Grieving Soul – Capítulo 3 – Volume 3

Home/Light Novel / Let This Grieving Soul Retire / Grieving Soul – Capítulo 3 – Volume 3

Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 03

CapĂ­tulo 3:
[A ConvergĂȘncia e o PandemĂŽnio]


Como isso foi acabar assim? Contemplei enquanto lançava um sorriso meio sem graça na direção da sobrinha de Gark; por outro lado, ela, vestida casualmente, exibia um sorriso radiante no rosto.

A cafeteria, bem prĂłxima Ă  sede do clĂŁ, estava bastante movimentada, mesmo em uma tarde de dia Ăștil.

Normalmente, eu nĂŁo chamava muita atenção, mas hoje podia sentir um nĂșmero incomum de olhares sobre mim—culpa da Chloe.

A Srta. Sobrinha, sendo o rosto da Associação, era obviamente uma beleza animada. Sua aparĂȘncia se encaixava perfeitamente, mesmo entre a multidĂŁo de pessoas atraentes ao nosso redor. E assim, uma garota como ela certamente chamaria atenção ao ser vista com um homem como eu. No entanto, Chloe parecia completamente indiferente a isso. Talvez um pouco nervosa, ela corou levemente, mas nĂŁo parecia incomodada.

— Desculpe incomodar de repente, sei que está ocupado.

Eu estava apenas polindo diligentemente minhas Relíquias quando Chloe Welter apareceu na sede do clã. Aparentemente, ela levou a sério minha cordialidade em nosso encontro anterior e decidiu fazer uma visita no dia de folga.

Não era para me gabar, mas eu era uma pessoa facilmente influenciåvel. Eu evitava problemas óbvios, mas, fora isso, era bastante aberto a tudo. E quando se tratava de um convite da sobrinha de Gark, considerando as implicaçÔes que viriam, eu não tinha escolha senão aceitar. Embora eu tivesse recusado se o próprio Gark tivesse vindo. Fiquei um pouco em alerta, mas Chloe parecia ter vindo apenas para bater papo.

As aparĂȘncias podem enganar, mas aparentemente, Chloe era fĂŁ de Grieving Souls. Havia algumas equipes de caçadores com status de celebridades, mas era raro que nosso grupo, propenso a problemas de vĂĄrias formas, tivesse fĂŁs. FĂŁs individuais (nĂŁo que eu tivesse algum) Ă  parte, esta era a primeira vez que eu encontrava uma fĂŁ de um grupo inteiro.

— Hmm? “O que tem de tĂŁo bom em vocĂȘs?” Bem, claro, vocĂȘs sĂŁo… muito fortes, senhor.

— Hmm, entendo. É mesmo? Obrigado.

Como esperado da sobrinha de Gark—ela era uma verdadeira entusiasta da força.

Assenti em apreciação, embora em um ponto peculiar.

Chloe era uma garota simpĂĄtica, com uma aura que iluminava o ambiente ao seu redor. Era fĂĄcil entender por que ela era popular.

Eu não era particularmente eloquente e sentia que poderia acabar falando algo desnecessårio. Eu adoraria que ela deixasse a Associação e se juntasse ao nosso clã como recepcionista, mas provavelmente levaria uma surra de Gark se ele descobrisse.

Enquanto trocĂĄvamos palavras tranquilamente, a conversa acabou se voltando para Arnold.

— A propĂłsito, ouvi dizer que vocĂȘ conseguiu repelir o Crashing Lightning, nĂŁo foi?

— Ah, isso…

Esse era o problema mais incĂŽmodo que eu estava enfrentando no momento.

Soltei um suspiro profundo.

— Cara, isso Ă© irritante. Pode parecer estranho eu falar disso com vocĂȘ, mas nĂŁo pedi ao Gark para dar um aviso forte ao Arnold? NĂŁo sei o que aconteceu, mas ele parecia superfurioso. Fiquei surpreso.

— Hmm? Acho que qualquer um ficaria furioso se ouvisse isso. VocĂȘ disse algo sobre esquecĂȘ-los e sobre querer que eles lhe entregassem carne de DragĂŁo do TrovĂŁo—isso nĂŁo foi uma provocação?

Chloe arregalou os olhos e cobriu a boca com as mĂŁos.

Isso era novidade para mim.

Me entregar carne de DragĂŁo do TrovĂŁo? Eva tentou me fazer um favor pedindo isso? Pedir carne de DragĂŁo do TrovĂŁo a caçadores que receberam o tĂ­tulo de “Matadores de DragĂ”es” por derrotarem um era crueldade.

Mas, mesmo assim, isso nĂŁo chegava nem perto de um “aviso forte”.

Cara, Gark! HĂĄ quanto tempo vocĂȘ me conhece?

— Minhas desculpas, mas acho que o Tio Gark gosta bastante de vocĂȘ, entĂŁo a atenção dele inevitavelmente se volta para vocĂȘ.

Ele Ă© um sĂĄdico? Com certeza Ă©.

Ele é mesmo um brutamontes; não faço ideia do que ele estå pensando. Em que mundo as pessoas jogam um cara monstruoso como esse em cima de alguém de quem gostam?

Eu queria reclamar mais um pouco, mas decidi deixar para lĂĄ para nĂŁo desagradar Chloe com minhas lamĂșrias.

Se alguma coisa, me considerei sortudo por encontrå-la aqui: eu poderia comunicar minhas intençÔes diretamente a ela.

Com uma expressão séria, disse:

— De qualquer forma, estou realmente ocupado agora, então quero resolver isso da melhor forma possível.

— Da melhor forma possĂ­vel…?

— Primeiro, vamos retirar a parte sobre “esquecĂȘ-los”—talvez eu nĂŁo possa realmente retirar isso, mas jĂĄ tomei nota deles. Acho que nĂŁo vou esquecĂȘ-los por enquanto… provavelmente.

— Entendo… “NĂŁo vai esquecĂȘ-los por enquanto”, vocĂȘ diz…

Minha memĂłria Ă© bem ruim, sabe.

Fora de serviço, Chloe pegou um bloco de notas do bolso e anotou cuidadosamente minhas palavras um tanto incertas.

— E sobre o pedido para caçar um DragĂŁo do TrovĂŁo, vocĂȘ pode cancelĂĄ-lo tambĂ©m.

— SĂ©rio? Cancelar? HaverĂĄ uma taxa de cancelamento.

— Ah, nĂŁo se preocupe, nĂŁo se preocupe. AlĂ©m disso, experimentei e percebi que frango tem um gosto melhor.

— Certo, vocĂȘ estĂĄ cancelando porque “frango tem um gosto melhor”… Uh, isso significa que vocĂȘ estĂĄ provocando eles?

— Hã? Onde está a provocação nisso?

Chloe me olhou com uma expressĂŁo atribulada e disse diretamente:

— Krai, isso Ă© provocação.

Oh cara… Agora que parei para pensar, a sensibilidade daquele cĂ©rebro de mĂșsculo do Arnold e a minha delicada pessoa obviamente nĂŁo estĂŁo nem perto de ser as mesmas.

— Bem, nĂŁo acho que um caçador que ficou furioso uma vez desistiria tĂŁo facilmente assim—entĂŁo, o que vocĂȘ acha do Arnold?

O que eu acho?

Ouvindo sua pergunta, comecei a relembrar meus encontros com Arnold até agora e realmente considerei a questão.

Ele Ă©… violento e explosivo? Embora isso seja comum entre os caçadores. Ir atrĂĄs dos mais fortes sem considerar os problemas que causa para os outros? Luke faz isso com frequĂȘncia tambĂ©m; provavelmente Ă© um traço comum entre caçadores.

Cruzei os braços e fechei os olhos, e a reação de Arnold ao ver Liz pela primeira vez na taverna surgiu na minha memória.

— Ele… gosta de peitos grandes? — soltei sem pensar.

— Hã?

— Ah, nĂŁo, nĂŁo Ă© nada…

NĂŁo importa como eu colocasse, “Ele gosta de peitos grandes” de jeito nenhum era uma resposta apropriada para a pergunta “O que vocĂȘ acha do Arnold?”

Um comentĂĄrio estranho escapou da minha boca.

Talvez ele sĂł nĂŁo gostasse de seios pequenos, ou talvez fosse mais do tipo que prefere bundas.

Felizmente, Chloe parecia confusa. Parecia que ela nĂŁo tinha ouvido o que eu disse.

Mas, de alguma forma, isso estava me irritando. Senti uma onda de sonolĂȘncia surgindo e soltei um grande bocejo.

Por que tenho que pensar tanto sobre o Arnold? Nosso encontro jĂĄ tinha acabado de qualquer maneira.

De repente, Chloe, que estava olhando para meu rosto bobo, soltou uma risadinha.

— Heh… heh heh…

— Ah, desculpe, desculpe. Estou um pouco sonolento.

— N-NĂŁo, me desculpe. É que vocĂȘ reagiu exatamente como o Tio Gark descreveu.

Sério, o que o Gark estå contando para a Chloe?

Eu tinha sentimentos mistos sobre querer saber ou não, mas considerando a reação dela, talvez não fossem comentårios ruins.

Enquanto tentava desviar do assunto com um sorriso sem graça, Chloe de repente mudou sua expressão.

Ela hesitou por um tempo, olhou para a xĂ­cara de chĂĄ Ă  sua frente e entĂŁo me encarou como se tivesse tomado uma decisĂŁo. Suas pupilas negras pareciam tentar me perfurar com o olhar, buscando discernir minha verdadeira natureza.

— Hm… falando nisso, tem algo que sempre quis te perguntar…

— Hmm? Manda ver.

— Krai, vocĂȘ se lembra da Ă©poca em que vim fazer o teste de entrada para a Mil Truques?

NĂŁo pude evitar ficar boquiaberto para Chloe.

Eu me lembro? Não, não lembro—por outro lado, não lembrava, mas agora lembro.

A Primeiros Passos teve um teste de entrada apenas por um período muito curto, especificamente quando foi fundada. Com grupos promissores como seus fundadores, a Primeiros Passos atraiu inscriçÔes de vårios grupos que eram uma mistura de trigo e joio.

Naquela Ă©poca, eu estava um pouco mais sĂ©rio e realmente prestei atenção nos testes. Infelizmente, houve um nĂșmero considerĂĄvel de candidatos, entĂŁo nĂŁo lembrava dos detalhes de cada pessoa. Mas considerando a idade atual da Chloe, ela deveria ser menor de idade na Ă©poca, e se fosse esse o caso—sim, eu lembrava. Quase nĂŁo houve candidatas que fossem tĂŁo jovens quanto ela na Ă©poca, entĂŁo seu teste ficou armazenado em algum canto da minha memĂłria.

Assenti solenemente.

— A-Ah, sim, claro. Foi aquele que o Luke supervisionou, certo?

— S-Sim! Esse mesmo!

EntĂŁo eu acertei?

Embora tenha ficado surpreso que uma garotinha minĂșscula tivesse vindo fazer o teste de entrada, fiquei ainda mais surpreso com o conteĂșdo infantil do teste do Luke—nĂŁo saia por aĂ­ batendo em garotas menores de idade!

Entendi. Isso me traz lembranças.

Semicerrei os olhos, relembrando coisas que havia esquecido até agora e me perdi na nostalgia.

Chloe me interrompeu.

— S-Sim, entĂŁo eu queria saber: naquela Ă©poca, eu, hm, fui completamente derrotada pelo Luke, se bem me lembro…

Sinto muito por isso, mas… ninguĂ©m venceu o Luke naquele teste.

Luke era um idiota (ou melhor, deveria dizer ingĂȘnuo?), mas era absolutamente sincero, e por isso era muito forte. Ele era tĂŁo idiota que levou a sĂ©rio minhas teorias irresponsĂĄveis de combate e treinou de acordo com elas.

A GRATIDÃO DÁ PODER ÀS PESSOAS, OKAY?

— E-EntĂŁo, o Luke me disse naquela Ă©poca que eu tinha talento!

A voz um tanto febril da Chloe fez os outros clientes da loja virarem as cabeças em nossa direção, curiosos.

Ah Ă©, ele disse isso. De fato, disse mesmo.

Ele era um idiota, mas tirando isso, era perfeito (suponho que se possa considerar a ingenuidade uma virtude).

Eu não duvidava do que ele disse, e eu também fiquei silenciosamente surpreso.

— Mas, mesmo assim, Krai, vocĂȘ julgou que eu tinha falhado por pouco! NĂŁo Ă© que eu esteja brava por ter falhado no teste. Desisti de ser uma caçadora depois disso e, desde entĂŁo, me tornei funcionĂĄria da Associação. Meus dias como funcionĂĄria da Associação sĂŁo muito satisfatĂłrios e divertidos—mas eu quero saber! Por favor, Krai, me diga! Com a visĂŁo excepcional pela qual vocĂȘ jĂĄ era conhecido naquela Ă©poca, o que foi que vocĂȘ viu que faltava em mim naquele tempo?

