Grieving Soul â CapĂtulo 1 â Volume 4
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 04
CapĂtulo 1:
[As Responsabilidades de um NĂvel 8]
Eu estava no Ășltimo andar da sede do clĂŁ Primeiros Passos, no escritĂłrio do mestre do clĂŁ, um espaço reservado apenas para mim e os funcionĂĄrios administrativos. Eu tinha um sorriso no rosto enquanto olhava para minha mesa. Cinco pequenas figuras humanas, cada uma com cerca de cinco centĂmetros de altura, corriam sobre a superfĂcie. As miniaturas eram tĂŁo detalhadas que pareciam pessoas reais que haviam sido encolhidas.
Cada uma estava vestida para um papel diferente: havia um Mago, um Paladino, um Espadachim, um Ladino e um Alquimista. Usei vestes e armaduras para cobrir algumas pequenas falhas nelas, mas, no geral, eu estava bastante satisfeito comigo mesmo.
Enquanto esfregava a pulseira quente, fiz as figuras caminharem silenciosamente pela borda da mesa. Elas nĂŁo eram bonecos, que tĂȘm massa, mas sim miragens produzidas pela minha nova RelĂquia, Forma de Miragem. A pista de corrida e a pequena montanha sobre a mesa tambĂ©m eram miragens.
No começo, tive dificuldade para acertar formas e cores, mas depois de dias de pråtica, eu jå conseguia criar miragens bastante elaboradas.
Aparentemente, a RelĂquia tinha um recurso que corrigia pequenos erros do usuĂĄrio. No entanto, isso nĂŁo diminuĂa minha satisfação ao ver meu esforço gerando resultados. Era um tanto chamativa e eu nĂŁo tinha certeza de quĂŁo Ăștil seria na prĂĄtica, mas, como uma RelĂquia voltada para diversĂŁo, eu nĂŁo poderia pedir por nada melhor.
Toquei uma das miragens com o dedo e, ao mesmo tempo, fiz com que ela se movimentasse como se tivesse caĂdo. As outras agiram como se estivessem protestando. Mesmo que eu estivesse apenas manipulando imagens, sentia como se fosse o lĂder de um pequeno grupo de elementais. Eu nĂŁo conseguia parar de sorrir.
Eu queria mostrar isso para alguém, mas, infelizmente, precisava me conter. Ser visto brincando com bonecos destruiria minha imagem de durão.
No meio da brincadeira, adicionei um dragĂŁo pequeno o bastante para caber na palma da minha mĂŁo, mas decidi nĂŁo parar por aĂ. Adicionei outro, e mais outro, e mais outro, atĂ© ter quatro dragĂ”es, todos de cores diferentes, Ă© claro.
Eu jå tinha encontrado muitos dragÔes quando costumava acompanhar os Grieving Souls. Não podia garantir que todos os detalhes estavam perfeitos, mas tinha certeza de que a silhueta estava bem reproduzida.
Os dragĂ”es batiam as asas e voavam ao redor da minha cabeça. Concentrei-me e tentei tornar o voo mais realista. Criar miragens era difĂcil, mas movĂȘ-las nĂŁo era tĂŁo complicado.
O Ășnico defeito da Forma de Miragem era seu alcance limitado a um metro e vinte centĂmetros.
Se eu pudesse expandir esse alcance, abriria novas possibilidades para me divertir. SerĂĄ que existem versĂ”es dessa RelĂquia com um alcance maior?
Como eram apenas miragens, nĂŁo eram afetadas por barreiras fĂsicas. Fiz um dos dragĂ”es passar pela janela, e ele desapareceu no instante em que saiu do meu alcance.
â DragĂŁozinho bem fraco â comentei.
NĂŁo que fosse culpa dele.
Eu estava sorrindo para mim mesmo enquanto fazia os dragÔes voarem, quando a porta do meu escritório se abriu de repente. Um arrepio percorreu minha espinha. Era Eva entrando na sala.
Eu não tinha nenhuma tarefa pendente, mas ser visto brincando feito uma criança me deixava desconfortåvel, então apaguei os dragÔes rapidamente.
Devo ter demorado um segundo a mais do que devia, porque os olhos de Eva se arregalaram.
â O-O que foi isso agora hĂĄ pouco?
â …Nada. SĂł me assustei com sua entrada repentina, sĂł isso.
â HĂŁ? Mas eu bati na porta…
…Eu estava tĂŁo distraĂdo brincando com os dragĂ”es que nem notei a batida. Talvez mexer com miragens no escritĂłrio nĂŁo fosse uma ideia tĂŁo boa.
Eu nem precisava perguntar o que Eva queria, pois conseguia adivinhar só de olhar para a pilha absurda de cartas em seus braços.
Normalmente, os Grieving Souls nĂŁo tinham tanto contato com a nobreza quanto outros grupos de alto nĂvel. Mas, por algum motivo, passamos a receber mais correspondĂȘncias depois que nos envolvemos com o Conde Gladis no leilĂŁo.
Segundo uma investigação da prĂłpria Eva, parecia que estavam circulando rumores de que eu havia salvo Lady Ăclair. NĂŁo importando que foi o Ark e nĂŁo eu quem a salvou…
Caçadores que sonham em ascender na sociedade ou conseguir conexĂ”es poderiam ficar felizes em receber uma carta da nobreza, mas, infelizmente, eu sou um caçador cujo Ășnico sonho Ă© se aposentar. Eu simplesmente recusaria educadamente qualquer carta que recebesse.
â Tem gente muito melhor para eles importunarem…
Se a coisa ficasse realmente ruim, eu poderia até fugir de Zebrudia.
â Esses nobres realmente nĂŁo sabem julgar o carĂĄter das pessoas â murmurei para mim mesmo, mudando de posição na cadeira.
Foi entĂŁo que percebi que o olhar de Eva estava fixo na minha mesa. Mais especificamente, ela estava olhando para as pequenas miragens que eu havia esquecido de apagar.
Eva ergueu os olhos para mim, parecendo duvidar da minha sanidade. As pequenas figuras correram para fora da mesa e pularam na minha direção.
Limpei a garganta, cruzei as pernas e me recostei.
â …EntĂŁo, precisava de alguma coisa?
â VocĂȘ vai simplesmente fingir que nada aconteceu? O que foi isso agora hĂĄ pouco?!
Eva deu a volta na cadeira e olhou debaixo da mesa, mas as figuras jĂĄ haviam desaparecido, entĂŁo ela nĂŁo encontrou nada.
Decidi que, além de durão, eu também seria misterioso. Juntei as mãos e sorri de forma enigmåtica.
â Hmph, atĂ© eu tenho meus segredos.
â Bem… â Eva respondeu. â Eu sei disso…
Ela inclinou a cabeça para os lados e, depois de hesitar, assentiu, como se estivesse forçando a si mesma a aceitar a situação. Deixando o assunto de lado, limpou a garganta.
â Parece que recebemos um bom nĂșmero de cartas da nobreza. Se puder dar uma olhada…
O rosto de Eva ficou tenso.
Sobre minha mesa, havia uma miragem idĂȘntica a mim que nĂŁo estava lĂĄ um momento antes. A miniatura ergueu os braços como se esperasse que ela colocasse as cartas sobre sua cabeça. Lentamente, os olhos de Eva subiram de volta para mim.
Dei-lhe um aceno e, com cuidado, ela colocou os envelopes sobre a miragemâque foi esmagada sob o peso.
O rosto de Eva perdeu toda a cor no mesmo instante, e ela rapidamente ergueu as cartas, mas, naturalmente, nĂŁo havia mais nada. Era como se a figura nĂŁo passasse de uma miragem… e, na verdade, era exatamente isso.
â HĂŁ? Uhh? O queâ
â Ah, nĂŁo se preocupe com isso. Agora, e essas cartas?
Eva parecia confusa, algo raro para ela. Respondi com um sorriso tranquilo.
Isso vai ser muito divertido…
***
Elas estavam no distrito decadente do sudoeste. Em um canto de uma rua onde nenhuma pessoa respeitĂĄvel ousaria andar, Liz estalou a lĂngua, irritada.
â Aaaah. Hah. Esse Ă© o problema com sindicatos mĂĄgicos, eles se recusam a encarar vocĂȘ de frente…
â A maioria dos sindicatos mĂĄgicos sobrevive sendo cautelosa. Embora eu ache que a Torre AkĂĄshica ainda estava um nĂvel acima nesse quesito…
A resposta veio de uma pessoa com um capuz que escondia a maior parte do rosto. Era Sitri Smart.
As duas irmĂŁs estavam seguindo pistas conflitantes obtidas durante o leilĂŁo para rastrear os remanescentes da Torre AkĂĄshica. O golem produzido pelo sĂĄbio desgraçado Noctus Cochlear era uma arma revolucionĂĄria e chamou a atenção de outros laboratĂłrios da Torre AkĂĄshica. NĂŁo havia dĂșvida de que os bandidos que invadiram o depĂłsito do leilĂŁo estavam atrĂĄs do golem. Eles nĂŁo roubaram nada, mas isso foi porque Sitri nĂŁo perdeu tempo em recuperĂĄ-lo assim que o lance final foi dado.
Elas investigaram quem havia dado lances contra elas, como o golem saiu do Departamento de Investigação de RelĂquias e foi parar no leilĂŁo e, por fim, investigaram qualquer pessoa que tivesse tido contato com o vencedor do golemâGreg.
Liz e o resto dos Grieving Souls estavam acostumados a lidar com criminosos. Eles jå haviam enfrentado grupos fantasmas e essa não seria a primeira vez que esmagariam uma organização criminosa ou um sindicato mågico. Mas esse inimigo fazia seus adversårios anteriores parecerem brincadeira de criança.
Para começar, poucas pessoas tinham influĂȘncia suficiente para fazer negĂłcios com o Departamento de Investigação de RelĂquias. Isso significava que quem quer que fosse o inimigo delas, estava conectado com figuras poderosas.
Ajoelhados diante de Liz estavam trĂȘs homens, todos com corpos claramente forjados em batalha. Mesmo por baixo das armaduras gastas, emanavam uma presença avassaladora, tĂpica daqueles que haviam absorvido grandes quantidades de material mĂĄgico. Jogados ao lado deles estavam adagas e lĂąminas de alta qualidade, pintadas de preto. Novas armas desse nĂvel podiam custar mais de dez milhĂ”es de gilds.
A capital imperial era o paraĂso dos caçadores, mas, onde hĂĄ luz, tambĂ©m hĂĄ sombras. Liz seguiu os rastros mais tĂȘnues atĂ© chegar a esses caçadores fracassados. Eles eram ladinos obscuros que realizavam trabalhos discretos de legalidade duvidosa e eram especialistas em combates contra humanos. Eram mais fortes que a mĂ©dia dos caçadores e, ocasionalmente, causavam problemas para a Associação de Exploradores.
Mas, na visĂŁo de Liz, eles nĂŁo passavam de fracassados. Para ela, eram perdedores que esqueceram o verdadeiro propĂłsito de ser um caçador e escolheram caçar humanos fracos em vez de enfrentar monstros, fantasmas e RelĂquias repletas de armadilhas. NĂŁo era que Liz tivesse escrĂșpulos em atacar os fracosâela simplesmente nĂŁo temia covardes que sĂł lidavam com presas fĂĄceis.
Os trĂȘs atacantes estavam com as mĂŁos amarradas nas costas e sacos de papel cobrindo suas cabeças. Seus rostos nĂŁo eram visĂveis, mas seus corpos tremiam de nervosismo e o cheiro de suor e sangue impregnava a viela estreita.
Eles eram mercenĂĄrios experientes, treinados para nunca baixar a guarda, mas Liz os derrotou sem dificuldades. EncontrĂĄ-los foi a parte mais difĂcil. No entanto, depois de capturĂĄ-los com muito, muito cuidadoâela nĂŁo podia deixar que morressem antes da horaâ, Liz conseguiu informaçÔes inesperadas.
Os mercenĂĄrios nĂŁo sabiam nada sobre seu contratante. Haviam sido contatados por carta e pagos adiantado. Se tivessem conseguido roubar o item em questĂŁo, talvez seu cliente tivesse se revelado, mas agora jĂĄ era tarde demais para Liz e Sitri mudarem seu plano de ataque.
Os mercenĂĄrios pareciam estar dizendo a verdade. Sitri usou uma poção ilĂcita que os forçou a falar, e eles entregaram seus nomes, parentes, histĂłrico de trabalho e muito mais. NĂŁo pareciam ter qualquer resistĂȘncia a esse tipo de substĂąncia.
Depois de dias de investigaçÔes infrutĂferas, Liz estava perdendo a paciĂȘncia.
â E vocĂȘ nĂŁo sabe de nada, mesmo tendo trabalhado com aquela turma? â resmungou para Sitri.
â Fomos completamente isoladas dos outros laboratĂłrios, e eu nĂŁo pude ficar lĂĄ tanto tempo quanto planejei… â respondeu Sitri, com uma expressĂŁo preocupada.
A Torre AkĂĄshica era construĂda sobre o sigilo. Fundamentamente, todos os sindicatos mĂĄgicos eram reservados, mas a Torre AkĂĄshica levava isso ao extremo.
Magos rejeitados por um motivo ou outro seguiam suas próprias pesquisas isoladas; sem contato entre si, não tinham como saber nada sobre os outros laboratórios. A coordenação entre eles era feita por especialistas que garantiam que cada um soubesse apenas o necessårio sobre suas próprias operaçÔes.
Como primeira discĂpula de Noctus Cochlear, Sitri participou de vĂĄrios projetos de pesquisa, mas nunca saiu do laboratĂłrio. Seu plano era, eventualmente, se conectar com os outros laboratĂłrios, mas a necessidade disso desapareceu diante das instalaçÔes, do orçamento e da grandiosidade do laboratĂłrio de Noctus.
Se Krai não tivesse ordenado seu retorno, ela ainda estaria lå, trabalhando alegremente. Se soubesse que as coisas terminariam assim, teria coletado informaçÔes aos poucos. Noctus talvez soubesse de algo, mas ele perdeu a memória e agora estava na prisão. Não havia muito que Sitri pudesse fazer nesse caso.
Elas estavam lidando com uma organização gigantesca, considerada inimiga do mundo hå muito tempo. Liz e Sitri eram fortes, mas sua força não era do tipo certo para enfrentar esse inimigo. Estava claro que a Torre Akåshica tinha suas garras cravadas nas camadas mais altas de Zebrudia. Investigar e apresentar provas não seria suficiente.
Se eles iam lidar com pessoas com conexÔes em altos escalÔes, Liz e Sitri não poderiam mais considerar a lei sua aliada. Não que houvesse qualquer prova que pudessem encontrar.
Liz soltou um bocejo felino.
â Estou cansada disso. Vamos desistir? â disse ela, indiferente. â Estamos perdendo tempo, e Greg estĂĄ seguro. Provavelmente seguro. NĂŁo tenho tempo a perder com covardes. Temos o golem, entĂŁo, quem liga para o que acontece depois?
Deixando a força de lado, um sindicato mågico com amigos influentes parecia apenas uma grande dor de cabeça. Se não fossem meticulosas, isso poderia voltar para assombrå-las e, francamente, Liz simplesmente não estava interessada. O risco e a recompensa não combinavam.
â Puxa, Lizzy, vocĂȘ perde o interesse rĂĄpido demais!
â Se vocĂȘ quer novos materiais, temos trĂȘs pessoas bem aqui. NĂŁo pode simplesmente usĂĄ-los?
Liz fez um gesto na direção dos trĂȘs mercenĂĄrios capturados. Sitri franziu a testa e protestou.
â Como vamos transportĂĄ-los?! Vamos chamar atenção se os carregarmos atĂ© o laboratĂłrio. AlĂ©m disso, para meu prĂłximo experimento, eu quero Magiâ
â Pouco me importa. NĂŁo pode simplesmente capturar uns Magi quando precisar?
â HĂŁ? Lizzy, vocĂȘ nĂŁo conhece as regras da guilda?
Os Grieving Souls tinham trĂȘs regras. Todo mundo se dĂĄr bem. Nada de ferir os normies. Democracia; se houver diferença de opiniĂŁo, decida por votação (o lĂder da guilda tinha cinco votos, a propĂłsito).
Elas eram um tanto prudentes demais, mas Sitri as considerava sensatas. Enquanto aquela segunda regra existisse, ela nĂŁo poderia tocar nos normies. Mesmo quando fazia parte da Torre AkĂĄshica, nunca havia participado diretamente dos experimentos humanos realizados com pessoas sequestradas do distrito decadente. Ela deixava isso para os outros discĂpulos. Isso levou seu mentor, Noctus, a considerĂĄ-la fraca, mas Sitri nĂŁo teve escolha a nĂŁo ser aceitar.
