Grieving Soul â CapĂtulo 3 â Volume 7
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire
Light Novel – Volume 07 – CapĂtulo 3:
[As Artimanhas do Mil Truques]
Apesar de ser assim todos os anos conforme se aproximava o Festival do Guerreiro Supremo, Gark ainda ficava surpreso com o clima festivo em Kreat. As ruas, grandes e pequenas, estavam absolutamente lotadas. Os portĂ”es da cidade estavam entupidos de recĂ©m-chegados. O fluxo de caçadores, mercadores e turistas de todas as partes tornava esse o perĂodo mais movimentado do ano para a cidade. TambĂ©m era a Ă©poca mais instĂĄvel, fazendo com que alguns moradores locais decidissem ir para outro lugar durante sua duração.
â Movimentado como sempre â resmungou a velha Magus dentro da carruagem. â Quando vejo multidĂ”es de lixo como essa, me dĂĄ vontade de incinerar todo mundo.
Sentada de frente para Gark estava a mulher temida como o Inferno Abissal. Ela tinha as bochechas encovadas e dedos ossudos, mas suas Ăris cor de carmesim cintilavam como as chamas do inferno. No que dizia respeito Ă simples aniquilação em larga escala, ninguĂ©m em Zebrudia se comparava a essa bruxa. Ela tambĂ©m estava banida de participar do Festival do Guerreiro Supremo, jĂĄ que certa vez destruiu a barreira que deveria proteger o pĂșblico.
â VocĂȘ tem um senso de humor cruel, Rosemary â disse Gark a ela.
â Admito â respondeu ela com uma risada baixa â, essa atmosfera prĂ©-batalha nĂŁo Ă© ruim. Todo guerreiro Ă© compelido pelo instinto a buscar ser o mais forte. NĂŁo acha que os participantes estĂŁo cada vez melhores? Ouvi dizer que a quantidade de material de mana em circulação tem aumentado.
â Mas a maioria dos Magi nĂŁo sĂŁo pesquisadores?
â Esse Ă© um equĂvoco comum, senhor Gerente de Filial. Ir para o campo de batalha Ă© uma Ăłtima forma de avançar nas pesquisas. Se eu nĂŁo tivesse sido banida, eu mesma estaria lĂĄ. Talvez a Associação dos Exploradores devesse protestar um pouco mais contra essa proibição?
Considere sua idade, sua velha bruxa, pensou Gark, soltando um suspiro. Mas, claro, nĂŁo disse isso em voz alta.
O maior prĂȘmio oferecido pelo Festival do Guerreiro Supremo era a glĂłria. AlguĂ©m que jĂĄ tinha alcançado o NĂvel 8 nĂŁo deveria mais precisar disso. Gark atĂ© poderia simpatizar com ela se nunca tivesse participado do torneio, mas alĂ©m de jĂĄ ter competido, ela havia se tornado uma lenda.
Gark estava além da exasperação. Os Magi modernos eram bem mais tranquilos comparados aos do passado. Mas era só por comparação mesmo que a geração atual podia ser considerada calma.
â VocĂȘ nĂŁo precisa se preocupar, Rosemary. Quer vocĂȘ goste ou nĂŁo, provavelmente vai chegar um momento em que precisaremos do seu poder.
â Heh heh heh. E aqui estamos, no Festival do Guerreiro Supremo. Esses pirralhos devem estar levando isso a sĂ©rio se estĂŁo de olho em um prĂȘmio tĂŁo grande. VĂŁo fazer uma boa lenha. Uma pena que Telm nĂŁo estarĂĄ entre eles.
Apenas alguns dias antes, as investigaçÔes minuciosas da Associação dos Exploradores haviam conseguido identificar uma das pontas do rabo da raposa. Depois de revistarem os aposentos de Telm e Kechachakka, conseguiram descobrir qual funcionĂĄrio da Associação havia colocado Kechachakka na lista. Utilizando uma RelĂquia de valor incalculĂĄvel, conseguiram decifrar um documento criptografado.
Essa operação atual parecia ser de uma escala sem precedentes para a Fox, o que tambĂ©m permitiu Ă Associação perceber sua existĂȘncia. O impĂ©rio e a Associação nĂŁo tinham muitas pistas, mas nĂŁo precisavam de muito para justificar ir atrĂĄs de uma organização que jĂĄ havia tentado assassinar o imperador.
A investigação forneceu duas frases-chave: âFestival do Guerreiro Supremoâ e âChave da Terraâ. A primeira era bastante conhecida, mas a segunda era desconhecida para Gark. No entanto, o mesmo nĂŁo se aplicava aos agentes do impĂ©rio. Quando Gark lhes entregou o relatĂłrio, eles entraram em ação imediatamente e atĂ© solicitaram a ajuda da Associação. No entanto, Kreat nĂŁo era territĂłrio imperial, o que limitava suas opçÔes.
Rosemary sorriu ao ler o jornal.
â Veja sĂł, Gark, meu garoto. Aqui diz que a taxa de criminalidade em Kreat caiu. Suspeito, nĂŁo Ă©? Mudanças de tendĂȘncia nunca sĂŁo um bom sinal â isso Ă© o silĂȘncio antes da tempestade. â O sorriso dela se alargou, e ela lançou um olhar afiado a Gark. â Muito ousado da parte daquele garoto quebrar a promessa. Desde que ele chegou Ă capital imperial, andam dizendo que eu me acalmei. NĂŁo espero que ele entregue informaçÔes de graça, mas vou ter que perguntar o que exatamente inspirou sua partida repentina.
A coincidĂȘncia de timing era praticamente impossĂvel. Entregar uma Fox jĂĄ derrotada, para depois simplesmente partir rumo ao local do prĂłximo plano, era um ato de descortesia. Mas Gark entendia por que o Mil Truques havia feito isso. O gerente da filial nĂŁo sabia como Krai havia conseguido suas informaçÔes, mas sabia que os mĂ©todos de um estrategista batiam de frente com os de uma bruxa que resolvia tudo com fogo infernal. Sem contar que sua Ășnica contenção, o Contrafluxo, jĂĄ nĂŁo estava mais com ela.
â Aquele homem tem seu prĂłprio jeito de pensar â disse ele.
â Hmph. NĂŁo vou carbonizĂĄ-lo. NĂŁo imediatamente, nĂŁo enquanto ele tiver aquela irmĂŁ com complexo de irmĂŁo. Nada de bom sairia de uma batalha entre Maldição Oculta e Lucia Rogier, a Grande Magus. Ainda temos gente que estamos tentando recrutar para o nosso clĂŁ.
Lucia, alguém acabou de te insultar feio, pensou Gark.
Rosemary o encarou brevemente com seus olhos reluzentes antes de dar de ombros e dizer:
â Acho que devo isso a ele por causa de Telm. NĂŁo gosto, mas vou colaborar com ele sĂł desta vez.
â Rosemary, vocĂȘ estĂĄ se acalmando?
â Heh heh heh. Bem dito, Gark, meu garoto. â Houve um alvoroço do lado de fora da carruagem. Rosemary olhou na direção do barulho. â Caçadores tĂȘm cada um sua especialidade. As armaçÔes daquele garoto nĂŁo sĂŁo o que eu chamaria de normais. NĂŁo Ă© sĂł que ele tem Ăłtimos companheiros, nem que consegue ver o futuro. Ă estranho, mas alguns talentos monstruosos simplesmente desafiam a compreensĂŁo.
Ela quase parecia estar falando consigo mesma.
Ainda nĂŁo havia se manifestado, mas uma tempestade estava se formando no Festival do Guerreiro Supremo.
Agora que jĂĄ tinha passado um tempo com eles, perguntei para a Touka o que achava do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa (nome provisĂłrio). Ela me olhou com certa dĂșvida e disse:
â Reconheço que sĂŁo profissionais, embora um tanto esquisitos. Onde foi que vocĂȘ os encontrou?
Foi uma avaliação impassĂvel. Touka era uma das poucas amigas que nĂŁo me levavam ao pĂ© da letra sĂł porque eu era NĂvel 8. NĂŁo fiquei muito surpreso ao ouvir que o Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa sabia o que estava fazendo. Eu tinha um bom faro pra gente.
â Ă uma longa histĂłria â eu disse pra ela. â Se vocĂȘs estĂŁo se dando bem, entĂŁo tĂŽ satisfeito.
â Os inimigos de hoje sĂŁo os amigos de amanhĂŁ. Mas o contrĂĄrio tambĂ©m Ă© verdade. Os Cavaleiros da Tocha jĂĄ trabalharam com gente legalmente duvidosa antes, mas eu apreciaria ser informada desses detalhes com antecedĂȘncia.
TĂĄ, aqueles caras eram bem suspeitos mesmo, mas esse nĂvel de ceticismo me pareceu bem grosseiro. Embora eu tivesse que admitir que a aparĂȘncia durona deles provavelmente era o motivo da Sora ter sentido que nĂŁo podia admitir o erro pra eles. Eu entendia o desejo dela de virar o rosto pra verdades desagradĂĄveis, mas como o mais velho entre nĂłs, senti que tinha que fazer algo pela sacerdotisa.
â Calma, Touka â disse Sitri. â JĂĄ conversei com vocĂȘ sobre isso. O Krai nĂŁo tem problema nenhum em manipular criminosos pra se beneficiar. A possibilidade de vocĂȘ ter que trabalhar com foras da lei foi detalhada no seu contrato.
Touka afundou num silĂȘncio rabugento. Quanto recurso serĂĄ que a Sitri tava investindo nela? E que Krai era esse que ficava por aĂ manipulando criminosos? Eu sempre era o lado manipulado da histĂłria.
â Muito bem â disse Touka. â Se paga bem, eu topo. Usar o que temos disponĂvel Ă© um dos nossos princĂpios. Mas nenhuma oferta Ă© boa o suficiente pra me fazer lutar contra a Espada Proteana.
Luke, vocĂȘ deve ter irritado ela de verdade.
Quanto mais forte o oponente, mais empolgado ele ficava, o que diminuĂa sua capacidade de se segurar. Ele nĂŁo surtava nem nada, mas era revelador que fosse tĂŁo temido quanto a Liz. No momento, ele jĂĄ tinha enjoado de ficar no alojamento como eu e saĂdo com a Liz e outros. Provavelmente tava procurando alguĂ©m pra espancar.
Da prĂłxima vez, nĂŁo traz a maldita princesa junto!
â Esse foi sĂł um encontro entre eu e alguns dos membros principais deles â continuou Touka. â Da prĂłxima vez, vou trazer meu grupo e conversar com mais detalhes. Sei que devemos nos ajustar ao estilo deles, mas o que exatamente vocĂȘ espera conseguir?
â Certo, ahm, vocĂȘ pode levar o Luke e a Liz com vocĂȘ?
Touka nĂŁo pareceu nem um pouco satisfeita. â Isso por acaso Ă© uma das suas Mil ProvaçÔes? â Todo mundo jĂĄ tinha ouvido falar disso? â E quem Ă© Ponta?
â Ahn… a princesa imperial de Zebrudia?
â Isso era pra ser uma piada?
O olhar gélido da Touka fez meu coração pular uma batida. Definitivamente não era o tipo de cara que se faz pra um cliente.
Bem, na remota chance de algo acontecer com ela, a gente vai se ferrar bonito. Cuida bem dela, tĂĄ?!
Sitri bateu palmas, sinalizando mudança de assunto, e disse:
â Agora, Touka, conseguiu a informação que eu pedi?
â Informação? â perguntei.
â Pedi pra ela investigar os outros participantes do Festival do Guerreiro Supremo. Se eu quiser vencer, tenho que fazer tudo o que for possĂvel.
Ela estava mirando alto. Os oponentes em potencial incluĂam gente como o Luke e a Lucia, e eu achava que uma classe geralmente nĂŁo-combatente como a de Alquimista estava em desvantagem nesse torneio, mas ela nĂŁo deixava isso desanimar. O sorriso encantador da Sitri arrancou um raro, embora meio forçado, sorriso da Touka.
â Nossa â disse ela â vocĂȘ me pede isso quando eu tambĂ©m vou…
â Isso nĂŁo tem relação com essa transação â interrompeu Sitri.
â Muito justo. E nada Ă© mais precioso do que uma cliente generosa.
Elas se davam bem, com certeza. Se ao menos os outros Grieving Souls tivessem metade da habilidade social da Sitri. Nem preciso falar do Luke e da Liz, mas apesar da aparĂȘncia, a Lucia era bem tĂmida.
Touka endireitou a postura e mandou um dos seus buscar um dossiĂȘ. Ela o abriu sobre a mesa e falou como se estivesse nos contando um segredo.
â Hmm, bom, vamos começar pelo mais interessante. Chefe, o seu falso vai participar.
â NĂŁo, esse sou eu mesmo.
Como eu esperava, Touka me encarou boquiaberta antes de virar para os membros do grupo dela.
