Grieving Soul â CapĂtulo 3 â Volume 4
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 04
CapĂtulo 3:
[Férias e Alguns Perseguidores]
Eu via um panorama de colinas ondulantes pela janela da carruagem. Era idĂlico e bem diferente da paisagem da capital. Sentia-me em paz enquanto observava a vista passar. A estrada era o Ășnico sinal de infraestrutura humana e nĂŁo havia outros viajantes alĂ©m de nĂłs.
De vez em quando avistava um animal ou monstro, mas todos fugiam no instante em que nos viam. Matadinho, montado em Drink, devia estar aterrorizando todos eles. Eu mesmo sentia um certo receio, mas, pensando bem, talvez ele fosse uma boa forma de repelente de monstros.
JĂĄ havia se passado um dia desde que saĂmos de Elan. O tempo estava agradĂĄvel. Nossa carruagem avançava sob um cĂ©u lĂmpido. Eu tive minhas dĂșvidas durante a tempestade do primeiro dia, mas viajar na estrada podia ser algo bom.
â Quimeras sĂŁo bem intimidadoras para a maioria dos monstros â explicou Sitri. â Imagino que a maioria deles fugirĂĄ de nĂłs.
Eu tinha certeza de que um leĂŁo daquele tamanho assustaria qualquer um, mesmo que nĂŁo fosse uma quimera. Que pecado terrĂvel a Torre Akashic cometeu ao criar aquela criatura.
Se Drink nĂŁo tivesse o hĂĄbito de brincar de forma tĂŁo selvagem, atĂ© que eu poderia me imaginar viajando em suas costas. O impĂ©rio geralmente era um lugar seguro, mas ainda assim havia monstros, espectros e ladrĂ”es. Nenhum deles, no entanto, se aproximaria de Drink. Eu sei que eu nĂŁo chegaria perto se estivesse no lugar deles. Matadinho parece mais adequado para a vida de ladrĂŁo. SerĂĄ que eu deveria me preocupar mais com isso…?
Enquanto me inclinava para fora da janela e bocejava, ouvi uma voz baixa e descontente.
â NĂŁo tem nada pra fazer.
Liz não era boa em ficar parada. Em todas as minhas lembranças dela, ela estava sempre em movimento. Normalmente, quando viajåvamos longas distùncias de carruagem, ela corria ao lado de fora. Se paråssemos em uma cidade, ela começava a treinar assim que tivesse um momento livre. Ela nunca me pareceu ter dificuldades para aprender métodos e teorias, mas claramente os achava entediantes. Preferia muito mais colocar suas liçÔes em pråtica.
Para alguém como ela, ser proibida de treinar e ficar presa em uma carruagem era quase insuportåvel. Ainda assim, ela conseguiu aguentar por um dia inteiro, o que jå era mais do que eu esperava. Silenciosamente lendo um livro em um canto, Tino ergueu os olhos para sua mentora, ainda com olheiras escuras sob os olhos.
â T, nĂŁo tenho nada pra fazer â disse Liz. â Se nada acontecer, vou morrer de tĂ©dio. Por que vocĂȘ nĂŁo faz algo interessante? E rĂĄpido!
â HĂŁ?! Ah, vocĂȘ gostaria de estudar RelĂquias? Matthis foi gentil o suficiente para me emprestar um livro introdutĂłrio â sugeriu Tino.
â Nem pensar. Esquece isso, sĂł faz algo interessante.
â HĂŁ? Ah, ok. EntĂŁo… eu vou fazer uma imitação do Gerente da Filial Gark.
Eu observava Liz fazendo exigĂȘncias absurdas e Tino se esforçando, sem sucesso, para atendĂȘ-las. Fiquei curioso para ver como alguĂ©m do tamanho da Tino poderia imitar aquele brutamontes, mas tambĂ©m achei que isso nĂŁo ajudaria em nada o humor de Liz. Em um instante, porĂ©m, a atenção dela se voltou para mim, e Tino rapidamente interrompeu sua atuação.
â Estou tĂŁo entediada â disse Liz, sorrindo enquanto se arrastava atĂ© mim e se esfregava em mim. â Tive uma ideia. Vou correr lĂĄ fora segurando umas cordas amarradas a uma caixa e vocĂȘ pode subir na caixa. Vai ser muito mais rĂĄpido, vocĂȘ vai sentir o vento, vai ser incrĂvel. E isso nĂŁo Ă© treino, tĂĄ bom?
Esse era um jogo que sempre brincĂĄvamos. Fazia parte do nosso treinamento em grupo, e eu sempre era o cara que ficava na caixa. SĂł que agora Liz estava rĂĄpida demais, e eu tinha certeza de que sĂł seria arremessado para fora.
â Anda logooo. Faz tanto tempo que nĂŁo viajamos juntos, a T e a Siddy sĂł atrapalham, e essa restrição Ă© muito rĂgida. Meus mĂșsculos vĂŁo enfraquecer se eu nĂŁo usĂĄ-los. Olha sĂł! Eles nĂŁo estĂŁo diminuindo?
Liz deitou de costas e apontou para sua barriga bronzeada exposta. A mesma pele impecåvel de sempre. Não parecia particularmente musculosa, mas também não havia um grama de gordura sequer. Era uma beleza feroz e esguia.
Se alguĂ©m fosse fortalecido por material de mana, isso nem sempre seria visĂvel do lado de fora. Apenas olhando para a barriga dela, eu nĂŁo tinha como dizer se ela tinha ficado mais fraca ou nĂŁo, mas suspeitava que ela estava bem.
Liz estendeu os braços para mim, sedutora.
â Ei, brinca comigo?
â Lizzy, vocĂȘ estĂĄ agindo como uma criança!
Sitri interrompeu sua escrita para esticar as pernas e deixar seus calcanhares caĂrem sobre o estĂŽmago de Liz. Tino se afastou. Liz saltou de pĂ©.
â Ah, o que vocĂȘ estĂĄ fazendo?! Cuida da sua vida!
â NĂŁo posso, se vocĂȘ estĂĄ incomodando o Krai! VocĂȘ sempre, sempre… Se quer tanto correr lĂĄ fora, corre com a T! Krai disse que vocĂȘ pode treinar se realmente nĂŁo conseguir se segurar. Que tal uma corrida com Drink?
LĂĄ vamos nĂłs de novo. Sabe como Ă©, dizem que brigam tanto porque sĂŁo muito prĂłximas, ou algo assim…
â Eu jĂĄ falei que nĂŁo vou cair nessa! Isso nĂŁo adianta nada, o Krai Baby estĂĄ caidinho por mim, entĂŁo nĂŁo importa o que vocĂȘ tente! EntĂŁo sai daqui! Some! SĂł porque a Lucia nĂŁo estĂĄ aqui vocĂȘ acha que pode se safar disso â gritou Liz.
Entendo. Elas estĂŁo brigando porque a Lucia nĂŁo estĂĄ aqui. Parar brigas no nosso grupo sempre era trabalho dela ou do Ansem. Mas o ponto fraco do Ansem Ă© que ele Ă© mole demais com as irmĂŁs, entĂŁo, nessas horas, Ă© a Lucia que precisa intervir. E depois, por algum motivo, sou eu quem acaba levando bronca.
Tino ficou nervosa ao ver a discussão esquentando. Talvez minha restrição também estivesse estressando Sitri; normalmente ela não ficava tão irritada assim. Talvez eu precisasse repensar essa regra.
â Diferente de vocĂȘ, eu nĂŁo sou um fardo para o Krai! E alĂ©m disso, jĂĄ disse dezenas de vezes, vocĂȘ e o Krai tĂȘm uma compatibilidade genĂ©tica horrĂvel!
â NĂłs temos os mesmos malditos genes?! VocĂȘ sĂł estĂĄ dizendo isso para tentar roubĂĄ-lo de mim, sua ladina!
Compatibilidade genética. Esse termo era novidade para mim.
Em um acontecimento raro, o rosto de Sitri estava corado. O sangue subiu Ă sua cabeça e ela automaticamente pegou uma poção branca. Antes que alguĂ©m pudesse detĂȘ-la, ela lançou a poção contra Liz. O lĂquido brilhou sob a luz do sol, e Liz desviou como se fosse a coisa mais natural do mundo.
TĂnhamos deixado a janela aberta para entrar ar fresco, e a poção saiu voando por ali, batendo no chĂŁo. Ouvi um som que parecia vidro quebrando.
â Por que vocĂȘ desviou?!
â Que diabos vocĂȘ queria que eu fizesse?! Tudo o que vocĂȘ faz sĂŁo poçÔes duvidosas! Mesmo que eu pegasse, vocĂȘ ia sĂł ficar olhando enquanto eu morria!
A carruagem seguia seu caminho enquanto elas brigavam. Inclinei-me para fora da janela e olhei para trĂĄs, mas a poção jĂĄ estava longe demais para que eu conseguisse vĂȘ-la.
SerĂĄ que tĂĄ tudo bem deixar isso aĂ?
Eu realmente queria que Sitri parasse de jogar poçÔes durante suas brigas com Liz. Seria tranquilo se fossem poçÔes de cura, mas metade do estoque dela era de poçÔes ofensivas. PoçÔes ofensivas que funcionavam contra fantasmas. Céus.
â JĂĄ chega â eu interrompi, mesmo que um pouco tarde. Estava retomando meu papel de lĂder. â Liz, falta pouco para chegarmos na prĂłxima cidade, entĂŁo aguenta firme. Sitri, precisamos fazer algo sobre aquela Ășltima poção?
Sitri e Liz brigavam com frequĂȘncia, mas raramente ia tĂŁo longe a ponto de mirarem na garganta uma da outra. Eu sabia que as coisas estavam passando do limite quando as palavras de Liz começavam a ficar descontroladas.
Como de costume, as duas irmĂŁs logo se acalmaram.
â TaaĂĄ bom â Liz disse.
â Desculpa, me empolguei um pouco â Sitri respondeu. â VocĂȘ perguntou sobre a poção?
“Me empolguei um pouco”, ela disse. Essas duas realmente sĂŁo farinha do mesmo saco.
Liz se jogou contra o banco e virou o rosto para o outro lado. Sitri controlou a respiração e, em pouco tempo, começou a falar no tom de sempre, como se a briga nunca tivesse acontecido.
â Essa poção se chama “Efeito Perigo”. Ă uma versĂŁo aprimorada dos atrativos de monstros usados para treinamento. Se precisar de mais, posso fazer.
Um atrativo de monstros? Eu queria perguntar se isso nĂŁo era um pouco intenso demais para treinamento e o que ela esperava conseguir jogando isso na Liz.
Mas o que acabei perguntando foi:
â Parece que se quebrou no chĂŁo lĂĄ atrĂĄs. Isso nĂŁo Ă© ruim?
â NĂŁo se preocupe. Mesmo com o vento, nĂŁo imagino que vĂĄ se espalhar muito, e vai sumir com o tempo. Por um curto perĂodo, os monstros podem aparecer com um pouco mais de frequĂȘncia â ela explicou. Depois de pensar um pouco, acrescentou: â TambĂ©m nĂŁo hĂĄ provas de que fomos nĂłs que usamos.
Isso não era um problema? Inclinei a cabeça, mas Sitri me lançou um sorriso tranquilizador.
Do banco do cocheiro veio o aviso de que a próxima cidade jå estava à vista. Eu estava preocupado com a poção da Sitri, mas nada aconteceu. Parece que me preocupei à toa. Não que minhas previsÔes fossem muito confiåveis. Ainda assim, minha sorte era péssima e, no fundo, eu era um covarde, então me preocupava de qualquer jeito.
Sentindo o calor do corpo de Liz pressionando minhas costas, estreitei os olhos e tentei avistar a cidade. Nosso destino, Gula, era um lugar que eu nunca tinha visitado antes. NĂŁo era grande, mas era famoso por seus chocolates. Seus produtos eram vendidos na capital, como muitas outras coisas, e eu jĂĄ os tinha experimentado antes, entĂŁo estava ansioso pela visita.
