Grieving Soul â CapĂtulo 1 â Volume 6
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 06
CapĂtulo 1: A ReuniĂŁo da LĂąmina Branca
â HĂŁ?! O Mestre vai para a ReuniĂŁo da LĂąmina Branca?!
Para Tino Shade, isso foi um grande choque.
â Hm? VocĂȘ nĂŁo sabia? Pelo visto, ele recebeu um convite e a VCM tem corrido por aĂ feito uma louca.
â M-Mas o Mestre estava comigo atĂ© agora, resolvendo uma missĂŁo…
Tino nĂŁo tinha ouvido nada sobre isso. Mesmo durante o desafio disfarçado de fĂ©rias, ele nĂŁo demonstrou o menor indĂcio de que havia sido convidado para a ReuniĂŁo da LĂąmina Branca.
Convites para esse evento eram uma das maiores honrarias que um caçador poderia receber e uma prova de suas contribuiçÔes para o impĂ©rio. Fora exceçÔes como Ark Rodin, cuja famĂlia servia o impĂ©rio como caçadores hĂĄ geraçÔes, era inĂ©dito alguĂ©m tĂŁo jovem como Krai ser convidado.
Mas a Reunião da Lùmina Branca jå deveria ter acontecido. Pensando em suas aventuras disfarçadas de viagem às termas, Tino jamais imaginaria que ele havia recebido tal honra.
â A VCM tinha certeza de que ele voltaria, mas acho que ela nĂŁo contava com o evento sendo adiado â comentou o outro caçador casualmente.
Tino, no entanto, estava tremendo. Ela esteve ao lado de seu mestre e viu tudo. Sabia que nĂŁo era coincidĂȘncia terem chegado em casa bem a tempo para a reuniĂŁo adiada. Mesmo estando tĂŁo longe, mesmo causando todo aquele caos, ele conseguiu encaixar a ReuniĂŁo da LĂąmina Branca em sua agenda. Se nĂŁo tivesse conseguido, serĂĄ que ele realmente teria parado nas termas?
Depois de presenciar tamanha ousadia e visão estratégica, Tino desistiu de tentar entender as intençÔes de seu mestre. Se ela estivesse em seu lugar, jamais teria sequer cogitado relaxar em uma fonte termal antes de um evento tão prestigiado, mesmo sabendo que ele tinha sido adiado. Sua cabeça começou a girar enquanto tentava encontrar algum significado por trås das açÔes de Krai.
â Ainda assim, me pergunto quem o CM vai levar. Acho que eles podem trazer um acompanhante… â disse o outro caçador como se fosse algo natural.
Ah, Ă© mesmo!
O outro caçador estava certo. Os participantes da ReuniĂŁo da LĂąmina Branca realmente podiam levar um acompanhante. A maioria dos caçadores fazia como a nobreza e levava sua conhecida mais confiĂĄvel do sexo oposto. Naturalmente, isso excluĂa Tino como candidata. Ela nĂŁo se achava tĂŁo convencida a ponto de pensar o contrĂĄrio.
E, no entanto…
Grieving Souls era um grupo unido. Pelo menos, Lizzy, Siddy e Lucy eram todas candidatas em potencial. NĂŁo era nada difĂcil para Tino imaginar as irmĂŁs Smart brigando pelo posto. Mas isso significava que ela tinha uma chance?
Se Lizzy e Siddy começassem uma disputa, Krai provavelmente nĂŁo escolheria nenhuma delas. Isso deixaria Lucy, mas ela era uma pessoa tĂŁo gentil. Com certeza cederia o lugar para Tino. Afinal, ela era irmĂŁ mais nova de Krai. Tino engoliu seco. Seu raciocĂnio era superficial, mas se nĂŁo tentasse, nĂŁo teria nenhuma chance.
O futuro Ă© algo que se conquista com as prĂłprias mĂŁos. Seu mestre lhe ensinara isso durante a viagem. Agilidade era a chave. Ela garantiria sua vitĂłria antes que as outras sequer percebessem o que estava em jogo!
Havia um código de vestimenta para a Reunião da Lùmina Branca. Se ela se apresentasse a Krai com um vestido deslumbrante, o significado seria óbvio e ele a convidaria. E, uma vez que ele dissesse sim, Lizzy e as outras não teriam como contestar. Esse pensamento ousado fez o coração de Tino disparar como um tambor.
Mas eu sei. Hoje, estou pegando fogo.
â NĂŁo conte isso para mais ninguĂ©m â ela disse ao outro caçador com um tom ameaçador.
â O-O-Okay…?
Tino disparou. Precisava arranjar um vestido.
***
A Reunião da Lùmina Branca era o evento mais famoso e mais prestigiado entre os caçadores do império. Era patrocinado pelo próprio imperador e destinado a um pequeno grupo de caçadores que haviam feito contribuiçÔes para Zebrudia. Era minha primeira vez, então eu não sabia muito a respeito, mas aparentemente haveria muitos figurÔes do império e apenas os caçadores mais renomados poderiam comparecer.
Segundo os rumores, tudo começou depois que um ancestral de Ark travou uma batalha exaustiva e desbravou o cofre de tesouros de NĂvel 10 que ficava onde, mais tarde, seria construĂda a capital imperial. Depois disso, o imperador quis conhecer esse caçador e começou essa tradição. Pelo visto, a “LĂąmina” na “ReuniĂŁo da LĂąmina Branca” se referia Ă lĂąmina sagrada passada de geração em geração pela Casa Rodin.
Participar da ReuniĂŁo era, sem dĂșvidas, uma honra, mas eu estava querendo me aposentar o quanto antes. A ideia de participar de um evento com a presença do imperador nĂŁo me animava nem um pouco, e eu perdi qualquer vontade de ir ao lembrar que haveria uma multidĂŁo de caçadores por lĂĄ. Comparado a esses veteranos lendĂĄrios, eu era praticamente um inseto. Sem contar que eu nĂŁo sabia nada sobre etiqueta, entĂŁo sempre acabava fazendo alguma besteira nesses eventos.
Com o evento batendo à minha porta, nem consegui aproveitar a nostalgia das férias e passei o dia todo tentando bolar um plano de ação. No entanto, minha cabeça vazia não me ajudou em nada.
TrĂȘs dias. Ă tempo demais. NĂŁo, espera, jĂĄ passou um dia, entĂŁo sĂŁo dois.
Eu estava determinado a nĂŁo ir. Meu estĂŽmago doĂa.
â Eu nĂŁo quero ir. Meu estĂŽmago tĂĄ doendo â gemi, enterrando o rosto na mesa.
Eva suspirou. â VocĂȘ tem que ir â insistiu.
Eu fui de férias para evitar esse evento, e agora ele só foi adiado. Isso é justo? Não, não é.
Tudo isso aconteceu porque Maldição Oculta e a torre Akashic se empolgaram demais durante sua pequena cisĂŁo. Que coisa aterrorizante eram os nĂveis 8, se podiam causar o adiamento do Encontro da LĂąmina Branca pela primeira vez na histĂłria.
Tirar mais férias parecia estar fora de questão. Eva jå estava exasperada com minha primeira tentativa descarada de fuga; se eu tentasse de novo, ela que sairia correndo.
Estalei os dedos.
â JĂĄ sei. Vou mandar o Ark ir no meu lugar.
â Como vocĂȘ deve saber, Ark recebeu um convite prĂłprio.
Ă claro que sim. Ele era um Rodin e um frequentador assĂduo. JĂĄ tinha ouvido falar que ele compareceu diversas vezes antes.
â NĂŁo tenho nada para vestir.
â NĂŁo creio que haja um cĂłdigo de vestimenta para caçadores, mas preparamos algo para vocĂȘ. Foi feito sob medida.
ClĂĄssica Eva, sempre preparada para tudo. Ela trouxe um smoking feito com primor.
Um smoking. Eu vou de smoking? Sem chance. ImpossĂvel.
â NĂŁo me lembro de terem tirado minhas medidas.
â Sitri tinha registrado. Alguns caçadores vĂŁo com sua armadura, mas, bem, vocĂȘ normalmente nĂŁo usa armadura.
Isso com certeza chamaria atenção.
Vamos pensar com calma. Antes de tudo, eu nĂŁo quero ir. Em hipĂłtese alguma quero me encontrar lĂĄ.
â Bom, estou tranquilo em ir, mas algo vai dar errado se eu levar um dos meus companheiros de equipe â avisei Eva.
â VocĂȘ Ă© o Ășnico convidado. Deve ir como representante dos Grieving Souls.
â Tem algo muito errado nisso.
Eu nĂŁo queria pisar naquele cĂrculo do inferno. A incendiĂĄria ia estar lĂĄ, e isso por si sĂł jĂĄ era demais. Comecei a pensar desesperadamente em soluçÔes, como talvez fazer o Ansem ir no meu lugar.
Eva ajustou os Ăłculos e me olhou.
â VocĂȘ tem permissĂŁo para levar uma pessoa com vocĂȘ â disse ela.
â Certo. Vou levar o Ark.
â VocĂȘ nĂŁo pode.
â Vou levar o Ansem.
â Ele… nĂŁo caberia no recinto.
O tom de Eva era incrivelmente sério, como se estivesse me repreendendo. Não tinha certeza se ela estava certa sobre o Ansem, mas levå-lo poderia causar problemas. Ele tinha uma presença esmagadora e isso poderia agitar desnecessariamente os nobres e os caçadores brutamontes.
Se fugir não era uma opção, então eu só precisava abaixar a cabeça e me esconder num canto onde ninguém me notaria. Eu era insuperåvel quando se tratava de deixar o tempo passar. Se fosse necessårio, eu não descartaria nem mesmo me humilhar. O que significava que eu precisava de um parceiro que não me descartaria por não descartar me humilhar.
Minhas opçÔes estĂŁo ficando escassas. Acho que vou ter que levar o Ark, afinal. Vou fazer ele recusar o convite e entĂŁo ele podeâ
â Pelo que sei, Ark estĂĄ planejando levar um dos membros do grupo dele. Dizem que isso causou uma batalha feroz â disse Eva.
â Ah, Ă©, algo assim com certeza desperta uma raiva assassina.
Forte, bonito e sem encrenqueiros no grupo. Que exagerado. Algumas pessoas simplesmente nascem com toda a sorte.
Depois de forçar tanto meu cérebro, soltei um bocejo. Estava cansado de pensar nisso. Com tão pouco tempo até o Encontro, decidi que levaria quem estivesse livre no dia. Não tinha ninguém para agradar nem grandes ambiçÔes. Só leria o ambiente e passaria o tempo quieto, como o caipira que era. Assim, tudo acabaria num instante.
Isso mesmo. Tenho o Mirage Form. Posso esconder meu rosto e me misturar entre os nobres. Se estiver de smoking, ninguém vai adivinhar que sou eu. Cara, estou pegando fogo hoje.
Dei um sorriso, satisfeito com minha brilhante ideia, quando a porta se abriu de repente. Era Liz. Fiquei feliz em vĂȘ-la tĂŁo animada, mesmo depois da nossa viagem, mas fui pego de surpresa pela roupa dela. Eva tambĂ©m ficou paralisada.
Liz usava um vestido vermelho, com uma fenda que ia atĂ© a coxa. A gola justa e o corte justo realçavam perfeitamente sua silhueta esguia. A visĂŁo da perna bronzeada aparecendo pela fenda era, sem dĂșvida, deslumbrante. Mas qualquer charme que ela pudesse ter era anulado pelas Apex Roots ainda cobrindo suas pernas.
Ela girou animada.
â Ficou bom em mim? â perguntou, envergonhada.
â Ficou. Mas pra que isso? â perguntei.
â Hee hee hee, vocĂȘ pode levar alguĂ©m com vocĂȘ para o Encontro da LĂąmina Branca, certo? Pensei que precisava escolher uma roupa que nĂŁo te envergonhasse, entĂŁo mandei fazer essa.
HĂŁ? NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo, nĂŁo, nĂŁo. NĂŁo posso te levar. O vestido Ă© bonito, mas vocĂȘ Ă© a Ășltima pessoa que eu levaria para esse evento.
Era um vestido tĂŁo chamativo que acabarĂamos arrumando briga sem nem querer. EstarĂamos comprando briga com o prĂłprio imperador. Ela com certeza estava, uh, bem preparada. SerĂĄ que percebeu que isso nĂŁo era um jogo? E como eu deveria responder quando ela agia como se o convite jĂĄ estivesse garantido? Eu adoraria levĂĄ-la para um evento, desde que fosse um sem grandes consequĂȘncias.