Coisas que faltavam nela?

Eu adoraria dizer que não lembrava, mas eu lembrava. Eu era desleixado no geral, mas estava um pouco melhor naquela época. Mas, mesmo assim, eu ainda era o mesmo de sempre.

Semicerrei os olhos e, com suor frio escorrendo pelas costas, disse:

— Chloe, vocĂȘ, com seu eu atual, deveria saber a resposta sem que eu precise dizer.

— O quĂȘ…?

Os olhos marejados de Chloe se arregalaram, e seus lĂĄbios tremeram.

Levantei-me na hora e sorri ao pegar a conta.

— Pelo menos, se a Chloe de agora tivesse vindo para o teste de entrada naquela Ă©poca, eu teria te aprovado sem dĂșvidas.

—?! V-VocĂȘ quer dizer…

— Mas sim, eu entendo; vocĂȘ nĂŁo voltaria. VocĂȘ estĂĄ feliz sendo funcionĂĄria da Associação, certo? Deve valorizar a vida que estĂĄ vivendo. Muitos caçadores esperam ansiosos para te ver.

— VocĂȘ tem razĂŁo — respondeu Chloe em voz fraca, assentindo.

Parece que consegui sair dessa sem me tornar inimigo do Gark.

Ufa.

— Bem, vou indo. Continue com o bom trabalho, Chloe.

— Obrigada… Eu continuarei.

— E cuide dos assuntos relacionados ao Arnold para mim, pode ser? Estou contando com vocĂȘ.

Ela não disse nada em resposta, mas senti seu aceno de cabeça.

Sem olhar para trĂĄs, paguei a conta e saĂ­ da loja.

Meu coração batia como sinos de igreja.

No momento, eu era quem conduzia as entrevistas de admissão para nossos possíveis recrutas. Por isso, jå estava acostumado a desviar da verdadeira razão para uma rejeição. De alguma forma, consegui escapar dessa vez, mas me pergunto o que Chloe pensaria se descobrisse.

Era Ăłbvio que a Chloe do passado nĂŁo teria sido aprovada. No momento do teste dela, ela estava apenas começando a entrar na vida adulta, ainda nem tinha quinze anos. NĂŁo havia uma regra especĂ­fica que exigisse que os caçadores fossem adultos, mas, para ser sincero, eu nĂŁo queria admitir solos menores de idade, que nĂŁo podiam ser responsabilizados pessoalmente, no clĂŁ — por mais promissores que fossem. Honestamente, eu nunca imaginei que alguĂ©m desistiria de ser caçador por causa disso.

Sinto muito, Chloe; de verdade. Mas parece que vocĂȘ estĂĄ levando uma vida feliz agora. Por favor, me perdoe.

Pedindo desculpas sinceramente em meus pensamentos, subi correndo as escadas da casa do clĂŁ.

***

Chloe permaneceu sentada por um tempo, refletindo sobre o significado das palavras de Krai depois que ele foi embora.

Ela sempre se perguntou. Mesmo levando uma vida satisfatória como funcionåria da Associação, ela sempre quis perguntar a ele a verdade um dia.

Mas talvez, como as palavras de despedida de Krai Andrey sugeriam, Chloe jĂĄ soubesse a resposta o tempo todo. Mesmo que nĂŁo conseguisse colocar em palavras, talvez sentisse algo.

Seus dias como funcionĂĄria da Associação dos Exploradores certamente a mudaram. A Chloe de agora sabia um pouco mais sobre os caçadores de tesouros do que naquela Ă©poca: aprendeu mais sobre os perigos da profissĂŁo, sobre a coragem e a dedicação incrĂ­veis daqueles que se envolviam nela, e sobre o quĂŁo benĂ©fica era a presença deles para o paĂ­s — Chloe testemunhou tudo isso de perto nos Ășltimos dois anos. Havia caçadores que desistiam por nĂŁo terem talento suficiente, enquanto outros eram expulsos de seus grupos por arrogĂąncia. Alguns costumavam se alinhar diante de Chloe e, de repente, desapareciam. Outros, que ela pensava estarem mortos, surgiam do nada.

Olhando para trĂĄs, ela percebeu como havia sido ingĂȘnua naquela Ă©poca. Por ser elogiada por todos, acabou ficando um pouco convencida e vivendo dentro de uma bolha. Era uma novata, e naturalmente, como qualquer um, nĂŁo sabia de nada. Mas entĂŁo, uma dĂșvida surgiu. Aquele jovem, o Mil Truques, realmente a rejeitou apenas por esse motivo?

Por um momento, ela refletiu, mas nada lhe veio à mente. Krai Andrey não lhe deu uma resposta. Talvez isso também fizesse parte das famosas Mil ProvaçÔes.

— Não há significado em respostas que não se descobre sozinho, nem em respostas entregues de bandeja. — Certamente, era isso que aquele jovem diria.

Chloe respirou fundo e se levantou. Por enquanto, havia uma coisa que sabia: ela estava feliz por ter reunido coragem para falar com ele. NĂŁo havia conseguido uma resposta clara, mas, por algum motivo, sentia-se aliviada.

Krai Andrey disse que ela havia mudado. Ele reconheceu seu crescimento.

Ela apenas teria que continuar refletindo sobre qual seria a verdadeira resposta, e certamente, um dia, entenderia de verdade o que ele quis dizer.

A Chloe de agora tinha suas responsabilidades como recepcionista da Associação dos Exploradores. Ela não pÎde se juntar às caçadas como membro do clã, mas ainda podia apoiå-los de uma posição diferente.

— “A gratidĂŁo fortalece as pessoas”, hein…

Ela refletiu sobre as palavras que Luke havia dito uma vez.

Se ele estivesse certo, entĂŁo ela provavelmente havia se tornado um pouco mais forte hoje do que a Chloe de ontem.

Com o humor levemente elevado, Chloe Welter voltou para onde agora pertencia.

Mas, Krai, ainda acho seriamente que aquela mensagem foi uma provocação, pensou.

***

— Eu devo ter ouvido errado.

A expressĂŁo de Arnold mudou notavelmente apĂłs receber a mensagem. Seu rosto jĂĄ carrancudo se contorceu ainda mais, e inĂșmeras veias saltaram em sua testa.

Diante de sua postura intimidadora, Chloe, que jĂĄ lidou com todo tipo de caçador de aparĂȘncia ameaçadora, sentiu-se um pouco paralisada. Enquanto isso, o salĂŁo antes barulhento ficou em silĂȘncio diante da tensĂŁo crescente. Arnold nĂŁo entrou em fĂșria nem gritou com Chloe; no entanto, a forma como um caçador de NĂ­vel 7 silenciosamente reprimia sua raiva era simplesmente aterrorizante.

AtrĂĄs dele, o vice-lĂ­der do grupo, com o rosto ligeiramente contraĂ­do, sussurrou:

— Arnold, lembre-se de que esse cara Ă© escorregadio.

— Sim, eu sei. Ele está tentando me provocar. Droga, que provocação sem sentido.

Respirando de forma controlada, Arnold concentrou sua energia no abdĂŽmen. As veias pulsantes se acalmaram e a aura violenta que emanava de todo seu corpo diminuiu.

Instintivamente, Chloe arregalou os olhos ao ver aquilo.

Ele era forte — nĂŁo apenas fisicamente, mas tambĂ©m mentalmente. NĂŁo eram muitos os caçadores capazes de manter a compostura enquanto suprimiam uma raiva fervente. Essa era, de fato, a postura de um herĂłi. Mesmo sob uma visĂŁo tendenciosa, sua presença avassaladora estava muito alĂ©m da de Krai.

— Ei, diga ao Mil Truques: “Pare de nos provocar. E se prepare; estamos indo atrĂĄs de vocĂȘ.”

— O—huh? O quĂȘ?

Com isso, Arnold e seu grupo partiram com os ombros erguidos.

Chloe pensou: E foi exatamente isso que eu imaginei que aconteceria se eu dissesse exatamente o que Krai me mandou dizer.

Mas Krai Andrey era o Mil Truques, um homem com uma capacidade de previsão tão excepcional que diziam que ele podia ver o futuro. Sabendo que poderia haver uma intenção oculta por trås de suas palavras, ela não poderia simplesmente alterå-las arbitrariamente. Estaria deixando escapar alguma coisa? Ou serå que ele realmente pretendia provocå-los, apesar de insistir que não era uma provocação?

Observando o grupo se afastar, Chloe refletiu sobre o que estava faltando.

EntĂŁo, ao se lembrar de que havia esquecido de transmitir uma mensagem importante, Chloe se levantou de um salto antes mesmo de perceber.

— Esperem, Arnold, esqueci de dizer uma coisa!

— Tsk. O quĂȘ?

Arnold se virou. Embora tivesse suprimido sua aura ameaçadora, sua raiva contida ainda era visível.

Depois de refletir sobre as palavras de Krai, Chloe percebeu o que havia deixado passar. Sua mente ficou em branco, sem saber o que fazer a seguir. Pensando bem, ele nem havia dito para ela transmitir aquela mensagem.

— Hm… bem… ah, Krai tem algo a dizer para vocĂȘ, ou melhor… Ă© a impressĂŁo que ele tem de vocĂȘ…

Ela nĂŁo deveria tĂȘ-lo parado sĂł por isso, pensou. A mensagem que havia esquecido seria como jogar gasolina no fogo jĂĄ ardente, para dizer o mĂ­nimo.

Mesmo agora que se lembrava das palavras dele, ainda questionava se nĂŁo teria ouvido errado.

— D-desculpa. Finja que não disse nada.

Ela se desculpou. Mas, infelizmente, jå havia atiçado o interesse de Arnold.

Seu olhar penetrante cravou-se em Chloe, e ela instintivamente estremeceu de medo, como uma presa diante de um predador.

— A impressĂŁo do Mil Truques sobre mim, Ă© isso? Fale.

— …

— Eu disse, “fale”.

— É um pouco… uh… como posso dizer? NĂŁo sĂŁo exatamente as palavras mais adequadas para descrever um caçador experiente…

— Apenas cuspa logo! NĂŁo Ă© a primeira vez que ele tira sarro de mim.

Ela escolheu as palavras com cuidado, na esperança de que Arnold desistisse do assunto, mas ele permaneceu absolutamente inflexível.

Não havia saída para aquela situação. E ela também não podia mentir.

Reunindo toda a sua coragem, ela disse, lentamente:
— Ele disse que v-vocĂȘ gosta de p-peitos grandes.

A expressĂŁo furiosa de Arnold desapareceu num instante, substituĂ­da por uma perplexidade total.

— Hã? Eu ouvi errado, não ouvi? Repita.

Como Ă© que eu fui me meter nessa? pensou Chloe.

Seu rosto corou de vergonha, e, tomada pela emoção, ela bateu o punho no balcão e gritou bem alto:
— Ele disse que vocĂȘ gosta de peitos grandes!

***

A humilhação foi tão intensa que Arnold sentiu como se seus vasos sanguíneos fossem explodir—era a primeira vez que era ridicularizado tão profundamente desde que se tornara um caçador.

De alguma forma, conseguiu se controlar sem deixar que a raiva o dominasse enquanto voltavam para sua hospedagem. De volta ao alojamento, ele se afundou pesadamente em uma cadeira.

Mantendo um tom calmo, Eigh falou com Arnold, que estava nauseado de tanta raiva:
— Acalme-se, acalme-se. Tudo isso Ă© sĂł mais um dos truques dele!

— Sim, eu sei.

A raiva, às vezes, permitia que as pessoas lutassem com um vigor além de suas capacidades reais, mas ceder a ela naquele momento seria uma péssima ideia.

AtravĂ©s de um Ășnico encontro, Arnold havia compreendido a anormalidade em torno de Krai Andrey: Ă  primeira vista, ele parecia um cidadĂŁo comum, e ainda assim, o “ataque” que havia lançado era algo completamente fora do comum.

Para começar, um Ășnico feitiço que apenas o imobilizasse, sem derrotĂĄ-lo por completo, jĂĄ seria algo praticamente inexistente para alguĂ©m de NĂ­vel 7 como ele. AlĂ©m disso, o mais estranho de tudo era que Arnold mal havia sentido mana vinda do Mil Truques.

Mesmo após dias de reflexão, Arnold ainda não conseguia entender a mecùnica daquele ataque. Sem contar que lançar uma magia daquele nível sem qualquer encantamento era para ser impossível.

Quando o Mil Truques atacou, ele tirou um pingente debaixo da roupa. A explicação mais plausível que Arnold encontrou foi que aquele pingente era uma Relíquia e que provavelmente havia sido usado para auxiliå-lo no lançamento do feitiço. Mas isso era o måximo que ele conseguia deduzir.

Depois de enfrentå-lo, Arnold finalmente entendia o motivo dos rumores sobre ele mandar um golem pelos ares apenas com sua aura. Ele era extremamente peculiar e absurdamente poderoso. Arnold concordava que sua certificação de Nível 8 era justificada.

