Grieving Soul – Capítulo 5 – Volume 6

Nageki no Bourei wa Intai shitai

Let This Grieving Soul Retire Volume 06

Capítulo 5: A Pousada Peregrina e as Crianças Perdidas


— Oooh. Estamos voando! Estamos realmente voando!

— Claro que estamos! Senhor! Isto Ă© uma aeronave.

Kris, um ser cuja casa natural era no coração da floresta, olhou para mim como se eu fosse algum caipira. Acho que a vida na capital imperial a tinha urbanizado completamente.

Nossa decolagem tinha sido suave, e o voo era a experiĂȘncia aĂ©rea mais silenciosa que eu jĂĄ tinha tido. Achei absolutamente incrĂ­vel que isso fosse algo feito pelas mĂŁos humanas. Apoiei-me no meu cajado estupidamente grande e olhei pela janela.

— A propĂłsito, que cajado Ă© esse, senhor? — perguntou Kris, desconfiada.

— É uma RelĂ­quia — respondi orgulhoso. — Bem legal, nĂ©?

Sem mencionar que era estiloso. Percebi Kris observando seu prĂłprio cajado. Como seus designs vinham de eras hĂĄ muito passadas, muitas RelĂ­quias tinham aparĂȘncias estranhas. Isso incluĂ­a o Round World. A maioria dos cajados usados por Magos era de madeira, mas este era de metal. NinguĂ©m sabia como a gema no topo flutuava, ou por que flutuava em primeiro lugar. Era misterioso e desafiava explicaçÔes, caracterĂ­sticas muito tĂ­picas de uma RelĂ­quia.

Cajados eram um dos tipos mais raros de RelĂ­quias de armas, tornando-os incomuns atĂ© mesmo entre caçadores de alto nĂ­vel. O Round World nĂŁo cumpria o papel usual de um cajado de amplificar mana, o que significava que era mais ou menos inĂștil como arma. Ainda assim, sua principal função fazia com que tivesse um preço alto.

Essa Ă© uma boa oportunidade para explicar que as pulseiras de Telm eram RelĂ­quias. Cajados em forma de pulseira eram um tipo de RelĂ­quia muito mais caro do que um cajado puro. Ele era o lĂ­der do melhor clĂŁ de Magos da capital imperial, entĂŁo fazia sentido que seu equipamento estivesse um nĂ­vel acima dos demais.

— Por que vocĂȘ nĂŁo estava com isso antes, senhor?

— Porque eu não precisava.

Kris ergueu uma sobrancelha bem desenhada, como se tivesse mais a dizer.

Era a primeira vez em muito tempo que eu segurava aquele cajado, e quase tinha esquecido o quão pesado ele era. Claro, parecia incrível, o que era ótimo, mas carregå-lo o tempo todo seria exaustivo. Eu devia ter pedido para Liz trazer também uma Relíquia de redução de peso enquanto estava nisso. Veja bem, para pessoas como ela, até mesmo um grande cajado de metal era tão leve quanto o ar, então ela não pensaria em trazer um redutor de peso a menos que eu pedisse.

— Eu nĂŁo fazia ideia de que vocĂȘ tinha uma RelĂ­quia de cajado, senhor.

— TambĂ©m tenho RelĂ­quias de espada e de machado. Esse Ă© sĂł mais um item da minha coleção.

— Entendo. Seria um desperdĂ­cio uma RelĂ­quia dessas ficar parada em uma coleção. Mas que item peculiar. É verdade que RelĂ­quias de cajado tĂȘm uma conversĂŁo de mana incrĂ­vel, senhor?

— É… Aham.

Parece que Magos não conseguem evitar se fascinar por cajados. Os olhos de Kris iam e vinham entre o Round World e seu próprio cajado. A triste verdade era que o meu era mais como um grande dispositivo de tradução, enquanto o dela era uma arma muito superior.

Ainda consciente do olhar de Kris, olhei ao redor e vi Kechachakka observando pensativo a paisagem pela janela. O motivo de eu ter mandado Liz de volta Ă  capital imperial era justamente para poder conversar com esse cara. Segurei firme o cajado e me aproximei dele. O Shaman de capuz baixo e aparĂȘncia suspeita virou-se para mim.

— Ei, Kechachakka, algo chamou sua atenção?

— Hee hee.

— He? He quem?

— Hee hee hee.

Como sempre, nĂŁo conseguia me comunicar com ele. Mas isso estava prestes a mudar. Ativei o Round World e abri um sorriso.

— Desculpa, pode repetir? — perguntei.

— Uhe hee. Hee hee.

Suas palavras eram sombrias, mas seus olhos estavam surpreendentemente calmos.

— Hee hee hee — respondi com um aceno.

— Uhee?!

— Hee hee hee hee. Hee hee.

— Hee hee! Hee hee hee hee!

— Hm. Entendo. Interessante.

Fiz o meu melhor para manter meu rosto sem espasmos, agradeci a ele e me afastei. Voltei para Kris, que observou toda a interação atentamente.

— Kecha Ă© nosso companheiro de equipe, entĂŁo vocĂȘ nĂŁo deveria mexer com ele! Senhor!

— É, uh-huh. Mas eu não estava mexendo com ele.

Que mundo estranho.

Percebendo a Ăłbvia confusĂŁo de Kris, estendi o cajado.

— Durante esta missão, vou te emprestar isso — disse a ela.

— Hã?

— VocĂȘ parecia querer testĂĄ-lo. Acertei? SĂł nĂŁo perca.

— O quĂȘ?! VocĂȘ pretende fazer essa missĂŁo sem uma arma?! Senhor?!

Seus olhos estavam arregalados, mas nĂŁo para mim, e sim para o cajado mĂ­stico.

Adotei uma postura confiante.

— EstĂĄ tudo bem. Minha arma — bati na lateral da minha cabeça — Ă© esta. Se algo, um cajado sĂł me atrapalharia.

Na verdade, Ă© bem pesado, entĂŁo, por favor, carregue para mim.

Confusa, Kris pegou o cajado. Apesar do peso considerĂĄvel, nĂŁo disse nada. Mesmo com sua estrutura pequena, ela era mais forte que eu. Que deprimente.

— Hmph. Mesmo sendo companheiros de clã, ainda não consigo acreditar que um caçador emprestaria sua própria arma. Mas já que insiste, eu aceito.

— Valeu mesmo. Ah, certo. Esse cajado Ă© bem poderoso, entĂŁo nĂŁo teste dentro do dirigĂ­vel.

— Eu sei disso, senhor.

Sorrindo, lancei um olhar para Kechachakka. NĂŁo consegui entender uma Ășnica palavra do que ele havia dito. Pelo visto, ele realmente sĂł estava dizendo “Hee hee hee.” Round World nĂŁo funcionava decifrando as regras de uma lĂ­ngua, mas compreendendo intençÔes. E como era uma RelĂ­quia, seus poderes eram absolutos. Ele funcionava sob princĂ­pios semelhantes aos das LĂĄgrimas da Verdade, que detectavam mentiras.

Caçadores realmente eram só um bando de esquisitos.

***

Tirando as turbulĂȘncias ocasionais, a viagem de dirigĂ­vel foi bem tranquila. Perfeitas FĂ©rias provavelmente ajudou nisso, mas o principal foi o esforço de Franz. Durante esses trĂȘs dias, ele garantiu que tudo estivesse em ordem. Todos os passageiros foram verificados e o dirigĂ­vel passou por mais uma inspeção. Olhando para o rosto exausto dele, eu jĂĄ tinha uma ideia do quanto aquilo deu trabalho.

— Nenhum rato a bordo — disse ele. — Então, Mil Truques, ainda acha que o dirigível vai cair?!

— Acho que vai ficar tudo bem. Mas se cair, caiu. Onde mesmo fica a saĂ­da de emergĂȘncia?

— Saindo daqui, fica Ă  sua esquerda. Droga, vocĂȘ nĂŁo recebeu um mapa da nave? TĂĄ tentando me deixar louco?!

Ah, Ă© mesmo. Eu recebi um mapa.

Franz estava muito tenso. Como se ficar nervoso fosse ajudar. NĂŁo havia sentido em pensar demais no assunto.

— Tenho certeza de que tudo vai dar certo — afirmei com um tom tranquilizador. — AnĂ©is de Segurança protegem contra quedas. Sei disso por experiĂȘncia prĂłpria.

— Isso pra vocĂȘ Ă© uma piada?! — Franz bateu na mesa. Acho que ele nĂŁo gostou do meu comentĂĄrio. Dei um passo para trĂĄs, e ele avançou.

— Seu trabalho Ă© impedir que isso aconteça! — rugiu ele, apontando um dedo para mim. — Como pode estar tĂŁo despreocupado?! Aja como se se importasse com esse trabalho!

— I-Isso Ă©, uh, apenas uma questĂŁo de experiĂȘncia.

— O que disse?!

JĂĄ passei por todo tipo de situação. Proteger o imperador era novidade, mas jĂĄ lidei com ataques de dragĂ”es e tambĂ©m com gente gritando comigo. Inclusive, jĂĄ passei por algumas quedas… e essa nem foi a pior. Tenho um histĂłrico de azar e sei quando nĂŁo vale a pena lutar contra o destino. Pelo menos isso me tornou o maior especialista do mundo no uso de AnĂ©is de Segurança. Mas nĂŁo era nada alĂ©m de ativĂĄ-los.

— Tenho certeza de que vai dar tudo certo — repeti.

— Esta nave Ă© uma fortaleza. EstĂĄ equipada com repelentes de monstros. Nada se aproximarĂĄ de nĂłs, seja em terra ou no cĂ©u!

Franz quase parecia estar tentando se convencer. No momento seguinte, um cavaleiro entrou correndo na cabine.

— S-Senhor, recebemos um alerta da superfície. Há sinais de uma tempestade se formando—

— Droga. Isso nĂŁo teria acontecido se nĂŁo tivĂ©ssemos atrasado a decolagem! — Franz gritou comigo antes de se virar para o cavaleiro. — Avise a todos para ficarem em alerta. Nem vento, nem chuva, nem mesmo raios vĂŁo nos derrubar!

Parecia ridículo ficar bravo comigo quando tempestades são só uma parte de viajar. Hå pouco tempo, fui atingido por uma tempestade nas minhas férias.

Franzi a testa, relembrando minhas experiĂȘncias anteriores.

— Espero que seja apenas uma tempestade — murmurei com um pequeno sorriso.

***

O dirigível balançou violentamente. Kechachakka olhou pela janela e cerrou os dentes ao ver as nuvens negras. Sua cabeça e seu estÎmago sofriam com a tensão. Desde que entrou para a Raposa, nunca havia passado por algo assim. Ele sabia o que estava causando isso. Era aquele homem que dizia ser da décima terceira cauda, Krai Andrey.

Nada nele impressionava Kechachakka. Antes e depois de sua identidade ser revelada, ele parecia despreocupado, e mesmo as descriçÔes mais gentis não escondiam o fato de que ele era um palhaço.

Ele simplesmente fazia o que queria. Kechachakka nunca tinha visto alguĂ©m “Hee hee hee” para ele. AlĂ©m disso, aquele homem transformou o imperador em um sapo e convocou elementais de lençóis. Era impressionante que Franz ainda nĂŁo tivesse chutado o Mil Truques da guarda. Kechachakka estava disposto a acreditar que tudo era calculado. Antes, achava que a guarda imperial era cheia de idiotas, mas agora estava reconsiderando.

—

LĂĄ no fundo, Kechachakka nĂŁo tinha certeza se queria continuar na Raposa Sombria de Nove Caudas, se era assim que os figurĂ”es do grupo agiam. Mas serĂĄ que aquele homem era realmente um dos superiores? Desde o momento em que o Mil Truques afirmou fazer parte da alta hierarquia, dĂșvidas começaram a rodopiar na mente de Kechachakka.

Ele tinha certeza de que Telm era um dos membros da Raposa, mas não podia dizer o mesmo do Mil Truques. MaldiçÔes eram um tipo de magia formada por inimizade e outras emoçÔes intensas. Como usuårio desse tipo de magia, Kechachakka era muito bom em discernir a verdadeira natureza das pessoas. Pelo que podia perceber, o Mil Truques era simplesmente, ou melhor, extremamente despreocupado. Ele não era movido por nenhuma må intenção, mas mais do que isso, não tinha o cheiro da morte que permeava todos os caçadores. Mas como isso era possível?

Enquanto observava as grandes gotas de chuva batendo contra a janela, Kechachakka soltou um lamentoso “Hee hee”. Sua avaliação dizia que o Mil Truques nĂŁo era um membro da Raposa. Mas essa mesma avaliação tambĂ©m insistia que ele nĂŁo poderia ser um caçador de NĂ­vel 8! Dizia que ele era apenas uma pessoa normal, e uma fraca ainda por cima!

Deixando de lado a questĂŁo de ele ser ou nĂŁo um Raposa, nĂŁo havia como negar que aquele homem era um caçador de NĂ­vel 8. Ele atĂ© cogitou a possibilidade de que fosse um dublĂȘ, mas certamente, se o Mil Truques quisesse fazer isso, teria escolhido outra pessoa. AlĂ©m disso, um cidadĂŁo comum jamais poderia conhecer os sinais de cĂłdigo usados pela Raposa, nem poderia ser apenas uma coincidĂȘncia.

Nada se encaixava. Kechachakka nĂŁo fazia ideia do que era verdade e do que era mentira. Embora fosse um processo cansativo, a Raposa possuĂ­a um sistema de emergĂȘncia para confirmar a filiação de um membro. NĂŁo por dever, mas por si mesmo, Kechachakka planejava utilizĂĄ-lo assim que voltasse Ă  capital imperial.

A tempestade rugia do lado de fora da aeronave. Isso nĂŁo era suficiente para derrubar uma embarcação como a Estrela Negra, mas, mesmo assim, o interior estava tĂŁo agitado quanto uma colmeia. Nem Kechachakka nem Telm podiam controlar tempestades. Aquela tempestade era apenas uma coincidĂȘncia. Embora fosse incrivelmente conveniente para eles, ainda assim, era apenas isso.

— Ouvi dizer que o Mil Truques pode invocar tempestades — sussurrou Telm Apoclys, seu superior. — Será que chegou a hora? Agora não seria um momento estranho para cairmos.

Kechachakka se recusava a acreditar que alguém havia convocado aquela tempestade. Feitiços desse tipo existiam, mas sempre apresentavam sinais claros antes de serem ativados. Kechachakka não havia visto nenhum pressågio assim, e aquele homem sequer possuía mana para começar. Normalmente, o Xamã poderia afirmar com confiança que aquilo não era resultado de magia, mas estavam falando do Mil Truques, alguém capaz de transformar instantaneamente o imperador em um sapo.

Kechachakka soltou uma risada fraca.

— Vejo que está incerto, Kecha — disse Telm, esfregando seus braceletes. — Não se preocupe, as defesas mágicas desta nave farão pouco contra ataques vindos de dentro.

Com um Magus tão poderoso ao seu lado, seu objetivo estava ao alcance. Em termos de discrição e poder, Telm Apoclys era o Magus mais forte que Kechachakka jå tinha visto. Quando se tratava de combate contra outras pessoas, ele provavelmente superava até mesmo o Inferno Abissal.

E ainda havia o clone de ĂĄgua. Ao emprestar o poder de suas RelĂ­quias, Telm possuĂ­a a habilidade Ășnica de criar um clone que podia controlar Ă  vontade. NĂŁo importava quantos guardas o imperador tivesse, matĂĄ-lo estava bem dentro do possĂ­vel para Telm.

Um mĂȘs atrĂĄs, as palavras tranquilizadoras de Telm poderiam ter confortado Kechachakka. Mas nĂŁo agora. NĂŁo deveria haver problemas. Suas chances de falha eram praticamente nulas, e eles poderiam convocar dragĂ”es, caso realmente precisassem.

Foi então que o Mil Truques entrou na cabine. Ao ver Telm, deu aquele seu sorriso meio bobo. Telm começou a se levantar, mas ele ergueu as mãos.

— Ah, não precisa.

— Hm. EntĂŁo estĂĄ dizendo que ainda nĂŁo Ă© a hora? — perguntou Telm.

— Hã? Ah, Franz disse que ele e seus cavaleiros vão agir.

— O quĂȘ? Ele Ă© um dos nossos?!

— Hm? Ah, sim — disse o Mil Truques, surpreso. — De qualquer forma, ainda nĂŁo Ă© hora de nos mexermos.

Kechachakka queria gritar que aquilo era um absurdo, mas se conteve. Sua impressĂŁo era de que Franz Argman era Ă­ntegro, completamente e absolutamente Ă­ntegro. Ele mesmo havia provado sua inocĂȘncia com as LĂĄgrimas da Verdade. NĂŁo havia como um homem assim ser um Raposa. Por outro lado, a mesma RelĂ­quia tambĂ©m havia mostrado que o Mil Truques era inocente.

Se esse trabalho der certo, vou tirar um tempo disso tudo, Kechachakka disse a si mesmo.

— Hm. Que seja — disse Telm, recostando-se novamente. Ele começou a acariciar o queixo. Ao contrĂĄrio de Kechachakka, ele mantinha a compostura. Como serĂĄ que o Mil Truques aparecia da perspectiva dele? — Isso me lembra que hĂĄ algo que gostaria de confirmar com vocĂȘ. O que pretende fazer sobre Kris?

— Hm? O que quer dizer com isso?

— VocĂȘs parecem bastante prĂłximos. NĂŁo se importa se ela for eliminada?

— O quĂȘ?!

O Mil Truques pareceu completamente surpreso. Mas eles precisavam fazer tudo ao seu alcance para reduzir os riscos de falha, e aquele EspĂ­rito Nobre era um obstĂĄculo.

— NĂŁo somos particularmente prĂłximos — continuou ele —, mas nĂŁo vamos eliminĂĄ-la. VocĂȘs dois tĂȘm algo contra ela?

Um profissional sabia separar sentimentos pessoais do trabalho. Se ele dizia que nĂŁo eram tĂŁo prĂłximos, entĂŁo serĂĄ que sua conversa amigĂĄvel com ela era apenas um teatro? E, se sim, com qual propĂłsito?

— Eu nĂŁo diria isso — respondeu Telm. — Mas posso assumir que devemos deixĂĄ-la com vocĂȘ?

O homem da dĂ©cima terceira cauda inclinou a cabeça de um lado para o outro por um momento antes de assentir para si mesmo. — É, acho que devo fazer algo de lĂ­der de vez em quando. Vou dar um aviso verbal para a Kris.

— Verbal? — Nem Telm nem Kechachakka sabiam como responder. — M-Muito bem.

Eles acharam isso extremamente preocupante. Esse homem estava falando sério? Ele realmente achava que um aviso verbal seria suficiente para silenciå-la? Isso não poderia funcionar. Mas, como Raposas, tinham que obedecer seus superiores.

Ouviram barulhos do lado de fora. Parecia que estavam verificando possíveis danos causados pela tempestade. Não havia chance de aquela fortaleza voadora ser afetada por um simples mau tempo. Mas se a aeronave caísse agora, a culpa recairia sobre a tempestade. Era a oportunidade perfeita para sabotagem—como poderiam esperar algo melhor?

Como se estivesse lendo a mente de Kechachakka, o Mil Truques de repente virou-se para ele. O coração de Kechachakka disparou, e ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Com uma expressão séria, o Mil Truques se levantou e caminhou na direção de Kechachakka. Então, passou direto por ele. Ele olhou pela janela, então Kechachakka fez o mesmo.

Lå fora, voando em meio à tempestade brutal, havia uma pipa gigante. Kechachakka esfregou os olhos, mas ao olhar novamente, a pipa ainda estava lå. Agarrados a ela estavam aqueles ridículos elementais de lençol.

— Nada mal — disse o Mil Truques, parecendo um pouco perplexo.

EntĂŁo, como se estivesse esperando o momento perfeito, um raio atingiu a pipa. O estrondo foi alto, e ela despencou. Com uma expressĂŁo de leve surpresa, o Mil Truques observou a cena.

Kechachakka soltou um gemido baixo enquanto seguia para seu quarto, onde se jogou na cama.

