idiota de pesquisador criou uma cópia da princesa imperial! Já fomos pegos de surpresa pelos vazamentos durante o fracasso da Contra Cascata, não podemos permitir outro!
Alguém se levantou e disse:
—Comunicação de emergência do chefe. Acredita-se que a equipe Kreat foi infiltrada!
Todos empalideceram ao ouvir essas palavras malditas. Por um instante, ninguém quis acreditar.
—Como é que é?
A Fox era extremamente criteriosa com seus membros. Galf era experiente, forte, carismático e um bom líder. Difícil pedir mais. Apesar de um pouco ambicioso demais, era meticuloso e conhecido por quase nunca ter que sair de seus planos, e por isso havia sido escolhido para liderar uma missão tão importante. Ele tinha até permissão para ter uma Donzela Sagrada da Raposa em sua equipe.
—Ele não é do tipo traidor. Será que alguém enganou ele e conseguiu se infiltrar no time?
Impossível. Galf não confiava em estranhos. Só confiava em membros da própria organização. No entanto, pensando bem, havia algo estranho no caso da Contra Cascata. Aquele homem era um assassino habilidoso demais para ser parado por alguém que não soubesse dos seus planos com antecedência, sem contar que ele havia escondido seus verdadeiros poderes até dos próprios companheiros de clã. Isso levava a uma única conclusão:
—Será possível? Será que alguém de dentro da organização nos traiu?!
A sala caiu em silêncio na hora.
Um dos resultados do sigilo da Fox era que poucos membros sabiam que não havia apenas um chefe. Existiam vários comandantes com aquelas máscaras especiais. Cada um deles supervisionava uma grande área e se comunicavam regularmente entre si para definir os rumos da organização.
Galf era o mais cauteloso possível, e Telm tinha sido um caçador de Nível 7, mas ambos haviam sido superados. Um caso isolado até podia ser ignorado, mas duas vezes? Tinha que haver um motivo. Os dois desconfiavam de estranhos; se foram derrotados, só podia ter sido pelas mãos de um traidor. E o pior: havia pouquíssimos membros da Fox com autoridade suficiente para dar ordens a membros de alto escalão sem levantar suspeitas.
Essa operação podia decidir o futuro da organização e ampliar consideravelmente a influência do chefe na região imperial. Conflitos internos existiam em qualquer organização, não importava quando ou onde. Até agora, a Fox tinha conseguido evitá-los.
—O que vamos fazer?
—Isso está além das nossas capacidades. O chefe já deve ter percebido.
Se o operador estivesse certo, a culpa não era de Galf. A identidade dos chefes era mantida em segredo e sua autoridade era absoluta e incontestável. Foi assim que chegaram onde chegaram.
—O chefe disse que temos que recuperar a Chave da Terra a qualquer custo.
—Hm?! Droga. Entrem em contato com Galf imediatamente. Mas não deixem ele saber a verdade, não podemos correr o risco do traidor descobrir que estamos no rastro dele. Ainda dá pra consertar isso!
Sem a Chave da Terra, essa operação não podia seguir. Se ela não fosse recuperada, a missão estava condenada. Se estourasse um conflito interno, a organização ficaria paralisada e as perdas seriam grandes. Mas já era tarde demais para parar o que estava vindo.
Os operadores se recuperaram do choque e começaram a agir. O ar na sala havia mudado. Um conflito brutal estava diante deles — e se aproximando.
Fazia tempo desde o meu último encontro com o grande potentado.
— A Chave da Terra foi recuperada, então? — ele disse após ouvir o relatório de Franz. Notei sua sobrancelha se contraindo ao se virar para mim. — Os rumores não fazem jus a você. Mas com isso e a cópia da Murina, não consigo entender como tudo se encaixa.
— Eu consideraria uma coincidência, Vossa Majestade Imperial — respondi.
Franz me lançou um olhar dizendo claramente para eu guardar esse pensamento para mim, mas eu estava sendo honesto.
— Agradeço a você, por isso e por orientar minha filha. Farei questão de preparar outro presente como sinal de gratidão, embora isso tenha que esperar até que a situação esteja resolvida.
— E-Eu não fiz nada de mais.
De fato, não fiz mesmo. O único destaque aqui era a trapaça da Sitri.
Sitri, você é incrível! Ninguém mais jamais foi agradecido por espremer o sangue da princesa imperial e fazer uma cópia dela!
Enquanto eu lutava com minha culpa, Sitri deu um passo à frente e disse com total confiança:
— Foi em Zebrudia que nos tornamos caçadores. É natural que façamos o que pudermos pelo império que nos formou.
Eu queria arrancar a língua dela. Essa Sitri era o tipo de Sitri em quem não dava pra confiar nem pra pegar um copo de água.
Depois de ouvir suas platitudes, o imperador disse:
— Entendo. Você é Sitri Smart, não é? Ouvi dizer que é uma grande Alquimista.
— Estou profundamente honrada, Vossa Majestade Imperial. Mas, comparadas às habilidades de Krai, as minhas parecem ínfimas e insignificantes.
Para com isso.
Talvez ela estivesse fazendo isso por minha causa, mas eu já estava farto dessas exaltações sem sentido.
— Hmm. A propósito, posso perguntar qual é o seu relacionamento com o Mil Truques?
— Sou esposa dele.
Sem nem pensar, dei um tapa na parte de trás da cabeça dela. Franz e o imperador ficaram boquiabertos.
Ah, agora eu fiz besteira. Mas pera aí. Tudo que ela falou até agora foi mentira!
Tentei parecer o mais imponente possível e joguei tudo pra debaixo do tapete.
— Chega de piadas por hoje. Vamos ao que interessa.
— Ah. De fato. Franz.
Franz deu um passo à frente. Sitri ficou séria, como se eu não tivesse acabado de dar um tapa nela.
— Vamos começar do começo — disse Franz. — Em certos círculos, a Chave da Terra é classificada como uma arma de classe um. Quando foi descoberta, suas capacidades eram incertas e ela foi doada a um museu. No entanto, a verdadeira natureza da Relíquia foi revelada após o achado de alguns registros literários sobre ela.
