Grieving Soul – Capítulo 2 – Volume 7

 

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire

Light Novel – Volume 07 – CapĂ­tulo 2:
[O AutĂȘntico e o Falso]


— Amanhã eu deveria fazer meu exame de qualificação para um bastão espiritual composto avançado — murmurou Lucia, do assento à minha frente.

O respeito que vinha com o título de caçador de alto nível permitiu que nossa carruagem passasse pelas inspeçÔes e caísse na estrada rapidamente. Só haviam se passado algumas horas desde que eu me encontrara com a Maldição Oculta, e eu duvidava que até mesmo ela esperasse que eu agisse tão depressa.

Do lado de fora, eu podia ouvir o som trovejante dos passos de Ansem correndo ao lado da carruagem. Ele era bom em reduzir o som dos prĂłprios passos, mas havia um limite para o que vocĂȘ podia fazer quando era tĂŁo pesado. Com ele ao nosso lado, a maioria dos monstros se mantinha longe. AtĂ© mesmo fantasmas, que supostamente nĂŁo tinham medo, saĂ­am correndo ao nos ver.

Finalmente, me permiti relaxar um pouco. Parecia que toda viagem recente que eu fazia passava num piscar de olhos. As habilidades de coordenação da Eva não podiam ser subestimadas. Parecia que tudo dava certo sempre que eu pedia algo pra ela.

Mas serå que era mesmo certo levar a princesa imperial conosco? Ela só tinha vindo até a sede do clã para conversar. Tudo bem, eu jå tinha conversado com o imperador sobre um treinamento mais intensivo, mas ainda não tínhamos marcado uma data.

A princesa imperial e suas duas acompanhantes pareciam curiosamente dispostas a aguentar correr ao lado da carruagem. Pelo visto, o imperador tinha dito a verdade quando afirmou que Murina estava mais entusiasmada com os treinos.

— Por que vocĂȘ estava organizando tudo isso bem antes do torneio? — perguntei.

— VocĂȘ! Que! Veio com essa histĂłria de torneio do nada! Argh!

Talvez por estarmos só nós dois na carruagem, ela agia sem a costumeira contenção.

— E eu tambĂ©m perdi a palestra que eu deveria ter assistido em troca de poder participar. Ai, o que serĂĄ que meu mentor vai dizer? VocĂȘ precisa me avisar com antecedĂȘncia! Tipo agora, que simplesmente disse que a gente vai—

— É, aham.

— Pelo amor de Deus, me escuta!

Hmm. EntĂŁo meu jeito de ignorar nĂŁo funciona? Sabia que vocĂȘ nĂŁo seria tĂŁo fĂĄcil assim.

— Todo mundo tem planos! — ela continuou. — O Luke ia matar um dragĂŁo amanhĂŁ pra pagar o ingresso dele. A Siddy e a Liz tambĂ©m…

Espera. EntĂŁo ele devia mesmo estar aqui?

Luke e os outros membros da escola dele eram regularmente convocados pra exterminar criaturas perigosas. O motivo pelo qual ele se safava de cortar tantas pessoas era porque ele tinha cortado um pouco mais monstros do que humanos. Se ele tinha um compromisso tĂŁo importante, podia muito bem ter nos encontrado depois. Era isso que a Eva e os outros membros do clĂŁ planejavam fazer.

— VocĂȘs me dĂŁo prioridade demais — falei. — Eu fico bem, desde que vocĂȘ esteja comigo.

— Pelo amor de Deus!

NĂŁo reclama. Eu preciso de vocĂȘ. AlguĂ©m tem que carregar minhas RelĂ­quias.

— Da mesma forma, fui forçada a despachar, digo, confiar um experimento agendado Ă  Talia — disse Sitri, do banco da frente. Ela estava ali porque tinha perdido no pedra-papel-tesoura. — Mas acho que estĂĄ tudo bem. Aquele trabalho nĂŁo Ă© meu foco agora. Eu detestaria que meu projeto atual fosse interrompido, mas acho que posso continuĂĄ-lo em Kreat.

Pelo visto, todo mundo estava ocupado. As prioridades deles estavam completamente embaralhadas. Eles deviam saber que meu convite foi uma coisa de momento. EntĂŁo por que aceitaram tĂŁo prontamente? Mas eu nĂŁo ia me desculpar, porque duvidava que fosse isso que eles queriam. O que eles esperavam era gratidĂŁo.

— Pensando bem, onde está a Eliza? — perguntei.

— Mmm. A Liz disse que viu ela hoje mais cedo.

Eliza ia aonde bem entendia. Pelo menos parecia que ela estava bem.

Bocejei e aproveitei a tranquilidade. Eu estava de boa até voltar para a capital imperial, depois do Festival do Guerreiro Supremo. Talvez eu só ficasse em outra cidade até tudo se acalmar. Mas aí algo me ocorreu.

Eles podiam me seguir. Eles iam me seguir, né? Arnold fez isso. Por que Gark e a Névoa Caída não fariam o mesmo?

Eu estava assumindo que estaria seguro ao me afastar da capital imperial. E nĂŁo sĂł isso, esqueci de garantir que a Eva manteria a boca fechada. Isso era ruim. E pra piorar, eu nĂŁo estava gostando do que ouvia lĂĄ fora.

— Corre mais! — gritou Liz. — Para de arrastar os pĂ©s, princesa!

— Já que estamos nisso, que tal um treino de combate? — rugiu Luke.

A princesa imperial nem gritou.

Depois de algumas horas de viagem, bem quando eu estava começando a me acostumar com a algazarra lå fora, um cheiro repugnante e familiar foi trazido pela brisa. Lucia fechou seu livro e enfiou a cabeça pra fora da janela.

Olhei pra fora e vi imediatamente. Bem distante, na direção para onde eståvamos indo, uma cidade estava em chamas. Colunas de fumaça negra se erguiam do solo.

— Um jabe! Manda um jabe! — ouvi Luke gritando.

— Que paisagem bonita — murmurei.

— Eu desisti de lutar contra um dragão pra estar aqui!

VocĂȘ nĂŁo desistiu. TĂĄ fugindo!

— Mais do que um dragão! Me dá algo melhor que um dragão! Vai! Me dá um dragão que usa espada!

— Vamos, princesa! Hora de uma batalha de verdade!

Liz parecia absurdamente feliz por ter um novo brinquedinho.

Acabou. Perdoa eu, Deus.

Os passos começaram a se afastar. Pelo visto, estavam indo na frente. Sem dizer nada, Lucia pegou seu bastão e desceu da carruagem. Muito confiåvel, minha irmãzinha.

— Então por que esse lugar tá pegando fogo? — falei em voz alta.

— VocĂȘ vive escolhendo lugar que tĂĄ pegando fogo — resmungou ela.

Um absurdo.

— Por agora, vamos começar apagando aquilo — disse Lucia, enquanto os braceletes em seus pulsos começavam a brilhar. Nuvens se formaram no cĂ©u, e logo a chuva castigava a terra. A tempestade, no entanto, a evitava.

— Esses braceletes são incríveis — disse ela, olhando para eles com espanto. — Com a Graça de Hydrogod, talvez eu tenha uma chance de vencer?

Olhei para os portÔes da cidade e vi que o fogo jå tinha sido controlado. Lucia claramente tinha melhorado. Ela voltou para a carruagem e colocou o símbolo do nosso grupo: a måscara de caveira sorridente. Sitri enfiou a cabeça pra fora e vi que, em algum momento, ela também jå tinha colocado a dela.

— Krai, estamos entrando na cidade. Sua máscara.

— Mmm. Certo.

Elas jĂĄ estavam acostumadas a usar as mĂĄscaras com frequĂȘncia, mas eu nĂŁo, entĂŁo tinha me esquecido completamente. Eu nĂŁo gostava de ficar cego, mas se alguĂ©m visse meu rosto, poderia ser bem mais problemĂĄtico.

Pensando agora, escolher um sĂ­mbolo que escondesse nossos rostos foi uma Ăłtima decisĂŁo. Teria sido genial… se eu nĂŁo tivesse esquecido de fazer buracos pros olhos. Suspirei e comecei a revirar minha bagagem. Meus olhos se arregalaram. Eu tinha esquecido minha mĂĄscara.

Ah, que beleza. Logo eu, o lĂ­der do grupo.

Por algum motivo, tudo que eu tinha era a måscara deixada pelo fantasma na Pousada Peregrine. Sem outra opção, coloquei ela mesmo.

— E aí, como ficou? — perguntei à Lucia.

— Por que vocĂȘ tĂĄ usando ESSA mĂĄscara? É bizarra demais!

— Mas Ă© mais bonita do que a outra.

— NĂŁo foi vocĂȘ que desenhou as duas?!

Ela tinha total razĂŁo.

— Consegue enxergar com isso aí? — ela perguntou.

— Claro que não. Não tem buraco pros olhos.

Lucia soltou um suspiro profundo. Mas eu jĂĄ tinha uma solução especial preparada. Tirei a mĂĄscara e comecei a vasculhar minhas RelĂ­quias. Encontrei o que procurava — um pingente. Ele era feito no formato de um olho e pendurado numa corrente de prata. Esse era o Terceiro Olhar, a mais recente aquisição da minha coleção. Com ele, eu podia enxergar mesmo de olhos fechados! Agora eu nĂŁo precisava mais andar de mĂŁos dadas com Sitri ou Lucia por causa da mĂĄscara! (Custou sĂł cento e cinquenta milhĂ”es de gild.)

Coloquei o pingente no pescoço e então vesti a måscara. Mesmo com os olhos cobertos, conseguia enxergar de alguma forma. Era uma sensação estranha, mas bem melhor do que ficar completamente às cegas. Só espero que ninguém ache que eu sou um caso perdido.

Virei pra Lucia e vi que ela rapidamente recolheu a mĂŁo que tinha estendido.

Enquanto preenchíamos a papelada pra entrar na cidade, Sitri também conseguiu algumas informaçÔes.

— Perguntei por aí e parece que foram pessoas as culpadas — me informou.

— Pessoas, Ă©?

Talvez por causa de todas as minhas experiĂȘncias ruins recentes, achei atĂ© que isso era melhor do que lidar com fantasmas ou dragĂ”es.

— Disseram que alguns bandidos se esconderam no meio de um grupo de viajantes e agiram todos de uma vez. Pelo visto, foi uma operação coordenada, com bastante gente envolvida. Mas parece que o plano deles não foi muito bem pensado.

Não dava pra saber exatamente o que Sitri sentia em relação a isso, mas essa cidade era muito maior do que aquela cidade das termas em que estivemos. Se esses caras conseguiram realizar um ataque aqui, talvez fossem mais organizados que aquele esquadrão que atacou Suls. Eu só esperava que o resto dos meus amigos voltasse logo. O problema era que eu nem sabia pra onde tinham ido.

— Com tantos caçadores de tesouros por aqui, era Ăłbvio que iam falhar — continuou Sitri. — Se tinham gente suficiente pra incendiar a cidade, podiam ter usado esse pessoal pra algo mais Ăștil. Que desperdĂ­cio.

— Do jeito que espalharam os focos de fogo, dá pra ver que machucar pessoas nem era o objetivo principal — acrescentou Lucia.

— De fato. Aparentava ser algo organizado, mas os mĂ©todos foram bem toscos.

— É, aham — concordei, só pra não ficar de fora.

As duas pareciam bem acostumadas a trocar ideias assim.

A chuva ainda caĂ­a, mas a magia de Lucia nos mantinha secos. Mantendo o perfil baixo, fiquei de olho, tentando encontrar meus amigos. Foi quando ouvi um estrondo alto vindo da rua Ă  frente. Arrepiei. Sitri parou.

— Caiam fora, ratos! — uma voz ribombou como um trovão. — Nenhum covarde vai parar Hanneman, o Braço de Ferro!

Ave Maria.

Com um rugido ensurdecedor, o chĂŁo tremeu. As pedras do calçamento foram partidas e reviradas. No centro do caos, havia um homem com cerca de sessenta por cento do tamanho do Ansem. Ele segurava um bastĂŁo de metal com uns dois metros de comprimento e mais grosso que o meu braço. “Pilar” era uma descrição mais apropriada. Ele balançava aquilo como se fosse um graveto, mas devia ser pesado demais atĂ© pra eu levantar.

GuardiĂ”es e caçadores cercaram o brutamontes na hora, mas ele os lançou longe com um Ășnico golpe.

Ah. Esse deve ser um dos bandidos.

— Braço de Ferro — repetiu Sitri. — Autoproclamado, com certeza. NinguĂ©m tem esse tĂ­tulo.

— Igual o Luke, que se chamava de Lñmina do Testamento — comentou Lucia.

— Acho que ele ainda se chama assim.

Eu me perguntava qual era o problema do tal Braço de Ferro, que parou a poucos metros da gente e começou a demolir um prédio com o seu pilar. Parecia que estava fugindo de algo, mas de repente resolveu parar sem motivo.

Ele ainda nĂŁo tinha nos visto, mas era questĂŁo de tempo. E, pela experiĂȘncia, eu sabia que isso nunca terminava bem. Totalmente compreensĂ­vel. Quem Ă© que nĂŁo atacaria um grupo com mĂĄscaras suspeitas como as nossas? A mĂĄscara da caveira sorridente jĂĄ tinha atraĂ­do vĂĄrios atacantes ao longo dos anos. Quem foi o idiota que inventou esse design assustador?

— Vamo lá, vamo lá, seus insetos! Enfrentem Hanneman, se tiverem coragem!

SerĂĄ que dĂĄ pra culpar os guardas por terem confundido esse cara com um viajante? E por que ele tĂĄ gritando o prĂłprio nome no meio de um surto?

Santo céu. Se Lucia e Sitri não estivessem comigo, eu jå teria metido o pé.

Os guardas decidiram que não era boa ideia encarar o Braço de Ferro de frente, então começaram a cercå-lo aos poucos. Por que estavam sendo tão óbvios? Por que o Luke ainda se chamava de Lùmina do Testamento? Enquanto esses pensamentos passavam pela minha cabeça, uma luz ofuscante envolveu o homem. Com o pilar ainda nas mãos, o Braço de Ferro voou pelos ares e caiu não muito longe de onde eståvamos escondidos.

A expressão dos guardas congelou. Lucia deu um passo à frente. Ouvi passos leves no meio da chuva e virei na direção. Vi um jovem alto, de manto preto e um cajado imponente. Imune à chuva, ele se mantinha firme com uma postura digna de um monarca. Soltei um suspiro.

Mas o que mais chamava atenção era o rosto dele.

— Aquela mĂĄscara…

Era uma mĂĄscara de caveira. Parecia com as que usamos nos Grieving Souls, mas o design elegante dava um ar completamente diferente. E ela tinha buracos pros olhos! Confesso que fiquei com inveja.

O homem bateu o cajado no chĂŁo e anunciou, com uma voz que ecoava mesmo em meio Ă  chuva:

— É sĂł isso, Braço de Ferro? Duvido que ainda consiga me ouvir, mas vou dizer mesmo assim. Meu nome Ă© Krahi Andrihee! O Mil Artes e lĂ­der dos Bereaving Souls!

Todos ficaram em choque. Ele tinha força suficiente pra derrubar aquele brutamontes com um só golpe. Tinha um carisma inabalåvel, nascido de sua postura régia. Os guardas começaram a cochichar entre si.

— É ele mesmo? O Alma líder sobre quem todo mundo fala?

— Dizem que Ă© o homem mais forte da capital imperial e que quase nunca sai das sombras.

— O que ele tĂĄ fazendo aqui? SerĂĄ que Ă© mesmo ele?!

— Disseram que o tal de Proteano nĂŁo sei o quĂȘ apareceu mais cedo tambĂ©m.

Prendi a respiração, não conseguia evitar ser arrastado pela empolgação deles.

— Esse Ă© o verdadeiro Mil Truques?! — gritei antes de conseguir me controlar. — Que mĂĄscara irada!

Ouvi um gritinho adorĂĄvel vindo da Lucia. Isso nĂŁo acontecia com muita frequĂȘncia.

— Ele Ă© real?! Ah, me poupe — ela resmungou.

— Mil Artes — repetiu Sitri com uma voz serena, ignorando a minha empolgação. — Esse título não existe. Deve ser autoproclamado.

Apesar de sua fĂșria violenta, Hanneman, o Braço de Ferro, agora estava desmaiado. Como se quisesse mostrar que havia perdido o interesse, o Mil Artes se virou com um movimento elegante da capa e se afastou. Ele se portava com orgulho e austeridade, sem se importar com os inĂșmeros olhares voltados para ele. Definitivamente, nĂŁo era um sujeito comum. AtĂ© seus menores movimentos eram refinados. Ele era estiloso. Um durĂŁo de verdade.

