Grieving Soul – Capítulo 4 – Volume 4

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 04

CapĂ­tulo 4:
[Férias Divertidas]


Nunca em sua carreira como caçador Arnold havia visto um bando de monstros tão grande reunido em um só lugar. Havia mais olhos brilhantes do que qualquer um poderia contar. O cheiro de feras e sangue era carregado pelo vento. A maioria eram orcs, mas havia muitos outros monstros misturados no meio.

Os mustangs bem treinados relinchavam de medo. Chloe e todos da Scorching Whirlwind estavam pålidos como fantasmas. Quem poderia culpå-los? Mesmo para os caçadores experientes da Névoa Caida, aquilo era uma reunião de monstros maior do que qualquer outra que jå tinham visto.

Em circunstĂąncias normais, um Ășnico grupo nunca se depararia com um bando dessa escala. Pelo menos ninguĂ©m estava fugindo. Uma personificação do caos, os monstros atravessavam a planĂ­cie como uma onda gigante. Eles pisoteavam uns aos outros e se moviam como se algo os estivesse atraindo.

— Eles ficaram completamente insanos. Foi algum feitiço? Ou algum tipo de droga? — especulou Eigh.

Mas não era hora de se preocupar com a causa. Os companheiros de Eigh formaram uma formação defensiva, e um Magus começou a entoar a magia mais poderosa que conhecia.

A Nevoa Caída era um grupo especializado na caça de monstros grandes e a maioria dos seus membros era treinada para combate corpo a corpo; eles não tinham Magi capazes de lançar feitiços de ampla årea. Todos pareciam prontos para morrer, mas essa determinação era desnecessåria. Eles iriam lutar e vencer, como sempre faziam.

— NĂŁo vamos conseguir protegĂȘ-los — disse Arnold para Rhuda e os outros. — VocĂȘs terĂŁo que cuidar de si mesmos.

Sua espada era feita dos ossos do DragĂŁo do TrovĂŁo que haviam derrotado. Ele apertou o cabo, e a lĂąmina estalou com eletricidade, quase como se ainda se lembrasse de quando fazia parte de um dragĂŁo.

Equipamentos feitos com partes de monstros que possuĂ­am magia poderosa exibiam algumas das mesmas habilidades que os monstros possuĂ­am. A espada de Arnold, a origem de seu apelido “TrovĂŁo Retumbante”, era um dos melhores exemplos disso. Empunhando uma arma digna de um Matador de DragĂ”es, os orcs nĂŁo passavam de meros incĂŽmodos, independentemente do nĂșmero.

— Arnold, dĂȘ uma olhada — disse Eigh com os ombros trĂȘmulos e um sorriso tenso. — Os monstros estĂŁo cobertos de ferimentos. Talvez estejam fugindo dele.

Os orcs nĂŁo eram completamente estĂșpidos, mas tambĂ©m eram selvagens e imprudentes. Um bando tĂŁo grande nĂŁo fugiria de qualquer coisa. Isso tornava a tarefa de expulsĂĄ-los de seus fortes difĂ­cil. Mas esse fato apenas dava mais credibilidade Ă  sugestĂŁo de Eigh.

Arnold sabia melhor do que qualquer um que um caçador de Nível 8 não podia ser compreendido por meio do senso comum. Ele também sabia que caçadores poderosos salvando cidades era um acontecimento frequente.

— Aquele homem, o que ele fez?

Como ele os expulsou do forte? E se ele fez isso, por que nĂŁo os matou todos? ExpulsĂĄ-los era preferĂ­vel a enfrentĂĄ-los em seu forte, mas um bando descontrolado de orcs representava um perigo para viajantes.

NĂŁo havia tempo para pensar mais nisso. O Magus lançou uma saraivada de bolas de fogo que atingiu os orcs em cheio, mandando uma dĂșzia deles para trĂĄs. Mas o bando nĂŁo parou.

Arnold notou um frasco de poção quebrado. Deve ter sido deixado por um viajante. Ele tomou sua decisão, quase como se fosse encorajado pelo objeto descartado. Era um item valioso que estava prestes a usar, mas não era momento para hesitação. Como líder, era sua responsabilidade assumir a linha de frente e abrir caminho.

Do cinto, puxou uma poção que aumentava suas habilidades e a bebeu de uma só vez. Seu interior tremeu, e uma força quente percorreu seu corpo em torno do coração. Uma sensação de poder absoluto acalmou seus nervos.

O bando de orcs viu Arnold e detectou sua imensa quantidade de mana, mas ainda assim nĂŁo parou. O som era semelhante a um terremoto. PartĂ­culas de terra levantadas no ar reduziam a visibilidade.

Arnold jogou o frasco vazio de lado, posicionou-se na linha de frente e gritou com uma voz trovejante enquanto faíscas elétricas dançavam ao seu redor.

— Muito bem! VocĂȘs vĂŁo perceber que nĂŁo Ă© o Mil Truques que devem temer, mas sim a mim, o TrovĂŁo Retumbante!

— VocĂȘ! — disse uma voz estranha.

Arnold ergueu sua espada acima da cabeça e bloqueou um ataque repentino. O cheiro de um monstro invadiu seus sentidos. Olhos dourados, sanguinårios e injetados de raiva encararam-no de perto. A eletricidade que envolvia sua lùmina queimou o corpo da criatura, mas ela não se moveu nem um centímetro.

Let This Grieving Soul Retire! Volume 4 12 Online em PortuguĂȘs PT-BR

 Era um orc, um incomum coberto por uma armadura negra. Ele se erguia acima da mĂ©dia dos orcs, sua pele escura estava coberta de cicatrizes, e seu olho esquerdo havia sido perdido. A grande espada que segurava era grosseira, mas bem cuidada, e claramente nĂŁo era uma arma comum, pois resistira a um golpe do Raio Impactante. Mas o que realmente o diferenciava dos outros orcs era o brilho de inteligĂȘncia em seus olhos.

Era excepcional, um fora da curva, um monstro que naturalmente superava os de sua espécie. Cada um de seus ataques carregava peso, sua força impressionante deixava claro que um caçador mediano não teria a menor chance contra ele.

Ousado o suficiente para enfrentar um caçador de NĂ­vel 7 e com força para sustentar esse confronto. Sem dĂșvida, este era o lĂ­der do bando. Diante de um oponente tĂŁo forte, Arnold reuniu sua força e brandiu sua espada. Se derrotasse o chefe, talvez o bando recuasse? NĂŁo, eles claramente estavam fora de controle. A horda de orcs e outros monstros era contida pelos outros caçadores.

O orc de pelo negro deu um grande passo para trĂĄs e gritou, espalhando saliva por toda parte. Sua fala era fragmentada, mas seus sentimentos intensos eram claros.

— Este cheiro, medo, animosidade. Este cheiro, nĂŁo para. Traiçoeiros. Poção estranha, este Ă© o jeito dos humanos!

Do que ele estava falando? DĂșvidas flutuaram na mente de Arnold, mas ele nĂŁo estava em posição de esclarecer os fatos. Diante dele estava um monstro que o atacara, e sua Ășnica opção era revidar.

Ele bloqueou outro golpe. De novo e de novo, suas lùminas se chocaram, e Arnold confirmou suas suspeitas. O orc à sua frente não era como os outros, mas ele ainda era o mais forte dos dois. Por uma pequena margem, tinha a arma superior, mais força física e melhor controle de mana. Com a poção o fortalecendo, não havia como perder.

O rosto do orc se contorceu em choque; provavelmente nunca havia lutado contra alguĂ©m tĂŁo forte, alguĂ©m melhor que ele. O orc saltou para trĂĄs. Arnold imediatamente seguiu com outro ataque, relĂąmpagos envolveram sua espada e dispararam para frente. ImpassĂ­vel diante do golpe, o orc começou a se mover. O raio seria o suficiente para acabar com um oponente mais fraco, mas nem mesmo a pele queimada foi capaz de detĂȘ-lo.

Seu avanço era um movimento feito apenas por aqueles dispostos a morrer, um ataque realizado com a intenção de eliminar o inimigo, mesmo que isso custasse a própria vida. Arnold hesitou por um instante; não esperava que o orc fizesse tal jogada. O orc não ia golpeå-lo.

Isso não era bom. Arnold tentou avançar, mas percebeu que não chegaria a tempo. A lùmina do orc estava apontada diretamente para Chloe e os monstros que ela enfrentava. Ela percebeu a investida do orc, mas sua força era equivalente à de um caçador de alto nível; ela não conseguiria se defender contra aquele ataque.

Era inĂștil, Arnold nĂŁo chegaria a tempo. Os olhos de Chloe se arregalaram. A lĂąmina gigante desceu, prestes a atingir seu crĂąnio—

LĂ­nguas de fogo caĂ­ram do cĂ©u e envolveram o orc. Foi algo quase catastrĂłfico—mais de uma, mais do que uma chuva de chamas se abateu sobre os monstros, incinerando-os por completo. NĂŁo havia dĂșvida de que aquilo nĂŁo era um fenĂŽmeno natural. O fogo engoliu os campos, transformando instantaneamente a ĂĄrea em um inferno. Os gritos de agonia dos monstros ecoaram pelo calor e pelos pilares de fumaça.

É claro que Arnold e seus companheiros tambĂ©m nĂŁo saĂ­ram ilesos. AlguĂ©m deve ter erguido uma barreira, pois eles foram parcialmente protegidos do calor. No entanto, a luta havia terminado.

— O que foi isso?! — um deles gritou.

Olhando para o céu escuro da noite, chamas azuis brilhantes flutuavam no ar.

***

Era um milagre estarem vivos. Mesmo no dia seguinte, os acontecimentos daquela noite pareciam nada menos do que um pesadelo. Ainda assim, certas coisas eram esperadas de um caçador de primeira classe.

— Meu Deus, pode ter sido uma infelicidade para vocĂȘ, mas acho que ninguĂ©m discordaria que foi uma grande sorte para nĂłs — disse o rechonchudo prefeito de Gula. — Que coincidĂȘncia termos um caçador de NĂ­vel 7 nos visitando.

Arnold concordou, embora nĂŁo tenha demonstrado em sua expressĂŁo. No centro da cidade ficava a prefeitura, e ali, em uma sala reservada para convidados especiais, estavam Arnold e seu grupo.

O prefeito e seus subordinados exibiam expressĂ”es radiantes—o completo oposto dos caçadores. Eles haviam sobrevivido a duas jornadas consecutivas pelo inferno e seu cansaço era evidente, impossĂ­vel de esconder. A Chama Cortante era o grupo menos experiente, e mais da metade de seus membros dormia profundamente. Chloe tambĂ©m havia se recusado a comparecer.

Arnold se recostou em um luxuoso sofĂĄ.

— Derrotar um bando de orcs com tĂŁo poucos aliados ao seu lado
 VocĂȘ realmente faz jus ao seu nĂ­vel — disse o prefeito, empilhando elogios. — Ouvi dizer que uma vez matou um dragĂŁo em Nebulanubes, mas agora tambĂ©m Ă© um herĂłi para esta cidade.

— Senhor prefeito, permita-me lembrá-lo de que enfrentamos muito mais do que apenas orcs.

— Ah, Ă© verdade…

Os caçadores jĂĄ haviam trocado suas vestimentas ensanguentadas e tratado seus ferimentos. No entanto, dentro de Arnold, ainda fervia uma fĂșria intensa, um espĂ­rito de luta incontrolĂĄvel. O prefeito estava alheio a isso, mas os outros caçadores podiam ver em seus olhos que ele estava Ă  beira de explodir a qualquer momento.

Caçadores de primeira classe se destacavam em muitas coisas, e uma delas era o controle sobre suas emoçÔes. Mas toda vez que se lembrava do que aconteceu nos portÔes, a raiva quase tomava conta dele. Em momentos de fraqueza, sentia o desejo de largar tudo e continuar sua caçada, mas seus companheiros estavam feridos e ele não podia simplesmente abandonar Chloe, Rhuda e a Chama Cortante.

— Ouvi dizer que um elemental de fogo apareceu — disse o prefeito. Seus olhos estavam arregalados e sua voz tremia, como se estivesse diante de um herói incontrolável.

O prefeito estava certo, um havia aparecido. Arnold fechou os olhos e se lembrou claramente das chamas incandescentes queimando nos céus. Enquanto estavam presos em uma luta brutal contra orcs e outros monstros, um elemental apareceu. Sua força era comparåvel ao que haviam enfrentado no dia anterior. Era um elemental de fogo, ao contrårio do de relùmpago, mas isso fazia pouca diferença.

Se isso fosse coincidĂȘncia, entĂŁo Arnold provavelmente estava enfrentando a pior sorte de sua vida. A Ășnica coisa que podia considerar como sorte era que Chloe havia sobrevivido. O brilhante elemental espalhou, de forma brincalhona, um manto de chamas sobre os orcs e caçadores e entĂŁo simplesmente voou para longe.

Se quisesse, um alto-elemental poderia causar uma destruição que superaria até mesmo um Magus de primeira classe. Se ele tivesse continuado atacando, os caçadores teriam sido reduzidos a cinzas junto com os monstros. Mesmo que Arnold tivesse sobrevivido, era extremamente provåvel que muitos outros tivessem perecido.

A estrada e seus arredores haviam sido transformados em um incĂȘndio. Qualquer um que passasse por ali encontraria a chocante visĂŁo de uma terra carbonizada coberta por uma pilha de cadĂĄveres de monstros.

Uma careta se formou no rosto de Eigh, provavelmente lembrando-se da batalha.

— Que piada. Eu não conheço muito bem esta terra, mas elementais são tão comuns assim? Nunca encontramos dois em um intervalo tão curto — reclamou.

— Ah, nĂŁo, de jeito nenhum… Os elementais de Zebrudia sĂł podem ser encontrados nas profundezas da natureza selvagem. Caso contrĂĄrio, estariam sob o comando de um Magus. NĂŁo me lembro de jĂĄ ter visto um tĂŁo perto de um lugar tĂŁo…

— Ok. Eu entendi. Se fossem tĂŁo comuns, nĂŁo haveria comĂ©rcio por aqui, certo, Arnold?

Arnold assentiu, mas seus pensamentos jĂĄ estavam em outro lugar. Estava preocupado em considerar como poderia se vingar do Mil Truques. A sequĂȘncia de eventos e as palavras dos orcs deixavam claro que ele havia jogado os monstros contra Arnold e seus companheiros. A batalha havia terminado sem uma tragĂ©dia, mas o que ele fez ainda ia contra a Ă©tica dos caçadores. Mesmo que nĂŁo fosse, ficar em silĂȘncio mancharia o nome RelĂąmpago Estrondoso.

Arnold rangeu os dentes.

— Seja como for, os orcs que ameaçavam a cidade se foram e os danos foram mĂ­nimos — disse o prefeito com um sorriso exageradamente grande. — NĂŁo Ă© um agradecimento suficiente, mas gostarĂ­amos de expressar nossa gratidĂŁo. Claro, podemos oferecer alguma recompensa…

— Não — disse Arnold. — Partiremos imediatamente.

Os olhos do prefeito se arregalaram. Não era todo dia que se recebia a gratidão coletiva de uma cidade tão grande como Gula. Também era uma oportunidade para espalhar o bom nome da Névoa Caída e do Redemoinho Abrasador. Normalmente, Arnold teria aceitado a oferta de bom grado, mas a provocação da Sombra Partida o deixara agitado demais para aproveitar tal ocasião.

Mais do que isso, no entanto, o Mil Truques os havia visto cobertos de ferimentos. Manter o corpo em perfeitas condiçÔes era fundamental para a caça ao tesouro; até mesmo alguém tão astuto quanto o Mil Truques não esperaria que continuassem a persegui-lo. Em outras palavras, ele baixaria a guarda.

A prioridade mĂĄxima de Arnold era fazĂȘ-lo se arrepender de ter subestimado a NĂ©voa CaĂ­da. O Mil Truques nĂŁo estava viajando a pĂ©, mas se Arnold partisse agora, ainda poderia alcançå-lo. Na verdade, precisava partir agora se quisesse alcançå-lo. Mesmo que o Mil Truques nĂŁo cobrisse seus rastros, quanto mais tempo passasse, maior seria sua vantagem.

— Peço desculpas, mas tenho algo que preciso fazer. Não posso ficar muito tempo — disse Arnold com firmeza.

Os olhos confusos do prefeito se arregalaram. Ele olhou para Arnold, que estava carrancudo e mal conseguia conter sua raiva.

— Entendo — disse o prefeito. — Como um caçador de NĂ­vel 7, vocĂȘ deve nĂŁo ter muito tempo para descansar. VocĂȘ estĂĄ no meio de uma missĂŁo, por acaso?

— A-Arnold, perseguir esses caras nĂŁo vai ser fĂĄcil no nosso estado atual. Precisamos descansar, trĂȘs de nĂłs quase morreram ali atrĂĄs — sussurrou Eigh. — Estamos sem consumĂ­veis e nosso equipamento estĂĄ destruĂ­do. Mesmo os que estĂŁo em melhores condiçÔes ainda estĂŁo exaustos. Chloe, Rhuda, todos no Redemoinho Abrasador tambĂ©m estĂŁo no limite.

Embora tivessem conseguido sobreviver, serem atacados por uma horda de monstros enquanto ainda carregavam o cansaço de Elan os desgastou muito. A carruagem que haviam comprado logo após chegarem à capital estava quase inutilizåvel, seus cavalos foram mortos e suas armas e armaduras estavam seriamente danificadas. Mal estavam em condiçÔes de viajar, muito menos de lutar contra inimigos poderosos. O mesmo valia para Chloe e o Redemoinho Abrasador. Era quase um milagre que tivessem conseguido caminhar o restante do caminho até Gula.

O prefeito pareceu entender mal qual era o objetivo deles, pois assumiu uma expressão séria e disse:

— Permitam-nos ajudá-los no que for possível. Se precisarem de algo, podemos providenciar.

Reabastecer consumíveis e preparar uma carruagem poderia ser possível, mas a manutenção completa do equipamento seria difícil em uma cidade desse tamanho e levaria tempo. As medidas emergenciais que haviam tomado em Elan não seriam suficientes ali.

Na balança, Arnold pesou a vida de seus companheiros contra seus ferimentos, seu orgulho e seu futuro. ApĂłs alguns momentos de silĂȘncio, ele estalou a lĂ­ngua e se virou.

— Droga. Façam o que puderem em dois… nĂŁo, um dia. Eigh, comece o reabastecimento imediatamente. Pegue muitos consumĂ­veis e uma carruagem grande. E cavalos melhores tambĂ©m. Vamos terminar isso logo.

Não importava para onde o Mil Truques tivesse fugido, Arnold tinha certeza de que o alcançaria e faria com que ele pagasse por tudo o que havia acontecido até agora. Mesmo depois de encarå-lo nos olhos, o Mil Truques virou-se com indiferença. Em meio àquela multidão, a Sombra Contida gritou coisas humilhantes para eles.

A simples lembrança da visão de seu inimigo fez Arnold cerrar os dentes.