Uma arma de classe um. Eu tinha quase certeza de que isso era coisa séria. Existia uma quantidade imensa de Relíquias, mas armas de classe um eram praticamente inexistentes. Isso significava que a Chave da Terra estava na mesma categoria que a Fortaleza Flutuante. Coisas assim eram o motivo de eu achar Relíquias tão fascinantes. Devido ao seu potencial destrutivo, informações sobre Relíquias como essa eram mantidas em sigilo. Exceto no caso da Fortaleza Flutuante, que era tão grande que era impossível esconder.
O que diabos uma Relíquia dessas tá fazendo num museu?
— O motivo da Chave da Terra ter permanecido no museu foi a imensa quantidade de mana que ela exige — disse Franz. — Ninguém é capaz de carregá-la. Caso outro exemplar apareça, é prática comum tratar Relíquias assim como se fossem itens inofensivos. O que nos leva à pergunta: como aqueles desgraçados conseguiram essa informação?
— Hã? Ninguém consegue carregar?
— Correto. Segundo os registros descobertos, na época da Chave da Terra original, existia uma ferramenta feita especificamente para armazenar energia, e ela guardava mais energia do que um ser humano seria capaz de gerar.
Isso estava começando a soar como um daqueles casos em que uma Relíquia precisa de várias partes pra atingir seu verdadeiro potencial, mas só uma delas havia se manifestado. Acontecia de vez em quando, mas sinceramente, eu não sabia pra que serviria guardar tanta energia assim.
Relíquias não eram necessariamente idênticas às ferramentas históricas em que se baseavam. Eu tinha ouvido que muitas dessas ferramentas originais nem usavam mana. E se a ferramenta de carregamento exigisse tanta energia quanto a Chave da Terra, seria como colocar a carroça na frente dos bois. Essas considerações provavelmente foram o motivo de a Relíquia ter permanecido no museu.
— Entendo — disse, com um aceno de cabeça. Agora fazia sentido o Luke não ter conseguido carregar a espada.
Ah. Não. Quem carregou foi a Lucia.
— A Lucy usou o rabo e minhas poções — sussurrou Sitri, animada. — Ela estava determinada a carregá-la.
Agora não era a hora de me contar isso.
— N-Não me diga — disse Franz, com uma voz que parecia ter saído dos abismos do inferno. Ele deve ter percebido. — Foi você que carregou?
— Eu nunca disse isso!
— Tá suando feito uma cachoeira! Acha que eu nasci ontem?! Acha mesmo?!
A voz estrondosa dele fez meus ouvidos zumbirem, mas eu simplesmente não sabia o que dizer. Em meio à sua fúria, ele tentou me agarrar, mas foi impedido por uma mão pequena e pálida. Os olhos de Franz se arregalaram. A mão era da princesa imperial falsa. As criações da Sitri sempre eram leais, mas esse não era um bom momento pra mostrar isso!
— Calma — falei. — Tá bom, eu carreguei. Mas já foi, não tem como voltar atrás.
— E-Então você carregou mesmo?! Como?!
— Se você tem uma Relíquia, é normal tentar carregar, ué. Arnold, Ark, o Inferno Abissal, todos fariam o mesmo! Qualquer caçador de tesouros faria!
Franz estava vermelho como um tomate.
— Não tenta mudar de assunto!
Eu não fiz nada de errado. Se tem algo errado aqui, é, é… a natureza dos caçadores de tesouro!
— Não tem nada de ilegal em carregar uma Relíquia — falei, desesperado pra provar minha inocência.
— Você tá tentando matar a gente, por acaso?!
— Eu não sabia que era tão perigoso assim.
—Não minta pra mim! O Mil Truques, artífice super-humano! Clarividência que beira a precognição e uma rede de informações que cobre todo o império! Não tem como você não saber! Você devia ter percebido só pela quantidade de mana que isso exigiu! Se continuar fingindo, eu te jogo na cadeia!
Não consegui evitar e falei o que pensei. —Nossa, você tem uma opinião bem alta sobre mim.
—Aaaagh! —ele gritou.
Nada de bom podia sair de nobres imperiais acreditando nesses boatos absurdos. Eu era um cara com menos sorte que a princesa imperial.
Sem saber o que fazer com Franz naquele estado, o imperador voltou seu olhar desconfiado pra mim. —Você diz que carregou isso, mas, pelo que sei, nem cem Magos do Espírito Nobre juntos conseguiriam. Como foi que—oh, por acaso você conseguiu a Relíquia usada pra carregar isso?
—Hm?
Vendo minha expressão surpresa, ele franziu a testa e apertou a ponte do nariz. —Você está me dizendo que um humano carregou isso? Isso é possível? Céus…
—E-Este homem é especial, Vossa Majestade Imperial! —Franz se apressou em completar.
Hmm. Entendi.
O imperador era um guerreiro renomado, mas até ele parecia perdido. Essa Relíquia não era brincadeira. Sinceramente, como o Clube de Fãs da Máscara de Raposa (nome provisório) conseguiu algo tão perigoso assim? Vou ter que perguntar pro Galf quando o vir de novo.
Eu adorava Relíquias. Gostava de usar, gostava de colecionar e até aceitava ficar em dívida com a Sitri em nome das Relíquias. Mas eu gostava de achar que ainda tinha um mínimo de bom senso.
Mantendo-a na bainha genérica, tirei a espada do cinto e a entreguei para o Franz. —Agora entendi. Pegue. Vou deixar com você.
—Hm?!
No instante em que viram a Chave da Terra, o imperador deu um passo pra trás e Franz se colocou na frente dele. Sitri olhou para ela horrorizada, e tenho quase certeza de que ouvi a princesa imperial falsa dizer “Mata, mata.” Eu era o único que estava tranquilo.
—V-Você está diante de Sua Majestade Imperial, não vá só…
—Eu já disse, tô entregando pra você.
—Não aponte isso pra mim, seu cretino! Por favor, Vossa Majestade Imperial, saia da sala por segurança!
Me chamou de cretino?!
Durante essa troca rápida, cavaleiros invadiram a sala.
—Não toquem na chave! Se ela for ativada, essa terra será devastada! Prendam ele!
Ahhh, que droga, o que eu devia fazer?