Eva parecia igualmente perplexa. Claro, nĂŁo havia um cĂłdigo de vestimenta, mas um vestido vermelho intenso ainda estava fora de questĂŁo.
NĂŁo se preocupe, Eva, nĂŁo precisa me olhar assim. Eu nĂŁo vou levar ela.
E entĂŁo, pela porta que Liz deixou aberta, entrou Sitri. Ela usava um longo vestido preto. Num contraste total com sua tĂșnica habitual, a pele de porcelana dos ombros e da clavĂcula estava exposta. Era refrescante para os olhos (mesmo que tivĂ©ssemos acabado de voltar de uma fonte termal). NĂŁo pude deixar de notar o acessĂłrio elegante em seu cabelo, normalmente sem adornos.
Sitri franziu a testa ao ver quem tinha chegado antes dela, mas entĂŁo sorriu ao olhar para sua prĂłpria aparĂȘncia contida. Virou-se para mim e abriu um sorriso de orelha a orelha.
â O que acha, Krai? â ela perguntou. â Preparei isso para a ReuniĂŁo da LĂąmina Branca. Certamente, vocĂȘ nĂŁo terĂĄ motivo para se envergonhar de um traje como este!
â HĂŁ? O que isso quer dizer, Siddy? â Liz perguntou.
â Naturalmente, tambĂ©m estou preparada para possĂveis cenĂĄrios de combate. Talvez eu nĂŁo consiga esconder meus braços, mas…
Com as bochechas coradas, Sitri ergueu a saia até o alto das pernas. No topo de suas coxas brancas e levemente marcadas, havia um cinto carregando vårios pequenos frascos de poção. Liz foi råpida em reagir à provocação óbvia.
â Siddy, vocĂȘ ao menos pode fazer alguma coisa se uma luta começar do nada? Saia da frente, eu vou com o Krai Baby!
â Lizzy, vocĂȘ nĂŁo entende nada de etiqueta.
â Pra que diabos eu precisaria disso?
Muita coisa, eu imagino.
Se tivesse que escolher entre as duas, eu iria com a Sitri. O vestido dela nĂŁo era muito chamativo e ficava muito bem nela. Claro, ela nĂŁo seria Ăștil se acabĂĄssemos em um combate corpo a corpo, mas eu poderia contar com ela para me ajudar caso eu cometesse alguma gafe.
Tino espiou timidamente pela porta.
â Ah, hm, Mestre, se tiver um momen… deixa pra lĂĄ!
Vendo as irmãs Smart discutindo, ela fugiu antes mesmo de entrar no quarto. Talvez ela também tivesse ouvido falar que eu participaria da Reunião da Lùmina Branca? Exceto que eu não ia.
Luke entĂŁo entrou correndo, os olhos brilhando.
â Ah, Krai! Ă verdade que vocĂȘ vai lutar contra caras fortes?! Me leva junto!
Ele nem tinha a informação certa. Além disso, Luke cortava qualquer coisa que estivesse em seu caminho, então ele estava fora de questão pelo mesmo motivo que Liz.
Se eu fosse levar alguĂ©m, seria Sitri ou Lucia, ou talvez Eliza como uma opção inesperada. Mas levar Sitri significaria atrair a ira da Liz, Lucia estava na fase rebelde e eu nem sabia onde Eliza estava. Sendo o espĂrito livre nĂșmero um do grupo, ela estava sempre desaparecendo. Da primeira vez que a encontramos, ela tinha desmaiado no deserto. Afinal, seu apelido era Vagabunda.
â VocĂȘ vai me levar, nĂŁo vai, Krai Baby? Eu prometo que vou me comportar.
â Pff. Krai, deixa claro pra ela que esse nĂŁo Ă© o lugar dela!
Liz e Sitri falaram com total confiança.
Esfreguei os olhos e bocejei. Independentemente do que eu fizesse, Ark estaria na ReuniĂŁo e eu poderia contar com ele caso algo acontecesse.
â Odeio te pedir isso, Eva, mas poderia fazer os preparativos para a ReuniĂŁo? Quero que venha comigo.
â O quĂȘ? â Eva arregalou os olhos, incrĂ©dula.
***
O dia da ReuniĂŁo da LĂąmina Branca chegou. Rezei e rezei para que um raio destruĂsse a capital imperial, mas, para minha infelicidade, vi apenas um cĂ©u limpo pela janela.
Algo em mim atraĂa nuvens de chuva. Sempre que eu ia Ă praia, fazer trilha ou qualquer outra atividade ao ar livre, havia uma grande chance de chover. Mas, como se algum deus estivesse contra mim, a chuva nunca vinha para cancelar eventos indesejados.
Cercado por caçadores e nobres, bastariam algumas horas para que eu começasse a murchar e me dissolver. Eu sabia que Ark me salvaria, mas, à medida que o tempo passava, eu ficava cada vez mais enjoado.
â O que foi, Krai? â Eva perguntou, exasperada. Ela ainda usava seu uniforme habitual, jĂĄ que o evento sĂł começaria Ă noite.
â NĂŁo consigo. Eu nĂŁo quero ir â disse, desabando sobre a mesa.
â Eu nem faço parte do seu grupo e estou sendo obrigada a ir. Como acha que eu me sinto?
Ela estava certa em se sentir assim, mas trazĂȘ-la era minha Ășnica opção.
â VocĂȘ concordou com isso, nĂŁo foi?
â Eu jĂĄ recusei algum pedido seu?
â Ainda assim, eu nĂŁo quero ir â murmurei, pressionando a bochecha contra a mesa.
â VocĂȘ tem que ir â Eva disse, se virando para mim. â E isso nĂŁo foi um pedido!
â Bem, sejamos realistas. Quem sabe o que pode acontecer se eu levar a Liz comigo?
â Isso Ă© verdade â Eva disse, surpresa. â NĂŁo sabia que vocĂȘ pensava nessas coisas.
Que tipo de pessoa ela achava que eu era? Não era algo de que eu me orgulhava, mas ler expressÔes era como eu sobrevivia.
â Isso nĂŁo Ă© um simples encontro. Se eu levasse a Liz, os resultados nĂŁo seriam bonitos â disse, tentando parecer mais sĂ©rio.
â NĂŁo seriam bonitos… â Eva repetiu, com um olhar de exasperação.
EntĂŁo me lembrei de algo que precisava perguntar a ela.
â Ah, Eva. Antes de irmos, pode me ensinar sobre etiqueta? Nunca estudei isso, sabia?
Ser um nĂvel 8 trazia todo tipo de convite, mas eu quase nunca aceitava. Ser mestre de um grande clĂŁ tambĂ©m me rendia convites de nobres e comerciantes, mas eu jogava tudo para a Eva resolver. Fora os caçadores, a pessoa mais importante com quem eu me encontrava ocasionalmente era o gerente da filial, Gark.
Eu nĂŁo queria causar problemas! Poderia ser pior e levar Liz ou alguĂ©m do meu grupo, mas a triste realidade era que viver de forma inofensiva nĂŁo era permitido quando a polĂtica estava envolvida.
â Bem, desde que vocĂȘ nĂŁo aja de forma muito casual, acho que caçadores nĂŁo precisam ser versados em etiqueta â Eva disse, um pouco surpresa com meu pedido.
Eu sabia disso, mas, apesar da minha aparĂȘncia, ainda queria parecer alguĂ©m minimamente decente. Falava formalmente, era o mais humilde possĂvel, e mesmo assim continuava irritando as pessoas. Certamente isso acontecia porque todo mundo preferia caras grandes e musculosos e nĂŁo ligava para magrelos como eu. Como Ă©? Ark Ă© bastante popular? Ă, aham…
â Mas, agora que vocĂȘ mencionou â Eva disse â, se quiser agradar um nobre, talvez devesse dar um presente.
â Um presente?
EntĂŁo… suborno? Isso nem tinha me passado pela cabeça.
NĂŁo estava muito interessado em fazer amizade com nobres, mas talvez funcionasse. Seria melhor do que irritĂĄ-los. Pensando bem, isso parecia mais a ĂĄrea da Sitri (sim, um baita preconceito meu).
â NĂŁo precisa ser algo caro â Eva explicou. â Bugigangas que sĂł podem ser encontradas em cofres de tesouro de alto nĂvel se tornaram sĂmbolos de status entre a nobreza. Lembre-se de que Ark recentemente chamou a atenção de todos quando deu a alguĂ©m uma Flor Celestial.
â Ah, aquela flor inĂștil. Hm, o que eu deveria escolher?
Era uma flor com pĂ©talas translĂșcidas feitas de material de mana. Alguns dos meus amigos jĂĄ tinham colhido antes, entĂŁo eu lembrava bem. Era, sem dĂșvida, bonita e de outro mundo, mas nĂŁo tinha poderes e nĂŁo era estĂĄvel, entĂŁo as pobres nĂŁo sobreviviam muito tempo fora do cofre do tesouro.
Nesse sentido, era parecida com os retratos encontrados nos cofres do tesouro em formato de castelo. NĂŁo eram itens, mas parte do prĂłprio cofre, entĂŁo, se fossem retirados, dissipavam-se do mesmo jeito que um fantasma morto.
Liz e Sitri jĂĄ tinham me dado um buquĂȘ delas de presente, mas nunca encontrei um bom uso para aquilo. No fim, coloquei num vaso no salĂŁo da casa do clĂŁ, e, em algum momento, elas simplesmente desapareceram.
Eu nĂŁo entendia nem um pouco, mas conseguia imaginar como sua raridade as tornava um sĂmbolo de status.
â Vai dar o que falar, entĂŁo, se vocĂȘ tiver algo assim…
â Pelo amor de Deus, nunca vou entender o que se passa na cabeça desses ricaços. Hmm, o que pode ter? Vou dar uma olhada.
Convenientemente para mim, nosso grupo tinha acabado de voltar do PalĂĄcio Noturno, um cofre do tesouro de alto nĂvel. Normalmente, sĂł traziam RelĂquias e materiais dos fantasmas, mas os Grievers gostavam de fazer as coisas do jeito deles, entĂŁo era possĂvel que tivessem trazido algo como uma Flor Celestial.
Era um saco, mas era pelo bem de evitar problemas. EntĂŁo, comecei a procurar algo que pudesse me ajudar nessa visita social que estava por vir.
Quando o cĂ©u começou a se tingir de vermelho, uma carruagem parou em frente Ă casa do clĂŁ. Vesti meu fraque e me sentei no escritĂłrio, segurando o estĂŽmago dolorido o tempo todo. Meus dedos estavam cobertos de anĂ©is de RelĂquia, um pingente de RelĂquia pendia do meu pescoço, uma corrente de RelĂquia estava presa ao meu cinto, e atĂ© RelĂquias em forma de brincos eu usava, sĂł por precaução. No meu braço, tinha a pulseira Forma de Miragem, e no bolso do paletĂł, levava os anĂ©is que nĂŁo cabiam nos meus dedos.
Eu estava preparado para qualquer tipo de ataque, fosse veneno, magia ou fĂsico, mas isso nĂŁo me fazia sentir melhor nem um pouco. Apenas caçadores de nĂvel absurdamente alto eram convidados para a ReuniĂŁo da LĂąmina Branca. Diante de aberraçÔes como essas, uma pessoa normal nĂŁo ficaria menos indefesa sĂł por estar carregando algumas RelĂquias. Minha Ășnica opção era simplesmente rezar para os cĂ©us.
NĂŁo se preocupe, Krai. VocĂȘ vai ter aliados. Ark estarĂĄ lĂĄ, e Eva tambĂ©m. VocĂȘ estarĂĄ perfeitamente seguro.
Sem falar que eu tinha uma carta na manga. Olhei para o presente em cima da mesa e tentei me convencer de que tudo ficaria bem, que eu precisava manter a calma e que o evento transcorreria sem problemas. Até caçadores sabiam se comportar na presença dos figurÔes do império. Então, enquanto murmurava para mim mesmo, a porta se abriu.
â Obrigada por esperar. Que cara Ă© essa, Krai?
O que vi naquele momento me fez esquecer instantaneamente a dor no estĂŽmago. Eva estava vestindo um longo vestido azul-marinho. Eu a via praticamente todos os dias, e, mesmo ainda usando seus Ăłculos e o mesmo penteado de sempre, o simples fato de nĂŁo estar no uniforme habitual a fazia parecer uma pessoa completamente diferente.