A nossa pousada não deixava nada a desejar. O quarto era espaçoso, bem ventilado e a comida era deliciosa. O banheiro era grande e a sala de estar, linda. Me joguei no sofå, lendo um jornal que tinha sido entregue direto no quarto, e soltei um grande bocejo. Tava tranquilo, mais do que o normal até.
Quando ouvi dizer que as coisas ficavam agitadas na época do torneio, eu tinha certeza de que seria arrastado no meio da confusão, mas a sorte aparentemente estava do meu lado. No entanto, isso deixou o nosso cortador de gente com tempo sobrando.
â Raaaah!!! Essa Ă© minha nova tĂ©cnica: LĂąmina Seccionadora! MORRA!
â Cuidado! Luke, vocĂȘ vai quebrar a espada! JĂĄ te falei que isso Ă© impossĂvel com uma lĂąmina de madeira!
Luke e Liz estavam aproveitando a sala enorme pra fazer umas lutas simuladas. Eu ouvia o som extraordinĂĄrio de uma espada cortando o ar, mas nĂŁo ouvia passos. Quando começaram, eu disse que aquele barulho todo ia incomodar os vizinhos e destruir o quarto. EntĂŁo eles começaram a lutar de um jeito que nĂŁo causasse bagunça nem destruĂsse os mĂłveis. AtĂ© passaram a chamar isso de treinamento furtivo.
Eu admirava a capacidade deles de se divertir com qualquer coisa, mas ainda achava que estavam perdendo o ponto. NĂŁo importa o tamanho, treinar combate nĂŁo Ă© algo que se faz dentro de um quarto de hospedaria. Por que nĂŁo iam lĂĄ fora?
Arrastada pra loucura deles, a princesa imperial soltava gritos enquanto se esquivava de um golpe atrĂĄs do outro. Se fosse sĂł pela aparĂȘncia, dava pra dizer que ela tava melhorando em lidar com os dois. Ainda era tĂmida, mas seus movimentos nĂŁo tinham nada a ver com quando nos conhecemos.
Enquanto isso, os guardas dela jå tinham desistido de tentar conter a dupla selvagem. Devem ter percebido que linguagem humana não funciona com feras. O fato de a Princesa Murina ainda não ter sofrido nenhum ferimento grave provavelmente ajudava também. Claro, isso dito com a vantagem do retrospecto!
Liz soltou um gritinho agudo e curto. Uma espada quebrada atravessou e estilhaçou a janela. Completamente perplexo, tudo o que consegui fazer foi sorrir. Nem consegui entender qual tinha sido a trajetĂłria da espada. Mal consegui acompanhar os movimentos da Liz â e com o Luke, entĂŁo, nem se fala.
Se não fossem meus Anéis de Segurança, com certeza eu teria morrido ali. Ou serå que não? Nenhum dos meus anéis foi ativado. Eu estava entre o Luke e a janela. Serå que ele conseguiu fazer algo tão esperto quanto quebrar a janela sem me machucar?
Sentada em outro sofĂĄ, Lucia levantou os olhos do livro e gritou:
â Ei! Ficar Ă toa nĂŁo Ă© desculpa pra fazer besteira dentro de casa!
â Foi vocĂȘ quem desviou da minha lĂąmina partida?! â gritou Luke. â Muito bem, Lucia!
â Tenta de novo e vai ser mais do que sua lĂąmina que vai ser partida!
Oooh, foi a magia da Lucia que desviou.
NĂŁo percebi nenhum feitiço sendo lançado, mas deve ter sido o resultado do lançamento em alta velocidade que ela desenvolveu depois de conviver com os outros Grieving Souls. Isso Ă© o que acontece quando vocĂȘ tem amigos de verdade que te incentivam a melhorar.
â E vocĂȘ, lĂder! â ela disse, olhando pra mim. â Por que ficou parado quando uma espada tava vindo direto na sua direção?!
â Porque eu tava parado?
â Aaargh!
Um sorriso surgiu no meu rosto quando percebi que talvez a Lucia realmente tivesse uma boa chance no Festival do Guerreiro Supremo.
â Senhor Krai â chamou Karen â, recebemos uma convocação de Sua Majestade Imperial. Imagino que nĂŁo tenha problema se levarmos Sua Alteza Imperial por um tempo?
â Ah, claro. O treinamento dela estĂĄ, uh… seguindo conforme o plano.
NĂŁo que eu tivesse algum plano especĂfico. A partir daqui era sĂł acumular experiĂȘncia. Isso… e rezar pra que tudo desse certo! Eu considerava um bom sinal o fato de ela estar brincando com o Luke e a Liz. Nem a Tino conseguia fazer isso sem sair gritando.
â Hmm. Se me permite ser sincera, ainda nĂŁo consigo entender o sentido dos seus mĂ©todos, mesmo depois de todo esse tempo. Mas vou repassar sua mensagem Ă Sua Majestade Imperial.
Ela estĂĄ bem mais razoĂĄvel do que quando a conheci.
â Maaas ser instrutor nĂŁo Ă© fĂĄcil â disse Luke enquanto voltĂĄvamos depois de deixar a Princesa Murina. â E ela ainda tĂĄ longe de ser chamada de forte.
â Ă, e ela continua fugindo de vocĂȘ â comentou Liz. â Mas jĂĄ me acostumei, depois de lidar com a T.
Ela tinha se acostumado, mas nĂŁo parecia estar fazendo nada a respeito.
â Mas eu prefiro nĂŁo ter que me segurar, e nĂŁo posso fazer isso enquanto estou ensinando.
â Luke, vocĂȘ mal ensinou alguma coisa pra ela! â repreendeu Lucia.
â VocĂȘ vai poder lutar livremente logo, entĂŁo pense nisso como um aquecimento â falei pra ele.
PeraĂ, entĂŁo vocĂȘ ainda tĂĄ cortando a princesa imperial durante o treino? NĂŁo corta a filha do imperador, cara!
â E pra piorar â resmungou Lucia â, a Siddy anda usando um item estranho, e o Krai mais uma vez tĂĄ calado, fazendo o que quer, entĂŁo o Ansem e eu temos que segurar as pontas como sempre.
A Sitri tå fazendo isso? à a primeira vez que ouço falar. E eu não gosto de ser colocado no mesmo saco que os malucos.
Enquanto nós quatro andåvamos pelas ruas, vi um rosto familiar entre a multidão. Ele estava vestido de preto e não era particularmente alto, considerando os caçadores de tesouros, mas seu cajado distinto e os traços bonitos chamavam atenção.
Era o eu verdadeiro. Krahi Andrihee, o Mil Artes. Sem pensar muito, comecei a acenar. Que sorte a minha encontrar com ele de novo no meio de tanta gente. SerĂĄ que ele se lembrava de mim?
â Ei, Krahi! Que bom te ver de novo!
Ele se virou. Como era de se esperar do verdadeiro, o movimento foi tĂŁo estiloso que fiquei encantado. O olhar dele sugeria que nosso encontro tinha sido uma surpresa muito agradĂĄvel.
â VocĂȘ realmente veio! â disse ele.
â Ahh, Ă© aquele cara que a Siddy comentou â murmurou Liz.
Eu jĂĄ tinha avisado pra nĂŁo falarem besteira perto do Krahi. Acusar o cara de ser falso sĂł porque nossos nomes eram parecidos era desnecessĂĄrio. E, na minha opiniĂŁo, ele era claramente o mais forte entre nĂłs dois!
A multidĂŁo naturalmente se abriu pra ele. Isso era carisma de verdade. Que cara estiloso.
â Que coincidĂȘncia! â disse Krahi, se aproximando de mim com um sorriso simpĂĄtico. â Estava justamente me perguntando se nos encontrarĂamos novamente!
Se vocĂȘ nĂŁo soubesse de nada, pensaria que ele estava falando com um amigo de dĂ©cadas. Isso devia ser resultado das habilidades sociais absurdas dele. Esse homem era impecĂĄvel.
Mas… quem Ă© essa garota agarrada no braço dele?
Colada no Krahi estava uma garota de uns quinze anos. Tinha cabelo preto preso em maria-chiquinhas, usava um chapéu pontudo preto e carregava um cajado curto na cintura. O chapéu e o cajado indicavam que ela era uma Maga, mas isso contrastava com os babados da saia e o look todo estiloso.
Parecendo um pouco incomodado, Krahi a apresentou:
â Ah, essa Ă© a Lusha Andrihee. Ela Ă© uma Maga e minha… irmĂŁ adotiva? TambĂ©m Ă© minha aprendiz. Ainda nĂŁo tem tĂtulo, mas Ă© bem talentosa.
Agora que sabia o nome dela, percebi que parecia com a Lucia, de certo modo. As caracterĂsticas marcantes eram idĂȘnticas, no mĂnimo. Minha irmĂŁ ficou em silĂȘncio, com a bochecha tremendo e o olhar frio como gelo. Essa coincidĂȘncia era inacreditĂĄvel. NĂŁo sei como descrever de outro jeito. Queria sair dali, mas ir embora sem ao menos dar um oi seria rude.
Respirei fundo e falei com a Lusha:
â EntĂŁo vocĂȘ Ă© irmĂŁ dele? Prazer em te conhecer. Sou fĂŁ do seu irmĂŁo mais velho.
Lusha sorriu como uma flor desabrochando e falou com uma voz doce como mel:
â Ahhh, entĂŁo vocĂȘ Ă© o imitador do meu onii-chan! Pode me chamar de Lusha! Sou a love-love-lover dele e futura noiva!
Tive que morder a lĂngua pra nĂŁo deixar escapar um som estranho. Virei e vi as sobrancelhas da Lucia tremendo. Ela jĂĄ tinha perdido toda a razĂŁo, e isso com certeza ia acabar em desastre. Liz tambĂ©m tremia, mas era de tanto segurar o riso.
Lusha abraçou o braço de Krahi, apertando o peito contra ele, e disse animadamente:
â Meu irmĂŁo nunca, nunca, nunca vai perder pra alguĂ©m como vocĂȘ! Ele Ă© legal, forte, inteligente e muito, muito gentil. Ele disse que quando eu for super-mega forte e uma Maga de primeira, vai se casar comigo!
Essa garota é uma peça.
Pessoalmente, eu nĂŁo tinha nada contra ela, mas a expressĂŁo da Lucia passou de raiva pra total apatia. Isso nĂŁo era bom.
â E-Ei, para com isso. â Com um olhar perplexo e visivelmente exasperado, Krahi repreendeu Lusha. Ele nĂŁo parecia envergonhado, no entanto. â Desculpa por isso. A Lusha sempre age assim, dizendo que Ă© minha irmĂŁ e tal. M-Mas ela nĂŁo Ă© mĂĄ pessoa, por mais esquisita que seja. Agora, Lusha, peça desculpas. Isso foi muito rude.
Por que ela se diz irmĂŁ dele se nĂŁo Ă©?
Minha irmĂŁzinha â que deixou de ser minha irmĂŁzinha, mesmo jĂĄ tendo sido minha irmĂŁzinha â estava prestes a explodir. Quando a Liz perdia a paciĂȘncia, a fala dela mudava completamente, mas a Lucia ficava muda quando estava com raiva. Lusha era uma chama de vela encarando uma nevasca vindo com tudo.
Lusha ficou brevemente confusa com Krahi, mas logo os olhos começaram a marejar.
â D-Desculpa. Ă que eu amo tanto meu irmĂŁo que perdi o controle…
Enquanto falava, ela olhava pra Krahi repetidamente. Não havia uma célula no corpo dela que conhecesse o conceito de vergonha.
Puxei a Lucia de lado e tentei acalmĂĄ-la.
â Relaxa, foi sĂł uma coincidĂȘncia â falei.
â CoincidĂȘncia?! â ela gritou, com o rosto vermelho e o corpo tremendo. â Como isso pode ser uma coincidĂȘncia?!
â Lucy, isso Ă© hilĂĄrio! â disse Liz.
â Nem um pouco!
Ela bateu o pé e, por algum motivo, lançou um olhar furioso pra mim. A garota que costumava me seguir por todo lado estava bem mais confrontadora, cortesia da Liz e da Sitri.
â TĂĄ bom, a Lusha Ă© bem estranha â falei â, mas nĂŁo parece ter mĂĄs intençÔes. Eu tenho certeza.
â NĂŁo tem?! Tem, sim, com certeza absoluta! Se nĂŁo tiver, aĂ Ă© que vai ser um problemĂŁo! Eu nunca falaria algo assim!
Claro que nĂŁo falaria. Eu entendo. A semelhança entre elas era sĂł no nome. Embora o Krahi fosse mais forte que eu, se a Lusha nĂŁo tivesse nenhum tĂtulo, nĂŁo parecia provĂĄvel que fosse mais forte que a Lucia.