Realmente, não havia nada melhor que o mundo humano. Ela nunca tinha saído do cofre de tesouros antes, mas sabia que seu instinto estava certo. Para a Raposinha e os outros fantasmas da Peregrine Lodge, os humanos eram seres inferiores, mas também idiotas adoráveis. Naturalmente, essa visão só se aplicava aos humanos que eles conseguiam enganar, mas os que eram fortes (ou burros) o bastante pra não cair nas armadilhas da Raposinha eram poucos e raros. Lá em Toweyezant e agora nesta cozinha, ela estava cercada de oportunidades.
Sob ordem de Galf—mais uma vítima da fantasma—um monte de adultos fortões cozinhavam em frigideiras, com os olhos totalmente sem vida. A garota de manto branco olhava incerta para a Raposinha. Essa menina era aparentemente uma humana que adorava a Mãe Raposa como uma deusa.
A pequena fantasma não sabia que existiam adoradores antes, mas o que esses tolos faziam não era problema dela. Esses humanos eram supostamente parte de alguma organização secreta com uma grande missão, mas nada disso importava pra Raposinha. Comer tofu frito conseguido na base da enganação era o bastante pra satisfazer seu paladar e seus instintos. Isso era a suprema felicidade.
Bateram à porta e ela se abriu. Raposinha estava assumindo a forma do Senhor Cautela, o homem venerado por Galf. As raposas espectrais tinham mais de uma habilidade, mas assumir a forma de outras pessoas era sua especialidade. E ela não virava qualquer Senhor Cautela, não—ela se transformava naquele homem todo-poderoso que Galf acreditava que ele fosse.
Ela brincava com um pedaço de tofu frito moldado como uma máscara de raposa e olhava para Galf com total complacência. —Aconteceu algo?
—Nosso trabalho tá indo bem, chefe —ele respondeu. —Mas recebemos uma mensagem estranha da sede…
Como descendente de uma deusa, a Raposinha tinha um QI muito acima de qualquer humano. Ela não tinha dificuldade alguma pra entender esses seres inferiores e conseguia usar seus idiomas com facilidade. Com uma inteligência dessas, enganar humanos era fácil demais.
—Não importa —disse ela com firmeza. —Seu chefe é o Senhor Cautela. Suas ordens não vêm da sede, vêm de mim.
—Senhor Cautela?
—Mas eu sei o que eles querem. E se eles querem, podem ficar. Isso aqui era só uma peça reserva mesmo.
A Raposinha pegou um pedaço de tofu frito fumegante de um prato atrás dela. Em um piscar de olhos, transformou o tofu naquilo que o Galf queria—uma Chave da Terra, ainda quente. Ele pegou e se atrapalhou um pouco, soltando um gemido.
—Tá quente! O que houve—
—Foi só esquentado demais, só isso. Agora pega. Isso deve satisfazer a sede.
Galf pareceu desconfiado por um instante, mas agradeceu e saiu da sala. Os humanos eram mesmo tolos. Galf até que era competente, pro padrão humano, mas não sabia diferenciar tofu frito de uma Relíquia.
Os disfarces da Raposinha eram bons o suficiente pra enganar o mundo inteiro se usados direito, mas ao mesmo tempo, podiam ser percebidos por qualquer um com um pouco de habilidade. Com o tempo, eles iam perceber que tinha algo errado, mas um truque só terminava de verdade quando a vítima percebia que foi enganada.
Satisfeita com a tolice das raças inferiores e com a qualidade do próprio disfarce, a Raposinha riu sozinha. Flutuando de costas, tirou seu Smartphone, quando algo lhe ocorreu. O Senhor Cautela vinha usando um pedacinho de tofu frito disfarçado de Smartphone como se fosse um de verdade. Quanto tempo será que ia levar até ele perceber o truque?
O que essas pessoas querem de mim, afinal?
Arrastei meu corpo cansado pelas ruas de Kreat. Eu não estava nem um pouco satisfeito com o resultado da minha audiência com o imperador — tinham enfiado a Chave da Terra em minhas mãos. Eu não conseguia entender o propósito de me fazer carregar algo tão mortal. Nada de bom vinha com um nível alto.
Apesar da minha carranca, Sitri estava de ótimo humor.
— Acho que dar a Relíquia para você foi uma decisão muito perspicaz! — disse ela. — Fico tão feliz que aceitaram os Experimentos nº 1, 2 e 3. Só espero que minha pesquisa seja útil pra você.
Que idiota sem noção disse pra ela virar Alquimista?
Não havia nem um pingo de malícia nos olhos dela, e algo em sua expressão fazia com que parecesse alguns anos mais jovem do que o normal. Era um rosto que enganaria quase qualquer um. Eu queria dar um soco nela, mas aquele bom humor dela tornava isso difícil.
— É… — foi tudo o que consegui dizer.
— Se tiver algo te preocupando, posso te ouvir.
Eu tinha tantas preocupações que dava pra fazer uma liquidação de preocupações, e uma delas estava bem na minha frente. Mas a que mais me incomodava era a Chave da Terra, que alguma organização secreta queria pôr as mãos. Aparentemente, o ataque ao museu tinha a ver com isso. Felizmente, o museu estava bem; poucas pessoas sabiam que eu tinha uma segunda chave. Mas mesmo que fosse só enquanto eu estivesse em Kreat, não tinha certeza se conseguiria manter essa coisa segura.
Sitri levou um dedo pensativo aos lábios e disse:
— Sabe, uma espada que atrai calamidades parece ter várias aplicações interessantes.
O jornal não havia listado do que a Chave da Terra era capaz, mas Franz e sua galera descobriram. Resumindo, era uma Relíquia que descarregava energia. Enquanto a espada Historia do Ark conseguia reunir energia e liberá-la com uma força aterrorizante, a Chave da Terra era mais voltada para dano em área.
Essa não era uma habilidade incomum em Relíquias do tipo espada, mas segundo escritos antigos, a Chave da Terra podia rasgar o chão, romper o céu e submergir ilhas. Era quase inacreditável.
— Quer que eu fique com ela? — ofereceu Sitri com um sorriso.
A tutela da Sitri estava fora de cogitação, assim como a dos meus outros companheiros. Se eu entregasse pra Liz ou alguém assim, iam sair brandindo a espada e dizendo algo como: “Ah, é perigosa assim? Como se usa? Assim?”
Soltei um suspiro, e no meio da multidão, vi um homem familiar. Era o Galf. Devia não estar no clima da máscara, porque não estava usando uma dessa vez. Tenho certeza de que trocamos olhares, mas ele desviou o olhar logo em seguida.