E então finalmente me dei conta — será que esse era o Krahi Andrihee da lista da Eva? Não poderia haver mais de um “eu” de verdade, então não tinha como estar enganado. Que empolgante!

— O Mil Artes. Krahi Andrihee — falei para mim mesmo. Parecia que eu estava vendo uma lenda viva. — Será que ele vai participar do Festival do Guerreiro Supremo?

— Ao que tudo indica — respondeu Sitri num tom monótono.

De repente, Krahi virou na nossa direção. Lucia começou a tremer. Olhos da cor de Înix espiavam por baixo da måscara. O cabelo dele era da mesma cor. Ele estava encharcado pela chuva, mas isso só aumentava sua presença. Percebi que tanto Sitri quanto Lucia haviam tirado as måscaras sem que eu percebesse. Comecei a ficar nervoso.

— Essa mĂĄscara Ă© bonita, rapaz — ele me disse.

Quanto mais eu olhava, mais certeza tinha de que ele era o verdadeiro. NĂłs compartilhĂĄvamos muitos traços, mas cada detalhe dele era cem vezes mais estiloso do que eu. Lembrei de um ditado sobre como todo mundo tem trĂȘs sĂłsias por aĂ­. Era muito mais provĂĄvel que eu fosse a cĂłpia. Mas atĂ© dizer que eu me parecia com ele parecia presunçoso.

— Hm. Me desculpe — ele disse —, mas nĂŁo pude deixar de ouvir a conversa. Por acaso vocĂȘs trĂȘs sĂŁo meus fĂŁs?

— Isso mesmo! — respondi. — Posso pegar um autógrafo?

— Hããã?! — soltou Lucia.

— Mas Ă© claro! — respondeu Krahi.

Na real, eu nem era tĂŁo fĂŁ assim, mas nĂŁo tinha escolha senĂŁo me tornar um. Ele era igualzinho a mim e superforte.

Numa situação dessas, eu normalmente daria um sorriso sem graça, mas Krahi apenas assentiu. Essa é a diferença entre o original e a cópia. Ele tirou do bolso uma caneta e um pedaço de papel e escreveu com um movimento fluido. Fiquei profundamente impressionado. A essa altura, jå o considerava tão incrível que jamais conseguiria imitå-lo.

— Aqui estĂĄ — disse ele. — Essa Ă© a minha primeira vez nesta cidade, o que faz de vocĂȘ meu primeiro fĂŁ por aqui.

— Muito obrigado! Olha, meu nome Ă© Krai.

Os olhos de Sitri e Lucia quase saltaram das Ăłrbitas. Krai e Krahi. Que coincidĂȘncia engraçada.

Krahi Andrihee engoliu em seco e entĂŁo disse:

— Ora ora. Que reviravolta do destino!

Ele parecia genuinamente feliz. Fiquei imaginando como reagiria ao descobrir que nossos sobrenomes também eram parecidos.

— E eu nĂŁo pude evitar ficar curioso…

— IncrĂ­vel! Que reviravolta adorĂĄvel do destino! Agora, adoraria apresentar vocĂȘs ao resto dos Bereaving Souls, mas infelizmente ainda nĂŁo me reuni com eles. Chegaram antes de mim, sabem.

— Que pena. Que tipo de grupo eles são?

— Ah, de fato, os nomes deles ainda nĂŁo sĂŁo muito conhecidos. Mas nĂŁo vejo motivo para escondĂȘ-los de vocĂȘs. — Krahi levou a mĂŁo ao queixo, numa pose bem durona. — Primeiro, um Espadachim de inteligĂȘncia excepcional, que encurrala seus inimigos com calma — Kule Saicool, o Sortie Proteico. Ele Ă© o designer desta mĂĄscara e o cĂ©rebro do nosso grupo — declarou Krahi com orgulho.

Fui pego de surpresa. Kule parecia uma versĂŁo evoluĂ­da de Luke, e soava muito legal.

Os ombros da Sitri tremiam. NĂŁo a via assim fazia um bom tempo. Ela sempre mantinha uma postura fria, mas na real tinha um senso de humor muito bom, embora meio estranho. Enquanto isso, a expressĂŁo da Lucia estava tĂŁo rĂ­gida quanto pedra. A Ășltima vez que a vi assim… bem, na verdade nĂŁo fazia tanto tempo assim.

— Em seguida, uma Ladina perspicaz. Às vezes usa sua esperteza para o mal, mas jĂĄ salvou nosso grupo em vĂĄrias ocasiĂ”es — Elizabeth Smyat, a Sombra Sufocada. Ou Izabee, como gostamos de chamĂĄ-la.

Smyat. Um nome até fofinho. E Izabee. Hmm.

Parece que eu nĂŁo era o Ășnico que tinha um sĂłsia. Era uma coincidĂȘncia incrĂ­vel, mas nem se comparava a encontrar um cofre do tesouro nos cĂ©us. E como uma sombra poderia ser “sufocada”, afinal?

Olhei para a Smart ao meu lado, cabeça baixa e ombros tremendo, e perguntei ao Krahi:

— Por acaso vocĂȘs tĂȘm uma Alquimista?

— Temos sim! Kutri Smyat, a Ignorável!

Isso sim era algo. NĂŁo fazia muito sentido, mas Krahi falava com tanto orgulho que eu tinha certeza de que ela era uma boa garota, assim como nossa Sitri.

— IncrĂ­vel, nĂ©? — falei, cutucando o ombro trĂȘmulo da Sitri. — Mas duvido que ela seja tĂŁo inteligente quanto vocĂȘ.

— Ignorável — disse minha querida amiga com uma voz baixa e forçada. — Por favor. Se esforce um pouco mais. — Então me deu um tapa.

O belíssimo Krahi se aproximou da Lucia — que estava tão expressiva quanto uma estátua — e se curvou um pouco para encará-la nos olhos.

— NĂŁo precisa ficar tĂŁo tensa, senhorita — ele disse. — VocĂȘs trĂȘs sĂŁo meus primeiros fĂŁs. Que tal um autĂłgrafo?

Sem dizer uma palavra, Lucia fechou o punho e, num movimento fluido, socou Krahi bem no rosto.

Quando reencontramos o resto do grupo, todos ficaram perplexos ao ouvir nossa histĂłria.

— HĂŁĂŁĂŁ?! Ele nĂŁo Ă© nosso fĂŁ?! — gritou Liz.

— Droga — disse Luke, com um estalo de língua —, eu tava entediado, então pensei em cortar ele no meio, mas a Liz disse que eles podiam ser um grupo subordinado nosso.

Ansem resmungou, e nossa nada facilmente ignorĂĄvel Smart sinalizou concordĂąncia com um gemido.

Por que raios a gente teria grupos subordinados?

Depois de conversar com eles, descobrimos que o objetivo dos bandidos era uma RelĂ­quia sob forte segurança num museu local. Os incĂȘndios foram causados pra lançar a cidade no caos, mas graças Ă  ajuda de pessoas como meus amigos (e o Krahi), a situação foi resolvida sem nenhuma vĂ­tima e a RelĂ­quia permaneceu segura. Eu queria muito ver que tipo de RelĂ­quia justificava a cooperação de tantos criminosos, mas nĂŁo tinha tempo pra isso.

Ser forçada a correr tudo aquilo só para depois ser jogada em um time de assalto deixou a princesa imperial e sua guarda completamente exaustas. Liz não estava nem um pouco incomodada com isso; ela estava muito mais interessada na expressão da irmã.

— Aliás, Siddy — disse ela —, o que tá acontecendo com seu rosto? Tá todo vermelho.

— Parece que ela achou algo engraçado — falei.

— Ah, claro. “IgnorĂĄvel” — disse Sitri. — Isso nĂŁo faz o menor sentido. Que nome idiota. Como Ă© que alguĂ©m acaba com um tĂ­tulo desses?!

— É, uhum. Enfim, parece que vamos ter problema pra nos dar bem com eles. Nunca vi a Lucia socar um estranho daquele jeito antes.

O jeito como Krahi derrubou Hanneman com facilidade, mas depois foi mandado voando por um soco da Lucia, foi totalmente absurdo. Mas Krahi a perdoou, um sinal da sua profunda magnanimidade.

— C-Como Ă© que vĂŁo me culpar? — protestou Lucia. — Aquilo foi demais.

— Ah, esqueci de perguntar se eles tinham uma sósia da Lucia.

— Krai — disse Sitri —, a Lucy ama demais o irmão pra deixar esse tipo de coisa—

Antes que Sitri pudesse terminar a piada, o punho da Lucia acertou ela em cheio. Um verdadeiro feito pugilĂ­stico. Parecia que ela melhorava a cada soco. Logo, ia conseguir enfrentar o mundo inteiro.

Ignorei a algazarra dos meus amigos e, tentando iniciar uma conversa com Krahi, falei com uma voz de detetive durĂŁo:

— Tî ansioso pra ver ele no Festival do Guerreiro Supremo.

Um homem de estatura mediana, vestindo um casaco preto e usando uma mĂĄscara de raposa, estava frente a frente com um caçador temĂ­vel. No momento em que Galf Shenfelder, o Rei dos Ladr… Ladinos e Raposa da sĂ©tima cauda, viu aquilo, achou que seu coração ia parar.

O plano estava indo bem. Eles tinham um time de distração e outro para roubar a Relíquia. Até tinham infiltrados. O fracasso era praticamente impossível, e de fato, conseguiram fugir com a Relíquia. A distração feita por Hanneman tinha funcionado, e ninguém percebeu que o item em exposição tinha sido trocado por uma falsificação.

EntĂŁo por que havia um homem com uma mĂĄscara de raposa lĂĄ atrĂĄs? Raposas eram o sĂ­mbolo da Raposa Sombria de Nove Caudas. A maioria dos membros possuĂ­a uma mĂĄscara vulpina e as usavam nas operaçÔes. Mas poucos sabiam que uma mĂĄscara de raposa branca era prova de que alguĂ©m pertencia Ă  alta cĂșpula. O prĂłprio Galf Shenfelder tinha uma posição bem elevada, e sĂł tinha visto uma daquelas mĂĄscaras uma vez antes.

A Raposa Sombria de Nove Caudas foi formada depois que seu fundador adquiriu uma mĂĄscara de um cofre de tesouros habitado por um deus. A mĂĄscara era linda; sĂł de olhar dava um arrepio na espinha. E a mĂĄscara usada por aquele jovem era, sem dĂșvida, a verdadeira.

Galf mal conseguia acreditar. Os membros da alta cĂșpula raramente saĂ­am das sombras, mas aquele homem estava ali, em plena luz do dia. InconcebĂ­vel. Os membros normais usavam mĂĄscaras de raposa durante as missĂ”es para divulgar a organização, mas aquilo era totalmente diferente.

Mesmo enquanto executava o plano, Galf nĂŁo sentia medo. Mas ao ver aquela mĂĄscara branca, sentiu um calafrio. Foi uma sensação nova pra ele. A Ășnica vez que tinha sentido algo parecido foi quando Hanneman foi capturado, mas aquilo foi sĂł um incĂŽmodo menor.

Galf se interrompeu. Percebeu algo. O homem da måscara branca estava conversando com aquele caçador. Estava falando com o Mil Truques. Aquele era o homem que acreditavam ser responsåvel por deter o Contra-Cascata e o Chamador de DragÔes. Serå que o chefe estava tentando avaliar o inimigo com os próprios olhos?

Os chefes da Raposa nĂŁo eram estranhos ao combate. Alguns rumores diziam que os da cĂșpula estavam no nĂ­vel de um caçador nĂ­vel 10. Um rumor extraordinĂĄrio, mas nĂŁo impossĂ­vel. Para Galf, aquele homem de mĂĄscara parecia completamente indefeso, mas aquilo podia ser sĂł confiança.

Nada parecia ter sido resolvido na conversa deles. O chefe falou com o Mil Truques, e o Mil Truques nem parecia perceber quem estava na frente dele.

Felizmente, Galf e seus companheiros estavam prestes a iniciar uma grande operação. Ele tinha uma forma de receber o chefe e confirmar que era mesmo quem parecia ser. Galf fechou os olhos, ajustando o foco. Precisava ter certeza. Com isso em mente, saiu correndo.

Eu realmente me sentia mais seguro com o resto do grupo por perto. Enquanto afaståvamos monstros e os encrenqueiros de sempre, seguimos até nosso destino. Jå tinha tido um encontro legal, então talvez essa sorte continuasse.

Talvez minha mĂĄ sorte combinada com a da Murina tenha virado sorte positiva. Pera. JĂĄ nĂŁo falei isso antes?

— Realmente Ă© diferente quando vocĂȘ tĂĄ com a gente, Krai — disse Luke, depois de cortar uma criatura lupina com sua espada de madeira.

— Diferente como?

— Esses caras não são grandes coisas, mas são bom treino pro torneio.

Ansem grunhiu, concordando com nosso nada estiloso Luke.

Ei, me digam, o que Ă© que Ă© diferente?

Sempre me perguntava o que meus amigos faziam quando eu nĂŁo tava por perto, mas eles sempre me chamavam, entĂŁo nĂŁo achavam que eu era um peso.

— NĂŁo pense! — ralhou Liz. — VocĂȘ nĂŁo precisa usar esse cĂ©rebro inĂștil, sĂł anda! Se vocĂȘ nĂŁo matar eles, os outros vĂŁo matar primeiro! NĂŁo pense, sĂł mate qualquer inimigo no seu caminho!

A princesa Murina soltou um grito, bem mais alto que antes.

— Alteza Imperial, cuidado! — gritaram os guardas.

Realmente… Ă© meio pacĂ­fico. De um jeito esquisito.

Apostaria que nosso grupo era o Ășnico que competia por abates. Mas serĂĄ que os Grieving Souls tambĂ©m faziam isso?

Esse festival era conhecido em todos os cantos. Vivíamos numa era dominada pelos recursos retirados dos cofres de tesouros. Qualquer um que conseguisse derrotar monstros poderosos e fantasmas ganhava atenção.

A empolgação em torno do Festival do Guerreiro Supremo superava até a do leilão de Zebrudia. Eståvamos seguindo por uma estrada que cruzava vårias naçÔes, e à medida que nos aproximåvamos do destino, encontråvamos cada vez mais carruagens indo na mesma direção.

Não eram só caçadores que estavam se reunindo para o Festival do Guerreiro Supremo. Havia os candidatos óbvios como mercadores e nobres, mas também grupos de pessoas que faziam os caçadores parecerem gentis, e carroças que claramente pertenciam a civis, mas que viajavam descaradamente sem nenhuma proteção. Era um vislumbre do caos variado que era o mundo.

— É mesmo. VocĂȘ vai participar? — perguntei ao Ansem, que caminhava ao lado da carroça.

Nosso firme Paladino, vestido com sua armadura completa, assentiu em resposta. Mesmo sendo uma entre várias carroças, ele não chamava muita atenção. Isso porque estava usando sua Relíquia, Fortaleza Flutuante, para reduzir sua altura para cerca de dois metros — menos da metade do seu tamanho natural.

Apesar de exigir que ele estivesse completamente coberto de armadura para ser ativada, era uma ferramenta inestimåvel agora que Ansem estava praticamente imune à magia da Lucia. A armadura parecia extremamente desconfortåvel, mas eu não queria que ninguém perturbasse o membro mais sensato do grupo. Só que, ainda assim, dois metros era bem grande.

— Mesmo que nem todos participem, vai ter talento de sobra pra todo lado — disse Luke, com o sangue fervendo, em contraste com Ansem.

— E se vocĂȘ fizer bonito no torneio, pode chamar a atenção de alguĂ©m — acrescentou Sitri, jogando mais lenha na fogueira.

EstarĂ­amos entrando num perĂ­odo de decadĂȘncia? Eu sei que fui eu quem sugeriu irmos ao torneio, mas sĂł agora estava me dando conta de que talvez estivesse me metendo em encrenca. O Ark era a prova de que nem todo caçador de alto nĂ­vel tinha sede de sangue, mas esse era um lugar onde as pessoas se reuniam pra lutar pela supremacia.

Decidi esconder meu rosto o måximo que conseguisse. Provavelmente haveria outras pessoas usando måscaras, embora não muitas. Eu não gostava de chamar atenção, mas mostrar o rosto era ainda pior.

E assim, finalmente chegamos a Kreat, a cidade das lùminas e batalhas, anfitriã do Festival do Guerreiro Supremo. Ainda faltava um tempo até o evento, mas a cidade jå estava tomada por uma atmosfera estranha. Jå tínhamos sentido isso em pequenas quantidades nas cidades por onde passamos, mas nada se comparava à intensidade de Kreat.

