Grieving Soul – Capítulo 4 – Volume 3

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 03

CapĂ­tulo 4:
[O LeilĂŁo e a RelĂ­quia]


— Eu realmente me sinto mal por fazer isso, Sitri, mesmo depois de termos acabado de falar sobre pagar minha dívida.

— Ah, por favor, nĂŁo se sinta mal com isso. É assim que fazemos as coisas, nĂŁo Ă©?

Sitri abriu um largo sorriso enquanto sua amiga prĂłxima exibia uma expressĂŁo de desculpas.

De fato, Sitri estava um pouco sem dinheiro no momento. Ela vinha produzindo uma quantidade massiva de poçÔes para serem usadas ao carregar Relíquias e as vendia a preços baixíssimos. Além disso, ela havia gastado uma quantia consideråvel na fabricação de marionetes de metal para sua irmã mais velha treinar.

Inicialmente, Sitri começou a acumular dinheiro para aumentar suas opçÔes e ampliar suas escolhas disponíveis. Ela normalmente diversificava seus recursos para poder fugir a qualquer momento, se necessårio. Mas, por conta disso, ela não podia simplesmente reunir uma grande soma de dinheiro líquido de uma hora para outra.

Eva a procurou para pedir que ela parasse de lhe conceder emprĂ©stimos e para discutir planos de pagamento, mas Sitri nĂŁo estava particularmente preocupada com isso. Na verdade, esses “emprĂ©stimos” nĂŁo vinham com juros nem prazos—ela nem se importava se seriam pagos de volta. Quanto a se casar com ele… bem, ela nĂŁo precisava pensar muito para chegar a uma conclusĂŁo.

No entanto, Sitri adotou como polĂ­tica apoiar Krai com emprĂ©stimos sempre que pudesse. Claro, seu carinho por Krai desempenhava um papel nisso, mas era difĂ­cil imaginar que um “amigo prĂłximo” seu, que ganhava bem como caçador, pegaria dinheiro emprestado apenas para esbanjar.

Considerando seu hobby de acumular RelĂ­quias e que essas RelĂ­quias se mostravam Ășteis nas expediçÔes dos Grieving Souls ocasionalmente, ela nĂŁo via razĂŁo para impedi-lo. No entanto, mesmo que seu hobby fosse apenas um luxo puro em vez de colecionar RelĂ­quias, ela provavelmente nĂŁo o impediria tambĂ©m.

Sitri estava do lado de Krai, sem sombra de dĂșvidas. Assim como Krai, que sempre esteve, ainda estava e sempre estaria ao lado dela nos momentos bons e ruins, ela estava pronta para enfrentar o inferno e a alta ĂĄgua por seu amigo prĂłximo.

O amor Ă© cego.

***

Tendo recebido a notícia de Matthis de que ele havia feito contato com o dono da Face Reversível, segui para o local da negociação.

Ao meu lado, eu tinha Sitri como minha escolta. Ela não demonstrou o menor sinal de relutùncia quando pedi um empréstimo, apesar do que havia prometido hå pouco tempo.

Sitri entrelaçou seu braço no meu de maneira suave e råpida, explicando com um sorriso:

— NĂŁo se preocupe. Poderemos financiar isso decentemente se eu liquidar alguns dos meus materiais e poçÔes em reserva. Embora a pesquisa possa ter que ser levemente adiada.

— Sinto muito. Não fique brava comigo, ok?

— VocĂȘ nĂŁo precisa se preocupar com nada. Se o pior acontecer, poderĂ­amos pegar um emprĂ©stimo no banco, embora eu prefira nĂŁo fazer isso. NĂłs, Alquimistas, temos uma vantagem imensa quando se trata de conseguir um emprĂ©stimo…

— …

— Minha irmĂŁ vai ajudar tambĂ©m, entĂŁo nĂŁo se preocupe. É uma RelĂ­quia absolutamente necessĂĄria, certo? Eu a conseguirei para vocĂȘ de qualquer maneira.

— É… uh-huh…

— Vamos… nos colocar em segundo plano. Para ser honesta, eu nĂŁo quero muito, mas vamos nos colocar em segundo plano — disse Sitri com uma determinação sombria, cerrando o punho.

Eu me senti muito culpado.

Liz disse que poderia ser complicado para Sitri, e de fato, a situação financeira dela parecia muito pior do que eu imaginava. Naturalmente, eu não poderia simplesmente fazer Sitri passar por dificuldades por minha causa. Tentei retirar meu pedido, mas jå era tarde demais.

Sitri tinha o péssimo håbito de me priorizar acima dela mesma, não apenas hoje. Provavelmente era pelo mesmo motivo que Liz não se opÎs fortemente ao meu pedido de dinheiro emprestado. Era totalmente culpa do meu carisma fazer com que os membros do meu clã rejeitassem todos os meus pedidos de empréstimo.

— Mas, primeiro precisamos determinar o valor necessĂĄrio… Vamos lidar com o caçador que possui a RelĂ­quia quando for necessĂĄrio. Negociação Ă© meu ponto forte, afinal — continuou Sitri com um sorriso aparentemente alegre.

Aquele era um sorriso aterrorizante.

Nunca antes eu havia odiado tanto minha incapacidade de ver através das emoçÔes que ela escondia.

Mas… o que ela quer dizer com “lidar” com ele…? Eu preferiria resolver isso pacificamente, se possĂ­vel.

Liz tinha se aventurado em um cofre do tesouro para me ajudar a arrecadar dinheiro e parecia que ela ainda faria mais visitas a cofres depois. Nunca ouvi falar de alguĂ©m fazendo “vault-hopping”, mas nĂŁo tive a chance de impedi-la.

Eu acumulei uma grande dĂ­vida. Sou um sugar baby? Sou mesmo?

De qualquer forma, ainda havia esperança. Dependendo da negociação, eu poderia me sair bem sem sobrecarregar demais Sitri.

A negociação direta era uma faca de dois gumes: oferecia a vantagem de garantir uma Relíquia desejada antes dos outros, mas o oponente também poderia explorar a situação e inflacionar o preço. Por outro lado, houve casos em que a negociação fracassou devido ao preço alto do oponente, mas não havia outros compradores no leilão, e no fim, a Relíquia foi adquirida por um preço muito mais baixo do que o inicial.

O céu estava limpo, sem nuvens à vista, mas meu coração estava cheio de inquietação.

Uma taverna adjacente Ă  filial da capital da Associação dos Exploradores, a Sala de Aula dos Desafiadores, foi escolhida como local para a negociação. Era a taverna mais famosa da capital, sempre lotada de caçadores retornando dos cofres do tesouro. As bebidas e a comida ali eram acessĂ­veis, independentemente da qualidade. Todos os caçadores, desde novatos — que tendiam a ser pobres — atĂ© veteranos se reuniam ali, tornando-o o lugar perfeito para se manter atualizado com as notĂ­cias mais frescas da capital. Eu mesmo costumava frequentar bastante esse lugar nos meus primeiros dias como caçador. Mas, como Liz e Luke haviam sido banidos do estabelecimento apĂłs um incidente, jĂĄ fazia um tempo que eu nĂŁo aparecia por lĂĄ.

Empurrando meu caminho por entre os caçadores, que estavam completamente bĂȘbados apesar de ainda ser de dia, segui em direção Ă  mesa arranjada para a reuniĂŁo.

À distñncia, avistei a mesa e, ao registrar mentalmente a figura dos caçadores ao redor, parei no meio do caminho instintivamente.

Sitri também pareceu surpresa, levando um dedo aos låbios.

— Oh… uh…

Isso era ruim.

Verifiquei ao redor, me agarrando a um fiapo de esperança de que tivesse ido para a mesa errada, mas era mesmo a certa. Ali, sentados à mesa, estavam Arnold e seus companheiros, com quem eu tinha tido uma briga difícil recentemente.

Deveria haver mais caçadores do que se pode imaginar chegando Ă  capital nesta Ă©poca do ano — por que eu tenho tanta falta de sorte…?

Sitri era nosso Ășnico mĂșsculo aqui. Enfrentar um vanguarda de nĂ­vel 7 seria impossĂ­vel se as coisas desandassem.

Talvez eu devesse simplesmente ir embora.

Por um instante, esse pensamento cruzou minha mente. Mas então me lembrei de que fora Matthis quem organizara essa negociação. Por mais que o velho, bajulador de Tino, fosse um suspeito de ser lolicon, eu não poderia simplesmente envergonhå-lo abandonando a reunião que ele se deu ao trabalho de arranjar em meio à sua agenda lotada.

Ao menos jĂĄ havĂ­amos resolvido nossa briga(?) em um confronto, e eu tinha me desculpado por meio da Chloe. Eles nĂŁo iriam simplesmente pular em cima de mim no instante em que eu mostrasse o rosto… ou pelo menos era o que eu achava.

Enquanto permanecia parado, congelado, tentando de alguma forma organizar meus pensamentos, Sitri se aproximou da mesa com um sorriso radiante. Sua coragem era admirĂĄvel, considerando o embate que teve com eles na taverna hĂĄ pouco tempo.

Eu ainda não estava totalmente preparado, mas também não poderia deixar Sitri ir sozinha. Apressado, segui sua pequena figura.

Quando a figura se aproximou, Arnold ergueu o olhar, sua expressĂŁo perpetuamente azeda como sempre.

Por favor, nos ignore.

Apesar do meu desejo desesperado, sua expressĂŁo se contorceu ferozmente.

Claro que sim.

Ao lado dele, A arregalou os olhos ao nos ver e ergueu a voz trĂȘmula:

— O-O que vocĂȘs estĂŁo—

— Agradecemos sinceramente por estarem dispostos a participar da negociação hoje. Senhor Arnold.

Sem hesitar, Sitri atacou preventivamente com uma voz animada. Seus olhos brilhavam — genuinamente.

Agora que penso nisso, ela nĂŁo tem um fraco por homens como Arnold? Hmm…

A ficou sem palavras diante do sorriso radiante dela.

