Grieving Soul â CapĂtulo 4 â Volume 5
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 05
CapĂtulo 4:
[Férias Divertidas]
â O que diabos vocĂȘ estava pensando?
Lucia costumava sempre me dizer isso. Ela era competente e tinha uma mente rĂĄpida, entĂŁo tenho certeza de que ela se esforçava para entender o comportamento do irmĂŁo mais velho. Diferente do resto dos Grieving Souls, ela era minha famĂlia, e imagino que isso tornasse difĂcil apenas sentar e me ver tropeçar por aĂ.
Mesmo que essa frase desanimasse a maioria das pessoas, eu nĂŁo me importava, porque, na verdade, eu nĂŁo estava pensando em nada. Para descrever minha participação nesse incidente de forma sincera, eu diria: fui envolvido em umas paradas estranhas que eu nĂŁo consegui entender e tudo foi resolvido antes que eu pudesse sequer descobrir o que estava acontecendo. NĂŁo era como se eu estivesse mentindo ou preocupado com o fato de ser difĂcil explicar, eu simplesmente nĂŁo entendia o que tinha acontecido.
Talvez isso fosse inevitĂĄvel para caçadores de alto nĂvel, mas essa nĂŁo era nem de longe a primeira vez que eu era arrastado para algum tipo de confusĂŁo. Eu jĂĄ tinha experiĂȘncia com conspiraçÔes e atĂ© mesmo com ficar preso no meio do nada. Claro, tudo o que eu sempre fiz foi correr sem ter ideia do que estava acontecendo enquanto meus companheiros confiĂĄveis resolviam as coisas.
Isso era inegavelmente mais um desses casos, mas, dessa vez, tudo que eu fiz foi dizer ryu-ryu. AtĂ© eu fiquei exasperado com minha incompetĂȘncia dessa vez. Parecia uma boa ideia na hora, mas, para minha vergonha, isso sĂł piorou as coisas.
EstĂĄvamos caminhando por Suls. A cidade estava silenciosa, mas os danos nĂŁo eram tĂŁo extensos quanto eu imaginava que seriam. As pessoas que perambulavam pelas ruas no dia anterior agora estavam sumidas.
Eu tinha visto um nĂșmero enorme de Homens das Cavernas sob Suls. Eu tinha certeza de que eles eram mais numerosos do que a população da cidade. Eu ryu-ryuei minha vontade de ir para casa, mas, em vez disso, eles iniciaram uma expedição militar. Eles nĂŁo pareciam gostar muito de humanos, e eu nĂŁo teria ficado surpreso se tivessem arrasado a cidade inteira, mas os danos eram surpreendentemente pequenos.
â Tinham tantos daqueles caras, mas a cidade tĂĄ praticamente intacta. NĂŁo Ă© estranho? â Liz disse, aparentemente pensando o mesmo que eu.
â Isso porque, em uma civilização construĂda no subsolo, a destruição de prĂ©dios Ă© um tabu â explicou Sitri. â Imagine sĂł, destruir um prĂ©dio poderia fazer com que toda a civilização fosse aniquilada. Certo, Krai?
â Ah, Ă©, uh-huh.
Agora eu entendi.
Mas eu ainda não compreendia por que não havia ninguém ali. Nem sequer havia corpos nas ruas. Eu não me lembrava de ter visto os Trogloditas carregando corpos humanos.
â Antes de entrar nos banhos, eu gostaria de saber quantas pessoas ficaram feridas â eu disse.
â Os moradores foram reunidos em um Ășnico local, e Arnold liderou a tentativa de resgate. Eles devem estar bem, desde que ele tenha chegado a tempo.
â Hmm, entendi.
Ainda tinha vĂĄrias perguntas, mas parecia que todos estavam bem. Se Sitri disse isso, entĂŁo devia ser verdade. Eu queria perguntar por que os moradores tinham sido todos reunidos em um Ășnico ponto e como conseguiram evacuar todo mundo a tempo, considerando que o ataque dos Trogloditas foi tĂŁo repentino. Mas resolvi deixar pra lĂĄ.
â Mandou bem, Arnold â eu disse. â Eu achava que ele era sĂł um brutamontes violento, mas acho que precisa mais do que isso para chegar ao nĂvel 7.
Da capital até a floresta, ele tinha sido o instigador de tudo, mas dessa vez acho que eu estava errado. Me arrependi e ofereci um pedido de desculpas silencioso por toda a encrenca que causei a ele. Mas então senti Liz cutucando meu ombro.
â Ei, Krai Baby, eu nĂŁo ataquei quando soube que havia refĂ©ns! NĂŁo foi incrĂvel? Diz que eu sou incrĂvel! â ela se gabou.
â Eu salvei Arnold quando ele estava Ă beira da morte por causa de um veneno desenvolvido pela Torre Akashic! â Sitri acrescentou. â Mais uma hora e ele certamente teria morrido. Ele me deve a vida!
â E-eu, ahm, tirei as algemas de todo mundo â Tino disse.
â Oh. Ă. VocĂȘs sĂŁo incrĂveis.
Caramba, esses Trogloditas são coisa séria. Eles parecem monstros, mas fizeram reféns, usaram veneno da Torre Akashic e algemaram os prisioneiros? Não esperava por essa.
Foi entĂŁo que encontramos um homem caĂdo na estrada.
Eita. Primeira vĂtima.
Corremos até ele. Ele usava um quimono e tinha altura e porte medianos. Suas pernas estavam dobradas de um jeito que não deveriam e seu corpo estava coberto de hematomas. Mas, por sorte, ele ainda estava vivo.
Nos aproximamos, mas então o homem nos olhou de forma vaga e seu corpo se contraiu. Ele gemeu e estendeu a mão em direção a uma lùmina curta e negra que estava por perto. Ele devia estar confuso.
â VocĂȘ estĂĄ bem?! Sitri, pega uma poção! â eu gritei.
Ele ia ficar bem, as poçÔes de Sitri eram muito eficazes. Enquanto ele continuasse consciente, provavelmente não morreria. Mas, por alguma razão, Liz franziu a testa.
â Esse Ă© um inimigo! â ela disse.
â HĂŁ?
Perplexo, olhei para o homem de novo. Ele usava um quimono. Altura e porte medianos. Não tinha o rosto rude de um caçador. Pelo que eu podia dizer, ele parecia um morador comum. Sitri também parecia confusa. Liz podia ser uma pessoa duvidosa, mas era uma Ladina de primeira. O que isso queria dizer?
â EntĂŁo, o que vocĂȘ tĂĄ dizendo Ă© que ele parece humano, mas na verdade Ă© um Troglodita.
Eu nĂŁo conseguia acreditar muito nisso, mas confiava no julgamento de Liz mais do que no meu prĂłprio. EstĂĄvamos lidando com formas de vida subterrĂąneas praticamente desconhecidas. NĂŁo era tĂŁo difĂcil assim acreditar que eles tinham poderes avançados de camuflagem. Certo?
â Ah, agora que vocĂȘ falou, o cabelo dele realmente se parece um pouco com aqueles tentĂĄculos se olhar mais de perto? â eu disse, fingindo que tudo fazia sentido enquanto apontava um dedo hesitante para o homem. â E ele de fato tem uma aparĂȘncia meio⊠subterrĂąnea? Sinceramente, se eles estavam voltando, podiam ter feito o trabalho direito e levado todos com eles.
O caos estava instaurado.
â Ah, desculpa, eu nĂŁo percebi que vocĂȘ quis dizer desse jeito â continuei. â EntĂŁo, talvez ele nĂŁo seja um inimigo?
Mais confusão. Eu estava fazendo uma ginåstica mental absurda, só para de repente ter o tapete puxado debaixo dos meus pés.
Sitri se agachou ao meu lado e olhou para o homem.
â Bem, um humano normal nĂŁo Ă© grande coisa comparado a uma horda de Trogloditas ou a um dragĂŁo. A propĂłsito, Krai, vocĂȘ prefere que eu cure ou torture ele? â perguntou ela.
Que tipo de escolha era essa? Ela queria dizer algo como tortura que parecia tratamento ou tratamento que parecia tortura? Isso era humor alquĂmico?
â Tanto faz â respondi. â Por enquanto, cuida dos ferimentos dele. Quero resolver tudo logo para poder relaxar em uma fonte termal.
Dando uma olhada rĂĄpida ao redor, parecia que os danos haviam sido surpreendentemente leves. Eu nĂŁo sabia se isso era sorte ou azar.
Liz, Sitri e Tino me seguiram pela cidade com expressĂ”es de insatisfação. Eu estava exausto fĂsica e mentalmente, mas nĂŁo queria deixar isso nas mĂŁos da Liz. Ignorar essa situação me faria parecer uma pessoa horrĂvel.