***


Do topo da carruagem, ouvi uma voz baixa e ligeiramente distorcida.

— Hm, parece que os perdemos. Não detecto nenhum perseguidor. Estamos viajando pela mesma estrada que eles, então acho que podem nos alcançar.

Eles provavelmente nĂŁo estavam acostumados a falar de maneira polida, pois pareciam desajeitados. Ainda assim, soltei um suspiro de alĂ­vio. Ao meu lado, Liz cruzou as pernas e sorriu, genuinamente divertida.

— Viu aquilo? Viu, Krai Baby? O rosto dele ficou completamente vermelho — disse Liz, rindo. — Ele Ă© sĂł um Ladino de NĂ­vel 7 do interior e eu botei ele no lugar dele!

Eu queria que ela me desse um tempo. Se ela queria arrumar briga, era problema dela, mas por algum motivo além da minha compreensão, eu sempre acabava sendo o responsåvel. E ela estava provocando um Nível 7. Um Nível 7! Isso era mais alto que ela! Era alguém que eu não podia sequer me comparar, jå que, na pråtica, eu era um caçador de Nível 1 (não existia Nível 0).

— Para de arrumar confusĂŁo — falei. — VocĂȘ nĂŁo devia estar fazendo isso, mesmo que fosse de alguma forma minha culpa que eles tivessem acabado lutando contra um bando de orcs. E nĂŁo foi minha culpa.

— Muito bem, Krai. NĂŁo foi sua culpa. Foi graças a vocĂȘ — disse Sitri com um sorriso, apoiando Liz de um jeito estranho.

Não foi minha culpa e nem foi graças a mim. Foi azar deles e responsabilidade deles, assim como meu azar era minha responsabilidade.

Eu nĂŁo tinha aliados nessa discussĂŁo. Se tivesse um, seria Tino, mas ela estava completamente exausta no momento.

— VocĂȘ acha que eles vĂŁo vir atrĂĄs de nĂłs? — perguntei.

— Imagino que sim — respondeu Sitri. — Se não vierem, estão faltando com algo essencial para um caçador.

Concordei com isso. Um bom caçador era como um bom cão de caça; uma vez que pegava um alvo, o perseguia para sempre e não desistia mesmo depois de um revés. Alguns bem irritantes estavam no meu encalço. Eu me perguntava como Arty havia resolvido as coisas com eles lå no café.

Parecia possĂ­vel que continuassem me perseguindo, mesmo que Liz ou Sitri lhes dessem uma surra. Se fosse o caso, o jeito mais rĂĄpido seria matĂĄ-los, mas essa era a Ășnica coisa que eu queria evitar. Isso significaria o meu fim, nĂŁo apenas como caçador, mas tambĂ©m como ser humano.

NĂŁo sabia o porquĂȘ, mas Sitri exibia um sorriso radiante, mesmo entendendo completamente a situação em que estĂĄvamos.

— Hm, no entanto, eles pareciam bem exaustos. Não me parece provável que nos persigam imediatamente — disse ela com uma voz que me fazia querer desistir de pensar e simplesmente relaxar.

Ela estava certa. Se tivessem vindo atrås de nós imediatamente, nos teriam alcançado antes de chegarmos à carruagem.

Eu consegui me acalmar um pouco. Do lado de fora da carruagem, Drink e Matadinho corriam junto conosco.

Caçadores precisavam se preparar bem antes de fazer qualquer coisa, e alguns membros do grupo deles estavam feridos. Nessas condiçÔes, eu não achava que tentariam enfrentar Liz.

AlĂ©m disso, eu nĂŁo via como poderiam saber para onde estĂĄvamos indo; as Ășnicas pessoas que sabiam do nosso destino estavam na carruagem comigo. E estĂĄvamos escondendo nossas identidades com documentos falsos (mas reais). Talvez eu devesse ter escondido meu rosto com Forma de Miragem tambĂ©m. EstĂĄvamos em uma carruagem, o que significava que nossas rodas deixariam rastros. Mas essa era uma estrada, havia muitas marcas de carruagem.

Liz esticou as pernas e as balançou para frente e para trås, franzindo os låbios.

— Tî entediada. Vamos brincar de pega-congela?

Eu queria ter te congelado lå atrås. Arnold parecia querer esmagar minha cabeça como uma fruta. Tenho certeza disso.

A cabeça de Tino oscilava de um lado para o outro enquanto ela me olhava com os olhos inchados. Ela estava no limite.

Tomei minha decisão. Não parecia nada provåvel que pudéssemos ser pegos, mas decidi tomar as precauçÔes possíveis. Abri o mapa. Inicialmente, planejei seguir por estradas seguras e passar por vårias cidades a caminho do Palåcio da Noite. Afinal, eu não estava com pressa e considerava a segurança minha maior prioridade.

No entanto, se eståvamos sendo perseguidos, teríamos que mudar nossa rota. Mesmo que fosse difícil para nossos perseguidores nos alcançarem, ainda era possível enquanto estivéssemos apenas seguindo a estrada. Então, decidi que pegaríamos um atalho. Sair da estrada aumentaria nossas chances de encontrar monstros, mas tínhamos Liz, Sitri, Drink, Matadinho e os contratados de Sitri conosco. Enfrentar monstros parecia melhor do que me preocupar com um caçador de alto nível.

— Droga, queria que Ark tivesse vindo junto. Aquele dandy nunca está por perto quando eu preciso dele. Talvez ele não goste de mim? — murmurei. Qual era o ponto de ser o mais forte da capital se ele não podia me ajudar?

Minhas reclamaçÔes fizeram a autoproclamada rival de Ark, Liz, inflar as bochechas, fazendo-a parecer ainda mais infantil que o normal.

— O quĂȘ, eu nĂŁo sou boa o bastante pra vocĂȘ, Krai Baby? Se nĂŁo sou, Ă© sĂł falar! VocĂȘ sabe que eu te amo.

— NĂŁo, vocĂȘ Ă© Ăłtima, sĂ­, mais do que o suficiente. Bem forte — respondi. — Muito bem, hora de mudar de curso. NĂŁo vamos mais seguir pela estrada!

Os olhos de Liz brilharam e ela se inclinou para frente com um sorriso largo.

VocĂȘ vai ver, Arnold. Eu vou aproveitar minhas fĂ©rias, nĂŁo importa o quĂȘ. Vou te mostrar que eu posso fugir ainda melhor do que um NĂ­vel 8 (provavelmente).

***

Ele estå falando sério? Black pensou. Sentada no banco do motorista, ela recebeu ordens que a fizeram duvidar momentaneamente de seus próprios ouvidos. Todas as ordens que recebera até agora tinham sido benignas. Não haviam encontrado nenhum monstro particularmente forte e, com exceção do primeiro dia, o clima tinha sido bom. O incidente de Drink fugindo foi preocupante, mas a quimera acabou voltando ao amanhecer, embora coberta de sangue. Ainda assim, era muito melhor do que o tipo de tratamento que ela esperava quando colocaram o colar nela.

As estradas geralmente eram seguras, pois os monstros tendiam a manter distùncia. Além disso, tinham a temível quimera ao seu lado. Nas raras ocasiÔes em que avistava um monstro, ele nunca se aproximava.

Mas sair da estrada aumentaria drasticamente o perigo potencial.

— B-Mas as montanhas Galest estĂŁo infestadas de… Digo, sua quimera Ă© forte, mas Ă© perigoso demais para nĂłs entrarmos nessas montanhas com tĂŁo poucas pessoas — disse ela.

Uma janela se abriu, e uma garota sorridente colocou a cabeça para fora.

— E o que tem isso? — perguntou.

Sua pele impecĂĄvel como porcelana e seus traços delicados poderiam tĂȘ-la tornado um alvo para Black e seus companheiros em outras circunstĂąncias, mas agora aquele sorriso parecia demonĂ­aco.

A Cordilheira Galest atravessava as regiÔes do norte do império. Não era extremamente íngreme, mas havia linhas ley atravessando as montanhas e, fora das cùmaras do tesouro, os monstros locais estavam entre os mais fortes de Zebrudia. Uma floresta se espalhava aos pés da cordilheira, e dizia-se que ali viviam monstros que não podiam ser encontrados em nenhum outro lugar.

— Existe um caminho, embora no sentido mais bĂĄsico da palavra — disse Sitri. — As montanhas Galest nĂŁo sĂŁo nada comparadas a algumas das cĂąmaras do tesouro que jĂĄ limpamos no passado. Se despacharmos os monstros rĂĄpido, isso serĂĄ um bom atalho. AlĂ©m disso, jĂĄ fizemos isso antes.

— Um ata…lho?

Inacreditåvel. Black abriu seu mapa e olhou para ele com os olhos arregalados. Atravessar as montanhas realmente seria um atalho. Deixar a segurança da estrada, passar pela floresta e depois pelas montanhas encurtaria a viagem em um ou dois dias. Mas também se poderia dizer que encurtaria apenas um ou dois dias.

Viajantes normalmente evitavam passar pelas montanhas Galest. Caçadores fortes o suficiente para abrir caminho por elas também as evitavam. O risco era alto demais e os benefícios muito baixos. Black, White e Gray confiavam em sua força e era possível que conseguissem atravessar, mas ainda assim preferiam evitar essas montanhas a todo custo.

— Qual Ă© o nosso destino? Nosso destino final? — Black perguntou, apesar de sua surpresa.

Eles nem sequer sabiam para onde estavam indo. Até então, simplesmente haviam recebido ordens para seguir pela estrada e lhes foram dados os nomes de algumas cidades pelo caminho.

— VocĂȘ precisa mesmo saber? Apenas siga. Isso foi decidido por Krai, pelo Mil Truques — Sitri Smart disse com um sorriso significativo.

***

— Eles não estavam aqui? — Chloe Welter perguntou ao oficial de admissão municipal. Essa não era a resposta que ela esperava.

— Correto. Verifiquei todos os registros e nĂŁo encontrei os nomes que vocĂȘ pediu…

Toda entrada e saída de cada cidade em Zebrudia era registrada em um livro. Se alguém tivesse entrado ou saído de uma cidade, então era razoåvel presumir que seu nome havia sido anotado, e Arnold tinha visto o Mil Truques com seus próprios olhos. Isso não fazia sentido.

— Se um caçador de alto nĂ­vel tivesse entrado em nossa cidade, terĂ­amos solicitado sua ajuda. Em uma situação de emergĂȘncia, nĂŁo os terĂ­amos deixado passar sem pelo menos tentar recrutĂĄ-los — disse o oficial.

— Entendo — Chloe respondeu.

Uma das funçÔes dos soldados estacionados nos portÔes das cidades era identificar os visitantes com capacidade de combate. Eles teriam notado um caçador de alto nível passando por ali. Enquanto Krai Andrey frequentemente se disfarçava de civil, os outros membros de seu grupo não o faziam. Se não tinham sido parados nos portÔes, então isso significava que o Mil Truques estava intencionalmente escondendo sua identidade e, aparentemente, até usando uma identificação falsa.

O que diabos vocĂȘ estĂĄ aprontando, Krai? Chloe se perguntou.

Falsificar a própria identidade era uma violação da lei imperial. Tornar-se um Caçador de Nível 8 vinha com privilégios especiais, e ele provavelmente não seria punido desde que tivesse um bom motivo para suas açÔes. No entanto, isso não tornava seu comportamento aceitåvel.

Inicialmente, ela deveria apenas acompanhar o Mil Truques e monitorar seu progresso. Mas, de alguma forma, as coisas tinham chegado a esse ponto. Ela soltou um suspiro profundo. Aquela batalha havia sido como uma cena do inferno. Embora um dia tivesse aspirado a ser caçadora, acabou se tornando funcionåria da Associação dos Exploradores. Para alguém como ela, aquele tipo de batalha era inédito.

Ela deveria ter sido protegida, mas a situação não permitiu. Em vez disso, sacou sua espada e lutou por sua vida, abatendo vårios monstros no processo. Mas então a morte veio até ela. O monstro negro como breu era mais do que apenas um orc superior. Quando aquela lùmina foi brandida contra ela, teve certeza de que seria seu fim. Foi um milagre que esse destino tenha sido evitado.

Apenas lembrar daquele momento fez um arrepio percorrer sua espinha. Arnold não tinha chegado a tempo para salvá-la — se não fosse pelo elemental de fogo, ela teria perecido.

O elemental de fogo era azul, um indicativo de que era excepcionalmente forte. Assim como seus equivalentes elĂ©tricos, elementais de fogo eram seres elusivos e pouquĂ­ssimas pessoas em Zebrudia podiam comandar um. A Ășnica pessoa que veio Ă  mente de Chloe foi o Inferno Abissal, o mestre do clĂŁ Maldição Oculta e um dos trĂȘs NĂ­veis 8 da capital. No entanto, ele deveria estar na capital, e Chloe nĂŁo havia visto nenhum sinal de sua presença nas proximidades.

Arnold havia dito que era um milagre ninguĂ©m ter morrido, mas Chloe nĂŁo tinha tanta certeza. Ela viu o elemental carbonizar tanto a matilha de orcs quanto a NĂ©voa CaĂ­da. Ela e o FuracĂŁo Escaldante nem sequer foram alvos. Talvez tenha sido apenas coincidĂȘncia, mas, se fosse, era uma coincidĂȘncia que os salvou de queimaduras graves.

Ela nĂŁo sabia o motivo ou a razĂŁo para terem sido poupados. Claro, tambĂ©m nĂŁo tinha provas. Nem tinha evidĂȘncias que explicassem o que expulsou os orcs de seu forte, por que os monstros correram em direção a eles ou quem enviou o elemental de fogo. Nada. Tudo o que possuĂ­a eram fatos sem um significado claro. Ela nĂŁo sabia se deveria defender o Mil Truques ou se juntar ao RelĂąmpago Retumbante em sua busca por vingança.

Na estalagem, todos do FuracĂŁo Escaldante estavam completamente exaustos. Isso era o que acontecia quando vocĂȘ mal escapava da aniquilação. Gilbert e Rhuda nĂŁo estavam tĂŁo mal quanto os outros, mas a exaustĂŁo ainda estava estampada em seus rostos.

— VocĂȘ sĂł pode estar brincando. A Tino passa por esse tipo de coisa toda vez?

— A Toca do Lobo Branco foi ruim, mas isso…

Eles nem tinham energia para ficarem bravos. O que era perfeitamente compreensível; aquela batalha não era algo que a maioria dos caçadores intermediårios conseguia enfrentar. Apenas porque os outros caçadores aliviaram sua carga que Chloe ainda conseguia se mover.

Mas eles não podiam se separar agora. Arnold ainda planejava ir atrås de Krai e ela ainda não tinha completado seu objetivo. Parecia que teriam que permanecer juntos por um tempo. Depois de pensar um pouco, ela forçou um sorriso e entrou no quarto. Caçadores de tesouros realmente tinham uma vida difícil.

***

Existem lugares tão perigosos que devem ser evitados a todo custo. No topo dessa lista estão montanhas e florestas que não pertencem a nenhum estado. Pelo menos, para viajantes normais. Caçadores de tesouros aventureiros tendem a esquecer disso.

Áreas atravessadas por linhas ley , as veias por onde flui o material de mana, são especialmente ricas em recursos valiosos. Como são habitadas por monstros poderosos e fantasmas, os itens recuperados dessas regiÔes costumam ter preços elevados.

A Cordilheira de Galest, no extremo norte do impĂ©rio, era um desses lugares perigosos que os humanos evitavam. A estrada quase inexistente era antiga e nĂŁo recebia manutenção hĂĄ muito tempo. Era estreita demais, mal permitindo a passagem de uma Ășnica carruagem. AlĂ©m disso, mesmo dentro da carruagem, eu podia sentir o quĂŁo irregular era o terreno. Quase nĂŁo era usada.

Enquanto era balançado de um lado para o outro, eu afastei minha mente da realidade ponderando sobre a ideia de que essa trilha poderia desaparecer um dia, assim como tudo desaparece.

Gritos altos ecoavam lå fora. As cortinas estavam fechadas, então eu não conseguia ver, mas podia ouvir os rugidos horríveis e os gritos dos monstros, além de sentir a carruagem balançar. Os relinchos dos cavalos se misturavam com algum tipo de som metålico. Drink uivava e Matadinho parecia empolgado.

Liz estava deitada, esfregando a barriga com um sorriso preguiçoso.

— Ei, Krai querido, o que eu devo dizer para aqueles caras da próxima vez? O que vai deixá-los realmente furiosos? O que vai fazer eles voarem pra cima da gente de raiva? Vamos pensar nisso!

— Ah, Ă© mesmo, Krai — disse Sitri. — Ouvi dizer que hĂĄ um ogro errante vivendo nas montanhas de Galest. Mas nĂŁo passa de um rumor. Poucos encontraram um e sobreviveram para contar a histĂłria. No entanto, esses rumores podem ser o motivo de tĂŁo poucas pessoas passarem por aqui.

Eu também poderia mencionar a razão pela qual caçadores de tesouros tendem a esquecer os perigos das florestas e montanhas: eles estão sempre limpando relíquias, alguns dos lugares mais traiçoeiros que existem. Suponho que monstros, que ao menos deixam para trås carne lucrativa quando mortos, sejam preferíveis a fantasmas, que se manifestam quase sem fim e não deixam nada. Faz sentido, mas acho que ambos exigem cautela.

Eu sabia que nĂŁo conseguiria convencer Liz, entĂŁo olhei para Sitri e tentei mudar o assunto de suas ideias aterrorizantes.

— Ei, ah… vamos ficar bem? — perguntei.

— Vamos. Acho. Não estamos muito longe da floresta, sabe. Algo te preocupa? — respondeu Sitri.

— Huh. NĂŁo, se vocĂȘ acha que estĂĄ tudo bem, entĂŁo isso jĂĄ basta.

— Esta tambĂ©m Ă© uma boa oportunidade para o treinamento de combate de Drink! Eu estava bastante incerta sobre quando começar. Na sede do clĂŁ, pude deixĂĄ-lo treinar contra humanos, mas tive dificuldade em encontrar uma boa chance para fazĂȘ-lo lutar contra monstros. Orcs sĂŁo covardes e nĂŁo serviriam de nada, mas os monstros agressivos das montanhas de Galest sĂŁo um desafio perfeito!

— Ah. EntĂŁo aquele sangue… era sangue de orc?

— Sim! Drink adora carne de orc! Estar de barriga cheia parece tĂȘ-lo deixado de muito bom humor! — Sitri disse, batendo as mĂŁos alegremente.

Aparentemente, quando nos encontramos com a carruagem e vimos Drink e Matadinho cobertos de sangue, era porque tinham acabado de devorar orcs. Me pergunto se talvez eles tenham atacado a matilha de orcs que fugiu do forte. Nem todos conseguiriam fazer isso e voltar inteiros.

Estamos encontrando muitos monstros. Engraçado pensar que não encontramos nenhum no caminho até aqui. Não que eu queira impedir Drink de treinar, mas não são monstros demais?

