Grieving Soul – Capítulo 1 – Volume 5

Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 05

CapĂ­tulo 1:
[Capricho das Águas Termais]


Não hå nada melhor do que férias. Com todos os meus agressores para trås, rolei no chão e apreciei o quão maravilhosa era a tranquilidade. No fundo, eu era tanto um pacifista quanto um preguiçoso que não queria se mover mais do que o necessårio, mas frequentemente me encontrava no centro dos problemas.

O sol jå havia se posto, e eu continuava viajando nos pensamentos, até que Liz falou.

— Ei, hum, quer ir caçar um dragão das águas termais comigo? Ouvi falar sobre ele enquanto caminhava pela cidade. Aparentemente, há um ninho por perto.

— Hm? Acho que vou ficar por aqui.

E assim, minha paz foi interrompida. Estávamos em uma fonte termal, por que ela precisava sair exterminando monstros? E que tipo de nome sem criatividade era “dragão das águas termais”?

Nossa hospedaria era de alto nĂ­vel, voltada para mercadores, e isso se refletia em cada detalhe. Nosso quarto era grande, a cama era macia, e a comida era feita com os melhores ingredientes da terra e do mar.

A ågua da fonte vinha direto da nascente e nunca era reciclada. Havia uma grande piscina e, além disso, cada quarto possuía seu próprio banho ao ar livre. Se quisesse, poderia passar o dia inteiro sem sair do quarto. Por que diabos eu deveria sair para lutar contra um dragão das åguas termais logo no primeiro dia?

O colo da Sitri havia restaurado toda a minha energia perdida, mas eu planejava economizå-la para as åguas termais! Essa energia não era algo que eu pudesse desperdiçar com qualquer coisa!

— Ah, qual Ă©. Quantas vezes vocĂȘ tem a chance de lutar contra um monstro grande? Por que viemos aqui, afinal?

Sério? Acho que andamos enfrentando monstros grandes demais ultimamente.

Mesmo tendo passado o dia caminhando por Suls, minha pequena amiga de infĂąncia ainda estava cheia de energia. Liz fez um biquinho, agarrou meu braço e me sacudiu. Sem Luke e os outros, eu era sua Ășnica companhia, mas eu definitivamente nĂŁo queria esse papel. Se ela queria brincar com alguĂ©m, a Tino nĂŁo estava fazendo nada.

— Deixa eu deixar claro desde já: não pretendo fazer absolutamente nada de produtivo enquanto estiver aqui! Pelas próximas duas semanas, vou comer, tomar banho, dormir e esperar!

— Em outras palavras, vocĂȘ jĂĄ fez sua jogada? — Sitri perguntou.

— HĂŁ? Ah, Ă©… Aham. Exatamente. Tudo conforme o plano.

Deixo para Sitri a tarefa de me apoiar mesmo depois de eu dizer algo tão patético. Acho que dava para dizer que eu jå tinha feito minha jogada. Tivemos alguns percalços no caminho, mas minhas férias estavam indo conforme planejado.

EstĂĄvamos em uma fonte termal. Banhos quentes e luxuosos estavam ao alcance da mĂŁo. O que poderia ser mais importante do que isso? Eu ia esquecer Arnold, o Encontro da LĂąmina Branca, a missĂŁo nomeada, tudo. Deixaria tudo para o Krai do futuro resolver.

Em algum momento, Sitri havia trocado suas vestes de Alquimista por um yukata azul com um padrĂŁo floral. NĂŁo mostrava mais pele do que seu traje habitual, mas havia algo de revigorante e um tanto cativante nele, comparado ao seu equipamento volumoso de sempre. Sua postura era impecĂĄvel, e o yukata parecia ter sido feito sob medida para ela.

Sem dĂșvidas, Sitri tinha trabalhado mais do que qualquer um durante nossas fĂ©rias. Eu esperava que ela ao menos aproveitasse esse Ășltimo perĂ­odo para descansar.

Havia yukatas masculinos disponíveis, mas eu não podia usar um e manter todas as minhas Relíquias equipadas. Minha prioridade era me manter vivo. Eu até deixava meus anéis enquanto tomava banho.

Matadinho, por outro lado, optou por vestir um yukata e começou a fazer poses. A vestimenta não combinava muito com sua figura musculosa. Serå que ele era mais brincalhão do que eu imaginava?

— Siddy, quando foi que vocĂȘ trocou de roupa? E onde estĂĄ o meu? NĂŁo me diga que vocĂȘ acha que pode usar isso como uma chance de seduzir meu Krai Baby?

— A Ășnica pessoa aqui que faria isso Ă© vocĂȘ! AlĂ©m disso, quantas vezes tenho que te lembrar que ele nĂŁo Ă© seu? VocĂȘ pode pegar um yukata com os funcionĂĄrios da pousada, entĂŁo por que nĂŁo faz isso?

— Liz, se vocĂȘ vestir um yukata, nĂŁo vai conseguir sair por aĂ­ chutando as coisas — apontei.

Liz parecia hesitante. Deixando de lado a questão de precisar ou não chutar algo em uma fonte termal, ela sempre odiou usar roupas que restringissem seus movimentos. No entanto, sua discípula lançava olhares de ansiedade, como se quisesse experimentar um também.

— Parece que não há muitos hóspedes, então provavelmente teremos o lugar só para nós — Sitri disse.

— Isso Ă© bom de saber.

Eu nĂŁo me importava de ter outros clientes por perto, mas se estivesse sozinho, poderia nadar pela piscina!

Mas, mais importante, isso significava que Liz tinha menos chances de se meter em confusão. Liz e Sitri pareciam meninas adoråveis, então frequentemente recebiam abordagens em hospedarias. E então Liz espancava os infelizes. Claro, eles mereciam, mas eu preferia evitar essas situaçÔes se pudesse.

Foi entĂŁo que me lembrei de perguntar algo para Sitri.

— O que aconteceu com Preto, Branco e Cinza? Não os vi enquanto comíamos.

— Conforme suas instruçÔes, consegui um quarto para eles e eles devem estar recebendo refeiçÔes. Qualquer coisa alĂ©m disso nĂŁo Ă© problema meu.

Que resposta seca. Mas, se estamos na mesma hospedaria, provavelmente vou acabar esbarrando neles. Assim, poderei remover seus colares e deixĂĄ-los livres.

— Hum, Mestre, como eu estou? — Tino perguntou.

Ela reuniu coragem e girou sobre si mesma. Usava um yukata azul marinho e não tinha seus laços habituais. O tecido escuro contrastava lindamente com sua pele pålida. Ficou muito bom nela; Sitri deve ter ajudado a escolher a roupa.

Tino tinha dez anos quando a conhecemos pouco depois de chegarmos Ă  capital. Anos depois, eu ainda a via como uma criança, mas vĂȘ-la assim me fez reconsiderar. Com pequenas exceçÔes, seu corpo estava mais desenvolvido do que o da Liz. Quase me esqueci de que havia apenas quatro ou cinco anos de diferença entre nĂłs.

Diferente de Sitri, Tino não mostrava mais ou menos pele do que de costume, então por que ela parecia tão mais encantadora? A observei com atenção, o que a fez corar.

— Sim, vocĂȘ estĂĄ linda. Muito fofa — eu disse. — Tanto que Ă© uma pena que sĂł eu possa te ver assim.

Afinal, sou eu quem estĂĄ sempre te causando tantos problemas.

Meu elogio exagerado fez Tino ficar ainda mais vermelha, desviando o olhar. Seus lĂĄbios se apertaram, claramente satisfeita. Liz nĂŁo era do tipo que elogiava os outros, entĂŁo talvez eu devesse compensar isso.

— Ah, Mestre…

O vocabulĂĄrio de Tino parecia ter falhado.

— Krai, Tino pode ser fofa, mas isso nĂŁo justifica vocĂȘ ficar encarando — Sitri disse, colocando uma mĂŁo protetora entre mim e Tino.

MangĂĄ Let This Grieving Soul Retire! Volume 5 09 Online em PortuguĂȘs PT-BR

Era isso que eu estava fazendo? Eh, talvez Sitri tenha um ponto. Ela Ă© uma garota, estĂĄ em uma posição melhor para entender como Tino se sente. Ela tambĂ©m Ă© uma caçadora jĂșnior em relação Ă  Sitri, e as duas tĂȘm idades prĂłximas. Talvez se vejam como irmĂŁs?

— Ah, Siddy, eu realmente nĂŁo…

— VocĂȘ estĂĄ bem, T? Krai nĂŁo quer te deixar desconfortĂĄvel. Mas eu vou te proteger. AlĂ©m disso, Krai, antes de sair elogiando a T, nĂŁo tem nada para me dizer?

Vai falar na cara assim mesmo?

Ela estava brincando, mas seu ponto ainda era vålido. Só porque éramos amigos não significava que eu podia jogar a cortesia pela janela.

Olhei para Sitri novamente. Fileiras de flores brancas enfeitavam um tecido azul. Era uma boa combinação para alguĂ©m serena como ela. Sua aparĂȘncia era pura e delicada, mas ao mesmo tempo tinha um quĂȘ de sedução. Perfeita.

Caçadores de tesouros ficavam mais cativantes à medida que seus níveis aumentavam. O mana material fazia mais do que apenas fortalecer seus corpos e reservas de mana. Ele não alterava diretamente seus rostos, mas algo neles mudava. Existem algumas histórias sobre caçadores que valorizavam a beleza e desenvolveram encantos demoníacos que levaram reinos inteiros à ruína.

O funcionårio da pousada estava certo em me olhar estranho. Havia uma grande disparidade entre Sitri e alguém como eu, sem mana material algum. Se eu não tivesse me acostumado com a presença dela ao crescer ao seu lado, talvez tivesse me apaixonado completamente. Não que eu fosse bom o suficiente para ela.

Ainda assim, nosso clĂŁ tem um monte de rostos bonitos.

— Desculpa, desculpa. VocĂȘ estĂĄ muito bonita, Sitri. VocĂȘ fica bem na sua tĂșnica de sempre, mas isso tambĂ©m estĂĄ legal — falei, tentando aproveitar ao mĂĄximo meu vocabulĂĄrio limitado.

Ela era fåcil de admirar e tinha uma aura pura ao seu redor. Tenho certeza de que seu irmão mais velho, que tanto a mimava, teria adorado ter uma foto dela assim. A diferença entre nós dois era gritante.

Sitri me lançou um olhar desafiador. Deu um passo à frente até ficar bem na minha frente e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, envolveu os braços ao meu redor. Seu corpo ficou pressionado contra o meu.

— Siddy?!

— Essa Ă© a sua opiniĂŁo sincera? Eu sei quando vocĂȘ estĂĄ mentindo, Krai.

Senti algo macio contra o meu peito. Achei que podia sentir o coração de Sitri batendo atravĂ©s do tecido de sua tĂșnica. Se eu tivesse os sentidos de um caçador de tesouros, poderia ter certeza, mas, como sou agora, nĂŁo dava para saber se era o coração dela ou o meu. Algo tinha um cheiro doce, minha cabeça ficou quente e comecei a me sentir tonto. Ela me olhava com olhos cor-de-rosa translĂșcidos que pareciam me puxar para dentro.

Eu estava acostumado com contato físico por causa da Liz, mas com Sitri era algo estranho e desconcertante. Se isso era uma piada, era uma péssima. No fim das contas, eu era um homem.

Sem saber o que fazer, minhas mĂŁos ficaram penduradas inutilmente. Eu nĂŁo podia simplesmente empurrĂĄ-la.

Tino voltou a si e soltou um grito. Ela agarrou o braço de Sitri e tentou puxĂĄ-la para longe de mim. Moveu-se sem hesitação. Acho que Ă© isso que acontece quando vocĂȘ treina para lutar contra pessoas.

Tino conseguiu afastar Sitri com facilidade e olhou para mim com as bochechas infladas, uma expressĂŁo incomum para ela.

— Siddy, vocĂȘ nĂŁo pode fazer esse tipo de coisa! Eu vou contar para a Lizzy o que vocĂȘ fez! E vocĂȘ, Mestre! Logo depois de me elogiar desse jeito!

— E-Eu… aham…< /p>

Que vergonha, considerando que eu tinha acabado de te elogiar. Sinto muito mesmo. Vou te levar para comer bolo depois, entĂŁo me perdoe.

Sitri soltou um suspiro sedutor e assentiu satisfeita.

— Seu coração estava disparado, como deveria estar, então eu te perdoo por ficar encarando a Tino.

— É claro que estava disparado. E eu não estava encarando a Tino.

Qualquer homem faria o mesmo. Bem, acho que o Luke não faria. Mas ele dedicou sua alma ao caminho da espada e abriu mão de seus desejos mundanos, então podemos considerå-lo uma exceção.

Respirei fundo e tentei me acalmar, mas Sitri, sem cerimÎnia, agarrou meu braço esquerdo.

— Vamos para a fonte termal? — disse ela. — Não sabemos quando poderemos nos ver em outra batalha. E duvido que tenhamos sossego quando Lizzy voltar da busca pelo dragão da fonte termal.

Tino inflou as bochechas com raiva e agarrou meu braço direito.

— Mestre, não caia nas brincadeiras da Sitri! Seja o seu eu habitual e respeitável!

Quando Ă© que eu jĂĄ fui respeitĂĄvel?

Tino e Sitri eram tão bonitas que, tendo-as ao meu lado, eu poderia muito bem ficar convencido. Em qualquer outra situação, eu deveria me sentir abençoado em dobro, mas, por alguma razão, só me sentia extremamente desconfortåvel.

Acho que Ark sempre estava em situaçÔes assim. Só Deus sabe como ele conseguia manter um sorriso o tempo todo. Talvez isso também fosse uma questão de personalidade.

Hmm. Essa brincadeira da Sitri foi incomum para ela. Talvez o ambiente da fonte termal esteja fazendo ela relaxar? Acontece. NĂŁo Ă© algo ruim. Melhor eu apenas seguir o fluxo e aproveitar.

Sitri estava animada, Tino estava emburrada, e ambas seguravam um dos meus braços. Enquanto caminhåvamos até a fonte termal, eu me sentia como um criminoso escoltado por duas guardas.

***

Eles estavam em um quarto de uma pousada luxuosa, o tipo de lugar normalmente inacessĂ­vel para caçadores comuns. Um homem e uma mulher de aparĂȘncia dura cochichavam entre si em tom tenso.

— A gente vai mesmo fazer isso? — o homem disse, a voz tremendo.

Esse homem jĂĄ foi temido como um criminoso, mas agora estava suando frio.

Black imaginava que sua expressĂŁo devia estar igual Ă  dele. Mas, apesar do medo, eles nĂŁo podiam se dar ao luxo de hesitar mais.

— Se não fizermos nada, nossas vidas acabam aqui. Ou a gente age, ou morre! — disse ela para White.

— M-Mas o Mil Truques disse que ia nos deixar ir.

— NĂŁo seja idiota! VocĂȘ realmente acredita nisso? Ele disse que ia nos soltar, mas onde foi que ele nos trouxe?! Para o PalĂĄcio Noturno, isso sim. Um cofre de tesouros que atĂ© os caçadores mais loucos evitam! Droga.

Mesmo à distùncia, o Palåcio Noturno era mais aterrorizante do que os rumores conseguiam transmitir. Black sentiu como se seu coração tivesse parado só de olhar para ele. Se tivesse sido ordenada a entrar naquele cofre do tesouro, teria preferido pular da carruagem e fugir. Provavelmente teria sido morta por isso, mas valeria o risco. Black, White e Gray eram caçadores razoavelmente competentes, mas não havia nada que pudessem fazer contra um lugar como o Palåcio Noturno.

A jornada que foram forçados a fazer havia sido brutal. Tiveram que conduzir a carruagem e vigiar monstros. Nas cidades, não lhes foi permitido descansar e tiveram que vigiar Drink e a carruagem. Na floresta, foram obrigados a enfrentar todo tipo de criatura. Até mesmo um caçador de Nível 7 os perseguiu.

Muitas vezes pensaram que seria melhor morrer do que continuar assim, mas aquele cofre do tesouro era algo completamente diferente. Mesmo depois de viajar com o Mil Truques, nĂŁo faziam ideia do tipo de poder que ele possuĂ­a. Mas Black, White e Gray concordavam em uma coisa: aquele homem era insano.

Aquilo era um “descanso”, mas no sentido de um NĂ­vel 8. NĂŁo era algo que pudessem acompanhar.

Eles estavam em uma cidade que parecia ser um vilarejo de ĂĄguas termais, mas o Mil Truques disse que haviam cumprido apenas metade de seus objetivos. DifĂ­cil de acreditar, mas muito provĂĄvel que Black, White e Gray fossem se envolver em algo ainda pior do que tudo o que jĂĄ haviam passado. Afinal, lĂĄ na floresta, um daqueles lunĂĄticos mencionou que eles ainda eram Ășteis vivos.

Foi entĂŁo que Gray entrou no quarto. Seu rosto estava completamente sem vida. Ele nunca teve uma aparĂȘncia saudĂĄvel para começo de conversa, mas agora parecia quase um cadĂĄver. Seu rosto se contorceu ao ouvir a proposta de Black.

— Eu… estou fora — ele disse.

— O quĂȘ?! Se vocĂȘ ficar, Ă© uma morte lenta e certa!

— Eu nĂŁo acho que consigo enfrentar aqueles caras. NĂŁo se preocupem, nĂŁo direi uma palavra sobre o que vocĂȘs estĂŁo planejando.

— Desde quando vocĂȘ virou um covarde?!

Gray deu de ombros e saiu do quarto. Isso foi inesperado.

Black, White e Gray eram mais ou menos igualmente habilidosos, mas se fosse para escolher, Gray provavelmente era o mais inteligente dos trĂȘs. E, ainda assim, o homem que Black e White acabaram de ver nĂŁo demonstrou um pingo de coragem ou vontade de resistir. Talvez ele nem voltasse Ă  vida de crimes, mesmo que conseguisse voltar para casa vivo.

— O que fazemos? — perguntou White.

— Jogamos com as cartas que temos. Não temos escolha. Talvez eles baixem a guarda se um de nós ficar para trás — respondeu Black.

Eles não precisavam se preocupar com uma traição; seus captores não eram do tipo que recompensaria Gray por isso.

Gray ter desistido foi um contratempo inesperado, mas eles jå tinham um plano. Não tinham a intenção de lutar contra o Mil Truques. Mesmo que o pegassem de surpresa, ele poderia aniquilå-los com o dedo mindinho.

A Ășnica coisa ainda impedindo sua fuga eram os colares. DestruĂ­-los seria difĂ­cil, e eles poderiam ser eletrocutados nĂŁo importava o quĂŁo longe corressem. Era uma verdadeira prisĂŁo invisĂ­vel.

No começo, o Ignóbil tinha a chave, mas agora estava nas mãos do Mil Truques.

— Eles disseram que ficaremos aqui por uma ou duas semanas. Acho que devemos agir cedo. Vamos conseguir. Temos que conseguir. Eles nĂŁo estĂŁo de olho na gente agora. Essa Ă© nossa chance.