Os danos na cidade eram esparsos, mas existiam. NĂŁo encontramos ninguĂ©m gravemente ferido, mas havia pessoas machucadas caĂdas no chĂŁo. Ainda nĂŁo tĂnhamos encontrado nenhum cadĂĄver, o que era um alĂvio. No entanto, algumas pessoas estavam desacordadas e precisavam de atendimento imediato.
Esse seria o momento perfeito para ter Ansem por perto, mas Sitri nĂŁo era uma substituta ruim. Ela pegou sua pistola dâĂĄgua, a RelĂquia que eu tinha dado para ela hĂĄ muito tempo, e aplicou poçÔes em cada pessoa ferida.
â Ă uma poção que pode atĂ© ressuscitar os mortos â explicou. â Mas ainda estĂĄ em desenvolvimento.
â Por que vocĂȘ anda por aĂ com uma poção inacabada? â Tino perguntou, assustada.
Andar com poçÔes incompletas era um velho hĂĄbito da Sitri. Magia de cura era difĂcil e um campo Ă parte da magia convencional. Ansem desenvolveu habilidades aclamadas na capital imperial, mas mesmo ele nĂŁo conseguia curar muito quando começamos.
Foi por isso que Sitri começou a ajudar na cura com poçÔes caseiras. No entanto, as receitas disponĂveis ao pĂșblico nĂŁo produziam medicamentos rĂĄpidos o suficiente para acompanhar o ritmo das aventuras dos Grieving Soulsâe dos ferimentos que vinham junto.
Mas os remĂ©dios poderosos vendidos nas lojas eram caros. NĂŁo conseguirĂamos bancar essas poçÔes o tempo todo, entĂŁo, em algum momento, Sitri começou a usar suas versĂ”es experimentais durante as batalhas. Isso continuou atĂ© Ansem ser capaz de regenerar partes do corpo por completo. Pelo que ouvi, ultimamente ela tinha poucas oportunidades de usar suas poçÔes, mas ainda mantinha esse hĂĄbito Ăștil.
â Se eu soubesse que encontraria cobaias tĂŁo maravilhosas, teria trazido uma variedade maior de poçÔes â sussurrou animada. Fingi que nĂŁo ouvi nada. Sitri sĂł levava as coisas a sĂ©rio demais. No fundo, ela era uma boa pessoa. Suas tendĂȘncias de cientista maluca faziam parte do seu charme.
â Como esses caras nĂŁo estĂŁo completamente mortos? Como vocĂȘ fez isso, Krai Baby? â Liz perguntou, parecendo ao mesmo tempo impressionada e desinteressada.
Para começar, då para parar de jogar tudo nas minhas costas?
â Claro, capturar eles vivos dĂĄ mais glĂłria, mas acho que nĂŁo tem problema se um ou dois morrerem.
GlĂłria para quem? BĂĄrbaros?
Sitri terminou de aplicar as poçÔes e se levantou.
â Talvez vocĂȘ nĂŁo saiba disso, Lizzy, mas o que Krai fez foi completamente natural, considerando a natureza dos Trogloditas. Para eles, força Ă© tudo, e eles sempre atacam os inimigos mais fortes primeiro!
Sitri falava com paixĂŁo. Ela tinha algum tipo de fascĂnio por Trogloditas?
â E dessa vez, eles estavam seguindo as ordens do rei deles, o que significa que esses resultados nĂŁo foram coincidĂȘncia! â disse ela, animada. â Entendeu, T?
â A-Acho que sim? â Tino gaguejou.
Entendi. Eu também não fazia ideia.
â Qualquer idiota pode usar força para cortar inimigos! â Sitri continuou. â Mas criar um plano, antecipar os motivos de outra cultura e manipulĂĄ-los… tem ideia de quĂŁo incrĂvel isso Ă©? Qualquer erro de timing poderia resultar em um desastre! NĂŁo Ă© mesmo, Krai?
â Ryuu-ryuu â respondi.
EntĂŁo, o que isso fazia de mim, se eu era um idiota e ainda por cima incapaz de cortar meus inimigos?
Liz cruzou os braços.
â Mas isso nĂŁo explica por que eles foram deixados vivos â disse ela, sua curiosidade provavelmente vinda de sua prĂłpria sede de sangue. E ninguĂ©m achava estranho que os Trogloditas considerassem cidadĂŁos normais como guerreiros poderosos?
Sitri juntou as mĂŁos e sorriu, como se estivesse esperando por essa pergunta.
â Lizzy, vocĂȘ nĂŁo reparou? Todos estavam inconscientes, com as pernas quebradas ou imobilizados de alguma forma. Ao capturar prisioneiros, eles podiam desmoralizar seus inimigos e emboscar qualquer um que tentasse resgatĂĄ-los. Dois coelhos com uma cajadada sĂł. Afinal, os Trogloditas tĂȘm intelectos quase idĂȘnticos aos dos humanos.
Puta merda.
E eu estava sendo idolatrado por esses caras? Por esses manĂacos sedentos por sangue?
â Eles nĂŁo tĂȘm medo de morrer em combate â Sitri continuou. â Se Krai nĂŁo tivesse espantado eles com um dragĂŁo, eles teriam lutado atĂ© o Ășltimo cair. Poderiam atĂ© ter atacado outras cidades vizinhas. NĂŁo Ă© mesmo, Krai?
â B-Bem, acho que era uma possibilidade.
Eu não gostava disso. Não gostava da natureza dos Trogloditas. Não gostava da suposição de que eu tinha invocado o dragão. Mas o que eu menos gostava era o fato de que Sitri geralmente não mentia. Tino me lançou um olhar que normalmente era reservado para Liz.
NĂŁo se preocupa. NĂŁo se preocupa.
Colocando de lado como chegamos atĂ© aqui, o fato era que os Trogloditas tinham ido embora. Agora sĂł precisĂĄvamos dar um jeito naquele buraco, preenchĂȘ-lo ou algo assim. Qualquer coisa depois disso seria responsabilidade do impĂ©rio.
Guiados por Liz, chegamos Ă praça central de Suls. Era um espaço amplo, cercado por canais que transportavam ĂĄgua da nascente. Quando a visitamos pela primeira vez, durante nosso passeio turĂstico, a praça estava vazia, mas agora estava lotada de moradores locais. Apesar do tamanho modesto de Suls, ver tanta gente reunida em um sĂł lugar era impressionante.
SerĂĄ que os moradores realmente tinham se juntado todos ali? Eles deviam ser muito organizados para terem reagido tĂŁo rĂĄpido ao aparecimento repentino dos Trogloditas. Mas parecia que ainda estavam abalados com tudo aquilo, pois permaneciam agrupados de maneira defensiva.
Foi então que notei uma caçadora familiar parada do lado de fora do grupo.
â Oh, Ă© a Rhuda. Que bom, fico feliz em ver que vocĂȘ estĂĄ bem â disse a ela.
â Krai?! â ela exclamou ao me notar.
Ao ouvir sua voz, Gilbert e os membros do seu grupo se aproximaram. Parecia que todos haviam saĂdo vivos.
â Foi vocĂȘ que fez isso, Mil Truques?! Que diabos era aquele dragĂŁo? â perguntou Gilbert, apoiando-se em uma espada coberta de sangue verde.
â Se eu tivesse que responder de um jeito ou de outro… bom, deixa pra lĂĄ. Os Trogloditas voltaram para o subsolo â respondi.
â HĂŁ?!
Ă, essa Ă© uma reação justa. Eu teria reagido assim se pudesse.
Então Arnold começou a caminhar em nossa direção. Sua expressão não era das melhores, mas seus olhos brilhavam com uma determinação inabalåvel. Ele deu algumas ordens råpidas para seus companheiros e então olhou para mim.
â VocĂȘ deteve a causa? â perguntou ele.
A causa estĂĄ bem na sua frente.
â Houve alguma morte por aqui? â Sitri se intrometeu.
â Nenhuma. Eles conseguiram resistir com os golens atĂ© a nossa chegada. Pelo que ouvi, vocĂȘ os cedeu, IgnĂłbil.
â Cedi. Fico satisfeita em saber que foram Ășteis. NĂŁo teriam sido capturados se tivessem usado desde o inĂcio, mas acho que nĂŁo adianta reclamar disso agora.
NinguĂ©m morreu. Soltei um suspiro de alĂvio. O ataque dos Trogloditas foi um grande golpe para a cidade e suas consequĂȘncias certamente seriam sentidas por um bom tempo, mas pelo menos nĂŁo houve vĂtimas fatais. Os mortos eram a Ășnica coisa que nĂŁo podiam ser trazidos de volta.