Arnold estalou a lĂ­ngua e gesticulou com o queixo para o assento Ă  sua frente.

Reprimindo as pontadas nervosas no estĂŽmago, sentei-me.

E assim, a negociação começou.

***

O que diabos esse homem estĂĄ pensando?

Arnold nĂŁo esperava encontrĂĄ-lo em uma negociação e, agora, nĂŁo sabia como proceder. Ele ainda sentia a raiva ardendo dentro de si, mas um desconforto mais profundo sobrepujava essa fĂșria.

Esse desenrolar de eventos era claramente antinatural, e sua experiĂȘncia como caçador lhe dizia que agora era o momento de manter a calma.

Com seu lĂ­der mantendo um silĂȘncio estoico, os outros membros, que estavam prestes a levantar a voz, se contiveram. Provavelmente estavam ecoando os mesmos sentimentos de Arnold em suas mentes.

O homem à sua frente era — como dizer — enigmático demais.

Enquanto estava sentado diante de Arnold, sua expressĂŁo era tranquila, quase apĂĄtica, para falar a verdade. Seu corpo era esguio para um caçador, sem mĂșsculos ou força aparente. NĂŁo carregava nenhuma arma.

Isso era um gesto indicando falta de intenção de lutar, ou algo mais prĂłximo do que ele demonstrara da Ășltima vez — que nĂŁo precisava de armas? De qualquer forma, a audĂĄcia de aparecer ali tĂŁo calmamente apĂłs uma provocação daquelas nĂŁo era nada comum.

Em contraste, a mulher que o acompanhava exalava uma aura serena. A cor de seu cabelo, olhos e traços faciais eram todos reminiscentes da Sombra Partida, que havia dominado o grupo deles antes. Se a Sombra Partida representava “vitalidade”, entĂŁo essa mulher representava “serenidade”. Sua aparĂȘncia era refinada e sua pele clara, imaculada. Cada movimento que fazia era gracioso, mas ao mesmo tempo, sem vulnerabilidades.

Ela deve ter disfarçado, mas, ao olhar mais de perto, a aura que ocultava não era tão diferente da da Sombra Partida. Seu físico indicava que era uma retaguarda, mas eles não podiam se dar ao luxo de baixar a guarda. Arnold provavelmente só percebeu o disfarce dela porque era inferior ao do Mil Truques.

Ela era uma Griever, sem dĂșvida uma pessoa poderosa.

Arnold lambeu os låbios. Apesar de tudo, ele deveria estar na posição superior nessa situação.

Foram informados de que alguĂ©m demonstrou interesse em negociar a compra da RelĂ­quia que haviam enviado para avaliação. Quando ouviu a notĂ­cia, Arnold achou que essa pessoa tinha gostos bastante peculiares, mas nĂŁo esperava que fosse o Mil Truques. Isso poderia significar que esse homem era o caçador de nĂ­vel 8 que andava buscando RelĂ­quias? Seria coincidĂȘncia demais se nĂŁo fosse.

Inicialmente, ele ficaria satisfeito se aquela Relíquia ao menos rendesse uma rodada de bebidas na taverna, mas agora, sabendo que havia alguém interessado nela, a história mudava. Relíquias eram valiosas; algumas eram vendidas por centenas de milhÔes.

Após concluírem suas apresentaçÔes, a mulher que se identificou como Sitri falou com um sorriso, como se o embate anterior não tivesse acontecido:

— Krai tem um gosto peculiar por colecionar Relíquias estranhas. Ele ficou intrigado quando soubemos dessa em particular—

— É um item curioso que tivemos o trabalho de trazer atĂ© aqui de Nebulanubes — disse Eigh, mudando completamente de tom e respondendo Ă s palavras de Sitri com um sorriso largo. — Para ser honesto, isso deu um baita trabalho, e vendĂȘ-lo por um preço baixo nĂŁo vai rolar. Este Ă© um item que pode ser interessante nĂŁo apenas para caçadores, mas tambĂ©m para colecionadores entusiastas. NĂŁo Ă© mesmo, Arnold?

Ele lançou um olhar para Arnold, observando sua expressão.

Era um blefe. Pelo menos, ninguém quis aquela måscara em Nebulanubes. Mesmo os nobres, que apreciavam itens raros, eram exigentes em suas aquisiçÔes. Dificilmente alguém se interessaria por uma måscara de carne que parecia ser nada além de amaldiçoada.

Ao ouvir as palavras de Eigh, Sitri levou a mĂŁo Ă  boca, com uma expressĂŁo preocupada.

— Entendo o que quer dizer. Mas, infelizmente, nĂŁo acredito que ninguĂ©m nesta capital vĂĄ querer essa mĂĄscara sinistra. Krai, aqui, tambĂ©m nĂŁo estĂĄ insistindo em adquiri-la.

A negociação ainda estava na fase de sondagem.

Assim que ela disse isso, as sobrancelhas do Mil Truques se moveram ligeiramente, e sua expressĂŁo se contorceu por um breve momento.

A mudança foi evidente demais. Era difícil dizer se ele tentava manter uma expressão neutra ou não. Com uma reação tão escancarada, não dava para saber se estava realmente agitado ou apenas encenando.

Eigh ficou confuso, mas manteve a expressĂŁo inalterada. Arnold, que o conhecia hĂĄ muito tempo, sabia exatamente o que ele estava pensando.

Espera. Isso foi realmente uma coincidĂȘncia desde o inĂ­cio?

O Mil Truques, que estava em conflito com eles e determinado a provocĂĄ-los, havia se oferecido para negociar a RelĂ­quia que Arnold trouxera.

Algo assim poderia mesmo acontecer por mera coincidĂȘncia? Seria compreensĂ­vel se a RelĂ­quia fosse um item famoso, mas era apenas uma mĂĄscara de carne que nem sequer conseguiu ser vendida em sua cidade natal.

Se fosse para seguir a lógica, eles deveriam estar em pé de guerra, não negociando. No entanto, essa situação era obviamente anormal, e, como líder do grupo, Arnold precisava tomar decisÔes com cautela.

— NĂŁo Ă© como se estivĂ©ssemos nos recusando a vender.

— Receio que ela provavelmente arrecadaria um valor menor em um leilĂŁo do que se nos vendessem agora. Duvido que alguĂ©m dispute essa RelĂ­quia e faça lances por ela. Posso presumir que o senhor Arnold compartilha dessa perspectiva, com sua experiĂȘncia como caçador de alto nĂ­vel?

Ela acertou em cheio. Foi exatamente isso que disseram a Arnold e seu grupo antes de levarem a Relíquia para avaliação.

Caçadores e nobres eram cautelosos ao adquirir RelĂ­quias, pois algumas delas podiam representar riscos para seus donos. E geralmente, RelĂ­quias perigosas tinham aquela aparĂȘncia… assim como aquela mĂĄscara.

— Isso nĂŁo Ă© justo — disse Arnold, cruzando os braços e se recostando na cadeira. Olhando para o Mil Truques, e nĂŁo para Sitri, ele continuou enfaticamente: — Foi uma RelĂ­quia que tivemos muito trabalho para encontrar. Ainda nĂŁo sabemos seus efeitos, e Ă© desanimador ver uma RelĂ­quia poderosa sendo barganhada a preço de banana. Prefiro simplesmente me livrar dela nesse caso.

Inclusive, jĂĄ haviam lhe dito que existia a possibilidade de a mĂĄscara nem sequer ser avaliada.

Havia duas formas principais de avaliar uma RelĂ­quia: pesquisar documentos acumulados para obter informaçÔes ou ativĂĄ-la e testĂĄ-la. Se o primeiro mĂ©todo falhasse, os avaliadores recorriam ao segundo. Mas avaliadores tambĂ©m eram humanos. RelĂ­quias manifestamente perigosas Ă s vezes eram rejeitadas como impossĂ­veis de avaliar — e, de fato, aquela mĂĄscara havia sido rejeitada em Nebulanubes.

O avaliador que Arnold e seu grupo contrataram era um homem com dĂ©cadas de experiĂȘncia, renomado atĂ© mesmo na capital. Se atĂ© ele recusou avaliar a RelĂ­quia, provavelmente nĂŁo havia ninguĂ©m na cidade capaz de fazĂȘ-lo. Nesse caso, a mĂĄscara sĂł teria valor como item de coleção.

— Parece que vocĂȘ tem uma ideia dos efeitos dela. NĂŁo podemos estabelecer um preço sem essa informação. Que tal nos contar que tipo de poder essa RelĂ­quia tem?

Era uma tentativa de desestabilizå-los. Informação era ouro, e ninguém revelava algo assim de graça só porque foi perguntado.

Sitri franziu a testa, parecendo irritada com as palavras de Eigh.

Sentado ao lado dela, o Mil Truques falou com uma expressão séria:

— Isso… eu nĂŁo posso dizer.

— Humph.

Era esperado.

Arnold estava prestes a levantar a voz e retrucar, mas o Mil Truques, com um sorriso incomodado, disse algo inesperado:

— Mas se eu tiver que dizer algo sobre isso… se minha especulação estiver certa, Ă© uma RelĂ­quia ligeiramente perigosa. AtĂ© mesmo a lei deste paĂ­s proibiria seu uso. No seu lugar, eu me livraria dela o quanto antes.

Arnold era caçador hĂĄ muito tempo, e sobreviver nessa profissĂŁo exigia mais do que apenas força fĂ­sica. Para se destacar, era preciso habilidade de negociação para definir preços adequados na venda de RelĂ­quias e materiais de monstros, alĂ©m de comunicação para construir conexĂ”es com pessoas influentes. Embora a maioria dessas questĂ”es fosse tratada por Eigh, vice-lĂ­der da NĂ©voa CaĂ­da, Arnold havia aprendido sua importĂąncia com a experiĂȘncia. E agora, sua intuição dizia que o homem frio diante dele — o Mil Truques — estava mentindo.

O Mil Truques olhou para Arnold com uma expressão séria.