— Eeeei, Galf! — chamei, acenando com a mão. — Aqui!
Galf se contraiu, mas continuei acenando. Eventualmente, ele veio até nós, com uma expressão de quem estava sofrendo.
— Chefe — sussurrou ele —, melhor a gente não…
— Justo o cara que eu queria ver. Tenho essa chave aqui, sabe…
— Por que você tá com ISSO?! Achei que tivesse devolvido!
Como ele sabe que eu tentei devolver? Ah, tanto faz.
— Não entendi direito, mas acabou voltando pra mim. Me mandaram guardar, mas será que posso deixar com você?
Galf ficou atordoado por um momento, depois me lançou um olhar desconfiado.
— Voltou pra você?! B-Bem, eu acho… Claro, posso ficar com ela…
Então bati o punho na palma da mão. Tirei a máscara de raposa.
— Ah, é mesmo. Ótima hora. Aqui, como prometido.
O rosto de Galf congelou. Ele claramente não esperava por isso. A máscara era, no fim das contas, só um drop de dungeon. Talvez fosse algo especial, mas o valor disso passava direto por mim. Tinha certeza de que ela estaria mais feliz com o Galf. Só que o cara ficou branco que nem papel. Ele parecia durão, mas talvez fosse meio mole por dentro?
— E-Essa máscara. Mas ainda não terminei o trabalho. Ainda não sou digno…
Ele falava de forma desconexa, como se estivesse confuso.
— Não, você já é mais do que digno! — falei com minha voz de durão, mesmo que estivesse só inventando. — Você já me mostrou que tem o que é preciso pra ser o dono dessa máscara!
Galf ficou de boca aberta. Me ocorreu que essa máscara foi o motivo de eu ter conhecido essa galera. Eu nunca devia ter me envolvido com o Clube da Máscara de Raposa. Se não tivesse, nunca teria conseguido a Chave da Terra, a Sitri não teria criado uma princesa imperial falsa, e o Luke não teria desenvolvido essa mania de cortar pessoas aleatórias, eu não teria virado caçador mesmo sem talento nenhum, e a Tino não teria sofrido nas mãos da Liz. Tenho certeza disso.
— Quero que continue fazendo o que faz pelo Clube da Máscara de Raposa! — falei pra ele. — É melhor essa máscara estar com alguém que saiba apreciá-la. Pode ter sido coincidência eu ter conseguido ela, mas como seu predecessor, espero que você a use bem!
— M-Mas os nossos objetivos e a iniciação—
— Objetivos? Iniciação? A partir de agora, é você quem define os objetivos!
Os olhos de Galf se arregalaram o máximo que podiam.
Eu só queria me livrar disso. Menos uma dor de cabeça, mesmo que pequena.
O que foi que eu fiz mesmo? Hã? Meu erro foi não ter feito nada? Ha ha ha…
— Agora, se tiver algum problema, por que não conversa com a Sora sobre isso?
Achei que ela devia assumir alguma responsabilidade por ter dito que eu era o verdadeiro chefe quando sabia que não era. Embora eu não tivesse tanta certeza, achava que o Galf merecia mais o cargo do que um cara que mal entendia o grupo.
No fim das contas, nunca descobri o que o Clube da Máscara de Raposa realmente faz.
Galf me olhou em silêncio, mas por fim assentiu.
— Seria uma honra, chefe.
Estava decidido. Agora só faltava pedir para meus amigos ajudarem a proteger a Chave da Terra, e depois devolvê-la quando o império estivesse pronto para recebê-la de volta. Tinha certeza de que a mulher piromaníaca daria conta dos raposas do mal.
— E agora, o que vai fazer, chefe?
— Hmm. Ainda tenho um trabalho pra terminar, mas acho que vou relaxar um pouco e assistir às batalhas.
Eu não sabia quão forte a princesa imperial tinha se tornado no fim das contas, mas fizemos tudo o que podíamos por ela. Estava ansioso para ver como Luke, Krahi, Touka e o resto se sairiam no torneio. Podia me sentar com uma pipoquinha e curtir as lutas com a Tino.
Galf assentiu com a cabeça, então olhou para a Sitri, que estava ao meu lado.
— Aliás, se não for incômodo perguntar… qual é a sua relação com a senhorita aí do lado?
Percebi que, embora ela tivesse ajudado na busca pelos bandidos, os dois ainda não tinham sido devidamente apresentados. Eu não sabia bem o que dizer, mas a Sitri respondeu por mim.
Sorrindo, ela juntou as palmas das mãos e disse:
— Sou a esposa dele.
A essa altura, ela tava só pedindo pra apanhar.
Uma voz exasperada e carregada de desdém encheu a sala fracamente iluminada. “Nunca imaginei que o Galf fosse um idiota. Primeiro a Cascata Reversa, agora isso. Nunca considerei possibilidades como essa.”
Em algum lugar de Kreat, havia um esconderijo conhecido apenas por alguns poucos membros da Fox. Dentro dele, um punhado de figuras sombrias se reuniu, todas usando máscaras de raposa. Sentado ao centro, estava um jovem com uma máscara branca de raposa e um manto que se fundia com as sombras ao redor. Sua postura era relaxada, mas sem nenhuma brecha. Seu físico não era impressionante, mas ele tinha um carisma natural que podia impedir uma briga antes mesmo de começar. Como sua posição no centro sugeria, ele era um dos membros mais altos da Fox.
— Chefe, aquele homem pode ser competente, mas no fim das contas ainda era só o líder de um bando de ladrões. Pode ser que alguém esteja explorando algum ponto fraco dele. Não acho que ele seria burro o suficiente pra te trair sem um bom motivo.
— Que vergonha. Essa operação vai decidir o futuro da nossa organização, e agora pode fracassar. Ou será que o inimigo jogou melhor do que a gente?
Nenhum dos outros da Fox respondeu às palavras frias. Enganar alguém tão cauteloso quanto o Galf e interferir nos relatórios exigia informações que não deveriam vazar e uma lábia de prata refinada. Algo claramente estava errado.
Alguém do nível do Galf não confiaria em um estranho sem um sinal muito convincente. Eles ainda não sabiam o que era esse sinal, mas teriam que interrogá-lo a fundo assim que tudo terminasse.