***

— Ei, Kris, vocĂȘ fez algo rude com o Telm?

Kris cruzou os braços e me lançou um olhar insatisfeito. — HĂŁ? Se alguĂ©m foi rude com ele, esse alguĂ©m foi vocĂȘ. Senhor.

NĂŁo era a forma mais gentil de colocar as coisas, mas eu nĂŁo podia discordar.

O tempo ainda estava tempestuoso. Eu jå estava acostumado com tempestades e relùmpagos, mas poucas vezes havia lidado com isso no ar. Luzes piscavam, estrondos ecoavam, e a aeronave balançava de um lado para o outro. Sem o Férias Perfeitas, eu estaria muito desconfortåvel.

O Tapete, no entanto, estava tão animado como sempre e dançava ao redor com o tapete que eu havia comprado na cidade. Aquela compra me custara caro. Era um tapete normal, sem poderes, mas a Relíquia Tapete não parecia se importar nem um pouco. Na verdade, eu temia que os dois fugissem juntos.

Que coisas misteriosas as RelĂ­quias podem ser. E aqueles dois realmente tĂȘm uma baita diferença de altura.

— Por que vocĂȘ sempre me chama para o seu quarto? — Kris resmungou enquanto eu observava os tapetes dançando. — Eu entendo que vocĂȘ queira confiar em mim, mas me chamar todo santo dia jĂĄ Ă© demais! Senhor! SerĂĄ que vocĂȘ gosta de mim? Senhor? Pois tire o cavalinho da chuva. Eu estou aqui por ordens da Lapis, nĂŁo porque gosto de vocĂȘ. Senhor.

Eu nem havia me confessado, e jĂĄ fui rejeitado.

Desculpa por te chamar toda noite. Mas nĂŁo tire conclusĂ”es erradas sĂł porque eu dependo de vocĂȘ o tempo todo.

Não é que eu não gostasse da Kris. Eu tinha apreço por todos que recarregavam minhas Relíquias, e a atitude dela não era tão ruim quanto a de alguns com quem jå lidei. Com ela, Telm e Kechachakka, eu realmente tirei a sorte grande na escolha de equipe dessa vez. Då até para dizer que estou numa maré de sorte.

— Ah, Ă© — eu disse. — Acho que o Telm ainda estĂĄ com a impressĂŁo errada sobre nĂłs.

— Ugh. Esse Ă© o problema de vocĂȘs humanos e seu cio o ano todo—

— Não diga isso na frente do imperador.

— VocĂȘ nĂŁo precisa me dizer. Acha que sou uma idiota? Diferente de certas pessoas, eu sei segurar a lĂ­ngua. Senhor.

Quando tudo isso terminasse, eu teria que demonstrar minha gratidĂŁo. Pensei em mandar um grande saco de nozes amiuz para ela. Parecia gostar delas, e nĂŁo lhe faziam mal, desde que nĂŁo usasse mana.

Parece que tĂ­nhamos passado pelo pior da tempestade, pois a aeronave parou de balançar. Pelo que se ouvia, havĂ­amos atravessado sem danos sĂ©rios. Meus preciosos elementais de lençol tinham sido atingidos por um raio, mas demorava mais do que isso—ou uma queda—para matĂĄ-los, entĂŁo nĂŁo me preocupei.

EntĂŁo ouvi passos apressados, e a porta foi escancarada.

— HA HA HA HA!

Era Franz, encharcado de suor.

Eu conseguia ver que ele estava cansado, provavelmente de coordenar a tripulação, mas havia um brilho em seus olhos. Ele nem percebeu o choque da Kris ao apontar o dedo para mim.

— Viu isso, Mil Truques?! — ele rugiu, empolgado. — Conseguimos. Passamos pelo pior da tempestade! Mau tempo nĂŁo Ă© nada para esta aeronave. Suas previsĂ”es estavam erradas. Este navio Ă© imparĂĄvel!

— Ahm, Ă©, uh-huh.

Ele não estava um pouco empolgado demais? Afinal, eu disse que havia noventa por cento de chance de não cairmos. Ele parecia prestes a começar a dançar. Se ele queria um parceiro, eu estaria disposto a emprestar meu Tapete.

— VocĂȘ realmente gosta de arranjar briga sempre que pode. Senhor.

Estranho. NĂŁo lembrava de ter provocado essa briga de que a Kris falava. Mas depois de ver Franz tĂŁo convencido, parte de mim se sentiu compelida a argumentar.

— Ainda não saímos completamente da tempestade. Precisamos ser cautelosos — eu disse.

— Ha ha ha! Diga o que quiser, perdedor amargo! Cansei de jogar seus joguinhos, então fique fora do caminho! Agora, devo me reportar a Sua Majestade Imperial.

Com essa declaração confiante, Franz estufou o peito e saiu marchando. Sua postura me lembrou bastante a de um nobre. Então lembrei que ele era um nobre. Até a Kris parecia que havia sido atropelada por um furacão.

— Ele tem muito estresse acumulado — ela murmurou depois de um tempo. — Quando isso acontece, vocĂȘ deveria tomar um chĂĄ de ervas. VocĂȘs humanos deveriam aprender com nĂłs, EspĂ­ritos Nobres, e nĂŁo se preocuparem tanto. Senhor.

— Chá de ervas, hein? — Assenti. — A Sitri adora preparar esse tipo de chá.

Kris parecia desapontada por algum motivo.

— Acho que nĂŁo Ă© isso que vocĂȘ precisa, senhor. VocĂȘ jĂĄ Ă© mais relaxado do que a maioria dos EspĂ­ritos Nobres.

A aeronave continuava sua viagem suavemente, o que não era algo muito comum quando eu estava por perto. O navio não balançava muito e, enquanto minha Relíquia me mantinha perfeitamente confortåvel, eu podia dizer que essa era uma embarcação de primeira classe, jå que Kris não estava reclamando.

Sendo feita para transportar a elite do império, nossas cabines eram tão confortåveis quanto os quartos de estalagem em que havíamos ficado. O mobiliårio era excelente e as camas, macias e fofas. Liz era aventureira, então eu tinha certeza de que ela adoraria explorar cada canto da nave se estivesse a bordo. Uma pena que ela tenha sido atingida por aquele raio.

Continuei olhando pela janela, mas tudo que via eram nuvens negras e densas. Nenhum sinal de uma pipa ou de espectros de lençol. Meus amigos de infùncia eram imprudentes o suficiente para tentar voar pela tempestade novamente, mas talvez tivessem aceitado que era impossível. Mas se tivessem tanto bom senso, não teriam tentado desafiar a tempestade em cima de uma pipa em primeiro lugar.

Sir Matadinho estava parado no canto, aparentemente satisfeito (eu acho), mais dĂłcil do que o Tapete. Deitado na minha cama, observei o Tapete e o tapete girarem ao redor.

— Será que vamos cair? — Me perguntei em voz alta.

Considerando minha pĂ©ssima sorte, parecia possĂ­vel. Mas se Franz estivesse certo, essa aeronave era resistente. Ele disse que ficarĂ­amos bem mesmo se dragĂ”es viessem atrĂĄs de nĂłs, e acho que ele podia afirmar isso com confiança porque jĂĄ tinha experiĂȘncia com dragĂ”es. Claro, eu estava torcendo para que nĂŁo caĂ­ssemos de jeito nenhum.

Quando pousåssemos, seria na capital do país desértico de Toweyezant. Era um país pequeno, mas eståvel, então estaríamos seguros lå.

— Os próximos dias serão decisivos.

Mas se não tivéssemos visto nenhum sinal da Raposa recentemente, talvez tivessem desistido de nos perseguir.

Meu devaneio foi interrompido por uma batida na porta. Ouvi a voz de Telm do outro lado, então pulei da cama e tentei parecer ocupado. Telm enfiou a cabeça para dentro, parecendo completamente desperto apesar do horårio avançado.

— Perdoe-me por invadir assim no meio da noite — disse ele. — No entanto, achei que havia algumas coisas que devíamos confirmar. Kecha pensa da mesma forma.

Hesitei, entĂŁo tentei bancar o durĂŁo. NĂŁo conseguia evitar quando Telm era tĂŁo durĂŁo.

— Imaginei que vocĂȘ viria mais cedo ou mais tarde.

Ele queria confirmar as coisas! Que caçador diligente. Esse senso de responsabilidade… Isso era NĂ­vel 7, era o que um veterano calejado pela batalha deveria ser. Eu queria que Luke e meus outros amigos incontrolĂĄveis aprendessem uma ou duas coisas com ele. Mal podia acreditar que alguĂ©m tĂŁo centrado era amigo daquela velha maluca.

— Vou ter que retribuir o Inferno Abissal — murmurei.

Os olhos de Telm se arregalaram ao me ouvir.

— Muito confiante de sua parte, mas Rose nĂŁo tem igual quando se trata de destruição, e vocĂȘ nĂŁo conseguirĂĄ pegĂĄ-la desprevenida. Ela Ă© a prĂłpria destruição encarnada, e nĂŁo acho que vocĂȘ realmente compreenda isso.

HĂŁ? Ela vai me carbonizar se eu agradecer? Por quĂȘ? Que diabos, que criatura terrĂ­vel.

Se alguma coisa fosse me reduzir a cinzas, era mais provåvel que fosse o fato de eu não dizer nada. Mas Telm não parecia estar brincando. Então, fiz uma anotação mental para garantir que todos os meus Anéis de Segurança estivessem devidamente carregados antes de ir até ela.

— EntĂŁo, vocĂȘ queria confirmar algumas coisas, certo? Acho que isso nĂŁo Ă© necessĂĄrio, vou apenas seguir vocĂȘ como sempre fiz.

— O quĂȘ?!

Talvez eu estivesse jogando responsabilidade demais para ele. Mas eu não tinha habilidades de combate nem de comando. Se precisåvamos de alguém para assumir a liderança, isso deveria ser deixado para alguém experiente, como Telm. Se eu começasse a dar ordens, provavelmente seria culpado se algo desse errado. Quero dizer, provavelmente seria culpado de qualquer forma, mas pelo menos me sentiria melhor deixando outra pessoa no comando.

— Desculpe, mas esse Ă© o meu jeito de fazer as coisas — disse a ele. — Ah, e sobre a Kris. JĂĄ conversei com ela, entĂŁo nĂŁo precisa se preocupar.

— Hm. EntĂŁo vocĂȘ estĂĄ deixando a execução para nĂłs? — Telm perguntou.

— Algum problema com isso? Se algo acontecer, eu dou suporte.

Eu não tinha mostrado muitas habilidades de liderança, mas não via nada de errado em deixar isso nas mãos deles.

— Sem objeçÔes. Se esse Ă© o seu modo de agir, nĂłs nos ajustaremos. Com o palco preparado tĂŁo perfeitamente para nĂłs, essa serĂĄ uma tarefa fĂĄcil.

Ele parecia incrivelmente sério para alguém que dizia esperar um trabalho fåcil, mas acho que um senso de responsabilidade adequado faz isso com a pessoa. E ele mencionou que o palco estava preparado, mas eu não tinha feito nada do tipo. Até sua bajulação era de alto nível. Que sujeito assustador. Eu só esperava envelhecer tão graciosamente quanto ele.

EntĂŁo me lembrei de algo: Telm tinha uma cauda. Essas caudas eram aglomerados de mana, o que expandia imensamente as habilidades de um Magus. Sem pensar, sorri e disse:

— Certo. Agora, mostre-me o poder da sĂ©tima cauda.

Depois disso, a viagem na aeronave seguiu sem incidentes. Assim que passamos pela pior parte, o restante da jornada foi surpreendentemente tranquilo. Durante o briefing, notei que a aparĂȘncia de Franz havia melhorado. E justo quando comecei a pensar que poderĂ­amos concluir a viagem sem mais problemas, aconteceu.

Eu estava no meu quarto, matando o tempo com Kris, quando Franz entrou correndo. Ele nĂŁo parecia assustado ou em pĂąnico, apenas confuso.

— Mil Truques, Sua Majestade Imperial solicita sua presença.

— Aconteceu alguma coisa?

Fiquei surpreso. Não tinha ouvido nenhuma comoção.

— Olhe lĂĄ fora — disse Franz, preocupado. — Tenho certeza de que vocĂȘ percebeu, mas, mesmo depois de todo esse tempo, ainda nĂŁo saĂ­mos da tempestade.

Virei-me para a janela. Lå fora, o céu continuava escuro como sempre.

***

Telm Apoclys olhava pela janela e suspirava. JĂĄ havia se passado um dia inteiro, e ainda assim nĂŁo haviam escapado da tempestade.

— Pensar que a diferença entre nossas habilidades Ă© tĂŁo grande…

Essa tempestade era, sem dĂșvida, anormal. O vento era fraco e a chuva, fina, mas a escuridĂŁo nĂŁo se dissipava. Manter um feitiço por tanto tempo era algo extremamente difĂ­cil. Telm era especializado em magia da ĂĄgua; tinha recebido o tĂ­tulo de Contra-Cascata quando conseguiu deter uma cachoeira colossal. Mas nem mesmo toda a experiĂȘncia que acumulou ao longo da vida o ajudava a entender a natureza dessa tempestade.

Era a terceira vez que Telm era forçado a reconhecer a superioridade de outra pessoa. E, desta vez, essa pessoa era um homem muito mais jovem que ele. Perdido em pensamentos, Telm esfregou as pulseiras em seus pulsos. Chamavam-se Graça do Deus das Águas, e ele as havia conseguido por pura sorte na cùmara do tesouro de nível 6 conhecida como Ermitério do Deus das Águas.

As pulseiras concediam uma bĂȘnção poderosa baseada em ĂĄgua ao usuĂĄrio, o que ampliava imensamente os poderes de Telm. VendĂȘ-las no lugar certo garantiria que as prĂłximas trĂȘs geraçÔes de sua famĂ­lia jamais precisassem trabalhar.

Telm estava muito mais forte do que quando deteve aquela cachoeira, vinte anos atrĂĄs. Ainda assim, ele nĂŁo conseguia entender como essa tempestade estava sendo criada. E nĂŁo era sĂł isso — aquele feitiço que transformava pessoas em sapos tambĂ©m estava alĂ©m de sua compreensĂŁo.

Isso definitivamente ultrapassava seu campo de expertise, mas o que o assustava era a maneira como aquele homem conjurava feitiços repentinamente, sem qualquer aviso. Telm sempre se orgulhara de sua velocidade na conjuração, mas as habilidades daquele jovem eram, sem dĂșvida, muito superiores.

— Rose, depois o Mestre dos Magos, e agora ele.

O mago da ĂĄgua mais forte da capital imperial jĂĄ havia tido dois rivais. Ou melhor, talvez fosse mais correto dizer que duas pessoas jĂĄ tinham sido consideradas seus rivais. Para um mago medĂ­ocre, Telm poderia parecer comparĂĄvel a eles. Mas seu prĂłprio conhecimento limitado lhe permitia entender o quĂŁo absurdamente superiores aqueles dois realmente eram.

Um se tornou caçador como Telm, especializou-se em feitiços de fogo e recebeu o tĂ­tulo de Inferno Abissal. O outro permaneceu na academia, aprofundando suas pesquisas atĂ© ser expulso por ousar encarar o abismo. Telm nĂŁo se entristeceu com isso. Para aqueles que buscavam poder, as leis eram apenas um fardo. Mas havia uma ironia inegĂĄvel no fato de que uma mulher como Rosemary Purapos, temida por sua fĂșria, ainda fosse uma cidadĂŁ livre.

Telm havia se fortalecido usando todos os meios possĂ­veis, incluindo sua adesĂŁo Ă  Raposa de Nove Caudas. Se o Mil Truques havia acumulado tanto poder, entĂŁo, sem dĂșvida, ele tambĂ©m jĂĄ havia cruzado os limites da lei. Ainda assim, Telm nĂŁo sentia inveja. Talvez isso fosse um sinal de que estava ficando velho. O pensamento trouxe um sorriso amargo aos seus lĂĄbios, e ele se recompĂŽs.

O fracasso era apenas uma possibilidade remota, mas isso não era motivo para baixar a guarda. A guarda imperial era bem treinada, mas a rapidez de Telm ao conjurar feitiços fazia deles meros obståculos. Ele podia se aproximar e matar seu alvo antes que qualquer um percebesse. Havia obtido a Graça do Deus das Águas décadas atrås e jå usava as Relíquias como se fossem uma extensão de seu próprio corpo.

Telm criou uma poça d’água diante de si, que começou a mudar de cor e forma. ApĂłs alguns segundos, assumiu a aparĂȘncia de um humanoide usando uma mĂĄscara de raposa. Aquilo era uma exibição suprema de magia da ĂĄgua, viabilizada por seu domĂ­nio das RelĂ­quias. Era um feitiço original — e a Ășnica forma em que ele superava o Inferno Abissal.

À primeira vista, o humanoide era indistinguĂ­vel de uma pessoa real. Mas nĂŁo era um ser vivo, entĂŁo nĂŁo possuĂ­a presença. NinguĂ©m jamais tinha sido capaz de enxergar atravĂ©s desse feitiço… exceto o Mil Truques. Ele o chamou de “falso”, mas ele era uma exceção.

Se um dos principais membros da Raposa havia pedido diretamente a ajuda de Telm para essa missĂŁo, isso significava que tinham grandes expectativas para ele. Ao mesmo tempo, mostrava o quĂŁo importante essa missĂŁo era. O homem da dĂ©cima terceira cauda permitiu que Telm escolhesse o momento de atacar. E esse momento havia chegado — dificilmente haveria uma oportunidade melhor.

— Kecha, vamos. Está preparado?

— Hee hee hee.

Kechachakka enfiou a mĂŁo no bolso e mostrou a Telm a gema envolta em um tecido negro. Como sempre, Telm nĂŁo fazia ideia do que passava pela mente de Kechachakka, mas havia um certo brilho em seu olhar. Parecia um pouco cansado depois de ter sido provocado pelo Mil Truques, mas isso nĂŁo seria um problema para eles.

A Revanche do DragĂŁo era ainda mais rara que as pulseiras de Telm. O poder da gema era incomparĂĄvel e seria extremamente Ăștil para a situação atual. Nem mesmo um dragĂŁo poderia trazer a Estrela Negra abaixo, mas, se o navio afundasse nessas circunstĂąncias, todos chegariam Ă  mesma conclusĂŁo.

Foi entĂŁo que Telm notou outro objeto que Kechachakka segurava.

— O que Ă© isso? — ele perguntou.

— Uheh. Uhe hee hee hee.

Era uma caixa com uma alavanca e vårios botÔes. Parecia algum tipo de controlador. Kechachakka colocou o item cuidadosamente no bolso e soltou outra risada estridente e indecifråvel. Telm não conseguiu evitar o suspiro que escapou de sua boca. Magos tendiam a ser pessoas estranhas. Xamãs, que convertiam emoçÔes em poder mågico, eram especialmente peculiares. Mas Telm não iria reclamar de alguém competente, leal e que entregava resultados.

Telm desistiu de tentar entender o sujeito excüntrico e apontou com o queixo. — Primeiro, engenharia. Vamos ser rápidos. Isso deveria ser nosso trabalho, então não podemos dar trabalho extra para o Mil Truques.

A chuva caía. Com um amplo suprimento de ågua disponível, a Contra-Cascata era imbatível. Ele mostraria ao mundo, ao Inferno Abissal e ao homem da décima terceira cauda do que era capaz.

***

Entrei em uma sala ampla onde o imperador, a princesa imperial e a guarda imperial jĂĄ estavam esperando. Havia uma grande janela projetada para deixar a luz do sol inundar o cĂŽmodo, mas tudo o que eu conseguia ver atravĂ©s dela eram nuvens negras. A tempestade jĂĄ parecia assustadora pela pequena janela da minha cabine, mas vĂȘ-la dessa forma fazia parecer que o mundo estava chegando ao fim.

— Estamos mantendo contato com a superfície via pedra de comunicação, e parece que lá embaixo não está chovendo — Franz me informou.

— Hmm. Entendo — murmurei com um aceno.