— “Ligeiramente perigosa”, Ă© isso? — disse Arnold, arqueando a sobrancelha e lançando um olhar penetrante para o Mil Truques, que se inclinou levemente para trĂĄs.

Arnold registrou mentalmente cada detalhe: sua expressĂŁo, sua postura, suas palavras.

Arnold se perdeu em seus pensamentos.

“A lei proíbe seu uso”, “É ligeiramente perigosa” — essas não são frases que se usam em uma negociação.

Se for assim, posso imaginar facilmente por que vocĂȘ quer tanto essa RelĂ­quia.

Mas isso sĂł nos deixaria ainda mais desconfiados.

O Mil Truques Ă© um estrategista brilhante. Dizem que ele consegue enxergar tudo. EntĂŁo por que ele estĂĄ negociando de maneira tĂŁo descuidada?

Encarando o silencioso Arnold, o homem Ă  sua frente parecia avaliar suas capacidades com o olhar.

— Mil Truques, vocĂȘ mentiu agora hĂĄ pouco, nĂŁo mentiu?

Ele estremeceu.

— “Um pouco perigosa” e que “se fosse eu, deixaria passar”? Engraçado. VocĂȘ estĂĄ tentando me enganar?

O suor frio escorreu pela bochecha do Mil Truques enquanto ele se agitava.

Que disfarce esplĂȘndido. Mesmo aos olhos de Arnold, ele parecia genuinamente em pĂąnico.

Certo. NĂŁo se deixe enganar pelas palavras dele. Leia nas entrelinhas.

“Perigosa.”

“Se fosse eu, deixaria passar.”

Sim. O Mil Truques nĂŁo parecia quase como se nĂŁo quisesse que Arnold se desfizesse da RelĂ­quia?

Naquele momento, uma revelação caiu sobre Arnold. Ele sentiu como se todas as peças do quebra-cabeça tivessem se encaixado.

Será que ele acha que eu—um nível 7—sou um idiota?

Sitri sorria ao lado dele, mas um brilho frio reluzia em seus olhos, como se estivesse olhando para vermes patéticos. Embora tivesse disfarçado sua expressão exterior, não conseguia esconder a luz em seus olhos de Arnold.

— Arnold? — chamou Eigh ao seu lado, lançando um olhar de esguelha para seu líder.

Arnold tomou sua decisĂŁo.

— Muito bem, eu vendo para vocĂȘ. Sim, vejamos… Oito milhĂ”es de gild—nĂŁo, dez milhĂ”es de gild. NĂŁo vou baixar mais que isso, e quero o pagamento Ă  vista e na Ă­ntegra.

Embora fosse um preço alto para uma måscara horrenda como aquela, era um valor que um caçador de alto nível poderia pagar facilmente.

Os olhos do Mil Truques se arregalaram como pratos.

Sitri olhou para Arnold como se questionasse sua intenção.

Talvez porque a reação de Arnold fosse inesperada, seus companheiros se remexeram. Apesar disso, toda a autoridade para tomar decisÔes dentro da Névoa Caída pertencia ao líder, Arnold. Embora, se aquela måscara de carne fosse vendida por dez milhÔes de gild, eles certamente ficariam mais do que felizes.

Eigh, ao lado dele, olhou para Arnold como se questionasse sua verdadeira intenção.

— Arnold, tem certeza?

— Sim. Porque parece ser uma Relíquia “um pouco perigosa”.

Arnold torceu os lĂĄbios em um sorriso intimidador. Diante dele, o Mil Truques estremeceu.

— VocĂȘ achou que eu nĂŁo venderia por causa da sua provocação, nĂŁo achou? Humph… De fato, temos nossos conflitos, mas isso Ă© outra questĂŁo. Por ora, vou fingir que nada aconteceu.

— HĂŁ? Ah, isso… sinto muito.

Aparentemente confuso, o Mil Truques coçou a bochecha.

Para começar, jå era bem estranho um caçador de nível 8 se envolver diretamente em negociaçÔes para adquirir uma Relíquia considerada um pouco perigosa. Se ele realmente a quisesse, provavelmente não teria se envolvido explicitamente desse jeito.

As mudanças na expressĂŁo do Mil Truques tambĂ©m eram “naturais demais”, tornando tudo ainda mais suspeito. Parecia apenas uma tentativa chamativa de passar informaçÔes.

Suas palavras estavam cheias de mentiras.

Arnold analisou a dinĂąmica entre eles.

Ao recordar a grotesca máscara de carne—que instilava uma sensação visceral de repulsa—que ele havia enviado para avaliação, Arnold sentiu um calafrio percorrer sua espinha pela primeira vez em muito tempo.

Inspirando fundo, ele olhou nos “olhos” do aparentemente angustiado Krai Andrey.

Dizia-se que os olhos falavam mais que a boca, mas tudo que Arnold pÎde sentir das íris escuras do Mil Truques foi perplexidade. As emoçÔes ocultas ali eram indecifråveis para ele.

Mas por que esse cara fez uma negociação tão obviamente suspeita?

A situação era complicada, mas ao se colocar no lugar do adversĂĄrio e analisar a situação, Arnold desvendou sua intenção: a mĂĄscara de carne provavelmente nĂŁo era apenas “um pouco” perigosa, mas sim perigosa o suficiente para que um caçador de nĂ­vel 8 se apressasse em recuperĂĄ-la. O mais assustador era que o Mil Truques parecia querer que Arnold e seu grupo continuassem com a RelĂ­quia—ou melhor, ele provavelmente havia tomado essa decisĂŁo depois de conhecĂȘ-los. Embora Arnold nĂŁo conseguisse detectar qualquer mentira na alegação de que a RelĂ­quia era ilegal.

Considerando tudo isso e com base nas informaçÔes coletadas até agora, Arnold chegou a uma conclusão: o Mil Truques descobriu que uma Relíquia extremamente perigosa havia sido trazida para a capital e decidiu agir. Seu objetivo provavelmente era impedir que a Relíquia caísse nas mãos dos nobres, mercadores e caçadores da capital.

De acordo com a investigação de Eigh, o Mil Truques vinha resolvendo incidente após incidente na cidade. Poderia parecer bom demais para ser verdade, mas sempre existiam pessoas que não agiam apenas por benefício próprio—especialmente entre os caçadores de alto nível.

Pensando bem, Arnold percebeu que era estranho que, na taverna que escolheram aleatoriamente ao chegarem Ă  cidade, houvesse um caçador de nĂ­vel 8—algo raro atĂ© mesmo na capital. A taverna escolhida era um saloon barato; considerando o nĂ­vel do Mil Truques e seu grupo, eles certamente poderiam ter optado por um lugar melhor. Era provĂĄvel que o Mil Truques jĂĄ estivesse os observando desde entĂŁo.

Mas aí, surgiu um problema para ele: o grupo de Arnold entrou em rota de colisão com o dele. As açÔes da Sombra Partida, ele ousaria dizer, tinham sido inesperadas até mesmo para o Mil Truques.

Ter sua reputação manchada era um golpe crítico para caçadores de tesouros, algo que os faria ser desprezados por outros caçadores e afetaria suas futuras expediçÔes. Arnold fervia de raiva sempre que se lembrava daquele incidente.

EntĂŁo, percebendo que suas chances de uma negociação bem-sucedida haviam sido quase totalmente destruĂ­das, o Mil Truques mudou de estratĂ©gia na hora. Abandonando sua tentativa de convencĂȘ-los com palavras gentis, ele começou a provocĂĄ-los repetidamente com atitudes e falas questionĂĄveis. Ele tentou enfurecer Arnold a ponto de fazĂȘ-lo desistir do leilĂŁo completamente.

O objetivo do Mil Truques provavelmente era impedir que aquela RelĂ­quia perigosa caĂ­sse nas mĂŁos de nobres curiosos, mercadores ricos e caçadores da capital—a qualquer custo. Ou seja, sua melhor opção seria adquirir e proteger a RelĂ­quia ele mesmo, mas por ora, afastar Arnold e seus companheiros do leilĂŁo tambĂ©m serviria a esse propĂłsito.

Era natural que as pessoas nĂŁo quisessem abrir mĂŁo de algo assim, mesmo se dissessem que era uma “RelĂ­quia perigosa” e que “se fosse vocĂȘ, eu largaria isso”, ainda mais se quem dissesse fosse seu maior inimigo.

No entanto, Arnold nĂŁo seria enganado.

— VocĂȘ acha que eu sou um idiota? Acha que eu ficaria tĂŁo teimoso por causa de uma RelĂ­quia extremamente suspeita como essa? Seu objetivo Ă© garantir que essa RelĂ­quia nĂŁo caia nas mĂŁos de mais ninguĂ©m. Acertei?

— Hã
?

Seu blefe era Ăłbvio.

De fato, se Arnold fosse um caçador de nível baixo, imaturo e incapaz de controlar suas emoçÔes, poderia ter desistido do leilão por pura birra; poderia ter acreditado que o Nível 8 cobiçava tanto a Relíquia que mentiria para conseguir colocå-la em suas mãos. Mas, agora que pensava racionalmente, o que Arnold e seu grupo ganhariam se ele desistisse do leilão?

Aquela Relíquia parecia sinistra à primeira vista; qualquer caçador minimamente cauteloso não cogitaria uså-la. Arnold nunca sequer considerou experimentar aquela måscara e se oporia veementemente caso qualquer um de seus companheiros tentasse.

Agora que sabia que se tratava de uma RelĂ­quia perigosa, nĂŁo lhe restava escolha senĂŁo mantĂȘ-la sob forte vigilĂąncia—um fardo completamente inĂștil para eles.

