Grieving Soul â CapĂtulo 6 â Volume 3
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 03
CapĂtulo 6:
[A Verdadeira VitĂłria]
â NĂŁo acredito! â Liz lamentou. â Fui a seis lugares diferentes e nĂŁo encontrei um Ășnico! Nada! Zero!
â Ă, bom… Essa Ă©poca do ano Ă© bem movimentada â eu disse.
â Fiquei em dĂșvida entre sair em uma expedição ou procurar uma recompensa. Mas levaria tempo para encontrar uma recompensa e converter o pagamento em dinheiro, e se eu fosse em uma expedição, talvez nĂŁo chegasse a tempo para o leilĂŁo. EntĂŁo, pensei que a melhor opção seria vender os itens que conseguimos de fantasmas e monstros para conseguir pelo menos um pouco mais para o nosso fundo!
â Aham…
Eu caminhava pela capital imperial com uma sorridente Liz e Sitri me acompanhando. O leilão jå havia começado, e a cidade estava lotada de gente. Por um tempo, a capital ficaria barulhenta como em um festival. Barracas se alinhavam pela rua principal, algumas até realizavam pequenos leilÔes, imitando o leilão oficial que estava para acontecer. A Associação dos Exploradores estava sobrecarregada de pedidos, e essa era a época perfeita tanto para comerciantes quanto para caçadores ganharem dinheiro.
Minha mente estava ocupada com a Face ReversĂvel os Ășltimos dias, mas, ao me acalmar, percebi que vĂĄrias outras RelĂquias Ășteis seriam leiloadas tambĂ©m. Minha situação atual nĂŁo me permitia disputar por elas, mas isso me dava uma leve sensação de solidĂŁo, como se nĂŁo pudesse participar da festa. Liz estava toda animada, mas Sitri soltou um suspiro profundo.
â VocĂȘ Ă© tĂŁo inĂștil, Liz â Sitri resmungou. â Se pelo menos tivesse encontrado uma RelĂquia cara, isso me deixaria mais tranquila.
â O quĂȘ?! â Liz protestou. â A culpa disso tudo Ă© sua, pra começo de conversa! Por que todo mundo sabe sobre a RelĂquia que o Krai Baby estĂĄ atrĂĄs?!
Ah… Isso Ă© culpa minha… Olhei para as duas irmĂŁs discutindo e senti um peso na consciĂȘncia, desviando o olhar em silĂȘncio.
â Hm… Mesmo juntando todas as nossas economias, nĂŁo chegamos a um bilhĂŁo de gild â Sitri disse.
â Bom, demos tudo de nĂłs para conquistar aquele palĂĄcio, e nossas recompensas estĂŁo nas mĂŁos do Luke â Liz fez um biquinho.
Nosso grupo tinha uma regra: se alguém tivesse que sair por qualquer motivo, salvo circunstùncias excepcionais, não poderia levar a recompensa dessas expediçÔes. Se Liz ou Sitri tivessem conseguido pegar pelo menos uma parte desse dinheiro, o desfecho do leilão poderia ter sido diferente.
Sitri suspirou.
â Concordo. Foi sĂł um azar de timing. Normalmente, eu conseguiria virar essa situação a nosso favor.
Ela fez tanto e ainda nĂŁo estĂĄ satisfeita? Pensei enquanto ela olhava para mim.
â Temos cerca de setenta por cento de chance de ganhar â ela disse. â Se vocĂȘ nĂŁo tivesse dito nĂŁo, acho que ainda poderĂamos bolar alguns planos…
â NĂŁo â respondi firmemente. â VocĂȘ jĂĄ fez mais do que o suficiente, Sitri. Obrigado.
â Ah…
O canto de seus lĂĄbios se ergueu. Sitri era mais esperta que Liz, mas tinha a tendĂȘncia infeliz de ir longe demais. Suponho que esse seja o destino de alguĂ©m competente.
â JĂĄ sei! Krai Baby, se vocĂȘ nĂŁo conseguir essa RelĂquia… â Liz disse com um sorriso confiante, apertando meu braço direito e encostando-se ao meu lado â eu vou roubĂĄ-la daquela pirralha de merda!
â VocĂȘ sabe que estĂĄ lidando com um nobre, nĂ©? â avisei.
Quer dizer, nĂŁo Ă© como se devesse roubar mesmo que nĂŁo fosse um nobre. Roubar Ă© crime.
â HĂŁ? Isso Ă© um problema? â ela perguntou. â Relaxa, aqueles cavaleiros acomodados nĂŁo podem nem encostar em mim! NĂŁo vou perder pra eles!
â Liz, se fizer isso, o Krai vai se tornar o principal suspeito! â Sitri retrucou. â Se for fazer… Melhor que pareça um assalto ou algo assim.
â Parem com isso â eu disse.
SĂ©rio. VocĂȘs nĂŁo sabem quando Ă© hora de pisar no freio? Presumi que estivessem brincando, mas algumas piadas tĂȘm gosto bem duvidoso.
O Leilão de Zebrudia acontecia em um teatro branco como giz, no centro da capital imperial. Esse local normalmente era usado para concertos e peças de teatro; o prédio de mårmore polido reunia uma multidão de homens e mulheres de todas as idades. Quantos deles estavam planejando dar lances? Quantos tentariam nos superar? Tudo o que eu podia fazer agora era torcer por um leilão justo e divertido.
A entrada era dividida em trĂȘs: uma para nobres, outra para caçadores e uma para o restante do pĂșblico. Era Ăłbvio que os nobres eram separados do resto, mas os caçadores tambĂ©m tinham um espaço prĂłprio, jĂĄ que certamente haveria problemas se fossem misturados ao pĂșblico geral.
A taxa de entrada do leilĂŁo era cem mil gild. A entrada mais lotada e chamativa era a dos caçadores. Primeiro, porque suas aparĂȘncias eram muito distintas. Por que alguĂ©m veio com uma armadura completa para o leilĂŁo? Alguns pareciam incrivelmente intimidadores, e por algum motivo, alguns atĂ© trouxeram suas armas.
Notei um grupo familiar entre a multidão. Havia um garoto jovem de cabelos vermelhos flamejantes, um velho assustador de cabelos castanho-escuros, uma Ladina de cabelos castanhos e a aprendiz da mulher que ainda estava grudada no meu braço direito.
Fazia tempo que os membros que foram lançados no Covil do Lobo Branco não se reuniam assim. Havia alguns rostos desconhecidos ao redor deles, mas eu jamais confundiria o rosto da Tino. Pensei em falar com Gilbert primeiro, mudei de ideia para Greg, considerei Rhuda e, por fim, decidi chamar a Tino.
â Ei, Tino! â chamei. â VocĂȘs vieram comprar algo tambĂ©m?
â Mestre! Bom dia! â ela respondeu.
Os outros membros me notaram e deram um sorriso sem jeito. A Tino começou a andar com eles depois que formamos grupo juntos? De qualquer forma, fico feliz que ela tenha feito alguns novos amigos.
â Estou aqui para ver sua bravura com meus prĂłprios olhos! â Tino disse. â Eu os vi tentando visitar o leilĂŁo, entĂŁo pensei em acompanhĂĄ-los, sĂł isso.
â Tino, vocĂȘ vira outra pessoa quando estĂĄ perto do Mil Truques â Gilbert murmurou.
Tino lhe lançou um olhar de desprezo.
Por pura coincidĂȘncia, eu me vi no centro desse furacĂŁo chamado leilĂŁo. O homem ao lado de Gilbert me olhou com interesse antes de começar a cochichar.
Ă… Isso estĂĄ ficando desconfortĂĄvel pra mim.
â Coragem Ă parte, se vocĂȘ ia ao leilĂŁo, deveria ter ido conosco â eu disse.
â Er… Bem, vocĂȘ nĂŁo… me convidou â Tino respondeu.
Desculpa. Meu Deus, me desculpa mesmo. Ouvi dizer que vocĂȘ atĂ© emprestou um pouco do seu dinheiro pra gente. Sinto muito de verdade. Isso passou completamente batido. Mas se eu puder dar uma desculpa, er… Ah! Provavelmente Ă© melhor que vocĂȘ tenha ido com Rhuda e os outros para evitar chamar atenção. Sinceramente, se pudesse, eu trocaria de lugar com vocĂȘ.
Percebi Rhuda me lançando olhares furiosos. Talvez ela tenha descoberto que Tino estå me emprestando dinheiro.
â Ah, er… Isso Ă©… â gaguejei.
Tino me encarava enquanto eu tentava encontrar as palavras certas. O que eu devia dizer? Eu poderia convidĂĄ-la agora, mas ela jĂĄ estĂĄ com eles e nĂŁo ficaria Ă vontade com Liz e companhia ao lado. Foi entĂŁo que tive uma grande ideia.
â Tino, se nĂŁo se importar, que tal entrar no leilĂŁo no meu lugar? â sugeri.
â HĂŁ? No seu lugar? â ela repetiu.
O LeilĂŁo de Zebrudia permitia o uso de um substituto. Isso era bem autoexplicativo, mas era uma polĂtica que permitia a participação de alguĂ©m no leilĂŁo em nome de outra pessoa. NĂłs assistirĂamos ao evento, mas em vez de anunciar nossos lances, usarĂamos sinais manuais Ășnicos para que Tino fizesse os lances por nĂłs.
A substituição era usada principalmente por aqueles que queriam ocultar suas identidades. Como jĂĄ sabiam que eu estava atrĂĄs de um Rosto ReversĂvel, isso pouco ajudaria a esconder minha identidade, mas ao menos me permitiria aproveitar mais o leilĂŁo. Tino arregalou os olhos em choque, enquanto Sitri estreitou os dela e assentiu.
â Entendo… â murmurou a Alquimista. â NĂŁo Ă© uma ideia ruim. Embora eu nĂŁo tenha certeza de como a jovem nobre reagiria a isso, talvez consigamos confundi-la. Pode ser que apenas alivie um pouco nossa ansiedade, mas tem certeza? VocĂȘ nĂŁo gostaria de dar lances no item que quer?
De fato, eu adorava leilÔes. A emoção de disputar ferozmente por um item e sair vitorioso era extremamente satisfatória. Mas achei que dessa vez deveria abrir mão desse privilégio.
â Participei do leilĂŁo no ano passado e no retrasado tambĂ©m â respondi. â EstĂĄ um pouco caĂłtico dessa vez. Ah, qual Ă©, Liz, nĂŁo faz essa cara de desĂąnimo.
Liz parecia inquieta, provavelmente querendo ser minha substituta. Mas senti que ela estava agindo um pouco infantil.
â Certo… â Liz murmurou lentamente, antes de encarar a irmĂŁ. â Tsk, Ă© bom que vocĂȘ vença, T.
â C-Certo! â Tino respondeu. â Deixa comigo, Mestre, Lizzy! Vou vencer esse leilĂŁo e conseguir o item! Pode contar comigo!
Ela fechou as mãos em punhos com determinação. Parece que ela estå sentindo a pressão para ganhar, mas nossos fundos são limitados, então se ultrapassarmos o orçamento e perdermos, isso não serå exatamente culpa dela.
Uma carruagem chegou Ă entrada dos nobres, ostentando o emblema familiar da Casa Gladis. Envolta em um vestido branco puro, Lady Ăclair desceu e olhou ao redor. Quando finalmente me viu, lançou-me um olhar tĂŁo intenso que era difĂcil acreditar que se tratava de uma jovem garota. A expressĂŁo de surpresa que demonstrara quando negociamos com ela havia desaparecido por completoâum sinal claro de que ela havia reunido mais de duzentos milhĂ”es.
Sitri permaneceu composta, mas apertou minha mĂŁo. Quando olhei para ela, um sorriso estava estampado em seu rosto, mas percebi que ela tentava desesperadamente esconder sua ansiedade por trĂĄs daquela expressĂŁo animada. Perdemos essa?
***
O salĂŁo do leilĂŁo estava repleto de energia dos licitantes. Os assentos ao redor do grande palco central eram divididos em trĂȘs setores. A maioria era destinada ao pĂșblico em geral, incluindo comerciantes e pessoas ricas. Os caçadores de tesouros eram guiados a assentos um pouco mais isolados do restante, enquanto os nobres e outros VIPs tinham lugares especiais.
Os assentos dos caçadores eram os mais barulhentos. Qualquer um podia participar do Leilão de Zebrudia, contanto que pagasse a taxa de entrada, mas nenhum plebeu pagaria cem mil gilds apenas para assistir. Naturalmente, isso significava que muitos licitantes eram refinados e pertenciam à alta classe, mas essa regra não se aplicava aos caçadores de tesouros.
A taxa de entrada nĂŁo era tĂŁo alta para os caçadores. A maioria vivia sem pensar no futuro, e o ambiente deles era completamente diferente do restante do pĂșblico. Comida e bebida nĂŁo eram permitidas no local, mas risadas escandalosas e gritos vulgares ecoavam por toda a sala.
Havia assentos em nĂveis elevados para garantir uma boa visĂŁo do palco. NĂłs fomos guiados para uma ĂĄrea mais alta do que a dos outros caçadores, permitindo-nos uma visĂŁo panorĂąmica de seus lugares.
â HĂŁ?! â Liz rosnou, ameaçando imediatamente um caçador prĂłximo. â Ei, seu bastardo! VocĂȘ estava me olhando, nĂŁo estava? De onde vocĂȘ Ă©? Vou te dar cinco segundos. Fala logo!
â O-O quĂȘ?! â o pobre caçador respondeu.
â Ei, pode impedir ela por mim? â sussurrei para a calma Smart, cutucando-a.
Liz havia agarrado o braço de um homem corpulento, muito maior que ela, e o encarava com fĂșria ardente nos olhos. Ela era uma mulher pequena, e o homem que ameaçava era muito mais musculoso, mas ele rapidamente ficou pĂĄlido, seu braço rangendo nas articulaçÔes sob o aperto dela. Apesar da aparĂȘncia frĂĄgil, ela era incrivelmente forte. Poderia facilmente quebrar um braço ou dois sem hesitação. O homem se contorcia tentando recuar, mas, talvez devido Ă diferença de força, percebeu que nĂŁo conseguia se mover. Sitri, que antes parecia apenas uma espectadora inocente, se levantou para conter sua irmĂŁ encrenqueira.
â Liz, Krai disse para soltĂĄ-lo.
â HĂŁ? De novo? â Liz resmungou. â Que tĂ©dio.
â NĂŁo Ă© como se essas pessoas valessem a pena lutar contra, de qualquer forma. Anda, senta aĂ.
â Tch â Liz estalou a lĂngua com irritação, soltando sua pobre vĂtima. â Cai fora, ouviu? Da prĂłxima vez que aparecer com essa cara de merda, vou te socar atĂ© o inferno.
O ladino rapidamente fugiu com o rabo entre as pernas. Isso sim era o auge da sobrevivĂȘncia do mais apto. A multidĂŁo ficou em silĂȘncio por um momento ao ver Liz rugir para o ladino, mas logo voltou a ficar barulhenta. Trocas como essa eram ocorrĂȘncias diĂĄrias. Eu quero parar de ser um caçador. SĂł quero ir para uma cidade distante, abrir uma confeitaria e viver o resto da minha vida em paz.
â Me desculpe, Krai â Sitri se desculpou. â A Liz Ă© pequena, mas barulhenta.
Liz ouviu as palavras da irmĂŁ.
â Siddy, para de usar minha presença pra ganhar pontos com o Krai Baby! Foi porque vocĂȘ nĂŁo se preparou direito que esses caras estranhos estĂŁo perto da gente. E alĂ©m disso, que diabos? Quem te deu permissĂŁo pra sentar do lado dele? NĂŁo toca no Krai Baby! VocĂȘ tem que ficar a um metro de distĂąncia dele o tempo todo!
â A culpa Ă© sua porque vocĂȘ se atrasou! VocĂȘ devia estar na frente, abrindo caminho pra gente! Faz seu trabalho. Sou eu que estou financiando isso, sabia…? NĂ©, Krai?
â HĂŁ?! E daĂ? Isso nĂŁo importa, nĂ©, Krai Baby?
â Mhm, uh-huh â respondi. â Tenho certeza de que tem muito mais RelĂquias no leilĂŁo… Olha sĂł, Correntes do LeĂŁo. Urgh, mas correntes grandes ocupam muito espaço e nem sĂŁo tĂŁo resistentes assim.
Cruzei as pernas enquanto folheava o catĂĄlogo que recebi ao entrar no evento. O nome, caracterĂsticas, efeitos, vendedor e avaliador estavam todos listados de forma organizada para cada RelĂquia. Havia atĂ© uma classificação de perigo e a localização da descoberta. Cada item do leilĂŁo era avaliado por um especialista, mas isso nĂŁo significava que os itens leiloados eram definitivamente autĂȘnticos. Embora fossem raros, existiam casos de azar em que alguĂ©m comprava uma falsificação por um preço absurdo.
O leilĂŁo tambĂ©m era um lugar para avaliar itens e fazer contatos. Livros raros, artefatos, obras de arte e joias tambĂ©m estavam Ă venda, mas eu sĂł me interessava por RelĂquias. Este leilĂŁo anual fazia jus Ă sua reputação e oferecia muitas RelĂquias interessantes. Eu vou juntar dinheiro pra poder participar direito no ano que vem. Juro que vou. Fui muito descuidado desta vez.
LĂĄ embaixo, Tino conversava nervosamente com Greg e os outros. Mais distante, nos assentos nobres perto do teto, Lady Ăclair estava sentada, parecendo igualmente ansiosa.
A RelĂquia que estĂĄvamos almejando, que se tornou um grande assunto na capital, apareceria apenas na segunda metade do leilĂŁo, sendo tratada como um dos destaques do evento. Com a briga resolvida, Sitri sentou-se Ă minha esquerda, enquanto Liz se acomodou Ă minha direita. Finalmente as coisas estavam começando a se acalmar. O LeilĂŁo de Zebrudia, que vinha me preocupando hĂĄ dias, finalmente havia começado.
O LeilĂŁo de Zebrudia era um evento simples. Cada item começava com um lance mĂnimo, e os participantes declaravam o quanto estavam dispostos a pagar. Cada item tinha um incremento mĂnimo no valor do lance, que geralmente era de cem mil gilds, um milhĂŁo de gilds ou dez milhĂ”es de gilds. Quando alguĂ©m oferecia o maior lance, o leiloeiro aguardava dois minutos. Se nĂŁo houvesse mais ofertas, o item era vendido para o Ășltimo comprador.
Uma vez que um item era vendido, não havia como cancelar a transação. Se, por qualquer motivo, o comprador não pudesse pagar o valor prometido, ele seria severamente punido por seu crime.
Havia vĂĄrias formas de dar um lance. VocĂȘ podia escrever um valor em uma placa e levantĂĄ-la no ar ou gritar o valor. TambĂ©m era possĂvel usar sinais de mĂŁo prĂ©-determinados.
â Muito bem! Vendido por quinze milhĂ”es de gilds! O Escudo Espelhado vai para o NĂșmero 413! â anunciou o leiloeiro.
Um estrondoso aplauso ecoou pela sala. Como o nome sugeria, um escudo misterioso que lembrava um espelho foi levado para fora do palco. Conforme o leilão avançava, o fervor da multidão aumentava. Os participantes ficavam cada vez mais inquietos e ansiosos.
â O prĂłximo item Ă© o NĂșmero 15! â o leiloeiro anunciou. â Vindo da Era das Armas MĂĄgicas, um item que supostamente pertencia a um clĂŁ de correntes e Ă© conhecido como a RelĂquia mais forte do tipo corrente para ataques…
Eu nĂŁo pude evitar me inclinar para frente, empolgado. Eu estava animado. Hoje, eu sĂł poderia dar lance em um Ășnico item, entĂŁo as RelĂquias que estavam sendo leiloadas agora eram apenas aperitivos, mas mesmo assim, fui contagiado pela disputa acirrada que se desenrolava. Meu coração batia acelerado de empolgação.
Por que essa MĂĄscara ReversĂvel estĂĄ na segunda metade do leilĂŁo?! Se ela fosse leiloada primeiro, eu poderia usar o dinheiro restante para dar lances em outras RelĂquias!
â Krai, seu rosto estĂĄ vermelho â observou Sitri.
â Acho que vocĂȘ estĂĄ imaginando coisas â respondi.
â NĂŁo se preocupe. Usarei qualquer meio necessĂĄrio para conseguir esse item sem falhar. Juro pelo meu nome. Pode ficar tranquilo. Se nossos fundos nĂŁo forem suficientes, nĂŁo me importo em vender nossa casa.
Sitri cerrou o punho, completamente alheia aos meus pensamentos. Eu nĂŁo estava em posição de pedir para usar parte dos nossos fundos para dar lance em outra RelĂquia. Um arrependimento avassalador tomou conta de mim. Droga! Se ao menos eu tivesse guardado mais dinheiro! NĂŁo, se ao menos Luke e os outros voltassem logo… Espera… Isso mesmo! Eu tenho as economias da Lucia! Quase esqueci! Uh… SerĂĄ que Ă© certo um irmĂŁo mais velho usar o dinheiro da irmĂŁ mais nova…?
Bati o pĂ© impacientemente enquanto via um item apĂłs o outro sendo leiloado diante dos meus olhos. NĂŁo sabia dizer se o momento era perfeito ou terrĂvel, mas todos os itens eram RelĂquias. Havia uma corrente e um anel com poderes misteriosos, uma capa que permitia respirar debaixo dâĂĄgua e um par de botas que permitia ao usuĂĄrio flutuar um centĂmetro no ar. Vi uma bola de cristal que podia prever o clima com setenta por cento de precisĂŁo e uma espada que podia encolher atĂ© trinta centĂmetros ou se estender atĂ© trĂȘs metros. Eu quero isso. Eu quero isso desesperadamente.
