Grieving Soul â CapĂtulo 2 â Volume 6
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 06
CapĂtulo 2: O Espaguete na Parede do ArtĂfice PrĂ©-Humano
Eu me sentia encurralado. Ăs vezes, eu agia de forma impulsiva ou despreocupada, mas nunca com malĂcia. Ainda assim, lĂĄ estava eu. JĂĄ havia passado uma noite desde o Encontro. Eu estava no meu lugar de sempre no escritĂłrio do mestre do clĂŁ, largado sobre a mesa. Sitri tinha envenenado as bebidas, e o Inferno Abissal quase destruiu o salĂŁo do banquete.
A invasĂŁo dos meus amigos de alguma forma passou despercebida, mas o veneno foi longe demais. SĂł de levar algo assim para o Encontro jĂĄ era pedir confusĂŁo. NĂŁo havia desculpa que eu pudesse dar, e rastejar aos pĂ©s deles nĂŁo seria o suficiente para me livrar dessa. Sitri ainda nĂŁo tinha sido descoberta, mas Zebrudia tinha investigadores excelentes. Eventualmente, eles descobririam a verdade. Afinal, o impĂ©rio possuĂa uma RelĂquia que detectava mentiras.
â Aqui estĂĄ o jornal, Krai â disse Eva, me entregando-o.
Normalmente, eu sĂł dava uma olhada por cima, mas dessa vez li com atenção. Parecia que um sigilo havia sido imposto, porque nĂŁo havia uma Ășnica palavra sobre um intruso no Encontro. Em vez disso, outro assunto dominava a primeira pĂĄgina.
â Um ataque de dragĂŁo em Zebrudia? â murmurei.
â Tenho certeza de que vocĂȘ jĂĄ sabe, mas foi logo depois de partirmos.
Eva tinha olheiras profundas e um olhar cansado. E nĂŁo, eu nĂŁo fazia ideia desse ataque de dragĂŁo.
â Ă… nĂŁo existe azar demais, nĂ©? â resmunguei.
â Hm? Azar?
Os dragĂ”es eram considerados as mais poderosas de todas as bestas mĂticas. Seus formatos variavam de uma espĂ©cie para outra, mas todos tinham corpos incrivelmente resistentes e enormes reservas de mana. Diziam que dragĂ”es solitĂĄrios eram capazes de aniquilar paĂses inteiros. O tĂtulo de Matador de DragĂŁo sempre foi uma prova de grandeza.
No entanto, dragĂ”es raramente atacavam assentamentos humanos. Pode parecer difĂcil de acreditar, considerando meu encontro com o dragĂŁo das ĂĄguas termais em Suls, mas, na minha carreira de caçador, eu sĂł vi dragĂ”es atacando cidades em trĂȘs ocasiĂ”es.
â Felizmente, havia vĂĄrios caçadores de alto nĂvel por perto, entĂŁo o dragĂŁo foi exterminado â disse Eva.
â Hmm.
Olhei o jornal. Aparentemente, Ark e os outros haviam salvado a capital imperial. A Casa Rodin tinha fortes laços com a nobreza, entĂŁo normalmente era seu dever lidar com ameaças assim. Mas Luke e muitos dos caçadores presentes no Encontro tambĂ©m ficaram para proteger o castelo naquela noite. Esse era um dos pontos positivos da natureza destemida dos caçadores â eles tinham força para enfrentar dragĂ”es.
Recentemente, um elemental atacou uma cidade, depois vieram os Homens das Cavernas, entĂŁo o dragĂŁo das ĂĄguas termais… Zebrudia estava tendo meses bem difĂceis. SerĂĄ que o envenenamento da Sitri tinha algo a ver com isso?
E então me ocorreu algo. Cruzei os braços, cruzei as pernas e olhei para o teto.
PeraĂ. A Liz disse que aquelas bebidas nĂŁo estavam envenenadas, mas sim drogadas. EntĂŁo existem dois culpados? Afinal, houve um intruso no evento…
â Esse caso estĂĄ bem complicado â murmurei. â SerĂĄ que os investigadores do impĂ©rio vĂŁo conseguir lidar com isso?
â Hm?
Se fosse deixado de lado, talvez nem fosse um grande problema, mas Sitri tinha complicado tudo. E como aquela mulher pirĂŽmana queimou quase tudo atĂ© virar cinzas, era bem possĂvel que nem descobrissem como o intruso entrou. Mesmo os brilhantes investigadores do impĂ©rio dificilmente suspeitariam que a droga e o veneno foram obra de pessoas diferentes.
NĂŁo havia nem mesmo prova de que a droga realmente estava nas bebidas. Talvez houvesse algumas que eu nĂŁo tinha dado para Liz, mas essas tambĂ©m foram destruĂdas pela pirĂŽmana. Soltei um gemido enquanto fechava os olhos, tentando juntar as peças.
â Descobriu alguma coisa? â perguntou Eva, hesitante.
â Se eu estiver certo, hĂĄ dois culpados envolvidos nisso.
â HĂŁ?! Como assim?!
Tinha a Sitri e tinha quem quer que tenha colocado a droga. Era natural presumir que o responsĂĄvel pela droga estivesse ligado ao intruso. Mas eu nĂŁo ia sair espalhando minhas suspeitas por aĂ. Se fizesse isso, Sitri poderia ser marcada como criminosa.
Cometer crimes nĂŁo era algo bom, mas, como princĂpio, eu sempre ficaria ao lado da Sitri. Eu fugiria do impĂ©rio antes de entregĂĄ-la Ă s autoridades. Falando com o benefĂcio da retrospectiva, ninguĂ©m havia se ferido por causa do veneno dela, e isso era o mais importante para mim.
PodĂamos simplesmente jogar a culpa do envenenamento no verdadeiro criminoso. Afinal, essa pessoa jĂĄ estava destinada Ă forca por ter invadido o Encontro. HĂŁ? Como Ă©? A Tino e a maior parte do meu grupo tambĂ©m invadiram? Ha ha ha.
â Ainda assim, aquela velha pirĂŽmana realmente bagunçou tudo pra gente…
Se o Inferno Abissal nĂŁo tivesse incinerado tudo, talvez jĂĄ tivĂ©ssemos encontrado alguma evidĂȘncia e capturado o culpado. E, pensando bem, o prĂłprio imperador poderia ter se queimado ali. Como diabos aquela velha ainda nĂŁo tinha sido presa? Era porque, se tentassem, ela botaria fogo em tudo de novo?
De qualquer forma, tudo o que eu podia fazer era rezar para que o verdadeiro culpado fosse preso e me preparar para cobrir a Sitri caso ela se tornasse suspeita. NĂŁo havia muito o que eu pudesse fazer quanto Ă primeira parte, mas para a segunda, eu estava disposto a tudo.
NĂŁo consegui fazer muito por ela quando foi suspeita de estar envolvida na fuga da prisĂŁo, mas, ao longo dos anos, eu amadureci. Ok, foi basicamente sĂł meu NĂvel que cresceu, mas isso se traduzia diretamente em confiança. Se um NĂvel 8 dizia algo, geralmente acreditavam nele.
O Ășnico problema era que, desta vez, Sitri nĂŁo era exatamente inocente.
â VocĂȘ sabe quem Ă© o culpado? â perguntou Eva.
â O culpado Ă© o invasor.
â HĂŁ, mas a identidade dele? E vocĂȘ disse que eram dois, entĂŁo eles tinham um cĂșmplice?!
â Agora, agora, calma, Eva. NĂŁo Ă© tĂŁo simples assim.
Os olhos de Eva se arregalaram por um momento antes de ela baixar o olhar.
â Desculpa, eu nĂŁo consegui evitar â disse ela.
Talvez nĂŁo fosse um problema se Eva soubesse a verdade.
Jå tinha contado com ela vårias vezes e confiava completamente nela. Mas, acima de tudo, ela era muito mais competente do que eu e talvez realmente conseguisse encontrar uma solução para tudo isso.
â A propĂłsito â falei para ela â, Sitri e Tino foram quem plantaram o veneno detectado depois do ataque.
Os olhos de Eva se arregalaram o mĂĄximo possĂvel.
â O quĂȘ?! â disse ela, sua voz exausta e cansada. Uma reação bem compreensĂvel, considerando tudo. Ela piscou algumas vezes e me olhou, incrĂ©dula.
â HĂŁ? HĂŁ? HĂŁĂŁĂŁ?!
â Relaxa. Isso nĂŁo Ă© o que me preocupa.
â C-C-Como vocĂȘ espera que eu relaxe?!
Eva parecia estar entrando em pĂąnico, o que nĂŁo era algo que acontecia com frequĂȘncia. Comecei a pensar que talvez tivesse falado demais, mas jĂĄ nĂŁo dava para voltar atrĂĄs.
Estå tudo bem, estå tudo bem. Vai dar tudo certo. Ninguém morreu ainda, então ainda då tempo de consertar isso!
Foi entĂŁo que a porta se abriu com tudo. O corpo inteiro de Eva tremeu.
â Ei, Krai! Deixa eu te mostrar uma coisa!
Era Luke, meu amigo que deveria estar protegendo o Castelo Imperial. Ele percebeu o olhar de terror de Eva, mas não demonstrou nenhuma reação em particular.
O problema estava no que ele estava carregando. Era quase do tamanho dele e exalava um cheiro forte de sangue. Esse era um cheiro com o qual a maioria dos caçadores de tesouros estava acostumada, mas eu realmente gostaria que ele levasse aquilo para outro lugar.
â Pulei no ar e derrubei com um corte â Luke se gabou, largando o que carregava com um baque surdo. â Ark quase conseguiu antes de mim, mas eu saĂ vitorioso!
VocĂȘ Ă© um gato, trazendo sua caça pra casa? Ei, nĂŁo abre isso.
â Aqueles caras do governo imperial pegaram metade. Acho que tudo bem, isso nem caberia na porta de qualquer jeito.
Andar por aà com algo que cheirava tão mal era praticamente terrorismo. Com certeza estaria pingando sangue por toda parte se alguém não tivesse embrulhado aquilo para evitar o pior. De certo modo, Luke era o mais determinado de nós a viver no próprio ritmo. Comparado a ele, Liz parecia bem sensata.
â Ah, certo, Krai. Aqueles caras do governo imperial querem falar com vocĂȘ. EstĂŁo esperando na Associação dos Exploradores.
â Eu nĂŁo quero falar com eles.
â Ă mesmo? Quer que eu corte eles?
â De repente, fiquei com muita vontade de falar com eles.
Mas nĂŁo tinha coragem de ir sozinho. Quando me levantei a contragosto, percebi que Eva me olhava com lĂĄgrimas nos olhos. Isso era algo que raramente acontecia. Imagino que os Ășltimos minutos tenham sido bem chocantes para ela.
â Eva, vem comigo. Luke, vocĂȘ nĂŁo precisa vir. Isso sĂł complicaria as coisas.
Se uma civil estivesse presente, até mesmo aqueles do governo imperial mostrariam alguma contenção. Eles podiam ser assustadores, mas não eram como as crianças selvagens do nosso grupo.
â Espera, Krai. O que eu faço com isso? â Luke perguntou com um olhar estranho, apontando para o embrulho de cheiro sanguinolento.
Eu nĂŁo tinha a menor ideia do que fazer com aquilo.
â Faz o que quiser, sĂł nĂŁo suja nada â disse com um suspiro profundo.
Honestamente, por que sempre vinham a mim pedindo ajuda? Havia muitos outros caçadores competentes na capital imperial. Eu não conseguia entender. Meu corpo implorava para não ir, mas me recompus e segui para a sala de reuniÔes da Associação.
Juntos, Eva e eu entramos e encontramos uma sala jĂĄ preenchida por rostos notĂĄveis. Estavam lĂĄ o gerente da filial, Gark, e Kaina; Franz, o cavaleiro que brilhantemente me isentou da patrulha junto com alguns de seus companheiros; e a Inferno Abissal, agindo como se fosse dona do lugar. NĂŁo pude evitar fazer uma careta ao vĂȘ-la.
â Hmph. Tem algo a dizer? â ela perguntou. Me encarou com um olhar intenso que nĂŁo deveria ser possĂvel para alguĂ©m da idade dela.
â NĂŁo. Nada, na verdade… â respondi, desviando o olhar.
Olhei em volta, mas nĂŁo fiquei surpreso ao ver que o imperador nĂŁo estava presente. Sentei-me, e Franz fez uma breve saudação antes de dar inĂcio Ă conversa.
â Fico feliz que todos puderam vir â ele começou. â Reuni todos aqui para confirmarmos os detalhes sobre o ataque do dragĂŁo na noite passada. Imagino que jĂĄ tenham ouvido o que aconteceu?
â Antes disso, posso fazer uma pergunta? â perguntei.
â O que foi?
A bochecha de Gark se contraiu e Eva pareceu preocupada. Eles estavam se preocupando Ă toa, eu nĂŁo ia dizer nada estranho.
â JĂĄ identificaram o culpado pelo envenenamento da noite passada?
â Ainda nĂŁo.
Seguro, pensei, soltando um suspiro de alĂvio antes de conseguir evitar. Ouvi Franz ranger os dentes.
â HĂĄ algo que gostaria de dizer, Krai Andrey?
â NĂŁo, nada nĂŁo. Pode continuar.