As ruas estavam lotadas de caçadores experientes, mercenĂĄrios e outros tipos que ganhavam a vida pela violĂȘncia. De vez em quando dava pra ver um caçador de tesouros na capital imperial, mas nĂŁo desse jeito.

No entanto, o nĂșmero de participantes do torneio era relativamente limitado, entĂŁo a maioria dessas pessoas provavelmente estava ali pelo mesmo motivo que eu. Tinham vindo testemunhar os confrontos entre pessoas que tinham confiança absoluta em sua força, e ver o nascimento de um novo Guerreiro Supremo. NĂŁo era sempre que tantos nomes famosos se reuniam num sĂł lugar.

Qualquer homem se empolga ao ver guerreiros disputando pra ser o melhor. Ainda bem que eu vim!

Cercado pelos meus amigos, eu caminhava pelas ruas usando minha måscara. Qualquer um podia estar escondido no meio da multidão, então a princesa imperial manteve o capuz erguido. Ela parecia nervosa, como se fosse a primeira vez que se enfiava numa multidão. Mas ela não precisava se preocupar. Com o Ansem liderando o caminho, até o azar sairia correndo de medo.

— Ei, quem vocĂȘ acha que Ă© o desafiante mais forte? — perguntou Liz. — Ah, tirando eu, claro.

— Deve ter um dragão com uma espada. Tem que ter — disse Luke. — Se o Krai tá aqui, então eu sei que vai ter um. Venha a mim, dragão empunhador de lñminas!

— Mmm. Desgaste e cansaço jĂĄ decidiram vencedores antes — disse Sitri, pensativa. — E nem todo participante foi exatamente honrado, entĂŁo jĂĄ rolaram uns mĂ©todos meio… duvidosos. Mas imagino que todos os campeĂ”es tenham sido irrepreensĂ­veis.

Ela parecia estar tranquila, mas eu tinha que me lembrar de que ela também ia entrar na briga, mesmo sendo uma Alquimista.

— MĂ©todos duvidosos, hein? — falei com uma voz de detetive durĂŁo, cerrando o punho. — JĂĄ tĂŽ empolgado sĂł de pensar. Flechas, canhĂ”es, dragĂ”es, manda tudo!

— LĂ­der, do que vocĂȘ tĂĄ falando? — perguntou Lucia.

— Ah, tĂĄ todo mundo empolgado, resolvi entrar no clima tambĂ©m.

A cidade parecia estar no meio de um festival. Havia vendedores com barracas, e aromas deliciosos flutuavam pelo ar. Olhei de um lado pro outro até encontrar uma que chamou minha atenção. Tinha dragÔes feitos de chocolate e sorvete. Nunca tinha visto algo assim, mas não tem como errar com chocolate e sorvete.

— O que foi? — Lucia me olhou desconfiada quando me viu parado. Entre nós dois, ela era a mais responsável com dinheiro. Toda vez que eu gastava sem pensar, levava bronca dela.

É, tá. Eu sei, minha dívida e tudo mais.

— E-eu já volto. Espera aqui.

— HĂŁ? Ah. TĂĄ bom…

Achei que eles iam me perdoar, entĂŁo fui.

Eu me esgueirava atĂ© a barraca tentando evitar a multidĂŁo, quando senti alguĂ©m puxando a manga da minha roupa. Virei e vi que quem tinha me parado era uma jovem bem-apresentada, usando uma tĂșnica parecida com a de um sacerdote. Tinha cabelos prateados compridos e parecia alguns anos mais nova do que eu. Mas o jeito como se portava e o olhar meio vago davam a ela um ar distante.

Obviamente, eu nĂŁo fazia ideia de quem ela era.

— Posso ajudar? — perguntei.

— Por aqui, por favor — disse ela.

— Hã?

Sem dizer mais nada, a garota segurou minha mão. Não foi uma puxada forte, mas ainda assim suficiente pra me arrastar. Confuso, deixei que ela me levasse no meio da multidão, passando pelas barracas, até um beco estreito. Consegui me virar uma vez e vi a Lucia me olhando boquiaberta.

Normalmente, quando eu era sequestrado, ela resmungava, mas acabava vindo me ajudar. SĂł que dessa vez parecia que ela nĂŁo achava que eu estava sendo sequestrado.

Sequestro. NĂŁo Ă© exatamente violento, mas Ă© um sequestro, nĂ©?! Ok, mesmo que nĂŁo seja um sequestro exatamente—

— HĂŁ, acho que vocĂȘ estĂĄ confundindo com outra pes—

— NĂŁo, tenho certeza de que Ă© vocĂȘ. Por aqui, por favor.

Ela com certeza tinha me confundido com outra pessoa. Minha memĂłria nĂŁo era das melhores, mas com certeza eu lembraria de uma esquisita dessas. SĂł que minha sequestradora nĂŁo parecia nem um pouco interessada na minha opiniĂŁo sobre o assunto.

— Eu queria muito ter experimentado um daqueles dragĂ”es — falei.

— Vou providenciar isso.

VocĂȘ faria isso por mim?

Ela me arrastou pelos becos estreitos entre os prédios. Diferente das ruas movimentadas, não havia uma alma viva nesses becos. Eu jamais teria vindo sozinho pra um lugar assim, mas a sacerdotisa misteriosa andava sem a menor hesitação.

No meio do beco, uma porta se abriu do nosso lado. Eu nem tinha notado aquela coisa toda arrebentada. A garota entrou sem nem pausar. E como ainda estava segurando minha mĂŁo, eu fui puxado junto.

Eu estava completamente perdido.

— Por aqui — disse ela.

Aquilo nĂŁo me deixou nem um pouco menos perdido.

A gente atravessou o que parecia ser um prédio abandonado e então desceu uma escada que surgiu do nada. A iluminação era quase inexistente, o que me fez tropeçar algumas vezes. Parecia que alguém estava mantendo o lugar limpo, jå que não tinha nenhum cheiro ruim.

No subsolo, havia uma porta de metal reforçada que destoava completamente do cenårio caindo aos pedaços. A garota sussurrou alguma coisa pela porta, e no momento seguinte um barulho alto soou quando a tranca se abriu.

— Por aqui.

Fui seguindo e fiquei completamente pasmo com o que vi. A sala era ampla, com incontĂĄveis velas nas paredes afastando a escuridĂŁo. Mas o que me fez parar foram as figuras no centro.

NĂŁo dava pra saber a idade ou o gĂȘnero de ninguĂ©m. Mesmo com tanta gente, nĂŁo se ouvia sequer uma respiração. Mas o que mais me incomodou foi que todos usavam mĂĄscaras de raposa. Pareciam ter sido compradas em loja, e os designs eram diferentes da minha. Tinha raposa gordinha, raposa vermelha, raposa sorridente
 sinceramente, impressionante. Eu fiquei encantado e hipnotizado.

Quem eram aquelas pessoas? NĂŁo fazia ideia, mas a gente estava num cĂŽmodo subterrĂąneo e todo mundo tinha mĂĄscara de raposa. Pensei um pouco, entĂŁo resolvi arriscar meu melhor palpite.

— Parece que vocĂȘ realmente confundiu a pessoa — falei num tom durĂŁo. — Eu atĂ© tenho uma mĂĄscara de raposa, mas nĂŁo faço parte do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa.

Que diabos esse cara tĂĄ falando?

Por trĂĄs da mĂĄscara, Galf franziu a testa. Os outros membros pareciam igualmente confusos com a declaração enigmĂĄtica do chefe. Usar essas mĂĄscaras fazia parte da organização. As mĂĄscaras nĂŁo eram autĂȘnticas, mas ninguĂ©m jamais tinha zoado chamando de “Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa”.

O chefe deu de ombros. Ele parecia totalmente comum, mas a måscara dele tinha uma presença marcante. Dentro da Fox, membros de alto escalão precisavam ser obedecidos em qualquer circunstùncia. Se aquele homem dizia que eles eram o Clube de Fãs da Måscara de Raposa, então Galf não tinha escolha a não ser se dedicar ao tal clube.

— Ah. Posso tirar uma foto de vocĂȘs? — perguntou o homem, tirando uma placa do bolso.

Galf jĂĄ tinha ouvido rumores sobre essas RelĂ­quias. Eram chamadas de Smartphones. Esse homem parecia informal demais pra ser um lĂ­der da Fox, mas nĂŁo cabia a Galf decidir essas coisas. Ele olhou para a Donzela da Raposa Sagrada que tinha chamado para esse plano.

As Donzelas da Raposa Sagrada tinham um papel especial na organização. Elas cultuavam os deuses que inspiraram a fundação da Fox. Um dos papĂ©is delas era verificar a identidade dos chefes — algo geralmente envolto em camadas de mistĂ©rio.

A Donzela fechou os olhos. Galf não fazia ideia de como ela fazia aquilo, mas estava feliz que tivesse trazido o chefe até eles. Jå tinha encontrado outras Donzelas antes, mas essa era das mais novas. Ainda assim, isso não diminuía o respeito que ela merecia, nem a discrição que se oferecia a outras como ela.

A Donzela abriu os olhos lentamente, como se estivesse em transe. Em silĂȘncio, olhou para o homem. Galf sentiu uma pontada de incerteza.

Os olhos da Donzela se arregalaram e ela declarou:

— NĂŁo hĂĄ dĂșvidas sobre sua divindade. Ajoelhem-se, pois estĂŁo diante da Raposa Branca.

Galf imediatamente caiu de joelhos, assim como seus colegas. Derivado das mĂĄscaras que usavam, “Raposa Branca” era o tĂ­tulo dado aos chefes. Se a Donzela dizia que ele era autĂȘntico, entĂŁo era isso mesmo. Galf era relativamente alto na hierarquia da Fox, mas essa era a primeira vez que ficava tĂŁo prĂłximo de um chefe. NĂŁo parecia alguĂ©m que ele jĂĄ tivesse conhecido, mas era segredo aberto que existia mais de uma Raposa Branca.

O chefe parecia surpreso com a demonstração repentina de lealdade.

— QuĂȘ? Por que vocĂȘs tĂŁo se ajoelhando?! — ele disse.

— Por favor, perdoe minha grosseria anterior, ó Raposa Branca.

— VocĂȘ tĂĄ falando dessa mĂĄscara? Ela Ă© realmente tĂŁo rara assim pra merecer ajoelhar?

O clima ficou tenso. Apesar de soar genuĂ­no, nĂŁo podia estar falando sĂ©rio. Devia estar bravo. Galf nĂŁo via outra explicação. Provavelmente estava irritado por terem demorado tanto pra perceber. Eles nĂŁo deviam ter duvidado da autenticidade da mĂĄscara. Mas a postura daquele homem era ousada o suficiente pra despertar as suspeitas de Galf — e ele sabia bem como era uma mĂĄscara autĂȘntica. As Donzelas costumavam ser compostas, mas essa parecia um pouquinho nervosa.

— Digo, é  acho que nĂŁo se vĂȘ uma dessas todo dia — continuou o chefe. — Mas ainda assim, eu nĂŁo entendo. Eu nĂŁo sou do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa, sĂł vim aqui pra assistir o Festival do Guerreiro Supremo.

O que ele realmente queria dizer era que nĂŁo tinha paciĂȘncia pra quem nem conseguia reconhecer o prĂłprio chefe. NinguĂ©m ousou sequer respirar depois daquelas palavras carregadas de sarcasmo.

Como o membro de mais alto escalão presente, cabia a Galf dizer algo. Forçou a língua a se mover e falou:

— Chefe, nĂłs do “Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa” jĂĄ começamos os preparativos para o Festival do Guerreiro Supremo. Por favor, permita-nos mostrar o que jĂĄ fizemos.

— “Chefe”? Ah, entendi. Agradeço a consideração, mas vim aqui com meus amigos.

Galf não havia sido informado disso, mas parecia que havia outra equipe. Talvez alguns membros de elite estivessem de prontidão caso sua equipe falhasse. Ou talvez houvesse outro plano em andamento. No pior dos casos, o chefe estava sugerindo que outra equipe poderia assumir o comando. Mas, se lhe fosse negada a oportunidade de executar seu próprio plano, nem mesmo alguém da sétima cauda aceitaria isso calado.

— Aguardamos com expectativa — disse Galf. — Se precisar de qualquer coisa, Ă© sĂł nos chamar.

O chefe pareceu ligeiramente incomodado, mas então deu de ombros com resignação.

Sora Zohlo, a Donzela Sagrada da Raposa, lutava ferozmente para esconder o quanto estava nervosa em seu primeiro trabalho.

Nascida em uma respeitada linhagem de clérigos, era praticamente inevitåvel que começasse seu treinamento como Donzela desde muito jovem. A história das Donzelas Sagradas da Raposa precedia a própria organização a que pertenciam. Elas passavam por um treinamento especial e eram abençoadas com a habilidade de ver quem era ou não ligado às raposas divinas.

No entanto, a verdade era que tinham poucas oportunidades reais de julgar se uma mĂĄscara de raposa era autĂȘntica ou nĂŁo. Os deuses raposa evitavam interferir no mundo material, e os chefes mantinham seus paradeiros em segredo. Dizia-se que algumas Donzelas haviam passado suas carreiras inteiras sem jamais ver um chefe.

Era uma honra imensa estar diante de um chefe da Raposa Sombria de Nove Caudas, pois eles eram abençoados e portavam måscaras concedidas pelos próprios deuses. Mas isso também era um fardo tremendo para Sora Zohlo, jå que ela ainda era nova em sua posição.

O peso de seu julgamento causara uma hesitação momentĂąnea. Uma Raposa jamais duvidaria das palavras de uma Donzela, portanto, julgamentos errĂŽneos eram imperdoĂĄveis. A mĂĄscara do jovem ao seu lado era, sem dĂșvida, autĂȘntica. Ela tinha certeza disso mesmo antes de levĂĄ-lo atĂ© a toca da raposa.

Os olhos de Sora eram abençoados, o que tornava inconcebĂ­vel que confundisse uma mĂĄscara falsa de raposa branca com uma verdadeira. PorĂ©m, mesmo sem utilizar sua visĂŁo especial, ela sabia que nenhuma falsificação conseguiria replicar a presença esmagadora de uma mĂĄscara de raposa branca autĂȘntica. Embora o homem que a usava parecesse inofensivo, isso nĂŁo influenciava seu julgamento.

Por mais que o observasse, ele lhe parecia muito mais fraco do que o esperado de outros membros das Raposas. Dizia-se que o primeiro chefe da organização havia recebido sua måscara após superar uma provação imposta pelo deus raposa. Depois disso, todos que herdaram a posição foram escolhidos por sua força. Se aquele homem apenas estivesse escondendo seu poder, então era extremamente bom nisso. Mas qual seria o motivo para enganar uma Donzela? O papel delas era de submissão.

Reforçando sua expressão serena, Sora declarou com uma voz austera:

— A Raposa Branca exige um dragão sacrificial.

— Um dragão?! — sussurrou Galf. Ele olhou para Sora com uma expressão interrogativa, mas nem esperava que ela tivesse uma resposta.

DragĂ”es eram as mais poderosas de todas as bestas mĂ­ticas, mas ele e seus subordinados conseguiriam derrubar um se trabalhassem juntos. Isso Ă©, se houvesse algum dragĂŁo por perto. Ainda assim, Galf nĂŁo levantou objeçÔes Ă quela exigĂȘncia absurda.

Ele se virou e disse:

— Tem algum dragão por aqui?

Todos balançaram a cabeça.

Sora sentiu seu coração congelar e sua expressĂŁo neutra se desmanchar. Aquilo era pĂ©ssimo. Enquanto arrastava a Raposa Branca atĂ© a toca, havia dito que providenciaria um dragĂŁo. Na hora, estava com pressa e nem cogitou que poderia estar fazendo uma promessa impossĂ­vel de cumprir. NĂŁo importava qual fosse exatamente sua falha — ela podia muito bem ser morta por isso.

— Ah. Ahhh — disse a Raposa Branca, notando Sora cerrar o punho. — Se não tiverem um dragão, pode ser daqueles de sorvete com chocolate.

— Vão comprar! O máximo que conseguirem! — ordenou Galf.

Alguns de seus subordinados saĂ­ram correndo.

Era seguro assumir que estavam sendo feitos de bobos? Sora ainda lutava para se recuperar da falha. Galf, por sua vez, tirou uma bolsa e entregou o conteĂșdo Ă  Raposa Branca.

— Isso mesmo, chefe — disse ele. — Aqui está a Relíquia em questão. Por favor, aceite.

—Voltei —eu disse.

Tinha saído daquela sala subterrùnea e encontrei meus amigos me esperando, exatamente como eu tinha combinado. Graças à Visão Tripla, a mudança repentina de iluminação não me desorientou nem um pouco. Eu não costumava usar måscaras, então não tinha tido muitas oportunidades de usar essa Relíquia, mas parecia valer o preço que ela custava.

