Grieving Soul â CapĂtulo 3 â Volume 6
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 06
CapĂtulo 3: Protegendo o Imperador
EntĂŁo o dia chegou. Sitri, estranhamente animada, me entregou meu equipamento de viagem. Com o controlador em uma mĂŁo, Sir Matadinho VersĂŁo Alpha e o Tapete me seguiram enquanto eu me arrastava para fora da casa do clĂŁ.
Seguimos em direção Ă Associação dos Exploradores, onde nos encontrarĂamos com os outros caçadores. O sol estava apenas surgindo no horizonte e a capital imperial ainda estava fria. Caminhar por aquelas ruas me fazia sentir como se estivesse descendo uma escadaria para o inferno.
O primeiro rosto que vi na Associação foi o de Kechachakka Munk. Ele era um homem pequeno e parecia ter as costas curvadas. Todo o seu corpo, exceto o rosto, estava oculto sob um manto negro. Ao seu lado estava o que eu supus ser sua arma: um cajado com um crùnio na ponta.
Parei imediatamente, incapaz de processar o que estava vendo. Caçadores eram um grupo individualista, mas esse cara definitivamente parecia suspeito.
â Hee hee hee hee, Ă© vocĂȘ, Mil Truques? â ele disse ao me ver. â NĂŁo sei onde vocĂȘ ouviu falar de mim, mas… hee hee hee.
Sua risada me incomodou.
NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo. Isso nĂŁo vai dar certo. Estamos protegendo o imperador. Esse cara ao menos sabe disso?
Me disseram que eu podia escolher quem quisesse, mas isso era realmente forçar a barra. Como eu poderia explicar isso? Por que esse cara estava na lista que Kaina me deu?
Apontei para sua arma. â Onde vocĂȘ comprou esse cajado? â perguntei, sem ter ideia do que dizer.
â Hee hee hee.
â Belo traje. Perfeito para uma missĂŁo de escolta.
â Hee hee hee. Hee hee. Hee hee.
Para o meu terror, minhas tentativas de comunicação falharam. Eu simplesmente nĂŁo conseguia me imaginar virando amigo desse cara. E que ousadia de roupa para uma missĂŁo de escolta! Me arrependi de nĂŁo ter conhecido esse sujeito antes. Ele era, sem dĂșvida, a pimenta preta amarga do nosso espaguete na parede. Talvez ele fosse tĂŁo suspeito que ninguĂ©m sequer o achasse suspeito de verdade?
Seja como for, eu não tinha escolha senão deitar na cama que arrumei para mim. Assim que soltei um suspiro, a porta da Associação se escancarou.
â A audĂĄcia de me escolher para esse trabalho e depois me fazer vir atĂ© aqui! Senhor! Se vai me pedir um favor, ao menos venha me buscar…
Fiquei grato pela voz cristalina que dissipou a tensĂŁo constrangedora. Kris era uma Maga, assim como Kechachakka, mas sua roupa nĂŁo poderia ser mais diferente da dele. A aparĂȘncia dos EspĂritos Nobres era bem distinta da dos humanos. Seu cajado era feito de madeira retorcida, seus shorts eram apropriados para a vida na floresta, e ela tinha um chamativo cabelo prateado que quase tocava o chĂŁo.
Sem dar a mĂnima para Kechachakka, Kris olhou para mim e sua bochecha começou a tremer.
â Qual o significado dessa roupa?! Senhor! Isso Ă© um trabalho sĂ©rio, nĂŁo um lugar para camisas estampadas! Se vai me arrastar junto, ao menos se vista adequadamente. Por associação, vocĂȘ estĂĄ me fazendo parecer mal. Ă humilhante!
â HĂŁ? NĂŁo, veja bem, isso Ă© uma poderosa RelĂquia…
Kris gemeu de vergonha. Olhei para minha camisa-tipo-RelĂquia com seu padrĂŁo berrante e a comparei com Kechachakka. Talvez eu estivesse mais deslocado do que ele? Mas nĂŁo havia um cĂłdigo de vestimenta nem nada. Tudo ficaria bem.
Levei minha equipe até o local combinado. Perto dos portÔes da capital imperial havia uma grande carruagem ostentando o selo do império. Não parecia que o imperador havia chegado ainda.
â Ela Ă© feita de mithril e adamantina. Nenhuma espada, arma de fogo ou feitiço funcionarĂĄ contra ela â informou Franz com uma voz sĂ©ria. Parecia que ele seria o responsĂĄvel por garantir a segurança do imperador.
Ambos os materiais mencionados eram usados em armas e armaduras. O mithril era eficaz contra magia, enquanto a adamantina era impenetrĂĄvel a qualquer ataque fĂsico. O preço dessa resistĂȘncia era o peso extremo da adamantina. Somente classes corpo a corpo podiam usĂĄ-la com eficiĂȘncia, e eu definitivamente nĂŁo esperava que alguĂ©m a utilizasse em uma carruagem.
Uma carruagem assim não poderia ser puxada por cavalos comuns, e quando verifiquei a frente, vi quatro mustangs de platina, exatamente como aqueles que Eva tentou me dar para minha viagem de férias. Se a carruagem estava sendo puxada por essas bestas violentas e robustas, nenhum monstro deveria se aproximar. Era exatamente o tipo de defesa inquebråvel necessåria para manter o imperador seguro.
â Mas, sabe, morreremos se um vulcĂŁo entrar em erupção bem debaixo de nĂłs â observei.
NĂŁo recebi resposta.
â TambĂ©m morreremos se formos atingidos por um raio â continuei.
â Para de agourar! â gritou Franz. â Se o pior acontecer, Sua Majestade Imperial estĂĄ equipado com AnĂ©is de Segurança!
Era exatamente o que se esperaria do governante de um grande império, defesas perfeitas.
Assenti e entĂŁo falei em um tom sĂ©rio. â Bom saber. Posso perguntar quantos AnĂ©is de Segurança?
Nenhuma resposta.
â Mas, sabe, ele pode morrer se ficar sem oxigĂȘnio.
Ouvi um leve som de irritação.
â Ele tambĂ©m pode morrer se se afogar.
â SilĂȘncio. Isso nĂŁo Ă© um dos seus cofres do tesouro! JĂĄ garantimos a segurança do nosso caminho. AtĂ© mesmo reduzimos o nĂșmero de bandidos!
Eu na verdade nunca fui a esses cofres do tesouro, mas considerando com o que estĂĄvamos lidando, tudo era possĂvel. Eu jĂĄ havia escapado das garras daquele fantasma uma vez, mas nĂŁo achava que teria sorte duas vezes seguidas.
O Tapete bateu contra mim. Virei na sua direção e o vi fazendo um gesto de ombros. Parecia compartilhar meu cansaço.
Ei, nĂŁo se mova tanto assim. Vai gastar sua carga.
â E vocĂȘ poderia me explicar essa vestimenta?! â Franz apontou para mim, vermelho de raiva. â Isso nĂŁo Ă© uma viagem de lazer!
â Isso faz parte do meu estilo de lutaâ
â VocĂȘ espera que eu acredite nisso?! Que tipo de estilo de luta poderia ser esse?!
A RelĂquia que eu usava era a Perfect Vacation. Como o nome sugeria, ela tornava qualquer fĂ©rias perfeitas. Havia muitas RelĂquias defensivas, mas eu nunca tinha visto uma tĂŁo Ăștil quanto essa camisa incrivelmente adaptĂĄvel. Ela praticamente nĂŁo oferecia proteção, mas seu usuĂĄrio podia ficar perfeitamente confortĂĄvel, estivesse no cĂ©u, no oceano, em uma montanha ou no fundo do mar.
AlĂ©m das cores chamativas e do fato de que nĂŁo dava para usar nada por cima dela, era absurdamente confortĂĄvel. Com isso e anĂ©is de segurança suficientes, eu ficava bem. Me perguntava que tipo de era cruel havia criado um item como esse. Segundo rumores, ela fazia parte de uma sĂ©rie que tambĂ©m incluĂa sandĂĄlias e Ăłculos de sol, mas, infelizmente, eu nĂŁo tinha esses. Eu queria levar essa RelĂquia comigo nas fĂ©rias, mas, na Ă©poca, ela estava sem mana.
â Certo â disse Franz a contragosto. â Caçadores nĂŁo precisam se preocupar com etiqueta. VocĂȘ estĂĄ aqui apenas como um seguro contra o pior cenĂĄrio possĂvel. NĂŁo preciso lembrĂĄ-lo de que, se algo acontecer com Sua Majestade Imperial, as consequĂȘncias serĂŁo sentidas muito alĂ©m das fronteiras de Zebrudia.
â Ă claro que eu entendo â respondi. â Mas, se eu fosse o imperador, nĂŁo teria escolhido alguĂ©m com tantos inimigos quanto Krai Andrey para ser minha escolta.
Eu tinha um azar desgraçado e liderava um grupo que metia medo em vĂĄrias organizaçÔes criminosas â era bem possĂvel que eu tivesse mais inimigos do que o prĂłprio imperador. E eu nĂŁo estava cercado por guardas, entĂŁo era um alvo muito mais fĂĄcil. No entanto, esse trabalho nĂŁo era de todo ruim. Eu tinha o Tapete Voador, e mal podia esperar para brincar mais um pouco com ele.
Pensando pelo outro lado, atacar-me durante essa missĂŁo seria equivalente a cometer traição contra o impĂ©rio. Isso poderia nĂŁo significar muito para os espectros, mas era o suficiente para desencorajar organizaçÔes criminosas. Mesmo que tentassem, eu tinha os melhores cavaleiros do impĂ©rio e o nĂșmero dois da Maldição Oculta ao meu lado.
Levando em conta a reputação dos cavaleiros, eu bolei uma desculpa de alto nĂvel. â SĂł para deixar claro, eu confio plenamente em vocĂȘ e nos seus cavaleiros â falei para Franz. â Se tentĂĄssemos ajudar na luta, sĂł atrapalharĂamos. NĂŁo pretendo me envolver mais do que o necessĂĄrio.
Franz franziu a testa. â Muito bem â disse em um tom arrogante. â Vamos ficar prĂłximos de Sua Majestade Imperial. AlĂ©m dos cavaleiros, temos Magos e ClĂ©rigos entre nĂłs. Fiquem fora da vista de Sua Majestade Imperial e se certifique de dizer isso aos seus camaradas esquisitos.
Que jeito rude de falar, mas o que eu podia fazer? Com certeza havia algo de errado com Kechachakka.
â Beleza, deixando com vocĂȘs.
â Preparamos cavalos â disse Franz, apontando para cinco cavalos negros robustos e selvagens. â Seu grupo pode se espalhar e proteger o perĂmetro externo. E lembrem-se, eu disse para ficarem fora da nossa vista, mas isso nĂŁo significa que podem negligenciar suas funçÔes. NĂŁo me agrada dizer isso, mas Sua Majestade Imperial espera muito de vocĂȘs.
As montarias eram mustangs de ferro, uma excelente escolha para cavalos de guerra. Nenhuma despesa estava sendo poupada se atĂ© os caçadores da escolta estavam recebendo montarias de tĂŁo alto nĂvel. SĂł havia um problema: nĂŁo eram cavalos que podiam ser montados sem prĂĄtica, e ainda tinham o pĂ©ssimo hĂĄbito de nĂŁo deixarem fracos montĂĄ-los. E eu nĂŁo sabia montar a cavalo.
Justo quando eu estava me perguntando o que fazer, o Tapete veio até mim, como se dissesse para deixar tudo com ele. Que camarada confiåvel.
â NĂŁo preciso de um cavalo, tenho meu Tapete â falei para Franz.
â Faça como quiser, sĂł nĂŁo atrapalhe. â Ele deu de ombros e encerrou a conversa ali.
No instante em que voltei para o meu grupo, fiquei extremamente preocupado com o que nos esperava.
â Hee hee hee. Hee hee hee…
â Humano fraco! NĂŁo me deixe sozinho no meio dessa gente! Senhor!
â Matar, matar.
O Ășnico membro do grupo que parecia decente sorriu e seus ombros tremiam de diversĂŁo. â Hmm. Essa seleção eclĂ©tica sugere que seu apelido nĂŁo Ă© sĂł conversa. Fico feliz de ter a chance de testemunhar o trabalho do mais jovem NĂvel 8.
Ele era alto, com cabelo grisalho penteado para trĂĄs. Seu porte era sereno, mas ainda havia um brilho afiado nos olhos. NĂŁo carregava um cajado, mas em ambos os pulsos usava pulseiras adornadas com gemas azul-profundo.
Diferente dos corpos, a mana nĂŁo se deteriora com o tempo, entĂŁo os Magos tendem a ficar mais fortes Ă medida que envelhecem. Mesmo com a idade que tinha, Telm Apoclys, o Contra-Cascata, mantinha-se fiel ao seu posto como um NĂvel 7. O membro mais famoso do renomado clĂŁ de Magos da Maldição Oculta nĂŁo era outro senĂŁo o Inferno Abissal, mas Telm ainda era conhecido por seu status como o segundo em comando.
De acordo com rumores, ele jĂĄ fora rival do Inferno Abissal, e eles haviam brigado pelo posto de mestre do clĂŁ. Mas o homem Ă minha frente parecia muito tranquilo para isso. Se a escolha fosse minha, teria escolhido Telm em vez da velha. Mas acho que escolheria a velha se estivesse indo para a guerra.
âDesculpe chamar vocĂȘ com tĂŁo pouca antecedĂȘncia, mas eu precisava da sua ajuda⊠â disse eu, tentando bajulĂĄ-lo.
Telm simplesmente levantou a mĂŁo. â NĂŁo me importo nada. Estou aqui por ordem de Rose. NĂŁo precisa me pedir desculpas quando vocĂȘ Ă© o lĂder aqui.
â Hee hee hee.
â Matar? Ma-tar? MAA-TAR?
Eu nĂŁo achava que importava quem estava no comando; esse grupo parecia uma mistura de pessoas jogadas ali para testar quem fosse maluco o suficiente para tentar.
â Fique de pĂ© direito! Senhor! â gritou Kris. â VocĂȘ estĂĄ me fazendo passar vergonha, sua subordinada. Devo assumir o comando por vocĂȘ?!
âVocĂȘ faria isso por mim?
Com o rosto vermelho, Kris começou a gritar algo para mim, mas eu ignorei e comecei a explicar a todos sobre a missĂŁo Ă nossa frente. Mesmo quando mencionei os mustangs de ferro, ninguĂ©m demonstrou surpresa. Parecia que eu era o Ășnico sem confiança em montar um cavalo. Mas estava tudo bem, eu tinha algo muito melhor. O Tapete era um sujeito selvagem, mas bom de coração.
Mais pessoas haviam se reunido nos arredores. Fui informado de que irĂamos com o mĂnimo de pessoal, mas mover o imperador exigia mais do que uma ou duas carruagens. Nossa caravana incluĂa atĂ© as pessoas responsĂĄveis pela aparĂȘncia do imperador e os nobres que o acompanhariam na conferĂȘncia.
Eventualmente, o prĂłprio imperador apareceu, cercado por guardas. Ele deu uma olhada rĂĄpida em minha direção e, em silĂȘncio, subiu na carruagem impenetrĂĄvel. Sua guarda pessoal era composta por doze cavaleiros. NĂŁo que eles servissem de muito, caso houvesse uma erupção vulcĂąnica.
Sem se perturbar com a aparĂȘncia assustadora do mustang de ferro, Kris acariciou seu pescoço e subiu facilmente em suas costas. âNĂŁo Ă© um mal cavalo, para algo usado por humanos, â disse ela, com um tom um pouco alegre. â Isso poderia competir com nossos cavalos de casa! Senhor!
âEntĂŁo vocĂȘ sabe montar um cavalo?