NĂŁo era nem um pouco chamativo, mas lhe caĂa muito bem. Ao contrĂĄrio do uniforme sempre impecĂĄvel, o vestido deixava boa parte dos ombros Ă mostra, e sua pele pĂĄlida contrastava de forma quase ofuscante com o tecido escuro. Ela tambĂ©m usava alguns acessĂłrios discretos, e eu nĂŁo consegui evitar olhĂĄ-la de cima a baixo algumas vezes.
Com minhas amigas de infùncia, como Liz, eu ainda as via com os mesmos olhos de quando éramos crianças. Mas Eva era diferente. A diferença entre nós era de apenas um ano, mas, naquele momento, ela tinha uma aura de serena dignidade.
Opa. Isso pode chamar atenção se eu estiver ao lado da Eva. Preciso me concentrar e não me deixar distrair.
â VocĂȘ estĂĄ muito bonita, Eva. JĂĄ estou feliz por ter te convidado.
Meu elogio sincero nĂŁo fez Eva corar nem um poucoâapenas me lançou um olhar afiado.
â VocĂȘ sempre joga suas obrigaçÔes para mim e nunca me acompanha em nenhum evento. Poderia ter me visto assim inĂșmeras vezes se simplesmente tivesse vindo.
â Ah. Aha ha ha.
â Espera, sua gravata estĂĄ torta. Sinceramente…
Eva deu um passo Ă frente rapidamente e ajustou minha gravata. Ficava Ăłbvio que eu nĂŁo estava acostumado a usar uma. Notei que Eva tinha um perfume agradĂĄvelâprovavelmente tinha passado algo especial. Quando terminou de ajeitar a gravata, ela deu um passo para trĂĄs de forma graciosa. Naquele momento, senti que era um cara de sorte. Queria tirar uma foto para guardar de lembrança.
â Agora, vamos indo. A carruagem jĂĄ chegou. VocĂȘ vai me acompanhar, certo?
â Mas Ă© claro.
Talvez fosse uma coisa meio superficial, mas depois de ser agraciado com essa visĂŁo, me senti muito melhor. Peguei o presente e saĂmos da casa do clĂŁ. Do lado de fora, uma carruagem com o brasĂŁo do ImpĂ©rio Zebrudian nos aguardava. Era completamente diferente das carruagens usadas pelos caçadores.
Senti vĂĄrios olhares sobre nĂłs. Peguei a mĂŁo de Eva, sem ter certeza absoluta de que era assim que deveria escoltĂĄ-la. Assim que nos sentamos, a carruagem partiu. O balanço e os solavancos eram quase imperceptĂveis. Eu estava nervoso, mas, como tecnicamente era o mestre do clĂŁ, nĂŁo queria passar vergonha diante da Eva.
A carruagem avançava suavemente, quase como se estivesse voando. Nos aproximĂĄvamos do majestoso edifĂcio que simbolizava o impĂ©rioâo castelo do imperador. O prĂłprio imperador estava organizando o evento, entĂŁo ele aconteceria em sua residĂȘncia. Naturalmente, eu nunca tinha pisado no castelo antes. Respirei fundo, tentando acalmar os nervos. Eva, por outro lado, parecia relaxada como sempre.
â Krai, posso perguntar o que hĂĄ nessa caixa?
â Oh, isso? Fiz como vocĂȘ disse e trouxe um suborno. Achei que poderia pelo menos tentar deixar uma boa impressĂŁo. Nosso grupo nĂŁo tem a melhor reputação, como vocĂȘ bem sabe…
Eva parecia bastante surpresa, como se nĂŁo esperasse que eu realmente trouxesse algo.
â Um suborno? Certifique-se de nĂŁo usar essa palavra no Encontro, estĂĄ bem? Isso veio do PalĂĄcio Noturno? Se nĂŁo se importar, pode me dizer o que Ă©?
Sorri e passei a mão sobre a caixa. Eu não tinha objeçÔes.
â NĂŁo, Ă© uma lembrança que comprei durante minhas fĂ©rias. NĂŁo consegui encontrar nada nos cofres de tesouro que servisse como presente…
NĂŁo era nada raro, mas ainda assim era melhor do que uma dessas Flores Celestiais. Era delicioso e, sem dĂșvida, melhor do que nĂŁo dar nada.
Eva ficou atĂŽnita por um momento, depois me encarou diretamente nos olhos.
Pare com isso, vocĂȘ estĂĄ me deixando envergonhado.
â Eu ouvi direito? Isso Ă© uma lembrança da sua viagem? VocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio? NĂŁo me diga que Ă© uma caixa de manju.
â NĂŁo, Ă© uma caixa com um ovo de fonte termal. SĂŁo uma iguaria local de Suls e sĂŁo realmente bons.
Sem contar que os ovos de dragĂŁo da fonte termal valiam mais do que os manju de dragĂŁo da fonte termal.
A bochecha de Eva se contraiu e ela me olhou com descrença.
â Krai, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ nem um pouco nervoso?
HĂŁ?
NĂŁo demorou muito para chegarmos ao castelo. JĂĄ fazia alguns anos desde que eu havia chegado Ă capital imperial, mas nunca tinha visto o castelo tĂŁo de perto. Zebrudia possuĂa mais força do que qualquer um dos paĂses vizinhos, e o castelo imponente no centro da capital imperial simbolizava essa força com sua grandiosidade. Eu jĂĄ o tinha visto Ă distĂąncia muitas vezes, mas nĂŁo pude evitar engolir em seco ao vĂȘ-lo de perto.
O fosso ao redor era quase do tamanho de um lago. Ao cruzarmos a ponte gigantesca que o atravessava, o castelo inteiro surgiu diante de nĂłs. As muralhas pareciam baixas, mas, segundo rumores, o castelo estava sempre protegido por barreiras formadas por RelĂquias e feitiços. Fazia sentido; uma parede de poucos metros de altura nĂŁo impediria um caçador de entrar.
Havia soldados em armaduras negras polidas em ambas as extremidades da ponte. Mesmo com uma carruagem ostentando o brasĂŁo do impĂ©rio passando por eles, eles sequer piscavam. O ImpĂ©rio Zebrudia valorizava muito a força e a resistĂȘncia.
Soltei um pequeno suspiro e desviei minha atenção da janela.
Bem, parece que não terei chance de me livrar desta lembrança.
Durante a viagem de carruagem, Eva me convenceu de que um ovo de fonte termal nĂŁo era uma boa ideia de presente.
â Este Ă© um evento tradicional! Por favor, pense melhor nessas coisas â disse ela em um tom baixo, para que o cocheiro nĂŁo nos ouvisse.
â Foi vocĂȘ quem sugeriu que eu trouxesse um presente…
â Krai, o que vocĂȘ pensaria se alguĂ©m de repente te entregasse um ovo de fonte termal durante uma festa?
Parei para pensar. Honestamente, eu ficaria bem animado. Mas parecia que essa nĂŁo era a resposta certa.
Esses ovos tinham um nome bem chamativo, mas na verdade eram apenas ovos de galinha. EntĂŁo, talvez fosse um caso de propaganda enganosa?
De qualquer forma, eu jå o tinha trazido e perdido a oportunidade de descartå-lo. Não tinha escolha a não ser entregå-lo a alguém.
â E, aliĂĄs, para quem vocĂȘ pretendia dar isso? â Eva perguntou.
â Pensei em dar para o imperador.
Se era para ganhar favores, por que não começar pelo chefe supremo? Não seria rude começar com alguém de posição inferior?
O pouco de cor que restava no rosto jĂĄ pĂĄlido de Eva desapareceu por completo.
â VocĂȘ precisa parar com isso, Krai. VocĂȘ estĂĄ levando isso a sĂ©rio? O que estĂĄ fazendo Ă© completamente inĂ©dito!
â Ouvi dizer que o imperador Ă© um cara bem tranquilo.
â Existem limites.
Ok, entendi. Sei que o que estou fazendo Ă© estranho. Ainda bem que te trouxe comigo, Eva.
Mas então tive uma ideia! Eu poderia dar para Lorde Gladis, caso ele estivesse no Encontro. Eu tinha um conhecimento prévio dele por causa do incidente em Suls, e duvidava seriamente que seus cavaleiros tivessem trazido qualquer lembrança para ele.
Respirei fundo. Estava tĂŁo nervoso que parecia que, de alguma forma, as coisas poderiam acabar dando certo.
â Devemos nos preocupar com a validade desse ovo? â Eva perguntou.
â Isso jĂĄ estĂĄ resolvido. Pedi para Lucia lançar um feitiço de preservação neles.
â Aah, eu nĂŁo consigo dizer se vocĂȘ sabe o que estĂĄ fazendo ou nĂŁo.
Eu nĂŁo sei o que estou fazendo, entĂŁo me ajude aqui. Se combinarmos sua competĂȘncia com a minha e dividirmos por dois, tudo vai ficar bem.
InĂșmeros soldados observavam nossa carruagem enquanto passĂĄvamos pelo portĂŁo. A segurança era tĂŁo rĂgida quanto se esperava de um lugar como o Castelo Imperial. O cocheiro nos informou que deverĂamos descer ali, e assim fizemos, mesmo que isso me deixasse tenso. A partir dali, fomos guiados a pĂ© pelo castelo.
Ao contrårio das histórias que ouvi sobre a rigidez da segurança, não fomos revistados. Perguntei a Eva sobre isso enquanto caminhåvamos pelo corredor.
â Ă uma tradição â disse ela, franzindo a testa. â No primeiro Encontro da LĂąmina Branca, o imperador da Ă©poca confiava nos caçadores e lhes permitiu manter suas armas. AtĂ© hoje, essa exceção Ă© feita apenas para este evento. Eu nĂŁo te disse? Alguns caçadores vĂȘm com suas roupas de combate.
Entendi. Que homem ousado devia ser esse imperador. Mas, pensando bem, o atual imperador também não era um guerreiro famoso?
O castelo tinha um interior espaçoso, e um tapete vermelho percorria o corredor. Até o ar ali parecia diferente do resto da cidade. Eu queria olhar ao redor, mas resisti ao impulso e apenas segui Eva. Não éramos turistas.
Eventualmente, comecei a ver nobres e caçadores. Os primeiros pareciam arrogantes, e os Ășltimos pareciam poderosos â e, de fato, eram ambos. Eu jĂĄ estava pronto para ir para casa.
Diferente dos soldados vestidos de preto do lado de fora, os guardas dentro do castelo usavam armaduras brancas. Provavelmente eram a elite. Fiquei parado, vagando o olhar sem pensar muito, até que de repente ouvi uma voz muito familiar.
â Muito bem! Aqui estou eu, no castelo mais prestigiado do impĂ©rio! Nada mal!
â P-Para com isso! Fique quieto! VocĂȘ tem noção do motivo de estar aqui? â um dos guardas respondeu.
â Claro que tenho. Estou aqui para cortar bandidos. EntĂŁo, onde eles estĂŁo? SĂŁo aqueles ali? Ou aqueles caras? Ou todo mundo aqui?
â Para de apontar! O Ășnico bandido aqui Ă© vocĂȘ! Droga, por que decidiram deixar forasteiros ajudarem a proteger um evento como esse?
â O que podemos fazer? As ordens vieram de cima â disse outro guarda. â Parece que o Santo da Espada mexeu os pauzinhos. Mesmo que ele seja um exĂmio espadachim, nĂŁo dĂĄ para acreditar que deixaram o Cortador de Homens vestir a respeitada armadura branca, mesmo que temporariamente…
â Eu nĂŁo preciso de armadura. SĂł preciso cortar meus inimigos antes que me cortem! SĂł de pensar nisso jĂĄ fico animado.
â VocĂȘ realmente sabe o que estĂĄ fazendo aqui? Escuta, seu trabalho, de fato, Ă© cortar bandidos. Mas nĂŁo temos nenhum aqui hĂĄ dĂ©cadas. Ei, para de tirar essa armadura!
Eva virou-se para mim com um olhar selvagem. Eu fingi que nĂŁo vi nada. Se ele entrou pelos canais certos, estava tudo bem.
AliĂĄs, aquele Santo da Espada era o mentor do Luke. Ele era considerado o espadachim mais forte da capital imperial, mas nem ele conseguia controlar alguĂ©m tĂŁo imprevisĂvel quanto o Luke. Ouvi muitas reclamaçÔes vindas desse homem.
Luke gostava de cortar, mas também gostava de ser cortado, então só posso imaginar o estresse que ele causava no mentor. No fim, eu só me preocupava com a possibilidade do meu amigo acabar foragido depois do Encontro.