O fato de ainda nĂŁo terem encontrado o culpado era, na verdade, uma boa notĂcia. Se ainda nĂŁo tinham identificado ninguĂ©m, isso provavelmente acabaria se tornando um caso sem solução. Sitri deve ter feito um bom trabalho.
< p align="left" style="font-family: georgia; font-size: large;"> Franz respirou fundo vĂĄrias vezes antes de falar com uma voz tensa.â Na noite passada, um dragĂŁo carmesim atacou o Castelo Imperial. Aconteceu no meio da noite, por volta das trĂȘs da manhĂŁ. Bem na hora em que vocĂȘ foi para casa, Krai Andrey. Felizmente, o castelo contava com a proteção de vĂĄrios caçadores de alto nĂvel.
â Ah, sim, um dos nossos, Ark, estava lĂĄ. Li sobre isso no jornal. Pobre dragĂŁo â comentei.
DragĂ”es eram seres poderosos, mas praticamente todo caçador de alto nĂvel tambĂ©m era um Matador de DragĂ”es. Se minha memĂłria estava correta, Ansem tambĂ©m estava lĂĄ. Mesmo um dragĂŁo teria dificuldades contra oponentes como ele e Ark. Um ataque de dragĂŁo era um problema, mas pelo menos foi resolvido com facilidade.
Mas por que estavam me chamando para falar sobre isso? NĂŁo via como isso tinha algo a ver comigo.
â O dragĂŁo veio direto para o Castelo Imperial â disse Franz, lançando um olhar afiado para mim. â Conferi os registros para ter certeza, e essa foi a primeira vez que isso aconteceu desde que a capital foi transferida para cĂĄ.
â Bem, sempre hĂĄ uma primeira vez para tudo. Tenho experiĂȘncias inĂ©ditas o tempo todo.
â Krai, para de enrolar! â gritou Gark, embora eu nĂŁo estivesse enrolando. Isso era muito injusto da parte dele. Desde que cheguei Ă capital imperial, todo grande incidente aqui tinha sido uma novidade para o lugar. Talvez eu estivesse amaldiçoado.
â DragĂ”es nĂŁo atacam assentamentos humanos sem motivo. Estamos todos da opiniĂŁo de que o dragĂŁo estava atrĂĄs de algo dentro do Castelo Imperial.
â Entendi. Isso Ă© um baita problema â comentei. â Espera, peraĂ. Se o dragĂŁo estava atrĂĄs de algo no castelo, entĂŁo ele nĂŁo teria atacado hĂĄ muito tempo?
Alguns dragĂ”es tinham o hĂĄbito de acumular tesouros. Dizia-se que, se alguĂ©m roubasse seu tesouro, eles enlouqueceriam de raiva e perseguiriam a pessoa atĂ© onde fosse necessĂĄrio para recuperar o que sentiam ser deles. As feras mĂticas possuĂam força e inteligĂȘncia extraordinĂĄrias, mas de forma alguma eram tolerantes. Para eles, humanos nĂŁo passavam de um lanche insatisfatĂłrio.
Então, o que quer que o dragão estivesse procurando provavelmente havia sido trazido recentemente para o Castelo Imperial. DeduçÔes brilhantes da minha parte.
â Para de fingir que nĂŁo sabe de nada! â gritou Franz, batendo a mĂŁo na mesa. â Pelo que entendemos, aquele dragĂŁo foi atraĂdo atĂ© aqui pelo ovo de dragĂŁo que vocĂȘ deu para Sua Alteza!
â HĂŁ?
Isso era algo que eu nĂŁo esperava ouvir. DragĂ”es realmente botavam ovos, mas apenas um por vez. Roubar um deles enfureceria o dragĂŁo, e ele viria recuperar seu ovo assim que possĂvel.
No entanto, aquela lembrança nĂŁo era um ovo de dragĂŁo. Como eu havia dito para Eva, “ovo de dragĂŁo termal” era apenas um nome de produto. Era um ovo de galinha, um dos muitos vendidos em Suls. Sobre o que esse cara estava falando?
â Sinto muito, mas aquilo era sĂł um ovo termal â expliquei hesitante.
â Exatamente! Exatamente isso! â Franz gritou, batendo na mesa de novo. â EntĂŁo, tomamos a iniciativa e inspecionamos o presente. E, como uma piada de mau gosto, descobrimos que era um simples e comum ovo termal! Nada mais! AtĂ© confirmamos que eles sĂŁo vendidos em Suls! Sabe o que isso significa?
Franz se inclinou para mim, o rosto vermelho e respirando pesado. Pensei seriamente no assunto.
â DragĂ”es carmesim tĂȘm um gosto especial por ovos termais?
Franz se levantou, os lĂĄbios tremendo.
â Significa que alguĂ©m estĂĄ tentando incriminar Krai, ou melhor, o Mil Truques â disse Eva. Eu sempre podia contar com ela.
Franz cerrou os punhos e respirou fundo.
â Exato. Isso mesmo. Se o seu presente tivesse sido um ovo de dragĂŁo genuĂno, mesmo que nĂŁo fosse um ovo de dragĂŁo carmesim, vocĂȘ seria o principal suspeito e teria poucas chances de provar sua inocĂȘncia.
Ah, entĂŁo esse era o truque. Agora entendi.
â Mas vocĂȘ escapou dessa â continuou Franz. â E reduziu a lista de suspeitos. O responsĂĄvel tem que ser alguĂ©m que sabia que vocĂȘ entregou aquele ovo para Sua Alteza.
Que desvio milagroso foi esse. O que eu tinha feito para merecer tanta sorte? Provavelmente ajudava o fato de eu nĂŁo levar uma vida que envolvesse roubar ovos de dragĂŁo.
Depois de ficar em silĂȘncio pela primeira vez na vida, a Inferno Abissal bufou e deu sua opiniĂŁo.
â Armou uma armadilha, foi, garoto? Isso Ă© bem tĂpico de vocĂȘ.
â HĂŁ?
Armadilha? Do que ela estava falando? Eu jĂĄ tinha caĂdo em armadilhas, mas nunca fui quem as armava. AlĂ©m disso, toda essa conversa de armar uma armadilha com um ovo de dragĂŁo parecia insana. NĂŁo pude evitar rir um pouco.
â De qualquer forma â disse Franz depois de limpar a garganta â, hĂĄ pouquĂssimas pessoas capazes de manipular dragĂ”es. Tudo o que serĂĄ discutido daqui em diante deve ser mantido em sigilo.
Ele levantou as mĂŁos e os cavaleiros atrĂĄs dele deixaram a sala, seguidos por alguns funcionĂĄrios da Associação dos Exploradores. As Ășnicas pessoas restantes eram eu, Eva, Gark, Kaina, Franz e a Inferno Abissal. Eu queria sair tambĂ©m, mas isso pareceria um pouco indelicado.
Franz respirou fundo e colocou um grande objeto embrulhado em tecido sobre a mesa. Um sinal de tensĂŁo cruzou seu rosto.
â Estamos em uma situação crĂtica. Vou tomar as medidas que julgo necessĂĄrias â disse ele.
â Isso Ă©… VocĂȘ sĂł pode estar brincando! â exclamou a Inferno Abissal, sua voz trĂȘmula.
Gark, Kaina e Eva ficaram igualmente surpresos.
Franz desfez o tecido, revelando uma RelĂquia completamente transparente. Era possĂvel ver atravĂ©s dela como se fosse um mar calmo, e seu brilho superava o de qualquer gema. Era a LĂĄgrima da Verdade, uma RelĂquia em forma de esfera de cristal capaz de expor qualquer mentira. Era um dos tesouros mais valiosos do impĂ©rio e desempenhou um papel na fundação de Zebrudia. Um artefato nacional que nĂŁo era usado sem um motivo extremamente forte.
â Isso Ă© um absurdo! â gritou Gark, o rosto vermelho. â O uso dessa RelĂquia Ă© altamente restrito! NĂŁo tem como terem dado permissĂŁo para um caso desses.
â Ele estava completamente certo. As LĂĄgrimas da Verdade expunham qualquer mentira dita por quem colocasse a mĂŁo nelas. Elas ignoravam lavagem cerebral, apagamento de memĂłria e qualquer outra forma de alteração neural. NinguĂ©m ainda havia encontrado um jeito de enganĂĄ-las.
No entanto, as LĂĄgrimas da Verdade nĂŁo eram meramente uma conveniĂȘncia. Uma RelĂquia capaz de discernir a verdade tinha o potencial de iniciar guerras. Por isso, uma sĂ©rie de requisiçÔes, aprovaçÔes e, acima de tudo, provas eram necessĂĄrias antes de poderem ser usadas. Nem mesmo o imperador, a mais alta autoridade do impĂ©rio, podia utilizĂĄ-las Ă vontade.
As LĂĄgrimas da Verdade eram poderosas demais. NinguĂ©m leva uma vida de perfeita inocĂȘncia; todos temos nossos segredos. NinguĂ©m gostaria de viver em um impĂ©rio onde algo como as LĂĄgrimas da Verdade fosse usado regularmente. E se todos fossem embora, Zebrudia simplesmente deixaria de existir.
Geralmente, as Lågrimas da Verdade só eram permitidas para aqueles que jå haviam sido condenados por um dos dez crimes capitais (os crimes mais severos do império). Por mais suspeito que alguém fosse, a mera suspeita não era suficiente. O império não poderia continuar de outra forma.
Mas elas jĂĄ haviam sido usadas em mim diversas vezes. Provavelmente, eu era a Ășnica pessoa no mundo que havia sido julgado pelas LĂĄgrimas da Verdade vĂĄrias vezes e nunca havia sido preso.
A tensĂŁo na sala era palpĂĄvel, entĂŁo resolvi falar em nome de todos.
â VocĂȘ conseguiu a permissĂŁo do imperador?
â Claro que nĂŁo! Sua Majestade Imperial se mantĂ©m nos mais altos padrĂ”es!
â Hm. EntĂŁo vocĂȘ trouxe isso por conta prĂłpria.
Mesmo que Franz fosse um nobre poderosoâna verdade, exatamente por ele ter autoridade suficiente para andar por aĂ carregando um tesouro nacional, isso era inadmissĂvel. O uso indevido das LĂĄgrimas da Verdade era um crime gravĂssimo; se isso vazasse, certamente o aguardaria uma punição terrĂvel.
â Prove sua inocĂȘncia, se puder! â Franz disse, olhando apenas para mim.
â Claro. Isso me cai bem.
â Hm?!
Eu nĂŁo tinha crimes dos quais pudesse ser considerado culpado. Na verdade, fiquei atĂ© feliz por ter mais uma chance de olhar para as LĂĄgrimas da Verdade de perto. NĂŁo importava quantas vezes eu visse a RelĂquia, sua beleza nunca se desgastava. Vi meu reflexo na sua superfĂcie cristalina. Com um bocejo, coloquei minha mĂŁo sobre a esfera de cristal.
â Eu, Krai Andrey, nunca agi como um inimigo de Zebrudia.
Minha consciĂȘncia foi puxada para a RelĂquia, e minha mente ficou em branco por um momento. EntĂŁo, a esfera de cristal emitiu uma luz azulâprova de que eu havia dito a verdade. A boca de Franz ficou aberta. Honestamente, realmente nĂŁo existia ninguĂ©m tĂŁo inofensivo e incompetente quanto eu.
Os olhos de Gark se arregalaram. Quando as Lågrimas da Verdade foram usadas em mim pela primeira vez, ele ficou furioso ao saber. Disse que era papel da Associação dos Exploradores proteger a honra dos caçadores.
â Agora, agora, relaxe, Franz. NĂŁo precisa ficar tĂŁo na defensiva. Eu nĂŁo me importo, mas nĂŁo recomendaria sair usando as LĂĄgrimas da Verdade de repente em um caçador. VocĂȘ pode acabar se queimando.
Especialmente quando hå uma velha de pavio curto por perto, pensei, lançando um olhar para a Inferno Abissal.
â Tsk. Se Ă© necessĂĄrio â disse ela com um sorriso torto. â Aqui: âEu nunca agi como inimiga de Zebrudia.â
A RelĂquia brilhou azul-claro, e a Inferno Abissal fez uma careta. Ela provavelmente nĂŁo estava acostumada a usar as LĂĄgrimas da Verdade.
â HĂŁ? VocĂȘ nunca agiu…? Ahâ â Parei tarde demais.
â Nenhum pingo de respeito em vocĂȘ, garoto.
A Inferno AbissalâRosemary Purapos me lançou um olhar furioso, como se eu fosse lenha para a fogueira.
â Agradeço sua cooperação â Franz disse, inclinando-se profundamente. â Agora, vamos ao assunto principal.
Ele não ia testar o Gark e os outros? Pelo visto, só eu e a Inferno Abissal não éramos dignos da confiança dele.
Franz envolveu a RelĂquia de volta no pano e pigarreou.
â Mil Truques, Inferno Abissal, imagino que ambos jĂĄ ouviram falar da Raposa?
Raposa? Agora que penso nisso, aquele cara agarrado no teto estava usando uma mĂĄscara de raposa.
â Entendo! â disse a Inferno Abissal, com um brilho perspicaz nos olhos. â EntĂŁo era isso que aquela mĂĄscara significava. Muito direto da parte deles.
Podem parar de assumir que eu sei dessas coisas?
Pensei um pouco, entĂŁo bati palmas.
â Raposa? Claro que conheço. Mas sĂł para ter certeza, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ falando do animal, certo?
â De fato. O que estou falando nĂŁo Ă© nem um animal nem um monstro.