âVocĂȘ acha que sou burra?! Senhor! NĂŁo hĂĄ um EspĂrito Nobre que nĂŁo saiba. Em casa, eu andava em um lindo unicĂłrnio…
Com uma risada estranha, Kechachakka subiu em um cavalo. Sem que eu precisasse usar o controle remoto, o Sir Killigan tambĂ©m montou um cavalo com facilidade. O mustang de ferro nĂŁo se mexeu nem um pouco, mesmo quando um homem grande e blindado (provavelmente) subiu em suas costas. Telm era um NĂvel 7, entĂŁo qualquer preocupação da minha parte teria sido apenas um insulto.
As carruagens começaram a se mover. Respirei fundo e disse ao Tapete: â Parece que Ă© hora de começarmos a nos mover.
O Tapete se deitou no chĂŁo e eu subi rapidamente. Ele disparou. A sensação de ausĂȘncia de peso era incrĂvel. Assim como ao usar o Caminhante Noturno, a paisagem passando virou um borrĂŁo. Se nĂŁo fosse pela RelĂquia Perfeita para FĂ©rias, eu teria dificuldade atĂ© para respirar.
Ă medida que avançava, o Tapete fez uma curva e, estranhamente, eu nĂŁo caĂ. Parecia que o Tapete foi feito para evitar que o cavaleiro caĂsse em quase todas as circunstĂąncias. Eu sĂł queria que tivesse mais recursos de segurança. Havia alguma regra que as RelĂquias de voo precisavam ser uma ameaça Ă vida de quem as usasse?
âAh, fraco humanoâ
Num piscar de olhos, ultrapassei meu grupo e, depois, as carruagens, deixando um rastro de gritos e exclamaçÔes. A sensação de velocidade era a melhor coisa do mundo. Tenho certeza de que teria sido ainda melhor se eu pudesse controlå-la.
Então, enquanto eu voava, bati nos portÔes da capital imperial, de cabeça. Antes de nossa jornada começar, eu jå havia morrido uma vez.
â VocĂȘ estĂĄ brincando comigo! Senhor! â gritou Kris. â Por que vocĂȘ tem que montar no meu cavalo? VocĂȘ trouxe isso para si mesmo!
Minha manobra de voo me rendeu bastante ira. Acho que era natural; os cavaleiros precisaram confirmar que eu estava bem, o que nos atrasou por duas horas. Honestamente, foi um milagre que nĂŁo tenha demorado mais. Parecia que o imperador estava realmente determinado a me manter como parte de sua comitiva.
â NĂŁo me pegue aĂ! NĂŁo pise no meu cabelo! Tenha respeito. Nenhum humano deveria ser autorizado a tocar em um EspĂrito Nobre! Mantenha distĂąncia o mĂĄximo possĂvel!
Depois disso, fui proibido de montar no meu Tapete Voador. Que pena. Eu estava tão empolgado para voar pelo céu. Maldito Tapete travesso.
â N-NĂŁo caia! Que NĂvel 8 cai de um cavalo?! Pra que vocĂȘ tem pernas? InacreditĂĄvel. VocĂȘ estĂĄ fazendo isso de propĂłsito? NĂŁo podemos nos dar ao luxo de atrasar mais. Aqui, vocĂȘ tem permissĂŁo para me tocar sĂł desta vez. Segure firme! Aah!
Depois de cair do cavalo duas vezes, gastei mais dois Anéis de Segurança. Ainda assim, continuei a andar com Kris. Jå causei caos suficiente nas nossas fileiras, então não queria bagunçar ainda mais as coisas.
Um mustang de ferro podia facilmente carregar duas pessoas magras como nós. Eu me senti patético tendo uma garota no comando do cavalo, mas não tive coragem de andar com um estranho como Telm ou Kechachakka. Andar com o Sir Killigan, que estava no Modo de Ação AutÎnoma, estava fora de questão. Não muito atrås, o Tapete Voador flutuava alegremente.
Pelo que eu sabia, praticamente todos os EspĂritos Nobres tinham cabelos longos para usĂĄ-los como catalisador de mana. O cabelo da Kris era bem cuidado e frio ao toque. Os EspĂritos Nobres mantinham uma temperatura corporal mais baixa que os humanos e, mesmo atravĂ©s do manto dela, eu sentia o frio irradiando. Mas com o poder do FĂ©rias Perfeitas, eu estava perfeitamente confortĂĄvel. Na verdade, estava atĂ© ficando com sono.
â Quando isso acabar, vocĂȘ vai contar pra Lucia o quanto eu fui Ăștil! O quanto eu fui gentil! Um EspĂrito Nobre normal jĂĄ teria te matado a essa altura!
â Eu sei. VocĂȘ estĂĄ sendo uma grande ajuda. Muito melhor que o Tapete.
â VocĂȘ continua me tratando como uma idiota!
Eu estava te elogiando. Além disso, espero que consiga carregar meus Anéis de Segurança depois.
Me agarrei com força e bocejei, o que só a deixou mais irritada.
***
Mais de cem homens estavam reunidos perto de uma estrada que cortava as planĂcies gramadas a oeste da capital imperial. Eles se escondiam nas sombras das ĂĄrvores altas e usavam equipamentos com padrĂ”es de camuflagem. Para qualquer um que passasse por ali sem muita atenção, seria impossĂvel notar tantos homens ocultos entre a vegetação.
Eles eram uma companhia mercenĂĄria â e uma das mais infames. Faziam trabalhos sujos para o submundo do crime e nĂŁo se diferenciavam muito de simples bandidos. Este trabalho nĂŁo era exceção; nĂŁo havia nada de correto em atacar carroças que levavam o selo do ImpĂ©rio Zerbrudiano.
Era um grande trabalho. Eles não sabiam quem estava pagando, mas a pessoa havia oferecido um pagamento generoso adiantado. Também era um trabalho simples. O trajeto e o horårio dos alvos jå haviam sido determinados; tudo o que precisavam fazer era executar o ataque.
Os alvos aparentemente eram pessoas importantes e estariam cercados de guardas, mas isso nĂŁo era problema para os mercenĂĄrios. Eles estavam bem informados e preparados. E, naquela vasta planĂcie aberta, nĂŁo haveria para onde os alvos fugirem.
Ainda assim, o lĂder da companhia nĂŁo parecia satisfeito. Uma careta se formou em seu rosto, sujo com ervas que mascaravam odores.
â O horĂĄrio marcado jĂĄ passou â ele disse ao homem ao seu lado. â Algo pode ter acontecido.
Esses homens eram veteranos no ofĂcio. Mesmo sob o sol escaldante, podiam esperar por horas escondidos na vegetação, mas manter o foco nĂŁo era tĂŁo fĂĄcil. Ainda mais preocupante, o batedor deles ainda nĂŁo havia retornado.
Eles jå tinham sido pagos pelo trabalho. Se houvesse alguma mudança nos planos, um sinal deveria ter sido enviado. Mas ninguém tinha visto nada até o momento.
Uma rajada repentina de vento fez a grama balançar.
â Vamos esperar mais uma hora, nĂŁo mais do que isso. Se eles nĂŁo aparecerem, pegamos nossas coisas e caĂmos fora.
Cansado da espera, um mercenĂĄrio prĂłximo soltou um bocejo. Esse tipo de descuido jamais deveria acontecer durante um trabalho.
O homem percebeu que foi flagrado.
â Desculpe, chefe. Eu estava ficando com sono â ele disse, sem jeito.
â Mais uma hora. Aguente firme.
â Sim, senhor.
Na experiĂȘncia do chefe dos mercenĂĄrios, se o alvo nĂŁo aparecesse depois de tanto atraso, raramente aparecia. O contratante parecia ser um sujeito esperto, mas sempre havia a possibilidade de algo inesperado ter acontecido. Talvez os alvos tivessem mudado de ideia. Os mercenĂĄrios tinham recebido informaçÔes sobre a rota poucas horas antes, mas havia inĂșmeros motivos para alguĂ©m alterar seus planos.
Foi então que ele notou uma sombra distante se aproximando. Não era o alvo, mas também não era o batedor deles. O esconderijo dos mercenårios ficava logo ao lado da estrada, então, se alguém estava indo direto para eles, possivelmente era um mensageiro enviado pelo cliente.
A figura parecia ser uma mulher. Ela tinha pele bronzeada e botas afiadas. Sua roupa leve sugeria que era uma Ladina. Com um gesto de mĂŁo, o chefe dos mercenĂĄrios sinalizou para seus homens ficarem em alerta enquanto sacava sua arma e se levantava.
A mulher parou a pouco mais de dez metros deles. Com olhos arregalados, encarou o homem.
â VocĂȘ Ă© uma mensageira? Mostre o sinal â exigiu o chefe dos mercenĂĄrios.
Havia mais de cem mercenĂĄrios escondidos na vegetação. Se alguĂ©m estivesse ali para atacĂĄ-los, era difĂcil imaginar que mandariam apenas uma Ășnica pessoa.
No entanto, a mulher de cabelos e olhos rosados simplesmente se virou e gritou:
â Siddy! Sua poção do sono nĂŁo foi suficiente! VocĂȘ tentou economizar ou algo assim? Foi vocĂȘ quem ficou me apressando! Temos que correr, o Krai Baby e o bando dele vĂŁo chegar logo!
â Hm?! Ei!
Ao sinal do chefe, todos os mercenĂĄrios se levantaram. Parecia que uma floresta inteira havia brotado na planĂcie. Mas a mulher misteriosa nĂŁo se abalou nem um pouco. Com calma, tirou uma mĂĄscara e a colocou no rosto. O chefe dos mercenĂĄrios deu um passo para trĂĄs. Ele conhecia aquele sĂmbolo â a mĂĄscara sorridente de caveira representava um grupo temido de caçadores.
Por um tempo, eles antagonizaram qualquer organização criminosa que puderam. Eram um grupo de lunĂĄticos. Apenas seis deles enfrentaram dezenas de organizaçÔes. E nĂŁo havia dĂșvidas de que aquela mulher diante deles era real, pois ninguĂ©m ousaria se passar por um grupo tĂŁo infame.
â Grieving Souls?! VocĂȘ sĂł pode estar brincando. Achei que eles estavam se escondendo â disse o chefe dos mercenĂĄrios, com a voz trĂȘmula.
â Desculpa, mas estou fazendo uma prova de tempo â respondeu a mulher, casualmente. â NĂŁo estou interessada nos seus nomes e nem sei quantos outros desgraçados como vocĂȘs eu ainda tenho que limpar.
Um rugido ensurdecedor surgiu atrås dos mercenårios. Gritos ecoaram entre a companhia, geralmente destemida. Parado ali, havia um cavaleiro gigantesco, coberto da cabeça aos pés em uma armadura cinza. Ele era vårias vezes maior que o chefe dos mercenårios. Sobre seu ombro direito, outra mulher de cabelo rosa espiava com um sorriso travesso.
â Lizzy! â ela gritou. â NĂŁo temos tempo para lidar com cadĂĄveres, entĂŁo nada de matar! Precisamos sair sem deixar rastros!
Isso era loucura. Os mercenårios estavam sendo tratados como tolos. Se os rumores valessem alguma coisa, então os Grieving Souls haviam acabado de adicionar um novo membro, totalizando sete. Atacar uma brigada mercenåria com apenas sete pessoas era absurdo. E, no entanto, o chefe dos mercenårios estava profundamente assustado. Aqueles caçadores não demonstravam o menor sinal de hesitação.
Um homem de cabelos vermelhos subiu no ombro esquerdo do cavaleiro.
â Liz! O mais forte Ă© meu, entĂŁo pode ficar com o resto! â ele gritou.
A mulher chamada Liz o ignorou e gritou para a outra pessoa de cabelo rosa.
â Nenhum desses desgraçados tĂĄ dormindo! VocĂȘ disse que usou uma poção do sono, nĂŁo disse?! EntĂŁo o que diabos aconteceu?! NĂŁo temos o dia todo! Lucy, sapos!
Eles nem estavam agindo como se estivessem prestes a entrar em uma batalha.
â Lucy, sapos, por favor! â disse a que estava no ombro direito. â Eu vou capturĂĄ-los todos e criĂĄ-los livres num labirinto!
â Uhh, Lucia, sapos! â disse a do ombro esquerdo.
O cavaleiro resmungou.
Nenhum deles parecia remotamente nervoso.
â NĂŁo voltem sempre pros sapos! â disse uma voz alta vinda de cima. â Eu jĂĄ falei, isso me deixa exausta!
Os mercenĂĄrios olharam para cima. LĂĄ, quase como uma pegadinha, eles viram uma pipa.
***
Depois de um pouco mais de meio dia de viagem tranquila, chegamos ao nosso primeiro ponto de parada. Isso nĂŁo era uma aventura, entĂŁo nĂŁo haveria acampamento ao ar livre. Segurança era a prioridade nĂșmero um, o que era um alĂvio para nĂłs, que estĂĄvamos na escolta. Graças ao Perfect Vacation, atĂ© a viagem a cavalo foi extremamente confortĂĄvel. Mas isso nĂŁo era o que mais me deixava aliviado.
â IncrĂvel. Nada aconteceu â comemorei, cerrando o punho.
â Eu ouvi certo?! â Kris gritou. â Por sua causa, nossa partida foi toda atrapalhada! Senhor! VocĂȘ tem que comprar um cavalo nesta cidade.
â Eu nĂŁo tenho dinheiro.
â O quĂȘ? O quĂȘ?!
Apesar dos gritos dela, eu estava completamente confortåvel, tudo graças ao Perfect Vacation. Só precisava lembrar de recarregå-lo.
â O que eu quis dizer foi que nĂŁo apareceram ladinos, nem monstros, nem tesouros amaldiçoados, nem fantasmas â falei, segurando Kris como me foi instruĂdo. â TambĂ©m nĂŁo houve desastres naturais. Isso Ă© inĂ©dito.
â HĂŁ? Isso Ă© sĂł um trabalho de escolta. Ă claro que nada disso aconteceu. Senhor.
â Bom, acho que algumas pessoas podem ver as coisas desse jeito.
Nada melhor do que nada acontecer. Que vida feliz ela deve levar.
â NĂŁo tente parecer pensativo! Senhor! â ela disse, notando meu olhar tranquilo. â Saiba o seu lugar!
Sem surpresa, a pousada preparada para nĂłs era luxuosa e voltada para nobres. O imperador e a guarda imperial tinham um andar inteiro para eles. Os outros guardas, incluindo meu grupo e eu, ficamos responsĂĄveis pelos andares inferiores.
Quando terminamos os preparativos, Franz se aproximou de mim, com uma expressĂŁo carrancuda.
â Passamos pelo primeiro dia sem incidentes. Talvez tenhamos assustado a Raposa.
â NĂŁo, nĂŁo, ainda Ă© cedo para relaxar â eu disse. â Quem sabe o que pode acontecer?
â AtĂ© agora, a Ășnica fonte de problemas tem sido vocĂȘ! NĂŁo banque o sĂ©rio com essas roupas ridĂculas! â O Carpete deu um tapinha nos ombros dele.
â NĂŁo faça isso! Eu vou te cortar! â ele rugiu para o Carpete.
Ele nunca aprenderia a se dar bem com o Carpete se se incomodasse tanto com essas pequenas coisas.
â SilĂȘncio. Senhor â Kris disse. Ela estava sentada ali perto, com as costas retas, bebendo chĂĄ graciosamente. â NĂŁo hĂĄ motivo para ficar tĂŁo irritado. Enquanto eu estiver aqui, o sucesso Ă© praticamente garantido. Se aparecer algo que seus cavaleiros nĂŁo possam lidar, podem deixar comigo! Senhor!
â TambĂ©m temos Kechachakka, assim como a Contra Cascata â acrescentei.
Além disso, ainda temos Sir Matadinho.