A Ășnica pessoa que talvez compartilhasse esse sentimento era Tino, que olhava para baixo e segurava os joelhos. Ela nĂŁo me encarava e seus Ășnicos movimentos eram os tremores da carruagem. Os gritos constantes e os sons de batalha nĂŁo deviam estar fazendo bem para sua paz de espĂ­rito. Tudo que eu podia fazer era fingir calma.

As montanhas de Galest pareciam ter muito mais monstros do que eu imaginava. Além disso, eram monstros ferozes, que viam Drink e ainda assim nos consideravam presas.

— Há muito mais monstros do que eu previa — Siddy disse com um sorriso. — Talvez isso seja um sinal de que algo muito mais forte pode aparecer!

VocĂȘ parece feliz com isso.

A carruagem parava de repente de tempos em tempos e, julgando pelos gritos lĂĄ fora, parecia que nĂŁo tĂ­nhamos guardas o bastante. Eu jĂĄ esperava ataques de monstros—talvez nĂŁo tantos assim, mas ainda era uma possibilidade que eu havia considerado. O que eu nĂŁo esperava era…

Olhei para Liz, rolando de um lado para o outro e descansando a bochecha nos meus joelhos. Olhei para Sitri, seus olhos brilhando de empolgação. Olhei para Tino, abraçando os joelhos e completamente em seu próprio mundo.

Por que vocĂȘs trĂȘs nĂŁo estĂŁo ajudando?

Escolhi a rota da montanha porque não achei que os monstros fossem um problema. Afinal, tínhamos não apenas Drink, Matadinho e os mercenårios da Sitri, mas também Liz, Sitri e Tino. Normalmente, Liz estaria louca para se jogar na batalha.

Eu ia perguntar quando elas planejavam sair para lutar, mas perdi a chance. A carruagem sacudiu violentamente e ouvi rugidos e xingamentos altos. Mesmo que fĂŽssemos os clientes, achei que Black, White e Gray estavam sendo tratados de forma bem cruel. Talvez os termos do contrato deles nĂŁo tivessem sido preto no branco o suficiente?

Hesitei por um momento antes de criar coragem e perguntar algo para Sitri.

— Ei, Sitri, sobre o que estĂĄ acontecendo lĂĄ fora…

— Ah, sim. O treinamento de combate e as refeiçÔes do Drink estĂŁo sendo realizados junto com meus testes de capacidade para aqueles trĂȘs. É incrivelmente eficiente! Eu queria descobrir como Matadinho e Drink operam em conjunto. VocĂȘ sempre me surpreende, Krai!

Ela parecia envergonhada ao dar essa resposta bizarra. Talvez essa fosse a mentalidade correta para um Alquimista, e eu sabia que eles valorizavam eficiĂȘncia, mas ainda assim achei um pouco exagerado. Drink e Matadinho provavelmente ficariam bem, mas nĂŁo achava que os mercenĂĄrios dela teriam a mesma sorte.

— Eu poderia suportar perder Matadinho, mas e se seus mercenários morrerem?

— Hm? Uhm…

Claro, a morte e os caçadores nunca estavam muito distantes, mas isso não significava que essa ideia fosse boa. Confusa, Sitri pensou por alguns segundos. Colocou um dedo nos låbios e inclinou a cabeça.

— Eu… procuro mais?

— Acho que vocĂȘ nĂŁo entendeu a pergunta.

— HĂŁ? P-Perdoe-me. Uhm, vocĂȘ estĂĄ sugerindo que hĂĄ outro uso para eles?

Que tipo de lĂłgica era essa?

Desviei o olhar e encarei Liz, que continuava deitada na carruagem. Seus olhos cor-de-rosa claros me olharam com curiosidade. Ela estava vestindo sua roupa de combate habitual, Apex Roots, equipada nas pernas balançando para fora do assento.

— Hm? O que foi? — ela perguntou. — Ah, quer esfregar minha barriga? Aqui.

Ela passou o dedo pelo abdÎmen exposto, mas eu recusei participar dessa palhaçada.

Fui direto ao ponto.

— Liz, vocĂȘ nĂŁo quer lutar?

— Mmm, claro que quero. Ficar sem fazer nada assim me faz sentir que vou amolecer.

Então por que—

Ainda deitada, Liz levantou a cabeça com um sorriso e a apoiou no meu colo.

— Mas — ela disse — eu consigo me segurar. VocĂȘ proibiu violĂȘncia nessa viagem, certo? Olha como estou me comportando bem. Eu sou incrĂ­vel? NĂŁo sou incrĂ­vel?

Ah, Ă© mesmo.

Finalmente lembrei do que eu tinha dito alguns dias atrĂĄs. De fato, proibi a violĂȘncia e o treinamento, mas isso era para termos umas fĂ©rias divertidas. Convidei Liz e as outras porque queria que elas se divertissem. Mas tambĂ©m as queria como proteção.

Tive minhas dĂșvidas, mas, do jeito que as coisas iam, Black, White e Gray iam acabar mortos. Eu tinha que dizer.

— Uhm, a proibição não vale para lutar contra monstros.

— Hã?

Quando bani a violĂȘncia, quis dizer violĂȘncia contra humanos. Na verdade, sĂł queria evitar que elas arrumassem briga. SĂł tentei impedir que arranjassem confusĂŁo com civis, caçadores ou aprendizes. Claro, queria que evitassem qualquer perigo desnecessĂĄrio. Mas parecia contraproducente deixĂĄ-las deitadas na carruagem enquanto a defesa era deixada para alguns mercenĂĄrios contratados que (muito provavelmente) estavam em desvantagem.

AlĂ©m disso, Liz, vocĂȘ provocou Arnold antes, lembra? Isso foi violĂȘncia verbal.

Os olhos de Liz se arregalaram. Até Sitri pareceu surpresa, uma expressão rara para ela.

Talvez fosse minha culpa por não ter deixado isso claro o bastante, mas era óbvio que— Hã? Liz achava que eu estava dizendo para ela nem sequer reagir caso monstros a atacassem? Não pode ser. Ela achava que eu era algum tipo de sádico?

Tino levantou a cabeça e me encarou. Deixei de lado minhas autocensuras e falei com um tom firme.

— Exterminar monstros nĂŁo Ă© violĂȘncia, Ă© sĂł se livrar do que estĂĄ no caminho. NĂŁo Ă©?

A carruagem balançou violentamente, quase como se reforçasse meu argumento.

— Eu te amo, Krai Baby! — Liz disse com os olhos brilhando. — Já voltooooo!

Ela devia estar se segurando muito. Saiu voando pela porta, esquecendo-se completamente de levar Tino junto. A força da saída fez a carruagem derrapar no chão. Em seguida, veio uma enxurrada de gritos tão grosseiros quanto os xingamentos anteriores.

— Ei, seus merdas! Saiam da frente, isso aqui nĂŁo Ă© hora de amadorismo! SĂł protejam os cavalos, cacete!

— Desculpe, Krai — Sitri disse, um pouco envergonhada. — Lizzy estava, bem… segurando muito estresse.

Os sons lå fora ficaram ainda mais intensos. Também ouvi os gritos dos mercenårios da Sitri. Liz devia estar indo com tudo.

Bem, fui eu quem deu essa ordem esquisita…

— Ah, eu tambĂ©m posso sair? — Sitri perguntou. — Gostaria de observar o progresso do Drink e talvez coletar alguns ingredientes. Existem recursos raros que nĂŁo consigo pegar quando vocĂȘ estĂĄ por perto.

— Claro, vai lá.

Sitri inclinou a cabeça em agradecimento e saltou para fora com a mesma energia de Liz. Me perguntei que tipo de material ela não conseguia coletar na minha presença.

Imaginei que as coisas fossem se acalmar logo. Soltei um bocejo e meus olhos encontraram os de Tino.

— Mestre, Ă© agora que a verdadeira batalha começa? — ela perguntou, pĂĄlida.

— Hm? NĂŁo, nĂŁo tem batalha nenhuma acontecendo — eu disse. — Certo, Tino, talvez vocĂȘ devesse dormir um pouco. Pode precisar do descanso.

— Tudo bem… — ela respondeu com a voz trĂȘmula, abraçando os joelhos e fechando os olhos.

Me perguntei se ela realmente conseguiria descansar assim.

A batalha se intensificava, mas eståvamos completamente seguros dentro da carruagem. Eu ouvia cada vez menos Black, White e Gray, e cada vez mais os rugidos de Liz e as ordens de Sitri. Talvez fosse só minha imaginação, mas a carruagem parecia estar acelerando.

Na próxima parada, chegamos a uma bifurcação que dividia a estrada para a esquerda e para a direita. Um dos caminhos levava a um trecho acidentado que, sendo generoso, poderia ser chamado de trilha. O outro estava coberto de ervas daninhas, mas parecia receber algum nível de manutenção.

— Krai, para onde vamos? — perguntou Sitri do lado de fora.

Era sempre meu trabalho tomar as decisĂ”es. Coloquei a cabeça para fora, dei uma olhada e apontei para o caminho relativamente limpo. É claro que eu fiz isso. Eu nĂŁo ia escolher a trilha acidentada, que tinha ĂĄrvores caĂ­das que precisarĂ­amos remover do caminho. Sitri me deu um sorriso puro e direcionou seus ajudantes.

Seguimos pela trilha solitåria. Se não fosse pelos monstros, as årvores abundantes e o cheiro fresco da natureza teriam sido um alívio para mim depois de passar tanto tempo na capital. Infelizmente, era perigoso, então eu não podia ficar com a cabeça para fora da janela. Eu tinha meus Anéis de Segurança, mas ainda assim não queria ser atacado de surpresa.

Parece que, pela primeira vez, tomei a decisão certa, jå que a taxa de aparição de monstros caiu drasticamente. Não que eu me importasse com o motivo, mas talvez eles estivessem com medo da Liz.

Sitri voltou para dentro da carruagem. Suas bochechas estavam coradas de empolgação, e ela exibia orgulhosamente uma presa negra de aproximadamente trinta centímetros, coberta de sangue e pedaços de carne.

— Olha, Krai! É a presa de um troll de classe general! Mesmo nas grandes montanhas de Galest, Ă© difĂ­cil encontrar um exemplar tĂŁo valioso! Esses trolls sĂŁo violentos e problemĂĄticos atĂ© para caçadores, entĂŁo vocĂȘ quase nunca encontra esses itens no mercado. Normalmente, eles vivem no interior da floresta, mas este veio atĂ© nĂłs. JĂĄ era um velho, mas ainda assim, que sorte! DĂĄ para ferver, cozinhar, triturar… Ă© uma relĂ­quia incrĂ­vel!

Trolls eram monstros Sapiens, assim como goblins e orcs. Eram uma das variedades mais fortes de Sapiens, possuindo força, tamanho, resistĂȘncia e poderes regenerativos excepcionais. Eu nĂŁo sabia que havia trolls nas montanhas de Galest, mas nĂŁo era algo tĂŁo surpreendente, jĂĄ que eles viviam em florestas. E, se encontramos um troll, era pouco provĂĄvel que encontrĂĄssemos outros viajantes.

Tino abriu os olhos levemente e recuou ao ver a presa… ou talvez fosse a empolgação da Sitri. Sitri colocou a presa cuidadosamente dentro de uma bolsa de couro e veio atĂ© mim. Ela sorria de orelha a orelha, como se estivesse de fĂ©rias.

— Então, Krai, o que será que vamos encontrar no fim desta trilha?

— Hã?

— NĂŁo, nĂŁo me diga! JĂĄ tenho uma ideia! Se for esperto o bastante para criar um caminho falso como parte de uma armadilha, entĂŁo deve ser um monstro bem avançado! A quantidade de monstros diminuiu, entĂŁo eu diria que seu territĂłrio Ă© bem grande…

HĂŁ? O quĂȘ? Do que ela estĂĄ falando? Isso Ă© novidade para mim. Ela disse “falso”. Este caminho Ă© falso? Me avise essas coisas antes. Eu achava que essa trilha estava boa demais para um lugar supostamente intocado.

— No entanto, ele tentou esconder o outro caminho apenas com ĂĄrvores caĂ­das e alguns destroços, e este aqui estĂĄ bem arrumado, entĂŁo nĂŁo deve ser muito inteligente. Talvez menos que um goblin? E isso nĂŁo estava aqui quando passamos pela primeira vez indo para o PalĂĄcio Noturno, entĂŁo provavelmente foi feito Ă s pressas depois que passamos…

Menos que um goblin? EntĂŁo o que isso faz de mim, que caĂ­ completamente na armadilha? E se isso nĂŁo estava aqui na primeira vez que passaram, por que nĂŁo me disseram antes? NĂŁo precisa proteger meus sentimentos.

O sorriso de Sitri era genuĂ­no; nĂŁo parecia que ela estava zombando de mim. No geral, eu teria preferido que estivesse.

— Bem, entĂŁo — disse eu, forçando um sorriso. — Acho que Ă© hora de dar meia-volta e pegar o outro caminho.

— Como desejar. Black, deem rĂ©! Carruagens nĂŁo dĂŁo rĂ©? É difĂ­cil virar aqui? Bom, deem um jeito, Ă© para isso que vocĂȘs estĂŁo aqui!

Sitri deu suas ordens absurdas sem um pingo de insatisfação. Tudo que pude fazer foi sorrir.

Me critique ou algo assim. SĂł nĂŁo acredite em mim tĂŁo facilmente.

A carruagem parou. Quando ouvi alguém lå fora dar o sinal, pisei no chão pela primeira vez em horas. O sol estava se pondo, e a lua cintilava no céu vermelho e sem nuvens. Ouvi um rio próximo. Parecia que esse seria nosso local de descanso.

Foi bom termos voltado, jå que não encontramos o grande monstro que Sitri estava esperando. Mas isso também significava que não avançamos tanto quanto havíamos planejado. Atravessar as montanhas depois do pÎr do sol seria suicídio; nem mesmo Sitri insistiria nisso.

Eståvamos em uma clareira com espaço suficiente para uma carruagem e algumas equipes acamparem. Parecia um ponto de parada comum para viajantes cruzando as montanhas de Galest. Drink cheirava o chão com atenção.

Sitri começou a descarregar as malas e me deu um sorriso radiante, apesar de eu não ter feito nada além de sentar na carruagem. Ao lado dela, Liz se espreguiçou com satisfação.

— Bom trabalho lĂĄ fora, Krai. Foi uma experiĂȘncia muito boa.

— Mmm, ahhh. Valeu a espera! Da Ășltima vez, mal encontramos monstros. VocĂȘ Ă© o melhor, Krai Baby!

— Lizzy, isso foi porque da Ășltima vez tĂ­nhamos Ansem com a gente.

— É, ele realmente chama muita atenção. E, se algum monstro aparecesse, Luke cuidaria dele.

Liz estava radiante para alguĂ©m que tinha acabado de sair de um combate incessante. Enquanto isso, os trĂȘs mercenĂĄrios contratados por Sitri estavam sentados no chĂŁo, Ă  beira da morte. Com as cabeças baixas, nĂŁo dava para ver seus rostos, mas suas armaduras estavam cobertas de sangue, e seus corpos musculosos pareciam completamente exaustos. O contraste entre eles e as irmĂŁs Smart era gritante.

Quando nos tornamos caçadores, acidentes como esses (monstros poderosos aparecendo, desastres naturais, etc.) os deixavam exaustos. Eu me perguntava quando foi que eles simplesmente pararam de se importar com isso. E então havia eu. Não sabia se deveria agradecer por ter amigos tão fortes ou me sentir deixado para trås.

— Ah, certo, Lizzy, vocĂȘ foi violenta demais. NĂŁo faça tanta bagunça, isso estraga o caminho para quem vier depois!

— Eu não me importo com isso! As próximas pessoas a passar por aqui vão ser só Arnold e sua gangue, não vão? Então tanto faz. Foi por isso que Krai Baby suspendeu a proibição de combate, certo?

— Não, não foi bem por isso.

Na verdade, nem era tão provåvel que eles conseguissem nos alcançar. Parecia muito mais provåvel que simplesmente nos esperassem na capital. O que era ainda mais razão para eu precisar do resto dos Grieving Souls comigo quando voltasse.

Mesmo enquanto conversava conosco, as mãos de Sitri não paravam. Ela acendeu uma fogueira, alimentou os cavalos cansados e montou o acampamento. Seus movimentos fluidos mostravam que fazia essas tarefas regularmente. Liz também não estava apenas brincando. Ela patrulhava o perímetro assobiando para si mesma. De qualquer forma, Sitri não gostava que interferissem no trabalho dela.

Quando viajåvamos em grupo, Sitri e Lucia montavam o acampamento enquanto Liz, Luke e Ansem patrulhavam ou caçavam comida. Meu trabalho era checar como todos estavam, ou seja, eu não fazia nada.

— Krai, onde está a T? — perguntou Sitri.

— Dormindo. Ela parecia muito cansada, entĂŁo Ă© melhor deixarmos ela descansar um pouco.

Eu duvidava que ela conseguiria ficar acordada por muito mais tempo. De vez em quando, jĂĄ estava cochilando, e nĂŁo precisĂĄvamos de mais gente de guarda, entĂŁo parecia um bom momento para ela descansar. Ela se remexia no sono, mas nĂŁo havia muito que eu pudesse fazer quanto a isso.

— Hmm, se vocĂȘ diz, Krai Baby — disse Liz.

Surpreendentemente, até ela podia demonstrar compaixão.

Sitri armou um caldeirĂŁo portĂĄtil e puxou uma faca grande.

— Agora que Krai está conosco pela primeira vez em um tempo, tenho ainda mais motivos para preparar algo revigorante. Consegui ótimos ingredientes — disse Sitri com um sorriso.

— Tem razão — respondi. — Faz tempo que não comemos juntos assim.

AtĂ© Eliza se juntar a nĂłs, Sitri era a Ășnica dos Grieving Souls que sabia cozinhar, e suas habilidades eram de primeira. No começo, pensei que levaria um tempo atĂ© que ela ficasse boa, mas ela desenvolveu suas tĂ©cnicas num piscar de olhos.

Os temperos que usava eram comprados no mercado, e os outros ingredientes vinham principalmente de animais e vegetais que encontrava pelo caminho. Mesmo assim, a comida dela sempre parecia combinar comigo. Fazia tempo que eu nĂŁo provava sua culinĂĄria, e sĂł essa chance jĂĄ poderia fazer essa viagem valer a pena.

Senti-me um pouco emocionado. Sorri e soltei um suspiro. Antes de formarmos um clã, quando ainda viajåvamos como um grupo, eu sempre sentia que ia morrer de estresse por causa dos monstros, dos ambientes hostis e das relíquias. Mas não diria que só tenho memórias ruins daquela época. Sim, eu era um incompetente, a ponto de o Evolve Greed me rejeitar, mas naquela época, Krai Andrey era um caçador. Essa viagem me fez lembrar dessas aventuras como se tivessem sido ontem.

Minha viagem pelo passado foi interrompida quando percebi que Sitri estava me olhando.