Da entrada, espiei o enorme salĂŁo onde o evento estava sendo realizado. Fiquei me perguntando para que esse lugar era usado normalmente. Havia mesas organizadas e um lustre pendurado no teto. Mas, para um salĂŁo tĂŁo grande, nĂŁo havia muitas pessoas.
Eva se aproximou e sussurrou uma explicação:
â Ă tradição.
Entendi. Tradição, hein? Que palavra conveniente. Vou ter que uså-la também.
Olhei pelo salão. Mesmo para mim, era óbvio quem era um caçador e quem era um nobre. Eu não tinha quase nenhum conhecimento ou interesse pelos nobres do império, mas conseguia identificar caçadores pelo jeito daqueles que absorveram material de mana.
Qualquer caçador convidado para um evento como esse deveria estar entre os melhores, mesmo na terra santa dos caçadores. Isso tornava fåcil saber quem evitar. Dando uma olhada råpida, percebi que estava mais seguro do que esperava. Ninguém parecia violento.
Cavaleiros vigilantes alinhavam-se contra as paredes, e criadas com vestidos brancos refinados ficavam prĂłximas Ă entrada, junto de mordomos em ternos pretos impecĂĄveis. Trabalhar no Castelo Imperial era um sonho para muitas pessoas comuns. A maioria dos que serviam ali eram parentes bem-educados de nobres.
EntĂŁo, vi algo que me deixou desconcertado.
â Nada mal. Eu sei, eu sei. NĂŁo posso esquecer de cumprimentar.
Um caçador foi atĂ© os criados prĂłximos Ă entrada e começou a cumprimentĂĄ-los. Ele era um homem forte, de pele bronzeada, provavelmente um daqueles caçadores que lutavam com os punhos nus. Seu cabelo era castanho-escuro, e suas feiçÔes eram rĂșsticas. NĂŁo sabia seu nome, mas estava claro que ele era alguĂ©m excepcional.
Enquanto observava, percebi que até os nobres estavam indo direto para os criados para cumprimentå-los. Alguns deles até conversavam alegremente com eles. Então, os nobres do império realmente gostavam de interagir com os criados. Eu achava que a maioria deles era arrogante, mas parecia que os verdadeiros senhores e damas só surgiam no topo.
E parecia que os caçadores tambĂ©m eram todos pessoas decentes. Quando parei para pensar, fez sentido. Todos os caçadores convidados para o Encontro (exceto eu) eram pessoas comparĂĄveis ao Ark. Talvez eu fosse o Ășnico a entrar sem oferecer um cumprimento. Minha falta de educação estava evidente. Ainda bem que decidi apenas observar.
â Krai.
â Mmm, eu sei.
Eu conseguia me adaptar a qualquer situação melhor do que qualquer um que conhecia. Me enfiei atrås de um nobre e esperei minha vez de cumprimentar, sem chamar atenção.
Observei os criados e percebi que todos eram bastante atraentes. Eu estava no smoking que Eva tinha preparado para mim, entĂŁo nĂŁo estava vestido pior do que eles, mas eles ainda levavam vantagem na aparĂȘncia. AlĂ©m disso, alguns deles eram claramente mais jovens do que eu.
A mais chamativa entre eles era uma garota de cabelo azul-claro. Ela parecia mais jovem do que Tino, mas a garota agradĂĄvel vestia o uniforme com a mesma elegĂąncia que os outros criados.
Pensei em como uma garota da idade dela fazia um trabalho tão bom, enquanto eu era⊠bem, eu mesmo. Me endireitei e coloquei um sorriso no rosto.
NĂŁo tinha motivo para ficar nervoso. Eva parecia estranhamente tensa, mas me convenci a manter a calma. Isso nĂŁo era como lidar com caçadores ou nobres â esses criados provavelmente jĂĄ sabiam que eu nĂŁo entendia nada de etiqueta. Como Eva tinha dito, caçadores nĂŁo eram esperados para saber essas coisas.
Os criados tinham expressÔes serenas, mas seus olhos eram sérios. Percebi que, por alguma razão, os cavaleiros de guarda também estavam me olhando de um jeito estranho.
Engoli em seco e tentei parecer o mais confiante possĂvel.
â Hã⊠obrigado por me receber?
Eva sussurrou para mim:
â Krai, Ă© o imperador quem estĂĄ nos recebendo.
EntĂŁo o que eu deveria dizer?
â Ah, Ă© mesmo. Que bobagem minha. Perdoe minha falta de educação. Boa noite, Ă© uma honra conhecĂȘ-lo.
Recebi uma sĂ©rie de olhares frios. Eu conhecia aquele olhar, o que dizia “Quem Ă© esse caipira?”. Limpei a garganta e estalei os dedos. Essa era uma boa oportunidade para me livrar do meu souvenir. Minha chance de mostrar humildade.
â Certo, aqui estĂĄ um presente para a jovem trabalhadora.
Entreguei a caixa com o ovo de dragĂŁo de ĂĄguas termais para a empregada de cabelo azul-claro.
â Ah… â ela murmurou, completamente perplexa. Mas nĂŁo havia nada com que se preocuparâ eu podia garantir pessoalmente o sabor.
Eva ficou imóvel. Parecia que os outros empregados também estavam surpresos com minha demonstração de humildade, pois todos me olhavam com descrença.
NĂŁo se preocupem, sou um ignorante, mas sou inofensivo.
â NĂŁo se preocupe, nĂŁo Ă© nada de mais â disse eu, mostrando o quĂŁo amigĂĄvel eu era. â Esse Ă© um ovo de dragĂŁo de ĂĄguas termais. Eles sĂŁo muito saborosos, entĂŁo vocĂȘ pode dividir comâ
â Um ovo de dragĂŁo?! â a garota gritou antes que eu pudesse dizer “seus amigos”. No momento seguinte, fui cercado por cavaleiros. Foi tĂŁo rĂĄpido que parecia que jĂĄ estavam de olho em mim. Ainda sorrindo, congelei no lugar enquanto lĂąminas eram apontadas para mim de todos os Ăąngulos.
A empregada entregou a caixa com o ovo de dragĂŁo de ĂĄguas termais a um cavaleiro, que, temeroso, a segurou e encostou o ouvido nela. NĂŁo havia nada perigoso ali, nĂŁo era realmente um ovo de dragĂŁo. Ovo de dragĂŁo de ĂĄguas termais era apenas o nome do produto, o conteĂșdo era sĂł um ovo de galinha.
Todos no salĂŁo olhavam para nĂłs. Eva estava pĂĄlida como um papel.
â VocĂȘ aĂ! â berrou um homem grande, vestindo uma armadura excepcionalmente ornamentada. â O que estĂĄ fazendo?! Tem ideia de quem Ă© ela?!
NĂŁo. Quem Ă© ela?
Eu nĂŁo entendia o que estava acontecendo, mas todos ao meu redor me encaravam com incredulidade. A expressĂŁo de Eva piorava a cada segundo, mas eu conseguia manter meu sorriso.
â Diante de vocĂȘ estĂĄ a princesa imperial, Murina Atolm Zebrudia, filha de Sua Majestade Imperial Rodrick Atolm Zebrudia! â anunciou o homem com uma voz retumbante.
â Ă… Aham.
Entendi. EntĂŁo era isso. Ela era bem mais exaltada do que eu esperava quando essas espadas foram apontadas para mim.
Isso era muito ruim. Mantive o sorriso no rosto e coloquei meu cérebro para trabalhar no måximo. Achei que ela era jovem demais e havia algo nela que a destacava do grupo. Eu sabia que a princesa imperial estaria presente, mas não sabia como ela era. Mas pelo visto, todos os outros sabiam. Isso explicava por que até os caçadores estavam sendo tão educados com ela.
A própria jovem me olhava, completamente atÎnita. Gostaria que alguém tivesse me avisado antes, mas provavelmente era conhecimento comum. Ainda assim, a princesa imperial não era superimportante? Quem esperaria que ela estivesse misturada entre os empregados?
Tradição? Isso também é tradição? Meu estÎmago dói.
â E vocĂȘ trouxe um ovo de dragĂŁo?! Trazer um objeto tĂŁo perigoso diante de Sua Alteza… VocĂȘ pode estar aqui por convite de Sua Majestade Imperial, mas isso nĂŁo lhe dĂĄ o direito de fazer o que bem entende!
â N-NĂŁo precisa ficar tĂŁo exaltado, estĂĄ tudo bem. Eles nĂŁo sĂŁo nada de especial e nĂŁo sĂŁo perigosos.
NĂŁo era um ovo de dragĂŁo, sĂł era chamado de ovo de dragĂŁo de ĂĄguas termais. O modificador de “ovo” era “ĂĄguas termais”, nĂŁo “dragĂŁo”.
Respirei fundo e levantei a mĂŁo pela metade.
â Desculpe, posso ir ao banheiro?
â Krai, vocĂȘ nĂŁo tem medo de nada? â perguntou Eva.
Havia lùminas apontadas para minha garganta, impedindo-me de dar um passo. Felizmente, não parecia que os cavaleiros me matariam sem provocação. Mas ainda assim, eles tinham uma péssima opinião sobre mim.
Ser expulso parecia uma possibilidade muito realâ e, para ser sincero, eu ficaria feliz se isso acontecesse. Mas tambĂ©m parecia igualmente provĂĄvel que eu fosse preso por difamação contra a princesa imperial (se Ă© que isso era um crime). Se isso acontecesse, passaria o resto da vida sendo caçado por manchar a reputação dos caçadores de Zebrudia.
â E-Espera â disse uma mulher de voz afiada, bem quando eu tentava desviar da realidade.
Algumas das lĂąminas tremeram ligeiramente e uma brecha se formou no cĂrculo de cavaleiros. A dona da voz era alguĂ©m que eu havia encontrado cerca de um mĂȘs antesâ Ăclair Gladis. Ao contrĂĄrio do nosso Ășltimo encontro, ela nĂŁo estava armada e usava um vestido de gala cheio de babados. Sua voz tinha o impacto de um adulto, mas havia pĂąnico em seus olhos.
â E-Este Ă© o homem cujos feitos salvaram a capital imperial da Torre AkĂĄshica â continuou Ăclair. â Conheço bem seus deveres como cavaleiros, mas o Encontro da LĂąmina Branca Ă© um evento para caçadores, e entrar em frenesi por causa de um souvenir Ă©… desnecessĂĄrio.
â M-Mas…
â AlĂ©m disso, ovos de dragĂŁo sĂŁo extraordinariamente valiosos. Valem muito mais do que a maioria dos acessĂłrios e sĂŁo um presente digno de um caçador. Admito que entregĂĄ-lo diretamente a Sua Alteza Ă©, bem, uma falta de etiqueta absurda, mas, como esse homem disse, nĂŁo Ă© perigoso. Primeiro, devemos confirmar o conteĂșdo da caixa. A menos que pretendam arruinar este evento histĂłrico antes mesmo de ele começar?
Os cavaleiros, que antes me olhavam com olhares ameaçadores, agora estavam sendo obrigados a duvidar de si mesmos por uma garota adolescente. Alguns nobres começaram a expressar concordĂąncia, o que indicava que Ăclair era bem respeitada entre eles.
Eu havia sido salvo, mas nĂŁo tinha certeza do porquĂȘ. Espero que ela nĂŁo queira que eu devolva a GanĂąncia Evolutiva. Infelizmente, agora aquilo pertencia Ă Tino. Mas, de qualquer forma, eu estava fora de perigo. Lancei um olhar de gratidĂŁo para Ăclair, e seus ombros estremeceram.
***
Tentando não chamar muita atenção, Eva se inclinou para perto do mestre do clã.
â Krai, o-o que diabos vocĂȘ estava pensando? â perguntou em um tom rĂĄpido.
Sorrindo, ele ergueu as mĂŁos como se estivesse admitindo derrota.
â HĂŁ? Ah, estou tĂŁo aliviado que a Ăclair me salvou naquela hora â disse ele.
Eva lhe lançou um olhar de protesto, mas sua expressĂŁo sugeria que ele nĂŁo achava que tinha cometido um Ășnico erro. Recentemente, ele vinha causando (relativamente) poucos problemas, mas criar dores de cabeça para Eva era o que o Mil Truques fazia de melhor.
Provavelmente era verdade que ele nĂŁo tinha cometido nenhum erro. Como aquilo poderia ter sido um erro? Qualquer um reconheceria o rosto da princesa imperial. Isso explicava por que ele estava tĂŁo calmo, mesmo quando foi cercado.