A magia de Ansem podia curar qualquer ferimento, mas nem ele poderia ressuscitar alguĂ©m. PoçÔes e tecnologia mĂ©dica tambĂ©m nĂŁo ajudavam nesse sentido. Se havia algo no nosso mundo que pudesse trazer alguĂ©m de volta, seria uma RelĂquia, mas atĂ© nisso, eu sĂł tinha ouvido rumores duvidosos.
A ausĂȘncia de mortes era minha Ășnica esperança. SĂł de pensar no que me esperava no futuro, jĂĄ me dava dor de cabeça. Tudo o que eu sabia era que eu tinha dito âryu-ryuâ e, de repente, os Trogloditas começaram o ataque.
Agora que nos certificamos de que todos estavam bem, um cansaço enorme tomou conta de mim.
â Isso tudo faz parte do plano? â Sitri sussurrou no meu ouvido.
O que, exatamente, aqui parecia planejado?
â Bom, fico feliz que todos estejam bem. O perigo passou, vamos nos dispersar por enquanto â eu disse.
Olhei ao redor e vi os moradores ainda apreensivos, Gilbert e seus companheiros, NĂ©voa CaĂda, que ainda estavam em alerta, e, por fim, meus prĂłprios companheiros. Agora, tudo o que restava era relaxar um pouco nos banhos (isso se eu ainda tivesse energia para isso) e depois descansar. Isso me daria tempo suficiente para pensar em uma boa desculpa para tudo o que aconteceu.
Mas, justo quando eu estava pronto para encerrar o dia, Arnold me lançou uma pergunta.
â SĂł um minuto. O que aconteceu com Barrel?
Barrel? Do que ele estĂĄ falando?
Lembrei-me de Tino mencionando algo sobre isso mais cedo, mas eu estava tĂŁo sobrecarregado que deixei passar.
â Barrel? â Liz zombou, com um sorriso cruel no rosto. â VocĂȘ acha que gente comum pode dar conta dele? Ele jĂĄ deu cabo desses caras faz tempo. O Mil Truques nĂŁo Ă© como vocĂȘs, camponeses, certo, Krai Baby?
Liz, vocĂȘ nĂŁo estĂĄ me ajudando em nada.
Mesmo com minha cabeça vazia, eu ainda lembrava de Chloe mencionando esse nome antes. Tinha quase certeza de que era o nome do grupo que Lorde Gladis queria que eu eliminasse. Ouvi dizer que eram um bando de ladrÔes poderosos, mas não via qual a relação disso com a nossa situação atual.
Eu nĂŁo estava planejando aceitar essa missĂŁo nomeada e, se bem me lembro, segundo Sitri…
â Eles nĂŁo passam de um bando de covardes, nĂŁo Ă©? JĂĄ nĂŁo fugiram com o rabo entre as pernas?
Ela nĂŁo podia ter colocado isso de um jeito mais delicado? Mesmo estando certa.
Arnold ficou sem palavras. Gilbert e seus companheiros fizeram expressÔes tensas. Serå que ela disse algo estranho?
â Desculpa, desculpa, acho que foi meio esquisito falar isso â eu disse. â Mas, sabe como Ă©, eu estava ocupado lidando com os Trogloditas. NĂŁo tive tempo de me preocupar com um bando de ladrĂ”es.
AlĂ©m disso, jĂĄ exterminamos um monte de ladrĂ”es (e quando digo ânĂłsâ, quero dizer o resto dos Grieving Souls). Um bando de caras um pouco acima da mĂ©dia provavelmente nĂŁo era grande coisa para Liz e os outros. Pelo que parecia, Gladis nĂŁo conseguiu exterminĂĄ-los simplesmente porque eles fugiram.
â Quantos eram? Cem? Duzentos? Acho que Ă© uma diferença trivial.
Quantos Trogloditas havia mesmo? SĂł para deixar claro, nĂŁo Ă© que eu nĂŁo quisesse trabalhar. NĂŁo Ă© que eu nĂŁo quisesse trabalhar.
â NĂŁo me entenda mal, nĂŁo estou dizendo que Barrel nĂŁo Ă© assustador. Eu tambĂ©m teria trabalho se fosse atacado por eles. Mas nĂŁo vejo motivo para perseguir um inimigo que estĂĄ fugindo. Isso seria tipo, sei lĂĄ, intimidar os fracos.
Se alguém estava sendo intimidado aqui, esse alguém era eu! Que tal essa para um estilo durão?
Senti vĂĄrios olhares sobre mim.
â EstĂĄ dizendo que sabe o quĂŁo forte Barrel Ă©? â Arnold perguntou, tenso.
â NĂŁo sei. NĂŁo me interesso e nĂŁo vejo necessidade de saber. Eu me tornei um caçador para explorar cofres de tesouro, nĂŁo para caçar ladrĂ”es.
NĂŁo que eu tenha tido muitas oportunidades de limpar cofres…
Eu nĂŁo esperava que entendessem. SĂł queria deixar claro que nĂŁo planejava fazer mais nada, nĂŁo importava o que dissessem.
â Se vocĂȘs estĂŁo decididos a lutar contra eles, nĂŁo vou impedir. AtĂ© entrego a missĂŁo nomeada, mas Ă© melhor se apressarem.
Eu não fazia ideia de onde esses bandidos poderiam estar. Os trogloditas e aquele dragão jå tinham causado uma bagunça. Mesmo com minha sorte, era seguro dizer que bandidos não iriam aparecer no meio de tudo isso.
VĂĄrios olhos estavam fixos em mim. Mas eu jĂĄ tinha dito o que precisava, entĂŁo me virei para Sitri.
â Isso Ă© tudo que tenho a dizer â falei para ela. â Odeio ter que fazer isso, mas posso deixar o resto com vocĂȘ?
â Claro! Ainda tenho negĂłcios para tratar aqui de qualquer forma â ela respondeu.
Isso sim era dedicação ao comércio. Eu desejava sorte para ela.
Pronto, acabou! NĂŁo me importa o que digam, terminamos aqui! Fim de papo! Hora de tomar um banho e depois dormir.
Dei um grande bocejo e consegui dar apenas um passo à frente antes que alguém me chamasse.
â Segure-se aĂ, Mil Truques!
â Mmm?
Virei-me e fiquei surpreso com o que vi.
â NĂŁo se mexa. Qualquer movimento e matamos esses caras.
Alguns moradores estavam pressionando lùminas curtas e negras contra as gargantas de outros moradores. Cinco homens e mulheres de idades variadas tinham lùminas apontadas para seus pescoços. Era tão estranho que nem parecia real.
HĂŁ? O que esse pessoal estĂĄ aprontando?
Eu nĂŁo conseguia entender nada. Os que seguravam as lĂąminas eram, sem dĂșvida, moradores normais. As vĂtimas pareciam brevemente chocadas antes que o sangue sumisse de seus rostos. Eu podia assumir com segurança que isso nĂŁo era uma pegadinha.
â VocĂȘ baixou sua guarda. A essa distĂąncia, temos a vantagem â disse um homem de rosto comum segurando uma lĂąmina curta.
Arnold lançou um olhar feroz para o homem, como um demĂŽnio saĂdo diretamente do inferno.
â VocĂȘs se esconderam entre eles?!
Eu nĂŁo tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Mas, pelo menos, parecia que eu nĂŁo estava sozinho nisso. SerĂĄ que alguns moradores tinham enlouquecido por causa dos trogloditas e se virado contra seus prĂłprios vizinhos?
Olhei para Liz, mas parecia que ela não encontrava uma brecha. Mesmo sendo råpida como um raio, isso não era o bastante para resolver essa situação. Sem falar que eram cinco reféns.
â E-Espera um minuto. Calma aĂ â falei. â Essas lĂąminas nĂŁo sĂŁo algo que se usa sem o devido treinamento!
O rosto do homem se contorceu de raiva, assim como o dos outros sequestradores.
â NĂŁo zombe de nĂłs!
NĂŁo estou zombando. SĂł… fiz algo que causou uma situação de refĂ©ns?
â O que vocĂȘs estĂŁo tentando fazer? â perguntei.
â C-Cale a boca!
SituaçÔes de reféns sempre eram estressantes, mas, dessa vez, eu estava mais perplexo do que qualquer outra coisa. Quebrei a cabeça tentando entender e logo cheguei a uma conclusão.
SerĂĄ que eles sĂŁo… trogloditas disfarçados?
Dei um passo hesitante Ă frente e tentei falar em outra lĂngua para acalmĂĄ-los.
â Ryuu-ryuu?
Houve uma mudança nos rostos dos sequestradores â a raiva deles desapareceu num instante. NĂŁo, isso nĂŁo era certo. Sobrecarregados pela emoção, suas expressĂ”es se tornaram vazias. Aquilo era a prova de sua determinação. Eram as expressĂ”es de soldados prontos para morrer.