EntĂŁo eu estava certo. Se nĂŁo era um animal ou um monstro, sĂł podia ser uma coisa.
NĂŁo estou tentando me gabar, mas uma das minhas desventuras me levou a encontrar uma raposa de treze caudas.
Um acĂșmulo de material de mana transformou um local em movimento em um cofre do tesouro. Dentro dele havia um extraordinĂĄrio fantasma de raposa. Inteligente, experiente e poderoso. Como um deus; sequer conseguir arranhar aquilo estava alĂ©m das nossas capacidades. Esse fantasma provavelmente merecia uma designação de NĂvel 10, o mais alto possĂvel.
O encontro foi puro acaso. Era um cofre do tesouro que normalmente permanecia escondido, mesmo para quem o procurava. Depois de vĂĄrias reviravoltas, conseguimos sair vivos, mas eu tinha certeza de que aquela raposa aberrante e seu cofre do tesouro ainda estavam vagando pelo mundo.
Outra coisa sobre aquele cofre do tesouro: os mobs de baixa categoria eram humanos usando mĂĄscaras de raposa (mas que nĂŁo eram realmente humanos). EntĂŁo a mĂĄscara de raposa deveria me ser familiar. O design era bem diferente do que eu me lembrava. Talvez tivessem reformado o cofre do tesouro ou algo assim.
â Na noite passada, nosso paĂs foi atacado. Acreditamos que vĂĄrios desses ataques foram obra da Raposa â Franz disse.
â Entendo… Entendo?
A raposa que eu conhecia tinha uma força prĂłxima Ă de um deus, mas nĂŁo era inimiga da humanidade. Na verdade, era completamente indiferente aos humanos. A raposa fantasma possuĂa um poder que superava em muito seus semelhantes. AtĂ© mesmo a regra comum de que fantasmas nĂŁo podiam existir fora de seus cofres de tesouro nĂŁo significava nada para essa criatura. O que Zebrudia poderia ter feito para irritar tanto um ser como esse?
â Zebrudia ficou grande demais â disse Franz, irritado. â Expandimos valorizando nossos caçadores de tesouros, mas nem todo mundo acha isso uma coisa boa. Isso foi, muito provavelmente, uma tentativa de azedar as relaçÔes entre o impĂ©rio e os caçadores. Mas devo dizer, o envenenamento foi uma tentativa bem lamentĂĄvel.
â Ah, isso foi definitivamente obra da âRaposaâ. Que grupo insano eles devem ser se querem me incriminar! â Ignorei as perguntas que surgiam na minha mente e aproveitei a oportunidade que vi na minha frente. Eu jĂĄ estava planejando jogar a culpa do envenenamento no invasor, e seria ainda melhor se fosse um fantasma.
â Ă por causa da Raposa que Luke corta as pessoas â continuei. â Ă por causa da Raposa que Liz invadiu a ReuniĂŁo. E tambĂ©m Ă© por causa da Raposa que Sitri e Tino colocaram aquele veneno! Que grupo sem escrĂșpulos!
â HĂŁ? A Raposa mal pode ser culpada por… O que vocĂȘ acabou de dizer?!
â EntĂŁo esse desgraçado da Raposa Ă© sĂł mais uma fera, hein? Sempre tive vontade de acabar com eles!
Eles voltaram, mesmo depois de eu ter me humilhado e oferecido tofu frito. Não tinha ouvido um pio deles desde nosso encontro, então baixei a guarda. Não que isso fizesse qualquer diferença, mesmo que eu tivesse ficado alerta.
A Inferno Abissal me lançou um olhar de lado e deu de ombros.
â Vamos parar de perder tempo e ir direto ao assunto. Imagino que vocĂȘ tenha um bom motivo para usar ilegalmente as LĂĄgrimas da Verdade?
Sempre acreditei que ela era do tipo que olhava antes de pular, mas naquele dia ela estava bem tranquila.
Franz pigarreou e assumiu uma expressão séria.
â O que quero dizer Ă© que Zebrudia nĂŁo pode se dar ao luxo de demonstrar qualquer sinal de intimidação diante desses canalhas. Imagino que todos estejam cientes de que Sua Majestade Imperial pretende viajar para o exterior em breve?
â Entendi. EntĂŁo Ă© isso.
NĂŁo entendi nada, mas, aparentemente, era isso. O Inferno Abissal acenou com a cabeça, Gark se inclinou para frente e Eva tinha um olhar sĂ©rio nos olhos. Parecia que eu era o Ășnico que nĂŁo fazia ideia do que estava acontecendo. Mas jĂĄ estava acostumado a ficar de fora do cĂrculo, entĂŁo apenas coloquei meu melhor sorriso durĂŁo.
â E por isso temos uma missĂŁo para vocĂȘ, Mil Truques.
â Desculpe, mas nĂŁo aceito qualquer missĂŁo.
Nem esperei ouvir do que se tratava, sĂł recusei, pura questĂŁo de instinto. NĂŁo era sĂł as quase impossĂveis, eu recusava praticamente todas as missĂ”es que pareciam remotamente difĂceis. NĂŁo podia deixar que pensassem que eu aceitava qualquer coisa. No mĂĄximo, poderia emprestar o Ark. E por que eu? Na mesma sala havia uma velha que era dez milhĂ”es de vezes mais poderosa do que eu.
â A Raposa tentou te incriminar. Eles tĂȘm medo de vocĂȘ. E com as LĂĄgrimas da Verdade, sabemos que vocĂȘ Ă© inocente â disse Franz.
â Talvez a RelĂquia esteja quebrada.
â As LĂĄgrimas sĂŁo um pilar do impĂ©rio. E RelĂquias nĂŁo quebram!
Gark me olhou como se estivesse segurando a vontade de me estrangular. Comecei a bolar mais uma daquelas jogadas engenhosas, tipo talvez empurrar essa para o Ark ou alguém?
EntĂŁo Franz colocou um grande baĂș na minha frente. Esse era meu pagamento? Nunca se estĂĄ preparado o bastante, mas ele realmente achava que dinheiro era o suficiente para me convencer? Eu nĂŁo gostava da ideia de ser facilmente comprado. Era um cara que saĂa para comprar RelĂquias, mesmo quando estava atolado em dĂvidas.
â VocĂȘ Ă© um colecionador de RelĂquias, certo? Sua Majestade Imperial me deu permissĂŁo para tirar seu pagamento do cofre do castelo.
Me preparei, determinado a deixar minha recusa bem clara. EntĂŁo Franz abriu o baĂș. Dentro, embalado cuidadosamente, havia um tecido em tons suaves de vermelho, verde e dourado. NĂŁo era uma peça de roupa. Era bem grosso e bastante ornamentado. Meus olhos se arregalaram. Estendi a mĂŁo trĂȘmula e toquei sua superfĂcie lisa.
Ă menor do que eu esperava, mas serĂĄ que Ă© isso mesmo? Uma RelĂquia lendĂĄria que aparece nos contos de fadas, mas raramente no mercado. Isso Ă© um Tapete Voador?
Olhei para cima, minha expressĂŁo tensa. Pela primeira vez naquela noite, Franz sorriu para mim.
***
Todo bom caçador de tesouros incluĂa treinamento na sua rotina diĂĄria.
Sven estava no quinto nĂvel do porĂŁo da casa da guilda Primeiros Passos. Ele tinha descido para se exercitar um pouco e se surpreendeu ao ver um grupo de caçadores reunidos na porta da maior das arenas subterrĂąneas de treinamento.
â O que vocĂȘs estĂŁo fazendo todos reunidos aqui? â perguntou.
â Ah. Parece que o quinto andar foi reservado para o dia inteiro â respondeu alguĂ©m.
Sven franziu a testa.
â Reservado para o dia inteiro? Isso nĂŁo deveria ser possĂvel. Liz tĂĄ agindo como se mandasse na guilda de novo?
â NĂŁo â disse o outro caçador, com um leve tremor na voz. â O CM estĂĄ treinando.
O que aquele cara poderia estar aprontando? Sem dizer nada, Sven olhou para a porta. Do outro lado, ouvia-se repetidamente um som pesado de impactos. O Mil Truques treinava muito raramente, tĂŁo raramente que seu alto nĂvel era quase inacreditĂĄvel. Mas Ă s vezes ele abria exceçÔes e usava o campo de treinamento que ele mesmo criou.
O Mil Truques tambĂ©m era conhecido por ser um colecionador de RelĂquias. Quando conseguia uma nova, levava-a para um campo de treinamento para testĂĄ-la. E nĂŁo sĂł isso, ele nunca hesitava em ativar uma RelĂquia, mesmo quando era uma daquelas que a maioria dos caçadores normais teria receio de usar.
Ele provavelmente sabia o que uma RelĂquia faria (afinal, as pessoas geralmente nĂŁo ativam RelĂquias com as quais nĂŁo estĂŁo familiarizadas). Ainda assim, seus testes eram um incĂŽmodo para todos os outros no clĂŁ, que nĂŁo faziam a menor ideia do que poderia acontecer.
â Parece que hoje estĂĄ especialmente ruim lĂĄ dentro. Sendo assim, vou beber â disse o outro caçador.
Os outros campos de treinamento ainda estavam disponĂveis, mas o Mil Truques nĂŁo tinha o menor senso de moderação. Era perfeitamente possĂvel que ele abrisse um buraco no teto e danificasse os outros andares. Hoje, ele parecia especialmente empolgado com o que estava fazendo, e ninguĂ©m queria estar por perto.
Com um encolher de ombros coletivo, Sven e os outros caçadores se viraram. Eles jå estavam acostumados com isso.
***
Meu mundo acelerou em um instante. Fui tomado por uma sensação indescritĂvel de ĂȘxtase e onipotĂȘncia.
IncrĂvel! Eu nĂŁo acredito nisso! Ă como se eu fosse o prĂłprio vento!
E então, com um baque surdo ecoando ao redor, tanto o Tapete quanto eu nos chocamos de cabeça contra a parede, e meu corpo desabou no chão. Ainda bem que um Anel de Segurança me impediu de sofrer danos.
Lucia, a Carregadora de RelĂquias, estava encostada na parede com os braços cruzados.
â LĂder, por acaso te passaram a perna? â perguntou ela, franzindo a testa.
â NĂŁo, ele voa muito bem â respondi.
â Sim, mas parece que ele nĂŁo quer passageiros.
Assim que Lucia terminou de carregĂĄ-lo, o Tapete ergueu suas pontas. Como Lucia havia sugerido, ele ficou a uma curta distĂąncia, quase como se estivesse desconfiado de mim.
RelĂquias que conseguiam se mover sozinhas, como esse Tapete e a Corrente Farejadora, eram chamadas de âautopropelidasâ. Ativar essas RelĂquias era simples o suficiente, mas controlĂĄ-las era outra histĂłria. Por exemplo, havia inĂșmeras correntes baseadas em animais, cada uma com sua prĂłpria variedade; mesmo as do mesmo tipo tinham personalidades diferentes. Tudo isso tornava difĂcil usĂĄ-las na prĂĄtica.
Esse meu novo Tapete tinha uma personalidade bem complicada.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© um Tapete Voador â disse com um sorriso. â VocĂȘ Ă© um Tapete Delinquente… AARGH!
Num piscar de olhos, o Tapete me atingiu em cheio. Sendo um tapete, o golpe foi leve, mas justamente por isso os Anéis de Segurança não ativaram automaticamente. Tossindo, passei a manga da roupa na boca.
Nada mal. Acho que Ă© por isso que vocĂȘ estava dormindo no cofre do Castelo Imperial.
â Eu vou considerar vocĂȘ meu rival â disse, ofegante.
â O Tapete? â perguntou Lucia.
O poder de ataque dele era tĂŁo baixo quanto o meu, mas ele me superava quando se tratava de defesas. Saltei para o Tapete, que estava fazendo sombra-boxe, e agarrei seu corpo. De repente, senti-me sendo erguido do chĂŁo. Foi tudo o que consegui fazer, apenas me segurar enquanto o mundo girava e o Tapete fazia ziguezagues pelo ar.
Apesar do peso que adicionei a ele, o Tapete voava a uma velocidade impressionante. Mesmo entre as RelĂquias, algumas eram mais capazes que outras. Esse Tapete tinha uma aceleração extraordinĂĄria e uma velocidade mĂĄxima alta, o que significava que ele poderia ser um excelente meio de transporte. TambĂ©m tinha uma manobrabilidade tremenda e podia atĂ© fazer loopings. Teria custado uma fortuna se fosse capaz de demonstrar qualquer consideração pelos seus passageiros.
Mais uma vez, colidi espetacularmente contra a parede. O Tapete era feito de tecido, então não se machucou, mas eu gastei outro Anel de Segurança.
Os Tapetes Voadores eram RelĂquias famosas que eram vendidas por quantias enormes. A Ășnica outra RelĂquia voadora que eu possuĂa era o Andarilho Noturno, que nĂŁo era nem de perto tĂŁo famoso quanto os Tapetes Voadores. Esse Tapete era do tamanho de um tapete de boas-vindas, mas a maioria era grande o suficiente para acomodar vĂĄrias pessoas e atĂ© carregar bagagens. Com isso e sua facilidade de uso, nĂŁo era de se surpreender que fossem populares.
Eu nunca tinha ouvido falar de um Tapete Voador que nĂŁo quisesse ser montado, mas isso provavelmente tinha algo a ver com o fato de o imperador estar disposto a se desfazer desse bronco.