â Ă, uh-huh. VocĂȘ nunca foi tĂŁo grudenta, nem quando era mais nova. Pode atĂ© ser aceitĂĄvel pra uma criança agir assim, mas uma adulta?
â HĂŁ? Ela nĂŁo era? Ă mesmo, Lucy? Bom, vocĂȘ nunca usou roupas fofas como essas.
Gemeu, com o rosto corado, e levou as mãos à cabeça.
Infelizmente, as duas compartilhavam vĂĄrias caracterĂsticas marcantes. Lusha nĂŁo parecia ser muito conhecida, mas se isso mudasse, ela e Lucia seriam comparadas o tempo todo.
â Ei, Krai â disse Luke, observando Lusha com atenção. â Conhecer a Lusha foi legal e tudo mais, mas cadĂȘ o meu falso? Eu faço parte dessa histĂłria?
â Eu jĂĄ falei que eles nĂŁo sĂŁo…
Parei quando vi o Krahi, com a Lusha ainda pendurada nele, abrindo caminho pela multidão até nós.
â EstĂĄ tudo bem com vocĂȘ? â ele perguntou Ă Lucia. â VocĂȘ nĂŁo parece bem. Tenho algumas poçÔes, se precisar.
Pessoas com poder e carisma tendem a se preocupar naturalmente com os outros. O eu verdadeiro era realmente impressionante. Preciso anotar isso.
â NĂŁo, ela tĂĄ bem â respondi. â Ă sĂł a multidĂŁo que tĂĄ afetando ela.
â Tem certeza que ela nĂŁo ficou ferida por ver a gente tĂŁo coladinhos, que nem pombinhos? â Lusha perguntou com um certo orgulho.
â HM?!
Ah, nĂŁo. Lucia tĂĄ encarando ela com aquele olhar de âvou te assassinar lentamenteâ.
Eu queria conversar mais, mas Lucia e Lusha juntas eram uma combinação perigosa. E pedir pra uma Lucia de mau humor carregar umas RelĂquias seria suicĂdio.
â Desculpa, a gente tĂĄ meio apressado â falei.
â Ah, que pena â respondeu Krahi. â Queria apresentar vocĂȘs ao meu grupo.
Eu queria muito isso. Precisava conhecer as irmĂŁs Smyat.
Arrastando Lusha atrĂĄs dele, Krahi olhou para a multidĂŁo e suspirou.
â Bem, tomem cuidado. Ouvi dizer que Kreat fica bem perigosa durante o Festival do Guerreiro Supremo. Os participantes estĂŁo especialmente em risco.
â Cuidado? â disse Liz. â TĂĄ falando o quĂȘ, cara? Nenhum ladino vai conseguir derrubar o Krai Baby. Ele jĂĄ tomou providĂȘncias!
â ProvidĂȘncias?
Na verdade, sĂł joguei o problema no colo de outras pessoas. Krahi olhou pro meu sorriso cheio de significado vazio e acabou assentindo.
â Entendi. Parece que tem mais coisa rolando do que parece. Isso deve ser o destino. Se nĂŁo se importarem, talvez eu possa ajudar?
Após o relatório do subordinado, Galf foi até um prédio na beirada de Kreat. Ao entrar, encontrou Sora Zohlo, a Donzela Sagrada da Raposa, cozinhando com um avental branco.
â Sora, o que significa isso? O que o chefe tĂĄ pensando?
â Isso tudo estĂĄ de acordo com os desejos da Raposa Branca.
Sora jĂĄ nĂŁo exalava aquele ar mĂstico de sempre quando usava sua tĂșnica habitual. Um cheiro delicioso tomava conta da cozinha e caixas de madeira estavam empilhadas num canto.
â Por ordens da Raposa Branca â ela disse â, estou preparando tofu frito.
â Do que vocĂȘ tĂĄ falando? Tofu frito? O que isso tem a ver com alguma coisa?!
â SĂł a Raposa Branca conhece o plano completo.
NĂŁo havia brilho algum nos olhos da Donzela. O que serĂĄ que tinha acontecido? Galf nĂŁo conseguia entender. O sigilo era um princĂpio bĂĄsico da Raposa. NinguĂ©m jamais sabia o propĂłsito total das ordens que recebia. Quando Galf ainda tinha menos caudas, tambĂ©m recebia vĂĄrias ordens sem explicação nenhuma. Mas como sabotador, nunca teve motivo pra duvidar.
E agora estavam fazendo tofu frito?
â Vai envenenar o tofu? â tentou ele.
â NĂŁo. Fui ordenada a fazer tofu frito delicioso.
â O que o chefe tĂĄ planejando?
Sora apontou pra ele.
â Tente pensar por conta prĂłpria, Galf Shenfelder! Ou estĂĄ desafiando a Raposa Branca?!
Foi a primeira vez que Galf viu ela assim. O rosto antes inabalĂĄvel agora estava coberto de suor frio e ela parecia agitada.
â E-Esquece isso. Tudo estĂĄ de acordo com os desejos da Raposa Branca.
Galf não viu outra escolha a não ser engolir suas objeçÔes. Ele nunca tinha imaginado que existia uma base como essa em Kreat, mas a cozinha parecia relativamente nova. Não achava que uma Donzela tivesse sua própria fonte de renda, então isso só podia ter sido financiado pela organização.
â A propĂłsito, Galf â disse ela, com certa hesitação â, pergunto sĂł por curiosidade mesmo… como vocĂȘ encontrou esse lugar?
â Hmph? Isso Ă© uma piada? A organização tem olhos em todo lugar.
â Se vocĂȘs sĂŁo tĂŁo bons de visĂŁo, entĂŁo como Ă© que… ah, deixa pra lĂĄ. â Sora balançou a cabeça enquanto jogava um pedaço de tofu na frigideira. â Isso tudo Ă© vontade da Raposa Branca. Olha, Galf, Ă© assim que se faz tofu frito. Por enquanto, estamos usando tofu comprado, mas vamos aprender aos poucos a fazer o nosso. Foi ordem da Raposa Branca, entĂŁoâai! Nunca cozinhei antes…
Por que nĂŁo contrataram alguĂ©m? Por que uma integrante sagrada e Ășnica da Fox estava sendo mandada fritar tofu? Era absurdamente estranho, mas Galf desistiu de tentar entender. Se foi o chefe quem ordenou, devia ser por algum propĂłsito nobre.
Enquanto observava Sora se atrapalhar com a tarefa, ouviu-se uma batida repentina na porta. Aquilo era um esconderijo da organização â ninguĂ©m apareceria ali sem motivo. Galf se preparou quando a porta se abriu.
â Soraaa, tem uma coisa que quero te perguntar.
A mente de Galf congelou. Quem entrou foi um jovem de cabelos pretos. Mas nĂŁo foi isso que o paralisou. Foi a voz dele â era a mesma do chefe.
â Chefe?
O homem se virou para Galf. Sora nem se mexeu, ainda segurando firme a frigideira.
O chefe piscou e falou com naturalidade:
â Hm? Ah, chegou em boa hora. Tenho uma missĂŁo pra vocĂȘ.
â Chefe, sua mĂĄscara! O que aconteceu com a sua mĂĄscara?!
Isso era absurdo. A Fox era uma organização secreta, e os chefes escondiam suas identidades como regra. Galf jå tinha se encontrado com alguns figurÔes e isso sempre se confirmava. Com tantos inimigos, os chefes mantinham o rosto escondido até mesmo dos outros membros.
O chefe pareceu surpreso por um instante, depois deu um sorriso sem graça.
â Ă… a mĂĄscara. TĂĄ meio quente hoje, e ela sĂł atrapalha. Foi mal, mas nĂŁo dĂĄ pra usar o tempo todo.
â O quĂȘ…
O homem estava totalmente tranquilo, nem um pingo de receio de ser traĂdo. Os figurĂ”es que Galf conhecia exalavam poder absoluto. Mas esse cara era diferente.
Galf ainda nĂŁo sabia nada sobre Ponta, mas Tsuneko com certeza era a lĂder dos famosos Cavaleiros da Tocha. Um grupo de elite que rodava o mundo em busca de recompensas altas e era conhecido pelas armaduras de tom castanho-avermelhado. A lĂder, Kongoin Touka, era praticamente a nĂȘmesis da Fox, jĂĄ tinha destruĂdo vĂĄrias subsidiĂĄrias da organização. Ela estava usando uma mĂĄscara de raposa, mas isso nĂŁo foi suficiente para enganar Galf.
Aquilo era uma prova da natureza impenetrĂĄvel do chefe. Os Cavaleiros da Tocha eram mercenĂĄrios, mas nĂŁo burros â sabiam quando um trabalho nĂŁo valia a pena. Nem uma piscina de ouro os faria se juntar a uma organização criminosa. E mesmo assim, Galf tinha visto ela usando a mĂĄscara de raposa e seguindo o chefe. A Fox atĂ© tinha colocado uma recompensa na cabeça dela, mas aquilo provavelmente era sĂł encenação.
O chefe era sem dĂșvida alguĂ©m capaz, mas andar sem a mĂĄscara era brincar com a sorte. O jovem passou por Galf tranquilamente, de costas, e espiou a frigideira de Sora.
â TĂĄ com um cheiro bom â disse ele â, vocĂȘ tĂĄ indo bem.
Sora endireitou as costas.
â V-Vossa honra, Ăł Raposa Branca! â exclamou, suando. â Ă conforme a sua vontade, da Raposa Branca!
O chefe analisou a frigideira com atenção, franzindo a testa.
â Mas Sora â disse ele com uma risadinha â, isso aĂ nĂŁo vai ser suficiente se a gente quiser dominar o mundo.
Galf quase gritou com aquela revelação repentina.
Ele quer dominar o mundo com tofu frito?! Como assim?!
â M-Me perdoe! Eu vou refazer!
â NĂŁo precisa. VĂĄ com calma. Todo mundo tem dificuldade no começo.
â C-Como desejar!
Galf queria perguntar o que o chefe estava tramando, mas nĂŁo era uma opção viĂĄvel. As identidades dos chefes eram os segredos mais importantes da organização. Havia um motivo para o rosto do chefe ter sido mantido em segredo atĂ© agora. Mesmo conhecendo sua aparĂȘncia agora, Galf nĂŁo podia deixar isso transparecer. Qualquer mudança de atitude podia ser o suficiente para ele ser silenciado.
O chefe tirou um smartphone do bolso e tirou uma foto do tofu frito, depois se virou para Galf.
â Certo, chegou em boa hora. Sobre a missĂŁo que passei pra vocĂȘs. Tenho mais reforços pra vocĂȘ. A ideia era a Touâ a Tsuneko apresentar eles, mas agora serve?
â Como desejar.
Galf ajoelhou-se com um joelho no chão. As ordens do chefe eram absolutas, e ele não tinha nenhuma intenção de trair a organização.
â Sem formalidade demais â disse o chefe, e se virou para a porta. â Ei, podem entrar agora.
Entrou um pequeno grupo, nenhum deles usando måscara. Um jovem elegante de cabelo escuro, uma Maga, uma Ladina de cabelo rosa e um Espadachim ruivo. Todos eles tinham aquela aura que vinha com uma grande quantidade de matéria mågica. Instintivamente, Galf buscou em sua base de dados mental e o resultado o fez prender a respiração.
O Espadachim ruivo olhou ao redor com intensidade, os olhos brilhando como uma lĂąmina afiada.
â E aĂ, quem Ă© que eu corto? Aquela mulher ali?
â Grieving Souls…? â murmurou Galf.
NĂŁo havia dĂșvidas. Ele jĂĄ tinha pesquisado sobre todos os guerreiros habilidosos. Reconheceu a Sombra Sufocada, a Espada Proteana e o Avatar da Criação. E aquele jovem… ele jĂĄ tinha falado com o chefe naquela cidade onde a Fox roubou a Chave da Terra. Aquilo sĂł podia ser o Mil Truques, o nome por trĂĄs de tantos rumores.
â Oh. VocĂȘ conhece esse pessoal?! â disse o chefe.
â Ă claro que conheço â respondeu Galf.
Era impossĂvel. InacreditĂĄvel. Ele piscou vĂĄrias vezes, mas a cena diante dele nĂŁo mudou. NĂŁo havia nenhum grupo que o Raposa temesse mais do que os Grieving Souls. Acreditava-se que eles haviam destruĂdo diversas subsidiĂĄrias menores, alĂ©m da Serpent, rival da Raposa que agora estava extinta. Recentemente, o Mil Truques haviam interferido na operação de roubo da RelĂquia. Esse grupo definitivamente nĂŁo era aliado da Raposa, mas estavam pisando em um territĂłrio onde o bom senso nĂŁo se aplicava.
Se quiser enganar seus inimigos, comece pelos amigos. Até onde ia aquele blefe? Eles tinham agido sob ordens da Raposa quando derrubaram a Serpent? E o incidente com Telm? Serå que ele era um traidor que os Grieving Souls eliminaram? E o mesmo valia para Kechachakka?