— Ah, eu vou pegar um pouco de água — falei, coçando a bochecha. — Já que estou só parado mesmo.

— Oh. Por favor, faça isso.

— Ah, Krai Baby, eu vou com vocĂȘ! Talvez tenha peixes — disse Liz, casualmente entrelaçando seu braço no meu.

Depois de seguir o cheiro da ågua por alguns minutos, chegamos a um grande rio. Fontes de ågua eram essenciais para humanos, animais e monstros. Com exceção dos fantasmas, nada podia sobreviver sem elas.

— Uau! É tĂŁo lindo. Isso Ă© a melhor parte de ser caçadora — disse Liz, olhando para o rio com os olhos brilhando.

Devemos ter chegado na hora certa, pois nĂŁo havia monstros por perto. O rio era calmo, e a lua se refletia em sua superfĂ­cie escura.

— Parece bom? — perguntei.

— Sim, e dá para ver um monte de peixes! — respondeu Liz, com os olhos cintilando.

Só porque parecia limpo, não significava que era seguro para beber. Caçadores com bastante mana material tinham estÎmagos fortes, mas eu não era um desses caçadores. Liz não hesitou em entrar na ågua. Deveria estar gelada, mas caçadores não se incomodavam com esse tipo de coisa.

Liz esticou os braços alegremente.

— Está tão geeeelada — disse ela. — Ainda tem um pouco de sangue em mim, acho que vou lavar!

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 Bem na minha frente, ela começou a se despir. Jogou suas manoplas na margem do rio e alcançou as costas. Tirou a armadura (que cobria apenas a parte superior do torso), o cinto e o short.

A luz da lua iluminava sua pele fina, embora eu só pudesse ver suas costas. Tudo o que restava nela era sua fina roupa de baixo preta. Eu gostaria que ela tivesse demonstrado um pouco mais de hesitação em se despir. Mesmo sendo uma caçadora, ela ainda era uma garota e poderia ser um pouco mais discreta. Seus dedos se moveram até o fecho em suas costas e, então, pararam.

Recuperei o autocontrole e a repreendi.

— Liz, vocĂȘ nĂŁo devia fazer isso.

— Qual Ă© o problema? Somos camaradas, nĂŁo somos?

Claro, eu conhecia Liz desde a infĂąncia, mas isso nĂŁo significava que as regras de decĂȘncia nĂŁo se aplicassem entre nĂłs. Se ela queria apenas lavar o sangue, nĂŁo precisava se despir ainda mais, e eu queria pegar ĂĄgua, nĂŁo assisti-la se trocando.

Eu estava tentando pensar em uma forma de impedi-la, mas, de repente, ela olhou para mim.

— Ainda assim, talvez eu pare por agora — disse. — Isso Ă© um pouco embaraçoso e faz tempo que nĂŁo temos uma aventura juntos.

Com uma expressão envergonhada e ligeiramente sedutora, ela ergueu as mãos e desfez o rabo de cavalo, deixando seu cabelo rosa cair pelas costas. Sem esperar mais um momento, pulou no rio. Parecia que a ågua não era tão funda, pois ela conseguia ficar em pé com a ågua até o peito.

Ela se virou e me perguntou:

— Vai entrar tambĂ©m?

— Não, eu preciso pegar essa água.

— Ah. Que pena. Bem, vou pegar alguns peixes!

Ela rapidamente mergulhou na ĂĄgua, suas pernas chutando brevemente o ar. Mesmo em momentos assim, ela mantinha o Apex Roots ativado.

Talvez ela tenha amadurecido um pouco.

Com sentimentos que eu nĂŁo sabia descrever, comecei a encher o cantil de Sitri com ĂĄgua.

Me sentia em dĂ­vida com eles. Quando se opera em grupo, um erro pode decidir o destino de todos. A incompetĂȘncia era um pecado, e eu era a manifestação dela. Mas o resto do grupo nunca jogou isso na minha cara. Quando abandonei a vida de aventureiro, eles nunca me pressionaram para saber o motivo. Isso me permitiu olhar para aqueles dias com carinho, mesmo que apenas um pouco. Liz podia parecer inconsequente, mas atĂ© ela pensava em mim. Eu nĂŁo poderia agradecĂȘ-la o suficiente.

— É muito mais divertido quando vocĂȘ estĂĄ por perto. Fico feliz que tenha vindo — disse Liz.

EstĂĄvamos aproveitando um breve descanso. Ela estava sentada na margem do rio e eu penteava seus cabelos volumosos com os dedos. Seus fios Ășmidos tinham um peso estranho, mas estavam impecĂĄveis apesar de suas constantes batalhas. Ela estremecia sempre que meus dedos pressionavam seu couro cabeludo.

— Mm, parece bom. Parece que vocĂȘ tirou todo o sangue.

— Obrigada. Ficar com um cheiro estranho pode me fazer errar quando mais importa.

Ela parecia incrivelmente relaxada ao dizer isso.

JĂĄ tĂ­nhamos feito o que precisĂĄvamos, mas parecia um desperdĂ­cio voltar imediatamente. Liz e eu nĂŁo eramos amantes nem nada, mas ela nĂŁo dizia nada sobre voltar, e era bom simplesmente ficar ali. O silĂȘncio entre nĂłs nĂŁo era incĂŽmodo, e eu nĂŁo me cansava de admirar a beleza intocada da natureza ao nosso redor.

Eu estava observando a ĂĄgua quando Liz falou de repente.

— Ei, Krai Baby — disse em um tom sĂ©rio. — Eu vou me tornar uma caçadora poderosa.

— Mmm, eu sei.

Eu achava que ela jå era bem poderosa, mas não duvidava da determinação em sua voz. Ela era forte, humilde, dedicada e bonita. Era temida na capital, mas também tinha muitos fãs.

Havia algo nela que capturava os coraçÔes das pessoas e a fazia se destacar. Era algo que todos os campeÔes possuíam e, portanto, algo que eu nunca teria. Eu sabia que não era adequado para ser um caçador, mas ainda sentia inveja da dedicação inabalåvel de Liz.

— E eu definitivamente vou transformar a Tino em uma caçadora — continuou. — VocĂȘ a fez minha aprendiz, entĂŁo apenas observe.

— Eu acredito em vocĂȘ. Tem meu total apoio.

Claro, nĂŁo havia muito que eu pudesse fazer para ajudar, mas fiquei feliz em ver como Liz havia crescido.

Ela se levantou e se virou para mim, colocando seu corpo coberto apenas por roupa Ă­ntima bem na minha frente. Olhei para o lado reflexivamente, mas ela apenas sorriu.

— VocĂȘ vai ficar comigo para sempre?

Claro.

Eu me sentia em dĂ­vida. Tinha certeza de que eu era uma das razĂ”es do crescimento explosivo dela e dos outros. Se eu tivesse talentos como os deles, talvez tivessem crescido de maneira um pouco mais “correta”. Mas essa culpa nĂŁo era o motivo pelo qual eu aceitava todos os convites deles, mesmo depois de ter parado de me aventurar. Mesmo que fossem temidos na capital, mesmo que houvesse uma diferença astronĂŽmica em nossa força, eles eram meus preciosos amigos, nĂŁo importava quanto tempo passasse.

Com meu sorriso de sempre, eu estava prestes a dar minha resposta a Liz—

Quando o som de uma explosão veio da direção do nosso acampamento.

A floresta tremeu. A expressĂŁo radiante de Liz se tornou sombria.

— Ah, poxa! Que timing horrível, estávamos num clima tão bom!

— Hã?

— Foi na direção dos outros, pelo visto. Isso Ă© difĂ­cil de captar… preciso treinar mais…

Eu fiquei ali, confuso. Liz soltou um pequeno suspiro enquanto espremia a ågua do cabelo e o amarrava novamente. Então vestiu suas roupas e armadura. Em poucos segundos, a garota encantadora havia se transformado em uma caçadora temível. Liz sorriu para mim, com aquele olhar confiante e brilhante de sempre.

Com Liz puxando minha mão, corremos pela escuridão. Ela conseguia enxergar no escuro, e eu havia ativado Owl’s Eye, então visibilidade não era um problema, mas a floresta noturna ainda me deixava inquieto. Provavelmente não conseguiria atravessar aquelas árvores se ela não estivesse segurando minha mão.

— Siddy jĂĄ percebeu, acho que ficaremos bem! Ela Ă© uma Alquimista, afinal!

Parecia que Sitri sabia que estĂĄvamos sendo seguidos por algo. Liz tinha dito que era “difĂ­cil de perceber.” Devia ser algo considerĂĄvel se atĂ© um Ladino tinha dificuldade em detectĂĄ-lo. Seja como for, eu jĂĄ estava acostumado a ser perseguido o tempo todo. Naquele exato momento, Arnold tambĂ©m estava atrĂĄs de mim.

Uma frase durona parecia uma boa maneira de escapar da realidade.

— É difícil ser tão popular.

— Ooh, isso foi incrível! — Liz exclamou com uma voz aguda.

O homem que soltou aquela frase cheia de estilo estava sendo puxado por ela e corria o risco de tropeçar a qualquer momento. Me perguntei se Liz ainda iria gostar de mim se eu fizesse algo tão patético.

RĂĄpidos como o vento, retornamos ao nosso acampamento e vimos um verdadeiro embate de monstros acontecendo diante de nĂłs.

— Demorou, hein, Lizzy! — Sitri gritou.

Matadinho arrancou uma årvore do chão e a lançou como uma lança. Drink soltou um rugido e partiu para o ataque. Ambos estavam lutando contra uma criatura que eu nunca tinha visto antes.

Ela tinha a pele verde-escura e membros anormalmente longos. Chifres saĂ­am de vĂĄrios pontos do seu corpo, que estava parcialmente coberto por um pano grosseiro. Seu rosto era peculiar, mas parecia algum tipo de goblin. Sua aparĂȘncia era assustadora, mas o que realmente me incomodava eram seus movimentos rĂĄpidos e silenciosos.

Matadinho era forte, destacava-se pela força bruta e resistĂȘncia, sendo o equivalente a pelo menos um Caçador de NĂ­vel 5. A forma leonina de Drink tambĂ©m indicava que era uma criatura formidĂĄvel. E, no entanto, seus ataques nĂŁo estavam causando nenhum arranhĂŁo no estranho monstro. Com movimentos escorregadios e sinistros, ele desviou da ĂĄrvore que vinha em sua direção e defletiu Drink com uma precisĂŁo refinada, algo incomum para monstros.

Os trĂȘs mercenĂĄrios contratados por Sitri estavam encolhidos perto da carruagem. Tino havia acordado de seu sono e jĂĄ estava em posição de combate, mas parecia incapaz de encontrar uma abertura para atacar. O monstro era rĂĄpido demais para que eu conseguisse acompanhĂĄ-lo com os olhos. Eu teria perdido ele de vista completamente se nĂŁo fosse pela minha RelĂ­quia de visĂŁo noturna.

— O que Ă© isso? — Liz perguntou, de olhos arregalados.

— Um ogro errante — Sitri respondeu.

Entendi, entĂŁo esse era o ogro errante do qual Sitri estava falando. Parece que acabei de adicionar mais um Ă  minha lista de monstros raros que jĂĄ encontrei.

— Parece que esse Ă© o monstro que criou o caminho falso — Sitri continuou, sem tirar os olhos da criatura. — Imagino que tenha vindo atrĂĄs de nĂłs porque invadimos seu territĂłrio. Exatamente como Krai calculou.

Meus cĂĄlculos sĂŁo uma droga.

Matadinho rugiu, cerrou os punhos e avançou. No entanto, a diferença de alcance era grande demais. Vårios hematomas enormes surgiram em seu corpo cinza. O ogro errante nos encarou e, quase no mesmo instante, seus longos braços se moveram.

Ele tinha jogado algo. Era uma pedra. Quando percebi o que estava acontecendo, uma rocha vermelha em chamas jå estava vindo direto para o meu rosto. Mas o projétil semelhante a um cometa parou antes de me atingir, e não foi graças a um Anel de Segurança.

O braço esguio de Liz entrou no meu campo de visão, sua pequena mão pegando a pedra flamejante.

— Morra.

Ela devolveu a pedra para o monstro com a mesma velocidade com que havia sido lançada contra mim. Sem esperar por um contra-ataque tão råpido, a rocha ardente acertou o ogro errante em cheio. Ele foi arremessado para trås, não parando nem mesmo depois de atravessar algumas årvores. Mais uma vez, Liz demonstrava uma força absurda para um Ladino.

O silĂȘncio retornou. Matadinho olhou ao redor, atento, e Drink rosnou. NĂŁo parecia haver sinais de retaliação. Liz bateu as mĂŁos uma na outra para se livrar da poeira e da sujeira.

Let This Grieving Soul Retire! Volume 4 14 Online em PortuguĂȘs PT-BR

 â€” Tsk, isso mal causou dano — resmungou ela. — Deve ser resistente a ataques fĂ­sicos. Explique isso, Siddy.

— NĂŁo tenho muitas informaçÔes, mas ouvi dizer que Ă© um monstro cauteloso e tenaz. É seguro presumir que ainda nĂŁo desistiu. Provavelmente estĂĄ recuando para a escuridĂŁo para planejar uma emboscada.

NĂŁo consegui dizer de onde, mas ouvi o som assustador das folhas farfalhando. NĂŁo dava para saber se era apenas o vento ou um monstro sinistro nos espreitando. Se fosse um monstro capaz de me enganar, era seguro assumir que tinha uma inteligĂȘncia razoĂĄvel. E se conseguia atacar com tanta rapidez, precisarĂ­amos ficar atentos.

— AtĂ© os ataques de Matadinho foram quase completamente ineficazes — disse Sitri, examinando os hematomas da criatura. — Provavelmente Ă© um tipo de monstro revenant, jĂĄ que ataques fĂ­sicos nĂŁo fazem muito efeito neles.

— Ah, e não temos Anssy ou Lucia. Droga.

Caçadores tinham seus próprios pontos fortes e fracos. Trabalhar em grupo normalmente resolvia esse problema, mas entre nós, não havia nenhum Magus que pudesse lidar com um inimigo resistente a ataques físicos. Eu tinha os Anéis de Tiro, mas não fariam muita diferença.

Liz, Sitri e Tino olharam para mim. Esperavam que eu tomasse uma decisĂŁo.

— Conseguimos afastá-lo por enquanto, vamos aproveitar para fugir — disse sem hesitar.

— Queria que nĂŁo precisĂĄssemos, mas esse monstro Ă© problemĂĄtico. Acho que vocĂȘ tem razĂŁo, Krai — disse Sitri.

— Mmm, acho que Ă© o melhor a se fazer? — disse Liz. — Provavelmente conseguirĂ­amos vencĂȘ-lo, mas quem sabe o que poderia acontecer com a T? Ele Ă© tĂŁo furtivo, e eu prometi ao Krai Baby que a transformarĂ­amos numa caçadora de verdade.

— Lizzy, eu…

Não eståvamos sendo pagos para estar ali, não havia motivo para enfrentarmos um monstro para o qual não eståvamos preparados. Além disso, pela primeira vez, não eståvamos cercados.

Tino parecia surpresa, mas aquele nĂŁo era um monstro que deverĂ­amos enfrentar. Ela nĂŁo teria a menor chance contra o ogro errante, e nem preciso dizer que o maior peso morto ali era eu. Fiquei surpreso que Liz estivesse tĂŁo disposta a recuar, mas talvez ainda estivesse pensando em nossa conversa anterior.

Uma retirada råpida era ideal nessas situaçÔes. Mesmo que atravessar montanhas à noite não fosse a melhor opção, não tínhamos alternativas melhores.

***

Eles eram fortes. Sentado no alto do galho verdejante de uma ĂĄrvore imensa, o ogro errante contemplava seus intrusos inesperados. Seu corpo ardia com a dor escaldante do impacto da pedra. O ferimento nĂŁo era fatal, mas dor era algo que ele nĂŁo sentia hĂĄ muito tempo.

Nenhum humano ou outro monstro nas montanhas Galest jamais havia representado um desafio para o ogro errante. Ele era resistente a ataques físicos e conseguia mover seus longos membros com uma destreza e velocidade que ninguém conseguia acompanhar. Até mesmo aquele troll beligerante evitava seu território.

Mas aquele grupo de humanos era diferente. Precisava de cautela. Mesmo que fossem adversårios poderosos, o ogro não podia simplesmente deixå-los escapar. Não era apenas por terem invadido seu território, mas porque haviam despertado seu interesse. Seus instintos o compeliam a capturar e massacrar qualquer presa que chamasse sua atenção.

Ele sentia prazer em usar sua inteligĂȘncia para alcançar esse objetivo. Atacar de frente nĂŁo era seu estilo de caçada. Ainda acreditava em sua capacidade de vencer em um confronto direto, mas essa simplesmente nĂŁo era sua maneira de lutar.

Naturalmente, começou indo atrås dos mais fracos, mas aquele grupo tinha vårios membros fortes. Quando arremessou uma pedra em um deles, não apenas foi pega, mas lançada de volta com uma velocidade que rivalizava a do próprio ogro errante.

Sua melhor opção era esperar por uma brecha. As montanhas Galest eram vastas; uma oportunidade para atacar apareceria eventualmente. Para ele, toda a cordilheira era como seu quintal. Conhecia todas as rotas e poderia seguir sua presa sem ser percebido, movendo-se de årvore em årvore.

O ogro errante havia se fundido às sombras no topo da årvore, mas, enfim, sua presa começou a se mover. E então ele também se moveu, deixando apenas o mais sutil dos ruídos em seu rastro.

***

A carroça chacoalhava violentamente. Tino abraçou os joelhos.

Ela se sentia patética. Sabia que ainda era inexperiente. Sabia da imensa diferença entre sua força e a de Lizzy. Mesmo assim, não conseguia aceitar que sua fraqueza havia sido o motivo para o grupo recuar diante de um monstro.

Ninguém na carroça falava com ela. Krai mantinha um olhar atento na janela. Saber que ele provavelmente estava tentando ser gentil só a fazia se sentir pior. Alguns obståculos podiam ser superados com encorajamento, mas outros tinham que ser vencidos por esforço próprio. Essa Provação era, com certeza, do segundo tipo.

Aquele monstro era forte. Se conseguiu enfrentar Matadinho de igual para igual, então era demais para Tino enfrentar sozinha — ela simplesmente não era adequada para isso. Mas deveria ter reunido cada gota de força que possuía e lutado.

Ela percebeu que tinha sido mimada durante essa viagem. NĂŁo havia se envolvido em nenhuma luta e a Ășnica coisa realmente exaustiva que fez foi correr enquanto era atingida por raios.

Tino tinha sido cautelosa demais, preocupada com a possibilidade de ser atacada, e por isso não percebeu o verdadeiro significado daquela trégua momentùnea. Caçadores não tinham o luxo de parar. O sucesso exigia um avanço constante. Foi assim que os Grieving Souls se tornaram um dos grupos mais renomados da capital.