Kechachakka, ainda usando suas vestes suspeitas, soltou sua risada suspeita de sempre. Eu invejava profundamente a capacidade de Telm de se manter calmo no meio desse grupo.
â VocĂȘ deveria listar seu prĂłprio nome primeiro! Senhor! Seu humano fraco! â Kris gritou para mim.
â Hmph. Dane-se. Mil Truques, por que nĂŁo compartilha sua avaliação da situação comigo? Ouvi dizer que vocĂȘ tem fama de prever o futuro.
HĂŁ?
Meus olhos se arregalaram. Kris, Kechachakka, Telm, todos me encaravam, como se estivessem esperando algo de mim. Eu nĂŁo tinha uma avaliação a oferecer. Nunca havia feito uma Ășnica previsĂŁo correta na minha vida. Em certo sentido, eu poderia atĂ© acertar, mas sempre nos piores momentos. Mas eu estava ali para cumprir um trabalho, entĂŁo nĂŁo podia simplesmente dizer nĂŁo. Oferecer uma avaliação era o mĂnimo que eu podia fazer.
Cruzei as pernas e tentei parecer durão. Para começar, tentei me livrar de qualquer responsabilidade.
â Isso Ă© complicado. Eu nĂŁo vejo o futuro, sabe? NĂŁo posso dizer nada com certeza, mas aprendi algumas coisas ao longo dos anos.
Lancei um olhar para Telm. Esperava que o segundo caçador de nĂvel mais alto ali me ajudasse se fosse necessĂĄrio. Telm franziu a testa, mas continuei.
â VocĂȘ estĂĄ mais vulnerĂĄvel quando baixa a guarda. Estamos relativamente seguros nesta cidade, mas ainda precisamos ficar atentos.
â O quĂȘ? â Franz disse. â NĂŁo tĂnhamos planos de relaxar, mesmo sem seu aviso… VocĂȘ estĂĄ tentando dizer que algo pode nos atacar?
â Uhm. DragĂ”es?
â O quĂȘ?!
Ah, nĂŁo. Eu nĂŁo queria dizer isso.
JĂĄ foi dito antes, mas dragĂ”es raramente atacam cidades. No entanto, isso nĂŁo levava em conta o fator âescolta do imperadorâ.
â TambĂ©m pode haver, uhm, elementais ou algo assim.
Os olhos de Franz estavam vermelhos de raiva. â ImpossĂvel. Isso Ă© um absurdo total. Aqui nĂŁo Ă© o meio do nada, ainda estamos dentro das fronteiras do impĂ©rio!
Ele não precisava ficar tão irritado. Era só a minha avaliação, afinal. Eu mesmo nem acreditava nisso.
â Bem, teve aquele incidente no Castelo Imperial, e elementais jĂĄ atacaram cidades antes â falei com um sorriso apaziguador.
â Droga â Franz rosnou.
â NĂŁo precisa se preocupar. Se aparecerem dragĂ”es, Telm dĂĄ conta deles.
O Ășnico sinal de surpresa que Telm demonstrou com minha designação absurda foi um leve arregalar dos olhos. Ele devia estar acostumado com isso, sendo o braço direito daquela velha maluca.
Poucas pessoas na capital eram tĂŁo habilidosas com magia de ĂĄgua quanto ele. Seu tĂtulo, âContra-Cascataâ, vinha da sua capacidade de realizar feitos como deter rios, dividir oceanos e parar cachoeiras.
Magias de ĂĄgua frequentemente careciam de poder bruto, mas isso mudava quando se tinha o nĂvel de controle dele, capaz de interromper correntes completamente. A ĂĄgua compĂ”e sessenta por cento do corpo humano e Ă© essencial para toda forma de vida, atĂ© mesmo dragĂ”es e seres ilusĂłrios. VocĂȘ poderia dizer que ele era capaz de matar com extrema eficiĂȘncia. Pelo menos, de acordo com Lucia.
Telm levou a mĂŁo ao queixo, contemplativo. EntĂŁo assentiu. â Muito bem. Se algum dragĂŁo aparecer, eu serei seu oponente. No entanto, tenho uma pergunta: por que me escolher? Temos Kechachakka aqui. Kris tambĂ©m. Aquele tal de Sir Matadinho parece bem capaz.
Como esperado de um NĂvel 7, Telm nĂŁo se abalou nem um pouco com a ideia de enfrentar dragĂ”es. Provavelmente ajudava o fato de que ele, no fundo, nĂŁo acreditava que realmente enfrentaria um. E quanto ao motivo de eu ter escolhido Telm, era simples â confiava mais nele, um portador de tĂtulo, do que em qualquer outro do nosso grupo. A força de Kechachakka ainda era desconhecida para mim, e Sir Matadinho era um mistĂ©rio em vĂĄrios sentidos. Kris era minha proteção pessoal. Mas eu nĂŁo queria dizer nada disso na frente deles.
Ouvi a risada estranha de Kechachakka e lancei um olhar para Telm.
â NĂŁo consegue perceber? â perguntei.
â Hmm.
SerĂĄ que ele tinha entendido? Ele nĂŁo pareceu incomodado com minha pergunta.
â Muito bem â disse, assumindo uma expressĂŁo sĂ©ria. â Ainda nĂŁo tive a oportunidade de mostrar minhas habilidades. Talvez vocĂȘ possa testemunhar o esplendor da minha magia.
***
â Como Ă©? Carregar? Quem vocĂȘ acha que eu sou? Faça isso vocĂȘ mesmo! Senhor!
Kris Argent era uma boa garota. Falava de maneira rude, mas depois de trĂȘs anos e pouco, eu jĂĄ tinha aprendido a lidar com isso. Apenas abaixei a cabeça.< /p>
â E-Ei, fique fora do meu quarto! Senhor! VocĂȘ foi criado num celeiro? Ah, nĂŁo se ajoelhe. NĂŁo tem orgulho nenhum? Isso sĂł piora as coisas para nĂłs dois! Senhor!
A culpa era toda minha, entĂŁo nĂŁo tinha do que reclamar. Usando minha tĂ©cnica especial, abaixei cada vez mais atĂ© quase encostar no chĂŁo. Notei a expressĂŁo confusa de Kris e lembrei do que Eliza uma vez me disse: criaturas orgulhosas como os EspĂritos Nobres achavam meu comportamento extremamente estranho.
â B-Bem, anda logo e me mostre as RelĂquias! Senhor! Quando voltarmos, vocĂȘ vai ter que contar para a Lucia o quanto eu fui Ăștil. O quĂȘ? Quando foi que vocĂȘ usou tantas RelĂquias?! Pelo menos finge que estĂĄ arrependido! Senhor! Esse Ă© o problema com vocĂȘ, fraco humano…
EspĂritos Nobres tinham uma alta afinidade com magia. Diziam que suas reservas de mana eram dezenas de vezes maiores que as de um humano. Era como se tivessem sido feitos para carregar RelĂquias. Se ao menos eu tivesse nascido um EspĂrito Nobre…
Fervendo de raiva, Kris recarregou os AnĂ©is de Segurança que entreguei para ela. Carregar vĂĄrios AnĂ©is de Segurança deveria ser difĂcil atĂ© para um EspĂrito Nobre, mas o orgulho dela nĂŁo permitia que reclamasse. As provocaçÔes que Sitri fez naquela vez tambĂ©m deviam estar pesando.
Os quartos reservados para nĂłs, caçadores, ficavam um nĂvel â ou melhor, um grau â abaixo do andar do imperador. Eles eram pensados para serem espaços ideais para os guardas ficarem, mas considerando o nĂvel desta hospedaria, atĂ© os quartos mais baratos eram luxuosos. Sentei-me em um sofĂĄ absurdamente macio e soltei um suspiro.
â Fique fora do meu sofĂĄ! Senhor! E sem suspiros! Senhor!
â NĂŁo acredito que nada aconteceu hoje â comentei.
â E por que aconteceria algo? Senhor. Esperava o quĂȘ?
Bom, ainda era cedo para baixar a guarda. Ă quando a gente se acomoda que a desgraça aparece. Mas ter Telm por perto era extremamente tranquilizador. Se ele era um NĂvel 7, significava que a Associação de Exploradores o considerava tĂŁo forte quanto alguĂ©m como Ark. E Kechachakka… Ele nĂŁo parecia tĂŁo maluco quanto parecia.
Abri cuidadosamente a caixa que trouxe comigo.
â Fraco humano, o que Ă© isso? â Kris perguntou, tentando esconder o cansaço Ăłbvio.
â NĂŁo sei, mas deixaram na frente do meu quarto â respondi. â Tem meu nome nela, entĂŁo deve ser para mim.
Isso alarmou Kris na hora.
Dentro, havia chocolates finamente organizados e um cartĂŁo com um coração desenhado. O nome do remetente nĂŁo estava escrito, mas o jeito como o coração foi desenhado me dizia que sĂł podia ser coisa da Sitri. De alguma forma, ela sabia em qual hospedaria estarĂamos e qual era meu quarto. Estranho, nĂŁo?
Os chocolates pareciam de uma marca chique. Usei uma das minhas RelĂquias para verificar se estavam envenenados e mordi um.
â O conceito de âcautelaâ nĂŁo existe no seu dicionĂĄrio?! â Kris perguntou, indignada.
â SĂŁo perfeitamente seguros â respondi.
Afinal, se alguĂ©m quisesse me matar, nĂŁo precisaria recorrer a veneno. Me dar um soco jĂĄ seria suficiente. Um soco atĂ© meus AnĂ©is de Segurança se esgotarem, pelo menos. E eu conhecia bem a palavra âcautelaâ. Era exatamente por isso que insistia em ficar perto da Kris.
Os chocolates estavam incrĂveis. Deixe para a Sitri saber exatamente os meus gostos.
Eu podia sentir meu cansaço desaparecendo. Ah, esse aqui tem mel. Isso faz bem para a saĂșde, nĂŁo faz?
Kris me observava com exasperação enquanto um sorriso surgia no meu rosto e eu afundava no sofå.
Foi quando a porta chacoalhou e ouvimos vozes do lado de fora.
â DragĂ”es! Tem um bando de dragĂ”es gĂ©lidos!
â Protejam Sua Majestade Imperial!
Isso Ă© ridĂculo. Estamos em uma cidade. DragĂ”es nunca viriam para uma cidade em Zebrudia.
Quando falei que dragĂ”es poderiam aparecer, era sĂł um exemplo. AlĂ©m disso, minhas previsĂ”es nunca estavam certas. Isso nĂŁo deveria ser possĂvel. Minha sorte era ruim, mas nĂŁo desse jeito. E o que estava acontecendo com todos esses dragĂ”es? Dois encontros em sucessĂŁo rĂĄpida era claramente estranho.
Instintivamente, fui pegar outro chocolate, mas Kris segurou meu pulso. Em sua mĂŁo direita, ela jĂĄ segurava seu cajado.
â Estamos indo! Senhor!
â NĂŁo acho que sou realmente necessĂĄrio aqui.
â Se controle! Senhor! E ainda se chama de irmĂŁo da Lucia?!
Droga, eu devia ter ficado com Sir Matadinho.
NĂŁo me orgulho de dizer, mas nunca me envolvi de verdade em uma luta. Mas me convenci a nĂŁo me preocupar. Minha mentira pode ter se tornado realidade, mas eu podia simplesmente deixar o Telm cuidar de tudo. Maaas, tecnicamente, eu fazia parte da equipe de guarda, entĂŁo achei que deveria pelo menos fingir que estava ajudando.
Kris me arrastou para fora do quarto dela pelo braço. Antes de sair, tomei uma decisão råpida e peguei meus Anéis de Segurança carregados. Me preparei. Não sabia se havia algo que eu realmente pudesse fazer para ajudar, mas jå que ganhei aquele maravilhoso Tapete Voador, fazia sentido pelo menos tentar fazer algo.
Correndo ao lado de Kris, segui na direção dos gritos.
â Me diga, fraco humano, vocĂȘ jĂĄ lutou contra um dragĂŁo gĂ©lido? â Kris perguntou. â Eu nĂŁo!
â Ah, sim. Claro que jĂĄ.
Ela me olhou, atÎnita. Apenas dei de ombros e esbocei um sorriso sem graça.
Minha mĂĄ sorte jĂĄ me colocou em contato com todo tipo de monstro. Ultimamente, eu nĂŁo tinha saĂdo muito, mas jĂĄ tinha encontrado praticamente todas as bestas mĂticas que existiam. Estranhamente, quanto mais raras elas eram, maior a chance de eu cruzar com elas. âRaroâ nem parecia a palavra certa.
Nem preciso dizer que, mesmo tendo encontrado vårias bestas, nunca de fato lutei contra uma. Meu papel sempre foi agir como um niilista e gastar Anéis de Segurança.
Sem parar, ativei um dos meus braceletes, Forma de Miragem, e invoquei uma imagem de um dragĂŁo gĂ©lido. Que tal isso para um bom uso de uma RelĂquia?
DragĂ”es jĂĄ eram uma espĂ©cie rara de besta mĂtica, mas dragĂ”es gĂ©lidos eram ainda mais. Definitivamente nĂŁo eram do tipo que atacavam cidades. Eu sabia disso muito bem depois do meu primeiro encontro com eles.
Kris pressionou os lĂĄbios ao ver a imagem de um dragĂŁo azul-claro surgir diante dela. Era do tamanho de um cachorro grande, cerca de metade do tamanho do dragĂŁo das ĂĄguas termais em Suls. Tinha asas grandes, uma cauda longa e todas as caracterĂsticas que deixavam claro que era um dragĂŁo.
â DragĂ”es gĂ©lidos sĂŁo uma variedade de dragĂ”es ultra-pequenos e formam bandos. SĂŁo exĂmios voadores, exalam ar frio e podem cuspir gelo. Para padrĂ”es de dragĂŁo, um sĂł nĂŁo Ă© grande coisa, mas ainda assim, vocĂȘ precisa ter cuidado com eles.
DragĂ”es gĂ©lidos. Quando foi a Ășltima vez que encontrei esses?
Para dragÔes, eles não eram especialmente resistentes ou fortes. No entanto, sua mobilidade aérea, sopro congelante e capacidade de trabalhar em grupo os tornavam extremamente perigosos. Nas condiçÔes certas, podiam ser muito mais formidåveis que um dragão comum.
â E? â Kris perguntou, surpresa por me ver sendo Ăștil.
â E o quĂȘ?
Kris parou e ficou bem na minha frente. â NĂŁo tem mais nenhuma informação?! Senhor! Acha que sou idiota?! NĂŁo preciso que me diga algo que jĂĄ sei!
Parece que mais um dia vai passar sem que eu seja de alguma utilidade. Não tenho mais informaçÔes.
â Eles sĂŁo fracos contra fogo â sugeri. â E, ah, vocĂȘ pode fazer uma geladeira colocando um dentro de uma caixa.
â Diga algo mais no estilo Mil Truques! Senhor! Por que estĂŁo atacando um assentamento humano? De onde vieram? Quantos sĂŁo? Qual a melhor defesa contra eles? VocĂȘ Ă©, tecnicamente, nosso lĂder! Senhor!
Desculpa, mas eu realmente nĂŁo sei mais nada. Se quer saber por que os dragĂ”es estĂŁo aqui, vai ter que perguntar para eles…
Então me veio um estalo. O presente da Sitri passou pela minha mente. Tive um pressentimento muito ruim. Para repetir: dragÔes não atacam assentamentos humanos do nada. Geralmente, vivem em terras selvagens ricas em material de mana. Se estavam atacando um local habitado por humanos, não poderia ser sem motivo.