Por alguma razĂŁo, todos os olhos estavam sobre mim. Isso incluĂ­a o imperador e o olhar aflito da princesa imperial. No entanto, nĂŁo havia um Ășnico pensamento Ăștil passando pela minha mente. EntĂŁo, nĂŁo conseguimos escapar da tempestade. NĂŁo havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Se houvesse alguma solução tĂŁo Ăłbvia a ponto de me ocorrer, jĂĄ teria ocorrido a Franz ou a outra pessoa antes. Tudo o que restava para mim era tentar acalmar os nervos de todos.

— Isso Ă© um azar e tanto — comentei.

— Azar?! — Franz exclamou. — É sĂł isso que vocĂȘ tem a dizer?!

— C-Calma. É apenas uma tempestade. Elas acontecem o tempo todo.

— Onde isso Ă© normal?! — O rosto de Franz estava vermelho, e ele cuspiu ao gritar.

O que eu deveria dizer? Eu não sabia o que não sabia, e coisas que acontecem o tempo todo, acontecem o tempo todo. Inferno, até mesmo meu Tapete estava perplexo.

Se eles iam chamar alguém, ao menos deveriam ter chamado Telm, o Mago da Água. Talvez ele pudesse usar sua magia para fazer a tempestade desaparecer ou algo assim. Por que pessoas como Franz e Gark sempre me chamavam quando algo acontecia? O julgamento deles sobre as pessoas era terrível. Me colocar como líder provava que o discernimento deles era tão ruim quanto o do resto dos Grieving Souls.

— Eu não conseguiria ser um caçador se entrasse em pñnico toda vez que uma tempestade estranha surgisse — comentei. — Esta nave não vai cair.

Franz rangeu os dentes e ficou em silĂȘncio por um momento. Eu permaneci quieto, esperando, atĂ© que ele começou a falar com uma voz tensa. — Peço desculpas, Krai Andrey, por nĂŁo ter dado ouvidos aos seus avisos. Mas agora, nossa maior prioridade Ă© a segurança de Sua Majestade Imperial! O que vai acontecer? O que devemos fazer?

A guarda imperial ficou surpresa com a declaração de Franz. Naturalmente, eu também fiquei. Embora a expressão de Franz não parecesse nada arrependida, sua disposição para se desculpar ainda era significativa. Mas, infelizmente, eu não sabia a causa dessa tempestade, nem o que deveríamos fazer a respeito. Mesmo que ele se curvasse, mesmo que ele se humilhasse, eu ainda não poderia oferecer informaçÔes que não possuía. Aliås, não tenho certeza se ele fez algo que justificasse um pedido de desculpas.

Completamente perdido sobre o que fazer, cocei a bochecha e disse: — Desculpe mesmo, mas eu não sei.

— Seu desgraçado! — Franz me agarrou pela gola e me sacudiu de um lado para o outro. — Mesmo depois de eu ter me desculpado!

Um grito escapou dos meus lĂĄbios. — Calma! — exclamei enquanto o mundo tremia diante de mim. — Se vocĂȘ quer saber por que a tempestade estĂĄ aqui, entĂŁo pergunte a ela!

Eu estava impotente para impedir a sacudida de Franz, mas então um braço esguio se colocou entre nós. Meu mundo se estabilizou, e vi que o braço pertencia a Kris, que vinha observando silenciosamente até aquele momento.

— Isso Ă© o suficiente. Senhor — disse ela, parecendo mais irritada do que o normal.

— O quĂȘ?! — Franz rosnou.

— Agora nĂŁo Ă© hora para isso. Senhor. VocĂȘ estĂĄ estressado, mas precisamos que nossos lĂ­deres estejam calmos mais do que nunca. Senhor.

Com um grunhido, Franz me empurrou para longe. Cambaleei, mas de alguma forma consegui me manter de pé. Kris então se colocou casualmente entre nós.

— Para começar — disse ela —, eu me sinto mal vendo esse sujeito levar a culpa por uma tempestade que nĂŁo Ă© culpa dele.

— S-Sim — assenti. — Ela está completamente certa!

Eu estava fora de perigo, pelo menos. Os cavaleiros pareciam aliviados ao ver que a raiva de seu capitão estava diminuindo. Franz era tenso demais. Eu entendia que ele carregava uma responsabilidade enorme por estar encarregado da segurança do imperador, mas nada de bom viria de se deixar levar por uma tempestade um pouco mais longa que o normal.

— Mas esse homem obviamente sabe de algo! — Franz gritou, apontando um dedo para mim. — Ele entende o que estĂĄ acontecendo e estĂĄ zombando de nĂłs. VocĂȘs ouviram ele, nĂŁo ouviram? Ele disse para nĂŁo baixarmos a guarda atĂ© saĂ­rmos da tempestade e que esperava que fosse apenas uma tempestade! Como ele poderia pensar que uma aeronave de ponta poderia cair? Como vocĂȘ explica isso?

Kris se virou para mim instantaneamente, lançando um olhar suspeito.

— Humano fraco, vocĂȘ Ă© mesmo tĂŁo ignorante quanto finge ser? Senhor?

Eu não sabia o que não sabia. Enquanto tentava pensar em uma desculpa para ganhar tempo, olhei ao redor—e minha mente ficou em branco. Atrás do imperador, perto da janela, havia uma figura vestindo um manto e uma máscara de raposa. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Franz, Kris e o imperador notaram para onde eu estava olhando e começaram a se mover.

— De onde ele veio?! — o imperador gritou. Ele cobriu a filha e recuou.

Os cavaleiros sacaram suas armas, Kris ergueu seu cajado e Sir Matadinho avançou sobre o inimigo. Era uma sincronização incrĂ­vel; o Ășnico que nĂŁo estava se movendo era eu.

— Sir Matadinho?! — gritei.

— Kiiiill.

No entanto, até mesmo um amador poderia perceber que os ataques de Sir Matadinho careciam de refinamento.

Ele jå estå sendo atingido? Essa coisa é uma das criaçÔes da Sitri!

Sir Matadinho suportou os golpes e desceu sua espada com um grito horrĂ­vel. MĂĄscara de Raposa desviou com facilidade. Apesar de estar cercado por cavaleiros e em uma desvantagem severa, ele nĂŁo parecia nem um pouco preocupado. EntĂŁo, a porta se escancarou. Que timing perfeito! Entraram os melhores aliados do mundo, Telm e Kechachakka.

— Que bom timing — disse a eles. — Eu estava esperando por vocĂȘs dois.

— Telm, Ă© uma Raposa! — Franz gritou. — De onde ela veio?! Apenas nĂŁo a deixe escapar!

O imperador estava atrĂĄs de mim. Franz, Kris, a guarda imperial e o imperador estavam todos olhando para MĂĄscara de Raposa—o que significava que eu era a Ășnica pessoa que viu a expressĂŁo de Telm. Seus olhos se arregalaram ligeiramente, mas logo ele sorriu.

— Perdoe-nos pelo atraso — ele disse. — Esta aeronave Ă© bem grande.

No momento seguinte, ouvi uma série de baques altos.

— O quĂȘ?!

Eu nĂŁo fazia ideia de como aquilo havia acontecido, mas os cavaleiros e serviçais ao redor de MĂĄscara de Raposa tinham todos desabado. Apenas Franz ainda estava consciente, mas ele estava de joelhos e sua cabeça balançava. MĂĄscara de Raposa nĂŁo se moveu um centĂ­metro. Kris nĂŁo foi afetada por algum motivo e olhava freneticamente de um lado para o outro. As Ășnicas pessoas ilesas eram ela, o imperador, a princesa imperial, Sir Matadinho, Telm, Kechachakka e MĂĄscara de Raposa.

O que estĂĄ acontecendo?! Por que eles desabaram?!

Eu não tinha ouvido ou visto nada que pudesse ter causado aquilo. E eu estava ileso, e não senti nenhum dos meus Anéis de Segurança ativando. Apenas fiquei ali, ainda com o sorriso que tinha dado quando Telm entrou.

— Meu Deus, eu nĂŁo esperava que a conclusĂŁo fosse tĂŁo fĂĄcil — ele disse com um suspiro. — VocĂȘ Ă© uma sĂ©rie de surpresas, Mil Truques.

***

— HĂŁ? Por que eu tenho que cooperar com o humano fraco?! Senhora?! — Kris protestou. — Ele nem sequer me trouxe um souvenir das fĂ©rias dele!

Os Nobres EspĂ­ritos eram seres de longa vida. AlĂ©m de viverem muito mais que os humanos, eles tambĂ©m envelheciam mais devagar. Suas vidas eram pacĂ­ficas, quase como as das plantas. Os humanos, no entanto, nasciam, reproduziam-se e chegavam ao fim trĂȘs vezes mais rĂĄpido, o que era absolutamente vertiginoso para os Nobres EspĂ­ritos.

Em parte, a maioria dos Nobres Espíritos não deixava suas florestas porque desprezavam os humanos incompetentes, mas também porque achavam o ritmo acelerado da vida humana nauseante. Com isso em mente, Nobres Espíritos como Kris, que viviam entre humanos por vontade própria, podiam ser considerados incrivelmente animados e curiosos.

— Kris, esta Ă© uma oportunidade maravilhosa — Lapis insistiu, um sorriso nos lĂĄbios. Ela era a lĂ­der do grupo de Kris e uma pessoa que a jovem Nobre EspĂ­rito respeitava. — NĂŁo hĂĄ muitas chances de trabalhar com o Mil Truques, jĂĄ que ele raramente se envolve pessoalmente em assuntos. Esta Ă© uma chance de obter insight sobre como Lucia Rogier, o Avatar da Criação, se tornou tĂŁo poderosa. Esta Ă© uma missĂŁo importante. VocĂȘ poderia dizer que diz respeito ao nosso futuro.

— Mas, Lapis, eu não estou acostumada a proteger pessoas. Posso acabar atrapalhando.

Kris entendia a linha de raciocĂ­nio de Lapis. Ela era muito mais curiosa e ambiciosa do que o espĂ­rito nobre mĂ©dio. Sem contar que estava disposta a cooperar com humanos, embora talvez nĂŁo tanto quanto a enigmĂĄtica Eliza Beck, a Vagante. Mas, no fundo, Kris ainda era um EspĂ­rito Nobre, o que a deixava incerta. Ela sabia disso, mas tinha a tendĂȘncia de irritar as pessoas nĂŁo importa o que fizesse. Falar de forma educada exigia um esforço deliberado de sua parte.

Ela conseguia se virar ao lidar com um simples mercador, mas nĂŁo havia como prever o que poderia acontecer caso tivesse que interagir com um nobre ou atĂ© mesmo com o imperador. As consequĂȘncias de suas açÔes poderiam ir alĂ©m de seu grupo e afetar todo o seu clĂŁ. Kris nĂŁo fazia ideia do que levava aquele fraco humano idiota a procurar Lapis para aquele trabalho.

Lapis assentiu. — Eu nĂŁo sei o que fez esse homem pedir nossa ajuda, mas seguir com o Mil Truques nunca Ă© um erro. Precisamos entender a origem de seu poder e seus mĂ©todos. Kris, isso Ă© algo que sĂł vocĂȘ pode fazer.

Kris nĂŁo podia recusar a tarefa depois de ouvir aquilo. Era um trabalho importante. Descobrir o segredo do Mil Truques tornaria seu grupo mais forte e ainda satisfaria sua prĂłpria curiosidade. Ela reuniu coragem e cerrou os punhos, mas entĂŁo algo lhe ocorreu.

— Mas, Lapis — disse Kris com um olhar cĂ©tico —, por quĂȘ eu? Com certeza temos opçÔes melhores no grupo.

— Ah, isso? Parece que vocĂȘ se dĂĄ melhor com o Mil Truques do que qualquer um de nĂłs — respondeu Lapis, dando de ombros.

Lapis estava completamente enganada. De jeito nenhum Kris se dava bem com o Mil Truques. Ele pedia sua ajuda, e seu orgulho como Espírito Nobre e seus poderes a obrigavam a atender. E Kris só tolerava seus pedidos porque ele era o irmão mais velho de Lucia. E, embora aquele humano fraco fosse um idiota que não levava nada a sério, para um humano, ele não era um cara tão ruim. Ou pelo menos era isso que ela pensava.

A cena diante dela a deixou completamente perplexa, algo que nĂŁo acontecia com freqĂŒĂȘncia a um EspĂ­rito Nobre. Corpos cobriam o chĂŁo. Todos os cavaleiros ao redor da MĂĄscara de Raposa estavam caĂ­dos, sem nem mesmo se mover. O Ășnico membro da guarda imperial ainda consciente era Franz, e ele estava ajoelhado. Do lado de fora, o mundo estava escuro e sombrio.

— O-O que diabos…? — murmurou ela.

— Hmm. EntĂŁo o imperador nĂŁo foi afetado por causa do seu Anel de Proteção? — ouviu Telm dizer. — Mas este aqui absorveu o dano destinado Ă  princesa imperial? Sua armadura fez isso? Ele nĂŁo era um dos nossos? — Sua voz nĂŁo tinha emoção, quase artificial. — De qualquer forma, aconselho que nĂŁo se movam. VocĂȘs morrerĂŁo em breve, mas se mexerem apenas irĂŁo drenar ainda mais sua jĂĄ mĂ­sera força vital.

MĂĄscara de Raposa desapareceu com apenas o mais sutil dos sons. Telm parecia despreocupado e, ao seu lado, o Mil Truques mantinha um sorriso no rosto. Kris nĂŁo conseguia compreender o que estava vendo. NĂŁo, na verdade, ela nĂŁo queria compreender.

A guarda imperial havia sido derrubada por uma magia. Uma magia incrivelmente silenciosa e poderosa, destinada a sugar a vida de alguém. Era uma forma desprezível de magia, o tipo de coisa que os Espíritos Nobres não usavam.

Os guardas imperiais ainda estavam vivos. Haviam sido derrubados, mas Kris conseguia sentir um leve pulso. Esse pulso, no entanto, estava enfraquecendo gradualmente. Se nĂŁo fossem tratados rapidamente, logo morreriam. Era apenas um palpite, mas Kris tinha uma forte suspeita sobre o que essa magia priorizava: eficiĂȘncia. Era em nome da eficiĂȘncia, nĂŁo da misericĂłrdia, que esse feitiço nĂŁo matava instantaneamente. Como os alvos morreriam de qualquer forma, seria um desperdĂ­cio para o feitiço tambĂ©m cortar sua respiração.

Quando Kris viu Telm derrotar a prole de dragÔes gélidos, algo em sua magia a fez estremecer. Ela pensou que fosse apenas sua imaginação, mas sua intuição estava correta. Os humanos eram aterrorizantes. Suas vidas curtas os faziam se desenvolver rapidamente. Eles viviam como se não houvesse amanhã, uma mentalidade que os levava a cometer homicídios.

E agora ela entendia a Måscara de Raposa. Se ele era apenas um clone, isso explicava sua falta de presença e sua capacidade de aparecer sem aviso. Era um tipo de magia que ela nunca tinha visto antes, mas entendia seu propósito: pegar as pessoas desprevenidas. Assim como acontece com ataques físicos, ataques mågicos também se tornam mais eficazes quando o alvo é pego de surpresa.

Kris sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Esse homem possuía uma força esmagadora e estava preparado para qualquer coisa. Ela sentiu o bastão de metal em sua mão direita, uma sensação diferente do seu habitual bastão de madeira. Ela abriu a boca, mas o que saiu não foi uma invocação, e sim um grito.

— O-O que significa isso?! Senhor?! VocĂȘ entende o que fez? Kechachakka, por que nĂŁo impediu Telm?!

— VocĂȘ nĂŁo ia explicar tudo para ela, Mil Truques? — disse Telm. — Bem, nĂŁo importa. Seus mĂ©todos nĂŁo sĂŁo da minha conta, e ela nĂŁo representa ameaça para nĂłs. Se nĂŁo quer vĂȘ-la ferida, afaste-a.

Kechachakka soltou uma breve risada.

Agora Kris entendia a situação. Por mais que não quisesse, ela havia descoberto.

— Eu sabia que tĂ­nhamos um traidor entre nĂłs — disse o imperador. Ele estava calmo, mas sua mĂŁo repousava sobre a espada em seu quadril. — Mas era vocĂȘ? Telm Apoclys, vocĂȘ Ă© um Raposa?!

Telm não demonstrou reação. — De fato. Mas agora devemos nos despedir. Logo, esta nave irá cair.

Kris nĂŁo tinha como vencer ali. Mesmo que conseguisse um ataque surpresa, nĂŁo seria capaz de derrubar Telm. As habilidades da Contra-Cascata eram praticamente desumanas. Ele era um Grande Magus e provavelmente superava Lucia Rogier quando se tratava de magia da ĂĄgua. Mesmo de costas para ela, Kris nĂŁo via nenhuma brecha. Sua Ășnica esperança de vitĂłria repousava no cajado que lhe haviam confiado.

A expressão do Mil Truques permaneceu inalterada desde a entrada de Telm. Pela primeira vez, Kris achou seu sorriso patético assustador. As palavras anteriores de Telm sugeriam que aquele humano fracote também era um Fox. Råpida, Kris recuou e ergueu seu cajado. Franz, apoiando-se em sua espada, conseguiu se levantar, mas seus olhos estavam turvos e seu rosto pålido. Naquele estado, até mesmo Kris estava em melhores condiçÔes para o combate corpo a corpo.

— Krai Andrey — Franz disse entre respiraçÔes irregulares. Ele nĂŁo tinha ferimentos graves, mas parecia Ă  beira da morte. — VocĂȘ Ă© um Fox?

Apesar de sua condição, ele sacou sua arma com um movimento trémulo. A lùmina bem polida brilhou enquanto tremia em suas mãos.

— Eu vou te impedir. Eu tinha certeza de que nĂŁo podia confiar em vocĂȘ. Droga!

— VocĂȘ nos subestimou, e Ă© nisso que pode culpar sua derrota — Telm disse. — Fox estĂĄ em todos os lugares. Aqui em cima, vocĂȘs nĂŁo receberĂŁo reforços. Que tal nos mostrar do que o capitĂŁo da Ordem Zero de Zebrudia Ă© capaz?

Eles haviam sido superados. O imperador também era habilidoso com a espada, mas certamente não o suficiente para ser um oponente à altura de Telm. Isso valia para todos ali. Mesmo que Franz estivesse bem, os guardas imperiais em pé e Kris os ajudassem, eles não teriam chance contra a Contra-Cascata e o Mil Truques.

— Eu nunca deveria ter acreditado em vocĂȘ, seu humano fracote! — Kris gritou.

Apenas Sir Matadinho permaneceu inerte. Ele também provavelmente era um Fox. Quando pensou um pouco sobre isso, percebeu que alguém com um nome como Sir Matadinho não poderia ser uma pessoa confiåvel. O destino desta missão estava selado desde o início, quando o Mil Truques escolheu seus companheiros de equipe.

Kris conteve sua raiva e avaliou a situação com calma. NĂŁo havia esperança de vitĂłria. Sua sobrevivĂȘncia dependia do Mil Truques. Ele pretendia convencĂȘ-la a se juntar a ele? Se fosse esse o caso, havia cometido um erro de cĂĄlculo. Kris nunca trairia o cliente que deveria proteger. Um Nobre EspĂ­rito preferia morrer de pĂ© a viver de joelhos. Ela havia escolhido cooperar com o humano fracote porque tinha certeza de que ele era uma boa pessoa.

A Ășnica opção era fugir. Ela teria que abrir um buraco na aeronave e escapar por ali. Poderia usar magia para sobreviver Ă  queda, mas isso nĂŁo adiantaria nada se eles decidissem persegui-la. E ela nĂŁo poderia levar todos com ela. Sua primeira prioridade seria o imperador, a segunda a princesa imperial.

Com a decisão tomada, Kris se preparou para conjurar um feitiço poderoso. Ela controlou sua respiração e começou a se concentrar. A hostilidade e a imensa concentração de mana de Telm pairavam sobre a sala.

EntĂŁo, o Mil Truques quebrou o silĂȘncio. Com um olhar sĂ©rio no rosto, ele murmurou:

— Eu sou um Fox? Do que eles estão falando?