Era raro que meu lado materialista se manifestasse tĂŁo abertamente, mas nĂŁo conseguia evitar esses sentimentos que afloravam dentro de mim.
Eu nĂŁo era um usuĂĄrio de RelĂquias; era apenas um colecionador. Mesmo que os itens fossem fracos ou inĂșteis, eu os queria para minha coleção. Essas preciosidades estavam sendo vendidas por uma pechincha. O destaque do leilĂŁo apareceria mais tarde, mas se eu tivesse dinheiro agora, teria dado um lance nessas RelĂquias sem hesitação. Droga! Se eu tivesse conseguido comprar aquele Rosto ReversĂvel por um preço baixo, poderia ter comprado todas as outras tambĂ©m! VocĂȘs nĂŁo compraram aquele item como investimento, certo? VocĂȘs vĂŁo usĂĄ-los, nĂŁo vĂŁo?! Eu os usaria! Eu os usaria com todo o cuidado, entĂŁo, por favor, me deem eles. Quem liga para o Rosto ReversĂvel, certo? Talvez devĂȘssemos desistir, hein? Quantidade acima de qualidade?
Ver mercadores e caçadores aleatĂłrios comprando RelĂquias bem na minha frente era como sentir a dor de ver sua paixĂŁo sendo roubada sem poder fazer nada. Mas se eu desse um lance em algo aqui e perdesse o leilĂŁo do Rosto ReversĂvel, eu nĂŁo conseguiria encarar as pessoas que fizeram o possĂvel para me trazer atĂ© aqui. Cerrei os punhos com tanta força que meus nĂłs dos dedos ficaram brancos. Eu tinha que aguentar. Se eu me permitisse relaxar demais, acabaria gritando. Por que eu nĂŁo sou podre de rico?! Droga! Esse Ă© o meu limite?
Tino olhava para mim, esperando ansiosa pelo meu sinal. Eu jĂĄ tinha dito a ela qual item eu estava de olho, mas ela sempre confirmava com cuidado, demonstrando sua natureza honesta. Infelizmente, essa qualidade dela estava jogando contra mim no momento. Eu podia ver nos olhos dela que ela estava me incentivando. â Mestre, tem certeza de que nĂŁo precisa disso? Se vocĂȘ nĂŁo comprar agora, nunca mais terĂĄ outra chance â estava estampado em seu rosto. Eu tinha certeza de que conseguia ouvir os pensamentos dela.
Isso era uma alucinação auditiva ou era real? Nunca fiquei tĂŁo desnorteado antes. Eu estava bem mais calmo quando fui cercado pelos cavaleiros-lobo no Covil do Lobo Branco ou quando o Sitri Slime sumiu. Minhas mĂŁos nĂŁo estavam apenas suadasâparecia que estavam completamente encharcadas. Meus dedos trĂȘmulos ficaram dormentes enquanto eu mantinha o punho fechado. Meu coração batia como se eu tivesse acabado de correr uma maratona em velocidade mĂĄxima. Minha garganta estava seca, e eu ansiava por um gole dâĂĄgua. Eu queria uma RelĂquia em forma de cantil que fornecesse ĂĄgua ilimitada! Eu queria um anel que me impedisse de sentir sede! AlguĂ©m, por favor, me pare! Assuma o controle! Droga!
T-Tino estĂĄ me mandando comprar essas RelĂquias. Eu consigo ouvir os pensamentos dela! â Mestre, estou decepcionada com vocĂȘ por nĂŁo conseguir comprar itens desse nĂvel. VocĂȘ Ă© um fracasso como colecionador. â Eu consigo ouvi-la dizendo isso! Tem certeza? Eu realmente posso? Vale a pena decepcionar uma aprendiz? Passei a mĂŁo pelos cabelos, grudados de suor, enquanto encarava o palco. Minha hora de decidir havia chegado. O Rosto ReversĂvel ainda aguardava sua vez. O objetivo deste leilĂŁo era superar os outros, mas, sem dĂșvida, meu maior adversĂĄrio era eu mesmo. NĂŁo queria me gabar, mas tanto meu corpo quanto minha força mental eram bem frĂĄgeis. Tentei conter meus impulsos e engoli em seco. Fiquei tentado a fechar os olhos e tapar os ouvidos, mas senti que isso significaria admitir derrota.
â O que houve? VocĂȘ estĂĄ bem? â Liz me olhava com preocupação.
â S-Sim, estou â respondi.
Fechei os olhos e me repreendi. Eu sou inĂștil em combate, mas nĂŁo achei que seria tĂŁo patĂ©tico em situaçÔes como essa tambĂ©m. Espera. Eu sou fraco, um nada. Isso Ă© verdade. Mas, justamente por ser tĂŁo fraco, eu nĂŁo posso decepcionar aqueles que esperam algo de mim. Se eu cedesse aos meus desejos e participasse do leilĂŁo agora, como Matthis e Eva se sentiriam? JĂĄ causei problemas suficientes para eles. E os membros do meu clĂŁ, que me viram afundado em dĂvidas, o que pensariam? Provavelmente me veriam como alguĂ©m sem autocontrole, um fracasso como pessoa. E, bem, para ser honesto… eles nĂŁo estariam errados. Acima de tudo, como Sitri e Liz se sentiriam? Se eu gastasse o dinheiro que eles reuniram com tanto esforço em outra RelĂquia, serĂĄ que eles diriam alguma coisa?
Depois de refletir por um momento, finalmente abri os olhos. Sim, acho que os Smarts me perdoariam sem dizer uma palavra. JĂĄ havĂamos arrecadado bem mais de duzentos milhĂ”es, o valor que dissemos Ă Lady Ăclair. Acho que estarĂamos bem mesmo que gastĂĄssemos um pouquinho. Aguentar tudo isso Ă© ainda mais estressante, de qualquer forma.
Antes que eu percebesse, meu corpo havia parado de tremer. Respirei fundo e levantei a cabeça, finalmente tomando minha decisão. Minha determinação vacilante só se solidificou quando a vocalizei. A voz rouca que saiu da minha boca deixou claro o quão seca minha garganta estava.
â A hora… chegou.
Muito bem. Sua imprudĂȘncia termina aqui. Vou mostrar a vocĂȘs o que Ă© o verdadeiro medo. Eu sou o Mil Truques, o homem que pegou dinheiro emprestado da sua amiga de infĂąncia para comprar RelĂquias. Gravem bem minha patĂ©tica figura em suas mentes.
Um enorme conjunto de armadura negra foi carregado para o palco. Ele se mantinha imponente e digno, como se houvesse alguém dentro dele, silenciando a multidão barulhenta. Tinha cerca de quatro metros de altura. Um escudo gigantesco e uma espada impressionante, que combinavam perfeitamente com a armadura, completavam o conjunto. Era óbvio que não havia sido feito para humanos usarem. Talvez Ansem conseguisse vesti-lo. A multidão aguardava silenciosamente as palavras do leiloeiro.
â Entrada nĂșmero 44! Um item do orgulho do impĂ©rio, o EscritĂłrio de Investigação de Cofres! Este Ă© um golem metĂĄlico criado por uma certa organização mĂĄgica!
Entendo. EntĂŁo nĂŁo Ă© uma arma, mas um golem… Espera, hĂŁ? Olhei para o lado e vi Sitri encarando aquilo com espanto, os olhos arregalados.
â HĂŁ? â ela murmurou. â Um… kasha?
Eu conhecia muito bem essa palavra. Virei-me novamente para o boneco que foi levado ao palco. EscritĂłrio de Investigação de Cofres, uma certa organização mĂĄgica, um golem metĂĄlico… NĂŁo havia dĂșvida. Esse era o golem que estava na lista dos espĂłlios de guerra que discutimos dividir dias atrĂĄs. O que ele estĂĄ fazendo neste leilĂŁo? InstituiçÔes governamentais ocasionalmente leiloavam alguns itens, mas eu nĂŁo fazia ideia de como esse golem especĂfico foi parar aqui.
Havia alguĂ©m com gostos peculiares? AlguĂ©m estava planejando usĂĄ-lo como objeto de pesquisa? O item, que tinha um lance inicial de trinta milhĂ”es de gild, desencadeou a disputa mais feroz do dia. Seu preço começou a disparar num piscar de olhos, e eu simplesmente nĂŁo conseguia entender seu valor. Se eu tivesse tanto dinheiro para gastar em um mero golem, eu o gastaria em RelĂquias.
â Siddy… â murmurou Liz.
â A-Ahn… â respondeu Sitri.
Claro, minha linha de pensamento era minoria. Notei Sitri sentada ao meu lado, de olhos arregalados, enquanto seus ombros tremiam. Sua postura normalmente calma havia sumido, e ela olhava fixamente para o golem negro, apertando as mãos com força sobre o colo. A disputa continuava acirrada, e duas pessoas, desesperadas para colocar as mãos naquele golem, continuavam aumentando o preço. Finalmente, um lance superior a cem milhÔes de gild foi dado, e até mesmo o leiloeiro não conseguiu esconder a empolgação na voz.
â VocĂȘ nĂŁo queria isso, Sitri? â perguntei, cutucando seu ombro.
â N-NĂŁo… â Sitri respondeu, balançando a cabeça lentamente apĂłs um momento de silĂȘncio.
No entanto, pude ver que seus olhos estavam marejados. Sitri era introvertida e raramente expressava suas opiniÔes. Ela sempre dava um passo para trås, especialmente quando se tratava de mim. Percebendo meu olhar duvidoso, ela rapidamente tentou pensar em uma desculpa.
â M-Mas Ă©, hmm… um item que foi criado apĂłs muitos anos de pesquisa e inĂșmeras tentativas fracassadas. O custo para construĂ-lo sem dĂșvida Ă© grande, mas isso nĂŁo Ă© o mais importante… â Sitri disse em voz baixa, sua fala tremendo, carregada de emoção.
Eu nĂŁo entendia completamente, mas ao ouvir sua explicação, ficou claro que era um item impressionante. Outros provavelmente tambĂ©m sabiam do valor daquele golem, jĂĄ que o preço continuava subindo. AtĂ© o leiloeiro parecia nĂŁo esperar que um item avaliado inicialmente em trinta milhĂ”es de gild chegasse a mais de duzentos milhĂ”es. E a disputa nĂŁo mostrava sinais de desaceleração. Agora, trĂȘs pessoas estavam envolvidas na batalha pelo lance. Parece que hĂĄ muitas pessoas ricas por aqui.
â Hm, nĂŁo sei como os outros veem esse golem, mas para mim, ele Ă© mais como uma lembrança de um amigo â disse Sitri.
â Tem valor sentimental para vocĂȘ, entĂŁo? â perguntei.
Olhei para ela buscando confirmação, mas achei impossĂvel. NĂŁo havia como ela ter sentimentos nostĂĄlgicos pelos golems coletados na Torre AkĂĄshica. Sitri visivelmente encolheu-se e abaixou a cabeça, tentando esconder suas expressĂ”es.
â Hm, na verdade, nĂŁo… N-NĂŁo Ă© algo com que vocĂȘ precise se preocupar… â sussurrou.
Suspirei e estendi a mĂŁo, segurando a dela sobre seu colo.
â VocĂȘ estĂĄ mentindo, nĂŁo estĂĄ, Sitri?
Eu podia ser denso, mas conhecia minha amiga de infĂąncia muito bem. Mesmo que nĂŁo a conhecesse hĂĄ tanto tempo, ao vĂȘ-la com lĂĄgrimas nos olhos, nĂŁo havia como aceitar suas palavras ao pĂ© da letra.
***
O preço continuou a disparar, ultrapassando trezentos milhÔes. Um dos licitantes desistiu, restando apenas dois.
Um deles… era eu.
Todos os nossos fundos eram as economias de Sitri. NĂŁo havia RelĂquia no mundo que eu desejasse mais do que os anseios silenciosos de minha amiga de infĂąncia. Era minha culpa por nĂŁo conseguir esse item para ela quando dividimos os espĂłlios de guerra.
Lambi os lĂĄbios e tentei me animar enquanto me gabava:
â Dinheiro deve ser usado em momentos como este.
Provavelmente havia algo mais por trĂĄs disso do que apenas uma lembrança de um amigo. As chances eram baixas de que o amigo de Sitri estivesse envolvido com uma organização mĂĄgica perigosa. No entanto, sua expressĂŁo estava longe de ser tranquila. Ela estava acostumada a reprimir seus desejos, e era raro vĂȘ-la demonstrar suas emoçÔes assim. Presumi que a tecnologia do amigo Alquimista de Sitri tivesse sido usada para criar aquele golem. A Torre era um sindicato mĂĄgico ilegal e nĂŁo se importava em roubar ideias dos outros. Havia uma chance de que seu amigo tivesse sua tecnologia roubada e sido morto no conflito. Sindicatos mĂĄgicos nunca estavam envolvidos em coisa boa.
Por isso, Sitri pediu o golem quando dividimos os espĂłlios e agora estava dividida entre sua lealdade a mim e seu desejo pelo item. Posso estar sendo tendencioso, mas acho que estou certo. Espera… estou tendo um momento de gĂȘnio agora?
Para ser honesto, eu nĂŁo entendia os sentimentos de Sitri. Mesmo que ela me contasse, eu provavelmente continuaria confuso. Mas eu nĂŁo era do tipo que tomava decisĂ”es erradas. Eu era o lĂder dos Grieving Souls, o melhor amigo de Sitri primeiro e o Mil Truques depois.
T me olhou com suspeita, como se perguntasse: “HĂŁ? SĂ©rio? Tem certeza? VocĂȘ quer esse boneco estranho em vez de uma RelĂquia?” Mas eu tinha certeza. Esse dinheiro era da Sitri, afinal.
â HĂŁ? â murmurou Sitri, chocada.
Ela achava que eu priorizaria meus prĂłprios desejos em vez das lĂĄgrimas dela? VocĂȘ nĂŁo confia o suficiente em mim. Devia ser mais aberta sobre o que quer. Liz, que sempre dizia o que queria e vivia sem estresse, olhou surpresa.
â HĂŁ? Krai Baby, vocĂȘ…? Isso aĂ!
â De qualquer forma, sindicatos mĂĄgicos nunca fazem nada de bom â falei.
Sitri apertou os dedos trĂȘmulos enquanto olhava fixamente para o palco. Isso me lembrou da Ă©poca em que ela ainda era uma criança e nĂŁo tinha confiança no que fazia. Liz cruzou as pernas e me lançou um olhar.
â Mas vocĂȘ tem certeza disso, Krai Baby? E a mĂĄscara? Se fosse eu, teria me segurado.
â Tudo bem â respondi. â Eu nĂŁo preciso dela. Isso nĂŁo vale nada em comparação.
Ela riu.
â EstĂĄ tentando bancar o durĂŁo?
Ugh, Ă© por isso que amigos de infĂąncia tĂȘm vantagem… Assim como eu conhecia bem a Sitri, Liz tambĂ©m me conhecia muito bem. Ela continuou a rir e cutucar meu ombro.
Franzi as sobrancelhas.
â NĂŁo estou. Claro, talvez eu quisesse aquela RelĂquia, mas esse golem Ă© muito mais importante agora.
â O-O…Obrigada! â gaguejou Sitri. â E-Eu nĂŁo achei que ele apareceria… Krai, eu definitivamente vou retribuir isso um dia.
Retribuir? Esse dinheiro Ă© seu.
â NĂŁo se preocupe com isso â respondi. â E o leilĂŁo ainda nĂŁo acabou. Talvez seja um pouco cedo para comemorar.
Houve um momento de silĂȘncio antes que ela soltasse uma resposta carregada de emoção:
â Certo.
Eu nĂŁo sabia se era por causa da empolgação dela, mas sua pele, normalmente pĂĄlida, estava avermelhadaâatĂ© mesmo suas orelhas tinham um tom rosado. Provavelmente, ela nĂŁo teria ficado tĂŁo emocionada se eu tivesse conseguido comprar a mĂĄscara. Mas eu ainda nĂŁo tinha desistido da RelĂquia, entĂŁo fiz um gesto para Tino continuar aumentando o preço pelo menor incremento possĂvel. Sitri tinha preparado um total de 950 milhĂ”es de gild. Se o plano dela desse certo e eu conseguisse comprar a mĂĄscara por pouco mais de 200 milhĂ”es de gild, ainda terĂamos 750 milhĂ”es sobrando.
Eu nĂŁo sabia nada sobre alquimia, mas duvidava que o mais novo golem custasse 750 milhĂ”es de gild. Afundei no assento, relaxado, enquanto ouvia o preço subir pouco a pouco. Duzentos milhĂ”es jĂĄ tinham virado trezentos milhĂ”es, e entĂŁo se tornaram quatrocentos milhĂ”es. Espera, quatrocentos milhĂ”es?! Como assim?! Quem tem tanto dinheiro assim?! Com quatrocentos milhĂ”es, eu poderia comprar quatro RelĂquias de cem milhĂ”es! A arena do leilĂŁo ficou em silĂȘncio com o preço inesperado. Sitri apertou os punhos contra o peito, assistindo ansiosa. Eu nĂŁo tinha escolha alĂ©m de manter a compostura e cruzar os braços.
Sitri, vocĂȘ precisa mesmo disso? VocĂȘ quer tanto assim? NĂŁo, desculpa. Tudo bem. Ă o seu dinheiro, entĂŁo eu nĂŁo me importo. Mas o preço continuava subindo silenciosamente. Eu sĂł estava competindo com uma pessoa. Um Ășnico outro licitante. NinguĂ©m tinha os olhos nesse golem e esperava que o preço disparasse tĂŁo rĂĄpido. A mĂĄscara tinha chamado toda a atençãoâquem poderia imaginar que o golem se tornaria uma disputa tĂŁo acirrada?
â Quem poderia imaginar isso?! â gritou o leiloeiro. â Quinhentos milhĂ”es de gild! O golem agora estĂĄ em quinhentos milhĂ”es! A partir daqui, o menor incremento serĂĄ de vinte milhĂ”es de gild! Ah, e jĂĄ temos um lance! Cinquenta e vinte milhĂ”es de gild!
Quinhentos e vinte milhĂ”es?! Que tipo de magnata estamos enfrentando?! Ainda assim, isso era muito abaixo da dĂvida em que me enfiei. SerĂĄ que isso tudo era sĂł por causa da empolgação do leilĂŁo? Duvidava que meu oponente esperava pagar mais de quinhentos milhĂ”es de gild por esse item. Os lances continuavam, e o preço subia devagar. A emoção e aquela sensação Ășnica de poder eram os maiores atrativos de um leilĂŁo, mas, dessa vez, eu sĂł podia rezar para que meu oponente desistisse logo. O preço jĂĄ estava em 660 milhĂ”es de gild.
â Krai… â Sitri murmurou com lĂĄgrimas nos olhos. â EstĂĄ tudo bem. Nesse ritmo, vocĂȘ nĂŁo vai conseguir…
Eu nĂŁo esperava esse desfecho. Se nĂŁo tivĂ©ssemos nos preparado bem para a mĂĄscara, eu nunca teria tentado dar um lance no golem. Mas Sitri, esse dinheiro Ă© todo seu. VocĂȘ, Liz e Tino juntaram tudo, mas eu estou quebrado e nĂŁo contribuĂ com um Ășnico gild. Me desculpa.
â NĂŁo tem com o que se preocupar â eu disse, tentando aliviar a tensĂŁo dela. â Na verdade, eu estava juntando esse dinheiro para comprar o golem.
â O quĂȘ?! â Sitri engasgou. â Eu… nĂŁo percebi isso. Achei que sĂł eram suas… tendĂȘncias habituais.
Habituais? Como é? Eu não disse nada e apenas voltei a encarar o palco. Vamos, desiste logo. Temos 750 milhÔes de gild à disposição. Só desista e vå embora. Por favor. Eu imploro. Preciso me ajoelhar e implorar? Se precisar, eu faço. Sem problema nenhum. Mas minhas preces não foram atendidas, e o leiloeiro gritou com empolgação.
â O preço aumentou mais cem milhĂ”es de gild! Agora estĂĄ em 760 milhĂ”es! O NĂșmero 25 fez um lance!
Quem diabos Ă© o NĂșmero 25?! Tino se virou para mim, claramente surpresa, jĂĄ que sabia dos nossos fundos e do que eu realmente queria comprar. Silenciosamente, fiz um sinal de positivo, indicando que continuarĂamos na disputa. Meu estĂŽmago começou a doer. A menos que aquela jovem nobre desistisse por conta prĂłpria, nĂŁo havia chance de eu conseguir aquela mĂĄscara.
Mas, se fosse assim, eu iria atĂ© o fim pelo golem. Eu o conseguiria, custasse o que custasse. Precisava me preparar mentalmente para isso. Talvez estivĂ©ssemos enfrentando alguĂ©m muito mais rico do que nĂłs. Talvez nunca conseguĂssemos esse golem, por mais que tentĂĄssemos. Se dĂ©ssemos tudo de nĂłs e ainda assim nĂŁo conseguĂssemos, Sitri desistiria tambĂ©m.