Mas para sua companheira e vice-mestra do clĂŁ, Eva, aquilo foi demais para suportar. NĂŁo havia nada que ela pudesse ter feito naquele momento; ele agiu antes que ela pudesse impedi-lo. Eles poderiam ter sido expulsos se Ăclair nĂŁo tivesse interferido. Ser jogado para fora antes mesmo do evento começar seria inĂ©dito. Da mesma forma, Eva nunca tinha ouvido falar de alguĂ©m dando um souvenir para a princesa imperial.
Desde o primeiro Encontro da Lùmina Branca, era tradição que a filha do imperador se disfarçasse como uma das empregadas. No primeiro Encontro, o imperador decidiu testar os caçadores disfarçando sua filha como uma criada e escondendo-a entre os servos. Um dos participantes, o caçador Solis Rodin, imediatamente percebeu o disfarce e prestou seus respeitos à jovem. Dizem que o imperador ficou profundamente impressionado com isso.
Essa era uma história famosa em todo o império e deu origem a uma tradição. No entanto, ao longo dos anos, essa tradição se tornou superficial, e o disfarce da princesa imperial se resumiu a uma mera troca de roupas.
Mas ainda havia um entendimento tĂĄcito. Ela podia estar se passando por uma serva durante o Encontro, mas isso nĂŁo a tornava menos filha do imperador. Dar-lhe um souvenir jĂĄ era algo fora do comum, mas dizer “Aqui estĂĄ um presente para a jovem trabalhadora” era simplesmente desrespeitoso.
Eva tentou adivinhar no que Krai estava pensando, mas nĂŁo conseguiu discernir nada de seu olhar, que varria a mesa do banquete. Ele parecia estar apreciando o quĂŁo deliciosa a comida parecia, mas certamente nĂŁo poderia estar pensando em algo tĂŁo banal.
Muitos dos nobres olhavam para Krai com desprezo. Claramente, não gostaram da forma como ele se aproximou descaradamente da princesa imperial e tentou ganhar sua simpatia (mesmo que essa provavelmente não fosse sua intenção, era assim que parecia para todos os outros) na frente de todos. E Eva sabia que aquele souvenir não era realmente um ovo de dragão, só se chamava ovo de dragão de åguas termais! Não que ela conseguisse entender o propósito de entregå-lo.
â Sei que Ă© tarde demais para dizer isso, Krai, mas acho que estou fora do meu alcance aqui â sussurrou ela, sem conseguir se conter.
â NĂŁo diga isso â respondeu o mestre do clĂŁ, franzindo a testa. â Olha, tenho quase certeza de que a maioria das pessoas que estĂŁo se aproximando de nĂłs sĂł estĂĄ interessada em vocĂȘ.
Até parece!
Mesmo um clã em råpido crescimento como o Primeiros Passos não poderia se safar causando problemas em um evento como aquele. Muitas vezes, Eva comparecia a eventos como parte de seu trabalho e desejava que o mestre do clã estivesse com ela. Mas agora que isso finalmente aconteceu, talvez fosse melhor que ela tivesse ido sozinha todas aquelas vezes. Krai via e entendia as coisas de uma maneira completamente diferente dela. Pensando bem, desde o momento em que ele a convidou para se juntar ao Primeiros Passos, seu comportamento sempre foi além do audacioso.
Krai se aproximou de sua salvadora, Ăclair, e começou a conversar com ela como se tivesse encontrado uma velha amiga.
â Valeu por aquilo mais cedo. Eu realmente nĂŁo entendo nada de etiqueta, sabe. Foi minha escolha de palavras?
Ăclair soltou um pequeno grito.
â N-NĂŁo foi nada! Eu tinha uma dĂvida com vocĂȘ desde o leilĂŁo e pelo incidente com o Barril.
â HĂŁ? Ah, eu nĂŁo fiz nada durante aquela coisa com o Barril. Assim como no leilĂŁo.
â De fato…
Ăclair era orgulhosa e conhecida por seu desprezo pelos caçadores, mas agora estava acuada. Parecia que o leilĂŁo havia deixado uma impressĂŁo considerĂĄvel nela. Havia algo notĂĄvel no contraste entre seu rosto e o sorriso de Krai. Aquele homem tendia a pensar que tudo daria certo contanto que ele sorrisse.
â Gostaria de oferecer alguma forma de agradecimento â disse ele, em um tom de desculpas â, mas eu jĂĄ dei aquela mĂĄscara para outra pessoa…
â N-NĂŁo preciso daquela coisa! â disse Ăclair, enquanto seu rosto empalidecia instantaneamente. â Faça o que quiser com ela. Agora, estou muito ocupada, entĂŁo nĂŁo me traga mais problemas!
Com esse pedido bastante razoĂĄvel, a jovem rapidamente fez sua retirada.
â Ah â disse o homem que conseguiu incutir medo na famosa Ăclair Gladis apenas com palavras. Ele piscou, com um olhar distraĂdo no rosto. EntĂŁo se virou para Eva e disse: â E ainda assim, nĂŁo Ă© como se eu quisesse causar um alvoroço.
â Acontece â respondeu ela.
JĂĄ Ă© tarde demais para isso, Krai. VocĂȘ conseguiu assustar Ăclair Gladis!
Os nobres, os convidados especiais, os comerciantes, todos estavam pensando em como lidar com o recém-chegado surpreendente que era os Mil Truques. Sentindo a multidão de olhares sobre eles, Eva sentiu um renovado senso de responsabilidade e ficou ereta.
Tenho que fazer algo. Preciso acalmar as coisas antes que Krai faça inimigos de todas as pessoas aqui.
Com um timing perfeito, um sino tocou. O Encontro estava começando. O salĂŁo ficou em silĂȘncio e todos direcionaram seus olhos para a entrada. Os olhos de Krai estavam saltando de um lado para o outro, mas Eva lhe deu um leve empurrĂŁo no braço e indicou a direção para onde ele deveria estar olhando.
Por uma porta escancarada, entrou um homem vestindo um traje escuro e fluĂdo. Ele tinha cabelos loiros e olhos azuis. Parecia ter cerca de cinquenta anos, mas seu olhar afiado e sua postura robusta nĂŁo sugeriam alguĂ©m de meia-idade. Suas roupas eram simples, mas nĂŁo surradas, apenas sem adornos. O mais notĂĄvel era a ausĂȘncia de uma coroa. Ainda assim, sua imponĂȘncia lhe conferia uma presença forte, que se destacaria independentemente do que estivesse vestindo.
Esse homem era o décimo quinto imperador do Império Zebrudian, Rodrick Atolm Zebrudia. O primeiro a reconhecer a chegada da era dourada da caça ao tesouro e a trazer ainda mais prosperidade para Zebrudia.
Sua vestimenta simples, a falta de coroa e de guardas pessoais tambĂ©m faziam parte de uma tradição que remontava a muitos anos. A Ășnica coisa que provava que ele era, de fato, o imperador era a espada em sua cintura.
O imperador Rodrick olhou para a multidĂŁo. Todos (exceto Krai) estavam ajoelhados diante dele.
â NĂŁo hĂĄ necessidade disso. Fiquem Ă vontade â declarou. â Agradeço a todos por terem vindo a meu convite. Cada um de vocĂȘs Ă© uma bĂȘnção para a prosperidade do ImpĂ©rio Zebrudian. Esta noite, nos divertiremos, livres das amarras das formalidades rĂgidas.
A multidĂŁo irrompeu em aplausos, um som que mascarava a voz discreta do mestre do clĂŁ.
â Sei lĂĄ, ele Ă© bem mais normal do que eu imaginava.
Ao ouvir um comentårio tão absurdo, Eva não conseguiu se conter e lhe deu uma leve cotovelada. Assim começava uma batalha que deveria ser travada sem espadas ou feitiços.
***
â Certo, Krai. NĂŁo sei o quĂŁo sĂ©rio vocĂȘ estĂĄ ou nĂŁo, mas se estiver incerto ou perdido, por favor, confie em mim. Se for necessĂĄrio, pode contar inteiramente comigo. Entendeu?
Foi o que Eva disse. Eu sabia que podia contar com ela. Que boa escolha eu fiz ao trazĂȘ-la comigo.
A comida e a bebida da Reunião tinham a qualidade que se esperaria de um evento organizado pelo imperador. Só isso jå fazia valer a pena ter vindo. Com uma taça de vinho em uma mão, interagia com os velhos que circulavam como um enxame de moscas. Com tantas pessoas tagarelando comigo, não consegui chegar até Ark mesmo depois de finalmente encontrå-lo adornado com seu terno branco.
Não reconheci quase ninguém que se aproximou de mim. Estava claro que eram figuras importantes do império e que esta era uma oportunidade valiosa para fazer contatos, mas eu não tinha o menor interesse nisso.
Conversar com alguĂ©m que deliberadamente evitava contato visual era um nĂvel de ousadia que eu nunca alcançaria. Eu mal entendia quando usavam palavras rebuscadas demais. NĂŁo sabia muito sobre o estado do impĂ©rio, entĂŁo ficava ainda mais perdido quando traziam Ă tona eventos atuais. E nunca diziam nada de forma clara, o que impedia qualquer discussĂŁo decente.
Mas eu tinha minhas habilidades de escapismo e tinha Eva, que sabia tudo sobre mim. Independentemente de ser um nobre, um comerciante ou quem quer que fosse, eu colocava um grande sorriso no rosto e dizia â Ă, aham. Funcionava com esse tipo de gente.
â Em relação Ă s relaçÔes entre clĂŁs, deixo esse tipo de assunto inteiramente para minha mĂŁo direita, Eva â disse a um velho. â Para falar a verdade, tive que me humilhar diante da Companhia Mercante Welz para que me permitissem levĂĄ-la. Sou suspeito para falar, mas ela Ă© uma pessoa excepcional.
â O quĂȘ? O Mil Truques se humilhou diante de alguĂ©m?!
â Ă, aham.
Devo ter falado com umas dez pessoas, e sempre conseguia mudar de assunto ao mencionar Eva. Todos pareciam muito interessados na bela dama ao meu lado.
A Companhia Mercante Welz era uma das maiores do impĂ©rio. Era um nome conhecido por todos e eu tinha certeza de que pelo menos alguns de seus associados estavam na ReuniĂŁo. Para ser preciso, nĂŁo foi que consegui que me entregassem Eva. Eu me ajoelhei e implorei por um recepcionista, que por acaso era Eva. Mas acho que isso significava que eu tinha um bom olho para pessoas. Lembro-me claramente do que disse: “Pode ser atĂ© o recepcionista, sĂł me deem alguĂ©m.”
Os velhos (nĂŁo sabia o nome de nenhum deles) olharam para Eva com olhos arregalados. Seu olhar disparou para os lados enquanto seu rosto perdia cor.
â D-De fato. Agora, Krai, por favor, jĂĄ chega.
â NĂŁo estou exagerando ao dizer que meu sucesso atual se deve ao talento dela â continuei. â Ă por isso que a trouxe para um evento tĂŁo significativo. Ela fez muito pelo nosso clĂŁ e por mim como pessoa. E nem pensem que eu possa me separar dela.
O vinho delicioso havia soltado minha lĂngua. Estava tĂŁo ocupado conversando que nĂŁo tive chance de pegar comida, o que sĂł facilitou para o ĂĄlcool fazer efeito.
â Por favor, nĂŁo tirem conclusĂ”es precipitadas; ela nĂŁo Ă© minha amante nem nada. Se alguĂ©m estĂĄ apaixonado sou euâ
Senti meu pé sendo pisado, o que me fez engasgar. Os figurÔes olharam um pouco surpresos.
â Por favor, perdoem-nos, parece que o MC bebeu um pouco demais â disse Eva com a voz tensa.
Eu conhecia esse tom de voz. Era o tom que ela usava quando estava irritada. Tudo que eu estava tentando fazer era garantir o futuro de Eva.
â Minhas desculpas, foi apenas uma piada. Ah, Eva, sĂł vocĂȘ jĂĄ me causou dano fĂsico. Nem mesmo dentro de cofres de tesouro eu fui ferido.
â Isso foi outra piada?
â NĂŁo, estou falando sĂ©rio.
Franzi a testa e esfreguei os AnĂ©is de Segurança inĂșteis em meus dedos. Os velhos finalmente perderam seus sorrisos bajuladores e nos olharam confusos.