Um furacĂŁo de suposiçÔes girava na mente de Galf, mas ele nĂŁo podia afirmar nada com certeza. Tudo estava perfeitamente encoberto. Mas ele sabia que, se aquele grupo estivesse do seu lado, entĂŁo tudo era possĂvel. Nem mesmo a Associação de Exploradores suspeitaria de traição por parte dos Grieving Souls. Mas o que o chefe estava planejando ao reunir tantas figuras formidĂĄveis? Galf nĂŁo conseguia parar de tremer.
O chefe sorriu e então disse a coisa mais absurda até agora:
â Muito bem, acho que posso deixar isso com vocĂȘs. Ah, Ă© verdade. Se isso der certo, vou te dar a mĂĄscara.
Enquanto me ouvia, Galf ficou com cara de confuso do inĂcio ao fim. Sei lĂĄ, acho que ele queria muito a mĂĄscara ultra-rara. Saiu da sala cambaleando como se estivesse sonĂąmbulo, e Liz, Luke e Krahi foram atrĂĄs dele. Eu fiquei com a Lucia, que mantive por segurança.
Como se estivesse tentando evitar pensar em outra coisa, a Sora estava colocando cada grama da sua força de vontade na frigideira. Quando o tofu frito ficou pronto, ela desligou o fogo e veio até nós. De perto, dava pra ver que ela estava pålida.
â O-O que vocĂȘ tĂĄ pensando?! â ela disse. â Vai entregar aquela mĂĄscara sagrada?!
â Bom, nĂŁo Ă© como se eu precisasse dela.
â VocĂȘ… vocĂȘ estĂĄ planejando me trair depois de tudo isso?!
NĂŁo era justo colocar desse jeito. Aquela mĂĄscara era sĂł uma lembrança pra mim. Ela merecia estar com alguĂ©m que entendesse seu valor. Entregar aquilo deixaria o verdadeiro âRaposa Brancaâ irritado? Esse nĂŁo era meu problema.
AlĂ©m disso, eu sĂł entrei nessa confusĂŁo toda por causa do Clube dos FĂŁs da MĂĄscara da Raposa (nome provisĂłrio) e o sistema deles. NĂŁo era justo me culpar sĂł porque eu tinha, por coincidĂȘncia, a mesma mĂĄscara que outro membro. E quando eu sugeri que a gente pedisse desculpas, foi a Sora quem recusou a ideia. Mas talvez fosse porque pedir desculpas nĂŁo levaria a lugar nenhum.
De braços cruzados e com aquele olhar irritado de sempre, Lucia encarava Sora.
â Chefe, o que vocĂȘ aprontou dessa vez?
â Eu ainda nĂŁo fiz nadaâ
â Ainda nĂŁo, Ă© isso? EntĂŁo vocĂȘ planeja fazer alguma coisa?! â Sora interrompeu. â Ă Raposa Branca, vocĂȘ Ă© um deus! UM DEUS!
â Me lembra a T â comentou Lucia, completamente imune Ă s bobagens infantis da Sora. Ela jĂĄ estava acostumada a ser jogada no meio do caos. NĂŁo Ă© pra me gabar, mas eu era o nĂșmero um em situaçÔes sem sentido, e Lucia podia confirmar isso.
â Decidi! â Sora apontou o dedo pra mim. â Se mais loucura vier aĂ, entĂŁo eu devo reunir as outras Sacerdotisas ao nosso lado!
â A-Aham. Certo.
â Todos seguirĂŁo o nosso caminho! E a mĂĄscara nĂŁo serĂĄ transferida! Eu nĂŁo permitirei! NĂŁo importa o que digam, vocĂȘ Ă© o verdadeiro Raposa Branca! Eu sĂł segui meus ensinamentos! Se hĂĄ algo errado, Ă© o mundo inteiro!
â A fĂ© Ă© uma coisa assustadora.
Que jeito maluco de se livrar da culpa.
Essa garota é mesmo uma sacerdotisa? Nunca vi uma assim. Serå que ela tå bem? Escuta, a culpa é sua, não minha. Como eu faço pra impedir que isso vire um desastre completo?
â Observe-me, Ăł Raposa Branca! Eu, Sora Zohlo, expandirei nossas fileiras! Se vocĂȘ ordenar, todas nĂłs faremos tofu frito!
Algo me dizia que jå tinha passado do ponto de não-retorno. Talvez aquela måscara fosse amaldiçoada. No momento seguinte, a porta se abriu silenciosamente.
â O quĂȘ?! HĂŁ?!
Sora ficou paralisada. Lucia boquiaberta. Meu cĂ©rebro congelou. Quem entrou, sem fazer barulho algum, foi alguĂ©m que eu achava ter deixado pra trĂĄs em Toweyezant â a Raposinha. Ela entrou calmamente, examinou o quarto, olhou pra mim, pra Sora, depois pra Lucia. Sem dizer nada, passou por nĂłs e olhou dentro da frigideira. Sem hesitar nem um pouco, pegou um pedaço de tofu meio queimado.
Comeu em silĂȘncio, entĂŁo disse:
â Queimou demais. Oitenta pontos.
Ah. Ela veio depois de ver a foto que eu mandei. Pra um fantasma, ela Ă© bem ativa.
Depois de passar uma noite quase inteira sem dormir, torturada pela incerteza, Sora acabou seguindo o orgulho que tinha como Sacerdotisa. O propósito original das Sacerdotisas da Raposa Sagrada era servir aos deuses raposa e a qualquer um escolhido por eles. Até então, os escolhidos sempre haviam se tornado os chefes da organização, mas fazia muito mais sentido apoiar alguém que tivesse obtido a måscara diretamente do que alguém que só a tivesse herdado.
Justo quando Sora começava a achar que tinha sido enganada, o novo Raposa Branca mudou de ideia de repente e disse que iria conversar com o chefe. O novo Raposa Branca era um homem assustador, capaz de desequilibrar até a Sora, mesmo com seus anos de treinamento mental rigoroso. Ainda assim, ela duvidava que ele pudesse vencer o chefe.
Ela não sabia o que o novo Raposa Branca planejava dizer. Sabia, no entanto, que a organização não deixava informaçÔes vazarem. Eles jamais deixariam o Mil Truques em paz depois que ele tentou se passar por um dos chefes. O Mil Truques estava subestimando a Raposa.
Sora sentia que aquela era a hora de agir, antes que o chefe entendesse a situação. Ela era uma Sacerdotisa, uma figura com posição especial na organização. Perderia tudo se descobrissem que ela confundiu alguém com um chefe, mas até lå, ainda tinha um pouco de autoridade. Ainda tinha cartas na manga.
Detestados por adorar deuses aberrantes, os ancestrais de Sora haviam se aliado ao primeiro chefe assim que viram que ele usava uma mĂĄscara de raposa. Desde entĂŁo, a Raposa Branca se tornou uma luz guia para as Donzelas Sagradas da Raposa.
Dizia-se que vĂĄrias pessoas dentro da organização possuĂam mĂĄscaras de raposa branca. Mas agora, alguĂ©m havia aparecido com uma mĂĄscara obtida diretamente dos prĂłprios deuses. Isso provavelmente marcava um ponto de virada para a organização.
Sora dizia a si mesma que nĂŁo podia se enganar sobre quem deveria apoiar. Por mais aterrador que fosse o destino que a esperava â mesmo que todos fossem exterminados â ela seguiria a vontade dos deuses.
Mas no instante em que pÎs os olhos na coisa real, toda aquela fé e determinação desmoronaram.
Seu cĂ©rebro se recusava a processar o que estava vendo. Aquela mĂĄscara era definitivamente autĂȘntica. Ela sentiu seu coração parar por um breve instante. O ar ficou preso na garganta, o corpo entorpecido. NĂŁo conseguia desviar o olhar da garota.
A mĂĄscara da garota era autĂȘntica, igualzinha Ă usada pela nova Raposa Branca. Mas essa garota tinha uma presença poderosa â algo completamente diferente da nova Raposa Branca. Os membros de Sora se recusavam a se mover. Ela estava olhando para uma deusa â nĂŁo, um demĂŽnio. O chefe assumia a forma de uma jovem em um manto branco. Seu corpo era menor que o de Sora, mas isso nĂŁo a tornava menos imponente.
Sora percebeu que havia sido uma tola. Era ignorante. Essa era a verdadeira chefe. Aquela aura sobrenatural era a verdadeira marca de uma Raposa Branca, o que significava que sua identificação anterior era nada menos que incompetente. Agora ela compreendia o que significava ser escolhida pelos deuses raposa. A nova Raposa Branca era uma impostora â um lobo em pele de raposa.
A verdadeira chefe olhou para Sora. As duas tinham uma silhueta parecida, mas era difĂcil acreditar que pertenciam Ă mesma espĂ©cie. Os alarmes mentais de Sora gritavam para que ela fugisse antes que fosse morta. A chefe olhou silenciosamente para os trĂȘs. Caminhou atĂ© Sora â e passou direto por ela. Entrou na cozinha, pegou o tofu frito da frigideira e colocou na boca.
â Queimado demais. Oitenta pontos â foi tudo o que disse.
Uma tempestade de confusĂŁo tomou conta da mente de Sora, superando em muito qualquer confusĂŁo anterior. Ela nĂŁo conseguia compreender o que estava acontecendo diante de seus olhos. Em certo nĂvel, atĂ© conseguia aceitar a chegada repentina da chefe â afinal, em algum momento, ela deveria aparecer. Mas isso ultrapassava qualquer entendimento.
A chefe se virou para Sora e disse com uma voz que gelou sua alma:
â NĂŁo tĂĄ bom. Se nĂŁo me derem tofu frito melhor, eu ataco.
O que ela estava dizendo? Estava agindo exatamente como a falsa Raposa Branca. Sora precisava responder, mas estava nervosa demais para mover um mĂșsculo. E ainda assim, o falso â o homem que deveria estar mais em pĂąnico que qualquer um ali â nĂŁo demonstrava um pingo da apreensĂŁo de Sora.
â O que vocĂȘ tĂĄ fazendo aqui? â suspirou ele. â E como vocĂȘ chegou aqui? O que aconteceu com Toweyezant?
â Cansei deles. Realizei os desejos deles. E o tofu frito deles foi, hmm… oitenta e cinco pontos.
â VocĂȘ nem Ă© uma avaliadora exigente, hein? Deve gostar muito de tofu frito.
HĂŁ? QuĂȘ? Co-como Ă© que Ă©? Eles sĂŁo amigos? A verdadeira e o falso sĂŁo amigos?! Como assim?
Esses dois nĂŁo estavam agindo como inimigos. A falsa Raposa Branca estava sem mĂĄscara, mas a conversa deixava claro que se conheciam. Sora estava prestes a desistir. JĂĄ nĂŁo sabia mais no que acreditar. Se perguntava o que deveria fazer. O que esses dois queriam que ela fizesse.
A chefe olhou para a falsa Raposa Branca.
â Isso nĂŁo estava nada delicioso â declarou com um tom seco. â VocĂȘ disse que estaria delicioso. Se nĂŁo me der algo melhor, eu ataco.
â Tem certeza disso? â disse a falsa Raposa Branca com um sorriso. â A gente tĂĄ montando uma empresa que vai vender bentĂŽs de inarizushi com selo da raposa. Nosso plano Ă© conquistar o mundo. Atacar agora prejudicaria o futuro do tofu frito! A Sora Ă© a responsĂĄvel por essa operação!
A chefe congelou.
HĂŁ? Huuuuuh? EntĂŁo esse plano tinha propĂłsito afinal?!
Sora tinha certeza de que a falsa Raposa Branca sĂł estava inventando coisas na hora. Ela apenas seguia o fluxo porque, como Donzela, nĂŁo era seu lugar questionĂĄ-lo. Foi trazida de volta Ă realidade por um som de tosse. A chefe de repente tossiu sangue. Em seguida, Sora sentiu seu corpo desabar.
âIntensoâ seria uma boa forma de descrever os dias que se seguiram apĂłs Murina ter sido entregue Ă o Mil Truques. O treinamento no cofre de tesouros havia sido um verdadeiro inferno. Mesmo depois de ser levada para Kreat, seus dias estavam longe de serem tranquilos.
Sob o pretexto de batalhas simuladas, ela havia sido atingida pela Sombra Sufocada e cortada pela Espada Proteana. Seu sangue foi drenado e ela foi forçada a enfrentar monstros. A agrediam verbalmente, perguntando se ela estava se esforçando de verdade, ignorando completamente seu status, e a obrigavam a fazer tarefas domésticas. Ela havia sido arremessada por janelas, ouvia que não tinha talento, e era encharcada com ågua sempre que desmaiava.