Ou talvez, seria esse o plano dele? Ganhar tempo ao fazĂȘ-los desistirem temporariamente do leilĂŁo? Havia atĂ© a possibilidade de que ele quisesse difamar Arnold e seu grupo, acusando-os de estarem em posse de um item perigoso. Na verdade, nĂŁo podia descartar a possibilidade de que organizaçÔes criminosas pudessem cobiçar a RelĂ­quia, nem que assassinos os atacassem por causa dela. No pior dos cenĂĄrios, seria possĂ­vel que o Mil Truques estivesse provocando Arnold a usar a mĂĄscara para entĂŁo condenĂĄ-lo ao esquecimento junto com o artefato? De acordo com as informaçÔes que haviam coletado antes, o Mil Truques nĂŁo parecia ser um sujeito perverso, mas apenas ser indulgente nĂŁo teria o levado ao NĂ­vel 8.

Arnold e seu grupo eram estrangeiros ali; qualquer coisa que fizessem com eles seria considerado um jogo justo.

Incontåveis possibilidades passaram pela mente de Arnold num instante. Ele não conhecia o poder da måscara, então suas previsÔes eram, inevitavelmente, apenas conjecturas. Mas, independentemente de qual delas se concretizasse, era certo que as coisas não terminariam bem para eles.

Enquanto ponderava sobre essas hipóteses, o rosto um tanto apåtico à sua frente começou a parecer uma måscara assustadora, ocultando uma firme resolução.

Ele analisou com cuidado o Mil Truques, que permaneceu em silĂȘncio por um bom tempo.

Muito provavelmente, ele estava testando Arnold, tentando descobrir se ele era realmente inteligente o suficiente para enxergar através de suas falsas atuaçÔes e mentiras descaradas para revelar suas verdadeiras intençÔes.

E se eu fosse um imbecil, cego pela raiva e incapaz de entender os planos do Mil Truques
 o que teria acontecido?

E, assumindo que a avaliação de Arnold estivesse correta, o que ele poderia fazer para fazer com que o homem que tentou manipulå-los se arrependesse ao måximo? Qual curso de ação traria o maior benefício para Arnold e seu grupo?

Deveria ir contra a vontade do Mil Truques e vender a Relíquia para algum nobre ou mercador? Mesmo sem ter conexÔes estabelecidas na capital?

Afinal, repassar uma RelĂ­quia perigosa para indivĂ­duos influentes, sabendo de seu perigo, seria um ato inconsequente de um tolo.

As palavras de quem seriam mais confiĂĄveis: as do Mil Truques, que jĂĄ havia prestado inĂșmeros serviços notĂĄveis para aquele paĂ­s, ou as de Arnold, um recĂ©m-chegado? NĂŁo era difĂ­cil imaginar quem sairia vitorioso nesse embate—enfrentar o Mil Truques era arriscado demais.

Ou deveria usar a Relíquia ele mesmo? Testar um item visivelmente perigoso, que até mesmo avaliadores hesitavam em analisar? Arnold podia ser destemido, mas não tinha um desejo de morte.

Ou, talvez, deveria recusar a negociação e simplesmente prosseguir com o leilão da Relíquia? Essa era uma opção, mas ele tinha certeza de que as chances de a Relíquia alcançar um preço alto eram baixas. Além disso, o Mil Truques à sua frente provavelmente venceria o lance nesse caso. Infelizmente, ele não poderia impor restriçÔes sobre quem poderia dar lances no item.

Deveria simplesmente guardĂĄ-la com seu grupo? Mas isso nĂŁo beneficiaria ninguĂ©m, e eles estariam completamente Ă  mercĂȘ do Mil Truques.

No fim de seu labirinto de pensamentos, uma solução simples surgiu: sentar Ă  mesa de negociaçÔes e vender a RelĂ­quia—e usar os prĂłprios planos do Mil Truques contra ele, exigindo um preço razoavelmente alto que seria difĂ­cil de recusar. Esse era o curso de ação que traria o maior benefĂ­cio para o grupo de Arnold sem qualquer risco; em troca, nĂŁo causaria nenhum dano substancial ao Mil Truques. Era o compromisso ideal.

— E entĂŁo, qual Ă© a sua decisĂŁo?

SerĂĄ que estava pensando demais? Essa possibilidade certamente existia.

O Mil Truques pode ter dito que era uma RelĂ­quia perigosa, mas havia a chance de que ele estivesse enganado. Ou atĂ© mesmo—por mais improvĂĄvel que fosse—havia uma pequena possibilidade de que a mĂĄscara de carne fosse uma RelĂ­quia Ăștil, apesar de sua aparĂȘncia. De qualquer forma, se por acaso fosse Ăștil, poderia acusĂĄ-lo de mentir durante a negociação. AlĂ©m disso, independentemente da veracidade de suas alegaçÔes, a NĂ©voa CaĂ­da nĂŁo tinha qualquer uso para aquela RelĂ­quia. Mesmo se fosse Ăștil, ele nĂŁo tinha a menor intenção de usĂĄ-la. DescartĂĄ-la ali mesmo era sua melhor opção.

Ele não podia se dar ao luxo de tomar a decisão errada. Retribuiria humilhação com humilhação—esse era o jeito de Arnold.

Definir o preço bem alto era, no mĂ­nimo, um pequeno ato de retaliação contra o Mil Truques por tĂȘ-los testado. Dez milhĂ”es de gilds nĂŁo era um preço razoĂĄvel para uma mĂĄscara de carne conspicuamente perigosa e sem avaliação.

Enquanto Arnold curvava os lĂĄbios em um sorriso, o caçador de NĂ­vel 8—um dos trĂȘs Ășnicos da capital—assumia uma expressĂŁo um tanto patĂ©tica.

Muito provavelmente, o Mil Truques havia percebido que Arnold tinha visto através de todos os seus planos. Mesmo ele provavelmente não esperava que seu oponente, a quem tentou enredar, lidasse com a situação com tanta calma. Mas então, o Mil Truques realmente não poderia recusar aqueles termos.

Isso Ă© uma vitĂłria para nĂłs.

Sitri lançou um olhar råpido para o Mil Truques ao seu lado e, exatamente como Arnold havia previsto, assentiu com determinação.

— Muito bem. Levamos por dez milhĂ”es de gil—

— Espera um segundo!!!

Antes que ela pudesse terminar a frase, um caçador sentado em uma mesa próxima interrompeu de repente. Era um homem de meia-idade, um rosto desconhecido. Sendo encarado, ele levantou ambas as mãos em um gesto exagerado e forçou um sorriso sem graça.

O homem disse:
— Não estou aqui para arrumar briga nem nada. Essa Relíquia—eu compro por o dobro do preço.

— O quĂȘ?! O que vocĂȘ acabou de dizer?!

Eigh lançou um olhar atÎnito para o intruso absurdo. Até mesmo o Mil Truques parecia perplexo.

O aparecimento de um caçador disposto a comprar aquela måscara de carne por vinte milhÔes de gil foi inesperado. Igualmente inesperado foi outro homem, não relacionado, em outra mesa adjacente, que subitamente levantou a voz.

Para Arnold, não fazia muita diferença para quem ele venderia a Relíquia. Afinal, ele não devia nada a esta cidade nem ao Mil Truques. No fim das contas, seria ainda melhor para eles se a Relíquia fosse vendida por um preço mais alto.

EntĂŁo o que diabos estava acontecendo aqui? Essa pessoa deveria ter acabado de ouvir o Mil Truques dizer que a RelĂ­quia era perigosa.

Sitri fez uma expressĂŁo de desagrado.

Como se esse homem desconhecido tivesse aberto uma caixa de Pandora, caçadores por toda a taverna começaram a levantar suas vozes.

— Espera, eu pago vinte e cinco milhĂ”es!

— Pera aĂ­. Eu estava de olho nisso o tempo todo! Ofereço trinta milhĂ”es!

— Essa Ă© a RelĂ­quia que o Mil Truques tem perseguido a todo custo. Eu ofereço quarenta milhĂ”es!

— VocĂȘ sĂł quer revender! Cai fora!

— O-O que está acontecendo?! Quem são essas pessoas?! — disse Eigh ao se levantar e olhar ansioso pela taverna.

Antes que percebessem, a taverna explodiu em um alvoroço. Os olhares dos clientes estavam carregados de agressividade palpåvel, e alguns até começaram a se engalfinhar. Todos gritavam fervorosamente suas respectivas ofertas.

BĂȘbados olhavam boquiabertos para o leilĂŁo espontĂąneo se desenrolar.

— Quarenta e dois milhĂ”es!

— Quarenta e trĂȘs milhĂ”es!

— Droga, eu ofereço quarenta e cinco milhĂ”es!

— VocĂȘ nem tem esse dinheiro! VocĂȘ estĂĄ endividado, entĂŁo do que estĂĄ falando?!

— Cala a boca! Se for preciso, eu vendo meu equipamento para financiar isso!

O quĂȘ? Isso Ă© uma piada? Esses caras realmente querem tanto assim essa mĂĄscara de carne? 
Tem alguma informação que eu nĂŁo estou sabendo?

Arnold gemeu diante daquela cena incompreensĂ­vel.

Se esse era o caso, entĂŁo a teoria de Arnold sobre o plano do Mil Truques se tornava cada vez mais questionĂĄvel.

Por que essas pessoas querem tanto essa RelĂ­quia grotesca? O que estĂĄ acontecendo?

Sitri analisou os arredores e soltou um pequeno suspiro. EntĂŁo disse:

— Isso tudo Ă© porque, Krai, vocĂȘ tem tentado pegar dinheiro emprestado de todo mundo—vocĂȘ deveria ter pedido pra mim desde o começo.

— Heh


Apesar de seu suspiro abatido, o preço da måscara de carne continuava subindo.

Um dos bĂȘbados se levantou cambaleando e, com uma voz animada, começou a conduzir o leilĂŁo improvisado.

Agora estava totalmente fora de controle. Essas pessoas levantando suas vozes estavam completamente sérias.

— Cem milhĂ”es.

E foi entĂŁo que uma voz delicada, mas incongruente, cortou a tempestade de gritos estrondosos.

Os caçadores, que estavam inflacionando o preço aos poucos, todos se viraram para a origem da voz.

