Grieving Soul â CapĂtulo 2 â Volume 3
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 03
CapĂtulo 2:
[O Desafiante e o Transcendente]
Sua esgrima era quase mĂĄgica.
Diante dela estava um jovem sob todos os aspectos, ligeiramente mais velho que Chloe, mas ainda muito novo para ser chamado de caçador experiente. Seu porte era pequeno em comparação com outros caçadores, que geralmente possuĂam um fĂsico robusto; talvez Chloe atĂ© crescesse mais do que ele no futuro.
Ele vestia um casaco com capuz negro como a noite, mesmo estando em um ambiente fechado, e por trĂĄs daquele capuz, um olhar afiado e silencioso espreitava como lĂąminas.
No entanto, sua habilidade parecia excĂȘntrica para Chloe, que se orgulhava de possuir uma esgrima comparĂĄvel Ă de adultos. Ela sequer conseguia acertar um golpe.
Seu oponente empunhava uma espada de madeira, do tipo que uma criança usaria para treinarâleve e sem lĂąminaâenquanto Chloe segurava uma espada verdadeira, uma lĂąmina afiada de qualidade excepcional. Qualquer espada de madeira deveria ser cortada sem esforço no primeiro golpe, apenas pela nitidez inerente de sua lĂąmina.
Aquilo era um teste. Seu oponente era um membro dos infames Grieving Souls, um grupo ativo na linha de frente. Chloe nĂŁo tinha ilusĂ”es de que venceria, mas, mesmo assim, sua Ănfima confiança foi despedaçada com um Ășnico golpe.
A esgrima dele era algo que ela nunca tinha visto antes. Ou, para ser mais precisa, cada um de seus movimentos evocava uma variedade de estilos familiares: seu equilĂbrio corporal, sua movimentação, o modo como segurava a espada, sua posturaâhavia um estranho senso de dĂ©jĂ vu entrelaçado em tudo aquilo. Era como se encapsulasse todas as escolas de esgrima que Chloe jĂĄ tinha testemunhado, incluindo aquelas que ela mesma dominava.
ApĂłs trocar alguns golpes, Chloe percebeu: aquilo era uma quimera da esgrima, uma fusĂŁo de vĂĄrias teorias originalmente incompatĂveis, tĂŁo complexa que sua origem se tornava praticamente indistinguĂvel.
Era absurdo; era ineficiente.
Como se zombasse de toda essa lĂłgica, o homem apontou sua espada de madeira para os olhos dela e gritou:
â VocĂȘ dominou apenas uma escola de esgrima. Ă lĂłgico que eu, que trilhei o caminho de vinte e trĂȘs estilos e busco ainda mais, seja mais forte do que vocĂȘ, que seguiu apenas um. O maior Espadachim Ă© aquele que aprende e integra diversas escolas de esgrima de todas as eras e culturas… Certo, Krai?!
â Ă… aham…
Esse era um argumento absurdo. As escolas de esgrima eram refinadas ao longo de muitos anos. Cada movimento e técnica tinham um propósito, e uma boa esgrima não era simplesmente misturar técnicas de diferentes estilos. Qualquer um que tentasse algo assim só poderia ser um completo tolo. Mas, na realidade, quando a espada de Chloe colidiu com a espada de madeira, não conseguiu cortå-la e perdeu o embate.
A tarefa de Chloe era demonstrar sua força. No entanto, a cada choque entre as lĂąminas, sua confiança se esvaĂa. Era assustador. Ela estava preparada para perder, mas o medo de ver todos os seus esforços atĂ© agora serem negados era algo completamente novo.
O jovem observou a ponta trĂȘmula da espada dela, mas nĂŁo riu.
â A força de um Espadachim nĂŁo estĂĄ em sua espada; um verdadeiro Espadachim nĂŁo escolhe sua arma. Independente das circunstĂąncias, uma derrota sempre revela sua falta de treino. Portanto, Ă© lĂłgico que eu, que aprimoro minhas habilidades com uma espada de madeira atravĂ©s de prĂĄtica contĂnua e repetitiva, seja mais forte do que vocĂȘ, que depende de uma espada afiada. Certo, Krai?!
â Ah… sim, sim, aham.
Qualquer um diria que não havia como essas teorias absurdas serem verdadeiras. No entanto, aquele homem falava com tanta seriedade, com tamanha convicção, que, antes que percebessem, ele viria a ser reconhecido como um dos maiores Espadachins da capital.