Ainda assim, eu suspeitava que nosso oponente tambĂ©m nĂŁo estava em uma situação fĂĄcil. Esse item começou custando trinta milhĂ”es de gild, entĂŁo tĂnhamos uma boa chance de vencer. Esse acrĂ©scimo de cem milhĂ”es talvez fosse a Ășltima tentativa delesâo limite absoluto. Mesmo que nĂŁo fosse, provavelmente estavam perto do mĂĄximo que podiam pagar. Respirei fundo e dei uma nova ordem para Tino. Toma essa!
â O quĂȘ?! â gritou o leiloeiro. â O preço subiu mais cem milhĂ”es! Temos um lance de 860 milhĂ”es de gild, pessoal! O NĂșmero 66 fez uma oferta de 860 milhĂ”es!
Eu me senti mal. Fazia tempo que eu nĂŁo gastava tanto dinheiro em um Ășnico item. Me senti enjoado. Mesmo tendo uma dĂvida de dez dĂgitos para pagar, isso era resultado de anos de acĂșmuloâmas, como alguĂ©m pobre atĂ© o osso, eu sentia que dar um lance tĂŁo alto era puro sofrimento.
Eu tremia de nervoso enquanto o leilão continuava. Talvez surpreso com o aumento repentino, ninguém disse mais nada. Embora não houvesse um confronto literal de espadas, uma batalha estava sendo travada ali.
â Mais alguĂ©m? Oitocentos e sessenta milhĂ”es de gild! Oito-seis-zero! SĂł temos mais trinta segundos! O NĂșmero 66 pode levar esse item para casa!
Morra! Morra e desista desse golem! Respirei fundo, rezando incessantemente para uma divindade na qual nem sequer acreditava. Sitri se encolheu em uma bola e ficou imĂłvel, como se estivesse tentando se proteger de uma tempestade. EstĂĄvamos chegando ao nosso limite.
Oitocentos e sessenta milhĂ”es de gild era mais do que suficiente para passar o resto da vida brincando sem fazer nada. O que serĂĄ que a Sitri planejava fazer com um dote de casamento tĂŁo absurdo, afinal? Pensamentos inĂșteis giravam na minha cabeça enquanto eu tentava escapar da realidade. Ainda nĂŁo passaram trinta segundos?! O tempo passava devagar; cada segundo parecia durar vĂĄrios minutos. Eu sentia como se tudo estivesse parado enquanto o golem negro refletia um brilho opaco sob a luz do lustre. Foi entĂŁo que o leiloeiro fez uma expressĂŁo de puro choque.
âN-Novecentos… e sessenta milhĂ”es.
Ficamos atĂŽnitos com esse lance.
âNovecentos e sessenta milhĂ”es de gild! O NĂșmero 25 fez um lance de 960 milhĂ”es de gild! â gritou o leiloeiro.
Senti meu sangue gelar. Quem diabos estamos enfrentando? Uma empresa comercial? Um nobre? Isso Ă© impossĂvel. Quem daria tanto dinheiro por um golem? Os olhos de Sitri estavam arregalados de choque enquanto uma Ășnica lĂĄgrima deslizava por sua bochecha.
âAh, bem, tivemos azar â Liz suspirou. â Ă raro te ver perder, Krai Baby. DevĂamos ter vendido nossas armas e qualquer outra coisa que tivĂ©ssemos. Agora Ă© fĂĄcil falar.
Embora eu tivesse minha coleção, leilÔes não aceitavam itens como pagamento. Precisåvamos de um cheque ou dinheiro vivo. Sitri abaixou a cabeça, e Tino me encarou, atÎnita. Achei ter visto sua bochecha tremer, mas ela apenas deu um pequeno aceno. Em meio à multidão barulhenta, a voz do leiloeiro soou clara e firme.
âUm bilhĂŁo?! O NĂșmero 66 fez um lance de um bilhĂŁo e sessenta milhĂ”es de gild!
âHĂŁ? â murmurou Sitri, enquanto lĂĄgrimas escorriam pelo seu rosto.
Ela se virou para mim, confusa. Todas as suas economias somavam 950 milhĂ”es de gild. Se o comprador nĂŁo pudesse pagar pelo item apĂłs arrematĂĄ-lo, sofreria uma punição severa. Isso significava que nĂŁo podĂamos ultrapassar o orçamento. No entanto, eu me sentia em paz. A ansiedade que tinha me dominado momentos atrĂĄs havia se dissipado no ar. Eu estava sereno como a superfĂcie de um lago tranquilo. Um sorriso calmo se formou em meus lĂĄbios enquanto eu segurava as mĂŁos de Sitri.
âEu te disse, nĂŁo disse? NĂŁo se preocupe com isso. Bem, eu gostaria que vocĂȘ se preocupasse um pouco…
Para ser mais preciso, por favor, venha comigo quando eu tiver que me ajoelhar diante da Lucia. Droga, acabei de usar mais da metade das economias da Lucia sem permissĂŁo. Mas nĂŁo me arrependo das minhas escolhas. NĂŁo me arrependo. E-eu… Eu nĂŁo me arrependo! Ahhh!
âDou-lhe uma, dou-lhe duas… Vendido! Para o NĂșmero 66, o caçador de tesouros Greg Zangief! Este enorme golem metĂĄlico foi arrematado por um bilhĂŁo e sessenta milhĂ”es de gild! Uma salva de palmas para este ousado caçador que venceu este leilĂŁo acirrado! â anunciou o leiloeiro.
Em meio aos aplausos estrondosos, Greg, que estava sentado ao lado de Tino, ergueu o olhar para mim com o rosto completamente pĂĄlido.

A arena ainda estava tomada pela paixĂŁo do leilĂŁo acirrado. Houve um breve intervalo, mas praticamente ninguĂ©m saiu. Lançamos um olhar de esguelha enquanto deixĂĄvamos a arena, e Tino correu atrĂĄs de nĂłs. Ela se aproximou de Liz, Sitri e eu, juntou as mĂŁos na frente do corpo e fez uma profunda reverĂȘncia.
â Me desculpe, Mestre. Eu nĂŁo achei que isso fosse acontecer â disse Tino.
â HĂŁ? â respondi. â Ah, tudo bem. NĂŁo me importo.
Eu tinha pedido para Tino me substituir. Fiquei um pouco surpreso ao ouvir o nome de Greg sendo chamado em vez do dela, mas isso nĂŁo era algo para me irritar. JĂĄ fazia um tempo desde que a disputa pelo golem havia terminado, mas Greg estava atrĂĄs dela, pĂĄlido como um fantasma. Ele estava suando em bicas, olhando ao redor ansiosamente como um pequeno animal assustado, e eu conseguia me identificar com ele.
Ele era o herĂłi que fez o lance pelo item mais caro atĂ© o momento â deveria estar orgulhoso disso. Ele jĂĄ havia removido o nĂșmero que usou no leilĂŁo e ninguĂ©m conhecia seu rosto, entĂŁo ainda nĂŁo estava cercado por uma multidĂŁo, mas era apenas questĂŁo de tempo atĂ© que seu nome se espalhasse por toda a capital.
Para manter as coisas justas, o LeilĂŁo de Zebrudia permitia que os compradores fossem facilmente rastreados. Assim, existia um sistema de substitutos, mas para um caçador de nĂvel intermediĂĄrio, isso poderia ser um fardo pesado demais. Tino estava nervosamente dando suas explicaçÔes para Liz, que apenas sorria em silĂȘncio.
â Eu realmente planejava assumir, mas nĂŁo consegui me preparar a tempo, e quando tentei confirmar seus sinais manuais, Mestre, percebi que nĂŁo fazia ideia do que significavam â disse ela.
Tino pode ser meio avoada Ă s vezes… Mas haviam inĂșmeras sinalizaçÔes usadas durante um leilĂŁo. Era impossĂvel para um novato aprendĂȘ-las todas de uma vez. Claro, nesse caso, era possĂvel simplesmente gritar o valor ou erguer uma placa com o preço escrito, mas quase todos que participavam do leilĂŁo optavam por utilizar sinais manuais.
â E como Greg disse que os conhecia, deixei com ele â continuou. â Dividimos os papĂ©is â eu olharia para seus sinais enquanto Greg participaria do leilĂŁo. Eu nĂŁo achei que as coisas sairiam assim. Achei que ele lidaria com a primeira rodada do leilĂŁo enquanto eu aprendia, e entĂŁo eu assumiria para o verdadeiro prĂȘmio!
â Ah, sim, uh-huh, estou ouvindo… â respondi.
O resultado foi que gastei todo o nosso dinheiro naquele golem em vez da RelĂquia que eu inicialmente almejava. Em minha defesa, eu tambĂ©m nĂŁo esperava esse desfecho, entĂŁo nĂŁo era como se pudesse ter evitado. Liz bateu no meu ombro, fez um gesto como se devesse decapitar alguĂ©m e finalizou inclinando a cabeça para o lado, imitando uma morte. Eu nĂŁo vou fazer isso…
â VocĂȘ nĂŁo precisa parecer tĂŁo assustada â eu disse. â VocĂȘ fez mais do que o suficiente. Muito mais do que eu poderia pedir. EstĂĄ tudo de acordo com o plano.
â Krai â Greg disse, revelando o motivo de estar tĂŁo pĂĄlido. â Er… VocĂȘ estĂĄ acima do orçamento, mas estĂĄ bem com isso?
O lance que ele deu ultrapassou drasticamente o orçamento que eu havia estipulado antes do leilão. A falta de pagamento resultaria em uma punição severa para Greg, então eu entendia o medo dele. Claro, eu não pretendia colocå-lo em apuros.
â Ah, nĂŁo se preocupe com isso. Eu tenho dinheiro â respondi.
Mas não é exatamente meu dinheiro. Eu estava, internamente, me prostrando diante de Lucia enquanto assinava um cheque de 110 milhÔes de gild e o entregava para Sitri. Eu estaria retirando dinheiro da conta de Lucia, mas jå estava estabelecido que eu poderia assinar em seu lugar. Sitri pegou o cheque e o guardou cuidadosamente em sua bolsa, somando um total de um bilhão e sessenta milhÔes de gild.
â Mestre… â Tino murmurou, constrangida. â Er, um… E a RelĂquia…
â Ah, eu nĂŁo preciso mais dela â respondi. â NĂłs jĂĄ alcançamos nosso objetivo, nĂŁo foi? Estou cansado, entĂŁo acho que vou para casa.
â HĂŁ?
O leilĂŁo tinha acabado de começar e a arena ainda estava cheia de gente. Provavelmente RelĂquias raras ainda seriam expostas â eu estava curioso, mas era difĂcil olhĂĄ-las sabendo que nĂŁo tinha mais fundos para dar lances. Havia atĂ© a chance de ceder Ă tentação e tentar usar o restante do dinheiro de Lucia. Melhor que eu nem estivesse presente para evitar isso.
Acima de tudo, eu nĂŁo poderia mais comprar aquela mĂĄscara. Meu leilĂŁo havia terminado. Suspeitava que Lady Ăclair jĂĄ estivesse tomada pelo espĂrito competitivo agora, mas eu nĂŁo poderia mais entreter isso. VocĂȘ venceu. Claro que venceu. Eu sĂł vou para casa e me afundar na cama.
â Krai, vou com Greg buscar o item que acabamos de arrematar â disse Sitri, com um sorriso que ia de orelha a orelha. Ela ergueu sua maleta recheada de moedas de prata.
Bem, pelo menos consegui proteger o sorriso dela.
â Liz, pode dar uma investigada em nosso oponente, o NĂșmero 25? â perguntou Sitri. â Ele pode jĂĄ ter ido embora, mas tenho certeza de que o leiloeiro tem essa informação.
â H-Hey, peraĂ. NĂŁo Ă© contra as regras investigar nossos…â Liz começou, mas rapidamente mudou de tom. â N-NĂŁo, deixa pra lĂĄ.
Pode atĂ© ser contra as regras, mas nĂŁo era difĂcil descobrir. NĂŁo podia culpĂĄ-la por querer saber quem era nosso oponente. Mas duvidava que nos mostrassem documentos com seus dados.
â Greg, obrigado por me ajudar hoje. Espero que nos encontremos de novo â disse antes de me virar para a radiante Sitri. â Sitri, deixo o resto com vocĂȘ.
â Claro! â respondeu animadamente. â Obrigada, Krai! Vou te visitar depois!
Eva vai ficar brava comigo? Provavelmente… Mas paciĂȘncia. Abri bem a boca e bocejei enquanto saĂa da arena, com uma sensação de satisfação preenchendo meu coração.
***
â E vendido! â gritou o leiloeiro. â A enigmĂĄtica mĂĄscara de carne foi adquirida pela filha da renomada Casa Gladis, Ăclair Gladis, por impressionantes duzentos milhĂ”es de gild!
Os assentos abaixo explodiram em aplausos. Ăclair, que estava na beirada de sua cadeira, soltou um suspiro alto. Seus olhos estavam Ășmidos e suas sobrancelhas, geralmente franzidas, pareciam relaxadas por ora. NĂŁo havia alegria ou euforia pela vitĂłria que acabara de conquistarâapenas um profundo alĂvio. A batalha havia sido bem menos intensa do que ela esperava. Os conselhos de Montaure antes do leilĂŁo nĂŁo passavam de temores infundados para ela, e ela conseguiu adquirir o item por duzentos milhĂ”es.
Apesar dos rumores que circulavam antes do leilão, a disputa foi unilateral. Os boatos de que a Casa Gladis estava seriamente de olho no item trabalharam a seu favor. Os nobres detinham poder dentro do império, e nem as companhias comerciais nem os caçadores ousariam enfrentar tal autoridade diretamente. Uma pessoa tão destemida simplesmente não poderia existir.
Ăclair, que parecia ter reafirmado essas crenças, ergueu orgulhosamente o olhar para seu pai, Van Gladis. Seu pai, no entanto, limitava-se a dar respostas monossilĂĄbicas aos elogios que recebia de outros nobres e estava fixado no palco. Ele nĂŁo comemorava a vitĂłria de sua filhaânĂŁo, ele observava com desconfiança, como se estivesse vendo algo suspeito. Percebendo o olhar de Ăclair, ele franziu as sobrancelhas antes de murmurar palavras que sua filha nĂŁo esperava.
â Ele cedeu essa vitĂłria para nĂłs, entendo…
â O quĂȘ? â perguntou Ăclair.
Montaure, que estava atrĂĄs de Van, confirmou sua concordĂąncia em um tom baixo.
â Parece que sim. O Mil Truques jĂĄ deixou o leilĂŁo. NĂŁo hĂĄ mais ninguĂ©m aqui sob sua influĂȘncia.
â Hmph, aquele caçador de NĂvel 8… â Van disse. â Eu achei que ele fosse apenas um bruto ingĂȘnuo, mas parece que os rumores sobre suas estratĂ©gias engenhosas nĂŁo sĂŁo infundados. Interferimos na RelĂquia que ele queria obter, mas ele recuou com facilidade. Uma decisĂŁo bastante fria para um caçador que valoriza honra e reputação acima de tudo. Como Ark diz, ele Ă© um sujeito interessante.
â O-O que estĂĄ dizendo, pai?! â exclamou Ăclair. â Como pode ver, eu venci essa disputa de maneira justa!
Havia algumas ocorrĂȘncias inesperadas, mas o resultado era que ela havia arrecadado fundos suficientes e garantido sua vitĂłria.
â Ăclair â Van começou. â Ă verdade que vocĂȘ conseguiu comprar essa RelĂquia. Infelizmente, isso nĂŁo foi uma vitĂłria louvĂĄvel. Eu planejava apenas observar essa disputa, acreditando que isso seria uma experiĂȘncia valiosa para vocĂȘ, independentemente do resultado, mas perceber que vocĂȘ nem mesmo estava no mesmo palco que ele… Acho que fui ingĂȘnuo. E vocĂȘ nĂŁo percebe isso, nĂŁo Ă©?
Ela encarou seu pai, chocada.
â Minha senhora â disse Montaure. â Ă um fato que o Mil Truques reuniu bem mais que duzentos milhĂ”es de gild. Recebi informaçÔes de que Sitri vendeu seus equipamentos e poçÔes. Embora a pessoa que eu tinha vigiando suas açÔes tenha sido expulsa, o Mil Truques de fato deixou a arena antes mesmo do inĂcio da disputa pela RelĂquia.
Ăclair ouviu essas palavras em silĂȘncio atĂŽnita, enquanto uma mirĂade de emoçÔes a dominava. ConfusĂŁo, alĂvio, perplexidade e raiva tomaram conta de sua mente enquanto ela conseguiu balbuciar algumas palavras.
â Eu disse a ele que essa seria uma disputa justa.
â Eu jĂĄ havia negociado com algumas companhias comerciais, nossos potenciais rivais neste leilĂŁo, de antemĂŁo â revelou Montaure. â Minha senhora, como membro da Casa Gladis, vocĂȘ tem o dever de vencer. Caçadores e nobres possuem algumas semelhanças. No mĂnimo, tropeçar aqui faria com que fosse subestimada no futuro. E vocĂȘ, de fato, venceu um caçador de NĂvel 8 hoje.
â Mas qualquer um com um pingo de discernimento pode ver que essa vitĂłria nos foi entregue â acrescentou Van. â Que incorrigĂvel. Tudo o que ganhamos ao gastar duzentos milhĂ”es de gild foi uma noção da generosidade do Mil Truques.
Vendo a expressĂŁo de desagrado no rosto de seu pai, Ăclair falou com a voz trĂȘmula.
â Eu fui… Ele teve pena de mim? Ele me desprezou?
â Foi exatamente porque ele nĂŁo a desprezou que vocĂȘ conseguiu arrematar esse item â Montaure respondeu. â Se isso pode ser chamado de vitĂłria ou nĂŁo, depende unicamente de vocĂȘ, minha senhora.
NĂŁo. Isso nĂŁo foi uma vitĂłria. De jeito nenhum. SerĂĄ que ela venceu por falta de competição? NĂŁo, isso nĂŁo trazia nem um pingo de satisfação. Ela teria preferido enfrentĂĄ-lo de igual para igual e perder. Ăclair rangeu os dentes, emitindo um som abafado. Ela havia perdido. Estava claro como o diaâela venceu a batalha, mas perdeu a guerra. NĂŁo havia como apresentar essa RelĂquia com orgulho para Ark, a pessoa que tanto admirava.
â Parece que temos uma dĂvida com ele â murmurou Van.
â Pode-se ver isso como o homem dando sua aprovação silenciosa para que minha senhora reunisse os duzentos milhĂ”es de gild conforme prometido. Esse era o acordo inicial feito em nossa casa, afinal â Montaure disse. â Custa a crer que os infames Grieving Souls tenham recuado apenas por estarem enfrentando uma casa nobre renomada.
â Seja como for, uma dĂvida Ă© uma dĂvida. NĂŁo importa como nos vejam, como um nobre do ImpĂ©rio Zebrudian, uma dĂvida deve ser paga. Espero que esse nĂŁo seja o verdadeiro objetivo daquele homem que deseja essa enigmĂĄtica RelĂquia.
Enquanto o Conde Gladis observava com severidade, até mesmo o normalmente inexpressivo Montaure ficou sombrio.
â NĂŁo houve sinais de que o Mil Truques tenha se envolvido pessoalmente com os rumores que se espalharam. Minha senhora apenas acompanhou Sir Ark atĂ© a sede do clĂŁ, mas isso foi por vontade prĂłpria. SĂł consigo pensar que tudo isso Ă© uma grande coincidĂȘncia.
O conde, no entanto, permaneceu insatisfeito, apesar da opinião de seu braço direito. Sua filha ainda estava congelada na cadeira, tentando processar a situação.
â Ăclair â ordenou Van. â VocĂȘ pode fazer o que quiser com a RelĂquia que comprou. Mas nĂŁo permitirei que se envolva com aquele homem alĂ©m disso. Ele certamente nĂŁo Ă© alguĂ©m com quem vocĂȘ possa lidar.
Ela permaneceu em silĂȘncio. Estava frustrada. Pensava que tinha iniciado essa batalha, mas sentia como se estivesse dançando na palma da mĂŁo dele. Era miserĂĄvel demais para ela. Mas o que mais posso fazer? O que eu deveria fazer? Ăclair sempre teve o cuidado de agir de maneira condizente com uma aristocrata, sempre destemida, nĂŁo importa o que enfrentasse. Agora, seu coração estava tomado por uma ansiedade inexplicĂĄvel.
â VocĂȘ entendeu? â Van gritou. â Responda-me!
â Sim, pai… â Ăclair conseguiu responder enquanto mordia os lĂĄbios e tentava conter os soluços.
***
Eu era, sem dĂșvida, um cara inĂștil. Nada dava certo quando eu realmente precisava. Por exemplo, quando comecei a montar um grupo, escolhi o nome Grieving Souls, mas as pessoas nos confundiram com um grupo de fantasmas, o que nos fez ser constantemente alvos de outros sindicatos criminosos e caçadores. Quando criei um clĂŁ e tentei sair para apreciar as flores com eles, ocorreu um abalo tectĂŽnico que fez surgir cofres de tesouros de alto nĂvel. Quando enviei Tino para a Toca do Lobo Branco, houve uma sĂ©rie de eventos inesperados. Sempre que eu tomava uma decisĂŁo, quase nunca dava certo.
Eu era geralmente uma pessoa azarada, mas quando me tornei um caçador, senti que minha sorte atingiu um novo nĂvel de desastre. Superei tudo isso graças Ă ajuda dos que estavam ao meu redor e me humilhando quando necessĂĄrio. Mas isso nĂŁo significava que eu aceitava bem essas circunstĂąncias ou que estava acostumado a elas.