â GlĂłria a Barrel! â gritaram em unĂssono.
Essas palavras foram inesperadas. As lùminas em suas mãos começaram a vacilar. Não houve tempo para reagir ou sequer dizer algo. Liz, Tino e Arnold começaram a se mover, mas claramente não iam conseguir a tempo.
Mas, quando os refĂ©ns estavam prestes a ter suas gargantas cortadas, as lĂąminas caĂram no chĂŁo.
Juro pela minha honra que nem pisquei. Aconteceu de repente. Os cinco sequestradores desapareceram sem deixar rastro, bem antes que pudessem derramar qualquer sangue.
Os refĂ©ns libertos cambalearam e caĂram de joelhos. Eu sentia como se estivesse sonhando, mas Arnold tambĂ©m olhava freneticamente ao redor, Liz tinha os olhos arregalados e Tino…
â Hm? Onde estĂĄ a Tino? â perguntei.
â Eigh e os outros tambĂ©m sumiram. O que estĂĄ acontecendo?! â Arnold gritou.
NĂŁo foram apenas os cinco sequestradores que desapareceram. Liz, Sitri, Arnold e Matadinho ainda estavam conosco, mas Tino, que estava ali um instante atrĂĄs, tinha sumido, assim como NĂ©voa CaĂda, Rhuda, Gilbert e o restante do grupo dele. Ainda assim, os refĂ©ns e eu estĂĄvamos bem. Nada disso fazia sentido.
O que diabos acabou de acontecer?
Observei Sitri se abaixar e pegar algo aos seus pés. Ela soltou um pequeno suspiro e colocou o objeto na palma da mão.
â Krai, temos um problema â ela lamentou. â Lucy estĂĄ furiosa. Olha o que aconteceu com a T…
â O quĂȘ?!
â Aah, entĂŁo era assim que vocĂȘ planejava lidar com o Barrel. Achei estranho vocĂȘ simplesmente curar os membros feridos do Barrel e deixĂĄ-los ir â disse Liz. Ela parecia surpresa, e isso nĂŁo era comum para ela.
Na palma da mĂŁo de Sitri havia um adorĂĄvel sapinho preto, freneticamente olhando para todos os lados.
***
Tudo tinha saĂdo conforme o planejado. Desde a infiltração na cidade atĂ© a forma como lidaram com a ameaça dos caçadores de alto nĂvel, eles realizaram uma invasĂŁo perfeita. Se Geffroy e seus companheiros cometeram um erro, foi ao escolher quem enfrentar.
Eles nĂŁo deveriam ter desafiado um caçador de NĂvel 8. Mesmo que tenham encontrado uma oportunidade tentadora, deveriam ter se mantido afastados. Deveriam ter fugido. Mas agora era tarde demais para arrependimentos.
â Nunca ouvi falar de alguĂ©m que manipulasse criaturas dessa forma â disse Geffroy, com a respiração ofegante, enquanto verificava cuidadosamente os arredores.
Eles tinham se reagrupado bem. Alguns feridos acabaram ficando para trås, mas o inimigo contra quem lutavam parecia não ter fim. Se não fosse pela excelente coordenação do Barrel, as perdas teriam sido muito maiores.
Os seres cinzentos de antes haviam desaparecido. No momento em que o dragĂŁo apareceu no cĂ©u, eles bateram em retirada. Nem sequer deixaram os corpos de seus companheiros caĂdos. Geffroy achou isso incrivelmente perturbador.
Os bandidos tentavam manter a postura, mas sua vontade de lutar havia sido destruĂda. Por um breve momento, eles tinham visto aquele homem no topo do telhado, dando ordens em uma lĂngua bizarra. Aquilo causou mais medo do que a ameaça imediata diante deles. AtĂ© mesmo o comportamento calmo e controlado de Kardon havia se quebrado.
â Eu tambĂ©m nunca vi isso antes, mas Ă© a realidade diante de nĂłs.
â Por que ele comandou aquelas criaturas? O que ele estava tentando fazer?
A pergunta de Geffroy ficou sem resposta.
Aqueles seres cinzentos, sem dĂșvida, eram obra do Mil Truques. Se tivessem apenas atacado, poderia ser considerado uma coincidĂȘncia. Mas eles tambĂ©m recuaram. Uma coincidĂȘncia era improvĂĄvel demais.
Eles jå tinham reunido a maioria dos bandidos que estavam de guarda com os reféns. Só por precaução, alguns membros do grupo estavam infiltrados entre os reféns, mas não eram suficientes para fazer muita diferença.
Manipular aqueles seres era um poder aterrorizante. Mas o mais assustador de tudo era que Geffroy e Kardon nĂŁo perceberam que estavam sendo manipulados atĂ© que começaram a recuar. Se os lĂderes dos bandidos tivessem percebido isso antes, poderiam ter ordenado que aqueles cinco bandidos ficassem com os refĂ©ns? Provavelmente nĂŁo.
Aqueles seres demonstravam uma hostilidade clara contra a humanidade. Um Ăłdio que fazia Geffroy ter certeza de que suas Ășnicas opçÔes eram matar ou morrer. Virar as costas para criaturas tomadas por Ăłdio exigia nervos de aço ou estupidez excepcional.
Eles tinham conseguido reunir a maioria de seus membros dispersos, o que significava que o Esquadrão de Bandidos Barrel ainda estava com cerca de oitenta por cento de sua força. Isso era mais do que suficiente. E aqueles seres estranhos não estavam mais à vista.
Mas Geffroy manteve sua decisĂŁo.
â Vamos sair daqui â ele disse.
â Tem certeza? Essas perdas nĂŁo serĂŁo fĂĄceis de recuperar.
â Precisamos nos apressar. Ele nĂŁo teria mandado embora aquelas criaturas sem um bom motivo.
Eles nĂŁo tinham terminado o saque, perderam pessoal e gastaram RelĂquias valiosas. Estavam em uma situação ruim. Se essa histĂłria se espalhasse, o nome do EsquadrĂŁo de Bandidos Barrel perderia o respeito que tinha no submundo.
Mas eles tinham crescido sabendo quando era hora de bater em retirada. A pergunta de Kardon era apenas retĂłrica. Depois de liderar o Barrel por tanto tempo, ele e Geffroy praticamente liam a mente um do outro. Estavam sempre na mesma pĂĄgina.
â VocĂȘ pode se recuperar de qualquer derrota, mas sĂł se continuar respirando â disse Geffroy.
Kardon começou a dar ordens.
â VocĂȘs ouviram o chefe! Preparem-se para recuar! NĂŁo temos tempo para ir atĂ© a saĂda, vamos pular os muros!
Sem quebrar a formação e atentos ao ambiente, os bandidos começaram a se mover rapidamente, exatamente como seu treinamento ensinara. A invasão do Barrel tinha sido silenciosa, e sua retirada seria ainda mais discreta.
De repente, um dos bandidos chamou:
â Chefe, tem um dos nossos ali!
Geffroy olhou na direção que seu subordinado apontava. Naturalmente, ele conhecia o rosto de cada um de seus homens. Apertando os olhos, confirmou que o homem que se aproximava era de fato um membro do Barrel. Seus membros estavam quebrados, e Geffroy foi forçado a deixĂĄ-lo para trĂĄs pelo bem do grupo. Mas nĂŁo havia dĂșvida de que aquele homem nĂŁo era um impostor.
â O que aconteceu com seus ferimentos? â ele perguntou.
â Um dos camaradas dos Mil Truques me curou com uma poção. Ele disse que nĂŁo Ă©ramos inimigos.
Geffroy nĂŁo respondeu. Ele nĂŁo entendia, mas o prĂłprio homem parecia ainda mais confuso. Aquilo era absurdo demais para ser apenas um descuido do vencedor. O EsquadrĂŁo de Bandidos Barrel nĂŁo era tĂŁo ingĂȘnuo a ponto de ser influenciado sĂł porque alguĂ©m curou seus aliados, e isso sem falar na recompensa por suas cabeças. O que poderia levar os Mil Truques a correr esse risco e deixĂĄ-los ir?
â Para deixar testemunhas? â sugeriu Kardon.
â Absurdo.
Kardon provavelmente não estava falando sério. Aquilo era improvåvel demais, sem propósito. Mas não era hora de ficar pensando nisso. Ter um companheiro de volta era algo positivo, independentemente do motivo. Se o Mil Truques estavam tentando insultar o Barrel, então eles só precisavam garantir que ele se arrependeria dessa decisão um dia.
Enquanto Geffroy ponderava sobre a situação, mais companheiros retornaram. Todos haviam sido feridos gravemente o suficiente para que um simples tratamento não fosse suficiente para colocå-los de pé novamente. No entanto, deviam ter recebido poçÔes poderosas ou algo do tipo, pois estavam andando normalmente.