— Hã?! — Kris exclamou.

***

Eu não conseguia entender nada do que estava acontecendo. Sabia que meu cérebro não era o mais råpido do mundo, mas os acontecimentos diante de mim estavam simplesmente além da minha capacidade mental. Nem parecia real. Eu nem conseguia mudar minha expressão.

No momento em que Telm entrou na sala, os guardas imperiais caíram, a Måscara de Raposa desapareceu e acusaçÔes vieram na minha direção. Mas mesmo depois de entender isso, minha mente ainda estava mergulhada na confusão. Eu jå era um peso morto na maioria das situaçÔes, mas era ainda pior quando surgiam complicaçÔes inesperadas.

Eu nĂŁo sabia o que pensar. Fiquei surpreso ao descobrir que Telm e Kechachakka eram nossos inimigos, mas fiquei ainda mais surpreso ao ver que todos achavam que eu estava do lado deles. Que choque.

Eu sentia vårios olhares me perfurando. Hå pouco tempo, Franz estava prestes a me matar, e agora me encarava com um olhar afiado. Kris também me fuzilava com os olhos. Telm mantinha um sorriso tranquilo, e Kechachakka estava como sempre. Até o imperador e a princesa imperial estavam fixados em mim. O tempo pareceu parar, mas provavelmente eu era a pessoa mais confusa ali.

— Que piada sem graça, Mil Truques — Telm disse, sorrindo para mim. — VocĂȘ nĂŁo precisa mais fingir.

— Hã?

Eu estava prestes a explicar que nĂŁo estava fingindo, mas entĂŁo meu cĂ©rebro finalmente começou a funcionar. Normalmente, eu estaria suando frio, mas nĂŁo suava porque estava completamente confortĂĄvel. Na verdade, a Ășnica razĂŁo pela qual eu nĂŁo estava em pĂąnico era por causa do FĂ©rias Perfeitas. Era uma RelĂ­quia poderosa, mas sua capacidade de forçar parcialmente seu portador a se sentir bem tinha suas desvantagens.

Eu nĂŁo podia parar para me preocupar. Ter Telm e Kechachakka como inimigos era, bem, terrĂ­vel. Eles eram meu principal poder de fogo. Agora, tudo o que eu tinha ao meu lado era Kris, Sir Matadinho e Franz, que, por algum motivo, estava de joelhos.

Respirei fundo e decidi esclarecer as coisas. Dei um passo para trĂĄs e gritei:

— Telm, Kecha, vocĂȘs dois sĂŁo traidores?! Eu acreditei em vocĂȘs!

— O que vocĂȘ estĂĄ dizendo?! — Telm exclamou. — V-VocĂȘ Ă© um Fox, nĂŁo Ă©?!

O que ele estĂĄ falando? me perguntei, quando finalmente as peças se encaixaram. Demoraram bastante para isso. Talvez o “Raposa” que Franz mencionou nĂŁo fosse o fantasma? Algo sempre pareceu errado. O esquivo Peregrine Lodge nĂŁo era muito conhecido, e era impossĂ­vel acreditar que seus habitantes se interessariam ou se envolveriam em assuntos humanos. AlĂ©m disso, se fossem nossos inimigos, nenhum nĂșmero de guardas seria suficiente para manter o imperador seguro!

Se nĂŁo era o fantasma, entĂŁo do que estavam falando? Pelo comportamento deles, meu melhor palpite era que estavam desconfiados de algum grupo de bandidos ou terroristas. Infelizmente para Telm e Kechachakka, eu era um covarde, mas jamais me rebaixaria a trabalhar com criminosos.

— Raposa? — eu disse. — Não, sou humano. Um caçador. Não sei de onde tiraram essas ideias.

— O quĂȘ?! EntĂŁo por que vocĂȘ conhece os sinais cĂłdigos?! — Telm gritou.

— Eu nĂŁo tenho a menor ideia do que vocĂȘ estĂĄ falando.

— Isso nĂŁo tem graça! VocĂȘ nĂŁo disse que era da dĂ©cima terceira cauda?!

— Eu nĂŁo tenho a menor ideia do que vocĂȘ estĂĄ falando!

Telm recuou. Mas eu estava sendo honesto. Sinais cĂłdigos? DĂ©cima terceira cauda? A Ășnica coisa que me vinha Ă  mente era a cauda que eu tinha recebido daquela raposa aberrante, mas isso nĂŁo podia ter nada a ver com isso.

Telm começou a parecer cada vez mais inseguro. Mesmo sem eu fazer nada, ele deu um passo para trás. — Eu
 Eu não acredito. Droga, isso tudo foi uma armadilha?! É por isso que essa tempestade está aqui?

— Hã? Armadilha?

Do que esse velho estĂĄ falando? Eu nĂŁo sabia nada sobre a tempestade. Mas o jeito que ele falava de armadilhas estava fazendo parecer que eu era de alguma forma responsĂĄvel por isso, e isso nĂŁo me agradava.

Telm ergueu a mĂŁo direita, mas eu o interrompi. — NĂŁo se mexam, nenhum dos dois — eu disse em um tom afiado, diferente do que eu vinha usando recentemente. — Se se mexerem, eu vou transformar vocĂȘs em sapos-boi. VocĂȘs viram do que sou capaz, nĂŁo viram? Eu sĂł estava me segurando nessa viagem.

Telm congelou no lugar. Uma gota de suor frio escorreu por seu rosto. Mesmo depois de mĂșltiplas tentativas, meus talentos mĂĄgicos florescentes ainda nĂŁo tinham reaparecido. Mas se nĂŁo fosse agora, quando seria? Levantei o braço para tornar minha ameaça mais convincente.

— P-Poderia deixar claro de que lado vocĂȘ estĂĄ?! Senhor?! — Kris gritou.

— Acho que minha inocĂȘncia jĂĄ foi provada pelas LĂĄgrimas da Verdade.

Eu nĂŁo entendia como ainda havia dĂșvidas sobre minha lealdade, sendo que um tesouro nacional jĂĄ tinha me declarado inocente. Franz, que duvidava de mim o tempo todo, parecia chocado. Sua falta de fĂ© era bem irracional, se me perguntarem. Ele me viu falhar vĂĄrias vezes, mas eu nĂŁo lembrava de ter feito nada ilegal.

— VocĂȘ nĂŁo sabe?! — Telm berrou. — EntĂŁo por que me escolheu para esse trabalho?! Foi para nos observar?!

— Eu nĂŁo tenho a menor ideia do que vocĂȘ estĂĄ falando! — insisti.

— Mas os sistemas de propulsão da aeronave já foram destruídos. Vamos cair!

O quĂȘ?! Bem, ainda bem que eu me dei bem com o Tapete.

EntĂŁo eu estava certo. IrĂ­amos cair de qualquer forma. Por sorte, ainda nĂŁo parecia que estĂĄvamos despencando. Meu palpite era que a parte do balĂŁo da aeronave estava garantindo que nossa descida nĂŁo fosse tĂŁo rĂĄpida. Mas isso era sĂł chute, eu nĂŁo sabia nada sobre como aquela coisa funcionava.

Eu sorri com resignação. Eu não me importava mais. Esse trabalho de escolta estava claramente perdido. Mas o imperador ainda estava vivo, e ainda havia uma chance de salvar os cavaleiros.

— Qualquer coisa que Ă© montada pode ser desmontada — eu disse. — Franz
 certo, ele estĂĄ indisposto
 Sir Matadinho, detenha esses dois.

No entanto, o amigo de Sitri nĂŁo se moveu um centĂ­metro. Eu tentava entender por quĂȘ, mas entĂŁo ouvi uma risada duvidosa.

— Hee hee. Uhe hee hee. Eu sabia. Hee hee. Eu sabia que vocĂȘ nĂŁo era um de nĂłs. Hee hee hee hee!

— Kecha pode falar?! — Kris gritou.

— Hee hee?! Zombem de mim o quanto quiserem, mas, hee hee.

— E vocĂȘ parece tĂŁo feliz com isso?!

Ela estava certa; Kechachakka estava brilhando.

EntĂŁo tanto meus aliados quanto meus inimigos achavam que eu estava do lado oposto? Que droga.

Kechachakka puxou um pequeno controle. Era o mesmo que meu querido amigo Sitri tinha me dado para controlar Sir Matadinho. Eu achei que tinha perdido, mas como isso foi parar nas mĂŁos dele?

— Eu nĂŁo acredito… — murmurei.

Era absurdo. Eu nĂŁo me lembrava de ter usado o controle na frente de Kechachakka, mas parecia que ele de alguma forma inferiu a conexĂŁo entre ele e Sir Matadinho. O amigo de Sitri deveria estar no modo automĂĄtico, mas nĂŁo se moveu.

— Hee hee. Eu sabia desde o começo que isso era um golem. Hee hee. Nunca subestime a Raposa, Mil Truques. Agora morra!

Kechachakka mexeu no joystick e apertou um botão grande. Sir Matadinho se contorceu brevemente e começou a se mover de forma desengonçada, fazendo uma espécie de dança estranha.

— Hm?!

A função de dança era meio inacabada. Kechachakka assistiu em silĂȘncio, parecendo estar tendo um pesadelo. Assim que a rotina acabou, Sir Matadinho ficou parado e depois desabou. EntĂŁo me lembrei de que nunca o alimentei. O que ele comia? Carne crua?

Bem, pelo menos nĂŁo vamos precisar lutar contra Sir Matadinho.

Olhei para Kechachakka, que estava boquiaberto, e dei de ombros com indiferença. — Aaah. E aqui estava eu, planejando usar isso depois. Agora, o que vocĂȘ estava dizendo?

— Heh?! Hee heee? Eeee!

Kechachakka desmoronou. Telm ergueu as mãos em minha direção, o que me fez pensar que ele estava se rendendo. Enquanto suplicava mentalmente para que eles fossem transformados em sapos-boi, posicionei-me protetoramente à frente de Kris e dos outros.

Então, um feitiço foi lançado. Incontåveis lanças de ågua se formaram num instante. O tempo de conjuração era inacreditåvel, eu não tinha visto nenhum sinal de aviso! As lanças voaram diretamente para mim, e eu não tinha para onde correr. Elas carregavam uma força imensa e viajavam em uma velocidade extraordinåria, mas o que as tornava realmente perturbadoras era o fato de serem completamente silenciosas. Mas eu estava perfeitamente confortåvel, graças ao Férias Perfeitas.

Cada uma das lanças foi bloqueada sem sequer me forçar a recuar. Eu devia isso aos meus Anéis de Segurança.

— Ele está ileso?! — berrou Telm. — Será essa sua famosa Barreira Absoluta?!

— IncrĂ­vel conjuração, Telm. VocĂȘ Ă© definitivamente um dos Magos mais poderosos que jĂĄ conheci.

Por fora, eu parecia completamente tranquilo, mas por dentro, nĂŁo estava tĂŁo calmo quanto aparentava. Que mago assustador! NĂŁo apenas era rĂĄpido e poderoso, como seu controle era fenomenal. Eu podia dizer isso porque todas as lanças tinham sido bloqueadas por um Ășnico Anel de Segurança. As barreiras ativadas pelos anĂ©is duravam apenas um instante. Se as lanças nĂŁo tivessem atingido ao mesmo tempo, uma delas poderia ter atravessado. Duvido que atĂ© mesmo LĂșcia conseguiria um nĂ­vel de precisĂŁo semelhante.

Sorri e me preparei para soltar um feitiço.

— Mas a brincadeira acabou! — gritei. — Aaaah! Transformem-se em suco de laranja!

Telm e Kechachakka deram passos cautelosos para trås. Meu feitiço foi conjurado. Provavelmente. Quase com certeza. Mas Telm e Kechachakka não demonstraram nenhum sinal de se tornarem uma deliciosa bebida cítrica. Dei uma pequena tossida.

Talvez eu nĂŁo consiga usar magia, afinal?

— Parece que hoje Ă© um daqueles dias — murmurei. — Mas se vocĂȘs fugirem, nĂŁo irei atrĂĄs de vocĂȘs.

— Mesmo agora, continua a nos ridicularizar?! Transforme-se em gelo!

Os braceletes de Telm começaram a brilhar levemente. Ouvi um pequeno estalo que se aproximava cada vez mais até me envolver. Nenhum dos meus Anéis de Segurança foi ativado, resultado do Férias Perfeitas. Essa Camisa-Relíquia oferecia quase nada em termos de defesa, mas tornava mudanças de temperatura irrelevantes. Mantinha-me perfeitamente confortåvel. Embora estivesse atrås de mim, Kris não foi afetada, provavelmente porque Telm havia estreitado a årea de efeito do feitiço em troca de mais poder.

— ImpossĂ­vel! Como isso Ă© possĂ­vel?! — gritou Telm. — O ar gelado nĂŁo foi apenas bloqueado, foi apagado?!

— Calor e umidade nĂŁo tĂȘm efeito sobre mim — falei sem pensar.

— Agora Ă© hora para piadas, senhor?! — Kris interveio.

O sangue subiu ao rosto de Telm.

— Vamos derrubar esta nave inteira — rosnou.

Com uma risada aguda, Kechachakka começou a pisotear o chão. Eu não sabia o que ele estava fazendo, mas percebi que meus Anéis de Segurança estavam sendo gradualmente drenados. Parecia sinistro, mas eu não tinha certeza se era realmente uma maldição. O que quer que fosse, parecia mais difícil de enfrentar do que os ataques de Telm.

Não podíamos deixar a nave cair, mas meus poderes misteriosamente desaparecidos me deixavam sem meios de contra-atacar. Kris, no entanto, percebeu isso e começou uma invocação.

— Ah, já disse que não sou boa com feitiços de fogo. Tempestade de Fogo!

Ativei um Anel de Disparo em desculpas. O fraco projétil disparou contra Telm enquanto ele continuava sua própria invocação, mas desapareceu antes de atingi-lo. Criar uma barreira rudimentar era uma pråtica comum entre os Magos, então devia ser isso. Ouvi dizer que essas barreiras não protegiam contra feitiços de verdadeiro poder, o que dizia muito sobre a utilidade dos Anéis de Disparo.

Depois que meu projétil desapareceu, a Tempestade de Fogo de Kris acertou Telm. Uma chuva de faíscas caiu sobre ele, mas sem efeito. Não fazia sentido que um feitiço de Kris fosse tão fraco. Ela estava se segurando? Não pude deixar de olhå-la e percebi que estava mais confusa do que eu.

Ela olhou para o Mundo Redondo (o cajado que eu lhe emprestara) e gritou:

— Hah?! O que há de errado com este cajado?! Senhor?!

— V-VocĂȘ nĂŁo deveria culpar o cajado — respondi.

Estamos condenados. Nada estĂĄ saindo como deveria.

Enquanto isso, uma luz mĂ­stica emanava dos braceletes de Telm. Eu nĂŁo possuĂ­a muitas RelĂ­quias do tipo cajado, entĂŁo meu conhecimento era limitado, mas eu tinha certeza de que aquela luz azul era um sinal de algo extraordinĂĄrio.

Estamos ferrados!

O ar ondulou e a nave tremeu violentamente.

— ACEITEM SEU FIM! — rugiu Telm. — GÉLIDO ABSOLUTO!

***

— Mais rĂĄpido, LĂșcia! Mais alto! — ordenou Liz.

— Urgh. Cala a boca! Esta nĂŁo Ă© uma tempestade comum!

Vermelha de raiva, LĂșcia lutava para manter o controle do feitiço da pipa. O grupo jĂĄ tinha abandonado seus lençóis de cama. Havia coisas mais importantes a se preocupar. A pipa era enorme, e carregar cinco pessoas (incluindo Ansem) e suas bagagens a tornava monstruosamente pesada.

Ainda assim, as tentativas de Lucia de manter o controle tiveram pouco efeito. Ela se sentia como se estivesse segurando as rédeas de um cavalo selvagem. Para alguém que havia treinado para lançar feitiços mesmo em circunstùncias extremas, isso era inacreditåvel. A sensação era como tentar usar magia dentro de uma barreira antimagia. Obviamente, isso não era uma tempestade comum.

Mesmo assim, ela conseguiu guiar os ventos intensos, e a pipa ascendeu. Nuvens apocalípticas cobriram o céu, e eles sentiram a presença de algo enorme dentro delas. Agarrada à ponta superior da pipa, Sitri inclinou a cabeça.

— Não poderia haver uma barreira nessa altitude — disse ela. — E o movimento das nuvens está longe de ser natural.

— Oh! Olha o quĂŁo alto estamos! — Luke comemorou. — Lucia, acerta a tempestade de frente! Eu vou ser o primeiro a atacar! SĂł observa, da Ășltima vez fui pego de surpresa, mas agora eu vou cortar um raio ao meio! Que tipo de homem eu seria se nĂŁo conseguisse?!

Ansem resmungou em concordĂąncia.

E assim, a pipa branca e seus passageiros excĂȘntricos avançaram direto para as nuvens escuras.

***

Uma das coisas mais assustadoras sobre magia era que ela nada mais era do que uma extensão do mundo comum em que eu vivia. Eu entendia como balançar uma espada permitia cortar algo, mas não conseguia nem começar a compreender como um mago podia criar fogo apenas estalando os dedos.

Aparentemente, a magia seguia suas prĂłprias regras, mas sĂł os magos conseguiam entendĂȘ-las. Foi com esse profundo conhecimento que Lucia obteve o prestigiado tĂ­tulo de “Avatar da Criação”.

Mesmo enquanto palavras mĂĄgicas ecoavam da boca de Telm, eu nĂŁo fazia ideia do que ele estava prestes a fazer. Me tranquilizei dizendo a mim mesmo que os AnĂ©is de Segurança me protegeriam. Fechei os olhos e estendi a mĂŁo direita. Correr era inĂștil. Tudo o que eu podia fazer agora era agir como um escudo.

O navio de repente parou de tremer. Eu esperava sentir outro Anel de Segurança se ativando, mas isso não aconteceu. Quando abri os olhos, vi Telm com uma expressão confusa.

— R-Ridículo. Impossível — disse ele. — Eu tenho mana de sobra, então por que não consigo lançar feitiços?!

HĂŁ? Ele falhou? Ele invocou aquelas palavras mĂĄgicas com tanta confiança e… falhou?

Telm estava claramente vulnerĂĄvel, mas nossos cavaleiros estavam incapacitados, e eu nĂŁo conseguiria vencer um mago em um combate corpo a corpo, entĂŁo nĂŁo podĂ­amos aproveitar a abertura. Acho que minha esperança de que o imperador tomasse a iniciativa era apenas um desejo ingĂȘnuo.

Kechachakka nem tinha feito nada, mas deu um passo para trĂĄs.

— Uhe hee. O que vocĂȘ fez?

— Isso Ă© obra da tempestade?! Ela estĂĄ interferindo com nossa magia?! — Telm disse, tentando freneticamente usar suas pulseiras.

Eu nĂŁo conseguia usar magia, entĂŁo estava perfeitamente tranquilo, como sempre. NĂŁo entendia o que estava acontecendo, mas parecia que havĂ­amos sido salvos. Mas eu tinha a impressĂŁo de que essa tempestade era coisa de Telm. De qualquer forma, fiz a Ășnica coisa que podia fazer: exibir o sorriso durĂŁo que passei tanto tempo praticando na frente do espelho.

— Parece que o jogo virou — eu disse. — Sem sua magia, vocĂȘ nĂŁo passa de um velho.

— Maldição! — Telm começou a correr. Linhas de luz brilharam em seu corpo como veias. Parecia que ainda havia alguns feitiços que ele podia usar, jĂĄ que aquilo era resultado de feitiços de fortalecimento. Esse era o Ășltimo recurso de um mago quando sua magia nĂŁo funcionava. Eles colocavam uma carga pesada no corpo do conjurador e nem sempre tornavam um mago tĂŁo forte quanto um combatente corpo a corpo dedicado, entĂŁo eram considerados uma medida desesperada.

— HĂŁ?! Eu tambĂ©m nĂŁo consigo usar magia! Senhor! — Kris disse.

— Nem eu — respondi.