E Chloe pensou consigo mesma: somos completamente diferentes. O homem diante dela era excepcional em todos os sentidos. Era apenas uma questĂŁo de tempo atĂ© que ele nĂŁo fosse apenas chamado de um dos maiores Espadachins da capital, mas sim como o ĂĄpice da arte. Certamente ele ganharia um epĂteto. Mas, entĂŁo, qual seria o tĂtulo que ele receberia?
â E a força se constrĂłi atravĂ©s da acumulação. Talvez vocĂȘ pense que foi derrotada em todos os aspectos, mas isso nĂŁo Ă© verdade! Vamos ser gratos pela oportunidade de cruzar espadas hoje. Aprenderei com sua esgrima e me tornarei mais forte do que eu era ontem! A gratidĂŁo fortalece as pessoas, certo, Krai?!
â Bem, essas sĂŁo palavras bonitas… Mas ei, Luke, vocĂȘ se esqueceu que isso era sĂł um teste?
Ela ficou chocada. A prĂłxima coisa que Chloe sentiu foi uma sensação esmagadora de derrota. O homem diante dela, que claramente a superava em força, nĂŁo apenas evitava finalizĂĄ-la com um Ășnico golpe, como tambĂ©m buscava aprender com o embate.
Agora ela entendia: aquilo não era apenas uma tarefa para Chloe, mas para seu oponente, aquele era um duelo sério.
Sem prestar atenção às palavras do seu mestre de clã, que parecia perplexo, Luke Sykol focou-se completamente em Chloe naquele momento, seu olhar afiado como uma lùmina brilhando com chamas de convicção.
â NĂŁo se preocupe â gritou ele. â VocĂȘ Ă© forte. Mas eu sou mais forte que vocĂȘ, sĂł isso. Lembre-se bem: meu nome Ă© LukeâtambĂ©m conhecido como Luke Sykol, a LĂąmina do Testamento!!!
Aquele foi o primeiro encontro de Chloe com Luke Sykol dos Grieving Souls.
E foi assim que Chloe falhou no teste de admissĂŁo da Primeiros Passosâum clĂŁ famoso por ter um olhar aguçado para talentosâe, apĂłs muito refletir, tomou a decisĂŁo de desistir do caminho do caçador para se tornar recepcionista e supervisionar as atividades dos Grieving Souls.
A partir daquele momento, seu interesse foi despertado nĂŁo apenas pelo Espadachim de esgrima peculiar, mas tambĂ©m pela pessoa em quem ele confiava tanto a ponto de buscar confirmação a cada fraseâo Mil Truques que reprovou Chloe Welter, cujo talento era amplamente reconhecido.
Mais tarde, quando chegou a hora de escolher um epĂteto para Luke, ela sugeriu “Espada Proteana” em vez de “LĂąmina do Testamento”, como ele esperava (aliĂĄs, ninguĂ©m alĂ©m dele prĂłprio o chamava assim), como um pequeno ato de vingança.
***
â Era o dia apĂłs o banquete infernal, e eu estava no escritĂłrio do mestre do clĂŁ ouvindo o relatĂłrio da Eva.
Normalmente, os clĂŁs formados por caçadores de tesouros eram organizaçÔes bastante frouxas; dizia-se que suas origens vinham de caçadores que se uniam para assistĂȘncia mĂștua. Devido aos procedimentos e requisitos mĂnimos necessĂĄrios para estabelecer um clĂŁ, muitos existiam apenas no nome, sem nenhuma função especĂfica. No entanto, isso nĂŁo significava que os clĂŁs fossem inĂșteis. Para caçadores envolvidos em atividades perigosas, o simples fato de pertencerem a uma organização jĂĄ tinha seu valor. Afinal, caçadores obstinados dificilmente se reuniriam para formar uma organização adequada.
Por outro lado, a Primeiros Passos era diferente. Quando formei o clĂŁ, contratei profissionais como a Eva de vĂĄrias ĂĄreas e deixei tudo nas mĂŁos deles.
Embora eu ainda estivesse cheio de vontade de me aposentar atĂ© hoje, naquela Ă©poca eu estava desesperado para largar a vida de caçador. Isso foi por volta do momento em que começamos a superar cofres de tesouro de NĂvel 5 e minha prĂłpria inutilidade se tornou insuportĂĄvel.