Seu mestre havia decidido recuar, e Lizzy concordou com ele. Normalmente, isso seria impensĂĄvel. Era tudo culpa de Tino; eles viram seu medo e sua fraqueza.

No fundo, Tino acreditava que, estando ao lado das irmĂŁs Smart e do todo-poderoso Mil Truques, nĂŁo precisaria lutar. A maioria das pessoas saberia que, sendo a mais fraca, deveria encarar aquele encontro como uma oportunidade de aprendizado.

— O que foi, Tino? VocĂȘ se machucou lĂĄ atrĂĄs?

— Era seu mestre, olhando para ela com preocupação.

Como ela pĂŽde ter sido atingida? Ela apenas ficou pronta para atacar. A pergunta dele era como esfregar sal na ferida. Ela queria dizer algo, mas manteve os lĂĄbios selados e apenas balançou a cabeça. Talvez ele tambĂ©m tivesse sido sarcĂĄstico mais cedo, quando disse que ela tinha “um longo caminho pela frente”. Ela queria que ele a repreendesse de forma mais clara.

— Não tinha jeito, aquele era um monstro complicado — ele disse.

— Monstros inteligentes são capazes de detectar material de mana e, por isso, geralmente vão primeiro atrás dos mais fracos — acrescentou Sitri.

As palavras de conforto deles penetraram no coração de Tino, embora essa provavelmente não fosse a intenção. Especialmente Siddy, que apenas falava de forma direta. Mas isso não fazia Tino se sentir melhor.

Ela tinha que lutar. No começo das férias, Lizzy mencionou que ela teria uma chance de redenção. Da próxima vez, ela teria que avançar. Precisava mostrar que era digna de se juntar aos Grieving Souls, mesmo que isso lhe custasse um braço ou dois. Tinha que fazer isso enquanto ainda esperavam algo dela.

Ela ouviu a voz animada de Lizzy no topo da carruagem.

— Parece que ainda está nos seguindo! Mas eu não sei onde está!

— Isso nĂŁo Ă© bom, talvez eu jogue uma poção explosiva.

— É, aham.

O ogro errante era incrivelmente persistente. Era difícil acreditar que ele não havia desistido após lutar contra Lizzy. A explosão da poção de Siddy derrubou årvores próximas, mas eles ainda estavam sendo perseguidos por um inimigo que nem conseguiam ver.

— Isso seria muito mais fácil se Lucia estivesse aqui — disse Sitri. — Isso faria toda a diferença—

— Podemos fugir dele? — perguntou Krai.

— Hm, consigo pensar em uma solução segura e uma arriscada — ela disse, entĂŁo juntou as mĂŁos. — Podemos usar um bode expiatĂłrio. Ogros errantes sĂŁo persistentes e impiedosos, mas aparentemente tĂȘm o hĂĄbito de brincar com suas presas. Se oferecermos um bode expiatĂłrio, devemos conseguir escapar com facilidade. Na verdade, ouvi dizer que, sem exceção, todas as aldeias localizadas perto de territĂłrios de ogros errantes tĂȘm uma lenda sobre uma fada exigindo sacrifĂ­cios…

Sitri queria jogar alguĂ©m para os lobos. Isso estava muito alĂ©m do que Tino esperava. Ela nĂŁo conseguia se imaginar vencendo um monstro que a superava tanto, mesmo que lutasse atĂ© seu Ășltimo suspiro. Ela havia reunido a determinação para lutar, mas isso significava pouco diante da realidade.

Mestre, isso Ă© demais para mim. Eu vou morrer, pensou.

— EntĂŁo, qual Ă© a solução segura? — perguntou Krai.

— Hm? Ah, Krai — Sitri disse, soltando uma risadinha. — Essa era a solução segura.

Krai riu com ela. Devia ser o tipo de piada que apenas caçadores de alto nível achavam graça. Tino não estava rindo nem um pouco.

— Diminuir a equipe seria matar dois coelhos com uma cajadada só, não acha, T?

Sitri olhou para Tino com um olhar cheio de segundas intençÔes. Seus olhos brilhavam com uma luz que queria Tino morta. Talvez Sitri ainda estivesse guardando rancor pelo encontro de Tino com Krai em Gula.

— EntĂŁo, qual Ă© a solução arriscada? — Krai perguntou, jogando uma boia salva-vidas para Tino.

— Hm, em vez de uma pessoa, podemos atrair monstros para servirem de isca. NĂŁo acho que seria tĂŁo eficaz quanto um chamariz humano, e o fator sorte teria um grande peso, entĂŁo eu nĂŁo recomendaria esse plano…

— Beleza, vamos com esse plano. Sitri, a vida humana Ă© algo a ser valorizado.

— Em outras palavras, ainda podemos tirar mais proveito de Preto, Branco e Cinza. Entendi.

Parecendo imensamente decepcionada, Sitri olhou novamente para Tino e puxou com cuidado mais um frasco de Efeito Perigo, a poção que atrai monstros.

***

O sol começou a nascer. O prefeito e os moradores de Gula observaram a companhia de Arnold partir. Seus corpos ainda estavam cansados, mas o desgaste mental era ainda pior.

A nova carruagem era muito maior que as anteriores, então até mesmo alguém do tamanho de Arnold podia se acomodar confortavelmente. Os cavalos também eram muito mais fortes. Era uma melhora notåvel, mas ainda não havia garantia de que conseguiriam alcançar seu alvo.

— Quando se chega ao Nível 7, o tratamento realmente melhora — disse Gilbert, impressionado. Talvez por sua juventude, o cansaço não transparecesse em seu rosto.

— Salvamos uma cidade em crise, isso Ă© o mĂ­nimo que podĂ­amos esperar. Se tivĂ©ssemos mais tempo, poderĂ­amos ter recebido mais agradecimentos — disse Eigh. Ele parecia nostĂĄlgico, mas sabia o que a vida de caçador implicava.

Caçadores não usavam carruagens luxuosas. Uma mais cara poderia ser mais confortåvel, mas as carruagens de caçadores estavam sempre sendo danificadas, e comprar uma nova aumentava os gastos. Como os caçadores jå gastavam grandes quantias em poçÔes e armas, as despesas com carruagens eram uma dor de cabeça constante.

Com apenas um dia de aviso, a cidade só conseguiu providenciar uma carruagem. Embora fosse grande, não era espaçosa o suficiente para acomodar todos. Como Chloe era a cliente deles, não podiam deixå-la caminhar, então os membros da vanguarda se revezavam entre andar e viajar na carruagem.

Os membros do Redemoinho Escaldante estavam especialmente exaustos. Com exceção de Gilbert, nenhum deles conseguia se mover ainda, então estavam amontoados na carruagem.

Tecnicamente, esses grupos eram equipes separadas; a Névoa Caída não tinha obrigação de deixar o Redemoinho Escaldante viajar na carruagem enquanto caminhavam. No entanto, sobreviver a batalhas ferozes juntos havia criado um laço entre eles. Ninguém reclamou do arranjo.

Eigh não se importava, jå estava acostumado a caminhar. A questão maior era se conseguiriam alcançar o Mil Truques. Com tudo o que havia acontecido até ali, ele estava atento a problemas, mas nada parecia fora do comum. Parecia uma suposição segura que o Mil Truques havia tomado aquela estrada; as marcas de uma carruagem eram bem evidentes.

Eles estavam se movendo em um ritmo acelerado. Gilbert, que jå tinha se acostumado com a Névoa Caída, fez uma pergunta.

— Ei, velhote, vocĂȘ matou um dragĂŁo, certo? O quĂŁo insano Ă© lutar contra um dragĂŁo?

— Vamos. Vamos cruzar as montanhas.

***

Ousadia e audåcia. Era isso que Chloe esperava de caçadores.

A antiga estrada que levava Ă s montanhas Galest era apenas larga o suficiente para acomodar sua nova carruagem. As ĂĄrvores densas ao redor limitavam sua visĂŁo, e ocasionalmente ouviam os gritos de monstros Ă  distĂąncia. Mas o que realmente surpreendeu Chloe foi a quantidade absurda de monstros mortos.

Havia cadĂĄveres frescos de uma grande variedade de criaturas espalhados por toda parte. O nĂșmero era extraordinĂĄrio, e isso sem contar os corpos que jĂĄ deviam ter sido devorados. NĂŁo era sĂł Chloe que achava aquilo estranho — atĂ© veteranos como Eigh e Arnold fizeram caretas ao ver a cena.

— Eles fizeram tudo isso? — Arnold se perguntou.

— As montanhas sĂŁo cheias de monstros, mas isso aqui Ă© exagerado. O que diabos aconteceu? — disse Eigh.

Os cadåveres de monstros podiam ser vendidos e aquela quantidade toda renderia um belo lucro, mas não havia nenhum sinal de que alguém tivesse levado sequer um corpo. Serå que simplesmente consideraram que não valia o esforço?

Para deixar tudo ainda mais estranho, nenhum monstro atacou Chloe e seu grupo. Com tantos restos espalhados, normalmente haveria monstros atraĂ­dos pelo cheiro da carne, mas parecia que todos haviam fugido. Aquilo era o completo oposto do que estavam acostumados.

Era esperado que houvesse muitos monstros tolos nas montanhas. Serå que fugiram do Mil Truques? Serå que sentiram seu poder? A situação não fazia sentido, mas não era um bom sinal. Parecia uma espécie de mensagem. Claro, o Relùmpago Colidente também era capaz de fazer uma bagunça dessas, mas isso exigiria primeiro que ele fosse atacado por uma quantidade absurda de monstros.

Arnold teve um flashback do encontro com a matilha de orcs. Aquilo era o suficiente para até mesmo ele se surpreender.

— O que vocĂȘ fez? — ele sussurrou. — O que vocĂȘ quer, Mil Truques?

— Arnold, devemos voltar? — perguntou Eigh, com a voz baixa.

O olhar de Arnold seguiu pelo caminho manchado de sangue. Ele balançou a cabeça em silĂȘncio.

A estrada estava tĂŁo segura quanto possĂ­vel, mas a ausĂȘncia de monstros era inquietante. Eles avançaram muito mais rĂĄpido do que esperavam.

— A propĂłsito, que tipo de monstros tĂȘm recompensas por aqui? — perguntou um dos membros da NĂ©voa CaĂ­da do nada.

As recompensas vinham em duas categorias. Havia aquelas oferecidas por governos contra criaturas consideradas perigosas e as oferecidas por indivíduos. A administração dessas recompensas era responsabilidade da Associação dos Exploradores, que contava com muitos caçadores poderosos entre seus membros.

O rei orc em Gula, por exemplo, provavelmente tinha uma recompensa por sua cabeça (embora Chloe não tivesse tido tempo para confirmar isso). Qualquer recompensa nas montanhas Galest certamente seria por monstros. Não era incomum que criaturas poderosas de outros países fugissem para as montanhas para escapar dos caçadores.

— Há várias — disse Chloe, lembrando-se dos documentos que tinha lido. — Por exemplo, há um troll de classe general que fugiu depois de destruir uma vila inteira. Claro, não há garantia de que ele ainda esteja nestas montanhas. Afinal, os caçadores que enfrentam as montanhas Galest normalmente preferem cofres de tesouro.

— Igual em Nebulanubes, nĂ©?

— Recompensas por monstros
 bem, o pagamento nunca corresponde à dificuldade.

Isso era inevitåvel na maioria das vezes. Os monstros que acabavam com recompensas por suas cabeças geralmente eram inteligentes. Mesmo que fossem fracos, um monstro esperto poderia se fortalecer com materiais de mana e se tornar algo que a maioria dos caçadores não conseguiria enfrentar.

Embora o Esquadrão de Bandidos Barrel não fosse composto por monstros, circunstùncias parecidas provavelmente levaram o conde a emitir uma missão nomeada. Além disso, o fato de Arnold ter derrotado aquele orc poderoso foi uma sorte tremenda para a Associação dos Exploradores, mas Chloe não tinha a intenção de contar isso para ele.

Nada se interpÎs no caminho deles. Era seguro presumir que ninguém jamais havia cruzado a Cordilheira Galest tão råpido quanto eles. No caminho, encontraram uma bifurcação desconhecida, mas aquilo era uma armadilha óbvia. Provavelmente havia um monstro inteligente por perto.

Eles chegaram a uma clareira com sinais evidentes de uso recente. Eigh examinou uma ĂĄrvore caĂ­da e uma fogueira apagada.

— Sinais de batalha e uma fogueira — ele disse. — Estiveram aqui há pouco tempo. Eu diria que há algumas horas.

— Hmm, finalmente os alcançamos? — disse Arnold.

Eles haviam conseguido. O sol jĂĄ estava quase completamente abaixo do horizonte, mas o dia fĂĄcil na estrada deixara-os com bastante energia. Eles nĂŁo pretendiam parar.

Como Chloe esperava, Arnold exibia um sorriso feroz.

— Vamos descansar. Apenas uma hora. Depois seguimos em frente, eles estão ao nosso alcance.

Eles nunca tiveram a intenção de entrar na Cordilheira Galest. Como é que isso aconteceu? Pela primeira vez em muito tempo, Chloe sentiu uma dor de cabeça causada pelo estresse e cansaço. Ela soltou um suspiro.

***

Quando a carruagem parou de chacoalhar e o chĂŁo abaixo de nĂłs ficou nivelado, finalmente me permiti relaxar. Aquela tinha sido a pior noite da minha vida. O Efeito de Perigo da Sitri havia deixado todos os monstros da ĂĄrea em frenesi. O banho de sangue resultante engoliu nossa carruagem enquanto tentĂĄvamos desesperadamente descer a montanha.

Não conseguimos prever a brisa. Pouco depois de Sitri jogar a poção, o vento mudou de direção e espalhou o líquido por um raio muito maior. Infelizmente, foi muito mais eficaz do que ela tinha imaginado. Ficamos cercados por monstros de todos os lados. Se não fosse pelos esforços heroicos de todos (menos eu), teríamos morrido nas montanhas Galest e ninguém jamais saberia.

Mas conseguimos. Estou vivo.

Nos meus dias como caçador, jå havia sobrevivido a dezenas de situaçÔes perigosas como essa, então consegui manter a calma. Tino, por outro lado, não estava tão acostumada e tremia no canto da carruagem, com o rosto pålido como a morte. Uma gosma estranha encharcava seu cabelo, e suas roupas estavam cobertas de sangue verde. Liz a tinha agarrado e jogado no meio da batalha.

No começo, achei que ela ficaria bem, jå que lutava com tanta intensidade, mas o encontro com a morte realmente a deixou sem fÎlego. Fiquei preocupado que isso pudesse causar um trauma duradouro.

A presença do ogro errante desapareceu no meio da confusão. E, olha, aquela briga não foi melhor do que enfrentar o ogro errante?

— Monstros. Assustador. Sombras. Assustador. Me salva, Mestre. Mestre… — murmurou Tino.

Enquanto isso, sua mentora nĂŁo parecia nem um pouco incomodada.

— Uhuu, isso foi demais! Vamos fazer de novo alguma hora!

Assim como Tino, Liz estava coberta de sangue (e pensar que ela tinha acabado de lavar as manchas anteriores), mas parecia nĂŁo se importar nem um pouco. Eu nĂŁo tinha energia para discutir com ela.

— É, uh-huh — murmurei.

— Precisamos parar para tomar banho e lavar nossas roupas. E, principalmente por causa de Black, White e Gray, acho que precisamos descansar — disse Sitri, quase como se fosse uma boa empregadora ou algo assim.

Havia muito que eu queria dizer, mas, por enquanto, nĂŁo podia negar que precisĂĄvamos descansar. Decidi usar essa pausa como uma chance para falar sobre a forma como Sitri tratava seus ajudantes.

— Boa ideia. O Palácio Noturno ainda está um pouco distante — respondi.

EntĂŁo algo me ocorreu. Eu queria sair daquela montanha amaldiçoada o mais rĂĄpido possĂ­vel, mas serĂĄ que isso era realmente uma boa ideia? A poção de Sitri tinha sido extraordinariamente eficaz, a ponto de “atração de monstros” parecer um termo inadequado. Aqueles monstros tinham perdido completamente o controle e continuaram a atacar Liz cegamente, mesmo depois que ela jĂĄ havia matado dezenas deles. Se aqueles monstros frenĂ©ticos descessem a montanha, poderiam atacar vilarejos prĂłximos, e isso seria um grande problema.

Eu sabia que as montanhas Galest ficavam afastadas de qualquer assentamento, então era improvåvel que alguém se machucasse se simplesmente os deixåssemos ali. Mas ainda assim, parecia irresponsåvel simplesmente ignorå-los. Eu queria pelo menos permanecer na årea e observar os monstros até que o efeito da poção passasse, mesmo que eu não soubesse exatamente o que esperava conseguir com isso.

— Sitri, quanto tempo dura essa poção?

— Varia de indivíduo para indivíduo, mas cerca de um dia.

Isso nĂŁo Ă© tĂŁo ruim. Felizmente, o ogro errante parece ter desistido de nĂłs.

Verifiquei o mapa e vi que havia um pequeno lago na base da montanha. Ele estava conectado ao rio onde Liz havia se banhado na noite anterior. Poderíamos conseguir ågua, seria um local ideal para acampar e ficava bem próximo. O sol tinha acabado de se pÎr, mas nossos cavalos não conseguiriam ir muito mais longe. Considerando nossa situação e as condiçÔes ao redor, parecia o plano perfeito.

Estou afiado hoje.

— Certo, vamos descansar perto desse lago. De lá, podemos ter uma noção do que está acontecendo na montanha, ainda que vagamente.

— Hmm, então vamos descansar e esperar um pouco. Excelente ideia — disse Sitri.

Isso mesmo, vocĂȘ entendeu. Conseguiu perceber de imediato. Vamos esperar atĂ© que o efeito da poção passe. Quem dera vocĂȘ sempre fosse tĂŁo intuitiva assim.

— Sabia que vocĂȘ entenderia — falei. — Talvez eu esteja me preocupando demais, mas acho que devemos ficar parados por um tempo.

— Longe disso. Considerando a força de nossos valorosos inimigos, acho uma ideia sensata! Afinal, estamos bastante cansados.

“Valorosos inimigos”. Que escolha estranha de palavras.

— Oh, Krai querido! — disse Liz, quebrando o silĂȘncio. Ela estalou os dedos, os olhos brilhando. — Que tal fazermos uma fogueira? Faz tanto tempo. Vamos fazer uma bem grande, que dĂȘ para ver do topo da montanha. A T e eu podemos caçar algo para assar. Que tal? NĂŁo parece divertido?

Meu Deus, ela tem energia de sobra. Mas uma fogueira? Isso nĂŁo parece tĂŁo ruim.

Quando eu ainda saĂ­a em aventuras com todos, fogueiras eram comuns. Se vocĂȘ estĂĄ sempre alerta, nĂŁo terĂĄ energia quando realmente precisar. Um caçador de primeira classe sabe que precisa descansar quando pode. Muitos monstros e animais tĂȘm medo do fogo, entĂŁo fogueiras sĂŁo Ăłtimos locais para descansar. E, no mĂ­nimo, eu queria que Liz e Tino se lavassem.