Foi entĂŁo que Sitri passou flutuando ao meu lado. Ela vestia o mesmo vestido que me mostrara no dia anterior.
â HĂŁ?! Por que a Sitri tĂĄ aqui? â perguntou Eva.
â Sei lĂĄ.
Sem dĂșvida, era mesmo a Sitri. Eu jamais a confundiria com outra pessoa. Cruzando os braços e tentando parecer tranquilo, comecei a pensar no assunto.
EstĂĄ todo mundo aqui? Achei que a segurança era para ser bem rĂgida, como eles conseguiramâ
Um braço bronzeado se estendeu debaixo de uma mesa próxima. Ele cutucou minha perna, então entreguei minha taça de vinho e o braço recuou. Pelo visto, a toalha de mesa oferecia uma boa cobertura.
âMestre, isso nĂŁo Ă© um crime, Ă©? âdisse uma voz trĂȘmula vinda debaixo da mesa.
Eva olhou completamente perplexa. Sorri e fiz o mĂĄximo para fingir que nĂŁo tinha visto nada.
Tino e Liz estĂŁo aqui sem permissĂŁo. Disso eu tenho cem por cento de certeza.
âKrai, o que pretende fazer sobre elas? âEva me perguntou.
âEh, elas sempre me seguiram para onde quer que eu fosse.
âAcho que isso Ă© um pouco mais sĂ©rio do que amigas que te acompanham.
Ela estava certa, mas jĂĄ era tarde para fazer qualquer coisa. Apenas rezei para que nĂŁo causassem nenhum problema. Tino estava ali (provavelmente contra a vontade), e isso jĂĄ contava como algo positivo. Para garantir, procurei pelos outros membros.
Com seu tamanho, Ansem seria fåcil de encontrar. Embora tivesse meios para se tornar menor, não parecia ser do tipo que abusaria desse poder. Pelo que pude ver, Lucia também não estava ali. Mas Gark estava. Como de costume, um smoking não combinava nem um pouco com ele.
O imperador era extremamente popular. Cercado por caçadores e nobres, ele nem sequer olhou na minha direção. Eva não parecia muito feliz, mas eu estava começando a relaxar um pouco. Aquela batalha que ela tanto temia devia ser apenas um boato.
âQuando vocĂȘ vai cumprimentar o imperador? âEva me perguntou, notando que eu o observava.
âHm? Eu nĂŁo estava planejando isso.
âV-VocĂȘ precisa! No que estĂĄ pensando?
Eu estava pensando que nĂŁo queria falar com o imperador. NĂŁo pretendia fazer amizades em altos cĂrculos ou coisa assim. Se fosse realmente necessĂĄrio, eu iria, mas se fosse opcional, estava pronto para sair de fininho e ir para casa. O imperador estava ocupado; eu tinha a sensação de que conseguiria escapar sem que percebessem, desde que nĂŁo chamasse atenção.
âDeixa isso pra lĂĄ, Eva. Olha sĂł a comida maravilhosa que tem aqui.
âHm? Sim, estĂĄ bem variada.
NĂŁo tive muita chance de pegar comida por causa daqueles velhos que ficaram me enchendo de conversa por algum motivo.
âAcho que vou provar um pouco de tudo âdisse para Eva.
âPra quĂȘ?!
âPorque… porque eu quero. Tudo parece bem gostoso.
âVocĂȘ nĂŁo estĂĄ nem um pouco nervoso, estĂĄ?
Claro que estava. Por isso eu estava comendo. Quantas pessoas se aproximariam de alguém enquanto estå no meio de uma refeição?
Meu olhar acabou encontrando o de Sitri, entĂŁo acenei para ela. Ela pareceu surpresa por um instante, mas rapidamente sorriu e acenou de volta. Ao lado dela estava um velho grande.
âAquele Ă© o chefe do antigo grupo da Sitri, o Instituto Primus âEva disse.
O Instituto Primus era uma das principais instalaçÔes de pesquisa de Zebrudia. Tornar-se o chefe deles significava, também, entrar para a nobreza. Tendo isso em mente, algo no velho barbudo lhe conferia um ar muito digno. Como a maioria dos Alquimistas, ele era bem relacionado.
Sendo meu eu naturalmente não natural, peguei um pouco de comida, tomei um gole de bebida e saà vagando em busca de um lugar onde ninguém olharia para mim. Eva me seguiu diligentemente.
âVocĂȘ nĂŁo precisa ficar ao meu lado, Eva. Por que nĂŁo vai fazer algumas conexĂ”es? Eu sou uma pessoa perigosa de se acompanhar.
âPor causa de um certo alguĂ©m, jĂĄ fiz mais do que conexĂ”es o suficiente. E o que vocĂȘ quer dizer com perigoso?
Quero dizer que sou um ĂmĂŁ de azar.
âVĂĄ lĂĄ e cumprimente o imperador âdisse para ela.
âVocĂȘ vem comigo!
âTĂĄ bom, tĂĄ bom. Vamos depois.
O imperador ainda estava no centro de uma multidão. Vi Ark sorrindo brilhantemente e conversando com ele. Se eu entrasse ali, pareceria que fui colocado ali como uma forma de punição. Realmente havia algo diferente nos homens confiantes. Ark era a imagem de um verdadeiro campeão. Eu queria que um pouco disso passasse para mim.
Ignorei as reclamaçÔes de Eva e experimentei todos os tipos de bebidas sofisticadas que eu não reconhecia. Mas um dos copos me pegou de surpresa quando o peguei. Não sabia que tipo era, apenas que era um vinho tinto. Olhei ao redor antes de me aproximar de uma mesa próxima. Sentindo minha presença, um braço bronzeado saiu debaixo da toalha de mesa. Entreguei-lhe a taça de vinho tinto e recebi um copo vazio.
Como diabos ela estĂĄ se movendo?
âO que foi? âEva me perguntou.
âTinha algo misturado naquele vinho.
âO quĂȘ?
âProvavelmente Ă© um teste para os caçadores. JĂĄ ouvi falar que isso Ă© comum no Encontro.
âSe vocĂȘ diz…
Que enrascada. NĂŁo sabia o que estava misturado naquele vinho, mas provavelmente nĂŁo era nada bom. ResistĂȘncia a venenos era uma caracterĂstica necessĂĄria para se aventurar em lugares perigosos. Fantasmas e monstros podiam usĂĄ-los e, Ă s vezes, atĂ© o ar estava repleto de toxinas. A resistĂȘncia a venenos se tornava especialmente importante em cofres de tesouro de alto nĂvel. Alguns caçadores ingeriam veneno de propĂłsito para que sua matĂ©ria de mana fortalecesse seus corpos contra toxinas.
Eu nĂŁo tinha resistĂȘncia alguma, mas compensava isso com RelĂquias. O anel no meu indicador direito, Sopro de Prata, era uma RelĂquia que detectava qualquer substĂąncia que pudesse afetar o usuĂĄrio. Se eu chegasse perto de veneno, o anel ficaria preto e quente. Os AnĂ©is de Segurança nĂŁo podiam anular venenos escondidos em comida e bebida, entĂŁo Sopro de Prata era uma das minhas salvaguardas.
Droga. Achei que só ia a uma festa, mas agora tenho um desafio repentino nas mãos. Não posso relaxar nem por um momento, né?
â NĂŁo acredito nisso â disse Eva. â Devemos relatar isso?
â NĂŁo, pense bem. NĂŁo tem como a comida ser envenenada tĂŁo facilmente em um evento com a presença do imperador. E esse evento Ă© conhecido por ter uma segurança especialmente rigorosa.
â Bem, vocĂȘ tem um ponto.
Eva parecia confusa. Talvez nunca tivesse tido a comida envenenada antes. Eu jĂĄ. Foi num prato que Sitri preparou para mim.
â Tem muitos caçadores de alto nĂvel aqui â continuei. â SĂł um idiota faria um movimento desses num lugar desses, e os anfitriĂ”es teriam que ser um bando de imbecis para nĂŁo perceber. Algo assim nunca aconteceria em um evento tĂŁo importante. Eu sou um profissional quando se trata dessas situaçÔes, entĂŁo pode deixar comigo. Ah, mais uma bebida batizada. Meu azar continua.
Aproximei-me da mesa e o braço apareceu novamente. Entreguei-lhe a taça de vinho. Liz tinha resistĂȘncia contra praticamente todos os venenos, entĂŁo era seguro dar as taças para ela.
Imaginei que isso devia ser outra tradição. Algo onde todos olhariam e diriam coisas como: âOoh, olhem. Eles estĂŁo bem, mesmo com veneno nas bebidas. Caçadores sĂŁo impressionantes.â
Olhei ao redor, mas ninguĂ©m parecia demonstrar qualquer desconfiança com relação Ă comida e Ă bebida. Talvez estivessem escondendo sua desconfiança, talvez todos tivessem resistĂȘncia a venenos, ou talvez os anfitriĂ”es estivessem garantindo que apenas caçadores bebessem as bebidas envenenadas. De qualquer forma, causar um tumulto atrairia atenção desnecessĂĄria. Passei o dedo no copo de Eva, mas nĂŁo parecia estar envenenado.
Se a amostra atual servisse de referĂȘncia, Liz acabaria bebendo o equivalente a um lago inteiro. Felizmente, nĂŁo parecia haver veneno na comida. Enquanto entregava as taças de vinho para Liz, aproveitava para comer um pouco. Meus pratos favoritos eram as sobremesas impecĂĄveis de chocolate. Queria levar algumas para compartilhar com todos no clĂŁ.
Terminei minha jornada pelo banquete e entreguei mais uma taça de vinho envenenado para Liz, um movimento que jå tinha se tornado automåtico. Mas então notei um guarda se aproximando com um olhar intimidador.
â VocĂȘ aĂ, o que estĂĄ fazendo com essas taças?
Ai, droga. AI, DROGA.
Depois de passar tantas taças sem ser notado, acabei baixando a guarda. Aparentemente, fui visto. O que fazer agora?
â N-Nada. Agora, que tal voltar ao seu trabalho?
Em pĂąnico, disse algo completamente inĂștil, fazendo com que a expressĂŁo jĂĄ sĂ©ria do guarda se tornasse absolutamente aterrorizante.
â SilĂȘncio! â ele gritou. â Ei, tem alguĂ©m embaixo dessa mesa!
Eva ficou pålida como um fantasma. Antes que eu pudesse fugir, os cavaleiros cercaram a mesa. Os caçadores, os convidados especiais, o próprio imperador, todos olharam para ver o que estava acontecendo. Eu ia vomitar.
Agora que a situação chegou a esse ponto, fiz o que precisava fazer e tentei criar uma distração para que Liz pudesse escapar. Num julgamento råpido, apontei para uma direção aleatória e gritei:
â Ah! O que Ă© aquilo?!
Minha mentira não poderia ser mais óbvia, mas todos olharam simultaneamente para onde eu apontava. Seguindo o exemplo deles, eu também olhei. E o que vi me surpreendeu. Bem onde meu dedo indicava, perto do teto, diretamente acima do imperador, estava a metade superior invertida de uma pessoa. Seu rosto estava escondido por uma måscara azul-escura modelada como uma raposa.
A pessoa da måscara de raposa me olhou e hesitou, mas se deixou cair assim que percebeu que havia sido vista. Enquanto descia, sua metade inferior se materializou de forma assustadora. Estava indo direto para o imperador. As pessoas começaram a gritar, e uma dama nobre soltou um berro ensurdecedor.
Hã?! Que tipo de evento é esse? Isso é outra tradição?!
Provavelmente, eu era o Ășnico que estava completamente por fora da situação.
EntĂŁo, uma brisa carmesim passou por mim. Era Liz. Mesmo usando um vestido vermelho, ela ainda estava com suas botas de RelĂquia. Ela correu (ou melhor, pisoteou) as costas do cavaleiro que me interrogava um momento antes e saltou no ar.
Apex Roots era uma RelĂquia que permitia ao usuĂĄrio dar um passo no ar. NĂŁo era uma RelĂquia particularmente poderosa, mas Liz era mais ĂĄgil do que qualquer um e sabia como tirar o mĂĄximo proveito daquele Ășnico passo.
Impulsionando-se no ar, sua bota acertou em cheio o torso da MĂĄscara de Raposa. O impacto fez um som como se tivesse atingido metal, nĂŁo o corpo de um humano. O corpo da MĂĄscara de Raposa se dobrou em noventa graus e foi arremessado para trĂĄs.
Ao mesmo tempo, um dos cavaleiros gritou:
â Intruso!