Das laterais da estrada e das janelas, os moradores observavam Liz e Sitri com olhares nublados. Enquanto Sitri parecia perdida em contemplação, Liz bateu as mãos, animada; teve uma ideia genial.
â …Tive uma ideia! NĂŁo quero muito, mas que tal pedirmos ajuda para o Krai Baby?
Sitri nĂŁo soube o que dizer.
â TĂĄ tudo bem â continuou Liz. â O Krai Baby Ă© gente boa, aposto que jĂĄ sabia que isso ia acontecer. Se vocĂȘ tem medo de pedir, eu peço! Assim nĂŁo perdemos tempo, eu passo um tempinho com ele e a Tino ganha um pouco de treino. Perfeito! QuestĂŁo resolvida!
Sem esperar uma resposta de Sitri, Liz chegou à sua própria conclusão e cruzou os braços, confiante.
Sitri olhou para a irmã e começou a pensar.
Incomodar Krai era algo que ela queria evitar a todo custo, mas, no ritmo atual, a investigação não levaria a lugar nenhum. Sem falar que jå tinha causado bastante problema para Krai desde que se tornou uma caçadora. Ela recorria a ele para pedir conselhos hå muito tempo, e jå tinha passado do ponto de se preocupar com incomodå-lo um pouco mais.
Ela refletiu um pouco, mas nĂŁo conseguiu pensar em uma ideia melhor. No fim, chegou Ă mesma conclusĂŁo que Liz. Isso acontecia bastante, mesmo quando suas opiniĂ”es divergiam no inĂcio.
Quando percebeu o que Sitri estava pensando, Liz ficou ereta e apontou para os trĂȘs cativos.
â E o que vamos fazer com esses caras?
â Mmm, nĂŁo podemos levĂĄ-los para casa…
Eles estavam amarrados, drogados com um soro da verdade e cobertos de ferimentos, mas, com o tempo, seus corpos se recuperariam. JĂĄ seus coraçÔes… eram outra histĂłria. Para falar a verdade, Sitri nĂŁo se importava. Seu laboratĂłrio ficava longe e havia riscos demais em levĂĄ-los para lĂĄ. Eles tinham feito inimigos daqueles trĂȘs, mas para os Grieving Souls, o que eram trĂȘs a mais neste ponto? Sitri levou um dedo aos lĂĄbios e piscou algumas vezes.
â Se matarmos eles e deixarmos os corpos, as pessoas vĂŁo se juntar e, atĂ© amanhĂŁ, nem um pedacinho dos ossos deles vai sobrar…
â Hmmm, entĂŁo vamos com essa opção?
Elas falavam com a naturalidade de quem discutia planos para o jantar. Os cativos certamente ouviram isso; sua respiração ficou mais ofegante. Haviam empalidecido, mas Sitri não conseguia ver por causa dos sacos de papel.
A indiferença de Sitri e Liz deixou claro uma coisa para os cativos: suas vidas nĂŁo valiam nada para aquelas duas. Elas eram pessoas que podiam matar sem hesitar. Os trĂȘs começaram a tremer, atĂ© que a voz de Sitri soou como uma revelação.
â Ah, espera, Lizzy. Em vez de matĂĄ-los, podemos transformĂĄ-los em nossos capangas! Estou procurando alguns subordinados acostumados a sujar as mĂŁos. Eles nĂŁo sĂŁo bons o suficiente para fazer outro Matadinho, mas Ă© melhor reciclar do que jogar fora, nĂŁo acha?
â HĂŁ? Capangas? O que eu vou fazer com capangas fracotes?
â Bom, entĂŁo eu fico com os trĂȘs! Ah, mas espera, preciso perguntar a opiniĂŁo deles. Se nĂŁo estiverem interessados em virar capangas, vou ter que descartĂĄ-los… â Sitri fez uma pausa, pensativa. â Mas Krai nĂŁo parece aprovar matar…
Sitri se aproximou dos trĂȘs cativos e tocou gentilmente o pescoço exposto de um deles. Ela achou que ouviu alguĂ©m prendendo a respiração. Os sacos de papel nĂŁo eram como o que Matadinho usava; eram apenas sacos de papel imundos, sem buracos para os olhos.
Respirando calmamente, Sitri fez a pergunta.
â Ei, vocĂȘs trĂȘs, que tal virarem meus capangas? Podem continuar trabalhando como mercenĂĄrios. Claro, nĂŁo vou forçar ninguĂ©m, sĂł se estiverem a fim.
â Hein, quem Ă© que ia querer ser seu capanga, Siddy? Nada de bom espera por vocĂȘs nessa vida, talvez seja atĂ© melhor estar morto. NĂŁo Ă©? Ei, respondam, bando de inĂșteis!
***
Um homem careca me olhou com desdĂ©m. Mesmo com a pacificadora Kaina ao lado dele, sua presença nĂŁo era o suficiente para equilibrar a fĂșria do homem. Eu sabia que essa postura era necessĂĄria para que os caçadores o levassem a sĂ©rio. Sabia que Gark nĂŁo queria realmente parecer que estava me encarando com raiva. Mas eu era um covarde que nĂŁo conseguia evitar recuar diante dele.
Fazia um tempo desde que a Associação dos Exploradores tinha me abordado. Gark era o gerente da filial da Associação na capital, o que significava que ele era um homem extraordinariamente ocupado. Eu nĂŁo conseguia imaginar um Ășnico bom motivo para ele vir atĂ© a casa do clĂŁ sĂł para falar comigo. TambĂ©m tinha algumas palavras a dizer para Eva, que levou meu arqui-inimigo diretamente atĂ© mim.
Fui colocado na sala de recepção do prédio da Associação e passei alguns minutos sendo alvo de um olhar que poderia matar um fantasma. Gark lentamente abriu a boca e começou a falar com sua voz intimidadora de sempre.
â EntĂŁo, Krai, ouvi dizer que vocĂȘ foi arrumar briga com a Casa de Gladis?
â NĂŁo â eu disse. â NĂŁo foi uma briga.
Ainda assim, eu jĂĄ estava pronto para me ajoelhar.
â Senhor, parece que trouxe Krai aqui apenas para repreendĂȘ-lo â Kaina interveio, em tom repreensivo.
Oh, parece que me chamaram aqui por outro motivo. Que surpresa.
Eu estava acostumado demais a ser repreendido e Gark estava acostumado demais a repreender os outros. Parecendo um pouco desconfortĂĄvel, Gark pigarreou.
â NĂŁo se trata disso. Gladis nos enviou uma nota de agradecimento. Ă para vocĂȘ e para Ark.
Eu nĂŁo sabia por que estava recebendo uma nota de agradecimento, mas se era para mim e para Ark, entĂŁo deveriam ter chamado Ark. Eu, infelizmente, estava muito ocupado. De verdade, estava. Produzir miragens era uma arte profunda.
Preciso voltar para casa e continuar praticando minha miniatura da capital imperialâ
â Outra coisa, junto com a nota de agradecimento veio uma missĂŁo nomeada endereçada a vocĂȘ. Uma missĂŁo nomeada do conde, apesar de seu desgosto por caçadores. O conteĂșdo da missĂŁo nĂŁo parece ser um passeio no parque, mas o pagamento compensa. Acho que Ă© um teste tanto da sua força quanto da sua etiqueta. Aceite.
Uma missĂŁo nomeada era uma missĂŁo designada para um caçador ou equipe especĂficos. Receber uma missĂŁo nomeada era uma prova de que um caçador havia se tornado famoso, era confiĂĄvel ou tinha força reconhecĂvel. Essas missĂ”es tendiam a ser difĂceis, mas pagavam quantias generosas e, dependendo do cliente, podiam atĂ© trazer prestĂgio.
Quando recebi minha primeira missĂŁo nomeada, todos me parabenizaram. Eu, Ă© claro, recusei a missĂŁo porque parecia perigosa.
Essa era uma missão formal feita por meio da Associação dos Exploradores. Como o cliente era um nobre, eu precisava escolher bem minhas palavras. Com uma expressão séria, confirmei o mais importante.
â E essa missĂŁo pode ser aceita por qualquer um?
â VocĂȘ enlouqueceu? â Gark disse.
Era uma missĂŁo de um nobre que desprezava caçadores. Provavelmente, essa era uma chance para a Associação mostrar ao Conde Gladis o quĂŁo Ășteis os caçadores podiam ser, mas eu nĂŁo queria fazer parte disso. Eu nĂŁo precisava ouvir o conteĂșdo da missĂŁo para saber que estava alĂ©m do que eu poderia tolerar. AlĂ©m disso, uma missĂŁo como essa sĂł poderia ser um incĂŽmodo para alguĂ©m que queria se aposentar da caça ao tesouro.
Fingi pensar seriamente e entĂŁo recorri Ă s minhas tĂĄticas de sempre.
â No momento, apenas dois outros do meu grupo estĂŁo disponĂveis â disse a Gark. â NĂŁo Ă© que eu nĂŁo queira aceitar essa missĂŁo nem nada, mas nĂŁo seria melhor deixar isso para Ark?
Tentei avaliar a reação de Gark enquanto falava. Ele soltou um suspiro profundo e, atrås dele, Kaina deu um sorriso aflito.
Quando Gark falou, foi com uma voz mais calma do que eu esperava.
â VocĂȘ deveria aceitar essa missĂŁo. Krai, vocĂȘ nĂŁo aceitou uma Ășnica missĂŁo neste perĂodo, nĂŁo foi?
â Ah, minha cota? JĂĄ chegou essa Ă©poca?
â Isso nĂŁo Ă© brincadeira.
Caçadores pertencentes Ă Associação dos Exploradores precisavam cumprir uma cota ajustada de acordo com seu nĂvel. Eles podiam explorar cofres de tesouro, exterminar monstros poderosos e fantasmas ou completar missĂ”es trazidas por terceiros. Se falhassem sucessivamente em cumprir essas cotas, seriam desqualificados como caçadores e expulsos da Associação dos Exploradores.
Inicialmente, essas cotas foram implementadas simplesmente para evitar a proliferação de “caçadores apenas no nome”âpessoas registradas como caçadores, mas que nĂŁo se envolviam em atividades relevantes.
As cotas eram baixas o suficiente para que o caçador mĂ©dio nem precisasse se preocupar com elas. ExceçÔes eram feitas para aqueles com ferimentos ou outros motivos vĂĄlidos para uma pausa. Mesmo que alguĂ©m falhasse uma vez em cumprir sua cota, bastava compensar no prĂłximo perĂodo. Como resultado, muitos caçadores simplesmente esqueciam que esse sistema existia.
No entanto, esse sistema era um inferno para pessoas que nĂŁo realizavam missĂ”es; pessoas como eu. Como lĂder, eu acumulava prestĂgio automaticamente pelas açÔes de Primeiros Passos e Grieving Souls. As cotas, no entanto, sĂł podiam ser cumpridas com atividades pessoais.
A dificuldade de uma cota era baseada no seu nĂvel. Franzi a testa e tentei lembrar, mas nĂŁo fazia ideia de qual era minha cota.
Certo. Provavelmente nunca soube em primeiro lugar.
â Quantos perĂodos jĂĄ se passaram? â perguntei.
â TrĂȘs perĂodos, seu idiota! Droga, Krai, vocĂȘ vai ser expulso!
Um perĂodo era meio ano, entĂŁo, segundo meus cĂĄlculos, fazia um ano e meio que eu nĂŁo fazia nada.
Agora que penso nisso, lembro de ter tido essa mesma conversa seis meses e um ano atrĂĄs.
â NĂŁo achamos que vocĂȘ esteve ocioso â Kaina disse com um sorriso preocupado. â Mas, para quem vĂȘ de fora, vocĂȘ Ă© o Ășnico caçador que nĂŁo aceita missĂ”es…
â NĂŁo precisa se desculpar com ele, Kaina. Se ele quer passar todos os seus mĂ©ritos adiante, isso Ă© problema dele.
Mas eu estive ocioso, pensei.
Por exemplo, a coleta de carcaças no Covil do Lobo Branco foi feita por Tino e seu grupo, e foi Sven e seu grupo que investigaram a anomalia. Por que eu tentaria assumir o crédito depois de ter repassado essas missÔes para os outros?
AlĂ©m disso, missĂ”es frequentemente tinham recompensas definidas antecipadamente; minha participação apenas diminuiria o valor recebido pelos outros caçadores. Eu era tecnicamente um NĂvel 8, o que significava que meu pagamento seria alto, reduzindo ainda mais o valor das recompensas dos outros.
Se eu pudesse simplesmente me registrar para uma missĂŁo com outros caçadores sem diminuir o pagamento deles, eu faria isso, mas esse nĂŁo era o caso. Eu entendia que era um ser humano inĂștil; empurrava missĂ”es para os outros, me afundava em dĂvidas e deixava a administração do clĂŁ nas mĂŁos da Eva. No entanto, nĂŁo era tĂŁo descarado a ponto de cortar uma parte do pagamento de outra pessoa.
â Seria inĂ©dito um nĂvel 8 ser expulso por nĂŁo atingir a cota. EntĂŁo isso nĂŁo parece uma boa chance para evitar que isso aconteça? E eu sei que, se nĂŁo tivĂ©ssemos te chamado aqui, vocĂȘ nunca viria por conta prĂłpria.
O próprio Gark me trouxe até o prédio da Associação. Fala sério, que tratamento VIP.
Me desculpem por todo o problema que eu sempre causo.
Ainda assim, eu nĂŁo tinha a menor motivação para fazer isso. Para falar a verdade, ser expulso da Associação dos Exploradores nĂŁo me incomodaria nem um pouco. Mesmo que eu fosse começar a aceitar missĂ”es, faria missĂ”es mais fĂĄceis, nĂŁo essa missĂŁo nomeada do conde. AlĂ©m disso, eu tinha a ilusĂŁo ingĂȘnua de que, mesmo que nĂŁo atingisse minha cota, Gark daria um jeito de encobrir isso.
Ă, eu sou um caso perdido.
Alguém, por favor, faça um pedido para recriar uma miniatura da capital imperial usando miragens.
â Mmm, na verdade, eu estou cheio de coisas para fazer agora.
â Ah, Krai, vocĂȘ sempre estĂĄ cheio de coisas para fazer â comentou Kaina.
â Ah? E no que vocĂȘ estĂĄ enrolado desta vez? â perguntou Gark. Seus lĂĄbios se curvaram e suas bochechas se contraĂram; era um sorriso intimidador.
Esse sorriso… Ele sabe que estou mentindo.
Olhei para o calendĂĄrio na parede. Ainda faltavam trĂȘs meses para o fim do perĂodo. De qualquer forma, mesmo na remota possibilidade de eu aceitar uma missĂŁo, nĂŁo poderia ser uma de um nobre; falhar nĂŁo era uma opção quando se tratava deles. NĂŁo havia nada que eu pudesse fazer sozinho, entĂŁo precisava ganhar tempo atĂ© o resto dos Grieving Souls voltar.
Eu tinha acabado de conseguir uma RelĂquia divertida, e aĂ essa dor de cabeça aparece. Olhei para a xĂcara de chĂĄ Ă minha frente, engoli seu conteĂșdo insĂpido de uma vez e entĂŁo soltei algumas palavras igualmente sem graça.
â Bem, ainda hĂĄ tempo, e eu tenho meus prĂłprios planos. Vou ver se consigo encaixar isso na minha agenda.
â Essa Ă© uma missĂŁo importante. VocĂȘ tem uma semana para decidir. Se nĂŁo vier atĂ© mim atĂ© lĂĄ, eu irei atĂ© vocĂȘ. Certo, por ora, vou te entregar o arquivo que recebemos da Casa Gladis â disse Gark.
â NĂŁo preciso dele agora. Venho buscar quando estiver pronto.
Eu tinha aliados em quem podia confiar. NĂŁo me orgulhava disso, mas podia me humilhar diante do Ark para convencĂȘ-lo a me acompanhar em uma missĂŁo. As regras da Associação dos Exploradores tinham suas brechas; eu sabia que podia dar um jeito na cota. Meu problema era como me livrar da missĂŁo nomeada que o Conde Gladis teve a gentileza de me mandar.
â Ah, Ă© mesmo â disse Gark. â Esta Ă© a primeira vez que o Conde Gladis emite uma missĂŁo nomeada. Planejamos enviar um membro da Associação para dar suporte. Eles farĂŁo de tudo para nĂŁo atrapalhar. EstĂĄ bem para vocĂȘ?