Foi uma reviravolta inesperada. Aceitar isso como um fato era a melhor resposta? Eles jå haviam derrotado caçadores renomados, cavaleiros veteranos e muitos outros adversårios poderosos. Receber misericórdia agora era nada menos que humilhante. Mas Geffroy e Kardon não eram tolos; não deixariam suas emoçÔes tomarem conta. Fazia tempo que não provavam o gosto da humilhação, mas jå estavam acostumados a serem jogados no chão.
Para ajudar na fuga, os shinobi rapidamente fincaram estacas na parede. Eles estavam atentos, mas nĂŁo havia sinais de inimigos. Geffroy lançou um Ășltimo olhar fulminante para o lugar onde tinha visto o rei dos demĂŽnios. Ergueu seu machado de batalha manchado de sangue e sussurrou uma silenciosa declaração de guerra.
â SĂł espere. Isso ainda nĂŁo acabou. Vamos ficar mais fortes e voltaremos por vocĂȘ com tudo o que tivermos. Eu juro em nome do Barrel.
Hora de recuar.
Ele deu a ordem e se virou â mas entĂŁo congelou. Seus subordinados, a elite que ele passou tanto tempo treinando, aqueles que estavam se preparando para a fuga, tinham todos desaparecido. Nem mesmo uma Ășnica arma ou peça de roupa restava.
â ImpossĂvel â Kardon murmurou, com a voz rouca. Ele e Geffroy eram os Ășnicos que sobraram. O sangue havia sumido do rosto de Kardon, algo que nunca tinha acontecido, mesmo diante dos inĂșmeros desafios que superaram juntos.
â Kardon, o que aconteceu?
Geffroy estava olhando para o outro lado, mas Kardon deveria ter visto tudo. SĂł que Kardon, que sempre tinha uma resposta rĂĄpida, nĂŁo disse nada.
Geffroy tentou novamente, com um tom mais severo.
â Responda! Para onde eles foram?!
Finalmente, Kardon abriu a boca, mas suas palavras saĂram em pedaços.
â Sapos. Eles viraram… sapos. O quĂȘ… O que Ă© isso?
Sapos? Sapos?!
Geffroy finalmente notou as dezenas de pequenos sapos espalhados pelo chão. Um arrepio percorreu sua espinha. Os pelos de seu corpo se eriçaram. Os sapos não coaxavam, apenas olhavam para Geffroy. Havia algo estranhamente humano naqueles olhares.
De repente, ele sentiu que estava sendo observado. Seus instintos o fizeram se virar para a origem daquele olhar, e seu coração quase parou. Seu machado escorregou de suas mãos e caiu no chão com um baque pesado, cortando levemente a terra. Mas ele estava tão atordoado que nem pensou em pegå-lo de volta.
Aquela muralha de pedra tinha mais de trĂȘs metros de altura. E, bem acima dela, um elmo cinzento o observava em silĂȘncio.
***
A magia sempre foi admirada por aqueles que não podiam uså-la. Antes de me frustrar completamente com minha falta de talento, eu também sonhava em me tornar um mago. Quando o mago local da nossa cidade me disse que eu não tinha aptidão para isso, comecei a seguir Lucia. Ela tinha talento e estava disposta a se esforçar para se tornar uma conjuradora.
Naquela Ă©poca, antes de entender qualquer coisa sobre magia, eu achava que feitiços eram milagres capazes de tornar qualquer coisa possĂvel. Mais tarde, eu descobriria que isso era um absurdo, mas, na Ă©poca, eu era sĂł uma criança. Fiz uma lista dos feitiços supremos e, para o desespero da minha irmĂŁ, entreguei a ela com entusiasmo. Construi um cajado mĂĄgico, dei a ela como presente e fiquei emburrado quando ela nĂŁo quis usĂĄ-lo. Eu simplesmente fazia o que queria.
Lucia era dedicada e nunca negligenciava seus estudos, entĂŁo, mesmo sem vontade, ela fez o mĂĄximo para combinar feitiços existentes e tentar recriar os feitiços do meu âGrande GrimĂłrio Definitivoâ. Eu aplaudia e dizia o quanto ela era incrĂvel, mas sempre levava um soco quando apontava pequenos erros. Olhando para trĂĄs, me sinto mal por isso.
Não acho que nossas brincadeiras infantis tenham tido um impacto direto, mas Lucia acabou se tornando uma maga poderosa e såbia. Ela dominou vårios feitiços originais e se tornou uma das maiores magas de Zebrudia.
Enquanto isso, eu desisti da magia e me dediquei ao que podia usar: RelĂquias.
Sitri ergueu Tino com cuidado e a colocou dentro de um frasco de poção vazio. De dentro da cùmara transparente, o sapo preto me olhava com olhos lacrimejantes.
â Agora ela deve ficar bem â disse Sitri.
NĂŁo sei se dĂĄ para chamar isso de âficar bemâ…
Levantei o frasco e franzi a testa ao olhar para uma Tino minĂșscula e claramente perturbada.
â EntĂŁo ela conseguiu? O Milagre da Bruxa, Variante Sapo.
Muito tempo atrĂĄs, vi esse feitiço em um conto de fadas e desejei vĂȘ-lo na vida real, mas Lucia disse que era impossĂvel. No entanto, pelo que parecia, esse era exatamente o mesmo feitiço. Ele estava no volume trĂȘs ou quatro do grimĂłrio que escrevi. Recebi vĂĄrias objeçÔes na Ă©poca, como âEsse tipo de feitiço nĂŁo existeâ, âPense com lĂłgica. O que acontece com a mudança de massa?â e âMesmo que eu consiga fazer a transformação, como vou desfazer?â
E agora, anos depois, eu via esse feitiço diante dos meus olhos… e sinceramente nĂŁo sabia como reagir.
â VocĂȘ acha que dĂĄ para reverter a transformação? â perguntei.
â RIBBIT?!
â Por enquanto, acho que estĂĄ tudo bem assim, nĂŁo? â respondeu Sitri. â Eu acho que ela estĂĄ adorĂĄvel desse jeito.
Sitri estava dizendo umas coisas bem preocupantes. Sapos eram ingredientes comuns para alquimistas. O sapo Tino batia desesperadamente contra o vidro.
â Ribbit?! Ribbit, ribbit!
â M-Mas que droga! O que aconteceu?! â Arnold gritou.
â Cuidado, se eles se misturarem, nĂŁo vamos conseguir distinguir quem Ă© aliado e quem Ă© inimigo â avisei.
â VocĂȘ sĂł pode estar brincando!
Apesar do meu aviso, Arnold pisou forte no chão. Perto de seus pés estavam os sapos que antes eram Rhuda, Gilbert e alguns moradores da cidade.
Inferno, eu jĂĄ nem consigo dizer quem Ă© quem.
Olhei novamente para a perereca que tinha a mesma cor do cabelo da Tino.
â Mmm. VocĂȘ acha que um elixir supremo poderia transformĂĄ-la de volta em humana?
Eu nem sabia por que a Lucia estava irritada e como isso resultou na Tino se tornando um sapo. Lucia e Tino se davam muito bem, quase como irmĂŁs. Ela nĂŁo era tĂŁo agressiva quanto as irmĂŁs Smart, o que facilitava sua convivĂȘncia com a Tino.
Liz ofereceu uma resposta.
â Provavelmente voltaram para a capital e ouviram falar das nossas fĂ©rias. Qualquer um ficaria puto se de repente se visse envolvido nesse caos.
Fazia sentido que ela e os outros Grieving Souls tentassem nos alcançar ao saberem que saĂmos para uma viagem. E quem poderia culpĂĄ-los se ficassem de mau humor ao verem algo ruim acontecendo em Suls?
â Eles chegaram tarde demais. Se ao menos tivessem vindo um pouco antes â resmunguei.
â Agora posso me gabar para o Luke sobre as coisas incrĂveis que vi â disse Liz. Como sempre, suas prioridades eram Ășnicas.
Lucia era poderosa. Ela era uma Maga de NĂvel 6, prĂłxima do NĂvel 7, ficando logo abaixo de Ansem. Seu forte era lidar com mĂșltiplos inimigos ao mesmo tempo (mas isso era quase um requisito para Magos) e ela tinha o maior nĂșmero de abates no nosso grupo.
No fim, não fazia muita diferença, jå que o problema havia sido resolvido. Mas se ela estivesse conosco, talvez tivéssemos conseguido lutar contra o exército de Trogloditas. Ela poderia ter feito algo sobre o dragão. Mas, novamente, isso realmente importava?!
Sitri entĂŁo bateu palmas e sorriu.
â Ah, jĂĄ sei! Vamos dar uma recepção calorosa para a Lucy. Talvez isso anime ela!