— Entendido.

Eles nĂŁo sabiam muito sobre o Mil Truques. Sabiam que ele tinha uma aparĂȘncia inofensiva, raramente trabalhava, dizia coisas patĂ©ticas o tempo todo, estava sempre com a guarda baixa e nĂŁo era minimamente intimidador. E, ainda assim, todos faziam questĂŁo de ficar fora do caminho dele. Talvez ele estivesse apenas fingindo, mas havia uma coisa que sĂł Black, White e Gray sabiam.

— O Mil Truques estĂĄ se tornando complacente. Ele nĂŁo estĂĄ de olho na gente e roubar faz parte da nossa vida. Quando se trata dessa chave, Ă© melhor que ele tenha do que a IgnĂłbil.

Sitri, aquela mulher aterrorizante, sabia perfeitamente a vantagem esmagadora que tinha, mas nunca mostrou a chave para eles. Eles nunca tiveram a menor ideia de onde ela a guardava. Mas isso era o certo a se fazer ao controlar escravos.

PorĂ©m, o Mil Truques era diferente. Ele era autoritĂĄrio, mas tambĂ©m exibia um tipo de “generosidade” que sĂł se pode oferecer quando se estĂĄ no controle. Ele mostrou a chave bem na frente de Black, White e Gray. Talvez quisesse acabar com qualquer plano de fuga logo no inĂ­cio. Talvez realmente planejasse libertĂĄ-los.

De qualquer forma, eles tinham uma boa ideia de onde ele guardava a chave—ele a carregava consigo. Se esse fosse o caso, tinham certeza de que poderiam roubĂĄ-la. Afinal, ele nĂŁo prestava atenção neles, nĂŁo mais do que alguĂ©m prestaria atenção em um inseto no chĂŁo.

O Mil Truques era esmagadoramente poderoso. Mesmo que não tivessem os colares, não conseguiriam derrubå-lo. Mas aquele homem ainda era humano, não algum deus infalível. Isso significava que ainda havia esperança para eles. Felizmente, estavam em uma fonte termal. Havia vestiårios.

— Verifiquei as trancas dos armários — sussurrou White. — São um pouco complexas. Consigo abri-las, só preciso de um minuto. Eles não se preocupam com roubo de roupas nesses lugares chiques.

— Certo. Vamos fazer isso.

Estavam enfrentando um demĂŽnio, mas isso nĂŁo significava que Black e White simplesmente ficariam parados esperando serem esmagados. Ao se levantarem, os dois tentaram esconder o medo com sorrisos distorcidos.

***

Eu estava completamente sozinho no vestiĂĄrio da ĂĄrea principal do banho. Parecia que realmente nĂŁo havia outros hĂłspedes na pousada. Tudo parecia incrivelmente luxuoso.

Comecei a assobiar uma melodia enquanto caminhava até os armårios. Caçadores experientes nunca negligenciavam preparaçÔes detalhadas. Eu sabia disso, mesmo não estando entre eles. Eu era fraco, para dizer o mínimo. Sem minhas Relíquias, eu era apenas um cara normal, então raramente as removia, a menos que estivesse no meu próprio quarto. Isso não mudava só porque eu estava de férias.

NĂŁo era agradĂĄvel entrar em uma fonte termal com um monte de RelĂ­quias tilintando, mas eu nĂŁo tinha escolha. Se Luke e Ansem estivessem por perto, eu poderia reduzir a quantidade de RelĂ­quias ao mĂ­nimo, pois eles me protegeriam. Mas, estando sozinho, nĂŁo podia me dar a esse luxo.

— Pode haver ladinos por aí — murmurei para mim mesmo como justificativa.

Tirei as Relíquias que usava sobre a roupa e, em seguida, me despi. Manter a Corrente Farejadora na cintura seria desconfortåvel, então a ativei. Ela se posicionou como se estivesse sentada, imitando um cão. Meus dedos tinham espaço limitado, então eu costumava guardar os anéis extras em uma bolsa. Peguei esses anéis e os pendurei na Corrente Farejadora. Relíquias semiautomåticas eram realmente convenientes em momentos como esse.

Pulseiras, colares, pingentes, diademas—todos foram para a Corrente Farejadora nessa ordem. Em seguida, peguei o chaveiro que carregava na cintura. Todas aquelas chaves tambĂ©m eram RelĂ­quias. RelĂ­quias do tipo chave eram bastante populares.

Ao vasculhar meus bolsos, encontrei uma chave dourada. Demorei um instante para lembrar que era para os colares de Black, White e Gray. Pensei em levĂĄ-la comigo, mas a chave nĂŁo era feita de material de mana. RelĂ­quias nĂŁo enferrujavam e raramente eram afetadas pelo ambiente. Mas uma chave de metal poderia enferrujar, e nĂŁo vi motivo para carregĂĄ-la comigo.

Coloquei a chave no armĂĄrio, peguei uma toalha e segui para a ĂĄrea de banho com minha Corrente Farejadora. A maioria das fontes termais nĂŁo permitia animais nos banhos, mas a Corrente Farejadora era mais corrente do que cĂŁo, entĂŁo achei que estaria tudo bem. Por outro lado, eu realmente nĂŁo tinha certeza se era permitido entrar com uma corrente.

Abri uma porta de vidro fosco e fui envolvido por uma onda de vapor denso e pelo cheiro caracterĂ­stico das fontes termais. Dei uma boa olhada ao redor enquanto caminhava pelo chĂŁo de mĂĄrmore. Minha Corrente Farejadora agitava a cauda coberta de RelĂ­quias enquanto me seguia.

A årea principal do banho era uma verdadeira obra de arte. Não era excepcionalmente grande, mas dava para ver que cada detalhe, do chão ao teto, havia sido cuidadosamente planejado. A variedade de instalaçÔes e sua qualidade eram impecåveis, sem espaço para reclamaçÔes, mesmo para um maníaco por fontes termais como eu. Não havia um espaço para lavar sangue, mas essa não era uma pousada para caçadores, então isso era normal.

Mesmo na årea de banho, não vi nenhum outro hóspede. Nem nos chuveiros, nem na banheira. Era uma apresentação solo de Krai Andrey. Se ninguém mais, pelo menos Black, White e Gray deveriam estar na pousada. Talvez estivessem apenas descansando no quarto?

Acenei levemente com a mĂŁo enquanto caminhava sem rumo pela borda da banheira. SĂł de me livrar do peso extra sobre os ombros, jĂĄ me sentia revigorado.

Na banheira, a ågua quente jorrava da boca de uma eståtua em forma de dragão. As paredes eram decoradas com um relevo que era completamente incompreensível para alguém como eu, que não tinha o menor interesse por arte. Infelizmente, a banheira não era grande o suficiente para nadar, mas isso não me incomodava. Eu jå tinha idade suficiente para achar infantil nadar só porque não havia mais ninguém por perto.

— Isso Ă© perfeito. Tem atĂ© um banho ao ar livre.

Tomei uma decisão. Quando me aposentasse, me mudaria para Suls. Caminhei até uma parede de vidro e, sem muito propósito, lancei um olhar para o banho ao ar livre.

Imerso na banheira esculpida em pedra estava um dragĂŁo de um azul-celeste brilhante.

MangĂĄ Let This Grieving Soul Retire! Volume 5 10 Online em PortuguĂȘs PT-BR

— Hã?

Esfreguei os olhos e olhei de novo, mas o dragĂŁo ainda estava lĂĄ.

No geral, ele tinha um contorno arredondado e elegante. Olhos grandes e dĂłceis. Tinha cerca de trĂȘs metros de altura, o que era pequeno para um dragĂŁo. A ĂĄgua quente transbordava da banheira. Grandes gotas espirravam contra a parede de vidro enquanto o dragĂŁo sacudia as asas e balançava o rabo de prazer.

Minha Corrente Farejadora corria em cĂ­rculos selvagens ao meu redor. Provavelmente estaria latindo, se pudesse. Fiquei parado, atordoado por um momento, antes de decidir fingir que nĂŁo tinha visto nada.

Fui para os chuveiros e tomei meu tempo enxaguando o corpo da cabeça aos pés. Meu coração ainda estava disparado. Era uma sensação diferente daquela que eu sentia quando Sitri se encostava em mim.

Colocar um dragĂŁo em um banho. NĂŁo dĂĄ para entender os gostos dos ricos.

Depois que meu corpo estava completamente limpo, olhei de relance para o banho ao ar livre a uma distñncia segura. Vi a silhueta vaga de algo azul. É claro que ainda estava lá.

Pensei no que fazer enquanto me afundava lentamente na ågua. Era bem quente, mas isso era até melhor. Meu corpo começou a relaxar, como se meu cansaço estivesse se dissolvendo na ågua. Coberta de Relíquias, minha Corrente Farejadora permanecia lealmente ao meu lado.

Mas tudo em que eu conseguia pensar era no dragão. Eu tinha vindo até esse resort para aproveitar as åguas termais, e agora nem podia desfrutar direito. Jå tinha visto todo tipo de dragão, mas aquele era novidade para mim. Simplesmente não fazia sentido. Ninguém acreditaria se eu contasse. Até eu estava começando a duvidar da minha sanidade.

Continuei de molho na ågua quente, lançando olhares ocasionais para o banho ao ar livre, mas o dragão não parecia que iria embora. Isso era frustrante. Com ele ali, eu não conseguia relaxar. Talvez eu devesse ter trazido o Matadinho comigo. Mas isso também teria sido desconfortåvel de outra maneira.

Então um pensamento me ocorreu. Talvez eu pudesse me juntar ao dragão? Pensando bem, não havia como uma criatura perigosa entrar nos banhos de um resort de alto nível. A ågua quente jorrava da boca de uma eståtua de dragão dentro do lugar. Talvez dragÔes fossem uma espécie de símbolo desse local?

Banho com dragÔes, é isso? Acho que prefiro banhos normais.

Vi o pescoço do dragĂŁo emergindo da ĂĄgua. Parecia bastante confortĂĄvel. Eu nĂŁo sabia nada sobre expressĂ”es faciais de dragĂ”es, mas ele parecia relaxado. O bicho era um pouco grande, mas ainda havia bastante espaço; eu caberia lĂĄ facilmente, se quisesse. JĂĄ passei por todo tipo de experiĂȘncia, mas tomar banho com um dragĂŁo seria uma novidade. NĂŁo que eu jĂĄ tivesse sentido vontade de fazer isso.

Talvez seja melhor desistir do banho ao ar livre.

Estamos falando de um dragão, e eu não tenho material de mana e não machuco nem uma mosca. Mesmo que ele não tivesse intenção de me ferir, um simples esbarrão poderia me jogar longe.

Depois de um tempo com a ågua quente até o pescoço, comecei a sentir tontura. Tinha me esquecido completamente dos meus planos de visitar a sauna. Agora não dava mais tempo para isso.

Deveria entrar na ĂĄgua com o dragĂŁo ou nĂŁo? Posso? É seguro? É perigoso? NĂŁo. Vamos pensar no lugar dele. Eu sou um dragĂŁo. Estou relaxando em uma fonte termal e um humano aparece para tomar banho. O humano Ă© fraco. Diferente daqueles caçadores monstruosos, esse aqui nĂŁo tem poderes especiais. Eu sou um dragĂŁo. A chance de que esse humano possa me machucar Ă© praticamente zero.

Eu realmente me daria ao trabalho de atacar sob essas circunstĂąncias? NĂŁo.

Com a mente resolvida, me levantei. Certamente o dragĂŁo fazia parte do resort. Como um mascote. NĂŁo havia nada a temer. Mostrar medo sĂł tornaria tudo pior.

Abri a porta do banho ao ar livre e fiquei diante do dragão com os braços cruzados, assumindo uma postura ousada e assertiva. Então, sem motivo algum, o dragão me acertou e me lançou pelos ares. Atravessando a parede de vidro, fui parar na banheira principal. Meus Anéis de Segurança impediram que eu sofresse qualquer dano do impacto ou dos estilhaços de vidro.

O dragĂŁo azul-celeste me encarava, seus olhos dĂłceis brilhando de um jeito que nĂŁo deveria ser possĂ­vel. Minha Corrente Farejadora ficou na minha frente, como se tentasse me proteger.

Eu estava confuso, mas ainda assim consegui soltar um grito estridente.

— SITRIII! TEM UM DRAGÃO! TEM UM DRAGÃÃÃO!

Eu estava errado. Parecia tĂŁo tranquilo que pensei que fosse um dragĂŁo especial, mas era sĂł uma fera selvagem.

***

Ela não pÎde se conter. Com os olhos brilhando, deixou escapar um suspiro ao admirar a paisagem à sua frente. Tino Shade tinha saído poucas vezes da capital imperial. Estava sempre ocupada treinando, e a maioria das missÔes que aceitava não exigia que ela fosse além dos muros da cidade.

Caçadores gastavam mais dinheiro com equipamentos do que com hospedagem, e ela nunca tinha ficado em uma pousada que atendesse alguém além dos caçadores. Também era a primeira vez que via uma fonte termal tão grande. Muita coisa aconteceu desde que saiu da capital, mas ver aquele lugar a fez se sentir feliz por ter vindo nessa viagem.

Até mesmo o vestiårio, iluminado de forma aconchegante, a fazia se sentir um pouco desconfortåvel. Virou-se para Siddy e, hesitante, fez a pergunta que não saía da sua cabeça.

— Hum, Siddy, sobre o preço…

— Ah, nĂŁo precisa se preocupar com isso, T. NĂŁo seja tĂ­mida, nĂłs ganhamos muito mais que vocĂȘ. Na verdade, se vocĂȘ se preocupasse com isso, estaria mostrando falta de confiança em nĂłs.

As palavras de Siddy eram despreocupadas, mas carregavam uma confiança que não admitia recusas.

— M-Muito obrigada — disse Tino.

Siddy tinha razão. Tino era uma caçadora intermediåria, mas um grupo famoso como os Grieving Souls poderia facilmente ter uma renda centenas de vezes maior que a dela.

Lizzy tinha saĂ­do para procurar o dragĂŁo da fonte termal, entĂŁo sĂł restavam Siddy e Tino no vestiĂĄrio. Tino hesitou. De certa forma, achava Siddy ainda mais assustadora do que Lizzy. Mas Siddy parecia tranquila enquanto desfazia a faixa de seu robe.

— Tenho certeza de que vocĂȘ estĂĄ bem cansada, T. Certifique-se de descansar bem — disse ela com uma voz gentil. — Nunca se sabe quando algo pode acontecer.

— O-Okaaay — respondeu Tino, lançando um olhar para Siddy.

Ela desfez o robe. Tino jå tinha se despido na frente de Lizzy muitas vezes, mas nunca na frente de Siddy. Um pouco envergonhada, tirou a roupa apressadamente, mas Siddy não demonstrou nenhuma hesitação. O que viu fez os olhos de Tino se arregalarem e ela prendeu a respiração.

Siddy era muito bonita.

Tino jĂĄ tinha visto Lizzy sem roupa antes. Lizzy tinha uma personalidade extravagante, um jeito despreocupado de viver e frequentemente tomava banho em riachos de montanha sĂł de roupa Ă­ntima. Seu corpo era impecĂĄvel, sem um grama de gordura em excesso. Sua pele bronzeada tinha uma beleza selvagem.

Mas Siddy era diferente. Tino nĂŁo sabia bem o que esperar, jĂĄ que Siddy sempre usava um robe grosso. Ainda assim, sua silhueta a surpreendeu. Sua pele era branca como a neve e sem uma Ășnica imperfeição. Era esguia, mas com curvas femininas bem definidas. Se havia uma coisa na qual Tino superava Lizzy, era no tamanho dos seios, mas Siddy as superava ambas nesse quesito. Era estranho pensar que as duas eram irmĂŁs.

O trabalho de um Ladino exigia talentos diferentes dos de um Alquimista; era natural que seus corpos fossem distintos. Ainda assim, o pequeno sentimento de superioridade que Tino tinha sobre Lizzy foi esmagado pela figura de Siddy.

— O que foi, T?

— N-Nada. Seu equipamento realmente esconde seu corpo, nĂŁo Ă©?

Siddy conteve uma risadinha e olhou para Tino com um olhar perspicaz. Envergonhada, Tino queria cavar um buraco e se enfiar nele. Ela ainda estava crescendo, mas sentiu que poderia desistir de superar Siddy nesse aspecto. Se ao menos houvesse algo que pudesse fazer a respeito…

Por um breve momento, a imagem de Evolve Greed, a mĂĄscara que recebeu de seu mestre, passou por sua mente. Ela afastou o pensamento. Cobrindo-se o mĂĄximo possĂ­vel com uma toalha, fechou seu armĂĄrio. Mas entĂŁo percebeu que Siddy estava fazendo algo.

— HĂŁ, isso Ă© para…?

Ela piscou ao ver o que Siddy estava fazendo.

Siddy estava prendendo cintos com frascos de poçÔes em seus braços. Os líquidos coloridos dentro deles eram diferentes dos que Tino usava em cofres de tesouro. Com os olhos arregalados, ela observou as estranhas preparaçÔes de Siddy antes do banho.

— NĂŁo preciso te lembrar como Lizzy sempre mantĂ©m RaĂ­zes do Ápice por perto o tempo todo — disse Siddy com um sorriso suave. — Caçadores precisam estar preparados para o combate a qualquer momento.

— Então, hã, algo vai acontecer?

— Talvez. Talvez nĂŁo. Parte da preparação Ă© aceitar ambas as possibilidades.

— E-Eu entendo…

Sem saber se realmente tinha entendido ou não, Tino forçou-se a aceitar as palavras de Siddy como verdade. Nunca tinha visto alguém se preparar de forma tão minuciosa. Mas Siddy era muito mais inteligente que ela, então certamente não estava enganada. Provavelmente era algo normal entre grupos de elite. Sem mencionar que Siddy era uma Alquimista, e Alquimistas lutavam com itens. Talvez ela simplesmente precisasse estar sempre armada?

Siddy pegou um Ășltimo item: uma pistola d’ĂĄgua cor-de-rosa.

— Obrigada por esperar — disse ela com um sorriso cativante. — Vamos? Eu gostaria muito de bater um papo com vocĂȘ, T.

Seguindo Siddy, Tino entrou timidamente pela porta. Uma agradåvel onda de vapor a envolveu. Assim como a hospedaria, os banhos eram diferentes de tudo que jå tinha visto. O chão era feito de pedras lisas e era agradåvel caminhar descalça sobre elas. Gravuras sutis, mas intricadas, adornavam as paredes, e uma banheira grande o suficiente para vårias pessoas estava cheia de ågua cristalina.

Tino e Siddy eram as Ășnicas presentes; o Ășnico som no ambiente era o da ĂĄgua fluindo, ecoando pelo teto alto. Isso lhe deu uma estranha sensação de liberdade. Com as palavras de Siddy ainda em mente, ela estreitou os olhos e analisou o banho ao ar livre, mas ele tambĂ©m estava vazio.