Lucia olhou boquiaberta para o pacote que eu carregava. Ela franziu a testa e perguntou:

—Onde vocĂȘ foi?

—Hmm. Não sei direito.

—Como Ă©?

Ela parecia incrĂ©dula. Mesmo que eu contasse o que tinha acontecido lĂĄ embaixo, duvidava que ela acreditasse. Realmente existem todos os tipos de fĂŁ-clubes por aĂ­. E aparentemente, ter uma mĂĄscara de raposa rara me tornava o chefe deles. Ainda parecia que algum espĂ­rito estava me pregando uma peça. Tinha me metido em mais uma “experiĂȘncia interessante”.

Raposas definitivamente se tornaram um elemento constante na minha vida. E de alguma forma eu tinha acabado com uma Relíquia. Não era estranho eu me envolver com coisas esquisitas, mas um estranho me dar uma Relíquia de graça era novidade. Mesmo assim, eu não ia reclamar de ser o chefe do Fã-Clube das Måscaras de Raposa se essa era a forma deles de me recompensar. Que bom gosto o deles, impressionados com uma måscara da Peregrine Lodge.

JĂĄ que eu ficaria em Kreat por um tempo, imaginei que nĂŁo seria a Ășltima vez que cruzaria com eles.

O alojamento que Sitri tinha conseguido pra gente parecia priorizar segurança em vez de luxo. O prédio em si era simples, mas dava pra notar que não era um lugar comum por causa dos vårios cavaleiros patrulhando do lado de fora. As janelas eram feitas de vidro grosso e as paredes tinham um brilho incomum.

Quando dei meus primeiros passos tímidos pra dentro, parecia tudo normal, mas ao olhar ao redor, notei guardas posicionados em lugares discretos. Os outros hóspedes eram pessoas como mercadores ricos e nobres viajando com uma legião de criados. Não vi nenhum outro caçador além de nós.

Nos levaram atĂ© o Ășltimo andar, onde havia um quarto grande o bastante pra acomodar um grupo do nosso tamanho. Liz soltou um grito de alegria e começou a correr, olhando debaixo das camas e atrĂĄs dos quadros. Lucia observava pela janela enorme. Aquilo me lembrava os passos que tomĂĄvamos quando acampĂĄvamos no meio do mato.

—Consegui o alojamento mais seguro que pude —disse minha querida amiga Sitri com orgulho, lançando um olhar na minha direção.—Kreat pode ficar caótica durante o Festival do Guerreiro Supremo.

Eu nĂŁo sabia nem o que dizer. Pra mim nĂŁo fazia sentido, jĂĄ que estĂĄvamos ali sĂł como turistas. TĂĄ, eu entendia que a Princesa Murina estava com a gente e tal, mas mesmo assim…

—VocĂȘ acabou de antagonizar a Raposa Sombria de Nove Caudas, afinal —disse Lucia pra mim.—NĂŁo custa nada andar com cuidado —ela suspirou.

—Tî curioso pra ver quantos eles vão mandar. Tî prontíssimo —disse Luke, dando socos no ar.

Ansem assentiu com a cabeça.

—Hmph. Uma estalagem usada atĂ© por nobres. Uma precaução inteligente —Karen comentou com um aceno arrogante.—Foi uma boa escolha. Nem precisava dizer, mas teremos que dividir os quartos. NĂŁo podemos permitir que homens durmam no mesmo espaço que Sua Alteza Imperial.

Parece que sĂł eu nĂŁo tinha entendido o que estava acontecendo. Talvez me sentisse mal por isso… se jĂĄ nĂŁo estivesse acostumado. EntĂŁo apenas dei um sorrisinho cĂ­nico.

—LĂ­der, a gente irritou umas pessoas e nĂŁo tĂĄ faltando inimigo por aĂ­. Por favor, tome cuidado, tĂĄ? —Lucia me deu uma bronca.—JĂĄ espalharam que vamos participar do torneio, e tem restos de vĂĄrias organizaçÔes se reunindo aqui.

Bom, isso era novidade pra mim. Tirando a parte de ter irritado gente, claro.

Tendo terminado sua inspeção do quarto, Liz se jogou descaradamente sobre uma mesa e cruzou as pernas.

—Dane-se isso! A gente pode esmagar todos eles. NĂ©, Anssy?

Confiante como sempre.

—Nem um pouco —respondeu Ansem.

Ele tinha um fraco pelas irmĂŁs, mas nem ele passava pano pra isso.

Luke assentiu de forma solene — um gesto bem atípico vindo dele.

—Liz, temos coisas mais importantes pra focar.

Ele estava certo. TĂ­nhamos coisas mais importantes. E por que ela tava assumindo que serĂ­amos atacados? Nem era garantido!

Então Luke continuou, ainda completamente sério:

—O que deverĂ­amos estar preocupados Ă© que nĂŁo dĂĄ pra dividir eles igualmente… a nĂŁo ser que o nĂșmero deles seja divisĂ­vel por nove! NĂ©, Krai?

—HĂŁ?! Ah, Ă©… Ă© claro —respondi, pego no embalo do Luke.

—É mesmo?! —gritou Liz.

Eu nunca conseguia ir contra o entusiasmo do Luke. Era por isso que eu ainda era um caçador. E ele falava da Murina e dos guardas dela com a maior naturalidade.

Enquanto organizava a bagagem da carruagem, Sitri encerrou o assunto dizendo:

—Bom, se decidirem nos atacar, provavelmente virĂŁo em grande nĂșmero. Se vai ter algum Espadachim entre eles, jĂĄ nĂŁo posso garantir.

—A gente fez algo tão ruim assim? —perguntei.

—Fazer um estrago sangrento em um desafiante do Festival do Guerreiro Supremo Ă© um Ăłtimo jeito de fazer seu nome circular por aĂ­ —ela disse como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ainda me parecia imoral pra caramba.

—EntĂŁo botar eles pra correr vai servir de treino e ainda melhora nossa imagem! Dois coelhos com uma cajadada sĂł! NĂ©, Krai?

—VocĂȘ Ă© um gĂȘnio, Luke.

Disse a mim mesmo que provavelmente nĂŁo tinha com o que me preocupar. Afinal, meus amigos eram fortes o bastante pra lidar com isso.

—Ah, não me faz esperar mais —disse Luke, dando golpes de treino no ar.—Vem logo, Espadachim Dragão de Oito Braços!

—VocĂȘ ainda acha que isso vai acontecer? —Liz suspirou.—NĂŁo tem como algo assim existir. Tem?

—É… uhum —respondi.

Tinha algo mågico na habilidade do Luke de fazer até a Liz, o Evento de Extinção, parecer minimamente ajustada.

Um Espadachim DragĂŁo de Oito Braços, hein? Bom, existem os Trogloditas. Eles tĂȘm braços de sobra.

Cansado de falar de carnificina, tirei a RelĂ­quia que tinha recebido do Galf. Os olhos carmesins do Luke brilharam quando viu o que eu tinha.

—Ooooh! É uma espada! Krai, deixa eu ver!

—Daqui a pouco.

A Relíquia do Fã-Clube das Måscaras de Raposa era mesmo do tipo espada. O cabo estava coberto por um padrão geométrico estranho. Ela vinha guardada em uma bainha de madeira, que era bem sem graça em comparação.

— Interessante — disse Sitri. Ela olhava para aquilo com fascinação. — É curta demais pra ser uma espada longa, mas comprida demais pra ser uma espada curta.

— Mas com certeza Ă© uma RelĂ­quia — respondi. — É leve demais. Talvez seja sĂł uma peça cerimonial?

No fim das contas, eu era só um colecionador, então não me importava de ter uma espada que eu nem podia usar. E como ganhei de graça, também não esperava muito.

Removi a lĂąmina da bainha com cuidado. Era cerca de metade da largura de uma espada reta comum e nĂŁo parecia uma arma muito confiĂĄvel. Era de dois gumes e tinha um brilho parecido com cobre. Canais minĂșsculos estavam gravados em sua superfĂ­cie, formando um padrĂŁo estranho.

RelĂ­quias eram manifestaçÔes de memĂłrias do passado, entĂŁo sua função nem sempre batia com a aparĂȘncia. Mas como eram baseadas em coisas que realmente existiram, o formato ainda era um bom indicativo do que a RelĂ­quia fazia.

As sobrancelhas da Lucia se ergueram enquanto ela encarava a espada.

— Isso não foi roubado naquela cidade por onde a gente passou?

Ah, por favor.

Lucia tirou um jornal da bagagem.

— Aqui, tem uma foto disso nesse jornal que comprei antes da gente sair.

Dei uma olhada. A capa explicava orgulhosamente como os bandidos tinham sido detidos e como milagrosamente nĂŁo houve nenhuma vĂ­tima. No centro da pĂĄgina, havia uma foto em preto e branco de uma espada idĂȘntica Ă  RelĂ­quia que eu segurava.

NĂŁo. Pera aĂ­.

— As bainhas são diferentes — falei.

— É mesmo.

As duas espadas eram idĂȘnticas, mas a bainha da foto tinha as mesmas inscriçÔes da lĂąmina. As duas eram cĂłpias perfeitas, mas nĂŁo podiam ser o mesmo item. Afinal, o roubo tinha sido impedido e a maioria dos criminosos jĂĄ estava presa.

EntĂŁo meus olhos se arregalaram e estalei os dedos.

— Já sei! A Relíquia do museu se manifestou com uma bainha, mas essa aqui não.

As Relíquias geralmente apareciam em conjunto. Espadas vinham com bainhas, sapatos vinham com cadarços e Smartphones com caixa e manual de instruçÔes. Mas às vezes só uma parte do conjunto aparecia. Era raro uma espada aparecer sem bainha, mas jå tinha acontecido. E infelizmente o contrårio também, com bainha aparecendo sem espada.

— Isso nĂŁo Ă© coincidĂȘncia demais? — perguntou Lucia.

— Mas tenho certeza que foi isso que rolou.

NĂŁo era incomum a mesma RelĂ­quia se manifestar mais de uma vez. Acreditava-se que a taxa de aparecimento de uma RelĂ­quia estava ligada Ă  frequĂȘncia com que existiu no passado. Mas tambĂ©m jĂĄ tinham ocorrido casos de mĂșltiplas RelĂ­quias surgirem mesmo que sĂł se soubesse da existĂȘncia de um Ășnico exemplar original. Isso fazia muito mais sentido do que acreditar que o Clube dos FĂŁs da Raposa de MĂĄscara tinha incendiado uma cidade sĂł pra roubar uma RelĂ­quia.

O que eu segurava era igual ao item da foto, mas nĂŁo era o item da foto. Mesmo assim, Lucia ainda parecia duvidar.

— AlĂ©m disso — falei, batendo no jornal —, acho precipitado dizer que sĂŁo iguais sĂł por… pera aĂ­.

— O que foi?

Meus olhos ficaram do tamanho de pratos enquanto lia a matĂ©ria. Segundo o artigo, a RelĂ­quia se chamava Chave da Terra e era um tesouro nacional. Mesmo que a que eu tivesse nĂŁo fosse exatamente a mesma RelĂ­quia, e mesmo sem a bainha, encontrar um item idĂȘntico ainda assim era uma baita descoberta, nĂ©?

Talvez, se eu levasse até o museu, deixassem eu ver a Relíquia deles de perto. Quem sabe até tocar nela. O artigo não falava quais eram os poderes da Relíquia, mas o pessoal do museu com certeza saberia. A gente definitivamente ia ter que passar lå na volta pra casa.

Com isso resolvido, entreguei a espada pro Luke, que estava me olhando com cara de cachorrinho abandonado fazia uns minutos.

— Toma. Mas nĂŁo vai sair cortando ninguĂ©m.

— UOOOU! Então posso cortar se não for gente?!

O amor do Luke por espadas incluía as Relíquias também. Na maioria das vezes, a gente forçava ele a usar uma espada de madeira pra não ser tão perigoso, mas eu jå tinha deixado ele testar a maioria das minhas Relíquias do tipo espada.

Ele examinou o comprimento da lĂąmina e engoliu seco.

— Essa lĂąmina, o comprimento, o peso, o padrĂŁo… Krai, esse negĂłcio Ă© incrivelmente difĂ­cil de usar. Parece um brinquedo.

— Aham.

— E nĂŁo importa quanta mana eu coloque, nĂŁo carrega! Tem uma sensação estranha. NĂŁo consigo carregar! Isso Ă© mesmo uma espada?

— Aham?

Apesar de ser um Espadachim, a mana dele era bem maior que a minha e dava pra carregar quase qualquer RelĂ­quia do tipo espada. Se nem o Luke conseguia carregar essa por completo, devia ser um sugador de mana absurdo. Com a mesma expressĂŁo que fazia sempre que eu pedia pra ela carregar alguma coisa, Lucia observava as tentativas empolgadas do Luke.

— EntĂŁo se eu conseguir carregar isso direito — ele disse —, vai significar que virei um espadachim melhor. É assim que funciona, nĂ©, Krai?

— É. Aham.

— AlguĂ©m pode aprender com o meu exemplo.

Agora ele tava fazendo a Lucia parecer mal.

Com os olhos arregalados, a princesa Murina observava o comportamento infantil do mentor dela. O Luke nĂŁo tinha mudado nada desde a infĂąncia.

— Krai, posso usar essa?

— Claro. Essa bainha aqui nĂŁo Ă© uma RelĂ­quia, entĂŁo pode usar a sua mesmo.

A bainha do Luke tinha um design especial que permitia carregar vĂĄrias espadas. Eu jĂĄ tinha deixado uma espada cair no meio de um cofre de tesouro antes, entĂŁo era bem mais seguro nas mĂŁos dele.

Mesmo em viagem, minha rotina diĂĄria nĂŁo mudava muito. Ainda mais com o lado de fora sendo perigoso. Sentei na varanda e usei meu Smartphone pra mandar uma foto do Clube dos FĂŁs da Raposa de MĂĄscara pra Raposinha e me gabar da experiĂȘncia.

— Ei, Krai Baby — disse Liz de repente —, o que a gente vai fazer sobre o treinamento da princesa?

Então agora ela tá só chamando de “a princesa”.

Isso não era meio desrespeitoso? O olhar tímido da princesa sentada entre suas guardas no sofå dava a entender que ela também achava isso meio rude.

Mas o que serĂĄ que a Liz queria dizer com isso?

— A gente vai treinar ela, nĂ©? A gente faz se vocĂȘ mandar, mas, tipo… vocĂȘ sabe como Ă©, mas ela nĂŁo vai ficar mais forte. NĂŁo tem material de mana por aqui, e deixar ela mais forte vai levar tempo. Eu nĂŁo sei o que vocĂȘ tĂĄ planejando pra ela—

— É mesmo? Eu pretendo, Ă© claro, mandar ela para o Festival do Guerreiro Supremo.

A Princesa Murina me encarou. “Perdão?”

— Como Ă© que Ă©?! — Karen exclamou.

— Irmão, eu realmente acho que— — começou Lucia.

— VocĂȘ tĂĄ falando sĂ©rio? — Liz interrompeu. — Acho que Ă© demais pra ela. É uma completa amadora, e nĂŁo vejo como ela se encaixaria nisso.

Nossa, que reação forte. Achei que jå tinha deixado meus planos bem claros hå muito tempo.

— Nesse caso — Sitri disse, batendo palmas — por que nĂŁo colocamos ela contra alguns bandidos? Vai dar experiĂȘncia real de combate tambĂ©m.

— Siddy?! — Lucia gritou. — É por ficar sempre passando a mão na cabeça do meu irmão que—

— Mas a Lizzy tem razĂŁo. Fazer com que Sua Alteza Imperial fique mais forte em tĂŁo pouco tempo vai ser complicado. EntĂŁo pensei em abordar isso de outro jeito. A cidade tĂĄ cheia de fora-da-lei no momento, entĂŁo acho que essa Ă© a melhor aposta, considerando nosso prazo. Quanto a como ela vai entrar no torneio, Ă© outra histĂłria!

— Em parte, eu atĂ© admiro o jeito como vocĂȘ tenta puxar o saco do Krai em qualquer oportunidade — Liz comentou.

Mas não era uma må ideia. Lutar contra fantasmas era bem diferente de lutar contra pessoas. Mas serå que a gente podia mesmo colocar a princesa imperial contra bandidos? O imperador até era capaz de enfrentar dragÔes gélidos, mas duvido que ele jå tenha enfrentado criminosos. Matar dragÔes era uma honra, mas acabar com ladrÔes de estrada
 nem tanto.

— Achei que podia ser Ăștil — Sitri disse, tirando com orgulho uma pasta — entĂŁo consultei um intermediĂĄrio de informaçÔes sobre quais organizaçÔes estĂŁo por aqui.