Todos os membros da famĂlia imperial eram obrigados a ter aulas para que um dia pudessem guiar o povo de Zebrudia, mas nenhum deles jamais havia passado por um treinamento tĂŁo brutal. Seus dois acompanhantes, que atuavam como guardas e serviçais, atĂ© tentaram protestar, mas desistiram ao perceberem que era inĂștil. Murina nĂŁo os culpava por isso â ela tambĂ©m jĂĄ havia desistido da ideia de resistir.
Os Grieving Souls eram totalmente indiferentes Ă glĂłria da famĂlia imperial. Para eles, Murina era apenas mais um trabalho. Ela ainda estava respirando porque haviam pedido que temperassem suas habilidades. Se tivessem pedido para assassinĂĄ-la, a histĂłria seria bem diferente.
E em algum momento, Murina percebeu que de fato havia se tornado mais forte. O material de mana e suas liçÔes infernais fizeram uma diferença visĂvel. Sua força e resistĂȘncia haviam melhorado, mas o mais importante era o entendimento do que significava fazer algo ou morrer tentando. Ela nĂŁo tinha mais pesadelos com os dias de infortĂșnio. JĂĄ nĂŁo havia espaço para sonhos â nem para tristeza.
Murina agora conseguia usar tanto feitiços ofensivos quanto ritos sagrados. Isso era considerado extraordinariamente difĂcil, mas seus esforços desesperados no cofre do tesouro tinham valido a pena. Ela sabia que o material de mana te aprimorava conforme seu desejo, mas agora sabia que, se vocĂȘ desejasse cada parĂąmetro com tanta intensidade a ponto de poder morrer, entĂŁo obteria todos eles. Era lĂłgico, de certa forma.
SerĂĄ que ela conseguiria usar o material de mana para apagar sua mĂĄ sorte? O pensamento lhe passou pela cabeça, mas ela o afastou! O destino Ă© algo que vocĂȘ mesmo esculpe. Simplesmente desejar segurança e estabilidade sĂł a levaria Ă morte. O que ela precisava era de foco. Enquanto estivesse viva, ela nĂŁo estava morta. A força de vontade podia mover um corpo que de outra forma estaria afundado em dor e fadiga. Mas uma vez que parasse, nĂŁo conseguiria se levantar de novo.
Agora, Murina estava de volta a um vestido e conversava com seu pai.
â Fico feliz em vĂȘ-la novamente, Murina. VocĂȘ parece saudĂĄvel e bem-disposta.
â De fato, pai.
Antes, Murina tinha dificuldade para conversar com adultos e encarĂĄ-los nos olhos. Mas agora as coisas haviam mudado. Interagir com adultos nĂŁo era nada comparado a ser arrastada pelas vinhas de um fantasma floral.
â E vocĂȘs, Karen, Cindy, obrigado por cuidarem da minha filha. Eu percebi depois do treinamento no cofre do tesouro, mas ela realmente parece ter crescido. Posso ver isso em seu rosto.
â Estamos honradas com suas palavras, Vossa Majestade Imperial. No entanto, nĂŁo contribuĂmos com nada. Tudo isso Ă© fruto do esforço da prĂłpria Alteza Imperial. As liçÔes daquele homem estavam em um nĂvel completamente diferente do treinamento da Ordem Zero. Os mĂ©todos dele sĂŁo bem… rudes.
Karen usava uma figura de linguagem, mas o treinamento de Murina tinha literalmente envolvido muita pancadaria.
â Seja grata ao Sir Franz â disse o imperador Rodrick. â Ele queria usar sua armadura para absorver o dano da Murina, assim como fez durante a viagem a Toweyezant. Mas achei que Murina nĂŁo evoluiria se ele fizesse isso, entĂŁo o impedi.
â Nunca se sabe o que aquele homem pode fazer. Embora pareça que minhas preocupaçÔes eram infundadas â disse Franz. â Quando Sua Alteza Imperial retornou Ă capital pela primeira vez, ela estava bastante abatida, mas agora percebo uma melhora considerĂĄvel nela.
â Muito obrigada, Sir Franz â respondeu Murina.
A diferença era natural. No primeiro treinamento, Murina não teve direito a descanso nem sono. Mas dessa vez, ao menos isso lhe foi concedido. Os Grievers a arrastaram pela cidade e chamaram aquilo de treinamento, mas ver os lugares novos havia sido bom para seu ùnimo.
â Conquistou sua mĂĄ sorte? â perguntou seu pai.
â Conquistei. Percebi que bandidos e acidentes aleatĂłrios nĂŁo sĂŁo nada comparados a ser atacada por fantasmas e Grieving Souls!
â O quĂȘ?! O que aquele homem fez com Sua Alteza Imperial?! â gritou Franz.
Por que Murina se permitira ser esmagada por um pouco de azar? Agora, ela sabia por experiĂȘncia prĂłpria o quĂŁo resilientes os seres humanos sĂŁo. Se vocĂȘ vive com a cabeça baixa, nĂŁo conseguirĂĄ desviar dos ataques que vĂȘm. Mas havia algo que nĂŁo saĂa de sua mente.
â Pai, tem sĂł uma coisa que eu queria perguntar. O Mil Truques disse que eu ia competir no Festival do Guerreiro Supremo. Isso Ă© verdade?
â Do que estĂĄ falando? â ele disse. â Dei a ele um ingresso de desafiante como pagamento pelo seu treinamento, sĂł isso.
â Aquele homem chegou a dizer que treinaria Sua Alteza Imperial atĂ© o ponto em que estivesse pronta para o torneio â acrescentou Franz. â Mas o Festival do Guerreiro Supremo nĂŁo Ă© lugar para Murina. LĂĄ nĂŁo existe muito espĂrito esportivo… e Ă s vezes hĂĄ mortes.
â C-Certo, eu devia saber!
Essa resposta casual fez com que Murina recebesse olhares estranhos do pai e de Franz. Mas com esse peso fora de seu peito, ela sentia como se pudesse dançar. Tinha evoluĂdo tanto que mal parecia a mesma pessoa, mas o Festival do Guerreiro Supremo ainda estava completamente fora de questĂŁo. Ela ouvira dizer que os Mil Desafios eram cruĂ©is, mas se vocĂȘ desse tudo de si, podia superĂĄ-los. Para ela, entrar no torneio significaria o fim imediato.
â Agora, Murina, Krai Andrey tem agido de forma estranha? â seu pai perguntou de repente.
Murina endireitou as costas e respondeu com firmeza:
â Sim, pai, ele tem! O Mil Truques sĂł tem agido de forma estranha!
â E-Entendo.
Do ponto de vista de Murina, o Mil Truques era incompreensĂvel. Ele Ă s vezes desaparecia sem motivo algum. A fazia usar uma mĂĄscara de tanuki e a apresentava como âPonta.â Ela tinha certeza de que seu pai jamais imaginaria algo assim. Murina contaria tudo para Ăclair na prĂłxima vez que conversassem.
â Como suspeitĂĄvamos. Ele deve estar se movendo contra a Raposa â disse Franz. â Ou talvez jĂĄ esteja, desde que pediu um ingresso para o torneio. O comportamento estranho fazia parte do plano dele para derrubar a Cascata ContrĂĄria. NĂŁo gosto muito dessa histĂłria de âartifĂcio prĂ©-humanoâ, mas hĂĄ um quĂȘ de verdade nisso.
â Hm. NĂŁo sei como ele conseguiu essa informação antes de nĂłs, mas estĂĄ no caminho certo.
Raposa. MĂĄscara de Raposa. Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa.
Murina sentiu uma dor aguda na cabeça e levou as mĂŁos Ă s tĂȘmporas. Que sensação ruim era aquela? Queria vomitar, mas se segurou.
â O que foi, Murina?
â NĂŁo Ă© nada, pai.
SĂł mais um pouco. Murina precisava aguentar sĂł mais um pouco de treinamento, e entĂŁo poderia voltar para o castelo. Quando voltasse, teria aulas com mentores de verdade. Iria sair de casa de verdade.
â Seu treinamento jĂĄ terminou? â perguntou o pai. â Afinal, o Festival do Guerreiro Supremo estĂĄ prestes a começar.
Murina olhou nos olhos dele e balançou a cabeça.
â NĂŁo, pai. Minhas liçÔes ainda nĂŁo terminaram.
â Entendo. Suponho que deseja vĂȘ-las atĂ© o fim?
O pequeno orgulho de Murina não a deixava desistir depois de ter chegado tão longe. Ela não sabia quão intensas seriam as liçÔes de combate real, mas sentia que seriam uma espécie de cerimÎnia de graduação. Quando isso acabasse, ela poderia voltar para casa de cabeça erguida.
O Imperador Rodrick sorriu sinceramente â algo que Murina nĂŁo via hĂĄ um bom tempo â e disse:
â Essa experiĂȘncia parece ter te deixado mais forte. Que tipo de lição ele tem reservado pra vocĂȘ?
â Deixou sim, pai! â disse Murina, abrindo um sorriso enorme. â A gente vai sair caçando bandidos e maâdĂĄ cabo deles!
VocĂȘ nunca sabe quando seu passado vai te alcançar. Depois do meu encontro repentino (e negociação) com a Raposinha, voltei pra estalagem. Encontrei minha dupla de perseguidores me esperando numa sala de reuniĂ”es no primeiro andar, com expressĂ”es atĂ© que normais. Mas quando os seus convidados sĂŁo a NĂ©voa CaĂda e o antigo DemĂŽnio da Guerra, ainda assim Ă© possĂvel sentir uma pressĂŁo absurda.
â Finalmente apareceu, garoto â disse a piromanĂaca me encarando.
â O-OiĂȘ â respondi. â NĂŁo esperaram muito, nĂ©?
â Esperamos cinco horas â respondeu Gark.
â SĂ©rio? NĂŁo tem nada melhor pra fazer?
â VocĂȘ pode, por favor, parar de dizer coisas que seria melhor deixar quietas? â pediu Lucia.
Gark me olhava como se eu fosse um criminoso, enquanto a velha parecia estar lidando com tudo numa boa. Mas eu sabia que ela podia incendiar tudo por impulso. Na cabeça dela, tava tudo bem enquanto ninguĂ©m morresse. Se morresse, bastava apagar as evidĂȘncias.
SerĂĄ que a Lucia conseguiria segurar os dois? Eles nĂŁo começariam uma confusĂŁo dentro de uma estalagem… certo?
Meu estĂŽmago, minha cabeça e meu coração doĂam, e meu corpo parecia um saco de chumbo. Eu ia vomitar.
â O que Ă© que precisa acontecer pra mudar vocĂȘ, Krai? â disse a velha rindo. â Finge que nossa conversa nem aconteceu e aparece aqui como se nada tivesse rolado.
â Achei que vocĂȘs iam entender sozinhos â falei, me agarrando a qualquer desculpa.
â COMO Ă QUE A GENTE IA ENTENDER ISSO, SEU…?! â rugiu Gark. â Nem todo mundo faz o que vocĂȘ faz!
Kaina. CadĂȘ a Kaina?
A Maldição oculta tomou um gole de chå e disse com a voz rouca:
â Deixa isso pra lĂĄ. NĂŁo pretendemos interferir no Festival do Guerreiro Supremo. Eu tambĂ©m jĂĄ me deliciei naquela carnificina de carne e sangue.
â Fiquei sabendoâ disse Lucia com a voz calma. â VocĂȘ foi banida do torneio depois de usar uma magia de aniquilação em ĂĄrea que destruiu atĂ© as barreiras.
Serå que a Maldição Oculta não tinha nenhum tipo de limitador? Honestamente, o Luke e a Liz eram melhores. Pelo menos eles só acertavam um alvo de cada vez.
A Maldição Oculta lançou um olhar afiado pra minha irmã antes de voltar a olhar pra mim. Ela sempre foi mais suave com a Lucia, talvez porque as duas fossem Magas. Ou então, desde pequena, a Lucia sempre teve esse jeitinho que agradava todo mundo.
â Bom, nĂŁo vou insistir nisso â disse a piromanĂaca. â Vamos perdoar vocĂȘ por ter deixado a gente pra trĂĄs. NĂŁo viemos aqui pra atrapalhar, temos nossas pendĂȘncias tambĂ©m. Ohohoho… Sem contar que te devemos uma.
Eu atĂ© agradeço pela clemĂȘncia, mas por que Ă© que nunca tenho o direito de recusar esses encontros?
Mas iam me seguir de qualquer jeito. Eu devia era agradecer por ter a Lucia ao meu lado.
Assumi minha postura de durĂŁo, pronto pra resolver logo.
â Bom, eu tambĂ©m tive meus problemas. Agora, vocĂȘs queriam falar da Raposa?
â NĂO FALA ESSE NOME AQUI, SEU IDIOTA! â gritou Gark. â Nunca se sabe onde eles podem ter ouvidos!
Ah, qualĂ©. E o que diabos Ă© essa âRaposaâ, afinal?