Ele era um oponente perigoso demais para ser enfrentado diretamente. Como o próprio Mil Truques havia dito naquele momento, ele havia se contido no ataque. Se o efeito original do feitiço tivesse sido liberado por completo, seu grupo poderia ter sido aniquilado instantaneamente. Como líder da equipe, Arnold não podia tomar decisÔes que colocassem seu time em risco extremo.

Arnold suprimiu sua prĂłpria raiva com racionalidade, contendo seu ressentimento com todas as forças. Responder a uma provocação tĂŁo Ăłbvia seria o mesmo que se proclamar um tolo. No entanto, mesmo entendendo isso, Arnold nĂŁo conseguia conter totalmente sua fĂșria.

Deixando a provocação inicial de lado, o que diabos ele quis dizer com “a impressĂŁo que tenho de um Matador de DragĂ”es Ă© que ele gosta de peitos grandes”?

— VĂŁo coletar informaçÔes, qualquer coisa serve. Descubram a mecĂąnica por trĂĄs daquele ataque.

— Mas já confirmamos os rumores sobre ele. O que resta para investigar seria perguntar aos membros dos Passos por mais detalhes.

A expressĂŁo serena do Mil Truques surgiu em sua mente.

Naquela avenida larga, haviam sido completamente esmagados, sem qualquer chance de reação. Certamente, a notĂ­cia da derrota jĂĄ deveria estar se espalhando—e, claro, tambĂ©m as palavras que o Mil Truques havia dito.

— Então teremos que derrotar os quatro grupos primeiro se quisermos desafiá-lo, hein? — disse Arnold, com uma expressão amarga.

Agora que jå haviam sido derrotados uma vez e que suas palavras haviam sido ouvidas por muitos, ignorar o que foi dito não era uma opção. Na verdade, se desafiassem o Mil Truques imediatamente e perdessem de novo, poderiam acabar sendo ridicularizados por serem presunçosos. A honra era algo extremamente importante para os caçadores; qualquer desrespeito poderia impactar negativamente suas futuras atividades na capital.

Além disso, todos os grupos que o Mil Truques mencionou eram justamente aqueles que jå haviam destacado como os mais fortes durante sua pesquisa inicial.

— Mas Arnold, pense bem: isso pode ser uma oportunidade para nĂłs. Eu diria que ele estĂĄ tentando provocar vocĂȘ para que perca a cabeça. As condiçÔes que ele impĂŽs sĂŁo trabalhosas, mas se pensarmos pelo outro lado, temos muito a ganhar ao cumpri-las.

— …

— Se derrotarmos esses grupos renomados, Arnold, vocĂȘ se tornarĂĄ extremamente famoso por sua força. E, ao mesmo tempo, podemos descobrir informaçÔes valiosas sobre o modus operandi do Mil Truques.

O que Eigh havia dito estava completamente certo. Afinal, Arnold e seu grupo tinham poucas opçÔes restantes: ir direto para cima dele seria desonroso, mas se recuassem, certamente seriam rotulados como covardes.

Depois de processar as palavras de Eigh, Arnold se acalmou um pouco. Em um Ășnico gole, engoliu vigorosamente a ĂĄgua que lhe ofereceram e bateu a caneca na mesa.

Naquele momento, Arnold havia praticamente voltado ao seu estado normal.

— Mas eu não entendo o propósito dele. O que ele quer?

Eigh semicerrava os olhos e permanecia em silĂȘncio. Nenhum dos outros membros do grupo parecia disposto a oferecer uma opiniĂŁo.

Refletindo objetivamente, achavam as açÔes do Mil Truques incompreensĂ­veis: ele nĂŁo tinha nada a ganhar provocando Arnold. Ele poderia simplesmente tĂȘ-los esmagado e ensinado uma lição sobre a superioridade de seu poder quando o desafiaram. Mas naquela ocasiĂŁo, o Mil Truques apenas restringiu completamente os movimentos de Arnold e dos membros do seu grupo. Se ele nĂŁo tivesse parado por ali e, em vez disso, os dominasse com seu poder esmagador atĂ© deixĂĄ-los completamente incapacitados, Arnold provavelmente nĂŁo teria pensado em desafiĂĄ-lo novamente tĂŁo cedo. Mas nĂŁo foi isso que Krai fez. Depois de se divertir com eles, impĂŽs algumas novas condiçÔes.

O Mil Truques foi ainda mais longe ao enviar uma mensagem para irritar Arnold atravĂ©s da recepcionista da Associação dos Exploradores. Certamente, seu propĂłsito nĂŁo era simplesmente zombar deles—o adversĂĄrio era um caçador conhecido por suas estratĂ©gias enigmĂĄticas. Ele, sem dĂșvida, tinha algo planejado, mas seus pensamentos eram completamente insondĂĄveis. Isso era inquietante.

Como caçador, Arnold se especializava em combate. Embora nĂŁo fosse fraco em subterfĂșgios, essa tambĂ©m nĂŁo era sua especialidade.

Eigh, o cérebro do grupo, vinha refletindo sobre o assunto hå um tempo, mas, no fim, assim como Arnold, não conseguia entender a intenção do Mil Truques.

Com um olhar afiado, ele aconselhou Arnold:

— Talvez seja melhor segurarmos um pouco e analisarmos mais a situação antes de agir.

— De qualquer forma, precisamos reunir informaçÔes.

O Mil Truques com certeza tinha um plano em mente.

NĂŁo era do feitio de Arnold ficar parado sem agir enquanto o tempo passava. Depois de fechar os olhos e refletir por um breve momento, tomou uma decisĂŁo.

— Embora seja frustrante dançar conforme a mĂșsica dele, vamos começar pelo Obsidian Cross.

— Parece uma boa ideia.

Esse nome pertencia a um grupo conhecido por sua estabilidade impressionante. Era um bom complemento para o Falling Fog, um grupo que se destacava pelo seu poder de fogo esmagador.

Os membros do grupo engoliram em seco, apreensivos. Embora enfrentar os esquemas enigmĂĄticos de Krai fosse altamente arriscado, suspeitavam que novos caminhos poderiam se abrir para eles se conseguissem derrotar aquele grupo.

O Obsidian Cross estava na taverna.

O grupo de Nível 6, diferente do Mil Truques, emanava uma aura heroica. Isso era especialmente verdadeiro para seu líder, Sven Anger, o Golpe da Tempestade, um detentor de título de Nível 6. Seu físico bem treinado, combinado com seu nível de mana materializada, fazia com que parecesse um adversårio formidåvel até mesmo para Arnold, que era Nível 7.

No entanto, ao ouvir as palavras de Arnold, em vez de demonstrar vontade de lutar, Sven apenas exibiu uma expressĂŁo de perplexidade.

— Repete isso? Krai disse isso? Mas por que diabos a gente ia querer se meter nisso?

— PerdĂŁo? Mas aquele cara Ă© o mestre do clĂŁ de vocĂȘs.

— Sim, ele Ă© o mestre do clĂŁ. Mas e daĂ­? Se ele nos mandasse lutar contra fantasmas ou monstros, estarĂ­amos dentro. Mas uma briga? TĂŽ fora.

Sven não deixou espaço para réplica. Por algum motivo, os membros de seu grupo olhavam para Arnold e os outros com pena nos olhos.

Isso pegou Arnold de surpresa. Pelo que Krai havia dito, Arnold pensou que o Obsidian Cross fosse um grupo subordinado. No entanto, na realidade, eles nem pareciam se importar.

Na verdade, os clãs eram cooperativas. Arnold conseguia entender por que eles não se sentiam obrigados a obedecer outros membros do clã—mas aquilo ainda era sobre o mestre do clã, e o respeito simplesmente não existia naquela total falta de consideração por suas palavras.

Sven, parecendo compreender a situação, soltou um longo suspiro ao ver a expressão confusa de Arnold.

— Ah, agora entendi. Krai enganou vocĂȘs. Ele sempre faz isso. CaĂ­mos direitinho nisso hĂĄ pouco tempo tambĂ©m. Olha sĂł a cara pĂĄlida da Marietta aqui.

— É verdade que minha capacidade de mana aumentou… — disse uma Maga sentada ali perto, soltando um suspiro profundo em resposta Ă s palavras de Sven. — Mas aquela poção Ă© absurdamente horrĂ­vel. De fato, Ă© eficaz, mas certamente criaria uma abertura para o inimigo se vocĂȘ a usasse em batalha. Eu nĂŁo sei como a Lucia aguenta isso sĂł reclamando.

Marietta passava a impressĂŁo de ser uma beleza astuta, mas sinais claros de exaustĂŁo eram evidentes em sua expressĂŁo.

— De qualquer forma, eu nĂŁo tĂŽ interessado numa briga por um motivo desses. Eu jĂĄ ouvi falar do seu nome, RelĂąmpago Colossal, e Ă© melhor vocĂȘ desistir desse embate com Krai antes que seja tarde demais. Quanto mais sĂ©rio vocĂȘ for, mais ele vai brincar com vocĂȘ.

Arnold escutava atentamente, analisando suas expressÔes em busca de qualquer sinal de mentira.

— Ah, certo. Nosso mestre de clĂŁ deve ter dado bastante trabalho pra vocĂȘs. JĂĄ que vieram atĂ© aqui nos procurar, deixa que eu pago algo pra vocĂȘs. SĂł nos deixem fora disso.

E antes que Arnold pudesse responder, Sven ergueu a voz e fez um pedido.

Eigh, perplexo, exibia uma expressĂŁo rĂ­gida e resignada.

Arnold e seu grupo nĂŁo tinham nada contra o Obsidian Cross. Se o adversĂĄrio tivesse aceitado o desafio, seria outra histĂłria, mas agora que o haviam rejeitado, nĂŁo havia mais nada que pudessem fazer. Mais importante ainda, com o adversĂĄrio lhes oferecendo bebida, nĂŁo havia motivo para lutar.

— Arnold, acho que eles tĂȘm um ponto. Vamos deixar isso pra lĂĄ — disse um dos companheiros de Arnold.

— É, vocĂȘ tĂĄ certo.

Com uma expressĂŁo descontente, Arnold abaixou a arma que carregava nas costas.

***

— O quĂȘĂȘĂȘĂȘĂȘ?! Por que terĂ­amos que lutar por causa daquele humano fracote? Senhor!

— …

— Estou curioso. Senhor! Com que base absurda o senhor acha que nós, os honrados Espíritos Nobres, aceitaríamos um pedido desses? Diga algo, senhor, seu gorila bombado!

— O que diabos está acontecendo?

Com o rosto vermelho, a garota EspĂ­rito Nobre de beleza gelada bateu seu longo cajado na mesa enquanto repreendia Arnold.

Seu comportamento um tanto infantil desconcertou Eigh e os outros membros do grupo. AtĂ© mesmo Arnold, o alvo da bronca, nĂŁo conseguiu sentir raiva. A Ășnica coisa que ele entendeu foi que Starlight tambĂ©m nĂŁo tinha intenção de aceitar seu desafio.

A lĂ­der de Starlight, Lapis Fulgor, uma EspĂ­rito Nobre loira, pressionou a mĂŁo contra a testa, exasperada. Ela suspirou enquanto encarava sua companheira furiosa.

— EntĂŁo, RelĂąmpago Estrondoso, parece que temos um mal-entendido peculiar entre nĂłs. HĂĄ um motivo para estarmos no clĂŁ de Krai Andrey, e definitivamente nĂŁo Ă© para sermos submissas a ele. NĂŁo sei o que esse homem colocou na sua cabeça, mas nĂŁo seremos tratadas como meros degraus.

Era um argumento vĂĄlido.

Não havia como qualquer Espírito Nobre, que naturalmente desprezava os humanos, simplesmente aceitar o que Arnold havia dito e concordar. Ele ainda tinha uma pequena esperança, mas parecia que elas concordavam com a Obsidian Cross.

Kris pegou uma das Relíquias espalhadas à sua frente e, apertando-a com força, gritou:

— Para começar, estou ocupada aceitando o desafio desse humano fracote e carregando Relíquias. Senhor! Não posso me dar ao luxo de perder isso por orgulho! Senhor! Lapis!

— Sim, isso mesmo, Kris. Não podemos recuar depois de aceitar um desafio. É uma questão de orgulho como Espíritos Nobres.

Entendo… EntĂŁo elas estĂŁo sendo usadas.

Arnold olhou para Eigh, que franziu a testa e balançou a cabeça lentamente.

Parecia que não tinham escolha a não ser recuar. Eles não conseguiam se forçar a lutar depois de testemunhar alguém ainda mais patético do que eles. O inferno de raiva que queimava dentro de Arnold começou a se dissipar.

***

A sede do clã Primeiros Passos era um prédio imenso. Tendo se preparado mentalmente, eles se postaram diante da entrada.