Tino-sapo bateu no vidro, implorando para que eu a soltasse.
***
Ă beira do colapso depois de forçar seu corpo ao limite, Chloe encontrou ajuda. O homem que uma vez havia destruĂdo sua confiança em um combate simulado parecia sĂ©rio, seus olhos carmesim semicerrados.
â Entendido â disse ele. â Agora, sobre esse esquadrĂŁo de bandidos. Eles tĂȘm algum Espadachim poderoso entre eles?
Grieving Souls. Houve um tempo em que um grupo de indivĂduos se tornou caçador e deu ao seu grupo um nome que vocĂȘ esperaria estar associado a uma gangue de criminosos.
Todos os anos, na capital imperial de Zebrudia, incontåveis jovens aspirantes a caçadores se registravam. Não faltavam grupos compostos por seis jovens recém-chegados do interior, e um nome tão irritante deveria ter encerrado suas carreiras rapidamente.
No entanto, esse grupo superou cada dificuldade que enfrentou. Eles conseguiram com talento e trabalho duro. Coragem e sorte. Conhecimento raro e determinação férrea o bastante para instilar medo até em outros caçadores.
Seria mesmo coincidĂȘncia que, no caminho para a cidade mais prĂłxima, Chloe tivesse encontrado uma carruagem com trĂȘs de seus membros?
Grieving Souls era composto apenas por portadores de epĂtetos e era um dos principais grupos da capital imperial. Eram jovens demais para serem considerados veteranos, mas seus olhos carregavam o mesmo brilho de todos os campeĂ”es.
Chloe trabalhava na Associação dos Exploradores havia algum tempo, mas os membros dos Grieving Souls raramente apareciam por lå, então ela não os conhecia bem. Estranhamente, ela não se sentia particularmente nervosa dentro da carruagem deles.
Quando Luke perguntou sobre os Espadachins, a Maga de longos cabelos negros suspirou e quebrou o silĂȘncio. Com apenas dezenove anos, ela havia dominado uma grande variedade de magias e era uma das principais Magas da capital. Seu nome era Lucia Rogier, NĂvel 6, portadora do epĂteto Avatar da Criação, e segurava seu cajado com os braços cruzados.
â Esse nĂŁo Ă© o problema! â ela reclamou. â Nossos planos de ir para uma fonte termal nos levaram direto para um monte de bandidos! E nĂłs acabamos de sair de um cofre do tesouro!
â SĂŁo sĂł bandidos?
â E por que temos que limpar as bagunças do nosso lĂder, se ele ficou sentado enquanto fazĂamos aquela longa expedição?!
Os dois pareciam bem jovens durante essa troca, nada parecidos com caçadores de elite.
â NĂŁo, isso sempre acontece! â Lucia continuou. â AlĂ©m disso, se meu irmĂŁo estĂĄ envolvido, entĂŁo nĂŁo tem como serem sĂł alguns bandidos comuns.
â Ă, aham.
â NĂŁo me imite! NĂŁo pareça tĂŁo satisfeito!
â Certo, uhum?
â NĂŁo invente sua prĂłpria versĂŁo! Ansem, diga alguma coisa para ele!
Houve um estrondo quando Ansem deu uma breve resposta do lado de fora da carruagem sem cocheiro.
Parece que os rumores eram verdadeiros. Os Grieving Souls eram todos amigos de infĂąncia, como ficava claro pela maneira despretensiosa como falavam, sem qualquer cerimĂŽnia, como apenas conhecidos Ăntimos fazem. Mas pareciam casuais atĂ© demais. Eles realmente conseguiriam salvar Suls?
Chloe pÎde ver novamente a cidade de onde havia fugido desesperadamente. Logo além da nova muralha, vårias carruagens estavam abertas.
â SĂŁo muitas â murmurou Lucia.
Provavelmente estavam ali como uma rota de fuga caso fosse necessårio. Não pareciam ser suficientes para todos os bandidos que Chloe havia visto na cidade, mas ainda assim, esse era um passo que a maioria dos grupos de bandidos nem se dava ao trabalho de tomar. Ela não havia visto nenhum morador enquanto escapava e, considerando o quão bem treinados os bandidos eram, era provåvel que tivessem sido feitos reféns. Pelo menos ela não havia sentido cheiro de sangue, mas uma situação com reféns ainda era um pesadelo.
Suls não era uma cidade muito grande, mas se espalhava por uma årea relativamente extensa, e Chloe não fazia ideia de onde os reféns poderiam estar. Mesmo os orgulhosos cavaleiros da capital imperial considerariam isso uma situação complicada. Como funcionåria da Associação dos Exploradores, ela havia aprendido métodos de lidar com bandidos, mas essas liçÔes båsicas não seriam suficientes contra o Esquadrão de Bandidos Barrel.
Mesmo tendo sido um ataque surpresa, Barrel conseguiu pegar a Queda do RelĂąmpago desprevenida. Os bandidos tinham nĂșmeros esmagadores. Chloe tinha poucas informaçÔes e apenas trĂȘs aliados.
O que poderiam fazer diante de tamanha desvantagem?
â Como devemos proceder? â perguntou hesitante.
Luke e Lucia trocaram olhares.
Ansem, o ImutĂĄvel, ergueu um punho.
O mundo gemeu, a terra e o ar tremeram. Com um Ășnico golpe, a densa parede foi despedaçada. NĂŁo houve um momento de dĂșvida. Que plano direto era aquele.
â Vamos proceder como de costume. Lucia vai enlouquecer com os feitiços, Ansem vai enlouquecer quebrando coisas. Eu vou focar na persuasĂŁo â disse Luke.
Chloe tinha certeza de que os avisou sobre o que estavam enfrentando, mas eles simplesmente avançaram. Agora era tarde demais para detĂȘ-los.
A abordagem deles era bem diferente da de qualquer outro caçador que Chloe conhecia ou dos passos calculados dos bandos de ladrĂ”es. Barrel contava com centenas de membros e, muito provavelmente, tinha refĂ©ns. O que apenas trĂȘs pessoas poderiam fazer? Eles nĂŁo deveriam ter procurado ajuda em outra cidade? No entanto, Chloe logo viu seus receios se dissiparem.
Luke Sykol. A Espada Proteana e um dos maiores espadachins da capital imperial.
Lucia Rogier. O Avatar da Criação e mestra das magias de todas as regiÔes e eras.
E entĂŁo havia aquele Paladino cuja fama talvez rivalizasse com a de Rodin. Ele era ainda maior que o gerente de filial Gark, um homem outrora temido como o DemĂŽnio da Guerra. Com cada centĂmetro da pele oculto pela armadura, mal parecia humano.
O gigante blindado não disse uma palavra ao socar a parede. Ele entrou na cidade apertada e escaneou os arredores. Que força avassaladora. O Imutåvel era conhecido por sua bondade, mas parecia mais monstruoso que qualquer monstro real.
O casaco vermelho da Espada Proteana esvoaçou quando ele seguiu Ansem pelo buraco.
â Quantas vezes eu tenho que te dizer, Krai? Um homem com um machado nĂŁo Ă© um espadachim! â disse Luke, estalando a lĂngua.
Diante da parede destruĂda, um homem corpulento segurava um machado cravado no chĂŁo.
â Quem sĂŁo vocĂȘs?! â ele gritou.
Chloe reconheceu aquele homem. Ele estava no relatĂłrio da missĂŁo emitido por Lorde Gladis. O lĂder dos ladrĂ”es que conseguiu sobreviver por tanto tempo apesar de ser procurado em inĂșmeros paĂses. Geffroy Barrel.
NĂŁo era um sĂłsia. Era o prĂłprio homem. Mesmo de longe, ele tinha a mesma postura poderosa de um caçador veterano. Parecia justo supor que os rumores eram verdadeiros quando diziam que ele era uma força comparĂĄvel a caçadores de alto nĂvel.
Mas atĂ© sua figura imponente era diminuĂda pela energia ardente emanada por Luke. Os lĂĄbios da Espada Proteana se curvaram em um sorriso quando ele ouviu a pergunta do homem.
â Pensar que vocĂȘ nĂŁo sabe o meu nome. Diga-me, velhote, vocĂȘ nĂŁo Ă© algum tipo de impostor, Ă©?
Sua voz era um pouco aguda para um homem.
Depois dele, Ansem avançou, seguido por Lucia, que havia conjurado um feitiço de grande ĂĄrea antes de entrar na cidade. Em algum momento, eles colocaram mĂĄscaras que lembravam crĂąnios sorridentes â o sĂmbolo dos Grieving Souls. Luke pegou uma mĂĄscara semelhante e a colocou.