Tomado por uma empolgação infantil, finalmente vi: uma cidade com uma presença esmagadora. Mesmo de longe, dava para perceber um nĂșmero incomum de guardas e atĂ© Magos patrulhando do lado de fora de seus muros cor de cacau. Havia tambĂ©m guardas posicionados no alto das muralhas e uma bandeira vermelha com uma linha horizontal tremulava ao vento. Aquele sinal indicava que a cidade estava em estado de alerta.
Os portÔes não estavam fechados, então provavelmente não era nada tão sério, mas claramente havia muito mais carruagens saindo do que entrando.
Sitri também colocou a cabeça para fora e arregalou os olhos ao ver a cena.
â Nossa, parece que algo estĂĄ acontecendo â ela comentou. â Aquela bandeira… parece que tem a ver com monstros.
â HĂŁ? O que foi, o que foi? Algo doido? â Liz perguntou, se inclinando sobre mim para enxergar. EntĂŁo viu a bandeira. â Ah, Ă© sĂł a bandeira vermelha. Nem parece nada tĂŁo sĂ©rio. Que chato.
VocĂȘ tĂĄ acostumada demais com o perigo. Mesmo que jĂĄ tenhamos visto mais dessas bandeiras do que conseguimos contar.
A bandeira vermelha era um sĂmbolo universal por toda a regiĂŁo. JĂĄ tĂnhamos visto dentro e fora das fronteiras do impĂ©rio, atĂ© mesmo em pequenas vilas. Essas bandeiras eram erguidas com certa frequĂȘncia em cidades prĂłximas a habitats de monstros. Gula ficava ao lado de uma floresta que provavelmente era povoada por criaturas, entĂŁo essa situação nĂŁo era nada tĂŁo incomum.
Pela minha experiĂȘncia, cinquenta por cento das vezes em que uma bandeira vermelha dessas aparecia, acabĂĄvamos nos metendo em confusĂŁo. Dessas ocasiĂ”es, apenas vinte por cento envolviam algo realmente perigoso. Talvez eu estivesse meio enferrujado por ter ficado tanto tempo sem sair da capital, mas eu tinha certeza de que isso era algo em que nĂŁo querĂamos nos envolver.
â No caminho para o PalĂĄcio Noturno, nĂŁo paramos aqui. NĂŁo sabĂamos quanto tempo levarĂamos para limpar o cofre do tesouro â Sitri comentou.
â NĂŁo estĂĄvamos cansados e esse tambĂ©m nĂŁo era um bom lugar para descansar â Liz acrescentou.
â Mestre… â Tino murmurou com incerteza.
Era uma sensação boa. Com Liz e Sitri por perto, eu me sentia mais seguro, mas com Tino, eu tinha alguém com quem me identificava.
Nosso cocheiro deve ter sentido minha hesitação, porque a carruagem parou. Cruzei os braços e refleti pela primeira vez em um bom tempo.
A situação era diferente de Elan. NĂŁo tĂnhamos como prever aquele elemental de raio, mas desta vez sabĂamos que algo estava acontecendo. Ainda assim, nĂŁo sabĂamos muito alĂ©m disso. NĂŁo precisĂĄvamos reabastecer imediatamente e nĂŁo havia nada em Gula que exigisse nossa presença. Normalmente, isso seria um caso simples. Liz e Luke jĂĄ nos metiam em problemas demais.
Mas havia um problema.
Normalmente, eu escolheria o caminho mais seguro, mas Gula era uma cidade famosa por seus chocolates. Como um amante de doces escondido, nĂŁo podia simplesmente passar reto. O chocolate em si podia ser adquirido na capital, mas eu tinha ouvido de confeiteiros sobre uma loja em Gula que servia um parfait de chocolate especial. A Ășnica maneira de provar esse parfait era visitando a cidade.
Eu estava preso. Deveria escolher a segurança ou a doçura?
Pela minha experiĂȘncia, havia uma boa chance de que o estado de alerta nĂŁo significasse nada sĂ©rio. Se fosse algo comparĂĄvel a um ataque de um elemental de raio, haveria mais alvoroço.
Eu quero comer doces.
â O-O que foi, Mestre? â Tino perguntou.
Olhei para ela. Nos Ășltimos dias, parecia tĂŁo pequena e tĂmida. NĂŁo era apenas por minha vontade de comer doces, eu tambĂ©m queria oferecer um delicioso parfait de chocolate para minha valente caçadora jĂșnior. Na verdade, essa era minha principal motivação. Liz e Sitri nĂŁo eram fĂŁs de doces, mas talvez comessem de vez em quando.
â Tino, quero te oferecer algo doce e delicioso â sussurrei, apoiando os cotovelos no parapeito da janela.
â HĂŁ?! V-VocĂȘ quer me oferecer algo?!
â VocĂȘ Ă© bom demais, Krai Baby â Liz acrescentou. â Mas ainda nĂŁo gosto disso. T, me dĂȘ duas mil flexĂ”es depois.
O problema era que, ao entrarmos na cidade, provavelmente pediriam nossa assistĂȘncia. TerĂamos que mostrar nossa identificação, e as carteiras de caçadores indicavam nosso nĂvel.
Com um estado de emergĂȘncia declarado, era quase certo que alguĂ©m nos pediria ajuda. Eu achava isso irritante, mas nĂŁo podia reclamar muito, jĂĄ que, como um caçador de alto nĂvel, aproveitava diversos benefĂcios. Eu poderia recusar, mas representava tanto os Grieving Souls quanto a Primeiros Passos, e, mais do que isso, eu simplesmente tinha dificuldade em dizer nĂŁo. EntĂŁo, passaria o problema para Tino.
â Hmm, bem, isso Ă© um fĂ©rias… â eu disse.
Talvez as coisas se resolvessem sozinhas. Talvez a fofa e confiĂĄvel Sitri cuidasse disso. Sem olhar para ela, fiz um suspiro exagerado, e a fofa e confiĂĄvel Sitri bateu palmas.
â Krai, posso estar sendo presunçosa aqui, mas acho que vocĂȘ quer entrar em Gula sem revelar nossas identidades? Tenho duas opçÔes. Qual te agrada mais, alterar a si mesmo ou alterar os outros?
â Ah! Podemos simplesmente pular o muro! Eu sou um gĂȘnio! â Liz disse.
Alterar a mim mesmo ou alterar os outros? O que ela estĂĄ tramando?
Sitri aguardava minha resposta com um sorriso. Eu sempre tinha que tomar as decisÔes. Esfreguei a cabeça de Liz, parafuso solto e tudo, e assenti.
***
â Essa Ă© nossa chance de mostrar o quĂŁo bons nos tornamos em andar sem ser notados â Sitri disse.
â Ei, onde vocĂȘ compra algo assim? â perguntei.
â VocĂȘ sĂł precisa de dinheiro e conexĂ”es â ela respondeu animada.
O plano era usar identificadores diferentes. Aparentemente, Sitri os preparou hĂĄ algum tempo, por precaução. Os novos documentos atĂ© tinham nossas fotos, entĂŁo isso claramente era algum tipo de crime. Havia um nĂŁo apenas para mim e as irmĂŁs, mas tambĂ©m para Tino. Parecia um exagero. Nossos nomes e datas de nascimento eram inventados, e nenhum nĂvel estava registrado. Revirei a identificação vĂĄrias vezes e a analisei de perto, mas nĂŁo parecia falsa.
Ao perseguir criminosos, caçadores Ă s vezes precisavam quebrar a lei. Era um trabalho sujo. Eu nĂŁo tinha ilusĂŁo de que mĂ©todos adequados fossem sempre suficientes para resolver um problema. Assassinato talvez fosse um exagero, mas o uso de uma identificação falsa poderia ser ignorado. Mesmo que fĂŽssemos pegos, isso era pequeno o suficiente para que ficĂĄssemos impunes com uma explicação decente. Esse era o tipo de privilĂ©gio que um caçador de alto nĂvel da capital poderia receber. No entanto, ninguĂ©m jamais interferiria em uma luta entre dois caçadores desse nĂvel…
Nem mesmo Sitri tinha identificaçÔes falsas para seus trĂȘs ajudantes, e Drink e Matadinho chamavam atenção demais, entĂŁo todos ficaram do lado de fora da cidade. Uma solução bem razoĂĄvel.
â Bem, deixo Drink e Matadinho sob seus cuidados â Sitri disse. â Acredito que ensinei tudo o que vocĂȘ precisa saber sobre eles.
SilĂȘncio. O trio monocromĂĄtico parecia estar indo para o corredor da morte. Me senti mal, mas nĂŁo havia muito que eu pudesse fazer por eles. Esperava que considerassem isso uma experiĂȘncia de trabalho realmente Ășnica. Pareciam tĂŁo ferozes quanto qualquer caçador experiente, entĂŁo certamente ficariam bem.
Acho que vou comprar um chocolate de lembrança para eles.
Pela primeira vez em alguns dias, afaguei Drink, e a quimera se ergueu nas patas traseiras e cambaleou em minha direção. O pelo de Drink era duro e brilhante, quase como agulhas, e nada macio. Tive medo de ser esmagado, então recuei, mas jå havia usado um Anel de Segurança.
Parece que nem eu vou conseguir engolir esse Drink.
Fiquei um pouco preocupado, mas desci da carruagem e segui em direção aos portÔes. Tudo o que podia fazer era depositar minha fé em Sitri.
Os guardas fora de Gula estavam em alerta mĂĄximo. Magos reforçavam as muralhas com feitiços e desenhavam cĂrculos mĂĄgicos no chĂŁo, como eu costumava ver Lucia fazer. Parecia que monstros estavam causando problemas. Acontecia o tempo todo.
Chegou nossa vez na inspeção. Eu estava um pouco inquieto, mas as identificaçÔes de Sitri eram idĂȘnticas Ă s verdadeiras (talvez tecnicamente fossem verdadeiras), e o guarda nos deixou passar sem demonstrar suspeitas. Parecia que minha cobertura nĂŁo havia sido comprometida. Todo o esforço para esconder meu rosto valeu a pena.
â Vi a bandeira. Algo estĂĄ acontecendo? â Sitri, que tambĂ©m nĂŁo parecia uma caçadora, perguntou casualmente.
Ela nunca perdia nada. Eu adorava isso.
â Sim, tem um bando de orcs vivendo em uma vila abandonada nas montanhas por perto â o soldado respondeu, sem esconder seu desgosto. â Aparentemente, eles montaram um forte e acredita-se que tenham um alto-orc como lĂder. Por via das dĂșvidas, passamos os Ășltimos dias nos preparando para um ataque.
Orcs eram uma variedade de Sapien. Para ser mais preciso, eram monstros humanoides com aparĂȘncia de primatas. Tinham inteligĂȘncia semelhante Ă dos goblins, mas possuĂam força fĂsica muito superior Ă de um humano comum e eram cobertos por uma pelagem espessa. Eram um tipo de monstro irritante: belicosos, atacavam humanos por diversĂŁo, se reproduziam rapidamente e comiam praticamente qualquer coisa.
Geralmente, orcs estavam entre os monstros mais fracos e podiam ser facilmente derrotados por um caçador de nĂvel 2 ou 3. Ocasionalmente, nascia um excepcional, um alto-orc, mas ainda assim nĂŁo eram tĂŁo poderosos. No entanto, tendiam a formar grandes bandos e, se deixados sozinhos, poderiam atĂ© construir um vasto reino. Cidades inteiras jĂĄ foram destruĂdas por grandes hordas de orcs, e provavelmente era isso que preocupava Gula.
â E-E a cidade vai ficar bem? â Sitri perguntou com um toque de medo no rosto. Foi uma atuação admirĂĄvel.