Telm se movia como alguĂ©m muito mais jovem. Sua postura baixa lembrava a de um ladino. Sua experiĂȘncia e provaçÔes superavam as minhas em muito. Rapidamente, comecei a disparar descontroladamente com meus AnĂ©is de Disparo. Uma saraivada de projĂ©teis brilhantes, mas fracos, voou em direção a Telm, mas ele os evitou. Sem parar, ele pegou uma espada descartada no chĂŁo e a lançou contra mim. A lĂąmina voou reta como uma flecha, mas, mais uma vez, um Anel de Segurança ativou uma barreira. SĂł me restavam cinco.

Telm engoliu em seco. Antes, ele nem se preocupou em desviar dos meus disparos, mas agora fez questĂŁo de evitĂĄ-los. Tive um pressentimento do que isso significava.

— Parece que vocĂȘ nem consegue erguer uma barreira — eu disse. Apesar do nĂșmero cada vez menor de AnĂ©is de Segurança, eu estava perfeitamente confortĂĄvel e me sentindo ousado.

Minha brilhante dedução o fez recuar.

— Seu desgraçado — rosnou ele, ofegante.

Isso era uma piada? Ele era muito mais bizarro do que eu.

— Não fique aí parado! Acabe logo com ele! Senhor! — Kris me disse, escondida atrás de mim.

NĂŁo via por que ela nĂŁo podia usar o cajado que eu tinha emprestado para acertar Telm. Mesmo sem magia, eu tinha quase certeza de que Kris ainda era menos inĂștil do que eu. NĂŁo sabia o que fazer. Restringir um mago exigia ferramentas que pudessem sufocar magia, e mesmo assim elas nem sempre funcionavam contra magos bem treinados. Por causa disso, a maioria das batalhas entre magos poderosos sĂł terminava quando alguĂ©m morria.

— Telm, não tenho desejo algum de matar a mão direita do Inferno Abissal — eu disse, mostrando um sorriso niilista. — Jogue essas pulseiras no chão e se renda.

Não era como se eu estivesse interessado nas suas Relíquias nem nada. Porém, era óbvio que aquelas pulseiras contribuíam para o seu poder. Para um mago, um cajado tanto amplificava quanto controlava a mana. Assim como Kris tinha dificuldade para conjurar feitiços com um cajado ao qual não estava acostumada, Telm perderia grande parte de seu poder sem o dele.

Ao ouvir meu pedido, os traços bonitos de Telm se contorceram, deixando clara sua antipatia. Mas, antes que ele pudesse dizer algo, Kechachakka o interrompeu.

— Telm — disse ele em um tom plĂĄcido, diferente de qualquer um que eu jĂĄ tivesse ouvido dele —, os dragĂ”es nĂŁo estĂŁo vindo. Devemos recuar.

— Droga.

Por que meus aliados ficam mais fortes quando se tornam meus inimigos, e meus inimigos ficam mais fracos quando se tornam meus aliados? HĂĄ nĂŁo muito tempo, tudo o que vocĂȘ conseguia fazer era rir de forma suspeita.

Silenciosamente, Telm se virou. Movendo-se tĂŁo rĂĄpido quanto qualquer guerreiro, ele arrombou a porta e fugiu da sala. Kechachakka o seguiu. Tudo o que pude fazer foi assistir enquanto eles iam embora. Mesmo que eu os alcançasse, nĂŁo conseguiria vencĂȘ-los em uma luta. Eu poderia ter liberado a Corrente Perseguidora, mas isso nĂŁo seria suficiente para capturar um nĂ­vel 7.

— Vamos atrás deles! Senhor! — gritou Kris, me empurrando por trás.

— Calma, Kris. Podemos esquecer deles por enquanto — disse eu, desviando do pedido dela quase por instinto. — Nossa prioridade deve ser salvar vidas. Franz e todas essas pessoas precisam de cura!

Por sorte, nosso suprimento, devido à sua abundùncia, havia sido dividido e armazenado por toda a nave. Embora eu não estivesse acostumado a curar pessoas, Kris conseguiu preparar rapidamente as poçÔes e administrå-las aos cavaleiros caídos.

Mesmo os primeiros a tombar ainda estavam vivos. Depois de receberem as poçÔes especiais de Sitri, suas expressÔes melhoraram rapidamente e a respiração se estabilizou.

— Parece que isso não foi apenas um feitiço de destruição. Senhor — disse Kris, soltando um suspiro de alívio.

— Mas eu não conseguia me mover. Minhas forças me abandonaram — ofegou Franz. Ele estava suando e arfando.

— Ele apenas fez pequenas alteraçÔes na ĂĄgua dentro dos corpos deles. Isso exige um nĂ­vel de habilidade inacreditĂĄvel. Mesmo com a vantagem da surpresa proporcionada pelo disfarce, nem mesmo Lapis poderia ter feito algo assim. Senhor.

Kris parecia grave. Como era um princĂ­pio bĂĄsico da magia, atĂ© eu sabia que era incrivelmente difĂ­cil afetar diretamente o interior de outra pessoa com um feitiço. AtĂ© certo ponto, todos os corpos humanos eram resistentes Ă  magia. Isso significava que os poderes de Telm estavam entre os melhores que existiam, se ele conseguiu derrubar tantas pessoas em questĂŁo de segundos. Uma barreira automĂĄtica de um Anel de Segurança poderia protegĂȘ-lo, mas nenhum feitiço poderia defendĂȘ-lo de um ataque furtivo como aquele.

Franz cambaleou ao se levantar, mas parecia que os outros cavaleiros nem sequer conseguiam fazer isso. Suas vidas nĂŁo estavam mais em perigo, mas eles nĂŁo seriam capazes de lutar contra Telm e Kechachakka.

Mesmo agora, o imperador continuava impassĂ­vel. Ele se sentou em sua cadeira e me perguntou:

— E agora? Temos alguma chance de vitória?

— Nem um pouco. Senhor — respondeu Kris. — Não concorda, humano fracote?

Seu olhar afiado implorava para que eu concordasse com ela, mas eu ainda estava perfeitamente confortĂĄvel. Se tivesse que dizer de um jeito ou de outro, diria que nĂŁo tĂ­nhamos chance alguma de vitĂłria. Mas, como a nave estava caindo, escapar deveria ser nossa prioridade de qualquer forma.

— Kris, ah, vocĂȘ sabe voar? — perguntei a ela.

— Sei, mas não com esse cajado de merda! Senhor!

— Isso porque isso nĂŁo Ă© um cajado, Ă© um dispositivo de tradução.

— Como Ă© que Ă©?!

Olhei gentilmente para o lado enquanto Kris começava a golpear o Round World no chão. Eu não esperava que as coisas tomassem esse rumo.

O que fazer? Não faço ideia. Mal entendo o que estå acontecendo. Que enrascada.

Sem saber o que fazer, peguei um pouco de carne defumada dos suprimentos e a coloquei diante de Sir Matadinho, que estava caído no chão, tremendo de — pelo que presumi ser — fome. Achei que era o mínimo que podia fazer.

Disse a mim mesmo para manter a calma. É isso que se faz quando entrar em pñnico não vai ajudar. Cruzei os braços e fechei os olhos. Estava perfeitamente confortável.

Tive uma ideia! Talvez, se comprarmos tempo suficiente, meus queridos Grieving Souls nos salvarĂŁo.

Uma voz aguda interrompeu meu devaneio.

— AtrĂĄs de vocĂȘ!

Girei rapidamente e olhei para baixo. Agachada ao lado de Sir Matadinho estava uma pequena figura. Era uma criança, uma criança humana. Liz era pequena, mas não tanto. Ela vestia um robe branco folgado. Seus pequenos braços se estenderam, pegaram a carne defumada, levaram-na à boca e começaram a mastigå-la lentamente.

Não me lembrava de haver nenhuma criança a bordo da nave. Era uma visão estranha, mas eu não estava inquieto. Estava perfeitamente confortåvel. Mas isso não quer dizer que eu não estivesse surpreso. A criança não disse nada. Todos os outros estavam pålidos como fantasmas. O imperador estava atÎnito. Até o Tapete parecia desconfortåvel.

O cabelo branco da criança era longo, mas eu nĂŁo conseguia dizer seu gĂȘnero. Isso porque uma estranha mĂĄscara cobria a metade superior de seu rosto. Minha mente congelou novamente, deixando minha boca se mover por conta prĂłpria.

— Ah, um de verdade.

Era um pouco tarde, mas finalmente percebi o ar estranho que permeava a nave. Duas orelhas brancas e lisas brotavam de sua cabeça. As palavras misterioso e sobrenatural me vieram à mente. Havia diferenças marcantes entre sua måscara de raposa e a usada pelo amigo de Telm. A que estava diante de mim era real.

A criança inclinou a cabeça para mim. NĂŁo havia buracos para os olhos na mĂĄscara, mas eu podia sentir que ela me olhava. Diante de mim estava algo contra o qual nenhum humano poderia vencer. Eu deveria ter tremido. Deveria tĂȘ-lo temido tĂŁo naturalmente quanto os humanos temem a morte. Mas eu estava perfeitamente confortĂĄvel.

Considerei não usar o Férias Perfeitas da próxima vez que pegasse um trabalho como escolta.

Uma memĂłria antiga veio Ă  tona — a Ășltima vez que encontrei um desses tambĂ©m foi durante uma tempestade estranha. Parecia que o mau tempo era um companheiro deles.

Não tinha ouvido relatos de avistamentos desde nosso primeiro encontro, mas se eles estivessem no céu esse tempo todo, isso certamente explicaria algumas coisas.

Por que isso aconteceu? Isso foi obra do Telm? NĂŁo, nĂŁo poderia ser.

Isso nĂŁo foi nada alĂ©m de um golpe de azar. Algo que nĂŁo podia ser controlado pelas mĂŁos de um homem. Era para ser impossĂ­vel encontrĂĄ-los duas vezes em uma Ășnica vida, mas acho que eu era apenas azarado assim. Achei que meus dias estavam relativamente livres de acidentes ultimamente, mas, no fim, eu sĂł estava acumulando um reservatĂłrio de mĂĄ sorte.

Olhando para fora, por um instante pensei que a tempestade havia diminuído, mas então percebi que isso era porque o que estava além das janelas jå não era mais o nosso mundo. Do lado de fora, era um branco puro. Cofres de Tesouro eram mundos alternativos recriados a partir de material de mana. As de nível baixo eram baseadas no mundo real, mas as de nível alto eram diferentes. Eram espaços que operavam sob leis muito distantes das do nosso mundo. Tecnicamente, eram mundos separados. Isso explicava por que nossa magia havia parado de funcionar.

Mas compreender a situação nĂŁo significava que eu pudesse melhorĂĄ-la. NĂŁo pude evitar sorrir. A estranha criança com a mĂĄscara de raposa—o fantasma—tambĂ©m sorriu. Em algum momento, a paisagem alĂ©m da porta, derrubada por Telm, havia mudado. HavĂ­amos colidido. HavĂ­amos sido engolidos.

— Bem-vindos. Não tenham medo.

O interior da boca da criança era vermelho como fogo. Sua voz era fraca e a entonação, truncada, mas falava nossa língua.

Era um Cofre de imenso poder. Um reino insondåvel que atravessava o mundo. Um pesadelo vivo. Uma terra divina. Um lugar quase impossível de encontrar e lar de um fantasma que ninguém jamais derrotou. Ela era classificada como Nível 10. Seus habitantes estudavam, viajavam e participavam de jogos. O nome desse estranho Cofre era Peregrine Lodge.

— Estamos felizes em recebĂȘ-los — disse o fantasma.

Eram deuses. MemĂłrias de deuses onipotentes que governaram nosso mundo. Eu jĂĄ havia sobrevivido a um encontro com eles, mas nĂŁo esperava que isso acontecesse uma segunda vez. Eles nĂŁo podiam ser mortos. A Ășnica esperança para meros humanos estava na negociação. Era esse o tipo de ser que os deuses eram.

— Mentiroso — eu disse.

Essa acusação repentina fez a raposa sorrir.

— Eu não estava mentindo.

***

Kris sentiu como se fosse vomitar, como se algo estivesse tocando diretamente seu interior. Havia uma pressão, quase como se tivesse escorregado para outro reino. Apenas seu orgulho como Espírito Nobre e sua função como caçadora em serviço a mantiveram de pé.

Para caçadores com baixos níveis de material de mana, entrar em Cofres de tesouro repletos de mana poderia, em raras ocasiÔes, causar desconforto. Esse era um dos fatos mais båsicos da caça. No entanto, na pråtica, não era algo comum, desde que não houvesse uma diferença significativa entre o nível do caçador e o do Cofre.

Kris olhou pela janela e viu um mundo diferente daquele em que estava antes. Ela queria gritar de medo e confusĂŁo, mas mal conseguiu manter a sanidade. Estava em um Cofre interdimensional e sentia nĂĄusea induzida pelo material de mana. Ao unir esses dois fatos, percebeu que esse Cofre estava muito acima de seu nĂ­vel.

Além disso, tinha certeza de que a criança com a måscara de raposa era um dos fantasmas desse Cofre. Que coisa aterrorizante. Não se parecia com nenhum fantasma que jå havia visto. Comparado àquela criança raposa, dragÔes pareciam meros lagartos. A forma era de uma criança, mas claramente não era uma. Falava algo parecido com a linguagem humana, mas não parecia certo chamar aquilo de palavras. Seus instintos de guardiã da floresta estavam gritando como sirenes.

Enfrentar aquele fantasma era ainda mais impossível do que enfrentar Telm. E isso, claro, valia tanto para ela quanto para a guarda imperial. No entanto, Kris não cedeu ao desespero, porque seu líder, o Mil Truques, não havia perdido a compostura. Mesmo sendo um Nível 8, ainda era um humano, mas sua postura não havia mudado nem um pouco com a aparição do fantasma.

Kris não sentiu nenhuma força vinda dele. O fraco humano continuava sendo apenas isso. Mas se ele conseguia manter a calma e até mesmo chamar o fantasma de mentiroso de maneira casual, então ele devia ser tão monstruoso quanto a entidade à sua frente. Ela precisava ajudå-lo, garantir que sobrevivessem, mas ainda tentava compreender a situação.

— Fraco humano—

— Agora nĂŁo, Kris — ele disse, colocando um dedo em seus lĂĄbios. — Às vezes vocĂȘ diz as coisas erradas, e nĂŁo queremos provocar esses caras.

Ela queria retrucar, insistir que nunca faria tal coisa. Senhor. Mas a tensĂŁo no ar a fez se calar.

— Não me importo — disse a criança raposa em um tom leve.

— SĂ©rio? — Krai perguntou. — Podemos dizer coisas rudes?

— Sim, sim. VocĂȘ pode me acariciar.

Kris não conseguia entender. Não fazia sentido. As palavras da criança eram afåveis, mas emanavam uma aura de sede de sangue. Era um diålogo entre predador e presa. As palavras do fantasma eram vazias, sem relação com o significado original. Era algo inquietante, como quando o tilintar de um sino de vento soa acidentalmente como uma voz humana. Kris ficou atordoada ao ver o fraco humano conversando tão tranquilamente com o fantasma. Tudo o que podia fazer era confiar nele, pois parecia compreender melhor a situação.

— Estou com fome. Quero sorvete.

— Sorvete? VocĂȘ nos deixaria ir se dĂ©ssemos sorvete?

— Claro. Eu vou vomitar.

— VocĂȘ Ă© engraçado.

— Eu quero me aposentar.

O fraco humano riu ao ouvir isso, como se estivesse relaxado. Mas um fantasma jamais diria coisas como “quero sorvete” e “vou vomitar”. Isso desafiava a razão, e o fraco humano deveria estar bem ciente disso.

Desnorteada, Kris deu um passo para trĂĄs e percebeu o cajado em suas mĂŁos—Round World. Apesar da aparĂȘncia impressionante, era uma ferramenta defeituosa que nĂŁo amplificava mana. Mas o que o fraco humano havia dito sobre ele? Ah, certo, que nĂŁo era um cajado, e sim um dispositivo de tradução. Kris nĂŁo sabia como usĂĄ-lo, mas tentou canalizar mana nele.

A gema no topo começou a girar. O fantasma abriu a boca, e conforme falava, o significado de suas palavras foi filtrado para a mente de Kris. Ela recuou diante da pura fĂșria do fantasma.

— Ha ha ha, eu gosto de vocĂȘ — disse Krai.

Como ela suspeitava vagamente, a troca de palavras era apenas superficialmente amigåvel. Suas falas não refletiam suas verdadeiras intençÔes.

— Sim, aham. Eu tambĂ©m gostaria de um chocolate.

— Fraco humano?! Se vocĂȘ—

— Kris, nĂŁo te disse para ficar quieta? Deixa comigo. Estamos apenas conversando agora, mas se isso correr bem, poderemos negociar nossa saĂ­da. O importante Ă© nĂŁo provocar eles. NĂŁo temos chance alguma de vencĂȘ-los.

O que ele estava tentando fazer? A criança sorriu e estendeu um braço esguio para o fraco humano. Ao mesmo tempo, o ambiente se encheu de uma inimizade palpåvel. Muitos guardas imperiais jå haviam desmaiado. Todos, exceto Krai, estavam prendendo a respiração, como se esperando que a tempestade passasse.

— O quĂȘ? VocĂȘ Ă© meu fĂŁ? — ele disse. — Poxa, eu nem sei o que dizer. Que honra.

Mesmo que ele nĂŁo pudesse entender o que a criança raposa estava dizendo, a hostilidade no ar deveria ser Ăłbvia. Ainda assim, ele nĂŁo hesitou nem por um instante ao segurar a mĂŁo da criança raposa, sem dar chance para Kris detĂȘ-lo.

***

Que fantasma simpĂĄtico.

Ver a criança raposa sorrindo me deu um pequeno alĂ­vio. Dentro da Pousada Peregrina, existiam dois tipos de fantasmas: a imensa raposa aberrante que era o nĂșcleo do cofre e seus numerosos servos. A raposa aberrante nunca saĂ­a do centro do cofre, entĂŁo a criança Ă  minha frente sĂł podia ser um servo.

Mesmo os fantasmas mais fracos desse cofre nĂŁo caĂ­am sem muito esforço. Na minha Ășltima visita, me disseram que pouquĂ­ssimos servos haviam sido derrotados desde a criação do cofre. Em termos de poder, diria que eram comparĂĄveis aos chefes de muitos cofres de alto nĂ­vel. Mesmo que Telm estivesse do nosso lado, nossas chances de vitĂłria seriam mĂ­nimas. Sua magia era aterrorizante porque os humanos sĂŁo frĂĄgeis. No entanto, nĂŁo havia garantia de que ela teria o mesmo efeito contra fantasmas.

Nossa melhor opção era tentar apaziguå-los de qualquer forma e depois fugir. Que se dane o orgulho. Felizmente, esses fantasmas eram poderosos, mas não eram sedentos por sangue como a maioria.

Da Ășltima vez, conquistei o perdĂŁo deles ao me curvar e oferecer um presente. Mas, desta vez, o fantasma nĂŁo pediu nada disso. Ele apenas falava palavras fragmentadas, sem fazer exigĂȘncias especĂ­ficas. Eram tĂŁo cordiais que parecia possĂ­vel que nos deixassem ir sem nada em troca. SerĂĄ que essa Pousada Peregrina era diferente daquela que visitei antes? Talvez nĂŁo estivessem mentindo quando disseram que estavam felizes em nos receber. Mas eu nĂŁo queria ser recebido, queria ser libertado.

— Na verdade, eu sou seu fã — disse a criança raposa. — Por favor, aperte minha mão.

Que mudança cultural fez com que eu me tornasse conhecido entre os fantasmas?

Mas a criança estendeu a mão, então eu a segurei. E foi aí que aconteceu. Ouvi Kris soltar um grito. Eu não fazia ideia do que a criança raposa tinha feito. Não houve som, cor, nada. Tudo que eu sabia era que meu anel de segurança caríssimo havia sido ativado.

Olhei freneticamente ao redor. Os olhos de Kris estavam arregalados. Ainda nĂŁo entendi o que estava acontecendo. Pisquei algumas vezes e, ainda segurando a mĂŁo do fantasma, perguntei:

— O que vocĂȘ fez?