A higiene era um problema constante para caçadores em movimento. Geralmente, as opçÔes se limitavam a se limpar com uma toalha Ășmida ou a se banhar em uma fonte natural, se houvesse uma disponĂ­vel. O mana material impedia que os caçadores ficassem muito sujos, mas nĂŁo evitava o acĂșmulo de estresse. Para alguĂ©m que ainda estava tensa depois de atravessar uma cadeia de montanhas recentemente, aquela fonte termal era como um pedaço do paraĂ­so.

EntĂŁo Ă© assim que o luxo se parece, pensou Tino. Mas nĂŁo posso me acostumar a ser mimada pelo Mestre.

Ela foi até os chuveiros, onde encontrou uma grande variedade de sabonetes perfumados. Provavelmente eram normais para garotas nobres e filhas de mercadores ricos. Com um pouco de expectativa, pegou alguns e os cheirou. Seu sabonete habitual era do tipo que mascarava o cheiro do corpo, algo essencial para um Ladino. Mas não havia mal nenhum em experimentar algo perfumado de vez em quando.

Ela se sentou, mas, quando estava prestes a ensaboar-se, ouviu uma voz atrås dela. Um braço esguio surgiu bem diante de seus olhos. Entre os dedos finos e prateados como pequenos peixes, havia um frasco de vidro contendo um líquido roxo-claro.

— Aqui, T, este sabonete serĂĄ muito mais… atraente para Krai do que qualquer variedade comum.

— Hã?

Tino se virou. Siddy sorria enquanto olhava para ela.

Era óbvio que Siddy se importava profundamente com Krai. Talvez não como uma amante, mas os dois definitivamente compartilhavam um laço profundo. O que a motivaria a estender a mão para uma mera discípula?

— Quer experimentar? Estou sempre sintetizando mais. Mas se nĂŁo estiver interessada, acho que tudo bem tambĂ©m.

Que tentação maldosa. Tino nĂŁo sabia por que Siddy criaria algo assim, mas sabia que ela nĂŁo mentia sem motivo. E suas poçÔes eram de qualidade tĂŁo alta que qualquer um da Primeiros Passos poderia confirmar. Mas, se ela estava sempre sintetizando mais… isso significava que ela sempre usava aquilo?

As bochechas de Tino coraram, e ela se encolheu um pouco. No fundo, ela queria. Queria experimentar o sabonete. Queria mais do que tudo receber o elogio de seu mestre. Ele talvez não pensasse muito nela, mas agora, bem diante de seus olhos, havia um meio de chamar sua atenção.

Mas as palavras não saíam de sua boca. Com uma sensação ardente de agitação, ela abaixou o olhar. Siddy sorriu e se sentou atrås de Tino. Não era como se estivesse expondo as costas para um inimigo, mas mesmo assim, um arrepio estranho percorreu sua espinha.

— Isso mesmo. VocĂȘ estĂĄ cansada, nĂŁo estĂĄ? Aqui, eu lavo vocĂȘ — disse Siddy com uma voz gentil e reconfortante. — Apenas relaxe e deixe suas preocupaçÔes sumirem. Fique tranquila, sou muito boa com massagens. SĂł nĂŁo tire sua atenção de mim.

Isso era ruim. Muito ruim. Sinos de alerta soavam na cabeça de Tino. Ela não conseguiu conter um pequeno grito quando as pontas dos dedos de Siddy roçaram em seu ombro. Seu coração batia como um tambor. Ela precisava fugir, mas suas pernas não obedeciam. E mesmo que corresse, de que adiantaria?

Esse era um perigo diferente de qualquer outro que jĂĄ havia enfrentado. Ela percebeu que tinha tomado a decisĂŁo errada ao vir ali. No espelho Ă  sua frente, Tino podia ver um sorriso nos lĂĄbios de Siddy, mas seus olhos eram frios como os de um cirurgiĂŁo.

Ela deveria ter recusado. Deveria ter dito que nĂŁo precisava de sabonete (um sabonete que Siddy, sem dĂșvida, fizera para seus prĂłprios propĂłsitos) e ter negado de forma categĂłrica, olhando para ela como se fosse louca.

As manobras astutas de Siddy eram muito mais assustadoras do que os acessos de violĂȘncia de Lizzy. Tino tentou se levantar, mas uma mĂŁo a pressionou para baixo, mantendo-a no lugar. Com apenas a mĂŁo direita, Siddy removeu a tampa de um pequeno frasco de vidro. Um lĂ­quido roxo espesso oscilava dentro dele. Siddy despejou um pouco na mĂŁo e estendeu-a em direção Ă s costas trĂȘmulas de Tino. Assim que seus dedos estavam prestes a tocar a pele dela, ouviram um grito.

— SITRIII! TEM UM DRAGÃO! TEM UM DRAGÃAAO!

— Um dra…gĂŁo?

Diante de um perigo iminente, a ansiedade de Tino atingiu nĂ­veis extremos ao ouvir aquelas palavras que soavam como um resgate. Elas nĂŁo faziam sentido para ela, mas as mĂŁos de Siddy pararam, seu sorriso desapareceu e ela soltou um breve suspiro. Rapidamente, lavou as mĂŁos.

— Ora, o que serĂĄ que estĂĄ acontecendo lĂĄ? — disse para uma Tino muito aliviada. — Esse Ă© o banho masculino, mas nos chamaram, e isso significa que devemos ir. Pelo que me lembro, o caminho mais rĂĄpido Ă© pelas termas ao ar livre.

— Hã? Ah, tá. Huuuh?

Como poderia haver um dragão ali? Eram considerados as mais poderosas criaturas míticas que existiam. Sua força variava, mas até mesmo os mais fracos podiam trucidar um humano com facilidade. Deveria haver um pùnico generalizado no momento em que um dragão sequer se aproximasse da cidade.

Tino ainda estava confusa, mas qualquer coisa parecia melhor do que deixar Siddy lavå-la, então se levantou e seguiu a Alquimista. As termas ao ar livre ficavam na mesma direção dos banhos masculinos, separadas por um muro alto e resistente.

Foi entĂŁo que algo ocorreu a Tino.

— Siddy! Estamos nuas!

— E o que tem isso? Isso atrapalha seus golpes?

— Isso—

Tino parou diante daquela objeção inesperada, mas perfeitamente lógica. Siddy não perdeu tempo, pegou uma poção presa ao cinto de seu braço e a arremessou contra a parede.

***

Isso nĂŁo fazia o menor sentido. Ser atacado por um dragĂŁo em uma fonte termal definitivamente estava entre as dez experiĂȘncias mais bizarras da minha vida. E ainda por cima dentro de uma cidade movimentada. O que a segurança da pousada estava fazendo para um dragĂŁo conseguir entrar?

Não fiquei exatamente surpreso ao ver que ele não estava satisfeito em apenas me arremessar para longe. O dragão emergiu do banho e veio em minha direção, abrindo as asas de forma ameaçadora. Mesmo sendo pequeno, um dragão ainda era um dragão. A visão de suas asas abertas era bem intimidadora.

Pensando bem, foi tolice minha imaginar que uma fonte termal adotaria um dragão. Eu deveria ter percebido isso antes de tentar entrar no banho ao ar livre. Acho que a tentação do banho quente me venceu.

Andando sobre duas patas, o dragão pisou nos cacos de vidro espalhados pelo chão e entrou na årea interna do banho. Devia ser um dragão muito extravagante para querer comer e tomar banho ao mesmo tempo. Decidi que, se o pessoal da pousada me perguntasse sobre minha estadia, eu diria que precisavam de vidraças mais resistentes na årea dos banhos. Isso, claro, se eu saísse vivo dali.

Com esforço, me levantei e consegui manter uma certa distĂąncia entre mim e o dragĂŁo. Meus AnĂ©is de Segurança ainda estavam por perto, mas eram inĂșteis a menos que alguĂ©m viesse lutar contra o monstro. Minha Corrente Perseguidora bravamente se colocou Ă  minha frente, mas, infelizmente, tinha quase nenhum poder de ataque.

A parte racional do meu cérebro me dizia para correr para dentro da pousada o mais råpido possível. Mas, se eu fizesse isso, o dragão me seguiria. Não queria ver um prédio tão bonito ser destruído e, como caçador (ainda que no sentido mais båsico da palavra), queria evitar que civis fossem feridos. Além disso, um dragão não era algo do qual se podia simplesmente fugir.

Eu tinha chamado por Sitri e tinha certeza de que ela viria correndo. Enquanto o dragĂŁo se aproximava lentamente, estendi as palmas das mĂŁos. Me acalmei e tentei ganhar tempo.

— Relaxa, dĂĄ uma olhada! Veja todas essas RelĂ­quias que estou usando! Se vocĂȘ me comer, elas vĂŁo ficar entaladas na sua garganta, e vocĂȘ nĂŁo quer isso.

Que tentativa de negociação patĂ©tica. Certamente entrou para o meu “Top Dez das NegociaçÔes Mais Vergonhosas da Minha Carreira.” Enquanto eu começava a perder a noção da realidade, o dragĂŁo abriu a mandĂ­bula como se fosse soltar um “rugido.” Sua boca estava repleta de presas afiadas como adagas. Esse monstro estava aproveitando um banho relaxante, mas ainda tinha todas as caracterĂ­sticas tĂ­picas de um dragĂŁo. Que piada cruel.

Olhei ao redor. EstĂĄvamos em uma fonte termal, entĂŁo, Ă© claro que nĂŁo havia nada que pudesse ser usado como arma. E mesmo que houvesse, eu nĂŁo teria como fazer muita coisa com isso. Tudo o que eu via eram banhos quentes que eu nem sequer tinha conseguido aproveitar ainda.

Sem opçÔes melhores, entrei na ågua. O dragão inclinou a cabeça, como se estivesse observando algo muito confuso. O gesto estranhamente humano me fez rir alto.

Eu estava completamente desesperado. O dragĂŁo entrou lentamente no banho e começou a me encurralar. NĂŁo deu a menor atenção Ă  minha Corrente Perseguidora, que se enrolou em uma de suas asas. Centenas de pessoas ganhavam a vida como caçadores, mas eu tinha quase certeza de que era o Ășnico que jĂĄ havia tomado banho com um dragĂŁo. Eu definitivamente iria me gabar disso quando voltasse para a capital.

Então, meu devaneio bobo foi interrompido por um clarão repentino do lado de fora. Por um momento, tudo o que vi foi uma luz branca. Os cacos de vidro restantes foram arremessados para longe, e um estrondo sacudiu meu corpo. Uma onda se formou no banho e desabou sobre minha cabeça.

Esfreguei a ågua do rosto e abri os olhos. O dragão estremeceu e se virou. A fonte termal ao ar livre estava irreconhecível. Por cima de uma parede destruída, pisavam Sitri e Tino, ambas enroladas em toalhas. Sitri me avistou e me lançou seu sorriso de sempre. Assenti de volta como se tudo isso fosse perfeitamente normal.

Ah, qual é. Que tipo de férias são essas?

***

Após invadir o banho masculino com Siddy, Tino não conseguiu compreender o que via diante dela. Seu mestre estava tomando banho com um dragão azul-celeste. Ela esqueceu que deveria estar alerta e simplesmente esfregou os olhos, tomando cuidado para não deixar a toalha cair. Não, não era alucinação.

Mergulhado até a metade na ågua quente, seu mestre parecia completamente tranquilo. Ele tinha o sorriso de alguém satisfeito com a vida. O dragão desconhecido rosnou ao ver Siddy e Tino.

Ele nos chamou, mas nĂŁo porque queria ser resgatado? O que ele estĂĄ fazendo? Tino se perguntou.

Pensando bem, não fazia sentido que os fortes pedissem ajuda aos fracos. Ela também se lembrou das palavras do mestre; ele gritou, mas não mencionou nada sobre resgate. Ela presumiu que gritar sobre a presença de um dragão fosse um pedido de ajuda, mas o Mil Truques era um Matador de DragÔes.

Deixando de lado sua timidez, ela deu um passo para trĂĄs, preparando-se para um possĂ­vel ataque. Tino estava quase completamente sem roupas, com apenas uma pequena toalha enrolada no corpo. Ela nĂŁo tinha suas facas habituais e nem usava sapatos. Uma fonte termal definitivamente nĂŁo era o lugar onde se esperava encontrar um dragĂŁo.

Apesar de estar praticamente indefesa, Tino manteve a calma. Isso porque Siddy estava ao seu lado. No começo, Tino não entendia por que Siddy trouxe poçÔes para a fonte termal, mas não deveria ter duvidado de uma caçadora experiente.

A poção usada para destruir a parede era muito mais letal do que uma mistura comum. Alquimistas geralmente não eram adequados para combate, mas aparentemente, isso não se aplicava aos melhores. Porém, nem mesmo uma caçadora tão experiente poderia ter previsto essa situação. Siddy piscou e fez exatamente a pergunta que estava na mente de Tino.

— O que vocĂȘ estĂĄ fazendo?

— NĂŁo Ă© Ăłbvio? — Krai disse.

NĂŁo, Mestre, nĂŁo Ă©, Tino pensou.

DragÔes geralmente tinham força proporcional ao seu tamanho. O dragão azul-celeste era pequeno para sua espécie, o que significava que não era um dos mais poderosos. Talvez fosse um daqueles dragÔes de fonte termal que Lizzy tinha ido procurar.

Mas ainda era um dragĂŁo. Um dragĂŁo fraco ainda era um dragĂŁo, um monstro entre monstros, o rei das bestas mĂ­ticas. Em todas as terras e eras, o tĂ­tulo de Matador de DragĂ”es era um sinal de poder. Mas, em todo o mundo, o mestre de Tino provavelmente era o Ășnico que tomava banho casualmente com um dragĂŁo. Como alguĂ©m sequer se mete em uma situação dessas?

O dragão parecia reconhecer Tino e Siddy como ameaças em potencial. Ele abriu as asas enquanto se erguia na ågua. Gotas escaldantes espirraram no chão, suas asas azuis cintilaram, e suas escamas brilharam. A Corrente Perseguidora enrolada em seu corpo parecia ter desistido de lutar.

ApĂłs um breve momento de reflexĂŁo, Siddy bateu palmas.

— Entendi — disse ela. — Bom, entĂŁo, com vocĂȘ agora, T.

— Hã?!

O dragão avançou pesadamente sobre duas pernas. Siddy agarrou os ombros de Tino e se escondeu atrås da Ladina, que entrou em pùnico. Num instante, o dragão girou e balançou sua longa e esguia cauda como um chicote.

— Um dragĂŁo desse tamanho nĂŁo deve ser problema para vocĂȘ, nĂ©, T? — Siddy sussurrou no ouvido de Tino.

— Hã? Hã?!

Tino instintivamente recuou alguns passos. Siddy deveria estar usando ela como escudo, mas as duas nĂŁo colidiram. Ela deve ter previsto os movimentos de Tino e desviado para o lado. Pelo canto do olho, Tino conseguiu ver Siddy. A Alquimista aproveitou a brecha deixada pelo ataque do dragĂŁo para passar correndo pela criatura e pular na ĂĄgua.

— Siddy?! — Tino gritou, indignada.

— Boa sorte, T! TĂŽ torcendo por vocĂȘ!

Parece que os protestos de Tino foram ignorados. Siddy se agarrou ao braço do mestre de Tino e sorriu. Tino havia sido traída, mas jå era tarde para fazer algo a respeito.

O dragão conseguia balançar a cauda com uma rapidez assustadora. Tino não sabia se ele podia voar, mas ele tinha todas as características comuns de um dragão: asas, presas e garras. Seu movimento era lento, mas lutar com uma toalha prestes a cair não seria nada fåcil. Chutar estava fora de questão, mas talvez essa não fosse uma boa forma de atacar um dragão, de qualquer forma.

Talvez ela conseguisse derrotå-lo se tivesse todo o seu equipamento e estivesse em plena forma. Mas a falta de armamento era uma desvantagem séria, e essa era a primeira vez que ela enfrentava um dragão.

— Mestre, isso não era para ser um descanso?! — ela gritou enquanto procurava uma brecha no dragão.

— Como assim, T? VocĂȘ nĂŁo tomou banho na fonte termal? — Sitri perguntou.

— Não! Ainda não!

Enquanto Tino era tomada por tensão, confusão e um pouco de vergonha, o dragão ergueu a cabeça — um sinal de que estava prestes a atacar com seu sopro. Tino rolou rapidamente para fora do alcance.

Então, ela viu o ataque: o dragão disparou ågua quente de sua boca. Com uma força imensa, o jato de ågua explodiu e atingiu o lugar onde Tino estava um instante antes. Gotas se espalharam por todos os lados, e o impacto deixou uma pequena rachadura no chão. Aproveitando o embalo da rolagem, Tino se colocou de pé novamente.

— O que Ă© essa coisa?! — gritou, sem conseguir se conter. — Isso Ă© algum tipo de piada?!

— Talvez vocĂȘ devesse parar de gritar e se apressar? É sĂł um dragĂŁo de fonte termal!

Tino ficou chocada com a crueldade de Siddy, mas nĂŁo podia se dar ao luxo de hesitar.

O dragão cÎmico inflou o peito como se quisesse exibir sua majestade. Mesmo que isso lhe rendesse o título de Matadora de DragÔes, ela teria vergonha de uså-lo.

Sua Ășnica esperança era seu mestre, mas ele permanecia imĂłvel como uma pedra, com a expressĂŁo serena de um Buda. Ela aceitou a realidade: isso era uma Provação, exatamente como Siddy dissera. Provavelmente. Muito provavelmente. Seu mestre estava fazendo isso por ela.

Isso Ă© demais, Mestre.

Engolindo o choro, Tino deu um passo desesperado em direção ao dragão cÎmico.

***

O dragĂŁo azul-celeste deslizou pelo chĂŁo e caiu de costas. Perto dali, Tino estava ajoelhada, cobrindo-se com as mĂŁos.

— Eu nĂŁo acredito em vocĂȘ, Mestre — gemeu entre respiraçÔes irregulares.

Uooooh, Tino, vocĂȘ sempre foi tĂŁo forte assim?

Ela não estava usando a måscara como durante sua luta contra Arnold, mas seus movimentos foram impecåveis. Ver alguém pequena como Tino chutando um dragão atarracado parecia algo saído de uma comédia pastelão.

A toalha rasgada de Tino estava jogada por perto. Não podia culpå-la por decidir que não valia a pena tentar se cobrir. Não sabia se isso tinha relação com o fato de que seus movimentos ficaram råpidos como um raio depois disso.

Eu pretendia intervir se a situação ficasse séria, mas a batalha terminou sem que fosse necessårio. Não se preocupe, eu me certifiquei de desviar o olhar. Eu era um profissional em não ver coisas.

Sitri, a criminosa de guerra da vez, voltou do vestiĂĄrio com uma toalha. Tino me culpava pelo que aconteceu, mas eu presumi que Sitri faria alguma coisa. NĂŁo tive culpa. Bom, talvez eu compartilhasse um pouco da responsabilidade.