â Estamos entrando em contato com cidades vizinhas para pedir assistĂȘncia â respondeu o soldado com um sorriso torto. â Algumas pessoas frias estĂŁo abandonando a cidade, mas nĂŁo deve haver problemas durante sua estadia. Aproveitem seu tempo em Gula.
A cidade exalava a tensĂŁo tĂpica de uma guerra. Todos os caçadores armados, presumivelmente chamados de outras cidades, nĂŁo ajudavam a aliviar o clima. Mas saber a origem do medo me deixou um pouco mais relaxado.
Uma fortaleza de orcs. Não havia motivo para preocupação. Um bando contendo altos-orcs era um problema, mas parecia bem menos ameaçador comparado a um elemental superior. Imagino que, do ponto de vista de um civil, um elemental errante não fosse tão assustador quanto algo que atacava por puro instinto.
Para mim, ambos estavam alĂ©m do que eu poderia lidar, mas parei de temĂȘ-los hĂĄ muito tempo. Nem conseguia mais lembrar quantos bandos de orcs jĂĄ enfrentei. Sempre apareciam em grupos e sempre atacavam quando eu jĂĄ estava exausto. Eu os odiava.
O humor de Liz pareceu azedar ao ouvir a menção dos orcs.
â Aaah, que tĂ©dio. Eu estava animada, mas jĂĄ superei orcs faz tempo. NĂŁo sou uma açougueira, sou uma caçadora â disse.
â Se Lucia estivesse aqui, ela poderia torrĂĄ-los todos de uma vez â comentou Sitri.
A aniquilação em grande escala era domĂnio dos Magos. NĂŁo importava quantos orcs se reunissem, para Lucia todos eram iguais. Parecia que Tino nĂŁo tinha experiĂȘncia com orcs; seus olhos corriam de um lado para o outro, cheios de medo.
â Lizzy, quantos bandos de orcs vocĂȘ jĂĄ derrotou? â perguntou timidamente.
â Sei lĂĄ. Luke e eu estĂĄvamos competindo para ver quem conseguia eliminar mais, mas cansamos de contar.
NĂŁo sabia exatamente em qual batalha isso aconteceu, mas lembrava que orcs apareciam em enxames grandes demais para contar. Nosso primeiro encontro com eles foi antes de Lucia aprender magias de ataque em grande escala, e achei que fosse morrer quando fomos engolidos por uma onda deles.
De todos os monstros, os goblins se reproduziam mais råpido, mas os orcs não ficavam muito atrås. Eles ensinavam na pråtica o impacto que a superioridade numérica tinha em uma batalha. Foram o motivo pelo qual Lucia aprendeu magias ofensivas de grande alcance.
Liz falou de sua competição com indiferença, o que só a tornava mais convincente.
â Isso Ă© bem assustador â disse Tino, tremendo.
â Bom, nĂŁo vamos lutar contra eles desta vez â falei.
â HĂŁ? NĂŁo vamos? â Tino me olhou de olhos arregalados.
O que ela achava que os IDs falsos significavam? Eles eram para que ninguém descobrisse que éramos caçadores que não queriam trabalhar.
â EstĂĄ tudo bem, outros caçadores vĂŁo cuidar disso â disse em um tom baixo para que ninguĂ©m nos ouvisse. â Se realmente precisarmos, podemos contar com Liz e Sitri, mas provavelmente nĂŁo serĂĄ necessĂĄrio.
Além disso, a cidade estava se preparando para resistir a um ataque; um bando de orcs não era algo com que valesse a pena se preocupar.
â Orcs sĂŁo bem mais saborosos do que se imagina, mas a maioria das pessoas nĂŁo gosta deles â murmurou Sitri. Ela realmente tinha se tornado uma pessoa resistente.
Orcs nĂŁo eram nada comparados a um elemental de trovĂŁo. Vamos apenas relaxar e focar nas guloseimas.
Enquanto tentava confortar Tino, observei o sol se pĂŽr sobre a cidade e respirei o aroma adocicado que pairava por suas ruas.
***
O campo de batalha era um lugar onde as fraquezas eram expostas.
Tino se lembrou dessas palavras de Lizzy. Elas soavam verdadeiras para ela. Pensava ter desenvolvido um espĂrito resiliente depois de superar os vĂĄrios Mil Desafios de seu mestre, mas parecia estar errada.
Tino mal conseguiu dormir um minuto desde a noite em Elan. Antes disso, tambĂ©m havia perdido o sono devido aos caprichos de sua mentora e Ă quele incidente com a mĂĄscara. Seu corpo estava no limite. A Ășnica vez que dormiu foi depois de ser nocauteada durante o treinamento com trovĂ”es.
Ela lutava para caminhar em linha reta e sua visão oscilava como se estivesse sonhando. Os raios de sol que vieram após a tempestade do outro dia eram ofuscantes para seus olhos privados de sono. Sua guarda estava baixa, mas não por causa das restriçÔes de seu mestre nos treinamentos.
Sua condição era crĂtica.
Era a inquietação e a ansiedade que a mantinham acordada. Nessas condiçÔes anormais, estava inquieta porque não sabia o que poderia acontecer e nervosa por temer se envergonhar diante de seu mestre e sua mentora. Era uma luta diferente de qualquer outra que jå havia enfrentado. Com pura força de vontade, conseguiu manter a compostura e não desviar os olhos de seu mestre.
Ela jĂĄ tinha ouvido falar da bandeira vermelha que significava “cuidado com os monstros”, mas era a primeira vez que via uma. Isso se devia, em parte, ao fato de que raramente saĂa da capital, mas, mais do que isso, a maioria das cidades evitava indicar que estavam em perigo. Era uma questĂŁo de orgulho, mas tambĂ©m uma revelação de fraqueza que outros paĂses ou criminosos poderiam tentar explorar.
Quanto maior a cidade, menos frequentemente suas bandeiras eram erguidas. Tino tinha ouvido dizer que, em toda a longa histĂłria da capital de Zebrudia, a cidade sĂł havia erguido suas bandeiras algumas poucas vezes. Gula nĂŁo era tĂŁo grande quanto a capital, mas ainda era famosa por sua produção de chocolate, entĂŁo era possĂvel que algo realmente grave estivesse ameaçando o local.
Pelo nĂșmero de cavaleiros e Magos nos portĂ”es, Tino teve uma ideia do quĂŁo cautelosa a cidade estava sendo. Empregar tantas pessoas nĂŁo devia ser nada barato. Esse nĂŁo era o tipo de precaução tomada por uma simples suspeita; devia haver um medo muito real dos orcs. Ela percebeu que as palavras do guarda no portĂŁo tinham sido apenas para dissipar suas preocupaçÔes.
Tino nĂŁo acreditava em uma Ășnica palavra de seu mestre desde o inĂcio da viagem. NĂŁo achava que ele estivesse mentindo, mas a experiĂȘncia havia lhe ensinado que “nĂŁo Ă© nada demais” para ele significava “nĂŁo Ă© nada demais” para o impenetrĂĄvel Mil Truques. Tino, no entanto, nĂŁo era como ele, entĂŁo, para ela, era sim algo preocupante.
Se eles nĂŁo fossem participar de nenhuma batalha, entĂŁo nĂŁo havia motivo para terem vindo a Gula em primeiro lugar. Todos na Primeiros Passos sabiam que o Mil Truques adorava alimentar esperanças antes de destruĂ-las. Tino sequer conseguia imaginar quando seu mestre havia descoberto que a bandeira havia sido erguida ali, mas, se ele nĂŁo soubesse disso, por que teria escolhido justamente essa cidade entre tantas outras opçÔes?
Seus pensamentos giravam em sua mente.
Entendo, Mestre. Para vocĂȘ, uma batalha contra um exĂ©rcito de orcs sequer merece ser chamada assim. Mas, para mim, Ă© demais.
Ela tinha certeza de que seu mestre iria mandĂĄ-la atrĂĄs de um bando de orcs sĂł por diversĂŁo. Em seu estado normal, Tino conseguia eliminar vĂĄrios deles sem dificuldades. Mesmo os mais fortes, ela conseguia lidar com eles se os enfrentasse um de cada vez. Mas Tino estava exausta. Talvez fosse sua prĂłpria inexperiĂȘncia que a impediu de descansar durante a viagem, mas, ainda assim, desafiar um grupo de orcs naquele estado seria suicĂdio.
Ladinos nĂŁo eram feitos para lutar contra mĂșltiplos inimigos ao mesmo tempo. Era fĂĄcil esquecer disso ao ver Lizzy em ação, mas suas principais funçÔes eram ataques furtivos, reconhecimento e desarmamento de armadilhas.
Mestre quer me ensinar os segredos do combate contra mĂșltiplos alvosâum dos meus pontos fracos. Eu nĂŁo consigo fazer isso.
Tino sentia inveja das alegres irmãs Smart. Seu cérebro, privado de sono, falhava em organizar seus pensamentos, impedindo-a de tomar qualquer decisão sensata. Seu rigoroso treinamento espartano mais uma vez a fazia querer se agarrar às costas que sempre seguia. Em Elan, alguns caçadores derrotaram o elemental de raio, mas Tino duvidava que o mesmo milagre acontecesse duas vezes.
Ela precisava lutar. Se seu mestre estava impondo uma Provação, era porque acreditava que ela conseguiria superå-la, porque esperava isso dela. Tino havia passado por treinamentos infernais justamente para atender a essas expectativas.
Seu mestre disse que a protegeria se fosse necessårio. Isso a fez esquecer o cansaço por um instante, mas ela não podia depender dele para sempre. Seu objetivo era ficar ao lado dele como uma igual, não ser protegida.
Ela nĂŁo sabia quantos orcs enfrentaria, mas, considerando as ProvaçÔes anteriores, seria um nĂșmero considerĂĄvel. Talvez fosse atĂ© demais para ela.
Talvez haja orcs infinitos. Ă possĂvel. Mestre, eu nĂŁo consigo fazer isso.
â HĂŁ? VocĂȘ tem outro esconderijo em Gula? â ela ouviu Krai perguntar.
â Mas Ă© claro â Sitri respondeu com um aceno confiante. â Nunca se sabe o que pode acontecer.
Foi entĂŁo que Tino achou que entendia por que Siddy era tĂŁo exageradamente preparada. Com um sentimento confuso, ela tomou uma decisĂŁo: se tivesse a chance, se prepararia para qualquer contingĂȘncia. Mas, primeiro, precisava sobreviver atĂ© o dia seguinte.
Tino teve uma ideia. Diferente de Lizzy, que resolvia tudo na base da força bruta, Siddy se especializava em mĂ©todos mais sorrateiros. Talvez ela pudesse ensinar Tino a lutar contra mĂșltiplos inimigos ao mesmo tempo. Tino tinha dificuldade em lidar com Siddy, mas isso nĂŁo significava que se davam mal. Siddy exigia cautela e atenção, mas as duas tinham um aliado em comum: Krai. Ăs vezes, ela podia ser um pouco pegajosa, mas parecia haver um limite que nĂŁo ultrapassava.
Ela provavelmente ajudaria Tino se ela pedisse. O que Tino não sabia era que tipo de compensação Siddy poderia exigir.
Quando aconteceria a batalha contra os orcs? Ă noite? Daqui a uma hora? Eles atacariam? Ou Tino teria que caçå-los? Ela teria a chance de descansar? Teria tempo para se preparar? Ou teria que lidar com a situação em seu estado atual? Com as restriçÔes de treinamento atuais, essa Ășltima possibilidade parecia a mais plausĂvel e tambĂ©m a mais desgastante. Com as ProvaçÔes de seu mestre, era sempre mais seguro assumir o pior cenĂĄrio.
Eu nĂŁo consigo fazer isso.