Eu ainda não entendia uma parte fundamental disso tudo. Sempre pensava em perguntar o que eles queriam dizer, mas ficava com medo e acabava empurrando com a barriga. Só sabia que era uma organização maluca que tentou assassinar o imperador e que Telm e Kechachakka trabalharam pra eles. Mas, ao longo da minha vida, jå topei com dezenas de organizaçÔes criminosas secretas e nem sabia o quão perigosa essa era de verdade.
Tinha aquele grupo, aquele cofre cheio de tesouro, e o Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa. As raposas estavam na moda, aparentemente. NĂŁo sabia quantas mais existiam, mas queria muito que escolhessem nomes mais distintos.
Se eles queriam procurar essa tal de Raposa, nĂŁo precisavam da minha permissĂŁo. Mas eu sabia o que eles queriam â queriam a minha ajuda, mesmo que nĂŁo gostassem disso. NĂŁo tinham muito apoio por aqui.
Talvez eu empreste o Ansem, se prometerem devolver ele logo.
â Foi mal, mas tudo que tenho Ă© o Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa e uns glutĂ”es â falei.
â Mas do que vocĂȘ tĂĄ falando, pelo amor…?
â De verdade, lĂder, o que vocĂȘ tĂĄ dizendo?
Lucia, de que lado vocĂȘ tĂĄ?
â NĂŁo viemos aqui pelas suas piadinhas idiotas â suspirou a Maldição Oculta. â Desta vez, vocĂȘ foi o primeiro a entrar na trilha. Entendo como essas coisas funcionam e tĂŽ disposta a deixar essa pra vocĂȘ. Pensar nunca foi o meu forte mesmo.
â NĂŁo sei como vocĂȘ conseguiu essa informação antes do ImpĂ©rio ou da Associação, mas temos uma reputação a manter. Entendeu, Krai Andrey?
â Aham, entendi.
Do que esses velhos tĂŁo falando, afinal? Qual âessaâ? Virei pro lado da Lucia, mas minha irmĂŁ de gelo sĂł deu de ombros. Se a Sitri estivesse aqui, aposto que ela teria explicado.
Eu nĂŁo fazia ideia do que estavam falando, nĂŁo sabia nada de aparĂȘncias, e nem achava que tinha me mexido antes deles. Queria sĂł dizer pra fazerem o que quisessem, contanto que nĂŁo causassem problemas pra mim.
â Façam o que quiserem â falei, soltando uma resposta bem vaga. â JĂĄ fiz tudo o que devia.
Gark franziu a testa e se inclinou pra frente.
â EntĂŁo quer dizer que vocĂȘ sabe qual arma eles tĂȘm e o que planejam fazer com ela?
Esse cara nĂŁo larga o osso.
â Aham, sei sim â respondi. NĂŁo tinha mais nada que eu pudesse dizer nesse ponto. â Hm?
De repente, percebi que o Gark tinha falado algo importante. Antes que eu conseguisse processar, ele estalou a lĂngua e voltou Ă postura de antes.
â Droga, Krai, onde Ă© que vocĂȘ consegue essas informaçÔes? Depois de anos sem nada, conseguimos sĂł um fiapinho agora.
â HĂŁ?! Ah… com a Eva?
Desculpa, Eva. Minha boca se mexeu sozinha. Mas eu nĂŁo quero continuar respondendo perguntas. Me perdoa.
â HĂŁ? NĂŁo importa o quĂŁo boa seja sua rede, nĂŁo acredito que vocĂȘ conseguiu algo com tanta facilidade, enquanto a gente se ferrou por anosâ
âFoi mal, tenho uma coisa pra resolver. Podemos encerrar por aqui? Tenho muito o que fazer.
âAh! Droga, Krai!
Desculpa, mas preciso cair fora antes que descubram que sou uma fraude.
Recentemente, percebi que, se eu dissesse que tinha algo pra fazer, as pessoas não insistiam muito. Eu tinha acabado de falar que tinha feito tudo o que precisava, e logo em seguida me contradisse, mas ninguém pareceu ligar. Isso era alguma artimanha preter-humana?
Me levantei, e entĂŁo ouvi um pshhh, como vapor saindo. A Maldição Oculta apontava um dedo ossudo pra mim, uma chama tremeluzindo na ponta. Mais algumas vezes, luzes voaram na minha direção e evaporaram em vapor a poucos centĂmetros dos meus olhos. Nenhum dos meus AnĂ©is de Segurança foi ativado, entĂŁo devia ser a Lucia me protegendo.
A Maldição Oculta soprou o dedo fumegante e se levantou da cadeira. Tinha uma postura impressionante, destoando da idade avançada. Era um pouco mais alta que eu e ouvi dizer que, quando mais jovem, Ă s vezes era confundida com um EspĂrito Nobre. Nossos olhares se cruzaram, suas pequenas Ăris flamejantes me encarando.
Seus lĂĄbios secos se torceram num sorriso demonĂaco e ela disse com uma voz rouca:
âVou seguir sua deixa por enquanto. Mas isso Ă© um festival. Quando a hora chegar, espero ver um sinal, Mil Truques. Arrastei esses ossos velhos atĂ© aqui e ainda tenho uma conta pra acertar por causa de Telm. Estamos entendidos?
âAh, claro.
A voz dela era intensa, não deixando espaço pra discussão. Os olhos brilhavam como os da Liz. Não entendo por que alguém da idade dela simplesmente não se aposenta.
Ela saiu da sala e, antes de segui-la, Gark disse pra mim:
âCerto, Krai. NĂŁo se esqueça do torneio. Se alguĂ©m do nosso grupo ganhar aquilo, vai ser Ăłtimo pra minha imagem.
Ao ver aquela força da natureza sair, Gark estalou a lĂngua e foi atrĂĄs. Que mulher impulsiva. AtĂ© o Gark tinha que seguir o ritmo dela. E que tipo de caçadora falava em ajustar contas? SĂł espero que a Lucia nĂŁo fique assim tambĂ©m.
Houve um breve silĂȘncio, atĂ© que Lucia perguntou com uma voz fria:
âO que exatamente vocĂȘ tinha pra resolver?
Claro que ela ia perguntar.
Nesse instante, um grupo de caçadores com o brasão da Primeiros Passos entrou no saguão. Na frente, estavam Tino e Sven.
âMestre, Lucy, viemos torcer por vocĂȘs!
âE aĂ, Krai. Finalmente chegamos.
Como o torneio estava prestes a começar, deviam ter achado que essa era uma boa hora pra aparecer. Piscando e franzindo a testa, Lucia me lançava um olhar bem peculiar.
âFico feliz que tenham vindo â eu disse. â Chegaram na hora certa!
Claro que nĂŁo tinha planejado a chegada deles, mas fiquei realmente feliz em vĂȘ-los.
âE aĂ, como estĂŁo as coisas? â perguntou Sven. â Estar longe de Zebrudia nĂŁo Ă© muito o nosso estilo.
âRelaxa â respondi com um dar de ombros. â VocĂȘ acha que gente como a Liz e o Luke se incomoda com territĂłrio desconhecido? Eles tĂŁo tĂŁo empolgados que eu nem sei o que fazer com eles.
Sven parecia seu velho eu, sempre animado. Sempre fazia careta quando eu pedia algo, mas devia sentir algum tipo de conexão com a gente pra ter vindo até aqui.
âNĂŁo, eu quis dizer vocĂȘ â ele respondeu.
âSven, o Mestre jamais cederia a um simples nervosismo â disse Tino por mim. Ela olhou em volta no saguĂŁo, depois para mim e minha irmĂŁ-guarda-costas. â Mestre, retirei todas as minhas economias e apostei tudo em vocĂȘ!
Isso mesmo. Estavam apostando.
âValeu â falei, rindo da piada dela. â Sabendo disso, vou tentar me esforçar um pouco mais!
Duvidava que ela pudesse mesmo ter apostado em mim, jĂĄ que nem estava participando.
Os olhos de Tino brilharam.
âIsso aĂ, dĂȘ o seu melhor! Vou estudar cada movimento!
Muito louvĂĄvel da sua parte. Tem muito o que aprender com os Grieving Souls.
âAgh, por que tem tanta gente?! JĂĄ vi mais gente hoje do que quero ver o ano inteiro! Me dei ao trabalho de vir atĂ© aqui, entĂŁo nem pense em perder! Senhor!
NegĂłcios como sempre, pelo jeito da Kris.
âNĂŁo vai aceitar nada menos que o primeiro lugar, nĂ©? â perguntei pra ela.
Fazia tempo que eu nĂŁo estava cercado por amigos assim. A Ășltima a chegar foi Eva, que provavelmente coordenou toda a viagem. Por trĂĄs daqueles Ăłculos finos, seus olhos afiados nĂŁo deixavam passar nada.
âQual Ă© a situação da Princesa Murina? â ela perguntou.
âAh, aquilo. Sem problemas. Provavelmente. Fiz o que pude.
âEntendo. Posso ajudar em algo?
âAgradeço. Se surgir algo, aceito sua ajuda.
Mesmo fazendo uma oferta parecida, ela e a Maldição Oculta eram completamente diferentes.
Enquanto eu me permitia aproveitar o conforto dos amigos, Sven olhou ao redor e perguntou:
âSĂł a Lucia tĂĄ com vocĂȘ? E os outros?
âEstĂŁo resolvendo outra questĂŁo â respondeu Lucia. â Estou cuidando do nosso lĂder.
âĂ, vai que alguĂ©m tenta me atacar aqui â acrescentei.
âPorque vocĂȘ vive fazendo inimigos â disse Sven.
Que calĂșnia. Virei pra Tino, mas ela se recusou a me encarar.
âNĂŁo â falei. â Tenho certeza de que nĂŁo fiz nada. Ă isso que Ă© uma emboscada: atacar alguĂ©m que nĂŁo fez nada.
Lucia só suspirou. Tenho quase certeza de que ela sabe o quanto sou inofensivo, então provavelmente era um suspiro de resignação pela minha falta de sorte. Mas, pela primeira vez, eu estava confiante de que daria tudo certo. Tinha o Clube de Fãs da Måscara de Raposa e o grupo da Touka me dando apoio. A Raposa Irmãzinha voltou do deserto, mas continuava obcecada por tofu frito.
Dito isso, queria mudar de assunto. E tinha o gancho perfeito.
âEi, sĂł pra vocĂȘ saber, Sven, o verdadeiro eu estĂĄ aqui, nesta cidade.
âHĂŁ?
âDizem que todo mundo tem trĂȘs sĂłsias, nĂ©? Me tornei fĂŁ dele assim que nos encontramos. E mais: atĂ© os aliados dele sĂŁo versĂ”es minhas.
âIrmĂŁozinho?! Eu jamais falaria daquele jeito, aquela garota maluca!
â Ă, no seu caso, vocĂȘ provavelmente Ă© a superior entre as duas. Pode estar perdendo no quesito amorzinho, mas Ă© muito mais forte. Sem falar que vocĂȘ tem um tĂtulo, e ela nĂŁo. E vocĂȘ Ă© muito mais bonita. Pode nĂŁo ser carinhosa como uma pomba, mas sabe dar um bom soco.
LĂșcia cerrou os punhos, tremendo como se estivesse lutando para se controlar.
â Ahhh, a Lucy tĂĄ toda vermelha â ofegou Tino.
Como irmĂŁo da LĂșcia, Ă© claro que eu era tendencioso, mas tinha certeza de que a minha era a melhor irmĂŁ mais nova.
â Mesmo assim, vocĂȘ devia conhecer ele, Sven â falei. â Se eu pedir, aposto que vocĂȘ atĂ© consegue um autĂłgrafo! Espero que consiga conhecer os outros tambĂ©m.
â Mestre, por que vocĂȘ tĂĄ tĂŁo empolgado com isso?
Tino parecia exasperada, mas tenho certeza que ela se sentiria igual se desse de cara com alguĂ©m idĂȘntico a ela. Pensando bem, nĂŁo tinha nenhuma parecida com a Tino no grupo do Krahi.
Agora tå todo mundo aqui. Nada com que se preocupar. Só preciso esperar o torneio começar.
â Bwahaha! Ă, sem sombra de dĂșvida, sĂŁo os verdadeiros!
â Sven, vocĂȘ tĂĄ sendo extremamente rude.
O que fazer? Kule Saicool, o autoproclamado Sortie Proteano, nĂŁo conseguia esconder seu desconcerto. Ao lado dele, Izabee, a autoproclamada Sombra de Olhos Penetrantes, estava igualmente em choque.
AlĂ©m de ter atingido o NĂvel 8 ainda jovem, o Mil Truques tambĂ©m era mestre de clĂŁ da Primeiros Passos, um dos maiores clĂŁs que existem. E todas as pessoas que apareceram com ele eram membros.
Como cérebro do seu grupo, Kule Saicool pesquisou Grieving Souls a fundo quando formou os Bereaving Souls. Aquele homem alto, todo equipado com trajes preto e dourado, não era outro senão Sven Anger, o Golpe de Tempestade.