Tanto o desafio contra a Obsidian Cross quanto contra a Starlight tinham sido um fracasso, e os dois outros grupos estavam, para piorar tudo, fora da capital. Eles jå estavam bastante cansados disso e, agora, a melhor coisa a se fazer era marchar direto até a base do Mil Truques e confrontå-lo diretamente.

A tensão na expressão dos companheiros de Arnold havia diminuído um pouco devido às constantes decepçÔes que enfrentaram.

— Nesse ritmo, nĂŁo ficarei surpreso se ele tambĂ©m nĂŁo estiver.

— Sim… Faz sentido.

Pelo encontro com os dois grupos, Arnold havia formado uma imagem de Krai bem diferente do que esperava. Ele achava que Krai era uma pessoa extremamente carismåtica, mas, em vez disso, só ouviu reclamaçÔes sobre ele.

Se isso fosse uma estratégia para desmotivar Arnold e seu grupo, com certeza tinha sido incrivelmente eficaz. No entanto, recuar a essa altura não era uma opção para eles.

Arnold se recompĂŽs e olhou para os companheiros ao seu redor.

— Preparem-se. Aqui Ă© onde as coisas realmente começam.

— Certo!

As palavras de seu lĂ­der reacenderam um pouco do Ăąnimo em seus olhos.

Embora nĂŁo estivessem ali para lutar naquele dia, era como se estivessem invadindo territĂłrio inimigo. Eles nĂŁo podiam se dar ao luxo de ir sem um espĂ­rito de combate.

Confirmando o estado de todos, Arnold tomou a dianteira e empurrou a porta da sede do clĂŁ.

Do outro lado da porta, o caos reinava.

— Aaaaaaargh! AlguĂ©m chama a Sitri! O Drink estĂĄ descontrolado!

— VocĂȘ quer fazer cocĂŽ? Ou estĂĄ com fome? Ou quer dar uma volta?

— Está crescendo rápido demais! Eu não me inscrevi pra isso! Não consigo lidar com isso! O que aconteceu com a jaula?! E a coleira?!

— Droga, a corrente foi despedaçada! Maldito Krai, o que ele estava pensando quando trouxe essa coisa pra cá?!

— Não nos envolvam nissssso!

Correndo desenfreado pelo amplo saguĂŁo de entrada, havia uma criatura peculiar de cerca de dois metros de altura—uma quimera de pedra cinza com cabeça de leĂŁo e asas de dragĂŁo. Suas trĂȘs caudas eram afiadas como espadas, deixando marcas nas paredes e no chĂŁo em todas as direçÔes. Um grande nĂșmero de caçadores cercava a quimera rosnante, mas a criatura nĂŁo parecia nem um pouco intimidada.

Ignorando tudo aquilo, Arnold fechou a porta com um movimento natural.

Do outro lado da porta espessa, os gritos continuavam a ecoar.

— …

— Arnold, parece que eles estĂŁo ocupados. Que tal esquecermos o Mil Truques por enquanto e focarmos em reunir informaçÔes e nos recompor? Parece que estĂĄ acontecendo um grande leilĂŁo. Pode ser uma boa oportunidade para ganhar dinheiro, alĂ©m de uma chance perfeita para melhorarmos nosso equipamento. Talvez atĂ© possamos nos livrar daquela coisa.

A cena que acabaram de presenciar havia despedaçado completamente sua determinação; todos os companheiros expressaram concordùncia com as palavras de Eigh.

De fato, o grupo de Arnold havia chegado recentemente Ă  capital. Sua postura estava longe de ser perfeita.

Normalmente, deixar as coisas assim não seria uma opção, mas havia uma chance de que os outros dois grupos retornassem enquanto esperavam.

— Droga. Acho que não temos escolha. Só por enquanto! Vamos deixar passar só por enquanto.

Com todas as histórias deploråveis que ouviram, sua motivação havia se esvaído, e a capacidade de combate de alguém estava diretamente ligada ao seu estado mental.

Arnold estalou a lĂ­ngua. Virou-se de costas para a sede do clĂŁ, onde os gritos ainda ecoavam por motivos desconhecidos, e voltou para a estalagem com seu grupo.

***

A luz suave do sol entrava pela janela.

Bocejando, folheei uma revista. Era uma revista de empregos com anĂșncios de trabalhos de meio perĂ­odo distribuĂ­da no bairro.

Pela primeira vez em um bom tempo, eu estava motivado a pagar minha dĂ­vida. Afinal, seria escandaloso ficar Ă  toa enquanto mandava Tino para os cofres do tesouro.

Virando as påginas uma a uma, procurei por trabalhos que eu talvez conseguisse fazer. Eu não sabia usar magia e minhas habilidades físicas eram limitadas; portanto, só podia buscar trabalhos que qualquer um pudesse fazer. Eu estava analisando os salårios por hora listados e calculando mentalmente quantas horas precisaria trabalhar para pagar minha dívida de bilhÔes quando, de repente, a janela atrås de mim rangeu ao se abrir com força.

O vento soprou, e antes que eu pudesse me virar, um par de braços me envolveu por trås, e uma voz animada me saudou ao pé do ouvido.

— Bom dia, Krai Baby! O que vocĂȘ estĂĄ lendo?

— Bom dia, apesar de já ser de tarde. Eu estava pensando em arranjar alguns bicos.

A voz vinha da Liz.

Quero dizer, eu ficaria preocupado se tivesse mais amigos que entrassem pela janela só porque era “trabalhoso” fazer de outra forma.

Fechei a revista e estava prestes a responder quando ela me apertou com seus braços fortes e encostou a bochecha na minha. Do contato com sua pele quente, senti um aroma agradåvel, como o sol de primavera.

Apesar do sufoco que passei por causa do Arnold, com quem Liz havia se desentendido, ela parecia tĂŁo enĂ©rgica quanto sempre—e isso jĂĄ era o bastante para mim.

— Ei, Krai Baby, nĂŁo tem nada que vocĂȘ queira me dizer?

— Uhh… Quer fazer uns bicos comigo?

— Hmm? Claro, claro! Mas nĂŁo, nĂŁo Ă© isso! Vamos lĂĄ, vocĂȘ tem algo para me contar, nĂ©? Algo envolvendo minha aprendiz…

Ah, isso.

Parece que mandar a Tino contra o Arnold realmente nĂŁo foi uma boa ideia. Afinal, Liz provavelmente tinha um plano de treinamento para ela. Eu fiz besteira.

Eu estava prestes a me desculpar, mas antes que conseguisse, Liz soltou meu corpo e se colocou na minha frente. Com um sorriso radiante como uma flor desabrochando, sentou-se no meu colo sem hesitação.

Liz parecia estar de muito bom humor hoje… NĂŁo parecia ter vindo reclamar do tratamento que sua aprendiz recebeu.

Pressionando o corpo contra o meu de forma provocante, Liz falou de maneira manhosa:

— Ei. Ela fez um Ăłtimo trabalho sendo seu escudo, nĂŁo fez? Isso Ă© resultado do meu treinamento, nĂ©?

Ah. Ela veio ser elogiada…

Silenciosamente, envolvi suas costas com meus braços, a abracei com força e então passei os dedos por seu cabelo, penteando-o de baixo para cima como forma de elogio.

Ela corou, e seu corpo tremeu de prazer evidente. Até eu senti meu coração acelerar com esse comportamento. Por mais acostumado que estivesse com contato físico, eu ainda era um homem.

Se um dos meus companheiros da Grieving pedisse um abraço, eu gostaria de ao menos poder dar um. Afinal, eu normalmente não servia para nada. Era um equilíbrio difícil de manter.

— Mmm… Isso Ă© o melhor! Agora, Krai Baby, a T foi bem?

— Sim, a determinação dela em lutar foi esplĂȘndida. Ela Ă© digna de ser sua discĂ­pula. Nota dez de dez.

— É mesmo? Que bom que vocĂȘ aprovou, mas… ela nĂŁo perdeu?

— As derrotas fortalecem as pessoas.

E foi por isso que eu, que sempre jogava minhas batalhas para os outros em vez de perdĂȘ-las sozinho, continuei tĂŁo fraco.

Talvez absorvendo minhas palavras com docilidade, Liz parecia extremamente satisfeita.

Ela perguntou:

— A propĂłsito, vocĂȘ sabe onde a T estĂĄ? Eu queria elogiĂĄ-la pessoalmente.

— Ah, desculpa. Eu a mandei buscar algumas Relíquias em um cofre do tesouro. Ela está nas Ruínas dos Pilares de Alleyne.

— RuĂ­nas dos Pilares de Alleyne? NĂŁo Ă© um cofre de nĂ­vel 1? Tem RelĂ­quias lĂĄ?

As Ruínas dos Pilares de Alleyne eram um cofre de nível 1 perto da capital, constantemente ranqueado entre os piores na classificação anual da Associação dos Exploradores. Sua dificuldade era baixa, e Relíquias raramente apareciam nele. Apesar da proximidade com a capital, poucos caçadores o visitavam. Do lado de fora, parecia apenas alguns pilares de pedra grossos no meio de um campo aberto. De certo modo, era um lugar envolto em mistério que até mesmo caçadores novatos evitavam.

Ainda assim, era um local seguro, e a viagem de ida e volta levava poucas horas. Parecia o cofre perfeito para satisfazer Tino.

— Só há uma chance de cinquenta por cento de encontrar algo lá, então vamos não culpá-la caso ela volte de mãos vazias, ok?

— Heh… Entendido! A propĂłsito, Krai Baby, nĂŁo tem nada que eu possa fazer por vocĂȘ?

NĂŁo… Por favor, apenas fique quieta e nĂŁo cause problemas para ninguĂ©m.

Sem dizer nada, Liz apertou ainda mais o abraço e me segurou com mais força. Enterrou o rosto no meu pescoço e soltou um som prazeroso.

Lembrei-me de como costumava animå-la no passado, depois de sessÔes intensas de treinamento, simplesmente abraçando-a quando se sentia desanimada. Caçadores que enfrentavam combates repetidos se esgotavam fåcil, tanto física quanto mentalmente, então o contato físico era uma forma eficiente de cuidado pessoal.

Meu coração, que batia levemente acelerado, foi se acalmando aos poucos, e comecei a sentir sono. O corpo quente de Liz fazia dela um travesseiro perfeito.

Eu estava prestes a cochilar, sentindo o peso de Liz sobre mim, quando, de repente, a porta se abriu com força.

— Mestre! Mestre! Eu vol—tei?!

— HĂŁ…? Oh! Bem-vinda de volta, T!

Liz virou levemente a cabeça e sorriu radiante para sua aprendiz.

Ao entrar no quarto, Tino congelou ao ver Liz sentada no meu colo. A pulseira negra que segurava firmemente em sua mĂŁo direita escorregou e caiu no chĂŁo, rolando suavemente.

— Por quĂȘ…? Eu estive trabalhando duro, e a Lizzy, ela—

— O quĂȘ? VocĂȘ consegue trabalhar duro porque eu trabalhei duro, nĂ©?! O que vocĂȘ vai fazer, T? Ficar mais forte sozinha?!

— Agora, agora. Tino, eu vou pensar em algo para vocĂȘ, entĂŁo se acalma.

***

Acompanhado pela desanimada Tino e pela empolgada Liz, eu caminhava pela rua principal.

Nosso destino era minha loja especializada em RelĂ­quias de costume. Nesta Ă©poca do ano, estariam ocupados com o leilĂŁo, mas meu relacionamento com o dono da loja, Matthis, ia alĂ©m de “melhores amigos”. Com Tino junto, ele certamente nos receberia bem.

— Ainda assim, nĂŁo acredito que vocĂȘ realmente encontrou uma RelĂ­quia…

Enquanto andĂĄvamos, Tino ergueu a pulseira negra que trouxera e a examinou contra a luz.

Matthis era tão ríspido com Liz como sempre, provavelmente por causa da bagunça que ela causou em sua loja naquela vez. Sitri recebia o mesmo tratamento, aliås.

— Humph. O que vocĂȘ quer? Estou ocupado hoje e nĂŁo tenho nenhuma RelĂ­quia Ă  venda que possa te interessar.

Matthis bufou irritado e me encarou. NĂŁo era que ele nĂŁo gostasse de mim, mas ele tratava todo mundo desse jeito.

E é por isso que as pessoas preferem ir até a loja de Relíquias na rua principal, onde trabalha uma certa jovem fofa.

Mas essa também era a razão pela qual essa loja vivia eternamente vazia.

— VovĂŽ, Ă© exatamente por essa sua atitude que vocĂȘ nĂŁo consegue clientes.

— Isso nĂŁo Ă© da sua conta. Estou indo muito bem, e vocĂȘs moleques vĂȘm pegar RelĂ­quias que custam os olhos da cara o tempo todo tambĂ©m.

Moleques? Ele nĂŁo tĂĄ falando de mim, nĂ©? Como sempre, um verdadeiro comerciante com seu jeito absurdo de tratar os clientes, chamando-os de “moleques”.