Tino lutava desesperadamente para organizar seus pensamentos em meio ao cansaço e à privação de sono. De repente, seu mestre se virou. Seus olhos negros pareciam penetrar diretamente sua mente. Ao contrårio de Tino, ele parecia calmo e sem nenhuma preocupação.
â Bom, Tino tambĂ©m estĂĄ com cara de cansada. Vamos fazer uma boa refeição e relaxar pelo resto do dia â ele disse.
â M-Minha Ășltima ceia?
Talvez os orcs atacassem durante a refeição?
***
Como se estivessem zombando da covardia de Tino, nenhum sinal de perigo apareceu.
O esconderijo de Siddy em Gula era idĂȘntico ao de Elan. Os suprimentos e os mĂłveis eram os mesmos, a ponto de ser necessĂĄrio se esforçar para notar qualquer diferença.
â EspecificaçÔes universais facilitam as coisas â Siddy disse com um certo orgulho.
Ela cuidou da cozinha e preparou uma refeição excepcional com os suprimentos armazenados. Era difĂcil acreditar que ela era parente de Lizzy, que nunca cozinhava. Tino tinha alguma confiança em suas habilidades culinĂĄrias, mas nada do que fazia se comparava Ă quilo. Siddy devia ter praticado para conquistar o coração de Krai pela comida.
Na superfĂcie, essas fĂ©rias eram realmente apenas fĂ©rias. Tino nĂŁo havia lutado contra nenhum monstro e nĂŁo precisou pagar pela comida ou hospedagem. Seria maravilhoso se essa mordomia fosse o pagamento pelos seus serviços como guarda-costas. Mas a palavra âfĂ©riasâ a corroĂa por dentro, pois era uma palavra normalmente associada Ă diversĂŁo.
Ela sentia que estava desmoronando. Estava inquieta. SĂł queria treinar, mesmo que fosse algo tĂŁo brutal a ponto de fazĂȘ-la perder o almoço. Ainda assim, seria melhor do que a situação atual.
Sua cabeça balançava de um lado para o outro, atormentada por esses pensamentos, quando foi interrompida pelo som de Krai batendo as mãos.
â Ah, certo â disse ele. â Tino, que tal irmos comer parfaits de chocolate amanhĂŁ? Tem um lugar famoso na cidade.
Tino nĂŁo esperava por isso. Sua resposta demorou um instante para sair.
â HĂŁ?
Ela gostava de doces e jå havia acompanhado seu mestre muitas vezes nesses passeios. No entanto, ainda não tinha feito nada que justificasse uma recompensa. Tanto Lizzy quanto Siddy franziram a testa ao ouvir a sugestão dele. Elas não ligavam muito para doces, então apenas Tino costumava aproveitar essas ocasiÔes.
Como forma de protesto, Lizzy pulou nas costas de Krai e envolveu os braços ao redor dele, mas sua expressão permaneceu inalterada. O sorriso de Siddy voltou ao rosto, mas o olhar que lançou a Tino ameaçava sua vida.
Tino queria aceitar, mas nĂŁo podia se permitir concordar.
â Mestre, eu nĂŁo fiz nada que mereça uma recompensa â disse ela.
â Que bobagem, acho que vocĂȘ estĂĄ trabalhando muito duro. AlĂ©m disso, doces sĂŁo bons quando se estĂĄ cansado â disse ele.
O sorriso de Krai era genuĂno, ele sempre foi gentil. Usava esse mesmo sorriso quando lançava desafios para Tino superar.
â Mas…
â Eu nĂŁo ligo muito para essas coisas de merecimento. Mas, se isso realmente te incomoda… aqui, se algo acontecer, basta dar o seu melhor na hora. Ă importante descansar de vez em quando. Tino, vocĂȘ nĂŁo parece bem.
Tino lançou um olhar hesitante para Lizzy. As palavras de seu mestre eram sagradas, mas ela precisava mostrar respeito por Lizzy se não quisesse ser submetida a um treinamento brutal.
Lizzy notou o olhar de Tino, franziu a testa e se jogou no sofĂĄ.
â Parece uma boa ideia â disse ela.
â HĂŁ?! Uh, Lizzyâ
â NĂŁo sou burra. Se eu for junto, sĂł vou atrapalhar.
Lizzy era conhecida como a Sombra Partida e temida em toda a capital. Krai provavelmente era a Ășnica pessoa que poderia pensar nela como um âestorvoâ.
â Krai tem razĂŁo, T â disse a outra irmĂŁ Smart. â Ă importante descansar. Eu planejo tudo para amanhĂŁ, assim vocĂȘ pode relaxar.
Nos olhos rosados dela, da mesma cor dos de Lizzy, brilhou uma luz. Uma luz que parecia anunciar o fim da existĂȘncia de Tino.
***
O sol começou a se pÎr. Com as muralhas de Gula ao longe, Preto, Branco e Cinza montaram uma barraca, trabalhando råpido e silenciosamente. Um clima pesado pairava sobre eles. Tinham uma carruagem, comida de sobra e a pessoa que os aprisionou não estava à vista. Ainda assim, não conseguiam fugir.
Um par de olhos os observava. JĂĄ haviam visto inĂșmeras criaturas estranhas, mas aquela era diferente de tudo. O ser os incomodava desde o momento em que começou a correr ao lado da carruagem, mas eles tentavam ao mĂĄximo nĂŁo pensar sobre isso.
Tinha a pele cinzenta e um corpo extremamente musculoso. Vestia apenas uma sunga vermelha e um saco de papel marrom com dois buracos para os olhos sobre a cabeça, como se fosse uma piada. Era inconfundivelmente um monstro, a fera leal daquela Alquimista demonĂaca.
Eles sabiam que nĂŁo poderiam convencĂȘ-lo a mudar de lado. Para seus sentidos aguçados, a criatura emanava uma quantidade absurda de mana material. Aqueles mĂșsculos nĂŁo eram sĂł para exibição. E entĂŁo, havia o olhar… completamente vazio de emoção.
Aparentemente, seu nome era âMatadinhoâ, mas isso nĂŁo importava. Preto tentou imaginar que tipo de mĂ©todo aquela Alquimista teria usado para criar uma fera dessas, mas logo se forçou a parar. Tinha certeza de que a Alquimista sujara as mĂŁos com atos muito mais hediondos do que ela, Branco ou Cinza jamais haviam cometido. E tambĂ©m tinha certeza de que aquelas mĂŁos poderiam alcançar o trio a qualquer momento.
Perto de Matadinho, havia um leĂŁo branco â uma quimera â com quase dois metros de comprimento. Ele soltou um rosnado. A quimera nĂŁo era tĂŁo assustadora quanto Matadinho, mas ainda assim era uma criatura que normalmente evitariam enfrentar, pois sua força era desconhecida. Todos os monstros do caminho haviam fugido ao vĂȘ-lo. Provavelmente, nĂŁo era fraco, e poderia alcançå-los facilmente se tentassem fugir com a carruagem.
â Disseram para cuidarmos dessa coisa. Como diabos a gente faz isso?! â perguntou Branco, pĂĄlido como um fantasma.
Cinza nĂŁo disse nada, mas parecia igualmente desesperado.
Preto jå havia feito diversos trabalhos ao longo de sua carreira como criminosa, mas nunca tinha cuidado de uma quimera. A Alquimista disse que eles conseguiriam lidar com tudo sozinhos, mas sequer explicou o que o bicho comia. As provisÔes da carruagem não pareciam suficientes para sustentar um corpo daquele tamanho. Sitri não parecia estar alimentando a criatura, e eles não sabiam como ela tinha se nutrido durante a viagem até ali.
Preto tomou coragem e se aproximou de Matadinho e da quimera (Drink, era esse o nome?).
â O que vocĂȘs comem? â perguntou.
Matadinho virou-se lentamente para Drink.
â Matar, matar, matar…
â Miau.
â Maaaataaar.
â Miau, miau.
SerĂĄ que, por serem monstros, sentiam alguma camaradagem? A voz de Matadinho era surpreendentemente aguda para um ser tĂŁo grande, enquanto o miado de Drink era quase fofo.
â O que estĂĄ acontecendo? Eles estĂŁo conversando? â sussurrou Cinza, tremendo.
A conversa durou apenas algumas palavras. Matadinho então se virou para Preto, enquanto Drink se espreguiçou preguiçosamente.
â Matar.
Com essa Ășnica palavra, Matadinho saltou no ar. Com uma flexibilidade surpreendente, pousou sobre Drink. A quimera disparou a uma velocidade extraordinĂĄria, e as duas silhuetas foram gradualmente diminuindo. Black nĂŁo sabia o que dizer. Nem White ou Gray.
â Eles fugiram? â White sussurrou.
NĂŁo havia razĂŁo para que corressem, nem Black, White ou Gray tinham feito qualquer coisa. Isso nĂŁo era bom.
â Eles fugiram. Temos que ir atrĂĄs deles!
â M-Mas!
â Era nossa responsabilidade cuidar dessas coisas! Se a Sitri descobrir que eles fugiram, estamos mortos.
Provas nĂŁo eram necessĂĄrias. Tudo o que Sitri precisava para eliminĂĄ-los era um palpite. NĂŁo havia dĂșvidas em suas mentes. Um vento frio e ominoso soprou sobre eles. Na direção em que tinham visto Drink e Matadinho fugir, havia uma floresta negra.
â Como vamos persegui-los? Para onde eles foram?
â Como eu vou saber? Vamos logo!
***
A besta disparou pela floresta. Era uma quimera, uma criatura amaldiçoada nascida da distorção das leis da vida. Parecia um leão, mas as asas em suas costas deixavam claro que era algo bem menos convencional. Alguém com um bom faro poderia perceber o cheiro perverso que exalava.
Ela corria como o vento por uma trilha de montanha ladeada por ĂĄrvores escuras, com um berserker montado em suas costas. A pele acinzentada e os mĂșsculos do cavaleiro eram reforçados, seu corpo ardia ao toque, um contraste gritante com sua cor opaca. Tinha o cheiro de um humano, mas sua forma monstruosa era o resultado do profano. Quimeras geralmente sĂł aceitavam seus criadores, mas se Drink estava correndo ao lado de Matadinho, entĂŁo devia instintivamente saber que os dois eram, de certa forma, parentes.
â Matar, matar…
â Grrr…
Eles nĂŁo sentiam medo. Mesmo que sentissem, nĂŁo demonstrariam. Drink e Matadinho foram feitos para serem excepcionalmente fortes, para servirem de escudo se necessĂĄrio.
O cheiro de monstros estava por toda parte na trilha da montanha, o cheiro de orcs. Drink era uma fusĂŁo das melhores partes de vĂĄrios seres mĂticos e, para ele, aquele era o cheiro de comida.
Eles estavam famintos. Haviam sido projetados para operar mesmo sem comer por um perĂodo limitado, mas isso apenas significava que podiam suportar a fome miserĂĄvel, nĂŁo ignorĂĄ-la completamente. Tinham caçado e devorado monstros durante a viagem, mas os que se aproximavam da estrada nĂŁo eram suficientes. Drink e Matadinho estavam com os estĂŽmagos vazios, e desde que chegaram a Gula, o cheiro dos orcs os incomodava.
â Matar, matar, matar…
â Miau.
Para interpretar:
â Vamos acabar com isso rĂĄpido.
â Nem precisa dizer.
Ou algo assim.
Drink captou o rastro da presa e acelerou. Uma fortaleza iluminada por tochas surgiu no horizonte. A construção era simples, o padrĂŁo tĂpico dos orcs. Havia sentinelas, mas Drink e Matadinho nĂŁo tinham motivo para se preocupar.
Matadinho avançou como vanguarda. Seus mĂșsculos começaram a se expandir e se contorcer, enquanto Drink mantinha sua cauda reta como uma lĂąmina. Ambas as criaturas eram amalgamaçÔes feitas para a batalha. NĂŁo demonstrar medo. Matar. Comer. As bestas da IgnĂłbil investiram contra a fortaleza.