Lucia suspirou pela enésima vez enquanto me via se aproximar do Tapete.
â Talvez vocĂȘ devesse devolvĂȘ-lo? â disse ela.
â Voar pelos cĂ©us Ă© o sonho de toda a humanidade. VocĂȘ nĂŁo entende isso?
â Sim, eu jĂĄ sei voar sozinha. AlĂ©m disso, vocĂȘ nĂŁo tem o Andarilho Noturno?
â Esse Ă© defeituoso, e sĂł posso usĂĄ-lo Ă noite.
E um Tapete Voador era algo que eu queria hĂĄ muito tempo. NĂŁo podia deixar esse escapar, mesmo que tivesse uma personalidade difĂcil.
O Tapete Voador deslizou atrås de mim com facilidade e puxou minha perna. Eu caà de bunda no chão e, antes que pudesse me recompor, o Tapete inclinou um de seus cantos para frente e me deu um tapinha na cabeça. Ele estava zombando de mim.
â Huh, vocĂȘ Ă© um verdadeiro amor â disse, com um sorriso desdenhoso. â Acho que preciso te dar um nome. Hmm. Vou te chamar de Carpy!
O Tapete deslizou até meus pés, me colocou em cima dele e me ergueu suavemente cinco metros, quase chegando ao teto. Eu estava começando a achar que finalmente havia sido reconhecido como seu mestre, mas então ele se virou de cabeça para baixo e me jogou no chão. Com um estrondo tremendo, bati com a cabeça no chão de metal. Mais um Anel de Segurança foi gasto. Não acho que alguém tenha esgotado tantos Anéis de Segurança em um só dia.
â NĂŁo estou convencida de que o Andarilho nĂŁo seja a opção mais prĂĄtica â disse Lucia.
â NĂŁo, eu me estrello com o Andarilho com a mesma frequĂȘncia, e eu jĂĄ estou mais acostumado com ele.
Lucia soltou um longo suspiro, quase como se sua alma estivesse escapando, e recarregou meus Anéis de Segurança.
â Por favor, tente ver isso da minha perspectiva â disse ela.
â NĂŁo se preocupe, eu te dou uma carona assim que eu dominar isso.
â Esqueça. Quantas vezes eu preciso te lembrar que eu posso voar sozinha?
Lucia conseguia voar numa vassoura. NĂŁo uma vassoura de RelĂquia, uma vassoura comum. Era esse tipo de magia que ela conseguia usar. Foi um dos feitiços que eu havia pensado. Quando eu criei o feitiço, nĂŁo percebi que tambĂ©m existia uma RelĂquia voadora famosa chamada Vassoura da Bruxa. Minha irmĂŁ provavelmente era a Ășnica pessoa que voava pelo ar em cima de uma vassoura de loja comum.
Lucia, aliĂĄs, dizia que era mais fĂĄcil para ela voar sem a vassoura. Ah, tĂĄ.
Até agora, eu havia sido jogado para fora do Tapete, lançado contra paredes e mais, mas não ia desistir tão facilmente. Eu era mais forte que isso. Eu estava perdendo a forma, então até estava dando boas-vindas a essa chance de me exercitar. O Tapete Delinquente me jogou fora repetidamente, mas não voou para longe de mim. Em outras palavras, seus instintos estavam dizendo para ele me deixar montar.
O Tapete desceu suavemente e me empurrou. Ele era só tecido, então sua força era limitada, mas em velocidades altas, ainda assim conseguia causar um impacto consideråvel. Eu rolei algumas vezes pelo chão antes de parar, com os membros espalhados. O Tapete flutuou suavemente sobre mim.
Talvez ele sĂł tenha uma personalidade ruim.
Mas tudo bem. Eu era um adulto; nĂŁo ia deixar umas zombarias de um Tapete Voador me afetarem.
â Acabei de lembrar, LĂder â disse Lucia, enquanto eu me levantava. â VocĂȘ nĂŁo deveria estar se preparando para a missĂŁo?
â HĂŁ? MissĂŁo? â perguntei, com os olhos arregalados. Eu nĂŁo estava pensando nisso de forma alguma.
Lucia fez uma cara séria. O Tapete ficou parado, quase como se soubesse o que estava acontecendo.
â Eu ouvi falar disso pela Eva. Esse Tapete Ă© um adiantamento, nĂŁo Ă©?
Eu nĂŁo disse nada.
Opa. A missão havia escapado completamente da minha mente. Eu me tornei uma måquina de assentir quando o Tapete foi colocado na minha frente. Nada mais importava para mim quando eu vi algo que eu queria hå tanto tempo. Eu tinha uma sensação de que fui contratado para fazer algo, mas o que seria? Eu não estava empolgado com a ideia de trabalhar, mas também não queria devolver o Tapete.
â VocĂȘ tem o resumo da missĂŁo? â perguntei, com medo, para minha irmĂŁzinha.
Ela me olhou com raiva, com o rosto vermelho.
â Tenho. A Eva me deu. NĂŁo consigo nem te dizer o quanto isso foi vergonhoso.
Eu realmente sinto muito por tudo que te fiz passar.
Ela me entregou um envelope com o selo de Zebrudia, que abri com as mĂŁos trĂȘmulas. O Tapete espiou por cima do meu ombro. Li rapidamente o conteĂșdo do resumo. EntĂŁo, eu morri.
Ă uma missĂŁo para proteger o imperador. Entendi.
Isso Ă©, hum, uma grande responsabilidade. Eles devem estar malucos se estĂŁo me pedindo para fazer isso. Talvez tenham emitido essa missĂŁo pensando no Ark?
Eu nĂŁo era, de muitas maneiras, adequado para as tarefas de um caçador, mas as tarefas que eu menos me adaptava eram as de escolta. A razĂŁo para isso era muito simples: eu tinha uma sorte terrĂvel. Desde o começo da minha carreira, nĂŁo conseguia lembrar de uma Ășnica missĂŁo de escolta que tivesse corrido bem.
Contratar um caçador para fazer escolta era basicamente uma forma de seguro. Ninguém contrata proteção se não pretende ir para um lugar perigoso, mas a maioria das missÔes acabava sem incidentes notåveis. Ou era o que me diziam.
Eu sempre me metia em algum tipo de problema durante praticamente toda missĂŁo de escolta que fazia. Ăs vezes eram fantasmas, outras vezes monstros. JĂĄ me encontrei atĂ© com bandidos, organizaçÔes criminosas e desastres naturais. Para ser justo, tambĂ©m me meti em problemas enquanto estava de fĂ©rias e por aĂ vai, mas a taxa de incidentes aumentava bastante durante as missĂ”es de escolta.
Eu sabia das minhas fraquezas, e por isso não tinha vontade de aceitar missÔes de escolta e sempre fazia questão de nunca aceitå-las. Claro, eu estava acostumado a encontros quase fatais, mas a maioria das pessoas não podia dizer o mesmo. Então, para ser claro: era para o bem do cliente que eu recusava esse tipo de missão.
Dessa vez, no entanto, eu estava sendo feito de refĂ©m pelo Tapete Voador. Minha Ășnica rota de fuga tinha sido cortada e eu tinha uma missĂŁo de escolta pela frente. Depois de pensar um pouco, decidi reunir meus amigos. Sempre discutimos as coisas entre nĂłs Ă medida que Ăamos avançando. Eu nĂŁo pude conversar com eles enquanto estavam naquele cofre de tesouro, entĂŁo essa foi a primeira vez em muito tempo que pude consultĂĄ-los.
Então nos reunimos na sala de reuniÔes da casa do clã. Todos nós nos sentamos em cadeiras ao redor de uma mesa no centro da sala.
TĂnhamos um homem que era um dos maiores Espadachins da capital imperial e aprendiz do Santo da Espada â Luke Sykol, a Espada Proteana.
A Ladina que se movia mais rĂĄpido que sua prĂłpria sombra â Liz Smart, a Sombra Sufocada.
Nossa prodigiosa Alquimista, que era tanto a mente do nosso grupo quanto responsĂĄvel pelos nossos recursos â Sitri Smart.
A tĂĄbua de salvação do grupo, o renomado Paladino que nos protegia e curava â Ansem Smart.
A garota que podia usar todo tipo de magia e carregava minhas RelĂquias para mim. Essa era a Lucia.
E nossos convidados (que por algum motivo estavam conosco), Tino e Eva.
Eu bati as palmas e disse, âEntĂŁo, Ă© hora de começar a trigĂ©sima quinta ConferĂȘncia dos Grieving Souls!
Luke e Liz explodiram em aplausos excessivos.
âWOOO! YEAAAH!
âWOO WOO! KRAI BABY Ă O MELHOR!
âUh, Mestre Ă© um deus! â Tino acrescentou freneticamente.
âEliza mais uma vez sumiu,â Luke comentou.
âMmm, eu a vi ontem, mas a Ellie Ă© um espĂrito livre,â Liz disse, inclinando a cabeça e cruzando as pernas.
Nada estranho nisso. Uma das condiçÔes de Eliza para entrar nos Grieving Souls era que respeitåssemos sua liberdade. Jå tinha dado os souvenirs que comprei para ela e parecia estar tudo bem, então não me preocupava.
Sitri entĂŁo assumiu o papel de anfitriĂŁ, como sempre fazia.
âA reuniĂŁo de hoje estĂĄ sendo realizada para discutir a missĂŁo, ‘Defesa de Sua Majestade Imperial’, que foi emitida apĂłs o recente Encontro da LĂąmina Branca. Como todos sabem, uma vez por ano, o imperador do ImpĂ©rio Zebrudiano se encontra com os lĂderes de outros paĂses vizinhos. Essa tarefa jĂĄ foi confiada Ă Ordem Zero, mas este ano pediram a ajuda dos Mil Truques.
Tino levantou uma mĂŁo tĂmida. Havia cĂrculos escuros sob seus olhos, quase como se ela nĂŁo tivesse dormido muito na noite passada.
âHĂŁ? Hum, por que ele foi escolhido? Afinal, o venenoâ
Eu nĂŁo entendi o que estava acontecendo, mas Eva fez uma tosse e explicou.
âEsse assunto serĂĄ deixado de lado. Provavelmente serĂĄ interpretado como parte da armadilha de Krai.
Tino parecia chocada, entĂŁo começou a murmurar como um brinquedo quebrado, âMestre Ă© um deus, Mestre Ă© um deus…
Quando foi que o envenenamento passou a ser relacionado a mim?
Respirei fundo e me acalmei. âO ponto Ă©, essa missĂŁo Ă© algo que precisamos realizar.”
âOoh, Krai estĂĄ pronto!â Luke disse. âProteger o imperador, hein? Mal posso esperar! Ouvi dizer que ele Ă© um Espadachim!
âBem, estamos lidando com aquele Raposo, afinal,â Lucia respondeu.
âHĂŁ?! Isso Ă© grande,â Liz disse. âHm, faz sentido. Aquele cara no Encontro estava com uma mĂĄscara de raposo. Isso torna tudo muito mais simples. Sempre quis me enfrentar com eles.
Ansem grunhiu em concordĂąncia.
âMestre estĂĄ pronto para irâŠâ Tino murmurou.
Pelas reaçÔes, eles (sem incluir Tino) não estavam tão preocupados em lidar com o pior fantasma que existia. Era reconfortante, mas eu só esperava que não estivessem forçando a barra. Eu não estava muito entusiasmado com a missão de escolta, mas confiava nos meus amigos. Se eles estivessem por perto, o imperador estaria bem. E se eu conseguisse sair de cena, tudo ia sair perfeito.
Mas eu conseguiria sair disso?
âAh,â Sitri disse, olhando para o briefing da missĂŁo. â HĂĄ um limite de quantos de nĂłs podem ir. NĂŁo podemos formar um time maior que cinco pessoas.
Liz ficou em silĂȘncio. Luke começou a contar.
âHmm, entendi,â eu disse, acenando com a cabeça. âEntĂŁo eles querem todos, exceto Eliza e eu. Uma jogada inteligente.
âKrai, por favor, pare de brincar!â Eva disse.
Mas eu nĂŁo estava brincando.
âHmm, entĂŁo alguĂ©m vai ter que ficar de fora.â Liz cruzou novamente as pernas e olhou para mim. âKrai Baby, por que vocĂȘ nĂŁo decide quem vai junto?”
âEu concordo. Vou respeitar sua decisĂŁo, nĂŁo importa o que!â Luke disse.
Uma resposta estranhamente madura desses dois.
â Isso parece a melhor maneira de garantir que tudo corra bem â concordou Sitri calmamente. â Afinal, meu trabalho Ă© aquisição de materiais.
Hmm, quem escolher?
Para começar, Luke e Liz eram perigosos demais, então estavam fora. Se Liz estava fora, então eu não poderia trazer Sitri sem criar uma confusão. Que dilema. Pensei nisso por um minuto antes de assentir para mim mesmo.
â Certo. SerĂĄ Ark, Eva, Lucia e eu.
Eva me olhou com os olhos arregalados.
â HĂŁ?! Krai, eu nĂŁo sou uma caçadora!
Ela nĂŁo tinha com o que se preocupar; enquanto tivĂ©ssemos Ark, estarĂamos bem. Lucia estaria ali apenas para carregar minhas RelĂquias.
â Krai querido, ainda tem mais uma vaga â disse Liz com uma voz doce.
â Ah, bom, entĂŁo acho que Tino serve.