Mas apesar disso, ele era realmente habilidoso e não era uma må pessoa. Pode até não dar privilégios para clientes fiéis, mas era um homem honesto. Além disso, eu não fazia ideia de onde ele conseguia seu estoque de Relíquias, mas frequentemente havia verdadeiros achados entre elas. E, acima de tudo, ele aceitava pagamentos parcelados. Em outras palavras, eu não tinha motivo para ignorå-lo e sua loja.

Diferente de Liz e os outros, eu não tinha encontrado um mentor desde que vim para a capital. De certo modo, talvez Matthis pudesse ser considerado uma espécie de mentor para mim.

— Matty, sabe de uma coisa? Eu encontrei uma Relíquia hoje. Pode avaliar rapidinho? Estou ocupado.

— Tá sonhando! Espere sua vez. Tenho uma pilha de pedidos acumulados aqui.

— Ela disse que encontrou nas Ruínas dos Pilares de Alleyne. Foi o T quem achou. Dá pra avaliar logo, pode ser?

— Alleyne…? EntĂŁo, o cofre do tesouro de NĂ­vel 1, hein? Oh, nĂŁo Ă© a pequena Tino ali tambĂ©m?

Os olhos de Matthis captaram Tino, que estava escondida atrĂĄs de mim, e seu olhar suavizou um pouco.

Embora fosse duro comigo e com Liz, ele tinha um ponto fraco: Tino. Aparentemente, ela tinha mais ou menos a mesma idade da neta de Matthis, e as duas se pareciam um pouco. No fim das contas, o velho teimoso ainda era humano. Até mesmo o homem mais honesto e imparcial amolecia perto de Tino.

Desde entĂŁo, decidi sempre trazer Tino comigo, sempre que possĂ­vel, quando viesse a esta loja.

O avaliador frio tinha um ponto fraco por garotinhas inocentes.

— Tsk. Tá bom, tá bom, vou fazer isso só por ela. Mas vai ser rápido, entendido?

Dessa vez, sem muita discussão, Matthis cedeu ao olhar de Tino e, resmungando, colocou suas luvas de couro preto. Com cuidado, levantou a Relíquia, pegou uma lupa e começou a examinar minuciosamente os padrÔes intrincados gravados nela.

ExperiĂȘncia e conhecimento eram indispensĂĄveis na avaliação de RelĂ­quias. Nos Ășltimos cinquenta anos, ele havia avaliado RelĂ­quias na capital; o conhecimento que acumulou superava de longe o meu, um novato que havia surgido recentemente na cena dos colecionadores de RelĂ­quias.

Depois de virar a pulseira e examinar cada detalhe dela, Matthis assumiu uma expressão séria.

— As RuĂ­nas dos Pilares de Alleyne sĂŁo um cofre do tesouro de NĂ­vel 1, e RelĂ­quias raramente aparecem por lĂĄ. Isso provavelmente Ă© o que chamamos de “RelĂ­quia ExtrĂ­nseca”.

RelĂ­quias surgiam aleatoriamente, mas todas eram criadas pelo mesmo mecanismo: quando matĂ©ria mĂĄgica se acumulava, RelĂ­quias eram geradas dentro dos cofres do tesouro, e certos tipos de cofres tendiam a produzir certos tipos de RelĂ­quias com mais frequĂȘncia.

Relíquias da Era das Armas Físicas apareciam mais facilmente em cofres que imitavam construçÔes desse período. Da mesma forma, se alguém procurasse Relíquias da Era das Armas Mågicas Menores, exploraria cofres que replicassem os cenårios dessa era, e assim por diante. Isso tudo influenciava na popularidade dos cofres do tesouro.

“RelĂ­quias ExtrĂ­nsecas” eram aquelas que nĂŁo combinavam com o tema do cofre do tesouro. Elas nĂŁo eram necessariamente extremamente raras, mas eu fiquei levemente feliz que a RelĂ­quia que Tino encontrou em um cofre impopular fosse identificada assim—isso aumentava bastante as chances de que fosse uma peça rara.

Fiquei um pouco animado.

EntĂŁo, com um tom incomumente fervoroso, Matthis continuou:

— Com base na tendĂȘncia desse cofre de gerar certos espectros, acreditava-se que ele era um produto de uma era em que seres sem alma proliferavam pelo mundo. Suas RelĂ­quias eram, em sua maioria, relacionadas Ă  manipulação de criaturas mĂĄgicas naturais. Mas esta aqui, pelo que posso dizer pelo design, Ă© obviamente diferente. Se eu tivesse que chutar, diria que Ă© um produto da Era das Armas MĂĄgicas—essa era durou muito tempo, entĂŁo hĂĄ muitas RelĂ­quias dela por aĂ­.

A Era das Armas Mågicas floresceu por milhares de anos e foi um dos períodos mais longos da história conhecida do mundo. Era famosa por seus avanços significativos em artefatos mågicos, ferramentas que utilizavam mana como energia para manifestar magia, e pela integração desses artefatos em todos os aspectos da vida cotidiana. Artefatos mågicos ainda existiam na era moderna, mas sua tecnologia era pålida em comparação com a da Era das Armas Mågicas. Indiscutivelmente, as Relíquias dessa era eram incrivelmente diversas.

Mas, dito isso, se atĂ© Matthis nunca tinha visto essa antes, entĂŁo era uma RelĂ­quia extremamente rara. Isso poderia ser um baita achado—mas eu nĂŁo venderia uma RelĂ­quia rara assim, nĂŁo importa o quĂŁo valiosa fosse.

Liz, sem se preocupar em esconder o tédio, disse:

— Tanto faz. E qual Ă© o efeito dela?

— Eu… nĂŁo faço ideia.

VocĂȘ nĂŁo sabe?

— VocĂȘ… ficou enferrujado? — suspirei.

— Que bobagem! Avaliadores estariam desempregados se fosse possível descobrir os efeitos de uma Relíquia sem ativá-la! — gritou Matthis ao ouvir meu comentário, seu rosto contorcido.

Justo.

Se nem Matthis sabia o que era, havia até uma chance de que essa fosse uma Relíquia desconhecida.

…Eu deveria pagar um sorvete para Tino depois.

Matthis pegou uma caixa e guardou cuidadosamente a pulseira dentro.

— A avaliação vai levar um tempo, já que tenho outros trabalhos acumulados. Isso vai te custar uma taxa de avaliação, e não estou aceitando pagamentos adiados para este.

— Claro. Temos o dinheiro. Agradeceria se pudesse fazer isso o mais rápido possível.

Mas nĂŁo Ă© o meu dinheiro.

— Pronto, já terminamos! — Percebendo que a conversa tinha acabado, Liz bateu palmas e disse: — Krai, fofinho, vamos voltar, tá bom? Vamos voltar! Hora de continuar!

Parece que ela ainda quer mais contato fĂ­sico… mas ainda nĂŁo terminei. A parte importante vem agora.

Acalmando a agitada Liz, peguei Tino, que ainda se escondia atrĂĄs de mim, pelos ombros e a empurrei para frente.

EntĂŁo, indo direto ao assunto, perguntei a Matthis, que estava organizando suas coisas:

— Matthis, deixando isso de lado, vocĂȘ tem encomendas de avaliação para as RelĂ­quias que serĂŁo leiloadas, certo? Me deixe entrar e me mostre.

A expressĂŁo de Matthis congelou no lugar, e Liz franziu as sobrancelhas, descontente.

Eu trouxe o passe de entrada (Tino) comigo, entĂŁo me deixa entrar, cara.

A capital sempre foi a terra santa da caça ao tesouro, e o leilĂŁo era uma grande oportunidade para os caçadores. A alta circulação de RelĂ­quias por aqui atraĂ­a muitos caçadores em busca delas e, especialmente durante o leilĂŁo, um grande nĂșmero de caçadores e comerciantes vinham de todo o paĂ­s e atĂ© de fora. Talvez devido ao clima festivo caracterĂ­stico, as RelĂ­quias leiloadas costumavam ser vendidas por valores superiores ao preço original, e o fluxo de dinheiro durante esse perĂ­odo era imenso. O leilĂŁo era uma oportunidade de ouro para os caçadores faturarem uma boa grana.

No entanto, mesmo durante o leilão, ninguém comprava Relíquias de efeitos desconhecidos. Por isso, antes do evento, os avaliadores de Relíquias residentes na capital eram frequentemente inundados com pedidos de avaliação de Relíquias vindas de todo canto.

Como os efeitos das Relíquias eram naturalmente propensos a julgamentos errÎneos, os avaliadores garantiam seus laudos com seus próprios nomes. E como o nome do avaliador da Relíquia também influenciava na decisão de um lance, era natural que o serviço desse velho rabugento, mas extremamente habilidoso, fosse muito procurado.

Uma porta ficava atrås do balcão. Além dela, ficava o espaço de trabalho de Matthis. Lå dentro, caixas de madeira estavam empilhadas, uma grande bancada metålica dominava o espaço, e ferramentas bizarras para avaliação forravam as paredes. O local era bem menos organizado do que a loja na frente, mas o espaço estreito, iluminado por luzes fracas, tinha um certo charme.

Instintivamente, soltei um suspiro. Não era minha primeira vez ali, e, para alguém tímido, lugares apertados como esse eram meus favoritos.

Tino me seguiu timidamente, enquanto Liz olhava ao redor e soltava um grande bocejo.

Quando Matthis me deixou entrar aqui pela primeira vez, o espaço estava tão bagunçado que não havia onde pisar, mas em algum momento, o lugar ficou arrumado o suficiente para se caminhar sem tropeçar—quase certamente por causa da Tino, e não de mim.

Olhando por cima do ombro para mim, que seguia sorrateiramente atrĂĄs dele, Matthis resmungou:

— VocĂȘ vai dar uma olhada e vazar, entendeu? Estou ocupado.

— Mas eu trouxe a Tino comigo! VocĂȘ nĂŁo se importa com o que pode acontecer com ela?

— G-Garoto, quanto tempo vocĂȘ pretende ficar aqui?

A oficina de Matthis era um lugar muito curioso, cheio de Relíquias espalhadas por todo canto, tanto antes quanto depois da avaliação.

Na realidade, a maioria das RelĂ­quias encontradas em cofres do tesouro eram inĂșteis. NĂŁo seria um grande problema se fossem apenas defeituosas, como a Night Hiker. Mas RelĂ­quias absurdas—pulseiras que entorpeciam o paladar, brincos que tornavam impossĂ­vel distinguir sons e botas que faziam vocĂȘ pular em vez de andar normalmente—estavam por toda parte. NĂłs, caçadores de tesouros, respeitosamente as chamĂĄvamos de “RelĂ­quias sucata”, e, naturalmente, elas raramente chegavam Ă s prateleiras das lojas.

Embora eu estivesse ali por outro motivo hoje, procurar por itens minimamente Ășteis no meio da pilha de quinquilharias sempre era uma Ăłtima forma de matar o tempo. (Embora, diga-se de passagem, encontrar algo Ăștil fosse extremamente raro.)

— Aqui. Esse Ă© o catĂĄlogo das RelĂ­quias que me pediram para avaliar. DĂĄ uma lida e cai fora.

Matthis ofereceu uma cadeira para Tino e me jogou, sem cerimÎnia, um maço de arquivos presos com clipes de papel.

A diferença de tratamento entre mim e a Tino é gritante. Serå que pedir um chå é pedir demais?

Mas não adiantava reclamar, então comecei a revisar a lista ali mesmo, em pé.

Havia muitos avaliadores na capital além do Matthis. Parece que terei que visitå-los depois também.

Liz estava ali, esperando pacientemente como um cachorro treinado para ficar no lugar.

Talvez seja melhor eu me apressar.

— Hm… Mas eu nĂŁo tenho dinheiro…

No documento havia uma lista com os nomes temporĂĄrios e as caracterĂ­sticas das RelĂ­quias. Os nomes dos clientes provavelmente foram omitidos por questĂŁo de privacidade.

As RelĂ­quias leiloadas frequentemente eram vendidas por valores superiores ao preço de mercado. RelĂ­quias Ășteis eram difĂ­ceis de conseguir, mesmo para quem tinha dinheiro, entĂŁo, levando isso em conta, embora o leilĂŁo fosse uma grande oportunidade, talvez estivesse fora do meu alcance desta vez. Mas, conforme eu passava os olhos pelo catĂĄlogo, minha empolgação sĂł aumentava.

Serå que se eu começasse a me ajoelhar e implorar, funcionaria?

— Senhorita, como tem passado? Como estão indo as caçadas?

— Estou bem, obrigada. As caçadas estão indo bem.

— Que bom saber. Caçar tesouros Ă© um trabalho perigoso, e depois de tantos anos lidando com caçadores, nĂŁo posso evitar entender profundamente os riscos envolvidos, por mais que nĂŁo queira. Cuide-se bem.

— Suas avaliaçÔes estĂŁo demorando uma eternidade, velho. NĂŁo tem nada de Ăștil aĂ­?