De pé sobre uma mesa repleta de garrafas caídas, uma figura em um luxuoso vestido branco entrou em cena. Em sua cintura, uma espada que parecia fora de lugar para seus membros infantis estava pendurada.

— Eu, Éclair Gladis, vou adquirir essa tal de RelĂ­quia mais forte por cem milhĂ”es! Entendido?!

— Ugh. É por isso que eu não gosto de nobres e comerciantes
 Krai, podemos simplesmente sair dessa negociação?

Sitri soltou um suspiro fraco e puxou a manga de Krai.

Com um sorriso transbordando confiança, a garota que se declarou como Éclair olhou para o Mil Truques.

***

— O que diabos
 foi tudo aquilo? Eu fiz algo errado?

Segurando uma revista de fofocas sobre caçadores em mãos, estalei a língua pela primeira vez em muito tempo, frustrado com a situação atual.

A revista estava aberta em uma pågina colorida com um artigo detalhando os feitos do líder de certo clã, um caçador de alto nível, correndo atrås de uma certa Relíquia que estava programada para ser leiloada no próximo Leilão de Zebrudia. Embora o nome do caçador tivesse sido omitido, dado o quão raros eram os caçadores obcecados por Relíquias que também eram mestres de clã, qualquer um que lesse certamente reconheceria imediatamente que estavam falando de mim.

A negociação estava indo muito bem até que alguém da multidão interrompeu de repente e causou o caos. Mas foi a intromissão da filha do Lorde Gladis que completamente descarrilou tudo.

Eu esperava conseguir comprar a Face Reversível por, no måximo, dez milhÔes de gil, mas Arnold decidiu que a colocaria novamente em leilão.

Arnold parecia estar confuso com a reviravolta repentina, mas o mais confuso era eu.

Eu nĂŁo esperava que tantas pessoas estivessem interessadas naquela mĂĄscara incrivelmente assustadora, e tambĂ©m nĂŁo conseguia entender o que a filha do conde quis dizer com “RelĂ­quia mais forte”. Tentei dizer Ă  Lady Éclair que nĂŁo era a RelĂ­quia mais forte, mas sim uma perigosa, mas ela nĂŁo parecia disposta a me ouvir.

A Face ReversĂ­vel estava longe de ser a RelĂ­quia mais forte. Era apenas uma RelĂ­quia que mudava a aparĂȘncia de alguĂ©m sem aumentar suas habilidades de combate ou algo assim. Embora pudesse fazer uma pessoa parecer mais musculosa, isso nĂŁo significava que realmente ficaria mais forte. Como o corpo apenas seria envolvido por uma camada de mĂșsculos, isso, na verdade, tinha a desvantagem de dificultar os movimentos caso a forma do corpo fosse alterada de maneira descuidada.

Bem, para ser justo, era ilegal, mas nĂŁo perigoso, entĂŁo talvez eu tenha mentido sobre isso, mas mesmo assim, arrancar isso de mim sĂł porque eu queria era crueldade pura. Embora nĂŁo fosse contra as regras, era definitivamente uma quebra de etiqueta.

Essas pessoas nĂŁo tĂȘm Ă©tica? —“NĂŁo espere Ă©tica de nobres e caçadores”? Ha ha.

Mas era verdade, nĂŁo era? Nobres eram certamente ricos.

Eva me olhou com um olhar algumas magnitudes mais frio que o normal e perguntou:

— EntĂŁo, o que vocĂȘ vai fazer?

Enquanto eu ainda estava pedindo ajuda para pagar algumas dĂ­vidas que nem tinham a ver com isso, jĂĄ estava planejando comprar a prĂłxima RelĂ­quia. Agora que parei para pensar (ou mesmo sem pensar), percebi que eu era um caso perdido. E o pior, eu sĂł estava avisando depois do ocorrido.

Alguém, por favor, faça alguma coisa comigo.

Mas permita-me dar uma desculpa: havia a possibilidade de que o Rosto ReversĂ­vel sĂł estivesse disponĂ­vel neste leilĂŁo! NĂŁo seria um exagero dizer que isso poderia mudar minha vida inteira.

Agora que jĂĄ tenho uma dĂ­vida de dez dĂ­gitos, o que sĂŁo mais oito dĂ­gitos? Vai ser sĂł alguns por centos a mais. Concorda comigo?

— Krai? Por favor, me responde.

Ah, certo… VocĂȘ nĂŁo acha, nĂ©…? Eu realmente nĂŁo tenho escolha a nĂŁo ser desistir, depois de tudo?

Dez milhĂ”es de gild era uma quantia enorme que uma pessoa comum nĂŁo conseguiria ganhar nem em um ano. Mas para os Grieving Souls, era um valor que podĂ­amos cobrir facilmente com uma Ășnica caçada.

Dito isso, cem milhÔes jå era outra história. Simplificando, era dez vezes mais. Grieving Souls era um grupo de sete pessoas, incluindo Eliza, então, para cada um ganhar cem milhÔes, por um cålculo simples, precisaríamos trazer pelo menos setecentos milhÔes de gild em Relíquias e materiais raros.

Havia poucas RelĂ­quias que podiam alcançar preços tĂŁo altos. RelĂ­quias avaliadas em mais de cem milhĂ”es de gild eram conhecidas como “centimilionĂĄrias”, e adquirir uma era um dos grandes sonhos dos caçadores.

Como também precisåvamos separar uma quantia para um fundo de reserva, conseguir setecentos milhÔes de gild de uma vez só era um desafio até para nós. Bem, por mais difícil que fosse, não era impossível.

Mesmo assim, atĂ© para mim, era preciso coragem para simplesmente gastar cem milhĂ”es com toda essa dĂ­vida que eu tinha. Liz, que tambĂ©m estava atrĂĄs de RelĂ­quias, provavelmente nĂŁo poderia fazer muita coisa tambĂ©m…

Mas, acima de tudo, o maior problema era que talvez cem milhÔes não fossem o suficiente, afinal.

— Há rumores de que a filha da Casa Gladis está comprando todas as Relíquias desesperadamente — disse Eva.

Fiquei em silĂȘncio.

— TambĂ©m ouvi que algumas grandes companhias mercantis estĂŁo tentando adquirir esses itens. Presumo que os preços estejam disparando por causa disso.

— Ugh.

— Não me venha com “ugh”! Pelo amor de Deus!

Os nobres estavam gastando sem limites para comprar a vasta coleção de RelĂ­quias. Nenhum caçador normal teria chance contra esses nobres — a diferença de riqueza era grande demais. A poderosa Casa Gladis vinha apoiando o impĂ©rio por geraçÔes. JĂĄ as companhias mercantis nĂŁo tinham laços com os nobres, e estavam morrendo de vontade de mudar isso.

As Relíquias eram um presente da natureza e notoriamente raras. Historicamente e globalmente, eram usadas como oferendas. Independente do valor da peça de carne em questão, o fato de Lady Éclair ter entrado na disputa certamente chegaria aos ouvidos das inquietas companhias mercantis envolvidas no leilão.

Os caçadores ganhavam bem, mas quem detinha a maior riqueza nesse paĂ­s eram as companhias mercantis e os nobres. Eu sabia que nenhum deles jogaria toda sua fortuna para conseguir uma RelĂ­quia, mas, como alguĂ©m endividado, eu nĂŁo podia correr esse risco e enfrentar um inimigo tĂŁo poderoso. Eu atĂ© entendia o interesse das companhias mercantis, mas por que Lady Éclair precisaria de uma RelĂ­quia ilegal? Ela queria obter a RelĂ­quia mais forte e se tornar uma caçadora? Isso nĂŁo ia acontecer. NĂŁo importava o quĂŁo poderosa fosse a RelĂ­quia, sem desenvolver sua prĂłpria força, ela sempre seria um peixe pequeno. Eu era a prova viva disso.

— Então, o que vai fazer? — perguntou Eva.

NĂŁo consegui responder.

— Pense bem, Krai. VocĂȘ realmente precisa dessa RelĂ­quia? — ela perguntou gentilmente, tentando me dissuadir. — VocĂȘ jĂĄ tem vĂĄrias.

Mas eu queria. Eu queria essa RelĂ­quia desesperadamente. Se pudesse tĂȘ-la, pegaria sem pensar duas vezes. Eu realmente nĂŁo precisava dela? Cocei a cabeça furiosamente. Embora talvez fosse possĂ­vel juntar cem milhĂ”es, uma batalha de dinheiro contra nobres e companhias mercantis era impossĂ­vel de vencer. E o leilĂŁo estava se aproximando. Eu era um consumidor nato e nunca tive chance alguma desde o começo.

Eva suspirou.

— Se era pra fazer essa cara, por que se enfiou em dĂ­vidas e saiu espalhando informaçÔes?

— E-eu nĂŁo lembro de ter feito isso… — respondi. — Hmm… SerĂĄ que a Lucia guardou muito dinheiro? E-eu tĂŽ brincando! SĂł brincando!

Eva, que normalmente me apoiaria, por mais patético que eu fosse, me olhou de lado com desprezo, como se eu fosse lixo. Mas, se me permitem uma desculpa, Lucia tinha dito que, se eu realmente estivesse precisando desesperadamente de dinheiro, eu poderia pegar das economias dela. Como irmã mais nova confiåvel que era, afirmou que, se eu fosse me endividar, era melhor que fosse com ela.

Mas, bem… acho que nĂŁo tem jeito. Vou fazer o meu melhor. Se nĂŁo for o suficiente, simplesmente desistirei da RelĂ­quia. Minhas economias estavam longe de ser suficientes para superar os nobres e as companhias mercantis. Eu tambĂ©m precisava me preocupar com a Sitri, e esse momento nĂŁo poderia ser pior. Me senti mal por fazer isso, mas, se fĂŽssemos visitar docerias no futuro, eu precisaria da Tino para nos acompanhar tambĂ©m. Justo quando tomei minha decisĂŁo, Sitri entrou no quarto, um pouco ofegante.