â HĂŁ?! â Tino parecia completamente perplexa.
â Eu nĂŁo posso aceitar isso, Krai! â Luke gritou, levantando-se. â Os escoltas deveriam ser escolhidos por mĂ©rito!
â Concordo! â disse Liz. â Krai querido estĂĄ tentando ser bonzinho escolhendo os mais fracos!
â Bem, entĂŁo talvez devĂȘssemos realizar um torneio, nĂŁo, um battle royale para decidir! â declarou Sitri.
Ansem grunhiu em concordùncia. Todos estavam prontos para entrar em ação.
Lucia suspirou pesadamente e interveio.
â Acalmem-se, pessoal. Essa Ă© uma decisĂŁo do nosso lĂder. VocĂȘs nĂŁo deviam fazer escĂąndalo sĂł porque nĂŁo foram…
â VocĂȘ sĂł estĂĄ de boa porque foi escolhida, Srta. Complexo de IrmĂŁo! â rebateu Sitri. â Krai, sĂł para vocĂȘ saber, Lucia ficou rodopiando na frente do espelho com seu vestido de avental! Eu a ouvi se perguntando se vocĂȘ a elogiaria!
â H-Haaah?! Eu nunca fiz isso!
Luke desembainhou sua espada e começou a brandi-la, Liz chutou a mesa, Sitri começou a jogar poçÔes, e Lucia avançou contra Sitri. O sangue sumiu do rosto de Eva e ouvi Tino gritar. Me escondendo atrås de Ansem, peguei as duas comigo e fugi da sala.
Eu devia saber que isso era uma péssima ideia. Pensando bem, eu deveria ter percebido isso antes de decidir fazer uma reunião. Todos no nosso grupo se davam bem, mas ao mesmo tempo, eram muito competitivos. Algo assim era inevitåvel. Provavelmente eu poderia escapar sem escolher ninguém, mas se escolhesse um, teria que levar todos, quase como se fossem crianças.
De qualquer forma, embora o limite de membros fosse um incĂŽmodo, trazer os membros menos cooperativos seria brincar com fogo. Os outros talvez estivessem bem, mas eu nĂŁo achava que conseguiria manter nossos bĂĄrbaros residentes, Liz e Luke, sob controle. Eliza, por outro lado, era livre demais. Provavelmente pegaria um lagarto ou algo assim e o ofereceria ao imperador.
â Imagino que o limite de membros seja para manter uma proporção adequada entre ladinos, nobres e a guarda imperial â disse Eva. â O impĂ©rio e a guarda imperial precisam manter suas aparĂȘncias. Na verdade, vocĂȘ e seu grupo provavelmente serĂŁo secundĂĄrios Ă guarda imperial.
â Mestre, isso Ă©, hum, demais para mim. VocĂȘ estava brincando, certo?
NĂŁo se preocupe, isso foi uma brincadeira. Uma pegadinha atĂ©. Se eu levasse vocĂȘ e deixasse Liz para trĂĄs, seus dias estariam contados.
Mas Eva tinha razĂŁo. SerĂamos secundĂĄrios Ă guarda imperial, nada mais. Fazia todo sentido. Comecei a pensar que estava deixando meus nervos tomarem conta de mim. E entĂŁo tive uma revelação. Um sorriso se formou no meu rosto antes mesmo que eu percebesse.
Primeiros Passos era um clĂŁ gigantesco e tinha muitos contatos. Eu podia ser um covarde, mas era o de nĂvel mais alto da minha idade e o lĂder de um grupo famoso. Eu tinha conexĂ”es especialmente boas entre os ladinos; podia simplesmente reunir cinco que fossem fortes, de nĂvel alto e confiĂĄveis. Ladinos geralmente eram orgulhosos demais para recusar uma missĂŁo do imperador. E na improvĂĄvelâextremamente improvĂĄvelâeventualidade de o imperador ser assassinado, a culpa seria dividida entre todos nĂłs.
Eu montaria o time dos sonhos; chamaria de âOperação Mil Estrelas Parede Espaguete.â Naturalmente, Ark estaria incluĂdo.
Cara, estou pegando fogo hoje, pensei, começando a realmente me divertir.
â O-O que vocĂȘ estĂĄ sorrindo aĂ? â perguntou Eva.
Eu tambĂ©m colocaria Gark no time. Ele jĂĄ tinha sido um ladino e eu tinha certeza de que ainda era forte e confiĂĄvel. Ele sempre empurrava missĂ”es para mim, mas agora eu tinha a chance de devolver o favor. Se eu nĂŁo conseguisse sair dessa encrenca, entĂŁo levaria ele e Ark comigo. Eu mostraria a eles a astĂșcia preter-humana que todo mundo adorava espalhar boatos sobre.
***
Os ombros de Gark estremeceram e ele fez sua cara mais assustadora até agora ao bater a mão na mesa.
â Krai, vocĂȘ estĂĄ escoltando o imperador! Pense de verdade em quem vai levar com vocĂȘ! Ouça, falhar nĂŁo Ă© uma opção aqui. O trabalho que fizer aqui afetarĂĄ diretamente o futuro da caça ao tesouro em Zebrudia.
â Sim, senhor.
â Eu jĂĄ me aposentei da caça e nĂŁo tenho mais material de mana! Talvez vocĂȘ esteja tentando ser legal, mas pense seriamente nisso. VocĂȘ realmente acha que eu sirvo para esse trabalho?
Eu não estava tentando ser legal, só queria transformar isso no problema dele também. Mas ele não estava caindo nessa. Mas, se ele não servia para esse trabalho, então como eu poderia servir?
Cruzei os braços e fingi pensar, mas nĂŁo consegui me acalmar com Gark respirando tĂŁo pesadamente. Minha Ășnica salvação foi o sorriso acolhedor de Kaina.
â Ă isso. â Estalei os dedos. â Kaina, vocĂȘ estĂĄ dentro! Por favor, ajude-nos a proteger o imperador!
â HĂŁ?!
Que ideia brilhante. Um curandeiro era essencial para uma missĂŁo de escolta, e eu sempre achei que Kaina era extraordinĂĄria nesse trabalho.
â Pare de brincar! â Gark gritou com uma voz trovejante. â Isso envolve o imperador! VocĂȘ nĂŁo tem noção de limites?!
Ele entĂŁo me expulsou do escritĂłrio, se vocĂȘ pode acreditar nisso. Ele sempre jogava trabalho em cima de mim (nĂŁo que eu sempre fosse o Ășnico a fazĂȘ-los), mas recusou na hora quando pedi ajuda. Parece que eu estava completamente errado sobre esse homem.
Kaina, com um sorriso meio sem jeito, me acompanhou para fora do escritĂłrio e me entregou uma lista.
â Sinto muito, Krai, ele nĂŁo tem nada contra vocĂȘ. Esta Ă© uma lista de todos os caçadores de alto nĂvel registrados na filial da capital imperial da Associação dos Exploradores. Talvez isso seja Ăștil para vocĂȘ.
â Ah, valeu mesmo. Para falar a verdade, eu estava falando sĂ©rio quando o convidei.
Me senti um pouco melhor e admiti para mim mesmo que talvez trazer Kaina nĂŁo tenha sido a melhor ideia. Mas agora o lugar do Gark no time estava vago e eu precisava preencher essa vaga. Olhei a lista e vi vĂĄrios nomes conhecidos, incluindo todo o pessoal dos Grieving Souls.
Tem muitos caçadores de alto nĂvel na capital imperial…
EntĂŁo, um nome chamou minha atenção. Era um caçador de nĂvel 6 com um nome bem peculiar. NĂŁo era um conhecido meu e eu nĂŁo o reconhecia. Com quatro vagas ainda abertas, achei que esse sujeito poderia preencher a primeira. Em momentos como esse, o que importava era manter o ritmo.
â Kaina, vocĂȘ pode entrar em contato com esse tal de Kechachakka?
â Ah, claro.
Kaina parecia surpresa. Acho que nĂŁo esperava que eu tomasse uma decisĂŁo tĂŁo rĂĄpido.
Durante missÔes de escolta, era importante que o grupo tivesse poder de fogo em årea o suficiente para lidar com grandes hordas de inimigos. A possibilidade de ser cercado por monstros tornava os Magos indispensåveis nesses trabalhos. Eu não estava muito empolgado com meu próximo destino, mas não havia muitos outros lugares onde eu poderia encontrar um Magus poderoso que não fosse a Lucia.
Minha prĂłxima parada era a sede do clĂŁ de Magos, Maldição Oculta. Afinal, a Inferno Abissal era cĂșmplice dessa confusĂŁo. Se eu nĂŁo a convidasse, isso poderia causar problemas depois.
Diferente da casa-clĂŁ da Primeiros Passos, a Maldição Oculta ficava em uma mansĂŁo antiga. O prĂ©dio histĂłrico abrigava o clĂŁ desde sua fundação. Ele tinha sido reformado vĂĄrias vezes ao longo dos anos, combinando aparĂȘncia e funcionalidade.
Eu estava prestes a dar meu primeiro e corajoso passo para dentro quando um jovem familiar, de olhos frios, saiu.
â Ah, Krai. O que te traz aqui? â perguntou ele.
â E aĂ, Arty! Como tem passado? â respondi.
Tentei ser amigĂĄvel, mas ele apenas recuou envergonhado.
â Err, esse Ă© um apelido que sĂł a Mary usa. Pode me chamar de Art?
Achei que Arty era um nome legal. Se eu tivesse uma vaga sobrando, teria feito dele parte do macarrĂŁo de parede.
â Estou aqui para ver a Inferno Abissal â disse. â Ela estĂĄ por aĂ? Se nĂŁo, gostaria de deixar um recado para ela…
Aquela mulher costumava estar bem ocupada. Deus, eu torcia para que ela estivesse fora. Se ao menos tentasse entrar em contato com ela, ela nĂŁo me incineraria por ser rude e nĂŁo perguntar pessoalmente. Mas minhas preces foram em vĂŁoâArty abriu a porta para mim na mesma hora.
â Perfeito, â disse ele. â Eu estava falando com ela agora hĂĄ pouco. Pode entrar.
O escritĂłrio da mestre do clĂŁ Maldição Oculta parecia uma sala de recepção que vocĂȘ encontraria na mansĂŁo de um nobre. Havia um tapete grosso e uma luminĂĄria antiga. As paredes eram cobertas por estantes abarrotadas de livros e retratos dos mestres do clĂŁ anteriores. A atual mestre, por outro lado, ainda parecia uma bruxa saĂda de um conto de fadas. Uma bruxa mĂĄ, no caso. Ela podia ser magricela, mas sua altura a tornava intimidadora.
Estendi meu convite para Rosemary Purapos, a Inferno Abissal, e ela sorriu para mim.
â Hee hee hee. Fico honrada que me considere digna de tamanha gentileza, Mil Truques.
Eu nĂŁo sabia muito bem o que responder.
â Mas, como deve saber â continuou ela â o impĂ©rio colocou um grilhĂŁo no meu tornozelo; nĂŁo posso sair da capital imperial. AlĂ©m disso, ainda preciso limpar a bagunça que sobrou da nossa batalha contra a Torre AkĂĄshica, e disseram que sou necessĂĄria para proteger a capital.
â E-eu entendo. NĂŁo fazia ideia.
Mas fazia sentido. NĂŁo dava para encobrir os danos que ela causou ao Castelo Imperial e, mesmo que fosse uma emergĂȘncia, nĂŁo tinha como aquilo passar sem punição. Isso provavelmente explicava por que a missĂŁo de escolta nĂŁo tinha sido dada a ela.
â Isso me lembra. Nunca tive a oportunidade de agradecer â disse ela. â Queria ter dito no Encontro, mas a oportunidade escapou.
â Agradecer pelo quĂȘ? â perguntei.
â NĂŁo se faça de desentendido. Foi vocĂȘ que esgotou meu elemental de fogo, nĂŁo foi? E o elemental de raio deles tambĂ©m?
Eu realmente nĂŁo entendia onde ela queria chegar.
â NĂŁo sei como soube onde encontrĂĄ-los â continuou ela, os olhos brilhando â mas a capital teria sofrido bem mais se nĂŁo fosse pela sua interferĂȘncia.
â Ah, certo.
Ouvi dizer que, durante nossas férias, um elemental de fogo e um de raio haviam lutado na capital imperial, mas o que isso tinha a ver comigo recebendo agradecimentos? Eu nem sequer tinha encontrado o elemental de raio.
Percebi que a Inferno Abissal estava me olhando como se pudesse me carbonizar a qualquer momento, entĂŁo esfreguei meus AnĂ©is de Segurança e respirei fundo. Eles me protegeriam contra ataques mĂĄgicos, mas feitiços de fogo tinham muitos efeitos colaterais. Se o oxigĂȘnio do ambiente acabasse, eu poderia morrer, entĂŁo tinha um Anel de OxigĂȘnio. TambĂ©m poderia morrer pelo calor, entĂŁo usava um Anel de Resfriamento. Mas, dito isso, as barreiras dos meus AnĂ©is de Segurança nĂŁo extinguiam chamas, entĂŁo, se algum incĂȘndio durasse mais que a proteção deles, eu ainda poderia virar churrasco.
Mas, mais importante que isso, agora eu tinha mais uma vaga livre no meu grupo.
â Se me permite, CM â disse Arty â, a Maldição Oculta Ă© um clĂŁ com mais de alguns Magos adequados para essa tarefa tĂŁo honrada.