Um intruso?! Um de verdade?!
Ninguém estava preparado para um ataque, mas, ainda assim, os caçadores entraram em ação. Luke escancarou a enorme porta do salão de jantar e atirou sua espada com toda a força direto no torso da Måscara de Raposa, gritando o tempo todo:
â LĂĄ ESTĂ! AĂ ESTĂ MEU INTRUSO!
â PrisĂŁo de Rocha! â alguĂ©m gritou.
Isso soou muito como a voz da Lucia!
Pedras voadoras grudaram no corpo da Måscara de Raposa, aprisionando-o em uma torre de rocha. Então notei Ansem, alto o suficiente para me fazer esticar o pescoço. Com um forte grunhido, ele girou o punho em um arco amplo e o desceu sobre as pedras. O salão tremeu, e os gritos foram abafados pelo som do punho massivo pulverizando a torre.
Ark e os outros caçadores estavam prontos para lutar, mas Grieving Souls foi rĂĄpido demais. Virei-me e vi Lucia, disfarçada de empregada, suspirando enquanto pressionava as tĂȘmporas.
Ah, entĂŁo era ali que ela estava.
Ansem soltou um grunhido questionador. Protegido pelos cavaleiros, o imperador observava com os olhos arregalados. Bem ao lado do punho de Ansem estava MĂĄscara de Raposaâ a pessoa que ele deveria ter esmagado. A mĂĄscara e a tĂșnica negra como ĂŽnix permaneciam completamente intactas. Era estranho; eu tinha certeza de que tinha visto a espada de Luke atravessar seu torso.
Um homem imponente, parado diante do imperador, ergueu o braço. â Prendam essa pessoa!
â Parem com essa confusĂŁo. Isso nĂŁo teria acontecido se vocĂȘs tivessem feito qualquer coisa alĂ©m de meias-medidas! â disse uma voz.
Soltei um simples â Ah.
Uma multidĂŁo de caçadores de nĂvel extremamente alto estava pronta para atacar, avaliando a melhor maneira de agir. De suas fileiras surgiu uma velha com uma tĂșnica vermelha como uma coluna de chamas. JĂĄ era alta para uma mulher, e ainda se mantinha perfeitamente ereta. Seu rosto era coberto por uma infinidade de rugas profundas, e seus olhos carmesim brilhavam como a chama de uma vela.
Ela era uma conjuradora excepcional. Era a Solace de Vermillion, designada NĂvel 8 por razĂ”es bem diferentes das minhas, e uma das Magas mais poderosas da capital imperial. Era o Inferno Abissal.
Era incrivelmente ousado da parte dela comparecer ao Encontro, considerando que havia praticamente dizimado metade da capital imperial poucos dias antes. Conhecida por reduzir seus inimigos a cinzas, ela era o retrato perfeito do lema “conjure primeiro, pergunte depois”.
Eu não conseguia entender por que uma pessoa tão perigosa era permitida no Encontro ano após ano. Minha primeira suposição era que, se não a convidassem, ela queimaria o Castelo Imperial até o chão.
Como se estivesse mexendo no prĂłprio ar, ela moveu o braço, fazendo um brilho carmesim envolvĂȘ-lo.
â Todos no chĂŁo! â gritou Ark.
Eva, os nobres e o imperador atenderam ao aviso e imediatamente se protegeram. A Ășnica pessoa que nĂŁo se abaixou fui eu. NĂŁo via necessidade, jĂĄ que minha RelĂquia de detecção de perigo nĂŁo estava ativada.
â Imolação Espiral!
E entĂŁo tudo foi encoberto por uma luz ardente.
Quando abri os olhos, nada restava.
â Hm?
Para ser mais preciso, tudo prĂłximo ao chĂŁo permaneceu â tudo acima da altura do meu peito tinha sido incinerado. O teto de granito e o lustre que o adornava foram reduzidos a pĂł.
Um buraco havia sido perfurado no teto, exatamente onde Måscara de Raposa estava. Eu mal podia acreditar quando olhei por ele e vi o céu. Consertar isso levaria tempo e muito dinheiro. Momentos como esse pediam a mão de obra barata dos Trogloditas.
Nem preciso dizer, mas nada restava onde Måscara de Raposa estivera. As chamas subiram ao céu como um pilar e toda a destruição ao redor foi mero dano colateral. A Maga mais forte da capital, o Inferno Abissal, ainda não tinha perdido sua habilidade.
Eu tambĂ©m sentia uma enorme vontade de desviar o olhar e me desconectar da realidade. â Aaah, que desperdĂcio de chocolate â foi tudo o que consegui dizer.
â Krai? â chamou Eva.
Foi entĂŁo que recuperei os sentidos.
O que vocĂȘ pensa que estĂĄ fazendo, sua velha pirĂŽmana?! Eu podia ter morrido ali!
Finalmente percebi o quão barulhento o salão estava. Notei todos os nobres agachados no chão. Um pouco tarde, meu coração começou a disparar e eu respirei fundo.
â Hmph. Continua o mesmo garoto tolo de sempre â resmungou a velha maluca.
Virei o rosto para o lado, incapaz de encarĂĄ-la.
â Ah, chocolate.
Uma årea em forma de leque atrås de mim estava intacta. Meu corpo havia servido de barreira para proteger o chocolate. Aquele feitiço devia ser um ataque direcional. Se fosse uma magia de årea, teria queimado tudo (e então não faria sentido ninguém ter se abaixado).
Totalmente ciente de que eu não estava respeitando a ocasião, comecei a mastigar meu chocolate intacto. Todos me olharam com descrença. Eu senti que precisava dizer algo. Algo.
Tenho que dizer algo. Uhh, algo que acalme essa velha rabugenta.
â VocĂȘ deixou passar um ponto â falei. â Isso nĂŁo teria acontecido com um pouco mais de poder de fogo.
Ainda protegendo Kaina com o corpo, Gark me lançou um olhar extraordinĂĄrio. Sitri me encarava incrĂ©dula. Assim que um silĂȘncio desconfortĂĄvel tomou conta do ambiente, o imperador bateu palmas.
â Tivemos um intruso insignificante. Infelizmente, temo que o Encontro de hoje terĂĄ que terminar por aqui! Sir Franz, aumente a segurança e verifique se ninguĂ©m se feriu!
Ah, acabou? Que alĂvio. Bem, seria estranho se nĂŁo tivesse acabado depois de tudo isso.
Foi coisa demais para uma noite sĂł. Eu estava pronto para voltar para a casa do clĂŁ e cair na cama, mas um olhar do imperador (o primeiro que ele me deu naquela noite) me cortou.
â Mil Truques, nĂŁo, todos os Grieving Souls, gostaria de ter uma conversa com vocĂȘs e com o Inferno Abissal.
NĂŁo posso dizer que o sentimento era mĂștuo. Encolhi os ombros, e a velha pirĂŽmana bufou.
SaĂmos do salĂŁo que a desgraçadaâ quero dizer, o Inferno Abissalâ tinha tornado inutilizĂĄvel. Todos os envolvidos na situação foram reunidos. O imperador e seus subordinados estavam presentes, junto com Gark, Eva, Lucia, Luke, Liz, Ansem e a excepcionalmente destrutiva Inferno Abissal. De alguma forma, nossa querida Sitri conseguiu escapar. Certo, ela nĂŁo estava envolvida, mas nĂŁo parecia algo que ela faria, jĂĄ que geralmente nos acompanhava.
Normalmente, eu estaria prestes a vomitar, mas desta vez me mantive bastante relaxado e até consegui um sorriso calmo. Isso porque o Inferno Abissal estava conosco. Comparado ao desprezo dela pela segurança dos nobres e aos estragos que causou no castelo, eu não tinha culpa nenhuma.
Um homem ao lado do imperador olhou para mim. Ele vestia um casaco ornamentado, diferente do que os outros cavaleiros usavam. Seu cabelo loiro escuro e olhos azuis lhe davam uma beleza masculina. O imperador o chamou de Sir Franz, mas me perguntei se ele poderia ser um nobre.
â Muito bem, vamos esclarecer os fatos primeiro â disse Franz. â Mil Truques, o que foi aquilo?
Eu não respondi. Não podia responder. Eu estava tão perdido quanto todo mundo. No começo, presumi que fizesse parte das festividades. Olhei para Eva, depois para os membros do meu grupo, mas ninguém veio me ajudar.
â Tradição? â sugeri.
Franz me olhou com os olhos arregalados e uma veia em sua testa pulsou. Eu era mestre em levar bronca, entĂŁo percebi que ele estava prestes a explodir de raiva. Precisava tomar cuidado com minhas palavras.
â Hmph. Parece que nĂŁo foi a melhor forma de perguntar. Deixe-me reformular a questĂŁo. Por que seus companheiros estavam lĂĄ?
Essa era uma pergunta que eu também queria resposta. Senti um aperto no estÎmago, mas não podia dar respostas que não tinha.
â Eu vim porque ouvi dizer que podia cortar pessoas! â disse Luke.
â Hah?! Se vocĂȘs nĂŁo tivessem feito um trabalho medĂocre na segurança, Krai nĂŁo teria precisado agir! â gritou Liz. â Quem vocĂȘs pensam que sĂŁo?! Quase deixaram o anfitriĂŁo ser morto! Ajoelhem-se! Ajoelhem-se agora!
Eles realmente deveriam ter ficado de boca fechada.
â O-O que foi que disse?! â gritou Franz de volta.
Ah, parem com isso. Aqui, eu me ajoelho, certo? E pera aĂ. Liz fez parecer que vocĂȘs apareceram porque eu âagiâ. Eu nĂŁo fiz nada disso. Hmm? Ou fiz?
Comecei a duvidar do meu prĂłprio comportamento. A sobrancelha de Eva se contraiu ao perceber isso.
Agitada, Liz estava ainda mais corada do que o normal. Nossa manĂaca residente de vestido vermelho deu um passo ousado Ă frente, como se nĂŁo tivesse acabado de invadir um evento.
â NĂŁo foi sĂł aquele cara mascarado que entrou, tinha alguma coisa misturada nas bebidas. Como explicam isso? â perguntou ela, como se fosse uma delinquente.
Os cavaleiros a olharam arregalados e Franz ficou vermelho de raiva.
â O-O que estĂĄ falando?!
â Agora, agora, chega, Liz â disse, tentando acalmar a situação. â VocĂȘ nĂŁo deveria reclamar dos refrescos quando nem foi convidada!
â Ă mesmo? Mas ainda assim… â respondeu ela, com a voz bem mais calma.
Continuei tentando minimizar os danos.
â Sim, tinha algo misturado, mas nĂŁo era nada que um caçador de alto nĂvel devesse se preocupar.
â Bem, acho que vocĂȘ tem razĂŁo.
â E foi um jeito bem rude de falar. VocĂȘ fez os guardas parecerem um bando de macacos!
Bom, talvez eles fossem mesmo, se Raposa-Måscara realmente não fizesse parte das festividades, mas as bebidas eram outra história. Num banquete, e ainda por cima um oferecido pelo imperador, garantir a segurança dos alimentos deveria ser uma prioridade.
â ImpossĂvel. Nossa segurança foi impecĂĄvel. AlguĂ©m, vĂĄ verificar as bebidas! â ordenou Franz, parecendo prestes a explodir.
Aproveitei para tentar desviar a culpa. Liz nĂŁo estava livre de responsabilidade, mas o maior problema tinha sido causado pela velha que incinerou o castelo.
â Ah, mas o Inferno Abissal destruiu todas as provas â apontei. â Ela tambĂ©m queimou o invasor. Mesmo que nĂŁo tivesse explodido o teto inteiro, ainda diria que passou um pouco dos limites.
â Hee hee hee, bela tentativa. Eu nĂŁo queimei o invasor.
Pode repetir isso?
A piromanĂaca de alto nĂvel, destruidora de castelos, bufou de insatisfação.
â Deixe de fingimento, garoto. VocĂȘ percebeu, nĂŁo foi? Eu nĂŁo senti o cheiro de um corpo queimado. Aquele invasor era realmente algo.
â O cheiro de um corpo queimado. â Puta merda.
â Ă verdade, acertar aquele invasor foi estranho â disse Luke, parecendo pensativo.
Considerando que ele simplesmente jogou a espada, nĂŁo sei exatamente o que ele poderia ter sentido.
Os outros começaram a concordar.
â Mmm.
â Sim, eles eram meio estranhos.
â Minhas magias realmente pareceram menos eficazes.