***
Foi como um desastre natural.
A matilha de orcs havia sido formada pela junção de vĂĄrias tribos menores. No declive da montanha, eles ergueram uma fortaleza robusta sobre as ruĂnas de uma vila abandonada.
Reinando sobre a fortaleza estava o Rei Schwarz, um orc aberrante nascido em uma regiĂŁo remota rica em material mĂĄgico. Sua força e inteligĂȘncia excediam em muito a dos orcs comuns, ele compreendia a lĂngua dos humanos e possuĂa o carisma para liderar uma coalizĂŁo de mĂșltiplas tribos. O que solidificava seu status como uma anomalia entre seus pares era sua arma: uma poderosa espada que roubara de um humano que assassinara.
No entanto, o reino do herĂłi orc desmoronou num instante. O desastre tomou a forma de um monstro arrepiante. Seu cheiro trazia dĂșvidas se eram realmente deste mundo. A criatura vil saltou as muralhas externas com facilidade, ignorou os sentinelas e avançou diretamente para os recantos mais profundos da fortaleza. LĂĄ ficavam as mulheres e crianças orcs.
Quando Schwarz percebeu o que estava acontecendo, jĂĄ era tarde. A besta maldita devorara o futuro da matilha â suas crianças â e despedaçara suas mulheres amadas. O rei orc jĂĄ testemunhara muitas tragĂ©dias, mas nem ele conseguia suportar essa cena. O cheiro de sangue impregnava o ar, e gritos se sobrepunham a mais gritos. A criatura soltou um miado felino.
Nem sequer se podia chamar de batalha. Contra um humano, os guerreiros orcs arriscariam suas vidas sem hesitar sob ordens de seu rei, mas a forma abominĂĄvel e o cheiro de outro mundo da criatura os congelaram de medo.
Apenas Schwarz compreendia a situação, pois possuĂa racionalidade suficiente para nĂŁo ser governado pelos instintos. Isso era uma armadilha dos humanos; eles perceberam que nĂŁo poderiam tomar a fortaleza de frente, entĂŁo recorreram a mĂ©todos covardes.
Havia apenas uma besta, e Schwarz tinha mil guerreiros robustos sob seu comando. Eles nĂŁo poderiam perder, contanto que mantivessem a calma. Seus instintos, racionalidade e inteligĂȘncia lhe davam confiança.
No entanto, suas ordens nĂŁo surtiram efeito. Ele era o Ășnico com a força e intelecto necessĂĄrios para resistir aos instintos. Gritos abafaram seus comandos, e seus soldados e as mulheres restantes viraram-lhe as costas e fugiram da fortaleza. Somente Schwarz compreendia o quĂŁo tolo isso era. O objetivo da besta nĂŁo era apenas comer, era destruir. Com asas e uma cabeça de leĂŁo, seus olhos exibiam um prazer selvagem. Era o mesmo tipo de prazer que Schwarz sentia ao atacar um assentamento humano.
â Lutem! â ele gritou, em vĂŁo.
Como um vendaval, a besta investiu contra as costas apetitosas dos orcs fugitivos. Superou suas presas com facilidade, suas garras rasgando armaduras e carne com um Ășnico golpe. Cada parte de seu corpo fora feita para matar, atĂ© mesmo sua cauda em forma de chicote e seu rugido.
Schwarz soltou um uivo de fĂșria. Ele nĂŁo queria que mais membros de sua matilha morressem. Com passos trovejantes, investiu contra a besta, sua grande espada negra erguida acima da cabeça. Seu inimigo era uma abominação, mas ele era um veterano de muitas batalhas.
Com uma determinação feroz, estava prestes a atacar o ponto fraco da criatura â sua lateral â quando, de repente, algo caiu do cĂ©u. Instintivamente, ergueu a lĂąmina e bloqueou o impacto; apesar de sua prontidĂŁo, seus braços ficaram dormentes com o peso imenso que pressionava sua espada.
â Matar, matar…
Um grande guerreiro, de tamanho comparĂĄvel ao de Schwarz, havia caĂdo. Sua silhueta se assemelhava Ă de um humano, e tinha o cheiro de um, mas nĂŁo era humano. Schwarz percebeu de imediato que sua força superava a de qualquer orc sob seu comando.
Reforços haviam chegado para a outra besta. Schwarz mordeu o lĂĄbio e recuou um passo. Ele nĂŁo poderia vencer essa luta. Apesar de sua fĂșria ardente, aceitou a derrota.
O guerreiro cinzento cerrou os punhos e assumiu uma postura de combate. A besta parou de devorar os orcs e começou a se mover, cercando Schwarz. Ele poderia lidar com um deles de cada vez, mas contra os dois ao mesmo tempo, era impossĂvel. Sua morte era certa.
Os corpos de aliados, guerreiros e mulheres estavam espalhados pelo forte. Mesmo que os atacantes fossem apenas uma Ășnica besta e um humanoide, os cadĂĄveres dentro do forte superavam em muito os que conseguiram escapar.
Como rei, Schwarz nĂŁo podia se permitir ceder Ă fĂșria e perecer ali.
â VocĂȘ morre…
Uma fera e um lutador. Fugir nĂŁo seria difĂcil. Schwarz desviou de um ataque da cauda da criatura e recuou. Os dois atacantes nĂŁo avançaram mais. Estavam devorando os cadĂĄveres, como se dissessem que jĂĄ haviam conseguido o que queriam.
E assim, o forte dos orcs foi dizimado antes mesmo de poder atacar a cidade de Gula.
***
A primeira coisa que ela percebeu foi o cheiro repugnante. JĂĄ era noite, e Chloe e seus companheiros haviam parado para descansar na estrada para Gula. Eles queriam evitar viajar Ă noite o mĂĄximo possĂvel. Era uma regra bĂĄsica entre caçadores.
Eles estavam com pressa, e os monstros equinos que puxavam a carruagem de Chloe e do FuracĂŁo Escaldante haviam chegado ao limite. NĂ©voa CaĂda, por outro lado, parecia ter energia de sobra.
Ainda assim, eles nĂŁo haviam parado para montar acampamento, apenas para um breve descanso. Arnold estava claramente disposto a fazer o que fosse necessĂĄrio para capturar sua presa.
Eles acenderam uma fogueira intensa e se sentaram ao redor dela. A maioria dos monstros evitava esse tipo de luz; mesmo os menos inteligentes conseguiam sentir o perigo vindo de uma concentração de material de mana.
A imagem dos caçadores sentados ao redor do fogo, compartilhando histĂłrias de aventura, era exatamente como Chloe sempre imaginara. Naturalmente, ela contou uma histĂłria sobre os Mil Truques. Os caçadores de tesouros valorizavam seu orgulho. Conflitos entre eles eram inevitĂĄveis, mas a Associação de Exploradores fazia o possĂvel para minimizar os danos resultantes. Ela achou que talvez a raiva de NĂ©voa CaĂda diminuĂsse um pouco se soubesse dos feitos de Krai.
Ele havia resolvido vårios incidentes, abatido demÎnios que jå haviam matado campeÔes e era temido por seus contemporùneos. Seu nome causava pavor nos criminosos. Alguns até se entregaram apenas por ouvir rumores de que os Mil Truques estavam atrås deles. Ele era um caçador misterioso que raramente aceitava missÔes ou aparecia nas filiais da Associação, e ninguém sabia exatamente o que ele fazia em seu tempo livre.
Chloe tentou contar suas histĂłrias de um jeito que nĂŁo irritasse Arnold, mas ele ainda parecia descontente. No entanto, ele sabia ser calculista quando necessĂĄrio e provavelmente nĂŁo a interrompeu porque suas histĂłrias continham informaçÔes Ășteis.
â Ele raramente aceita missĂ”es? O que ele faz, entĂŁo?
â NĂŁo interferimos na privacidade dos caçadores â disse ela. â Mas hĂĄ rumores de que ele treina seus companheiros de clĂŁ.
â VocĂȘ quer dizer aqueles âMil Testesâ? Pura bobagem â disse Eigh.
Caçar tesouros exigia constante aprimoramento; os caçadores nĂŁo tinham tempo para treinar aprendizes. Quem ensinava o ofĂcio eram aqueles que jĂĄ haviam se aposentado.
Ainda assim, muita gente jĂĄ havia passado pelos Mil Testes, inclusive pessoas de fora do Primeiro Passo. As expressĂ”es amargas de Rhuda e Gilbert provavelmente vinham de sua experiĂȘncia na Toca do Lobo Branco.
Mesmo que nĂŁo fosse algo permitido pela Associação, havia algo que Chloe tentava nĂŁo pensar demais. Era possĂvel que os problemas com o elemental de raio em Elan tivessem sido provocados por razĂ”es semelhantes Ă s do incidente na Toca do Lobo Branco.
â VocĂȘ quer dizer que os Mil Truques podem ter manipulado aquele elemental?
â O quĂȘ?! De jeito nenhum! Ele nĂŁo Ă© um criminoso â protestou Chloe.
â Se vocĂȘ diz… â respondeu Arnold, franzindo a testa.
Um vento repentino soprou sobre eles. Os mustangs relincharam, e Arnold se levantou. Os membros do Furacão Escaldante agarraram suas armas e checaram os arredores. O vento era quente e trazia um fedor repulsivo. Era um cheiro comum até mesmo na Associação de Exploradores: o cheiro de uma fera.
â Que fedor Ă© esse?
â Droga, estou com um mau pressentimento.
Eigh, um Ladino, olhou na direção do vento e estreitou os olhos. Esse era um cheiro mais comum em salas fechadas do que a céu aberto.
â Ă o cheiro de uma fera excitada… e estĂĄ se aproximando.
O chĂŁo tremia levemente. Os membros do FuracĂŁo Escaldante ficaram tensos. Chloe se lembrou de algo que havia ouvido em Elan: aparentemente, Gula estava ocupada tentando lidar com um bando de orcs. Os monstros haviam construĂdo um forte prĂłximo Ă cidade e estavam se espalhando.
Gula ainda estĂĄ longe. NĂŁo hĂĄ motivo para orcs que estĂŁo escondidos em um forte virem atĂ© aqui, pensou Chloe. Mas suas expectativas logo foram traĂdas.
â Ă um bando de orcs! â gritou Eigh. â SĂŁo muitos, e estĂŁo vindo direto para nĂłs. NĂŁo hĂĄ para onde correr!
O estrondo se aproximava. Eles perceberam que era o som de passos. Uma onda negra avançava pela estrada iluminada pelo luar. Chloe sacou sua arma, uma espada curta que seu tio lhe dera, e a luz da fogueira brilhou sobre a lùmina.
Arnold rugiu, e sua espada começou a crepitar com eletricidade. Ele não demonstrava nenhum sinal de cansaço.
â Preparem-se! Alimentem o fogo e conjurem magias ofensivas â ordenou. â Chloe, se nĂŁo puder lutar, afaste-se.
â Eu vou lutar.
â Muito bem. Esses aĂ nĂŁo sĂŁo muito mais espertos que animais selvagens. Eles vĂŁo recuar se mostrarmos quem Ă© mais forte.
Ele era um caçador de alto nĂvel. Nem sequer hesitou diante da horda de monstros.
â Destruam todos! â ordenou Arnold.
O resto do NĂ©voa CaĂda respondeu com um rugido e avançou contra a horda de orcs.
***
Um novo dia começou. Assim como o anterior, nĂŁo havia uma Ășnica nuvem no cĂ©u. Parecia que a tempestade havia passado. Bem descansado, levantei-me e me espreguicei, quando ouvi um barulho vindo do outro quarto.
â Bom, nĂŁo Ă© como se o BebĂȘ Krai fosse se interessar por uma pirralha como a T. E isso nem Ă© um encontro, ela sĂł estĂĄ protegendo ele. Acho que nĂŁo preciso te dizer isso, T, mas nĂŁo crie esperanças sĂł porque ele Ă© gentil com vocĂȘ. Quando voltarmos, eu vou te treinar corpo e alma para que vocĂȘ nunca mais se sinta assim.