â Hmph, bem, isso cabe ao Mil Truques decidir. Hmm, por que vocĂȘ nĂŁo vai, Artbaran? JĂĄ que tocou no assunto. Se Mary for junto, tenho certeza de que ficarĂĄ tudo bem.
Mary. Mary, hein?
Essa era a garota que estava com Arty no café. Os dois pareciam bem jovens, mas eu não ia duvidar da opinião do Inferno Abissal.
Arty foi completamente pego de surpresa com a sugestĂŁo.
â Tenho confiança de que, juntos, Mary e eu poderĂamos lidar com praticamente qualquer situação. No entanto, se o convite foi para vocĂȘ, isso nĂŁo significa que hĂĄ apenas uma vaga disponĂvel?
â Ă mesmo? â perguntou o Inferno Abissal, olhando para mim.
Eu vim aqui com a intenção de preencher uma vaga, mas nĂŁo ia recuar diante da ideia de preencher duas. Assenti e decidi tentar colocĂĄ-los em dĂvida comigo.
â Ah, eu dou um jeito â disse eu. â Se os dois formam uma boa dupla, encaixo Arty e Mary em uma sĂł vaga. O que acha?
O Inferno Abissal mergulhou em silĂȘncio. Arty me olhava de olhos arregalados. Eu conseguiria fazer isso funcionar? Talvez nĂŁo? Mas, no fim das contas, nĂŁo importava muito, jĂĄ que todas as vagas ainda nĂŁo tinham sido preenchidas.
De repente, o Inferno Abissal caiu na gargalhada. Os móveis no cÎmodo tremeram, e eu também.
â Muito bem dito, Mil Truques! EntĂŁo vocĂȘ acha que nossa Mary e Artbaran juntos valem meio guerreiro cada?
â NĂŁo, nĂŁo Ă© issoâ
â Mas vocĂȘ tem um ponto, e nĂŁo dĂĄ para negar. Vamos esquecer a ideia de enviar Artbaran.
A conversa seguia sem o meu controle. Arty parecia um cara legal, e eu nĂŁo teria problema em trazĂȘ-lo, mas era impossĂvel argumentar com alguĂ©m como o Inferno Abissal.
â Estamos bem ocupados aqui â ela trovejou, batendo seu cajado no chĂŁo. â Vou enviar o vice-mestre do clĂŁ, Telm Apoclys. VocĂȘ o conhece, nĂŁo? Ele Ă© um Mago de NĂvel 7. Alguma objeção?
Eu conhecia o nome, mas nunca o tinha encontrado. Não conseguiria apontå-lo em uma multidão. Mas, claramente, não estava em posição de discutir, então apenas assenti como um fantoche.
Depois das minhas experiĂȘncias de quase morte com Gark e o Inferno Abissal, voltei para a sede do clĂŁ. Tudo o que restava era recrutar Ark. Entrei no salĂŁo e comecei a falar com o primeiro rosto familiar que vi.
â HĂŁ? Ark nĂŁo estĂĄ aqui? â perguntei.
â VocĂȘ nĂŁo sabia? â Lyle respondeu. â Ele tem uma missĂŁo importante para cuidar e nĂŁo vai voltar tĂŁo cedo.
Aquele almofadinha inĂștil. Parece que ele faz questĂŁo de sumir quando eu mais preciso dele.
Se eu ia estar cercado por rostos desconhecidos como Telm e Kechachakka, entĂŁo precisava de um aliado forte como Ark para evitar que a missĂŁo virasse um pesadelo completo. Mas se ele estava inacessĂvel, nĂŁo havia nada que eu pudesse fazer. NinguĂ©m podia substituir Ark. Muitos poderiam igualar sua força, mas ninguĂ©m era uma presença tĂŁo confiĂĄvel quanto ele.
Afundei em uma cadeira prĂłxima e cruzei os braços, tamborilando os dedos enquanto quebrava a cabeça. Eu tinha encontrado duas pessoas, restando ainda trĂȘs vagas para preencher. TrĂȘs. Que nĂșmero bonito.
â Talvez reunir o velho time do espaguete na parede? â murmurei. â Mas isso deixaria Tino de fora.
â O-O que vocĂȘ estĂĄ pensando, CM? â Lyle perguntou.
Eu estava cansado. Visitar aqueles dois lugares tinha me esgotado. Comecei a ficar apåtico. Afinal, éramos apenas um seguro extra, e havia a possibilidade de que nossa viagem fosse milagrosamente tranquila. Mesmo que algo acontecesse, a guarda imperial provavelmente daria conta do recado.
â Por que vocĂȘ nĂŁo vem, Lyle? Estamos protegendo o imperador.
Lyle quase engasgou com sua bebida.
â I-Inferno que nĂŁo! E nĂŁo me jogue isso como se fosse um passeio qualquer!
Talvez proteger o imperador não fosse tão prestigioso assim? Olhei ao redor do salão, e todos balançaram a cabeça para mim. Serå que esses membros do clã não tinham nenhuma fé no CM deles?
Que enrascada. Eu estaria em sérios apuros se não conseguisse montar um time. Jå nem me importava mais com quem, só precisava preencher as vagas. Mas então, meus pensamentos foram interrompidos por uma voz aguda.
â Ah, franguinho humano!
O Primeiro Passo tinha duas equipes problemĂĄticas. Uma era a minha â Grieving Souls. A outra era a Starlight, uma equipe composta exclusivamente por EspĂritos Nobres, uma raça naturalmente inclinada a menosprezar humanos. Eles nos causavam problemas sempre que podiam.
A dona da voz era uma de suas integrantes, Kris Argent. AtrĂĄs dela estava o lĂder da equipe, Lapis Fulgor.
â Os rumores chegaram atĂ© mim. Hmph. Parece que vocĂȘ estĂĄ se saindo bem â disse Lapis.
â VocĂȘ cutucou outro vespeiro! Senhor! A vida Ă© muito injusta se alguĂ©m como vocĂȘ ainda estĂĄ respirando! â Kris disse.
Com poucas exceçÔes, os EspĂritos Nobres eram, em geral, Magos excepcionais. A Starlight era uma das equipes de Magos de elite da capital imperial. Suas personalidades eram como eram, mas eles nĂŁo eram mĂĄs pessoas, e, como eu nĂŁo tinha orgulho, interagir com eles era fĂĄcil. Sem falar que os EspĂritos Nobres respeitavam humanos que se destacavam na magia, e, por ser irmĂŁo da Lucia, eles pegavam leve comigo.
Agora, eu realmente nĂŁo achava que um EspĂrito Nobre se comportaria diante do imperador, mas talvez tudo ficasse bem. Talvez o imperador apenas desse de ombros e dissesse: âBem, eles sĂŁo assim mesmo.â AlĂ©m disso, EspĂritos Nobres chamavam atenção; se eu levasse um junto, ele atrairia todo o aggro.
Vendo que aqueles dois raramente vinham ao salĂŁo, sĂł me restava interpretar isso como um sinal dos deuses.
Os ingredientes escolhidos para este prato de espaguete na parede estavam se juntando. Voltei para o meu quarto, forçando-me a ficar animado com isso.
Primeiro, o recomendado pela Associação dos Exploradores e cujo nome esquisito me agradou â Kechachakka Munk! Classe: desconhecida!
Em seguida, tĂnhamos o vice-lĂder do clĂŁ Maldição Oculta, o assassino enviado pelo Inferno Abissal â Telm Apoclys!
Em terceiro lugar, a favorita da lĂder da Starlight, Lapis Fulgor… â Kris Argent! Lapis sempre dizia para ela nĂŁo usar linguagem grosseira! E ela sĂł estava aqui por ordem de Lapis!
Eu precisava de um grupo de cinco, entĂŁo ainda restavam duas vagas. Dei a essa minha grande responsabilidade um pensamento sĂ©rio. Kechachakka era âamargorâ, Telm era âpicĂąnciaâ e Kris era âdoçuraâ. Assim que eu tivesse minha âacidezâ e âsalgadoâ (nĂŁo pergunte), teria os cinco sabores bĂĄsicos e estaria pronto. Talvez Kris pudesse ser a acidez e alguĂ©m mais ficasse com a doçura. O que eu mais precisava era de alguĂ©m que pudesse liderar bem o grupo.
A escolha Ăłbvia entre as equipes da Primeiros Passos era a Obsidian Cross, mas Sven era um homem ocupado. Se eu nĂŁo o encontrasse treinando ou no lounge, havia uma boa chance de que nĂŁo o encontraria de jeito nenhum.
Essa era difĂcil. Eu precisava de mais duas pessoas. Talvez eu pudesse preencher uma vaga com Carpet?
Enquanto eu quebrava a cabeça com essa questão, Sitri entrou no lounge com um ar animado.
â Krai, como vai a seleção? â perguntou ela.
â JĂĄ tenho trĂȘs pessoas. Estou pensando, pensando, mas nĂŁo consigo encontrar mais opçÔes. VocĂȘ estĂĄ bem depois daquela reuniĂŁo?
â Ah, sim. Depois que vocĂȘ saiu, discutimos e decidimos que nenhum de nĂłs participaria dessa missĂŁo! NĂŁo seria justo sĂł um de nĂłs se divertir!
â Se divertir?
Fomos criados na mesma cidade e tivemos criaçÔes parecidas, então como acabamos tão diferentes?
Sitri deu a volta e me abraçou por trås.
â Po-rĂ©m, achei que vocĂȘ poderia precisar de uma ajudinha. EntĂŁo trouxe um possĂvel membro para sua equipe.
â Hm?
Sitri chamou alegremente em direção à porta. Ela se abriu, e uma figura de dois metros de altura, completamente coberta de armadura, entrou. Vertical e horizontalmente, tinha a silhueta de um Guerreiro Pesado. Seu rosto estava oculto pela viseira do capacete, e a armadura era de um incomum marrom queimado.
Ele marchou até mim e ficou parado, braços ao lado do corpo. Eu realmente não sabia o que deveria dizer.
â Este Ă© Sir Matadinho VersĂŁo Alpha, meu novo amigo â disse Sitri, ainda abraçada a mim.
â Esse Ă© mesmo o nome dele?
Gostaria de conhecer os pais dele.
Sitri apenas riu e disse:
â Aqui estĂĄ o controle.
Ela me entregou uma caixa com um joystick, quatro botÔes grandes e um pequeno. Movi o joystick para frente, e Sir Matadinho avançou. Continuou movendo as pernas mesmo depois de esbarrar na mesa.
Deveria me preocupar?
Sitri percebeu minha hesitação e explicou o que cada botão fazia.
â Este botĂŁo ordena que ele ataque, este para defender, este Ă© para correr e este aqui Ă© para dançar. O joystick controla o movimento.
Reconheci a expressĂŁo no rosto dela, aquela que surgia sempre que conseguia um novo brinquedo. Toda vez que Sitri aprendia algo novo ou conseguia um item inusitado, ela sempre vinha me mostrar.
Eu queria dizer muita coisa, mas me limitei a perguntar sobre os controles.
â NĂŁo deveria ter mais botĂ”es?
â Achei que eram botĂ”es demais. Por isso tem um dedicado Ă dança. Ah, e esse botĂŁo pequeno ativa o Modo de Ação AutĂŽnoma.
Se isso existia, entĂŁo por que eu precisava do controle?
â Sir Matadinho nĂŁo vai te decepcionar, entĂŁo, por favor, inclua-o no seu time! Eu nĂŁo vou me importar nem se vocĂȘ o sacrificar! â A voz de Sitri transbordava paixĂŁo e confiança.
EntĂŁo isso definitivamente nĂŁo era um humano. Era um golem, certo? Como sempre, nossa Alquimista local era extraordinĂĄria.
Se Sitri estava tĂŁo confiante, entĂŁo ele provavelmente seria um bom recurso. Eu nĂŁo sabia se um golem realmente contava como membro da equipe, mas decidi que isso preenchia mais uma vaga. Meu macarrĂŁo na parede cinco-estrelas estava um passo mais perto de ser completo.
â Certo â disse eu. â Obrigado, isso ajuda muito. Agora, sĂł falta mais uma vaga…
â HĂŁ, essa vaga nĂŁo seria a sua?
â Hm?!
Meus olhos se arregalaram enquanto eu contava nos dedos. Kechachakka, Telm, Kris e Sir Matadinho somavam quatro. Se me incluĂssem, seriam cinco. Eu tinha esquecido completamente da minha prĂłpria existĂȘncia. Mas agora tive uma ideia brilhante: poderia fingir que escolhi cinco pessoas por engano e acabar ficando de fora. Franzi a testa e pensei seriamente nisso.
O quinto pode ser… acho que podemos ir com Tino. NĂŁo, pera, ela jĂĄ foi arrastada para confusĂŁo demais ultimamente.
Nenhum dos meus escolhidos iniciais tinha acabado no time. Se Ark estivesse dentro, eu poderia ter trazido Tino, mas, enfim. Que outros conhecidos eu tinha? Talvez eu pudesse tentar visitar Arnold. Claro, ainda nĂŁo estĂĄvamos nos melhores termos, mas um trabalho prestigiado como proteger o imperador deveria ser irresistĂvel para um caçador de alto nĂvel. Talvez isso nĂŁo sĂł resolvesse nossas diferenças como ainda o colocasse em dĂvida comigo?
Hee hee hee. NĂŁo sĂł eu teria um problema a menos, como ele me devia um favor. Talvez eu seja mesmo um artĂfice preter-humano?