— É por isso que eu nĂŁo gosto de nobres e mercadores… — ela disse, bufando. — Eles sempre, sempre tentam resolver as coisas com dinheiro ou usando sua influĂȘncia. Usam truques baratos e sujos pra roubar o que vocĂȘ quer, Krai…

Em vez da bolsa habitual que carregava nas costas, ela segurava uma grande mala que facilmente caberia uma pessoa dentro. Seu rosto exibia uma expressão serena, mas seus olhos transbordavam determinação. Isso pode parecer um comentårio aleatório, mas Sitri odiava perder. Sua graça escondia o fato de que ela era tão teimosa quanto Liz. Meu espírito jå estava pela metade quebrado, mas parecia que a destemida Sitri estava determinada a contra-atacar.

— Krai, se for dinheiro que vocĂȘ precisa… Eu tenho — explicou ela. — Ainda podemos lutar. Fiz questĂŁo de criar poçÔes secretas para eles, mas no momento em que fui acusada de um crime, aqueles nobres mudaram de atitude num piscar de olhos. E eu quero me vingar daqueles mercadores por venderem minhas poçÔes a preços exorbitantes, enchendo os bolsos mais do que o necessĂĄrio. Vou acertar dois alvos com uma sĂł tacada.

Ela parecia mais empolgada com isso do que eu… e sinto que nossas motivaçÔes iniciais mudaram um pouco. Sitri colocou a mala na minha frente e destravou a fechadura, revelando uma montanha de riqueza que uma pessoa normal dificilmente veria. Moedas de prata reluzentes, exponencialmente mais valiosas que as moedas de ouro e que valiam cem mil gild cada, estavam empilhadas. Havia claramente mais de cem ou duzentas dessas moedas preciosas, e a mala estava tĂŁo cheia que algumas rolaram para o chĂŁo aos meus pĂ©s. Eva parecia atordoada. Se houvesse alguma transação comercial que exigisse uma mala cheia de moedas de prata, ela seria feita com um cheque.

— Onde vocĂȘ conseguiu isso? — perguntei.

Ela não tinha dito que estava quebrada? O monte de belas moedas de prata à minha frente valia facilmente mais de cem milhÔes de gild. A pele de porcelana de Sitri ficou levemente corada.

— Esse Ă© o dinheiro para o meu casamento que venho economizando e escondendo da minha irmĂŁ — disse ela. — Tem cerca de oitocentos milhĂ”es.

NĂŁo consegui esconder meu choque, e Eva reagiu da mesma forma.

— Dinheiro para casamento?! — ela exclamou, os olhos arregalados de surpresa.

Entendo… Dinheiro para casamento… Um turbilhĂŁo de perguntas inundou minha mente. VocĂȘ nĂŁo economizou um pouco demais sĂł para um casamento? Desde quando começou a guardar dinheiro? JĂĄ tem alguĂ©m em mente? Mas antes de tudo, nĂŁo havia a menor chance de eu aceitar um dinheiro tĂŁo precioso. Sitri, vocĂȘ estĂĄ indo longe demais… Isso jĂĄ Ă© exagero. Isso nĂŁo Ă© apenas um fundo secreto que vocĂȘ guardou—é uma fortuna inteira.

— Desculpe, mas nĂŁo posso aceitar o dinheiro que vocĂȘ economizou— — comecei a dizer.

— Eu planejava gastar isso com vocĂȘ, entĂŁo estamos apenas adiantando um pouco as coisas, eu suponho… — Sitri respondeu, com as orelhas vermelhas.

Agora eu estava confuso.

— HĂŁ? Quando vocĂȘ disse dinheiro para casamento, quis dizer que guardou isso para o meu casamento?

Éramos amigos hĂĄ muito tempo, mas eu nĂŁo conseguia acreditar que ela tinha economizado dinheiro para mim, com quem nĂŁo tinha nenhum laço de sangue. Isso nĂŁo pode ser…

— Hmm? — ela respondeu, confusa. — NĂŁo, esse dinheiro Ă© para o meu casamento. VocĂȘ pode pensar nisso como um dote adiantado.

— Acho que os homens Ă© que deveriam pagar quando pedem uma mulher em casamento.

Além disso, esse pagamento só poderia ser feito ao parceiro de casamento. Sitri me olhou, perplexa, antes de bater o punho na palma da mão.

— Acho que vocĂȘ tem razĂŁo… — disse ela. — Mas olha, num casamento, acho que tanto o homem quanto a mulher devem trabalhar juntos para construir um relacionamento. E eu sou do tipo que se entrega completamente ao meu homem.

Ela soltou uma risadinha leve.

— É, aham. Ha ha ha ha… — respondi.

Sitri Ă© surpreendentemente um pouco avoada, pelo visto. Enquanto eu falava animado, Eva, que ficou em silĂȘncio o tempo todo, agarrou meus ombros e começou a me sacudir violentamente.

— Do que vocĂȘ estĂĄ rindo, Krai?! — ela exigiu. — VocĂȘ vai acabar sendo forçado a casar com ela desse jeito!

— HĂŁ? — respondi. — Nah, isso nĂŁo pode ser…

Presumi que fossem só as piadas habituais da Sitri sobre casamento. Casamento? Eu? Nunca tinha nem pensado nisso. Era um compromisso para a vida toda, e eu achava melhor refletir sobre isso com calma depois que me aposentasse como caçador e conseguisse um emprego eståvel para me estabelecer.

— Quando colocarmos as mãos naquela Relíquia, ela será o seu anel de noivado — Sitri disse.

HĂŁ? De jeito nenhum. Eu nĂŁo conseguia ver uma mĂĄscara grotesca de carne como um anel. Fiquei calmo ao ouvir sua sugestĂŁo absurda, mas Sitri continuou entusiasmada.

— Quanto a mim, se vocĂȘ nĂŁo se importar, eu gostaria de um anel da sua coleção.

Isso, eu não me importava nem um pouco. Minha coleção era importante, claro, mas Sitri e os outros eram muito mais preciosos para mim. Eu estava mais do que disposto a oferecer a ela um anel Relíquia, mas ainda sentia que estava me aproveitando dela. Nem mesmo um Anel de Segurança valia oitocentos milhÔes. Como eu poderia retribuir Sitri? Cruzei os braços e fiquei pensando enquanto Eva avançava e batia na mesa com força, um sorriso estampado no rosto enquanto olhava para Sitri.

— Sitri, acho que já disse que as dívidas do Krai serão pagas por completo — Eva disse.

— Hã? Ah, não se preocupe com a gente — respondeu Sitri. — Nossos laços não são tão superficiais a ponto de um casamento desmoronar por causa de dívida.

— O motivo nĂșmero um que faz grupos de caçadores desmoronarem sĂŁo problemas financeiros! Porque vocĂȘ Ă© tĂŁo tolerante com ele, ele ficou pĂ©ssimo com dinheiro—

— Hã? Ah, não se preocupe com a gente. Eu aceito o Krai, ruim com dinheiro e tudo.

— NĂŁo Ă© disso que estou falando!

Eva permaneceu firme mesmo diante de uma caçadora de alto nível. Eu tinha dito para ela nunca encostar um dedo em Liz e nas outras, mas senti que suas palavras vinham carregadas de emoção.

— Por favor! NĂŁo! Faça! Promessas! Estranhas! Com! O nosso mestre de clĂŁ! O que vocĂȘ vai fazer se começarem a circular boatos esquisitos?! — Eva gritou, pausando para recuperar o fĂŽlego. — Eu vou pagar todas as dĂ­vidas dele completamente. Pode confiar. Isso inclui o dinheiro para casamento que vocĂȘ emprestaria ao Krai. EstĂĄ claro?

Sitri suspirou.

— É por isso que não gosto de mercadores.

Ela abaixou os ombros em rendição, fazendo a bochecha de Eva se contrair. Eu nĂŁo tinha nada a oferecer nessa briga, entĂŁo me agachei e me preparei para fugir. Estou levantando a bandeira branca. O casamento da Sitri Ă© mais importante do que uma Face ReversĂ­vel. Eu sĂł queria aquela relĂ­quia se pudesse conseguir por um preço relativamente barato. Me desculpem por estar tĂŁo desconectado do valor do dinheiro. Me sinto mal… Urgh…

— Só espere e veja, Krai — disse Sitri, determinada. — Eu vou comprar essa Relíquia de qualquer jeito.

— Ah, nĂŁo, valeu — respondi. — Tenho certeza de que vai ser cara, e hĂĄ uma chance de que oitocentos milhĂ”es nĂŁo sejam o suficiente…

Tentei dar uma razĂŁo para fazĂȘ-la desistir, mas atĂ© eu sabia que o dinheiro dela era mais do que suficiente. As habilidades daquela RelĂ­quia nĂŁo valiam tanto assim. Mas Sitri apenas cerrou os punhos e inclinou-se para frente sem medo.

— Ah, não seja tão reservado! — disse ela. — Posso conseguir mais dinheiro, se quiser. Vou usar qualquer meio necessário para conseguir essa Relíquia. Que tal espalharmos rumores ruins sobre esse item? É muito mais fácil abaixar o preço do que juntar mais fundos.

— Ah, claro… — comecei a dizer antes de me conter. — Ah, nĂŁo, nĂŁo, nĂŁo. C-Calma aĂ­, tĂĄ bom?

Ao ver o brilho nos olhos dela, fiquei decidido a impedi-la de enlouquecer.

***

Talvez por conta do Leilão de Zebrudia estar se aproximando, a Associação dos Exploradores estava mais movimentada do que nunca. Para os caçadores que usavam a capital imperial como base, o leilão era uma oportunidade de ouro para fazer fortuna e uma chance perfeita para arrematar armas poderosas e aumentar sua força.

Havia uma multidão maior que o normal reunida em frente ao quadro de missÔes. Preparando-se para o grande dia do leilão, alguns procuravam informaçÔes sobre o cofre do tesouro, na esperança de coletar mais Relíquias. Outros estavam analisando missÔes de terceiros, tentando arrecadar mais uns trocados para dar lances. Tino também estava na multidão, ficando na ponta dos pés e esticando o pescoço para ler as missÔes no meio dos caçadores mais altos.