AtrĂĄs do lĂder dos ladrĂ”es, um homem de olhar firme murmurou:
â Grieving Souls…
â Oh, entĂŁo vocĂȘ sabe quem somos? ApresentaçÔes nĂŁo sĂŁo o meu forte.
***
â Im…possĂvel.
Gotas de suor frio brotaram no rosto de Kardon. O crùnio sorridente, aquela måscara que incutia medo nos criminosos por todo o império, estava olhando diretamente para ele e Geffroy.
Havia uma figura gigantesca coberta de armadura, o espadachim ruivo de baixa estatura e a maga de cabelos negros com seu grande cajado. Geffroy e Kardon tinham ouvido rumores sobre as mĂĄscaras de crĂąnios sorridentes, mas havia algo quase surreal em vĂȘ-los pessoalmente.
Mas uma coisa era certa â eles eram fortes, de um nĂvel completamente diferente dos dois que Barrel encontrara nas montanhas. NĂŁo era sĂł o gigante, os outros dois tambĂ©m tinham uma aura que os marcava como alguns dos caçadores mais poderosos que Barrel jĂĄ havia encontrado.
â Os dois de antes… eram uma armadilha?
Geffroy era de fora do impĂ©rio. Ele investigou os Grieving Souls, um grupo ativo principalmente em Zebrudia, mas ainda havia muito que ele nĂŁo sabia. No entanto, ao menos conseguiu obter algumas informaçÔes sobre sua estrutura e membros. Eles eram um grupo de sete. Se os trĂȘs diante dele eram tĂŁo poderosos, era inconcebĂvel que dois de seus companheiros, que presumivelmente limpavam cofres do tesouro com eles, fossem tĂŁo fracos.
O homem Ă sua frente era um espadachim, o que significava que ele provavelmente era a Espada Proteana.
â O que estĂĄ acontecendo? EntĂŁo aqueles dois realmente eram… Droga.
Geffroy pensou que aqueles dois eram fracos. Ele sabia que Ă s vezes as pessoas se escondiam atrĂĄs dos nomes de caçadores famosos. Mas as circunstĂąncias haviam se alinhado perfeitamente. O medo e o pĂąnico em seus rostos eram genuĂnos. Sem mencionar que esse era o tipo de artimanha que normalmente se esperaria de um grupo fantasma.
Geffroy deixou a questĂŁo de lado. TrĂȘs pessoas nunca seriam o suficiente contra os quase trezentos membros de Barrel. Mas agora eram apenas Geffroy e Kardon. Pegando seu machado novamente, Geffroy sentiu-se ansioso por sua primeira luta de verdade em muito tempo. EntĂŁo, ele percebeu o caçador ruivo olhando para ele.
â Espere, Lucia. Ainda tem dois â disse ele, intrigado.
â SĂł sobraram dois! VocĂȘ pode nĂŁo saber disso, Luke, mas lançar feitiços de grande ĂĄrea Ă© incrivelmente exaustivo.
Observar. Avaliar a situação. Ouvir. Força e uma mente fria permitiram que Geffroy sobrevivesse a tudo que a vida jogou contra ele. Ele ainda podia vencer isso.
Aquela maga disse “grande ĂĄrea”. Mas quĂŁo grande? Esse nĂŁo era um feitiço que ele jĂĄ tinha visto antes. SerĂĄ que ela quis dizer a cidade inteira? ImpossĂvel.
NĂŁo, disse a si mesmo. Isso nĂŁo Ă© o mais importante agora.
Ela era uma Maga e estava exausta. Havia lançado um feitiço que incapacitou instantaneamente centenas de homens, mas não conseguiria fazer isso uma segunda vez. Se a Maga estivesse fora da equação, Geffroy teria uma chance de sobreviver. O Esquadrão de Ladinos Barrel não estava do lado da justiça. Covardes tinham sua própria maneira de fazer as coisas.
â Foi vocĂȘ quem transformou nossos subordinados nesses… digamos, encantadores homenzinhos? â Kardon perguntou com espanto. Ele segurava uma lĂąmina curta na mĂŁo. â Fiquei realmente surpreso. Nunca vi um feitiço assim. Mas, temo que tenha sido tarde demais.
Sua voz gelada era serena e mais baixa que o normal. Geffroy percebeu que seu parceiro havia chegado Ă mesma conclusĂŁo que ele. Ele abafou suas preocupaçÔes e agora buscava um fio de esperança. Os trĂȘs caçadores observavam a impressionante atuação de Kardon. Um sorriso cruel se formou em seus lĂĄbios.
â Esta cidade jĂĄ estĂĄ sob nosso controle. Se nos capturarem, levaremos todos conosco. Seus amigos, os moradores e a prĂłpria cidade serĂŁo alvos do Barrel.
Isso mesmo. Eles iam blefar. Esses trĂȘs tinham acabado de chegar, nĂŁo deviam ter ideia de qual era a real situação de Suls. Poderiam ser influenciados. Por mais fortes que fossem, ainda eram humanos; um machado na cabeça ainda os mataria.
â Do que vocĂȘ estĂĄ falando? â perguntou o Espadachim ruivo.
Seu nome era Luke Sykol e suas habilidades com a lĂąmina estavam entre as melhores do impĂ©rio. Ele estudava esgrima vorazmente, absorvendo tĂ©cnicas novas e antigas, de todas as partes. Seu tĂtulo, a Espada Proteana, jĂĄ fora ostentado por diversos renomados espadachins.
Apesar das circunstĂąncias, ele estava tranquilo. NĂŁo parecia afetado pelas ameaças de Kardon. Mas ele tambĂ©m nĂŁo estava em guarda. Nem sequer havia desembainhado sua lĂąmina, que permanecia ao seu lado. Sem demonstrar preocupação com um possĂvel ataque surpresa, Luke deu um passo Ă frente e parou a poucos centĂmetros de Kardon.
Uma oportunidade estava se apresentando! Geffroy estava confiante. Ele talvez não tivesse a mesma habilidade com a lùmina, mas aquilo não era um duelo. Quando se tratava apenas de atacar, ele era mais råpido. Reprimiu seus impulsos violentos e observou atentamente o caçador. Assim que ele avançasse, Geffroy o cortaria.
No momento em que se preparava para atacar, Luke lentamente removeu sua mĂĄscara e ergueu as mĂŁos.
â Meu mal. Eu deveria ter conversado com vocĂȘs antes â disse ele.
â O quĂȘ?
Geffroy sequer respirou. Os olhos de Kardon se arregalaram de choque. A Maga pressionou as mĂŁos contra as tĂȘmporas. O gigante permaneceu perfeitamente imĂłvel.
â Acalmem-se e me escutem â disse a Espada Proteana, soando completamente sĂ©rio. â O Krai vive me dizendo como a comunicação Ă© importante. Coisas tipo: “Converse com as pessoas antes de cortĂĄ-las.” Ă um saco, mas aparentemente isso Ă© o que estĂĄ na moda agora, e eu quero ser tanto estiloso quanto o maior espadachim vivo.
â Do que vocĂȘ estĂĄ falando?
Geffroy nĂŁo entendia. Se nada mais, aquilo definitivamente nĂŁo era algo que se ouvia antes de uma batalha. Ele estava tentando enganĂĄ-los para que baixassem a guarda?
A Espada Proteana estava completamente aberto, sua guarda estava baixa. NĂŁo havia motivo para ouvi-lo. Geffroy apenas precisaria mover as mĂŁos e acabar com ele.
Mas, por mais que tentasse, Geffroy não conseguia mover as mãos. Seus olhos se arregalaram e ele começou a suar.
Estou nervoso demais?
EntĂŁo a Espada Proteana disse algo totalmente inesperado.
â E, vejam sĂł, eu planejava conversar com vocĂȘs antes de cortĂĄ-los. Mas, ah, simplesmente nĂŁo consegui me segurar.
â HĂŁ?!
Um longo segundo se passou. Algo caiu no chão com um baque surdo. O lado direito de Geffroy parecia mais leve e uma dor intensa explodiu em seu ombro. Mas ele não teve o luxo de virar a cabeça.
Ele não estava com medo da dor, simplesmente não havia percebido. Não viu quando foi cortado, nem sequer viu aquele homem desembainhar sua lùmina. O sangue sumiu do rosto de Kardon; provavelmente ele também não havia visto nada.
â Mas acho que, no fim das contas, dĂĄ no mesmo â disse Luke. â Na prĂłxima vez, vou me esforçar mais para lembrar disso, e Ă© isso que importa, certo?
â Seu idiota, nĂłs temos refĂ©nsâ
â VocĂȘs tambĂ©m poderiam ser mais cuidadosos no futuro, se tiverem um. Mas vocĂȘs simplesmente nĂŁo servem.