JĂĄ se passaram alguns dias desde aquele leilĂŁo deprimente, e eu ainda nĂŁo consegui recuperar minha energia. Eu ficava largado no sofĂĄ do escritĂłrio do mestre do clĂŁ, apenas me remoendo. Nunca fui muito enĂ©rgico para começo de conversa, mas sentia que todo o meu esforço dos Ășltimos dias havia se transformado em poeira, como se tivesse levado um golpe fatal.
Quando Eva me disse que Lady Ăclair havia comprado com sucesso a Face ReversĂvel, fiz o possĂvel para agir com indiferença, mas, com o passar do tempo, percebi que nĂŁo conseguia deixar para lĂĄ. Eu nĂŁo me arrependia de ter dado um lance em um item que Sitri queria. A maior parte de nossos fundos era dinheiro dela, e eu preferia ficar sem uma RelĂquia do que vĂȘ-la chorar. Ainda assim, isso nĂŁo significava que eu podia simplesmente desligar meus sentimentos. Sabia que ficaria para baixo por um tempo. NĂŁo queria fazer nada. Nem sequer tinha motivação para sair, e nem mesmo queria comer algo doce.
Todo mundo sabia que eu estava atrĂĄs daquela mĂĄscara. E, Ă© claro, tambĂ©m sabiam que nem cheguei a dar um lance e fugi como um perdedor. Sob os olhares curiosos dos outros, minha atitude certamente foi a de um mestre de clĂŁ de segunda categoria. Essa era a Ășnica coisa que eu queria evitar. O quarto andar e acima da sede do clĂŁ ficava ocasionalmente fora dos limites para que nenhum caçador me visse parecendo um morto-vivo.
Enquanto torcia meu corpo e continuava largado no sofĂĄ, acabei rolando para o chĂŁo. Soltei um suspiro quando atingi o piso com um leve baque. Eu pareço um derrotado lamentĂĄvel, pensei. Achei isso engraçado e quase ri. Eu tinha certeza de que Lady Ăclair estava me ridicularizando por ser um homem patĂ©tico que fugiu antes mesmo da batalha começar. Talvez eu tenha contribuĂdo para o desprezo crescente do Lorde Gladis pelos caçadores. O golpe final foi que a mĂĄscara que eu tanto queria seria enviada para Ark, que nem sequer a desejava.
Ugh, a vida nunca segue do jeito que eu quero. Eu nĂŁo tinha senso de vergonha. Instintivamente, segui meus impulsos e continuei rolando pelo chĂŁo do escritĂłrio do mestre do clĂŁ. Eva havia se esforçado para colocar um tapete de alta qualidade, entĂŁo nĂŁo doĂa nada. Eu queria passar o resto da vida rastejando no chĂŁo como uma lagarta. Se houvesse um buraco, eu certamente me enterraria nele. De novo, nĂŁo era vergonhaâeu sĂł achava que viver debaixo da terra seria reconfortante.
Enquanto estava absorto nessa ação sem sentido, ouvi uma batida na porta. Espalmei meus membros como uma estrela-do-mar, deixando meu corpo tocar o chĂŁo o mĂĄximo possĂvel para minimizar os efeitos da gravidade sobre mim, e consegui soltar uma resposta rouca.
â Yeaaah?
â Com licença, Kraiâhuh?! O-O que vocĂȘ estĂĄ fazendo?! â Eva disse, chocada ao me ver estirado no chĂŁo como um cadĂĄver.
Ela sabia o quĂŁo fraco eu era, entĂŁo nĂŁo escondi nada dela. Nos Ășltimos dias, quando fiquei trancado no escritĂłrio do mestre do clĂŁ ou no meu quarto, foi Eva quem trouxe minhas refeiçÔes.
â DĂĄ pra perceber sĂł de olhar? â perguntei.
â N-NĂŁo exatamente â ela respondeu.
â Vamos lĂĄ. Eu estava rolando no sofĂĄ, mas caĂ no chĂŁo.
â Argh! Pelo amor de Deus! Pare de rolar pelo chĂŁo! EstĂĄ sujo! VocĂȘ nĂŁo Ă© um nĂvel 8?!
Eva segurou meus braços e ombros, me levantou e me colocou sentado no sofĂĄ como um boneco sem vida. Ao contrĂĄrio de mim, a aparĂȘncia dela estava impecĂĄvel, e eu nĂŁo podia acreditar que ela estava trabalhando muito mais do que eu. Bem, zero vezes qualquer coisa ainda Ă© zero, mas mesmo assim… Droga, como pude me comparar com ela? Que rude da minha parte.
â O que houve? â ela exigiu. â Por que vocĂȘ estĂĄ parecendo tĂŁo abatido nos Ășltimos dias?
â Esse Ă© o meu estado normal â respondi.
â E-Er, bem… â Ela parecia um pouco incomodada.
Quando minha confiĂĄvel vice-mestre de clĂŁ soube que gastei um bilhĂŁo de gilds em uma compra inesperada e a mĂĄscara me escapou por entre os dedos, tudo o que fez foi soltar um Ășnico suspiro. Ela era tĂŁo generosa que eu me sentia tentado a ver atĂ© onde poderia testar sua paciĂȘncia.
â Se vocĂȘ se sente Ă vontade comigo e tem algo te incomodando, posso te ouvir â Eva ofereceu.
Eu sĂł tinha preocupaçÔes. Cara, se eu pudesse converter a quantidade de coisas que me incomodam em ouro, jĂĄ estaria sem dĂvidas agora.
â SĂł tĂĄ na hora de eu cair fora, sabe? â eu disse. â Eu nĂŁo sou digno. Minha vida nunca segue do jeito que eu quero. Quero me aposentar.
Quando Eva ouviu minhas lamentaçÔes de sempre, arregalou os olhos em choque e deu um passo para trĂĄs. Eu tinha conseguido fazer atĂ© minha confiĂĄvel vice-mestre de clĂŁ recuar com minhas loucuras â eu simplesmente era um ser humano horrĂvel assim. Isso mesmo. Esse sou eu. Eu sou um lixo. SĂł quero virar uma ostra e viver no fundo do oceano. E entĂŁo um polvo tenta me comer e eu nĂŁo consigo fazer nada, entĂŁo sou devorado inteiro.
â V-VocĂȘ estĂĄ dizendo que as coisas nĂŁo estĂŁo indo bem? â Eva perguntou, perplexa.
â Se eu tivesse que me dar uma nota de cem, sendo generoso, daria uns quinze pontos â respondi. â Eu nem consegui aquela mĂĄscara.
â Quinze?!
Eva parecia estar sendo feita de boba ao ouvir minha resposta sem vida. Sinto muito por sempre te preocupar. Eu queria retribuir um dia, mas, conhecendo a mim mesmo, provavelmente sĂł daria tudo errado.
â Ahm, ouvi dizer que deixar aquela mĂĄscara para trĂĄs fazia parte do seu plano… â ela disse.
Quem foi que disse isso? Olhei para ela, mas seu rosto permanecia sĂ©rio como sempre. Eu sĂł tinha dito aquilo para bancar o durĂŁo. Duvidava que alguĂ©m presente naquela hora tivesse levado minhas palavras ao pĂ© da letra. “Tudo conforme o planejado”? Eu queria aquela mĂĄscara, e as pessoas acham que eu planejei abrir mĂŁo dela? SĂł que nĂŁo.
De Akasha ao preço que eu dei no leilão, tudo estava fora dos meus cålculos. Eu só estava indo com a maré do começo ao fim, como um pedaço de alga no mar. Desviei o olhar e suspirei profundamente. Jå que eu acabaria sendo comido como um molusco, preferia ser uma rocha ou algo assim. Sei lå.
â Bom, mais ou menos, nĂŁo exatamente… â falei. â Eu poderia ter jogado melhor minhas cartas, mas minha vida realmente tĂĄ fora do meu controle.
â Quer que eu prepare um chĂĄ? â Eva ofereceu. â Tenho uma mistura de ervas que pode acalmar sua mente.
Permaneci em silĂȘncio, mas ela preparou o chĂĄ para mim. Sua gentileza e eficiĂȘncia me fizeram querer morrer. Todo mundo ao meu redor era gentil e excelente demais. Recuperei um pouco da minha vontade de viver e me encolhi no sofĂĄ, abraçando os joelhos.
â Bem, nĂŁo Ă© nada para se preocupar â eu disse. â SĂł estou esperando me acalmar.
â Claro â Eva respondeu.
â Acho que logo vou superar isso.
Por ser um covarde sem espinha, eu tinha o pĂ©ssimo hĂĄbito de me escorar nos outros. As pessoas ao meu redor eram todas independentes. Sitri e Ansem, claro, mas Liz e Tino tambĂ©m eram incrĂveis por mĂ©rito prĂłprio. Luke, embora um pouco impulsivo, estava um nĂvel acima dos outros em termos de força, e eu o respeitava por isso. Eu era o Ășnico que provavelmente morreria assim que me largassem sozinho.
Pensando bem, talvez os Grieving Souls tenham se tornado excepcionalmente poderosos para compensar por mim, que nĂŁo passava de um peso morto. Talvez eu ajudasse a fazer com que eles se destacassem. Como prova, o lĂder da Ark Brave era forte demais, fazendo o resto do grupo parecer insignificante em comparação.
Uma xĂcara estilosa foi colocada Ă minha frente. O chĂĄ de cor lima exalava um aroma levemente doce.
â Mas vocĂȘ precisa sair um pouco â Eva insistiu. â Todos estĂŁo preocupados, e isso nĂŁo faz bem para sua saĂșde. Admito que nĂŁo faço a menor ideia do que se passa na sua cabeça.
O que estou pensando? Odeio dizer isso, mas não estou pensando em nada. Não se preocupe. Eu fico para baixo bem råpido e sou levado pela situação com facilidade, mas também não costumo refletir muito sobre as coisas. Sentia culpa por fazer os outros se preocuparem comigo, mas não estava mentindo quando disse que logo superaria isso.
Eu me conhecia melhor do que ninguĂ©m. Peguei a xĂcara de chĂĄ e lentamente a levei aos lĂĄbios, deixando o aroma levemente azedo e doce preencher meu corpo. Como Eva tinha dito, senti que isso acalmava minha mente e minha alma. NĂŁo que minha mente precisasse de acalmar, honestamente. Assim que recuperei um pouco da minha compostura, continuei a me repreender. Por que eu nĂŁo guardei um pouco de dinheiro? Eu sĂł precisava de duzentos milhĂ”es. Isso era tudo o que eu precisava para comprar o que Sitri queria e conseguir aquela mĂĄscara tambĂ©m. Provavelmente nunca mais teria a chance de obter uma Face ReversĂvel. Como Lady Ăclair me odiava, negociar era praticamente impossĂvel. Mesmo que um fracassado como eu, que se trancou no quarto de choque, fosse implorar de joelhos pelo item, duvidava que ela fosse vendĂȘ-lo para mim. Ela jĂĄ ia entregĂĄ-lo para Ark, de qualquer forma.
Foi então que uma revelação me atingiu. Senti como se tivesse levado um raio enquanto arregalava os olhos, endireitava minha postura e me virava para Eva. Por que eu não pensei nessa solução simples antes?! Tentando parecer descolado, estalei os dedos.
â O-O que aconteceu? â Eva perguntou. â VocĂȘ me assustou.
â Onde Ark estĂĄ agora? â perguntei.
Ă isso! Ăbvio! Se nĂŁo posso comprar da jovem nobre, posso simplesmente comprar de Ark. Ark Rodin era um poderoso Espadachim Mago. Ele jĂĄ possuĂa uma Espada Sagrada e, como eu disse antes para Lady Ăclair, nĂŁo precisava de uma mĂĄscara parcialmente ilegal. Havia uma chance de que eu pudesse comprĂĄ-la dele. Embora o pĂșblico em geral nos considerasse rivais, na verdade nĂŁo Ă©ramos nada disso. FazĂamos parte do mesmo clĂŁ, e eu sentia que havia construĂdo uma boa relação com ele. Se eu implorasse de coração, nĂŁo tinha como aquele rosto bonito recusar. Na verdade, eu estava disposto a colocar parte da minha coleção na mesa. Heh heh heh, sua perda, Lady Ăclair!
Eu podia ser um fraco, mas ainda era um mestre de clĂŁ. VocĂȘ nĂŁo perdeu para mim; perdeu para minha rede de contatos! Ufa, como estou feliz por ser um mestre de clĂŁ!
Eva pareceu preocupada enquanto respondia:
â HĂŁ? Vejamos… Ele precisava resolver alguns assuntos da Casa Rodin, entĂŁo acho que tem viajado pela capital nos Ășltimos dias.
â Ark Ă© um cara ocupado â comentei.
Achei que ele tinha acabado de voltar, mas fiquei impressionado com o quanto trabalhava. Eva franziu as sobrancelhas com minhas palavras sinceras e me encarou silenciosamente.
â SĂł queria apontar que, como mestre de um grande clĂŁ, nĂŁo faltam pessoas querendo falar com vocĂȘ, mas eu cuidei de cada uma delas â ela disse.
â S-SĂ©rio?
â Todo mundo jĂĄ estĂĄ acostumado com o fato de vocĂȘ nĂŁo visitĂĄ-los, mas acho que nĂŁo custa nada aparecer pelo menos uma vez, nĂŁo acha? Isso me ajudaria bastante.
â VocĂȘ sempre foi uma grande ajuda, Vice Mestre do ClĂŁ. Arranjei tudo para que, eventualmente, vocĂȘ se torne a mestre do clĂŁ.
â NĂŁo, obrigada.
Desviei o olhar. NĂŁo eram apenas os caçadores que possuĂam uma aura esmagadoraâmercadores e nobres tambĂ©m podiam exercer uma pressĂŁo aterrorizante. Provavelmente havia muitos que eram inteligentes tambĂ©m; eu sĂł seria facilmente manipulado por eles. Mas, se Ark estava ocupado nos Ășltimos dias, parecia que a RelĂquia que Lady Ăclair comprou ainda nĂŁo havia sido entregue a ele. Eu tinha que agir enquanto ainda estava empolgado com tudo isso. A MĂĄscara ReversĂvel podia parecer grotesca, mas talvez ela acabasse gostando dela com o tempo, assim como eu. Era importante que Lady Ăclair entregasse a RelĂquia para Ark rapidamente, antes que fosse tarde demais.
â VocĂȘ pode chamar o Ark? â perguntei.
â NĂŁo Ă© impossĂvel, mas a Casa Rodin Ă© um pouco complicada de lidar â disse Eva, parecendo incomumente preocupada com o pedido.
Aquela casa estĂĄ cheia de esquisitos. Mas eu nĂŁo podia desistir agora. Essa poderia ser realmente minha Ășltima chance. Estiquei meu corpo e encarei minha vice mestre de clĂŁ com uma expressĂŁo sĂ©ria.
â Esse Ă© um pedido urgente. Pode usar minha autoridade como o Mil Truques. Chame Ark aqui imediatamente.
Minha batalha decisiva estava prestes a começar.
***
â Eu estou me sentindo Ăłtima, Krai! â disse Sitri, sorrindo de orelha a orelha. JĂĄ fazia alguns dias desde sua Ășltima visita ao escritĂłrio, e era raro vĂȘ-la de tĂŁo bom humor. â TambĂ©m nĂŁo hĂĄ nenhum problema particular com o golem!
â Ătimo. Fico feliz em ouvir isso â respondi.
Ela usava uma tĂșnica cĂĄqui folgada que escondia sua silhueta, como de costume, mas parecia mais radiante do que o normal.
â Como saĂmos rapidamente do leilĂŁo, consegui pegar meu item sem problemas â continuou. â Talvez vocĂȘ jĂĄ saiba disso, mas aparentemente houve sinais de alguĂ©m invadindo o depĂłsito do leilĂŁo. Acho que isso nĂŁo foi divulgado.
â Invadindo? â perguntei. â NĂŁo foi a Liz?
O Leilão de Zebrudia era organizado pelo império. Com certeza era bem protegido, e a honra da nação estava em jogo. Somente pessoas insanas tentariam invadir um lugar como aquele. Minha pergunta foi meio brincadeira, mas os olhos de Sitri brilharam.
â NĂŁo foi a Liz â ela disse. â NĂłs podemos ter esmagado Noctus Cochlear, mas ele era apenas o chefe do departamento de pesquisa. A fundação sobre a qual ele construiu ainda estĂĄ infestando o impĂ©rio. Cada departamento de pesquisa da Torre AkĂĄshica Ă© dividido e completamente isolado, entĂŁo, mesmo que um caia, isso nĂŁo afeta realmente os outros. AtĂ© eu nĂŁo ouvi nada sobre os outros laboratĂłrios. Mas Noctus Cochlear era um excelente Magus e, quando seu laboratĂłrio foi destruĂdo, houve gente disputando os restos do seu trabalho! O golem provavelmente foi parar no leilĂŁo apĂłs ser pressionado por alguĂ©m!
Sitri parecia empolgada, mas eu apenas lhe dei uma resposta vaga enquanto seguia para a sala de reuniĂ”es. Fiquei feliz em vĂȘ-la tĂŁo animada, mas minha mente estava ocupada pensando em como conseguir aquela mĂĄscara. Eva havia cumprido minhas ordens e passado meu chamado para Ark. Daqui para frente, tudo dependeria da minha habilidade. Sitri caminhava ao meu lado, girou levemente e se agarrou ao meu braço direito. Eu nĂŁo conseguia entender por que ela parecia tĂŁo animada. Estou aqui para negociar, sabia? Isso estĂĄ me distraindo um pouco.
â Ă tudo graças a vocĂȘ, Krai â ela ronronou. â NĂŁo sĂł conseguimos obter a sugadora de dinheiro Akasha por meros um bilhĂŁo de gilds, como tambĂ©m abrimos um novo caminho! Ah, serĂĄ que eu deveria tentar invadir de novo ou simplesmente esmagĂĄ-los e roubar seu trabalho? Mas estamos lidando com uma grande organização, eles estĂŁo de olho em vocĂȘ, e o impĂ©rio tambĂ©m estĂĄ atento. Eu tenho que pensar no meu trabalho tambĂ©m, entĂŁo estou tĂŁo dividida!
Parecia que Sitri estava animada para enfrentar uma organização secreta que estava na lista de procurados. Ela jå estava perseguindo a Torre Akåshica de qualquer forma, mas eu me perguntava se todos os caçadores eram imprudentes como ela. Ela percebeu que eu estava tendo dificuldade para andar com ela tão colada ao meu lado e, por fim, se afastou. Pessoalmente, eu não queria que ela se metesse em algo tão perigoso.
â Se acalma um pouco, hmm, Sitri? â falei. â VocĂȘ jĂĄ conseguiu o que queria, entĂŁo por que nĂŁo tira um tempo para descansar agora?
EstĂĄvamos lidando com uma grande organização, mas tambĂ©m Ă©ramos um grande clĂŁ. Eu nĂŁo achava que eles tentariam nos enfrentar. E, se possĂvel, queria que eles simplesmente esquecessem completamente sobre Akasha.
â Entendo… EntĂŁo esperamos o momento certo e os deixamos ansiosos â respondeu Sitri. â Sinto que poderĂamos derrotĂĄ-los se atacĂĄssemos direto, mas, quando atacamos, hĂĄ uma boa chance de que nossas defesas fiquem vulnerĂĄveis. Sinto que estamos sendo um pouco cautelosos demais, mas temos vocĂȘ do nosso lado, nĂŁo temos?
Ela olhou para mim. Parecia que nossa conversa nĂŁo estava exatamente se encaixando, mas eu apenas assenti.
â Acho que caçadores devem ser mais cautelosos do que imprudentes â eu disse. â De qualquer forma, pode me ajudar? Bem, para ser franco, tudo que preciso Ă© de ajuda financeira.
Presumindo que Lady Ăclair tenha dado a mĂĄscara para Ark, eu nĂŁo achava que ele simplesmente me entregaria de graça. Caçadores sempre esperavam alguma forma de compensação ou troca equivalente. Se ele me desse de graça, isso implicaria que eu tinha uma enorme dĂvida com ele. Eu sabia que minha versĂŁo endividada nĂŁo era a melhor para falar disso, mas queria evitar essa situação o mĂĄximo possĂvel. Sitri, no entanto, nĂŁo parecia nem um pouco incomodada com o meu tom despreocupado.
â Ficarei feliz em ajudar â ela disse. â Quanto ao dinheiro, eu jĂĄ planejava agir mesmo se vocĂȘ nĂŁo tivesse pedido.
Certo… Digo, eu usei o seu fundo de casamento, afinal. Um dia eu vou pagar tudo, entĂŁo por favor me perdoe. Sitri estendeu o braço e segurou minha mĂŁo, tocando-a com tanta delicadeza como se eu fosse uma obra de arte. Ela suspirou e me olhou com as bochechas coradas.
â EntĂŁo, Krai… Estava pensando em uma forma de te agradecer e, bem… Por que nĂŁo vem ficar na minha casa? Tenho tempo e gostaria de te mostrar minha hospitalidade.
â Hmm, talvez da prĂłxima vez â respondi.
â Ah, que pena.
Seus olhos baixos mostravam o quanto estava desapontada. Seu convite e sorriso gentil tornavam difĂcil recusar, mas, se eu aceitasse sua oferta, me tornaria um completo inĂștil e desceria ladeira abaixo.