— Eles se desviaram do plano várias vezes e os subordinados do Galf estão todos fazendo tofu frito, aparentemente por ordem de alguém. A sede está em caos, e tem gente até suspeitando de interferência de outro dos Raposas Brancas. Que bagunça ridícula.
As palavras do chefe sugeriam que ele confiava em seus aliados, mas seu tom era congelante.
— A única coisa boa que vejo nisso tudo é que a Chave da Terra foi devolvida ao Galf — continuou ele. — Hmph. É o mínimo que poderiam fazer, suponho.
— Então não dá pra contar com reforços da equipe do Galf — acrescentou um dos Fox.
— Vamos mudar o plano. Não podemos simplesmente recuar agora que fomos feitos de idiotas.
Fazer tofu frito. Quem teve essa ideia? Isso ia além de deboche. O chefe não sabia como o Galf foi convencido a aceitar aquelas ordens, mas isso pouco importava — ele já não era mais necessário.
— Nosso inimigo ficou confiante demais. Vamos partir para o ataque. Reúnam todas as equipes da área e prendam o Galf e o pessoal dele. Se resistirem, matem. Não preciso de imbecis nas minhas fileiras.
A Fox limitava seus membros aos melhores dos melhores. Eliminar uma equipe inteira era como arrancar um braço. Era uma ordem sem precedentes, mas nenhum dos outros Fox sequer pestanejou. As ordens do chefe eram absolutas. Os outros podiam até ter opiniões, mas jamais desobedeceriam.
Olhando para a caixa que continha a Chave da Terra, o chefe disse em voz baixa:
— Eu cuido do Festival do Guerreiro Supremo. Não preciso de suporte. Todos os outros devem se dedicar à nossa vingança contra Zebrudia. Não sei o que o Mil Truques está tramando, mas vamos ensinar a ele o que significa ficar no nosso caminho.
Como ele enganou o Galf? Aquele sujeito irreverente da Pedra Sonora era mesmo o caçador infame que dizia ser? As duas perguntas ainda não tinham resposta. Mas todos estavam certos de que o Mil Truques era o responsável pelo fracasso da Cascata Reversa e do Chamador de Dragões.
Mil Truques, Nível 8. Se ele não fosse impedido agora, provavelmente continuaria atrapalhando os planos da organização. O chefe planejava esmagá-lo com as próprias mãos, diante de várias testemunhas. Assim que sua vingança se completasse, a reputação do império seria abalada e sua influência, reduzida.
— Finalmente, nossos sonhos vão se tornar realidade. O nome Fox será gravado nas almas de todos os que nos resistiram… e dos que ainda nem ouviram falar de nós. Vão, meus companheiros de confiança! Vamos deixar nossa marca no Festival do Guerreiro Supremo.
A primeira coisa que notei ao entrar no cômodo foi uma atmosfera pegajosa e gordurosa, mas ao mesmo tempo perfumada. A cozinha que a Sitri tinha conseguido agora estava totalmente convertida numa fábrica de tofu frito. Pensar que chegamos a esse ponto. Eu sei que pedi uma cozinha, mas isso ainda estava bem longe do que eu imaginava.
Caixas de madeira estavam empilhadas por todo o lugar. A Sitri tinha preparado os ingredientes iniciais, mas claramente tinham conseguido mais. Olhei pra ela, que balançou a cabeça. Em tão pouco tempo, a Sora e sua turma devem ter arrumado um fornecedor.
Ao notar nossa chegada, Sora levantou os olhos da frigideira. Não havia nem um pingo de vida no olhar dela.
— Por ordens do Galf, expandimos a operação. Os subordinados dele estão na segunda e terceira cozinhas.
P-Passamos do ponto sem volta. Isso tudo começou numa brincadeira. O que aconteceu? Vocês não têm freios?
Também havia uma pessoa que era idêntica a mim, mas usando uma máscara e flutuando no ar. Eu nem sabia o que dizer sobre aquilo. Um sorriso estava colado no rosto da Sitri. Sora seguiu meu olhar e seus olhos quase saltaram das órbitas.
O outro eu me notou e tirou a máscara, revelando um sorriso niilista muito mais estiloso do que qualquer coisa que o eu verdadeiro conseguiria fazer. — Ora, ora. Não vou perguntar quem é você, meu falso. Parece que se divertiu bastante usando meu rosto.
O quê?
Olhei para minhas palmas abertas. — Eu sou… o falso?
— Esse aqui é o verdadeiro! — guinchou a Sitri, enroscando os braços ao meu redor.
O eu descolado nos observou brevemente com um olhar levemente divertido, então abraçou os joelhos com petulância. Eu não entendi nada.
Tudo parecia mais confuso do que valia a pena, então me virei para a Sora e fui direto ao ponto. — Sora, eu dei a máscara pro Galf.
— Hã?! Quê? Eh. Por quê?!
Sora estava atônita. O jeito como olhava de mim para o eu que abraçava os joelhos mostrava que ela não conseguia entender o que estava vendo. Tudo bem; eu também não conseguia.
— Parecia que ele queria, e eu não precisava — falei. — Achei que você devia saber. Espero que consiga continuar daqui.
— Hã?!
Achei que todos continuariam se dando bem com a Touka e o grupo dela, então não me preocupei com isso. Missão cumprida!
T-Tô brincando. Vou ficar de olho no Luke e na Liz, então para de me olhar com esses olhos cheios de lágrimas.
— Tô indo pra casa — disse o eu verdadeiro, ainda abraçado aos joelhos.
Num piscar de olhos, o eu verdadeiro virou a Raposinha.
— Hã?! — gritou a Sora.
Ahh, entendi.
Sendo raposas aberrantes, não me surpreendia que fossem capazes de assumir outras formas. Mas por que ela assumiu a minha era um mistério total.
— O quê? S-Só um momento! — choramingou Sora, com as bochechas tremendo. — P-Por quê?!
— Tô entediada.
— Entediada? Você tá entediada?! E-Eu devo fazer o quê agora?!
A Raposinha só suspirou, indiferente aos apelos da Sora. — Não seja tão obtusa. Isso aqui já não me anima mais. Acabou. Vou fazer turismo e depois pra casa. Valeu pelo tofu frito.
Que garota irresponsável. Mas, embora fosse fácil esquecer, ela era só uma fantasma.