— Oh, vocĂȘ lutou muito bem, Tino. Bom trabalho, bom trabalho — disse, tentando consolĂĄ-la.

— Hm?! Maldito seja, Mestre — Tino resmungou com um fungado.

Ela se abraçou, mas sem muito efeito. Sitri colocou a toalha sobre ela.

— Aprendeu a importñncia da preparação? — Sitri perguntou.

Com lĂĄgrimas nos olhos, Tino nĂŁo disse nada e apenas assentiu vigorosamente. Sitri acariciou seu cabelo, mas serĂĄ que ela realmente tinha moral para isso?

Olhei para a ĂĄrea de banho destruĂ­da e o dragĂŁo ainda se contorcendo no chĂŁo antes de soltar um suspiro.

— Mas a maioria das pessoas não espera encontrar um dragão em uma fonte termal — comentei.

Tino me lançou um olhar incrédulo. Não precisava disso. Eu adorava fontes termais, mas até eu não entraria em uma se achasse que poderia ser atacado por um dragão.

Parece que minha Ășnica opção agora Ă© o banho ao ar livre no nosso quarto.

***

— Vamos começar — disse Arnold.

Seu grupo rugiu em resposta. Apenas vestígios de medo podiam ser encontrados em suas expressÔes decididas. Chloe os observava com incerteza. Após descansar em uma vila próxima, Arnold tomou sua decisão: eles avançariam.

Isso jå não era mais apenas uma questão de vingança. Os caçadores da Névoa Caída tinham um brilho intenso nos olhos. Ao lado deles, Rhuda e os caçadores do Redemoinho Escaldante exibiam expressÔes rígidas. Aquilo era caçadores fazendo o que nasceram para fazer.

Eles sabiam que havia maneiras mais inteligentes de lidar com a situação. No entanto, o orgulho e a confiança mĂștua entre os membros da NĂ©voa CaĂ­da simplesmente nĂŁo os permitiriam recuar diante de um cofre do tesouro que o Mil Truques conseguiu invadir. Pelo mesmo motivo, os caçadores de nĂ­vel muito mais baixo do Redemoinho Escaldante escolheram acompanhĂĄ-los.

Tudo o que restava era testar sua força e determinação. E, se essa era a decisão deles, Chloe não podia voltar atrås. Não havia mais nenhum vestígio de rancor nos olhos de Arnold. O Palåcio Noturno não era um desafio que poderia ser enfrentado por alguém com a mente obscurecida por emoçÔes negativas.

O castelo imponente Ă  frente deles estava exatamente como dias atrĂĄs. As nuvens de tempestade giravam furiosamente, e a calma inquietante no olho do furacĂŁo permanecia inalterada. Isso significava que esse estado sombrio era normal para um cofre do tesouro de NĂ­vel 8.

Arnold engoliu em seco e disse apenas:

— Isso vai definir tudo.

Chloe entendeu perfeitamente o significado dessas palavras. Aqueles caçadores haviam aceitado a dificuldade do desafio diante deles. Eles estavam prestes a experimentar em primeira mão um cofre do tesouro que o Mil Truques provavelmente explorou apenas com um pequeno grupo de aliados. Ao fazer isso, não apenas recuperariam o respeito pelo caçador, como também se libertariam da disputa com ele.

Eigh, de repente, franziu a testa, assumindo uma expressĂŁo duvidosa.

— Não vejo nenhuma carruagem — disse. — Será que eles estão mesmo aí dentro?

Todos olharam ao redor. Tinham uma visĂŁo desimpedida das planĂ­cies ao redor e nĂŁo viam nenhum monstro, muito menos uma carruagem.

— Eles devem estar lá — disse Arnold. — Não houve indícios de que estavam blefando. Mas, no fim das contas, isso não importa mais.

Eigh forçou um sorriso nos låbios e riu.

— NĂŁo precisa me dizer. Vamos seguir vocĂȘ para onde quer que vĂĄ.

Os portÔes maciços se abriram, quase como se estivessem dando as boas-vindas a Arnold. Uma brisa fria varreu os caçadores.

E assim, o Crashing Lightning e a Névoa Caída começaram sua empreitada.

***

Rhuda suportou a pressĂŁo que pesava sobre ela e avaliou desesperadamente os arredores. Naturalmente, ouviu atentamente, mas utilizou todos os cinco sentidos.

O PalĂĄcio Noturno era uma cĂąmara do tesouro de NĂ­vel 8. O nĂ­vel de uma cĂąmara era geralmente proporcional Ă  sua acumulação de material de mana. Maiores reservas desse material tambĂ©m significavam espectros mais fortes e em maior nĂșmero. Um NĂ­vel 8 provavelmente teria muitas vezes mais espectros do que a Toca do Lobo Branco, uma cĂąmara que ela havia atravessado recentemente.

Mas Rhuda não conseguia detectar nenhum sinal de vida. A Névoa Caída estava na frente da formação e incluía Eigh Lalia, um Ladino de nível mais alto que Rhuda. Mas ele parecia tão apreensivo quanto ela.

NĂŁo havia armadilhas nem inimigos. Rhuda nunca havia entrado em uma cĂąmara do tesouro em forma de castelo porque eram raras e geralmente tinham nĂ­veis elevados. Ouviu dizer que os espectros nesses lugares podiam ser extremamente bem coordenados. Mas nĂŁo encontrar nenhum espectro era quase inacreditĂĄvel.

Talvez tivesse cometido um erro ao vir aqui. No momento em que viu a cĂąmara do tesouro, seus instintos a instaram fortemente a dar meia-volta. Parte dela queria ter escutado esses instintos, mas sabia que agora era tarde demais para arrependimentos.

Desde o começo, teve a sensação de que os objetivos da Névoa Caída não estavam completamente alinhados com os de todos os outros. Mas ela e o Redemoinho Escaldante foram contratados para escoltar Chloe e sentiram que deveriam tentar impedir que o Crashing Lightning e os Mil Truques entrassem em conflito.

Rhuda não conseguia imaginar o que poderia acontecer se um caçador de Nível 7 e um de Nível 8 se enfrentassem. Sentia mais poder bruto no primeiro, mas sabia das tåticas ardilosas que o segundo poderia ter em mente.

Não, seja honesta, disse a si mesma. Não sabia como seria uma luta individual, mas acreditava que os Grieving Souls venceriam a Névoa Caída. Não tinha certeza do quão poderoso Krai realmente era, mas podia ver quem tinha os aliados mais fortes. Os caçadores da Névoa Caída certamente não eram fracos, mas nenhum deles se comparava ao que Rhuda viu quando encontrou a Sombra Partida pela primeira vez.

Recentemente, dois membros dos Grieving Souls conseguiram deter a Névoa Caída à beira do lago. Se o grupo inteiro se reunisse, a Névoa Caída não teria chance. No fim, o trabalho de Rhuda provavelmente seria intervir depois que a Névoa Caída perdesse.

A Névoa Caída era um grupo barulhento e se comportava como os civis imaginavam que todos os caçadores fossem, mas eles não eram mås pessoas. Durante a jornada, nunca deixaram Rhuda e o Redemoinho Escaldante para trås, não importava quão grave fosse a situação. Ela sentia que devia retribuir o favor.

Krai tambĂ©m tinha Tino ao seu lado. Rhuda sozinha talvez nĂŁo fosse suficiente, mas se ela e Tino implorassem, os Mil Truques poderiam ao menos poupar a vida da NĂ©voa CaĂ­da. Esse era seu pensamento original. Agora, achava essa ideia ingĂȘnua demais.

Tinha confiança de que Krai atenderia seus pedidos de misericórdia. Nem mesmo a Sombra Sufocada o desafiaria. Mas primeiro, eles precisavam de fato confrontar Krai
 e poderiam morrer antes que isso acontecesse.

O PalĂĄcio Noturno era ainda mais assustador do que ela imaginava. Ainda nĂŁo havia encontrado nenhum espectro, mas mesmo assim podia dizer que a Toca do Lobo Branco era um paraĂ­so comparado a este lugar.

Pålida como um fantasma, Rhuda tentou desesperadamente se concentrar. Atrås dela, os membros do Redemoinho Escaldante pareciam ainda piores. O grupo era muito maior do que estavam acostumados, mas isso não os fazia se sentir melhor. Para pessoas como Rhuda e Gilbert, os espectros deste lugar infernal estavam além do que eles poderiam sequer sonhar em ferir.

A Ășnica esperança deles eram os Mil Truques. Aquele homem dĂłcil, porĂ©m manipulador, certamente sabia que Rhuda e os outros o seguiriam. Depois de terem vindo tĂŁo longe, torciam para que ele soubesse disso.

Depois de olhar ao redor, Eigh disse que nĂŁo planejava morrer em um lugar como aquele. A densidade do material de mana era maior do que Rhuda jĂĄ havia sentido antes. Aos poucos, sentia-se ficando mais forte. Era uma boa experiĂȘncia. Se ao menos pudesse pensar nisso e nada mais.

Ao entrar na cĂąmara do tesouro, percebeu que o PalĂĄcio Noturno tinha uma aura majestosa inesperada. As paredes externas e o portĂŁo pareciam novos e eram construĂ­dos de pedra de um modo que se harmonizava com a paisagem ao redor.

As portas, que se abriram automaticamente para eles, pareciam feitas de metal e tinham uma textura bizarra. Tomaram isso como prova de que cada parte do castelo era construĂ­da a partir de material de mana. As portas e o portĂŁo pareciam inimaginavelmente durĂĄveis, mas talvez nĂŁo invencĂ­veis.

Sob a chuva torrencial, Eigh examinou cuidadosamente os arredores. Um salão que normalmente estaria repleto de soldados estava vazio. As cadeiras e a mesa intocadas, a lñmpada ainda acesa—era incrivelmente inquietante. Depois de espiar para dentro da sala, Eigh fez uma pergunta a Chloe.

— Senhorita, vocĂȘ sabe algo sobre este lugar?

— Receio que haja poucos registros sobre expediçÔes ao PalĂĄcio Noturno. A Associação de Exploradores estava ansiosa por qualquer informação que os Grieving Souls pudessem trazer de volta.

Isso fez Arnold franzir o cenho. Caçadores preferiam evitar cĂąmaras do tesouro ainda pouco compreendidas. A falta de informaçÔes sĂłlidas provavelmente contribuiu para o pequeno nĂșmero de expediçÔes ao PalĂĄcio Noturno. Qualquer um que entrasse calmamente em um lugar assim era ou um campeĂŁo
 ou um idiota.

Além dos portÔes, estendiam-se vårios caminhos pavimentados com pedras lisas. Trilhas estreitas se ramificavam para a esquerda e para a direita, enquanto um caminho mais largo seguia reto. Havia algo inquietante nas årvores bem cuidadas e espaçadas de maneira uniforme ao redor deles, e apenas raros feixes de luz conseguiam atravessar as densas nuvens. Arnold apertou o punho ao redor de sua espada, pronto para ser atacado a qualquer momento.

— Não há sinais de batalha — disse ele.

— É possível que tenham sido apagados — respondeu Eigh.

A chuva podia até lavar pegadas, mas vestígios de combate não desapareciam tão facilmente.

Eles haviam acabado de passar pelo portão da frente. Era estranho ainda não terem encontrado inimigos, mas fazia sentido que a verdadeira ação começasse assim que entrassem no castelo. Arnold exibia uma expressão sombria, mas seu ritmo não vacilava. Ele olhou para cima e viu as torres negras envoltas por nuvens tempestuosas.

— AtĂ© onde ele foi? — Rhuda se perguntou em voz alta.

Eles esperavam que ele nĂŁo tivesse entrado no castelo, mas nunca se sabia o que o Mil Truques poderia fazer. Krai, as duas irmĂŁs, a quimera e aquele monstro estranho provavelmente estavam bem, mas ela se preocupava com Tino, que devia estar sendo arrastada contra a prĂłpria vontade.

Tino era forte, e Rhuda havia ficado impressionada quando ela lutou contra Arnold em um confronto um contra um, mas a pequena Ladina claramente não estava preparada para um cofre de tesouros de Nível 8. Talvez, naquele exato momento, estivesse chorando e passando por uma provação terrível. Rhuda deveria estar mais preocupada consigo mesma, mas achava que perderia o controle se não mantivesse a mente ocupada.

Se fossem encontrar fantasmas, esperava que fosse o mais prĂłximo possĂ­vel do portĂŁo. Preferencialmente, fora do castelo. E se aparecessem um de cada vez, melhor ainda. O melhor cenĂĄrio seria encontrar Krai antes de dar de cara com qualquer fantasma, mas, de alguma forma, ela nĂŁo conseguia ver isso acontecendo.

— Ei — chamou Eigh. — VocĂȘs estĂŁo bem?

— S-Sim, só um pouco cansados — respondeu Carmine, líder do Furacão Escaldante.

— No fim das contas, ainda nem vimos nenhum fantasma — disse Gilbert.

Eles diziam isso, mas pareciam completamente exaustos. Eigh se perguntou se ele mesmo estava com a mesma aparĂȘncia.

— VocĂȘ estĂĄ bem, senhorita?

— Sim. Mas eu gostaria de sair daqui o mais rápido possível — respondeu Chloe.

Rhuda faria o que fosse necessårio para voltar para casa viva. Ela percebeu que essa missão não passava de um recado e, quem queria morrer por causa de um recado? Enquanto tentava se recompor e respirava fundo, o líder do grupo, Arnold, parou abruptamente. De repente, um som estranho ecoou. Os membros da Névoa Caída rapidamente se espalharam e entraram em formação.

Sombras se contorciam à frente deles, a uns dez metros de distùncia. Chloe puxou sua espada. O ruído se intensificou. As manchas escuras se juntaram, adquirindo forma e cor. Atrås da Névoa Caída, os olhos de Carmine se arregalaram e ele deu um passo para trås.

— Os fantasmas estão se formando?! — gritou ele. — Achei que isso não deveria acontecer bem na nossa frente!

— Heh, acho que a concentração de mana aqui Ă© forte demais — disse Eigh. Ele começou a suar frio, mas ainda assim forçou um sorriso tenso.

Acreditava-se, de modo geral, que os fantasmas surgiam quando certa quantidade de mana material se acumulava. Se caçadores entrassem em um cofre de tesouros, absorveriam a mana material, impedindo a formação de fantasmas nas proximidades. Não era impossível que um fantasma surgisse bem diante de um caçador, mas isso era um fenÎmeno extremamente raro, exclusivo de cofres de alto nível.

O mago da Névoa Caída começou a murmurar um encantamento, e o mago do Furacão Escaldante rapidamente o acompanhou. Ao ver seus aliados se preparando para o combate, Rhuda conseguiu acalmar seus nervos.

Era inesperado, mas, pensando bem, um fantasma se formar bem diante deles era, na verdade, uma sorte. Assim, poderiam atacar antes que o inimigo estivesse pronto. Talvez até pudessem derrotå-lo antes que conseguisse revidar.

A escuridão convergiu e então surgiu um cavaleiro. Tinha mais ou menos a mesma altura que Arnold. Um elmo negro cobria sua cabeça, sua armadura ocultava cada centímetro de seu corpo e uma espada negra pendia de sua cintura. E então Rhuda percebeu que não era apenas um—eram dois cavaleiros negros.

Isso nĂŁo era bom. Arnold era o Ășnico do grupo que podia ser considerado forte o suficiente para o PalĂĄcio Noturno. Todos os outros, incluindo os membros da NĂ©voa CaĂ­da, estavam bem abaixo desse nĂ­vel. Eles nĂŁo sabiam o quĂŁo poderosos os fantasmas eram, mas topar com dois logo no primeiro encontro era um grande azar.

Mas talvez dois fantasmas fosse algo administråvel. Arnold enfrentaria um, e o restante lidaria com o outro. Era matar ou morrer, e todos entendiam isso. Não era a primeira vez que esses caçadores arriscavam suas vidas.

— Ataquem! — gritou Eigh no instante em que os fantasmas terminaram de tomar forma.

Duas equipes. No calor do momento, os dois magos escolheram feitiços de fogo. No instante em que os cavaleiros negros começaram a se mover, foram atingidos por lùminas de chamas azuladas e uma tempestade de projéteis feitos de fogo comprimido. Os cavaleiros negros nem sequer tentaram desviar. Um longo estrondo ressoou e uma luz ofuscante iluminou o local.

— Isso matou eles?! — gritou Gilbert.

— Nem em um milhão de anos! — respondeu Eigh.

Sem esperar para ver o resultado do ataque, Arnold avançou. Ele era um homem imenso com uma espada colossal, mas sua velocidade ainda assim era impressionante. Com faíscas crepitando ao seu redor, parecia a personificação de um deus do trovão.

A luz se dissipou. Com um rugido, Arnold desferiu um golpe com sua grande espada. O cavaleiro negro bloqueou o ataque com sua prĂłpria lĂąmina, e um som agudo reverberou no impacto. NĂŁo havia tempo para ficar parado em choque. Eigh deslizou para trĂĄs do outro cavaleiro e deu um chute na parte de trĂĄs de seu joelho.

Os golpes diretos dos feitiços nem sequer fizeram os cavaleiros negros vacilarem. Suas armaduras não tinham qualquer marca de queimadura, muito menos danos visíveis. Para Rhuda, aqueles feitiços pareciam poderosos o bastante. Se fosse atingida por um deles, pelo menos ficaria gravemente ferida—se não morresse na hora. Que tipo de armadura impenetrável era aquela? Ela havia aprendido na Toca do Lobo Branco que fantasmas tinham armaduras resistentes, mas isso era outro nível.

— Não fiquem parados!

O cavaleiro negro desferiu um golpe com sua espada. Era tĂŁo rĂĄpido que os olhos de Rhuda mal conseguiam acompanhar. Arnold inclinou sua espada, bloqueando o ataque em alta velocidade com um mĂ­nimo de movimento. O som resultante se sobrepĂŽs em um Ășnico estrondo. O rosto de Arnold estava vermelho e tenso, mas o cavaleiro negro nĂŁo vacilou nem um pouco.

No entanto, o verdadeiro problema era o cavaleiro negro que Eigh havia atacado. A luta era completamente unilateral. O cavaleiro negro atacava, e Eigh apenas se esquivava. A armadura que cobria todo o corpo do inimigo desviava qualquer golpe de Eigh. Até mesmo seu primeiro ataque surpresa havia surtido quase nenhum efeito.

Ainda assim, podia-se argumentar que os esforços de Eigh estavam sendo bem-sucedidos. O Ladino não recuava, pois até mesmo Arnold teria dificuldades para enfrentar os dois cavaleiros negros ao mesmo tempo. Um dos cavaleiros estava concentrado em perseguir Eigh e não fazia qualquer esforço para apoiar o outro.

O cavaleiro negro era capaz de brandir sua lùmina tão råpido que ela parecia um mero borrão, mas seu corpo pesado permitia que Eigh escapasse de alguma forma. Sempre que ele conseguia se posicionar atrås do cavaleiro, o fantasma precisava girar para encarå-lo. Se ele recuava, o inimigo era forçado a avançar atrås dele.