Honestamente, nunca imaginei que o clã cresceria tanto. Até hoje, ainda não consigo entender completamente o que fez tudo funcionar tão bem. Talvez tenha sido melhor que meu eu incompetente não tenha feito muita coisa.
Enquanto eu acenava com a cabeça de forma superficial, os membros competentes da nossa equipe transformaram a Primeiros Passos em um clã de primeira classe (se não em escala, pelo menos em qualidade) na capital.
Temos uma casa de clĂŁ nova e chamativa, oferecemos comodidades como comida no lounge, serviços como reabastecimento de itens e intermediação para vendas de RelĂquias, alĂ©m de nosso prĂłprio campo de treinamento dedicado. Mas entre todas as coisas que temos, uma se destaca: nossa rede de informaçÔes altamente confiĂĄvel.
NĂŁo me lembro de ter dado instruçÔes especĂficas sobre isso nem sei os detalhes por trĂĄs das operaçÔes, mas a Primeiros Passos se tornou um centro para informaçÔes sempre atualizadas.
â Ele parece ser legĂtimo, esse Arnold Hail de NĂvel 7. Parece que ele conquistou sua promoção derrotando o DragĂŁo do TrovĂŁo. Sua certificação foi concedida pela Associação dos Exploradores de Nebulanubes, a Terra das NĂ©voas. Embora seja um ramo menor, entĂŁo pode haver algum viĂ©s nissoâŠ
Ter uma vice-mestre do clã competente é essencial. Jå nem sei mais quem estå liderando quem, mas estou totalmente bem com a Eva assumindo o comando. Ela pode encher os bolsos com as taxas de associação o quanto quiser.
Por favor, sĂł nĂŁo vĂĄ embora antes da minha tĂŁo aguardada aposentadoria.
â Ele Ă© legĂtimo mesmo… Estou encrencado.
As palavras da Eva arrancaram um suspiro profundo de mim.
Eu havia considerado a possibilidade dele estar fingindo um nĂvel alto, mas parecia que ele nĂŁo era apenas aparĂȘncia.
Na verdade, pensando bem agora que minha mente estĂĄ mais clara… NĂŁo Ă© esse Arnold aquele sobre quem Gark me alertou? Eu poderia ter planejado melhor se soubesse disso… Minha memĂłria Ă© simplesmente muito falha.
â Ah, esqueci que Gark me avisou sobre ele.
â Um aviso, vocĂȘ diz…?
â Bem… Eu sou completamente alheio quando se trata de coisas nas quais nĂŁo estou interessadoâŠ
â …Ele Ă© um NĂvel 7, sabia? â repreendeu Eva com os olhos arregalados.
Mas fosse ele um NĂvel 7 ou 8, meu interesse nĂŁo era despertado e minha atenção tendia a vagar. Embora isso pudesse acabar sendo mais problemĂĄtico do que eu esperava. Liz realmente agiu muito rapidamente. Embora fosse inĂștil atribuir culpas agora; deixaria isso de lado por enquanto.
O problema foi que foi um ataque completamente surpresa. Era difĂcil acreditar que um caçador aparentemente NĂvel 7 aceitasse isso sem problemas. Arnold provavelmente estava fervendo de raiva agora. Se tivesse sido uma derrota justa e honesta, talvez fosse mais fĂĄcil para ele engolir; mas isso provavelmente sĂł o deixaria amargurado.
Eu estava um pouco preocupado. Liz era inegavelmente forte, mas como Ladina suas capacidades defensivas eram limitadas. Apesar do fato dela estar sempre pronta para combate, provavelmente nĂŁo era invulnerĂĄvel. A possibilidade dela perder ao ser pega desprevenida era muito real.
Depois de considerar tudo isso soltei um grande bocejo e esfreguei os olhos. Embora minhas preocupaçÔes fossem genuĂnas, Liz era milhares de vezes mais forte do que eu e jĂĄ estava acostumada a provocar outros indivĂduos poderosos; entĂŁo meu nervosismo simplesmente nĂŁo se sustentava.
â DragĂ”es do TrovĂŁo sĂŁo incrivelmente poderosos… Se ele ganhou seu tĂtulo derrotando um deles, ele definitivamente nĂŁo Ă© fraco.