Enquanto Sora permanecia parada, em choque, a Raposinha desapareceu. Anotei mentalmente de ter uma conversa com o irmão dela depois.
— O que foi que acabou de acontecer?! — gritou Sora.
— Ela é egoísta — falei. — Mas é uma fantasma, então fazer o quê?
— Hm?
Por que eu?
Sora estava no limite. Nada fazia sentido. Ela precisava de mais tempo pra processar aquilo tudo.
Hmm, então se ele tiver razão, aquilo era uma fantasma? Hm? Isso significa que a Raposa Branca também era uma farsa? Um mau pressentimento acelerou o coração dela, e arrepios subiram pela sua nuca. Não, não, não, não.
Quantas máscaras brancas autênticas existiam?! Ninguém tinha dito que isso podia acontecer. Onde foi que tudo desandou? Quando o Mil Truques conseguiu uma máscara? Quando ela o reconheceu como chefe só por causa da máscara? Ou foi por não ter admitido o erro?
Havia só uma resposta. Em uma sala agora vazia, ela gritou em voz trêmula, para ninguém além de si mesma.
— E-Eu não cometi erro nenhum! Digo isso com convicção! Nosso chefe, a Raposa Branca, deu a ordem de fazer tofu frito, então eu fiz! Se o chefe disser que vamos conquistar o mundo com marmitas, é dever da sacerdotisa obedecer! O chefe não deve ser desafiado! Questionar é proibido! Fiz o que estava ao meu alcance, portanto não errei em nada!
A Raposa Falsa disse que aquela garota era uma fantasma. Isso só podia significar uma coisa: aquela garota não tinha apenas conseguido uma máscara, ela era uma cria da raposa sagrada. Se fosse verdadeira, isso explicaria o rabo e a aura inumana. Normalmente, encontrar um descendente do divino seria motivo de alegria… mas não nesse caso.
E agora, o que Sora devia fazer? Tendo herdado uma máscara de uma impostora, Galf agora era um dos chefes? Ou não? Pensando de forma convencional, ele não era. Se aquela garota fosse uma das chefes da organização, até dava pra argumentar que o Galf herdou o título, mas ela era só uma fantasma.
Tentando não surtar, Sora concluiu que as coisas dificilmente podiam piorar. Ela estava especialmente irritada pelo fato da raposa fantasma ter entrado em contato com a organização através da Pedra de Som! Isso já tinha passado do ponto de recuperação.
Ela sentia que a organização estava passando por uma grande mudança, e ela não passava de mais uma vítima arrastada pela correnteza. Mas o dado estava lançado, e ela tinha o dever de ser uma figura mística e infalível. Não havia espaço para uma Donzela que cometia enganos, então Sora não admitiria erros nem pediria desculpas.
Fugir não era opção. Ela não tinha dinheiro, não conhecia o mundo, e não havia como escapar da organização. Tudo que podia fazer agora era cumprir a vontade do deus. Com dedicação sincera, continuou a fazer tofu frito. O deus havia dito para conquistar o mundo desse jeito. O que viesse depois não importava. Ela era uma sacerdotisa leal, não uma líder.
Ouviu passos do lado de fora da porta. Pareciam de alguém andando com confiança. Sora bufou. Provavelmente era o Galf. Que pena que ele tinha recebido uma máscara autêntica de um chefe falso. Em certo sentido, ele era uma vítima ainda maior que Sora, já que nem sabia que aquele jovem era um impostor. Pelo que ela sabia, Galf era tão ignorante quanto ela — talvez até mais.
Mas agora que ele tinha uma máscara autêntica, ele era um dos chefes e tinha todas as responsabilidades que vinham com isso. Era assim que essa organização funcionava. Não havia espaço pra dúvida.
A porta se abriu e Galf entrou, usando a máscara. Sora respirou fundo e retomou seu dever original, algo que não fazia fazia tempo.
— Ó Raposa Branca — disse com austeridade —, conforme ordenado, estamos nos transformando em uma produtora de tofu frito. Deseja que continuemos nesse rumo?
Sora manteve a cabeça baixa. Diante do objeto de sua adoração, ela não podia erguer a cabeça sem permissão. A Raposa Branca, que um dia foi rei entre os ladrões, permaneceu em silêncio por alguns segundos.
A Donzela da Raposa Sagrada ajoelhou-se diante de Galf. Mas suas palavras o pegaram completamente de surpresa.
— A-Ah, sim — gaguejou ele.
Ele finalmente havia ascendido a uma posição importante dentro da organização, mas nunca se sentiu tão perdido em relação ao que estava acontecendo. O chefe tinha dito para ele perguntar os detalhes à Sora, mas ela não parecia estar mais informada do que ele.
Era um segredo aberto entre os membros de alto escalão que havia várias Raposas Brancas. Isso significava que, mesmo com o título de “chefe”, ninguém podia descansar sobre os louros. Se Galf não garantisse seu território rapidamente, as outras Raposas Brancas poderiam começar a se intrometer em seus assuntos. Ele ficou surpreso por receber a máscara sem nenhum tipo de iniciação, mas talvez esse fosse o teste. Se não conseguisse lidar com isso, então não era digno do título.
O olhar de Sora estava fixo nele. Galf supôs que, como Donzela, ela havia crescido isolada, mas ao seu modo, estava determinada a cumprir seu dever. Nesse caso, Galf deveria fazer o mesmo.
Vamos começar avaliando o—
Antes que pudesse terminar o pensamento, a Pedra Sonora de emergência em seu bolso começou a vibrar. Aquilo seria a iniciação? Agarrando-se àquele último fio de esperança, levou a pedra ao ouvido.
— Galf Shenfelder da Sétima Cauda. Você é suspeito de ter caído em um plano inimigo e colocado a organização em desvantagem. A partir de agora, você e seus subordinados estão dispensados de suas funções. Um mensageiro está a caminho. É melhor que obedeça.
Foi um raio em céu limpo. Antes que Galf pudesse responder, a conexão foi cortada. Ele olhou para Sora. Visivelmente tensa, ela evitava contato visual.
— Essa máscara é inegavelmente autêntica! — ela insistiu. — Os olhos de uma Donzela não se enganam. Você é uma Raposa Branca!
Do que ela está falando?! Isso não pode estar acontecendo! “Plano inimigo”, foi isso que disseram?!