Eu jĂĄ tinha sido convidado para a casa dela vĂĄrias vezes no passado, mas a hospitalidade de Sitri poderia facilmente transformar qualquer um em um inĂștil na sociedade. Tudo era feito por mim. Todas as minhas responsabilidades e deveres eram tirados de mim, e ela cuidava de tudo o que eu precisava. Ela atĂ© lavava minhas costas e me fazia massagens, satisfazendo todos os meus desejos, e eu nĂŁo tinha mais nenhuma reclamação no mundo. Todos os meus sentidos ficavam entorpecidos, e eu parava de sentir a necessidade de pensar ou suportar qualquer coisa.
Quando experimentei esse luxo pela primeira vez, se Liz nĂŁo tivesse percebido a situação incomum, eu certamente ainda estaria afundado naquele inferno paradisĂaco atĂ© hoje. Era como cair em um poço sem fundo. Sim, estou fazendo parecer que a culpa Ă© da Sitri, mas a culpa Ă© toda minha. Ela obviamente nĂŁo tem nenhuma mĂĄ intenção. Eu tratava os convites dela como um teste mental. JĂĄ estava me afundando sem fazer nada nos Ășltimos dias e, se me entregasse ainda mais, me tornaria um caso perdido de verdade.
Ark e seus amigos jĂĄ estavam me esperando no salĂŁo. Entre eles estavam a Santa de NĂvel 5, Ewe Shiragi, uma pessoa que carregava um ar de mistĂ©rio, mas tambĂ©m um coração forte; Isabella Merness, uma Maga de NĂvel 6 do norte, que me parecia um pouco rude; Armelle Hellstrom, uma Espadachim de NĂvel 6; e Benetta Raim, uma Ladina de NĂvel 6, que sempre era alvo das provocaçÔes de Liz e nĂŁo parecia ter uma boa impressĂŁo de nĂłs.
O lĂder desse adorĂĄvel grupo, Ark Brave, era o Ășnico homem da equipe e um dos mais fortes da capital, o NĂvel 7 Tempestade ArgĂȘntea, Ark Rodin. Ele tinha tudo â um rosto bonito, um temperamento radiante e uma força esmagadora. Ele era um homem que nasceu para se tornar o HerĂłi.
Hoje, ele não usava seu uniforme de aventureiro da Passos, mas sim roupas casuais. Sua postura era reta e vigilante, sem deixar nenhuma abertura. Ele claramente sorria para mim, mas emanava uma certa aura que insinuava que havia mais nele do que se podia ver. Ao lado dele, Liz estava completamente à vontade, relaxando com confiança. Eu não lembro de ter chamado ela. Quando me notou, ela se sentou e acenou para mim de forma exagerada, sorrindo de orelha a orelha.
â Krai, querido! â ela chamou. â Aqui! VocĂȘ Ă© horrĂvel! Por que nĂŁo me chamou? Isso parece tĂŁo divertido!
Ark Ă parte, o resto do grupo dele me lançava olhares furiosos. NĂŁo posso culpĂĄ-los â provavelmente tinham seus prĂłprios planos, mas foram convocados por mim Ă força, apenas para darem de cara com Liz, que era difĂcil de lidar.
â Isso… pode ser problemĂĄtico â murmurei. â Eu nĂŁo vim me divertir, para falar a verdade.
â Deixa comigo â Sitri garantiu.
â Eu consigo negociar sozinho. Ă contra o Ark, entĂŁo acho que posso lidar com ele.
Eu cheguei cedo para nĂŁo fazĂȘ-lo esperar, mas parece que a diligĂȘncia do Ark jogou contra mim. Para o nosso grupo, se metade dos membros chegasse no horĂĄrio, jĂĄ era algo excelente, mas os Braves eram muito diferentes. Tentei, pelo menos, cumprimentĂĄ-lo com um sorriso, e ele, por sua vez, sorriu brilhantemente como de costume.
â Me desculpe por chamĂĄ-lo tĂŁo de repente, Ark. Por favor, me perdoe â comecei. â Era uma emergĂȘncia, e acho que isso nĂŁo serĂĄ um mau negĂłcio para vocĂȘ tambĂ©m.
***
Um cara interessante. Se Ark Rodin tivesse que descrever o Mil Truques em poucas palavras, essa seria sua frase padrĂŁo.
Todos os anos, caçadores de tesouros e aspirantes a aventureiros de todas as partes se reuniam na capital de Zebrudia, a terra sagrada. A maioria deles se aposentava sem alcançar grande sucesso. Alguns morriam tentando limpar um cofre do tesouro, outros sofriam ferimentos graves que encerravam suas carreiras prematuramente, e havia aqueles que ficavam tão abalados psicologicamente que juravam nunca mais sair da cidade. Mesmo os que conseguiam evitar essas armadilhas comuns geralmente não eram capazes de se sustentar na capital devido à falta de habilidades, sendo obrigados a procurar outro lugar para se estabelecer.
Krai Andrey tambĂ©m era um desses caçadores, vindo do interior. Para piorar, ele nĂŁo tinha experiĂȘncia como caçador e apenas aspirava se tornar um. Era desnecessĂĄrio dizer que os caçadores que permaneciam na capital eram extremamente habilidosos e elevavam o nĂvel para os demais. Apenas um punhado de talentos realmente conseguia se destacar na capital. Havia uma abundĂąncia de cofres do tesouro esperando aqueles que ousassem desafiar seus perigos. O lugar era repleto de rivais excelentes lutando por essas relĂquias, e rufiĂ”es de olhos afiados vagavam pelas ruas, esperando para tirar vantagem de caçadores derrotados. Locais saturados de itens e pessoas tambĂ©m atraĂam uma quantidade considerĂĄvel de malfeitores. Apenas caçadores poderosos, capazes de repelir ataques de outros, podiam chamar a capital de um lar confortĂĄvel.
Isso servia como uma espécie de batismo para caçadores iludidos pela riqueza que parecia praticamente garantida e que viam a profissão através de lentes cor-de-rosa.
Os Grieving Souls, no entanto, contrariavam todas as probabilidades e avançavam Ă força por qualquer obstĂĄculo que surgisse em seu caminho. Eles conquistavam cofres do tesouro, ignoravam caçadores imaturos acima deles que viam novatos talentosos como uma ameaça e atĂ© mesmo destruĂam grupos fantasmas que frequentemente se aproveitavam dos recĂ©m-chegados. Eles se tornaram um grupo famoso em uma velocidade impressionante. Era quase inevitĂĄvel que chamassem a atenção de Ark.
Os Grievers sempre estavam cobertos de sangue. Sua luz era tĂŁo intensa que projetava sombras escuras por onde passavam. Cada um deles transbordava um talento ofuscante, e nĂŁo era surpresa que despertassem inveja e rancor. Eles seguiam um caminho espinhoso, repleto de dificuldades: suas vidas foram alvo de tentativas de assassinato mais de uma vez, e rumores desagradĂĄveis sobre eles circulavam constantemente. Mas talvez esses obstĂĄculos apenas tivessem criado um monstro ainda mais poderoso.
Antes que alguĂ©m pudesse reagir, a presa havia se tornado o predador. O caipira que sonhava alto demais para seu nĂvel ganhou talentos aterrorizantes, e seu grupo se transformou em algo que os outros temiam â nenhum inimigo deles escapava impune.
Ark Rodin tambĂ©m havia se tornado um caçador na capital, mas sua situação era completamente diferente. A Casa Rodin jĂĄ possuĂa a base e o conhecimento necessĂĄrios. Eles desfrutavam de uma excelente reputação. Desde jovem, ele passou por um treinamento rigoroso para se tornar um caçador e atĂ© havia explorado alguns cofres de tesouro antes de se tornar oficialmente um. Recebia o apoio da nobreza e reunir membros para sua equipe nunca foi um problema. Sua base era o completo oposto da de Mil Truques. Ark Rodin, no mĂnimo, acreditava que Ark Brave e Grieving Souls eram polos opostos, e essa diferença se estendia tambĂ©m aos lĂderes.
O homem de cabelos escuros sentado Ă sua frente estava exatamente igual ao dia em que se conheceram, anos atrĂĄs. Ele era o mais fraco. Ark sabia que aquele homem era chamado de estrategista genial e que esse apelido era tĂŁo preciso que parecia simplesmente prever um futuro inevitĂĄvel.
Mesmo assim, levando tudo isso em conta, aquele homem nĂŁo parecia ter nada de especial. Ark conhecia vĂĄrios caçadores de nĂvel mais alto do que ele. Alguns eram parecidos com Mil Truques, e outros talvez estivessem atĂ© abaixo dele em termos de habilidade de combate. Mas cada um desses caçadores era inegavelmente poderoso. Todos tinham algo que os tornava diferentes dos demais. Quando Ark conhecia esses caçadores pessoalmente, era difĂcil duvidar de sua força. Infelizmente, o homem Ă sua frente, apesar de seu alto nĂvel e dos resultados que comprovavam isso, carecia dessa aura avassaladora.
Um cara interessante. O lĂder de um grupo com membros absurdamente poderosos era absurdamente fraco.
A curiosidade de Ark foi despertada. Esse era o principal motivo para Ark Brave, que havia sido recrutado por clĂŁs antigos e poderosos, ter se juntado Ă Primeiros Passos. E mesmo apĂłs alguns anos, Ark ainda nĂŁo conseguia compreender a verdadeira essĂȘncia daquele homem. No passado, ele havia sido comparado a Mil Truques em vĂĄrias ocasiĂ”es, mas isso parecia um erro tolo. NĂŁo fazia sentido simplesmente comparar nĂșmeros, e a Tempestade Prateada e Mil Truques nĂŁo podiam ser analisados tĂŁo facilmente. Por exemplo, somar ou subtrair poder de ambos os lados nĂŁo os tornava equivalentes. Isso nĂŁo era apenas uma questĂŁo de statusâos dois haviam trilhado caminhos completamente diferentes. NĂŁo estavam sequer na mesma dimensĂŁo.
As pessoas ao redor de Mil Truques sentiam inveja. Alguns aspiravam ser como ele, enquanto outros o viam como uma ameaça. Ark Rodin nasceu um vencedorâesse era seu destino. Ele nascera para trilhar seu prĂłprio caminho sozinho e, por isso, nĂŁo sentia inveja de ninguĂ©m. Tudo o que possuĂa era uma mente inquisitiva que vinha sendo passada adiante desde o primeiro lorde da Casa Rodin.
E assim, ârivalâ ou âinimigo poderosoâ nĂŁo eram palavras adequadas para descrever a relação entre Ark Rodin e Krai Andrey. âAmigoâ era a palavra mais apropriada. Ark, que vinha se ocupando com assuntos de sua casa, foi de repente chamado por Mil Truques, que nĂŁo demonstrava um pingo de arrependimento por tĂȘ-lo convocado. Na verdade, o homem cruzava os braços de forma arrogante, completamente indiferente ao olhar afiado que Isabella lhe lançou.
â Vou ser direto â disse Krai. â VocĂȘ precisa ir para a casa da Lady Ăclair o mais rĂĄpido possĂvel. VocĂȘ vai entender tudo quando chegar lĂĄ. VocĂȘ sabe que nĂłs dois estĂĄvamos disputando um leilĂŁo por uma RelĂquia e que eu perdi, certo?
â Sei â respondeu Ark. â Estive ocupado nos Ășltimos dias, mas ouvi falar sobre isso. Para evitar mal-entendidos, quero deixar claro que nĂŁo tenho nada a ver com ela. Ela nĂŁo Ă© uma pessoa ruim, mas tem uma tendĂȘncia a agir impulsivamente.
Ark era um homem ocupado. Como membro da Casa Rodin, alĂ©m de suas caçadas, tinha uma montanha de trabalho para administrar. Enquanto a capital se agitava com o leilĂŁo, ele nĂŁo teve tempo de participar da empolgação e estava sempre ocupado, sendo chamado de um lado para o outro. Ele riu ao ouvir que o preço da RelĂquia disparou simplesmente porque descobriram que Mil Truques estava interessado nela e ficou surpreso ao saber que Lady Ăclair estava envolvida por algum motivo, mas foi sĂł isso. Liz, que estava sentada ao lado de Krai, com as costas retas e as pernas cruzadas, soltou um grito agudo de protesto.
â O quĂȘ?! Eu jĂĄ ia lĂĄ, mas agora vocĂȘ quer mandar o Ark?
â O quĂȘ?! â Isabella rugiu furiosa. â VocĂȘ vai usar o Ark como seu capacho de novo?! Ele Ă© um homem ocupado! VĂĄ vocĂȘ mesmo!
Ark suspirou. Ela era uma excelente Maga, mas seu maior defeito era não conseguir se conter sempre que Ark era subestimado ou tratado com desdém.
â O quĂȘ?! Como Ă© que Ă©?! â Liz berrou de volta. â VocĂȘ sĂł estĂĄ na sombra do Ark! NĂŁo ouse falar tĂŁo insolentemente com o Krai Baby aqui! Eu vou te matar! Quando a gente manda vocĂȘ ir a algum lugar, a Ășnica resposta aceitĂĄvel Ă© “quando e onde”, sua idiota!
â Sombra?! Eu vou te mostrar…
â Agora, agora. Que tal acalmarmos os Ăąnimos? â Sitri interveio com um sorriso e uma palma estalada, interrompendo as duas antes que elas pudessem se levantar. â VocĂȘs estĂŁo incomodando tanto o Ark quanto o Krai.
â Tch.
Alguns membros de Grieving Souls e Ark Brave absolutamente se odiavam. Isso não era novidade. Krai parecia mais sério do que nunca, o que fez Ark endireitar a postura.
â Eu tentei, mas ela nĂŁo me ouviu â confessou Krai. â Ark, essa RelĂquia… Ă© perigosa, sabe? Tenho certeza de que vocĂȘ pode fazer algo a respeito. Se vocĂȘ for agora, acho que ainda dĂĄ tempo.
Como de costume, as palavras de Krai eram vagas e enigmĂĄticas, mas ele sempre acertava no alvo. Ark sabia disso muito bem. NĂŁo era a primeira vez que ele era chamado assim, entĂŁo deixou todas as perguntas de lado e fez apenas uma.
â Vou precisar da minha arma?
â HĂŁ? NĂŁo, acho que nĂŁo â respondeu Krai. â Na verdade, pode ser atĂ© melhor se vocĂȘ nĂŁo levar nada.
Eu não preciso de armas? pensou Ark. Isso é incomum. Então não se trata de uma batalha? Mas ele disse que era perigoso. Que tipo de situação perigosa não exige armas?
â E se eu nĂŁo chegar a tempo? â Ark perguntou, franzindo a testa.
Krai inclinou a cabeça para o lado e fez uma expressão preocupada.
â EntĂŁo eu ficarei triste.
***
Ark acalmou seu grupo, cada um deles me encarando com desdĂ©m, e saiu rapidamente do salĂŁo. Como eu esperava, Ark aceitou meu pedido. NĂŁo pude entrar em detalhes devido Ă natureza desse pedido, mas ele provavelmente entendeu uma parte das minhas intençÔes pelas minhas açÔes e palavras. Eu nĂŁo esperava menos de Ark Rodin. O caçador mais forte do impĂ©rio tambĂ©m era incrivelmente generoso. Eu adoro esse cara. Ele Ă© um excelente generalista. VocĂȘ sabia que ele atĂ© consegue usar magia de cura? DĂĄ para acreditar? Ele era exatamente o oposto de mim, que nĂŁo conseguia fazer nada.
Era comum caçadores de alto nĂvel terem membros de grupo poderosos, mas aqueles que iam alĂ©m disso seguiam sozinhos. Foi exatamente o que Xerxes Zequenz, o homem que fez com que nos, os Grievers, nos tornarmos caçadores e um dos Ășnicos trĂȘs caçadores de nĂvel 10, fez. Caçadores que estavam um nĂvel acima do resto simplesmente nĂŁo conseguiam que os outros os acompanhassem.
Ark explorava cofres de tesouros que estavam de acordo com o nĂvel de seus companheiros de equipe. Se trabalhasse sozinho ou entrasse para um grupo mais forte, poderia ter subido de nĂvel muito mais rĂĄpido. Seu grupo era praticamente um harĂ©m, mas ele ainda conseguia mantĂȘ-lo, o que era um tanto incomum para um caçador de primeira classe.
â Isso Ă© tĂŁo injusto! â reclamou Liz. â VocĂȘ sempre depende do Ark! E eu? Dependa mais de mim! Vamos lĂĄ! O Luke se foi, eu nĂŁo posso treinar com a Siddy, e a T Ă© muito fraca! Vou acabar enferrujando! Por favor? Eu faço qualquer coisa!
Ela implorou enquanto se esfregava em mim. Ela tĂĄ agindo como meu bichinho de estimação ou algo assim? VocĂȘ disse que faria qualquer coisa, nĂ©? EntĂŁo, por favor, fique quieta. Eu nĂŁo tinha reclamaçÔes sobre as habilidades de Liz, mas ela era um pouco impulsiva demais.
Suspirei. â Liz, vocĂȘ entende o que eu acabei de pedir?
â Claro! â respondeu ela com um sorriso orgulhoso. â VocĂȘ quer que eu vĂĄ atĂ© a casa daquele pirralho idiota e roube aquela RelĂquia, nĂ©? Deixa comigo!
VocĂȘ realmente nĂŁo tem lĂłgica nem bom senso.
â Ah, qual Ă©, isso Ă© moleza comparado a cofres de tesouro â continuou ela. â Os cavaleiros que guardam aquele lugar sĂŁo todos amadores. Barreiras e essas coisas podem ser um pouco difĂceis pra mim sozinha, mas eu sĂł preciso pegar antes que me encontrem, nĂ©? Ah, jĂĄ sei! Talvez eu arraste a T junto!
Por favor, nĂŁo faça isso com ela. Liz costumava ser mais sensata, mas deve ter se acostumado demais com a bagunça. A mĂĄscara jĂĄ estava resolvidaâeu tinha certeza de que Ark a traria de volta. Sitri, a voz da razĂŁo, repreendeu sua irmĂŁ mais velha com um olhar cansado.
â Liz, vocĂȘ estĂĄ incomodando o Krai de novo! Ele provavelmente tem um motivo pra achar que Ark Ă© a pessoa certa para o trabalho, e nĂłs temos nossos prĂłprios papĂ©is a cumprir.
â PapĂ©is? â perguntou Liz.
â Juntar dinheiro.
Liz descruzou as pernas, surpresa com a resposta imediata de Sitri. A irmã mais velha então assentiu em concordùncia enquanto me lançava um olhar.
â Ah, entendi â disse Liz. â Acho que faz sentido. De qualquer forma, nem dĂĄ pra pedir isso ao Ark.
â Temos que pagar a Lucia antes que ela volte tambĂ©m â disse Sitri. â Ă o momento perfeito, nĂŁo acha?
Espera, o que Ă© perfeito? As duas irmĂŁs continuaram conversando, completamente me ignorando. Acho que irmĂŁs realmente tĂȘm algum tipo de conexĂŁo telepĂĄtica que os de fora nĂŁo conseguem entender. Liz se levantou, agora sorrindo de orelha a orelha, um contraste gritante com sua atitude reclamona de poucos instantes atrĂĄs.
â Entendi… â murmurou ela. â Como sempre, os planos do Krai Baby sĂŁo perfeitamente calculados. Tudo bem, eu faço isso. Quanto antes, melhor, nĂ©? JĂĄ faz um tempo, mas eles podem estar mais preparados. VocĂȘ que se cuide, Siddy.
â Eu sei, eu sei â respondeu Sitri.
â Beleza, entĂŁo acho que vou dar uma aquecida. Te vejo depois, Krai Baby! Vou me esforçar pra trazer boas notĂcias! Fica aĂ esperando!
Com um aceno, ela saltou graciosamente para fora do salĂŁo. NĂŁo parecia que ela ia atrĂĄs do Ark, mas eu nĂŁo tinha ideia do que estava prestes a fazer. Como Sitri estava com ela, eu tinha certeza de que ficaria tudo bem.
â Krai, eu preciso ir com ela tambĂ©m â disse Sitri. â Vou garantir que ela nĂŁo exagere.
â Claro, uh-huh â respondi. â SĂł nĂŁo causem confusĂŁo demais.
Eu queria oferecer minha ajuda também, mas provavelmente só atrapalharia. Sitri fechou a mão em um punho e sorriu diante do meu incentivo vazio.
Ark retornou Ă sua base e rapidamente começou a se preparar. Como caçador, mesmo sem planos de explorar cofres de tesouro, ele sempre carregava o mĂnimo essencial de suprimentos. Sua bolsa dimensional lhe permitia armazenar muito mais do que se imaginaria Ă primeira vista. Apesar da aparĂȘncia compacta, a bolsa nĂŁo apenas possuĂa um grande espaço de armazenamento, como tambĂ©m parava o tempo dentro dela, impedindo que itens apodrecessem ou estragassem. Era uma relĂquia inestimĂĄvel passada de geração em geração na Casa Rodin; Ark a usava para guardar poçÔes, comida e itens necessĂĄrios para acampamentos. Ele estava sempre preparado para qualquer situação.
â NĂłs realmente vamos? â perguntou Saint Ewe, seus olhos cinzentos cheios de preocupação enquanto olhava para seu lĂder.
Ark sorriu. â VocĂȘ estĂĄ ansiosa?
O restante do grupo nĂŁo expressava tantas preocupaçÔes por respeito ao lĂder, mas todos se preparavam com expressĂ”es tensas. Como caçadores de primeira classe, eles embalavam seus equipamentos de forma rĂĄpida e eficiente, mas seus rostos diziam que estavam prestes a enfrentar um cofre de tesouro extremamente perigoso.