â Mmm, sim, tudo bem. Mas eu tenho muita coisa para fazer e ainda nĂŁo decidi se vou aceitar a missĂŁo.
Eu nĂŁo era bom em lidar com nobres. Nada seria mais reconfortante do que ter um profissional junto.
Ainda assim, eu nem tinha começado e jå estava exausto. Decidi que voltaria para meu quarto e brincaria com a Mirage Form enquanto tentava bolar um bom plano.
Enquanto atravessava o saguĂŁo do prĂ©dio da Associação, girei os ombros, que estavam rĂgidos de tanta tensĂŁo. Por conta do horĂĄrio incomum, havia poucas pessoas no saguĂŁo, que geralmente era movimentado.
Quando cheguei à capital, o prédio da Associação parecia um lugar intimidador, mas depois de cinco anos, eu jå tinha me acostumado.
Havia o quadro de missĂ”es â dei uma olhada de relance ao passar.
Havia o quadro de notĂcias â dei uma olhada de relance ao passar.
Havia o quadro de recompensas â dei uma olhada de relance ao passar.
Eu jĂĄ sabia que nĂŁo havia nada que pudesse fazer para cumprir a cota de um nĂvel 8 sozinho. Andei pelo saguĂŁo e verifiquei em frente ao balcĂŁo, na mesa de avaliação e na biblioteca, mas ainda assim nĂŁo encontrei o que procurava. Soltei um suspiro profundo.
Eu estava procurando proteção. Mais especificamente, caçadores com a marca Primeiros Passos que pudessem me ajudar. Como regra geral, eu não gostava de sair sozinho. As ruas entre a Associação dos Exploradores e a casa do nosso clã eram sempre movimentadas, e era praticamente garantido que eu não seria atacado nesse trajeto. Mas ainda assim, eu não queria arriscar.
Sempre que saĂa da casa do clĂŁ por conta prĂłpria, encontrava um guarda-costas razoĂĄvel e arranjava uma justificativa plausĂvel para levĂĄ-lo comigo. Em outras palavras, eu sĂł saĂa quando tinha proteção.
No entanto, depois de ser arrastado para a Associação pelo Gark, nĂŁo tinha outra escolha a nĂŁo ser voltar para casa sozinho. Na ida, tudo bem, porque Gark estava comigo, mas na volta eu teria que enfrentar o caminho sozinho. Claro, eu estava equipado atĂ© os dentes com RelĂquias, mas isso era mais um efeito placebo do que qualquer outra coisa.
â Puxa vida, eu queria que o Gark parasse de me chamar tĂŁo de repente. Nem era tĂŁo urgente assim â resmunguei. â Eu sei da minha cota, ele nĂŁo precisava me lembrar.
Balancei a corrente na minha cintura e espreitei pela porta do saguão para ver o mundo lå fora. Em frente ao prédio da Associação, havia uma rua larga o suficiente para vårias carruagens passarem. Carros de mercadores iam e vinham, pedestres apertavam os olhos sob o sol brilhante. Ninguém parecia estar sentindo a mesma inquietação que eu.
A paisagem aliviou um pouco da minha tensĂŁo. Era estranho para um caçador â o que eu tecnicamente era â estar tĂŁo nervoso quando atĂ© mesmo os civis estavam tranquilos.
Acho que nĂŁo tenho escolha. Com certeza, nada vai acontecer.
Estufei o peito e coloquei uma expressĂŁo serena antes de reunir coragem e dar um passo confiante para fora.
Dentro de Zebrudia, ser um caçador de alto nĂvel trazia um certo prestĂgio. O termo “caçador” abrangia um grupo de pessoas com funçÔes, experiĂȘncias e especializaçÔes extremamente variadas. Ainda assim, caçadores de NĂvel 5 ou superior eram considerados de primeira linha e costumavam ser procurados por paĂses, nobres, grandes empresas comerciais e afins. Quanto maior o nĂvel, maior a influĂȘncia que podiam exercer.
Caçadores a partir do NĂvel 5 tambĂ©m começavam a atrair fĂŁs. Isso incluĂa pessoas como Ark, descendente de herĂłis, mas atĂ© mesmo alguĂ©m tĂŁo violento quanto Liz tinha seus admiradores. Na era dourada da caça ao tesouro, caçadores eram tanto guerreiros quanto uma espĂ©cie de Ădolos.
Essa fama era uma das muitas coisas que podiam trazer riqueza e honra a um caçador. Por outro lado, eu, que tinha me tornado um NĂvel 8 por meio de circunstĂąncias misteriosas, praticamente nĂŁo tinha fĂŁs. Isso porque, assim que percebi que estava começando a chamar atenção, senti o perigo e passei a esconder meu rosto o mĂĄximo possĂvel.
Embora meu rosto nunca tenha saĂdo no jornal, nĂŁo era como se eu pudesse evitar que absolutamente todos soubessem minha aparĂȘncia. Havia algumas pessoas que me reconheciam, mas, no geral, a verdadeira identidade do Mil Truques permanecia desconhecida. Os outros dois NĂvel 8 na capital estavam entre aqueles que nĂŁo sabiam como eu era, algo que poucos caçadores de alto nĂvel poderiam dizer.
Tudo isso era para evitar os inimigos que vinham com a posição de caçador de alto nĂvel. Isso incluĂa manĂacos sedentos por sangue como Luke, que desafiavam qualquer um para um duelo assim que descobriam que eram fortes. TambĂ©m incluĂa criminosos que guardavam rancor porque seus comparsas haviam sido capturados por caçadores.
Havia organizaçÔes criminosas especializadas em roubar as RelĂquias dos caçadores e parasitas querendo se aproveitar da fama deles. Eu poderia passar o dia inteiro listando os inimigos que um caçador podia fazer e, ao contrĂĄrio de outros caçadores de alto nĂvel, eu nĂŁo tinha força para lidar com essas encrencas.
Quem poderia me culpar por esconder meu rosto e andar com um guarda-costas ao sair de casa? Eu equipava o mĂĄximo de RelĂquias que conseguia e evitava ruas pouco movimentadas sempre que possĂvel. Podiam me chamar de covarde, mas duvido que alguĂ©m entenderia minha situação.
Com extremo cuidado, segui para a sede do clĂŁ. Eu queria esconder meu rosto, mas, nessas circunstĂąncias, isso sĂł me faria chamar ainda mais atenção. Infelizmente, ainda nĂŁo estava no ponto de poder usar a Forma de Miragem para disfarçar minha aparĂȘncia. Com a Face ReversĂvel, isso teria sido possĂvel desde o começo, mas o problema nĂŁo era a força da RelĂquia, e sim suas limitaçÔes.
Felizmente, ninguém olhava para mim. Quando se tratava de parecer um civil comum, eu era insuperåvel. Liz certa vez me disse:
â VocĂȘ Ă© incrĂvel, Krai Baby, Ă© quase como se fosse uma pessoa normal!
Era esse o meu nĂvel. Claro, minha quantidade de mana materializada era praticamente inexistente, e eu nĂŁo tinha nenhuma postura de guerreiro.
E isso porque eu nĂŁo era um guerreiro.
Enquanto pensava nessas bobagens, seguia pela rua quando, de repente, senti uma mĂŁo pousar no meu ombro por trĂĄs.
Um calafrio percorreu minha espinha, e eu me virei lentamente.
â Krai, faz tempo.
â Ă, faz um tempo.
A pessoa educada atrĂĄs de mim era um jovem efeminado de olhar gĂ©lido e cabelos azuis. Parecia ter a mesma idade ou um pouco menos que Tino. Vestia-se como um civil, sem equipamentos de proteção visĂveis ou armas. Isso sĂł tornava seu olhar penetrante ainda mais inquietante.
Mas mais do que sua aparĂȘncia, algo me incomodava.
Quem Ă© vocĂȘ?, pensei.
â Desculpe incomodar assim do nada. Me dĂłi dizer isso depois de tanto tempo sem falar com vocĂȘ, mas hĂĄ algo que eu gostaria de discutir.
Quem Ă© vocĂȘ?
Sem pensar direito, acabei dizendo “faz um tempo”, mas nĂŁo fazia a menor ideia de quem era essa pessoa. JĂĄ mencionei antes, mas sĂŁo poucas as pessoas de quem eu consigo lembrar o nome e o rosto ao mesmo tempo. No entanto, duvido que ele seja um membro do Primeiros Passos. Por alguma razĂŁo, havia uma regra no nosso clĂŁ de que eu precisava conhecer pessoalmente cada novo recruta.
O fato de eu nĂŁo saber o nome dele nĂŁo era tĂŁo estranho, mas eu tinha dificuldade em acreditar que esqueceria um rosto. Pelo que parecia, eu o conhecia de alguma forma, e nĂŁo parecia um caso de identidade trocada.
SerĂĄ que ele era um fĂŁ meu…? Imediatamente descartei essa ideia. Ele tinha um rosto delicado e olhos frios como gelo. Era um homem bonito com uma aura gĂ©lidaâdefinitivamente nĂŁo o tipo de pessoa que se juntaria ao nosso grupo.
Quem Ă© vocĂȘ?
â Considerando o momento, imagino que jĂĄ tenha uma ideia do motivo de eu estar aqui…
Quem Ă© vocĂȘ?
Decidi abrir um sorriso tranquilo, apesar da confusĂŁo, enquanto o jovem continuava falando. Bem que ele podia se apresentar… ou, pelo menos, usar um crachĂĄ como a Chloe.
VocĂȘ acha que eu vou lembrar de vocĂȘ? Mal lembro dos membros do meu prĂłprio clĂŁ.
â Sei que o Gark te chamou para tratar de negĂłcios, entĂŁo nĂŁo vou tomar muito do seu tempo. Se puder apenas vir comigoâKrai?
â Ah, entendi â falei. â Que coincidĂȘncia. Eu estava justamente pensando que precisava te encontrar tambĂ©m.
O jovem pareceu surpreso.
Eu havia decidido sorrir e entrar no jogo 100%. Eu nĂŁo tinha ideia de quem ele era, mas ele nĂŁo parecia alguĂ©m que simplesmente aceitaria um “nĂŁo” e iria embora. NĂŁo tinha como eu admitir que nĂŁo lembrava do nome dele.
Se eu fosse tão audacioso quanto a Liz, poderia simplesmente dizer na cara dele que não me lembrava, mas, infelizmente, sou um cara que sempre hesita. Também ajudava o fato de que eu não compartilhava da sede de sangue dela.
O jovem ficou ligeiramente desconcertado por um instante, mas logo retomou a postura fria.
â Eu devia imaginar que entenderia, Mil Truques. Bem, entĂŁo, por favor, venha comigo. Esse nĂŁo Ă© o tipo de conversa para termos aqui em pĂ©. Talvez um cafĂ© prĂłximo sejaâ
Ă agora!
Eu não estava totalmente contra acompanhar esse sujeito (pensando bem, estava sim), mas não tinha nenhuma intenção de ir sozinho, mesmo que fosse só para conversar, mesmo que ele fosse só um jovem desarmado!
Minha esperança era que ele falasse comigo enquanto eu ia para a sede do clã, onde eu teria proteção.
â Desculpe â falei. â PoderĂamos passar na sede do meu clĂŁ antes? Fica logo aliâ
De repente, um terceiro elemento entrou na conversa.
â AĂ estĂĄ vocĂȘ, Arty! Saiu correndo do nada! HĂŁ? VocĂȘ encontrou ele?!
Do outro lado da rua, uma garota de cabelos loiros como a luz do sol se aproximou. Tinha grandes olhos verdes e a pele sem uma Ășnica ruga. Sua roupa nĂŁo era particularmente chamativa, o que me fez supor que ela nĂŁo era uma caçadora.
E, claro, eu também não a reconhecia.
O jovem chamado Arty manteve sua expressĂŁo fria, mesmo apĂłs ouvir a voz animada da garota.
â Ah, Mary. Parece que Krai tambĂ©m estava nos procurando. Parece que ele vai vir conosco.
â Oh, muito obrigada, Krai! Fico tĂŁo feliz. Isso significa uma preocupação a menos para mim…
A garota chamada Mary colocou a mĂŁo no peito, aliviada.
Parecia que qualquer que fosse essa preocupação, agora seria minha também.
NĂŁo dava pra devolver?
Mary e Arty. Mesmo depois de ouvir seus nomes, eu ainda nĂŁo fazia ideia de quem eram. Senti que ia vomitar.
Eu precisava dar um jeito de sair dessa situação o mais rĂĄpido possĂvel.
Nos acomodamos em um café perto da casa do clã para conversar. Eu jå tinha ido a esse lugar antes, durante um encontro com Chloe, e gostava bastante do bolo de libra com sabor de chå preto deles.
Decidi me confortar com o fato de que, pelo menos, eu nĂŁo tinha sido sequestrado. VocĂȘ pode achar que estou exagerando, mas jĂĄ tinham me carregado para longe uma ou duas vezes antes. Pra piorar, como eu sempre oferecia pouca resistĂȘncia, todos assumiam que eu tinha deixado isso acontecer de propĂłsito. Mas que droga! Quem Ă© que quer ser sequestrado?
Parece que eles estavam pagando os lanches, então, sem hesitar, pedi bolo e chå preto. Eu precisava comer algo doce para restaurar meu cérebro decadente. Pelo menos, queria tentar lembrar quem eram essas pessoas.
Depois de fazermos os pedidos, Arty estreitou os olhos.
â Ouvi dizer que vocĂȘ nĂŁo Ă© muito fĂŁ de doces.
Depois de uma breve pausa, respondi:
â NĂŁo Ă© bom ser muito exigente.
Parece que minha imagem de durĂŁo estĂĄ se espalhando.
Dei de ombros e disfarcei minha satisfação. O olhar jå gelado de Arty ficou afiado como uma lùmina.
â NĂŁo hĂĄ sentido em tentar negociar com alguĂ©m como vocĂȘ. Vou direto ao ponto: gostarĂamos de solicitar sua ajuda.
Uuuh? Isso foi direto atĂ© demais, nĂŁo faço ideia do que vocĂȘ tĂĄ falando.
Ainda completamente perdido, franzi a testa.
â A captura de Noctus Cochlear de fato te colocou um passo mais perto do NĂvel 9 â continuou Arty. â VocĂȘ tambĂ©m tem o conde Gladis em sua dĂvida. Limpar os remanescentes te colocaria Ă frente dos outros NĂvel 8. No entanto, isso seria um pouco… precipitado. NĂŁo concorda?
NĂŁo fazia ideia.
â Inicialmente, a Torre Akashic era nossa presa â Arty continuou. â Ă possĂvel que Gark esteja considerando trocar a velha guarda. Exceto que, comparado com os outros NĂvel 8, o que vocĂȘ mais carece Ă© experiĂȘncia. NĂŁo precisa me lembrar do crescimento constante dos Grieving Souls, mas mesmo levando isso em conta, nĂŁo acho que vocĂȘ estĂĄ pronto para o NĂvel 9.
â VocĂȘ pode achar que alguĂ©m de outro clĂŁ nĂŁo deveria estar apontando isso para vocĂȘ. No entanto, essa Ă© a conclusĂŁo a que chegamos. Se continuar assim, seremos menosprezados.
â Ăéé, aham.
Meu chĂĄ chegou, e eu tomei um gole. Delicioso.
Enquanto eu estava no modo total de fuga da realidade, Mary tentou desesperadamente interromper Arty.
â Arty, vocĂȘ estĂĄ sendo muito confrontador…
â Isso precisava ser dito em algum momento, Mary â respondeu Arty. â AlĂ©m disso, nĂŁo acho que conseguimos negociar com o engenhoso Mil Truques.
Parecendo apreensiva, Mary tentou analisar minha expressĂŁo, mas eu estava completamente por fora da situação. O rosto de Arty estava tenso de nervosismo. Sorri e esperei pelo que quer que eles tivessem a dizer a seguir, mas mesmo depois de um longo silĂȘncio, nenhuma palavra veio.
Bom, e agora?
Mesmo depois da explicação de Arty, só entendi metade do que ele disse. Ou melhor, eu entendi as palavras, mas parecia que eståvamos pensando sob premissas diferentes.
Numa situação dessas, uma pessoa normal confirmaria cada ponto desconhecido um por um para esclarecer qualquer mal-entendido. No entanto, eu tinha cultivado habilidades de conversação que me permitiam manter um diålogo fluindo suavemente, mesmo sem entender sobre o que eståvamos falando.
â EntĂŁo, basicamente, Artyâ
O rosto de Arty ficou rĂgido e seus olhos se contraĂram.