Com o leilão se aproximando, quase todas as boas missÔes jå haviam sido pegas. As missÔes para derrotar monstros próximos estavam esgotadas, restando apenas aquelas que exigiam muito tempo e não ficariam prontas antes do leilão. A multidão de caçadores exalava uma aura assassina, olhando freneticamente ao redor com olhos injetados de sangue, na esperança de agarrar algum funcionårio da Associação que pudesse ter missÔes novas para oferecer.

— Todo mundo aqui Ă© de terceira categoria — pensou Tino.

A data do leilão jå estava decidida hå muito tempo, e os caçadores de primeira linha jå haviam reunido os fundos e as Relíquias necessårias para o evento. Provavelmente, estavam rindo dos caçadores de terceira categoria que corriam contra o tempo para se preparar.

Tino não tinha interesse no leilão. Não era muito materialista e relutava em gastar seu dinheiro. Então, por que tinha que ser tratada com desprezo como os caçadores despreparados ao seu redor?

Sem se deixar levar pelo frenesi no ar, ela de repente ouviu uma voz chamĂĄ-la.

— Ei, Tino. Tudo bem com vocĂȘ?

Tino virou-se silenciosamente e viu uma Ladina com quem jå havia feito equipe no passado, durante sua jornada na Toca do Lobo Branco: Rhuda Runebeck. Como sempre, ela tinha cabelos castanhos sedosos e um busto cheio que chamava atenção. Recentemente, havia subido para o Nível 4, e as duas eram próximas o suficiente para conversarem casualmente sempre que se encontravam.

Como companheiras Ladinas, Tino se dava bem com Rhuda, chegando atĂ© a arrastĂĄ-la para o treinamento com seu mestre. Tino raramente visitava a Associação e, por isso, nĂŁo via Rhuda com frequĂȘncia, mas eram amigas o suficiente para se chamarem de companheiras. Ao encarar Tino em silĂȘncio, Rhuda deu um sorriso tenso.

— VocĂȘ parece estar bem, como sempre — disse ela. — JĂĄ terminou o treinamento?

— Minha irmã disse que ia fazer um tour pelo cofre do tesouro — respondeu Tino. — Fui deixada para trás porque ela disse que sou densa.

— I-Isso parece bem tĂ­pico dela…

Uma revista de fofocas repleta de informaçÔes sobre caçadores de tesouros foi enfiada na frente de Tino. A pågina aberta trazia um resumo das Relíquias que seriam leiloadas. Ela pegou a revista e começou a folhear.

Um certo caçador famoso estava correndo atrås de dinheiro para comprar a Relíquia mais poderosa. Outros caçadores também estavam de olho nela, é claro, mas até mesmo nobres estavam disputando o item com olhos vermelhos de cobiça. A Relíquia preciosa havia sido encontrada por um caçador de Nível 7 de uma nação estrangeira, que mal conseguiu escapar com vida.

O nobre em questão era próximo de Ark Rodin, e vårias companhias comerciais estavam se esforçando para colocar as mãos nesse item. Todos sabiam que essa Relíquia seria o grande destaque do leilão.

— Essa revista está falando sobre Krai, imagino? — perguntou Rhuda.

Mas quão verdadeira era essa matéria? Ela até fazia previsÔes sobre os poderes da Relíquia e estimava seu preço no leilão. Havia até uma afirmação ousada dizendo que qualquer caçador que conseguisse essa Relíquia teria um aumento garantido de nível.

Revistas de fofoca nunca eram confiåveis, mas Tino franziu a testa ao ler o quão infundadas essas alegaçÔes pareciam ser.

— Eles estĂŁo errados… — murmurou Tino.

— Hã?

— O Mestre… nem sequer pegou dinheiro emprestado.

Rhuda ficou surpresa.

Tino havia visto apenas um trecho da negociação, mas pelo que sabia, ninguĂ©m estava disposto a emprestar um Ășnico gild para o Mestre. Ela ficou sem palavras ao vĂȘ-lo morrer uma morte honrada, desmoronando em pequenos pedaços.

A revista dizia que Krai estava juntando centenas de milhĂ”es, mas de onde tinham tirado esse nĂșmero?

Tino inclinou a cabeça para o lado, confusa, enquanto os olhos de Rhuda brilhavam de curiosidade.

— Hmm, entĂŁo vocĂȘ estĂĄ dizendo que isso nĂŁo tem nada a ver com Krai? — perguntou Rhuda.

Tino ficou em silĂȘncio, mas tinha certeza de que estavam se referindo a Krai. NĂŁo havia muitos caçadores de alto nĂ­vel que fossem mestres de clĂŁ e tivessem um gosto por colecionar RelĂ­quias. Quando terminou de ler, soltou um suspiro profundo e devolveu a revista para Rhuda. O artigo terminava com algumas palavras que zombavam daquele certo caçador de alto nĂ­vel, afirmando que qualquer um que se propusesse a colecionar RelĂ­quias sem pensar duas vezes nos gastos era verdadeiramente louvĂĄvel e a imagem perfeita do que um caçador deveria ser. O caçador era capaz de usar ao mĂĄximo seus poderes e influĂȘncia como mestre de clĂŁ e ainda tinha uma mulher no mesmo grupo que entregava todo o seu dinheiro para a causa. Esses comentĂĄrios indiretos e sarcĂĄsticos sĂł poderiam ter sido escritos por um autor destemido. Eram todas mentiras.

Tino desistiu de tentar ler o informe da missão em meio à multidão e sentou-se em uma mesa na årea de reuniÔes. Rhuda sentou-se à sua frente.

Como vou explicar isso? Tino pensou. Rhuda era uma Ladina recrutada por Krai para ajudå-la. Embora fosse um grupo temporårio, ela havia se familiarizado com o mestre de clã e, preocupada com ele, veio procurå-lo. Não quero desperdiçar suas boas intençÔes. A compassiva Tino também sentia pena da mulher, que estava tão aflita por causa desses rumores infundados. Após alguns segundos de hesitação, ela abriu a boca.

— Mestre jĂĄ encontrou um jeito de obter a RelĂ­quia — disse Tino com firmeza e objetividade. — As dĂ­vidas dele… podem ser resolvidas, entĂŁo vocĂȘ nĂŁo precisa se preocupar.

— Hã? — Rhuda arregalou os olhos. — Tem certeza?

Pelo que Tino sabia, ninguĂ©m na capital imperial poderia competir com o Mestre no quesito colecionismo. De fato, certa vez, ela havia seguido Liz atĂ© o quarto dele e viu que o lugar estava decorado com uma quantidade incontĂĄvel de RelĂ­quias. Havia facilmente mais de uma centena delas expostas. Desde as mais comuns atĂ© aquelas que nĂŁo tinham sequer rumores associados, sua coleção provavelmente superava qualquer loja de RelĂ­quias da capital. O valor das RelĂ­quias variava conforme a demanda, mas se ele convertesse tudo em dinheiro, facilmente teria mais de dez bilhĂ”es de gild. O termo “caçadores de tesouros”, sempre Ă  procura de riquezas, nĂŁo poderia descrever melhor o Mestre de Tino. E… tenho certeza de que dĂ­vidas tambĂ©m nĂŁo sĂŁo um problema.

O rosto de Sitri passou pela mente de Tino, fazendo-a estremecer. Siddy provavelmente admirava o Mestre ainda mais do que Lizzy — eram irmĂŁos de alma. Na verdade, Siddy nĂŁo apenas permitiria que o Mestre contraĂ­sse dĂ­vidas, como tambĂ©m emprestaria alegremente todo o dinheiro que tivesse. Isso era Ăłbvio atĂ© para Tino, que tentava evitar sua irmĂŁ sempre que possĂ­vel. Se Siddy nĂŁo tivesse dinheiro suficiente, certamente recorreria a qualquer meio necessĂĄrio para conseguir os gild necessĂĄrios. Tino balançou a cabeça, tentando afastar da mente o olhar ameaçador de Siddy sempre que ela se aproximava do Mestre.

— Mestre sempre consegue qualquer Relíquia que deseja — disse Tino. — Acho que essa informação boba foi espalhada de propósito por ele.

— HĂŁ? SĂ©rio?

— Acho que sim.

Como isso nĂŁo poderia ser calculado? NĂŁo havia razĂŁo para ele se humilhar diante de Ark Rodin e pedir dinheiro na frente de uma grande multidĂŁo, e ele nĂŁo precisava parecer tĂŁo obcecado com dinheiro no salĂŁo. Tino nĂŁo fazia ideia dos esquemas geniais do Mestre, mas sabia que ele sempre tramava algo grandioso. E os resultados sempre eram incrĂ­veis. Eu mesma nĂŁo entendo direito, mas sei que sĂŁo.

Rhuda lançou um olhar duvidoso antes de recuperar a compostura. Então, inclinou-se para frente, olhou ao redor, preocupada com os arredores, e sussurrou no ouvido de Tino.

— Então, Tino, o que exatamente Krai está buscando?

— Uma mĂĄscara esquisita — Tino sussurrou de volta. — Parece uma RelĂ­quia antiga que o Mestre tinha, mas acho que Ă© um item completamente diferente. NĂŁo sei que poder ela tem.

— Awww… Eu tava meio curiosa sobre isso.

Um Rosto Reversível era a Relíquia favorita do Mestre até recentemente. A atual com certeza era diferente. Ouvi dizer que a Relíquia tinha uma reputação tão ruim que Lizzy a esmagou em pedaços. Admitidamente, Tino também não era fã do item, jå que ele frequentemente mudava de rosto.

— “Essa sim Ă© a verdadeira Mil Truques!” — o Mestre havia dito, fazendo todos ao seu redor estremecerem. Nem mesmo Siddy conseguiu dar uma risada sincera. E quem poderia culpĂĄ-la? Por mais que o que importasse fosse o interior, ninguĂ©m ficaria feliz ao ouvir que a pessoa que admira estava olhando extasiada para um rosto mutĂĄvel enquanto o chamava de Mil Truques.