— Está decidido. Vamos aproveitar o máximo que pudermos, mas garantindo que estamos preparados para partir se necessário.

— Água. Tem água. Conseguimos. Estamos vivos! — White gritou enquanto tropeçava em direção ao lago.

Ele parecia prestes a desabar a qualquer momento. Os outros dois se juntaram a ele e se jogaram na margem do lago. Eles tinham passado por uma situação pior do que qualquer um do grupo.

Obrigado pelo esforço de vocĂȘs. Vou tentar convencer a Sitri, entĂŁo aguentem sĂł mais um pouco.

A margem do lago era deslumbrante, e a ågua gelada era transparente. Era um local perfeito para acampar. Eu podia imaginar que seria um destino muito popular, se não fosse tão remoto. Não havia nenhum sinal de civilização ao nosso redor, e era quase luxuoso ter tudo só para nós. Drink olhava fascinado para seu reflexo na ågua.

Ao longe, eu via animais de todos os tamanhos bebendo no lago. Nem eles nem os monstros brigavam, criando uma pequena bolha de paz. Não havia nenhum sinal da confusão de ontem; parecia que os efeitos do atrativo de monstros não haviam chegado até aqui.

Olhei para cima e vi as montanhas que havíamos descido no dia anterior. A essa distùncia, eu não conseguia dizer o que havia acontecido com os monstros enlouquecidos ou com o ogro errante, mas pelo menos conseguiria notå-los imediatamente se viessem na nossa direção.

Liz soltou um grito animado ao largar suas bolsas e começar a tirar a roupa. Sua pele saudåvel brilhando sob o sol parecia algo saído de uma pintura.

— Yay! Krai Baby, olha, olha, Ă© lindo! Eu vou nadar. Vamos, T!

— L-Lizzy?! O Mestre está bem ali!

Voltando a si, a jovem aprendiz, aflita, tentou impedir sua mestra, mas foi em vĂŁo. Num piscar de olhos, Liz jĂĄ estava sĂł de roupa Ă­ntima e pulava no lago.

VocĂȘ esqueceu de alongar antes de entrar


Tino olhou para mim, e eu lhe dei um leve aceno. Embora Liz pudesse ter sido um pouco mais discreta, era verdade que caçadores não podiam se deixar incomodar por algo como ver um companheiro de equipe de roupa de baixo. Nos meus primeiros dias como caçador, isso me afetava, mas em algum momento acabei me acostumando.

Tino hesitou por um momento, mas então levou a mão até o botão na gola.

— Não, Mestra, eu não consigo fazer iiiiiisso!

E entĂŁo ela mergulhou no lago ainda vestida. Ela podia pelo menos ter tirado o cinto e os sapatos.

— Isso Ă© bem a cara dela. — Sitri riu para si mesma. — O equipamento de Ladino prioriza mobilidade e nĂŁo esconde muito o corpo, mas ela ainda tem vergonha por causa disso.

Eu nunca tinha pensado nisso até então, mas o equipamento de Ladino era o oposto das vestes volumosas usadas pelos Alquimistas. Provavelmente servia para ajudå-los a evitar ataques por um triz. Como Tino conseguia andar por aí assim sempre seria um mistério. Eu só esperava que ela nunca perdesse o senso de modéstia.

Como sempre, Sitri montou o acampamento com rapidez. Ela deixou os cavalos descansarem e os alimentou, depois acendeu uma fogueira. Com isso feito, veio até a margem e usou um graveto para desenhar uma pequena figura na areia, perto de mim.

— Sobre a nossa fogueira, Krai, e se fizermos nesse formato? E vamos posicioná-la de frente para a montanha.

— O que Ă© isso?

Era um formato estranho e, alĂ©m disso, estava dividido em trĂȘs segmentos.

Um ponto, outro ponto e uma linha curva?

— É um rosto sorridente! — Sitri disse com um sorriso. — Vai dar um pouco de trabalho, mas o que acha?

Fazer uma fogueira jå era um trabalho consideråvel, isso triplicaria o esforço necessårio.

Muito brincalhona da sua parte, Sitri. Quem sequer veria esse rosto? Bem, não tenho nenhum motivo para recusar


— É, por que não? Parece divertido.

— Acho que atingiremos o apogeu esta noite, então quero preparar um banquete à altura. Vamos garantir que toda a cordilheira nos ouça.

Apogeu? Que apogeu? NĂŁo acho que vamos atravessar picos mais altos do que os de ontem Ă  noite.

Eu estava prestes a perguntar a Sitri o que ela queria dizer, mas ouvi Liz gritando do lago.

— Krai Baby! Olha, um crocodilo! Peguei um crocodilo com uma cara deliciosa! Olha, incrĂ­vel, nĂŁo Ă©?

Um crocodilo? E vocĂȘ pretende comer isso? Deve ter algo mais gostoso por aqui!

Virei e vi Liz montada em um crocodilo de cinco metros que se debatia violentamente. Ela estava completamente selvagem. Tino tentou impedi-la. Black, White e Gray pareciam perplexos. Dominado pelo medo e pela confusĂŁo, soltei algo completamente inĂștil.

— Então tem crocodilos nesse lago.

A natureza Ă© cheia de perigos. Ainda bem que nĂŁo pulei cegamente na ĂĄgua. Um crocodilo era demais para mim.

As fogueiras não apenas crepitavam, mas rugiam e lançavam labaredas ao vento. Era tarde da noite, e a lua brilhava no céu, mas a margem do lago estava iluminada como se fosse dia. Simples fogueiras foram feitas com a madeira coletada por Black, White e Gray, que Sitri aprimorou com uma poção. Mesmo com o vento forte, as chamas continuavam ardendo intensamente.

Como Sitri sugeriu, organizamos as fogueiras para formar um rosto sorridente. O desenho não era perceptível de perto, mas alguém nas montanhas o veria imediatamente.

A essa hora, monstros noturnos normalmente estariam ativos, mas nenhum apareceu. Provavelmente porque Liz jå havia matado tantos para o nosso jantar. Mesmo nesse ecossistema, nossa criança selvagem estava no topo da cadeia alimentar.

Não muito longe das fogueiras, as presas de Liz estavam empilhadas. As poças de sangue escorrido eram um tanto perturbadoras. Sitri habilmente esculpia as partes comestíveis, mas claramente havia carne demais para um grupo do nosso tamanho.

Sem dĂșvida, essa era a fogueira mais bizarra que eu jĂĄ tinha vivenciado. As chamas pareciam queimar para sempre e eram exageradas para um grupo tĂŁo pequeno. O sangue escorria dos espetos de carne assando sobre o fogo, e um caldeirĂŁo borbulhava audivelmente.

O que mais contribuĂ­a para a atmosfera estranha era Black, White e Gray espalhados no chĂŁo e a expressĂŁo ansiosa de Tino. Um observador de fora poderia pensar que estĂĄvamos conduzindo algum ritual estranho ou um sabĂĄ suspeito. Claro, isso era apenas uma fogueira divertida, mas atĂ© eu estava tendo dificuldade em aproveitar com aqueles trĂȘs desmaiados e Tino tĂŁo incerta.

Somente Liz e Sitri estavam normais; Sitri cozinhava e Liz brincava no lago.

— O que acha, Krai? Eu diria que as coisas saĂ­ram perfeitamente! — Sitri disse, assentindo orgulhosamente para as fogueiras. — Aposto que alguĂ©m lĂĄ na montanha pode olhar para cĂĄ e ver um grande sorriso.

Eu nĂŁo tinha nada contra seu espĂ­rito brincalhĂŁo, mas havia outra coisa em minha mente. Estava preocupado com nossos trĂȘs ajudantes, que foram forçados a reunir uma quantidade absurda de lenha e agora pareciam Ă  beira da morte. Era totalmente razoĂĄvel que coletar madeira depois de uma expedição pela montanha fosse exaustivo para eles. Era verdade que um dos nossos membros imediatamente começou a caçar animais grandes, mas ela nĂŁo podia ser considerada dentro do normal.

Enquanto eu estava distraĂ­do observando Tino e Liz brincarem no lago, Sitri estava distribuindo ordens. Eu teria interrompido se tivesse percebido a tempo, mas quando me dei conta, jĂĄ era tarde.

Era bom encontrar alegria em pequenas coisas. Em outras circunstùncias, eu mesmo poderia organizar fogueiras em forma de sorriso. Mas também acreditava em evitar ao måximo causar problemas para os outros. Mesmo que Sitri tivesse o direito de dar ordens como empregadora, achei horrível que ela estivesse forçando Black, White e Gray daquele jeito apenas por diversão.

Enquanto assava um espeto de carne de crocodilo para mim, Sitri sorriu — uma expressão de alegria genuína, sem nenhuma malícia. Um pouco melancólico, soltei um pequeno suspiro.

— Sitri, vocĂȘ nĂŁo acha que estĂĄ forçando aqueles trĂȘs um pouco demais? — sussurrei para ela.

— HĂŁ? VocĂȘ acha? — ela perguntou, arregalando os olhos.

Desde o início, eu sabia que o tratamento dela com Black, White e Gray não era por maldade. Ela provavelmente só não considerava o cansaço deles como algo digno de nota. Nossas aventuras sempre nos colocavam em perigo mortal, então, para ela, recolher lenha depois de uma batalha provavelmente não parecia grande coisa.

A obsessĂŁo por caça ao tesouro havia afetado sua forma de pensar. Era nossa primeira viagem juntos em um tempo, e eu estava determinado a usar esse curto perĂ­odo para trazĂȘ-la de volta ao senso comum.

— Mas eles são, bem, criminosos? — ela disse, com um olhar levemente confuso.

Isso foi inesperado. Criminosos? Agora que ela mencionou, percebi que eles claramente nĂŁo pareciam civis. Mas havia muitos caçadores que tinham cara de bandidos, entĂŁo nunca imaginei que aqueles trĂȘs realmente fossem criminosos.

Mas por que diabos ela estava contratando criminosos? O império os havia recrutado como parte de um programa de reintegração social? Eu não sabia muito sobre as conexÔes pessoais de Sitri, mas talvez isso fosse algum tipo de trabalho penal? Ainda assim, achei que ela estava exagerando. Mas se fosse trabalho penal de fato, eu não poderia me intrometer tão facilmente. Franzi a testa, mas Sitri apenas sorriu tranquilizadora.

— Mas se vocĂȘ quiser, eu paro de forçå-los tanto.

— HĂŁ? Isso nĂŁo Ă© uma forma de punição para eles?

— É, claro. De certa forma. Mas, graças a vocĂȘ, eu jĂĄ determinei as capacidades deles.

Com um sorriso, ela inclinou a cabeça e comentou algo sobre nĂŁo valer a pena trocar peças ou se apegar demais a certas coisas. Eu nĂŁo entendi muito bem, mas imaginei que as contribuiçÔes deles nos Ășltimos dias jĂĄ fossem punição suficiente. Era possĂ­vel que eles nem tivessem feito nada tĂŁo grave, e, atĂ© agora, tinham cumprido tudo o que Sitri ordenou.

— VocĂȘ nĂŁo acha que jĂĄ Ă© hora de soltĂĄ-los? — sugeri.

Eu havia hesitado ao saber que eram criminosos, mas meu sentimento inicial nĂŁo havia mudado. JĂĄ fui alvo de criminosos inĂșmeras vezes, e minha opiniĂŁo era que todos deveriam apodrecer na prisĂŁo. Mas o esforço de Black, White e Gray despertou um pouco de simpatia em mim. Se fossem assassinos, seria diferente, mas se fossem apenas criminosos de menor grau, sentia que jĂĄ tinham pagado o preço. Claro, nĂŁo cabia a mim decidir se deveriam ser perdoados ou nĂŁo.

Após um momento de contemplação, Sitri tirou uma chave do bolso e a pressionou em minha mão.

— Eles nĂŁo fizeram nada sĂ©rio — disse ela. — VocĂȘ pode libertĂĄ-los. Tenho certeza de que ficarĂŁo muito gratos.

Sitri segurou minha mĂŁo por alguns segundos antes de soltĂĄ-la suavemente. Uma pequena chave dourada ficou em minha palma.

— Essa Ă© a chave dos colares deles. RemovĂȘ-los os libertarĂĄ.

Aquele sorriso caloroso dela, que eu jĂĄ tinha visto tantas vezes, nĂŁo parecia carregar nenhuma mentira.

Uma chave Ă© tudo o que basta? Segurei-a entre os dedos. Mas eles sĂŁo criminosos? Hmm. Considerando o estado deles, eu gostaria de libertĂĄ-los o quanto antes. Mas eles sĂŁo criminosos. Bem, mesmo que eu os solte, podem nĂŁo conseguir chegar a uma cidade nesse estado. SoltĂĄ-los aqui seria crueldade. Ainda hĂĄ tempo para
 pensar melhor nisso.

— Vou esperar pelo momento certo — falei.

Sitri assentiu vĂĄrias vezes, os olhos brilhando. Talvez ela jĂĄ tivesse chegado Ă  mesma conclusĂŁo que eu? Ou talvez sĂł estivesse esperando que eu dissesse algo para tomar essa decisĂŁo? Era possĂ­vel. Sitri, Liz, praticamente todos que eu conhecia, davam importĂąncia demais Ă s palavras de um lĂ­der de clĂŁ figurativo.

— Pode deixar comigo — eu disse. — Eles parecem bem cansados, então vou deixá-los descansar. Tudo bem?

— Muito bem. Vou avisar Lizzy e aqueles trĂȘs que deixei o assunto sob sua responsabilidade — disse Sitri, com o rosto levemente corado e a respiração um pouco pesada.

Agora entĂŁo, o que vou dizer para Black, White e Gray?

***

Era enquanto o ogro errante reconsiderava sua abordagem para eliminar o primeiro grupo de humanos que notou a chegada de um novo grupo. O vento, os sons, cada parte das montanhas Galest era um aliado e informante do ogro errante. Mesmo Ă  distĂąncia, ele podia dizer que esse novo grupo era capaz. Especialmente o homem grande na frente. Ele parecia estar no mesmo nĂ­vel da garota que havia arremessado a rocha em chamas.

Claramente, um grupo entrando nessas montanhas remotas apĂłs o outro nĂŁo era coincidĂȘncia. O ogro errante sabia que precisava destruir os dois, mas nĂŁo poderia fazer isso sozinho. EntĂŁo, o que faria? A resposta era simples, nĂŁo exigia nem um momento de consideração. Ele colocaria os dois grupos um contra o outro. O ogro errante era inteligente. Inteligente o suficiente para discernir as fraquezas de suas presas. Inteligente o suficiente para compreender a fala humana.

Do pico de uma montanha, o ogro errante estreitou seus pequenos olhos enquanto observava a grande carruagem se movendo ao longo do caminho. Seu corpo se contorceu e mudou, sua pele verde lentamente alterando de cor. Sua carne gemeu enquanto se expandia e brotava pelos. Depois de alguns segundos, sua transformação estava completa.

Silenciosamente, um sorriso selvagem surgiu nos lĂĄbios do monstro. Com seus longos membros, ele desceu a montanha em uma velocidade incrĂ­vel.

***

Ser preso teria sido melhor do que isso. Eles estavam furiosos quando as algemas foram colocadas neles pela primeira vez. Quando lhes disseram que seriam cocheiros de carruagem, começaram a considerar maneiras de remover os colares e resistir caso surgisse a oportunidade. Agora, tudo o que sentiam era um profundo desespero e resignação.

Preto, Branco e Cinza tinham longas histórias de batalhas contra cavaleiros e caçadores. Eles nem se lembravam de quantas vidas haviam tirado e até riam ao acabar com aqueles que imploravam por suas vidas.

Mesmo assim, atĂ© eles consideravam os infames Grieving Souls insanos. Haviam perdido toda a vontade de resistir. Agora entendiam por que haviam sido capturados tĂŁo facilmente por aquelas irmĂŁs—era uma questĂŁo simples de quantos desafios elas jĂĄ haviam superado.

Os primeiros dias da “fĂ©rias” sendo tratados como escravos agora pareciam paradisĂ­acos em comparação com o inferno que foi a noite anterior. ApĂłs serem jogados em uma batalha de vida ou morte contra uma horda interminĂĄvel de monstros, haviam atingido seus limites fĂ­sicos e mentais.

Suas espadas estavam cobertas de sangue e gordura, as lñminas estavam cegas. Seus mantos haviam sido encharcados de sangue—uma boa lavagem provavelmente não seria o suficiente para remover as manchas e o cheiro.

Se eles se encontrassem naquela mesma situação de novo, um deles certamente morreria. Na verdade, os trĂȘs poderiam morrer. Tinham certeza de que, mesmo que morressem, aquela carruagem provavelmente continuaria se movendo como se nada tivesse acontecido. Algo nessa ideia os aterrorizava profundamente.

Eles sabiam que o Mil Truques era um caçador de NĂ­vel 8 que havia resolvido inĂșmeros incidentes. E se lembravam disso conforme suas “fĂ©rias” se transformavam em uma jornada brutal repleta de monstros e calamidades. Houve o elemental de raio, a horda de orcs e sua fortaleza. O nĂșmero absurdamente alto de monstros atacando no caminho pela montanha. E entĂŁo, havia aquele que atacava indiscriminadamente, o pior de todos—o ogro errante.

Diante da escolha, um encontro com qualquer um desses seria motivo para Preto, Branco e Cinza fugirem imediatamente. No entanto, para o Mil Truques e seus companheiros, aquilo era uma “fĂ©rias”.

Às vezes, evitavam o problema, outras vezes jogavam a encrenca para outros caçadores, e em algumas ocasiĂ”es simplesmente atravessavam a força. No caminho da montanha, riam enquanto rolavam morro abaixo, o mesmo caminho que Preto, Branco e Cinza haviam arriscado suas vidas para abrir. Durante a fuga do ogro errante, quase haviam sido entregues como sacrifĂ­cio.

Preto havia sentido um forte ar de normalidade no comportamento deles. A Sombra partida, a outra caçadora, estava acostumada com encontros de quase morte. Provavelmente jå havia passado por coisas ainda piores. Então, ela ria. Então, ela não parava.

A Sombra partida era registrada como NĂ­vel 6, mas isso obviamente nĂŁo refletia com precisĂŁo sua força e experiĂȘncia. Simplesmente nĂŁo parecia possĂ­vel. NĂŁo importava o quanto tentassem ver, sua aparĂȘncia nĂŁo traĂ­a sequer um indĂ­cio de sua força, experiĂȘncia, determinação ou atĂ© mesmo sua malĂ­cia.

Preto abraçou os joelhos e se entregou a pensamentos para evitar a realidade. NĂŁo havia saĂ­da daquele desespero. A Ășnica luz que os aguardava era a de sua prĂłpria morte. Mas aquela mulher, aquela mulher sorridente e impiedosa que os acorrentou, permitiria tal alĂ­vio?

— HĂŁ, vocĂȘs estĂŁo bem?