Diferente da Sombra Sufocada, a maioria dos Ladinos confiava primariamente em um posicionamento habilidoso e nunca enfrentava um inimigo de frente. TrĂȘs Espadachins da NĂ©voa CaĂ­da apoiavam Eigh, aproveitando as brechas que ele criava. Cercado por trĂȘs guerreiros corpulentos, o cavaleiro negro hesitou por um momento, como se estivesse analisando a situação.

Os movimentos da Névoa Caída eram fluidos e acompanhados de uma comunicação explícita. Os caçadores da Tufão Escaldante, incluindo Gilbert, não conseguiam acompanhar.

— Droga. Esse desgraçado Ă© um dos mais fracos? — disse um dos Espadachins entre respiraçÔes pesadas, enquanto desferia um golpe contra o cavaleiro negro.

Eigh sorriu. Seu rosto estava coberto de suor, mas sua resposta foi cheia de espĂ­rito.

— Sim, eles são mesmo impressionantes. Mas podemos derrotá-lo como qualquer outro fantasma!

O Espadachim soltou um grito retumbante de aprovação.

Enquanto Eigh e os outros estavam travados em um impasse contra seu cavaleiro negro, a luta de Arnold se tornava cada vez mais intensa. Com ataques ofuscantes e uma armadura resistente Ă  magia, o cavaleiro negro tinha a vantagem.

Uma espada grande era uma arma que enfatizava a força de cada golpe individual. Limitado a balanços amplos, que ainda podiam ser mitigados, Rhuda e Gilbert pensavam que Arnold parecia estar em uma luta brutal. Eles não esperavam que o combate se desenrolasse dessa maneira.

Agora que Eigh havia recebido reforços, o Magus precisava de uma nova tarefa para se concentrar, então apontou seu cajado para Arnold.

— Aqui vai, Arnold! — gritou. — Aceleração Maior!

Um feixe de luz branca atravessou Arnold. Esse era um feitiço que aprimorava as capacidades fĂ­sicas. Feitiços desse tipo eram uma faca de dois gumes. A mudança sĂșbita nos sentidos, especialmente entre feitiços que afetavam mĂșsculos e reflexos, os tornava indesejĂĄveis para a maioria dos caçadores. A prĂłpria Rhuda jĂĄ havia testado esse tipo de aprimoramento e achou a experiĂȘncia bastante desconcertante. Ela imaginava que o corpo de Arnold deveria parecer incrivelmente leve — tĂŁo leve que ele teria dificuldades para controlar sua espada.

Ela prendeu a respiração. Não viu nenhuma mudança na postura de Arnold. Com o mínimo movimento possível, ele bloqueou um golpe relùmpago. A princípio, Rhuda pensou que o Magus havia falhado na conjuração. Então, percebeu que estava enganada.

Arnold estava acostumado àquilo. Ele jå havia se habituado a mudanças abruptas nos sentidos. Acostumar-se a tal desconforto exigia um esforço extenuante. Ele provavelmente havia treinado incontåveis vezes. Repetidamente, deixando-se ser aprimorado por magia para conseguir gerenciar a mudança quando realmente precisasse.

ApĂłs o aprimoramento de velocidade, ele recebeu feitiços de força, resistĂȘncia e defesa. Arnold parecia alguĂ©m contendo uma fĂșria ardente enquanto simultaneamente bloqueava um ataque e recebia aprimoramentos mĂĄgicos.

O cavaleiro negro, mantido à distùncia por Eigh e companhia, pareceu perceber o que estava acontecendo e mudou seu comportamento. Ele partiu para um ataque puramente ofensivo e golpeou com tanta velocidade que o Espadachim atingido não teve a menor chance de bloquear. A formação dos caçadores se desfez, mas o Relùmpago Retumbante não recuou.

Gilbert se moveu para se colocar entre o cavaleiro negro e Arnold, mas Eigh o deteve imediatamente.

— NĂŁo chegue mais perto! — ele gritou. — Fiquem para trĂĄs e sĂł venham se precisarmos de vocĂȘs! Ainda temos isso sob controle!

Gilbert parou e mordeu o låbio com frustração, batendo o pé no chão. Rhuda podia entender; não era um bom sentimento perceber que sua força não era suficiente. Carmine e os outros provavelmente sentiam o mesmo.

Os movimentos da Névoa Caída eram bem treinados. Eigh estava certo; era evidente que intrusos não fariam nada além de criar mais brechas.

— Droga, não há nada que possamos fazer? — Gilbert resmungou. — O que Arnold está fazendo? Ele já recebeu todos aqueles aprimoramentos.

— Espera, isso nĂŁo Ă©…?

O cavaleiro negro enfrentando Arnold parou por um breve momento. Arnold aproveitou a brecha e avançou, empurrando-o para trĂĄs. Fantasmas geralmente tinham muito mais resistĂȘncia que humanos, entĂŁo nĂŁo era possĂ­vel que o cavaleiro negro estivesse cansado.

Rhuda pensou que poderia estar imaginando coisas, mas percebeu que nĂŁo era o caso. Os movimentos do cavaleiro negro estavam gradualmente se tornando menos precisos. Ele hesitou, seu centro de gravidade ficou instĂĄvel e seus joelhos pareciam vacilar.

A vantagem havia mudado para Arnold. Os ataques do cavaleiro negro estavam perdendo força. Os golpes de Arnold não haviam mudado, mas agora ele conseguia manter uma postura firme, bloqueando qualquer investida inimiga.

— Ah, entĂŁo Ă© a espada dele? —

Gilbert olhou para a espada grande eletrificada de Arnold. Rhuda também conseguiu juntar as peças.

Era a eletricidade. Ela passava da espada grande para a lĂąmina do cavaleiro negro, causando dano ao fantasma no processo. O cavaleiro estava completamente coberto por uma armadura, mas nem isso era suficiente para protegĂȘ-lo contra choques elĂ©tricos. Esse era um dos mĂ©ritos comuns da magia do trovĂŁo.

Arnold devia estar esperando por isso. Ele estava ganhando tempo enquanto o dano elétrico se acumulava, até que o cavaleiro negro finalmente cometesse um erro fatal. Era uma estratégia esperta. Um método quase desonesto, algo completamente inesperado para um homem de seu porte e escolha de arma. Mas, para Rhuda, aquilo era a demonstração da força pragmåtica de um caçador experiente.

Esse era um NĂ­vel 7. Essas eram habilidades adquiridas atravĂ©s de experiĂȘncia e refinamento.

Por fim, o cavaleiro negro vacilou e caiu de joelhos. Com a abertura que tanto esperava, Arnold soltou um rugido. O ar tremeu. O outro cavaleiro negro hesitou. Arnold ergueu sua espada, que brilhou e faiscou com uma luz dourada. A proximidade fez seu corpo ficar dormente.

Aquilo era trovão. Mas não um trovão comum, era dourado, como o que alguns dragÔes cuspiam de suas bocas. Ele nem sequer usou isso contra Tino. Esse devia ser seu trunfo.

— Relñmpago Retumbante.

MangĂĄ Let This Grieving Soul Retire! Volume 5 11 Online em PortuguĂȘs PT-BR

Era como assistir a um relùmpago cortante. O cavaleiro negro tentou erguer sua espada, mas foi envolvido por uma luz dourada. A lùmina não apenas atravessou sua armadura, mas também demoliu alguns metros do chão de pedra conforme sua energia se dissipava.

O cavaleiro negro explodiu. A vitĂłria de Arnold era inegĂĄvel. Depois de ficar completamente fixado na visĂŁo do Raio Impactante, Gilbert inalou como se tivesse esquecido de respirar.

— I-Incrível!

— EntĂŁo Ă© isso que um NĂ­vel 7 consegue fazer!

Até então, eles só tinham visto Arnold sendo manipulado pelo Mil Truques, mas apenas um verdadeiro campeão era capaz do que ele acabara de fazer. Raios ainda crepitavam ao seu redor, emitindo um brilho amarelado. Ele não se deleitava na vitória, seus olhos dourados e estreitos apenas buscavam sua próxima presa.

Eigh e seus aliados começaram a se afastar do cavaleiro negro. Então, o campeão trovejante disparou contra o fantasma. A luta terminou em questão de segundos. Arnold golpeou com uma velocidade e força muito superiores às suas investidas anteriores e partiu o cavaleiro negro ao meio.

O restante do grupo quase nĂŁo podia acreditar que instantes antes estavam lutando por suas vidas. Arnold finalmente abaixou a espada quando teve certeza de que nenhum dos fantasmas voltaria a se mover. Eigh soltou um suspiro de alĂ­vio depois de verificar o Espadachim que havia sido arremessado.

— Sem ferimentos graves por aqui. Conseguimos, nĂŁo Ă©, Arnold? Eu jĂĄ esperava que um cofre como esse nĂŁo fosse fĂĄcil, mas…

— Mm. Mas não foi para isso que viemos.

O brilho ao redor de Arnold desapareceu. Ele nĂŁo demonstrava nem um traço de alegria. Rhuda podia entender o motivo. Qualquer coisa que aparecesse em uma arena tĂŁo desolada provavelmente nĂŁo era o chefe. A constante vigilĂąncia de Arnold era um sinal de vasta experiĂȘncia. Mas eles acabavam de derrotar fantasmas em um cofre de tesouros NĂ­vel 8, nĂŁo havia nada de errado em comemorar um pouco.

EntĂŁo, algo lhe ocorreu.

— Muito bom, velhote! Como vocĂȘ fez aquele golpe? Acha que eu conseguiria aprender? — disse Gilbert, completamente sĂ©rio.

— Agora nĂŁo Ă© hora para idiotices — respondeu Arnold, exasperado.

Com atenção, Eigh observou os restos dos fantasmas. Eles não baixavam a guarda, mas também apresentavam aquela tensão aliviada típica de soldados após uma batalha.

Rhuda sentiu um choque tĂŁo intenso quanto o ataque de Arnold. Seus olhos se arregalaram. Era um dĂ©jĂ  vu. Ela jĂĄ estivera nessa situação antes. Escapar da morte certa, curar ferimentos, tomar um fĂŽlego e…

Ela olhou para Gilbert, que também estivera lå. O jovem ruivo retribuiu o olhar com uma expressão vazia.

— Gilbert, vocĂȘ se lembra da Toca do Lobo Branco? — ela perguntou.

— Hm? Do que vocĂȘ estĂĄ falando… Espera. Espera aĂ­?!

A cor sumiu instantaneamente do rosto de Gilbert. Ele deve ter percebido do que Rhuda estava falando. A experiĂȘncia deixou uma marca distinta. A força dos fantasmas, os eventos anteriores Ă  batalha, tudo era diferente, mas a situação ainda assim era estranhamente semelhante. E isso incluĂ­a o fato de terem chegado atĂ© ali depois de se envolverem com Krai Andrey.

Aquilo era um dos Desafios dele.

— Estamos encrencados, velhote! Mais deles vĂŁo aparecer! Foi assim da Ășltima vez! — gritou Gilbert freneticamente.

— Do que diabos vocĂȘ estĂĄ falando? Perdeu o juĂ­zo? — retrucou Arnold.

O raciocĂ­nio de Gilbert provavelmente nĂŁo ia alĂ©m de seu balbuciar, mas Rhuda ainda assim apreciava sua energia em momentos como aquele. Ele estava certo, mais iriam aparecer. Foi assim da Ășltima vez.

Depois de mal conseguirem superar um inimigo poderoso, quatro novos atacantes, todos com armas diferentes, apareceram. Se Krai nĂŁo tivesse vindo ao resgate, eles teriam morrido naquele cofre de tesouros. E com um NĂ­vel 7 ao lado, nĂŁo havia garantia de que qualquer ajuda viria desta vez.

Talvez fosse apenas imaginação. Talvez estivessem apenas preocupados à toa. Mas o risco era grande demais para ser ignorado. Eigh ficou surpreso com o pùnico repentino de Gilbert, então Rhuda também ofereceu uma sugestão.

— Eigh, Gilbert estĂĄ certo, precisamos nos mover — disse ela. — Da Ășltima vez que estivemos nessa situação, reforços apareceram.

— Hmmm. O que vocĂȘ acha, Arnold? — Eigh perguntou.

Arnold olhou para seus companheiros e rosnou.

— Então podemos recuar ou seguir em frente, huh?

Arnold era um campeĂŁo inegĂĄvel. Um homem orgulhoso e inflexĂ­vel em certos aspectos, mas sabia tomar a decisĂŁo certa quando importava.

Eles haviam enfrentado fantasmas, sobrevivido e avaliado a força de seus oponentes. Desta vez, tinham encontrado apenas alguns, mas se continuassem, era quase certo que alguém sofreria um ferimento crítico. Era inconcebível que Arnold ainda não tivesse percebido isso; ele era muito mais inteligente do que aparentava.

Rhuda deu um passo Ă  frente e olhou diretamente nos olhos de Arnold. Estava seguindo seus instintos e nĂŁo tinha provas concretas do que ia dizer. Mas achava que sabia uma ou duas coisas sobre o Mil Truques, mesmo que fosse tudo conhecimento de segunda mĂŁo passado por Tino.

— Acho que devemos seguir em frente — disse ela.

— O quĂȘ?

Os olhos de Arnold se arregalaram. Eigh, Gilbert, Carmine, todos a encararam com descrença. Mas ela sabia que os Mil Desafios não eram algo de que se podia fugir, não importava o quanto tentassem. Era certo que o Mil Truques entendia muito bem que tipo de pessoa Arnold era.

Isso tudo levou Rhuda a fazer a escolha incomum. Era baseado apenas em sua intuição, mas, às vezes, era preciso seguir isso em vez da razão. Se o Mil Truques estivesse envolvido, certamente haveria inimigos esperando no caminho de volta.

— Minha intuição diz que há inimigos poderosos atrás de nós e devemos avançar. Se formos recuar, acho que deveríamos primeiro seguir um pouco adiante e depois dar uma longa volta. Por favor, confiem em mim!

***


— É absurdo, mas esse tipo de intuição já salvou grupos antes.

Mantendo-se atentos ao redor, o grupo avançou como se algo estivesse em seus calcanhares. Arnold sentiu que havia verdade nas palavras de Rhuda e escolheu acreditar nela.

Se era possível que fantasmas surgissem fora do caminho, então também era possível que atacassem o grupo enquanto recuavam. Rhuda havia sido uma caçadora solitåria, e caçadores solitårios tinham sentidos aguçados para detectar perigo. Eles não podiam simplesmente evitar todos os riscos, mas também não podiam correr de cabeça para o perigo sem pensar.

Arnold viu valor suficiente nas palavras de Rhuda para apostar suas vidas na veracidade delas.

— Isso aí! Nada veio! Fizemos a escolha certa! — disse Gilbert, soltando um suspiro de alívio. Ele havia ficado o tempo todo olhando para trás, checando se estavam sendo seguidos. O quão traumática a Toca do Lobo Branco havia sido para que ele compartilhasse a mesma preocupação de Rhuda?

Seguiram pelo caminho reto até o castelo. Quanto mais se aproximavam da estrutura negra como breu, mais inquietos ficavam. Nem mesmo Arnold tinha ideia do que poderia estar ali dentro.

As portas do castelo surgiram diante deles, e a paisagem ao redor começou a mudar à medida que as årvores ao longo do caminho se tornavam mais espaçadas. Rhuda soltou um pequeno grito ao ver o novo cenårio. Gilbert ficou pålido, e Arnold não conseguiu evitar engolir seco.

Eles estavam em um pĂĄtio circular, pavimentado com pedras. Com quase nada obstruindo a vista, podiam ver muito ao redor. Um pouco mais adiante ficava o castelo. Mas o que realmente os chocou foram as montanhas negras empilhadas nas bordas do pĂĄtio.

Gilbert se aproximou cautelosamente de uma das pilhas e começou a tremer após examinå-la de perto.

— O que… aconteceu aqui? — disse ele.

As pilhas eram compostas por corpos mortos das mais variadas formas. O que chocou Gilbert foi que a maioria esmagadora das pilhas era formada por armaduras e armas negras. Mesmo com uma rĂĄpida olhada, era evidente que nĂŁo havia uma causa de morte em comum. Alguns corpos foram queimados, outros esmagados. Alguns haviam sido congelados ou rasgados junto com suas armaduras.

Pela forma dos restos mortais, conseguiram discernir que pertenciam a seres humanoides. Mas nĂŁo era sĂł isso. As armaduras eram as mesmas dos fantasmas que haviam acabado de enfrentar.

— M-Mas que diabos aconteceu aqui? — disse Eigh, fazendo uma careta enquanto analisava as montanhas de corpos. Ele retirou uma cabeça de forma octopóide empalada em uma espada. Era negra e coberta de muco, com dois olhos verdes sem vida.

Os cavaleiros que haviam enfrentado antes foram incinerados por Arnold, entĂŁo nĂŁo tiveram a chance de verificar o que havia dentro das armaduras. Aparentemente, os cavaleiros nĂŁo eram humanos. Rhuda inspecionou cautelosamente uma pilha de cadĂĄveres e percebeu que nenhum deles possuĂ­a um rosto ou corpo completamente humano.

A cor sumiu do rosto de Chloe, mas ela manteve a compostura.

— Parece que havia um exĂ©rcito inteiro desses soldados aberrantes — disse ela.

Observando a montanha de corpos, Gilbert murmurou:

— Foi o Mil Truques que fez tudo isso?

O påtio era enorme. Devia haver pelo menos umas centenas de pilhas ao redor. Fantasmas desapareciam imediatamente após sua morte, e a força de seu mana influenciava o tempo que levavam para sumir completamente. Se tantos haviam sido mortos, fazia sentido que tivessem encontrado apenas dois até agora.

Parecia impossĂ­vel que um humano tivesse matado tantos fantasmas, considerando o quanto Arnold teve que se esforçar para derrotar apenas dois. Era inacreditĂĄvel, mas que outra explicação havia? Quem mais poderia ter causado tal cena? O apelido “Mil Truques” fazia muito mais sentido ao olhar para as inĂșmeras formas como os fantasmas haviam encontrado seu fim.

— A-Arnold, olhe, no centro — disse Eigh. — SĂŁo restos de uma fogueira. Que tipo de lunĂĄtico faria isso aqui…?

O coração de Arnold disparou, e um calafrio percorreu sua espinha. Ele reconheceu o sentimento, mas escondeu a surpresa em seu rosto. Essa emoção que ele nĂŁo sentia hĂĄ tanto tempo… Era terror. Terror absoluto diante do impensĂĄvel, diante do poder absoluto.

— Estou com medo de desafiá-lo — pensou Arnold.

Ele havia considerado a derrota como uma possibilidade, mas apenas em uma batalha entre grupos. Tinha confiança de que poderia vencer um combate um contra um contra o Mil Truques. Arnold sempre acreditou em sua prĂłpria supremacia, mesmo apĂłs a Sombra Sufocada tĂȘ-lo emboscado e mesmo quando o Mil Truques o obrigou a se ajoelhar.