DragÔes eram sinÎnimo de força absoluta entre monstros. Havia vårios tipos diferentes de dragÔes: DragÔes Voadores, DragÔes Terrestres, DragÔes Marinhos ou DragÔes Flamejantes; todos igualmente formidåveis.
E entre eles os DragĂ”es do TrovĂŁo eram conhecidos por serem especialmente problemĂĄticos por sua habilidade de controlar raios Ă vontade. Na verdade raios eram geralmente extremamente poderosos em todos os aspectos: sua velocidade tornava-os difĂceis de evitar; seu som e impacto podiam facilmente tirar a consciĂȘncia atĂ© mesmo dos caçadores fisicamente aprimorados; e sua condutividade tornava impossĂvel usar armaduras metĂĄlicas como defesa. De fato atĂ© mesmo entre Magos apenas aqueles com talento excepcional possuĂam habilidade para manipular raios. Se pudesse controlar raios atĂ© mesmo um coelho se tornaria um adversĂĄrio formidĂĄvel; assim sendo um dragĂŁo capaz disso seria um desastre.
Eu morreria com certeza.
Enquanto cruzava os braços e franzia as sobrancelhas Eva perguntou com uma pitada de preocupação:
â VocĂȘ jĂĄ enfrentou um?
Assenti gravemente Ă pergunta dela enquanto mergulhava fundo nas minhas memĂłrias:
â Tudo o que posso dizer Ă©… sim… Teriyaki de DragĂŁo do TrovĂŁo Ă© realmente delicioso quando grelhado com molho agridoce. E sĂł isso mesmo.
â EntendiâŠ
â Estou começando a ficar com fome na verdadeâŠ
Embora jĂĄ tivesse encontrado um antes eu sĂł estava escondido nas sombras enquanto Liz e o resto do grupo lutavam contra ele. Definitivamente era mais forte do que eu; disso tenho certeza; mas nĂŁo sei como foi a experiĂȘncia para Liz e os outros. Eles nĂŁo deveriam ter sofrido ferimentos graves com aquilo pelo menos.
A Ășnica coisa que lembro vividamente foi Sitri cozinhando a carne num prato suculento incrivelmente delicioso depois que derrotaram o dragĂŁo; talvez esse tambĂ©m fosse o poder da marinada especial da Sitri. Sitri era realmente uma polivalente incrĂvel!
â Cara, eu adoraria comer isso de novo algum dia…
â B-Bem… nĂŁo existe nenhum lugar que sirva carne de DragĂŁo do TrovĂŁo nem mesmo na capital. Afinal, todas as partes de um dragĂŁo sĂŁo consideradas materiais raros e valiosos, entĂŁo usĂĄ-las como comida Ă© algo inĂ©dito…
â Eu sei. Hmm…
O que eu deveria fazer…?
Por enquanto, reclamar com Gark era algo certo, mas, a menos que houvesse um motivo significativo para nĂŁo fazĂȘ-lo, confrontos entre caçadores normalmente eram tolerados. Eu jĂĄ podia atĂ© ouvir ele dizendo âEu te avisei.â Eu me curvaria o quanto fosse necessĂĄrio se isso resolvesse o problema, mas a outra parte provavelmente nĂŁo aceitaria tĂŁo facilmente.
Fiquei pensando por um tempo, mas, talvez por causa do estĂŽmago vazio, nĂŁo consegui me concentrar. Depois de vĂĄrios minutos de contemplação, decidi desistir completamente. Eu tinha certeza de que Liz ficaria bem, mesmo que fosse pega de surpresa. Ela jĂĄ estava acostumada com isso e tinha bastante experiĂȘncia em lidar com rancores e ser alvo de ataques.
Eu poderia entrar em contato com Gark e avisĂĄ-lo para tomar cuidado… Mas serĂĄ que isso era tudo o que eu podia fazer?
De repente, percebi que Eva ainda estava ali, esperando silenciosamente minhas palavras, seus atentos olhos cor de lavanda me observando.
Ela era meticulosa, ao contrårio de mim. Eu realmente apreciava sua dedicação incansåvel em apoiar esse meu eu incompetente, embora não fizesse mal se ela relaxasse um pouco mais.
Dei de ombros e soltei um longo suspiro.
â Ugh… A culpa Ă© sua por ter falado de teriyaki, agora estou com fome e nĂŁo consigo me concentrar.