Enquanto eu contava meus ovos antes de chocarem, Sitri me soltou e bateu palmas.
â Ah, lembrei! Sir Matadinho Ă© onĂvoro, entĂŁo qualquer comida serve. Ele pode ficar um tempo sem comer, mas eu apreciaria se vocĂȘ pudesse alimentĂĄ-lo com carne crua. SĂł lembre-se de que ele foi treinado para comer onde ninguĂ©m possa ver.
â HĂŁ?
E assim, o dia do destino chegou.
Eu estava sentado em uma sala na Associação dos Exploradores. Franz entrou, fez uma saudação breve e conferiu minha lista de membros da equipe.
â O que Ă© isso? â ele perguntou, franzindo a testa. â NĂŁo vejo ninguĂ©m do seu grupo.
â Ă… aham.
â Telm da Contra Cascata e o Magus de Starlight sĂŁo conhecidos o suficiente, mas nunca ouvi falar do nome Kechachakka Munk. E quem Ă© esse tal de Sir Matadinho VersĂŁo Alpha?
Mais um “o quĂȘ” do que um “quem”. Queria poder te contar.
Mas olhe sĂł para esse maravilhoso espaguete de parede. O nĂvel mĂ©dio aqui Ă© muito mais alto do que o pessoal da Toca do Lobo Branco, entĂŁo podemos chamĂĄ-lo com segurança de espaguete de parede cinco estrelas. Supliquei aos cĂ©us para que alguĂ©m me salvasse. Em algum momento, fiquei estranhamente empolgado com tudo isso (Arnold, aliĂĄs, recusou o convite).
â Calma â eu disse, levantando as mĂŁos e esboçando um sorriso torto. â Essas pessoas sĂŁo as melhores das melhores.
â VocĂȘ tem trĂȘs Magos, isso estĂĄ terrivelmente desequilibrado. Deveria pelo menos ter trazido o ImutĂĄvel! Eu entendo que a seleção de pessoal ficou a seu critĂ©rio, mas eu nĂŁo esperava uma bagunça dessas…
Meus ouvidos estavam doendo. Franz tinha razĂŁo sobre o nosso equilĂbrio, mas eu nĂŁo sabia que Kechachakka era um Magus. Ok, talvez eu nĂŁo devesse ter convidado um total desconhecido para ajudar a proteger o imperador, mas eu nĂŁo tinha opçÔes melhores!
â Se foi vocĂȘ quem os escolheu, posso presumir que nĂŁo sĂŁo Raposas?
â Sem dĂșvidas quanto a isso. Eles sĂŁo seguros.
O fantasma que eu conhecia era extraordinårio demais para ser ignorado, mesmo por alguém tão cego quanto eu. Eu jamais o identificaria errado.
â Pare com essa ladainha! Senhor! â Kris, minha proteção pessoal, gritou com uma voz firme. â Enquanto eu estiver aqui, nada pode dar errado! Considere seu trabalho como concluĂdo!
Sendo capitĂŁo da guarda imperial, Franz sem dĂșvida era um nobre de alta patente, mas Kris falava com ele sem o menor resquĂcio de formalidade. Os EspĂritos Nobres nasciam com proficiĂȘncia mĂĄgica natural, boa aparĂȘncia e jĂĄ foram emissĂĄrios dos deuses. Talvez fosse natural que nĂŁo se importassem com as hierarquias dos humanos.
Kris bateu a mĂŁo na mesa como uma criança, mas sua beleza tornava a cena estranhamente adorĂĄvel. Os bonitos realmente tĂȘm vida fĂĄcil, pensei enquanto observava em silĂȘncio. AtĂ© Franz parecia incapaz de repreendĂȘ-la.
â NĂŁo se engane! Senhor! Esse homem pode atĂ© ser o imperador, mas isso nĂŁo significa nada para os EspĂritos Nobres! Eu estou ajudando porque nĂŁo posso recusar um pedido da Lapis! Senhor!
Caso esteja se perguntando, a fala estranha da Kris era porque ela nĂŁo estava acostumada a falar educadamente. Mesmo quando nos conhecemos, ela nĂŁo teve medo de dizer o que pensava, e geralmente era uma tempestade de insultos. Como eu era tecnicamente o mestre do clĂŁ, Lapis vivia gritando com ela para falar direito, e isso levou ao seu padrĂŁo de fala atual. Parecia que ela achava que adicionar “Senhor” aqui e ali era o suficiente para soar educada.
â Ela Ă© a Cavalgadora de Tapetes â disse eu, sorrindo.
â NĂŁo se ache, humano fraco! SĂł estou aqui porque a Lucia pediu! Senhor!
â Ă… aham.
â NĂłs sĂł estamos no seu clĂŁ porque vocĂȘ disse que entregaria a Lucia para nĂłs! Senhor! Pare de nos enrolar! Por quanto tempo acha que pode continuar com isso?!
â Ă… aham.
Tão animada como sempre. Era um mistério como ela gritava tanto sem ficar rouca.
Ă claro que nunca prometemos entregar a Lucia. Quando estĂĄvamos negociando com Starlight, Sitri cedeu a eles o direito de recrutar a Lucia. No entanto, os membros dos Grieving Souls tĂȘm total liberdade para entrar e sair. Ou seja, para ser bem claro: Starlight foi enganada. Mas eles jamais admitiriam isso.
â Estou oferecendo minha ajuda e isso jĂĄ Ă© mais do que suficiente! Senhor! Sua fraqueza nunca deixa de me surpreender, entĂŁo apenas fique fora do meu caminho!
â Eu nĂŁo preciso ir? SĂ©rio? Ă o meu dia de sorte! â eu disse, surpreso.
â NĂŁo me provoque! Senhor! â Kris bateu a mĂŁo na mesa, levantou-se e apontou o dedo para mim. â VocĂȘ pretende me fazer trabalhar enquanto fica aĂ de braços cruzados? Me dĂĄ um tempo! Ao menos finja que merece seu nĂvel 8! Senhor!
â Calma, calma. Sua garganta deve estar seca. Aqui, pode pegar meu chĂĄ.
Eu estendi minha xĂcara de chĂĄ, e ela a arrancou da minha mĂŁo, ainda bufando de raiva.
Kris era nĂvel 3. NĂŁo lhe faltava talento, mas seu hĂĄbito de discutir com os clientes das missĂ”es a impedia de avançar. Para lidar bem com EspĂritos Nobres era necessĂĄrio um coração generoso (como o Ark) ou uma completa falta de orgulho (como eu). No entanto, pensando bem, escolher a Kris talvez tivesse sido um pouco ousado demais.
Percebi que Franz estava completamente sem palavras.
â Ela Ă© a escolha perfeita â eu disse, tentando desesperadamente parecer no controle. â Tenho certeza de que Sua Majestade Imperial nĂŁo terĂĄ do que reclamar. E se alguĂ©m do meu grupo nĂŁo for do seu agrado, pode encontrar outra pessoa para fazer esse trabalho.
E assim consegui escapar com a minha seleção de equipe.
Que tipo de trabalho eles achavam que era esse? Ă… aham. Ainda assim, de alguma forma, a culpa era toda minha. A Ășnica coisa que me restava agora era tirar o melhor proveito da situação.
â Krai, aqui estĂĄ o arquivo que vocĂȘ pediu â disse Eva. â Com o tempo que tive, reuni as informaçÔes que jĂĄ tĂnhamos arquivadas.
â Ah, valeu. Te devo uma.
Enquanto eu resistia Ă vontade de vomitar, Eva trabalhava como sempre. O que ela fez foi uma lista de todos os Ladinos notĂĄveis entre aqui e nosso destino.
A conferĂȘncia estava sendo realizada no paĂs de Toweyezantâuma nação situada no centro de um vasto deserto. Comparado a Zebrudia, era incrivelmente rĂșstico; grande parte da nossa viagem nem sequer seria em estradas de verdade.
Todo ano, o papel de sediar a conferĂȘncia rodava entre os paĂses participantes. A localização deste ano proporcionava uma excelente oportunidade para aqueles que tinham planos contra o imperador. Eu realmente nĂŁo achava que as defesas do impĂ©rio significariam algo diante daquela raposa, mas quem sabia o que se passava na mente dos espectros?
Meus olhos se arregalaram como pires â a lista era muito mais curta do que eu havia antecipado. Mas eu nĂŁo ia me deixar levar pela complacĂȘncia.
â Acho que vocĂȘ nĂŁo tem muito com o que se preocupar â disse Eva. â Considerando sua agenda e o fato de que Ă© com o imperador que vocĂȘ vai viajar, provavelmente seguirĂŁo pelo ar em parte do caminho. O imperador e sua comitiva jĂĄ usaram aeronaves em viagens longas antes.
â Pode haver piratas do cĂ©u.
â NĂŁo. NĂŁo vai! Do que vocĂȘ estĂĄ falando? ‘Piratas do cĂ©u’?
Era bem sensato que o imperador nĂŁo quisesse atravessar o deserto a pĂ©, mas voar em um veĂculo? O homem tinha um desejo de morte? Terra e mar estavam repletos de perigos, e o cĂ©u nĂŁo era exceção. Humanos nĂŁo podiam voar por conta prĂłpria, mas vĂĄrios monstros podiam.
Meus AnĂ©is de Segurança me protegeriam caso caĂssemos, mas ainda assim achei que poderia ser esperto tentar fazer amizade com o Tapete Delinquente (como eu gostava de chamĂĄ-lo). Talvez o imperador tenha me dado o Tapete exatamente por esse motivo? A Ordem Zero conseguiria lutar no cĂ©u? E quanto a mim? Eu nĂŁo conseguia lutar em terra, mar ou ar.
Apenas para garantir, comecei a andar de um lado para o outro, segurando a cabeça e resmungando. â NĂŁo. Pode haver bandidos, pode haver monstros, pode surgir uma cĂąmara do tesouro, pode acontecer um desastre natural. Eva, eu posso estar em sĂ©rio perigo.
â De onde estĂĄ vindo isso?! VocĂȘ sempre estĂĄ tĂŁo relaxado.
â Eu sĂł pensei que, se eu disser agora, talvez nĂŁo aconteça de verdade.
â Ah, foi mesmo?
Não me orgulho disso, mas nunca fiz uma previsão correta em toda a minha vida. Essas previsÔes sombrias eram minha forma de rezar por boa sorte. Dessa forma, mesmo que nos deparåssemos com algo, não seriam bandidos, monstros ou uma cùmara do tesouro. Eu poderia aceitar isso.
Deixei a maioria dos preparativos para Sitri. A Ășnica coisa que restava para eu fazer era escolher cuidadosamente quais RelĂquias levar para estar preparado para qualquer coisa. O combate poderia ser deixado para os cavaleiros e meus caçadores. Meu trabalho era apenas ficar de olho nos companheiros que trouxe comigo, mas todos eram veteranos de alto nĂvel, entĂŁo nĂŁo estava particularmente preocupado.
***
â Vamos começar a trigĂ©sima quinta e meia ConferĂȘncia Grieving Souls! Nosso prĂłximo campo de operaçÔes serĂĄ o cĂ©u e o deserto!
Todos os membros de Grieving Souls estavam reunidos em uma das salas de reuniĂŁo da casa do clĂŁ, exceto Krai e Eliza. Diante de um quadro-negro coberto de documentos, estava a facilitadora de sempre, Sitri.
â Pode vir! O cĂ©u! O deserto! DragĂ”es de areia! â gritou Luke, seus olhos brilhando.
â Krai Baby Ă© um verdadeiro ocupado â disse Liz, jogando os pĂ©s sobre a mesa. â Ele precisa tirar um descanso. NĂŁo estĂĄ se dando tempo nenhum para treinar. Eu quero sair para um encontro, mesmo que seja no cĂ©u, no deserto, ou onde for!
Ansem resmungou.
â Nosso objetivo Ă© dar suporte ao Krai durante sua prĂłxima missĂŁo de proteger o imperador! â continuou Sitri. â Se tudo correr bem, ele pode atĂ© subir de nĂvel. Vamos nĂŁo cometer erros!
â Honestamente â murmurou Lucia â, sĂł porque vocĂȘ nĂŁo foi escolhida…
â Lucy, somos todos um time! NinguĂ©m fica para trĂĄs! â Sitri a interrompeu com um sorriso. â Toweyezant fica extremamente quente durante o dia, mas isso nĂŁo Ă© problema. Aquele vulcĂŁo nos deu muitas oportunidades de reforçar nossa resistĂȘncia ao calor. A temperatura da noite nĂŁo serĂĄ problema tambĂ©m, entĂŁo nossa principal preocupação Ă© o cĂ©u. Veja bem, normalmente nĂŁo hĂĄ aeronaves indo para Toweyezant. Em outras palavras, nĂŁo Ă© o tipo de lugar que tem trĂĄfego aĂ©reo regular.
â O cĂ©u! Nem eu nunca cortei um monstro do cĂ©u!
â Acalme-se, Luke â disse Liz a ele. â Lucy deve conseguir lidar com o cĂ©u. Vamos nos infiltrar na aeronave?
â Ao contrĂĄrio da ReuniĂŁo da LĂąmina Branca, infiltrar-se na aeronave nĂŁo serĂĄ possĂvel. Sem dĂșvida, nĂŁo deixarĂŁo ninguĂ©m entrar sem a devida identificação â disse Lucia pensativa. Lucia era uma Maga poderosa, mas a magia nĂŁo era onipotente, e todos os Magos tinham pontos fortes e fracos.