Por razÔes desconhecidas, o Mil Truques nunca deu a menor impressão de possuir alguma força. Mas esse era um display direto de poder. Isso deixou claro que Arnold havia subestimado completamente aquele homem.

— Droga. Droga. Droga.

Ele cerrou os dentes e apertou o cabo de sua espada. Era inĂștil. Ele estava em desvantagem. No estado atual, ele era fraco demais. Nem sequer sabia o que estava lhe faltando.

Eigh olhou para Arnold com preocupação. Um líder precisava estar na linha de frente e demonstrar força. Chloe também voltou seu olhar para Arnold. Um líder precisava ser capaz de superar adversidades com pura determinação, mantendo uma fachada inabalåvel.

Eigh afastou a expressão de inquietação de seu rosto. Arnold não o enganava. Muito provavelmente, Eigh conseguia perceber como seu líder se sentia e sabia que ele estava tentando ao måximo esconder isso. Então, ele se forçou a relaxar um pouco e a continuar sendo o mesmo vice-líder de sempre.

Isso nĂŁo era hora de se distrair com sua discĂłrdia com o Mil Truques. O que precisavam focar era em uma maneira de garantir que todos saĂ­ssem daquele maldito cofre do tesouro inteiros. Mesmo que estivesse perdendo sua vontade de lutar, Arnold tinha o dever de liderar o grupo, nĂŁo importavam as circunstĂąncias. Somente a morte poderia livrĂĄ-lo dessa responsabilidade.

Ele decidiria esperar pelo Mil Truques e abaixar a cabeça ou tentaria dar a volta e procurar a saída?

EntĂŁo, Eigh arregalou os olhos. Ele ficou alarmado, mas conseguiu inspirar fundo e falar em voz baixa, para que apenas Arnold o ouvisse.

— Notícias ruins. Eles estão vindo. Um maldito enxame deles. É muito para nós!

— O quĂȘ?

Eigh olhava na direção de onde tinham vindo. Algo negro se contorcia no horizonte. Ainda estava distante, mas vinha em direção a eles como uma onda crescente.

NĂŁo, nĂŁo era “algo”. Eram cavaleiros, uma legiĂŁo daquelas criaturas grotescas com armaduras negras. Arnold e Eigh nĂŁo conseguiam dizer exatamente quantos eram, mas era inegĂĄvel que eram mais do que poderiam lidar. Eram tantos quanto a matilha de orcs que haviam enfrentado recentemente, mas orcs nĂŁo eram nada comparados aos fantasmas. Arnold provavelmente nĂŁo conseguiria abater nem metade deles, mesmo lutando atĂ© seu Ășltimo suspiro.

Os olhos de Rhuda se arregalaram ao notar a enxurrada que se aproximava.

— Mil Desafios — ela sussurrou em um tom que parecia tanto de riso quanto de choro.

Isso era uma Prova?!

— Que loucura — murmurou Arnold.

Ele olhou ao redor do påtio. Era tarde demais para fugir, mas ficar e lutar significava derrota certa. Naquele espaço aberto, seriam cercados e esmagados. Todos começaram a perder a esperança, mas jamais se deve desistir. Arnold se acalmou e procurou uma forma de sair daquela situação perigosa. Se ficassem no påtio, nenhum deles sairia vivo.

De repente, ele olhou para o castelo de obsidiana que jazia além do påtio. Era dali que o cofre do tesouro tirava seu nome. Provavelmente seria muito mais perigoso que as seçÔes externas. Mas talvez fosse melhor do que serem engolidos por uma onda de fantasmas.

O exército grotesco se aproximava. Não havia tempo a perder. O grupo havia se recuperado do choque e aguardava as ordens de Arnold.

EntĂŁo, ele tomou sua decisĂŁo.

***

— Por favor, aceite nossas mais sinceras desculpas!

— Ha ha, está tudo bem. Coisas assim acontecem comigo o tempo todo.

Não era apenas comigo, os funcionårios da estalagem também nunca tinham ouvido falar de um dragão invadindo uma ågua termal. Quando saí do banho para relatar a situação, encontrei todos os empregados da estalagem curvados diante de mim.

Acontece que o dragĂŁo azul-celeste era um daqueles dragĂ”es termais de que Liz tanto falava. Eles eram nativos das montanhas prĂłximas a Suls e seu nome vinha de sua afinidade com ĂĄguas termais, mas geralmente ficavam escondidos nas montanhas e raramente se aproximavam de assentamentos humanos. Claro que nĂŁo. VocĂȘ nĂŁo pode administrar uma estalagem se dragĂ”es aparecerem para dar um mergulho ocasional.

Os funcionårios conheciam os dragÔes, mas a maioria nunca tinha visto um. Todos olhavam para o dragão inconsciente com apreensão.

— Esse dragĂŁo termal ainda Ă© jovem — disse uma mulher de quarenta e poucos anos. Ela era a funcionĂĄria mais antiga e a proprietĂĄria da estalagem. — Os jovens sĂŁo muito curiosos. Talvez tenha notado que nĂŁo havia visitantes por causa dos bandidos e sua curiosidade tenha falado mais alto.

— Entendo. Bem, acontece de vez em quando.

Acidentes eram normais para caçadores. Encontros com dragĂ”es errantes, ogros errantes, ciclopes errantes e cofres do tesouro errantes me deixaram preparado para qualquer imprevisto. Minha sorte era pĂ©ssima assim. Às vezes, ficava delirante ao ponto de pensar que eles eram atraĂ­dos por mim ou algo assim.

Poderia ter sido pior, poderia ter sido um dragão adulto. Se houvesse não-caçadores por perto, alguém poderia ter morrido. Mas não houve vítimas fatais, então a estalagem apenas precisava garantir que algo assim não acontecesse de novo.

O que me preocupava era a saĂșde mental de Tino. Mesmo depois de se vestir, ela ainda tinha aquele olhar exausto. Tentei falar com ela repetidas vezes, mas ela nĂŁo respondia com seu sorriso habitual.

A batalha aconteceu de forma espontĂąnea, entĂŁo achei inevitĂĄvel que ela tivesse que lutar contra o dragĂŁo enquanto estava nua. Sem contar que fiz meu melhor para desviar o olhar. Mas suponho que ainda tenha sido uma experiĂȘncia chocante para uma garota da idade dela. Parecia que meus sentidos haviam se tornado insensĂ­veis por causa da indiferença de Liz.

— Ah, Ă© verdade — disse Sitri com um estalo animado de dedos. — Vamos comer dragĂŁo cozido hoje!

Isso tirou Tino de seu silĂȘncio melancĂłlico.

— HĂŁ? VocĂȘ vai comer?! — ela exclamou.

DragĂŁo nĂŁo era um prato comum. Eram criaturas raras e seu sangue, carne e ossos eram vendidos a preços altos. Mas nosso grupo nĂŁo se preocupava muito com lucro. Se capturĂĄvamos um dragĂŁo, comĂȘ-lo era normal. NĂŁo me lembrava do que havia iniciado esse hĂĄbito, mas nossas crianças selvagens — Luke e Liz — comiam qualquer coisa, incluindo centopeias e aranhas, entĂŁo dragĂ”es nĂŁo eram exceção.

— VocĂȘ gosta de dragĂŁo tambĂ©m, nĂŁo Ă©, Krai? Esse Ă© o primeiro dragĂŁo que Tino abateu! — Sitri disse para mim com um sorriso animado.

— Y-VocĂȘ me lisonjeia — disse Tino em voz baixa.

Ela olhava para o chão, parecendo tanto envergonhada quanto satisfeita. Parecia que com um pouco mais de elogios, ela concordaria, e Sitri me apoiou sem esforço.

— VocĂȘ lutou contra aquele dragĂŁo sem armas ou armadura. T, vocĂȘ foi adorĂĄvel.

— É, aham… hĂŁ?

Tino finalmente tinha se recuperado, mas agora tremia de novo. Vermelha até as orelhas, abaixou a cabeça e se afastou de nós.

NĂŁo, eu nĂŁo olhei. Nem um pouco. Eu juro.

Como eu poderia relaxar e apreciar a paisagem quando um dragĂŁo estava fazendo um estrago? Eu nĂŁo fiz nada nem deixei transparecer no rosto, mas estava bem desesperado naquela hora.

Sitri piscou para mim como se tivéssemos acabado de realizar um grande feito. Eu queria chamå-la atenção, mas Tino estava bem ali, então apenas suspirei.

— Hã? Um dragão de águas termais apareceu aqui?

Depois de voltar da sua busca por um dragão de åguas termais, Liz ouviu nossa história com choque. Ela tinha ido até as montanhas, mas não encontrou nada, enquanto nós esbarramos em um sem nem tentar. A vida era engraçada assim.

Com as pernas dobradas debaixo do corpo, Tino estava sentada no tatami. Ela se encolheu e olhou para sua mentora com os olhos voltados para cima. Parecia pensar que Liz ficaria brava porque sua presa tinha sido capturada por outra pessoa. Mas Liz nĂŁo faria isso.

Liz tinha uma expressão séria enquanto eu contava sobre o dragão. Mas quando ouviu que Tino lutou contra ele pelada e saiu vitoriosa, abriu um sorriso e pulou em cima da sua aprendiz. Tino soltou um gritinho enquanto Liz a abraçava e esfregava sua cabeça.

— Uhuu! ParabĂ©ns pelo seu primeiro dragĂŁo, T! Agora vocĂȘ tambĂ©m Ă© uma Matadora de DragĂ”es.

— HĂŁ? O quĂȘ?

— Temos que comer o dragĂŁo e comemorar! NĂ©, Krai Baby?

— É, aham.

— Huuuh? Será? — Tino disse.

Ela parecia totalmente surpresa com a reação da mentora e olhou para mim. Esse papo de “primeiro dragĂŁo” era novidade para mim, mas se Liz dizia que era motivo para comemoração, entĂŁo provavelmente era. Ela estava mais feliz do que eu a tinha visto hĂĄ muito tempo. Devia estar realmente orgulhosa de ver sua aprendiz crescer. TambĂ©m era um sinal de que estava amadurecendo como mentora.

— Mas se vocĂȘ ia matar um dragĂŁo, queria que tivesse feito isso enquanto eu estava por perto — Liz disse, dando tapinhas nas costas de Tino. — É uma ocasiĂŁo tĂŁo importante—

— Lizzy, se vocĂȘ estivesse lĂĄ, teria matado o dragĂŁo vocĂȘ mesma, nĂŁo teria? — Sitri interveio. — JĂĄ matamos tantos que mais um nem faz diferença.

Bom, alguém tinha que derrotar o dragão se quiséssemos voltar para casa vivos.

Tino estava surpresa ao vĂȘ-las falando como se a aprendiz tivesse sido agraciada com a chance de lutar contra um dragĂŁo. Sitri provavelmente nĂŁo estava falando sĂ©rio sobre jĂĄ ter matado tantos assim. Ela era organizada e sempre preparada, mas isso nĂŁo significava que gostava de entrar em combate direto. Normalmente, fazia questĂŁo de deixar Luke, Liz ou Ansem na linha de frente enquanto ela ficava na retaguarda.

— Aaaah, vamos voltar para as termas, Krai Baby? Eu quero lutar contra um dragããão!

— Nem pensar.

Disseram que iriam reforçar a segurança da cidade e eu duvidava que aparecesse um segundo dragão. O banho principal nem estava funcionando por causa dos estragos, então teríamos que nos contentar com a fonte termal do nosso quarto. Se um dragão aparecesse naquela banheira pequena, eu simplesmente desistiria.

Ninguém nunca tinha dito que queria lutar contra um dragão, e eu nunca disse para irem em frente e fazer isso, mas Liz ainda me olhou de cara fechada.

— HĂŁ? Tino seeempre recebe um tratamento especial. VocĂȘ tĂĄ favorecendo ela?

— De fato! Seja claro: quem Ă© mais importante pra vocĂȘ, eu ou a T?!

Liz sĂł conseguia pensar no dragĂŁo, Sitri estava tirando proveito da situação, e Tino estava completamente perdida. Aposto que estava pensando algo como “HĂŁ, estou sendo favorecida?”. Uma vez que vocĂȘ caĂ­a na linha de pensamento das irmĂŁs Smart, nĂŁo tinha mais volta, mas felizmente, elas pararam antes que isso acontecesse com Tino.

Liz de repente começou a olhar para sua aprendiz com suspeita.

— T, desde quando vocĂȘ ficou forte o bastante pra lutar contra um dragĂŁo de mĂŁos nuas? VocĂȘ tem pegado leve comigo nos treinos?

— N-NĂŁo, Lizzy! Foi, ahm…

Eu tambĂ©m estava me perguntando isso. Tino era talentosa e tinha sobrevivido aos regimes de treinamento infernais da Liz, mas ainda era uma Aventureira de NĂ­vel 4 e esse era seu primeiro dragĂŁo. “Matadora de DragĂ”es” era um tĂ­tulo dado porque todos os dragĂ”es ultrapassavam um certo nĂ­vel de poder. Mesmo que aquele das ĂĄguas termais fosse fraco para os padrĂ”es de um dragĂŁo, ainda assim nĂŁo devia ser algo que vocĂȘ poderia derrotar sem roupas.

Os lĂĄbios de Tino tremeram por um instante antes que ela olhasse para mim e falasse em uma voz baixa.

— Ahm, entĂŁo… Mestre, depois de usar aquela mĂĄscara sua, meu corpo tem se sentido mais leve. Ou talvez seja melhor dizer que aprendi a controlĂĄ-lo melhor.

Sério? Eu sei que aquela måscara desperta poderes latentes, mas ela também tem efeitos duradouros?

A Super Tino tinha sido um espetĂĄculo Ă  parte. Ela ficou mais alta e forte o suficiente para ser pĂĄreo para Arnold, um NĂ­vel 7. Ela estava consciente quando usou a mĂĄscara, entĂŁo nĂŁo era estranho que lembrasse dos movimentos mesmo depois de tirĂĄ-la. Talvez esse fosse o verdadeiro propĂłsito do Evolve Greed?

Que droga. Não pode ser sério, desperta meus poderes latentes também!

— Hmmm, entĂŁo tem efeitos duradouros — Liz disse, apertando os lĂĄbios. — Isso Ă© meio injusto.

Ela tinha experimentado a mĂĄscara lĂĄ na capital, mas aparentemente, foi rejeitada por “motivos de segurança”. Sitri ficou quieta e sorriu. NĂŁo sei o que a mĂĄscara disse para ela, mas ela tambĂ©m foi recusada quando tentou usar o Evolve Greed.

— Pelo jeito, hĂĄ restriçÔes nos poderes latentes que o Evolve Greed pode despertar — eu disse.

Ainda assim, era uma RelĂ­quia excelente. Sua compatibilidade variava… SĂł queria que fosse compatĂ­vel comigo.

— I-Isso mesmo, Mestre, nĂŁo funcionou com vocĂȘ — Tino disse.

— Acho que Ă© exclusivo da Tino.

Meu caso era um pouco diferente. Ao contrårio de Liz e Sitri, eu não conseguia usar a måscara porque minhas habilidades latentes eram muito baixas. E eu não achava que ela necessariamente despertava todos os poderes latentes de uma pessoa. Liz havia reconhecido o talento de Tino; eu não achava que poderia haver tanta diferença entre os poderes que cada uma possuía.

Sitri entĂŁo bateu palmas como se quisesse mudar de assunto.

— Por ora, vamos deixar a questão da máscara de lado e focar na comemoração — disse ela com um grande sorriso. — Hoje vamos nos banquetear com dragão cozido. Dragão cozido feito com um dragão de águas termais!

Aquelas nĂŁo eram palavras que eu estava acostumado a ouvir. Quase parecia que a carne seria cozida dentro de uma fonte termal. Mas eu nĂŁo ia reclamar, transformar infortĂșnio em diversĂŁo era o jeito dos caçadores.

Levamos Liz até o påtio para que ela pudesse ver o dragão, e sua reação foi algo impressionante.

— HA HA HA HA, MAS QUE DIABOS É ISSO?!

— Lizzy, não ria tanto.

— HĂŁ? VocĂȘ vai se tornar uma Matadora de DragĂ”es depois de derrotar isso? Caramba!

Liz estava certa. Parecia assustador quando estava enfurecido, mas agora que estava desacordado e deitado de lado, seu corpo arredondado e suas cores vibrantes o faziam parecer um bicho de pelĂșcia.

— Sim, Ă© um dragĂŁo anĂŽmalo, mas ainda assim Ă© um dragĂŁo — Sitri disse enquanto Liz batia palmas.

Era um dragĂŁo mais resistente do que sua aparĂȘncia fazia parecer. Afinal, destruiu o cobiçado banho principal da pousada. Seu sopro de ĂĄgua quente nĂŁo parecia grande coisa, mas poderia ter me matado instantaneamente se eu nĂŁo estivesse usando os AnĂ©is de Segurança.

Depois de se divertir, Liz enxugou as lĂĄgrimas dos olhos.

— Heh, heh. Mas eu ouvi dizer que dragĂ”es de ĂĄguas termais sĂŁo muito mais ferozes do que essa coisa.

NĂŁo, Liz, ele nĂŁo parece grande coisa porque estĂĄ inconsciente. Ele Ă© bem feroz.

— Ainda assim, segundo a proprietĂĄria, esses dragĂ”es raramente se aproximam de ĂĄreas habitadas por humanos, mesmo quando situadas prĂłximas a fontes termais — Sitri disse enquanto pegava uma grande foice emprestada de algum lugar. A lĂąmina, com um brilho opaco, era simples, mas intimidadora. — Hmmm, espero que essa lĂąmina consiga cortar. Pena que nĂŁo posso chamar o Luke.

Alguns monstros e seres míticos tinham a pele mais dura que metal. Sitri ergueu a foice com facilidade e a golpeou contra o pescoço do dragão. No mesmo instante, o dragão azul-celeste abriu os olhos.

Ele soltou um guincho estridente.

— Ah, ele desviou.

O dragão evitou a lùmina que vinha em sua direção com uma velocidade inacreditåvel. A lùmina brilhante afundou na terra. Tino soltou um grito breve e estava prestes a se esconder atrås de mim, mas parou ao perceber que Liz estava observando.

O dragão de åguas termais se ergueu sobre patas vacilantes. Ele viu Sitri com um leve sorriso, Liz exibindo um grande sorriso, Tino se preparando freneticamente para outra luta, Matadinho de braços cruzados e eu parado feito um pedaço de madeira. Ele soltou algo parecido com um grito.

Vale mencionar que Tino nĂŁo terminou de matar o dragĂŁo antes porque Sitri disse que o dragĂŁo tem um sabor melhor quando Ă© abatido logo antes do preparo.

Lågrimas começaram a brotar nos olhos arredondados do dragão enquanto ele olhava para Liz.

— Olha, Krai Baby! Nosso jantar estĂĄ chorando! AtĂ© mesmo alguns dragĂ”es choram.

— Não precisa chorar agora. Vou acabar com isso em um golpe, só vai doer por um instante — Sitri murmurou.