— Isso foi divertido.

— Hã!?

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O fantasma começou a desaparecer. A partir dos pĂ©s, virou pĂł como se estivesse apodrecendo. Minha mĂŁo nĂŁo segurava nada alĂ©m do ar. Ouvi um barulho seco e vi que a Ășnica coisa que restava era a mĂĄscara de raposa da criança.

No momento seguinte, fui pego de surpresa por um barulho alto de vĂŽmito. Franz estava de joelhos e mĂŁos no chĂŁo, vomitando sem parar. O imperador ainda nĂŁo estava nesse estado, mas seu rosto estava completamente pĂĄlido.

— E-EntĂŁo Ă© assim que os fantasmas desse cofre sĂŁo derrotados, senhor — disse Kris, cobrindo a boca com a mĂŁo. — Que estranho.

— Hm?

Kris deu um passo para trĂĄs. Notei que ela olhava fixamente para a mĂĄscara no chĂŁo.

— Isso era uma condição? Eles nĂŁo podem mentir? Eles morreram porque o prĂłximo ataque nĂŁo matou? U-Urgh. Como vocĂȘ aguenta essa densidade de material de mana, senhor?

— Isso? Ah, estou perfeitamente confortável.

O material de mana do cofre parecia ser a causa do mal-estar de todos. Eu nunca senti nada porque tenho quase nenhuma capacidade de absorver ou reter material de mana, mas caçadores com alta taxa de absorção Ă s vezes adoeciam se absorvessem demais. Era semelhante Ă  fadiga muscular. Pensando bem, todo o meu grupo sentiu o mesmo enjoo da Ășltima vez que entramos nesse cofre.

Peguei a mĂĄscara. O fantasma a esqueceu? Ou foi um drop? Como ele morreu se tudo o que fiz foi apertar sua mĂŁo? Essa era a fraqueza dele? DifĂ­cil de acreditar, considerando que foi ele mesmo quem pediu o aperto de mĂŁo.

Bom, se ele deixou a måscara para trås, vou considerar isso uma lembrança. Eu a devolverei se ele disser que quer de volta.

No entanto, a nave estava envolta em branco. AlĂ©m da porta por onde Telm e Kechachakka fugiram, a paisagem era a mesma do meu Ășltimo encontro com a Peregrine Lodge. NĂŁo havia motivo para ficar na nave. Esse nĂŁo era um cofre comum, e eu realmente nĂŁo queria sair lĂĄ fora, mas nĂŁo conhecia nenhuma outra maneira de escapar alĂ©m de conquistar o perdĂŁo do chefe.

— Não tem outro jeito — murmurei. — Melhor eu ir logo.

NĂŁo levei ninguĂ©m comigo. Ser forte pelos padrĂ”es humanos nĂŁo fazia diferença contra esses fantasmas. Como eu sabia um pouco sobre esse lugar, eu era, na verdade, nossa melhor chance de sobrevivĂȘncia. Anteriormente, um dos fantasmas daqui me disse que esse cofre tinha uma regra: nada pode conter um deus, exceto o prĂłprio deus.

Enquanto eu me aproximava da saĂ­da da nave (ou seria a entrada?), Kris me chamou:

— Humano fraco, leve este cajado—

— Hã? Não preciso disso.

— O quĂȘ? EntĂŁo por que fez questĂŁo de trazĂȘ-lo, senhor?

— Achei que vocĂȘ pudesse querer usĂĄ-lo.

Não precisava dele quando os fantasmas jå podiam falar. O que eu precisava era de amor. Sim, amor. Enfrentar o fantasma não me levaria a lugar nenhum. Para eles, humanos eram insignificantes. Mas no momento em que passei pela porta, ouvi uma voz próxima aos meus pés.

— Quero tofu frito. Me dĂȘ tofu frito ou eu atacarei.

Tinha certeza de que não havia nada ali um momento atrås. Olhando para baixo, vi uma criança, semelhante à anterior, sentada sobre as tåbuas vermelhas do chão. Ela usava uma måscara de raposa, mas não era exatamente igual, e sua fala não era fragmentada. Essa era uma garota, com cabelos dourados claros. Vestia um quimono branco curto e apontava um dedo fino para mim.

Tofu frito? Desculpe, sĂł tenho as conservas que a Sitri preparou para mim.

***

Kris Argent tinha certeza de que esta era a situação mais terrĂ­vel em que jĂĄ se encontrara. Estava em um cofre de tesouro que superava em muito suas capacidades, e a densidade de material de mana era suficiente para deixĂĄ-la enjoada. NĂŁo tinha o cajado ao qual estava acostumada (carregar dois teria sido difĂ­cil, e ela nĂŁo esperava que as coisas ficassem tĂŁo ruins). As leis Ășnicas do cofre nĂŁo permitiam que ela manipulasse mana. “Condenação certa” parecia uma boa descrição da sua situação.

A essa altura, sua Ășnica opção era confiar no humano fraco, que parecia saber algo sobre o cofre. Mas ela ainda tinha seu orgulho; nĂŁo deixaria que ele fizesse tudo sozinho. Bom, talvez deixasse, mas nĂŁo queria ser um estorvo. Cerrou os punhos trĂȘmulos, incerta sobre o que fazer. NĂŁo havia nada que pudesse fazer se estivesse privada de sua magia. Nem sequer tinha uma arma. Podia pensar, mas isso era algo que aquele artĂ­fice preter-humano fazia melhor do que ela.

Então se lembrou do que Telm fez antes. Quando seus feitiços ofensivos falharam, ele imediatamente mudou para um feitiço de fortalecimento. Kris não perdeu tempo em tentar o mesmo. Feitiços de fortalecimento eram uma forma båsica de magia que envolvia converter mana em poder. A energia mågica percorreu seu corpo, e ela sentiu um calor profundo dentro de si. Conforme o feitiço fazia efeito, seus tremores diminuíram.

EntĂŁo era isso. As leis do cofre nĂŁo se aplicavam dentro dos corpos. Nenhum mago sensato entraria em um cofre onde nĂŁo pudesse usar magia, mas depois de pensar um pouco, Kris se lembrou de jĂĄ ter ouvido falar desse fenĂŽmeno antes. Assim como as leis de um cofre eram alteradas pelo material de mana, um corpo podia ser alterado pelo prĂłprio material de mana.

Agora, Kris podia lutar. Usar mana de um jeito ao qual nĂŁo estava acostumada causava um pouco de dor, mas isso nĂŁo era nada comparado Ă  sua experiĂȘncia com as nozes amiuz. Seu treinamento recente estava sendo Ăștil. EspĂ­ritos Nobres tinham uma aptidĂŁo incrĂ­vel para a magia, e suas reservas de mana superavam em muito as dos humanos. Isso nĂŁo duraria muito, mas, no momento, Kris podia lutar tĂŁo bem quanto qualquer guerreiro dedicado. Claro, ainda nĂŁo achava que poderia vencer os fantasmas desse cofre.

O fraco humano ignorou a hesitação de Kris, e sua saída foi tão casual que era irritante. Ele tinha ido para aquele espaço distorcido pelo cofre do tesouro. Ir sozinho era suicídio. Ele tinha vencido o primeiro fantasma, mas para Kris estava claro que estavam muito além de suas capacidades. Ela sabia que conflitos eram decididos por mais do que apenas poder, mas não quando a diferença era tão grande.

Se quisessem sobreviver a essa emergĂȘncia, precisariam cooperar. NĂŁo era como se ela estivesse com medo nem nada. Justo quando Kris estava prestes a seguir o fraco humano, seus olhos se arregalaram. Ela a notou.

Perto dos pĂ©s de Krai estava um fantasma de cabelos dourados usando uma daquelas mĂĄscaras de raposa. Esse fantasma era muito mais poderoso do que o anterior e tinha uma presença mais avassaladora do que qualquer inimigo que Kris jĂĄ havia enfrentado. Isso significava que o fantasma anterior — aquele cuja mana dissipada foi suficiente para fazer Franz vomitar — nĂŁo era o chefe nem um tenente, apenas um inimigo comum.

Apoiando-se na Relíquia, Kris ordenou que suas pernas se movessem. Ela sentia que, se parasse agora, nunca mais conseguiria se mover de novo. Era melhor seguir em frente do que fazer algo tão vergonhoso. Não podia se dar ao luxo de pensar na segurança do imperador. Sua presença não ajudaria em nada naquele cofre, então a melhor opção era se aliar ao fraco humano.

— Eu quero tofu frito — disse o fantasma. — Me dĂȘ tofu frito, ou eu atacarei.

Parecia uma piada, mas a Relíquia nas mãos de Kris dizia que, ao contrårio do fantasma anterior, esse falava sério. Ela não sabia por que esse fantasma queria tofu frito, mas, naturalmente, não tinha nenhum. No entanto, pensou, não seria estranho se o fraco humano tivesse. Afinal, ele havia abarrotado o navio com comida e não demonstrava nenhuma hesitação no cofre.

Krai ficou em silĂȘncio por um momento, mas entĂŁo sorriu quando o fantasma fez o pedido.

— Desculpa — disse ele —, eu não tenho.

— Tá de sacanagem comigo?!

Antes que Kris pudesse acrescentar um “Senhor?!”, tudo jĂĄ tinha acabado. Um vendaval varreu o local. Ela sentiu uma onda de dor percorrer seu corpo e soltou um gemido. Percebeu que tinha sido arremessada contra a parede. DoĂ­a, mas seu fortalecimento mĂĄgico impediu que o dano fosse mais grave.

O que Kris sentiu foi apenas uma onda de choque. O fantasma tinha simplesmente balançado seu pequeno braço em direção a Krai. Sem o uso de magia, foi apenas um movimento de um membro. Mas os fantasmas de cofres de alto nível tinham poder suficiente para obliterar um caçador experiente com um simples arranhão. Kris tossiu violentamente ao se levantar. Ela viu que o fraco humano estava completamente ileso e que o fantasma estava caído no chão.

— O quĂȘ?!

Ela nĂŁo conseguia acreditar no que via. A Ășltima coisa que tinha enxergado antes da rajada de vento foi o ataque do fantasma. Aceitava que o ataque nĂŁo tivesse surtido efeito, mas nĂŁo entendia como a garota mascarada tinha sido derrubada. Um fio de sangue escorria dos lĂĄbios do fantasma, manchando de vermelho seu quimono branco. Seu corpo, feito de mana materializada, se contorcia, seus braços estavam abertos e seus dedos tremiam.

— O que vocĂȘ fez?! Senhor?!

— Eu não fiz nada — respondeu ele, confuso.

Não havia uma gota de sangue em suas mãos. As habilidades do Mil Truques eram desconhecidas até mesmo para seus companheiros de clã e envoltas em mistério, mas isso ia além. Ele tinha feito algo bem diante dos olhos de Kris, e ela não conseguia compreender.

— N-Não esconda isso de mim. Senhor.

— O quĂȘ? NĂŁo, eu nĂŁo estou escondendo nada.

Ele parecia sĂ©rio. NĂŁo parecia estar mentindo. E entĂŁo Kris Argent compreendeu — ele realmente nĂŁo escondia nada. Ele nĂŁo mantinha nenhum segredo, mas suas habilidades desafiavam a compreensĂŁo, assim como o trabalho de um Magus avançado podia confundir a mente de um novato.

— Eu tenho muitas perguntas para te fazer, mas, por enquanto, quero que seja claro sobre uma coisa. Senhor. VocĂȘ pode derrotar o chefe deste cofre?

Ele se ajoelhou e tocou o fantasma trĂȘmulo.

— NĂŁo, isso Ă© impossĂ­vel — disse ele, com sua voz fraca de sempre.

***

Eu jå tinha desistido de tentar entender isso. Qualquer esperança de compreensão estava tão distante que eu realmente estava começando a me divertir. Kris parecia preocupada, mas minha ignorùncia me deixava sem condiçÔes de acalmå-la.

O fantasma simplesmente tossiu sangue do nada. Pelo menos, era assim que eu explicaria. Nenhum dos meus AnĂ©is de Segurança tinha ativado. Esses fantasmas eram tĂŁo poderosos que meus amigos ficaram completamente indefesos contra eles na minha Ășltima visita a este cofre. Mesmo se eu pegasse um desprevenido, provavelmente nĂŁo teria sido capaz de causar nem um arranhĂŁo no que essencialmente era uma entidade superior.

Ajoelhei-me ao lado do fantasma trĂȘmulo. Ela parecia incapacitada. NĂŁo estava morta, mas claramente nĂŁo conseguia se mover. Seu rosto estava voltado para mim, a mĂĄscara ligeiramente desalinhada. Ao olhar para ela, percebi que jĂĄ a havia visto antes. NĂłs a encontramos durante minha visita anterior aqui.

Naquela época, ela era um pouco menor e simplesmente pedia algo gostoso, em vez de tofu frito especificamente. Mas não havia como confundir o estilo e a cor de seu cabelo. Naquela época, eu havia lhe dado um tofu frito (na verdade, era um inari bento) que eu tinha comigo. Era apenas algo que eu havia comprado na cidade onde eståvamos hospedados pouco antes, mas o fantasma gostou bastante.

Ela pediu vĂĄrias porçÔes, entĂŁo nĂŁo me surpreende que tenha pedido de novo… Ah, agora entendi.

— VocĂȘ esqueceu da nossa promessa, nĂŁo foi? — perguntei a ela.

Certo, nossa promessa. Da Ășltima vez, fiz com que ela prometesse que, se eu lhe desse tofu frito, nunca mais atacaria a mim ou aos meus amigos. Ela concordou com os termos e depois garantiu, com todas as letras, que os fantasmas do Peregrine Lodge nunca mentiam. Os dedos do fantasma de cabelos dourados se contraĂ­ram levemente, como se respondessem Ă  minha pergunta.

— Isso acontece com frequĂȘncia? — murmurei.

Eles desabariam se mentissem. Que grupo complicado de fantasmas. Ainda assim, cumpriam suas promessas. O fantasma parecia ainda estar vivo. NĂŁo tĂ­nhamos meios de matĂĄ-lo, mas fazĂȘ-lo provavelmente sĂł despertaria a ira dos outros.

Os deuses eram cheios de fĂșria e desprezo. Suas trocas eram violentas. Na minha visita anterior, um fantasma me disse que este lugar era um espelho. Ele concederia o que vocĂȘ desejava, mas exigiria algo de igual valor em troca. Foi esse aspecto do Peregrine Lodge que me permitiu escapar uma vez.

— EntĂŁo vocĂȘs nĂŁo me deixam escolha — disse, exibindo um sorriso perfeitamente tranquilo. — Vou mostrar do que sou capaz.

Eu havia crescido desde nosso Ășltimo encontro. Minhas habilidades de bajulação na Ă©poca eram apenas uma sombra do que haviam se tornado. Agora, eu era imbatĂ­vel em implorar por perdĂŁo.

— H-Humano fraco! — Kris gritou.

A voz dela me trouxe de volta à realidade. Olhei ao redor e vi que um enxame de fantasmas mascarados nos cercava. Não estavam apenas no chão, mas também no teto. Eram facilmente mais de uma centena. Nossa saída estava bloqueada, sem chance de fuga. Quando me levantei, Kris vacilou e se apoiou em mim, nossas costas pressionadas uma contra a outra. Soltei um pequeno suspiro. Como estava completamente à vontade, me dei ao luxo de esboçar um sorriso irÎnico.

Estamos encurralados. Sempre houve tantos assim?

O mar vulpino se abriu, revelando um fantasma alto com uma måscara de raposa negra. Ele parecia mais poderoso que os outros, mas eu não tinha como avaliar até que ponto, jå que era o pior de todos em medir força. O fantasma de måscara negra se aproximou silenciosamente, deslizando pelo chão.

— Bem-vindo — disse ele com uma voz controlada. Suas palavras eram fluidas, indistinguĂ­veis das de um humano. — Faz tempo desde que nossa hospedaria recebeu visitantes. Ah, vocĂȘs nĂŁo precisam temĂȘ-los. EstĂŁo apenas lutando para conter a curiosidade, pois nĂŁo veem humanos hĂĄ muito tempo. Posso garantir que estĂŁo seguros. — EntĂŁo, um sorriso sarcĂĄstico surgiu em seus lĂĄbios. — Mas, em troca, tomarei aquilo que vocĂȘ mais valoriza.

Aquilo que eu mais valorizo?

NĂŁo consegui evitar franzir a testa ao ouvir essa exigĂȘncia. Notei o sorriso discreto do fantasma. Eles nĂŁo haviam feito esse tipo de exigĂȘncia da Ășltima vez. Parecia que tinham evoluĂ­do. Senti o coração de Kris disparando, mas minha RelĂ­quia me mantinha completamente Ă  vontade. Quanto ao que eu mais valorizava, eram as vidas dos meus amigos de infĂąncia. Sem dĂșvida. No entanto, eles nĂŁo estavam aqui conosco.

O fantasma sorriu, como se soubesse o que eu estava pensando.

— Ah, quero dizer aquilo que vocĂȘ mais valoriza dentre o que pode oferecer no momento. Ah, e isso nĂŁo inclui sua prĂłpria vida. Isto Ă©, veja bem, uma troca justa.

Quando vim aqui pela primeira vez, anos atrĂĄs, nunca tinha ouvido falar de um cofre chamado “Peregrine Lodge” e, naturalmente, nĂŁo sabia nada sobre os fantasmas que o habitavam. Sem querer, vagamos atĂ© este lugar e uma raposa de força incomum apareceu diante de nĂłs.

— Humanos errantes, pisais em um domínio que não vos pertence — a raposa disse. — Quantos anos se passaram desde que recebemos vosso tipo? Independentemente das circunstñncias que trouxeram vossa chegada, sois indesejados. No entanto, curvem-se e peçam desculpas, e sereis libertos.

Eu era o Ășnico que conseguia se mover. As taxas de absorção de mana, capacidade mĂĄxima e dissipação variavam de pessoa para pessoa. Taxas melhores eram essenciais para ser um caçador poderoso, mas essas mesmas qualidades tornavam alguĂ©m facilmente afetado pela mana. Como eu era abaixo da mĂ©dia nesses aspectos, Peregrine Lodge apenas me causava um leve desconforto. A mana passava por mim como ĂĄgua por um escorredor.

Na época, eu não estava completamente à vontade, mas fiz o que o fantasma mandou e imediatamente demonstrei minhas habilidades exemplares de pedir desculpas. E assim, fomos perdoados. Foi nesse momento que aprendi a utilidade da habilidade de bajulação. Desde então, abaixar a cabeça se tornou quase divertido (e esse comportamento vergonhoso me rendeu socos da Lucia).

Nosso encontro com o Peregrine Lodge me marcou profundamente. Foi esse cofre de tesouros que me tornou parcialmente imune ao medo. Não que isso fizesse diferença desta vez, jå que eu estava completamente à vontade.

Vou ter que cooperar. NĂŁo adianta lutar. O que serĂĄ que esse fantasma pretende tomar?

O fantasma disse que não tiraria minha vida, o que significava que escolheria o que viesse depois disso. E eu não fazia ideia do que poderia ser. Se eu dissesse que era meu orgulho e ego, serå que ele me perdoaria se eu me ajoelhasse? Minhas habilidades de bajulação haviam evoluído muito além do que eram antes. Transformei isso em uma arte. Poderiam até fazer uma ilustração de capa com isso.

O fantasma se aproximou ao alcance do braço. Ele ergueu a mão, e eu dei um passo para trås, inconscientemente. No instante em que seus dedos estavam prestes a me tocar, ele parou. Então, recuou bruscamente. Sua boca se abriu.

— O-O que Ă© isso? — disse ele, com a voz trĂȘmula. — VocĂȘ Ă© aquele jovem imprudente?

— Não. Não sou.

Isso não parecia comigo. Bem, agora eu estava perfeitamente confortåvel e tudo mais, mas eu sabia quando estava em perigo. Por alguma razão, o fantasma ficou nervoso. Ele olhou para a esquerda, depois para a direita. Então se inclinou, como se estivesse me examinando através de sua måscara sem buracos. Kris apertou minhas costas.

— NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo. HĂŁ? Por que vocĂȘ estĂĄ aqui? Estamos no cĂ©u. NĂŁo se passaram nem cem anos.

— É, uh-huh.

— Como vocĂȘ chegou aqui? Estamos voando em velocidades incrĂ­veis! E-eu nĂŁo entendo.

Era isso que eu queria saber. Cerrei os punhos. Tive o mesmo pensamento da Ășltima vez, mas nĂŁo achei que tivesse feito nada de errado. Achei que fosse culpa deles, como uma carruagem batendo em uma pedra na estrada. Mas eu nĂŁo podia reclamar para um ser transcendental. Tudo o que podia fazer era me humilhar se a situação exigisse. Parecia que o fantasma se lembrava de mim. Talvez nos perdoasse se eu me desculpasse.

— Honestamente, como vocĂȘ se infiltrou aqui? — lamentou o fantasma. Ele parecia perdido. — Achei que mamĂŁe tinha dito que nunca mais verĂ­amos vocĂȘ enquanto vivĂȘssemos! E atĂ© nos mudamos para o cĂ©u, sĂł para garantir que isso nĂŁo acontecesse.

HĂŁ?

Os deuses são onipotentes e, portanto, presos à sua palavra. Os deuses desse cofre do tesouro eram manifestaçÔes de material de mana, mas talvez fosse isso que qualquer deus realmente fosse. Isso me lembra algo que ouvi uma vez. Um cofre do tesouro de Nível 10 conhecido como Santuårio do Deus Celestial havia se formado no local da antiga capital. Não sei se é verdade ou não, mas supostamente o próprio Deus Celestial foi derrotado pelo ancestral de Ark porque disse algo que resultou na limitação de seus próprios poderes.

O cauteloso fantasma raposa nos guiou mais fundo no cofre. Ao longo do corredor, fantasmas mascarados nos observavam em silĂȘncio. Talvez nĂŁo atacassem por causa do nosso guia. O interior do Peregrine Lodge ainda se assemelhava a uma estalagem, assim como na minha primeira visita. O piso era de madeira, e grandes pilares de madeira alcançavam o teto. Tons de vermelho e branco dominavam o interior, me lembrando dos santuĂĄrios de alguma cidade oriental. Talvez fosse de lĂĄ que essas raposas vieram originalmente.

— Sei que estou me repetindo, mas todos aqui sĂŁo absolutamente fascinados com a visĂŁo de humanos — explicou gentilmente nosso guia. Ele parecia estar em um alto escalĂŁo do cofre. — Veja, nĂŁo recebemos muitas visitas aqui, e vocĂȘ, Sr. Cautela, Ă© o Ășnico a vir duas vezes. É por sua causa que minha irmĂŁ mais nova Ă© obcecada por tofu frito. Desisti de exigir desculpas.

Seguindo atrås dele estava a amante de tofu frito em questão. Mas ela não mostrou reação. Talvez estivesse em uma fase rebelde.

— Somos justos e corretos — continuou nosso guia. — VocĂȘ nĂŁo morrerĂĄ a menos que solicite. NĂŁo atacamos sem aviso. Aquele novato que vocĂȘ matou ainda nĂŁo entendia nossos costumes. Imagino que nĂŁo entendesse a lĂ­ngua humana?

Eu estava começando a sentir que não entendia a língua humana.

Espera. Ele morreu? Isso poderia ser a primeira vez que eu matei um fantasma?

Me senti um pouco mal com isso, mas como o fantasma trouxe isso sobre si mesmo, espero que me perdoem.

Chegamos a uma grande porta vermelhão. A disposição da estalagem parecia inalterada. Kris soltou um gemido e sentou-se. Ela tinha a expressão de alguém prestes a morrer.

— Isso Ă© normal — disse o fantasma desconfiado, exasperado. — O que se passa nessa cabeça, Sr. Cautela?

— Ei, pelo menos percebo que tem algo errado.

Eu estava perfeitamente confortĂĄvel, mas FĂ©rias Perfeitas nĂŁo atrapalhava minhas funçÔes cerebrais nem nada. Eu estava pronto para me humilhar a qualquer momento. AlĂ©m disso, queria muito que ele parasse de me chamar de “Sr. Cautela”, mas nĂŁo estava em posição de protestar.

— Kris, vocĂȘ espera aqui — disse a ela. — Eu resolvo isso.

Fantasmas poderosos eram compostos de quantidades incrĂ­veis de material de mana. Se apenas estar diante da porta era tĂŁo difĂ­cil para ela, eu temia o que poderia acontecer se ela realmente encontrasse o fantasma cara a cara. Kris olhou para mim. Ela respirava rĂĄpido e curto, e lĂĄgrimas se acumulavam em seus olhos, como se pudesse vomitar a qualquer momento.

— Não se preocupe. Vamos apenas ter uma conversinha. Vai ficar tudo bem. E olha, estou perfeitamente confortável.

A essa altura, eu estava quase desistindo. Esses fantasmas podiam me apagar com um simples sopro, entĂŁo eu sĂł podia fazer o que fosse possĂ­vel. Se me faltava um senso de cautela, era porque eles o haviam roubado de mim.

Eu sĂł quero deitar. Na verdade, se eu sair vivo dessa, Ă© exatamente isso que vou fazer.

O fantasma abriu a porta. Respirei fundo e começei a me aproximar do deus aberrante.

***

Naquele momento, Kris aguardava—não, experimentava sua morte. O material de mana que jorrava da porta era avassalador, como nada que ela já tivesse experimentado. Eles estavam diante de um deus, o próprio reino em que haviam entrado. Seu corpo se recusava a se mover, seus instintos aceitavam a derrota.

E, no entanto, o humano fracote nĂŁo se abatia. Kris tinha certeza de que ele era tĂŁo frĂĄgil quanto aparentava. Com o tempo, pode-se aprender a discernir os nĂ­veis de material de mana de alguĂ©m, e ela podia pelo menos dizer que seus nĂ­veis eram menores que os dela. Mas enquanto ela mal conseguia se manter de pĂ©, ele caminhava atĂ© a porta. Kris nĂŁo conseguia nem começar a imaginar que tipo de resiliĂȘncia era necessĂĄria para que isso fosse possĂ­vel. Mas agora ela tinha certeza do que era um Caçador de NĂ­vel 8. Era algo inumano.

E, ainda assim, seu alto nível não a tranquilizava. Além daquela porta estava um monstro de poder inacreditåvel. Mas, de alguma forma, ela ainda sentia confiança de que Krai voltaria.

Enquanto jazia no chĂŁo, incapaz de se mover um centĂ­metro, o alto fantasma raposa soltou uma pequena risada e disse a ela:

— NĂŁo hĂĄ motivo para se preocupar. Esse homem sem cautela obedece Ă s regras tĂŁo bem que chega a ser frustrante. Nessa situação, um Nobre EspĂ­rito como vocĂȘ deveria se preocupar muito mais consigo mesma.

***

Minha carne tremia, minha alma gritava. Deuses nĂŁo sĂŁo como humanos. Deixando de lado se deuses autĂȘnticos existiam ou nĂŁo, mesmo que fosse apenas um espectro, essa entidade tinha a presença de um ser superior.

Antes, quando eu não estava completamente à vontade, quando era apenas um qualquer, mantinha minha sanidade simplesmente porque jå estava acostumado a sentir o medo da morte. Deuses ou semideuses, dragÔes ou semidragÔes, fazia pouca diferença para alguém no fundo da hierarquia. Todos os cofres de tesouro, não apenas o Peregrine Lodge, me aterrorizavam. Por sorte, foi isso que me permitiu encarar um deus. Mas agora eu era diferente. Agora eu podia ficar diante de um deus porque estava completamente à vontade.

Ela apareceu como uma raposa de pelo branco brilhante. Sua presença era muito maior do que sua figura real, que era bem mais modesta em comparação. Ainda assim, sua silhueta se assemelhava à de um dragão. Ela quase não parecia real.

Com toda a probabilidade, o corpo dessa raposa nĂŁo tinha um grama de excesso. Assim como um caranguejo de qualidade.

Atrås dela se estendiam vårias caudas, todas fofas e cintilantes. Ela era uma besta, mas também um deus. Mesmo que meus amigos estivessem comigo, derrotå-la simplesmente não era uma opção. Isso não era algo que um humano pudesse vencer.

— Oooh. O insaciável humano. Vieste me desafiar mais uma vez?

Eu me perguntava se Anéis de Segurança funcionavam contra seres superiores. Nunca tive a oportunidade de testar, mas não adiantava pensar nisso. Se esse espectro quisesse me matar, não haveria nada que eu pudesse fazer.

Sem querer me gabar, mas eu tinha mais experiĂȘncia pisando em minas terrestres do que qualquer um que conhecia. Com medo de enlouquecer, evitei contato visual com o espectro. No entanto, isso parecia rude, entĂŁo comecei a me prostrar ousadamente. A deusa raposa bateu no chĂŁo com suas caudas, fazendo o ar tremer.

— Não era minha intenção voltar — eu disse.

— Tolice.

Tolice mesmo. Quem jĂĄ ouviu falar de alguĂ©m que simplesmente acaba tropeçando em um cofre do tesouro no cĂ©u? Mas foi isso que aconteceu. Que tipo de pessoa voltaria de bom grado a um lugar tĂŁo inerentemente perigoso? Mas eu nĂŁo podia vencer uma discussĂŁo com um ser transcendental. A resposta dela faria a fĂșria de Gark parecer insignificante e benigna em comparação.

Ah, alguém me salve, pensei enquanto permanecia prostrado.

— Recordas-te do que eu disse?

A voz dela pesava sobre mim. Eu havia esquecido completamente do que ela havia dito, mas o alto espectro raposa havia mencionado algo. Vasculhei minhas memĂłrias e respondi o mais honestamente possĂ­vel.

— VocĂȘ disse que nunca nos encontrarĂ­amos de novo.

— Eu disse que jamais nos encontraríamos novamente, enquanto estivermos vivos.

Eu queria protestar e apontar que era a mesma maldita coisa. Qual a diferença? Mas eu não estava em posição de levantar contradiçÔes.

— Isto… nĂŁo Ă© coincidĂȘncia.

Algo na voz da raposa era incrivelmente impactante. Mas como isso nĂŁo era coincidĂȘncia? Eu nĂŁo conseguia ver o que mais poderia ser.

Do que essa raposa está falando— Espera. Ah. Entendi.

Os espectros do Peregrine Lodge não podiam mentir. Mas a må sorte transformou esta diante de mim em uma mentirosa, então ela estava tentando reverter a situação a seu favor. Se eu quisesse cair nas boas graças dela, só precisava seguir o jogo.

Cara, estou afiado hoje.

Coloquei um sorriso amigĂĄvel e falei diretamente:

— VocĂȘ acertou em cheio. Isso nĂŁo Ă© coincidĂȘncia. Eu vim aqui para te ver!

Perfeito, né? Não havia jeito melhor de mostrar que eu não tinha animosidade nem intenção de machucar. Mas recebi uma reação bem dramåtica.

— BAH! NÃO ME INSULTES. NÃO PRECISO DE PIEDADE DE UM HUMANO INSIGNIFICANTE!

Meu corpo foi sacudido por um rugido que quase arrancou minha alma do corpo. Meu cabelo ficou em pé e meu coração disparou. Foi um milagre eu ter sobrevivido. Provavelmente não teria, se não estivesse completamente à vontade.

Enquanto eu permanecia ali, chocado demais para me mover, a raposa continuou:

— Nunca um humano me insultou tanto quanto tu! Jamais quero ver tua face novamente! Comparar-me a um ‘caranguejo de qualidade’. Que audácia!

EntĂŁo ela estava lendo minha mente. Ela parecia bastante irritada, mas eu nĂŁo podia culpĂĄ-la por isso.

Mas me escuta—caranguejo bom Ă© delicioso. Seria ainda melhor se fosse mais fĂĄcil de comer. Claro, meus amigos sempre tiram as cascas para mim, o que me faz sentir um pouco culpado.

— SilĂȘncio! SilĂȘncio! SilĂȘncio! Jamais vi um humano tĂŁo desesperançado quanto tu! És um testemunho da idiotice humana!

A raposa bateu suas caudas fofas no chão enquanto gritava. Me lembrou um pouco uma criança fazendo birra. Adoråvel.

— Aaaaargh! Fico mais burra a cada segundo que passo em tua presença! Toma isso e desaparece!

— Ah. Voltou. Senhor.

Assim que minha audiĂȘncia com a raposa terminou, saĂ­ pela porta. NĂŁo havĂ­amos ficado separados por muito tempo, mas ainda assim parecia que eu estava ouvindo a voz de Kris pela primeira vez em anos. Humanos eram mesmo os melhores. Deuses nĂŁo sĂŁo bons para socializar, mesmo se vocĂȘ estiver completamente Ă  vontade.

Kris me apoiou ao notar que eu cambaleava. EntĂŁo seus olhos se arregalaram ao ver o que eu segurava na mĂŁo.

— O-O que Ă© isso? Senhor?

— Ah. Quer?

Em minhas mĂŁos havia uma cauda branca brilhante. Era a coisa real, crescida pela prĂłpria chefe. Assim como da Ășltima vez, ela me enfiou isso mesmo quando eu disse que nĂŁo precisava. A Ășltima eu prendi a uma haste como uma vassoura e dei para a Lucia, mas nĂŁo sabia o que fazer com essa. Queria apenas jogĂĄ-la fora.

— N-Não, não quero! Larga isso! Sai de perto, senhor! — gritou Kris.

Acho que ela nĂŁo via isso apenas como uma cauda. Mas, sĂ©rio, quem ficaria feliz em receber uma cauda de presente? O alto espectro raposa—vou chamĂĄ-lo de IrmĂŁozĂŁo Raposa—pressionou os lĂĄbios por um momento.

— Então mamãe perdeu? — disse ele desanimado.

— Não, nem um pouco — respondi. — Não que eu realmente saiba o que se passa na cabeça de um deus ou algo assim.

Eu sĂł a irritei muito por algum motivo. É, bem, meio difĂ­cil interagir com alguĂ©m que lĂȘ sua mente. E mesmo que fosse uma deusa, ser tĂŁo odiado ainda me deixava desanimado.

— Essa cauda Ă© sua essĂȘncia vital. Independentemente do que aconteceu, vocĂȘ venceu, Sr. Cautela.

EssĂȘncia vital? Essa cauda era a essĂȘncia vital dela?

A chefe tinha doze caudas. Agora eu tinha uma, deixando-a com onze.

— Então se eu fizer isso mais onze vezes, posso derrotá-la? — perguntei.

— Quer tentar? — perguntou Irmãozão Raposa com um sorriso. Kris se escondeu atrás de mim quando ele fez isso.

Isso sĂł escapou sem querer. Foi mal.

— Não, não pretendo voltar aqui nunca mais — respondi. — Agora me diga, o que acontecerá com a aeronave?

Dessa vez, não apenas fomos libertados do cofre — tínhamos um dirigível conosco.

— As regras dizem que devemos libertá-lo sem ferimentos — suspirou Raposa Mais Velho. — Seu dirigível, ou seja lá o que for, não sofrerá danos. Se dependesse de mim, eu destruiria qualquer coisa que pudesse nos alcançar aqui em cima, mas não posso simplesmente fazer o que quero.

Oh? SerĂĄ que realmente vamos sair daqui?

Esses fantasmas não podiam mentir. Claro, tivemos alguns momentos difíceis, mas escapar do Peregrine Lodge tão facilmente provava que até eu poderia ter sorte nos momentos mais inesperados. Mas, justo quando soltei um suspiro de alívio, Raposa Mais Velho sorriu cruelmente.

— No entanto — disse ele —, o Ășnico que estou libertando Ă© vocĂȘ. NĂŁo tenho intenção de deixar os outros partirem.

O quĂȘ? Isso… nĂŁo Ă© bom.

Eu valorizava a vida dos meus amigos e a minha acima de tudo, mas isso nĂŁo significava que eu estava bem com todo mundo morrendo. Me perguntei se nos deixariam ir em troca da cauda.

— Essas sĂŁo as regras, e se eu nĂŁo receber nada dos nossos convidados, mamĂŁe vai me dar uma bronca. Agora, Ă© a sua vez, Kris Argent.

Kris espiou por trĂĄs das minhas costas, mas suas mĂŁos ainda tremiam.

— Se quiser ir embora, terá que me dar aquilo que mais valoriza — disse o fantasma em um tom baixo. Sua voz era gentil, o que só o tornava ainda mais intimidador.

E o que Kris mais valorizava? EstĂĄvamos no cĂ©u, longe do grupo dela ou de qualquer outro EspĂ­rito Nobre. Raposa Mais Velho estava pedindo algo muito mais significativo do que uma simples sĂșplica, mas era justo Ă  sua maneira. Afinal, ele nĂŁo pediu nossas vidas nem nada que nĂŁo pudĂ©ssemos oferecer naquele momento.

Se eu estivesse no lugar da Kris, estaria pronto para entregar quase qualquer coisa. Mesmo se o fantasma quisesse um Anel de Segurança, eu simplesmente teria que ceder. Mas então me lembrei de algo: tínhamos o imperador conosco. E se Kris fosse obrigada a entregå-lo? Isso seria um problema. Se falhåssemos em proteger o imperador, seríamos perseguidos por Zebrudia.

Talvez o imperador estivesse isento por não estar nas proximidades imediatas? Não, isso não aconteceria. Raposa Mais Velho seguia suas regras; ele não faria esse tipo de exceção. Ele não tiraria sua própria vida, mas ainda poderia ser cruel. Se um casal entrasse aqui, um dos dois acabaria separado do outro.

Kris nĂŁo disse nada. Apenas apertou minha camisa e encarou o fantasma. Ele ficou em silĂȘncio por um momento, atĂ© que uma carranca surgiu em seus lĂĄbios.

— Isso não vai servir, Kris Argent. Não posso aceitar o Senhor Cauteloso porque já concordei em deixá-lo partir.

— Hã? — disse eu.

O que essa raposa estava falando?

— H-Hããã?! — gaguejou Kris antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. — Como assim?! Senhor?!

Então ela estava pensando a mesma coisa que eu. Engraçado como eståvamos exatamente na mesma pågina.

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— Estou explicando para vocĂȘ que nĂŁo posso pegar o que vocĂȘ mais valoriza — disse o fantasma. — Ele estĂĄ protegido pelas regras.

— E-E-Ele Ă© o que eu mais valorizo?! Nem ferrando! Senhor!

— Ah, nĂŁo, eu tenho certeza. NĂŁo adianta tentar me enganar, pois consigo ler os coraçÔes das pessoas. NĂŁo importa se vocĂȘ percebe isso ou nĂŁo, vocĂȘ valoriza o Sr. Cautela. E o Sr. Cautela nĂŁo tem nenhuma cautela.

Kris rapidamente se afastou de mim. Seu rosto estava vermelho até as orelhas e suas mãos ficaram brancas de tanto apertar o cajado.

Bem, isso é um pouco embaraçoso. Nunca imaginei que Kris me valorizasse.

— N-NĂŁo fique tĂŁo feliz! Senhor! Isso Ă© sĂł porque ninguĂ©m que eu conheço estĂĄ aqui! Senhor!

— Entendo — respondi. — EntĂŁo sou mais importante para vocĂȘ do que o imperador.

Kris começou a tremer, seu rosto corado enquanto batia o cajado no chão.

Isso foi ainda mais revigorante depois de ser repreendido por um deus. Kris estava sempre me chamando de fraco humano. Eu nĂŁo tinha ideia de como poderia ter conquistado algum ponto com ela. Talvez estar no mesmo clĂŁ tenha ajudado a inflar os nĂșmeros?

IrmĂŁo Raposa pareceu pensar no assunto por um momento antes de suspirar.

— Suponho que nĂŁo tenha escolha. Sr. Cautela, pegarei o que vocĂȘ mais valoriza. No entanto, para compensar minha grave violação das regras, deixarei vocĂȘ e todos os seus companheiros irem.

EntĂŁo Ă© isso, hein?

Eu nĂŁo sabia se deveria ou nĂŁo considerar esses termos favorĂĄveis, mas havia uma coisa que eu queria confirmar.