Ela puxou um livro surrado e folheou suas pĂĄginas. â Fazer vĂĄrias pessoas voarem pelo ar Ă© difĂcil, para dizer o mĂnimo, ainda mais se tivermos que acompanhar o ritmo de uma aeronave â disse. â Talvez eu tenha que criar um novo feitiço… â Virou mais algumas pĂĄginas. â Ah, aqui estĂĄ. Milagre Shinobi NĂșmero Cinco. Ninpo: Kuuton.
â Isso Ă© daquele mangĂĄ antigo? â perguntou Luke. â Aquele em que vocĂȘ voa em uma pipa gigante?
â Exatamente. Nem mesmo uma tentativa mĂnima de originalidade.
Luke estava empolgado. â Voar numa pipa parece incrĂvel. Imagine o Krai olhando pela janela e nos vendo ali, em cima de uma pipa.
Lucia nĂŁo parecia nada satisfeita com essa imagem mental.
â Agora entĂŁo! â Sitri interrompeu com uma batida de palmas. â De acordo com as regras do clĂŁ, vamos decidir por maioria de votos. Eliza estĂĄ Ă deriva no mar da vida, entĂŁo ela nĂŁo vota. Temos trĂȘs opçÔes: deixar a Lucy fazer o seu melhor com uma pipa, tentar embarcar furtivamente na aeronave ou nos agarrarmos do lado de fora dela! Primeiro, quem quer voar com a Lucy?
â Tem certeza de que isso Ă© uma votação justa? â Lucia protestou.
Ansem resmungou.
Depois disso, como sempre faziam, decidiram como prosseguir. Os Grieving Souls eram frequentemente vistos como um grupo imprudente, mas isso nĂŁo poderia estar mais longe da verdade. A preparação prĂ©via era essencial para superar dificuldades e, se seu histĂłrico servisse de referĂȘncia, eles estavam mais do que acostumados a enfrentar desafios.
â Krai escolheu quatro indivĂduos: o famoso Magus da Ăgua, Telm Apoclys, o Contra-Cascata; Kechachakka Munk, um Hex Magus e caçador de nĂvel 6 recĂ©m-chegado Ă capital; o Kris, simplĂłrio e fĂĄcil de provocar; e, por Ășltimo, minha invenção especial, Sir Matadinho VersĂŁo Alpha.
â Infelizmente, nĂŁo tive tempo suficiente para investigar os antecedentes de Kechachakka ou dos outros recrutas. Nenhum deles Ă© adequado para combate direto, entĂŁo Sir Matadinho pode ser suficiente para proteger Krai, mas, se necessĂĄrio, talvez Lucia possa provocar Kris para nos ajudar?
â LĂĄ vem vocĂȘ de nooovo! â Liz gemeu. â Siddy, suas tentativas descaradas de marcar pontos com o Krai Baby nĂŁo passam de uma dor de cabeça pra ele!
â O quĂȘ, eles nĂŁo tĂȘm um Espadachim? â Luke disse. â E agora, o que eu vou cortar?
â Kechachakka. Hmm. NĂŁo sei por que nosso lĂder o escolheu, mas se o Contra-Cascata estĂĄ no grupo, deve ficar tudo bem â Lucia comentou.
Sitri sorriu e ignorou casualmente os dois blocos de concreto enquanto se virava para Lucia, a Ășnica que ainda conseguia manter uma conversa.
â Como sempre, vou investigar que tipo de monstros podemos esperar. No entanto, talvez estejamos lidando com um inimigo diferente de tudo o que jĂĄ enfrentamos. Procedam sob a suposição de que nĂŁo temos nenhuma informação.
O clima na sala mudou. Lucia ficou com uma expressão séria. Ansem corrigiu sua postura.
Luke franziu a testa. â EntĂŁo essa raposa de que todo mundo estĂĄ falando Ă© a Raposa de Treze Caudas que encontramos hĂĄ um tempo? Naquela Ă©poca, mal conseguĂamos tocĂĄ-la, e depois de tanto tempo, ainda nĂŁo sei se conseguiria cortĂĄ-la. Se ao menos eles fossem um Espadachim…
Para alguém normalmente tão impulsivo, essa foi uma avaliação bem ponderada.
â Sim, mas vocĂȘ estĂĄ pensando em outra coisa completamente diferente â Liz disse com um suspiro. â Aquele fantasma nĂŁo tem interesse nos assuntos humanos, lembra? O impĂ©rio estĂĄ preocupado com a Fox, a organização criminosa.
â HĂŁ? Tem outra Fox? â Luke perguntou, surpreso.
â Exato. Embora sejam um adversĂĄrio preferĂvel Ă quele de quem vocĂȘ estĂĄ falando, ainda representam uma ameaça potencial ao impĂ©rio â Sitri explicou gentilmente. Ela estava bem ciente de como Luke podia ser absurdamente ignorante sobre qualquer coisa que nĂŁo lhe interessasse. â NĂŁo se sabe muito sobre eles, mas seu perigo e sigilo sĂŁo comparĂĄveis aos da Serpente.
Os olhos de Luke se arregalaram, brilhando de empolgação conforme ele se inclinava para frente.
â O quĂȘ?! ComparĂĄveis Ă Serpente? Ah, cara, mal posso esperar por isso.
Suas mãos tremiam de antecipação e ele sorriu nervoso.
â Eles sĂŁo chamados de “Raposa Sombra de Nove Caudas”. Ou simplesmente “Fox” â Sitri o informou. â Seu objetivo Ă© a destruição total da civilização. SĂŁo uma sociedade secreta sobre a qual quase nada se sabe.
NĂŁo havia informaçÔes sobre sua estrutura de comando, membros, lĂderes ou qualquer coisa do tipo, mas dizia-se que, no passado, serviram como a agĂȘncia de inteligĂȘncia de um paĂs que hĂĄ muito desapareceu. Mesmo esse fato era envolto em mistĂ©rio. A maioria dos paĂses sĂł havia tomado conhecimento da existĂȘncia da Fox recentemente, provavelmente porque a prĂłpria organização queria que fosse assim.
E agora a Fox estava tentando prejudicar uma das maiores naçÔes do mundo. O invasor na Reunião tinha sido uma demonstração de força. E também uma declaração de hostilidade.
â Entendi. EntĂŁo acho que eles nĂŁo tĂȘm caudas suficientes â Luke comentou.
Sitri riu.
â Segundo os rumores, o nome deles vem da raposa fantasmagĂłrica que vocĂȘ mencionou hĂĄ pouco. Dizem que o poder e a sabedoria daquela raposa aberrante lhe renderam seguidores devotos.
Os caçadores eram poderosos, mas nĂŁo eram adequados para lutar em grandes grupos. Isso tornava a Fox um inimigo problemĂĄtico. Eles eram sigilosos o suficiente para escapar das garras de vĂĄrias naçÔes e, ao que tudo indicava, tambĂ©m eram bem abastecidos com fundos e pessoal. Havia rumores de que tinham caçadores de alto nĂvel em suas fileiras e que eram completamente implacĂĄveis.
â A cautela do impĂ©rio Ă© totalmente justificada â continuou Sitri. â Esta conferĂȘncia que se aproxima Ă© uma excelente oportunidade para alguĂ©m atacar. Se o imperador vive ou morre nĂŁo Ă© um problema nosso, mas temos que lutar se nosso oponente estiver tentando incriminar Krai.
Liz tirou as pernas da mesa e se levantou.
â EntĂŁo, basicamente, sĂł precisamos fazer o que sempre fazemos? Como sempre, temos vilĂ”es, nĂŁo sabemos o que vai acontecer e o Krai Baby estĂĄ aprontando alguma coisa. E, como sempre, podemos apenas seguir as instruçÔes dele.
Caçadores raramente enfrentavam organizaçÔes criminosas. A menos que fossem do tipo que caçava recompensas, a maioria não tinha motivos para fazer inimigos entre os criminosos. Mas os Grieving Souls eram diferentes. Eles haviam sido atacados. Haviam contra-atacado. Haviam se vingado. Haviam feito de tudo para subir na hierarquia. Agora estavam tranquilos, sem nenhum motivo para sentir medo.
â Exato â disse Sitri com um sorriso. â Precisamos ter cautela, mas, como de costume, podemos seguir as instruçÔes de Krai. Ele Ă© nossa bĂșssola, e esta Ă© nossa chance de mostrar a ele do que somos capazes.
***
â EntĂŁo o Mil Truques aceitou a missĂŁo, nĂŁo foi?
â Sim, Vossa Majestade Imperial. No entanto, seu comportamento desafia qualquer compreensĂŁo. NĂŁo consigo deixar de me perguntar se realmente era necessĂĄrio solicitar sua ajuda.
No interior do Castelo Imperial, situado no coração do próspero Império Zebrudian, ficava a sala do trono. Lå, Rodrick Atolm Zebrudia conversava com Franz, o capitão da guarda imperial. O assunto da conversa era a escalada de açÔes tanto da Raposa quanto do Mil Truques.
A situação era extremamente confusa. O olhar abatido de Franz nĂŁo se devia apenas ao ataque da Raposa. Ele tambĂ©m nĂŁo suportava nada do que o Mil Truques havia feitoânem a maneira rude com que interagiu com a princesa imperial, nem sua atitude despreocupada quando o imperador foi atacado, e muito menos sua total falta de respeito pelo prestigioso dever de proteger o soberano.
â Mesmo que fizesse parte de seus planos, plantar veneno no Encontro da LĂąmina Branca foi um exagero â disse ele.
Franz nĂŁo havia aprofundado a questĂŁo por causa do julgamento proferido pelas LĂĄgrimas da Verdade. Ele havia visto Krai Andrey colocar a mĂŁo no orbe, e nĂŁo havia como negar as palavras que saĂram de sua boca. O resultado era indiscutĂvel.
â No entanto, estĂĄ bem claro que ele nĂŁo Ă© aliado da Raposa. Franz, o que vocĂȘ fez foi indiscutivelmente imprudente, mas aprecio sua lealdade. Graças a vocĂȘ, temos uma pessoa a menos sobre quem precisamos suspeitar.
Rodrick era um realista. Utilizar quaisquer meios necessĂĄrios para atingir um objetivo o tornava um fracasso como imperador em certos aspectos, mas ele compensava isso com puro carisma. AlguĂ©m poderia abrir um buraco no Castelo Imperial ou plantar veneno no Encontroâo que lhe importava era apenas se os benefĂcios superavam os custos. E o Mil Truques havia deixado esses benefĂcios bem evidentes.
â NĂŁo podemos adiar a conferĂȘncia em Toweyezant. Isso significaria que a intimidação da Raposa funcionou.
Mesmo após o ataque, essa sociedade secreta ainda conseguia escapar do alcance do império. Mas se o império demonstrasse hesitação, sua reputação perante as outras naçÔes cairia.
â Ă sĂł que o Mil Truques Ă© a figura mais suspeita de todas â resmungou Franz.
â Que ironia a pessoa mais suspeita ser justamente aquela provada inocente â disse o imperador com uma risada. â A menos que seja exatamente por isso que vocĂȘ usou as LĂĄgrimas?
Franz permaneceu em silĂȘncio.
As LĂĄgrimas da Verdade eram um pilar do impĂ©rio. Nunca haviam emitido um julgamento errĂŽneo, e duvidar de sua confiabilidade era inaceitĂĄvelâisso abriria precedentes para reexaminar todos os casos em que haviam sido usadas. Franz era calmo, perspicaz, e o uso da RelĂquia provava sua lealdade.
No entanto, ele tambĂ©m era um homem direto. Se o Mil Truques realmente possuĂa a engenhosidade sobre-humana da qual falavam, entĂŁo manipular Franz deveria ser uma tarefa simples para ele. Se fosse esse o caso, aceitar de bom grado o julgamento das LĂĄgrimas da Verdade, o nĂȘmesis de todos os conspiradores, era um ato extraordinariamente ousado.
O que Franz havia feito normalmente seria considerado um crime passĂvel de execução. Se a notĂcia se espalhasse, ele, no mĂnimo, perderia sua posiçãoâum destino pior que a morte para um Argman, uma famĂlia que servia a linhagem imperial desde a fundação do impĂ©rio.
Mas o Mil Truques nĂŁo o denunciou. E ao incentivar pessoalmente o uso da RelĂquia, salvou Franz e ainda encorajou o Inferno Abissal a fazer o mesmo. Parecia ser tĂŁo, ou melhor, ainda mais inteligente do que os rumores sugeriam.
â EntĂŁo devo confiar nele? Quanto serĂĄ que esse homem jĂĄ descobriu? â Franz se perguntou.
Ele ainda não conseguia depositar total confiança no Mil Truques, mas estava claro que aquele homem havia entendido algo sobre os planos da Raposa.
Zebrudia era uma nação enorme. Para ser considerada uma potĂȘncia formidĂĄvel, precisava manter uma aparĂȘncia de força. A era dos confrontos diretos entre paĂses havia terminado. Agora, tudo se resumia a como cada um utilizava os recursos dos cofres de tesouros.
Esse homem poderia ser usado? Era seguro utilizĂĄ-lo? O Conde Gladis havia garantido sua inteligĂȘncia. Mas, se ele fosse trabalhar para o imperador, Franz queria confirmar isso pessoalmente.
Tradução: Carpeado Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â Clicando Aqui
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