â Vou cuidar da sua roupa, T. Mesmo que vocĂȘ vĂĄ como guarda-costas dele, sua roupa usual serĂĄ um problema. Se vocĂȘ e Krai contrastarem muito, isso vai fazer ele parecer mal. Para o bem de vocĂȘs dois, vocĂȘ nĂŁo pode mostrar muita perna. Independentemente do que vocĂȘ pensa, as pessoas ao seu redor…
Por que estĂŁo fazendo tanto alarde se sĂł vamos sair para comer parfaits? Se essas duas se importam tanto, deviam vir junto…
Quando Tino saiu do quarto, estava bem diferente de seu normal. Ela vestia um longo casaco cinza que escondia a adaga em sua cintura. Sua roupa habitual deixava claro que ela era uma Ladina, mas eu nĂŁo sabia bem como descrever esse novo visual. Por algum motivo, suas fitas vermelhas haviam sido trocadas por brancas e as olheiras haviam sumido.
Sitri esboçou um sorriso preocupado ao notar meu olhar.
â Foi o melhor que consegui fazer para garantir que ela pudesse agir como guarda sem ser reconhecida. Se eu a deixasse sair de saia e com roupas casuais, pareceria quase um encontro. Me desculpe, Krai, eu nĂŁo tenho muitas RelĂquias discretas como vocĂȘ. Ela estĂĄ equipada com o mĂnimo necessĂĄrio, entĂŁo, se puder compensar isso…
â Sem problemas, se surgir algum problema, voltamos para cĂĄ.
Ao contrĂĄrio de Tino, eu estava com minhas roupas habituais e, portanto, completamente equipado. Da cabeça aos pĂ©s, vestia RelĂquias que Kris e os outros Magos dos Primeiros Passos haviam se esforçado para recarregar. Ainda era inĂștil, mas ao menos servia como um escudo.
â NĂŁo acho que precise me preocupar, mas mantenha as mĂŁos longe da T, por mais fofa que ela seja â Sitri me advertiu em tom de brincadeira.
Que tipo de pessoa ela acha que eu sou? Mesmo que esteja brincando, Tino pode nĂŁo entender assim.
Eu ia protestar, mas Sitri desviou o olhar para Tino.
â Preste atenção, T â disse ela com um sorriso. â Se vocĂȘ colocar as mĂŁos no Krai, vou garantir que pensamentos indecentes nunca mais passem pela sua cabeça.
A atuação convincente de Sitri fez Tino dar um passo para trĂĄs, com o rosto pĂĄlido como a morte. NĂŁo havia a menor chance de eu encostar nela, entĂŁo era ainda mais difĂcil imaginar que ela faria algo comigo.
â Voltem assim que terminarem de comer, ok, Krai Baby? AĂ podemos ter o nosso encontro depois â disse Liz.
â Vou preparar a prĂłxima etapa da viagem, incluindo garantir que T tenha uma boa noite de sono â acrescentou Sitri. â NĂŁo demorem, vocĂȘs dois.
Por razÔes que desconheço, as duas irmãs pareciam inquietas enquanto nos despediam. Nunca vi Tino tão hesitante enquanto a guiava pela cidade, que tinha um clima levemente solene.
***
Como era de se esperar de uma cidade famosa por seus chocolates, as ruas de Gula estavam repletas de lojas oferecendo doces. Algumas tinham placas brilhantes proclamando que eram especializadas em chocolate. Eu era especializado em comer.
Mesmo que eu mantivesse isso em segredo, adorava doces. Chantilly, doce de feijĂŁo, chocolate, eu amava tudo isso, mais do que qualquer outra coisa. Sempre carregava uma barra de chocolate comigo. Queria visitar todas as lojas com calma, mas, infelizmente, nĂŁo era possĂvel.
A bandeira hasteada deixava a cidade um pouco tensa, mas eu jĂĄ estava acostumado. Nos meus primeiros dias como caçador, chocolate seria a Ășltima coisa na minha mente em uma situação assim. No entanto, eu era a prova viva de que atĂ© os mais incompetentes podiam se acostumar com certas coisas com o tempo.
Por outro lado, Tino parecia encolhida. Ela gostava de doces tanto quanto eu, mas nĂŁo escondia isso. Normalmente, quando saĂamos para comer, sua alegria era contagiante, mas talvez ela nĂŁo estivesse acostumada a andar por uma cidade quando um alerta estava em vigor.
â NĂŁo se preocupe, Tino. Sei que vocĂȘ nĂŁo sai muito da capital, mas quando se viaja bastante, essas bandeiras se tornam comuns â falei, rindo. â JĂĄ perdi a conta de quantas dessas eu vi.
â HĂŁ?! VocĂȘ nĂŁo pode…
E sempre que vĂamos uma dessas bandeiras, Luke ou alguĂ©m entrava direto em uma confusĂŁo. Eu sĂł ficava para trĂĄs usando AnĂ©is de Segurança, entĂŁo sempre saĂa ileso, mas nĂŁo era fĂĄcil ver meus amigos se machucarem. Mas Tino nĂŁo era do tipo que se jogava no perigo, entĂŁo nĂŁo havia motivo para preocupação.
Seus olhos se moviam inquietos, diferente de seu comportamento normal. Tecnicamente, eu era o caçador mais experiente, então deveria dar um bom exemplo.
â Se ainda estiver incomodada, hmmm… Aqui, feche os olhos, tampe os ouvidos, respire fundo e pense em algo divertido â sugeri.
E se alguĂ©m falar com vocĂȘ, cruze os braços, balance a cabeça e finja estar em profunda contemplação.
Essa era a tĂ©cnica que eu usava para evitar a realidade. HĂĄ um limite para o que um homem pode fazer sozinho. Existem muitos outros caçadores excelentes por aĂ, entĂŁo deixo que eles lidem com as coisas que nĂŁo sĂŁo minha responsabilidade.
Tino nĂŁo disse nada, entĂŁo acabei me empolgando e continuei falando.
Certo, eu tenho pensado muito nisso. Tino pensa demais, leva tudo muito a sério. Ela é uma caçadora talentosa, mas hå muitos que a superam. Se tentar carregar tudo sozinha, acabarå esmagada pelo peso.
â VocĂȘ ainda tem um longo caminho pela frente e acho que nĂŁo vale a pena se preocupar tanto â disse a ela. â E agora que Liz e Sitri estĂŁo conosco, vocĂȘ deveria relaxar um pouco. VocĂȘ nĂŁo parece bem hoje nem ontem, e isso me preocupa.
â E-Eu entendo… Muito obrigada.
As olheiras haviam sumido, mas o cansaço ainda era visĂvel. Quando apontei isso, ela desviou o olhar, envergonhada.
Ela parecia um pouco mais animada enquanto caminhĂĄvamos pela cidade. Nosso destino ficava em uma rua movimentada e tinha um exterior elegante. Muitas pessoas passavam por ali, mas, dadas as circunstĂąncias, nĂŁo havia outros clientes. Que conveniente.
Isso nĂŁo era apenas um passeio para comer um parfait, tambĂ©m era uma chance para Tino se recuperar mentalmente. O tratamento de Liz com ela estava me incomodando. NĂŁo achei que ela estivesse fazendo nada terrĂvel com Tino, mas imaginei que, seja lĂĄ o que fosse, seria mais fĂĄcil para Tino falar sobre isso enquanto aproveitava algo doce.
Que coisa… Doces nĂŁo sĂŁo minha praia, mas acho que posso ir junto, se for por ela.
Nos ofereceram assentos com uma boa vista da rua e bastante luz do sol. Assim como o exterior, o interior era bem elegante. Definitivamente, nĂŁo era um lugar onde se via caçadores com frequĂȘncia. Eu conhecia todas as confeitarias da capital, mas este ainda parecia um lugar que valia a pena ter expectativas.
Os olhos de Tino brilharam enquanto ela olhava ao redor. TrazĂȘ-la parecia ter valido a pena. Eu estava aproveitando a cena animadora quando ela me olhou com olhos suplicantes.
â Mestre â começou. â Hum, Siddy me deu algum dinheiro. Ela disse para eu usar como quisesse.
NĂŁo respondi.
SerĂĄ que Sitri acha que Ă© minha tutora ou algo assim? Queria que ela pelo menos me deixasse fingir ser um mestre legal para Tino.
A intromissĂŁo de Sitri tirou um pouco do meu Ăąnimo, mas isso nĂŁo me deixou menos animado para o parfait que estava prestes a saborear. Fiz questĂŁo de esconder minha empolgação enquanto fazia o pedido. O aroma doce que pairava pelo cafĂ© me fez ficar muito feliz por ter saĂdo da capital. Tudo isso começou porque eu estava fugindo daquela conferĂȘncia, mas as coisas acabaram dando muito certo.
Serå que hoje é meu dia de sorte? O que quer que me espere na capital pode esperar até eu voltar.
â Mestre, muito obrigada â disse Tino. â Acho que te envergonhei.
â NĂŁo me importo. NĂŁo Ă© problema para mim e, alĂ©m disso, estou sempre te causando problemas.
â Ah, de jeito nenhum.
NĂŁo havia ninguĂ©m melhor do que eu quando se tratava de depender dos outros, mas ser dependido de vez em quando era uma sensação agradĂĄvel. Especialmente vindo da Tino, jĂĄ que minha influĂȘncia foi parte do que a levou a se tornar uma caçadora. NĂŁo entendia por que ela era tĂŁo relutante em contar comigo. Sinceramente, achava que nĂŁo haveria problema algum se fizesse isso.
Esperamos nossos parfaits e, como era de se esperar, conversamos principalmente sobre caça ao tesouro. NĂŁo era exatamente o tipo de assunto para um encontro, mas Tino levava isso a sĂ©rio. Ela queria se tornar uma caçadora de primeira linha e, se nĂŁo mais nada, eu tinha experiĂȘncia como caçador, entĂŁo contar sobre minhas vivĂȘncias era o mĂnimo que podia fazer.
â HĂŁ? VocĂȘ nunca se feriu em combate antes? â perguntou ela, arregalando os olhos surpresa.
â Ă sĂł porque o resto dos Grieving Souls Ă© muito forte.
Ansem colocava barreiras, eu tinha AnĂ©is de Proteção, e poucos ataques vinham na minha direção para começo de conversa. Meu mana material era um nĂvel abaixo do de todo mundo, entĂŁo eu nĂŁo me destacava muito numa batalha. Sem nada para fazer, Ă s vezes eu simplesmente sentava e assistia.
No vasto mundo da caça ao tesouro, eu provavelmente era o Ășnico caçador que jĂĄ fez algo assim.
â Eu nĂŁo deveria esperar nada menos, Mestre. Nunca poderia sonhar em te igualar.
NĂŁo sabia por quĂȘ, mas os olhos de Tino brilhavam de admiração enquanto ela falava. Eu nĂŁo havia feito nada digno de admiração ou que valesse a pena ser imitado. Sua admiração equivocada me fez sentir mal, entĂŁo tentei desviar um pouco dela para Liz.
â NĂŁo hĂĄ nada louvĂĄvel em sair ileso. Em vez disso, vocĂȘ deveria buscar a força para continuar mesmo quando estiver ferida. Com esforço suficiente, vocĂȘ atĂ© serĂĄ capaz de dominar a relĂquia.
â NĂŁo tenho tanta certeza…
â NĂŁo, nĂŁo, essa RelĂquia Ă© muito forte e valiosa. SĂł de colocĂĄ-la, quase fez vocĂȘ ficar tĂŁo forte quanto a Liz. Ă diferente de qualquer coisa que jĂĄ vi. SĂł Ă© uma pena que eu nĂŁo consiga usĂĄ-la.