HĂŁ?! Mal falei alguma coisa e jĂĄ pisei na bola?
Os lĂĄbios de Mary tremeram, como se ela estivesse segurando o riso. Fingi que nĂŁo vi isso.
â VocĂȘ quer que eu recue.
â Sim. Foi o que eu disse desde o inĂcio.
NĂŁo me lembrava de ter avançado em nada, mas decidi deixar pra lĂĄ. Pela minha experiĂȘncia, essas situaçÔes sempre surgiam porque Liz fazia alguma coisa e eu acabava tendo que assumir a responsabilidade junto.
â K-Krai! â disse Mary, com a voz trĂȘmula. â Ă verdade que ficamos esperando Ă toa. No entanto, ainda acho imprĂłprio que vocĂȘ invada nosso territĂłrio. EntĂŁo, poderia parar?
Ela parecia estar tentando adivinhar o que eu estava pensando.
Cruzei as pernas, enfiei o garfo no bolo e assenti.
â Ăéé, aham, vamos recuar.
â Oh? SĂ©rio?! Muito obrigada!
Cara, esse bolo tĂĄ bom demais.
Arty e Mary me olharam de olhos arregalados e se apressaram em abaixar a cabeça em agradecimento.
Como eu nĂŁo tinha nada a ver com isso, recuar era perfeitamente aceitĂĄvel para mim. Mas parecia que eu teria que me desculpar com Liz ou Sitri; isso jĂĄ tinha acontecido vĂĄrias vezes antes.
Ainda nĂŁo entendo nada disso, mas quero ir pra casa logo.
â Poxa, desculpa por fazer vocĂȘs virem atĂ© aqui falar comigo â eu disse. â Mas, na real, nĂŁo tenho muito interesse em alcançar o NĂvel 9 ou nesses tais… remanescentes? Agora, esse bolo de libra, sim.
Eu jĂĄ estava cansado de ser arrastado para situaçÔes que nĂŁo entendia. Pelo que parecia, Arty e Mary eram caçadores de recompensas ou caçadores de relĂquias, mas eu era o lĂder dos Grieving Souls sĂł no nome e nĂŁo acompanhava de perto suas açÔes.
Se tĂȘm reclamaçÔes, deviam levĂĄ-las diretamente paraâ NĂŁo, pensando bem, tĂĄ Ăłtimo se quiserem reclamar comigo.
Com seu objetivo cumprido, Arty e Mary pareceram relaxar um pouco.
Aproveitei a oportunidade para tentar deixar claro que eu era inofensivo.
â O Gark sĂł me chamou porque nĂŁo ando cumprindo minha cota. Acho que vocĂȘs entenderam errado.
â Cota?
â E-Er, nĂŁo Ă© como se eu estivesse enrolando. SĂł nĂŁo tĂȘm surgido missĂ”es boas.
Se ao menos eu pudesse cumprir minha cota coletando ervas medicinais…
Arty e Mary trocaram olhares, confusos.
Eu nĂŁo sei onde vocĂȘ aprendeu meu nome e rosto, mas posso garantir que nĂŁo sou o tipo de pessoa que vocĂȘ pensa que sou.
A confusĂŁo do leilĂŁo havia se acalmado, e eu sĂł queria descansar um pouco. Soltei um grande bocejo, e Arty de repente se levantou com uma expressĂŁo sombria. No exato mesmo momento, uma sombra entrou no meu campo de visĂŁo.
â Precisa de alguma coisa? â Arty perguntou.
â SilĂȘncio. NĂŁo vim falar com vocĂȘ.
Bem atrås de mim, ouvi uma voz muito familiar. Primeiro Arty havia se esgueirado até mim, agora isso; parecia que minha capacidade de detectar pessoas estava pior do que nunca. Com movimentos treinados, caçadores cercaram nossa mesa. Diferente de Arty e Mary, esse grupo estava equipado com armaduras e carregava armas.
Os outros clientes do café prenderam a respiração ao ver os intrusos repentinos.
De cima de mim, ouvi uma voz rouca.
â Faz um tempo, Mil Truques. VocĂȘ realmente nos fez de idiotas outro dia.
â Quem Ă© vocĂȘ? â perguntei.
â VocĂȘs, de nĂvel 8… Droga. Parece que nĂŁo tĂȘm uma preocupação no mundo.
Desculpa. Eu sei quem vocĂȘ Ă©. Ă claro que sei quem vocĂȘ Ă©.
O homem atrĂĄs de mim era nĂvel 7, e os que cercavam nossa mesa eram membros da NĂ©voa CaĂdaâ as pessoas com quem negociamos no leilĂŁo. Eu tinha a impressĂŁo de que nossas negociaçÔes haviam terminado de forma amigĂĄvel, mas, por algum motivo, todos estavam me encarando com o rosto vermelho de raiva.
SerĂĄ que fiz algo para merecer esses olhares? Me perguntei.
Afinal, no fim, a mĂĄscara foi para Ăclair, mas isso nĂŁo foi culpa minha, e esses caras deveriam saber disso.
Virei a cabeça para cima e olhei para o dono da voz. Arnold tinha a expressão de um demÎnio. Seus olhos ardiam com ódio. Seus grandes braços expostos, vårias vezes o tamanho dos meus, tremiam como se estivessem ansiosos para liberar sua força a qualquer momento.
Isso parece ruim. Isso parece muito ruim. Não tenho espaço para negociar, nem para me curvar.
â NĂvel 8. VocĂȘ pode estar um nĂvel acima de nĂłs, mas nĂŁo vamos aceitar aquela Ășltima humilhação calados â disse Arnold.
â TĂnhamos um acordo â falei. â Aceitarei seu desafio assim que vocĂȘ derrotar o resto do meu clĂŁ.
Espera. NĂŁo me diga que ele jĂĄ os derrotou…
Se derrotou, eu me rendo. Se nĂŁo derrotou, eu ainda me rendo.
â Cala a boca! Que se dane o acordo!
Que bruto.
NĂŁo que ele tivesse demonstrado a compostura que se espera do seu nĂvel durante nossas negociaçÔes. Me ocorreu que, se as coisas ficassem violentas, eu poderia ser banido do cafĂ©, e isso significaria perder um lugar de descanso. Tentei desesperadamente acalmar Arnold.
â Ei, calma, calma. Sim, jĂĄ estivemos em lados opostos antes, mas fizemos as pazes depois, nĂŁo fizemos?
â VocĂȘ… VocĂȘ tem muita coragem para estar tĂŁo calmo!
Do que ele estĂĄ tĂŁo bravo?
Arnold tinha uma expressĂŁo bestial e parecia estar lutando contra sua prĂłpria fĂșria.
â Aquelas mulheres â disse ele. â Elas nĂŁo estĂŁo com vocĂȘ hoje?
â Poderia esperar enquanto eu as chamo? â perguntei.
â Claro, e quando elas chegarem, vĂŁo te encontrar Ă beira da morte.
Ah, qual Ă©. SerĂĄ que Liz ou uma das outras fez algo?
Os comparsas de Arnold sacaram suas armas ao mesmo tempo, sem se importar com a atenção que estavam atraindo. Meu coração batia tĂŁo forte que doĂa. Eu estava pronto para levantar a bandeira branca. NĂŁo conseguia pensar em nenhuma maneira de virar a situação. Eu nem tinha o feitiço de estoque de emergĂȘncia que Lucia havia preparado para mim.
Espera um minuto.
Me lembrei de algo: o Manifesto de Aspiração que Sitri me deu tinha algum tipo de magia embutida. Essa RelĂquia podia ser carregada com um feitiço, mas nĂŁo havia como confirmar a natureza do feitiço depois de armazenado. Ela tinha um cristal que indicava se era um feitiço ofensivo ou algo do tipo, mas nada alĂ©m disso.
O cristal desta brilhava com um tipo de nĂ©voa negra. Quando produzidas por um cofre do tesouro, as RelĂquias Manifesto de Aspiração nĂŁo deveriam vir com feitiços jĂĄ armazenados, entĂŁo esse feitiço deve ter sido inserido posteriormente.
Eu não perguntei onde Sitri conseguiu isso, mas ela esteve no Palåcio Noturno não faz muito tempo. Se foi lå que conseguiu, então esse feitiço provavelmente veio de Lucia. Pelo que parecia, não era a Ordem do Tirano, o feitiço que eu havia usado antes em Arnold e sua gangue, mas eu presumi que fosse algo bem poderoso.
Eu estava usando vĂĄrios AnĂ©is de Segurança. Mesmo um caçador de nĂvel 7 provavelmente nĂŁo conseguiria atravessar todos antes que eu liberasse o feitiço armazenado.
Tomei minha decisĂŁo, soltei um pequeno suspiro e olhei para Arnold, que estava bravo por algum motivo.
â NĂŁo estou muito a fim de lutar â falei. â VocĂȘ me deixaria ir se eu me curvasse?
â O quĂȘ? VocĂȘ tĂĄ brincando?!
â Esqueceu o que aconteceu da Ășltima vez? Se eu liberar meu poder aqui, pode causar um certo estrago.
Eu nĂŁo conseguiria vencer nem um dos capangas de Arnold, mas isso nĂŁo importava no momento. Mas eu nĂŁo estava mentindo quando disse que nĂŁo queria lutar. Seria mais correto dizer que eu nĂŁo estava nem um pouco preparado para lutar. Eu era um pacifista, sem mencionar que nem sabia o que o feitiço fazia. Era possĂvel que os efeitos do feitiço se estendessem atĂ© a sede do clĂŁ.
Eu mantinha uma expressĂŁo tranquila, mas, na verdade, queria vomitar. Eu sĂł queria ficar fora do caminho, por que essas coisas continuavam acontecendo comigo?
Enquanto eu permanecia ali, abatido, Arnold se aproximou de mim. No entanto, depois de nos observar em silĂȘncio, Arty se levantou e bloqueou o caminho de Arnold.
â VocĂȘ aĂ, ouvi direito quando disse que deixaria nosso convidado Ă beira da morte? â perguntou em um tom afiado.
â Sai da frente. NĂŁo sei quem vocĂȘ Ă©, mas estou aqui sĂł pelo Mil Truques.
Arnold era uma cabeça mais alto que Arty, que tinha um fĂsico mais esguio. Arnold era extremamente intimidador, mas Arty nĂŁo parecia nem um pouco assustado, apenas o encarava com um olhar de desdĂ©m.
â Um rĂșstico, hein? Muito corajoso da sua parte desafiar um nĂvel 8 â disse ele. â Krai, por favor, deixe isso conosco. Considere como um agradecimento por relevar nossa descortesia anterior.
â Ă… â respondi.
A sugestĂŁo parecia atraente, mas logo comecei a reconsiderar.
NĂŁo, essa Ă© uma pĂ©ssima ideia. Arty pode nĂŁo saber, mas Arnold Ă© um genuĂno NĂvel 7. AlĂ©m disso, a NĂ©voa CaĂda tem a vantagem numĂ©rica. Arty nĂŁo tem a menor chance. Mas acho que nĂŁo hĂĄ muito que eu possa fazer a respeito.
Arty percebeu minha preocupação e sorriu levemente ao apontar para Arnold. Foi entĂŁo que notei que Arty usava um bracelete de prata opaca no pulso. Ele ostentava um brasĂŁo com um cajado de trĂȘs pontas.
Arty lançou um olhar na minha direção.
â Pode ser que nĂŁo sejamos os mais experientes, mas nĂŁo se preocupe â disse ele, antes de voltar sua atenção para Arnold. â Agora, grave bem isso nessa sua mente patĂ©tica: meu nome Ă© Artbaran. Artbaran Henning da Maldição Oculta.
â Arty?! VocĂȘ disse que nĂŁo causaria discĂłrdia… â Mary disse, antes de reconsiderar. â De qualquer forma, sou Mary Auden, tambĂ©m da Maldição Oculta. Para deixar claro, nĂŁo fazemos parte do mesmo grupo do Inferno Abissal, no entanto…
No momento em que ouvi isso, senti como se tivesse levado um golpe. Finalmente me lembrei de ArtyâArtbaranâe Mary, e nĂŁo pude evitar bater o punho na palma da mĂŁo aberta. Devo ter parecido um completo idiota, pois todos começaram a me encarar. Respirei fundo, olhei ao redor e fiz uma expressĂŁo de desculpas.
â Desculpem, mas vocĂȘs se importariam se eu fosse ao banheiro antes de começarmos? â perguntei.
Arnold devia conhecer o nome “Maldição Oculta”, pois parecia estar completamente focado em Arty.
Eu tinha sido arrastado para algo do qual nĂŁo queria fazer parte. A Maldição Oculta era um dos clĂŁs mais antigos da capital e extremamente seletivo em relação a seus recrutas. AlĂ©m disso, sua mestra, o Inferno Abissal, era considerada uma das magas mais poderosas da capital e uma das trĂȘs Ășnicas caçadoras de NĂvel 8 â o mesmo nĂvel que eu.
Hoje tem sido sĂł desgraça, uma coisa atrĂĄs da outra…
Foi uma sorte termos escolhido um cafĂ© que eu jĂĄ havia visitado vĂĄrias vezes antes. Com um pouco de esforço, consegui escapar pela janela grande do banheiro e fugir. Soltei um suspiro de alĂvio.
Eu jĂĄ nĂŁo sabia mais o que pensar. NĂŁo esperava que a NĂ©voa CaĂda levasse uma ofensa tĂŁo grande por algo tĂŁo insignificante, nem que a Maldição Oculta se aproximasse de mim. Se eu soubesse que isso aconteceria, teria trazido Sitri ou alguĂ©m comigo.
A essa altura, a NĂ©voa CaĂda e a Maldição Oculta provavelmente ainda estavam se encarando dentro do cafĂ©, pensei.
Como alguĂ©m que, tecnicamente, era um caçador de alto nĂvel vivendo na capital, eu conhecia todos os caçadores de NĂvel 7 ou superior. Tinha quase certeza de que Mary e Art estavam abaixo do nĂvel de Arnold. Mas isso nĂŁo me preocupava muito; a Maldição Oculta era um clĂŁ peculiar, composto apenas pelos magos mais excepcionais.
As atividades da Maldição Oculta tendiam a ser mais acadĂȘmicas, e o clĂŁ tinha fortes conexĂ”es com escolas de magia e exĂ©rcitos que recrutavam magos. Como resultado dessa tendĂȘncia acadĂȘmica, os membros da Maldição Oculta frequentemente tinham nĂveis baixos em relação Ă sua força real.
Além disso, bem diante dos meus olhos, eles disseram que cuidariam de Arnold, então meu desaparecimento não deveria importar. Seria presunçoso da minha parte me preocupar com o bem-estar de dois magos de elite de um dos clãs mais importantes da capital.
Serå que todo caçador é desprovido de bom senso? pensei. Eståvamos em um café cheio de civis e mesmo assim eles estavam prontos para lutar. Só de lembrar do olhar frio de Arty, um arrepio percorreu minha espinha.
A NĂ©voa CaĂda era aterrorizante, mas a Maldição Oculta era ainda pior. Mesmo que Arnold e seus aliados fossem todos de alto nĂvel, eram apenas um grupo, incapazes de competir com o tamanho, a qualidade e a influĂȘncia da Maldição Oculta.
Eu nem estava prestando atenção ao meu redor, sĂł tentava controlar minha respiração e apressar o passo atĂ© a sede do clĂŁ. A Ășnica coisa na minha mente era chegar a um lugar seguro o mais rĂĄpido possĂvel.
A mestra da Maldição Oculta, o Inferno Abissal, era uma caçadora temĂvel. Diziam que ela possuĂa as maiores capacidades destrutivas de toda Zebrudia. Ela tinha um temperamento tĂŁo ardente quanto uma chama e, diferente de Liz, tambĂ©m era astuta. Sem mencionar que jĂĄ havĂamos tido um pequeno desentendimento no passado. Esquecer Arty e os outros era minha tentativa de fugir da realidade.
O Inferno Abissal atingiu o NĂvel 8 muito antes de eu sequer sonhar em me tornar um caçador. Nossa briga aconteceu na Ă©poca da fundação da Primeiros Passos. Eu estava procurando grupos para se juntarem a nĂłs e escolhi um meio aleatoriamente, mas, na Ă©poca, a Maldição Oculta jĂĄ estava de olho nesse grupo. Por alguma razĂŁo estranha, esse grupo decidiu se juntar Ă Primeiros Passos, sem que eu soubesse dos interesses conflitantes.
NĂŁo quebramos nenhuma lei, mas caçadores tĂȘm essa coisa extremamente irritante chamada orgulho.