Caçadores de tesouros se orgulham bastante de como sĂŁo referidos. Se autoproclamar com um tĂtulo quase idĂȘntico ao de outro era visto como duvidoso e podia acabar em morte se vocĂȘ copiasse alguĂ©m de pavio curto.
EntĂŁo o que era aquela reação? Apesar de ver alguĂ©m com um tĂtulo tĂŁo parecido com o do mestre do clĂŁ (pra constar, Krahi nĂŁo estava tentando enganar ninguĂ©m de propĂłsito), Sven nĂŁo ficou indignado. Pelo contrĂĄrio, estava batendo palmas e rindo.
â Verdadeiros? Do que vocĂȘ tĂĄ falando? Eu sou inequivocamente real â declarou Krahi. Ele disse isso com uma dignidade corajosa que sĂł se tem sendo genuĂno (ou genuinamente burro).
â IncrĂvel, irmĂŁo! VocĂȘ Ă© o melhor! Mais real que o original! â exclamou Lusha com adoração, agarrada no braço dele, mesmo sabendo muito bem que o Krahi era uma farsa.
Ao lado de Sven havia uma Ladina com fitas vermelhas no cabelo. Ela desviou o olhar e murmurou:
â Ah, Lucy, meus sentimentos.
â Hm? Ouvi meu nome? â perguntou Lusha, que jĂĄ tinha arriscado a vida e a integridade uma vez irritando sua contraparte verdadeira.
â Nada nĂŁo! â disse a Ladina, se escondendo atrĂĄs de Sven.
Segurando o cajado com uma das mĂŁos, Krahi observava o grupo.
â EntĂŁo, me digam, quem sĂŁo vocĂȘs? Meus olhos nĂŁo me enganam. DĂĄ pra ver que nĂŁo sĂŁo civis comuns!
Um dos defeitos do Krahi era o total desconhecimento do mundo da caça ao tesouro. Trabalhou sozinho por tanto tempo que mal sabia da existĂȘncia de outros caçadores. Kule tinha ficado bastante surpreso ao descobrir que ele nĂŁo conhecia nem o Mil Truques nem a Primeiros Passos. Mas o nome Krahi Andrihee era de fato o nome verdadeiro dele, e ele tinha documentos que comprovavam isso. A semelhança com certo outro caçador era uma completa coincidĂȘncia.
Kule não conseguia entender o que passava na cabeça do verdadeiro. Quando soube que Krahi tinha encontrado ele, achou que estavam condenados. Mas o verdadeiro não apenas não ficou bravo como ainda deixou Krahi escapar ileso.
O Mil Truques era conhecido por sua astĂșcia sobre-humana. Talvez ele tenha percebido que Krahi nĂŁo estava tentando se passar por ele, entĂŁo o deixou ir como um gesto de misericĂłrdia. Talvez todo caçador poderoso fosse tĂŁo excĂȘntrico quanto o Krahi.
â Somos membros do clĂŁ que vocĂȘ formou â respondeu Sven, com total seriedade.
â Um clĂŁ, Ă©?
O que vocĂȘ tĂĄ fazendo, seu idiota? VocĂȘ nunca formou clĂŁ nenhum!, pensou Kule.
Caçadores talentosos atraem boatos. ReputaçÔes crescem sozinhas, apelidos surgem, até fã-clubes aparecem. Mas ninguém vira mestre de clã sem se envolver com ele. E lå estava o Krahi, olhando para as próprias mãos.
â Quando foi que eu formei um clĂŁ? â sussurrou ele.
â HĂŁ? Foi mesmo?! Mandou bem!
Até a Lusha tå confusa!
Em vårias ocasiÔes, Krahi tinha sido confundido com o verdadeiro Krai Andrey. Isso fez com que ele se acostumasse a ser elogiado por feitos que não realizou e até ser identificado erroneamente pela Associação de Exploradores. Seu puro talento ajudou a afastar suspeitas de que ele pudesse ser um impostor e, para o desespero de Kule, Krahi não se via como tal.
â Certo, bora tirar uma foto! Temos que registrar esse momento! â disse Sven. â Marietta, pega a cĂąmera!
â Sven, pelo amor de Deus, acalme-se â disse o Mago da Cruz Obsidiana.
Pelo visto, os verdadeiros achavam que os Bereaving Souls eram sĂł uma piada ou algum tipo de fĂŁ-clube. Uma suposição compreensĂvel.
Cercado por membros de um clĂŁ que ele nĂŁo lembrava de ter formado, Krahi sorria com simpatia. Era uma estrela. Sven entĂŁo olhou para Kule, cujo olhar de ĂĄguia do Arqueiro o fez engolir seco.
â Ei, vocĂȘ Ă© o Luke, nĂŁo Ă©? â disse Sven. â Onde estĂĄ a Sitri?
â Se estiver procurando pela Kutri, ela saiu agora hĂĄ pouco. Afinal, Ă© uma Alquimista.
Provavelmente estava por aà enganando alguém para vender poção fajuta. A Ignoråvel era melhor ignorada.
â E o Ansem?
Isso era ruim. O disfarce estava por um fio. Sven podia estar prestes a descobrir que Kule tinha convencido Krahi com conversa mole a formar uma equipe.
â No momento estamos aceitando inscriçÔes â respondeu Kule, sentindo-se como um bandido em uma sala de interrogatĂłrio.
Em uma das bases da Raposa Sombria de Nove Caudas, Galf ouvia o relatĂłrio de um de seus subordinados.
â Muito bem â disse ele com um aceno satisfeito. â Tenho certeza de que o chefe vai ficar contente.
A sequĂȘncia recente de contratempos estava começando a deixar marcas visĂveis no rosto rĂșstico de Galf, mas ainda havia um brilho em seu olhar.
O chefe havia determinado que fizessem amizade com diversos grupos que antes eram hostis. Desde o momento em que recebeu essas ordens, Galf achou que isso seria um saco… mas acabou sendo ainda mais trabalhoso do que imaginava. Para começo de conversa, reunir grandes grupos de pessoas ia contra toda a filosofia de discrição da Fox. Usar o menor nĂșmero de pessoas possĂvel era a chave para manter tudo sob sigilo.
O nome da Fox jĂĄ tinha se espalhado pelo submundo, e o jeito reservado deles incomodava bastante gente. O submundo tinha suas prĂłprias regras. Recusar-se a compartilhar qualquer informação sobre si mesmo era praticamente o mesmo que dizer ânĂŁo confio em vocĂȘsâ â o que dificultava qualquer trato com organizaçÔes maiores.
Mas Galf fez o que precisava ser feito. Usando todos os meios ao seu alcance, ele entrou em contato com os grupos listados pelo chefe. Usou dinheiro, exibiu força, sentou-se Ă mesa de negociaçÔes. Com tantos contatos sendo feitos, alguns começaram a suspeitar que a Fox estava planejando algo grande â o que acabou atraindo gente que estava escondida. Por esse movimento, Galf atĂ© se sentia orgulhoso.
Ao percorrer toda a lista com cuidado e formar alianças com praticamente todos os nomes, Kreat acabou nĂŁo vendo quase nenhum dos incidentes sangrentos que normalmente aconteciam nessa Ă©poca do ano. Pode-se dizer que todas as organizaçÔes do submundo de Kreat estavam, naquele momento, sob influĂȘncia da Fox. Por mais grandiosos que fossem os planos do chefe, ele nĂŁo ia sofrer com falta de mĂŁo de obra.
E ainda havia as unidades pessoais do chefe. Galf nunca perguntou a identidade delas, mas tambĂ©m nĂŁo estavam fazendo esforço nenhum para se esconder. Grieving Souls e Cavaleiros da Tocha. Esses caçadores de elite eram a arma secreta do chefe. Eles agiriam na superfĂcie, enquanto a aliança de Galf trabalhava por baixo. Esse tipo de divisĂŁo nunca era mĂĄ ideia.
O chefe tinha dito que entregaria sua mĂĄscara para Galf se a operação fosse bem-sucedida. Galf escolheu acreditar. Ele realizaria essa operação Ășnica na vida â e entĂŁo subiria ao topo da organização!
Usando mĂĄscaras de raposa sem o menor entusiasmo, as tropas pessoais do chefe entraram na sala conversando entre si.
â Que lugar deprĂȘ.
â Acho que tĂŽ sentindo cheiro de sangue. Maravilha. Quem Ă© que eu corto?
â Eu acho adorĂĄvel. Na verdade, gostei bastante. DĂĄ pra fazer o que quiser sem ninguĂ©m ficar sabendo.
O tom era casual, mas eles praticamente transbordavam mana materializada. Na parte de trĂĄs do grupo estavam o Mil Truques (usando uma mĂĄscara de demĂŽnio por algum motivo) e Ponta. A porta se fechou atrĂĄs deles.
â Hmmm. Eu nĂŁo sabia que existia um lugar desses em Kreat. Fascinante. Estou ansioso por isso. Talvez seja um campo de batalha Ă altura das Teurgias Milenares.
Por que esse cara nĂŁo mantinha o tĂtulo em segredo? AlguĂ©m tĂŁo imbecil assim realmente chegou ao NĂvel 8?
â Peço desculpas se estiverem se sentindo claustrofĂłbicos. Normalmente nĂŁo temos tanta gente aqui â disse Galf.
â Ah, de forma alguma â disse uma mulher encapuzada usando uma mĂĄscara de raposa triste. â A propĂłsito, posso perguntar qual Ă© a sua relação com eles? â A voz era suave, mas o olhar nĂŁo tinha nada de amigĂĄvel.
Droga, o chefe nĂŁo contou nada pra eles? Galf atĂ© suspeitava, mas agora estava claro o quanto o chefe era uma pessoa meticulosa â e complicada.
Ele pigarreou e disse:
â Sou Galf Shenfelder, da SĂ©tima Cauda. O chefe me confiou essa operação. Claro que comandar as unidades pessoais dele estĂĄ fora da minha alçada. NĂŁo tenho objeçÔes se vocĂȘs preferirem seguir com as prĂłprias missĂ”es.
â SĂ©tima Cauda? Entendo â disse a mulher encapuzada. â Compreendo. Sou a esposa do chefe, Yuttri.
â O quĂȘ?!
â VocĂȘ nĂŁo pode sair dizendo uma coisa dessas sĂł porque ele nĂŁo tĂĄ aqui! â disse a Sombra Sufocada, dando um tapa na cabeça de Yuttri.
Ponta estava tremendo. Galf achou que ia ter um infarto, mas no fim a mulher só estava tirando sarro. Ele respirou fundo enquanto esperava Yuttri levantar a cabeça de novo.
â HĂĄ um espaço grande no subsolo â ele explicou. â Dado o tamanho da operação, nĂŁo convidei todo mundo, mas os principais foram chamados. Eles aceitaram seguir nossas ordens, mas vĂŁo cooperar com mais entusiasmo se tiverem a chance de nos conhecer pessoalmente.
Acidentes faziam parte da vida de quem caçava tesouros. Cofres do tesouro eram manifestaçÔes de memĂłrias distantes â e qualquer coisa podia acontecer nesses domĂnios anormais. Arriscar a vida nesses lugares acabava moldando caçadores com disposiçÔes inabalĂĄveis.
Os Grieving Souls estavam excepcionalmente acostumados a situaçÔes inesperadas. O mesmo podia ser dito da arte incompreensĂvel e sobre-humana do lĂder deles. NĂŁo receber nenhuma informação prĂ©via jĂĄ era o padrĂŁo. O amor pelo desconhecido era um dos segredos por trĂĄs do sucesso do grupo.
Eles seguiam Galf Shenfelder por uma longa escadaria. Eram seis: Sitri, Luke, Liz, Murina, Touka e Krahi. NĂŁo trocavam palavras â o Ășnico som era o eco constante de seus passos firmes.
Mas, Ă medida que caminhavam, algo começou a se formar lentamente na mente de Sitri â ninguĂ©m ali tinha ideia do que estava acontecendo. Naturalmente, os Grievers nĂŁo entendiam a tarefa que Krai havia jogado sobre eles de repente, e parecia que Touka e a Princesa Murina tambĂ©m nĂŁo sabiam de nada.
Dadas as circunstùncias, o trabalho de pensar ficaria com Sitri. Liz e Luke eram mais do tipo intuitivo, e nem Lucia nem Ansem estavam por perto dessa vez. Sem deixar transparecer no rosto, Sitri começou a organizar as informaçÔes em sua cabeça.
Essa escadaria Ă© absurdamente longa, pensou ela. O que algo tĂŁo profundo no subsolo estaria fazendo em Kreat?
Krai tinha dito que conseguiu ajuda para encontrar o paradeiro das organizaçÔes da lista que Sitri tinha conseguido. EntĂŁo, quando ele as despachou, ela tinha certeza de que era porque o ajudante de Krai precisava de reforço. Mas claramente nĂŁo era isso o que estava acontecendo â um civil jamais conseguiria localizar uma organização criminosa.