Mestre Ă© uma pessoa incrĂ­vel, mas ele estĂĄ tĂŁo Ă  frente de mim que eu simplesmente nĂŁo consigo entendĂȘ-lo.

— B-Bem, se vocĂȘ tem certeza… — Rhuda disse. — Todo mundo tĂĄ cochichando rumores, e eu sabia que ele ficaria bem, mas…

Provavelmente era verdade que tanto nobres quanto comerciantes estavam se envolvendo. Outros caçadores tambĂ©m estavam fofocando sobre isso, afinal. Era praticamente garantido que essa RelĂ­quia dispararia de preço — isso jĂĄ havia acontecido antes em leilĂ”es.

O que estava prestes a começar era uma batalha pelo limite. Somente caçadores de primeira linha tinham alguma chance contra comerciantes e nobres. Mas por que todos estão tão preocupados com o Mestre? Ele pode parecer um pouco inconstante, mas isso não passa de sua imagem. Seu alto nível com certeza atesta suas habilidades. Para Tino, que se sentia insignificante em comparação, era difícil entender essa linha de pensamento.

— Ah, e a propĂłsito, o que vocĂȘ tĂĄ fazendo aqui, Tino? Parece que todo mundo tĂĄ correndo atrĂĄs de missĂ”es.

— J-JĂĄ que eu nĂŁo posso treinar, queria ganhar o mĂĄximo de dinheiro possĂ­vel e ajudar o Mestre… — Tino falou com os olhos baixos, sua voz sumindo no ar.

***

No escritório do mestre de clã, uma discussão acalorada entre Sitri e Eva havia começado. Para elas, eu era tratado como um mero espectador, e fiquei tentado a sair de fininho e comprar um docinho ou dois.

— Como eu acabei de dizer, se eu parar de vender minhas poçÔes e a Passos se recusar a fornecer materiais, tenho certeza de que a grande maioria das empresas comerciais cooperaria conosco — explicou Sitri.

— PoçÔes Ă  parte, vocĂȘ pretende comprar briga com as empresas comerciais?! — gritou Eva. — Isso tambĂ©m nos traria problemas se os negĂłcios desmoronassem!

— Bem, isso Ă© algo com que vocĂȘ tem que lidar, entĂŁo nĂŁo Ă© realmente da minha conta… Mas se for pelo Krai, estou disposta a mudar a localização da minha base, entĂŁo realmente nĂŁo me importo com os mercadores desta nação. Acho que todos concordariam comigo.

Ela é tão extrema. Em contraste com a séria Eva, Sitri tinha um sorriso brincando nos låbios.

— Achei que minha loja estava ficando um pouco grande demais para o meu gosto de qualquer forma — acrescentou Sitri. — Antes de qualquer coisa, Krai Ă© o nosso lĂ­der. Ele nĂŁo Ă© apenas o mestre do clĂŁ.

Parecia que ela não se preocupava com o bem-estar do clã que construímos. Eu não podia culpå-la; fui eu quem quis um clã, e ela pouco se importava com seus membros. Recentemente, parei completamente de explorar cofres de tesouro, o que a desagradou bastante. Os ombros de Eva tremiam de raiva com os comentårios mordazes de Sitri, e eu rapidamente intervim para tentar amenizar a situação antes que as faíscas voassem na minha direção.

— NĂŁo faça isso, Sitri — eu disse. — VocĂȘ nĂŁo pode pressionar as companhias comerciais. Sei que negociaçÔes podem incluir esse tipo de conversa, mas nĂŁo podemos ser desumanos com pessoas a quem estamos endividados.

O que vai acontecer com o clã se Eva for embora? Eu até estou deixando ela lidar com assuntos estrangeiros.

— Entendido — Sitri disse, relutante. — Mas se nĂŁo podemos espalhar rumores ou negociar com os mercadores…

— SĂł estou avisando que ambas as opçÔes sĂŁo contra a lei imperial — Eva interveio.

Sim, eu sei. Eram métodos ilegais. Meu erro, ok? Não preciso mais daquela måscara. Sitri olhou para mim com um sorriso brilhante.

— EntĂŁo por que nĂŁo negociamos com o vendedor mais uma vez? — ela sugeriu. — Se nĂŁo formos muito exigentes com o mĂ©todo, talvez possamos obter o item por um preço baixo. Podemos dizer que o vendedor se intimidou com a confusĂŁo e deixou o impĂ©rio com o rabo entre as pernas. Parece um cenĂĄrio plausĂ­vel, nĂŁo Ă©?

— Hmm? Acho que nĂŁo — respondi. — NinguĂ©m vai aceitar essa justificativa, eu acho.

Eu nĂŁo entendia muito bem de onde ela estava tirando isso, mas nĂŁo havia chance de Arnold simplesmente concordar sĂł porque acrescentamos uma pequena taxa extra.

Sitri continuou pensativa:

— Hmm, isso pode causar um pouco de confusĂŁo, mas seria melhor se Lady Éclair nĂŁo estivesse por perto. O que vocĂȘ acha?

— HĂŁ? NĂŁo acho que ela vĂĄ simplesmente… desaparecer. Ela tambĂ©m nĂŁo parece gostar muito de mim.

Embora seus motivos fossem desconhecidos, talvez fosse porque ela gostava de Ark. Ele e eu nĂŁo tĂ­nhamos uma relação ruim, mas aparentemente os caçadores novatos de Zebrudia estavam divididos em duas facçÔes: a minha e a dele. SĂł para constar, eu definitivamente fazia parte da facção do Ark — era Ăłbvio para mim.

— Mas hĂĄ muitos caçadores grosseiros por aĂ­, e Ă© claro que ela Ă© rica — Sitri concluiu. — AlĂ©m disso, ela Ă© famosa por nĂŁo gostar de caçadores. NĂŁo seria estranho se ela fosse sequestrada, e hĂĄ muitos caçadores dispostos a fazer qualquer coisa por dinheiro. O que vocĂȘ acha?

— Hã? Aposto que ela tem guardas ao seu redor. Ela deve estar bem.

Ela era filha de um nobre. Zebrudia era conhecida por seus caçadores, e os nobres sempre contratavam guardas à altura. Sitri cruzou os braços na frente do peito e gemeu alto.

— Mas eu nĂŁo acho que nenhum deles seja resistente Ă  minha mistura original — ela disse. — VocĂȘ precisa de material de mana e entĂŁo direcionĂĄ-lo para longe do crescimento de mana.

No passado, Sitri criou uma poção venenosa original que era eficaz contra fantasmas. Como funcionava contra fantasmas e monstros, certamente funcionaria contra humanos, mas aparentemente apenas ela sabia fazer, e havia pouca chance de seu item ter vazado para outro lugar.

— Mhm, aham — eu disse. — Mas jĂĄ que sĂł vocĂȘ pode fazer, nĂŁo tem como estar no mercado.

Foi entĂŁo que ela bateu as mĂŁos como se eu estivesse exatamente certo.

— Não se preocupe, eu me certifiquei de que Talia soubesse como fazer. Perfeito para momentos como este!

HĂŁ? NĂŁo se preocupe? Eu nĂŁo achava nem por um segundo que Talia trairia Sitri.

— Só porque Talia sabe, não significa que ela vá vazar sua receita — eu disse. — Isso parece altamente improvável.

— HĂŁ, acho que vocĂȘ tem razĂŁo.

Sitri mais uma vez parecia perdida em pensamentos. Eva, que estava ouvindo em silĂȘncio com os olhos arregalados, finalmente decidiu falar algumas palavras.

— E-Espera um segundo. VocĂȘs nĂŁo estĂŁo falando sĂ©rio… estĂŁo?

— HĂŁ? — perguntei. — O que vocĂȘ quer dizer?

Eu disse alguma coisa? Sinto que estou perdendo o fio da conversa. Eva estava encarando Sitri, que inclinou a cabeça para o lado, confusa.

— HĂŁ? Er, bem… — Eva gaguejou. — E-Eu sei que vocĂȘ nĂŁo Ă© assim, Krai. Eu acredito em vocĂȘ. Eu acredito mesmo.

Sitri começou a murmurar para si mesma.

— Bem, se nĂŁo podemos ir atĂ© o vendedor e nĂŁo podemos leiloĂĄ-la, a Ășnica coisa que podemos fazer para conseguir a RelĂ­quia Ă©… Bem, talvez antes, mas esse risco Ă© muito grande…

Pelo seu olhar sĂ©rio, estava claro que ela queria conseguir aquela RelĂ­quia para mim a qualquer custo. Mas eu nĂŁo tinha intenção de usar mĂ©todos obscuros para obtĂȘ-la. Eu apenas participaria do leilĂŁo diretamente e, se nĂŁo conseguisse, ficaria por isso mesmo. Na verdade, talvez fosse atĂ© melhor se eu nĂŁo conseguisse, nesse ritmo. Por favor, use seu dinheiro para o casamento para vocĂȘ mesma.

— Agradeço suas ideias, mas vocĂȘ nĂŁo precisa fazer nada — eu disse. — Vou apenas dar meu lance no leilĂŁo de forma justa, e se eu falhar, eu falhei. Eu nem quero tanto assim.

— Se vocĂȘ diz, Krai — Sitri disse. — EntĂŁo vou fazer o meu melhor para juntar mais fundos.

Sinceramente, vocĂȘ nĂŁo precisa fazer isso tambĂ©m. Oitocentos milhĂ”es jĂĄ parecia mais do que suficiente. Pela primeira vez desde que cheguei Ă  capital imperial, eu estava ansioso para que o leilĂŁo terminasse. Ao ver uma Sitri determinada e uma Eva carrancuda, eu rezei para que toda essa confusĂŁo acabasse sem mais problemas.


Tradução: Carpeado
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