Galf era um membro leal da Fox, e foi justamente por isso que sempre obedeceu às ordens, por mais estranhas que fossem. Ele não tinha o mesmo fervor religioso das Donzelas, mas ser da Fox era muito mais lucrativo do que liderar um bando de Ladinos, e ele sabia muito bem o quão aterrorizantes os chefes podiam ser. Nunca havia cometido um erro grave em missão.
Suor frio escorria. Ele queria explicar o que tinha acontecido, mas sabia que isso não funcionaria. Se o que aquela pessoa na Pedra Sonora disse era verdade, então o que ele fez ia além de um simples erro. A Fox não era uma organização conhecida por perdoar. Mesmo que Galf não tivesse intenções traidoras ou cometido erro algum, poderia ser silenciado por causa disso. A falha de Telm parecia insignificante em comparação, e o timing só tornava tudo pior, já que vieram logo após a tentativa fracassada de assassinato.
Galf forçou sua mente a pensar, mesmo em meio à confusão. Precisava encontrar o melhor caminho. Considerou a posição do chefe, da organização, de Sora e dele mesmo. Analisou as cartas que tinha em mãos para ver como poderia usá-las a seu favor. Galf não cairia sem lutar.
Havia apenas uma opção, e ele se comprometeu com ela. A organização poderia agir a qualquer momento, então precisava se mexer rápido.
— A sede deve estar confusa se está suspeitando de alguém que possui uma máscara — disse ele para Sora.
— Acredito que esteja certo — respondeu ela, após uma pausa.
— Parece que um dos nossos se voltou contra a gente. Não sei quem é, mas teremos que arrancá-lo pela raiz.
— Acredito que esteja certo — repetiu Sora, após uma pausa ainda mais longa.
Então ela já tinha percebido, em parte. Droga.
A intuição de Galf dizia que o contato da sede era legítimo e que o chefe é que era falso. Isso explicava por que tudo parecia tão esquisito. Deveria ter substituído Sora por uma Donzela mais experiente.
Mas agora era tarde para arrependimentos. O trunfo de Galf era que a máscara era genuína. Se a notícia ainda não tivesse se espalhado, ele ainda teria alguma influência na cidade onde passou tanto tempo se estabelecendo. Faria com que todos subissem a bordo do seu navio antes que percebessem que ele estava afundando. Suas chances de vitória eram mínimas, mas era tudo o que restava.
— Eu determino nosso curso! Reúna quantos membros conseguir por perto e prepare-os para o combate!
Sora olhou para ele com os olhos arregalados. — Como desejar!
Galf queria dar um tapa nela, mas sabia que não podia fazer isso. Enquanto ela mantivesse o status de Donzela, ele e Sora estavam fadados ao mesmo destino, para o bem ou para o mal. Tinham algumas organizações criminosas do lado deles, entre outras vantagens. Iria tirar o máximo proveito antes que percebessem o que realmente tinha acontecido!
***
Era o último dia antes do Festival do Guerreiro Supremo e a cidade estava mais fervorosa do que nunca. Abafei um bocejo e continuei minha rotina de checar o jornal, quando de repente meu sono foi embora num piscar de olhos.
— Hm? Hã. Hoje promete ser agitado.
A matéria descrevia brevemente um incidente em Kreat na noite passada. Pra minha sorte, a cidade estava perfeitamente tranquila desde a minha chegada, mas agora eu começava a ver que as coisas realmente podiam sair do controle nessa época do ano. Não achava que havia necessidade de compensar o caos perdido, mas quase parecia que estavam esperando o início do festival pra isso.
— A Princesa Murina estava envolvida nisso. Ou é o que eu acredito — disse Lucia. Ela já estava totalmente recuperada e carregava minhas Relíquias. — Luke e os outros ficaram empolgadíssimos.
— O quê? Por quê?
A matéria dizia que o incidente provavelmente foi um conflito entre duas organizações criminosas. Luke adorava uma boa briga e andava com saudade de um pouco de pancadaria, então não duvidava nada que ele tivesse se metido num conflito que não tinha nada a ver com ele. Mas a Princesa Murina? Será que meus amigos tinham sido uma má influência pra ela? Ou talvez ela tivesse uma sede de sangue ainda maior que a da Princesa Matadinho?
— Estão bem ocupados, mesmo com o torneio sendo amanhã — comentei. — Será que já estão todos prontos?
Parecia mais uma batalha de verdade do que um aquecimento.
Lucia soltou um suspiro exasperado e me entregou um panfleto todo enfeitado.
— Isso é o que eu gostaria de dizer pra você. Você sabe que vai ser o primeiro a lutar, né?
Olhei pro panfleto e vi a chave do torneio. Piscando, li em voz alta o que Lucia estava apontando.
— Krahi Andrihee versus Krai Andrey?
Quantos caras com o mesmo nome que o meu existem por aí?
— Krahi, você realmente devia tomar cuidado lá fora — disse Kule Saicool, o cérebro do grupo e o mais paranoico de todos.
Krahi assentiu.
— Sim, eu sei.
Os outros membros do grupo o observavam com preocupação.
Kutri Smyat, a Ignorável, a Alquimista mal-humorada do grupo, estava jogada numa cadeira, pernas cruzadas e cigarro na boca.
— Não tem nada de errado em correr, sabia? — disse ela, num tom simpático, o que era raro vindo dela. — Só de ter se classificado pro Festival do Guerreiro Supremo já é coisa grande. Não acho que você vá apanhar feio nem nada, mas também não quero te ver saindo quebrado. Se você for mesmo participar, então meu dinheiro vai no outro cara.

—Hã?! Meu irmão nunca perderia! — gritou Lusha. — E eu achava que havia regras contra membros do grupo apostarem em qualquer um que não fosse o líder—
—Sempre existem alternativas, e você não precisaria que eu te explicasse isso se não fosse tão ingênua. Agora, e se o Krahi vencer? Ele pode estar cutucando um ninho de vespas! Pode até ser que o Krahi seja mais forte que o oponente… Mas Lusha, você com certeza não é.
Lusha ficou sem palavras diante da franqueza de Kutri.
—Isso não é verdade! Além disso, você não é melhor que a Sitri!
—E não tem nada de errado nisso. Conhecimento é o que faz um bom Alquimista — Kutri exibiu um sorriso sombrio. — E eu sou fácil de ignorar.