— E o que aconteceria se o que eu mais valorizo fosse a Kris, o imperador ou outra pessoa?

Ainda com o rosto vermelho, Kris prendeu a respiração.

— EntĂŁo nĂŁo haveria nada que eu pudesse fazer. Seria minha derrota — disse o fantasma, dando de ombros. — Eu deixaria vocĂȘ e seu grupo irem. Afinal, Ă© uma troca justa.

Agora eu sabia que tinha vencido. No inĂ­cio, eu nĂŁo fazia ideia do que era mais importante para mim, mas Kris mudou isso.

É ela. Kris Ă© o que eu mais valorizo. Desculpe, mas o imperador fica em segundo. Eu sei, estou falhando na minha missĂŁo.

Mas talvez tudo isso fizesse parte dos planos do Irmão Raposa? Eu tinha certeza de que ele queria a cauda. Talvez por isso tenha começado a negociar com Kris. Ele sabia que não poderia tomar dela, o que lhe daria uma desculpa para pegar de mim e, assim, recuperar a cauda.

Mas ninguém sairia ganhando se ele pegasse a Kris. A cauda era um pedaço de mana que poderia ser usado com grande efeito, mas eu não me importava com isso. Do jeito que as coisas estavam, eu ia acabar entregando algo que nem precisava.

Respirei fundo, fechei os olhos e rezei.

Essa cauda Ă© o que Ă© importante para mim. É o que eu mais valorizo, muito mais do que a Kris. Muito mais? Ok, talvez sĂł um pouco mais. É bem valiosa e tem um brilho bonito. Eu tambĂ©m gosto das orelhas que aparecem quando ela se anexa a vocĂȘ. Se ao menos a Lucia nĂŁo me socasse toda vez que eu as tocasse…

Abri os olhos. Vi o Irmão Raposa com a mesma expressão problemåtica de um minuto atrås. Para minha decepção, parecia que ele não ia levar a cauda.

— Entendo — declarou o fantasma. — Parece, Sr. Cautela, que o que vocĂȘ mais valoriza Ă©… um tapete. Talvez soe estranho vindo de mim, mas vocĂȘ estĂĄ bem da cabeça?

E assim, fiz o que me pediram e entreguei obedientemente. Eu não tinha escolha. Estava tão nervoso que achei que meu coração fosse explodir do peito. De cabeça baixa, vi o fantasma enrolar o item e segurå-lo ao lado do corpo.

— E agora nossa troca está completa — disse o Irmão Raposa. — Espero que tenha aprendido sua lição e nunca mais volte aqui.

— Eu nĂŁo estou aqui porque quero. Foram vocĂȘs que cruzaram meu caminho.

Eu dizia isso com toda sinceridade, mas o fantasma deu de ombros, como se nĂŁo acreditasse em mim.

— Não faz diferença — disse ele.

Não importava o quanto ele dissesse que suas trocas eram justas, a ideia deles de justiça não era a mesma que a nossa. O que ele realmente obedecia eram as regras do cofre do tesouro. No entanto, essas regras não se aplicavam a nós, apenas ditavam o comportamento dos fantasmas. Por exemplo, se eu tivesse força suficiente, poderia derrotå-los e escapar sem entregar nada. Mas, é claro, isso era um ponto discutível.

Não houve despedidas. O mundo simplesmente voltou ao normal e o fantasma desapareceu. Diante de mim, um dos corredores da aeronave surgiu. Era como se o cofre tivesse sido apenas uma ilusão. Lå fora, o céu estava azul e sem nuvens. Assim que tive certeza de que havíamos saído do Peregrine Lodge, suspirei aliviado.

Com perdas mínimas, sobrevivemos a algo do qual poucas pessoas saem vivas. No entanto, tivemos um trågico sacrifício na forma de um certo tecido. Eu não sabia o que aconteceria com aquele cofre do tesouro daqui para frente, mas se continuassem no ar, provavelmente nunca nos encontraríamos de novo. Só me restava rezar para que essa suposição estivesse correta.

Enquanto eu olhava pela janela, senti uma mĂŁo se apoiar nas minhas costas, que sem dĂșvida pareciam pesarosas. Era Kris. A cor havia voltado ao seu rosto e ela nĂŁo parecia mais nauseada.

— O-O que vocĂȘ estava pensando lĂĄ atrĂĄs?! Senhor?!

Eu tinha feito algo ruim para ela. Mas eu realmente pensei que ela fosse o que eu mais valorizava. No fim, acabou sendo o meu tapete, algo que nem passou pela minha cabeça. As habilidades de leitura mental daquele fantasma eram extraordinårias.

— Ei, calma. Aquilo definitivamente foi um esquema para nos separar!

— VocĂȘ acha que eu sou idiota? Senhor?! Pode parar de brincar com fogo?!

Eu nĂŁo achava que ela era idiota, mas realmente me sentia mal pelo que aconteceu. Tinha vĂĄrias coisas para me desculpar e queria fazer o possĂ­vel para compensĂĄ-la.

— Mas, Kris, agora nĂŁo Ă© hora de brigar. Precisamos garantir que o imperador esteja bem. Aquele fantasma nĂŁo mentiria para nĂłs, mas qualquer caçador de primeira linha ainda assim iria querer ter certeza.

— Se vocĂȘ nĂŁo levar isso a sĂ©rio, eu vou te bater.

Seguindo o mapa na minha cabeça, voltamos para a sala anterior. Cavaleiros, administradores, servos, magos—todo tipo de gente estava desmaiada pelos corredores. Essas pessoas provavelmente nĂŁo foram vĂ­timas dos fantasmas, mas sim de Telm. Kris correu atĂ© uma delas, verificou o pulso, observou os olhos e escutou os batimentos cardĂ­acos.

— Eles estão vivos — murmurou. — Eles ainda estão vivos. Senhor, eu não entendo.

A magia de Telm estava entre as melhores que existiam. Eu não conseguia entender como alguém poderia ser atingido por um de seus feitiços e sobreviver por tanto tempo.

— Ah, será que foi o material de mana, senhor?

Isso explicaria muita coisa. O material de mana fortalecia os corpos. Se vocĂȘ quisesse se aprimorar de uma forma especĂ­fica, podia fazĂȘ-lo. Fosse em poder mĂĄgico, força ou a habilidade de proteger pessoas, vocĂȘ obtinha o que desejava. Se fosse absorvido por alguĂ©m Ă  beira da morte, esse alguĂ©m agarraria a vida com mais força. Essas mudanças geralmente demoravam para surtir efeito, mas com a extrema concentração de mana na Peregrine Lodge, qualquer coisa era possĂ­vel.

E por que exatamente eu nĂŁo estava sendo afetado, se atĂ© civis estavam sendo fortalecidos? Era possĂ­vel que o fantasma tivesse feito algo. Ele disse que nos mandaria de volta ilesos. Se alguĂ©m tivesse morrido dentro do cofre do tesouro, dificilmente poderia ser considerado “ileso”. Mas agora que havĂ­amos saĂ­do do cofre, eu nĂŁo tinha como saber com certeza. Preferi encarar isso como um golpe de sorte.

Quando chegamos Ă  sala, ela continuava do mesmo jeito que a deixamos.

— VocĂȘ voltou, Mil Truques — disse o imperador ao me ver. Enquanto todos pareciam Ă  beira da morte, ele ainda mantinha sua dignidade. NĂŁo era Ă  toa que estava no topo do impĂ©rio. — VocĂȘ resolveu a situação lĂĄ fora?

Meus olhos percorreram a sala e deixei escapar um suspiro de alĂ­vio. AtrĂĄs do imperador estava meu Tapete Marginal.

Ótimo. NĂŁo perdemos ninguĂ©m.

Tremendo, Kris sussurrou ameaçadoramente no meu ouvido:

— SĂ©rio, pare de brincar com fogo. E se vocĂȘ tivesse falhado, senhor?

O fantasma sĂł mencionou um tapete. Ter comprado aquele outro tapete como companheiro para minha RelĂ­quia valeu muito a pena.

***

Que criaturas misteriosas os humanos sĂŁo. Especialmente aquele jovem imprudente. O nĂșmero dois da Peregrine Lodge era o IrmĂŁo Raposa. Em nome da grande MĂŁe Raposa, ele era responsĂĄvel por boa parte do que acontecia no cofre.

Ele analisava atentamente o tapete azul. Humanos valorizavam todo tipo de coisa diferente. Alguns davam valor a objetos, outros à vida de alguém, e alguns escolhiam memórias. Mas com tantos aliados e um rabo da Mãe Raposa, o Irmão Raposa não conseguia entender como um tapete poderia ser o que aquele homem mais prezava.

Humanos raramente entravam na Peregrine Lodge, e ninguĂ©m havia entrado desde a Ășltima visita daquele homem, o que significava que essa era a primeira confiscação do IrmĂŁo Raposa. O EspĂ­rito Nobre ao lado do Sr. Cautela tinha valores bem razoĂĄveis que ele conseguia compreender, o que sĂł reforçava sua crença de que havia algo errado com aquele homem.

Ele estava começando a se perguntar se o tapete era uma relíquia de família ou algo assim quando seus olhos se arregalaram.

— Fui enganado.

Esse nĂŁo era o verdadeiro. Ele sabia. Era de fato um tapete, mas nĂŁo um que tivesse significado para o Sr. Cautela. O IrmĂŁo Raposa havia sido passado para trĂĄs. Soltou um suspiro de desprezo. A aeronave jĂĄ havia sido liberada. Ele havia perdido—perdido um jogo de inteligĂȘncia. Jamais imaginou que aquele homem lhe entregaria uma falsificação.

Ainda assim, o humano nĂŁo havia trapaceado. Foi um jogo justo de gato e rato, uma batalha justa de astĂșcia. Era sua primeira tentativa, entĂŁo o IrmĂŁo Raposa ainda estava aprendendo o jogo, mas isso nĂŁo mudava o fato de que ser enganado tornava sua derrota incontestĂĄvel. Ele nĂŁo tinha permissĂŁo para se vingar. Na verdade, como perdedor, deveria compensar o vencedor, assim como a MĂŁe Raposa ofereceu um de seus rabos.

Agora, o Irmão Raposa tinha certeza—aquele humano era ardiloso. Sua falta de cautela só o tornava ainda mais difícil de lidar. Envergonhado por seus erros, o Irmão Raposa começou a planejar seu próximo passo.

Ele precisava de uma estratégia. Para alguém entrar na Peregrine Lodge duas vezes em tão pouco tempo era anormal. Talvez aquele homem tivesse uma sorte terrível, ou talvez possuísse poderes que superavam os da Peregrine Lodge. Embora ele não demonstrasse hostilidade, o Irmão Raposa não gostava da ideia de continuar no céu. Ao mesmo tempo, também não queria ir para um lugar além do alcance dos humanos. Foi a falta de conhecimento sobre os humanos que levou à derrota de seu irmão mais novo. Ele teria que encontrar um equilíbrio delicado.

Sua mĂŁe, sua irmĂŁ mais nova, ele mesmo—todos haviam perdido. A Ășnica coisa que trazia algum consolo era o fato de que a aeronave humana, sem dĂșvidas, iria cair. Seus sistemas de propulsĂŁo haviam sido destruĂ­dos. O Ășnico motivo de ainda estar no ar era porque fora segurada pela Peregrine Lodge. Agora que fora liberada, voltaria a ser governada pela gravidade.

Aquele homem havia levado um dos rabos da Mãe Raposa. O Irmão Raposa não estava ressentido, mas também não era indiferente. O Sr. Cautela era um indivíduo fascinante, mas não alguém que os fantasmas fossem obrigados a salvar. Afinal, os fantasmas da Peregrine Lodge eram presos às suas regras.

Com um leve farfalhar, o Irmão Raposa dissolveu-se no ar. Ainda precisava coletar a compensação daqueles dois que haviam sido deixados para trås.

***

EntĂŁo a aeronave começou a tremer de repente e inclinou-se para baixo. Franz rolou pelo chĂŁo inclinado. O Ășnico que estava confortĂĄvel ali era eu.

— Droga! Estamos caindo! Senhor! — gritou Kris.

Meu mundo balançou. Os móveis estavam presos ao chão — as pessoas, não. Eu nunca entendi como estávamos voando para começo de conversa, mas isso não significava que eu queria ver a gente caindo. Nem todos os passageiros haviam sido tratados ainda. Todos estavam vivos, mas apenas alguns poucos conseguiam se mover.

— Kris, vocĂȘ consegue lançar alguma magia ou algo assim para nos salvar? — perguntei.

— Não! Magia não faz tudo! Senhor!

Causar um tumulto nĂŁo adiantaria nada, entĂŁo me sentei no chĂŁo trĂȘmulo. EntĂŁo Ă­amos cair. Com meus AnĂ©is de Segurança e Tapete Voador, minha vida nĂŁo estava em risco, mas todo o resto estava ferrado. O mana material podia fazer coisas incrĂ­veis com as pessoas, mas vocĂȘ ainda precisaria ser tĂŁo resistente quanto Ansem para sobreviver a uma queda dessas. Sem falar que muitos dos passageiros eram civis.

— Acha que vocĂȘs conseguem sobreviver a isso? — perguntei a Franz.

— Como diabos conseguiríamos?!

Até sua resposta sarcåstica era direta.

— Não dá! — disse um dos tripulantes ao entrar na sala. — Todos os paraquedas foram destruídos!

Telm realmente sabia o que estava fazendo. Se ao menos eu pudesse voltar no tempo e escolher outra pessoa


— Se vocĂȘs pularem bem na hora do impacto, talvez consigam sobreviver — sugeri. Eu nĂŁo estava falando completamente a sĂ©rio, mas todos os cavaleiros ficaram pĂĄlidos como fantasmas.

— Mil Truques — disse Franz, se arrastando pelo chĂŁo —, vocĂȘ precisa salvar Sua Majestade Imperial!

— VocĂȘ Ă© uma pessoa melhor do que parece — falei.

— Vou te matar!

— Agora, agora, calma aí. Ainda temos tempo. Talvez meus poderes mágicos despertem. Talvez a gente caia na água.

— Estamos no deserto!

— Ah, jĂĄ sei! Temos camas nesta nave, certo? VocĂȘs podem amarrar mĂŁos e pĂ©s em um lençol e planar como um esquilo voador!

— VocĂȘ tĂĄ falando sĂ©rio?! Senhor?!

Minha ideia genial foi rejeitada. Aposto que todo mundo em Grieving Souls teria tentado.

Levantei-me e olhei pela janela. Jå dava para ver o chão nitidamente. Como Franz havia dito, eståvamos sobre o deserto. Não sabia quanto tempo restava até o impacto, mas provavelmente era questão de minutos.

— Essa areia parece bem macia — comentei.

— NĂŁo tem realmente nada que vocĂȘ possa fazer?!

— VocĂȘs realmente nĂŁo deviam depender tanto de mim. Honestamente, eu disse que a nave podia cair.

Continuei tentando lançar um feitiço para transformar a aeronave em um påssaro, mas o plano não estava dando certo. Enquanto isso, senti alguns olhares bem intensos sobre mim. Não era fåcil ser um artífice pré-humano.

Decidi que minha prioridade seria colocar o imperador e a princesa imperial no Tapete. Mas, se o imperador pudesse usar os AnĂ©is de Segurança, talvez eu devesse ter dado um para ele? Kris era uma Nobre nada frĂĄgil, entĂŁo saberia se virar. O resto
 teria que pular no Ășltimo segundo. A parte superior da aeronave era um balĂŁo, e embora eu nĂŁo tivesse provas para sustentar isso, sentia que eles poderiam sobreviver dependendo de onde caĂ­ssem. Ou talvez eu estivesse sĂł me iludindo.

Então meu olhar se voltou para a janela e meus olhos se arregalaram. Do lado de fora estavam os espectrolençóis. Eles não estavam mais usando lençóis de verdade, mas estavam voando em uma pipa ridiculamente grande. Parece que conseguiram evitar serem sugados para o cofre do tesouro.

Sorri e estalei os dedos com confiança.

— Bem, acho que posso dar uma mãozinha já que chegamos a esse ponto.

Lucia! Levanta essa nave com sua magia! Se alguĂ©m pode fazer isso, Ă© vocĂȘ! Essa coisa Ă© basicamente um balĂŁo gigante! Eu nunca vou te pedir mais nada, sĂł salva essa nave! LUCIAAA!

— Uaaah!

A nave sacudiu violentamente. Os mĂłveis estavam fixos no chĂŁo, mas caixas e utensĂ­lios foram arremessados. Todos se agarravam desesperadamente em cadeiras e mesas. Franz protegia o imperador. Por toda parte, via rostos de pessoas preparadas para morrer. A Ășnica que parecia confortĂĄvel era a princesa imperial, que estava no Tapete. Como eu a invejava. O Tapete nĂŁo havia me aceitado, mas ela? Bem, para ser justo, a princesa imperial ainda era uma criança.

Então a nave foi atingida por um golpe excepcionalmente forte, como se tivesse sido acertada por uma onda gigante. Ouvi vidro se quebrando, o tremor continuou e, então, tudo ficou silencioso. Não sentia mais a sensação de estar flutuando no ar. Por um momento, fiquei no chão observando a situação, mas parecia que nenhum outro impacto viria. Cambaleei um pouco ao me levantar. Respirei fundo.

Estamos vivos. ESTAMOS VIVOS!

O interior estava um caos. Acho que os cavaleiros nunca haviam passado por uma queda antes; nĂŁo conseguiram lidar com a turbulĂȘncia violenta e estavam todos empilhados em um canto. Mas, pelo menos, estavam vivos. Pressionando as mĂŁos no chĂŁo, o imperador se ergueu. Ouvi um gemido de Franz.

Kris e os outros magos haviam lançado um feitiço para absorver o impacto antes da queda. No Tapete, a princesa imperial estava segura, embora um pouco abalada. O tapete (de alguma forma) me fez um joinha. Que Relíquia competente eu tinha ao meu serviço. Muitas pessoas estavam feridas, mas considerando a altura da queda, esse era um ótimo desfecho.

— O-O que aconteceu? — perguntou Kris, ofegante. Segurando o braço — devia ter batido nele —, abriu os olhos. Seu olhar estava vago e desfocado, sua voz nĂŁo tinha o vigor de sempre. Parecia atĂ© uma amadora em sobreviver a quedas.

Nessas situaçÔes, se vocĂȘ abrir os olhos, sĂł vai ficar mais tonto, entĂŁo Ă© melhor mantĂȘ-los fechados. TambĂ©m ajuda se agachar e cobrir os ouvidos. Chamamos isso de “evitar a realidade”.

Com cautela, estendi a mĂŁo por uma janela quebrada e toquei a areia. Senti o calor intenso do sol. Com tantas pessoas feridas, eu nĂŁo podia simplesmente ficar parado. Respirei fundo e saĂ­.

Com cuidado para nĂŁo perder o equilĂ­brio na areia, deixei a sombra do grande casco. Engoli em seco ao ver nosso entorno. Diante de mim estava o deserto, mas havia mais do que sĂł areia entre nĂłs e o horizonte.

Através do ar ondulante, vi uma grande cidade a poucos centenas de metros de distùncia. Além de algumas årvores e uma muralha baixa, vi prédios brancos. Havia sombras no portão; com minha visão, pareciam apenas feijÔezinhos, mas eram provavelmente pessoas que tinham visto nossa queda.

Flutuando perto do portão, estava uma bandeira com cinco lanças sobre um fundo amarelo. Já haviam me mostrado essa bandeira antes de começar a missão de escolta — era a bandeira de Toweyezant.

Parece que caĂ­mos em um bom lugar. Nada de acampar dessa vez. Eu estava incerto sobre esse trabalho, mas, no fim, deu tudo certo. Assenti para mim mesmo e voltei para a nave para compartilhar as boas notĂ­cias.

— Ei, pessoal! Chegamos a Toweyezant!

Talvez ainda tonto, Franz esfregou as tĂȘmporas.

— Urgh. NĂŁo tenho mais nada para dizer para vocĂȘ — disse ele, com a voz arrastada.


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