Eu estava completamente fora de mim naquela Ă©poca. Era um NĂvel 6 e mestre de um novo clĂŁ, e mesmo assim foi inacreditĂĄvel eu ter iniciado um confronto com uma caçadora renomada de NĂvel 8. E eu tambĂ©m nĂŁo podia simplesmente mudar de ideia e dizer que nĂŁo queria mais o grupo. Naquela Ă©poca, eu sentia vontade de vomitar quase todos os dias. Eu colocaria isso no meu Top Trinta ExperiĂȘncias TraumĂĄticas Desde que Me Tornei um Caçador.
Felizmente, de alguma forma a situação se acalmou e consegui manter todos os meus membros intactos, mas meu medo da Maldição Oculta não desapareceu tão facilmente. Agradeci à minha sorte por não ter recusado o pedido de Arty. Se entråssemos em outra briga com a Maldição Oculta, aquela velha assustadora poderia alegremente incendiar a sede do nosso clã.
Cheguei sĂŁo e salvo Ă sede do clĂŁ. Meu rosto cansado se refletia no vidro polido. Eu sentia vontade de me esconder aqui pelo futuro prĂłximo.
Minha cabeça doĂa sĂł de pensar em tudo o que precisava fazer. Tinha a cota, a missĂŁo do Conde Gladis, nossa luta contra Arnold, precisava descobrir o que Arty queria dizer e ainda tinha muitas melhorias a fazer na minha miniatura da capital imperial.
Os dois primeiros assuntos eu imaginava que alguém resolveria de alguma forma, então minha prioridade era verificar se Liz e Sitri haviam feito algo com a Torre Akashic ou com Arnold. Eu realmente sentia falta dos meus aliados; ter Ansem ou Lucia por perto nesse momento teria sido reconfortante. Até Luke teria sido suficiente para me deixar mais tranquilo.
O que serĂĄ que eles estĂŁo fazendo agora? pensei.
Subi as escadas e me sentei no escritĂłrio do mestre do clĂŁ.
Bem, antes de procurar pela Liz, que tal trabalhar um pouco mais naquela miniatura da capital imperial?
Como se estivesse esperando exatamente por esse momento, a porta se escancarou assim que ativei a Forma de Miragem. Eva entrou, ofegante e com as bochechas coradas de empolgaçãoâum estado raro para ela. Em sua mĂŁo havia um envelope branco ornamentado, ostentando o brasĂŁo de Zebrudia. Ela nem sequer olhou para minha miniatura da capital e fixou os olhos diretamente em mim.
â Krai! â exclamou com animação. â VocĂȘ finalmente recebeu um convite para a ReuniĂŁo da LĂąmina Branca. ParabĂ©ns!
Fiquei sentado em silĂȘncio, confuso. Toda a confusĂŁo do dia desapareceu instantaneamente da minha mente. A ReuniĂŁo da LĂąmina Branca era o encontro mais famoso entre os caçadores de Zebrudia. Apenas um pequeno punhado de caçadores que contribuĂram para o impĂ©rio recebia permissĂŁo para participar. Receber um convite era considerado uma prova de que a pessoa era reconhecida como um dos melhores caçadores do impĂ©rio. No entanto, o mais importante era o anfitriĂŁo do eventoâo prĂłprio imperador.
â Ouvi dizer que os Grievers seriam mantidos Ă distĂąncia por causa de sua mĂĄ reputação, mas outro diaâ
Eva começou a me explicar rapidamente, mas eu jå não estava processando mais nada; nada fazia sentido para mim.
Havia rumores sobre se caçadores de outros paĂses eram convidados, se aconteciam duelos entre caçadores e cavaleiros de elite e atĂ© se serviam sobremesas deliciosas.
Eu nĂŁo tinha absolutamente nenhuma vontade de ir. NĂŁo queria encontrar outros caçadores de alto nĂvel. Estava um pouco curioso sobre as sobremesas, mas teria que abrir mĂŁo delas. NĂŁo fazia ideia do porquĂȘ dessas coisas horrĂveis estarem acontecendo comigo. Por que nĂŁo chamaram o Ark? Deviam ter convidado o Ark.
Sério, o que foi que eu fiz? Eu não fiz nada! Não estou sendo modesto, eu realmente não fiz nada!
Eu podia atĂ© ter um nĂvel alto, mas nĂŁo era nada especial. JĂĄ tinha passado por algumas encrencas naquele dia, e agora ainda vinha esse convite. NĂŁo deveria ser possĂvel ter tanto azar.
NĂŁo hesitei e imediatamente tomei minha decisĂŁo.
â …Hmm, aconteceu alguma coisa, Krai? â Eva perguntou, me encarando atentamente.
Limpei a garganta e juntei forças.
â Ah, desculpe. Tenho um assunto importante para resolver, e isso vai me manter longe da capital por um tempo. Ă uma grande honra ser convidado para a ReuniĂŁo da LĂąmina Branca, mas nĂŁo sei se poderei comparecer. Isso vale para qualquer outro convite tambĂ©m. Odeio ter que pedir isso, mas vocĂȘ poderia seguir com essa premissa? Vou tentar voltar o mais rĂĄpido possĂvel.
â …HĂŁ?
Estou caindo fora. JĂĄ mostrei minhas habilidades em reverĂȘncia e desculpas, agora vou demonstrar minha arte da evasĂŁo graciosa.
***
â Ele… Ele sumiu?! Como assim?!
â Sim, senhor, Arnold. Isso estava no banheiro.
Um dos membros do grupo de Arnold estendeu um pedaço de papel dobrado ao meio. Arnold arrancou-o da mão do subordinado e o desdobrou. O papel era do tipo usado para escrever um cheque, mas no espaço onde deveria estar o valor, havia uma mensagem rabiscada:
“Estou ocupado, entĂŁo estou indo para casa.”
Palavras falharam para Arnold.
â Parece que ele escapou pela janela do banheiro… â disse um membro da NĂ©voa CaĂda.
â Ele Ă© mesmo um NĂvel 8? â perguntou outro.
A bochecha de Arnold se contraiu enquanto ele amassava o papel na mĂŁo. Ele nunca teria imaginado que o Mil Truques fugiria.
Se estivesse atrĂĄs de um civil ou de um caçador comum, Arnold poderia atĂ© estar preparado para isso. Mas esse era um homem de alto nĂvel e renome na terra sagrada dos caçadores. Era um desrespeito o Mil Truques nem ao menos lhe dar atenção, mas Arnold conhecia bem a força dele.
Arnold tentou entender por que um caçador orgulhoso fugiria pela janela de um banheiro antes mesmo da luta começar. Mas, ao pensar melhor, lembrou-se de que o Mil Truques jå tinha feito aquelas mulheres lutarem por ele antes. Ele deveria ter esperado um desfecho assim.
Arnold ergueu os olhos para duas figuras que o encaravam. Quando chegou Ă capital imperial, fez o que muitos caçadores fariam e pesquisou sobre os caçadores, grupos e clĂŁs mais notĂĄveis do paĂs. Naturalmente, ele se deparou com o nome “Maldição Oculta”.
A Maldição Oculta era um poderoso clã de Magos, liderado por um dos melhores caçadores da capital. Diante de Arnold estavam dois membros desse respeitado grupo. Eles ainda eram jovens, mas isso não significava que poderiam ser subestimados.
A NĂ©voa CaĂda tinha a vantagem numĂ©rica. Normalmente, alguĂ©m poderia pensar que o Mil Truques havia jogado os dois Magos aos lobos. No entanto, mesmo depois de verem a mensagem no cheque, nĂŁo houve qualquer mudança na expressĂŁo de Artbaran. Ele soltou um leve resmungo, sem demonstrar qualquer nervosismo.
â O que foi essa cara? Ouça bem, caipira â disse ele, transbordando confiança. â Os verdadeiramente fortes nĂŁo desembainham suas lĂąminas por motivos triviais.
â EntĂŁo os NĂvel 8 da capital… â Arnold começou. â Fogem pela janela do banheiro?
E ninguĂ©m vĂȘ problema nisso?!, ele pensou. Ele queria vingança contra a Sombra Partida e os outros que haviam brigado com seu grupo. Com seu lĂder, o Mil Truques, fora do cafĂ©, nĂŁo havia motivo para ele continuar ali.
Mary e Artbaran estavam bem-vestidos, mas não para um combate. No entanto, armas nem sempre eram necessårias para um Mago habilidoso. Observando de perto, Arnold percebeu que Artbaran e Mary, que exibia um sorriso tenso, estavam em alerta. Nesse aspecto, eles eram bem diferentes do Mil Truques, que nunca parecia estar preparado para lutar. Arnold deduziu que, para os membros da Maldição Oculta, lançar feitiços era tão natural quanto respirar.
No entanto, Magos eram melhores em ataques de longa distùncia. Não importava quão fortes fossem, um Espadachim teria a vantagem nesse alcance. Não havia chance de Arnold perder essa luta. Mas uma vitória assim não teria significado para ele, pois seu verdadeiro alvo não era a Maldição Oculta.
Os outros membros da NĂ©voa CaĂda mantiveram suas armas desembainhadas, aguardando as ordens de Arnold.
Artbaran manteve seu olhar frio sobre Arnold e continuou falando.
â VocĂȘ disse que ele fugiu? NĂŁo seja absurdo.
â NĂŁo, ele definitivamente bateu em retirada â respondeu Arnold em voz baixa.
Ele não conseguia pensar em outra maneira de interpretar a situação. A fuga foi tão suave e ensaiada que Arnold estava mais surpreso do que irritado.
â VocĂȘ nĂŁo leu o papel? â Artbaran gritou com um tom digno. â Ele nĂŁo fugiu, ele… ele estĂĄ ocupado! Um NĂvel 8 na capital nĂŁo tem tempo a perder, foi tudo o que ele pĂŽde fazer para nos dar um momento de sua atenção. NĂŁo tire conclusĂ”es erradas achando que ele Ă© fraco. AlguĂ©m como vocĂȘ simplesmente nĂŁo vale o tempo dele.
Que absurdo, pensou Arnold. Nesta terra, caçadores sem tempo simplesmente fogem pela janela do banheiro?!
Isso nĂŁo fazia sentido para ele. NĂŁo combinava em nada com as imagens heroicas que tinha em mente. Arnold conhecia os poderes estranhos do Mil Truques, e isso tornava ainda mais difĂcil entender por que ele fugiu. Tremendo de frustração, havia algo que ele precisava perguntar.
â EntĂŁo, na mesma situação, vocĂȘ fugiria pela janela do banheiro?
Não me diga que todos os caçadores da capital fazem isso?! ele pensou.
Era uma pergunta sincera. Os olhos de Artbaran se arregalaram brevemente, mas logo ele esboçou um sorriso sarcåstico.
â Ainda tenho muito a aprender â disse ele. â Krai nĂŁo Ă© alguĂ©m que eu poderia imitar.
Seguiu-se um silĂȘncio.
â Arnold, vamos recuar. NĂŁo temos motivo para perder tempo com esses dois â aconselhou Eigh, o segundo em comando de Arnold, em voz baixa.
Arnold lançou-lhe um olhar afiado, mas Eigh ainda estava focado nos dois jovens Magos.
â Viemos atrĂĄs do Mil Truques â continuou. â Se entrarmos em confronto com a Maldição Oculta, sĂł estaremos caindo no jogo dele de novo.
Os Grieving Souls os haviam atormentado desde que chegaram Ă capital. Pegaram a NĂ©voa CaĂda de surpresa na taverna uma vez e praticamente os extorquiram em outra. Entre eles e os dois Magos que haviam acabado de conhecer, era Ăłbvio qual Arnold queria destruir.
Olhando ao redor, percebeu que os funcionårios e clientes do café estavam todos olhando para eles com medo. Alguns provavelmente jå haviam corrido para chamar os cavaleiros.
Eigh estava certo, apenas um caçador de terceira categoria esqueceria seu objetivo e partiria para a violĂȘncia nessa situação. Eles jĂĄ haviam sido manipulados durante o leilĂŁo, mas ainda era do interesse deles agir com prudĂȘncia.
ApĂłs uma breve reflexĂŁo, Arnold estalou a lĂngua.
â Tudo bem. Por ora, nosso alvo continua sendo ele.
***
Eu tinha fugido o mĂĄximo que podia. Decidir isso me fez sentir uma paz imensa.
Claro, eu nĂŁo sairia sozinho; fora da capital, havia o risco de ser atacado por monstros e fantasmas. Ouvi dizer que nĂŁo era tĂŁo perigoso enquanto se permanecesse nas estradas, mas ser atacado era algo que eu queria evitar a todo custo. JĂĄ tinha sido atacado vĂĄrias vezes no passado.
Encontrar proteção antes de partir jĂĄ havia se tornado praticamente um reflexo para mim. Se eu fosse forte ou capaz de voar, talvez as coisas fossem diferentes, mas meu baixo nĂvel de mana me impedia de ir longe com o Caminhante Noturno, e aquela RelĂquia sĂł podia ser usada Ă noite.
Comecei a me preparar para sair da cidade. Saà do meu escritório e descia as escadas quando encontrei Liz. Ela parecia uma caçadora determinada, como sempre. Ao me ver, um sorriso iluminou seu rosto e ela se aproximou.
â Boa hora, Krai Baby! Tem algo em que quero seu conselho…
Eu adoro dar conselhos, mas isso nĂŁo vai demorar, vai?
Eu não tinha muito tempo. Minha prioridade era sair antes que meus problemas aumentassem ainda mais. Quanto mais eu me apressasse, mais credibilidade minha desculpa para recusar o Encontro da Lùmina Branca ganharia. Era uma batalha contra o tempo. Eu precisava partir antes que Arnold perdesse toda a inibição e viesse atrås de mim.
Coloquei um braço ao redor dos ombros de Liz e falei como se estivéssemos discutindo algo sigiloso.
â O conselho pode esperar. Liz, vocĂȘ tem algum plano para o futuro imediato?
â HĂŁ? Mmm, nĂŁo realmente. Aconteceu alguma coisa?
Essa era a resposta que eu esperava. Liz dificilmente recusaria um convite meu. Abandonei as formalidades e fui direto ao ponto.
â Estou saindo da capital. Venha comigo.
Liz me olhou surpresa e, em seguida, passou um braço ao redor da minha cintura. Seu rosto ficou prĂłximo ao meu e senti um aroma levemente adocicado. Seus lĂĄbios Ășmidos se abriram levemente e ela sussurrou em tom sedutor.
â Muuuito bem. Qual Ă© o nosso objetivo?
Nosso objetivo? Fugir? Escapar? Fazer uma retirada estratĂ©gica? Bem, todas as opçÔes estavam corretas, mas…
Isso Ă©.
Depois de refletir um pouco, comecei a sorrir.
â FĂ©rias, eu acho â disse. â Ah, mas mantenha isso em segredo, ok?
Os olhos de Liz brilharam e ela envolveu os braços ao meu redor, como se contivesse toda a sua empolgação naquele gesto. Como sempre, sua pele parecia estar em chamas.
â Isso Ă© perfeito! â disse. â Quantas pessoas vamos derrubar? Quem mais vai? SĂł eu? Quando partimos? Parece que faz uma eternidade desde a Ășltima vez que saĂmos da capital juntos!
Não vamos matar ninguém. E isso é pergunta demais.
Ter Liz a bordo era reconfortante, mas eu imaginei que quanto mais proteção tivesse, melhor. Afinal, estava deixando a capital.
Isso Ă©. Por que nĂŁo fazer disso uma viagem do clĂŁ?
Se eu recusasse todos aqueles convites, não poderia trazer a equipe administrativa, mas pensei que poderia ser divertido trazer todos os caçadores. Se todos os caçadores do Primeiros Passos partissem, pareceria que havia um bom motivo para o meu recolhimento. Um motivo tão bom que até me fez recusar o Encontro da Lùmina Branca.
â NĂŁo quero incomodar ninguĂ©m, mas gostaria de levar o mĂĄximo de pessoas possĂvel â disse. â Partimos hoje. E, sim, vocĂȘ estĂĄ certa. JĂĄ faz muito tempo desde que deixei a capital.
â Uhuu! Estou super animada! Podemos levar a T com a gente?
â HĂŁ. Ah, sim, claro. Contanto que ela concorde em vir, Ă© claro.
Ela parecia bem abatida desde o incidente com a mĂĄscara. Talvez fosse melhor deixĂĄ-la em paz.
Liz me deu um sorriso sedutor. Ela estava mesmo tĂŁo animada para viajar comigo de novo? Fiquei imaginando que tipo de expressĂŁo ela faria se soubesse que eu via essa viagem apenas como uma forma de evitar a realidade.