Só saber as características e os nomes temporårios das Relíquias não ajudava muito. Algumas eu conseguia adivinhar, mas nada parecia me chamar a atenção.

Pelo menos coloca umas imagens na lista…

— VocĂȘ Ă© irritante! Elas estĂŁo naquela caixa ali, olha o quanto quiser. Mas nĂŁo suja nada!

Ele deve estar bem estressado.

Eu, com minha grande magnanimidade, permaneci impassĂ­vel e abri a caixa indicada para checar o conteĂșdo.

Parecia que as RelĂ­quias ainda nĂŁo tinham sido carregadas com mana, e era uma pena nĂŁo poder vĂȘ-las em seu estado perfeito.

Eu me joguei no chĂŁo e comecei a tirar as RelĂ­quias a serem avaliadas uma por uma, como se estivesse conferindo com um catĂĄlogo.

Que momento empolgante.

As Relíquias mais comuns no lote eram os acessórios, sempre populares, mas também havia algumas pelas quais eu tinha grandes expectativas, como as Relíquias do tipo bolsa, e outras com formatos realmente raros, como as do tipo luva.

Estou quebrado, mas o leilĂŁo deste ano parecia promissor.

— Ei, Krai Baby, vamos resolver isso logo, ok? Quantas Relíquias tem aí?

— Liz, vocĂȘ tambĂ©m devia procurar por algo promissor.

Liz fez bico e começou a espiar dentro da caixa de madeira sem muito entusiasmo.

— A Sombra Partida tem pegado no seu pĂ©? O Krai tem te sobrecarregado com exigĂȘncias absurdas? Aquele grupo inteiro de pirralhos nĂŁo tem a menor noção do que Ă© moderação.

— E-eu estou bem. Eles estão me tratando bem.

— Se algo acontecer, certifique-se de contar com seus companheiros, mesmo que alguns deles tenham personalidades meio
 problemĂĄticas. Mas a Passos Ă© um clĂŁ enorme, entĂŁo com certeza vocĂȘ vai encontrar muitas pessoas dispostas a te ajudar quando precisar. O Krai
 bem, dependendo da situação, pode ser Ăștil tambĂ©m. Afinal, de um jeito ou de outro, ele Ă© o caçador que mais subiu de nĂ­vel nos Ășltimos anos — disse Matthis para Tino com um tom preocupado.

— E-Entendido.

Surpreendentemente, Tino, que geralmente era indiferente a estranhos, parecia hesitante.

E o que ele quis dizer com “dependendo da situação”? O Ășnico momento em que sou Ăștil para Tino provavelmente Ă© quando ela estĂĄ sendo atormentada por suas companheiras.

— Eu entendo. O Mestre Ă© uma pessoa maravilhosa. Ele pode ter muitas dĂ­vidas, mas ainda assim Ă© uma pessoa incrĂ­vel. Comparado ao Mestre, eu sou
 sĂł um lixo—

— Ei, vocĂȘ, Krai! Que tipo de besteira vocĂȘ anda colocando na cabeça da pequena Tino?!

Matthis me agarrou pelo ombro enquanto eu estava sentado em silĂȘncio, remexendo na caixa. E justo quando ele estava espalhando esse boato infundado, uma RelĂ­quia que Liz pegou chamou minha atenção.

A Relíquia parecia uma måscara com uma textura peculiar. Sua superfície sem expressão possuía buracos na posição dos olhos e da boca.

— Ugh. Nojento. O que Ă© isso? Ei, Krai Baby, essa nĂŁo Ă© aquela que vocĂȘ tinha antes—

— Me deixa ver!

Peguei a mĂĄscara das mĂŁos de Liz.

Com uma textura parecida com carne crua, ela parecia macia e Ășmida ao toque. Quando a levantei, senti um peso perturbador na mĂŁo. Estava fria ao toque, mas se fosse preenchida com mana e ativada, provavelmente emanaria um calor semelhante ao do corpo humano.

Era uma mĂĄscara feita de carne. Eu jĂĄ havia tido experiĂȘncia com uma RelĂ­quia parecida.

Minha mĂŁo tremia enquanto segurava a mĂĄscara. Talvez nĂŁo fosse exatamente igual, mas eu tinha certeza de que nĂŁo existiam muitas RelĂ­quias tĂŁo nojentas quanto essa — um Rosto ReversĂ­vel. Embora fosse uma RelĂ­quia extremamente Ăștil, tambĂ©m era extremamente odiada pelos meus companheiros. Presumivelmente, Liz deve tĂȘ-la destruĂ­do em algum momento, e agora, aqui estava ela novamente diante dos meus olhos.

— Hã? Ei, Krai, o que foi?

Matthis olhou para o que eu segurava e fez uma careta.


 Eu quero. Eu quero muito.

Um Rosto ReversĂ­vel era uma mĂĄscara de carne expansĂ­vel que permitia alterar a aparĂȘncia Ă  vontade. Com ele, era possĂ­vel modificar nĂŁo apenas os traços faciais, mas atĂ© mesmo coisas como cabelo e, com prĂĄtica suficiente, o formato do corpo. Com isso, eu poderia me livrar dos caçadores e criminosos que tentavam fazer nome caçando caçadores de alto nĂ­vel e andar pelas ruas sem medo.

Minha experiĂȘncia anterior com um desses foi pura coincidĂȘncia, e eu achei que o havia perdido para sempre quando foi destruĂ­do. Tinha certeza de que pouquĂ­ssimas pessoas levariam uma RelĂ­quia tĂŁo repugnante de volta, mesmo que a encontrassem em um cofre.

— Essa Ă© uma RelĂ­quia trazida do exterior. Ainda nĂŁo a avaliei, mas nĂŁo Ă© algo bom — disse Matthis com uma expressĂŁo severa.

Tino arregalou os olhos ao olhar para a mĂĄscara.


 Eu quero. Eu quero muito.

De fato, essa RelĂ­quia nĂŁo era algo bom — uma RelĂ­quia capaz de alterar nĂŁo apenas o rosto, mas atĂ© mesmo coisas como corpo e impressĂ”es digitais seria extremamente Ăștil para crimes e outros propĂłsitos duvidosos, se dominada. A lei de Zebrudia havia proibido o uso de tal item, mas apenas possuĂ­-lo nĂŁo era ilegal. Em outras palavras, desde que nĂŁo fosse pego usando, a RelĂ­quia em si nĂŁo era considerada ilegal.

Quanto custa? Quanto eu preciso para isso?

A que eu consegui da Ășltima vez veio de uma grande gangue de bandidos que os Grieving Souls derrotaram, e estava entre os espĂłlios que recebemos. NĂŁo foi algo que comprei, entĂŁo nĂŁo consigo estimar seu preço com precisĂŁo, mas considerando sua raridade e capacidades, provavelmente valeria facilmente mais de dez milhĂ”es de gild.


 Eu quero. Eu quero muito. Se eu não conseguir agora, definitivamente não poderei ter outra chance.

Desesperado, virei minha cabeça.

Quanto custa? Quanto dinheiro eu preciso juntar? Vou me ajoelhar para Eva, vou me ajoelhar para Sitri, e enquanto estou nisso, vou me ajoelhar para Liz e Tino também.

Estou pronto para isso? Sim, estou.

Por favor, case-se comigo.

A essa altura, a avaliação da Relíquia de Tino jå havia sumido completamente da minha mente.

Eu trocaria por qualquer uma das minhas Relíquias mais valiosas — era esse o valor de um Rosto Reversível.

Levantei os olhos e vi Matthis. Ele sempre mantinha uma postura rĂ­gida, mas agora gotas de suor frio escorriam por sua pele enquanto ele dava um passo para trĂĄs.

Meu objetivo imediato era negociar sua venda antes que fosse a leilĂŁo.

— O que foi, Krai Baby? NĂŁo me diga que vocĂȘ quer isso?

Se fosse a leilĂŁo, eu me encontraria em uma situação embaraçosa onde teria que competir com inĂșmeros outros caçadores e nobres por ela. Se isso acontecesse, conseguir ou nĂŁo no final seria uma questĂŁo de sorte, e o custo provavelmente aumentaria significativamente.

Eu precisava negociar e garantir a venda para mim antes que fosse colocado para lances. Não era algo para se orgulhar, mas era uma tåtica comum em leilÔes.

Eu tinha prestígio e — apesar de não ter sido algo que conquistei por conta própria — as pessoas confiavam em mim. Esse não era o momento de ser seletivo sobre os meios.

Eu vou conseguir isso de qualquer jeito.

— Lentamente, respirei fundo para acalmar meu coração acelerado e perguntei a Matthis:

— Quero muito essa RelĂ­quia. Gostaria de negociar com o cliente deste item. VocĂȘ pode contatĂĄ-lo para mim?

— O-O quĂȘ?! VocĂȘ estĂĄ em seu juĂ­zo perfeito? A RelĂ­quia ainda nem foi avaliada!

Estou em meu juĂ­zo perfeito.

De fato, era uma Relíquia repugnante, até mesmo no momento de sua ativação. A sensação ao ativå-la era como se um pedaço de carne crua colado ao seu rosto devorasse todo o seu corpo; era uma sensação que apenas aqueles que jå haviam experimentado poderiam realmente entender, eu tinha certeza.

Mas eu quero. Quero o mais barato possível. Com isso, finalmente poderei fazer um tour por cafés de confeitaria sozinho, sem precisar de escolta!

— Tsk. Parece que vocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio, seu louco por RelĂ­quias. Bem, pelo menos Ă© bom para os negĂłcios… Tudo bem, entendi. Vou falar com o cliente por vocĂȘ. Mas, pequena Tino, espero que vocĂȘ nĂŁo acabe como ele.

Matthis estalou a lĂ­ngua com uma expressĂŁo descontente. Como sempre, ele tinha uma boca suja, mas era um velho gentil e atencioso.

Ao sair da loja de RelĂ­quias e caminhar rapidamente de volta para a casa do clĂŁ, Tino me perguntou com uma voz hesitante:


— Mestre… uh… vocĂȘ nĂŁo estĂĄ sem dinheiro?

— Finalmente encontrei…! De jeito nenhum vou deixar essa RelĂ­quia escapar das minhas mĂŁos.

Era verdade que eu estava endividado, mas se perdesse essa chance, tinha certeza de que nunca mais encontraria essa RelĂ­quia novamente.

O motivo pelo qual possuir um Rosto ReversĂ­vel — uma RelĂ­quia altamente compatĂ­vel com criminosos — nĂŁo era considerado ilegal era porque tornar a posse de RelĂ­quias ilegal dificultaria que caçadores trouxessem RelĂ­quias para a capital. Zebrudia havia prosperado graças Ă  força dos caçadores de tesouros. Como os efeitos das RelĂ­quias encontradas nos cofres nĂŁo podiam ser determinados sem avaliadores, se os caçadores fossem presos por trazerem uma RelĂ­quia que depois fosse considerada ilegal, ninguĂ©m ousaria trazer nenhuma para a capital. Assim, o impĂ©rio reconhecia por lei a posse de todas as RelĂ­quias — nĂŁo apenas do Rosto ReversĂ­vel. Por outro lado, RelĂ­quias altamente ilegais nĂŁo eram permitidas nas prateleiras das lojas, apesar da posse ser legal.

Qualquer pessoa em sĂŁ consciĂȘncia nĂŁo consideraria vender uma RelĂ­quia cujo uso seria considerado crime, e os meios para adquirir RelĂ­quias que nĂŁo estavam Ă  venda nas lojas eram limitados. AlĂ©m disso, havia uma boa chance de que tal RelĂ­quia nunca mais aparecesse durante minha vida.

Essa era uma oportunidade Ășnica na vida. Eu conseguiria mesmo que isso significasse penhorar meus pais.

— Ei, Tino… uh… quanto vocĂȘ tem guardado?

— Hã?!

— Ah, só por curiosidade, só por curiosidade. Estou pegando emprestado da Sitri, então relaxa; sim, relaxa.

Isso era péssimo timing considerando que havíamos acabado de falar sobre minha dívida recentemente. Isso estava me deixando enjoado.

— Mestre… v-vocĂȘ quer tanto assim essa RelĂ­quia que — — Tino recuou enquanto uma expressĂŁo chocada surgia em seu rosto e começou a murmurar:


— Essa RelĂ­quia Ă© realmente tĂŁo boa quanto o Mestre disse? Ela lembra um pouco aquela mĂĄscara nojenta que o Mestre tinha antes


Eu me pergunto o que ela pensaria de mim se eu dissesse que preciso disso para fazer um tour por cafés sozinho


Vou pegar emprestado da Sitri e resolver tudo isso. NĂŁo acho que a RelĂ­quia serĂĄ tĂŁo cara assim, por mais conveniente ou ilĂ­cita que seja.

Vai ficar tudo bem.

Sitri é uma Alquimista e, como o nome sugere, ela pode transformar coisas em ouro! Não sei como ela ganha todo aquele dinheiro, mas ela é o tipo de pessoa que casualmente gera centenas de milhÔes; então tudo ficarå bem!