DragĂ”es eram como uma forma de desastre natural. NĂŁo importava o quĂŁo ruim fosse minha sorte, eu nĂŁo conseguia acreditar que simplesmente haviam atacado justamente a estalagem onde eu estava. Depois do incidente com o dragĂŁo das ĂĄguas termais, era difĂcil dizer que esse tipo de coisa era impossĂvel, mas nĂŁo achava que poderia acontecer duas vezes seguidas. Se isso virasse rotina, meus dias estariam contados. Portanto, esse incidente provavelmente nĂŁo era coincidĂȘncia, mas sim fruto da interferĂȘncia humana.
Nesse caso, o culpado mais provĂĄvel Ă©…
â Ah, isso? â falei. â Sim, tenho uma ideia ou duas.
Agora Kris parecia realmente surpresa. â Tem?! â disse, uma oitava acima do normal.
â Mas nĂŁo posso entrar em detalhes â falei, franzindo a testa. â NĂŁo devo falar nada quando sĂł tenho especulaçÔes a oferecer.
O culpado mais provĂĄvel nĂŁo era outro senĂŁo minha querida amiga Sitri. Era possĂvel que Liz ou Lucia fossem cĂșmplices. De qualquer forma, capturar algo como dragĂ”es da nĂ©voa e soltĂĄ-los em uma cidade claramente nĂŁo era coisa de uma pessoa comum. No mĂnimo, teria que ser alguĂ©m com nĂveis sobre-humanos de mana, e a teoria da Sitri fazia muito mais sentido do que a de um atacante misterioso.
Eu considerei a possibilidade de aquele coraçãozinho significar “Estou te enviando dragĂ”es da nĂ©voa!” Algo nisso me fez querer muito voltar para casa. O bom senso dizia que essa ideia era absurda, mas bom senso nĂŁo se aplicava aqui. Se eu tivesse pedido Ă Sitri para me mandar dragĂ”es da nĂ©voa, ela com certeza o faria. O problema Ă© que eu nĂŁo pedi.
Basicamente, o que quero dizer Ă© que eu tinha quase certeza de que Sitri era a culpada por isso. Pouco depois de eu dizer que dragĂ”es poderiam aparecer, eles apareceram. Eu estava bem certo de que ela estava por perto o tempo todo, o que significava que era possĂvel que ela tivesse ouvido minha conversa com Franz. Como aprendemos na ReuniĂŁo da LĂąmina Branca, a atenção dela aos detalhes Ă s vezes fazia com que ela exagerasse.
Eu precisava agir rĂĄpido. Se o imperador se machucasse, Sitri seria presa.
Se dissermos que ela não teve intenção maliciosa, talvez escapasse da pena de morte. Ou talvez jå fosse tarde demais para isso, considerando o envenenamento e tudo mais.
â Anda, Kris. Vamos logo â eu disse. â Temos que proteger Sua Majestade Imperial!
â O-O que deu em vocĂȘ?! NĂŁo precisa me dizer isso! Senhor!
O imperador estava hospedado no andar mais alto, o terceiro. Sem nem suar, Kris atravessou a pousada correndo, enquanto eu ofegava tentando acompanhĂĄ-la. Eu queria desesperadamente um anel que me permitisse correr sem me cansar.
Quando chegamos Ă escadaria, nĂŁo havia ninguĂ©m lĂĄ. Deveria haver um guarda, mas provavelmente ele tinha saĂdo para ajudar no combate. Kris começou a tremer, provavelmente por causa do frio dos dragĂ”es da nĂ©voa. Isso era mais uma coisa que os tornava chatos de lidar. Eu, por outro lado, estava com o Perfeito Descanso, entĂŁo me sentia perfeitamente confortĂĄvel.
â Kris, vocĂȘ vai na frente â eu disse enquanto subĂamos as escadas correndo. â Eu te dou cobertura.
â VocĂȘ Ă© idiota?!
â Ă assim que eu faço as coisas! NĂŁo se preocupa, Telm vai cuidar da maior parte!
O terceiro andar estava um caos. A primeira coisa que notei foi uma janela quebrada e os grossos fragmentos de vidro espalhados pelo carpete. Não havia dragÔes no primeiro nem no segundo andar, mas agora eu podia deduzir que eles haviam entrado pela janela do terceiro andar. Vidro, por mais grosso que fosse, não impediria um dragão de passar.
Um cavaleiro que eu reconhecia de antes soltou um grito estrondoso ao atacar trĂȘs dragĂ”es pairando no ar. Sua lĂąmina cortava o ar com uma velocidade impressionante, mas nĂŁo conseguia acertar nenhum deles. Seu golpe nĂŁo era lento, os dragĂ”es Ă© que eram ĂĄgeis demais.
AtĂ© eu podia perceber que o cavaleiro era um espadachim habilidoso, mas parecia nĂŁo ter muita experiĂȘncia lutando contra criaturas rĂĄpidas. Isso nĂŁo era incomum, jĂĄ que a maioria dos monstros e bestas mĂticas eram seres enormes.
Eu desfiz a miragem que havia conjurado antes e murmurei:
â Eles sĂŁo menores do que eu esperava.
Os dragÔes enfrentando o cavaleiro eram bem menores do que os que eu tinha encontrado muito tempo atrås. Minha miragem era do tamanho de um cachorro grande, mas os que eu via agora não eram maiores que gatos.
Um dos dragÔes desviou de uma lùmina e começou a brilhar levemente. Esse era um sinal de que ia usar seu sopro congelante.
â O tamanho deles nĂŁo importa! Senhor! â Kris gritou e pressionou a ponta do cajado contra o chĂŁo. â Fogo, Ă© fogo, nĂ©? Chama Devoradora!
Num instante, as fagulhas à minha frente se avolumaram e tomaram a forma de um påssaro. Esse era o feitiço que Kris havia conjurado. Sem precisar de nenhuma direção, o påssaro flamejante voou silenciosamente em direção a um dos dragÔes. A besta gelada interrompeu seu ataque e desviou da andorinha com facilidade.
Ele virou a cabeça em nossa direção, mas no mesmo instante seu corpo azul foi envolvido em chamas. Depois de errar o primeiro ataque, a andorinha deu uma volta e atacou de novo. Esse tipo de feitiço era chamado de “magia rastreadora”. Eu nĂŁo entendia muito sobre magia, mas lançar um feitiço desses instantaneamente nĂŁo era coisa que qualquer mago conseguia fazer.
â Mandou bem! Sabia que podia contar com vocĂȘ! â eu comemorei.
â Cala a boca! NĂŁo me insulte! Senhor! â Kris gritou, entĂŁo conjurou outro feitiço sem nem parar para recuperar o fĂŽlego. â Voo da Chama Devoradora!
O dragĂŁo da nĂ©voa havia sobrevivido aos pĂĄssaros flamejantes. Suas asas tinham sido chamuscadas, mas ainda eram fortes o suficiente para mantĂȘ-lo no ar. Os outros dois dragĂ”es da nĂ©voa se viraram em nossa direção, prontos para atacar.
Uma chuva de fagulhas apareceu e se transformou em påssaros menores do que o primeiro. Eles mergulharam contra os dragÔes da névoa, criando uma nuvem de vapor.
Kris se apoiou no cajado para se sustentar.
â Minha mana… â ela arfou.
â HĂŁ? VocĂȘ jĂĄ ficou sem mana?! â eu disse sem querer em voz alta.
Eu achava que EspĂritos Nobres tinham enormes reservas de mana.
Kris me lançou um olhar afiado.
â E a culpa Ă© sua! Senhor! Eu nunca fui boa com feitiços de fogo!
â Mas tenho certeza de que a Lucia poderia…
â Eu vou te dar um tapa! Senhor! â Kris gritou, com o rosto pĂĄlido. â Agora me protege! VocĂȘ aĂ, da armadura! Sai da frente para que eu possa usar um feitiço de ĂĄrea!
O cavaleiro rapidamente se moveu para a parede.
Os pĂĄssaros flamejantes superavam os dragĂ”es em nĂșmero, mas os dragĂ”es da nĂ©voa eram assustadoramente resistentes. Mesmo depois de serem atingidos vĂĄrias vezes, nenhum deles tinha algo pior do que queimaduras leves. Continuavam tĂŁo ĂĄgeis quanto antes e nĂŁo davam sinais de cair.
JĂĄ Ă© meio tarde para pensar nisso, mas serĂĄ que fogo nĂŁo Ă© a fraqueza deles?
â Eles sĂŁo duros pra caramba. Senhor. Fogo Ă© mesmo a fraqueza deles?
â V-VocĂȘ consegue! Vai dar certo!
â Cala a boca! Fica quieto! Senhor! Rajada Ardente!
Um vento vermelho brilhante percorreu o corredor. Os dragÔes ficaram avermelhados e soltaram pequenos gritos. Eles despencaram no chão, mas levaram apenas um momento para se recuperar e voltar ao ar.
â InacreditĂĄvel! Eu continuo usando feitiços que sĂŁo a fraqueza deles. Por que ainda estĂŁo tĂŁo ĂĄgeis?!
O suor escorria da testa de Kris enquanto ela encarava os dragĂ”es desafiadoramente. Seus braços e pernas esguios, no entanto, tremiam, e sua respiração estava ofegante. Ela estava perto de esgotar sua mana, sem dĂșvida por ter gastado tanto carregando minhas RelĂquias.
Então o cavaleiro avançou da parede. Ele atravessou o ar abrasador e desceu sua espada sobre um dragão vacilante. A lùmina branca cortou direto o corpo da fera. Não chegou a dividi-la em dois, mas o impacto foi forte o bastante para jogå-la no chão, fazendo-a soltar um grito de agonia.
O cavaleiro nem deu outra olhada. Imediatamente seguiu em frente e, em um movimento fluido, atacou outro dragĂŁo. Sua lĂąmina rasgou o corpo de um deles, enquanto o outro se esquivou para o lado.
â V-VĂŁo logo! â ele gritou enquanto desferia mais um golpe. â Eu cuido disso! Sua Majestade Imperial precisaâ
â Certo, vamos, Kris.
O cavaleiro golpeou novamente. A menos que eu estivesse imaginando coisas, parecia que seu próximo ataque tinha muito mais força.
Com os dragÔes da névoa feridos, eu não achava que ele fosse perder. Pode não significar muito vindo de mim, mas parecia que o melhor para todos era Kris e eu priorizarmos o imperador.
â HĂŁ?! VocĂȘ tĂĄ falando sĂ©rio? Senhor? â Kris perguntou, surpresa.
Simplesmente soltei a corrente ao redor da minha cintura, ativei-a e a lancei na direção dos dragĂ”es. A Corrente Perseguidora pousou sobre as quatro patas e, em seguida, saltou sobre uma das feras mĂticas. Fechei os olhos e fiz uma prece.
Por favor, nĂŁo se destrua.
â Isso deve resolver â eu disse. â Agora vamos.
Se nĂŁo nos apressĂĄssemos, alguĂ©m poderia morrer. E, quando isso acontecesse, seria difĂcil descartar o incidente com os dragĂ”es como uma simples brincadeira de mau gosto.
Eu precisaria dar uma boa bronca na Sitri depois.
***
Em um pequeno quarto de estalagem, o homem olhava para o teto. Um sorriso discreto surgiu em seus låbios enquanto ouvia os gritos e berros vindos do andar de cima. A maldição havia sido aplicada com sucesso. Ele envolveu cuidadosamente a gema Înix em um tecido de feitiço e a guardou.
A gema era uma RelĂquia conhecida como “Revanche do DragĂŁo”. Era baseada em uma joia que, no passado, fora o tesouro mais precioso de um rei dragĂŁo. A gema era a prova do roubo cometido contra o dragĂŁo, o que concedia Ă RelĂquia o poder de atrair os dragĂ”es prĂłximos. Uma vez atraĂdos, os dragĂ”es nĂŁo parariam atĂ© destruir tudo na ĂĄrea.
A visĂŁo de um dragĂŁo certamente ensinaria Ă guarda imperial o quĂŁo impotentes eles eram. Agora que os dragĂ”es que ele desejava haviam sido atraĂdos, o Mil Truques, sem dĂșvida, estava em pĂąnico. Aquele garoto nĂŁo tinha nada a ver com a figura lendĂĄria dos rumores. Cada movimento seu parecia desprovido de propĂłsito. Foi graças a ele que a partida do imperador havia sido atrasada. Ele dificilmente parecia alguĂ©m digno de cautela.
Mas o homem nĂŁo pretendia baixar a guarda. As drogas misturadas Ă s bebidas haviam se mostrado inĂșteis. O caso do ovo de dragĂŁo havia sido contornado. E, na estrada, aqueles mercenĂĄrios caros nem sequer tinham aparecido.
Para seu espanto, veneno havia sido encontrado onde nĂŁo deveria haver nenhum, e aquele nem sequer tinha sido o Ășnico evento inesperado. Mas, por mais que planejasse antecipadamente, proteger alguĂ©m ainda era um trabalho difĂcil. Ainda mais quando o nĂșmero de agentes disponĂveis era limitado. Eles nĂŁo podiam proteger o imperador de tudo.
E, portanto, a melhor opção para o homem era bem claraâse ele havia falhado uma vez, bastava tentar novamente, quantas vezes fosse necessĂĄrio. Ele tinha suas dĂșvidas, mas franziu a testa e afastou os pensamentos. Seu trabalho nĂŁo era fazer julgamentos, mas executar ordens com lealdade.
***
DragĂ”es da nĂ©voa eram uma espĂ©cie conhecida por formar ninhadas, sendo raro ver um sozinho. Os Grieving Souls jĂĄ haviam travado uma batalha intensa contra uma grande ninhada. E, mesmo para alguĂ©m acostumada a feras perigosas como Liz Smart, a visĂŁo de um cĂ©u tomado por dragĂ”es da nĂ©voa era nada menos que apocalĂptica.
Ela observava as feras do segundo andar de uma estalagem. Os dragÔes gélidos ignoravam completamente as casas e os civis em fuga, indo diretamente para a estalagem onde estavam hospedados o imperador e sua comitiva. Isso claramente não era natural.
â Siddy, isso Ă© dragĂŁo demais! â ela gritou. â VocĂȘ tĂĄ tentando matar aquele velho filho da puta? Nem vem dizer que isso nĂŁo Ă© culpa sua!
â Mas nĂŁo Ă© culpa minha! â lamentou Sitri. â Meu chamariz deveria ter atraĂdo apenas onze dragĂ”es, e no começo eram sĂł esses. VocĂȘ viu, nĂŁo viu, Lizzy? E eu nem tinha suprimentos para atrair tantos assim.
Elas haviam encontrado um ninho de dragÔes gélidos em algumas montanhas próximas e drogado os dragÔes que encontraram. Krai havia dito que haveria dragÔes e, como seus melhores amigos, tinham que fazer isso acontecer.
Liz olhou de sua irmã para Luke, que fazia balanços de pråtica com sua espada.
â EntĂŁo a culpa Ă© do Luke? â sugeriu.
â Claro! SĂł me diz quantos cortar! â ele respondeu.
â NĂŁo era isso que eu queria dizer. De onde esses vieram? Talvez nem precisĂĄssemos pegar aqueles dragĂ”es no ninho? â Liz se virou novamente e apoiou os cotovelos no parapeito da janela enquanto observava o caos lĂĄ fora.
Ao seu lado, Lucia ergueu o olhar e franziu a testa.
â Talvez eles tenham vindo se vingar por termos roubado parte da ninhada?
â Achei que tĂnhamos destruĂdo o ninho inteiro â disse Sitri â e tinha a impressĂŁo de que buscar retribuição nĂŁo fazia parte da natureza dos dragĂ”es gĂ©lidos. Mas nĂŁo posso ter certeza.
Ela estava bem confusa. Havia uma grande ninhada de dragĂ”es gĂ©lidos bem diante delas, indo diretamente na direção de Krai. Normalmente, em situaçÔes assim, monstros e afins teriam como alvo alguĂ©m como Liz. VĂȘ-los passando direto era incrivelmente estranho.