Se houvesse algo que realmente definisse a Primeiros Passos, nĂŁo era seu programa de bem-estar para membros nem o poder individual de cada umânĂŁo, a verdadeira marca registrada do clĂŁ era o Mil Desafios, que o mestre do clĂŁ ocasionalmente emitia. Esse Desafio era dado igualmente a todos, e o grupo de Ark nĂŁo era exceção.
Na verdade, o grupo de Ark servia como o braço direito do clĂŁ, o que significava que eram frequentemente chamados para atender Ă s demandas do mestre do clĂŁ. Tirando Ark, o resto do grupo sempre dizia que nenhum cofre de tesouro perigoso ou difĂcil poderia se comparar aos pedidos absurdos e repentinos do mestre do clĂŁ, que mal lhes dava tempo para se preparar.
O rosto belo de Ewe estava marcado pela preocupação.
â Estou â ela confessou. â O Krai… tende a te arrastar para muitas coisas.
â Como ele Ă© um nĂvel 8, deveria lidar com isso sozinho â disse Isabella, suspirando profundamente enquanto se envolvia em um manto branco puro que usava para explorar cofres. â Acho que vocĂȘ estĂĄ mimando ele demais, Ark.
Era verdade que Ark quase nunca recusava os pedidos de Krai. Uma pessoa que temia acontecimentos inesperados jamais poderia se tornar um caçador, e todos os pedidos do mestre do clã realmente exigiam que alguém tomasse atitude para evitar que a situação escalasse e se tornasse um desastre.
â VocĂȘ nĂŁo acha que ele deveria agir por conta prĂłpria tambĂ©m? â perguntou Isabella, buscando validação. â Ele tem Liz e Sitri ao lado dele.
Ark deu um sorriso exasperado.
â VocĂȘ estĂĄ dizendo que essas duas deveriam se encontrar com Lady Ăclair? Acho que nĂŁo teria coragem de fazer algo tĂŁo aterrorizante.
â Bem… vocĂȘ tem um ponto. Sinto que Liz realmente entraria em uma briga com uma garota de dez anos. Provavelmente ela nem se importa com ranking ou honra.
â Ă assustador pensar nisso, mas Ă© uma possibilidade â concordou Armelle, fazendo uma careta severa.
Os Grievers eram bem conhecidos por seu poder e insolĂȘncia. Ark, que tambĂ©m fazia parte do clĂŁ e os conhecia hĂĄ tempos, sabia que os rumores amenizavam as açÔes deles. Na verdade, âinsolenteâ nem começava a descrever alguns deles, que se assemelhavam mais a membros exaltados da mĂĄfia.
â Talvez fosse uma histĂłria diferente se Lucia e Ansem estivessem aqui, mas eles ainda estĂŁo fora… â disse Isabella, antes de balançar a cabeça rapidamente. Ela tentou manter sua postura desafiadora, mas estava claro que jĂĄ nĂŁo parecia tĂŁo convicta. â N-NĂŁo, mesmo assim, eles deveriam ter ido sozinhos! Krai consegue convencer aqueles nobres com facilidade, nĂŁo consegue?!
Logicamente, ela devia ter percebido que a decisĂŁo do mestre do clĂŁ era sensata, mas emocionalmente, ainda nĂŁo conseguia aceitar o pedido de bom grado. Ăclair podia ser uma criança, mas era uma nobre. Uma jovem orgulhosa que claramente desprezava Krai. O mestre do clĂŁ talvez pudesse lidar com ela, mas era evidente que seu amigo Ark era um candidato muito mais adequado para essa negociação.
â Apenas admita, Isabella â disse Ark. â Minha casa tem laços com a Casa Gladis. Se realmente hĂĄ algo acontecendo com eles, entĂŁo isso Ă© ainda mais um motivo para eu ir. NĂŁo Ă© certo reclamar com Krai.
Embora Ark conhecesse Krai hĂĄ tempos, ainda nĂŁo conseguia compreendĂȘ-lo completamente. No entanto, independentemente dos outros membros do grupo, nenhuma das provaçÔes que Ark havia recebido atĂ© aquele momento o tinham irritado. Ele tinha um propĂłsito e o poder de salvar os outros.
Depois de terminar seus preparativos, Ark segurou o cabo dourado opaco de sua lĂąmina e a puxou da bainha branca. A espada nĂŁo tinha ornamentos intrincados, mas, quando embainhada, sua aura celestial encantava qualquer um que a visse. Aquela era uma RelĂquia do tipo lĂąmina que, supostamente, o primeiro lorde da Casa Rodin havia usadoâ a espada sagrada, Historia. Junto com os Rodin, Historia havia salvado muitos de desastres e pavimentado o caminho da histĂłria. Entre as inĂșmeras RelĂquias do tipo lĂąmina, Historia era conhecida como a mais forte de todas; uma lĂąmina incomparĂĄvel que ainda nĂŁo encontrara um item que nĂŁo pudesse cortar com um Ășnico golpe.
Normalmente, ninguém tinha permissão para levar armas para dentro do solar de um nobre, mas Ark era uma exceção notåvel. Claro, Ark Rodin não era um homem que cairia diante de um guarda ou cavaleiro só porque suas armas haviam sido confiscadas, e Lorde Gladis sabia disso muito bem. Embora Krai tivesse afirmado que uma arma não era necessåria, Ark sempre carregava a lùmina sagrada ao seu lado. Enquanto a mantivesse embainhada, não achava que isso causaria problemas. Apesar de confiar em Krai, também sabia que o mestre do clã tinha o péssimo håbito de ocultar informaçÔes ao ordenar uma Provação.
Ark estava pronto. Tudo o que restava era visitar Ăclair.
Isabella, que também acabara de terminar de se preparar, franziu as sobrancelhas bem desenhadas.
â Ark, o que vocĂȘ acha que ele quis dizer com âEu vou ficar tristeâ? Sinto que ele sĂł estĂĄ brincando com a gente.
â VocĂȘ Ă© uma pessoa bem sincera, hein? â respondeu Ark. â Agora, por que nĂŁo nos apressamos? Lady Ăclair ainda deve estar no solar dela.
â HĂŁ? O quĂȘ? Eu estava errada nisso?
Enquanto Isabella entrava em pùnico e os outros membros do grupo lhe lançavam olhares incisivos, Ark seguiu em direção ao solar, onde certamente o caos jå estava à espreita.
***
A mĂĄscara, que valia mais de duzentos milhĂ”es de gild, era mais grotesca do que se imaginava. Ăclair jĂĄ sabia disso de antemĂŁo, mas, se tivesse visto o item pessoalmente antes, talvez nem tivesse dado um lance nele. Aquela era uma RelĂquia amaldiçoada de efeitos desconhecidos â uma mĂĄscara de carne que atĂ© mesmo um avaliador experiente havia considerado perigosa.
A RelĂquia, que parecia carne crua amassada, se contorcia e pulsava como se estivesse viva. O mordomo da Casa Gladis, que recebera o item no lugar de Ăclair, fez uma careta ao vĂȘ-lo. Quando as criadas e mordomos inicialmente souberam da vitĂłria da jovem no leilĂŁo, todos a encheram de elogios, mas, ao verem a RelĂquia, foi evidente que ficaram abalados.
Desde o leilĂŁo, Ăclair estava trancada em seu quarto no solar. Dentro do quarto escuro, com as cortinas fechadas, a jovem estava completamente sozinha. No dia em que o leilĂŁo terminou, sentiu-se tĂŁo humilhada e furiosa que chorou em isolamento, mal conseguindo abafar seus soluços. No segundo dia, teve um acesso de raiva, descontando sua fĂșria em objetos enquanto o arrependimento profundo consumia seu corpo. Chamou os criados vĂĄrias vezes apenas para gritar com eles e mandĂĄ-los embora. Sua atitude era indigna da orgulhosa filha da Casa Gladis, e era difĂcil vĂȘ-la continuar assim.
Ela havia sido alvo de pena. SĂł isso jĂĄ era difĂcil de engolir, mas a RelĂquia que obteve parecia tĂŁo terrivelmente hedionda que sĂł podia questionar a sanidade do vendedor. Mesmo que fosse um item conquistado honrosamente em uma batalha feroz, sua aparĂȘncia era tĂŁo horrĂvel que ela relutava em entregĂĄ-lo a Ark, a quem admirava tanto. Se alguĂ©m tivesse a pele arrancada do rosto e alguns traços esculpidos da maneira certa, ficaria exatamente como essa mĂĄscara. De fato, âuma mĂĄscara de carneâ era a descrição perfeita para essa RelĂquia medonha. O item, que havia sido tĂŁo desesperadamente procurado apenas alguns dias antes, agora estava largado sem cerimĂŽnia em cima da escrivaninha ao lado de sua cama.
Ăclair nĂŁo tinha mais nada. Sua cabeça latejava e, embora as refeiçÔes fossem deixadas na frente de seu quarto, mal tocava na comida. Ela havia se acalmado consideravelmente nos Ășltimos dias, mas, enquanto jazia em sua cama sem vida, nĂŁo sentia vontade de fazer absolutamente nada. Estava tĂŁo esgotada e sua mente tĂŁo fragilizada que jĂĄ nem nutria mais raiva pelo Mil Truques.
O que… eu faço agora? Ăclair pensava, atordoada. Suas açÔes impulsivas e emocionais a colocaram em uma dĂvida de duzentos milhĂ”es de gilds. Esse dinheiro podia pertencer Ă sua famĂlia, mas ela havia prometido devolver cada gild que tomou emprestado.
O que poderia fazer agora? Deveria vender a mĂĄscara que acabou de comprar? Duvidava que alguma empresa estivesse disposta a comprĂĄ-la. O preço daquela RelĂquia sĂł disparou porque ela entrou na disputa; nĂŁo podia esperar que alguĂ©m pagasse um valor ainda mais alto. EntĂŁo, deveria simplesmente entregĂĄ-la a Ark, como havia planejado inicialmente? Isso estava fora de questĂŁo. Ăclair nĂŁo podia chamar aquele leilĂŁo de vitĂłria, e presentear alguĂ©m com uma RelĂquia de efeitos desconhecidos sĂł causaria problemas ao destinatĂĄrio. Deveria simplesmente descartĂĄ-la? Jogar fora um item pelo qual lutou tanto para obter parecia absurdo.
EntĂŁo… deveria vendĂȘ-la para o Mil Truques? Isso soava como a maior idiotice. Apesar de sua interferĂȘncia no leilĂŁo, aquele homem lhe deu essa vitĂłria. Como poderia sequer pensar em vender a mĂĄscara de volta para ele? SĂł a ideia a fazia querer morrer, e ela chegou a engasgar ao imaginar esse cenĂĄrio.
Sua mente estava cheia de pensamentos e ideias, mas nenhuma delas trazia uma resposta. Mudou de posição na cama e lançou o olhar para a mĂĄscara de carne. Ăclair, que nĂŁo estava acostumada a ver itens grotescos, sentiu um enjoo sĂł de olhar para ela. Quando o especialista inicialmente apresentou uma anĂĄlise de “nĂŁo pĂŽde ser determinada”, ela riu e zombou do homem medroso, mas, ao ver a mĂĄscara com seus prĂłprios olhos, entendeu por que o avaliador chegou a essa conclusĂŁo. Nem sequer conseguia tocĂĄ-laâteria certamente questionado a sanidade de qualquer um que ousasse usĂĄ-la.
SĂł entĂŁo Ăclair percebeu sua confusĂŁo. Por que o Mil Truques queria essa mĂĄscara? Ela ouviu dizer que ele queria essa RelĂquia desde o inĂcio, tanto que chegou a negociar com o vendedor antes do leilĂŁo. Ăclair, as companhias mercantis e outros caçadores decidiram roubar esse item dele assim que souberam disso.
A mĂĄscara era tida como a RelĂquia mais poderosa, mas agora ela achava difĂcil acreditar nisso.
â VocĂȘ deseja poder?
â HĂŁ?
Ăclair arfou audivelmente quando uma voz ecoou repentinamente em sua mente.
Ela se levantou num salto, notando o ar frio preenchendo o quarto. De onde isso veio? Instintivamente, levou a mão à espada ao lado do travesseiro. A lùmina que normalmente manejava com tanta graça agora pesava em suas mãos. Mal conseguia arrastå-la para perto de si.
â Tenho observado vocĂȘ. HĂĄ um bom tempo. Sua dor, tristeza, raiva e, acima de tudo… desespero. Eu vi tudo. VocĂȘ Ă© um aglomerado de talento excepcional e brilhante. Seu corpo pode ser frĂĄgil, mas isso Ă© algo que posso contornar. VocĂȘ Ă© uma candidata digna de receber meu poder.
Ăclair percebeu de onde vinha a voz.
â A-a mĂĄscara estĂĄ falando?!
Isso era impossĂvel. Por mais horrĂvel que parecesse, o item era uma RelĂquia e nada alĂ©m disso. NĂŁo deveria ser capaz de falar! Ela continuava repetindo isso para si mesma em pĂąnico. E, no entanto, nĂŁo conseguia desviar os olhos da mĂĄscara de carne em cima da escrivaninha. Apavorada, sacou sua espada e a ergueu no ar. Com a mĂŁo esquerda, foi recuando lentamente. JĂĄ enfrentou inĂșmeros monstros e apariçÔes antes, mas sua lĂąmina começou a tremer diante dessa presença desconhecida e assustadora.
â Eu posso fazer muito mais do que apenas falar, ser frĂĄgil. Sou aquele que impulsiona a humanidade. Dou esperança aos fracos. E Ă© muito conveniente que esteja sozinha. Farei o que deve ser feitoâexiste um propĂłsito para minha existĂȘncia… minha mestra.
Ăclair engasgou quando a mĂĄscara começou a levitar no quarto escuro. Mas o item nĂŁo estava apenas flutuandoâvĂĄrias protuberĂąncias semelhantes a tentĂĄculos brotaram dela, erguendo-a no ar.
ImpossĂvel! NinguĂ©m ativou a RelĂquia! Ela nĂŁo pode agir sozinha! NĂŁo pode ser!
As palavras de um homem de rosto cansado, que tentou negociar com ela antes do leilĂŁo, passaram por sua mente.
â Ă uma RelĂquia perigosa.
***
O grupo de Ark foi convidado para a sala de reuniĂ”es da mansĂŁo da Casa Gladis. O lorde e chefe da famĂlia, Van Gladis, contou a Ark os eventos que haviam ocorrido, fazendo o caçador se arrepender de nĂŁo ter dado uma explicação melhor. Quando Lady Ăclair e Krai se encontraram na sede do clĂŁ, Ark deveria ter esclarecido qualquer mal-entendido sobre o mestre do clĂŁ naquele momento.
Ăclair era madura para sua idade, mas ainda era uma criança. Pensando bem, houve momentos em que ela demonstrou insatisfação pelo fato de Ark nĂŁo ser o mestre do clĂŁ, mas apenas o segundo no comando (embora, para ser preciso, aqueles ao seu redor o vissem assim, mas ele nem isso era).
Isabella, que estava sentada ao lado de Ark, estreitou os olhos e sussurrou:
â Eu jĂĄ tinha pensado nisso quando fiz minha ironia, mas ele Ă© tĂŁo imaturo…
â Sinto que ele acredita que isso seja uma Provação… â murmurou Ewe com desprezo.
O esquema do Mil Truques que o grupo ouviu era tĂŁo engenhoso e ardiloso que nĂŁo era algo para se usar contra uma garota que acabara de completar dez anos. Se Ăclair estivesse apenas irritada com tudo isso, o evento poderia ser tratado com um riso e esquecido. Mas, como aparentemente ela estava de cama nos Ășltimos dias, ficava claro que o homem havia ido longe demais. Ark se encontrava em uma posição difĂcil. Ele descobriu que Ăclair estava tentando obter a RelĂquia por causa dele; ela queria presenteĂĄ-lo com a RelĂquia mais poderosa para que ele fosse elevado do segundo lugar e superasse o mestre do clĂŁ. Ark nĂŁo se lembrava de jamais ter pedido isso, Ă© claro, mas tinha certeza de que esse era o objetivo de Ăclair â ela era tĂŁo imatura quanto Krai Ă s vezes.
â Estou honrado em receber o favor de Lady Ăclair â começou Ark. â No entanto…
â Ela voou perto demais do sol â disse Van com uma expressĂŁo carrancuda, sua voz menos imponente do que o normal. â Ela enfrentou um oponente difĂcil. SĂł posso esperar que isso leve ao crescimento de Ăclair de alguma forma.
Apesar de ser um homem geralmente rigoroso e severo, Van Gladis tambĂ©m era um pai. Ele estava bastante preocupado com o isolamento repentino da filha. Era verdade que essa recente derrota havia ferido muito o orgulho da pobre Ăclair.
No entanto, o verdadeiro problema era que suas açÔes foram totalmente inĂșteis. Se Ăclair tivesse de fato conseguido uma vitĂłria contra o Mil Truques, esmagando-o espetacularmente e obtendo a RelĂquia, entĂŁo o quĂȘ? O item teria sido entregue a Ark, que teria que aceitĂĄ-lo com um sorriso. Mesmo que a RelĂquia realmente permitisse que ele liberasse todo o seu potencial e ganhasse ainda mais poder, isso nĂŁo significaria que Ark era melhor que Krai. Desde o inĂcio, ele jĂĄ tinha muito mais habilidade em combate do que Krai. A diferença entre os dois nĂŁo era uma questĂŁo de força bruta. Portanto, mesmo que Ark recebesse uma poderosa RelĂquia, isso faria pouca diferença para preencher essa lacuna.
Mas a pequena espadachim jĂĄ estava mentalmente fragilizada. Como a jovem nobre se sentiria se ouvisse essa verdade agora? Se bastassem palavras para animĂĄ-la, Ark as diria sem hesitar, mas Ăclair nĂŁo era do tipo que se deixava confortar com elogios vazios. Ele fez uma reclamação mental ao Mil Truques, que arrastou o homem da Casa Rodin para esse caos. Krai estava lidando com uma criança. Embora caçadores tivessem uma reputação a zelar, sem dĂșvida havia uma maneira melhor e mais pacĂfica de resolver essa situação. O plano astuto, que analisou com precisĂŁo a rede de contatos e a personalidade da garota, era tĂŁo elaborado que Ark se recusava a acreditar que o Krai de sempre faria algo assim.
O mais assustador era que Ark ainda nĂŁo fazia ideia do que Krai estava planejando. O Mil Truques nĂŁo era do tipo que simplesmente supunha a posição de um nobre, e um colecionador de RelĂquias honesto como ele nĂŁo desistiria de um leilĂŁo sem motivo algum. Enquanto Ark refletia pensativamente sobre suas opçÔes, o Conde Gladis lançou um olhar de desculpas incomum para alguĂ©m de sua posição.
â De qualquer forma, embora Ăclair tenha se isolado desde sua derrota no leilĂŁo, tenho certeza de que ela sairĂĄ do quarto agora que vocĂȘ estĂĄ aqui. Ela tem apreço por vocĂȘ, afinal â disse Van. â Me desculpe, mas poderia conversar com ela um pouco? Achei que nĂŁo seria certo chamĂĄ-lo sem avisĂĄ-la, mas tive sorte que vocĂȘ veio.
â EntĂŁo, irei atĂ© ela com prazer â respondeu Ark apĂłs um breve silĂȘncio.
Ele não podia contar ao conde que havia sido enviado por Krai. Isabella e o resto do grupo também trocaram olhares desconfortåveis.
Por que Krai nos enviou? Ark se perguntou. Seria para confortar Ăclair? SerĂĄ que Krai achava que tinha ido longe demais dessa vez? Ark tentou se lembrar da expressĂŁo de Krai no salĂŁo, mas o Mil Truques era um homem difĂcil de ler. Seu apelido nĂŁo era Ă toa, e ele mantinha uma poker face impecĂĄvel.
Queria que ele mostrasse suas habilidades de outra forma. Krai era tĂŁo diferente de Ark que isso estava se tornando um fardo grande demais para o homem da Casa Rodin suportar.
â Criar filhos Ă© mais difĂcil do que imaginei. NĂŁo pensei que ela se trancaria no quarto por causa de uma Ășnica derrota â admitiu Van, soltando um suspiro enquanto se inclinava para frente.
â Ela Ă© uma jovem forte. Tenho certeza de que logo se recuperarĂĄ â consolou Montaure, de pĂ© atrĂĄs dele.
O que Ark poderia dizer? Havia alguma maneira de recusar a RelĂquia? Em vez de apenas oferecer palavras, talvez dar uma aula de esgrima ajudasse a distraĂ-la, ele pensou. Justo quando tentava encontrar a melhor abordagem, um grito agudo cortou o ar.
Montaure imediatamente ficou em alerta, seus olhos percorrendo os arredores com atenção.
â O que foi isso?!
â Ark! Ă sua esquerda! â gritou Benetta, apontando para a entrada. Sendo uma Ladina, seus instintos eram mais afiados que os da maioria.
A mansão do nobre era fortemente vigiada, e a segurança contratada por Lorde Gladis era mais poderosa que a maioria dos caçadores. O grito que acabaram de ouvir era de um homem, e estava claro que ele estava em extremo sofrimento. Isso não era um assunto trivial.
â Eu vou na frente! â gritou Ark, avançando antes que Montaure pudesse dar qualquer instrução.