Embora esteja começando a ficar realmente assustado com a possibilidade de me tornar Krai Esperto algum dia


EntĂŁo Liz, que estava andando ao meu lado, franziu o cenho:


— Hmm, Siddy mencionou recentemente estar sem dinheiro com todas essas coisas acontecendo; isso pode ser um problema… Quanto vocĂȘ precisa?

— SĂ©rio?

Então a carteira da Sitri pode realmente ficar vazia? E eu achando que era uma fonte interminável de riqueza


Embora fosse cedo demais para desistir. As chances daquela måscara nojenta ter um preço alto eram mínimas.

Perdido em pensamentos profundos, cheguei Ă  casa do clĂŁ.

Em frente Ă  casa do clĂŁ estava estacionada uma grande carruagem — preta e polida — claramente insinuando opulĂȘncia. Era puxada por dois cavalos negros de porte impressionante cujos olhares varriam os arredores como se quisessem intimidar. Gravado na lateral da carruagem havia um brasĂŁo representando trĂȘs espadas cruzadas.

Ao ver o brasĂŁo, Tino pareceu confusa:

— O brasĂŁo da Casa Gladis…? Mas essa casa Ă© conhecida por desprezar caçadores


AtĂ© eu — tĂŁo ignorante quanto sou — sabia sobre o Conde Gladis: eles eram uma das famĂ­lias nobres poderosas de Zebrudia. Conhecida como a “Espada de Zebrudia”, a Casa Gladis era uma famĂ­lia militar que protegia o impĂ©rio hĂĄ muito tempo.

Embora seu domĂ­nio nĂŁo fosse vasto, eles possuĂ­am muitos cofres em seus territĂłrios e regularmente enviavam sua ordem de cavaleiros para explorĂĄ-los. A Casa Gladis tambĂ©m comandava um nĂșmero considerĂĄvel de soldados poderosos que rivalizavam atĂ© mesmo com caçadores.

Nós dos Grieving Souls evitávamos nos envolver muito com nobres; então eu não sabia muito sobre eles; mas como Tino disse: o nome “Gladis” poderia muito bem ser sinînimo de “desprezo pelos caçadores”.

Eu jĂĄ havia encontrado o chefe da casa em alguma festa antes; mas tudo o que lembrava era do olhar assassino dele para mim.

SerĂĄ que isso vai ser problemĂĄtico novamente?

****

— Mhmm. NĂŁo se preocupe com tanta bajulação. Caçadores raramente despertam meu interesse, mas vocĂȘ Ă© uma exceção. Aguardo ansiosamente o dia em que encontrarei sua espada novamente, Ark.

Emergindo pela porta estavam Ark e uma garota loira vestida com um vestido branco, transbordando de expectativa.

— H— — O som escapou da minha boca ao perceber que a garotinha ao lado de Ark era obviamente uma nobre.

Diferente dos meus amigos de infĂąncia, eu nĂŁo era tĂŁo briguento a ponto de desafiar nobres. Sendo sem educação e sem refinamento, decidi que faria o meu melhor para ficar calado na presença deles — manter o silĂȘncio era a melhor forma de evitar problemas.

A jovem garota me encarava fixamente enquanto eu levantava a voz repentinamente. Era garantido que ela cresceria e se tornaria uma beleza no futuro, com sua pele branca impecĂĄvel e olhos azuis claros, mas seu olhar era altivo.

Me pergunto se ela jĂĄ tem dez anos.

Meus amigos e eu sonhåvamos em nos tornar caçadores nessa idade. A educação dos nobres devia ser realmente rígida para ela ter olhos tão afiados desde tão jovem.

O vestido branco puro parecia ser sua roupa do dia a dia. O ar majestoso exalado naturalmente pela forma como ela se vestia era típico de alguém em posição de autoridade. O vestido pouco decorado e a espada curta excessivamente ornamentada presa à sua cintura indicavam claramente a origem da jovem garota.

Com uma voz aguda, a garota ordenou:


— Que tipo de miserĂĄvel Ă© esse? Saia do meu caminho.

— O-O que vocĂȘ disse ao Mestre—umph!

Abracei Tino por trĂĄs e coloquei minha mĂŁo direita sobre sua boca enquanto ela dava um passo Ă  frente reflexivamente, prestes a retrucar contra a garota.

Por que vocĂȘ estĂĄ mergulhando de cabeça em um problema tĂŁo Ăłbvio? VocĂȘ Ă© Liz? Espera… nĂŁo, Liz deve estar bem. Ela foi treinada para nĂŁo retrucar contra nobres em particular.

Franzindo o cenho, Liz olhou para a garota com uma expressĂŁo sombria. Ela nĂŁo conseguiu esconder sua irritação, mas permaneceu em silĂȘncio.

Preciso elogiĂĄ-la generosamente mais tarde se conseguir se segurar.

Sorrindo gentilmente, estava prestes a abrir caminho quando Ark disse, desnecessariamente, com um sorriso animado:


— Ah, oi Krai. Estou de volta. Somos gratos por Lord Gladis nos emprestar esta carruagem para nos trazer de volta. Esta aqui Ă© Lady Éclair, filha de Lord Gladis.

Outro novo membro para o harém do Ark? Mas, de qualquer jeito que se olhe, ela é jovem demais para isso. Nunca imaginei que Ark tivesse vibes de lolicon.

Reprimi à força o comentårio frívolo que estava prestes a escapar dos meus låbios.

Não, ainda não posso dizer nada. Minha cabeça voaria se eu falasse isso na frente da filha de Lorde Gladis. Mesmo que Ark e eu nos dessemos bem e trocåssemos brincadeiras, eu tinha acabado de conhecer Lady Gladis, afinal.

Mas quem convocou Ark foi o MarquĂȘs Sandrine, um nobre de postura moderada em relação aos caçadores. Como ele acabou trazendo de volta a filha de Lorde Gladis? …Bom, suponho que isso ainda seja melhor do que trazer de volta a cabeça da Casa Gladis.

Ao ouvir as palavras de Ark, Lady Éclair arregalou os olhos e começou a me avaliar de cima a baixo.

— VocĂȘ… Ă© o Mil Truques? Meu pai jĂĄ falou bastante sobre vocĂȘ.

Suas palavras e atitude eram grandiosas, mas sua voz aguda era claramente a de uma criança.

Nem mesmo eu tinha medo das palavras de uma criança. Embora estivesse mais preocupado com Liz.

Enquanto os cavaleiros guardiĂ”es ao redor dela ficavam com expressĂ”es tensas, Lady Éclair continuou com um tom rĂĄpido:

— Como meu pai previu, vocĂȘ Ă© surpreendentemente fraco, contrariando as expectativas. É difĂ­cil de acreditar que vocĂȘ seja um caçador superior a Ark Rodin aqui presente.

— …

— A Associação dos Exploradores caiu tĂŁo baixo assim? Comprou seu posto com moedas? VocĂȘ, ladino vil, deveria sentir vergonha.

— …

— NĂŁo vai dizer nada em resposta a todas as minhas afirmaçÔes? NĂŁo tem o mĂ­nimo de orgulho?

Por algum motivo, a jovem recuou um passo e me olhou como se tivesse visto algo estranho.

Tino estremeceu em meus braços, mas eu a ignorei.

Retomei a respiração que estava segurando e, tentando não soar desrespeitoso, disse em um tom calmo:

— Fui criado de forma descuidada, e meus modos sĂŁo pĂ©ssimos. Tento ser discreto ao falar sempre que posso.

— O-o quĂȘ?! Uhm… ah… — balbuciou Lady Éclair, olhando ao redor como se tivesse perdido o fĂŽlego. EntĂŁo, limpando a garganta levemente, mas com firmeza, continuou:

— H-Hmm. I-Isso Ă© uma boa polĂ­tica a se adotar ao se relacionar de forma presunçosa com seus superiores.

Eu nĂŁo tinha nada a ganhar ofendendo nobres. NĂŁo estava em posição de colher benefĂ­cios sob a proteção da autoridade. E, como a jovem havia dito, jĂĄ que eu nĂŁo tinha orgulho, me curvaria em reverĂȘncia se isso me tirasse dessa.

…SerĂĄ que ela me emprestaria dinheiro se eu me ajoelhasse?

— Minha lady, está na hora — sussurrou um senhor gentil que estava à entrada ao lado de Lady Éclair.

O homem vestia um traje de mordomo completamente preto. Provavelmente era o acompanhante dela.

— S-Sim, muito bem!

Provavelmente aliviada pela desculpa para partir, Lady Éclair olhou para Ark com entusiasmo.

— Muito bem, Ark, nos encontraremos novamente. Se o seu caminho o levar ao domínio de Gladis, basta enviar uma mensagem para nossa propriedade. Treine-me novamente no manejo da espada da próxima vez!

Parecia que Ark teve bastante trabalho para que uma jovem nobre pedisse para treinar com ele.

No final, depois de me lançar um olhar severo, Lady Éclair partiu na carruagem com seus acompanhantes.

Ela passou pela nossa vida como uma tempestade… SerĂĄ que ela vai crescer e se tornar como a Liz…? Talvez nĂŁo.

Minha respiração finalmente voltou ao normal.

As pessoas que espiavam nossa direção com curiosidade começaram a se dispersar.

Ark se aproximou de mim e se desculpou gentilmente:

— Foi mal por chegar de carruagem sem aviso. Não consegui recusar—ela insistiu muito.

Esse era o Ark, sempre Ark. Se estivéssemos jogando cartas, ele seria o Curinga: todos os problemas podiam ser resolvidos com ele. A tal ponto que eu preferia que ele ficasse mais perto da casa do clã.

— Que timing perfeito — eu disse. — Ark, pode me emprestar um dinheiro?

— O quĂȘ?

Ark, o “pseudo-garanhão” mais forte da Primeiros Passos, ficou boquiaberto.

Entramos juntos na casa do clã enquanto continuåvamos a negociação.

Ark, sem demonstrar um pingo de hesitação, sorriu brilhantemente e disse:

— Não sei o que tá rolando, mas de jeito nenhum vou te emprestar dinheiro.

EmprĂ©stimos e dĂ­vidas eram a principal causa de conflitos dentro de um grupo de caçadores. Havia inĂșmeras histĂłrias de grupos que se dissolveram por disputas financeiras entre os membros.

Caçadores ganhavam bem, mas gastavam tão råpido quanto ganhavam.

Embora não tanto quanto os Grievers, Ark deveria estar ganhando um bom dinheiro. Vindo de uma família prestigiada, ele provavelmente tinha uma das melhores condiçÔes financeiras do nosso clã.

Como eu poderia convencĂȘ-lo…? Precisava juntar dinheiro rapidamente e começar a negociação, ou outro caçador poderia pegar a relĂ­quia antes de mim.

Eu pagaria de volta, com certeza!

Ark deu de ombros. O mesmo gesto parecia bem melhor quando feito por um cara bonito do que por mim.

— Aposto que vocĂȘ encontrou uma nova RelĂ­quia ou algo assim, certo? Falando nisso, o leilĂŁo nĂŁo estĂĄ prestes a começar?

Claro que ele sabia de tudo.

AliĂĄs, essa nĂŁo era a primeira vez que eu o incomodava pedindo dinheiro.

Ark e eu nĂŁo tĂ­nhamos nenhuma rixa, mas ele era extremamente responsĂĄvel quando se tratava dessas coisas.

Liz, liberando a raiva que havia acumulado antes, avançou para confrontå-lo.

— Repete isso? VocĂȘ ouviu o que o Krai acabou de di—

Cala a boca.

Segurei ela.

— Quietinha, Liz—nĂŁo, dessa vez Ă© diferente. É uma RelĂ­quia absurda. Eu preciso dela de qualquer jeito.

— Isso nĂŁo tem nada de diferente… AliĂĄs, quanto vocĂȘ queria que eu emprestasse?

Isso dependeria de como a negociação iria. O mercado de Relíquias era complicado, e eu não fazia ideia de quanto precisaria.

Com uma expressĂŁo sincera, respondi:

— O máximo que puder.

— E… qual o efeito e o motivo dessa RelĂ­quia que vocĂȘ tanto quer?

Mudando minha aparĂȘncia, eu ganharia liberdade—poderia ir Ă s confeitarias por conta prĂłpria.

E entĂŁo, com toda seriedade, declarei com firmeza:

— Isso eu não posso contar!

Claro que nĂŁo podia. NĂŁo podia dizer que era algo ilegal.

…Isso significa que nĂŁo tenho chance?

— Ugh… Eu sei que vocĂȘ Ă© reservado, mas essa conversa nĂŁo tĂĄ indo a lugar nenhum.

Era uma resposta completamente vĂĄlida. EntĂŁo, desisti do Ark e voltei meu olhar para os membros do grupo dele, encostados na parede.