— EntĂŁo era lĂĄ que vocĂȘ tava? — Liz perguntou.

— Boa, hein! — Luke comemorou. — Deixa eu dar uma olhada!

— Nada disso. Fiz isso pra entregar pro Krai!

Bem
 contanto que estejam se divertindo. SĂ©rio, falo de coração.

Dentro da pasta havia uma lista organizada de grupos de bandidos e organizaçÔes criminosas. Era mais do que eu imaginava. Nem todos eram famosos, mas dava pra montar um exército se pegasse um lutador de cada grupo.

— Muitos deles tĂȘm talento pra participar do Festival do Guerreiro Supremo. E, sejam grandes ou pequenos, vĂĄrios tĂȘm recompensas por suas cabeças. HĂĄ tambĂ©m grupos que odeiam ver seus rivais no torneio e se juntam pra atacar inimigos em comum. Isso e muito mais.

Eu tĂŽ no inferno?

— Dizem que todo ano tem alguns participantes que nem chegam a entrar no torneio — Sitri continuou. — Às vezes, alguĂ©m tenta se vingar de quem perdeu, mas essas tentativas raramente dĂŁo certo.

Tive um vislumbre do lado sombrio daquele torneio glamouroso.

Eu detesto violĂȘncia, mas vou dizer mesmo assim!

— Isso nĂŁo aconteceria se alguĂ©m cuidasse desses fora-da-lei! — falei.

— TambĂ©m tem gente tentando vingar companheiros que caĂ­ram. Zebrudia tem seus cavaleiros de elite protegendo tudo, mas esse paĂ­s aqui nĂŁo tem nada parecido.

Meus pesadelos constantes me deixaram cego, mas Zebrudia era, na real, um lugar especial.

— VocĂȘ tĂĄ falando como se dependesse sĂł de vocĂȘ, mas sabe que estamos falando de um membro da famĂ­lia imperial, nĂ©? — Karen disse. — Sua Alteza Imperial nĂŁo pode sair por aĂ­ enfrentando bandidos!

Uma objeção totalmente razoĂĄvel. Se vocĂȘ perguntasse pra cem pessoas, todas diriam que ela tĂĄ certa. A guarda imperial era realmente fiel, considerando que ela ainda se opunha aos meus amigos mesmo depois do treinamento brutal.

— Isso quem decide Ă© o Krai — respondeu Sitri, com um sorriso tranquilo.

— Hmm. Tem bastante gente aí — Liz disse. — Mas será que a gente sabe onde eles estão?

— Esse Ă© o nosso maior obstĂĄculo. Acho que conseguimos descobrir isso se investigarmos com calma.

Se fosse só luta o problema, eu até confiaria a princesa imperial a eles, mas ainda assim não parecia um risco que valia a pena. A lista era longa e as coisas podiam sair do controle se a gente irritasse o grupo errado.

Fugi da responsabilidade de decidir e caminhei atĂ© a janela enorme. Estando no Ășltimo andar de uma estalagem de luxo, tinha uma bela vista das ruas de Kreat. Olhando em volta, vi colunas de fumaça subindo aqui e ali. Algumas daquelas deviam ser restos de brigas. Que lugar insano eu vim parar.

— Hmm. Bandidos. Bandidos. O que a gente pode fazer? — murmurei.

No momento seguinte, um homem usando uma mĂĄscara de raposa preta se grudou do lado de fora da janela. Um brilho feroz saĂ­a dos buracos da mĂĄscara. Fiquei tĂŁo surpreso que nem consegui reagir.

— Chefe, se precisar da gente — ele disse, como se aquilo fosse completamente normal —, nós, do Clube dos Fãs da Máscara de Raposa, estamos à disposição.

Era pra ser impressionante isso? Porque eu só tÎ com medo. Que tipo de organização eu fui me meter?!

Num aposento subterrùneo, Galf da sétima cauda olhava uma lista e soltava um gemido.

— Isso Ă© o que o chefe quer? Vai ser uma operação e tanto.

A Fox controlava vĂĄrias subsidiĂĄrias e atĂ© tinha membros infiltrados em altos cargos de vĂĄrios governos. Nenhuma outra organização secreta chegava perto do mesmo nĂ­vel. Mas o nĂșmero de verdadeiros membros da Fox era limitado aos melhores entre os melhores. O completo oposto de sua antiga rival, a Serpent, que possuĂ­a exĂ©rcitos enormes.

Em operaçÔes maiores, a Fox usava pessoal das subsidiårias e aliados. Os papéis principais ficavam com os Foxes, enquanto o restante das tropas era formado por recrutas de outras organizaçÔes. Mantendo todos no escuro, quase nenhuma informação vazava.

Essa operação, no entanto, seria diferente de tudo feito antes. A tarefa de recrutar os lutadores ficou com Galf. Ele olhou para o subordinado que conseguiu a lista. O cara era excelente quando o assunto era furtividade.

— Ele quer essa quantidade toda? — Galf confirmou.

— Sim. E quer que a gente descubra onde eles estão. Mas falou pra não se esforçar demais.

Galf olhou novamente para a lista. Aquilo parecia uma operação importante demais para permitir falhas. Mas mais pessoal nem sempre significava melhor. O tamanho da lista lhe pareceu absurdamente longo. Era quase como se tivessem que procurar por toda organização criminosa ativa em Kreat.

—Não acredito que esse seja o tipo de tarefa que normalmente seria confiada a nós —disse o outro Raposa. —Considerando que isso foi arquitetado pelo chefe, provavelmente tem mais coisa aí do que ele está deixando transparecer. Mas ele tem suas expectativas.

Isso parecia bem possĂ­vel. Galf era de uma das caudas superiores, mas aquele homem estava no topo. O chefe estava guardando as partes mais importantes em segredo. Era bem provĂĄvel que existisse outra equipe secreta operando por trĂĄs.

Aquilo era uma boa oportunidade. A Raposa estava sempre em busca de indivíduos capazes. Se Galf conseguisse causar uma boa impressão no chefe, uma promoção viria com certeza. Ninguém seria idiota o suficiente para não dar o seu melhor só porque disseram que tudo bem não se esforçar.

Eu—não, nós não somos como o Contra-Cascata. Ele era um mago brilhante, mas faltava liderança.

Galf talvez nĂŁo tivesse o poder de combate de Telm, mas tinha uma legiĂŁo de subordinados confiĂĄveis.

—Devemos convidar todos dessa lista, e mobilizar cada um de nós para fazer isso acontecer —disse Galf.

—Mas eles ainda estão fazendo os preparativos.

O plano de Galf estava perfeitamente traçado. Ele nunca negligenciava os preparativos com antecedĂȘncia se isso pudesse garantir seu sucesso. JĂĄ tinha reservado tempo para garantir rotas de fuga e coordenar as forças de segurança, mas agora parecia que nĂŁo teria espaço para isso.

—Não há nada que possamos fazer —disse ele ao outro Raposa. —Mesmo que não estejamos totalmente prontos, o plano vai seguir em frente. Não perca a floresta por causa das árvores.

Com um grande sorriso, Galf começou a dar suas ordens.

—Vamos sair em busca de inimigos fortes!

—Uhul!

O entusiasmo de Luke e Liz estava no mesmo nível do resto de Kreat. Nós outros, os Grieving Souls, fomos junto com eles. Alguém precisava impedir os dois de começarem brigas, e depois de vir até Kreat, eu queria aproveitar para fazer um pouco de turismo. A Princesa Murina tinha assuntos oficiais para cuidar, então pela primeira vez em um bom tempo, eståvamos só nós, os Grievers, reunidos.

O Festival do Guerreiro Supremo ainda estava a alguns dias de começar, mas a cidade jå estava tão lotada que mal conseguíamos andar pelas ruas.

—VocĂȘ nĂŁo vai usar aquela mĂĄscara de raposa? —perguntou Sitri.

—Nah —respondi, esfregando a bochecha.

Eu queria esconder o rosto o måximo possível, o que me deixava tentado a usar a måscara, mas ela parecia atrair o Clube de Fãs da Måscara de Raposa. Um deles chegou a ir até meu quarto, então não dava pra saber quantos apareceriam se eu andasse com ela por aí.

Contando com a proteção dos meus amigos, fiquei de ouvido aberto para ouvir fofocas enquanto caminhava. Sem surpresa, todo mundo parecia interessado em quem venceria o torneio. Os competidores ainda não tinham sido anunciados, mas os rumores estavam circulando, e ouvi os nomes do Luke e do Ansem sendo mencionados. Como amigo deles, era uma sensação estranha. Mas teve um nome em especial que chamou minha atenção.

—Mil Artes —repeti para mim mesmo. —Parece que ele Ă© famoso. Vou ter que torcer por ele.

Segundo a Sitri, esse tĂ­tulo era autoproclamado, mas se os boatos estavam se espalhando, talvez logo virasse oficial.

—NĂŁo, ele disse Mil “Truques”. Eles estĂŁo falando de vocĂȘ! —disse Lucia.

—NĂŁo, isso Ă© ridĂ­culo.

Por que falariam de alguém que nem vai participar?

Antes, as pessoas frequentemente vinham arrumar confusão com a gente quando entråvamos em alguma multidão, mas dessa vez não. Liz parecia achar aquilo entediante, mas com uma disputa importante se aproximando, ninguém ia querer comprar briga com alguém claramente forte (ainda mais se essa pessoa fosse o Ansem).

Depois de andar um pouco, Luke estalou a lĂ­ngua.

—Que se dane, vamos pra uma taverna.

—Concordo! —disse Liz, com uma empolgação totalmente desnecessária. Ela com certeza se interessava mais em acabar com as pessoas do que em acabar com os copos.

Lucia e Sitri estavam visivelmente exasperadas, mas eu achei que estava tudo bem. Luke e Liz eram impulsivos. Com um pouco de bebida no sangue, eles iam esquecer completamente das brigas. E se começassem uma confusão, a gente intervia.

Juntos, entramos em uma taverna qualquer. A cidade jĂĄ estava pegando fogo de tanta empolgação, mas quando vocĂȘ adicionava ĂĄlcool Ă  mistura, dava atĂ© tontura. No interior escuro e apertado, vĂĄrios rostos carrancudos bebiam em silĂȘncio. Talvez o risco de arrumar encrenca em um lugar como aquele fosse o motivo de estar bem mais silencioso do que qualquer bar na capital imperial.

No instante em que entramos, os olhos de Luke começaram a brilhar enquanto ele escaneava o lugar.

—Eentão, por onde começamos?

Ou seja, ele estava mesmo decidido a dar início à festança. Eu jå ia tentar acalmå-lo, mas ele parou sozinho.

—Pera aĂ­. Aquela ali nĂŁo Ă© a Touka?

Em um canto da taverna estava um grupo de pessoas com armaduras de um tom marrom-avermelhado bem característico. Era comum que os grupos usassem cores uniformes. Por exemplo, no grupo Obsidian Cross do Sven, todo mundo usava equipamentos pretos. Mas aquele grupo era muito maior do que a média.

Quando se tem mais de dez caras casca-grossa usando a mesma cor, “grupo” já não parece o termo certo. Companhia mercenária. Espadachins de aluguel. Eles eram os militantes do Primeiro Degrau, ganhavam mais com combate do que com exploração de tesouros. Eram os Cavaleiros da Tocha.

Eva tinha me dito que Touka participaria do torneio, mas eu nĂŁo esperava dar de cara com ela num lugar assim. Vi que ela estava sentada no centro do grupo. Mesmo sendo a lĂ­der do clĂŁ, fazia tempo que eu nĂŁo a via. O olhar da capitĂŁ de cabelos negros se virou direto para nĂłs. Sem hesitar, ela bateu o copo na mesa e se levantou.

—Em posição, todos!

O jeito como todos pararam de socializar e se levantaram ao mesmo tempo foi uma cena estranha. Todos os olhares se voltaram para mim. Os outros clientes também olharam, curiosos pra saber o que estava acontecendo.

—SaĂșdem nosso cliente mestre!

Os cavaleiros saudaram em uníssono e mantiveram a posição.

Dois fatores principais determinavam a eficåcia de um grupo: força individual e coordenação entre os membros. Derrotar fantasmas poderosos e monstros excepcionais exigia um grupo de indivíduos forjados em batalha, capazes de multiplicar suas capacidades ao lutar em conjunto. Qualquer grupo de primeira linha podia afirmar que tinha ambas as qualidades, mas os Grieving Souls tendiam mais para a força individual, enquanto os Cavaleiros da Tocha iam na direção oposta.

Acho que nunca vou esquecer o choque que senti quando os conheci pela primeira vez. Seus movimentos refinados eram como os de uma verdadeira ordem de cavaleiros. Mesmo com os outros clientes do bar encarando, os cavaleiros nĂŁo vacilaram.

Ei, serĂĄ que eles recrutaram novos membros?

— A-Aqui… todo mundo tĂĄ olhando. Podem relaxar — falei, quando percebi que eu tambĂ©m estava sendo encarado.

— À vontade! — anunciou Touka.

Eu não fazia ideia de por que estavam me chamando de “cliente mestre”, sendo que era a Sitri quem estava contratando eles. Era ela quem fornecia fundos e equipamentos.

Os Ășnicos valores que os Cavaleiros da Tocha respeitavam eram aqueles que podiam ser depositados numa conta bancĂĄria. Eles ocupavam um espaço estranho dentro da Primeiros Passos, e tinham uma atitude igualmente estranha comigo. Me obedeciam porque sabiam que eu era amigo de longa data da Sitri — o que, de certa forma, os tornava mais fĂĄceis de lidar do que aquelas pessoas que tinham uma fĂ© esquisita demais em mim.

— NĂŁo me diga que vocĂȘ vai participar do torneio, Touka — disse Luke, sempre empolgado com a ideia de enfrentar oponentes fortes.

— Estarei lĂĄ — confirmou ela. — Recebi um convite. VocĂȘ tambĂ©m vai participar, Espada Proteana?

O Festival do Guerreiro Supremo atraía todos os tipos de pessoas. Capitães de cavalaria que garantiam a segurança do reino, e também mercenårios famosos. Touka provavelmente recebeu o convite por causa de sua fama entre as companhias mercantes e nobres.

Luke fez uma expressĂŁo tĂŁo estranha que nem dĂĄ pra descrever com palavras. O motivo pelo qual Luke, o Matador de Homens, nunca tentou cortar Touka ao meio era simples: ela nĂŁo se envolvia em lutas sem lucro (literalmente — se nĂŁo houvesse dinheiro envolvido, ela nĂŁo lutava). Eles eram incompatĂ­veis, mas de um jeito bom. Luke nĂŁo queria apenas bater em alguĂ©m — ele queria que batessem de volta.

Touka olhou para Sitri, depois para Lucia, e por fim para mim, antes de dizer —Perdoe-me, CM, mas nĂŁo vou pegar leve no torneio. VocĂȘs nĂŁo pagam o suficiente pra isso.

EntĂŁo ela pegaria leve se a gente pagasse mais? Mas mais importante que isso… parecia que ela estava achando que eu ia participar. Provavelmente ouviu os boatos que andavam circulando.

SĂł entre a gente, Touka: eu nĂŁo sou o Mil Truques. Esse aĂ­ Ă© o eu verdadeiro!

Mesmo alguém tão centrada como a Touka ia ficar bem confusa se encontrasse o Krahi. Eu mal podia esperar pra ver essa cena.

—Do mesmo jeito, meu eu verdadeiro nĂŁo pega leve —disse eu, com um sorriso cheio de pose. —O verdadeiro eu Ă© bem forte. E usa um sobretudo que esvoaça.

Embora o falso também curtisse balançar o casaco quando dava.

Touka me encarou surpresa, arruinando minha diversão na hora. —A-Ah. Entendi. Um sobretudo? B-Bem, espero que não seja pedir demais um pouquinho de misericórdia.

—B-Bem, eu tĂŽ aqui sĂł pra assistir. VocĂȘs Ă© que deviam ficar de olho nesses aqui atrĂĄs de mim.

Queria diminuir um pouco as expectativas. Vai que eles ficavam bravos se achassem que eu ia participar.

Como sempre, os Cavaleiros da Tocha passavam uma impressĂŁo Ășnica. A relação deles com os Grieving Souls nĂŁo dava pra dizer que era boa ou ruim. SĂł que eles raramente estavam na capital imperial, entĂŁo quase nĂŁo tĂ­nhamos contato com eles. Mas ainda assim, pareciam contentes em nos ver. Sentamos em volta de uma mesa com eles, e Touka e os outros membros mais destacados começaram a me servir bebida.