Ele escancarou a porta e disparou pelo amplo corredor e pelo tapete luxuoso junto com seus companheiros de equipe. Comparado aos cofres do tesouro que jå havia conquistado, a mansão era muito mais fåcil de navegar. As criadas que também ouviram os gritos congelaram no lugar enquanto Ark e seu grupo avançavam. Os gritos não paravam. Mais um, e outro, até que o som de vidro se estilhaçando ecoou por toda a mansão. Isabella e o restante do grupo expressaram sua preocupação enquanto corriam adiante.
â Por que estamos ouvindo gritos dentro da mansĂŁo do Lorde Gladis?!
â Talvez a Liz tenha tentado roubar o lugar.
â Se a Liz estivesse aqui, nĂŁo estarĂamos ouvindo gritos!
Eu sabia! Isso nĂŁo era apenas uma questĂŁo de consolar Lady Ăclair! â pensou Ark. Ele tentou entender a situação. Como o conde estava na sala de reuniĂ”es, provavelmente era melhor garantir a segurança de Ăclair primeiro. Como nada de anormal havia ocorrido atĂ© agora, Ark baixou a guarda, assumindo que havia chegado a tempo. NĂŁo, a verdadeira luta começa agora. Eu tenho minha arma, minha energia mĂĄgica e minhas poçÔes. Ele veio preparado e estava confiante de que poderia repelir atĂ© mesmo um dragĂŁo.
Benetta, que vinha liderando o caminho, parou de repente. De uma esquina, um guarda vestindo a armadura com o brasĂŁo da Casa Gladis voou para fora em uma velocidade impressionante, chocando-se contra uma parede. Eles se aproximaram do cavaleiro caĂdo. A armadura que protegia suas ĂĄreas vitais estava esmagada, e ele rolou para o chĂŁo sem se mover um mĂșsculo.
Num instante, Ark analisou os ataques do inimigo. O guarda havia sido derrubado, mas nĂŁo tinha ferimentos visĂveis, o que indicava que fora lançado para trĂĄs apenas pela força do golpe. Embora esses guardas fossem, em sua maioria, homens grandes vestindo armaduras, qualquer caçador veterano (incluindo Ark) poderia fazer o mesmo se tentasse. No entanto, esse nĂŁo era um mĂ©todo de combate preferidoâera incrivelmente ineficiente. Mesmo que um inimigo estivesse apenas com um porrete em mĂŁos, era muito mais eficaz atacĂĄ-lo de cima e abatĂȘ-lo com um Ășnico golpe do que jogĂĄ-lo para trĂĄs. E se ele nĂŁo tem nenhum corte ou ferida…
â Ele estĂĄ bem. Ainda estĂĄ vivo.
â Sim. â Ark concordou.
Levando em conta o tamanho da mansĂŁo, o alvo nĂŁo devia ser muito grande, e nĂŁo havia presença de algo colossal. Seria um levante? Uma tentativa de assassinato? SerĂĄ que um certo Ladino tentou se infiltrar na casa e roubar a RelĂquia de Ăclair? Mil possibilidades passaram pela mente de Ark, mas uma coisa era certa: era estranho que algo assim estivesse acontecendo na mansĂŁo do conde.
Isabella ergueu sua varinha, enquanto Armelle desembainhava sua espada. Os Braves, que jĂĄ haviam conquistado inĂșmeros cofres misteriosos, estavam sempre atentos ao que acontecia ao redor. Eles estavam em uma mansĂŁo nobre. Com o tempo, mais soldados se reuniriam naquela ĂĄrea. Mas se o inimigo estava atrĂĄs de Ăclair, nĂŁo havia um segundo a perder.
Ark murmurou um breve encantamento, fazendo relĂąmpagos envolverem seu braço esquerdo. A eletricidade arroxeada que percorria sua pele era pequena, mas poderosa o suficiente para derrubar um homem robustoâesse era o golpe caracterĂstico de Ark Rodin.
Uma pequena sombra surgiu lentamente na esquina do corredor, fazendo os Braves paralisarem de horror.
â Gh… N-NĂŁo me olhem assim… NĂŁo olhem pra mim desse jeito! NĂŁo temam. NĂŁo invejem… VocĂȘs sĂŁo fracos. Eu sei que sĂŁo mais fracos do que eu! Raaaaah!
Seu vestido branco puro estava em farrapos. A espada pendurada em sua cintura era uma lùmina pequena que seu pai comprara para ela em seu aniversårio. Seus cabelos dourados, normalmente bem alinhados, estavam completamente bagunçados, e ela cambaleava descalça.
Isabella empalideceu e deu um passo para trås. Ewe cobriu a boca com a mão, e até as bochechas de Benetta estremeceram enquanto ela ajustava sua postura. Diante deles estava a garota que Ark fora chamado para encontrar, mas que agora havia passado por uma transformação horrenda.
Uma massa de carne rosada envolvia e ocultava seu rosto. Buracos haviam sido perfurados para que seus olhos azuis e injetados de sangue pudessem espiar, e seu olhar fixo se cravou em Ark. A carne que grudava em suas bochechas se contorcia grotescamente, e uma rĂĄpida observação era suficiente para perceber que estavam diante de uma entidade aterrorizante. O horror sĂł aumentava Ă medida que ficava Ăłbvio que essa era Ăclair.

O pequeno corpo dela emanava um poder terrĂvel, que parecia distorcer o ar. Aquilo era completamente diferente da Ăclair que todos conheciam; uma aura gĂ©lida a envolvia. Ark optou por nĂŁo repreendĂȘ-la nem chamĂĄ-la.
â E-eu entendo â ele cuspiu. â VocĂȘ usou a mĂĄscara. NĂŁo precisa de uma espada. Eu… certamente nĂŁo esperava por isso.
â Ugh… â Ăclair gemeu, como se estivesse presa em um pesadelo. â A… A… Ark?
O que exatamente Krai estava tentando coletar aqui?! Ark jĂĄ tinha enfrentado inĂșmeros monstros estranhos e fantasmas no passado. Haviam plantas que caçavam humanos desavisados e aranhas colossais com mais de dez metros de altura. Ele jĂĄ havia enfrentado pequenos dragĂ”es que atacavam em bando com centenas de membros, alĂ©m de uma armadura vazia que se movia com a habilidade de um espadachim experiente. Mas nunca tinha visto nada como aquilo antes. Nem mesmo um caçador experiente como ele jĂĄ havia encontrado uma mĂĄscara capaz de tomar o controle do corpo de alguĂ©m.
O corpo de Ăclair permanecia quase inalterado. Pelo formato da silhueta, ela nĂŁo parecia diferente. E justamente por isso a mĂĄscara que cobria seu belo rosto parecia ainda mais horrenda.
â Urgh… Minha cabeça… Minha cabeça… â Ăclair gemeu, cambaleando e apoiando sua pequena mĂŁo na parede para tentar se equilibrar.
A estrutura rangeu e pequenas rachaduras se formaram onde ela tocou. A força que possuĂa ultrapassava em muito a de qualquer humano normal. Claro, Ark conseguiria fazer algo semelhante, mas a garotinha Ă sua frente nĂŁo era uma caçadora. Ăclair podia ter talento, mas isso sĂł a colocava acima das crianças da sua idade â ela nĂŁo deveria ter a tĂ©cnica, a força ou a energia mĂĄgica necessĂĄrias para derrubar um guarda treinado.
Ou pelo menos era o que eu pensava…, Ark murmurou internamente.
EntĂŁo o que era essa cena diante dele? Um dos guardas rolava no chĂŁo, um enorme amassado em sua armadura. Se Ăclair tivesse feito isso com um Ășnico soco ou chute, ela jĂĄ possuĂa força equivalente a um caçador de nĂvel mĂ©dio. Existiam algumas RelĂquias que aumentavam as capacidades fĂsicas do usuĂĄrio, mas Ark nunca tinha ouvido falar de um item que concedesse a uma garota tĂŁo jovem uma força explosiva.
NĂŁo havia ferimentos visĂveis em seu corpo. Somente o rosto dela havia se transformado, e nĂŁo havia sinais de que a mĂĄscara de carne estivesse se espalhando para o resto de seu corpo. Ark fechou o punho esquerdo, dissipando a eletricidade roxa que envolvia seu braço. Ele poderia se conter, mas nĂŁo queria usar um feitiço que poderia paralisar completamente um monstro ou um fantasma em Ăclair. NĂŁo podia lutar com tudo que tinha, como fazia normalmente em cofres de tesouro, destruindo a ĂĄrea com seus raios.
â Ela me chamou pelo nome… â ele murmurou. â Ela ainda mantĂ©m… consciĂȘncia?
Ele nĂŁo queria recorrer Ă violĂȘncia. Parecia que o corpo dela nĂŁo havia sido totalmente dominado, entĂŁo Ark sabia que precisava agir com cautela. SerĂĄ que eu posso remover essa mĂĄscara? Se for possĂvel, como devo fazer isso? Ăclair ainda carregava uma espada na cintura, mas nĂŁo a havia desembainhado â esse era o Ășnico motivo pelo qual os guardas espancados ainda estavam vivos. Ainda havia uma maneira de reverter aquela situação.
â Ark… Ah… Obrigada por… vir. Eu… â Ăclair murmurou, atordoada.
â Lady Ăclair, consegue me ouvir? â Ark perguntou.
O pequeno corpo dela cambaleou alguns passos em sua direção. Os companheiros de Ark lentamente se espalharam, prendendo a respiração para evitar provocar a garota e mantendo os olhos atentos a cada movimento.
â Ark… â Benetta sussurrou.
â Eu sei. â Ark assentiu.
A situação que eles precisavam evitar a todo custo era a mĂĄscara trocar de hospedeiro. Se ela tinha a capacidade de transformar uma inexperiente Ăclair em uma caçadora de nĂvel mĂ©dio, entĂŁo, se decidisse se prender a Ark ou a um dos Braves, isso os tornaria exponencialmente mais poderosos. Se Benetta ou Isabella fossem possuĂdas, ainda havia uma chance de detĂȘ-las, mas se Ark fosse a vĂtima, tudo estaria acabado. Provavelmente, poucas pessoas dentro da capital teriam poder suficiente para detĂȘ-lo.
Uma RelĂquia possuindo um humano parecia algo absurdo, mas o impossĂvel jĂĄ havia acontecido diante dos olhos deles. Ăclair nĂŁo respondeu Ă s palavras de Ark.
â Eu… sou forte. Fiquei forte. NĂŁo vou perder para ninguĂ©m… nunca mais. NĂŁo vou perder para caçadores, cavaleiros ou atĂ© para meu pai. Eu nunca… â ela murmurou, completamente descontrolada.
As palavras apaixonadas dela soavam mais como uma obsessĂŁo sombria. Ăclair sempre foi uma garota ambiciosa, mas nunca ansiou tĂŁo desesperadamente por poder. Pelo menos, ela nĂŁo era alguĂ©m que, por conta prĂłpria, escolheria usar uma mĂĄscara dessas. Para o bem ou para o mal, ela era uma garota honesta e determinada.
â Minha senhora?! â os guardas exclamaram em horror ao se aproximarem da confusĂŁo. â Por que vocĂȘ…
â Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! NĂŁo me olhem com esses olhos! â Ăclair rugiu, sua voz carregada de fĂșria e tristeza.
Ela se inclinou para frente, curvando as costas ao dar um passo e se impulsionar num piscar de olhos. Seu poder, velocidade, agilidade e instinto estavam muito além do que uma garotinha poderia alcançar apenas alguns dias atrås. A posição exagerada com que se lançou para frente era semelhante ao estilo de luta preferido por Espadachins agressivos. No entanto, suas mãos nunca tocaram a lùmina.
Os guardas congelaram em pĂąnico ao verem a dama que deveriam proteger investindo contra eles, e Ăclair usou essa hesitação para reduzir a distĂąncia num instante. Seus pequenos punhos atingiram seus plexos solares.
Cada soco carregava uma força aterrorizante. O som metålico de armaduras sendo esmagadas ecoou pelo ar enquanto os guardas eram arremessados para trås, a dor aguda dominando seus corpos.
Ăclair possuĂa uma espada prĂĄtica, o que era bastante incomum para uma nobre. Ela poderia usĂĄ-la para se defender, e sua lĂąmina era afiada o suficiente para cortar seus oponentes. Se seus punhos sozinhos eram capazes de destruir armaduras, sua espada sem dĂșvida teria partido aqueles guardas ao meio, armadura e tudo.
â Gaiola HipnĂłtica â Isabella entoou.
Ela aproveitou o momento em que Ăclair estava de costas e envolveu a garota em uma luz azul. Esse feitiço manipulava o estado mental da vĂtima e a forçava a dormir. Embora nĂŁo fosse eficaz contra monstros poderosos e fantasmas, certamente era mais do que suficiente para uma pessoa normal que mal havia absorvido qualquer material de mana. O corpo da jovem vacilou ao ser atingido diretamente pela luz. Mas logo firmou os pĂ©s no chĂŁoâela havia resistido ao feitiço.
Isabella ficou atĂŽnita. Tinha certeza de que seu feitiço deteria a garota descontrolada, mas Ăclair se virou sem sofrer nenhum dano notĂĄvel.
â E-eu tenho certeza de que a peguei desprevenida! â disse Isabella.
Feitiços psicoativos tinham mais chances de sucesso quando o alvo nĂŁo os esperava. Ăclair nĂŁo deveria ter resistĂȘncia a ataques desse tipo, mas o fato de nĂŁo ter sido afetada indicava que a mĂĄscara havia fortalecido seu estado mental e a tornado imune. Guardas surgiram atrĂĄs da jovem e ao lado de Ark, lançando-lhe inĂșmeros olhares. Ela deu um passo Ă frente. A mĂĄscara escondia boa parte de seu rosto, mas seu tom de voz expressava seu estado mental.
â NĂŁo! Por quĂȘ?! Por quĂȘ?! NĂŁo… olhem para mim! â ela gritou. â Ugh… Eu… vou matar vocĂȘs! Vou matar todos vocĂȘs!
Seu grito estridente era familiar, mas suas palavras nĂŁo condiziam com seu eu habitual. Os guardas que a cercavam trocaram olhares confusos. Os soldados contratados e treinados pela Casa Gladis eram guerreiros genuĂnos. Todos eram fortes, mas conheciam Ăclair muito bem. Alguns atĂ© treinavam com ela diariamente. Ela ainda nĂŁo havia atingido todo o seu potencial, mas nunca pulava seus treinos diĂĄrios, e sua honestidade era algo que os outros admiravam. Ela nunca desdenhava nem zombava de seus guardas.
â Aqueles que me zombaram e humilharam… â Ăclair rosnou.
Ela arranhou violentamente a mĂĄscara de carne que envolvia seu rosto, mas nenhum sangue escorreu daquele pedaço pulsante de carne, e nĂŁo havia qualquer sinal de que se desprenderia da jovem. Isso nĂŁo era bom. Ăclair parecia claramente mais agitada do que alguns momentos atrĂĄs, e os guardas que haviam chegado começaram a se afastar da garota monstruosa com a mĂĄscara. ConfusĂŁo e medo rapidamente se espalharam pelo local.
â Afastem-se, todos! â Ark gritou, avançando. â Eu vou negociar com ela.
Armelle, que estava ao seu lado e pronta para lutar, ergueu a voz.
â Entendido. VocĂȘs ouviram! Todos, afastem-se!
As visitas frequentes de Ark Ă mansĂŁo jogaram a seu favor. Os guardas que cercavam Ăclair pareceram visivelmente aliviados ao se afastarem. As pequenas mĂŁos que arranhavam violentamente a mĂĄscara pararam, e Ark aproveitou a oportunidade para se aproximar lentamente.
Ele nĂŁo tinha certeza dos efeitos da mĂĄscara, mas quase podia garantir que era um artefato psicoativo que mexia com a mente do usuĂĄrio. Ainda assim, Ăclair segurava um fiapo de sanidade, e, julgando por suas reaçÔes anteriores Ă s mudanças na situação, a RelĂquia parecia lhe conceder poder em troca de intensificar certas emoçÔes. Ela ainda estava instĂĄvel, mas, se restasse um mĂnimo de razĂŁo nela, ainda havia espaço para negociação. Se conseguisse acalmĂĄ-la, talvez houvesse outro meio de desescalar a situação.
Se houvesse um confronto entre a Ăclair atual e os guardas, certamente haveria mortes. E isso era algo que Ark queria evitar a todo custo. Ele abriu os braços, mostrando que nĂŁo representava ameaça, e falou com ela.
â Lady Ăclair, por favor, acalme-se.
â Hrgh… Ugh… Ark… â Ăclair gemeu.
Ele respirou fundo e sorriu, esperando que isso acalmasse sua mente. A jovem deu um passo, depois outro, em direção a Ark, seus movimentos sem qualquer hostilidade. Para ele, ela parecia uma criança perdida.
â Eu consegui. Eu venci… â murmurou Ăclair.
â Conseguiu â Ark concordou.
â E agora… enquanto vocĂȘ tiver este item, pode se tornar o mais forte, Ark. Foi para isso que fiz tudo isso. Lutei unicamente por esse motivo. EntĂŁo, por quĂȘ… â Suas palavras foram lançadas contra ele, mas pareciam mais um lembrete para si mesma sobre por que estava fazendo tudo aquilo. Seu tom carregado de tristeza transbordava arrependimento.
â Muito obrigado, Lady Ăclair.
Ele expressou sua gratidĂŁo com cuidado. Os mĂ©todos de Ăclair estavam errados. Poder e vitĂłria nĂŁo podiam simplesmente ser entregues por outra pessoaâeles tinham que ser conquistados com as prĂłprias mĂŁos. Lorde Gladis provavelmente compartilhava dessa opiniĂŁo, e Ăclair normalmente tambĂ©m entenderia a importĂąncia disso. Ela havia sido arrastada por suas emoçÔes e iludida pelos rumores que cercavam o item, o que a levou a agir impulsivamente. No entanto, sua voz claramente carregava arrependimento. Ela nĂŁo queria o poder da mĂĄscara. Quando enfrentou os guardas, nĂŁo desembainhou sua espada, provavelmente porque evitou fazer isso instintivamente.
Se esse fosse o caso, ainda deveria haver um jeito de remover a mĂĄscara. O item em seu rosto era uma RelĂquia e exigia mana para ser ativado. Mesmo que nĂŁo pudesse ser removido agora, havia uma boa chance de que se desativasse por conta prĂłpria com o tempo. Ark tambĂ©m poderia consultar os Mil Truques, que o haviam metido nessa confusĂŁo. Era Ăłbvio que Krai merecia ser duramente repreendido por suas açÔes, mas, mesmo assim, isso era simplesmente demais. Como alguĂ©m poderia fazer isso com uma nobre? Se Ark nĂŁo conseguisse resolver esse problema sozinho, estava determinado a arrancar a solução dos Mil Truques Ă força.
Ark abaixou lentamente o braço direito, estendendo a mĂŁo para Ăclair.
â Posso segurar sua mĂŁo?
Um longo silĂȘncio se seguiu. Os olhos arregalados por trĂĄs da mĂĄscara de carne encararam Ark por um tempo antes que ela, silenciosamente, erguesse sua pequena e trĂȘmula mĂŁo.
â A… A… â a garota começou.
Os Bravos observavam com a respiração suspensa, enquanto dedos trĂȘmulos roçavam as bochechas dela. Ă primeira vista, parecia que a mĂĄscara havia se fundido ao rosto de Ăclair, mas, olhando mais de perto, havia uma separação nĂtida entre os dois. Se Ark nĂŁo tivesse chegado a tempo e Ăclair tivesse usado a mĂĄscara por mais alguns instantes, serĂĄ que ela teria se fundido completamente ao rosto dela? Logicamente, isso nĂŁo parecia possĂvel, mas ao se lembrar de sua interação na sede do clĂŁ, ele nĂŁo pĂŽde evitar um calafrio. Se, por algum motivo, Ark nĂŁo tivesse acreditado nas palavras do mestre do clĂŁ e, por isso, nĂŁo tivesse visitado a mansĂŁo, inĂșmeras pessoas poderiam ter morrido. Um soldado como o Conde Gladis poderia ter escolhido matar a prĂłpria filha para proteger todos os outros. AtĂ© onde iam as previsĂ”es de Krai? Ele realmente previu essa situação?
Ark sabia que Krai nĂŁo era um homem maligno. No entanto, essa situação fez o herdeiro da Casa Rodin reconsiderar seus pensamentos. Talvez ele tivesse sido ingĂȘnuo demais. No momento em que Ăclair tocou a mĂĄscara, ela congelou no lugar.
â O que houve, Lady Ăclair? â Ark perguntou.
O ar ficou tenso por um momento enquanto a garota permanecia em silĂȘncio. Ela nĂŁo estava olhando para Arkâseu olhar azul e arregalado estava fixo em sua cintura, onde ele carregava sua espada branca. Historia era uma arma que simbolizava a Casa Rodin; uma espada sagrada que esmagava o mal. Era uma lĂąmina tĂŁo poderosa que Ăclair implorava para vĂȘ-la com os prĂłprios olhos toda vez que Ark visitava a mansĂŁo. Historia possuĂa poder suficiente para partir uma montanha ao meio com um Ășnico golpe e era considerada uma das melhores RelĂquias do tipo lĂąmina. Ark nĂŁo tinha intenção de usar sua espada contra Ăclair, e sequer lembrava que ela estava presa Ă sua cintura atĂ© agora. Os olhos da jovem mudaram completamente, e as palavras do Mil Truques ecoaram na mente de Ark.