â?! Eu nĂŁo falei nada disso?!
Era sĂł brincadeira. NĂŁo precisava levantar a voz assim…
â Seria melhor se isso pudesse terminar pacificamente, mas… bem, vamos falar com Gark sobre isso, sĂł por precaução. Certo, talvez eu devesse ir buscar um teriyaki.
â Eu entrarei em contato com ele por minha parte. E teriyaki… de DragĂŁo do TrovĂŁo? â perguntou Eva cautelosamente.
Não pude evitar sorrir um pouco com a reação dela.
â Nah, vamos deixar isso para outra hora. DragĂŁo do TrovĂŁo pode ser delicioso, mas frango tambĂ©m nĂŁo Ă© nada mal.
Ela nĂŁo tinha acabado de dizer que nĂŁo existia nenhum lugar que servisse carne de DragĂŁo do TrovĂŁo? Pessoas competentes realmente tinham um senso de humor impecĂĄvelâisso era algo que eu deveria aprender com ela.
Fazia muito tempo desde que ele havia sofrido um golpe tĂŁo severo.
Em Nebulanubes, a Terra das Névoas, onde eram suas bases, ninguém ousava desafiå-los hå muito tempo.
Nebulanubes era um paĂs com uma população limitada de caçadores de tesouros e, em particular, contava com apenas alguns caçadores de alto nĂvel. Entre eles, a NĂ©voa CaĂda, composta por Arnold Hail e seus companheiros, havia derrotado a calamidade do DragĂŁo do TrovĂŁo que assolava a nação apĂłs uma batalha mortal, sendo reconhecida como o grupo mais poderoso da regiĂŁo. AtĂ© mesmo os altos escalĂ”es da Terra das NĂ©voas tinham grande respeito pelo grupo, que era inigualĂĄvel tanto na teoria quanto na prĂĄtica.
A razĂŁo pela qual Arnold e seus companheiros escolheram deixar esse paĂs confortĂĄvel para trĂĄs era a busca por aspiraçÔes mais elevadas. Com apenas cinco RelĂquias na regiĂŁo da Terra das NĂ©voas, o potencial de crescimento como caçador era limitado. Para conquistar RelĂquias de alto nĂvel, era necessĂĄrio aumentar gradualmente o nĂvel das que se explorava e absorver material de mana para fortalecer-se. No entanto, infelizmente, Nebulanubes carecia enormemente de campos de batalha.
Mas eles estavam confiantes. Em um paĂs tĂŁo pequeno, havia apenas um punhado de caçadores certificados como NĂvel 7. Arnold, especialista em combate, era cercado por membros igualmente confiantes em suas habilidades de luta. AlĂ©m disso, com um grupo maior que a mĂ©dia, dificilmente perderiam, mesmo em batalhas entre caçadores.
Eles sabiam que Zebrudia era um grande paĂs de caçadores, muito alĂ©m do que poderiam comparar com Nebulanubes. No entanto, nĂŁo tinham a menor intenção de perder.
â Droga, aquela desgraçada… Me pegou de surpresa com um ataque desses… Isso nĂŁo vai ficar assim.
Eigh Lalia, vice-lĂder do grupo e braço direito de Arnold, conseguiu se curar o suficiente para ficar funcional usando poçÔes caras que haviam estocado. Seu ressentimento fez com que soltasse uma sequĂȘncia de rosnados pesados, ainda remoendo o ocorrido. Ele trocou a armadura que usava por roupas simples, jĂĄ que a proteção havia sido danificada na briga da taverna.
Diante de suas palavras, o restante do grupo, metade furioso, metade temeroso, expressou seu acordo.
Ao contrĂĄrio do irado Eigh, Arnold estava bem mais calmo.
Um ataque surpresa. Sim, aquilo foi uma emboscada completa. Mas se alguĂ©m quer ser um NĂvel 7 ou superior, nĂŁo pode ser facilmente derrotado por ataques-surpresaâno campo de batalha, nĂŁo existe essa de âgolpe sujo.â
Para começar, embora o ataque contra Arnold tenha sido inesperado, Eigh foi derrotado em uma situação quase justa. Aquela caçadora, sem dĂșvida, possuĂa habilidades excepcionais e uma capacidade de combate que lhe permitia derrotar facilmente Eigh, que estava a um passo de passar no teste de certificação para o NĂvel 6.