— E-Eu nĂŁo vou deixar vocĂȘs machucarem o Mestre!

— Matar, matar.

— Rawr… — o dragĂŁo choramingou miseravelmente.

O dragão era forte, mas tínhamos total vantagem com Tino sendo apoiada por Liz, Sitri e até Matadinho. Seu destino estava selado. Parecia entender a enrascada em que estava e olhou ao redor desesperadamente. Infelizmente, não havia para onde fugir. Mas então seu olhar caiu sobre mim.

É, aham. Tem um elo fraco no nosso grupo. Mas eu tenho meus AnĂ©is de Segurança. No momento em que vocĂȘ atacar, Liz vai te socar e vai acabar tudo. NĂŁo vai te ajudar em nada, entĂŁo nem tente.

O dragão se lançou contra mim. Até eu poderia desviar disso se tentasse, mas isso só causaria mais problemas, mesmo que eu conseguisse evitar o ataque. Sem opçÔes melhores, apenas decidi deixar que me acertasse. Resignado ao meu destino, abri os braços, mas o dragão rolou para o lado.

— O quĂȘ?!

O dragão de åguas termais emitiu um som fofinho enquanto rolava de costas e me mostrava a barriga. Ele me olhou com olhos marejados. Eu fiquei sem palavras. Tino olhou para mim como se eu fosse algo além de humano.

— M-Mestre, o dragĂŁo estĂĄ te mostrando a barriga. EntĂŁo ele estĂĄ se rendendo?! V-VocĂȘ nunca falha!

Não, tinha algo claramente errado com esse dragão. Além disso, eu tinha certeza de que ele estava tentando apelar para minha fraqueza, e não se submeter à minha força. Mesmo assim, de barriga para cima, o dragão se contorcia em minha direção. Não demonstrava um pingo do orgulho característico de um predador supremo. Então ele soltou um som parecido com um miado.

NĂŁo tem como isso ser um som normal de dragĂŁo.

Pouco tempo atrås, ele estava tentando me matar, mas agora eu o tinha na palma da mão. Coloquei meu pé sobre sua barriga como um teste, mas ele não reagiu. Parecia achar que isso era melhor do que ser comido. De repente, senti uma forte afinidade com o dragão.

— Krai, o que devemos fazer? — Sitri perguntou.

— Hmmm, boa pergunta.

Parecia que Liz e Tino também estavam prontas para seguir meu comando. Mesmo agindo de forma dócil, um dragão ainda era um dragão. Talvez fosse melhor simplesmente matå-lo? Não havia sentido em esperar até que causasse algum problema.

Eu endureci meu coração e toquei a superfície do dragão. Era lisa e quente, como uma fonte termal. Era uma sensação realmente agradåvel.

— B-Bem, nĂŁo vejo problema em perdoĂĄ-lo. NinguĂ©m morreu nem nada.

Eu tinha certeza de que dormiria bem se usasse esse cara como travesseiro.

O dragĂŁo soltou um grito animado.

Esse bicho com certeza entende o que estamos dizendo.

***


Mesmo enquanto olhava para trĂĄs, ele lutava para entender onde tinha errado. Trabalho era trabalho. Ele sabia que o que fazia era perigoso. Achava que sabia que era perigoso. Sentado sozinho e distraĂ­do em um canto de um quarto luxuoso, Gray se sentia um tolo.

Quando recusou a chance de participar do plano de fuga de Black e White, eles o olharam com desprezo, mas ele nĂŁo se importou.

Ele era uma pessoa ruim. Depois de ser rebelde demais até para a caça ao tesouro, tornou-se um criminoso e cometeu uma série de atos hediondos. Viu de tudo no submundo da capital imperial. O aterrorizante, o grotesco, o patético e aquilo que nenhum humano deveria testemunhar. Cruzou com pessoas que não tinham o menor respeito pela vida.

Mas o Mil Truques… ele era algo completamente diferente. Ele nĂŁo era um simples caçador. Algo incomodou Gray quando viu o Mil Truques pela primeira vez. Mesmo no mundo do crime, Gray era excepcionalmente perceptivo. Era assim que havia sobrevivido por tanto tempo, apesar da falta de outras habilidades notĂĄveis.

Aquele homem não tinha a postura distinta de quem superou provaçÔes. Não carregava a sombra de quem testemunhou a escuridão. E, acima de tudo, ao contrårio da Sombra Sufocada e da Ignóbil, ele não tinha o rastro de sangue.

Mesmo que nĂŁo fossem sedentos por sangue como a Sombra Sufocada, todos os caçadores de tesouros acumulavam o cheiro da morte em algum grau. Esse “rastro”, como Gray o chamava, nĂŁo era algo que se pudesse lavar, nĂŁo importava o quĂŁo forte tentasse.

AtĂ© encontrar aquele homem, Gray nunca tinha conhecido um caçador sem esse rastro. Isso fez com que ele interpretasse a situação de maneira errada e demonstrasse a atitude errada. Olhando para trĂĄs, foi um erro estĂșpido.

Era impensåvel que um homem pudesse alcançar o Nível 8, liderando um grupo de carniceiros, sem jamais se envolver em derramamento de sangue. Esse lado completamente incompreensível daquele jovem preguiçoso era exatamente o que fazia dele alguém com quem Gray não queria mexer.

Durante a viagem, Gray viu vĂĄrios exemplos do comportamento estranho daquele homem. Ele nunca fazia nada de notĂĄvel, e era exatamente isso que o tornava tĂŁo estranho. Gray sabia que nĂŁo podia baixar a guarda.

Antes de partirem, Krai não demonstrou o menor traço de malícia ao ordenar que Black, White e Gray fossem eliminados. Isso significava que ele via suas vidas como algo tão insignificante quanto pedras na beira da estrada.

Foi a Sombra Sufocada quem os capturou, mas provavelmente apenas porque essa tarefa era indigna do Mil Truques. Black e White tinham suas suspeitas, mas para Gray, parecia que seriam soltos, desde que nĂŁo fizessem nada.

Gray se encolheu e ficou em silĂȘncio, esperando a tempestade passar. Manteve a boca fechada como uma ostra e fingiu ser uma pedra. Essa era sua melhor chance de sobreviver. Eles nĂŁo haviam feito nada contra aquele homem… nada que ele considerasse errado. NĂŁo haviam feito nada que merecesse sua intervenção ou interesse.

Gray se concentrou, mas não ouviu os gritos de Black e White. É claro que não. Mesmo que algo tivesse acontecido, eles estariam mortos antes que pudessem gritar.

EntĂŁo, no momento perfeito, veio uma batida na porta.

— Black, White, estão aí?

— Hã?!

O coração de Gray quase saltou do peito. Por um instante, pensou que fosse uma alucinação induzida pelo desespero, mas os sons e vozes continuaram. Ele se levantou freneticamente. Seus joelhos quase cederam, mas ele conseguiu se segurar e destrancar a porta. As trancas de uma pousada como aquela não significavam nada para um Nível 8, e não abrir a porta nem era uma opção.

Black e White tinham ido roubar a chave do colar do Mil Truques. Gray nĂŁo sabia como a tentativa havia terminado, mas nĂŁo achava coincidĂȘncia o fato de o Mil Truques estar chamando seus nomes. E, se ele estava chamando apenas por Black e White, isso significava que, na verdade, estava chamando por Gray.

A porta se abriu. O jovem olhou para Gray com uma expressĂŁo peculiar. Sua postura continuava tĂŁo indefesa quanto sempre, seu corpo parecia incapaz de violĂȘncia. AtrĂĄs dele estava seu completo oposto: Sitri Smart, uma mulher que exalava uma aura selvagem. Ela olhava para Gray com seu sorriso arrepiante de sempre.

Mas o que mais incomodava Gray era o que estava agarrado aos pĂ©s do jovem — um dragĂŁo azul-claro. Era pequeno, e sua cor vibrante parecia uma piada, mas algo nitidamente dracĂŽnico esfregava a cabeça nos pĂ©s do homem como se tentasse ganhar sua simpatia. Gray ficou paralisado.

— Não se preocupe com isso — disse o Mil Truques, suspirando. — Ele foi domesticado. Acho que realmente não quer ser comido.

Gray mal podia acreditar naquela afirmação casual. Era inimaginåvel que uma besta mítica se submetesse a um humano. O Mil Truques apenas deu de ombros, resignado.

— A propĂłsito, sĂł vocĂȘ estĂĄ aqui, Gray? Onde estĂŁo Black e White?

Gray voltou a si e instintivamente pressionou os lĂĄbios juntos.

O Mil Truques podia ver atravĂ©s dele. Nada em sua voz ou expressĂŁo parecia incomum, mas isso nĂŁo enganaria Gray. Normalmente, ele começaria a gritar, mas tudo o que saiu de seus lĂĄbios foi uma voz trĂȘmula e fraca. Seu coração batia como um tambor. Ele tinha certeza de que o Mil Truques nĂŁo tinha interesse nele, mas era natural temer coisas assustadoras. A Ășnica opção para os fracos era obedecer.

Gray nĂŁo fazia ideia do que aquele homem poderia dizer ou fazer, e era isso que o tornava tĂŁo aterrorizante.

— E-Eu disse para eles nĂŁo fazerem isso. Black e White, eles foram roubar a c-chave…

Ele havia dito que ficaria quieto, mas nĂŁo se importava mais. Quanto mais pensava nisso, mais falhas via no plano deles. Preto e Branco haviam sido excessivamente otimistas e estavam contando com a sorte. Em circunstĂąncias normais, era um plano ridĂ­culo, nem valia a pena considerar. Apenas impulsos ruins poderiam tĂȘ-los levado a executĂĄ-lo. NĂŁo, provavelmente seus nervos haviam se rompido pelo medo que os dominava.

Ouvindo o que Gray disse, o jovem de cabelos negros fez uma expressĂŁo estranha e piscou algumas vezes antes de levantar casualmente a corrente em seu quadril. Dezenas de peças de joias estavam presas Ă  corrente, incluindo duas coleiras idĂȘnticas Ă  que estava no pescoço de Gray.

Krai Andrey bateu palmas como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer. Era comicamente óbvio, mas, surpreendentemente, nada naquilo parecia encenação. Se Gray não soubesse nada sobre ele, poderia ter julgado imediatamente aquele homem como um completo idiota.

Com um sorriso forçado, o Mil Truques se virou. Diferente dele, Sitri tinha um olhar frio nos olhos.

— Sitri, parece que eles fugiram. Isso vai ser um problema?

— Não, particularmente. Não imagino que tenham ido muito longe ainda. Se precisarem ser detidos, posso colocar Lizzy para—

— NĂŁo, estĂĄ tudo bem. NĂŁo era isso que eu queria dizer. Isso nĂŁo vale o incĂŽmodo de chamar a Lizzy enquanto ela estĂĄ de fĂ©rias. Sim, sĂł vamos fazer uma pequena mudança nos planos. A propĂłsito, sĂł por curiosidade…

Krai coçou a bochecha, franziu a testa e olhou para Gray. Gray podia ver seu próprio rosto abatido refletido naqueles olhos completamente negros. A expressão incompreensível do homem fez um calafrio percorrer sua espinha. Aquele era um homem imbatível que havia derrotado um dragão, feito pessoas enfrentarem monstros ferozes e não demonstrava a menor preocupação com vidas humanas.

— Por que vocĂȘ nĂŁo fugiu? — ele perguntou a Gray.

***

Eu cometi um erro.

Fui completamente pego de surpresa com a notĂ­cia de que aqueles dois fugiram. Parecia inimaginĂĄvel, considerando que eu jĂĄ havia dito que daria a chave e os libertaria. Claro, foi burrice minha nĂŁo perceber que tinham fugido mesmo depois de encontrar suas coleiras no armĂĄrio, mas acho que minha estupidez jĂĄ estĂĄ bem estabelecida neste ponto. Foi tudo por causa daquele dragĂŁo da fonte termal.

Mas esse nĂŁo foi um erro fatal, a libertação deles sĂł foi adiantada um pouco. Sitri tambĂ©m nĂŁo achou que fosse um problema, entĂŁo realmente nĂŁo havia necessidade de ir atrĂĄs deles. Se tivessem roubado uma RelĂ­quia, talvez eu tivesse mandado Liz atrĂĄs deles, mas felizmente levei todas as minhas RelĂ­quias para a fonte termal comigo. SĂł rezei para que roubar aquela chave fosse o Ășltimo crime que cometeriam.

Mas eu ainda nĂŁo entendia por que Gray ficou para trĂĄs. Quando soltei essa pergunta sem pensar, ele me olhou surpreso. Talvez por estar de vigia o tempo todo durante a viagem, seus olhos e bochechas pareciam fundas. Desde o inĂ­cio, ele nĂŁo parecia uma pessoa vigorosa, mas agora parecia uma ĂĄrvore seca.

Quando fiz minha pergunta, ele tropeçou e caiu sentado. Era apenas uma dĂșvida simples, mas por alguma razĂŁo, ele ficou pĂĄlido e começou a bater os dentes. Talvez eu nĂŁo devesse ter perguntado. Eu nĂŁo pensei muito sobre isso quando falei, mas, pensando bem, roubar e fugir nĂŁo sĂŁo exatamente boas açÔes. Qualquer um ficaria desconfortĂĄvel se questionado sobre por que nĂŁo o fez.

Gray olhou para mim com os olhos arregalados, seus lĂĄbios tremendo.

— E-e-eu…

— Ah, desculpa, vocĂȘ nĂŁo precisa responder. SĂł fiquei um pouco curioso — eu disse em um tom tranquilizador.

Eu não me importava de qualquer maneira. Isso era apenas férias para mim. Joguei a chave bem na frente de Gray e soltei um grande bocejo. Era só uma tarefa a menos para eu me preocupar, então considerei isso um golpe de sorte.

— Aqui estĂĄ a chave. VocĂȘ pode ir quando quiser, mas jĂĄ que estamos aqui, por que nĂŁo fica um pouco e descansa? Sitri estĂĄ pagando tudo, afinal.

— De fato, e está me custando apenas uma quantia irrisória — disse Sitri com um sorriso contraído.

Mesmo que fossem criminosos, trabalhar alguĂ©m atĂ© a morte ainda era um crime. Sob a lei de Zebrudia, vocĂȘ poderia matar um criminoso ao tentar capturĂĄ-lo, mas uma vez preso, nĂŁo podia simplesmente eliminĂĄ-lo por capricho.

Enquanto dava tapinhas conciliadores no ombro da insatisfeita Sitri, senti que precisava dar um aviso a Gray.

— Ah, certo. Não vá cometer mais crimes, ok?

***

A sorte devia estar de ótimo humor, pois o plano de Preto e Branco saiu sem nenhum problema. Eles conseguiram remover suas coleiras, saíram da pousada sem serem vistos pelos funcionårios e até deixaram a cidade com os itens que haviam escondido. Estavam livres para ir para o exterior ou voltar à capital e se esconder. Mas ainda não podiam respirar aliviados.

Levar a carruagem junto teria sido um exagero. Seria ousado demais e daria aos seus captores mais um motivo para ir atrĂĄs deles. Eles estavam correndo fora da estrada por um tempo. Assim que a cidade desapareceu de vista, Preto e Branco pararam.

A fuga tinha sido perfeita, mas suas expressĂ”es ainda eram sombrias. Respirando pesadamente, tomaram goles de seus cantis e olharam na direção da cidade. Ambos se lembravam das Ășltimas palavras que o Mil Truques dissera a eles.

— Por quĂȘ? O que levou aquele homem a nos deixar ir? — disse Branco.

— Hmph. Não me pergunte. Como eu deveria saber o que se passa na cabeça de um Nível 8? — respondeu Preto.

— Pode haver ladinos — ele havia dito no banho principal. Aquilo foi claramente direcionado a Preto e Branco. Preto não sabia dizer se aquilo tinha sido uma tentativa de desencorajá-los de roubar a chave ou se era para avisá-los de que ele sabia o que estavam tramando. Se tinham chegado tão longe, isso significava que ele estava permitindo que fugissem?

— Para onde vamos? — Branco perguntou, seu rosto sem cor. — Devemos deixar o país? Deveríamos voltar para a capital?

Eles eram ambos nativos da capital imperial. Ainda tinham esconderijos com itens por lĂĄ e poderiam facilmente manter um perfil discreto. Mas a capital tambĂ©m era a base dos Mil Truques. Quem sabia o que poderia acontecer se voltassem? Ele poderia tĂȘ-los deixado ir, mas a IgnĂłbil e a Sombra Sufocada talvez nĂŁo fossem tĂŁo indulgentes.

— Vamos para o exterior — declarou Black. — Zebrudia Ă© perigosa demais enquanto tivermos a ira deles.

— Ah, sim, eu estava pensando o mesmo — respondeu White, seus olhos vasculhando os arredores.

Se deixassem o império, mesmo a Sombra Sufocada provavelmente não os seguiria. Não havia motivo para ela estar tão obcecada com eles. White pegou um mapa do império de sua bolsa e o desdobrou. Era um mapa simples, mas pelo menos servia para descobrir a rota mais curta para fora do império.

Black e White eram ambos caçadores habilidosos. Olhando para trås, para aquela expedição brutal, sentiam que agora poderiam superar qualquer provação que surgisse. Os olhos de White brilhavam com vitalidade; ele parecia pronto para fazer o que fosse necessårio para aproveitar essa chance de escapar com vida. Black sentia o mesmo.

— Para onde? — perguntou White.

Suls era cercada por montanhas em trĂȘs lados. A melhor opção era sair pela estrada por onde vieram, mas essa tambĂ©m era a escolha mais Ăłbvia. Enquanto refletia sobre a rota mais viĂĄvel, Black de repente se lembrou de uma conversa que os Mil Truques e seus comparsas tiveram na carruagem.

Ela conferiu o mapa. Olhou atentamente para uma região extensa próxima a Suls, a apenas um passo dali. Era perto da fronteira e pertencia a uma lùmina do império que afastava monstros, fantasmas e invasores. Era o lar de uma ordem de cavaleiros de elite, praticamente isenta de corrupção, um péssimo lugar para qualquer um com mås intençÔes. Também era um local que os Mil Truques haviam decidido evitar a todo custo.

— O Condado de Gladis. Vamos passar por aqui. Vamos atravessar as montanhas — declarou Black em um tom seco.

***

Não hå nada melhor do que estar de férias. Meu tempo em Suls passou voando. A comida era deliciosa e a fonte termal era incrível. Acho que foi por causa do incidente com o dragão da fonte termal, mas os funcionårios da pousada pareciam me reverenciar. Mas ganhei algumas coisas de graça e apenas ignorei os olhares idolatrantes deles.

No final de cada dia, eu olhava para trås e lamentava todo o tempo que desperdicei, e até isso era agradåvel. O banho principal havia sido destruído, restando apenas o nosso banho ao ar livre no quarto. Mas eu podia aproveitå-lo sem me preocupar com outros hóspedes, então não era tão ruim. Se eu realmente quisesse ir a um banho maior, poderia visitar as fontes termais externas. Fiquei um pouco apreensivo, mas não houve mais avistamentos de dragÔes depois do primeiro dia.