â Na verdade, talvez fosse melhor se vocĂȘ nĂŁo carregasse nada consigo.
â A… Agh… Ahhh… Por quĂȘ?! â Ăclair gritou, sua voz carregada de desespero.
Houve um brilho de aço frio. Ark conseguiu recuar a tempo e esquivar do golpe furioso por um triz. Ăclair saltou para trĂĄs com agilidade, agarrando sua espada, que mantinha embainhada contra os guardas. LĂĄgrimas de sangue escorriam dos olhos da mĂĄscara enquanto gritos ecoavam pelo salĂŁo.
â Por quĂȘ?! Ark, por que vocĂȘ estĂĄ com essa espada?! â Ăclair gritou.
O sorriso de Ark desapareceu, e ele encarou a jovem com seriedade enquanto ela se preparava para a batalha.
***
â Nossa, eu nunca pensei que aquele pedaço de lixo perigoso fosse transformar alguĂ©m num centimilionĂĄrio! â Eigh exclamou.
â O povo de Zebrudia Ă© mais do que generoso â um Espadachim riu alto em resposta.
Arnold e o resto do seu grupo estavam em uma taverna, um anexo de uma pousada cara dentro da capital. Diante de um saco de couro abarrotado com duzentos milhĂ”es de gild, celebravam sua nova fortuna. Para um caçador de nĂvel 7 como Arnold, essa quantia nĂŁo era pouca coisa. Para conseguir esse dinheiro, eles teriam que encontrar um cofre de alto nĂvel ou caçar monstros lucrativos e eliminar vĂĄrios deles. Mesmo assim, haveria gastos necessĂĄrios, e raramente conseguiriam duzentos milhĂ”es de gild em lucro lĂquido.
Com esse dinheiro, poderiam comprar armas e armaduras excelentes. Poderiam adquirir RelĂquias valiosas que os salvariam de enrascadas. Festins luxuosos e bebidas deliciosas ajudariam a elevar o moral, e atĂ© poderiam comprar uma casa para usar como base. O NĂ©voa CaĂda havia acabado de concluir uma longa jornada e estava sem dinheiroâo preço exorbitante colocado na mĂĄscara de carne foi um raio caĂdo do cĂ©u, mas um muito bem-vindo.
â Fiquei chocado quando ouvi que o Mil Truques estava se metendo nisso. Ele Ă© um mensageiro da sorte.
â E vocĂȘ mesmo Ă© um cara de sorte, Arnold.
â NĂŁo deixem isso subir Ă cabeça â Arnold disse, repreendendo seus subordinados com leveza. â Ainda nĂŁo conhecemos bem esta capital.
Os subordinados podiam estar se gabando um pouco demais, mas quem poderia culpå-los? Ninguém em Nebulanubes queria tocar naquela måscara, então Arnold a colocou em leilão por capricho. Desde então, as coisas tinham corrido perfeitamente. Ele ficou surpreso quando o Mil Truques ofereceu comprar o item, mas o preço havia inflacionado tanto que parecia um sonho. Arnold inicialmente planejava vender o item por uma ninharia; jamais imaginou que ele se tornaria algo valendo duzentos milhÔes de gild.
â Como estavam falando tanto sobre isso, achei que ia render um pouco mais â um deles confessou. â Acho que a entrada de um nobre acabou jogando contra nĂłs.
â A gente praticamente teria pago alguĂ©m para se livrar dessa RelĂquia, mas, no fim, embolsamos duzentos milhĂ”es â Arnold respondeu. â Isso jĂĄ Ă© mais do que suficiente.
â Bom, nisso vocĂȘ tem razĂŁo…
De fato, era um pouco decepcionante que o preço tivesse parado nos duzentos milhÔes, mas não era såbio ser ganancioso demais.
Arnold sorriu e brincou:
â Heh heh. AlĂ©m disso, se fizermos dinheiro demais, terĂamos que pagar um chope para o Mil Truques, nĂŁo acham?
â Hahaha! Eu nĂŁo duvido!
Fazia tempo que Arnold não ficava de tão bom humor. O Mil Truques devia estar rangendo os dentes com esse desfecho inesperado. Isso era suficiente para satisfazer Arnold por enquanto. Ele não conseguiu sua vingança completa, mas poderia deixar isso de lado por ora. Depois de saciarem a fome e a sede, conferiram os fundos e viram que mal tinham feito cócegas na fortuna de moedas de prata que tinham acumulado. Poderiam relaxar e não fazer nada por um tempo, mas Arnold não veio para a capital para ficar à toa.
â Esses duzentos milhĂ”es de gild vĂŁo apenas nos dar uma ajudinha â Arnold rosnou. â Vamos nos preparar para nosso prĂłximo cofre do tesouro.
â O quĂȘ?! SĂ©rio?!
Seu grupo protestou com vaias. Duzentos milhĂ”es de gild era muito dinheiro, mas desapareceria num piscar de olhos se precisassem comprar o equipamento necessĂĄrio. No entanto, esse gasto valeria cada centavo se garantisse que voltassem vivos. A riqueza para caçadores de tesouros era sempre passageira. Arnold viu os olhares crĂticos de sua equipe e sorriu de canto.
â Claro, vamos descansar um pouco antes â ele disse.
Seus companheiros vibraram com entusiasmo. Era fundamental que todos estivessem com o espĂrito elevado para progredirem nas exploraçÔes. Com seus planos futuros para a capital em mente, Arnold assentiu, satisfeito.
à medida que a noite avançava, Arnold arrastava seus companheiros de equipe exaustos enquanto eles retornavam animadamente para a porta de seu quarto.
â Tch, vocĂȘs beberam demais â reclamou Arnold.
â Acho que nĂŁo tinha como evitar. Temos tido um azar danado ultimamente… â respondeu um dos membros do grupo.
Embora fosse importante manter o moral do grupo, era raro que estivessem tĂŁo bĂȘbados a ponto de mal conseguirem ficar de pĂ©. Arnold abriu a porta do quarto com cansaço, quando um grande objeto saltou sobre ele. Ele arfou e instintivamente cerrou os punhos, revidando contra seu agressor. Seu punho acertou algo duro. Arnold imediatamente mudou de postura, segurou sua arma nas costas e avançou para dentro.
Como haviam acabado de ganhar uma boa quantia em dinheiro, ele estava em alerta. Qualquer um poderia facilmente verificar a lista de vendedores e encontrar o nome de Arnold ao lado da mĂĄscara. Mas ele achava que seus medos eram infundados; nĂŁo esperava que alguĂ©m fosse tĂŁo idiota a ponto de tentar roubar um caçador de NĂvel 7.
O quarto estava todo iluminado, revelando a entrada, a sala de estar, a årea de reuniÔes, pinturas e plantas ornamentais. Próximo à mesa onde Arnold e sua equipe haviam se reunido antes de sair para explorar, estava seu agressor, sentado de maneira desleixada no lugar onde Arnold costumava se sentar. O invasor cruzou as pernas com arrogùncia, e Arnold percebeu que o vaso decorativo da sala havia sido arremessado contra ele assim que entrou. Ele reconhecia aquele cabelo loiro-morango amarrado de sua agressora, que agora se virou para encarar Arnold e seus companheiros, com uma måscara esquelética cobrindo o rosto. Arnold congelou, sem esperar encontrå-la ali, mas a intrusa não se preocupou em esconder sua identidade ao falar com arrogùncia.
â Droga, seus inĂșteis estĂŁo atrasados! Desde quando vocĂȘs, desgraçados, ficaram tĂŁo cheios de si pra me fazer esperar? Hmm? Anda, fala! Eu sou a grande Liz, droga! E eu tenho coisas mais importantes pra fazer do que perder tempo com vocĂȘs, idiotas! Eu vou acabar com vocĂȘs!
â O que… isso significa? â perguntou Arnold, instintivamente apontando sua espada colossal para ela, enquanto tentava suprimir sua raiva. A voz dela apenas lhe trazia lembranças detestĂĄveis.
Os outros membros, mesmo bĂȘbados e cambaleando, conseguiram agarrar suas armas tambĂ©m. Arnold havia trancado o quarto. Outra pessoa com uma mĂĄscara de caveira estava sentada ao lado de Liz, com as mĂŁos Ă frente, e o repreendeu.
â Por favor, acalme-se, Arnold â disse ela. â NĂŁo estamos aqui para lutar. NĂŁo nos entenda mal. Estamos aqui apenas para falar sobre a nossa parte do dinheiro.
Arnold e seu grupo estavam prontos para atacar a qualquer momento, analisando as duas mulheres mascaradas. Embora houvesse um motivo esquelético nas måscaras, o design predominantemente negro obscurecia completamente suas expressÔes, até mesmo seus olhares. Nenhuma pessoa normal usaria uma måscara assim, e parecia mais algo apropriado para um sindicato de magia ou um culto. Elas realmente queriam esconder suas identidades?
A dupla sentada não demonstrava qualquer medo. A Sombra Partida tinha jogado os pés sobre a mesa com arrogùncia, como se fosse a dona do lugar. A Ignóbil soava educada, mas não havia um pingo de ansiedade nela. Elas deveriam estar em território inimigo, mas suas açÔes eram audaciosas demais.
â V-VocĂȘs sĂŁo um grupo fantasma?! â gritou Eigh, sua voz subindo uma oitava.
â O que vocĂȘ quer dizer com “sua parte”? â perguntou Arnold.
Atualmente, não havia rumores sobre as Grieving Souls serem um grupo fantasma, mas a dupla infiltrada parecia muito acostumada com esse tipo de situação. Claramente, essa não era a primeira vez delas. Serå que elas eliminavam qualquer testemunha? Ou serå que os Grievers tinham uma reputação que fazia os outros fecharem os olhos para certas atitudes? De qualquer forma, isso era um método bem desagradåvel de agir.
Se Arnold estivesse lidando com alguns bandidos, resolveria o problema rapidamente, mas estava enfrentando caçadores que haviam absorvido material de mana, assim como ele. E seu grupo inteiro estava bastante embriagado. Ainda podiam lutar, mas não estavam em sua melhor forma.
Sitri falou calmamente, como se tivesse lido seus pensamentos e quisesse tranquilizĂĄ-lo.
â Por favor, nĂŁo fiquem tĂŁo na defensiva. Nosso lĂder deseja resolver isso pacificamente. E este nĂŁo serĂĄ um mau negĂłcio para a NĂ©voa CaĂda.
â Siddy, vocĂȘ estĂĄ sendo boazinha demais â disse Liz. â Eles nos atrasaram e estĂŁo nos causando problemas. Tem que fazer isso do jeito certo.
Ela bateu uma das pernas na mesa e encarou Arnold atravĂ©s da mĂĄscara. Sua aura era semelhante Ă de um espectro enquanto exalava uma intenção assassina. Arnold e seu grupo jĂĄ haviam derrotado grupos fantasmas no passado, mas o olhar afiado dela era diferente de qualquer coisa que ele jĂĄ tivesse experimentado. A habilidade de combate dela provavelmente era equivalente Ă de Arnold, um caçador certificado de NĂvel 7. Seu equipamento era focado em empunhar sua espada colossal, priorizando poder em vez de agilidade. Ele era um oponente ruim para Liz. Tino havia demonstrado vestĂgios de talento, mas a mulher Ă sua frente era a forma aperfeiçoada disso.
Enquanto o ambiente permanecia tenso, pronto para explodir a qualquer momento, Sitri fez uma expressĂŁo preocupada e cutucou o ombro de Liz. A Sombra Partida estalou a lĂngua e tirou os pĂ©s da mesa. Elas nĂŁo estavam ali para lutar.
Enquanto a NĂ©voa CaĂda continuava de pĂ©, Sitri suspirou levemente e disse:
â Estamos falando do leilĂŁo. Arnold, o preço da sua RelĂquia disparou por causa dos planos do Krai. Temos o direito de reivindicar uma parte dos seus lucros.
â Isso estĂĄ fora de questĂŁo. Embora seja verdade que eu nĂŁo esperava que o preço fosse tĂŁo alto, vocĂȘs nĂŁo tĂȘm crĂ©dito nisso. NĂłs fomos os responsĂĄveis por trazer a RelĂquia. Isso Ă© apenas um resultado das açÔes impensadas do seu lĂder â refutou Arnold.
â Krai nĂŁo deu um Ășnico lance naquela mĂĄscara. VocĂȘ pode verificar isso por conta prĂłpria.
â O quĂȘ? â perguntou Eigh, perplexo.
A mĂĄscara ocultava sua expressĂŁo, mas Sitri parecia estar rindo.
â Os mercadores, nobres e caçadores estavam todos sendo manipulados pelos rumores que Krai espalhou. VocĂȘs nĂŁo perceberam isso, nĂŁo Ă©?
Arnold nĂŁo havia notado. Isso era verdade. Quando Krai chegou para negociar, ele nĂŁo parecia estar mentindo nem um pouco. Suas expressĂ”es, sua voz, seus pequenos movimentos e atĂ© a surpresa que demonstrou quando o nobre apareceu pareciam genuĂnos. Arnold mal podia acreditar no que ouvia enquanto encarava a dupla mascarada Ă sua frente. SerĂĄ que Krai estava blefando o tempo todo? SerĂĄ que o Mil Truques era muito mais astuto do que ele imaginava?
â Que idiotice â conseguiu murmurar Arnold. â Por que eleâ
â Isso Ă© um segredo â interrompeu Sitri. â Mas aposto que vocĂȘ pensou algo como âNĂŁo acredito que essa RelĂquia que ninguĂ©m queria passou a valer mais de cem milhĂ”es de gild. SĂł pode ser um sonho.â Estou errada?
Arnold se lembrou da conversa que teve na taverna. NĂŁo podia negar que pensara exatamente isso. Aquela RelĂquia parecia horrĂvel e nĂŁo podia ser avaliada. O bom senso dizia que um item assim jamais seria vendido por duzentos milhĂ”es de gild. Se tudo isso fosse resultado de manipulação, nĂŁo podia evitar concordar.
â Graças a vocĂȘ, tambĂ©m cumprimos nossos objetivos. Temos que lhe agradecer â disse Sitri, inclinando levemente a cabeça antes de continuar. â No entanto, mesmo sem ter ciĂȘncia disso, vocĂȘ obteve um lucro muito maior do que esperava. Como caçadores, nĂŁo podemos permitir que pense que saĂmos perdendo nessa. Ă disso que se trata nossa parte.
A voz dela era calma, mas a pressão que exalava era avassaladora. Falava com confiança, como se estivesse simplesmente afirmando uma verdade, mas Arnold não podia aceitar esse acordo. Mesmo que Sitri estivesse certa sobre o plano dos Mil Truques, não havia motivo para que ele lhes pagasse. Mas recusar essa negociação diretamente era arriscado.
Por um instante, ponderou suas chances, calculando os prós e contras de cada situação. Os verdadeiros perdedores do leilão foram os nobres. Se descobrissem que Arnold estava envolvido na manipulação do preço do item, as coisas poderiam se complicar rapidamente.
Mesmo que insistisse que não sabia de nada, fazer inimigos entre os nobres afetaria seus planos futuros. Esse acordo claramente era ilegal, mas lidar com caçadores habilidosos o bastante para manipular informaçÔes e transformar lixo em uma fortuna não era algo simples. Tinha aliados na Terra das Névoas, mas poucos dentro da capital.
â EstĂŁo tentando me chantagear? â perguntou Arnold.
â Nossa, jĂĄ dissemos que isso Ă© sĂł uma negociação â respondeu Liz. â AlĂ©m disso, essa capital Ă© o nosso territĂłrio, nĂ©? Hmm? Vai, pensa bem. VocĂȘ nos fez servir bebida, nos deixou esperando uma eternidade, e sĂł estamos pedindo duzentos milhĂ”es de gild em troca. Ă o seu dia de sorte, viu! Ou entĂŁo, eu te mato.
Duzentos milhĂ”es? Foi isso que ela disse? Arnold pensou. Aquilo nĂŁo era uma âparteâ dos lucros, era tudo o que tinham. Como havia uma taxa de processamento ao submeter um item ao leilĂŁo, a Queda da NĂ©voa ficaria no prejuĂzo. NĂŁo havia como aceitar um acordo tĂŁo injusto. Seus companheiros, pĂĄlidos, começaram a encarar os dois intrusos. Era Ăłbvio que nĂŁo aceitariam aquela negociação.
Arnold era um caçador de nĂvel 7 e liderava um grupo de oito pessoas. Estavam sendo subestimados. Se simplesmente pagasse, estaria acabado como caçador. Seu grupo desmoronaria. A negociação falhou; Arnold e o restante da Queda da NĂ©voa se prepararam para o combate. No momento em que ele apertou o cabo da espada, Sitri se manifestou.
â Fique quieta, Liz! â repreendeu, suspirando. â NĂŁo podemos pegar todo o lucro deles! Isso nĂŁo seria uma parte, seria tudo! AlĂ©m disso, a taxa de processamento colocaria Arnold no prejuĂzo. Precisamos negociar direito!
â Hein? EntĂŁo Ă© sĂł matar todo mundo e pegar o dinheiro â respondeu Liz. â JĂĄ que sĂŁo caçadores, vale tudo. NĂŁo estamos infringindo regra nenhuma.
As duas começaram a discutir na frente de oito caçadores prontos para lutar. Eram malucas? Ou estavam apenas confiantes demais em suas habilidades?
Depois de repreender Liz, Sitri colocou um pequeno frasco sobre a mesa. Um lĂquido dourado translĂșcido chacoalhava dentro.
â Estamos pedindo 110 milhĂ”es de gild â disse Sitri. â Essa Ă© a parte que queremos, e nosso lĂder tambĂ©m.
Isso significava que Arnold ainda ficaria com noventa milhÔes. Ainda era um valor alto, mas muito mais aceitåvel do que o que Liz havia exigido. Os membros da Queda da Névoa trocaram olhares.
â Aposto que vocĂȘs nĂŁo esperavam que o item passasse dos cem milhĂ”es, nĂŁo Ă©? â continuou Sitri. â E vocĂȘs estĂŁo exatamente certos. VĂŁo ficar com noventa milhĂ”es, e nĂłs levamos 110 milhĂ”es de gild. Mantemos nossa reputação, e vocĂȘs ainda saem no lucro. O que me dizem?
Era uma proposta brilhante. Noventa milhĂ”es era menos da metade do lucro total, mas ainda assim, era muito mais do que Arnold esperava conseguir com a RelĂquia. Cento e dez milhĂ”es era a maior parte, mas nĂŁo tanto a ponto de obrigar a Queda da NĂ©voa a lutar atĂ© a morte por isso.
E se isso permitisse evitar um confronto com um grupo de nĂvel 8, o preço era ridiculamente baixo. AlĂ©m disso, Sitri e Liz tinham um argumento sĂłlido; Arnold nĂŁo podia negar que havia alguma tramĂłia por trĂĄs daquele leilĂŁo.
Ele nĂŁo se importaria em aceitar, mas o jeito descontraĂdo e casual das duas o incomodava. Arnold era um caçador de nĂvel 7, e estava claro que estavam subestimando ele. Seus companheiros estavam prontos para fugir, mas isso sĂł tornava ainda mais evidente que ele precisava manter sua postura como lĂder.
Mas havia uma falha fatal na lĂłgica de Sitri que Arnold nĂŁo podia ignorar.
â Se transferirmos esse dinheiro para vocĂȘs, isso sĂł levantaria suspeitas e questionamentos â disse Arnold, bufando e encarando a Alquimista. â O que vĂŁo fazer quanto a isso?
Ele nĂŁo sabia exatamente o quanto os Grievers influenciavam a capital, mas certamente nĂŁo estavam no controle total de Zebrudia. O Mil Truques tambĂ©m teria problemas se rumores de um esquema de manipulação se espalhassem. Enquanto Arnold e seu grupo poderiam simplesmente sair da cidade se necessĂĄrio, os Grievers nĂŁo tinham essa opçãoâessa era a terra natal deles.
Sitri ergueu o pequeno frasco que trouxera e o balançou com um sorriso.
â Por isso, estou vendendo esta poção para vocĂȘs por 110 milhĂ”es â disse ela. â Ă um antĂdoto. Bem potente, o suficiente para todo o seu grupo. NĂŁo me importo de esperar um tempo, viu? Na verdade, foi bem conveniente que todos vocĂȘs tenham bebido tanto. O ĂĄlcool estava bom? NĂŁo entendo muito do assunto, mas, como Alquimista, parece que o grupo de vocĂȘs nĂŁo tem muita resistĂȘncia. VocĂȘ pode atĂ© estar bem, Arnold, mas pode dizer o mesmo dos seus companheiros?
Ela envenenou a bebida? Arnold pensou, sentindo o sangue sumir de seu rosto. Até Eigh, sempre calmo, parecia pålido.
NĂŁo sentia dor alguma, mas agora que pensava, seu grupo realmente ficou bĂȘbado rĂĄpido demais. Como estavam hospedados em um lugar caro, era improvĂĄvel que os funcionĂĄrios tivessem sido subornados, mas as duas tinham conseguido invadir seu quarto.
De repente, Sitri, que parecia a mais sensata das duas, parecia muito mais assustadora do que Liz.
A IgnĂłbil sorriu e pressionou Arnold a decidir.
â E entĂŁo? O que vale mais? Seus amigos ou o dinheiro?
Tradução: Carpeado
Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â Clicando Aqui
Tradução feita por fãs.
Apoie o autor comprando a obra original.
Compartilhe nas Redes Sociais
Publicar comentĂĄrio