â Tomara que o Krai Baby esteja bem. Devemos derrubar alguns desses dragĂ”es? â sugeriu Liz.
Sitri balançou a cabeça.
â Imagino que ele estarĂĄ bem se Telm e Sir Matadinho estiverem com ele. Sem contar que nosso irmĂŁo foi lĂĄ dar uma ajuda.
***
Puta merda, o que a Sitri estava pensando?
CorrĂamos por um espaçoso corredor. Os guardas deviam estar fazendo jus aos seus cargos, pois encontramos vĂĄrios corpos de dragĂ”es pelo caminho. Eles eram considerados a elite por um motivo, mas isso nĂŁo mudava o fato de que estavam em desvantagem numĂ©rica.
Nos confins do terceiro andar, uma batalha feroz acontecia diante do quarto do imperador. Diversos cavaleiros guardavam a porta, mas havia pelo menos catorze dragÔes gélidos. Os cavaleiros brandiam suas espadas e lançavam golpes com suas lanças, mas os dragÔes eram ågeis demais. Os movimentos dos cavaleiros eram prejudicados pelo ar gélido emanado dos corpos das feras. Mesmo que usassem os escudos para bloquear o sopro congelante, sua energia ainda era drenada pela temperatura cada vez mais baixa.
Parei e gemi.
â Parece que a sorte do imperador Ă© tĂŁo ruim quanto a minha.
â Isso nĂŁo importa! â Kris gritou para mim.
O Perfeição de Férias não oferecia proteção contra ataques, mas me tornava quase imune a mudanças no ambiente. Claro, eu ainda morreria se fosse esmagado por um bloco de gelo, mas o ar frio não era um problema. Que escolha inteligente eu fizera.
Eu nunca imaginaria que havia outro imã de dragÔes além de mim. Os dragÔes gélidos que eu conhecera no passado eram maiores e mais numerosos, mas eu ainda sentia certa afinidade pelo imperador.
â VocĂȘ demorou demais! â um dos cavaleiros gritou. â Vamos lidar com esses aqui! Tem alguns dentro do quarto!
Infelizmente, eu nĂŁo achava que podĂamos fazer muita coisa. Kris estava exausta e eu nĂŁo era de grande ajuda em combate. Esses caras pareciam estar se virando bem, entĂŁo por que nĂŁo podiam se esforçar um pouco mais?
Ofegante, Kris apontou com seu cajado retorcido. EntĂŁo, uma sombra vermelha passou por nĂłs como um vendaval.
â Matar, matar, matar!
Eu nem estava usando o controlador, mas mesmo assim Sir Matadinho Versão Alpha avançou contra os atacantes. Os dragÔes gélidos entraram em pùnico quando o intruso subitamente os golpeou com uma espada colossal.
â Olha ele indo, sem precisar de comandos â murmurei para mim mesmo.
O repentino berserker pegou os cavaleiros de surpresa, mas eu permaneci impassĂvel. NĂŁo era nada inesperado um amigo da Sitri conseguir massacrar dragĂ”es. E eu nĂŁo achava que ela teria enviado dragĂ”es gĂ©lidos se achasse que seriam demais para Sir Matadinho VersĂŁo Alpha.
O amigo de Sitri estava equipado como um cavaleiro de armadura pesada, mas lutava mais como uma fera selvagem. Observei-o atravessar uma rajada de sopro congelante e atropelar um dragão gélido. Mesmo para um Guerreiro Pesado versåtil, isso não era algo que qualquer um conseguiria fazer.
Kris e os cavaleiros estavam todos boquiabertos, e eu apostaria que os dragĂ”es gĂ©lidos tambĂ©m. As feras mudaram o foco da porta para Sir Matadinho. Pedaços de gelo atingiam sua armadura e uma camada de gelo se formava ao redor de seus pĂ©s, mas ele nĂŁo diminuĂa a velocidade nem por um instante. SĂł porque estava blindado nĂŁo significava que estava imune ao frio cortante, mas o amigo da Sitri agia como se nĂŁo sentisse dor alguma.
â O-Onde vocĂȘ arranjou esse cara? â Kris me perguntou.
â HĂŁ? Ah, digamos que foi atravĂ©s de um contato â respondi.
Fiz uma nota mental de oferecer um banquete de carne crua para ele depois.
Os cavaleiros se recompuseram e deram suporte a Sir Matadinho. Um a um, exterminaram os dragĂ”es com extrema prudĂȘncia. NĂŁo demorou muito para que todos estivessem mortos.
Um dos cavaleiros se aproximou de mim, o Ășnico que nĂŁo estava coberto de cortes e hematomas. Estremeci, temendo que estivesse bravo comigo.
â Eles estĂŁo entrando pelas janelas. Mantenham o interior do quarto seguro â ele disse com a voz cansada. â Defenderemos este corredor com nossas vidas.
â Huh, mas achei que estĂvamos aqui apenas para dar suporteâ
â Agora Ă© hora para isso?! â Kris gritou comigo.
Ela agarrou meu braço e entramos. A suĂte do imperador era muitas vezes maior que os quartos designados para nĂłs, caçadores. Era elegantemente mobiliada e um lustre brilhante pendia do teto. Parecia algo saĂdo de uma mansĂŁo nobre, exceto pelo fato de estar em total desordem.
O imperador estava no quarto, cercado por Franz, cerca de uma dezena de cavaleiros e um campo de corpos de dragÔes. A janela do terraço havia sido quebrada. Uma cama king-size estava sendo usada como barricada, mas não era o suficiente para cobrir toda a abertura.
â Finalmente aqui â Franz chamou ao nos ver. â O que estĂĄ acontecendo?!
â Desculpe, desculpe. Havia muitos lĂĄ fora do quarto, sabe. NĂŁo sei o que estĂĄ acontecendo, mas da prĂłxima vez devĂamos usar uma estalagem com um feitiço de barreira.
O imperador parecia bem, apenas coberto de sangue verde. AtrĂĄs dele estava uma garota que eu jĂĄ tinha visto antes. Era a jovem que me enganou no Encontro da LĂąmina Branca.
O imperador notou meu olhar e fez uma careta.
â Derrubei trĂȘs â ele disse, indicando sua lĂąmina encharcada de sangue. â NĂŁo tenho tido muitas oportunidades de brandir uma espada recentemente, mas parece que ainda nĂŁo perdi minha destreza.
Derrubou trĂȘs? O imperador? TrĂȘs dragĂ”es? Ele Ă© mais forte que eu. Ele Ă© um Matador de DragĂ”es. SĂ©rio, para que eu estou aqui?
Os Magos da guarda imperial lançavam feitiços um atrĂĄs do outro contra os dragĂ”es que passavam pela barricada. Suas habilidades faziam jus ao prestĂgio de seus postos. Observei enquanto um dragĂŁo gĂ©lido caĂa ao solo depois de ser queimado por um feitiço de raio. De novo, me perguntei qual era o meu papel ali.
â Quando Ă© que isso vai acabar?! â Franz me perguntou. â Finalmente estĂŁo diminuindo, isso significa que acabou? Acho difĂcil acreditar que um bando de dragĂ”es atacaria uma cidade assim!
â Hm. Talvez haja uma maldição ou algo do tipo?
â Que absurdo! Que tipo de maldição faria isso?
Esse incidente foi culpa da Sitri, mas o caso com o dragão carmesim não tinha nada a ver com ela. Duas incursÔes seguidas de dragÔes só poderiam ser explicadas por uma maldição. Talvez eu fosse a maldição. De qualquer forma, decidi culpar a Fox.
â Isso tambĂ©m Ă© obra da Fox. Tenho certeza disso.
â Como eles manipulam dragĂ”es?! â Franz exigiu. â Magia? E o que aconteceu com a Contra-Cascata?
â Calma. VocĂȘ disse que estĂŁo diminuindo? Isso deve significar que o fim nĂŁo estĂĄ longe.
Até mesmo Sitri teria dificuldade para reunir tantos dragÔes gélidos tão rapidamente. Mas, assim que terminei minha declaração confiante, um grito veio de fora do quarto.
â Oh nĂŁo! C-CapitĂŁo, um monte deles estĂĄ vindo!
â O quĂȘ?!
Corri até a janela e vi um ponto negro se expandindo como uma névoa invasora. Não desceu sobre a cidade, veio direto para nós. Era um bando de dragÔes gélidos que continha facilmente mais de trezentos. Embora não fossem fortes individualmente, um grupo tão grande poderia demolir esse prédio em um instante.
Sitri, isso Ă© demais.
â N-NĂŁo estĂĄvamos nos aproximando do fim? â Franz me perguntou.
â V-VocĂȘ errou feio de novo! â Kris disse. â Mentiroso fraco humano!
â Agora, agora, vamos todos nos acalmar â eu disse.
Eu não tinha como saber quando os dragÔes iam recuar! Eu deveria ter dito que o fim ainda estava longe?!
Franz não fez mais perguntas e começou a dar ordens.
â Preparem-se para evacuar Sua Majestade Imperial! Deve haver um porĂŁo.
â M-Mas senhor! â um dos cavaleiros disse. â Ainda hĂĄ dragĂ”es gĂ©lidosâ
â E isso ainda Ă© mais seguro do que enfrentĂĄ-los! â Franz argumentou. â Mil Truques, vou pedir que cuide disso!
â Claro â eu disse.
Eu nĂŁo queria enfrentar os dragĂ”es; minhas chances de sobrevivĂȘncia eram muito maiores se ficasse com os outros. Afinal, nĂŁo havia nada que eu pudesse realmente fazer para ajudar ali. Nem mesmo Sir Matadinho conseguiria lidar com um bando tĂŁo grande. Do mesmo modo, Kris estava exausta e nĂŁo tinha muito a dizer.
O que fazer? O que fazer?
Os dragÔes gélidos miraram em nós como formigas em direção a um petisco. Estavam perto o suficiente para que eu pudesse distinguir cada um individualmente. Mesmo se tentasse, provavelmente não conseguiria escapar no Tapete Voador. Ele não era muito cooperativo. Comecei a usar meu cérebro pela primeira vez em um bom tempo.
â Suponho que vocĂȘ pode lidar com isso? â Franz me perguntou.
â HĂŁ?
â Vamos esconder Sua Majestade Imperial no porĂŁo. Tente atrair o mĂĄximo deles para longe de nĂłs. Entendido?!
Uhh.
NĂŁo era âVocĂȘ pode lidar com isso?â e sim âSuponho que vocĂȘ pode lidar com isso?â. Olhando para o meu nĂvel, isso podia parecer uma suposição razoĂĄvel. Mas era tĂŁo audacioso que nĂŁo pude evitar sorrir, tempo, lugar e ocasiĂŁo que se danassem. Claro que eu nĂŁo podia lidar com isso.
â Porque estĂĄ sorrindo? â Franz me perguntou com um olhar severo.
Eu nĂŁo tinha nenhum meio de fuga, entĂŁo me resignei ao meu destino. Mesmo agora, eu me sentia perfeitamente confortĂĄvel graças Ă minha camisa. ConfortĂĄvel demaisâeu nem sequer conseguia ficar nervoso. Afastei um cavaleiro e olhei pela janela para os dragĂ”es. Havia um monte deles, mas nĂŁo pude evitar lembrar.
â Isso Ă© tudo? â murmurei.
â O que vocĂȘ estĂĄ dizendo?! Senhor?! â Kris gritou.
Minha memĂłria estava meio nebulosa, mas eu lembrava de ter visto um nĂșmero maior na minha primeira luta contra essas criaturas.
Mas eu tinha um truque na mangaâAspiração Manifestada. Com isso, eu daria neles um golpe certeiro. Apoiei um joelho no parapeito da janela e estendi uma das mĂŁos. Os dragĂ”es gĂ©lidos mudaram de curso assim que viram a isca tentadora. Esperei e esperei, atraindo-os o mĂĄximo possĂvel para derrubar quantos conseguisse de uma vez.
EntĂŁo percebi algo.
Eu tinha esquecido como usar Aspiração Manifestada.
Os dragÔes gélidos avançavam contra nós como flechas de gelo. Kris, pålida, recuou e ergueu seu cajado. Ela começou uma invocação, mas jå era tarde demais. Eu não tinha Anéis de Segurança suficientes para isso. A morte, na forma de dragÔes gélidos, estava bem diante de mim, mas eu continuava estranhamente confortåvel.
Mas bem quando minha mente estava prestes a apagarâuma parede de luz surgiu, desviando os dragĂ”es. Foi como um milagre. Todos, inclusive eu, ficaram pasmos. Uma rajada de sopro congelante foi completamente bloqueada. Mesmo entre os feitiços de barreira, era necessĂĄrio um de imenso poder para conter o ataque de um dragĂŁo.
â Esse Ă© o tipo de barreira usada por classes devotas â alguĂ©m disse.
â V-VocĂȘ Ă© um Santo?! â Kris exclamou.
â NĂŁo. Eu nĂŁo sou â respondi.
A parede de luz segurou os ataques dos dragĂ”es. Assim como um Anel de Segurança sĂł conseguia projetar uma barreira por um instante, feitiços de barreira geralmente sĂł se destacavam na duração ou na força, nĂŁo em ambas. Claro, isso nĂŁo era obra minha; habilidades de Santo eram um pouco diferentes de magia e, por isso, nĂŁo podiam ser armazenadas em uma RelĂquia.
Havia poucas pessoas capazes de projetar uma barreira tĂŁo forte por tanto tempo. Olhei ao redor e finalmente encontrei Mini-Ansem no parapeito da janela. Ele estava com sua armadura habitual, mas tinha apenas cinco centĂmetros de altura.
A RelĂquia que Ansem usava, Fortaleza Flutuante, era capaz de alterar seu tamanho. Ela podia se ajustar para se adaptar a qualquer usuĂĄrio, independente de idade, gĂȘnero ou constituição fĂsica. Era a RelĂquia perfeita para alguĂ©m que usou material de mana para se tornar um gigante e nĂŁo conseguia mais caber na maioria dos equipamentos. Tenho certeza de que foi por isso que a igreja deu essa relĂquia a ele.
E quando Ansem me mostrou essa RelĂquia pela primeira vez, eu tive um pensamento: o que aconteceria se ele diminuĂsse a armadura enquanto ainda estivesse usando-a? O mais Ăłbvio seria supor que ele seria esmagado e morreria. No entanto, RelĂquias eram objetos que desafiavam o senso comum.
Os resultados das nossas brincadeirasâdigo, pesquisasâmostraram que a Fortaleza Flutuante tinha uma habilidade oculta. Seu poder era ajustar o prĂłprio tamanho, permitindo que qualquer pessoa a equipasse. Se a armadura ficasse grande ou pequena demais, o usuĂĄrio encolheria ou cresceria para se ajustar a ela. Utilizando esse recurso, ele conseguiu aparecer do nada no Encontro da LĂąmina Branca.
Mas, independentemente de como ele tinha feito isso, eu só estava aliviado por Ansem ter nos salvado. Sem olhar para trås, ele ergueu os braços e me mostrou os polegares para cima. Eu retribuà o gesto.
EntĂŁo o parapeito da janela se desfez, e eu apenas observei em silĂȘncio enquanto ele caĂa em direção ao chĂŁo.
Um dos contras da Fortaleza Flutuante era que, embora alterasse o tamanho de uma pessoa, o peso continuava o mesmo. Ah, Ansem.
Colocar a barreira tinha sido um movimento inteligente, mas ainda restavam muitos dragĂ”es gĂ©lidos, entĂŁo o perigo nĂŁo tinha passado completamente. Mas se Ansem veio em nosso auxĂlio, entĂŁo os outros Grieving Souls tambĂ©m deveriam estar por perto. Fiquei ainda mais tranquilo sabendo que meus amigos estavam ali por perto; entĂŁo, de repente, ouvi um som.