A Ășnica desvantagem era que Luke e os outros nĂŁo estavam lĂĄ para se juntar a nĂłs. Fazia muito tempo que nĂŁo viajĂĄvamos como um grupo, e normalmente fazĂ­amos esse tipo de passeio juntos. Talvez reclamassem quando voltĂĄssemos para a capital.

Mas podemos simplesmente vir juntos outra vez. Quando os encontrar, vou me gabar o quanto quiser.

Ouvi de Sitri que essas ĂĄguas termais tinham propriedades curativas, e parecia que ela estava certa. NĂŁo que eu tivesse ferimentos antigos, mas ainda assim sentia que poderia ficar ali para sempre. A ĂĄgua estava um pouco quente, mas resolvi esse problema com uma RelĂ­quia que aumentava a resistĂȘncia ao calor.

Eu estava matando tempo mais um dia, com a parte inferior do corpo submersa na ågua morna, e, como de costume, podia ouvir Liz e Tino discutindo. Liz não tinha noção de limites. Uma vez, quando todo o nosso grupo encontrou uma fonte termal no meio das montanhas, ela tentou entrar comigo sem a menor vergonha, mesmo depois de eu dizer que não. Ela me via menos como um homem e mais como um amigo de infùncia.

Dizem que, entre caçadores, as barreiras entre homens e mulheres são bem baixas. Equipamentos sendo destruídos e situaçÔes parecidas significavam que não dava para se incomodar muito com nudez. Mas achei que havia algo errado em não sentir nenhuma vergonha.

Eu sou um homem, afinal, e, diferente de Luke, não sou indiferente a tudo que não envolva espadas, então não dava para simplesmente ignorar. Mesmo estando acostumado com o jeito pegajoso da Liz, ver toda aquela pele ainda me deixava desconfortåvel, e pior ainda quando ela se agarrava a mim. Normalmente, Lucia lançava alguma magia para manter Liz afastada, mas com sua rival ausente, Liz estava cheia de energia. Mesmo sabendo que isso podia acontecer se viéssemos, não consegui resistir ao chamado da fonte termal.

Ouvi um grito de Tino e, no momento seguinte, a porta se abriu com um estrondo.

— Maaaestre, corra! E vocĂȘ nĂŁo jĂĄ ficou tempo demais aĂ­ dentro?! Quantas vezes entrou no banho hoje?!

— Krai Baby, trouxe um pouco de bebida! Vamos beber juntos? — disse Liz, animada.

— Ah, tudo bem, vá em frente, Liz — falei, abafando um enorme bocejo. — Só se certifique de se lavar antes de entrar.

Acompanhado por Liz e Tino, ambas de yukatas, caminhei pela cidade me sentindo um homem duplamente abençoado. Parece que a aparição do dragĂŁo da fonte termal causou um grande choque nos moradores, e eles nos tratavam como celebridades por tĂȘ-lo derrotado.

JĂĄ chamĂĄvamos atenção naturalmente, pois Ă©ramos praticamente os Ășnicos turistas na cidade. O dragĂŁo da fonte termal parecia ser de uma variedade mais fraca, mas ainda assim era um dragĂŁo, o que significava que era uma besta mĂ­tica que nenhum cidadĂŁo comum conseguiria enfrentar. Vendo-o relaxando no nosso banho ao ar livre, era fĂĄcil esquecer que aquela coisa era perigosa.

Era natural que nos elogiassem por tĂȘ-lo vencido (mesmo que nĂŁo o tivĂ©ssemos matado no final), mas Tino nĂŁo parecia acostumada com tanta atenção e mantinha uma expressĂŁo muito rĂ­gida.

— VocĂȘ deveria sorrir em momentos assim, tenha orgulho. Essa fama passageira logo vai sumir — disse a ela.

— S-Sim, Mestre.

Enquanto passeava, mastigava um manju de dragĂŁo de nascente termal de cortesia. Sendo uma cidade de fontes termais, Suls tinha uma atmosfera bem relaxante, o que me agradava. Nossa estalagem nĂŁo era o Ășnico lugar com banhos, havia diversas outras fontes menores espalhadas pela cidade. Provavelmente a qualidade nĂŁo variava muito, mas ainda assim pensei que poderia ser divertido experimentar alguns dos outros banhos.

Também havia algo refrescante em ver Tino e Liz com roupas diferentes. Os yukatas mostravam menos pele do que seus trajes usuais, mas combinavam muito bem com suas figuras esbeltas. Talvez por causa do vapor das termas, suas peles estavam mais avermelhadas do que o normal, dando a elas um ar vagamente erótico.

Isso me lembrou de algo que Sitri uma vez me disse. Ela disse que os yukatas são dobrados com o lado esquerdo por cima para que a mão direita possa entrar e apalpar o peito. Que mentira descarada. Não hå como alguém ter feito uma roupa tão descaradamente lasciva!

Perto dos limites da cidade, Sitri conversava sobre negĂłcios com um grupo de homens vestidos com roupas finas.

— Entre cenĂĄrio e segurança, a segurança deve ter prioridade. Uma barreira pode afastar monstros, mas nĂŁo os mais fortes deles, nem os humanos, aliĂĄs. Com isso em mente, por que nĂŁo adquirir um golem de Ășltima geração?

Sorrindo e vestindo um yukata, ela falava enquanto apontava para a muralha externa, que mal chegava à altura do seu pescoço.

— Eles podem ter um preço elevado, mas servem nĂŁo apenas para combate, como tambĂ©m para trabalho manual. Sem dĂșvida, sĂŁo uma pechincha comparados aos trabalhadores humanos. A Fortuna nĂŁo colocarĂĄ um Caçador de NĂ­vel 8 nos seus banhos uma segunda vez.

Ela sempre escondia sob a roupa, mas, comparada a Liz, Sitri tinha uma bela silhueta. Era um pouco mais alta, mas seu busto não deixava espaço para competição.

— Krai gostou desta cidade, e esses golems ainda estão em fase de testes, então se comprarem agora, eu corto o preço pela metade. Com armas incluídas, um conjunto de trinta golems sai por um bilhão de gild, mais impostos!

Os anciÔes, que pareciam ser os responsåveis pela cidade, discutiam entre si enquanto provavelmente eram cativados pela figura exuberante de Sitri. Um bilhão de gild parecia uma soma bem pesada para uma cidade deste tamanho. Golems conseguiriam vencer um dragão? Por que Sitri estava conduzindo negócios enquanto eståvamos de férias? Nada disso fazia sentido para mim.

— Siddy… nunca perde o ritmo — comentou Tino.

— NinguĂ©m Ă© melhor que ela em encontrar pontos fracos — disse Liz.

Com exasperação, ambas observavam Siddy, que simplesmente fazia o que queria. Elas estavam certas, mas, por outro lado, Liz era a garota que saiu caçando um dragão no nosso primeiro dia aqui.

Sitri me viu e veio correndo até mim, mesmo estando no meio das negociaçÔes. Não pude evitar notar que seu yukata estava dobrado com o lado esquerdo por cima.

— VocĂȘ estĂĄ trabalhando duro — comentei.

— Seria um desperdício se outro dragão aparecesse, e eu pudesse testar o poder das minhas novas armas. Vejo isso como matar dois coelhos com uma cajadada só — ela respondeu.

Ela Ă© uma mercadora da morte?

Mas Sitri tinha um ponto, as defesas desta cidade realmente pareciam insuficientes. Para eles, talvez só importasse enquanto aquele grupo de bandidos estivesse por perto, mas para um visitante temporårio como eu, isso fazia muita diferença.

Ainda assim, um bilhĂŁo de gild era muito dinheiro. NĂŁo era um preço que se aceitava sem alguma consideração. Quanto custava produzir esses golems? Os figurĂ”es da cidade pareciam estar desistindo da ideia. Quase ninguĂ©m aceitaria comprar golems sem sequer tĂȘ-los visto em ação.

— Sitri, por que não reduz um pouco o preço? — sugeri após uma breve hesitação.

— Hã? — Sitri me olhou de olhos arregalados. — Quanto deveria cobrar, então?

Quanto? Isso Ă© novo. VocĂȘ realmente vai vender pelo preço que eu disser?

Eu nĂŁo era um Alquimista e nĂŁo conhecia o valor de golems. Isso nem era algo em que eu normalmente meteria o nariz.

— Isso Ă© para a segurança da cidade. Que tal nĂŁo cobrar em dinheiro, mas deixĂĄ-los pagar com mercadorias ou algo assim?

— Uma troca de mercadorias, Ă©? Mas o Ășnico produto notĂĄvel nesta cidade sĂŁo suas fontes termais… Ah, jĂĄ sei! Que tal a soberania deles?!

— A-Ah, tambĂ©m acho que, se vocĂȘ quer que comprem algo, deveria deixar que vejam primeiro.

— Hm, isso faz sentido — ela disse, pensativa.

O que ela queria dizer com soberania?

Eu nĂŁo ia sugerir “DĂȘ os golems de graça”, e ela nĂŁo faria isso mesmo se eu dissesse. Ela valorizava muito minha opiniĂŁo, mas nĂŁo faria simplesmente tudo o que eu dissesse. Era um laço de amizade que existia entre nĂłs.

Sitri pareceu ter chegado a uma conclusĂŁo quando bateu as mĂŁos e sorriu. Ela voltou aos cidadĂŁos, que ainda discutiam seriamente.

— Tomei uma decisĂŁo — disse Sitri com uma voz animada. — Se estĂŁo indecisos, entĂŁo eu emprestarei todos os golems gratuitamente durante a nossa estadia. Considerem isso um presente de Krai. Se outro dragĂŁo aparecer durante nossas fĂ©rias, serĂĄ um grande incĂŽmodo. Lembrem-se, podem esperar atĂ© verem os golems em ação, e nĂŁo serĂĄ tarde demais para decidir pela compra.

Depois do que parecia uma campanha de vendas voluntĂĄria, reuni Sitri e nĂłs quatro passeamos pela cidade. Ela nĂŁo havia trazido golems consigo, mas parecia que podia fabricĂĄ-los por aqui. Que trabalhadora incansĂĄvel.

— VocĂȘ estĂĄ bem com isso? — perguntei pela enĂ©sima vez naquela hora.

— Sim. Faço isso por vocĂȘ — ela disse com um sorriso alegre.

Eu era um amador quando se tratava de comércio, mas parecia que Sitri estava levando a pior nesse acordo. Jå havíamos encontrado um dragão da fonte termal. Duvidava que surgissem outras ameaças durante nossa estadia, e aqueles golens não venderiam se não tivessem a chance de mostrar seu poder.

E isso nĂŁo era pelo bem dos moradores da cidade, e sim pelo meu?

Sitri nĂŁo respondeu Ă  minha pergunta, apenas deu meio passo Ă  frente, diminuindo a distĂąncia entre nĂłs. Um leve aroma adocicado flutuou de seu cabelo. Provavelmente seu xampu? NĂŁo comentei sobre isso, mas senti vontade de aproximar meu rosto. Comecei a me sentir tonto.

— Krai Baby, nĂŁo caia nos truques descarados dela para ganhar pontos com vocĂȘ! — disse Liz, se enfiando entre nĂłs. — Ela tĂĄ te enfeitiçando pra te deixar em dĂ­vida com ela!

— Eu nĂŁo estou fazendo nada disso. Lizzy, vocĂȘ tĂĄ completamente paranoica! NĂŁo Ă© mesmo, Krai?

— É, uh-huh.

Ela vai tentar aquela velha armadilha, aquela de “Ah, lembra que te emprestei dinheiro um tempo atrás? Que tal dar uma passada na minha casa um dia desses?”. Bem, só tenho a mim mesmo para culpar, e provavelmente vou acabar me virando sem precisar pagar de volta.

Aproveitei a tranquilidade enquanto as irmãs Smart discutiam. Tino parecia ter recuperado um pouco da animação. Tudo que eu precisava fazer era ganhar tempo até o fim do Encontro da Lùmina Branca. Nossa viagem teve seus problemas, mas tudo acaba bem quando termina bem.

Pensei em levar Liz e Sitri para algum lugar para que Tino pudesse ficar um tempo livre sem ser pega no fogo cruzado delas. Mas, de repente, avistei uma placa sem enfeites que destoava do cenĂĄrio de uma cidade termal. Li o que estava escrito e franzi a testa.

— Construção?

— Parece que estavam escavando uma fonte, mas o projeto foi interrompido por causa dos rumores sobre os bandidos — acrescentou Sitri.

Um grande terreno estava cercado por arame farpado, com um enorme buraco cavado no centro. Eu não entendia os detalhes de escavação de fontes, mas aparentemente, até isso havia sido afetado pelos bandidos.

— Muito provavelmente, estavam usando um Magus para esse projeto — continuou Sitri. — E, por precaução, esse Magus foi evacuado.

— Espero que essa situação com os bandidos se resolva logo.

O canteiro de obras era enorme; provavelmente estavam planejando construir uma pousada bem grande. Equipamentos de construção estavam empilhados ao redor do buraco.

Bem, mesmo sem a interrupção, provavelmente não teriam terminado antes da nossa chegada. Mas, se isso continuar assim, talvez nem esteja pronto quando voltarmos com o resto do grupo.

— Isso me lembra — disse Sitri com um sorriso e uma batida de palmas —, ouvi falar que existem lendas sobre mais do que apenas dragĂ”es nesta regiĂŁo!

— Lendas?

Lendas. Nada disso parece bom.

Achei que minha expressĂŁo deixava claro que eu nĂŁo queria ouvir mais nada, mas Sitri continuou.

— Dizem que às vezes aparecem por perto.

— Ah, vamos falar de outra coisa.

NĂŁo era algo que eu me orgulhasse de admitir, mas eu nĂŁo lidava bem com fantasmas. JĂĄ fui perseguido por todos os tipos deles, sabe.

— Não! Eles não são fantasmas, as lendas falam de um estranho Sapien—

— Ah, vamos falar de outra coisa.

NĂŁo era algo que eu me orgulhasse de admitir, mas eu nĂŁo lidava bem com Sapiens. JĂĄ fui perseguido por todos os tipos deles, sabe.

Sitri suspirou e sorriu levemente ao ver minha total falta de entusiasmo.

— Bem, Ă© sĂł uma lenda, e parece que nĂŁo hĂĄ relatos recentes.

Isso mesmo. Perfeitamente certo. JĂĄ tivemos encrenca o suficiente. Se aparecer mais alguma coisa, podemos declarar minha sorte oficialmente morta.

Por enquanto, nossa preocupação eram os bandidos.

— Será que tem algum caçador por perto que possa dar conta dos bandidos? — murmurei.

Liz arregalou os olhos e sorriu enquanto acenava com as mãos. Claro, eu quis dizer algum caçador que não fosse ela. Se ela fosse lutar, Tino e eu seríamos arrastados junto, e eu queria evitar isso.

Então, um barulho alto ecoou de repente. No portão da cidade, que mal podia ser chamado de portão, uma grande carroça surrada era puxada por cavalos magros. Os poucos vendedores nas ruas olhavam curiosos para a cena incomum.

Novos visitantes?

Observei distraidamente enquanto a porta da carroça se abria e um homem pĂĄlido como a morte desembarcava. NĂŁo consegui conter minha surpresa. Arnold saiu da carroça. Ele havia mudado tanto que, a princĂ­pio, nĂŁo o reconheci, mas nĂŁo havia dĂșvidas.

Arnold Hail. Um caçador de nível 7 com o título de Relùmpago Estrondoso. E também um homem que, por algum motivo, queria minha cabeça. Ele estava coberto de bandagens, o cabelo uma bagunça, as bochechas encovadas, mas ainda assim era inconfundível. Logo atrås dele estavam seus companheiros de equipe e até Gilbert.

Havia algo diferente neles. Alguns estavam usando equipamentos diferentes. NĂŁo pareciam gravemente feridos, mas seus passos eram hesitantes, e seus corpos cobertos de cortes e arranhĂ”es. A Ășnica que parecia um pouco melhor era Chloe, que saiu por Ășltimo.

Eles deviam estar realmente exaustos, pois não notaram minha presença, mesmo eu jå tendo notado a deles. Normalmente, seria impensåvel que eu os avistasse primeiro.

SerĂĄ que estavam me perseguindo?

Mas, se fosse esse o caso, nĂŁo teriam aparecido diante de mim nesse estado deplorĂĄvel. Pareciam ter acabado de escapar por um triz da morte.

Eu jĂĄ estive Ă  beira da morte no deserto, entĂŁo sabia exatamente como isso parecia.

Que situação terrível. E logo enquanto estamos de férias. Deus deve ter alguma bronca comigo.

Os olhos de Tino estavam arregalados. Um sorriso se formou no rosto de Liz ao avistar Arnold. Os olhos de Sitri se arregalaram, mas logo ela juntou as mĂŁos, como se tudo fizesse sentido para ela agora.

NĂŁo gostei nada desse desdobramento.

— Precisamos dar o fora antes que nos notem. Arnold e companhia não pareciam estar prestando atenção ao redor.

Segurei a mão da Liz e a puxei para trås, mas Sitri avançou como se estivesse tomando o lugar dela. Não consegui impedi-la antes que ela começasse a bater palmas para Arnold em um gesto de boas-vindas. Ela não parecia surpresa. Exibia um sorriso largo, como se jå esperasse por tudo isso.

— Ora, ora, ora. Sejam bem-vindos Ă  cidade de Suls. Devo dizer que demoraram demais? Ou serĂĄ que chegaram no momento perfeito, como sempre? Cansei de esperar. VocĂȘs demoraram tanto que eu tive que lutar contra o dragĂŁo.

— Hm?!

Sitri, vocĂȘ jĂĄ sabia que isso ia acontecer?!

NĂŁo fazia ideia de como ela poderia ter previsto tudo isso, mas se sabia, bem que poderia ter me contado. Assim, terĂ­amos ido para outra fonte termal.

Arnold olhou para Sitri, depois para mim, e seus olhos se arregalaram o mĂĄximo possĂ­vel. Seu corpo enorme vacilou e, sem dizer uma palavra, ele desmaiou ali mesmo.


Tradução: Carpeado Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â€“ Clicando Aqui


Tradução feita por fãs. Apoie o autor comprando a obra original.

Compartilhe nas Redes Sociais

Publicar comentĂĄrio

Anime X Novel 7 Anos

Trazendo Boas Leituras AtĂ© VocĂȘ!

Todas as obras presentes na Anime X Novel foram traduzidas de fĂŁs para fĂŁs e sĂŁo de uso Ășnico e exclusivo para a divulgação das obras, portanto podendo conter erros de gramĂĄtica, escrita e modificação dos nomes originais de personagens e locais. Caso se interesse por alguma das obras aqui apresentadas, por favor considere comprar ou adquiri-las quando estiverem disponĂ­vel em sua cidade.

Copyright © 2018 – 2025 | Anime X Novel | Powered By SpiceThemes

CapĂ­tulos em: Let This Grieving Soul Retire