Como era meio-dia, apenas um pequeno nĂșmero de pessoas estava reunido no salĂŁo. Infelizmente, isso nĂŁo incluĂa os Starlights, que haviam carregado minhas RelĂquias antes. Seria muito Ăștil tĂȘ-los conosco…
Em uma mesa no fundo, Isabella e Ewe, membros do grupo de Ark, nos notaram e nĂŁo pareceram nada felizes com isso. O prĂłprio Ark nĂŁo estava em lugar nenhum.
Tudo bem, eu quero que eles venham com a gente, mas como vou justificar isso para eles?
Eu perderia a confiança deles se mentisse, mas dizer a verdade traria seus próprios problemas.
NĂŁo pensei muito bem nisso… pensei.
Enquanto eu hesitava, Liz começou a gritar animadamente.
â Krai Baby estĂĄ saindo da capital pela primeira vez em um bom tempo! Ele disse que vamos tirar fĂ©rias. F-Ă©-r-i-a-s! Ele quer levar o mĂĄximo de pessoas possĂvel. Tem aaalguĂ©m que quer ir com a gente?
O salĂŁo congelou. Eu tinha dito para ela manter segredo, mas ela simplesmente saiu gritando…
Olhares confusos se voltaram para Liz e para mim. Devem estar se perguntando o que eu estava pensando, tirando fĂ©rias quando jĂĄ passava tanto tempo Ă toa no meu escritĂłrio. Minha reputação chegou a um nĂvel mais baixo do que nunca.
Eu dei um sorriso resignado enquanto Liz continuava.
â Ah, certo, estamos saindo imediatamente! SĂł para quem sabe lutar! NĂŁo precisamos de fracos nos atrasando! Ah, estou tĂŁo animada. Estava preocupada de estar enferrujando. Que alĂvio.
Havia uma diferença absurda entre o nĂvel de empolgação de Liz e o de todos os outros.
Não era a reação que eu queria, mas jå era tarde demais para mudar isso. Olhei para uma mesa onde alguns caras jogavam cartas e falei com Lyle, com quem eu tinha certa afinidade.
â Desculpa trazer isso Ă tona de repente â eu disse. â VocĂȘ vem, nĂŁo Ă©, Lyle?
Lyle rapidamente segurou o estĂŽmago e gemeu com uma expressĂŁo forçada. Ele mexeu os braços de forma exagerada e suas cartas caĂram no chĂŁo.
â Desculpa, Krai. TĂŽ com uma dor de barriga repentina, acho que nĂŁo vou poder ir.
Parte dele parecia estar fingindo, mas seu rosto estava mortalmente pĂĄlido. Talvez ele realmente nĂŁo estivesse se sentindo bem.
Olhei para os outros caçadores na mesa e todos desviaram o olhar ao mesmo tempo.
â Desculpa, CM, o casamento da minha irmĂŁ tĂĄ chegando…
â O funeral da minha avĂł Ă© em breve…
â Eu, ah, minha espada quebrou e estou esperando uma nova…
â EntĂŁo que espada Ă© essa na mesa?!
â Cala a boca! Essa Ă©, uh, uma reserva! A lĂąmina tĂĄ cega.
â HĂŁ?! VocĂȘ sempre disse que essa espada era sua alma e tudo mais!
â Quieto! SĂ©rio, CM, nĂŁo posso lutar agora! VocĂȘ tem que acreditar em mim!
Qual Ă© o problema, pessoal? Ă sĂł uma viagem…
Olhei para as outras mesas e vi que o salão tinha esvaziado um pouco. Me virei e vi alguns caçadores praticamente tropeçando uns nos outros enquanto corriam para fora do salão. Talvez todos tivessem se lembrado de algum tipo de compromisso urgente? Liz observou a cena com uma expressão irritada.
Decidi deixĂĄ-los ir e fui atĂ© os membros do grupo de Ark. Eles nĂŁo eram tĂŁo fortes quanto Ark, mas seria um desperdĂcio nĂŁo levĂĄ-los como proteção.
Isabella imediatamente virou o rosto para o outro lado. Sentada à sua frente estava a Santa do grupo, Ewe, que não foi tão óbvia quanto Isabella, mas também evitou olhar para nós.
â Ei, Isabella…
â De jeito nenhum.
â Ei, Ewe…
â P-Por favor, fale com Ark sobre assuntos do nosso grupo!
Eu falaria com Ark se pudesse.
Isabella jogou os longos cabelos para trås, cruzou os braços e me encarou.
â SĂł para vocĂȘ saber, estamos de folga agora! â disse ela. â Ark foi visitar a famĂlia e estamos dando um tempo da caçada!
â Sim, e nĂłs estamos indo de fĂ©rias â respondi.
â FĂ©rias pra vocĂȘ, talvez!
O que isso quer dizer…
Claro, eu convidei todo mundo simplesmente porque precisava de guarda-costas caso algo acontecesse. Não considerava isso trabalho. Não era uma viagem totalmente de lazer, mas também não era inteiramente trabalho.
Enquanto eu tentava entender o que Isabella queria dizer, ela começou a falar sem parar. Ouvi dizer que em sua terra natal, no norte, as mulheres tendiam a ser mais determinadas, mas agora estava me perguntando se isso era mesmo verdade.
â E o que vocĂȘ planeja enfrentar desta vez? Fantasmas?! Monstros?!
â N-NĂŁoâ
â Se nĂŁo forem fantasmas ou monstros, entĂŁo… humanos?! VocĂȘ vai lutar contra humanos? Que horrĂvel! NĂŁo treinei como Maga para lutar contra pessoas!
à só uma viagem. Sério.
Isabella me olhou com total desconfiança. Ewe também parecia chocada e se afastou de nós. Na falta de fé delas, percebi não apenas falta de respeito, mas até decepção. Liz pulou na minha frente e veio em minha defesa.
â HĂŁ? Isso foi desprezo que eu senti? â perguntou ela com a voz fervendo de raiva. â Se ele disse para ir, entĂŁo vĂŁo. Se sua segurança Ă© tĂŁo importante assim, entĂŁo por que nĂŁo desistem de ser caçadoras?
Isso nĂŁo ajudou em nada.
Isabella se levantou e abriu a boca para falar, mas Liz, com um brilho no olhar, começou a gritar com ela.
â E o que tem de errado em lutar contra humanos? Se vocĂȘs sĂł lidam com fantasmas e monstros, nunca vĂŁo conseguir lutar contra pessoas quando chegar a hora! Ă bom matar um ser humano de vez em quando, isso Ă© o que Krai Baby sempre diz!
Ă sĂł uma viagem…
Que tipo de pessoa elas acham que eu sou?
Eu havia voltado para o meu escritĂłrio, mas nĂŁo conseguia dissipar as nuvens sobre minha cabeça. De fato, eu tinha um azar danado. Antes mesmo de me tornar um NĂvel 8, jĂĄ tinha me metido em vĂĄrias confusĂ”es.
Uma vez, um cofre do tesouro apareceu durante um festival de flores, e outra vez um terremoto aconteceu enquanto eu explorava uma caverna. Ao explorar cofres do tesouro, frequentemente encontrava chefes raros com baixas chances de surgimento. AtĂ© dei de cara com um cofre extremamente difĂcil que se movia pelo mundo inteiro. Uma vez, enquanto caminhava numa tempestade, um raio caiu perto de mim (ele atingiu a maior coisa por perto, que era o Ansem).
Mas mesmo o azar tinha seus limites, e eu estava deixando a capital para evitĂĄ-lo. Eu nĂŁo tinha planos de lutar contra fantasmas ou monstros e certamente nĂŁo planejava matar ninguĂ©m. SĂł queria convidar algumas pessoas para umas fĂ©rias, mas acho que elas nĂŁo confiavam muito na definição de “fĂ©rias” de um caçador experiente.
Eu estava refletindo sobre minha falta de credibilidade quando Eva entrou na sala.
â Krai, eu reservei uma carruagem. Ă uma grande carruagem blindada puxada por seis mustangs de platina â relatou.
Normalmente, quando viajĂĄvamos em grupo, usĂĄvamos nossa prĂłpria carruagem. No entanto, ela estava atualmente com Luke e o resto dos Grieving Souls. Por isso, pedi a Eva que arranjasse uma carruagem, mas o resultado me surpreendeu.
Os mustangs de platina eram monstros com a força de cerca de cem cavalos normais. Como o nome sugeria, tinham pelos cor de platina. Podiam correr sobre qualquer tipo de terreno, por mais acidentado que fosse, e eram a melhor variedade de cavalo que existia. Naturalmente, tinham um preço exorbitante, mas minha maior preocupação era que Eva tivesse conseguido uma carruagem puxada por seis deles. Um Ășnico mustang de platina jĂĄ era suficiente para puxar uma carruagem grande com facilidade.
â Isso nĂŁo Ă© um pouco exagerado? â perguntei, um pouco apreensivo.
Mustangs de platina e carruagens blindadas nĂŁo eram tipicamente usados por clĂŁs.
â Bem, sim â disse Eva com os olhos brilhando. â Mas assim vocĂȘ poderĂĄ escapar mesmo que um enxame de dragĂ”es o persiga.
Eu não espero ser perseguido por dragÔes!
Percebi que não era tão estranho que Eva tivesse uma ideia errada; eu não havia contado a ela que essa viagem era apenas uma férias. Mesmo assim, eu tinha quase certeza de que nem o imperador de Zebrudia costumava usar seis mustangs de platina e uma carruagem blindada.
Nem conseguia imaginar como ela havia conseguido tudo isso. Levei a mĂŁo ao queixo e fingi refletir.
â Acho que devĂamos optar por algo mais discreto â falei. â NĂŁo vamos precisar da blindagem e seis mustangs de platina sĂŁo um exagero. Uma carruagem normal jĂĄ basta. Na verdade, uma um pouco desgastada seria ainda melhor.
Sair da capital nesse momento causaria problemas para Eva. Me senti mal por ela ter preparado algo tĂŁo extravagante para nĂłs.
â Sim, mas… Muito bem.
Ela parecia querer dizer algo, mas, no fim, apenas assentiu com um olhar insatisfeito.
Dei um sorriso vago e tentei fazer uma piada.
â Temos que economizar onde pudermos, certo?
***
â Oh, fĂ©rias? Ă claro que eu irei com vocĂȘ!
Sitri estava no laboratĂłrio do clĂŁ e aceitou meu convite sem um pingo de descontentamento. Ela parecia contente com a ideia, mas sem o fervor intenso de Liz.
Isso, isso sim era a reação que eu estava esperando.
â SerĂĄ necessĂĄrio levar armamentos? â ela perguntou.
â NĂŁo, isso Ă© sĂł uma fĂ©rias. Nada de armas necessĂĄrias â respondi. â Er, na verdade, talvez seja bom levar o mĂnimo necessĂĄrio para autodefesa.
â Entendido.
Que resposta agradĂĄvel e tranquila. Eu queria que os outros membros dos Primeiros Passos seguissem seu exemplo.
O sorriso de Sitri se nublou por um instante, e ela olhou para mim com os olhos ligeiramente baixos.
â Ah, mas… ainda estou trabalhando na investigação da Torre Akashic…
Investigação da Torre Akashic? à disso que Arty e Mary estavam falando?
Eu estava certo, parecia que Sitri havia feito algo sem me contar. NĂŁo que eu conseguisse entender o que ela fazia, entĂŁo talvez fosse irrelevante, mas eu ainda gostaria que ela me avisasse antes de se envolver em algo perigoso. Mas agora era tarde para isso.
â Oh, nĂŁo precisa se preocupar com isso. Eu pedi para a Maldição Oculta cuidar disso â falei.
â Muito obrigada! E me perdoe por fazer vocĂȘ se dar ao trabalho.
â NĂŁo, tudo se encaixou bem. Quer dizer, eles mesmos pediram para cuidar disso, entĂŁo imagino que farĂŁo um bom trabalho.
A Maldição Oculta era um clã antigo. Sitri podia ser tão competente quanto qualquer um de seus membros, mas eles eram mais adequados para investigaçÔes de grande escala. Sem contar que eu não tinha interesse na Torre Akashic, nem queria que Sitri se envolvesse em algo perigoso.
Tinha deixado tudo a cargo da Maldição Oculta sem consultar Sitri, e estava preocupado que isso a incomodasse, mas aparentemente não era o caso.
Por um momento, me deixei confortar pelo sorriso de Sitri. Mais ao fundo, Talia colocava um frasco sobre uma chama e nos observava com um sorriso. Eu havia encontrado um verdadeiro alĂvio.
Matadinho estava ao lado, parado como uma estĂĄtua e criando uma atmosfera sombria, mas eu podia lidar com isso.
â A propĂłsito, qual o objetivo dessa viagem? â Sitri perguntou enquanto tirava o avental protetor.
Objetivo? VocĂȘs nĂŁo conseguem simplesmente sair de fĂ©rias sem um objetivo?
Talvez nĂŁo fosse tĂŁo estranho; diferente de mim, Liz e Sitri eram pessoas ocupadas.
â Bem, hm… que tal irmos para uma ĂĄgua termal? â sugeri.
â Entendido. Isso Ă© para resistĂȘncia ao fogo, correto? HaverĂĄ magma?
â Na verdade, meio que estaremos fugindo…
â Entendo. EntĂŁo hĂĄ uma chance de sermos perseguidos por inimigos perigosos.
â Exato. Eva, veja bem, tentou nos preparar uma carruagem puxada por mustangs de platina. Ha ha, quĂŁo exagerado Ă© isso? Eu disse a ela que chamarĂamos muita atenção.
â Hm, entĂŁo precisaremos ser discretos. A propĂłsito, mais alguĂ©m virĂĄ?
â Convidei todos no salĂŁo, mas todos fugiram. Nem acreditei.
Sitri pareceu refletir por um momento, mas logo sorriu e bateu as mĂŁos.
â Que sorte,â disse ela. â Tenho trĂȘs pessoas que estou querendo testar. Acabei de conseguir a cooperação delas, entĂŁo ainda tenho algumas dĂșvidas sobre suas capacidades, mas posso me dar ao luxo de perdĂȘ-las… Por favor, deixe os preparativos comigo!
Parece que Sitri tem algumas pessoas que pode levar. Faz sentido; ao contrårio de mim, ela tem muitas conexÔes.
Sua escolha peculiar de palavras me incomodou, mas achei que seria melhor deixar tudo com ela.
EntĂŁo, tive uma boa ideia.
â JĂĄ que vamos sair, por que nĂŁo passamos para ver Luke e o resto dos Grieving Souls? Eles nĂŁo estĂŁo prestes a voltar para casa?
Seria minha primeira viagem em muito tempo. NĂŁo pretendia entrar em nenhum cofre de tesouros, mas nĂŁo via problema em encontrĂĄ-los fora de um.
Matadinho flexionou seus bĂceps bem desenvolvidos. O sorriso de Sitri sugeria que ela concordava com minha ideia.
***
â NĂŁooo â gemeu Tino. â Mestre, Lizzy, essa nĂŁo era a verdadeira eu…
As cortinas estavam bem fechadas. Tino estava deitada na cama, se contorcendo, com o rosto enterrado no travesseiro. Ela se sentia horrĂvel. Costumava se sentir mal depois do treinamento exaustivo de Lizzy, mas isso ia alĂ©m disso. Pelo menos, depois dos treinamentos de Lizzy, ela nĂŁo tinha energia suficiente sobrando para se preocupar com as coisas.
A causa desse desespero era a mĂĄscara que seu mestre a fizera usar no outro dia. Evolve Greed. Uma RelĂquia horrenda pela qual ele chegou a participar de um leilĂŁo para tentar obter. Tino nunca tinha ouvido falar ou visto essa RelĂquia antes.
Como seu mestre havia dito, a mĂĄscara concedia poder a Tino. Mas nĂŁo era sĂł isso.
Quando fechava os olhos, lembrava-se vividamente. O poder que fluĂa para dentro dela no momento em que os tentĂĄculos se conectavam a seu corpo, a sensação de invencibilidade e embriaguez. A mĂĄscara incitava tanto força quanto fervor. Naquele momento, Tino era o centro do mundo. Ou, para ser mais precisa, Tino e seu amado mestre eram os Ășnicos no mundo.
â NĂŁo, Mestre, aquilo nĂŁo foi obra minha â ela continuou. â A… A mĂĄscara, ela falava sozinha, por vontade prĂłpria…
Ela queria se enfiar num buraco e morrer lĂĄ dentro.