â O que aconteceu?! â Franz gritou.
Olhei para cima. Os dragĂ”es gĂ©lidos, que estavam esperando uma chance para atacar, agora estavam estranhamente imĂłveis. MandĂbulas abertas, asas enormes, olhos brilhandoâtodos congelados no tempo. Todos prenderam a respiração.
EntĂŁo os dragĂ”es caĂram. Mas nĂŁo atingiram o chĂŁo; foram pegos por uma enorme membrana de ĂĄgua.
â AlguĂ©m estĂĄ conjurando um feitiço ofensivo em larga escala! â Kris disse, tremendo.
Hmm. NĂŁo acho que isso seja obra da Lucia.
Quanto maior a ĂĄrea de efeito, mais difĂcil era conjurar um feitiço ofensivo. Algo dessa magnitude, capaz de eliminar dragĂ”es gĂ©lidos, sĂł poderia ser obra de um certo recruta meu.
â O que eu estou vendo? â Franz disse. Ele empalideceu e murmurou: â Isso foi a Contra-Cascata?
Foi. Essa era a obra do nosso Mago de NĂvel 7, Telm Apoclys, a Contra-Cascata. Dei um tapinha imaginĂĄrio nas minhas costas por ter colocado Telm na nossa equipe. Ele nos tirou das garras da morte.
â Demorou, hein? â suspirei, aliviado. â SĂ©rio, o que o prendeu?
â VocĂȘ o deixou de prontidĂŁo? â Franz perguntou. â VocĂȘ tomou precauçÔes com antecedĂȘncia? VocĂȘ previu isso?
Eu queria bancar o durĂŁo e dizer que tudo tinha ocorrido exatamente como eu havia planejado, mas, infelizmente, eu nĂŁo esperava nada disso.
â NĂŁo, nada disso â respondi. â Eu sĂł acreditei no Telm. NĂŁo, eu acreditei em todos.
Foi por pouco. Eu tinha certeza de que essa crise seria meu fim. Mas dizer que eu acreditei em todos foi bem estiloso, né?
â DĂĄ pra parar com isso?! â Kris gritou, com lĂĄgrimas nos olhos. â Da prĂłxima vez, avise antes, senhor!
â Ah, aha ha.
A membrana de ĂĄgua se moveu, formando uma esfera que envolvia todos os dragĂ”es. Lentamente, a esfera foi se comprimindo. Os dragĂ”es se debatiam e gritavam, mas a pressĂŁo sĂł aumentava. Sangue verde se misturou Ă ĂĄgua cristalina, e eu ouvi os sons horrĂveis de carne sendo esmagada e ossos estalando. Era uma tĂ©cnica grotesca para alguĂ©m com um tĂtulo como Contra-Cascata.
â O-O que Ă© aquilo?! â gritou um dos cavaleiros que observava os dragĂ”es.
â Hm?!
Olhei para onde o cavaleiro apontava. LĂĄ embaixo, numa rua esvaziada com a chegada dos dragĂ”es, estavam Telm e Kechachakka. Em frente a eles, havia uma figura usando uma mĂĄscara de raposaâigual Ă que vimos no Encontro.
â Ă um Raposa! Precisamos ajudar os dois! â Kris gritou, inclinando-se para fora da janela.
Segurei-a antes que pulasse.
â Calma, Kris!
â Myaugh?! O que vocĂȘ estĂĄ fazendo?!
â Pense bem! Eu tambĂ©m quero ajudar, mas temos pessoas para proteger!
Que pena. Sério, eu queria lutar. Mas eles ficarão bem com o Telm ali.
Raposa-MĂĄscara acenou com a mĂŁo e uma grande naginata surgiu em sua empunhadura. Mas Telm nĂŁo entrou em pĂąnico. Ele moveu as mĂŁos com gestos firmes, como um verdadeiro Mago de NĂvel 7. Era como se ele estivesse fazendo o prĂłprio mundo lutar ao seu lado.
A bolha dâĂĄgua cheia de dragĂ”es esmagados se moveu como um organismo vivo e avançou contra Raposa-MĂĄscara. Ele desviou do ataque, mas a ĂĄgua continuou a persegui-lo. O chĂŁo tremeu e casas foram destruĂdas como se fossem feitas de papel. Telm realmente estava na mesma classe do Inferno Abissal.
Mas algo me incomodavaâRaposa-MĂĄscara nĂŁo era um fantasma. Sua presença era completamente diferente daquela que eu havia sentido antes.
â Ă falso? â murmurei, causando confusĂŁo entre os cavaleiros.
Minha habilidade de detectar presenças era equivalente à de um civil comum, ou seja, praticamente inexistente. Mas aquele fantasma era tão extraordinårio que até eu conseguia senti-lo. O que isso significava? Era só imaginação minha? Afinal, eu estava vendo Raposa-Måscara à distùncia.
O estrondo cessou e o silĂȘncio retornou. Raposa-MĂĄscara nĂŁo estava em lugar nenhum. O Mago que tinha acabado de causar tanta destruição virou-se para mim e deu de ombros.
Desci para me reunir com os dois Magos.
â Eu sei que vocĂȘ mencionou a possibilidade de dragĂ”es â Telm disse â, mas devo dizer, os NĂvel 8 sĂŁo realmente escravistas.
Kechachakka riu.
Apesar da reclamação, Telm nem parecia cansado. Qualquer um de nĂvel inferior jamais ficaria tĂŁo calmo depois de conjurar um feitiço desses. Seus movimentos ainda eram ĂĄgeis, o que tornava ainda mais difĂcil acreditar que ele tinha vĂĄrias vezes a minha idade.
â Bom trabalho, Contra-Cascata â Franz disse. â VocĂȘ matou a Raposa?
â Apenas cumpri meu dever â Telm respondeu, dando de ombros. â Quanto Ă Raposa, senti que acertei algo, mas nĂŁo encontrei corpo. Esse inimigo faz jus ao nome.
Isso foi bem estiloso da parte dele. Claro que foi. Qualquer um com cĂ©rebro podia ver que ele deveria ser o lĂder do nosso grupo.
Que adversĂĄrio terrĂvel tĂnhamos, se nem isso foi suficiente para matĂĄ-lo. Estava cada vez mais claro que eu teria que me humilhar de novo, como da Ășltima vez. Que emocionante.
â Houve alguma baixa? â Telm perguntou.
â NĂŁo. Algumas pessoas ficaram gravemente feridas, mas ninguĂ©m morreu â Franz respondeu, lançando um olhar severo para mim. â Se o Mil Truques tivesse ativado aquela barreira mais cedo, talvez nĂŁo tivĂ©ssemos feridos.
Ele realmente achava que eu tinha feito aquela parede de luz?
â Isso, uh… â comecei. â NĂŁo, deixa pra lĂĄ.
â O que foi? Para de falar pela metade!
â NĂŁo, Ă© sĂł que… eu nĂŁo achei que a guarda imperial perderia para dragĂ”es.
â O-O quĂȘ?!
Desculpa. Sério.
Por pior que eu me sentisse, nĂŁo podia contar a ele que o resto do meu grupo estava nos seguindo. Afinal, havia um limite de membros. Eu estava claramente quebrando as regras.
â O que vocĂȘ quis dizer quando disse “falso”, senhor? â Kris interveio.
â O que foi isso? â Franz disse.
â Enquanto olhava para aquele sujeito com a mĂĄscara de raposa, ele disse que era falso! Senhor!
â Eu disse isso? â perguntei.
Telm, Kechachakka, Franz, o imperadorâtodos me olharam avaliativamente. Kris nĂŁo estava enganado, mas eu sĂł estava imaginando coisas quando disse aquilo. Posso afirmar com confiança que minha visĂŁo era horrĂvel!
Kris me agarrou pelas roupas e me sacudiu.
â Pare. De. Nos. Enrolar. Senhor! SĂł para que saiba, minha audição Ă© excelente!
Mas isso nĂŁo mudava o fato de que eu sĂł estava imaginando coisas.
Telm lançou um olhar ao redor do grupo.
â Bem, nĂŁo importa. Nosso objetivo agora Ă© proteger Sua Majestade Imperial. Aqueles dragĂ”es gĂ©lidos claramente estavam sendo manipulados, jĂĄ que vieram direto para nĂłs. Vamos considerar uma sorte ninguĂ©m ter morrido, porque se isso continuar, alguĂ©m com certeza vai. NĂŁo importa o quĂŁo capaz seja o Mil Truques, nĂŁo podemos vigiar todos os Ăąngulos.
â Nem podemos nos dar ao luxo de perder a conferĂȘncia â Franz disse, olhando para o imperador. â No entanto, Sua Majestade Imperial, compartilho da mesma opiniĂŁo da Contra Cascata. E isso sem mencionar o fato de que o criminoso fugiu. Com a sua segurança em jogo, devemos mudar nossa abordagem.
â E-espere! â interrompi.
O imperador me olhou chocado. Franz e Telm também se viraram para mim. A sugestão de Telm era muito razoåvel, e a proposta de Franz fazia todo sentido para alguém na posição dele. Mas eu sabia de algo que eles não sabiam: Sitri estava por trås desse incidente.
Eu atĂ© tinha uma ideia de como ela trouxe os dragĂ”esâusando a mesma poção atrativa de monstros que tinha usado durante nossas fĂ©rias.
Deixando de lado a questĂŁo da MĂĄscara de Raposa, se o imperador perdesse a conferĂȘncia, Sitri seria rotulada como terrorista. Ela era uma boa garota. SĂł havia errado um pouco dessa vez. Normalmente, ela nunca faria algo assim acontecer. Eu tinha certeza de que ela nunca mais faria isso depois de uma conversa comigo.
Segurei minha mĂŁo sobre o estĂŽmago dolorido.
â Devemos continuar â disse com uma voz firme. â Recuar agora seria admitir derrota. Aqueles dragĂ”es gĂ©lidos nĂŁo passaram de um leve golpe. Como viram, ninguĂ©m morreu e temos força suficiente do nosso lado.
â VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio? â Franz me perguntou. â Deixe-me lembrĂĄ-lo de que a Raposa Ă© capaz de manipular dragĂ”es.
â Erm, se minha suposição estiver correta, nĂŁo haverĂĄ mais dragĂ”es. Tenho certeza disso. Nem um Ășnico.
Eu nĂŁo sabia de onde Sitri estava ouvindo, mas aquelas palavras eram para ela.
Os olhos de Franz se arregalaram.
â O quĂȘ?!
â Quanto Ă quelas Raposas, hĂĄ um segredo para lidar com elas. Da prĂłxima vez que aparecerem, serĂĄ a Ășltima.
Eu acabaria com elas usando minhas técnicas de bajulação, que agora tinham anos de evolução. Sem falar que desta vez teria Telm comigo.
Com um olhar confiante, dei um sorriso firme e destemido para ele. Telm me encarou com desconfiança.
***
O que estava acontecendo?
O homem de negro estava sozinho na sala, uma sombra caindo sobre seu rosto. Ele refletia sobre o ataque que acabara de ser realizado. A ninhada de dragÔes invocados havia sido aniquilada pelo poder da Contra Cascata, mas o homem jå esperava por isso.
A RelĂquia nĂŁo podia invocar variedades especĂficas de dragĂ”es, deixando espaço para uma ampla gama de criaturas que poderiam aparecer. Se houvesse um grupo contendo um nĂvel 7 e um 8, eles seriam capazes de enfrentar qualquer tipo de dragĂŁo, nĂŁo apenas dragĂ”es gĂ©lidos.
Portanto, esse resultado era aceitĂĄvel. O homem ficou surpreso ao ver uma variedade tĂŁo rara e em grande quantidade, alĂ©m de nĂŁo esperar que os cavaleiros nĂŁo tivessem uma Ășnica baixa entre suas fileiras. No entanto, isso tambĂ©m era aceitĂĄvel. Na verdade, ele ficou satisfeito por ter vislumbrado os misteriosos poderes do Mil Truques.
Mas o que veio depois, ele não previu. O fato de o Mil Truques ter defendido a continuação da jornada não fazia sentido algum. Eles estavam protegendo o imperador de uma grande nação; qualquer um cancelaria a viagem após um incidente como esse.
Essa, claro, era a opiniĂŁo de Franz e da Contra Cascata, e o homem concordava com eles. Era difĂcil imaginar que alguĂ©m que tivesse alcançado o nĂvel 8 nĂŁo entendesse essa linha de pensamento.
E ainda assim, o Mil Truques se opÎs à proposta. Sua postura não foi nem um pouco abalada pelo ataque dos dragÔes. Seria isso excesso de confiança? Ou talvez algo mais?
O homem se lembrou do jeito que o Mil Truques agiu ao repelir os dragÔes. Foi por um breve momento, um pequeno gesto que ninguém mais notou. Ele viu os dragÔes, os conteve e, então, deu um joinha para o homem que o observava à distùncia. Foi quase como se estivesse elogiando um trabalho bem-feito.
Ver através do ardil enquanto lutava contra os dragÔes era impressionante, mas isso não explicava o gesto. E então ele defendeu a continuidade da missão.
Se fosse o caso, isso poderia até mesmo jogar a favor do homem. Dentro da capital imperial, o imperador era intocåvel. Mesmo que alguém conseguisse alcançå-lo dentro daquele castelo imponente, Rodrick era formidåvel com uma lùmina.
Mas se ele estivesse do lado de fora, onde suas defesas estavam enfraquecidas, entĂŁo as coisas seriam diferentes. Para o homem, que tinha o poder anormal de atrair dragĂ”es, matar o imperador estava dentro do reino do possĂvel. Assim, ele nĂŁo precisava se preocupar. Ele ficaria bem se desgastasse os Zebrudianos lentamente. Mas o homem estava inquieto com o quĂŁo bem as coisas estavam indo para ele. Era como se estivesse sendo empurrado diretamente para a garganta do imperador.
O que vocĂȘ estĂĄ pensando, Mil Truques?
O homem jĂĄ havia realizado muitas tarefas difĂceis antes. TambĂ©m havia falhado algumas vezes e atĂ© escapado da morte por um fio. Mas nunca havia se sentido tĂŁo abalado. O Mil Truques havia dito que nĂŁo haveria mais dragĂ”es, mas estava errado.
Era verdade que a Revanche do DragĂŁo exigia grandes quantidades de mana, e o homem nĂŁo sabia quantas utilizaçÔes sucessivas poderia suportar. Mas isso nĂŁo era motivo para evitar usar a RelĂquia. O homem segurou a cabeça e sussurrou para si mesmo em um tom tranquilizador.
Ele sĂł precisava seguir em frente como sempre. SĂł precisava pensar apenas em seu objetivo e cumprir lealmente seu dever.
***
â O que vocĂȘ estĂĄ pensando?! Senhor! â exclamou Kris. â Somos membros do mesmo clĂŁ! DevĂamos conversar sobre essas coisas!
â Agora, agora, acalme-se â eu disse.
â E nĂŁo sĂł isso â ela resmungou â, por que vocĂȘ estĂĄ no meu cavalo de novo?! Desça! Senhor!
â Agora, agora â repeti.
Na manhã seguinte ao ataque dos dragÔes, partimos da cidade. Compartilhando um cavalo com Kris, eu me agarrava às suas costas. Eståvamos servindo como retaguarda da caravana. Eles deviam estar em alerta måximo, pois as carroças estavam se movendo a um ritmo mais lento do que no dia anterior.
O clima estava tĂŁo bom que era difĂcil acreditar que havĂamos sido atacados por dragĂ”es na noite anterior. AtĂ© os cavalos pareciam trotar de bom humor. Eu estava perfeitamente confortĂĄvel.