O quĂŁo fraco eu sou se aquela mĂĄscara me rejeitou mesmo depois de eu tĂȘ-la colocado… ah, nĂŁo, nĂŁo, nĂŁo.
Tino recuou quando viu que eu estava começando a me empolgar.
â EntĂŁo, o que estou tentando dizer Ă© que o treinamento da Liz pode ser brutal, mas acho que Ă© para o seu bem â disse eu, tentando mudar de assunto rapidamente. â Ela pode ser rĂgida, mas nĂŁo acho que faça isso para te atormentarâ
â HĂŁ? Ah, mmm. Lizzy estĂĄ certa. Estou muito feliz por ter conhecido vocĂȘ e ela.
â Sitri tambĂ©m nĂŁo Ă© uma pessoa ruim, sĂł Ă© um pouco esquisita. A maioria dos Alquimistas sĂŁo. NĂŁo acho que ela tenha intenção de te atormentarâ
â Hm? Fico envergonhada quando ela me toca na sua frente, mas nĂŁo acho que ela… er, nĂŁo Ă© como se ela fizesse isso o tempo todo.
As respostas de Tino estavam mais tranquilas do que eu esperava. Achei que a pressĂŁo de Liz a estivesse levando ao limite, mas, dado seu comportamento atual, parecia que eu estava errado, e ela nĂŁo era do tipo que mentia.
HĂŁ? SerĂĄ que eu estava errado em pensar que havia um problema?
â Tem algo te incomodando? â perguntei sĂł para ter certeza. â Se houver, me diga e eu resolvo.
â Estou bem. Se tem algo, sĂŁo seus pedidos que mais machucamâ â murmurou Tino, olhando para o chĂŁo. â Ah, mas eu entendo que vocĂȘ se preocupa comigo.
Eu fiz alguma coisa? Fiz algo pior do que fazĂȘ-la beber um para-raios lĂquido e correr por uma tempestade?
Claro, jå mostrei liderança ruim no passado, mas nunca fiz nada por maldade. Não tive a intenção de deixå-la desconfortåvel quando coloquei a måscara nela, e não pretendia fazer com que usasse de novo, a menos que ela quisesse.
Espera. EntĂŁo o que estĂĄ fazendo Tino se sentir tĂŁo mal? NĂŁo pedi nada a ela durante essa viagem. Pelo que me lembro, tenho sido particularmente inofensivo ultimamente.
Inclinei a cabeça, quando a expressão de Tino de repente mudou. Ela se levantou, percebeu que eu estava olhando e se sentou de volta.
â D-Desculpe, Mestre. Tinha vozes lĂĄ fora, eu nĂŁo estava tentando ouvir nem nada, mas elas estavam altas e a Lizzy me ensina a sempre prestar atenção.
â O que foi?
O quĂŁo bons sĂŁo os ouvidos dela para escutar algo do lado de fora? Eu estava ao lado da janela e nĂŁo ouvi nada.
Tino ficou vermelha e começou a despejar uma enxurrada de palavras.
â Eu nĂŁo consegui acreditar totalmente nas suas palavras. Mas isso Ă© por causa de tudo que aconteceu, e algo fĂĄcil para vocĂȘ Ă© algo que pode me matar, e vocĂȘ deveria estar sempre comigo… Me desculpe. Acabei de fazer algo muito vergonhoso.
Suas mĂŁos estavam cerradas em punhos e pressionadas contra os joelhos, enquanto ela tentava parecer menor. Considerando o quanto ela estava envergonhada, eu realmente sentia muito por nĂŁo fazer a menor ideia do que ela estava falando. O que eu podia dizer era que sua fĂ© em mim estava em um nĂvel abismalmente baixo… e que ela ficava muito fofa quando estava vermelha.
Com Tino tão agitada, o garçom perdeu a chance de trazer nossos parfaits.
Tino ergueu o rosto com determinação e declarou:
â Eu tomei minha decisĂŁo. Nunca mais duvidarei das suas palavras!
Exceto que eu não lembrava de ter feito nada para merecer tanta confiança. Na verdade, eu era tão atrapalhado que nem achava que conseguiria lidar com isso. E, mais do que tudo, essa não era a primeira vez que ela dizia isso para mim.
Me desculpe por ter te decepcionado tantas vezes. A culpa Ă© toda minha.
â Acho que essa nĂŁo Ă© a primeira vez que ouço isso â eu disse.
â D-Dessa vez Ă© pra valer! Se vocĂȘ disser que um corvo Ă© branco, entĂŁo ele Ă© branco! Sua vontade Ă© a minha!
Acho que existe uma diferença muito grande nos nossos nĂveis de empolgação. Bem, contanto que ela esteja feliz…
Eu empurrei qualquer dĂșvida para o fundo da minha mente e estava prestes a dar minha resposta de sempre, um simples âĂ, ahamâ, mas Tino me interrompeu.
â AlĂ©m disso, Mestre â ela disse, mexendo nos dedos. â Sei que nĂŁo Ă© da minha conta, e talvez eu nem entenda mesmo se vocĂȘ me contar, mas queria perguntar por questĂŁo de aprendizado. Ă sobre o que aqueles caçadores estavam discutindo. Como vocĂȘ expulsou aqueles orcs do forte?
Do que ela tĂĄ falando?
***
â EstĂĄ delicioso â Tino disse com um sorriso radiante.
O parfait de chocolate era ainda melhor do que eu esperava. Um copo de aproximadamente trinta centĂmetros de altura estava recheado de sorvete, chocolate, biscoitos crocantes e finalizado com uma quantidade quase absurda de chantilly. No topo, havia um pedaço de chocolate em formato de coroa.
A qualidade do chocolate era exatamente o que se esperava de um lugar famoso por sua produção, mas o verdadeiro destaque era a quantidade. Eu tinha certeza de que Liz ou Sitri fariam careta só de olhar para aquilo.
No entanto, o que realmente fez o sabor se destacar foi a informação que Tino havia ouvido. Os orcs tinham ido embora. Mesmo os melhores doces eram difĂceis de aproveitar quando algo estava te preocupando. Eu nĂŁo sabia ao certo por quĂȘ, mas me senti com sorte ao saber que o problema havia ido embora na mesma direção de onde veio. Eu tinha provas de que conseguia evitar confusĂŁo, contanto que mantivesse meus amigos de infĂąncia sob controle.
Bom trabalho, eu!
Tino sorriu, eu sorri, tudo estava indo bem. Eu queria até fazer uma dancinha, mas me contive, porque eu era durão. Em vez disso, apenas sorri silenciosamente. Não sentia vontade de vomitar.
Mas havia um problema. Eu nĂŁo achava que conseguiria terminar aquele parfait.
Olhei para a sobremesa. Eu tinha um gosto secreto por doces, mas, ao contrårio da maioria dos caçadores, não era de comer muito. Eu jå tinha movido a colher vårias vezes, mas o copo ainda estava pela metade.
Enquanto isso, Tino, que havia pedido a mesma coisa, jĂĄ tinha terminado o dela e me observava em silĂȘncio. Caçadores tendiam a comer bastante e rĂĄpido. Eu me perguntava onde ela guardava tanta comida naquele corpinho pequeno.
Eu me sentiria mal deixando comida no prato. Talvez Tino pudesse terminar para mim? NĂŁo, peraĂ, com Liz ou Sitri tudo bem, mas eu nĂŁo podia deixar minha aprendiz terminar a comida de um cara.
Sobreviver ao mundo cruel tornava os caçadores resistentes a muitas coisas que uma pessoa comum poderia estranhar. Talvez Tino não se importasse de comer o resto do meu parfait, mas isso poderia arranhar minha imagem de durão. A menos que jå fosse tarde demais pra me preocupar com isso.
Os olhos negros de Tino me encaravam, ainda brilhando com respeito genuĂno.
Hmm, se ela ainda estivesse com fome, teria pedido outro.
Depois de pensar um pouco, tentei remover um dos biscoitos enrolados do parfait e o estendi para Tino. Minha boca nĂŁo havia tocado nele, entĂŁo achei que nĂŁo teria problema. Seus olhos se arregalaram e ela olhou em volta.
â Uh?! Uhm, hĂŁ? â Ela parecia confusa. â O-Obrigada â ela finalmente disse e deu uma mordida no biscoito. Seu rosto ficou vermelho atĂ© as orelhas. Esse era um lado dela que eu nĂŁo via com frequĂȘncia, e de alguma forma me senti como se estivesse alimentando um animal selvagem. Mas eu tambĂ©m ficaria envergonhado se estivesse no lugar dela.
â TĂĄ gostoso? â perguntei.
â Sim, Ă© muito doce â ela respondeu em voz baixa, mordiscando o biscoito. Ela realmente gostava de doces.
Eu precisava ganhar alguns pontos com ela nessas férias e garantir que não os perdesse depois.
Eu estava começando a relaxar quando um homem com um grande chapéu branco e um avental branco enrolado em seu corpo roliço apareceu do outro lado do café. Ele parecia simpåtico, mas eu jå estava acostumado a estar cercado por caçadores de cara fechada.
Ele veio direto para nĂłs, sem tirar os olhos da gente. Tino pareceu um pouco apreensiva.
â Com licença â ele disse em voz baixa. â Posso estar enganado, mas vocĂȘ por acaso seria o Mil Truques?
Eu tinha usado um documento falso e, mesmo assim, minha identidade tinha sido descoberta. NĂŁo deixei minha surpresa transparecer e olhei para seu rostoâcomo esperado, eu nĂŁo fazia ideia de quem ele era. Esconder minha reação funcionou contra mim, porque o homem sorriu e acenou com satisfação.
â Eu sabia! Esperei tanto por esse dia! Sou o gerente deste cafĂ©.
Ele parecia animado. Pediu para apertar minha mĂŁo e eu apenas deixei acontecer. Ele devia ser tanto o chef quanto o gerente, porque suas mĂŁos cheiravam a açĂșcar. JĂĄ tinha sido reconhecido por caçadores antes, mas nunca um civil tinha me identificado por eu estar aproveitando um doce. Sem falar que ele parecia tĂŁo empolgado por razĂ”es que eu nĂŁo conseguia entender.
Tino olhava para ele com olhos arregalados.
â VocĂȘ Ă© muito famoso nessa indĂșstria â disse o excelente confeiteiro, falando rapidamente. â VocĂȘ Ă© o lendĂĄrio caçador de tesouros que jĂĄ visitou confeitarias por todo o mapa! Dizem que uma loja visitada por vocĂȘ serĂĄ prĂłspera e feliz! VocĂȘ recebeu o apelido de Mil Truques porque experimenta cada item do menu!
â Como esperado do Mestre…
Pisquei duas vezes; isso era novidade para mim.
Minha identidade deveria estar oculta, entĂŁo por que esse cara percebeu tĂŁo facilmente? NĂŁo entendo por que ele estĂĄ me tratando como algum tipo de fada da sorte. Isso nĂŁo tem nada de durĂŁo. Com essa reputação, talvez eu devesse parar de sair de casa, a menos que tivesse um motivo muito bom. Quero me enfiar em um buraco. O que Tino quis dizer com âcomo esperadoâ? E o que ele quis dizer com meu apelido vir do fato de experimentar cada item do menu?
â Reconheci vocĂȘ pelos seus olhos e cabelos negros, alĂ©m da jovem que o acompanha â continuou o confeiteiro. â Estava ansioso pelo dia em que vocĂȘ agraciaria nosso estabelecimento com sua presença, mas jamais imaginei que aconteceria sob tais circunstĂąncias…
â NĂŁo se preocupe. O Mestre jĂĄ lidou com os orcs, pode relaxar â disse Tino, sem que ninguĂ©m tivesse pedido. â O parfait de chocolate estava delicioso, senhor.
â Espera aĂ, eu nĂŁo fiz nada! â intervi.