Tino se revirava de arrependimento, mas nĂŁo adiantava. AtĂ© interrompeu seu treinamento independente de costume. Nesse ritmo, nunca se tornaria uma caçadora esplĂȘndida como seu mestre. Começou a se odiar por seus fracassos.
Usar a mĂĄscara a desconectou da sua sanidade. Se isso nĂŁo tivesse acontecido, ela nĂŁo teria declarado guerra a Lizzy e Siddy. Mas Tino estava ciente de algo: aquela RelĂquia foi feita para potencializar coisas. Como a usuĂĄria, ela compreendia bem isso.
Evolve Greed podia aprimorar algo a um nĂvel tĂŁo extremo que parecia ser outra coisa, mas a fonte das palavras e açÔes de Tino eram os sentimentos profundos dentro dela. Sua mente estava clara. A mĂĄscara sussurrava para Tino sobre suas capacidades.
Ou seja, Tino, por vontade prĂłpria, havia declarado: âQuem, alĂ©m de mim, Ă© realmente digno do Mestre?â na frente de Lizzy, Siddy e, pior ainda, de seu mestre.
Naquele momento, Tino estava repleta de confiança. Tinha certeza de que havia sido escolhida por seu mestre. A måscara lhe deu poder suficiente para superar sua habitual timidez e ser resoluta.
Mesmo depois que a mĂĄscara foi arrancada, aquelas memĂłrias permaneciam vivas na mente de Tino. Por isso, seu desejo de morrer. Seu mestre e as irmĂŁs Smart riram e a perdoaram, mas isso nĂŁo a fazia se sentir melhor.
â Eu nĂŁo acredito em nada daquilo que disse! Aah, Lizzy, por favor, esqueça tudo. Eu nĂŁo acho que vocĂȘ Ă© indigna do Mestre porque seu peito Ă© pequeno e provavelmente nĂŁo vai crescer mais. Siddy, eu nĂŁo acho que sou uma escolha melhor a longo prazo porque sou mais jovem que vocĂȘ!
Tino era apenas trĂȘs anos mais nova que Siddy, afinal. O que a possuĂra para se vangloriar disso para seu mestre? Ela nĂŁo tinha nada que pudesse competir com as irmĂŁs Smart, que eram amigas de longa data do seu mestre.
Era culpa daquele chifre, aquele que brotou quando Tino colocou a måscara. Com certeza era uma antena que fez seu cérebro receber todo tipo de sinais estranhos. Ela não conseguia mais encarar seu mestre ou as irmãs Smart. Se Lizzy não tivesse derrubado e arrancado a måscara dela, Tino com certeza teria feito algo abominåvel ao seu mestre.
Dizem que rumores duram setenta e cinco dias. Nesse caso, Tino nĂŁo poderia encarar seu mestre por todo esse tempo. TambĂ©m nĂŁo podia se aproximar da sede do clĂŁ nesse perĂodo; era possĂvel que sua demonstração vergonhosa tivesse se espalhado. Ela nĂŁo achava que Lizzy e seu mestre diriam algo, mas a expressĂŁo de Sitri sugeria que ela nĂŁo era tĂŁo confiĂĄvel assim.
Ela havia pisado no calo do tigre e nĂŁo fazia ideia de como obter seu perdĂŁo. Certamente, levaria mais do que um simples pedido de desculpas. Provavelmente envolveria ser cĂșmplice de algum crime que seu mestre consideraria desprezĂvel. Na verdade, era possĂvel que seu mestre jĂĄ a considerasse desprezĂvel.
Aquela RelĂquia era, sem dĂșvida, poderosa. Se Tino tivesse conseguido controlar melhor suas emoçÔes, certamente nĂŁo teria se exposto dessa forma. Seu mestre sempre era tĂŁo gentil, ele devia esperar isso dela.
Isso significava que Tino havia falhado em uma das Mil ProvaçÔes. Foi culpa dela por se empolgar depois de encontrar uma RelĂquia que tinha certeza de que seu mestre apreciaria.
Ela estava afundada em autoaversão quando ouviu um pequeno barulho na porta da frente. Levantou um pouco a cabeça e se escondeu sob as cobertas. A porta estava trancada, e ela não estava com humor para ver ninguém.
Então, ouviu algo alto, o som agudo de algo se estilhaçando. Rapidamente enfiou a cabeça para fora das cobertas, e, ao mesmo tempo, sua porta do quarto foi arrombada. Um vento quente invadiu seu quarto, antes selado.
Lizzy, a quem Tino vinha tentando evitar, estava parada na entrada. Tino trabalhou tanto para juntar dinheiro para essa casa; quem mais destruiria tudo sĂł para vĂȘ-la?
â Ei, T! Levanta logo, temos lugares para ir!
â L-Lizzy?!
Indiferente à vergonha recente de Tino, Lizzy parecia exatamente como sempre: com o mesmo brilho ameaçador nos olhos que surgia quando os treinamentos de Tino a deixavam estirada no chão.
Tino achava que sua humilhação a faria fugir caso visse Lizzy cara a cara, mas, em vez disso, a vergonha desapareceu.
â O que Ă© isso? P-Pra onde estamos indo?
â Vamos sair de fĂ©rias. Com o Krai Baby. Estamos partindo agora, entĂŁo anda logo e se apronta!
â E-Eu nĂŁo posso fazer isso â disse Tino. â NĂŁo posso mostrar meu rosto para o Mestre depois da vergonha que passei…
Lizzy ignorou os protestos de Tino e arrancou os cobertores da cama, sem se importar que Tino ainda se agarrava a eles. Quando percebeu que Tino ainda estava presa nos cobertores, começou a bater ambos contra o chão. Os ossos de Tino estalaram alto. Ela soltou um gemido de dor, mas isso não fez Lizzy hesitar nem por um segundo.
â Hah?! Para de reclamar e faz o que eu mandei! AlĂ©m disso, Krai Baby jĂĄ estĂĄ acostumado com suas vergonhas! Que diferença faz agora? Vamos, vamos, vamos!
â Agh! E-Eu nĂŁo posso! Vou morrer de vergonha!
Algumas coisas simplesmente nĂŁo eram possĂveis. Tino sempre ouvira sua mentora atĂ© entĂŁo, mas dessa vez era diferente. Vendo que Tino se recusava a soltar os cobertores mesmo apĂłs ser arremessada contra o chĂŁo vĂĄrias vezes, Lizzy parou.
SerĂĄ que… SerĂĄ que consegui convencĂȘ-la?, pensou Tino, relaxando um pouco.
Lizzy olhou para Tino como se estivesse olhando para um goblin que nĂŁo sabe quando desistir, mesmo depois que todos os seus aliados foram massacrados.
â Krai Baby mandou te trazer. VocĂȘ tem cinco minutos â disse ela com uma voz fria. â Se nĂŁo estiver pronta atĂ© lĂĄ, eu te arrasto mesmo que seu cabelo ainda esteja uma bagunça.
â HĂŁ?!
Aquilo tirou Tino do transe. Ela sentiu como se tivessem jogado um balde de ĂĄgua fria nela. Se Lizzy dizia que faria algo, ela faria. Se saĂsse assim, Tino sentiria ainda mais vergonha do que no outro dia.
â E-Espera, cinco minutos nĂŁo Ă©…
â Quatro minutos.
Tino entrou em pĂąnico.
NĂŁo tenho tempo para pensar, disse para si mesma.
Ela jogou os cobertores de lado e começou a se arrumar às pressas.
***
O sol estava se pondo, lançando uma sombra fina sobre a capital. Uma Ășnica carruagem estava parada em frente Ă casa do clĂŁ. Era uma carruagem simples em formato de caixa, puxada por dois cavalos. NĂŁo tinha o brasĂŁo dos Primeiros Passos, o que provava que nĂŁo pertencia ao clĂŁ. Isso significava que os passageiros nĂŁo seriam imediatamente reconhecidos.
Eva, que foi além de suas obrigaçÔes usuais e providenciou a carruagem, tentou avaliar minha reação.
â VocĂȘ disse que queria algo que nĂŁo chamasse muita atenção…
â Sim, estĂĄ Ăłtima â respondi.
Confiar na Eva valeu a pena. Carruagens geralmente precisavam ser reservadas com antecedĂȘncia. A Associação dos Exploradores podia ser um pouco mais flexĂvel, mas aquela carruagem nĂŁo parecia ser deles. Pedi isso para ela nem um dia atrĂĄs, e ainda assim ela conseguiu um resultado espetacular.
â Ă um aluguel, entĂŁo haverĂĄ uma taxa se for destruĂda â disse ela. â NĂŁo Ă© uma quantia exorbitante, mas…
â Eu nĂŁo vou destruir.
â Ok, mas quantas carruagens vocĂȘ jĂĄ destruiu atĂ© agora?
Eva me lançou um olhar afiado. Parecia não ter absolutamente nenhuma fé em mim.
â Elas nĂŁo foram destruĂdas, sĂł quebraram â tossi.
NĂŁo foi minha culpa. NĂŁo havia nada que eu pudesse ter feito.
Eu costumava pensar que carruagens eram coisas resistentes. Depois, aprendi o quão frågeis elas realmente são. Mesmo uma reforçada com placas de metal não duraria um minuto contra o ataque de um enxame de monstros ou fantasmas.
Claro, não eståvamos provocando monstros de propósito, nem invadindo seus territórios, mas caçar tesouros ainda era um trabalho perigoso. Não muito tempo atrås, até me negaram um plano de seguro para carruagens destinado especificamente a caçadores. Foi uma das coisas mais estranhas.
Eva observou minha roupa coberta de RelĂquias com um olhar analĂtico e falou com um tom rĂĄpido e clĂnico.
â Seria de grande ajuda para mim se vocĂȘ voltasse o mais rĂĄpido possĂvel.
â Mm, claro.
Não havia nem um traço de antipatia nos olhos dela. Eva era desperdiçada em alguém como eu.
Sim, eu vou voltar o mais rĂĄpido possĂvel. Pode apostar. Mas eu nĂŁo disse quando isso serĂĄ.
Meu retorno seria, no mĂnimo, depois da conclusĂŁo do Encontro da LĂąmina Branca.
â Quando serĂĄ o Encontro da LĂąmina Branca?
â HĂŁ? Ah, Ă© na mesma Ă©poca todo ano, entĂŁo… daqui a trĂȘs semanas.
TrĂȘs semanas, hein? Isso Ă© mais tempo do que eu esperava. Parece que vai ser uma viagem longa. Deve ser tempo suficiente para encontrar os outros. Talvez atĂ© dĂȘ para descansar um pouco.
No final, nĂŁo consegui encontrar mais ninguĂ©m do clĂŁ para nos acompanhar. Acho que nĂŁo posso reclamar, jĂĄ que avisei de Ășltima hora. Ainda assim, que pĂ©ssimo timing, todo mundo estava ocupado com funerais, casamentos ou simplesmente nĂŁo estava se sentindo bem.
Dependendo do ponto de vista, menos gente tambĂ©m poderia ser algo positivo. Significava que sĂł precisarĂamos de uma carruagem.
â Krai, perdoe meu atraso.
Do outro lado da rua, Sitri correu atĂ© nĂłs com roupas de viagem. Ela vestia um manto verde e carregava uma grande bolsa cinza nas costas. AtrĂĄs dela, carregando um baĂș robusto e vestindo um manto que deveria ser discreto (mas talvez causasse o efeito oposto), estava Matadinho.
Preparar uma jornada, reunir suprimentos e informaçÔes sobre cofres de tesouros sempre foi tarefa de Sitri. Luke e Liz eram especialmente propensos a esquecer coisas, então cabia a ela cuidar desse aspecto. A bolsa que carregava não era uma Bolsa Mågica de armazenamento infinito, mas ainda assim era um objeto misterioso que parecia conter tudo o que se podia precisar. Sitri era insuperåvel no suporte.
Sorri ao lembrar de boas memĂłrias enquanto Sitri se virava para mim.
â Krai, permita-me fazer algumas apresentaçÔes. Estes sĂŁo nossos novos associados.
â HĂŁ?
TrĂȘs pessoas com cara de encrenca me encaravam com olhares intimidadores. Eu os tinha visto quando Sitri chegou, mas nĂŁo imaginei que estivessem com ela. Todos eram maiores do que eu; atĂ© mesmo a Ășnica mulher do trio era mais alta do que eu.
Cada um tinha um cabelo e uma cor de olhos diferentes, mas todos pareciam bastante ferozes. Um tinha uma cicatriz na bochecha, outro exibia uma tatuagem que cobria uma grande parte do ombro descoberto. O Ășltimo nĂŁo tinha nem cicatrizes nem tatuagens, mas dava para perceber pelos olhos que era do tipo astuto. Os trĂȘs usavam em volta do pescoço coleiras metĂĄlicas distintas que emanavam um brilho estranho.
Se eu encontrasse esse grupo na rua, definitivamente manteria distĂąncia. Eu com certeza nĂŁo queria dividir uma carruagem com eles. Nenhum deles disse uma palavra, mesmo depois de me encarar. O silĂȘncio era opressor. Eva parecia incomodada.
SĂł Sitri estava sorrindo. Eu fiquei impressionado com a habilidade dela de manter um sorriso enquanto estava cercada por encrenqueiros tĂŁo Ăłbvios. HĂĄ muito tempo, ela jĂĄ teria começado a chorar numa situação dessas…
â Hmm, esses sĂŁo Black, White e Gray â ela disse.
â Esses sĂŁo os nomes reais deles? â perguntei.
â Pense neles como codinomes.
Black, White e Gray. Imagino que sejam baseados na cor do cabelo deles. FĂĄcil de entender, mas como serĂĄ que eles se sentem sobre isso? Sem falar que eu nem sei qual Ă© a conexĂŁo deles com a Sitri.
Os trĂȘs pareciam claramente incomodados quando Sitri mencionou os codinomes. Uma veia saltou na testa de um deles, e eu ouvi o som de dentes rangendo. Um deles começou a tremer a mĂŁo. Me perguntei por que nĂŁo diziam nada.
Sitri era uma pessoa cautelosa. Não achei que haveria problemas, mas ainda assim, havia algo que eu queria confirmar, só por precaução.
â Hmm, esses associados… Eles concordaram com isso? â perguntei em voz baixa.
â Claro. Eles me devem um favor â ela respondeu.
NĂŁo parecia nada disso. Eles nos olhavam como se fĂŽssemos inimigos. Pareciam atĂ© prontos para matar. NĂŁo sei que tipo de dĂvida eles tinham com Sitri, mas nĂŁo pareciam o tipo de companhia ideal para uma viagem divertida. Para ser sincero, eu nĂŁo queria que viessem.
â VocĂȘ estĂĄ trazendo os trĂȘs? â perguntei.
â Ah, pensei em testĂĄ-los…
Sitri virou-se para o trio mais uma vez e entĂŁo bateu as mĂŁos como se tivesse tido uma ideia.
â Se tiver alguĂ©m que nĂŁo seja do seu agrado, Krai, eu posso liquidĂĄ-lo â ela disse. â Vou dar um jeito antes da Lizzy chegar.
Liquidar. Que palavra engraçada para usar, pensei.
Os trĂȘs brutamontes imediatamente ficaram tensos ao ouvir Sitri dizer aquilo. Imaginei que, muito provavelmente, haviam sido contratados por ela. Sitri tinha uma certa influĂȘncia na capital, entĂŁo era natural que eles ficassem preocupados com a possibilidade de perder o emprego.
Eu entendia como se sentiam. Trabalho desagradĂĄvel ainda era trabalho; viver nĂŁo era fĂĄcil, e, por mais que me doesse dizer, trĂȘs pessoas a mais era demais. Liz e Tino estavam vindo, Matadinho tambĂ©m se juntaria a nĂłs, e simplesmente nĂŁo havia mais espaço na carruagem.
â NĂŁo se preocupe com isso, Krai. Pode falar sem rodeios â disse Sitri com um sorriso fino. â NĂŁo precisa se preocupar com os sentimentos de ninguĂ©m.
â Certo…
Cruzei os braços e olhei para a Ășnica mulher do trio. Ela era alta para uma mulher, quase meio palmo mais alta do que eu. Sua pele era escura, e o corpo, bem definido. O cabelo preto era cortado bem curto, e uma cicatriz grande atravessava sua bochecha.
Ela não parecia nem um pouco amigåvel, mas parecia ainda mais forte que Liz. Meu palpite era que fosse uma mercenåria. De qualquer forma, ela tinha o ar de alguém que sobreviveu a muitas batalhas e parecia tão perigosa quanto os outros dois.
Sem mudar a expressĂŁo, ela finalmente falou. Sua voz era grave, mas definitivamente feminina.