Sitri, as coisas estĂŁo indo bem assim como estĂŁo.
Pensar nela me lembrou de algo que Tino havia dito sobre corvos brancos. Talvez ela estivesse certa? Na prĂłxima vez que a visse, daria a Sitri uma boa bronca.
Coloquei Telm na frente da caravana hoje. Eu sabia que ele era forte, mas ele superou minhas expectativas com a magia extraordinĂĄria que demonstrou. Ele talvez fosse ainda mais forte que Lucia. Com Telm ao nosso lado, essa missĂŁo estava em boas mĂŁos, independentemente do que aparecesse no nosso caminho. Eu teria que agradecer ao Inferno Abissal.
â E vocĂȘ nem estava certo sobre os dragĂ”es gĂ©lidos! Senhor! â Kris continuou. â A fraqueza deles nĂŁo era fogo! Isso foi algum tipo de piada?!
â Agora, agora â eu disse de novo.
â Onde estĂĄ sua motivação?! Por que nĂŁo pode ser sĂ©rio, como quando ergueu aquela barreira?! Senhor?! Se fosse, entĂŁoâŠ
â Ă, uh-huh.
Soltei um grande bocejo, enquanto Kris me dava um sermão ao fundo. O dia anterior havia sido uma verdadeira montanha-russa, mas eu não deixaria isso me afetar. Nada era mais fåcil do que um trabalho de escolta quando se estava cercado por companheiros poderosos. Eu até me sentia um pouco culpado por ter recebido o Tapete Voador sem estar realmente fazendo nada.
Assim como no dia anterior, o Tapete flutuava atrĂĄs de nĂłs. Ele era bem tranquilo quando ninguĂ©m estava montado nele. Segurando firme em Kris, me vireiâe congelei. Meu Tapete. Ele nĂŁo estava lĂĄ. Olhei ao redor, mas nĂŁo vi nenhum sinal dele.
â K-Kris! â disse, apertando sua cintura. â Pare! Pare o cavalo!
â O quĂȘ? O que aconteceu?!
Paramos. Com alguma dificuldade, desmontei e estreitei os olhos. Meu precioso Tapete tinha sumido! NĂŁo estava em lugar nenhum! Eu nem sequer tinha tido a chance de dar uma volta decente nele! O Tapete Voador ainda era uma RelĂquia. Mesmo os mais temperamentais como ele nĂŁo simplesmente desapareciam do nada.
As carroças continuaram a se mover, nos deixando para trĂĄs. Parecia que nĂŁo haviam notado que havĂamos parado. Eu nĂŁo tinha poder de fogo para oferecer, e nosso membro mais forte, Telm, ainda estava com as carroças, entĂŁo achei que tudo bem se eu me afastasse por um momento. SĂł um momento.
NĂŁo perdi tempo para tomar uma decisĂŁo.
â Kris, vamos voltar.
â Eu ouvi direito?! E o nosso trabalho?! Senhor?!
Vamos procurar meu Tapete! Meu precioso Tapete! Ele não deve estar muito longe. Tenho certeza de que podemos encontrå-lo. Não se preocupe, não deve demorar muito. E as carroças estão se movendo devagar, então devemos conseguir alcançå-las depois. Se perdermos o Tapete, então eu terei aceitado esse trabalho para nada!
***
â Hmm. NĂŁo tenho muita certeza do que estĂĄ acontecendo, mas nĂŁo Ă© uma mĂĄ forma de treinar â disse Luke Sykol. Um sorriso surgiu no rosto do Espadachim ruivo. Com um movimento muito natural, ele sacou a lĂąmina ao seu lado. â Isso Ă© o que torna a aventura divertida.
â Se divertindo, Luke? â perguntou Liz.
A espada de Luke era uma lĂąmina reta bem equilibrada. Tinha cerca de um metro de comprimento, uma lĂąmina larga e pesava muito pouco. No entanto, o aspecto mais distintivo dessa arma era que todas as suas partes eram feitas de madeira. Naturalmente, isso significava que ela nĂŁo possuĂa uma borda afiada.
Mas isso nĂŁo impediu Luke de apontĂĄ-la orgulhosamente para os cĂ©us sem nuvens acima. A ponta estava direcionada diretamente para uma pequena silhueta no cĂ©u. Aquela silhueta pertencia a um dragĂŁo verdeâuma variedade comum nomeada por suas escamas esverdeadas. Mas uma variedade comum de dragĂŁo ainda era um dragĂŁo e, portanto, nĂŁo era um alvo recomendado para ninguĂ©m abaixo do NĂvel 6.
O dragĂŁo nĂŁo demonstrava interesse nos humanos abaixo e voava como se algo o estivesse instigando a seguir em frente.
Lucia observou o dragão com insatisfação e soltou um suspiro.
â Com todos esses dragĂ”es que temos visto, estou mais do que disposta a apostar que alguma outra força estĂĄ agindo aqui.
â A menos que eu esteja enganada, dragĂ”es verdes nĂŁo vivem por aqui â acrescentou Sitri. â Suponho que tenham voado de algum lugar distante.
Fora algumas poucas variedades, todos os dragĂ”es eram excepcionalmente hĂĄbeis no voo. Esse era um dos motivos pelos quais dominavam as demais criaturas da terra. Em algumas ocasiĂ”es, podiam atĂ© mesmo ultrapassar a velocidade do somâalgo que nenhum mero humano poderia sequer sonhar em acompanhar.
Descansando sobre o ombro do irmão e balançando as pernas, Liz deu de ombros. Ela sempre gostava de um pouco de carnificina, mas até mesmo ela estava ficando cansada.
â Quantos jĂĄ foram? â perguntou. â Era para ter tantos dragĂ”es por aqui? O que estĂĄ atraindo eles?
â Quem sabe? â Sitri respondeu. â Iscas para monstros nĂŁo tĂȘm muito efeito em dragĂ”es. NĂŁo consigo pensar em nada que possa fazer isso, a nĂŁo ser algum tipo de RelĂquia.
Eles haviam acabado de avistar um dragão no céu, mas ninguém estava nervoso com isso. Assim como no dia anterior, estavam limpando o caminho para a caravana. Em apenas algumas horas, jå haviam encontrado cinco dragÔes.
â Raposas, talvez? â Liz sussurrou.
Sitri não deu atenção àquilo e, em vez disso, se virou para Luke.
â Krai disse que nĂŁo haverĂĄ mais dragĂ”es, entĂŁo vocĂȘ sabe o que isso significa.
Luke assentiu.
â PROVE DO MEU CORTE! Escola de Luke, tĂ©cnica de arremessoâBrilho EfĂȘmero!
O dragão acelerou, como se estivesse desafiando-o, e Luke lançou sua espada. Liz fez um comentårio sobre a estranheza de um Espadachim arremessar sua própria arma, mas isso não mudou o fato de que a lùmina voou reta e certeira como um cometa. Sem perder sua velocidade inicial, estava prestes a alcançar o dragão verde quando queimou completamente antes do impacto.
â Droga! Queimou de novo! â Luke disse, caindo de joelhos. â O que estĂĄ me faltando?! Lucia, outra espada!
â Hm. Talvez te falte motivação? â Liz sugeriu.
Ansem grunhiu em concordĂąncia.
â NĂŁo diga apenas o que lhe vem Ă cabeça â Lucia o repreendeu, formando em sua mĂŁo um pequeno redemoinho com fragmentos de gelo brilhantes. â Tempestade de Granizo!
Em um instante, o redemoinho expandiu-se em um tornado que alcançava os cĂ©us. A maioria dos feitiços baseados na natureza possuĂa efeitos em larga escala, e Lucia se especializava em magia de gelo. A tempestade de gelo se espalhou mais rĂĄpido do que o dragĂŁo podia voar, devastando a ĂĄrea ao redor no processo. Pouco depois, um estrondo abalou o solo. O dragĂŁo havia colidido com o chĂŁo, dilacerado pela tormenta.
â Nada de esforço excessivo hoje, pelo visto â Liz deu de ombros.
â Parece que o que quer que esteja chamando esses dragĂ”es nĂŁo consegue chamar dragĂ”es muito poderosos â Sitri observou.
â E quanto aos materiais? â Lucia perguntou.
â Hm. Vamos deixar para lĂĄ. Ă um desperdĂcio, mas isso Ă© muito para carregarmos.
â Ainda estou me divertindo, mas Ă© difĂcil ser grato por tanta presa, mesmo que sejam dragĂ”es â Luke disse. â Perdi minha espada, e seria mais fĂĄcil se viessem todos de uma vez, em vez de um por vez.
Ansem grunhiu.
Sitri olhou com pesar para a besta mĂtica. Cada parte de um dragĂŁo era um material valioso, mas eles nĂŁo tinham como carregar tudo aquilo.
â Siddy â Liz chamou do topo do ombro de Ansem â, tem uma horda imensa de monstros vindo em nossa direção. O que fazemos?
â Uma horda? SĂŁo dragĂ”es?
Liz estreitou os olhos. Ela viu bestas mĂticas e monstros sencientes correndo como se fosse o fim do mundo.
â Mmmm. Acho que vejo alguns dragĂ”es terrestres? Quanto Ă horda de monstros, vejo orcs, goblins e um monte de outras coisas!
Os dragÔes terrestres eram um dos poucos tipos de dragão que não podiam voar. Suas asas haviam se atrofiado, mas compensavam isso com seus corpos enormes e ataques poderosos. Eles estavam na cola do que parecia ser um bando de monstros terrestres.
A coexistĂȘncia entre dragĂ”es e monstros era impossĂvel. Ocupando o topo de cada ecossistema em que existiam, dragĂ”es eram os nĂȘmesees de todas as criaturas, exceto os humanos.
â Vamos lĂĄ, tenho certeza de que minha espada vai acertar agora. Chegou a hora. Hora de cortar! â Luke declarou. Empunhando uma espada forjada recentemente por Lucia, arregaçou as mangas.
Sem parar por um instante, a horda de monstros seguiu direto em direção aos Grievers. No entanto, seria mais preciso dizer que estavam indo em direção ao que estava muito atrĂĄs delesâo imperador e sua comitiva.
Sitri ponderou a situação por um momento antes de bater as palmas das mãos.
â Luke, por favor, corte apenas os dragĂ”es. Gostaria que deixasse os monstros intactos.
â Hm? Como Ă©? Para quĂȘ?
â Krai disse que nĂŁo tem uso para dragĂ”es â Sitri respondeu com um sorriso. â Ele nĂŁo disse nada sobre monstros.
Ele havia mencionado dragÔes especificamente. Isso provavelmente significava que queria qualquer coisa menos dragÔes. Sitri o conhecia hå muito tempo e sabia interpretar seus pensamentos, mesmo quando ele não os dizia em voz alta.
Luke assentiu, completamente convencido.
â Entendi. Ok, cortar com discrição, Ă© isso? Apenas os dragĂ”es. Certo. Eu consigo. Somente os dragĂ”es. Eu corto apenas os dragĂ”es. Hm. Acho que isso vai ser um bom treino, mal posso esperar.
***
Que confusão. A maldição deveria ter sido lançada com sucesso, mas nenhum dragão aparecia. Viajando em uma carruagem com outros guardas, o homem franziu a testa enquanto ponderava sobre a situação bizarra.
A jornada tinha sido tĂŁo tranquila quanto se poderia desejar. O cĂ©u estava sem nuvens ou qualquer sinal de dragĂ”es se aproximando. Os eventos da noite passada haviam sido fora do comum, mas nenhum dragĂŁo aparecer era algo inĂ©dito para ele. A RelĂquia simplesmente atraĂa dragĂ”es para sua posição, entĂŁo nĂŁo se podia esperar resultados imediatos. No entanto, essa demora era longa demais para ser ignorada.
O homem fez questão de não deixar sua preocupação transparecer no rosto. A caravana jå estava tensa após o incidente da noite anterior e provavelmente suspeitava que houvesse um traidor entre eles. E não havia sentido em se preocupar quando ele nem mesmo tinha como confirmar se a maldição havia funcionado ou não.
O Mil Truques nĂŁo estava em lugar nenhum por perto. Ele se ofereceu para ser a retaguarda, o que o colocou longe da carruagem do imperador. Isso nĂŁo fazia sentido. Se ele deveria proteger o imperador, era natural que permanecesse prĂłximo. Ele nĂŁo conseguiria chegar muito perto enquanto o imperador estivesse cercado por cavaleiros, mas isso nĂŁo justificava se voluntariar para ficar atrĂĄs.
Nesse estado atual, o imperador estava indefeso. Aqueles cavaleiros incompetentes ainda nĂŁo haviam percebido que o homem era seu inimigo. Mesmo sem RelĂquias, ele sabia lutar. NĂŁo faria nada impulsivo, mas acreditava que poderia matar o imperador se estivesse disposto a jogar sua prĂłpria vida fora no processo.
Entre os guardas, apenas o Mil Truques e a Contra Cascata eram superiores a ele. Sua Ășnica preocupação era com os artifĂcios sobre-humanos do Mil Truques, cujo comportamento ele achava incrivelmente suspeito.
â Monstros! â gritou um soldado que estava em reconhecimento. â Um enxame de monstros estĂĄ vindo! Ă enorme! Todas as unidades, preparem-se para proteger a carruagem!
O quĂȘ?!
ImpossĂvel. A maldição deveria atrair apenas dragĂ”es. Isso nĂŁo era obra dele. Ele se virou. O caçador designado para a retaguarda nĂŁo estava em lugar nenhum.
***
â Honestamente! Eu fico sem palavras! â exclamou Kris. â O que vocĂȘ estava pensando?! Pare de dar mais trabalho para a Lucia!
â Desculpa, desculpa â respondi, segurando minha preciosa. Agora que estava sem mana, nĂŁo passava de um tapete comum.
A culpa por esse desastre era inteiramente minha. Monitorar a carga de mana de uma RelĂquia autopropulsada deveria ser algo automĂĄtico para qualquer usuĂĄrio de RelĂquias. Se Matadinho descobrisse isso, eu certamente levaria uma bronca estrondosa.
â Eu fui com vocĂȘ porque vi o quanto estava preocupado! Senhor! Mas tudo isso foi porque vocĂȘ perdeu seu Tapete! Me sinto uma idiota! Senhor!
â PerdĂŁo.
â SĂł quando vocĂȘ perder esse sorriso! Senhor! E se algo tivesse acontecido com a caravana enquanto estĂĄvamos fora?!
Como ela podia me culpar por sorrir? Era uma reação perfeitamente normal ao recuperar meu Tapete. NĂŁo me sinto bem em admitir, mas provavelmente faria o mesmo se acontecesse de novo. NĂŁo Ă© como se o imperador estivesse mais seguro comigo por perto. Eu jĂĄ tinha dito a Sitri para nĂŁo enviar mais dragĂ”es, e era improvĂĄvel que viessem por conta prĂłpria. Se continuassem a aparecer, a Ășnica conclusĂŁo lĂłgica seria que o imperador estava amaldiçoado.
â NĂŁo se preocupe â falei para Kris. â JĂĄ disse antes, mas nada vai acontecer.
Viajamos em um ritmo acelerado e alcançamos a caravana em apenas dez minutos. E, quando chegamos, encontramos as carruagens cercadas por cadåveres de monstros.
Ao nos notar, Franz nos lançou um olhar demonĂaco. Aparentemente, algo realmente tinha acontecido. Dependendo da perspectiva, eu poderia ter tomado a decisĂŁo certa… ou errada ao ir buscar meu Tapete.
Eu podia ser um especialista em desculpas, mas tinha cometido o pior pecado possĂvel para um guarda contratado. Sem dizer nada, me separei do meu cliente, e ele foi atacado em minha ausĂȘncia. Isso poderia prejudicar minha reputação o suficiente para que meu nĂvel fosse rebaixado.