â Ă, uh-huh! â falei.
Se Ansem e Lucia estavam acenando, entĂŁo imaginei que seria seguro fazer o mesmo. NĂŁo que eu conseguisse entender os instintos de gente talentosa como eles.
â Eles nĂŁo tinham presença â continuou o Inferno Abissal. â NĂŁo sei que tipo de truque estavam usando, mas as coisas teriam ficado feias se o garoto nĂŁo estivesse lĂĄ. Se eu nĂŁo estiver enganada, captei alguns traços de reconhecimento.
â Eu? Nunca vi aquele cara antes.
â NĂŁo estava falando de vocĂȘ, garoto.
Ops.
O imperador e seus cavaleiros me lançaram olhares gélidos. Eu estava tão acostumado a todo mundo assumir que eu sabia de alguma coisa que neguei sem pensar. Mas serå que eu me lembrava de algo?
Uma mĂĄscara de raposa. Uma mĂĄscara de raposa. B-Bom, havia um cofre de tesouros com fantasmas assim.
Enquanto isso, ergui levemente a mĂŁo e dei minha opiniĂŁo:
â SĂł queria dizer que acho que a culpa Ă© do Inferno Abissal por ter torrado o castelo. Ă tudo culpa dela.
Ela me lançou um olhar selvagem. Eu nĂŁo queria fazer inimigos entre caçadores de alto nĂvel, mas precisava desviar a atenção da invasĂŁo dos meus amigos. Minhas mĂŁos estavam atadas.
Depois de reunir coragem para falar, Franz simplesmente ignorou minha opiniĂŁo.
â Deixando de lado o invasor, Ă© impensĂĄvel que os refrescos estivessem envenenados. Nossa segurança nĂŁo falhou em nada.
Sim, eu pensava o mesmo atĂ©âespera um minuto.
Uma ideia maluca surgiu na minha cabeça. O Silver Breath era uma RelĂquia que detectava qualquer droga que pudesse afetar quem a usasse. No entanto, as resistĂȘncias do portador influenciavam quais substĂąncias eram detectadas. E as minhas resistĂȘncias estavam abaixo atĂ© mesmo de um civil comum, eram negativas. Em outras palavras, talvez a RelĂquia tivesse me alertado sobre algo que nĂŁo era perigoso para uma pessoa normal.
Era possĂvel. De qualquer forma, parecia mais plausĂvel do que o ĂĄlcool envenenado ter passado despercebido pela segurança rĂgida. Apenas as bebidas tinham sido envenenadas, entĂŁo talvez o anel tenha identificado bebidas muito fortes como algo perigoso? Isso fazia sentido, considerando que todo mundo estava bebendo sem problemas.
Mas, se eu dissesse isso em voz alta, não teria como voltar atrås. Meu coração começou a disparar ao ver as expressÔes sérias de Franz e dos outros cavaleiros.
â Bem, Ă© possĂvel que todas as bebidas envenenadas tenham sido destruĂdas pelo incĂȘndio â sugeri. A Ășnica mesa restante estava atrĂĄs de mim. Mesmo que as bebidas sobreviventes nĂŁo tivessem nada, eu jĂĄ tinha uma desculpa na ponta da lĂngua. â TambĂ©m Ă© possĂvel que tenha sido um veneno feito sĂł para mim…
â VocĂȘ sĂł fala bobagens vazias! â Franz latiu. â VocĂȘ tem noção do que significa se nada for detectado nessas bebidas?
â Isso vai ser bem interessante, por si sĂł.
â SilĂȘncio! Isso significa que vocĂȘ terĂĄ manchado a reputação da ReuniĂŁo da LĂąmina Branca!
Talvez por deficiĂȘncia de cĂĄlcio, talvez por lealdade ao imperador, Franz tinha uma presença realmente intimidadora.
Mas entĂŁo, me lembrei de algoâLiz tambĂ©m tinha dito que as bebidas estavam envenenadas. EntĂŁo eu estava certo? Talvez nĂŁo. Ela sempre ia junto com qualquer coisa que eu falasse.
Depois de uma espera agonizante, um cavaleiro retornou. Ele estava pĂĄlido como um fantasma.
â ApĂłs investigarmos uma amostra das bebidas, confirmamos a presença de uma substĂąncia venenosa â relatou o cavaleiro. â E uma bem potente, por sinal.
â O quĂȘ?!
â Haha, eu estava certo!
NĂŁo pude evitar de fazer uma pose de vitĂłria.
â Krai?! â Eva gritou.
Perfeito, meu nome estava limpo. Eu só tinha encontrado veneno nas bebidas, mas aparentemente a comida também havia sido envenenada. A Reunião da Lùmina Branca era realmente assustadora, embora não da maneira que eu esperava.
â Bem, isso resolve a questĂŁo â disse o imperador, com uma expressĂŁo amarga. â Franz, inclua isso na investigação do intruso.
â Vossa Majestade Imperial, permitam-nos ajudar no que for possĂvel â disse Gark. Ainda achava estranho vĂȘ-lo de smoking.
O imperador olhou para mim e para o Inferno Abissal. Tecnicamente, eu era um membro da Associação dos Exploradores, mas não planejava fazer nada.
SĂł pude suspirar. Algo me dizia que eu estava prestes a ser arrastado para outra confusĂŁo.
Quando nossa conversa que mais parecia um interrogatório terminou, jå era madrugada. Como eu realmente não sabia de nada, odiei cada segundo. Por mais que meu azar tivesse me acostumado a esse tipo de situação, eu ainda não era imune a elas.
â Parece que o impĂ©rio tem uma ideia do que pode ter acontecido â disse Eva. Ela nĂŁo demonstrava cansaço, mesmo depois de ter que lidar comigo.
â Que se danem â resmungou Liz. â Eles estĂŁo transformando a prĂłpria incompetĂȘncia no nosso problema.
â Agora, agora, pense nisso como uma chance de deixar o impĂ©rio em dĂvida conosco â disse Lucia, tentando apaziguar.
Luke e Ansem nĂŁo estavam conosco, pois estavam ajudando na ronda noturna. Patrulhar o castelo meio destruĂdo havia sido deixado a cargo de caçadores de alto nĂvel. Franz nĂŁo queria minha ajuda, entĂŁo eu nĂŁo fui chamado. Ele pode atĂ© ter gritado comigo vĂĄrias vezes, mas acho que começaria a gostar dele. Rezei para que ele continuasse sem me dar trabalho.
â Ah, Liz. Como vocĂȘ conseguiu entrar na ReuniĂŁo? NĂŁo tinha um monte de guardas? â perguntei.
â Hmm?
Liz piscou e olhou para Lucia, que permaneceu em silĂȘncio. Olhei para minha irmĂŁ, e ela evitou contato visual.
Ah, entĂŁo vocĂȘ teve suporte mĂĄgico. Entendi. Entendi. E por que estava tĂŁo determinada a entrar?!
Elas fizeram isso enquanto eu procurava qualquer desculpa para não ir. Se ao menos pudéssemos ter trocado de lugar.
Mas entĂŁo, algo me ocorreu.
â Pensando bem, cadĂȘ a Tino?
â Hm? NĂŁo sei.
Liz tinha sido quem arrastou Tino junto, e agora estava se esquivando de qualquer responsabilidade. EntĂŁo me virei para Lucia.
â E vocĂȘ, Lucy? Sabe de alguma coisa?
â Uh. Uhh… Uhhhh.
Lucia parecia nervosa, algo muito raro de se ver. Pobre Tino, até a querida Lucy a havia abandonado.
â A Siddy provavelmente cuidou disso â disse ela, desviando o olhar. â Afinal, ela nĂŁo estĂĄ com a gente agora.
Sitri sempre estava no controle dessas coisas. Provavelmente se segurou para nĂŁo atacar a MĂĄscara de Raposa para poder dar suporte, se necessĂĄrio. Sempre podĂamos contar com a Prodigiosa.
Depois disso, me senti mais tranquilo. NĂŁo foi um dia sem incidentes, mas finalmente tudo tinha ficado para trĂĄs.
Ao chegarmos na sede do clĂŁ, nos despedimos de Eva. Eu praticamente tive que arrastar meu corpo cansado escada acima. Abri a porta do meu escritĂłrio e congelei ao ver Sitri, ainda de vestido, saindo de dentro. Suas bochechas estavam coradas e ela parecia estar de Ăłtimo humor.
â Bem-vindo de volta, Krai! T e eu plantamos aquele veneno pra vocĂȘ. Foi Ăștil?
â O quĂȘ?
Olhei e vi Tino jogada no sofĂĄ. Ela estava em um vestido de gala e parecia prestes a morrer a qualquer momento.
â Aah, eu sabia que tinha algo estranho naquela hora â disse Liz, batendo as mĂŁos como se tudo fizesse sentido agora. â Porque todo aquele vinho que o Krai Baby me entregou estava drogado, nĂŁo envenenado.
â Aaaah â Lucia gemeu e esfregou as tĂȘmporas.
— O quĂȘ? HĂŁ? Espera. EntĂŁo, em outras palavras… o que aconteceu?
â NĂŁo havia nada na comida que sobrou, e achei que isso nĂŁo era um bom sinal. EntĂŁo vi uma oportunidade â explicou Sitri.
â Eu sou uma criminosa. Me desculpa, me desculpa, me desculpa, me desculpa, me desculpa. Mestre, minhas mĂŁos, elas estĂŁo sujas â murmurou Tino.
Eu não conseguia entender. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. Tentei me manter calmo e sorri enquanto bagunçava o cabelo da Sitri. Depois decidi ir para a cama e dormir para esquecer minhas preocupaçÔes.
***
Que confronto assustador. Ao ver a ReuniĂŁo mergulhada no caos pelo ataque do Inferno Abissal, ele expressou silenciosamente seu choque.
O Mil Truques jĂĄ havia levado muitas organizaçÔes Ă ruĂna, mas sua habilidade mais aterrorizante era sua capacidade de obter informaçÔes. Ele sabia coisas que nĂŁo deveria saber e aparecia em lugares onde nĂŁo tinha razĂŁo para estar. Era evasivo e dominava truques sobre-humanos, sua expressĂŁo inabalĂĄvel. Mesmo para um caçador de tesouros de alto nĂvel, ele era excepcional. E era muito mais difĂcil de lidar do que alguĂ©m que simplesmente possuĂa força bruta.
Como ele havia detectado o intruso? Mesmo tendo testemunhado pessoalmente a Reunião, as perguntas superavam em muito as respostas. O intruso não tinha presença. Não fazia som, não emitia calor corporal. Nenhum dos sensores do castelo o havia detectado. No entanto, no momento em que apareceu, foi descoberto. O Mil Truques não demonstrou o menor sinal de que sabia que algo poderia acontecer.
Bem, havia a questĂŁo do entorpecente. Ele tinha sido distribuĂdo aleatoriamente, mas o Mil Truques encontrou cada uma das bebidas adulteradas. Ele nĂŁo usou magia, mas ainda assim parecia saber exatamente onde procurar. Essas bebidas deveriam fazer com que a ReuniĂŁo mergulhasse no caos, mas os aliados do Mil Truques foram os Ășnicos a consumi-las.
Que fascinante. Tudo era incoerente e desafiava a compreensĂŁo, mas os resultados eram claros. Tentar enganar um artĂfice sobre-humano seria tolice, o que significava que a Ășnica opção restante era continuar atacando. Conseguir vantagem atravĂ©s da força bruta, algo contra o qual nem mesmo a genialidade poderia competir â era para isso que os vilĂ”es existiam.
Que reviravolta conveniente o Mil Truques lhes proporcionou uma oportunidade perfeita para atacar. Ele deu um ovo de dragão à princesa imperial, um presente valioso, mas também extremamente perigoso.
DragĂ”es estavam entre as criaturas mais poderosas do mundo. As riquezas que acumulavam e os ovos que botavam valiam uma fortuna, mas tomĂĄ-los era garantir a ira de um dragĂŁo. DragĂ”es nĂŁo perdoavam saqueadores. Algumas lendas atĂ© falavam sobre paĂses inteiros sendo dizimados por abrigarem um ovo de dragĂŁo.
à claro que o Mil Truques com certeza jå havia derrotado o dragão de quem roubou aquele ovo. Mas como a nobreza reagiria se seu império fosse atacado por um dragão?
Mil Truques, esse seu generoso presente serĂĄ a ruĂna daqueles que vocĂȘ protege.
Tradução: Carpeado Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â Clicando Aqui
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