O homem diante dela, Galf Shenfelder, claramente nĂŁo era alguĂ©m comum. Ele exalava aquela aura distinta de quem possui uma grande quantidade de mana material e se movia como alguĂ©m com vasta experiĂȘncia em combate. E ainda havia a mĂĄscara cobrindo o rosto. O homem que parecia ser subordinado de Galf tambĂ©m usava uma mĂĄscara de raposa, embora com um design bem diferente.
Krai os chamava de âClube dos MĂĄscara de Raposaâ, mas Sitri conhecia bem o senso de humor do seu amigo de infĂąncia. Era o tipo de coisa que fazia jus ao tĂtulo de âMil Truques.â Ela tambĂ©m sabia que ele era um cafajeste que adorava pregar peças e provocĂĄ-la. JĂĄ tinha perdido a conta de quantas vezes ele puxou o tapete dela.
As måscaras de raposa lhe lembravam duas coisas: os fantasmas do Peregrine Lodge e os clones produzidos pela Contra-Cascata. Aqueles clones usavam måscaras de raposa, mas só isso não era suficiente para tirar conclusÔes.
Apesar dos anos trabalhando na Torre AkĂĄshica, Sitri sabia quase nada sobre a Raposa das Nove Caudas. Eles eram tĂŁo evasivos que, mesmo se tentasse, ela jamais teria conseguido contato. Nunca tinha nem cogitado que a Contra-Cascata era um dos membros e mal conseguia acreditar quando descobriu que Krai tinha feito dele um fantoche.
Embora aparentasse calma, havia duas Sitris em conflito dentro dela. A Sitri prĂł-Krai dizendo para confiar nele, e a Sitri tambĂ©m prĂł-Krai dizendo que estava sendo zoada de novo e que era melhor aceitar. No geral, essa Ășltima vencia. Era improvĂĄvel, mas dado que Krai a tinha enviado, era possĂvel que o tal Clube dos MĂĄscara de Raposa fosse exatamente isso â um clube.
Sou uma concha. Sou uma pedra. Alegria e desespero sĂŁo conceitos que nĂŁo me afetam.
Enquanto repetia esse mantra para controlar os batimentos do coração, Galf parou. Tinham chegado ao fim da escadaria.
â SĂł pra deixar claro, a gente sĂł vai fazer as apresentaçÔes â disse ele.
Galf abriu a porta de ferro. Um ar frio e mofado soprou sobre eles. O coração de Sitri disparou quando viu o que havia lĂĄ dentro. Uma onda de sussurros se espalhou, inĂșmeros olhos se viraram para eles. Luke, o manĂaco da espada, arregalou os olhos ao vĂȘ-los, e Touka apertou o punho por um breve instante.
Dentro da sala havia dezenas de pessoas â nenhuma delas normal. Perto da porta, um homem grande os encarava com intensidade.
â Ora, ora… olha sĂł quem resolveu aparecer. JĂĄ tava ficando de saco cheio de esperar â disse ele.
â Escuta aqui, Raposa, a gente tem limite pra esse tipo de coisa â reclamou outro.
Sob olhares de curiosidade, hostilidade e aliança, Galf deu de ombros e disse:
â Desculpa, mas como vocĂȘs sabem, nosso lema Ă© o sigilo.
SĂŁo as pessoas da minha lista! pensou Sitri.
Entendendo o que estava acontecendo, sua irmĂŁ piscou e gemeu:
â Ah, sĂ©rio? JĂĄ tava achando estranho. Como ele conseguiu isso?
â Hm? Como Ă©? â disse Luke. â Posso cortar esses caras?
Era coincidĂȘncia demais. Invadida por emoçÔes, sua força a abandonou. Ele nĂŁo estava zoando. A Sitri prĂł-Krai estava certa! Seu coração acelerou de vez.
Eu estava certa em acreditar em vocĂȘ, Krai!
Krahi olhou para a multidĂŁo com curiosidade.
â Tem um monte de gente aqui. Que grupo Ă© esse?
â Isso Ă© inesperado â disse Touka. â O que eu faço? Isso nĂŁo tava no contrato.
Isso podia ser um problema. Os Cavaleiros da Tocha sempre ficavam do lado da justiça e sĂł aceitavam causas limpas e corretas. Antes que Touka se irritasse, Sitri tratou de convencĂȘ-la com um sussurro discreto.
â Touka. Eu pago o dobro do valor normal.
Touka lançou um olhar de reprovação para Sitri. Lutava por dinheiro, mas tambĂ©m era bem rĂgida com seus princĂpios. Seu silĂȘncio foi um ato de gentileza, uma consideração pelo momento. Sitri ficou muito grata.
â Triplo do valor.
SilĂȘncio.
â O chefe pode atĂ© ser um palhaço, mas ele nunca pediria pra gente fazer algo imoral. VocĂȘ sabe disso, nĂ©? Ou serĂĄ que conspiraçÔes nĂŁo sĂŁo do seu agrado?
Touka gemeu diante da escolha cuidadosa das palavras.
â Dessa vez vocĂȘ ganhou â disse ela. â Deixa eu te dar os parabĂ©ns por isso, Yuttri.
â Oh?
Sitri nĂŁo precisava de elogios quando era ela quem devia estar agradecida. Queria descobrir mais sobre a Raposa do que sobre qualquer outra organização. Ficou desapontada ao saber que Telm tinha sido trancado naquele cofre de tesouros, mas agora sentia que sua paciĂȘncia tinha valido a pena. Queria abraçar Krai e dizer o quanto era grata.
â Conquistamos a cooperação de todos da lista â disse Galf para Sitri. â Diga ao chefe que os preparativos estĂŁo completos e podemos agir a qualquer momento. Ele falou algo sobre a cadeia de comando?
Seus movimentos despreocupados e desleixados mostravam o quanto ele estava confiante. Unir tantos grupos diferentes nĂŁo devia ter sido fĂĄcil.
â VocĂȘ superou nossas expectativas, Galf â respondeu Sitri. â Vou informar o chefe.
Agora, ela entendia. Sitri sabia exatamente o que Krai estava pensando. Tudo o que ele fazia tinha um propósito. Decifrar suas intençÔes era a especialidade de Sitri. Era isso que a tornava indispensåvel. Ainda havia pontos nebulosos, mas ela jå sabia o que precisava fazer.
Ponta estava tremendo desde que tinham entrado na sala. Sitri segurou o ombro da garota e a puxou pra frente, entĂŁo disse para Galf:
â Nossa comandante serĂĄ Ponta. Sua verdadeira identidade pertence a alguĂ©m de posição muito elevada.
â HĂŁ?! â gritou Ponta, sua voz ecoando pela sala.
Sitri lhe lançou um olhar de incentivo silencioso.
â Suas Ășltimas liçÔes serĂŁo sobre habilidades de liderança! DĂȘ tudo de si!
Com a reuniĂŁo encerrada e os forasteiros fora dali, Galf fechou os olhos. As Ășnicas pessoas restantes eram ele e seus subordinados. Eram leais a ele. Se fosse preciso escolher, escolheriam ele em vez da organização.
â A reuniĂŁo foi um sucesso â disse. â Podemos agir assim que as ordens chegarem. Mas tem algo me incomodando.
A organização possuĂa uma hierarquia inflexĂvel. As ordens vindas de cima precisavam ser obedecidas sem questionamento, e atĂ© mesmo membros de patente superior podiam ser silenciados se desafiassem tais ordens. Era uma estrutura rĂgida, mas ainda assim existiam regras nĂŁo ditas.
â Fui eu quem formou essa aliança. Entregar o controle agora Ă© como deixar que outro receba os crĂ©ditos. Isso nĂŁo Ă© como costumamos fazer as coisas.
Quando Galf perguntou sobre a cadeia de comando, estava apenas seguindo o protocolo. Em tese, o direito de comando seria dele, jĂĄ que foi quem reuniu todas essas forças. Se esse direito lhe fosse tirado, ao menos deveria ter sido informado do motivo. Mas o que mais o incomodava era o fato de que essa operação era sua chance de virar um dos chefes. Ser destituĂdo do controle agora nĂŁo fazia sentido.
â AlguĂ©m sabe quem Ă© essa tal de Ponta? Podemos contatar a sede se for preciso. Ela nĂŁo parece ser parte dos Grieving Souls.
Ele percorreu seus subordinados com o olhar, mas todos balançaram a cabeça negativamente. Ela nĂŁo tinha a aura de uma caçadora de alto nĂvel, e o material de mana dela era visivelmente inferior ao dos outros caçadores. A princĂpio, Galf pensou que ela fosse uma novata no grupo, mas se Yuttri estava dizendo a verdade, havia algum motivo especĂfico para ela ter sido escolhida.
â Acabei de lembrar â disse um dos subordinados de Galf â, recebemos uma mensagem da sede mais cedo. Disseram que o Mil Truques foi convocado para orientar a princesa imperial de Zebrudia.
â Isso Ă© absurdo. Ela era um dos alvos secundĂĄrios da operação do Telm.
Murina Atolm Zebrudia, a princesa imperial de Zebrudia, era uma figura importante, mas com quase nenhuma presença dentro do império. Também havia sido um dos alvos da fracassada tentativa de assassinato de Telm, o Contra-Cascata.
â Visualmente, elas sĂŁo parecidas â disse o subordinado. â Cor do cabelo, altura, tudo combina. Ela pode nĂŁo ter autoridade, mas ainda ocupa uma posição elevada.
â Ou seja, tem coisa aĂ que nĂŁo estĂŁo nos contando.
Se quiser enganar seus inimigos, comece enganando seus amigos. Fox era atualmente uma das maiores ameaças ao grande Império Zebrudiano. Mas mesmo as maiores entidades eram vulneråveis a ataques internos. Galf sentiu um arrepio subir pela espinha, como se tivesse acabado de vislumbrar uma conspiração gigantesca.
â SerĂĄ que conseguiram trazer a princesa imperial pro lado deles? Isso significaria que o fracasso do Contra-Cascata foi mesmo intencional? Ter a princesa imperial sob a influĂȘncia da Fox abalaria atĂ© Zebrudia… mas Ă© difĂcil acreditar.
NĂŁo era preciso ser um gĂȘnio para perceber que a Fox teria muito a ganhar ao atrair um membro da famĂlia imperial. E que forma melhor de mostrar a nova lealdade dela do que colocĂĄ-la no comando de uma operação?
Galf tinha ouvido que a operação em Kreat seria um passo chave na declaração de guerra da Fox contra o mundo. Receber essa notĂcia ao mesmo tempo que a traição da princesa imperial seria um choque capaz de ecoar por todo o continente. Poderia isolar o impĂ©rio. E quem lideraria essa investida seria o novo chefe da Fox: Galf Shenfelder.
â Interessante. Estamos diante de um ponto de virada na histĂłria.
Eles tinham um grande trabalho pela frente. Galf ainda nĂŁo tinha visto o plano do chefe em sua totalidade. Mas talvez o chefe pensasse que, se ele nĂŁo fosse capaz de deduzir isso sozinho, nĂŁo merecia usar a mĂĄscara. Da mesma forma, a verdadeira identidade de Ponta era Ăłbvia o bastante para quem prestasse atenção. “Incompetente” seria uma descrição justa para qualquer um que nĂŁo conseguisse juntar as peças.
Galf quase tremia. Pensar que nem mesmo alguém de sua posição havia sido informado de que os Grieving Souls e os Cavaleiros da Tocha eram aliados da Fox. Nem que a princesa imperial estava do lado deles. Era uma carta na manga, uma que perderia valor se suas alianças fossem reveladas. Usada na hora errada, anos de trabalho poderiam se desintegrar num piscar de olhos.
â NĂŁo hĂĄ necessidade de contatar a sede â decidiu Galf. â Vamos seguir as ordens e confiar na Ponta. Preparem-se para agir a qualquer momento! Vamos continuar com o Plano A.
O momento estava próximo. O mundo estava prestes a mudar. Um sorriso sombrio se formava nos låbios de Galf quando o subordinado responsåvel pela comunicação entrou correndo.
â Galf, acabamos de receber uma mensagem da sede. Querem saber o status do pacote do Plano A.
Surpreso, Galf franziu o cenho. Só havia um item ao qual poderiam estar se referindo. Estava sob forte segurança em um museu do império, e garanti-lo havia sido a Fase Um do Plano A.
â Seguimos o plano e entregamos a Chave da Terra para o chefe. As informaçÔes deles devem estar desatualizadas â disse Galf.
Tendo se formado a partir dos restos de uma agĂȘncia de inteligĂȘncia, a Fox era especialista em informação. Um atraso de algumas horas era normal, mas a sede estar com dias de defasagem era raro. Com certeza o chefe nĂŁo teria esquecido de informĂĄ-los…
Tradução: Carpeado
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