—NĂŁo acho que foi coincidĂȘncia a gente se encontrar aqui —eu disse. —Bebam Ă  vontade, a gente traz mais.

Quer dizer, tudo isso estava saindo do bolso da Sitri. Ela parecia gostar dos Cavaleiros da Tocha. Provavelmente porque com eles, dinheiro resolvia qualquer coisa.

—Ouviram o que ele disse —disse Touka pros cavaleiros. —Nosso cliente mestre pediu. NĂŁo desperdicem essa generosidade. Bebam! Lembrem-se de agradecer Ă  Sitri —clientes assim tĂŁo generosos sĂŁo raridade. SaĂșde!

—Obrigado! —responderam os cavaleiros, saudando em uníssono pela segunda vez.

Sitri parecia levemente surpresa. Esse pessoal parecia achar que saudar nunca era uma má ideia. E o que seria um “cliente mestre”?

Enquanto bebĂ­amos, fiquei sabendo das Ășltimas aventuras deles. Tinham feito o de sempre: caçadas com recompensa, combates aqui e ali enquanto viajavam pelo mundo, e voltaram para o Festival do Guerreiro Supremo. Derrotaram um bando de orcs que atacou uma vila, esmagaram um grupo de homens-fera ladrĂ”es, e visitaram um cofre de tesouros sĂł por diversĂŁo. Fiquei impressionado, mas entĂŁo percebi que nĂłs tambĂ©m tĂ­nhamos passado por muita coisa.

Liz estava numa competição de bebida com um dos cavaleiros, e Lucia assistia tudo com cara de quem jĂĄ perdeu a paciĂȘncia. Luke jĂĄ estava de olho nos fregueses, olhando ao redor do salĂŁo com olhos de ĂĄguia.

Enquanto um cavaleiro me servia mais bebida, fiz a pergunta que não saía da minha cabeça.

—VocĂȘs aumentaram o grupo?

Touka me lançou um olhar afiado. Falei alguma besteira?

Os Cavaleiros da Tocha eram um grupo nĂŽmade que ia pegando novos membros enquanto viajava. Normalmente, era malvisto quando um grupo aumentava de tamanho sem avisar o clĂŁ, mas a Primeiros Passos permitia isso.

NĂŁo lembrava exatamente quantos membros eles tinham antes, mas parecia que tinham ganhado uns dois ou trĂȘs. Mas… talvez eu estivesse enganado. NĂŁo lembrava direito os rostos de cada um, entĂŁo talvez eu tivesse mesmo errado.

Tentei disfarçar com uma risada e falei —SĂł pensei que vocĂȘs eram um grupo menor antes. É o quĂȘ? Ganharam uns dez, onze membros?

Era uma piada. Vai que tinham crescido um pouco, mas com certeza não tanto assim. Esperei que a Touka risse e dissesse que eu tava viajando. Talvez até falasse que eu era engraçadinho. Em vez disso, ela cruzou os braços.

—Hmph. Afiado como sempre. De fato, ganhamos onze novos membros.

Hã? Sério? Não, não, não.

Não tinha como. Serå que ela tava entrando na brincadeira, esperando que eu fizesse o papel de cara sério? Eu talvez até fizesse, se fosse com o Ark, mas a Touka era outra história. Sitri, que tinha ainda mais gente servindo bebida pra ela do que eu, olhou em volta, confusa.

—NĂŁo parece que vocĂȘs tĂȘm rostos novos por aqui —ela comentou. —Eles estĂŁo em outro lugar?

—Exato —respondeu Touka. —EstĂŁo em uma missĂŁo. Ficamos conhecidos, mas isso tambĂ©m atraiu muitos inimigos. Perdoe-me por nĂŁo ter informado antes —disse, fazendo uma reverĂȘncia.

EntĂŁo ela nĂŁo tava brincando? E ainda por cima, os que estavam na taverna eram todos membros antigos! Eu realmente nĂŁo sabia como reagir.

—Levante a cabeça —falei. —VocĂȘs sĂŁo livres pra expandir o grupo. Esse foi um dos seus termos pra entrar no nosso clĂŁ, lembra?

—Krai tem razĂŁo —acrescentou Sitri. —VocĂȘs sempre ajudam a gente, e nĂŁo nos importamos com isso, desde que nĂŁo nos cause problemas.

—É, exatamente isso aĂ­. VocĂȘs sempre fazem tanto por nĂłs, conseguir novos membros nĂŁo Ă© nenhum problema. Ha ha ha.

A Ășnica que talvez tivesse dor de cabeça com isso era a Eva. Ela que cuidava da administração dos membros do clĂŁ. Eu estava completamente negligenciando minhas responsabilidades, mas Touka assentiu como se eu tivesse razĂŁo.

—Agradeço pela compreensĂŁo. O Festival do Guerreiro Supremo Ă© uma Ă©poca bastante lucrativa pra gente. Veja bem, vĂĄrios dos participantes tĂȘm recompensas pela cabeça.

Palavras violentas chamavam nossos membros violentos.

—Hm? Como Ă©? Recompensas? —Luke se intrometeu.

—Ooh? O que vamos matar? —perguntou Liz.

Então eles estavam caçando participantes. Mesmo antes do torneio começar, os Cavaleiros da Tocha jå estavam a todo vapor. Aguentando os olhares famintos de Luke e Liz, Touka suspirou.

—Certo, CM —ela disse. —Tem algo estranho nos movimentos dos bandidos esse ano. EstĂŁo menos ousados do que o normal. É sĂł um pressentimento meu, mas estou preocupada. VocĂȘ sabe de algo que possa explicar isso?

Eu estava prestes a dizer que não sabia, que devíamos era ficar felizes por eles estarem quietos. Mas aí algo me veio à cabeça e eu estalei os dedos. Os olhos da Touka brilharam como o nome do grupo dela.

—É, isso tambĂ©m estava me incomodando, entĂŁo chamei reforços. Eles talvez saibam de algo. Quer encontrĂĄ-los?

— Oh?

O Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa. Eles eram absurdamente competentes e tinham um amor fervoroso por mĂĄscaras de raposa. Faziam coisas malucas como me arrastar atĂ© o esconderijo deles sĂł porque eu estava usando uma mĂĄscara dessas, ou aparecer do nada na janela do meu quarto. Mas nĂŁo me pareciam pessoas mĂĄs — alguns deles atĂ© pareciam bem fortes.

Eu tinha passado pra eles a lista de bandidos da Sitri e pedi que encontrassem as pessoas listadas. Parecia o tipo de coisa que eles poderiam manjar. Era uma tarefa perigosa, entĂŁo deixei claro que nĂŁo precisavam se esforçar demais… mas duvido que sejam do tipo que escuta esse tipo de conselho. Por isso era reconfortante saber que a Touka ia estar com eles. Diferente do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa, ela era uma profissional experiente.

Funcionava pra todo mundo — inclusive pra mim. O Clube de FĂŁs ganhava uma aliada poderosa, e os Cavaleiros da Tocha funcionavam melhor em grupos grandes do que pequenos. TambĂ©m podia fazer os Grieving Souls irem junto. E jĂĄ que tava nessa, podia jogar a Princesa Murina no meio tambĂ©m.

Cara. TĂŽ impossĂ­vel hoje.

— Ah, isso me lembrou de uma coisa — falei, quando algo me veio Ă  cabeça. — Tem uma coisa que vocĂȘs precisam primeiro — mĂĄscaras de raposa! Quanto mais raras, melhor. Claro, seria Ăłtimo se conseguissem umas que combinassem com a armadura de vocĂȘs. Acham que conseguem?

O Plano X estava em andamento. Tudo o que eles tinham que fazer era seguir as ordens do chefe ao pĂ© da letra. Membros da organização nĂŁo precisavam pensar — sĂł tinham permissĂŁo pra cumprir ordens fielmente. Pensar era trabalho pra quem estava acima na hierarquia.

Galf Shenfelder, anteriormente o Rei dos Bandidos, era mestre em bolar planos e dar ordens. Mesmo dentro da Sétima Cauda, provavelmente não havia ninguém que o superasse nesse ponto. O grupo de bandidos que ele liderava antes não era um bando qualquer que atacava vilas ou viajantes. Em vez disso, eles infiltravam vilas e iam tomando o controle aos poucos, mas com firmeza.

Fazia todo sentido que alguém que reforçava cautela com ainda mais cautela tivesse sido convidado a entrar para a Raposa Sombria de Nove Caudas. Anos depois, suas habilidades continuavam afiadas. A Raposa Sombria de Nove Caudas tinha membros em vårias naçÔes, mas a teia de subordinados do Galf ia ainda mais longe.

No submundo, a Raposa tinha amigos e inimigos. Às vezes, eles pediam ajuda a fora-da-lei — algo que era bem típico do Rei dos Bandidos. Mas mesmo pra ele, a missão recebida dessa vez era um baita desafio.

Seus subordinados revisaram a lista mais uma vez, soltando um gemido coletivo antes de começarem a reclamar.

— Tem gente demais nessa lista. E alguns desses aí são caras com quem a gente briga faz anos.

— As negociaçÔes vĂŁo ser um inferno. Talvez a gente tenha que ceder em algumas coisas.

— E juntar todo mundo dessa lista pode botar o Plano A em risco.

Eram objeçÔes completamente vålidas. O plano em andamento tinha sido calculado com precisão. Galf jå tinha mandado um relatório detalhando quais criminosos pretendiam usar, então o chefe não podia estar alheio à sobreposição. Mesmo assim, vårios desses figurÔes do submundo estavam na lista de organizaçÔes que deviam reunir. Até o Galf não conseguia deixar de se perguntar o que o chefe tinha na cabeça.

— Nessas horas, queria que a gente não tivesse que ser tão discreto com cada coisinha — resmungou um dos subordinados.

Galf deu de ombros. Era essa dedicação ao sigilo que tinha feito a Raposa crescer tanto. Ninguém sabia onde estavam os chefes, e trocar informaçÔes exigia seguir certos protocolos. Assim, mesmo que um membro de nível baixo fosse preso, os principais nomes da organização não seriam comprometidos.

Por outro lado, esse mesmo sistema significava que confirmar ordens em situaçÔes irregulares não era algo råpido. E o que Galf mais temia era um impostor. Era difícil imaginar alguém se passando por uma Raposa de ranking mais alto que ele, mas não impossível. Só que existiam sinais de código pra essas ocasiÔes. E, nos casos realmente sérios, havia as Donzelas Sagradas da Raposa.

— O chefe — murmurou Galf. — Ele nĂŁo era como eu me lembrava. — Lançou um olhar pra Donzela que estava de pĂ© ali perto.

— Está duvidando da Raposa Branca? Estou bem certa do meu julgamento — ela afirmou.

— Ter dĂșvidas faz parte do meu trabalho — ele respondeu.

— NĂłs, Donzelas, fomos abençoadas com olhos especiais por nosso serviço aos deuses. Nossa visĂŁo nĂŁo mente. E se ele nĂŁo fosse a Raposa Branca, por que estaria usando uma mĂĄscara daquelas em pĂșblico?

Ela tinha razĂŁo. As mĂĄscaras de raposa nĂŁo eram pra uso constante, e aquela mĂĄscara em particular nĂŁo era algo que qualquer um conseguiria.

O protocolo pra verificar a autenticidade de um chefe era chamar uma Donzela. As Donzelas Sagradas da Raposa eram consideradas sagradas e acima de qualquer suspeita. Seus olhos viam através de qualquer disfarce e jamais confundiriam algo divino. Galf não acreditava em forças superiores, mas sua carreira na Raposa acabaria råpido se descobrissem que ele duvidava de uma Donzela.

Independente das suspeitas, o plano seguia o mesmo. No pior dos casos, ele poderia confirmar tudo durante o contato regular com a sede. Decidiu que devia olhar as coisas de forma simples. No fim das contas, o que estava acontecendo era sĂł que ele e sua equipe iam ter um pouco mais de trabalho. AlĂ©m disso, formar alianças com criminosos que antes eram inimigos podia ser Ăștil no futuro. A Ășnica coisa que nĂŁo podia acontecer era o fracasso do Plano X.

Foi então que o homem encarregado de ficar de olho no chefe apareceu correndo. Ele era um sujeito extremamente talentoso, usava uma måscara de raposa completamente preta e era treinado nas artes dos shinobi. Com uma Relíquia que distorcia a percepção, não havia ninguém mais indicado pra cumprir tarefas pro chefe.

Galf preferia que ele estivesse reunindo informaçÔes, mas outras pessoas podiam cuidar disso. Jå manter o chefe satisfeito era prioridade.

O homem se aproximou de Galf e falou num tom neutro:

— Galf Shenfelder. O chefe está te chamando.

— Oh. Eles realmente vieram.

Ao encontrar meu amigo perseguidor do Clube de Fãs da Måscara de Raposa do lado de fora da minha janela, fiz um pedido a ele. Então, coloquei minha måscara de raposa, assumi uma pose imponente, e logo o cara com cara de líder e a sacerdotisa foram trazidos até mim.

O líder era alto, com um corpo musculoso e definido. Não dava pra ver o rosto dele por causa da måscara, mas com certeza ele passava uma impressão de força. Ao lado dele estava a sacerdotisa, tão distante quanto da primeira vez que a vi.

— VocĂȘ realmente veio. Leva isso bem a sĂ©rio, hein — eu disse.

— Estou honrado, chefe — respondeu o líder, ajoelhando-se junto com a sacerdotisa diante de mim.

QuĂŁo valiosa essa mĂĄscara tinha que ser pra justificar tanta lealdade exagerada? Eu nunca disse que era o chefe deles.

Notei os olhos deles se voltarem de mim para as pessoas ao meu lado — Touka e Princesa Murina. Touka estava com sua armadura habitual em tom castanho-avermelhado e a katana presa à cintura, mas agora usava uma máscara de raposa vermelha, exatamente como eu tinha sugerido. Murina não conseguiu uma máscara de raposa, então improvisou com uma inspirada num tanuki. Achei que estava tudo certo, contanto que o rosto dela ficasse escondido.

— Hã? O que significa isso, chefe? — perguntou o líder, os olhos arregalados indo de uma para a outra.

Desculpa. PerdĂŁo por complicar as coisas.

— Achei que elas poderiam ajudar com o pedido que fiz pra vocĂȘ — falei. — Sei que te pedi algo um pouco demais. Por isso chamei essas duas. Uh, hum, a Tsuneko aqui Ă© boa de briga e tem muitos subordinados.

— Tsune…ko? — repetiu Touka.

Vou garantir que ela tenha Grieving Souls no grupo dela.

Touka deu um passo Ă  frente e disse num tom claro e decidido:

— Podem me chamar de Tsuneko! Lutamos sob ordens do chefe, e só ele tem o direito de nos comandar. Por favor, nos vejam apenas como colaboradoras!

Que loucura. A gente nem tinha combinado esse nome antes, e ainda assim ela entrou no personagem sem hesitar. Corajosa demais. Mas no caso dela, acho que era sĂł profissionalismo mesmo.

— Esse Ă© o time principal do chefe? — perguntou o lĂ­der. — Essa armadura, eu jĂĄ vi antes. É o que estou pensando?

Pelo visto, graças ao esforço deles, os Cavaleiros da Tocha tinham ganhado certa fama. Achei que nĂŁo seria o fim do mundo se Touka nĂŁo se mantivesse no anonimato. Podia ser problemĂĄtico se descobrissem a identidade da Murina, mas isso parecia improvĂĄvel, jĂĄ que ela quase nunca aparecia em pĂșblico.

— E, aqui do lado — continuei — temos, certo, a Ponta. Ela ocupa uma posição Ășnica, entĂŁo sĂł lembrem disso.

— Ponta — repetiu ela.

Ah, serĂĄ que fui desrespeitoso?

A Princesa Ponta ficou ali, parada, olhando pro nada. Justo quando eu pensava em como seria bom se ela fosse menos passiva, ela deu um passo Ă  frente e, por algum motivo, fez uma reverĂȘncia graciosa.

— P-Podem me chamar de Ponta — disse. — Espero que possam perdoar qualquer erro que eu cometa.

Na longa histĂłria de Zebrudia, eu provavelmente era a Ășnica pessoa que apresentou a princesa imperial como “Ponta”.

Enquanto o lĂ­der continuava olhando de Ponta para Tsuneko e vice-versa, superei meu estranhamento e disse:

— VocĂȘ nĂŁo Ă© muito fĂŁ, Ă© isso?

O Clube de Fãs da Måscara de Raposa me parecia confiåvel, a ponto de ser até meio absurdo, mas Touka era um ótimo bÎnus. Além disso, quem tava bancando ela era a Sitri.

Depois de pensar um pouco, o líder curvou a cabeça e respondeu:

— Nada disso. Agradeço pela consideração.