Preto foi instantaneamente arrancada de seu torpor e soltou um pequeno grito. Branco, que estava imĂłvel como um cadĂĄver, e Cinza, cuja consciĂȘncia estava em debate, pularam como se a prĂłpria morte tivesse batido Ă  porta.

A voz que os chamava era fraca, nada intimidadora. Mas essa voz era a mais aterrorizante de todas. Krai Andrey. O Mil Truques. O lĂ­der dos Grieving Souls e o homem que comandava a lealdade absoluta tanto da Sombra Partida quanto da IgnĂłbil. Ele era o Ășnico cuja força Preto e os outros nĂŁo haviam conseguido avaliar.

Como sempre, ele não exibia sequer um traço de poder. Sua constituição era frågil, nada parecida com a de um caçador, nem possuía a aura distinta de alguém que havia absorvido grandes quantidades de material de mana. Ele não usava armadura nem carregava armas, e sua postura estava completamente aberta. Se o vissem na rua, apenas o tomariam por um civil qualquer.

Mas era isso que o tornava assustador. Seus olhos negros profundos eram serenos. Diferente da Sombra Contida, ele nunca gritava, e diferente da Ignóbil, ele não sorria para qualquer coisa. Mas também não era uma anomalia evidente como Matadinho.

Na estrada, eles o observavam constantemente. Ele não havia feito nada de notåvel. Nunca demonstrou nenhuma consideração especial pelos seus companheiros ou enfrentou as hordas de monstros. Não fez nada excepcional e não demonstrou nenhuma mudança nas suas emoçÔes. Ele parecia comum.

No entanto, ele foi o responsĂĄvel por estabelecer o objetivo das fĂ©rias. A Sombra Contida e a IgnĂłbil eram, sem dĂșvida, suas amantes. Elas o olhavam com expressĂ”es tingidas de desejo, e suas açÔes eram feitas com o intuito de evitar sua ira.

Não havia como aquele homem ser são. Na primeira reunião, ele quase os liquidou sem motivo. Se ele tinha aquelas duas à sua disposição, então Black não queria nem imaginar o que aconteceria com aqueles que se opusessem a ele. O que fosse, provavelmente não terminaria råpido.

— O-Que foi, senhor? – sussurrou Gray, enquanto se prostrava diante de Mil Truques.

Esse era o homem que havia sido tão audacioso antes da partida. Black sabia como ele se sentia. As pessoas mais assustadoras eram aquelas que não explodiam de imediato. Ela seguiu o exemplo de Gray e baixou a cabeça. Mesmo que um pouco, ela tentava não reconhecer a situação, não olhar diretamente para ela.

— NĂŁo precisa se curvar nem nada, – disse Mil Truques. -Mas vou direto ao ponto. Decidi liberar todos vocĂȘs. Tenho permissĂŁo da Sitri.

Black levantou a cabeça surpresa. White e Gray também o olhavam com expressÔes vagas.

“Libertar”? Ele realmente disse “libertar”?

As sobrancelhas de Mil Truques se contraĂ­ram e ele estreitou os olhos. Uma pequena chave estava em sua mĂŁo, era a chave dos seus colares. Ele estava cheio de aberturas. Da sua posição, Gray poderia pegar a chave num piscar de olhos, mas ele nĂŁo moveu um mĂșsculo.

— Claro, nĂŁo vou deixar vocĂȘs irem jĂĄ,- continuou Mil Truques. – Aqui fora Ă© perigoso e ouvi dizer que vocĂȘs sĂŁo criminosos, aparentemente. NĂŁo estariam realmente pagando sua dĂ­vida com a sociedade se eu deixasse vocĂȘs irem tĂŁo facilmente, certo?

Black quase perguntou de onde ele tirava tais palavras, mas se conteve. Eles eram de fato criminosos, e seria uma mĂĄ notĂ­cia para eles se todos os seus crimes fossem expostos. Mas Sitri e Liz jĂĄ tinham isso sob controle.

Mil Truques sorriu de leve. Era um sorriso completamente natural, genuíno. Ele ergueu a chave e a balançou na frente deles.

— Mas eu tambĂ©m sei que o que vocĂȘs fizeram nĂŁo foi nada sĂ©rio. VocĂȘs fizeram um bom trabalho seguindo as ordens da Sitri nesses Ășltimos dias e acho que isso Ă© suficiente para pagar sua dĂ­vida com a sociedade. Se se comportarem, vou tirar os colares e liberar todos vocĂȘs assim que chegarmos a um lugar seguro.

Tomadas ao pĂ© da letra, aquelas palavras pareciam incrivelmente bondosas. Mas Black viu a bochecha de White tremer de medo. Eles eram criminosos. Tinham sobrevivido quebrando leis de todos os tipos e atĂ© matando. Sabiam que suas ofensas eram graves. Mas aquele homem acabara de desconsiderar esses feitos como “nada sĂ©rio.”

NĂŁo podiam ter certeza de como Mil Truques interpretava o silĂȘncio deles, mas ele rapidamente fez um gesto com as mĂŁos.

— Ah, nĂŁo se preocupem. O caminho daqui em diante Ă© bem seguro e eu nĂŁo acho que vamos lutar contra nada. Ainda preciso que vocĂȘs conduzam a carruagem, mas podem ir devagar, nĂŁo temos pressa. Afinal, isso sĂŁo fĂ©rias. Entenderam?

FĂ©rias. Aquela palavra desprezĂ­vel fez Black tremer. Era uma palavra doce. Uma palavra claramente feita para alimentar as chamas da esperança. Mas ela e seus companheiros nunca tiveram voz na questĂŁo. Tudo o que podiam fazer era acenar como soldados leais. White e Gray acenaram em silĂȘncio. Ela seguiu o exemplo. Mil Truques viu as expressĂ”es deles e pareceu aliviado. E como se estivesse esperando aquele momento especĂ­fico, uma luz brilhou da direção das montanhas.

***

— Aqui estĂĄ. Faz tanto tempo desde que fiz a sopa. Eu tinha um nĂșmero limitado de especiarias e poçÔes Ă  minha disposição, entĂŁo nĂŁo acho que esteja no ponto.

— Ooh, obrigado. – Dei uma mordida. — Hmm, estĂĄ realmente boa.

— Graças a Deus. A Lizzy só me trouxe carne estranha. Misturar os sabores foi bem problemático.

O que teria causado aquele flash de luz nas montanhas? Eu me perguntei enquanto saboreava o delicioso guisado de Sitri. Ao lado da fogueira, Liz estava sentada com as pernas dobradas, comendo alguma carne nĂŁo identificada diretamente do osso. Ao lado dela estava Tino, contrastando fortemente com sua mentora enquanto comia com maneiras impecĂĄveis.

A luz havia sumido após apenas um segundo. Nada veio depois dela, o que me fez pensar que talvez estivesse dando muita atenção a isso, mas ainda assim me incomodava. Poderia ter sido um fenÎmeno natural? As irmãs Smart não pareciam preocupadas com isso.

Sitri era inteligente, ela seria capaz de dar um palpite educado. Eu me sentei ao lado dela, o que pareceu pegå-la de surpresa. Olhando estranhamente satisfeita, ela se moveu para que nossos ombros se roçassem. Um doce e suave aroma emanava de seus cabelos bem cuidados.

— Sitri, sobre aquela luz…

— Hm? Ah, sim, a luz de sempre.

Hm?! A luz de sempre. A luz de sempre, Ă©?

O ar livre Ă© realmente perigoso. Era para estarmos de fĂ©rias, mas nossas paradas em Elan, Gula e nas montanhas Galest sempre nos colocaram por um fio do perigo. Como os mercadores viajantes e os que percorrem o caminho conseguem se safar? Se eu soubesse os segredos deles…

Elas estavam bem quietas. Se aquela luz Ă© normal, realmente precisamos correr?

— Vamos correr?- Perguntei.

— Uuummm. Eu diria que ainda Ă© um pouco cedo para nos movermos. E ainda estamos comendo.

Ao contrĂĄrio de mim, Sitri nĂŁo estava com medo. Ela estava acostumada a viajar.

Havia vårios pedaços de carne assados sobre o fogo e também havia sopa e peixe. Era carne demais para colocarmos na carruagem. Meu plano era passar a noite no lago. Se levantåssemos e partíssemos, significaria mais uma caminhada na escuridão. E eu acabara de dizer a Black, White e Gray que não os faria trabalhar duro demais.

Enquanto eu me perguntava o que fazer, fiz uma careta e comi meu ensopado. EntĂŁo, Sitri teve uma ideia. Ela parecia realmente se divertir, considerando as circunstĂąncias.

— Pelo posicionamento da luz, acho que a chegada deles nĂŁo deve demorar muito. Ah, sei! É sĂł um pouco, mas eu tenho um pouco de bebida. Devo pegar para vocĂȘ? — ela perguntou.

Entendi. EntĂŁo nĂŁo vai demorar muito. Espera, por que ela estĂĄ tĂŁo certa de que estĂĄ vindo para cĂĄ? Pode ser sĂł um fenĂŽmeno natural. E o que era aquela luz, afinal?

Engoli meu orgulho e perguntei para a onisciente Sitri.

— A propĂłsito, Sitri, o que vocĂȘ acha que estĂĄ lĂĄ fora? —

Ela tirou uma garrafa bem bonita e um copo, depois sorriu enquanto servia uma bebida.

— É o Arnold e companhia, — ela disse.

Sorri. Me vi aceitando a bebida que ela estava me oferecendo. Deve ter sido algo forte, porque senti um calor queimando no meu paladar. Sitri sorriu e olhou para o céu noturno, com as bochechas coradas.

O quĂȘ? QuĂȘĂȘĂȘĂȘ? Por que o Arnold estĂĄ aqui? Eu nĂŁo entendo.

Eu não entendia por que Arnold estava nas montanhas. Não entendia como Sitri deduziu isso só de um flash de luz. Mesmo que eu de algum modo entendesse uma dessas coisas, ainda não conseguiria entender como Sitri podia estar ali, rindo disso. Sorri de volta para ela, minha cabeça cheia de interrogaçÔes.

— Imagino que aquela luz era da espada feita de um dragĂŁo trovĂŁo, — ela disse. — Os materiais recuperados de dragĂ”es realmente sĂŁo de primeira classe. Segundo uma teoria, mesmo depois que dragĂ”es e seres mitolĂłgicos similares morrem, sua carne continua sem perceber e mantĂ©m seu poder. NĂŁo acha isso incrivelmente romĂąntico? —

A voz de Sitri estava corada e enlevada, mas não posso dizer que compartilhei do mesmo sentimento. Acho que temos sensibilidades diferentes. Tudo o que eu sabia sobre dragÔes trovão é que eles eram imensamente poderosos, até mesmo para o padrão dos dragÔes, e que eram deliciosos quando Sitri os assava com teriyaki.

Espera um pouco. Ela acabou de dizer que Arnold estĂĄ vindo para cĂĄ? E com uma arma super poderosa nas mĂŁos? Isso pode ficar ainda pior?

Liz olhou para cima, da carne que estava comendo, e gritou para nós, balançando um espeto de crocodilo.

— Siddy! Sai de perto do Krai Baby, vocĂȘ estĂĄ muito perto! Sai, sai. Eu tenho olhos nas costas, sabia! —

— Me desculpe, Krai. Vamos ter que continuar em outra hora. —

— Ah?! Como assim, continuar?! VocĂȘ nasceu sem senso comum? VocĂȘ tambĂ©m, Krai Baby! Por que estĂĄ ficando tĂŁo Ă­ntimo dela, nĂŁo tĂ­nhamos acabado de prometer que ficarĂ­amos juntos para sempre?! —

O que ela quis dizer com “ficar Ă­ntimo”? Como posso fazer isso se a aproximação do Arnold me deixa tremendo?

Sem perceber meu estado de pĂąnico, Liz empurrou Sitri para o lado. Como ela tinha acabado de sair do lago, estava um pouco gelada, o que me fez tremer ainda mais.

— Liz, suas roupas estão frias. Vai secar ou vai ficar doente, — eu disse.

— Hã? Como podem estar frias se eu as tirei antes de entrar no lago? Estão atrapalhando? Ah, entendi, devo tirá-las então? —

Liz não hesitou em começar, mas Tino reuniu coragem e saltou em cima dela de surpresa.

— Lizzy, para com isso, Ă© imprĂłprio! — ela gritou.

Ela foi imediatamente jogada para o lado, mas tĂŁo rĂĄpido quanto, se levantou e derrubou Liz. Era uma pena que precisassem brigar assim, mesmo depois de um banho no lago. Eu estava assistindo aquela briga de irmĂŁos, sem saber o que fazer.

EntĂŁo algo surgiu das ĂĄrvores.

Tinha cabelo loiro, um corpo musculoso que devia medir quase dois metros, e os olhos brilhavam com um tom amarelado. Seus braços e pernas estavam bem desenvolvidos, mas estranhamente longos. O que me surpreendeu foi a falta de roupas. Um simples pedaço de pano amarrado na cintura era a Ășnica coisa que demonstrava algum bom senso. Sitri e Liz olharam com os olhos arregalados. Tino estava paralisado.

Instintivamente, sorri e fiz uma pergunta. Sorrisos eram uma das minhas técnicas de defesa.

— Quem Ă© vocĂȘ? —

O misterioso loiro musculoso estreitou os olhos e pareceu estranhamente confiante.

— Arnold. Faz tempo. —

A-A-A-Arnold?! Saltei do meu lugar perto do fogo. Ele realmente mudou. Mas acho que aquele cabelo longo realmente parece o dele. Mesmo a cor dos olhos. Mas ainda assim ele estĂĄ diferente o suficiente para que eu nunca teria adivinhado que era ele. Algo estĂĄ estranho.

Olhei para ele e entĂŁo me bateu.

— VocĂȘ emagreceu? —

— Krai Baby, Ă© isso mesmo que vocĂȘ deveria perguntar? — Liz interrompeu.

— O que aconteceu com a sua espada? —

— Joguei fora. Era uma porcaria. —

Parece que ele jogou fora uma espada ultrapoderosa feita com partes de um dragĂŁo trovĂŁo.

— Primeiro, precisamos te arrumar umas roupas, — Sitri interveio.

— Siddy?! — Tino gritou.

O que fazer? Eu estava de olho, mas nĂŁo esperava que ele aparecesse sem roupa e desarmado.

O que aconteceu com o Arnold? Olhei com mais atenção, mas não conseguia aceitar que fosse ele. Me ocorreu que talvez eu estivesse cansado.

Calma, Krai Andrey. Se ele não fosse o Arnold, não estaria se chamando de Arnold. Se fosse alguém se fazendo passar por ele, provavelmente faria um trabalho melhor. Isso significa que deve ser o Arnold.

— Para começar, — eu disse. — Por que nĂŁo come um pouco de ensopado? Tem carne tambĂ©m. —

— Krai Baby, eu adoro essa parte de vocĂȘ! —

— Devo anotar isso. —

— Mestre Ă© deus. Mestre Ă© deus. —

Matadinho, um comedor solitĂĄrio, apareceu do nada.

— Kill, kill. —

— Miau? —

Arnold correu para frente, chutou a carne que estava assando com suas pernas longas e derrubou o caldeirĂŁo de ensopado. Apontou para mim e sorriu como uma besta selvagem.

— Essa noite, vocĂȘ morre. —

Ah, nĂŁo tem dĂșvida, esse Ă© o Arnold.

— Morrer! Morrer! Todos vocĂȘs! —

— Arnold, calma! Se eu fiz algo errado, vou pedir desculpas! —

Ele balançava os braços com uma fĂșria selvagem que nĂŁo se vĂȘ com frequĂȘncia. Quebrou nossas garrafas e derrubou nossos pratos no chĂŁo. Eu tentava desesperadamente pedir desculpas, mas ele nĂŁo ouvia. Ele enfiou os braços em uma fogueira que tĂ­nhamos trabalhado tanto para acender e lançou a madeira em chamas pelo ar.

Ele realmente Ă© humano?

— Lute. Lute comigo, — Arnold disse.

— Calma, Arnold! Nada do que eu fiz para vocĂȘ foi de propĂłsito! Por que estĂĄ tĂŁo bravo? A culpa Ă© minha. A culpa Ă© toda minha. Vou pedir desculpas, entĂŁo me perdoe! —

— Cala a boca. Agora morra! —

Arnold balançava os braços com uma velocidade incrĂ­vel, mas nĂŁo me acertou. Ele parecia estar evitando me atingir deliberadamente. Nosso equipamento de camping estava sendo destruĂ­do, mas eu podia ver que a consciĂȘncia dele estava o segurando. Mesmo assim, sua força era impressionante, mas de um jeito diferente de como eu jĂĄ tinha visto antes. Achei que isso fosse o que acontece quando um NĂ­vel 7 da Terra da NĂ©voa fica sĂ©rio.

Enquanto ele se debatĂ­a com movimentos quase desumanos, eu tentava desesperadamente acalmĂĄ-lo.

— Arnold, isso não vai resolver nada! Se algo está te incomodando, eu vou te ouvir! Tudo bem? Não somos ambos homens da capital imperial? Devo rastejar? Eu posso rastejar. Vou rastejar, então pare com essa convulsão assustadora! —

Eu sou um pacifista. Quero resolver tudo sem lutar e nĂŁo hesitarei em colocar minha testa no chĂŁo se for necessĂĄrio.

Coloquei os braços para frente, dobrei os joelhos e rapidamente me prostei. Não sabia o que estava me desculpando, mas não precisava de uma razão. Coloquei toda a sinceridade que pude.

— Arnold, eu sinto muito por tudo! Por favor, me perdoe! —

— Q-Q-Q-Que está fazendo?! —

Let This Grieving Soul Retire! Volume 4 15 Online em PortuguĂȘs PT-BR

 â€” Ouvi uma voz familiar. Uma voz irritada, como uma panela prestes a transbordar. Olhei para cima e vi—

— Ar…nold?

Era Arnold, como eu me lembrava dele, e seus amigos. Seu rosto estava tenso e vermelho de raiva, mas ele sempre tinha essa cara, entĂŁo eu tinha certeza de que era ele. Em sua mĂŁo direita, havia uma espada tĂŁo longa quanto ele e brilhando em um tom amarelo. Era aquela espada super poderosa que ele tinha feito com partes do dragĂŁo do trovĂŁo.

Exceto que eu não estava com medo. Eu estava surpreso. Rapidamente me reposicionei para continuar me prostrando para o outro Arnold. O Arnold nu ficou ali, imponente, com os braços cruzados.

O que diabos estĂĄ acontecendo?

O Arnold recém-aparecido tinha ares de um demÎnio. Vapor subia de seu corpo temperado enquanto ele tremia de raiva. Seus companheiros atrås dele pareciam igualmente inflamados, exceto por Chloe, que estava um pouco afastada, pålida e apenas observando.

— J-QuĂŁo idi…i…

— Idi…?

— …iota vocĂȘ acha que eu sou?! Pereça!