Krahi não entendia muito bem sobre o que elas estavam falando, mas já tinha percebido que seus companheiros de grupo tinham um tipo único de camaradagem que ele não compreendia totalmente. Não comentou nada sobre isso, apenas ficou feliz que se davam bem. Mas havia uma coisa que ele precisava deixar bem clara.
—Kutri, eu não vou fugir. Eu sei que avançar no torneio não vai ser fácil, mas caçar tesouros não é sobre seguir o caminho fácil. Eu não poderia me chamar de caçador se fugisse diante do desconhecido.
Krahi tinha seu orgulho; jamais cogitaria fugir ou manipular uma luta. Mesmo que morresse, não se arrependeria dessa decisão.
Kutri estalou a língua.
—Sabia que você ia dizer isso. Faça o que quiser. Mas se perder, quero permissão pra me retirar.
—Ele continua tão sério como sempre — disse Izabee com um suspiro cansado. — Enquanto isso, a gente aqui se chamando de ‘Smyat’.
—Heh. Já é tarde demais pra começar com isso agora que estamos procurando por um irmão, minha querida irmãzinha.
—Isso porque a sua imitação é rasa demais.
Krahi seria o único a subir no palco, mas todos pareciam nervosos. Avançar no Festival do Guerreiro Supremo lhes renderia reconhecimento, mas uma derrota humilhante faria deles motivo de chacota. Krahi interpretava esse desconforto como sinal de que ainda não havia conquistado totalmente a confiança do grupo.
—Não se preocupem — disse ele. — A luta de ontem foi o melhor aquecimento que eu podia ter. Estou mais forte do que nunca.
Mas que luta foi aquela, afinal? Krahi não fazia a menor ideia. Nunca tinha sido convocado de forma tão repentina só pra ser jogado no meio de um caos sangrento. Tinha muitos aliados ao seu lado, mas o mesmo valia pros caras do outro lado. Foi a primeira vez que participou de uma batalha em larga escala, e teve vários momentos por um triz, mas agora estava mais forte por ter saído vivo daquilo.
A confiança de Krahi vacilou ao olhar a tabela do torneio.
—Nunca imaginei te ver no torneio, Krai. E pensar que você manteve isso em segredo. Que duplicidade.
A primeira luta seria entre dois caras com nomes quase idênticos. Krahi não conseguia evitar a sensação de que o destino tinha metido o bedelho nisso. Os participantes eram escolhidos pelos organizadores do torneio. Aceitando que Krai entrou no torneio… quais as chances de colocarem ele logo contra o Krahi na primeira rodada?
Que sujeito misterioso. Apesar de parecer tão fraco, ele tinha uma porção de conexões e a amizade de gente muito capaz. Dava pra dizer que ele era o oposto exato de Krahi. Segundo Kule e os outros, Krai tinha um título. E não apenas isso — era um bem parecido com o dele.
—“Andrey”. Que nome engraçado — ele riu. — “Mil Truques” é uma referência a mim?
—Ei, Kule, esse cara tá bem da cabeça?
—Krahi é um guerreiro. Raramente se interessa pelos outros.
Krahi mal lembrava da última vez em que alguém o intrigou tanto. Com a completa ausência de material de mana em Krai, Krahi nem conseguia estimar o quão forte aquele homem era. Mas, mesmo que fossem conhecidos, mesmo que Krai fosse um fã seu, Krahi não pegaria leve. Acreditava que dar tudo de si seria o mínimo de respeito.
E ao pensar nisso, Krahi percebeu que tinha começado a sorrir. Era um sorriso que ia de orelha a orelha.
Pelo amor de tudo, os assentamentos humanos eram lugares barulhentos demais. A vila no deserto e o cofre de tesouros onde ela cresceu até eram barulhentos, mas nada comparado a essa cidade agora que o festival estava chegando.
As ruas estavam lotadas, mas ninguém olhava para certa silhueta. Ela estava lá, isso era um fato, mas simplesmente passava despercebida por todos. As raposas fantasmas do Peregrine Lodge praticamente se definiam pela habilidade de enganar humanos. Mas agora, a Raposinha havia terminado de brincar com essa cidade. Já tinha enganado algumas pessoas pra fazerem tofu frito e manipulado uma organização estranha. Ia sentir falta das porções generosas de tofu frito, mas podia repetir o truque se quisesse mais depois.
Essa descendente divina era volúvel; só se envolvia com humanos quando dava na telha.
E agora, o que faria? Voltaria pro Peregrine Lodge? Ou talvez praquela vila no deserto? Estava cantarolando sozinha enquanto andava pela rua quando de repente se deparou com um pedaço de papel no chão. Era a tabela do Festival do Guerreiro Supremo.
A Raposinha não sabia muito sobre o mundo humano, mas já tinha captado a essência daquele torneio lendário por conversas que ouviu por aí. Era uma competição de luta. Achava tolice esses seres inferiores disputarem pra ver quem era o mais forte quando obviamente nenhum deles chegava aos pés da Mãe Raposa.
Folheando a tabela, a Raposinha viu um nome conhecido.
—Krai Andrey contra Krahi Andrihee?
Krai Andrey. Nomes humanos não significavam nada pra ela, mas esse ela jamais esqueceria. Mais do que isso — ele era o inimigo natural do Peregrine Lodge. Derrotou um dos fantasmas do cofre numa batalha de inteligência e fugiu com algumas das partes mais valiosas — duas das caudas. Até a Raposinha foi afetada quando ele a forçou a aceitar um armistício.
Aquele homem não tinha o menor respeito por ela. Sua linhagem divina não permitia aceitar a derrota tão facilmente, mas ele era perigoso demais pra ela enfrentar sozinha.
—Interessante — sussurrou ela após alguns instantes encarando o quadro. Sua mente rápida já começava a formular um plano. Embora estivesse prestes a voltar pra casa, agora via uma chance de se vingar do Senhor Cautela.
Ela não podia atacá-lo diretamente, mas havia várias formas de fazer um humano dançar conforme sua música. Desta vez, ele conheceria o inferno, saberia o que era ser enganado. Ela o faria se arrastar, e depois o forçaria a escovar sua cauda. Sua fama como caçador seria manchada.
Tradução: Carpeado
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Tradução feita por fãs.
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