Assim que o Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa levou elas embora, senti como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros.

— Graças aos cĂ©us.

Todas as minhas preocupaçÔes tinham sido resolvidas de uma só vez, e era tudo graças à minha querida amiga Sitri, que financiava os Cavaleiros da Tocha. Eu tinha mesmo que agradecer a ela. Agora o treinamento da Murina também estava resolvido. Era como se tudo tivesse se encaixado. Aproveitei o momento pra relaxar um pouco.

— Liderança excelente, ó Raposa Branca — disse a sacerdotisa do Clube de Fãs da Máscara de Raposa com uma voz digna.

— O que vocĂȘ ainda tĂĄ fazendo aqui? — perguntei.

— NĂŁo tenho outro dever alĂ©m de servi-lo.

Eles levavam isso muito a sério. O Clube de Fãs da Måscara de Raposa claramente não era só diversão e zoeira. Mas o que meus amigos diriam se vissem essa garota me seguindo por aí?

E quantos anos ela tem mesmo?

NĂŁo sabia qual posição ela ocupava no clube, mas era a Ășnica que nĂŁo usava mĂĄscara. Pelo olhar dela, dava pra ver que estava um pouco tensa.

Hmmm.

— HĂŁĂŁĂŁ…

— Meu nome Ă© Sora Zohlo, uma Donzela Sagrada da Raposa — disse ela depois de uma pausa, com a tensĂŁo se desfazendo um pouco Ă  medida que falava. — Por favor, me chame de Sora.

Donzela Sagrada da Raposa. Nunca tinha ouvido esse tĂ­tulo antes, mas talvez ela fosse famosa entre os fanĂĄticos por mĂĄscaras de raposa.

Serå que ela tinha ligação com os deuses raposa do Peregrine Lodge? Hahaha, claro que não.

Embora estivesse um pouco envergonhado, havia algo que eu precisava confirmar. Limpei a garganta e me preparei.

— Sora, tem uma coisa que tĂĄ me incomodando. Essa mĂĄscara Ă© mesmo tĂŁo rara assim?

Era uma pergunta sincera, mas recebi uma reação exagerada depois de uma longa pausa.

— O quĂȘ?

Essa mĂĄscara que caiu no Peregrine Lodge era, sem dĂșvidas, um item valioso. Mas pelo que eu sabia, nĂŁo tinha nenhum poder especial.

Quando fantasmas eram derrotados, geralmente se dissipavam completamente, sem deixar nem um fiapo de pano pra trås. Embora fosse extremamente raro, às vezes um item ou outro acabava sobrando. A chance disso acontecer era proporcional ao poder do fantasma. No entanto, esses itens geralmente eram bem fracos em comparação com uma Relíquia. Podia-se dizer que eram os restos de um fantasma.

Então, mesmo sendo rara, não parecia algo que inspirasse a lealdade absurda que o Clube de Fãs da Måscara de Raposa demonstrava. Era uma peça estilosa, sim, mas a tecnologia atual conseguiria reproduzi-la com facilidade, e os outros membros do clube também tinham måscaras bem legais.

Sora perdeu a compostura devota e parecia totalmente confusa. Olhou por cima do ombro, se certificando de que ninguém mais estava por perto, e depois voltou o olhar pra mim.

— Ó Raposa Branca, o que quer dizer com isso? Isso Ă© algum tipo de piada? — perguntou com a voz trĂȘmula.

— Veja bem, consegui essa máscara faz um tempo, quando derrotei um fantasma num cofre do tesouro.

— Huaaah?! O quĂȘ?!

A pele da Sora empalideceu, depois ficou vermelha, e então voltou a empalidecer. Foi meio engraçado.

Mas o que serĂĄ que ela pensou que essa mĂĄscara era? Eu a tirei e examinei de novo. O design era excelente e ela passava uma impressĂŁo estranha, mas ainda era sĂł uma mĂĄscara. Pessoalmente, quando se tratava de mĂĄscaras, eu preferia alguma com poderes, tipo o Rosto ReversĂ­vel.

Sora cruzou os braços, suando frio.

— Hã? Ummm. Rrrrmmm.

— Ei, será que dá pra vender isso por uma boa grana? Tem algum valor?

— Vender?! — ela exclamou, com a bochecha tremendo. — N-N-NĂŁo, vocĂȘ nĂŁo pode fazer isso.

Agora entendi. Era uma daquelas coisas valiosas demais pra serem vendidas. Mas ainda assim eu nĂŁo entendia de onde vinha esse valor todo. Eu sĂł tinha usado a mĂĄscara porque nĂŁo tinha outra forma de esconder meu rosto. Se fosse possĂ­vel, teria preferido algo com buracos pra enxergar, assim nĂŁo precisaria depender daquela RelĂ­quia.

Sora se aproximou até ficar a poucos centímetros de mim. Me encarou de perto, e então disse num tom conspiratório e baixo:

— P-Por favor me corrija se eu estiver errada. VocĂȘ nĂŁo Ă© a Raposa Branca, e essa mĂĄscara Ă© algo que vocĂȘ encontrou num cofre do tesouro?

Aquelas palavras desesperadas finalmente me fizeram perceber algo que eu jĂĄ devia ter sacado faz tempo.

— Ah. VocĂȘ me confundiu com outra pessoa?

Sora soltou um gemido fraco, segurou a cabeça e se contorceu.

— Isso nĂŁo pode estar acontecendo… — ela sussurrou, devagar.

Coloquei a mĂĄscara de volta e tentei consolĂĄ-la.

— Calma, calma, essas coisas acontecem.

— Por que vocĂȘ nĂŁo disse nada quando eu segurei sua mĂŁo?!

O que eu deveria ter dito? Ela foi quem segurou minha mĂŁo do nada, disse “por aqui” e me levou pro encontro do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa. Eu nunca tive a intenção de enganar ou usar ninguĂ©m. Eu tava confuso desde o primeiro minuto.

— E-E-EntĂŁo por que vocĂȘ chamou a gente de Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa? — Sora perguntou.

— Hm? Eu errei? Todos vocĂȘs pareciam estar usando mĂĄscaras de raposa.

— Quem? Quem faria isso?! Isso Ă© normal? NĂŁo. NĂŁo Ă©. NinguĂ©m me avisou que isso podia acontecer!

E o que eu deveria responder a isso? O que eu devia ter dito lĂĄ naquela sala? Pela primeira vez, eu nĂŁo tinha culpa de nada. Isso era problema da Sora e do Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa (nome provisĂłrio) que mandou ela. Mas apontar isso agora nĂŁo parecia uma atitude madura. Em vez disso, fiz uma pose durona e mantive a compostura.

— Calma, calma, se vocĂȘ for honesta e admitir o erro, aposto que eles vĂŁo te perdoar.

— Perdoar?! Foi isso que vocĂȘ disse? Eu nĂŁo vou ser perdoada! Eu prometi pra eles! Eu jurei que vocĂȘ era a Raposa Branca!

— Uh. NĂŁo, vocĂȘ devia confessar. Precisa obedecer ao COCOA. COntar, COnfiar, Alertar.

— Por que vocĂȘ tem uma mĂĄscara autĂȘntica?! SĂł a divina Raposa Branca e aqueles reconhecidos pelos nossos deuses vulpinos podem ter uma dessas! É um identificador de chefĂŁo!

— O quĂȘ? Eu consegui isso de um monstro qualquer no Peregrine Lodge.

Sora recuou.

Eu nĂŁo fui a Ășnica pessoa que apareceu naquele cofre, sem contar que aquele fantasma foi derrotado sĂł com uma conversa. Provavelmente tem vĂĄrias dessas mĂĄscaras por aĂ­.

— E vocĂȘ disse que isso Ă© um identificador de chefĂŁo? — insisti. — NĂŁo acha que Ă© um sistema meio estranho? Pode causar mal-entendidos facilmente. Acho que deviam mudar isso. Que tal conversar com o clube?

Sora tapou os ouvidos e se sentou.

Devia haver pelo menos umas poucas mĂĄscaras de raposa branca circulando por aĂ­. Nem parecia impossĂ­vel falsificar uma.

— Dessa vez foi sĂł um engano inocente, mas alguĂ©m mal-intencionado podia usar esse sistema pra se aproximar de vocĂȘs.

— S-SĂł… fica quieto um pouco!

— Ah. Tá bom.

Eu só queria ajudar o Clube de Fãs da Måscara de Raposa (nome provisório), mas parecia que a Sora não tava no clima. Sem nada melhor pra fazer, cruzei os braços e esperei ela tomar uma decisão.

Eu não tinha feito nada de errado. Só usei uma måscara de raposa que eu tinha por perto pra esconder o rosto. Não havia um pingo de culpa em mim. Mas aquilo tava começando a parecer problemåtico. Se precisasse, eu até pediria desculpas. Afinal, eu tinha mandado neles.

Ouvi a Sora murmurando sozinha de vez em quando, como se estivesse organizando os pensamentos.

— Então?

— Foi um engano?

— Mas a mĂĄscara Ă© autĂȘntica?

— Mas eu errei ao chamá-lo de Raposa Branca.

— Mas a mĂĄscara divina Ă© autĂȘntica?

— Mas ele nĂŁo Ă© um chefĂŁo?

— SerĂĄ que a culpa Ă© da organização?

— Ahhh. Logo na minha primeira missĂŁo…

Eu não via motivo pra tanto drama. Todo mundo erra. Eu errava o tempo todo. O importante é seguir em frente. Ninguém ia morrer por causa de um erro da Sora, então achei que ela podia pegar mais leve.

Eventualmente, Sora pareceu colocar as ideias em ordem e se levantou. Cambaleou um pouco de tontura, mas logo se estabilizou. Quando me lançou um olhar penetrante, consegui ver minha måscara refletida nas lågrimas dela.

— VocĂȘ Ă©, sem sombra de dĂșvida, a Raposa Branca — ela disse.

— O quĂȘ? TĂĄ enganada. Eu sou sĂł um caçador que achou essa mĂĄscara por acaso.

Ela tinha escutado uma palavra sequer do que eu disse?

— Eu nĂŁo estou enganada — ela disse, pressionando o dedo contra meu peito. — VocĂȘ Ă© a Raposa Branca, reconhecida pelos deuses, portadora de uma relĂ­quia sagrada!

— Huh?! Isso tá errado!

— Fui ensinada que se a mĂĄscara Ă© autĂȘntica, o portador tambĂ©m Ă©! Eu sou uma sacerdotisa, uma verdadeira Donzela Sagrada da Raposa. Meus olhos nĂŁo podem ser enganados, eu juro!

— Entendo. Isso Ă©, hum, impressionante.

Ela tava batendo o pĂ©. O que diabos Ă© uma Donzela Sagrada da Raposa? AliĂĄs, o que Ă© o Clube de FĂŁs da MĂĄscara de Raposa (nome provisĂłrio)? SerĂĄ que Ă© divertido? Talvez eu devesse entrar tambĂ©m? Mas aĂ­ eu teria que jurar lealdade Ă  Raposa Branca ou sei lĂĄ o quĂȘ?

— Em resumo, eu não cometi nenhum erro — insistiu Sora.

— Cometeu, sim — eu disse.

— E eu tambĂ©m nĂŁo tenho a menor intenção de prejudicar a organização. Se alguĂ©m disser que eu cometi um erro, entĂŁo esse alguĂ©m Ă© o traidor.

Pera. Ela sĂł tĂĄ tentando empurrar o erro pra debaixo do tapete? SerĂĄ que ela sĂł Ă© ruim no que faz?

De repente, senti até empatia por ela. Ninguém precisava improvisar tanto quanto eu.

— NĂŁo seria melhor contar a verdade? — eu disse. — Se fizer isso, eu peço desculpas junto com vocĂȘ.

Vi que os olhos da Sora estavam girando. Parecia que ela nĂŁo estava interessada em me ouvir. Suando em bicas, ela levantou um punho fechado.

—Se chegou a esse ponto, não temos escolha a não ser romper os laços antigos! Vamos forjar uma nova organização, liderada por nossa nova abençoada Raposa Branca! Chamaremos de—Raposa Sombria de Dez Caudas! Com uma cauda a mais, seremos a organização superior!

Parecia que ela estava em pĂąnico. SerĂĄ que ela estava mesmo de boa com isso?

—Não. Não, não podemos fazer isso —respondi.

—Hã?!

Raposa Sombria de Dez Caudas. Que nome infeliz. Depois do incidente com o imperador, raposas nĂŁo tinham a melhor das reputaçÔes e a gente podia ser confundido com aquele outro grupo. Nomes sĂŁo importantes. Frequentemente me arrependia de ter chamado nosso grupo de “Grieving Souls”. Tinha me acostumado com o nome e perdido o interesse em mudar, mas quando estĂĄvamos começando, ocasionalmente nos confundiam com um grupo de fantasmas.

Fui um idiota, mas nunca cometi o mesmo erro duas vezes. Sora me olhava com os olhos arregalados. Fiz uma proclamação completamente absurda.

—Esse Ă© um nome ruim. Vamos com este: Tofu Frito de Dez Caudas.

—Tofu Frito. De Dez Caudas?!

Ela parecia prestes a surtar, mas eu estava falando sério.

—Isso mesmo. Tofu Frito de Dez Caudas. Tofu frito Ă© algo maravilhoso. Pode atĂ© salvar vidas. É um nome delicioso.

Tofu frito jå tinha me salvado de ter que ir para a batalha uma vez. E é gostoso. Coisas saborosas são a salvação do mundo.

—VocĂȘ quer dar o nome de Tofu Frito de Dez Caudas pra uma organização secreta? VocĂȘ perdeu completamente o juĂ­zo? —protestou Sora.

Organização secreta? Ela disse “organização secreta”?

—Secreta? —respondi. —Não, não seremos secretos. Vamos fazer bentîs deliciosos de inarizushi, um prato recheado com tofu frito. Vamos nos espalhar pela nação, e então dominar o mundo inteiro.

—VocĂȘ tĂĄ falando sĂ©rio?!

Iriamos produzir tofu frito. Depois, fazer bentĂŽs de inarizushi deliciosos com o selo da Raposa Branca. Eu, claro, nĂŁo participaria, mas parecia a escolha perfeita, jĂĄ que os fantasmas da Peregrine Lodge adoravam tofu frito.

Cara, eu tî pegan— Ok, talvez eu não esteja pegando fogo hoje. Bem, vamos só fazer o que der.

Sora parecia ter alcançado algum tipo de iluminação quando entramos na luxuosa sala de estar.

—O-O que Ă© isso? LĂ­der, quem Ă© ela? —disse Lucia, levantando os olhos do livro.

Eu realmente não sabia como responder a essa pergunta. Honestamente, dizer que eu não fazia ideia de quem era a Sora parecia a melhor opção, mas seria irresponsåvel. Mas eu não sabia quem ela era.

—Digamos apenas que as circunstĂąncias sĂŁo complicadas —respondi. —Isso tambĂ©m Ă© complicado pra mim.

Sora estava sem expressĂŁo. Seus olhos estavam mortos. Parecia que ela nĂŁo queria voltar pra casa. Provavelmente temia as consequĂȘncias que a esperavam lĂĄ. Em vez disso, insistia teimosamente que era seu dever acompanhar a Raposa Branca, entĂŁo nĂŁo tive escolha a nĂŁo ser mantĂȘ-la comigo. Mas eu nĂŁo podia cuidar dela pra sempre.

Sempre me envolvia com coisas que escapavam da minha compreensão, e tinha a sensação de que essa era mais uma dessas vezes. Ainda achava que nossa melhor opção era pedir desculpas honestas ao Clube de Fãs da Måscara de Raposa (nome temporårio).

—Ai, meu Deus! Mais bobagens. Por que vocĂȘ estĂĄ sempre—

—Certo, Lucia. Carrega isso aqui pra mim? —interrompi.

—Aaagh!

Joguei pra ela a Visão Tripla, que eu precisava pra enxergar com a måscara, e o Olho da Coruja, que me permitia ver no escuro. Lucia pegou ambas as Relíquias com destreza antes de me lançar um olhar mortal. Escondida atrås de mim, Sora observava tudo isso com olhos arregalados.

—I-Isso Ă©, pode ser? Ó Raposa Branca, vocĂȘ faz parte das Grieving Souls? —ela perguntou num sussurro.

—É, isso mesmo. Vejo que vocĂȘ entende das coisas.

Eu mantinha o rosto coberto, mas o da Lucia era conhecido por muitos. Aparentemente, a fama dela a tornava reconhecida até mesmo pelo Clube de Fãs da Måscara de Raposa (nome temporårio).