â M-Me chame de Black. Sou uma assassina habilidosa â disse.
Que resposta inesperada. Meus olhos se arregalaram.
Assassina, hein? Serå que vamos precisar de alguém com essa especialidade? Bom, ao menos parece mais do que capaz de nos proteger.
Fingi que não tinha ouvido e passei para White, que tinha cabelos brancos caindo sobre o lado direito da cabeça. Seu corpo era bem treinado, e um dos ombros exibia uma tatuagem. Ele realmente tinha cara de bandido.
â M-Me chame de White â disse com uma voz seca. â Ă uma honra conhecĂȘ-lo. E-Eu faço qualquer coisa que precisar.
â Qualquer coisa?
â Err… Qualquer coisa!
Hmm, ele nĂŁo falta com motivação. EntĂŁo ele nos protegerĂĄ e carregarĂĄ a bagagem? Pelo jeito dele, vocĂȘ nĂŁo diria isso, mas parece um bom sujeito.
Olhei para o Ășltimo, o homem de cabelos cinzentosâGray.
Gray era menor que os outros dois. Parecia ser um ladino. NĂŁo parecia capaz de lutar tĂŁo bem quanto os outros, mas me olhava com olhos afiados e avaliadores.
Considerando que os trĂȘs haviam sido contratados por Sitri, parecia seguro presumir que eram confiĂĄveis… Mas isso nĂŁo significava que eu confiaria neles.
Mas, pensando bem, Liz e Tino não seriam proteção suficiente? Matadinho também estaria conosco, e eu simplesmente não conseguia imaginar relaxar com desconhecidos por perto.
Olhei para Sitri e forcei um sorriso.
â Desculpa, mas serĂĄ que os trĂȘs poderiamâ
Os olhos de Sitri se arregalaram, e ela cobriu a boca com a mĂŁo.
Eu ia terminar a frase, mas, do nada, White e Black acertaram Gray. Eles atacaram sem hesitação, e o impacto foi tĂŁo forte que fez um barulho terrĂvel, como se alguĂ©m tivesse sido atingido por uma arma pesada. Gray voou para o outro lado da rua e caiu longe. Fiquei paralisado enquanto os outros dois gritavam com raiva.
Com expressĂ”es intensas, Black e White começaram a chutar Gray sem piedade enquanto ele estava no chĂŁo. O som era horrĂvel.
â Seu pedaço de merda! Prometemos que nos comportarĂamos! Morre logo!
â Pede desculpa! Pede desculpa pra Sitri! Seu lixo inĂștil! Achou que era bom demais pra isso?!
A cabeça de Gray foi esmagada contra o chão, rachando a pedra. Sangue espirrou por toda parte. Parecia um pesadelo. Eva ficou pålida. Jå Sitri, nem sequer piscou.
O que o emprego da Sitri significava para eles?!
Continuei imĂłvel, paralisado pelo banho de sangue repentino diante de mim.
â Achei que o melhor seria dar um exemplo com um deles, mas os trĂȘs… â Sitri disse, pensativa.
â E-Eu estou brincando. SĂł brincando.
Sim, uma brincadeira. Eles podem vir com a gente, tudo bem. Eu sĂł preciso aguentar isso. SĂł preciso aguentar.
Sitri colocou uma mĂŁo no peito, aliviada.
â Hmm, entĂŁo era sĂł uma brincadeira? Que bom â disse, olhando para Gray, que estava sendo espancado. â A verdade Ă© que eles ainda nĂŁo estĂŁo totalmente treinados. Farei o possĂvel, mas peço que tenha paciĂȘncia caso sejam um pouco agitados.
â Ă… Aham.
SerĂĄ que isso realmente estĂĄ certo?
Olhando para Sitri entre Black e White, fiquei cheio de dĂșvidas, mas balancei a cabeça e me forcei a esquecer. NĂŁo havia nada que eu pudesse fazer, entĂŁo nĂŁo adiantava me preocupar.
Sitri fez uma expressĂŁo tĂŁo assustadora que parecia uma pessoa completamente diferente da que eu tinha acabado de conversar.
â NĂŁo para mim! Se vocĂȘ vai se desculpar, entĂŁo se desculpe com o Krai! â ela gritou. â VocĂȘ nĂŁo serve para nada agindo assim! Se me envergonhar, vou te dar um fim.
Mesmo com o sol se pondo, ainda havia bastante gente circulando. Eles jĂĄ estavam mantendo distĂąncia, mas era possĂvel que alguĂ©m chamasse os cavaleiros para nos investigar.
Virei-me para longe de Sitri e sorri para Eva.
â Vai ser uma viagem super divertida â eu disse.
â Aham. Espero que vocĂȘ se divirta â ela respondeu. â E por favor, volte o mais rĂĄpido possĂvel.
Parece que nem Eva compartilha dessa alegria. Eu sĂł queria ficar em casa.
Algumas pessoas conhecidas saĂram correndo da sede do clĂŁ. Talvez quisessem se juntar a nĂłs? Era sĂł ilusĂŁo minha? Um caçador mais velho, coberto de bandagens, se agarrou a mim com lĂĄgrimas escorrendo pelo rosto.
â E-Espera! CM, Ă© verdade que vocĂȘ vai sair da capital? Se for, entĂŁo leve essa criatura com vocĂȘ!
â Criatura?
â Estou falando do Drink! NĂłs nĂŁo conseguimos mais lidar com ele! Desse jeito, alguĂ©m vai acabar morrendo!
Seus olhos estavam vermelhos de cansaço. Se nĂŁo me engano, esse cara era um Ladino de NĂvel 5. AtrĂĄs dele, havia muitos outros caçadores, todos exaustos e acenando repetidamente. Cada um deles tinha pelo menos uma bandagem no corpo.
Drink. Eu tinha deixado toda a responsabilidade de cuidar dele para os outros caçadores. NĂŁo sabia o que pensar se atĂ© caçadores experientes em monstros estavam achando a situação insustentĂĄvel. Talvez fosse simplesmente impossĂvel mantĂȘ-lo em cativeiro sem matĂĄ-lo. Mas eu considerava isso um problema exclusivamente da Sitri.
Os tratadores de Drink nĂŁo esperaram minha resposta e entraram na sede do clĂŁ. Pouco depois, saĂram de novo, cinco deles puxando Drink com correntes grossas como um dedo humano. NĂŁo fazia nem um mĂȘs desde a Ășltima vez que vi a criatura, mas ela jĂĄ tinha se tornado adulta, crescendo de forma assustadoramente rĂĄpida.
Quando Sitri trouxe Drink pela primeira vez, ele cabia em uma caixa pequena o suficiente para uma pessoa carregar com facilidade, mas agora tinha quase dois metros de comprimento. Eu provavelmente poderia montĂĄ-lo. De suas costas, brotavam asas, e sua juba havia crescido de maneira impressionante. Mesmo quando ainda era um filhote, Drink jĂĄ era forte o suficiente para me matar, mas agora havia se tornado um monstro de verdade.
Drink olhou para mim e soltou um doce âmiaaauâ, algo completamente inesperado vindo de uma criatura dessas. Mas os enormes caninos em sua boca nĂŁo passaram despercebidos.
A cor sumiu dos rostos do trio da Sitri quando viram Drink. Eu jĂĄ estava perdendo a vontade de continuar quando ouvi algumas vozes altas.
â NĂŁĂŁĂŁo! Me perdoa, Lizzy! Eu nĂŁo consigo ver o Mestre, afinal!
â Aprende a desistir! VocĂȘ sempre vai continuar uma fracote se nĂŁo tomar jeito! Quantas vezes eu jĂĄ te disse? Krai Baby jĂĄ sabe o quĂŁo patĂ©tico vocĂȘ Ă©! Se continuar se lamentando, isso afeta a minha honra como sua mentora!
A gente nem tinha partido ainda, e eu jĂĄ estava com um pressentimento ruim. Olhei para Liz, que arrastava Tino com ela, e entĂŁo entrei na carruagem sem dizer nada, fingi que nada aconteceu e abracei os joelhos.
Eu jĂĄ quero voltar para casa…
***
â Sobre aquela poção que vocĂȘ pediu para eu identificar, Ă© um poderoso antĂdoto para ressaca.
â HĂŁ?
Arnold estava conversando com um boticĂĄrio famoso, bem conhecido atĂ© mesmo dentro da capital imperial. O sangue lhe subiu Ă cabeça, e o resto do NĂ©voa Caida ficou em alvoroço. Sitri Smart tinha enganado eles direitinho. A poção pela qual ela cobrou mais de cem milhĂ”es de gild era um remĂ©dio para ressaca. Era, de certa forma, um tipo de antĂdoto, mas isso nĂŁo vinha ao caso.
Pensando melhor, parecia improvĂĄvel que um caçador, por mais perigoso que fosse, envenenasse a comida de outro caçador. Ela estava apenas zombando deles. Arnold considerou se vingar por vias legais, mas seria difĂcil vencer apenas com os resultados da avaliação.
No entanto, Arnold decidiu que isso nĂŁo importava. Ele resolveu deixar todos os outros planos de lado por enquanto. Grieving Souls havia provocado a ira do Crashing Lightning. Eles feriram seu orgulho. NĂŁo importava que Mil Truques fosse de um nĂvel mais alto do que Arnold. Se ele nĂŁo resolvesse essa questĂŁo, ficaria insatisfeito e ainda corria o risco de perder membros do grupo.
Ele iria derrubar os Grieving Souls o mais rĂĄpido possĂvel. NĂŁo se importava com promessas passadas; ele preferia manter as coisas simples. Arnold relembrou toda a mĂĄ sorte que teve desde que chegou Ă capital.
Na taverna, Liz Smart o atacou sem aviso, e sua derrota foi testemunhada por outros caçadores. Em uma ĂĄrea pĂșblica, ele foi derrotado por Mil Truques. Sitri praticamente o extorquiu para comprar um remĂ©dio para ressaca por um preço absurdo. Ele percebeu que essas situaçÔes levaram o NĂ©voa CaĂda a entrar em conflito com o Maldição Oculta, um clĂŁ bem conhecido â outro incidente que tambĂ©m foi presenciado por muitos.
O que incomodava Arnold mais do que tudo era que ele nĂŁo teve uma Ășnica chance de mostrar sua força. Para os caçadores, nada era mais importante do que isso. Um caçador fraco valia menos do que um encrenqueiro. Se nĂŁo tivesse a chance de demonstrar seu poder, seria difĂcil para Arnold e o NĂ©voa CaĂda sobreviverem na capital.
As coisas nĂŁo estavam indo bem. Eles eram um grupo forte, mas isso nĂŁo mudava o fato de que, a esse ritmo, poderiam se desfazer.
Se quisessem mudar a situação, precisariam fazer algo que mostrasse a todos do que a NĂ©voa CaĂda era capaz. No ritmo atual, corriam o risco de serem menosprezados nĂŁo apenas por caçadores de alto nĂvel e pela Associação dos Exploradores, mas tambĂ©m por caçadores de nĂvel mais baixo e civis.
Eles poderiam recorrer a meios mais fĂsicos para impedir que falassem mal deles, mas isso sĂł iria atĂ© certo ponto. Derrotar os Grieving Souls resolveria seus problemas num piscar de olhos. Arnold havia enterrado o machado de guerra por um breve momento, mas foram os Grieving Souls que os provocaram. Isso dava Ă NĂ©voa CaĂda razĂŁo de sobra para ir atrĂĄs deles; e nĂŁo tinham a menor obrigação de se segurar.
Os Grieving Souls tinham arrumado uma briga, e a NĂ©voa CaĂda nĂŁo poderia simplesmente ignorar isso.
Eles iriam esmagar seus oponentes. Os nomes NĂ©voa CaĂda e Crashing Lightning iriam estremecer a capital. Mesmo que suas chances de vitĂłria fossem pequenas, eles iriam revidar. Esse era simplesmente o modo de vida dos caçadores. O Mil Truques havia escapado deles no cafĂ©, mas isso nĂŁo aconteceria uma segunda vez.
Arnold estava treinando no alojamento. Ele balançava sua amada espada na esperança de afastar a humilhação anterior quando sua mão direita, Eigh Lalia, entrou correndo.
â Arnold, temos um problema! Eu estava ouvindo uma conversa sobre a Primeiros Passos e parece que o Mil Truques saiu da capital. Ele estĂĄ saindo de fĂ©rias e ninguĂ©m sabe quando vai voltar.
A mente de Arnold ficou em branco.
Depois de fazer papel de bobo com a NĂ©voa CaĂda, agora ele estava tirando fĂ©rias? Que palhaço.
O sangue subiu à sua cabeça, mas Arnold apenas respirou fundo e deu uma ordem concisa.
â Vamos atrĂĄs deles. Preparem todo mundo.
***
â Krai saiu da capital? Outra partida repentina…
No escritório da filial da Associação dos Exploradores, Gark mais uma vez se via ocupado processando documentos. Um dos relatórios o pegou de surpresa.
O Mil Truques era um caçador que merecia seu status de NĂvel 8, mas seu Ășnico defeito era sua tendĂȘncia a agir devagar. Parecia que ele sempre tinha tudo planejado, mas estava sempre causando preocupação Ă queles que nĂŁo estavam por dentro, como Gark.
A missĂŁo nomeada pelo Conde Gladis tinha um enorme peso. O sucesso da missĂŁo provavelmente faria o conde ter uma visĂŁo mais amigĂĄvel dos caçadores, o que traria benefĂcios que dinheiro algum poderia comprar.
Até mesmo Krai não adiaria uma tarefa tão importante, pensou Gark, sua carranca ainda firme no rosto.
â No entanto, Krai nĂŁo levou o pergaminho da missĂŁo com ele, levou? â Kaina perguntou, piscando algumas vezes. â E Chloe deveria acompanhĂĄ-lo, mas…
â Ah?! Droga, Krai!
Os pergaminhos de missão eram documentos que detalhavam as tarefas designadas pela Associação dos Exploradores. Normalmente, eles eram entregues aos caçadores ao aceitarem uma missão. Eles tentaram entregar o pergaminho para Krai mais cedo, mas ele recusou.
Era improvĂĄvel que ele tivesse deixado a capital sem saber os detalhes da missĂŁo. Krai Andrey nĂŁo era tĂŁo estĂșpido, e em diversas ocasiĂ”es anteriores jĂĄ havia completado missĂ”es sem olhar o pergaminho, embora como ele conseguisse isso continuasse um mistĂ©rio.
Exceto que esta missĂŁo era diferente de qualquer outra.
Essa missĂŁo nomeada era uma operação conjunta entre Krai e os cavaleiros pessoais do conde. O pergaminho nĂŁo servia apenas para explicar a missĂŁo, mas tambĂ©m como prova de identidade. O Mil Truques era famoso o suficiente para talvez conseguir se virar sem ele, mas nĂŁo tĂȘ-lo tornaria mais difĂcil causar uma boa impressĂŁo. Isso poderia ser fatal ao lidar com um cliente que jĂĄ nĂŁo gostava de caçadores.
Gark achava que tudo iria correr bem porque Chloe o acompanharia. No entanto, Krai saiu de repente sem levĂĄ-la junto, mesmo tendo se mostrado aberto Ă ideia no inĂcio.
Com uma careta, Gark decidiu que daria um sermĂŁo em Krai assim que se vissem de novo.
â AtĂ© mesmo Krai pode ser desastrado em momentos inesperados â disse Kaina com um sorriso tenso. â Ouvi dizer que ele disse que ia tirar fĂ©rias.
â Ele Ă© livre demais para o meu gosto. NĂŁo tem nada que possamos fazer sobre esses hĂĄbitos dele? Que tipo de pessoa aceita uma missĂŁo nomeada por um nobre e a chama de fĂ©rias?
Mesmo depois de alguns anos, Gark ainda nĂŁo conseguia se acostumar com a natureza bizarra das atitudes e resultados de Krai. Ele tinha certeza de que Chloe nĂŁo tinha sido deixada para trĂĄs de propĂłsito; parecia mais provĂĄvel que Krai simplesmente tivesse se esquecido dela.
Gark pressionou as mĂŁos contra as tĂȘnsĂ”es em sua cabeça.
â Mande Chloe ir atrĂĄs deles â ele ordenou a Kaina. â NĂŁo importa o que aconteça, ela precisa encontrĂĄ-los antes que cheguem ao domĂnio do conde. NĂŁo podemos deixar uma mĂĄ impressĂŁo no Conde Gladis! Ah, mas serĂĄ perigoso para ela ir sozinha, envie alguns caçadores para protegĂȘ-la. O pagamento pode sair do bolso do Krai.
Tradução: Carpeado
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