O grupo de Ark, Ark Brave, era um grupo de NĂ­vel 7 certificado pela Associação dos Exploradores, com seus membros tendo, em mĂ©dia, NĂ­vel 6. Eles tinham uma composição de classes bem equilibrada, eram altamente competentes e demonstravam um excelente trabalho em equipe. O que realmente os fazia se destacar em comparação com outros grupos, no entanto, era o fato de que todos os membros do grupo de Ark eram mulheres—todas belas mulheres. Por isso, seu grupo era frequentemente chamado de “grupo harĂ©m”, ao mesmo tempo em que era reconhecido por sua superioridade.

LĂĄ atrĂĄs, Ewe, a Santa do grupo, encolheu-se e disse nervosamente:

— E-Eu não vou te emprestar dinheiro.

As outras integrantes do Ark Brave, Isabella, a Maga, e Armelle, a Espadachim, também me lançaram olhares furiosos.

— Se vocĂȘ Ă© um caçador de NĂ­vel 8 como afirma, por favor, administre suas prĂłprias finanças sem depender do Ark! — gritou Isabella.

— Ah, cara… VocĂȘ Ă© um fraco, como sempre, tentando se aproveitar de seus rivais. Eu nĂŁo consigo entender como um homem como vocĂȘ lidera aquele grupo — Armelle parecia mais decepcionada do que indignada.

Não apenas suas classes eram variadas, mas suas personalidades também eram bem diferentes: tímida, reservada e guerreira.

Rugido de guerreiro!

Talvez fosse sua capacidade de liderar um harém que tornava Ark a pessoa mais acessível.

Embora eu não sentisse exatamente um espírito de rivalidade em relação ao Ark Brave, os Braves pareciam nos ver, os Grievers, como rivais. Por conta disso, eram frequentemente críticos em relação a nós.

Liz parecia prestes a pular neles a qualquer momento. Parece que eu teria que fazer um cafuné debaixo do queixo dela depois.

Isabella, a mais eloquente entre elas, se aproximou de mim.

Ela também era bem cuidada, assim como Ark. Seu cabelo e olhos cor de lavanda, assim como sua pele branca como a neve, indicavam sua origem no norte. No entanto, seu olhar intimidador arruinava seu charme. Ela também era uma garota patética que frequentemente desafiava Lucia, apesar de acabar sendo ignorada.

— P-Para começo de conversa, por mais que Lady Éclair seja uma criança, por que vocĂȘ fala com ela com esse tom desrespeitoso e sarcĂĄstico? VocĂȘ nĂŁo tem medo de fazer inimigos da Casa Gladis?!

— HĂŁ…? Sarcasmo? Eu sĂł estava afirmando fatos…

Eu não fazia ideia do que ela estava falando. Como minha afirmação sobre ser ignorante quanto às regras de etiqueta era sarcasmo?

— I-Isso pode nĂŁo importar muito para vocĂȘs, depois de tudo o que passaram, mas agora estamos no mesmo clĂŁ. VocĂȘ entende o que isso significa? E se vocĂȘ manchar o nome de Rodin?!

Tão teimosa como sempre. Ela deveria ser mais nova que eu, mas era difícil lidar com ela—de uma maneira diferente de Liz e das outras.

PorĂ©m, infelizmente para ela, eu continuava ileso, nĂŁo importava o quanto me repreendesse. Isso porque eu entendia melhor do que ninguĂ©m o fato de que eu era incompetente e jĂĄ estava acostumado a ser criticado. E, honestamente, o que eu poderia fazer se o nome de Rodin fosse manchado? Eu nĂŁo tinha uma resposta para essa pergunta, entĂŁo nĂŁo faria nada em particular. AlĂ©m disso, duvidava que o nome de Rodin fosse manchado tĂŁo facilmente…

— Seu insolente! Como ousa fazer falsas acusaçÔes contra o Meste—eeewph! Umph! Umph!

Tino de repente se colocou entre mim e Isabella e tentou mordĂȘ-la.

Eu a calei.

— Certo, certo. Me desculpem, mas preciso ir pedir dinheiro emprestado a outra pessoa, então já terminamos aqui?

Eu me curvei, ignorando habilmente suas crĂ­ticas. Eu tinha talento para calar bocas.

Eu podia ser fraco contra inimigos, mas era forte contra aliados—eu era o que as pessoas chamavam de “um leão em casa e um rato fora”. Os membros do grupo de Ark tinham personalidades distintas, mas não eram indiscriminados como os meus.

Isabella ficou surpresa quando de repente tampei a boca de Tino, e Tino protestou com olhos marejados enquanto continuava a gritar com a voz abafada.

Sim, uhum.

— Bem, entĂŁo, atĂ© mais, Ark!

O tempo estava acabando. Dei uma breve despedida, e Ark acenou como de costume, com um sorriso que nĂŁo revelava nada sobre seus pensamentos.

Por ora, talvez eu devesse verificar com os membros do clĂŁ no salĂŁo e ver se conseguia emprestar algum dinheiro.

***

As notĂ­cias de que o Mil Truques estava desesperadamente atrĂĄs de dinheiro se espalharam rapidamente por toda a capital.

A conversa havia ocorrido na entrada da casa do clã, na presença de muitos membros do clã, assim como de estranhos. Era simplesmente impossível que essa conversa entre os dois principais membros do clã, tanto nominalmente quanto de fato, passasse despercebida.

Era um segredo aberto que o Mil Truques tinha uma enorme coleção de Relíquias. Enquanto caçadores normalmente mantinham suas armas secretas em sigilo, a coleção de Relíquias do Mil Truques estava além do reino dos meros segredos. Quase ninguém jamais havia realmente visto a coleção, mas havia rumores de que continha Relíquias raras, caras e até mesmo Relíquias supostamente amaldiçoadas, perigosas demais para um caçador comum manusear. Havia até rumores de que as Relíquias dos Grievers eram todas Relíquias inferiores vindas de sua coleção.

Dívidas eram algo que caçadores deveriam evitar. Pedir emprestado a outro grupo poderia potencialmente prejudicar o ativo mais valioso de um caçador: a confiança.

Essa era uma RelĂ­quia pela qual um colecionador de RelĂ­quias, um caçador de NĂ­vel 8, estava disposto a contrair uma dĂ­vida para obter. Que tipo de poder ela poderia possuir? Seus efeitos eram desconhecidos, mas aparentemente era uma RelĂ­quia “louca”. De qualquer forma, era sem dĂșvida uma RelĂ­quia raramente vista. Talvez houvesse atĂ© mesmo a possibilidade de que ela se tornasse a carta na manga do caçador de NĂ­vel 8.

Por natureza, muitos comerciantes, caçadores e até mesmo nobres da capital estavam interessados em rumores sobre o próximo Leilão de Zebrudia, e rumores apenas geravam mais rumores.

Todos desejavam Relíquias poderosas, sem exceção. Caçadores as buscavam para suas caçadas, nobres para prestígio e comerciantes para uså-las como cartas na manga nos negócios.

Que tipo de poder essa RelĂ­quia realmente possuĂ­a? Aqueles sem dinheiro sonhavam com seu poder, e aqueles com dinheiro tramavam maneiras de adquiri-la a qualquer custo.

Os comerciantes pensavam: “Ele pode ser NĂ­vel 8, mas, no fim das contas, Ă© apenas um caçador. Deve haver um limite para os fundos que ele pode reunir.”

Os caçadores pensavam: “Talvez possamos obter um poder que rivalize com o de um Nível 8 com essa Relíquia.”

E os nobres pensaram: NĂŁo ficarĂ­amos ainda mais gloriosos se colocĂĄssemos as mĂŁos nessa RelĂ­quia?

No fim, era apenas um boato. Mas era um boato tentador demais para ser descartado como mero rumor.

— Ei, Arnold, parece que tem uma Relíquia insana indo a leilão — disse Eigh animado para Arnold.

Eles estavam em um canto de uma taverna impregnada pelo aroma do ålcool e pela euforia da multidão. O lugar estava repleto de caçadores, e até mesmo o Névoa Caída, um grupo de forasteiros, parecia ter se misturado completamente ao ambiente.

JĂĄ fazia alguns dias desde que haviam deixado de lado sua rixa com os Mil Truques e, diferente da Ășltima semana, tudo vinha correndo bem para eles. Haviam explorado alguns cofres do tesouro e confirmado que suas habilidades eram mais do que adequadas, mesmo na capital. A NĂ©voa CaĂ­da havia perambulado pela capital de Zebrudia, aprendido mais sobre o estado da cidade, pesquisado os caçadores locais com mais detalhes e reformado seu equipamento—o Ășnico problema restante era o Mil Truques.

Batendo a caneca de cerveja vazia na mesa, Arnold perguntou:

— Ah, Ă©? Que tipo de RelĂ­quia Ă©?

— Bom, uh, nĂŁo sei os detalhes… Mas dizem que Ă© uma RelĂ­quia que faria atĂ© um caçador de NĂ­vel 8 sair pedindo dinheiro por aĂ­.

— Um NĂ­vel 8… Hmm…

Arnold franziu a testa ao ouvir aquilo, e a expressĂŁo de Eigh nĂŁo era muito melhor.

O alvo atual de Arnold era o Mil Truques. Agora que seu corpo havia se recuperado, ele não se importava mais com os ferimentos que Liz lhe infligira. No entanto, a humilhação que sofrera permanecia gravada em sua alma.

O problema era que ele ainda não fazia ideia das tåticas que o Mil Truques havia empregado. Se era uma farsa ou um nível de habilidade incompreensível estava além de qualquer suposição, até mesmo membros da Obsidian Cross e da Starlight, grupos dentro do clã do Mil Truques, nada sabiam sobre seu verdadeiro poder.

Arnold sabia que havia apenas trĂȘs NĂ­veis 8 na capital, e suspeitava que todos eram figurĂ”es do mesmo calibre daquele homem. Dizer que ele nĂŁo estava interessado em uma RelĂ­quia que caçadores desse nĂ­vel estavam perseguindo freneticamente seria uma mentira.

Mas, infelizmente, os membros da NĂ©voa CaĂ­da, que haviam chegado recentemente Ă  capital apĂłs uma longa jornada, nĂŁo tinham dinheiro para isso: haviam gasto uma grande parte em equipamentos nos Ășltimos dias. AlĂ©m disso, provavelmente nĂŁo teriam como bancar uma RelĂ­quia que atĂ© caçadores de alto nĂ­vel precisavam pegar dinheiro emprestado para comprar. Bem, mesmo que tivessem o dinheiro, gastar uma quantia exorbitante em uma RelĂ­quia desconhecida, apenas com base no fato de que um caçador poderoso a queria, estava fora de questĂŁo. Eigh, o tesoureiro do grupo, certamente compartilhava essa opiniĂŁo.

— Tsk, que história intrigante. A propósito, Eigh, como foi a avaliação daquela Relíquia que encomendamos?

— Ah, sim. Parece que o avaliador está atolado por causa do leilão, então pode demorar um pouco mais.

— Entendo.

Ao se lembrar da RelĂ­quia nojenta que haviam encontrado em um cofre perto de Nebulanubes, Arnold franziu o cenho.

Era uma mĂĄscara repulsiva, como se tivesse sido moldada amassando carne crua. NĂŁo apenas parecia carne ensanguentada de verdade, mas tambĂ©m tinha a mesma textura ao toque. AtĂ© mesmo os caçadores do grupo de Arnold, acostumados com o contato com sangue e ĂłrgĂŁos, ficaram horrorizados. A RelĂ­quia era tĂŁo repulsiva que ele se arrependeu de tĂȘ-la trazido assim que voltaram para a cidade. O avaliador de Nebulanubes sequer aceitou avaliĂĄ-la. Provavelmente nĂŁo valia nada; pelo visual, poderia atĂ© ser uma daquelas RelĂ­quias que impunham penalidades ao usuĂĄrio.

Ainda assim, haviam solicitado uma avaliação, e caso não valesse nada, pediriam ao avaliador que a descartasse para eles.

— Espero que pelo menos pague nossas bebidas. Sabe, trazer aquela coisa não foi nada fácil.

Em resposta Ă s palavras sinceras de Eigh, Arnold soltou um grunhido de concordĂąncia.


Tradução: Carpeado
Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â€“ Clicando Aqui


Tradução feita por fãs.
Apoie o autor comprando a obra original.


Compartilhe nas Redes Sociais

Publicar comentĂĄrio

Anime X Novel 7 Anos

Trazendo Boas Leituras AtĂ© VocĂȘ!

Todas as obras presentes na Anime X Novel foram traduzidas de fĂŁs para fĂŁs e sĂŁo de uso Ășnico e exclusivo para a divulgação das obras, portanto podendo conter erros de gramĂĄtica, escrita e modificação dos nomes originais de personagens e locais. Caso se interesse por alguma das obras aqui apresentadas, por favor considere comprar ou adquiri-las quando estiverem disponĂ­vel em sua cidade.

Copyright © 2018 – 2025 | Anime X Novel | Powered By SpiceThemes

CapĂ­tulos em: Let This Grieving Soul Retire