Eu até aceitaria que esse cara fosse grato pela minha visita, mas não podia deixar que ele me agradecesse por algo que eu nem tinha feito. Isso colocaria um peso nos meus ombros.
â Foram outros caçadores que enfrentaram os orcs, nĂŁo eu. NĂŁo se esqueça disso â falei. â Foi, hĂŁ, apenas coincidĂȘncia eles terem saĂdo do forte. Viu, Tino? Eu nĂŁo fiz nada.
â Se o Mestre diz que foi coincidĂȘncia, entĂŁo foi coincidĂȘncia. Meus perdĂ”es, senhor, esqueça o que acabei de dizer â disse Tino, torcendo minhas palavras com orgulho.
â E-Eu entendo. Se vocĂȘ diz que foi coincidĂȘncia… â murmurou o confeiteiro, assentindo com um olhar compreensivo.
Com um humor impossĂvel de descrever, voltei para o esconderijo com Tino. Assim que abri a porta, Liz pulou em mim, quase como se estivesse esperando exatamente esse momento.
â Bem-vindo de volta, Krai! â saudou Sitri com um sorriso. â Esperamos por tanto tempo. Lizzy queria te seguir, mas eu fiz questĂŁo de impedi-la.
â Como Ă©?! VocĂȘ tambĂ©m estava considerando isso! â gritou Liz. â Bem-vindo de volta, Krai Baby! O que Ă© isso? Trouxe um presente pra gente?
A mudança de atmosfera foi repentina. Passei um braço em torno de Liz e entreguei a caixa que recebemos do confeiteiro para Sitri. Ela estava recheada de chocolates famosos produzidos em Gula. Se eu tivesse que aceitar presentes, então que fosse logo o trono da fada do chocolate.
O sorriso de Tino foi substituĂdo por uma expressĂŁo vazia e indecifrĂĄvel. Eu conhecia Liz hĂĄ mais tempo, mas Tino jĂĄ convivia com ela havia alguns anos. Ela jĂĄ devia saber como Liz era perto dos amigos.
Liz segurou meu braço e esfregou a bochecha contra a minha.
â Estava tĂŁo entediada que pensei em ir atrĂĄs daqueles orcs â disse ela. â Ouvi dizer que eles causaram um estrago e parece que tomaram aquele forte.
â Ah, aparentemente ele foi esvaziado.
â O quĂȘ?! Como assim?
SĂł para garantir, Tino e eu perguntamos por aĂ depois de sairmos da confeitaria. FicarĂamos bem mal se o confeiteiro se machucasse por ter recebido informaçÔes erradas. No fim, descobrimos que o que Tino tinha ouvido era verdade. Os orcs realmente tinham abandonado o forte. Parece que foram vistos correndo pelos campos prĂłximos da cidade, mas sem atacĂĄ-la. A causa era desconhecida, mas com certeza foi uma grande sorte para Gula.
Se uma matilha de orcs começasse a causar destruição numa estrada, as autoridades mais altas do império se envolveriam. Isso aumentaria drasticamente os recursos e a mão de obra investidos para resolver o problema, sem contar que mais caçadores se reuniriam para ajudar. Atacar um forte escondido na floresta era exaustivo, mas nos campos, magias de grande alcance poderiam ser utilizadas.
Nossa Ășnica preocupação era o fato de vĂĄrios corpos ensanguentados terem sido encontrados no forte, quase como se tivesse sido atacado por alguma coisa. Essas situaçÔes desconhecidas sempre causavam problemas para o nosso grupo, e meu instinto dizia que esta poderia ser mais uma dessas vezes.
SerĂĄ que ficaremos bem? Gula parece ser uma cidade bem protegida, mas mesmo assim…
Sitri ouviu nossa explicação com um sorriso e então bateu palmas como se tivesse se lembrado de algo. Sem dizer nada, olhou para Tino e fez um gesto em direção a um frasco colocado sobre a mesa.
â Aqui, T, preparei uma poção do sono para vocĂȘ â disse ela.
Uma poção para induzir um sono profundo. As misturas de Sitri eram sintetizadas com a intenção de serem usadas contra monstros resistentes a poçÔes. Eram perigosas demais para um humano consumir. Certamente nĂŁo era esse o tipo de poção que ela planejava dar para Tino…
â Sitri, vamos embora. EstĂĄ tudo pronto? â perguntei.
â Oh? JĂĄ tĂŁo cedo?
â Fizemos o que precisĂĄvamos fazer.
E isso significava comer os parfaits de chocolate. Ainda havia outras confeitarias que eu queria visitar, mas era difĂcil quando o nome Mil Truques era tĂŁo conhecido na regiĂŁo. A questĂŁo dos orcs tambĂ©m estava me incomodando, alĂ©m de eu estar preocupado com os funcionĂĄrios contratados por Sitri.
â Concordo! Sem o forte, nĂŁo temos mais nada para fazer aqui â disse Liz, juntando as mĂŁos. NĂŁo que tivĂ©ssemos planejado nos envolver com o forte e os orcs desde o começo.
Nossa bagagem jĂĄ estava pronta, mas nĂŁo havĂamos enfrentado monstros, entĂŁo nĂŁo era como se tivĂ©ssemos muito para reabastecer. Juntos, seguimos para a saĂda. As notĂcias sobre os orcs deviam ter se espalhado, porque a cidade estava estranhamente agitada.
â Parece que os orcs foram expulsos por caçadores. Chato. Achei que terĂamos uma chance de lutar â resmungou Liz, carregando um grande estojo ao meu lado. Pelo visto, ela estava ouvindo as conversas ao redor. Ela havia esquecido completamente minhas restriçÔes quanto ao treinamento, mas decidi que estava tudo bem, desde que nĂŁo nos metĂȘssemos em encrenca.
â A empolgação era, de fato, o resultado pretendido â murmurou Sitri para si mesma. â Mas deve ter sido insuficiente se eles foram dispersados tĂŁo rapidamente por meros caçadores. Vou anotar isso. Como eu esperava, facilitar a dispersĂŁo afeta negativamente a eficĂĄcia.
Eu, por outro lado, estava feliz. Com os orcs eliminados, podĂamos deixar a cidade sem preocupaçÔes. SĂł queria que o problema tivesse sido resolvido antes de chegarmos. Passamos pelo portĂŁo bem quando a bandeira de alerta estava sendo abaixada. Deve ter sido um evento raro, pois uma multidĂŁo se reuniu para assistir. Escolhi ignorar e focar nos trĂąmites necessĂĄrios para partir, mas de repente ouvi uma multidĂŁo vibrando nas proximidades. O soldado que me atendia ergueu os olhos, animado.
â Eles foram os principais exterminadores do bando de orcs â explicou. â Os orcs em fĂșria correram direto para alguns caçadores de alto nĂvel e foram completamente aniquilados. SĂŁo herĂłis para Gula.
Meus olhos se arregalaram. Isso era inesperado. Sitri parecia compartilhar do mesmo sentimento. NĂŁo havia muitos caçadores de alto nĂvel em Zebrudia, entĂŁo talvez fossem pessoas que conhecĂamos.
â Isso Ă©, uh… incrĂvel â comentei.
â NĂŁo Ă©?! Era um bando de orcs e, ninguĂ©m sabe o motivo, mas havia outros monstros tambĂ©m. Como um elemental, um de fogo, ainda por cima. Que feito impressionante! â disse o soldado, visivelmente empolgado.
Os caçadores eram realmente incrĂveis. NĂŁo era pouca coisa derrotar um bando de orcs surgido do nada, mas era preciso um azar tremendo para encontrar um no caminho. JĂĄ era ruim o bastante estar viajando direto para um enxame de monstros, mas tambĂ©m topar com um elemental? Quais pecados eles cometeram para merecer tanta desgraça? Era quase tĂŁo ruim quanto minha prĂłpria sorte.
Dentro de mim, senti admiração, pena e empatia. O bando de orcs não era culpa minha, então minha preocupação não passou disso.
Sitri me cutucou com o cotovelo e sussurrou em meu ouvido:
â O elemental de fogo nĂŁo poderia ter algo a ver com o Danger Effect? Isso estava no plano?
â HĂŁ? Uh… mmm… acho que sim?
Fiquei me perguntando do que ela estava falando. Eu não era do tipo que fazia planos, e mesmo quando fazia, eles sempre desmoronavam. Nem precisava dizer que eu não havia planejado nada para essas férias.
Enquanto eu tentava entender o que Sitri quis dizer, a multidĂŁo ao redor dos herĂłis se abriu por um breve momento, me dando um vislumbre deles. Pisquei duas vezes.
Parecia que tinha sido uma batalha difĂcil. Os campeĂ”es estavam em pĂ©ssimo estado, suas armaduras cobertas de arranhĂ”es e amassados, sangue impregnado em seus mantos. Suas expressĂ”es estavam exaustas, seus olhares vagos. Alguns se apoiavam uns nos outros. No entanto, tambĂ©m tinham aquele olhar especial que sĂł se vĂȘ em quem lutou com tudo o que tinha. Eram a imagem perfeita de verdadeiros campeĂ”es.
Mas o mais surpreendente era que eu os conhecia. Isso, por si sĂł, nĂŁo era tĂŁo estranho; afinal, sendo um Ladino, eu conhecia muitos caçadores de alto nĂvel. Mas ali, na frente do grupo, parecendo prestes a desabar a qualquer momento, estava Arnold, lĂder da NĂ©voa Caida. Sua figura imponente, para dizer o mĂnimo, estava surrada e ensanguentada, fazendo-o parecer um guerreiro calejado.
NĂŁo havia dĂșvidas, era Arnold. Arnold, que sĂł causava problemas na capital. Arnold, que era um dos motivos pelos quais eu tinha deixado a capital. Eu nĂŁo sabia por que ele estava ali, mas que coincidĂȘncia…
AtrĂĄs dele, Rhuda e seu grupo pareciam igualmente prestes a cair. O que diabos estava acontecendo?
â Aaah, entendi â disse Liz, estalando os dedos. Parecia que ela havia desvendado algo. â Eu achei estranho que nĂŁo estĂĄvamos atacando os orcs, entĂŁo imaginei queâ
â Vamos logo embora. Nada de bom vai sair se nos virem. AtĂ© gostaria de reatar velhas amizades, mas parece que eles estĂŁo bem ocupados â falei.
â Okaaay!
Prendi a respiração e esperei nosso processo de saĂda ser concluĂdo. Parecia que alguma autoridade estava prestes a levar Arnold e seu grupo para algum lugar. Continuei lançando olhares na direção dele, verificando se havia nos notado. De repente, seus olhos nublados pareceram nos captar. Ele ficou surpreso por um momento e sua boca tremeu. Virei o rosto imediatamente.
Ele nos viu? Talvez nĂŁo? Ele viu, nĂŁo viu?
Fiquei com medo demais para olhar e confirmar. Felizmente, nossa papelada foi finalizada e conseguimos passar pelo portão. Ele estava cansado, provavelmente não teria tempo para se preocupar conosco. Justo quando eu estava começando a relaxar, Liz virou-se graciosamente. Ela mandou um beijo no ar para as costas de Arnold e, antes que eu pudesse impedi-la, gritou com sua voz animada:
â Okaaay, Ăłtimo trabalho aĂ! Devem ter ralado muito se ainda estĂŁo de pĂ©! Claro, era sĂł um bando de orcs, mas isso jĂĄ Ă© bem impressionante para um bando de caipiras! Eu odeio dizer isso, mas estamos realmente ocupados agora. Nos vemos por aĂ!
â H-Hey, Liz, nĂŁo provoca ele â falei. â Sitri, vamos logo.
Alguns segundos depois, ouvimos algo parecido com um rugido de fera vindo do outro lado do portĂŁo.
Acelerei o passo até a nossa carruagem, que nos aguardava logo fora da cidade.
Tradução: Carpeado
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