Arnold rugiu com toda a força e avançou contra mim. Seu Ăłdio puro parecia forte o suficiente para me apagar da existĂȘncia. Uma luz ofuscante me envolveu e ouvi o estalo da eletricidade enquanto uma espada dourada descia em direção ao meu crĂąnio.

O golpe foi desviado por um Anel de Segurança. Confuso, pedi ajuda ao Arnold molenga.

— Me salva, Arnold!

— Tá me tirando de novo?!

Aquele grito trovejante me informou, em um nĂ­vel instintivo, que o Arnold com a espada era o verdadeiro. Era uma questĂŁo de quantidade de violĂȘncia no comportamento.

Matadinho avançou na minha direção, mas alguns caçadores conhecidos bloquearam ele e Sitri. O braço direito de Arnold, A (acho que esse era o nome dele), ficou diante do grandalhão grisalho e riu. Os outros caçadores rapidamente assumiram posição.

— Segura aí, se quiser passar, vai ter que lidar com a gente primeiro — disse Eigh.

Por que as pessoas sempre atacam a gente tĂŁo rĂĄpido?

— Calma, Arnold de verdade. A gente pode resolver isso na conversa! — implorei.

— QUE NADA!

Ele queria sangue. Um oceano inteiro dele. Chloe nos observava nervosamente.

Arnold chutou meu estĂŽmago. Um Anel de Segurança me impediu de sofrer dano, mas qualquer golpe bem-sucedido de um nĂ­vel 7 seria fatal para mim. A experiĂȘncia jĂĄ tinha me ensinado que eu nĂŁo conseguia resistir a ataques de ninguĂ©m acima do nĂ­vel 3. Em um combate direto, eu nĂŁo conseguia esquivar, nĂŁo importava para onde eu tentasse correr, e contra-atacar nem passava pela minha cabeça.

Minha Ășnica opção era aguentar os golpes. Ao invĂ©s de tentar desviar, deixei que meus AnĂ©is de Segurança se ativassem. A lĂąmina e sua eletricidade eram desviadas por uma barreira fina ao redor do meu corpo. Pelo que parecia, o estilo de luta de Arnold priorizava menos golpes, mas cada um absurdamente forte. Mesmo assim, ele ainda desferiu mĂșltiplos ataques em questĂŁo de segundos. Mas estava tudo bem. Eu jĂĄ estava acostumado com a força dos caçadores.

Não importava quantas vezes ele atacasse, meu conhecimento sobre os Anéis de Segurança me mantinha ileso. Todos ficaram congelados, apenas observando seu furioso bombardeio de ataques. Mas ele não podia manter aquele ritmo para sempre.

ApĂłs um Ășltimo golpe furioso, Arnold recuou. Seus olhos afiados refletiam nĂŁo apenas raiva, mas tambĂ©m cautela. Finalmente, vi uma chance de negociar. Arnold era forte, mas eu tinha Liz e Sitri comigo, sem falar de Drink e Matadinho, entĂŁo eu podia me dar ao luxo de ser mais ousado.

— Se sentiu melhor agora? — perguntei.

— Como vocĂȘ ainda estĂĄ de pĂ©? Eu nĂŁo consigo entender — disse Arnold, ofegante.

Por que eu ainda estava de pé? Um sorriso surgiu em meus låbios.

A velocidade e a força de Arnold eram extraordinårias. Alguns caçadores tinham fama, mas não força para sustentå-la (como eu), mas esse não era o caso dele. Ainda assim, não era o suficiente. Ele não entendia, mas Arnold não estava lutando contra mim. Ele estava lutando contra a história dos Anéis de Segurança! Contra a história de uma Relíquia considerada uma das melhores defesas que existem!

Os Anéis de Segurança eram absolutos, inquebråveis. Pelo que eu sabia, nunca haviam sido rompidos. Os golpes mais fortes de Luke cortavam metal como se fosse queijo, mas nem isso era suficiente.

Eu era pequeno e insignificante, mas estava usando dezessete Anéis de Segurança absurdamente caros. Bom, dez tinham acabado de ser usados, me deixando com sete. Isso significava que eu só poderia aguentar mais sete golpes, mas também queria dizer que eu ainda estava seguro contra qualquer outro golpe dentro desse limite.

Fui atacado vårias vezes por vilÔes assustadores e sempre saí vivo, segurando o enjoo. Não era algo para se gabar, mas eu ainda sentia certo orgulho por ter sobrevivido ao inferno e estar aqui para contar a história. Então acabei me gabando sem querer.

— Arnold, calma. Isso Ă© uma questĂŁo de experiĂȘncia. JĂĄ fui atacado tantas vezes, e ninguĂ©m nunca conseguiu me arranhar — falei.

Arnold me olhou com olhos que poderiam matar. Foi assustador pra caramba. Mas se eu aguentasse só um pouco mais, alguém viria me salvar.

Liz, que estava observando em silĂȘncio atĂ© entĂŁo, limpou a poeira das mĂŁos e sorriu tĂŁo ferozmente quanto Arnold. Se isso nĂŁo fosse o bastante, Tino estava por perto. Seria um dois contra um.

— VocĂȘ entende o quanto estĂĄ atrĂĄs de nĂłs? — disse Liz. — Por que vocĂȘ acha que eu tive o trabalho de desenhar uma seta pra te mostrar o caminho? Porque eu sabia que vocĂȘ nĂŁo conseguiria lidar com o Krai Baby!

— Foi vocĂȘ quem desenhou aquela maldita seta?! — Arnold retrucou.

— VocĂȘ nem teria nos encontrado sem ela! Eu sou tĂŁo legal!

Espera, que seta?

Liz cerrou o punho. Em algum momento, jĂĄ tinha colocado suas manoplas.

— Mas isso termina aqui — continuou. — Mesmo que seus golpes nĂŁo estejam passando, ainda me irrita ver vocĂȘ atacando o Krai Baby. Mesmo que eu devesse estar de folga, acho que nĂŁo posso ignorar isso agora.

O sangue subiu Ă  cabeça dela. Suas bochechas estavam rĂ­gidas e seus olhos tremiam. AlĂ©m disso, minha proibição da violĂȘncia nĂŁo era uma ordem para “ficar de folga”.

Assim que Liz começou a se aproximar de Arnold, algo a lançou para trås. Era Arnold, ou melhor, o falso Arnold. Mas a criatura que eu havia assumido ser Arnold agora tinha pele verde e nenhum cabelo. O que estava ali era o ogro errante que nos atormentou por toda a travessia pelas montanhas.

O ogro praticamente desapareceu ao investir contra Liz. Ele balançou seus braços como chicotes, que Liz bloqueou antes de revidar com um chute em alta velocidade. O ogro contorceu seu corpo e evitou o ataque.

Eu nĂŁo podia acreditar. O ogro podia mudar sua aparĂȘncia e nĂłs tĂ­nhamos sido enganados. Monstros capazes de enganar humanos nĂŁo eram raros, mas eu nunca tinha visto um tĂŁo inteligente e capaz de transformaçÔes tĂŁo rĂĄpidas.

— Arnold, guarde sua espada! — falei, tentando soar o mais calmo possível. — Parece que esse monstro nos enganou esse tempo todo.

Recebi um chute como resposta. Um Anel de Segurança bloqueou o golpe.

— Acalme-se! Não há sentido em continuar lutando!

— Não brinque comigo! Quem diabos cairia numa dessas?!

Eu cairia numa dessas! Eu me prostro, entĂŁo apenas me perdoe, ok?! DĂĄ para me culpar por ter sido enganado por esse impostor? E nĂŁo Ă© como se eu tivesse feito algo ruim para o falso Arnold.

Arnold soltou um rugido. Como se respondesse ao seu grito, mais relùmpagos emanaram de sua espada com toda a calamidade de uma tempestade. Ninguém viria nos ajudar. Eu estava bem, tinha meus Anéis de Segurança, mas Tino ficou paralisada com a quantidade de energia que Arnold canalizava.

Ela estava perto o suficiente para ser atingida por uma onda de choque. Corri atĂ© ela. Correr nessas situaçÔes era algo a que eu jĂĄ estava acostumado. No momento em que agarrei Tino, um dos meus anĂ©is ativou. O relĂąmpago de Arnold nos atingiu com um estrondo ensurdecedor, algo a que vocĂȘ nunca se acostuma, nĂŁo importa quantas vezes aconteça.

Tudo aconteceu em um instante. O trovão se dissipou. Eu estava ileso, e Tino também. Arnold nos olhava com olhos arregalados.

Não quero me gabar, mas eu tinha certeza de que ninguém era tão habilidoso com Anéis de Segurança quanto eu. Mesmo em uma era repleta de caçadores poderosos, duvido que alguém usasse essas Relíquias tanto quanto eu.

Os AnĂ©is de Segurança eram amplamente conhecidos como RelĂ­quias que ativavam barreiras inquebrĂĄveis para proteger contra ataques fatais, mas isso nĂŁo era totalmente preciso. Era um detalhe pouco conhecido, mas os AnĂ©is de Segurança possuĂ­am mĂșltiplas funçÔes. Uma delas era a “Ativação VoluntĂĄria”, que permitia ativar um anel por conta prĂłpria, ao invĂ©s de deixĂĄ-lo ser ativado automaticamente. Uma barreira ativada voluntariamente podia ser ajustada levemente, algo impossĂ­vel com uma barreira automĂĄtica.

Em resumo, o uso eficaz de uma dessas barreiras permitia proteger a si mesmo e a alguém próximo. Eu estava um pouco orgulhoso de mim mesmo por proteger outra pessoa pela primeira vez em muito tempo.

— Satisfeito agora? Vamos parar, não há sentido em continuarmos brigando assim — sugeri, agora que havia recuperado um pouco da compostura.

A luz na lùmina de Arnold diminuiu, mas sua vontade de lutar permanecia inalterada. Imaginei que ele só pudesse canalizar tanta energia em råpida sucessão através daquela arma. Mas se ele queimasse todos os meus Anéis de Segurança, não precisaria de um golpe forte para me matar. Eu precisava ganhar tempo, apenas alguns minutos bastariam.

— Saque sua lñmina, Mil Truques! — Arnold exigiu.

— Eu não tenho nada do tipo comigo.

Eu sabia que nĂŁo era isso que ele queria dizer, mas ainda assim escolhi fugir da questĂŁo. NĂŁo existia caçador pacifista, essa era uma profissĂŁo que falava com os punhos. Se vocĂȘ nĂŁo demonstrasse sua força, nĂŁo seria levado a sĂ©rio. Se eu realmente tivesse poderes dignos de um NĂ­vel 8 e mostrasse isso para Arnold, ele teria se acalmado muito antes. Esse era um dos motivos pelos quais eu queria deixar de ser caçador.

— Com toda essa força, ainda assim vocĂȘ nĂŁo ataca? Por que ir tĂŁo longe?!

NĂŁo era que eu nĂŁo atacava, eu nĂŁo podia atacar.

— Porque eu acredito — disse com um sorriso.

Soltei essa frase ao acaso porque soava bem, mas Arnold ainda assim avançou contra mim. Ele realmente não sabia ler o clima.

Eu sabia que correr seria inĂștil, entĂŁo soltei Tino e avancei. A experiĂȘncia me ensinou que, se eu recuasse, apenas seria atingido. No entanto, se eu avançasse, talvez ele ficasse em alerta e poupasse um ataque. Essa era a minha estratĂ©gia de sobrevivĂȘncia.

Notei um leve traço de cautela nos olhos de Arnold, mas ele não parou. Confiar em sua própria força quando necessårio era o que fazia dele um caçador de primeira linha. Ele se preparou para estocar, mas antes que pudesse, foi forçado a tropeçar para frente.

— Nem pensar! — gritou uma voz trĂȘmula.

Quando Arnold tropeçou, sua lùmina bateu em mim. Outro Anel de Segurança foi gasto.

Arnold estalou a lĂ­ngua e rapidamente recuou para se recompor.

Tino me protegeu. Seus ombros expostos. Suas fitas desgastadas e maltratadas. Seu corpo tremia, e eu não sabia se era de nervosismo ou excitação. Mas seus pés estavam firmemente plantados no chão.

— Saia da frente. NĂŁo tenho negĂłcios com vocĂȘ — disse Arnold, encarando-a.

— Mas… eu tenho negĂłcios com vocĂȘ — respondeu Tino.

— Hmph. VocĂȘ nĂŁo vai me impedir uma segunda vez.

Uma nuvem de poeira foi levantada, mas aparentemente ela tentou um golpe rasteiro. No fim, acabei sendo atingido pela espada de Arnold de qualquer forma, mas fiquei impressionado com sua boa sincronia.

— NĂŁo vou deixar vocĂȘ atacar o Mestre mais. Ele sempre me protegeu, mas isso muda agora. Se Lizzy nĂŁo estĂĄ aqui, entĂŁo eu serei sua lĂąmina.

Me senti mal por pensar nisso enquanto ela tinha seu momento de destaque, mas jå sabíamos que Tino sozinha não era påreo para Arnold. Ela simplesmente não estava equipada para enfrentå-lo; até mesmo ganhar tempo seria difícil para ela.

— VocĂȘ tem coragem, mas nĂŁo pode me vencer. AlĂ©m disso, hĂĄ algo nesse homem que vale a pena proteger?

— Claro que tem. Mas eu nĂŁo vou dizer o quĂȘ.

Não havia hesitação alguma nela. Fiquei surpreso com a determinação que podia perceber. Mas determinação não era o suficiente para compensar a diferença de força entre eles, e Tino sabia disso.

— VocĂȘ estĂĄ certo. Eu nĂŁo posso vencer assim. É por isso que—

Tino ergueu uma mão no ar— nela, segurava a Evolve Greed. Eu não podia ver seu rosto de onde estava, mas podia ver sua mão tremendo. Ainda assim, ela segurava a máscara com firmeza.

— Mestre, me empreste sua força.

E entĂŁo, Tino pressionou a mĂĄscara contra o rosto.

***

— Ó valente guerreiro, sua alma anseia pelo meu poder?

Tino ouviu uma voz. Sentiu uma sensação pegajosa e incÎmoda cobrindo todo o seu rosto e penetrando sua carne. Uma força desconhecida surgiu dentro dela. Antes, ela resistia, mas agora aceitava cada pedaço desse poder, com seu amado mestre no centro de seus pensamentos.

Ela nĂŁo tinha mais medo. O treinamento de seu mestre era rigoroso, mas era tudo para o bem dela. Isso significava que a Ășnica escolha de Tino era retribuir seus esforços. Sua falta de experiĂȘncia a impediu de perceber algo tĂŁo simples atĂ© agora. Agora, ela entendia tudo. Tudo havia começado no inĂ­cio das fĂ©rias, nĂŁo, havia começado quando a mĂĄscara foi trazida para a capital.

Ela havia sido atingida por um raio em preparação para sua batalha contra Arnold. O treinamento servia para fortalecer seu espírito e lhe dar a determinação para usar a måscara. E atrair Arnold até eles foi feito em nome de seu próprio crescimento. Arnold foi levado ao acampamento e o comportamento farsesco de Krai serviu para extrair sua força total.

Parece simples quando colocado em palavras, mas, de fato, quantas pessoas seriam capazes de tal feito? Lizzy e Siddy provavelmente foram mantidas a distĂąncia, uma distĂąncia considerĂĄvel, para evitar que Tino tentasse depender delas. SĂł depois que seu mestre usou o prĂłprio corpo para protegĂȘ-la Ă© que ela finalmente tomou sua decisĂŁo.

Ver seu mestre protegĂȘ-la causou um impacto maior do que o raio que a atingiu mais cedo na viagem. Seu mestre acreditava nela e, por isso, escolheu nĂŁo lutar. Tino nĂŁo podia mais depender dele do jeito que sempre fez.

— Deixe de lado suas dĂșvidas, nĂŁo resista. Entregue-se ao caos.

Era uma voz perturbadora. Ela se lembrou da Ășltima vez que usou a mĂĄscara.

— Mestre, aquela nĂŁo era a verdadeira eu — ela havia dito na Ă©poca. — A mĂĄscara me fez fazer aquilo!

Vendo-a elevar a voz e se humilhar, seu mestre apenas sorriu e disse:

— Tudo bem, se acalme. Eu entendo que aquela nĂŁo era vocĂȘ. Ah, certo. Aquela era a Tino Louca.

Depois disso, Lizzy pegou a mĂĄscara e a colocou casualmente, apenas para removĂȘ-la imediatamente.

— Eu nĂŁo posso usĂĄ-la — disse. — Ela falou algo sobre um excesso de força inesperado e como nĂŁo ativaria por questĂ”es de segurança.

A mĂĄscara nĂŁo passava de uma RelĂ­quia. Uma RelĂ­quia perigosa e aberrante, mas ainda assim apenas uma RelĂ­quia. Sua falta de experiĂȘncia a impediu de suprimir os impulsos da mĂĄscara antes. Ela nĂŁo conseguiu resistir Ă quelas sensaçÔes novas e foi dominada por elas. Mas desta vez seria diferente.

Tudo que precisava era de uma determinação inabalåvel, a determinação de usar a Relíquia por conta própria.

— Eu nĂŁo vou me entregar. VocĂȘ nĂŁo passa de uma RelĂ­quia que eu vou usar — disse para a mĂĄscara.

— Oh, vocĂȘ estĂĄ absolutamente certa. No entanto, por questĂ”es de segurança, o modo automĂĄtico Ă© recomendado para novos usuĂĄrios.

— Não. Eu vou manter o controle.

— Muito bem. Mudando para o modo manual. Por favor, esteja ciente de que efeitos colaterais físicos podem ocorrer devido ao uso em um corpo não acostumado.

Uma força ardente percorreu seu corpo, sua alma foi sacudida por uma sensação repentina de onipotĂȘncia. Mas ela se manteve calma. Sua perspectiva estava mais alta do que o normal. A sensação apertada ao redor do corpo sugeria que ela havia crescido.

Arnold estava estupefato. Olhando para trĂĄs, viu que, pelo poder da mĂĄscara, seu cabelo curto havia crescido, com as pontas brancas como a neve. Levando as mĂŁos ao rosto, quase parecia que estava tocando sua prĂłpria pele. A Ășnica diferença era um chifre que agora brotava acima de seu olho direito.

Da Ășltima vez que colocou a mĂĄscara, ela apenas cobriu seu rosto. Desta vez era diferente. Sua mente estava clara, tinha total controle sobre seu corpo, e sua força estava lĂĄ para ser usada. Era assim que a Evolve Greed deveria ser usada. A RelĂ­quia era um dispositivo que despertava os poderes latentes de seu usuĂĄrio, o que significava mais do que apenas pura força.

Agora eu posso vencer, pensou Tino. NĂŁo, eu vou vencer.

Seu amado mestre a observava e, como se contemplasse a prova de uma harmonia preestabelecida, murmurou:

— Super Tino.

Como sempre, ela não o entendeu. Sentindo uma forte, mas ambígua, sensação de satisfação, voou em direção ao Desafio que a aguardava.


Tradução: Carpeado
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