—Tudo bem. Tudo bem. Eu nĂŁo sou uma traidora —murmurava Sora enquanto suava copiosamente. —Sou uma Donzela. Eu estou certa. Certa. Certa. NĂŁo sou eu quem estĂĄ errada. Ó raposa divina, por favor me proteja. Certo, essa Ă© uma missĂŁo de infiltração. NĂŁo. Sem encobrimentos. Eu estou certa!

Não acho que isso esteja certo. Sério, honestidade ainda é a melhor abordagem.

Ela nĂŁo precisava se preocupar tanto. As pessoas esquecem a dor com facilidade. E, pela minha experiĂȘncia, as coisas meio que se resolvem sozinhas. Ainda assim, eu conseguia entender um pouco o pĂąnico que ela estava sentindo.

—Sitri! —chamei, sem saber se ela estava por perto. —Desculpa, mas posso te emprestar um pouco?

—Certamente —respondeu ela animada. —Aconteceu algo?

Ah, ela estava no quarto.

Eu ia mostrar Ă  Sora como um NĂ­vel 8 improvisava.

—Estava pensando em montar uma organização que produz bentĂŽs de inarizushi —disse com um sorriso patĂ©tico. —Achei que deverĂ­amos começar garantindo uma base de operaçÔes.

—HĂŁ? Uh, bentĂŽ de inarizushi, Ă© isso?

Sitri piscou. Lucia e Sora me olharam como se eu tivesse perdido completamente a noção. Comecei a achar que até a Sitri, minha salvadora de sempre, acharia isso demais.

Não. Se alguém pode fazer isso funcionar, é ela!

—VocĂȘ acha que consegue dar um jeito? —perguntei.

—Ummm. Bem. Com licença, mas posso perguntar o motivo?

Motivo? NĂŁo tem motivo nenhum, cacete. SĂł estou sendo levado pela correnteza.

—É, claro, por isso —respondi com uma expressĂŁo sĂ©ria. —Por aquilo.

Aquilo o quĂȘ? Era, claro, aquilo.

Sitri pareceu confusa por um instante antes de sorrir e bater palmas. —Ah, entendi. Aquilo! Compreendido, vou começar! Quando precisa?

—Imediatamente.

—Imediatamente?! —os olhos da Sitri se arregalaram, deixando transparecer toda sua confusão. —O Festival do Guerreiro Supremo está prestes a começar—

—Sim, mas estamos falando daquilo, daquilo mesmo —afirmei.

Sitri ficou em silĂȘncio por um momento e entĂŁo assentiu. —Muito bem. JĂĄ que Ă© aquilo. Vou sair um pouco. Posso demorar pra voltar.

Com um olhar desconfiado, Lucia acompanhava toda essa conversa.

—LĂ­der, o que Ă© esse “aquilo”? —perguntou.

—Hã? Sei lá.

—IrmĂŁo, vocĂȘ vai acabar sendo forçado a casar com ela!

Sitri era realmente confiĂĄvel. Sempre fui do time Sitri. Ela era agradĂĄvel, e sua personalidade combinava com a minha. Mas eu nĂŁo ia me casar com ela.

Viu só, Sora? É assim que se improvisa.

Soltei um bocejo e me afundei numa poltrona confortåvel. Então me lembrei de que ainda tinha que me gabar. Precisava contar para a Raposinha que eu estava montando uma organização pra fazer bentÎs de inarizushi.

Sora simplesmente nĂŁo conseguiu acompanhar a mudança de cenĂĄrio. Nada fazia sentido. A Ășnica coisa que ela conseguia entender era que tinha sido jogada numa situação lamentĂĄvel.

Era absurdo pensar que ela tinha identificado a Raposa Branca de forma errada. Isso colocava em dĂșvida o prĂłprio sentido da existĂȘncia das Donzelas. Elas ocupavam uma posição especial dentro da organização, mas isso nĂŁo tornava Sora insubstituĂ­vel.

A mĂĄscara da Raposa Branca era autĂȘntica. Normalmente, isso poderia dar a ela uma certa margem de manobra — mas nĂŁo quando essa mĂĄscara era usada por um membro dos Grieving Souls, os arqui-inimigos da Raposa Sombria de Nove Caudas.

Resumindo, Sora tinha sido enganada. Tinha sido vĂ­tima de uma armadilha elaborada logo em sua primeira missĂŁo. E o homem por trĂĄs de tudo isso ainda zombou dela, dizendo que ela devia simplesmente contar a verdade para seus colegas.

Ela jamais poderia admitir o que havia feito. Fazer isso seria basicamente assinar sua prĂłpria sentença de morte. Mesmo que poupassem sua vida, ela seria presa — e nĂŁo havia garantia de que isso seria melhor que morrer. E Sora nĂŁo esperava que suas companheiras Donzelas viessem socorrĂȘ-la.

Ela estava num navio afundando, e jĂĄ nĂŁo havia como pular fora. Ela nĂŁo queria morrer. Havia nascido para ser uma Donzela, e se recusava a deixar essa vida acabar por algo que nem foi culpa dela.

Talvez fosse indigno de uma Donzela pensar assim, mas Sora tinha certeza de que não havia feito nada de errado. Aquela máscara era genuína. Quem possuía as máscaras divinas se tornava objeto de adoração — e era com base nisso que existiam as Donzelas da Raposa Sagrada. Em algum momento, a ordem natural das coisas se inverteu e as Donzelas se tornaram servas da Raposa Sombria de Nove Caudas, mas não era pra ser assim.

O que Sora estava fazendo agora era um retorno às origens. Era seu dever colocar as coisas nos trilhos. Ela não estava errada. Ela ia restaurar as coisas como deviam ser. Ia se devotar à Raposa Branca e à sua nova organização, o Tofu Frito de Dez Caudas. Eles espalhariam inarizushi por toda a terra! Sora não estava errada!

— Isso serve, Krai? — perguntou a Alquimista. — Não foi fácil, mas consegui isso. Em troca daquilo.

Por que ela tĂĄ se esforçando tanto por esse plano idiota…?

— Bom trabalho conseguindo isso tão rápido — respondeu o Mil Truques.

Com um sorriso idiota e irritante, ele ignorava completamente os pensamentos de Sora.

Era manhã do dia seguinte e eles estavam em um prédio pequeno, não muito longe do centro de Kreat. Parecia ter sido um café ou algo do tipo, jå que havia uma cozinha excelente que quase destoava do lugar. No segundo andar, havia espaços residenciais com móveis båsicos.

Sora não entendia muito do mundo, mas até ela sabia que isso não era algo que se conseguia por causa de uma simples piada. Havia algo de errado com essa tal de Sitri, se ela estava disposta a cumprir uma ordem tão absurda.

Sora começou a cogitar fugir. Talvez conseguisse despistar a Raposa se mudasse de roupa e de cabelo.

O falso — nĂŁo, o novo — Raposa Branca provavelmente estava tentando impedir a operação que a organização estava conduzindo em Kreat. Como mera Donzela, Sora nĂŁo tinha sido informada dos detalhes, mas ouvira que era uma empreitada gigantesca, capaz de mudar o mundo. Tudo estava sendo gerenciado por um homem da sĂ©tima cauda, que havia planejado tudo nos mĂ­nimos detalhes. Mas Sora achava que tudo tinha ido por ĂĄgua abaixo no momento em que ela confundiu um impostor com o chefe.

Mas ela não conseguia entender como uma organização que fazia tofu frito podia atrapalhar tudo isso. Ela nem sabia o que era inarizushi!

— TambĂ©m preparei tofu frito! — disse Sitri. — NĂŁo Ă© um alimento comum por aqui, entĂŁo foi bem difĂ­cil de conseguir.

— HĂŁ? VocĂȘ conseguiu mesmo? — respondeu o Mil Truques.

Sora estava confusa, mas não podia simplesmente ficar parada. Ela já não tinha mais lar na antiga organização. Tinha que sobreviver. Não — era seu dever sagrado servir ao novo Raposa Branca! Sora não havia feito nada de errado! Forçando-se a animar, ela cerrou o punho e levantou a cabeça.

— Aguardo suas ordens, Ăł Raposa Branca. Eu, Sora Zohlo, a Donzela, irei te apoiar atĂ© meu Ășltimo suspiro. Por favor, olhe por mim! Ah, e sĂł pra constar… eu nĂŁo sei cozinhar! Nunca fiz isso na vida!

SerĂĄ que dĂĄ mesmo pra conquistar o mundo com comida…? Que diabos esse cara tĂĄ pensando? Seria esse o mesmo tipo de artimanha sobre-humana que enganou Sora? Era confuso demais, fazia sua cabeça girar. Mesmo assim, ela estava desesperadamente tentando apoiar o novo Raposa Branca. Mas ele sĂł franziu a testa.

— Krai, vou lembrar que a coisa que mais odeio Ă© ficar no prejuĂ­zo — disse Sitri.

— E o que vocĂȘ mais gosta? — ele respondeu, apĂłs uma breve pausa.

— Isso seria, Ă© claro… aquilo. VocĂȘ devia me dar mais daquilo.

— Hahaha, vocĂȘ Ă© engraçada.

— Hehe, eu me esforço. TambĂ©m Ă© em nome daquilo. Sim — daquilo.

A Raposa Branca nĂŁo tinha nem um pouco a aparĂȘncia de alguĂ©m pronto e motivado pra atrapalhar um dos planos da Raposa. SerĂĄ que ele entendia que Sora correu pra Kreat porque um impostor podia arruinar o plano de Galf?

Ela decidiu ignorar o biquinho de Sitri por ora e ficou observando a Raposa Branca. Mas logo desistiu de tentar usar o cérebro. Não havia nada que uma mera Donzela pudesse fazer nessa situação.

Era uma era de esplendor, proporcionada pela fartura dos cofres de tesouro. Os caçadores de tesouros que recuperavam RelĂ­quias desses cofres Ă s vezes eram aclamados como campeĂ”es. A caça era considerada o caminho mais rĂĄpido para a riqueza, glĂłria e poder — fazendo desta a era dourada da caça ao tesouro.

Demonstrando talentos excepcionais desde jovem, Krahi Andrihee teve um caminho inevitĂĄvel rumo Ă  caça. Desde que se entendia por gente, sonhava com aquela vida — e por tanto tempo quanto isso, atĂ© os adultos Ă  sua volta tinham certeza de que ele se sairia excelente nela.

Krahi não cresceu com um corpo particularmente grande, mas seus instintos eram afiadíssimos, e sua aptidão mågica era de um nível frequentemente considerado impossível para homens (afinal, dizia-se que mulheres tinham mais afinidade natural para se tornarem magas). Mas, acima de tudo, ele tinha o que todo caçador precisava: a habilidade de absorver e reter eficientemente material de mana.

E assim, como se guiado pela mĂŁo do destino, Krahi Andrihee tornou-se um caçador. Mas mesmo com suas habilidades — que pareciam um presente dos prĂłprios cĂ©us — os cofres de tesouro mostraram-se desafiadores.

O caminho que escolheu era cheio de espinhos, mas ele se dedicou completamente a trilhå-lo. Conquistou diversos cofres. Evoluiu. Quase perdeu a vida, sendo constantemente alvo de criminosos. Não desperdiçava um segundo. Sacrificou até o sono. Para Krahi Andrihee, as dificuldades eram provaçÔes oferecidas pelos deuses, e superå-las era motivo de alegria.

Antes que percebesse, seu nome jå havia se espalhado por toda parte. Ainda não havia recebido um título, mas muitos caçadores jå conheciam seu nome. Ostentå-lo com orgulho valeu a pena. Títulos geralmente eram concedidos pela Associação dos Exploradores, mas Krahi não suportava a ideia de receber algo sem graça.

Mil Artes — os poderes dos deuses, forjados incessantemente. Esse era o ideal que Krahi almejava. Às vezes, as pessoas erravam ao mencionar seu tĂ­tulo, mas isso era um detalhe. Alguns atĂ© tinham a falsa impressĂŁo de que ele era NĂ­vel 8 — devia ser porque ele realmente passava essa sensação de poder.

Krahi Andrihee, o Mil Artes, (poderia ser confundido com um) NĂ­vel 8. Finalmente, havia conquistado o direito de participar do maior evento marcial de todos — o Festival do Guerreiro Supremo! Uma enxurrada de emoçÔes tomou conta dele.

Na época, circulavam boatos absurdos a seu respeito. Que Krahi não era Nível 8, que não tinha título, que nunca havia destruído organizaçÔes criminosas de peso, e que jamais transformara campos de flores em cofres de tesouro. Certamente, esses rumores eram fruto das altas expectativas que as pessoas depositavam nele.

Ao vencer o Festival do Guerreiro Supremo, ele conseguiria pĂŽr fim a esses rumores. Enfrentaria adversĂĄrios formidĂĄveis. Muitos deles provavelmente trilhavam o caminho do guerreiro hĂĄ mais tempo que ele. Mas Krahi estava em plena forma. Conseguiria. Seu poder estava no mesmo nĂ­vel de um NĂ­vel 8.

Sem contar que ele tinha aliados. Krahi havia começado como um caçador solo, mas seus ideais acabaram atraindo companheiros valiosos para seu lado. No Festival do Guerreiro Supremo não era permitido lutar ao lado dos amigos, mas só de saber que estavam lå jå era o suficiente para dar forças a Krahi.

Todos faziam parte de um mesmo grupo. Krahi ficou surpreso quando seus amigos sugeriram o nome “Bereaving Souls” e decidiram usar uma máscara como símbolo. No entanto, ele não era do tipo que rejeitava os amigos sem ao menos ouvir o que tinham a dizer.

Na sala de estar da suĂ­te alugada pelos Bereaving Souls, Elizabeth Smyat — a Sombra Sufocada — e Kule Saicool — o Sortido Proteico — estavam tendo uma conversa sĂ©ria.

— Então a gente tá ferrado? O que a gente faz, Kule? Não tem como eu ganhar da versão original.

— Hmm. Isso Ă© realmente ruim. Eu nĂŁo esperava que os verdadeiros fossem aparecer.

Elizabeth Smyat era uma Ladina. Tinha um cabelo rosa fluorescente que doía nos olhos e usava um traje que deixava pouca coisa para a imaginação. Mas mais chamativo que isso era seu busto avantajado — a origem do seu título, “Sombra Sufocada.” Ela achava o apelido uma idiotice e tinha o mau hábito de ser sarcástica, mas não era uma ladina ruim.

Kule Saicool era o cĂ©rebro do grupo. Era facilmente identificado pelos Ăłculos e pelo jeito educado de falar. Inexplicavelmente, afirmava ser um Espadachim, mesmo nunca tendo empunhado uma espada. Em combate, era praticamente inĂștil, mas como Krahi nĂŁo tinha experiĂȘncia como lĂ­der, o Sortido Proteico mantinha tudo funcionando.

Os outros membros tambĂ©m tinham suas excentricidades, mas para alguĂ©m como Krahi — que atĂ© entĂŁo fora um caçador solo — eles eram insubstituĂ­veis.

— Fora o Krahi, nosso grupo não tem nada de especial — suspirou Kule.

— UĂ©, pois Ă©. Se eu fosse especial, tu acha que eu ia deixar me chamarem de “Izabee”? — disse Izabee.

— Isso nĂŁo Ă© verdade! — Krahi interveio, incapaz de ouvir os amigos falarem assim de si mesmos. Independente de como haviam se conhecido, o fato era que agora eram um grupo. Ele tentou fazĂȘ-los mudar de ideia, mas a baixa autoestima era algo que pairava sobre os Bereaving Souls.

— Kule, Izabee. Se nĂŁo fosse por vocĂȘs dois e pelo resto do grupo, eu nunca teria chegado a um torneio tĂŁo prestigiado. Meu sincero agradecimento.

O rosto de Izabee ficou sério. Kule pareceu desconfortåvel.

— Por que esse cara Ă© tĂŁo absurdamente forte? — murmurou Izabee. — Eu nĂŁo achei que ele fosse mesmo chegar ao Festival do Guerreiro Supremo.

— Pois Ă© isso que acontece quando vocĂȘ se vira sozinho por tanto tempo. Ele Ă© o Ășnico que nĂŁo tĂĄ fingindo.

Era verdade. Krahi não ia perder — não importava o oponente. Estava pronto para tudo!

Vou mudar as coisas. Mais do que fazer meu nome ser conhecido, vou fazer o nome dos Bereaving Souls ecoar por toda a terra.

Esse era o outro sonho de Krahi. Reafirmou sua determinação e olhou pela janela. Com os olhos ardendo de paixão, observou as ruas de Kreat, que ficavam mais agitadas a cada dia com a aproximação do Festival do Guerreiro Supremo. De repente, lembrou-se daquele jovem que se parecia com ele. Serå que ele viria torcer por Krahi no torneio?


Tradução: Carpeado
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Anime X Novel 7 Anos

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