EntĂŁo, de maneira totalmente casual, a Espada Proteana desembainhou sua lĂąmina. Dessa vez, Geffroy viu claramente o brilho da lĂąmina. Mas evitĂĄ-la era outra histĂłria. Eles deveriam ter conseguido ver o ataque. Kardon caiu no chĂŁo assim como o braço de Geffroy havia caĂdo.
â NĂŁo Ă© questĂŁo de gostar ou nĂŁo, mas, sempre que possĂvel, prefiro lutar contra um espadachim. Machadeiros e caras com lĂąminas curtas nĂŁo contam, mas o Krai simplesmente nĂŁo aprende. Ah, nĂŁo estou querendo menosprezar vocĂȘs nem nada, mas me diverti muito mais com aquele espadachim de seis braços lĂĄ no PalĂĄcio Noturno.
Geffroy nĂŁo entendia uma Ășnica palavra do que aquele homem dizia. Luke parecia estar falando com eles, mas nada fazia sentido.
â Luke, os refĂ©ns! â Lucia repreendeu.
â Sim, eu sei. Por isso me segurei. NĂŁo os cortei, veja sĂł?
Os joelhos de Geffroy fraquejaram. Sua mente ficou em branco ao ver a lĂąmina que Luke usava.
â NĂŁo, estou dizendo para vocĂȘ nĂŁo atacar de jeito nenhum! Pelo amor de Deus!
A Maga parecia desesperada. Os sapos coaxavam em um coro barulhento. A Ășltima coisa que Geffroy viu foi a espada de madeira simples de Luke.
***
Caminhåvamos pela cidade vazia. Na verdade, apenas Liz, Sitri e eu eståvamos caminhando. Arnold estava pålido como um fantasma. Eu estava contando com Liz para fazer uma verificação adequada, mas não vi mais nenhum sapo por perto. Aparentemente, toda a cidade realmente tinha sido reunida na praça.
Quando parei para pensar nisso, era um feitiço aterrorizante. Até eu poderia vencer uma luta contra alguém que tivesse sido transformado em sapo. O que alguém poderia fazer contra uma magia como essa?
â O que determina se vocĂȘ se transforma em um sapo ou nĂŁo? â perguntei em voz alta.
Eu conseguia entender por que Arnold, Liz e Sitri não haviam sido afetados. Caçadores com grandes quantidades de material de mana eram resistentes a todo tipo de coisa que pessoas normais não eram. Eu aceitava que Tino e Rhuda tivessem sido transformadas. Pelo mesmo motivo, os guardas da cidade também viraram sapos.
Mas os cidadĂŁos e eu, pessoas com pouco ou nenhum material de mana, permanecemos humanos. Eu nĂŁo conseguia entender o porquĂȘ.
Sitri me olhou com curiosidade.
â NĂŁo foi vocĂȘ quem criou esse feitiço?
â Bem, isso Ă© verdade.
Eu sĂł tinha pensado no resultado final, nĂŁo no processo por trĂĄs dele. Tinha quase certeza de que tudo o que escrevi naquele grimĂłrio que empurrei para Lucia foi: “Um feitiço que transforma pessoas em sapos”. Esse era um dos muitos motivos pelos quais ela sempre reclamava de mim.
Sitri ponderou por um momento.
â Imagino que tenha sido projetado para excluir nĂŁo combatentes â disse ela.
â Por que acha isso?
â Uma vez, ouvi Lucia reclamando sobre como vocĂȘ deu a ela a tarefa absurda de criar um feitiço que nĂŁo tivesse efeito sobre civis.
Ah, sim. Fui eu mesmo. De fato, fiz isso. Foi para que eu pudesse armazenar o feitiço em um Aspiration Manifest.
O Aspiration Manifest simplesmente liberava os feitiços no mesmo estado em que foram armazenados, entĂŁo nĂŁo dava para ajustar o raio de efeito como em um lançamento normal. Isso me levou a pedir um feitiço que nĂŁo afetasse nĂŁo combatentes. O resultado desse pedido foi Tyrant’s Order, o feitiço que eu lancei sobre Arnold e seu grupo.
Ah, acho que funcionam com o mesmo princĂpio.
â Talvez tenha algo a ver com os nĂveis de material de mana? â sugeri.
â Arnold provavelmente nĂŁo foi afetado porque resistĂȘncia a feitiços de transformação se fortalece muito mais facilmente do que resistĂȘncia a venenos. Eu sabia que vocĂȘ nĂŁo me decepcionaria, Arnold!
â Mmm â foi a Ășnica resposta de Arnold ao elogio de Sitri.
Vou tentar animĂĄ-lo na prĂłxima chance que tiver.
Dentro do frasco, Tino coaxou enquanto ouvia nossa conversa.
Imaginei que a resistĂȘncia tambĂ©m poderia explicar por que Liz e Sitri nĂŁo foram afetadas. E quanto a mim, bem, Ă© porque meu material de mana estava no mesmo nĂvel de um civil comum.
Eu nĂŁo achava que havia nada com que me preocupar, afinal era um feitiço da Lucia. Mas seria pĂ©ssimo se nĂŁo conseguĂssemos trazer todos de volta Ă s suas formas originais. No pior dos casos, eu poderia acabar sendo alvo de uma missĂŁo nomeada. Mesmo que conseguĂssemos reverter todos, eu sabia que Gark iria querer ter uma conversa comigo quando voltĂĄssemos para a capital imperial. SĂł de pensar nisso me dava vontade de vomitar.
Depois de andarmos um pouco, os olhos de Liz começaram a brilhar.
â AĂ estĂĄ vocĂȘ! Luuuke!
O primeiro que avistei foi Ansem. Ele tinha mais de quatro metros de altura e ainda estava crescendo. Embora fosse o membro mais tranquilo do nosso grupo, sua grande figura coberta de armadura fazia com que se destacasse.
Perto de uma parede danificada estavam Luke e Lucia, ambos usando mĂĄscaras, que removeram ao ouvir a voz de Liz. Eu nĂŁo os via desde que foram ao PalĂĄcio Noturno, e isso jĂĄ fazia um tempo.
â Demoraram demais! O dragĂŁo e o povo das cavernas jĂĄ voltaram para casa! Azar o de vocĂȘs! â gritou Liz.
Parece que Luke nĂŁo esperava ouvir isso.
â O quĂȘ?! Krai, me diga para onde eles foram!
â Azar o seu! Krai Baby jĂĄ cuidou disso!
Essa realmente era a primeira coisa que vocĂȘ tinha para me dizer, Luke? E eu nĂŁo cuidei disso. Se vocĂȘ quer o povo das cavernas, hĂĄ um reino inteiro deles.
Palavras falharam em capturar a expressĂŁo jĂĄ irritada de Lucia ao ouvir a voz de Liz.
Então, notei dois humanos no chão. Um estava com o rosto na terra, o outro em uma poça de sangue.
Luke, vocĂȘ acabou de sair de um cofre do tesouro!
Corri até eles. Um não tinha ferimentos notåveis, mas o mais forte dos dois havia perdido o braço direito.
â Luke! O que vocĂȘ estĂĄ fazendo cortando civis?! Eu te disse para pelo menos pegar leve e usar uma espada de madeira!
â Eu usei uma espada de madeira.
Isso Ă© ainda pior!
Tomei cuidado para não pisar em nenhum dos sapos enquanto me aproximava. Ajoelhei-me ao lado do homem maior e virei sua cabeça para mim. Não achei que conseguiria virå-lo completamente. Ele tinha um rosto robusto, mas isso não significava que não poderia ser um dos cidadãos. Talvez fosse um guarda? Felizmente, ele ainda parecia consciente apesar da perda de sangue e olhou para mim com olhos vazios.
A essa altura, tudo o que eu podia fazer era me desculpar.
â Sinto muito. Estou sempre dizendo para o Luke nĂŁo sacar a espada a menos que tenha um bom motivo. Ansem, vocĂȘ pode curĂĄ-lo?
Por algum motivo, Ansem apenas observava em silĂȘncio. Atacar civis era algo muito, muito ruim. NĂŁo tĂnhamos incidentes recentes, entĂŁo acabei ficando complacente.
â Entendi â disse Luke com um gemido. â Se vocĂȘ pode curĂĄ-los, entĂŁo pode continuar se divertindo! Achei uma pena nĂŁo ter visto aquele machado em ação. VocĂȘ Ă© um gĂȘnio, Krai.
VocĂȘ esqueceu sua humanidade naquele cofre do tesouro?
Eu havia confiscado sua espada de verdade, mas ele ainda não tinha aprendido a lição.
â Eu nĂŁo estou sempre te dizendo para tentar se comunicar primeiro?! VocĂȘ tentou?
Luke desviou o olhar.
â Claro que tentei â disse ele em voz baixa.
Tradução: Carpeado Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â Clicando Aqui
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