AtĂ© Kris ficou imĂłvel. Eu nĂŁo havia levado todo o grupo comigo, mas, como lĂder, nĂŁo seria fĂĄcil inventar uma desculpa para minhas açÔes. Provavelmente seria morto se contasse a verdade e dissesse que fui buscar meu Tapete.
Telm franziu a testa. A menos que eu estivesse enganado, Kechachakka parecia ter uma expressĂŁo nublada.
Calma, Krai Andrey. Agora nĂŁo Ă© hora de entrar em pĂąnico. Fique calmo. Calmo. VocĂȘ jĂĄ sobreviveu a muitas provaçÔes atĂ© agora, pode sobreviver a esta tambĂ©m.
Dei um leve tapinha nas costas enrijecidas de Kris e desci do cavalo. Mesmo agora, eu me sentia completamente confortĂĄvel.
â AlguĂ©m se feriu? â perguntei.
O sangue subiu à cabeça de Franz.
â Com. Que. Direito. VocĂȘ. Pergunta?! â E, depois de algumas respiraçÔes ofegantes, respondeu: â Nenhum ferido.
Ele era incrivelmente sensato para um nobre. Um nobre comum certamente teria berrado comigo. Mas o mais importante era a notĂcia de que ninguĂ©m havia se ferido. Olhando ao redor, os sinais de batalha sugeriam que tinha sido um massacre unilateral. Nada de surpreendente quando tĂnhamos um Mago capaz de aniquilar um ninho inteiro de dragĂ”es gĂ©lidos num instante. Nenhum enxame de monstros seria uma ameaça enquanto ele estivesse por perto.
Este não era o momento para relaxar, mas me senti aliviado. Se ninguém tinha se ferido, talvez ainda houvesse uma chance de ser perdoado? Talvez. Ou talvez eu estivesse apenas sendo iludido.
NĂŁo vou fazer isso de novo, entĂŁo, por favor, me perdoem.
Franz marchou atĂ© mim, parando bem na minha frente. Todos me encaravam com olhares crĂticos.
â Por mais que eu queira resolver isso agora â ele disse, como se cada palavra fosse projetada para instilar medo â, estamos, infelizmente, parados no meio da estrada! Quando chegarmos Ă cidade, espero uma explicação completa de vocĂȘ!
E agora, o que eu faço?
â O que vocĂȘ vai fazer, fraco humano? â Kris perguntou em voz baixa. Mais uma vez, eu estava montado no cavalo dela. â NĂŁo tenho nenhum apego especial a esse trabalho ou Ă s suas hierarquias, mas meu orgulho exige que nĂŁo sejamos demitidos.
â Hmm.
Para ser sincero, nĂŁo achei que houvesse nada que pudĂ©ssemos fazer. Trazer Telm tinha sido minha decisĂŁo, e ele eliminou os dragĂ”es gĂ©lidos. Eu tinha certeza de que essa decisĂŁo me impediria de ser preso, mas isso seria um golpe para minha honra. No entanto, eu nĂŁo me importava muito com honra (nem ninguĂ©m na Grieving Souls, aliĂĄs), e uma redução de nĂvel seria atĂ© bem-vinda.
Mas havia um pequeno problemaâo Tapete. SerĂĄ que eles iriam querer ele de volta? Me deixariam comprĂĄ-lo?
â Aah, e a Lucia ainda me mandou cuidar de vocĂȘ â Kris lamentou. LĂĄgrimas se formaram no canto de seus olhos delicadamente moldados.
â N-NĂŁo se preocupe â eu disse a ela. â VocĂȘ sĂł estĂĄ aqui porque eu te arrastei. Farei o que puder para te ajudar.
â Apenas cale a boca! Senhor!
â Okay.
Alguns cavaleiros foram desviados da guarda imperial e estavam de olho em nĂłs. Eu nĂŁo planejava ir a lugar nenhum, mas havia perdido toda a confiança que tinham em mim. Imagino que tambĂ©m nĂŁo ajudava o fato de que FĂ©rias Perfeitas nĂŁo parecia a RelĂquia Ăștil que realmente era. Pensando bem, eles tinham muitos motivos para nĂŁo confiarem em mim.
NĂŁo Ă© como se eu tivesse querido me afastar da caravana, mas isso nĂŁo significava muito para eles. Render-me parecia a melhor opção naquele momento. Enquanto seguĂamos viagem, eu me sentia cada vez mais como um homem a caminho da execução. Mas entĂŁo a caravana parou abruptamente.
Seria outro ataque?! Talvez o imperador realmente estivesse amaldiçoado, sendo atacado tantas vezes assim.
Eu sabia que deveria ter dito nĂŁo para issoânĂŁo. NĂŁo. Eu preciso do Tapete Voador.
â D-Desça! Depressa! Senhor! â Kris latiu.
Eu não ouvia nenhum som de combate, então não devia ser um ataque. Franz deixou o lado do imperador e veio até nós. Seu rosto estava sério, mas não carregava a raiva de antes.
â Ă um cadĂĄver de dragĂŁo â ele disse. â HĂĄ marcas evidentes de que nĂŁo morreu de causas naturais.
â O que hĂĄ com todos esses dragĂ”es? â perguntei. â O impĂ©rio virou territĂłrio de dragĂ”es? Talvez devĂȘssemos mudar a capital de lugar.
â Sua Majestade Imperial solicita sua avaliação da situação.
â Eu nĂŁo sou especialista nem nada.
â Apenas venha logo!
Fiquei um pouco incomodado com a quantidade de confiança que depositavam em mim para o meu nĂvel. Todo nĂvel 8 recebia esse tipo de deferĂȘncia?
Franz me arrastou até a frente da caravana, onde um cadåver repousava no meio da estrada. A cor da sua pele indicava que era um dragão verde. O primeiro dragão que a Grieving Souls matou foi um dragão verde, mas isso jå fazia muito tempo.
Ele era bem maior do que uma das nossas carruagens especialmente construĂdas, mas seu corpo estava estraçalhado e suas asas despedaçadas. Telm tocou a superfĂcie do dragĂŁo e franziu a testa.
â Se foram caçadores que fizeram isso, entĂŁo eu me pergunto por que abandonaram o cadĂĄver â Franz disse. â SerĂĄ que foi obra de outra besta mĂtica?
â Ele foi morto bem recentemente â Telm nos disse em um tom calmo. â Acredito que foi morto por magia de gelo, e enquanto voava, ainda por cima.
â NĂŁo existe magia de gelo capaz de derrubar um dragĂŁo tĂŁo facilmente â Kris disse, igualmente impassĂvel â, ou pelo menos Ă© o que eu gostaria de dizer. HĂĄ traços no ar indicando que um feitiço de grande escala foi lançado recentemente. Isso provavelmente foi obra de um humano. Senhor.
Kechachakka riu para si mesmo.
Fiquei impressionado. EntĂŁo era assim que os caçadores trabalhavam. Que traços no ar eram esses que Kris mencionou? SerĂĄ que ela podia vĂȘ-los? Tudo o que eu conseguia perceber era que havia um dragĂŁo morto na minha frente. Cruzei os braços e balancei a cabeça, impressionado com o trabalho deles.
Franz me lançou um olhar penetrante.
â Se importa em oferecer sua prĂłpria avaliação?
â Mmm. NĂŁo sei bem como dizer isso, mas acho que nĂŁo precisamos nos aprofundar nisso.
â O quĂȘ?!
Eles nĂŁo tinham como saber disso, mas mais uma vez eu estava ciente de algo que eles nĂŁo estavamâLucia fez isso. Minha irmĂŁ mais nova, Lucia Rogier, era uma especialista quando se tratava de feitiços ofensivos de ĂĄrea.
Mesmo na Grieving Souls, cada membro tinha um papel especĂfico a desempenhar. Ăs vezes, nos encontrĂĄvamos cercados por dezenas de monstros. A tarefa de interceptĂĄ-los recaĂa sobre Lucia, a Avatar da Criação.
Ă medida que suas habilidades evoluĂram, o alcance potencial de seus feitiços tambĂ©m aumentou. Ela jĂĄ havia alcançado alturas incrĂveis, como vimos quando transformou uma cidade inteira em sapos. Lucia gostava particularmente de magia de gelo, entĂŁo eu tinha certeza de que isso era obra dela (ouvi dizer que, ultimamente, a tĂĄtica favorita da Grieving Souls era fazer Lucia desacelerar o alvo com gelo e depois deixar os outros membros avançarem).
Mergulhado na minha inutilidade, coloquei minha melhor expressĂŁo de durĂŁo (nĂŁo pergunte).
Hmm. Então eles seguiram na frente. Parece que alguém não consegue evitar se preocupar com o irmão.
Franz se aproximou de mim.
â Isso foi obra sua?!
Claro que não. Que tipo de pessoa ele achava que eu era? Como eu poderia ter ido na frente e matado um dragão se estive com a caravana durante quase toda a viagem? Telm me lançou um olhar suspeito.
Mas então tive uma revelação divina.
SerĂĄ que eu poderia usar isso como desculpa para minha ausĂȘncia?
Seria uma mentira, mas tecnicamente eu era o lĂder da Grieving Souls, entĂŁo talvez conseguisse me safar dizendo que o poder deles era o meu poder?
â Bem â falei â, nĂŁo vou dizer que vocĂȘ estĂĄ errado.
â Isso nĂŁo Ă© uma resposta!
â O humano andou comigo o tempo todo â Kris interrompeu. Sua fala era rude, mas ela ainda demonstrava diligĂȘncia ao responder a Franz. â Ele nĂŁo fez nada. Senhor.
VocĂȘ estĂĄ certo. Completamente certo. Mas ainda assim!
Kris era mesmo uma pessoa honesta. Apenas dei um sorriso patético e dei de ombros.
â Seja como for, nĂŁo hĂĄ necessidade de perder tempo com algo tĂŁo insignificante quanto este cadĂĄver. O que quer que tenha acontecido, o fato Ă© que ele estĂĄ morto. Vamos logo para a prĂłxima cidade.
No entanto, a estrada estava repleta de dragÔes mortos. Era como uma galeria de cadåveres. Tudo que pude fazer foi esboçar um sorriso sem graça enquanto observava aquela paisagem anormal.
Havia monstros despedaçados e um dragão cortado perfeitamente ao meio (provavelmente obra do Luke).
Havia um dragĂŁo vermelho claramente morto, mas sem ferimentos visĂveis (provavelmente obra da Sitri).
Havia um wyvern com a cabeça arrancada e torcida (provavelmente trabalho da Liz e do Ansem).
Até Franz e seus orgulhosos cavaleiros pareciam nauseados com as cenas horrendas. Telm não demonstrava nenhuma reação, mas era óbvio que tinha algo a dizer. Era bem provåvel que ele jå tivesse percebido que alguns dos meus aliados eram os responsåveis por aquilo. Ele não precisava se preocupar, pois esses aliados eram meus amigos de infùncia.
Olhe só para todos esses dragÔes mortos. Talvez seja mesmo hora de sair de Zebrudia.
***
Franz Argman congelou ao ouvir o que o imperador tinha a dizer.
â VocĂȘ quer os caçadores. Ao seu lado? â ele gaguejou.
Esse tinha sido o trabalho de escolta mais anormal que ele jå havia experimentado. Houve o ataque da Raposa, a ninhada de dragÔes, a horda de monstros e agora os dragÔes inexplicavelmente massacrados. Haviam sobrevivido mais um dia, mas os cavaleiros estavam exaustos.
Rodrick continuava inabalåvel como sempre, sem demonstrar nenhum sinal de cansaço. Mas isso era apenas porque ele escondia bem. O peso de um grande império sobre seus ombros certamente causava um desgaste muito maior do que aquele sentido por Franz.
Isso era humilhante. A Ordem Zero sempre havia sido encarregada de proteger o imperador e nunca havia cedido essa responsabilidade a ninguĂ©m. Mas a justificativa do imperador nĂŁo era difĂcil de entender. A guarda imperial era formada por alguns dos melhores guerreiros, mas ainda havia uma diferença evidente entre eles e a Contra Cascata. Aquele caçador de NĂvel 6, Kechachakka, e Kris eram, sem dĂșvidas, Magis mais poderosos do que qualquer um da guarda imperial. Sem eles, todos poderiam ter morrido para os dragĂ”es gĂ©lidos.
â Falas a verdade, Vossa Majestade Imperial â Franz disse. â A Contra Cascata Ă© poderosa e altamente qualificada. No entanto, as açÔes daquele homem, o Mil Truques, sĂŁo claramente anormais. Receio que colocĂĄ-lo ao seu lado seja uma decisĂŁo precipitada.
Franz sentia-se desconfortĂĄvel com o Mil Truques. O NĂvel 8. NĂŁo era difĂcil acreditar que seus poderes fossem excepcionais, mas seu comportamento desafiava qualquer compreensĂŁo. Franz jĂĄ havia encontrado muitos caçadores arrogantes, mas aquele era diferente. Para falar a verdade, ele o considerava o tipo de caçador que ninguĂ©m gostaria de ter por perto. Sem mencionar os rumores sobre os Desafios que ele gostava de impor aos membros de seu clĂŁ.
â Tens razĂŁo â o imperador concordou. â Mas a inocĂȘncia desse homem jĂĄ foi provada pelas LĂĄgrimas da Verdade.
Se todos esses ataques fossem obra da Raposa, entĂŁo significava que eles sabiam a rota que a caravana estava seguindo. A explicação mais provĂĄvel era que havia um traidor entre eles. Se isso fosse verdade, entĂŁo as Ășnicas duas pessoas cuja inocĂȘncia estava garantida eram Franz e o Mil Truques. Que ironia, o caçador mais enigmĂĄtico era justamente o homem em quem Franz poderia confiar mais.
Quando encontraram o cadĂĄver do dragĂŁo, o Mil Truques permaneceu calmo e sereno, enquanto atĂ© mesmo a Contra Cascata fez uma careta de desconforto. De algum modo, isso trouxe uma sensação estranhamente reconfortante para Franz. Os meios pelos quais ele poderia ter feito aquilo eram um mistĂ©rio, e ele nunca sequer admitiu tĂȘ-lo feito, mas se aquele homem insondĂĄvel realmente tivesse matado aqueles dragĂ”es, Franz nĂŁo poderia removĂȘ-lo da guarda, por mais que quisesse.
Franz era o lĂder da Ordem Zero, a guarda pessoal do imperador. Ele jamais colocaria seu orgulho acima da segurança do imperador. E, se o Mil Truques estivesse por perto, ele poderia mantĂȘ-lo sob vigilĂąncia. Partindo dessa lĂłgica, seus subordinados tambĂ©m provavelmente aceitariam essa decisĂŁo.
Os olhos de Rodrick Atolm Zebrudia eram claros, e Franz quase sentiu que conseguia enxergar sua alma. A segurança do imperador era a prioridade absoluta. Ele não conseguia impedir que o estresse se refletisse em seu rosto, mas ao menos conseguia controlar suas emoçÔes.
â Como desejar, Vossa Majestade Imperial â ele respondeu.
***
Telm Apoclys estava sentado em seu quarto na estalagem. Ele refletia profundamente sobre a situação atĂ© aquele momento e chegou a uma conclusĂŁo amarga. Ele jĂĄ tinha suas suspeitas, mas os Ășltimos acontecimentos lhe deram as provas que precisava.
Ele tinha quase certeza de que o Mil Truques era um membro da Raposa Sombria de Nove Caudas. Mais do que isso, Telm suspeitava que ele ocupava um dos cargos mais altos dentro da organização. A Contra Cascata não sabia como aquele homem havia enganado as Lågrimas da Verdade, mas ele precisava confirmar suas suspeitas.
Tradução: Carpeado Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â Clicando Aqui
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