Eigh, que certamente compreendia isso, nĂŁo reprimia sua raiva como Arnold. Em vez disso, fazia questĂŁo de demonstrĂĄ-la aos outros membros. Ter o lĂder derrubado de frente afetava o moral do grupo inteiro, entĂŁo era seu papel, como vice-lĂder, manter a equipe unida no lugar de Arnold, seu lĂder e Ăcone.
Arnold ainda nĂŁo havia tomado nem um gole de ĂĄlcool, mas aquele golpe pesado e certeiro acertou sua cabeçaâuma parte do corpo difĂcil de treinar, mesmo para um caçador. E, enquanto sua consciĂȘncia estava turva, tudo havia terminado.
Foi humilhante. Mas sua vontade de lutar era ainda maior. Para os caçadores, os fortes eram algo a ser respeitado. E, para superar os fortes e demonstrar o seu melhor, Arnold e seu grupo vieram para esta terra.
No dia seguinte Ă briga na taverna, a NĂ©voa CaĂda, reprimindo sua raiva e espĂrito de luta, visitou mais uma vez a Associação dos Exploradores.
O sorriso sincero da mulher que os atacou do nada estava gravado em suas mentes. Era exatamente por terem tanta confiança em suas próprias habilidades que entendiam que sua oponente não era uma pessoa comum.
Lutar contra ilusĂ”es e monstros era diferente de enfrentar outros humanos. Ainda assim, aquela mulher claramente estava acostumada a espancar pessoas: seu ataque surpresa veio de forma impecĂĄvel, sem hesitação, e o golpe pesado acertou no breve momento em que suas consciĂȘncias ficaram turvas apĂłs serem encharcados de ĂĄlcool. Por mais vasta que fosse a quantidade de caçadores na capital, era difĂcil acreditar que existissem muitos por aĂ capazes de nocautear tĂŁo facilmente um Arnold fortalecido com material de mana. Aquela caçadora provavelmente era bem conhecida dentro da capital.
Eles nĂŁo podiam deixar isso passar. A cena na taverna tinha sido testemunhada por muitos caçadores. Se aceitassem passivamente uma derrota unilateral em um ataque surpresa, o nome “NĂ©voa CaĂda” seria manchado. Arnold tinha a intenção de se tornar um grande nome naquela terra sagrada dos caçadores. Ele nĂŁo podia se dar ao luxo de ser menosprezado.
â Em uma luta um contra um… nĂŁo tem como o Arnold perder!
Foi um dos membros do grupo que disse isso: Jaster, o mais jovem deles, falou com firmeza, o rosto corado. No entanto, uma ponta de medo pĂŽde ser percebida em sua voz. Aparentemente, a caçadora que derrotou Arnold nĂŁo havia parado mesmo depois que ele perdeu a consciĂȘncia, continuando a golpeĂĄ-lo enquanto ria alto.
Jaster havia se juntado ao grupo depois que Arnold e sua equipe se tornaram um nome conhecido em Nebulanubes. Ver sua equipe ser esmagada por uma Ășnica caçadora provavelmente era o suficiente para despedaçar toda a confiança que aquele jovem caçador, sempre acostumado a estar em um dos melhores grupos, havia construĂdo atĂ© entĂŁo.
Arnold sempre fora admirado por sua força fĂsica. Embora perder uma vez nĂŁo fosse abalar completamente a confiança dos outros membros, essas pequenas rachaduras poderiam levar a consequĂȘncias fatais no futuro.
Eles nĂŁo podiam se dar ao luxo de criar inimigos mortais.
Eles nĂŁo podiam se dar ao luxo de se tornarem perdedores impotentes.
â Seja lĂĄ quem for, vamos resolver isso pessoalmente.
Os outros membros prenderam a respiração nervosamente com a declaração de Arnold.
O peso de sua espada dourada, presa Ă s costas, era sentido com clareza. Forjada a partir de materiais do DragĂŁo do TrovĂŁo que atingiu a Terra das NĂ©voas, a espada carregava o poder dos raios. Era tambĂ©m a origem de seu apelido, “RelĂąmpago Estrondoso”.
Ele lambeu os låbios. O ferimento em sua cabeça, que deveria ter sido totalmente curado pelas poçÔes, latejava de forma surda. A dor não passava de uma ilusão. Arnold sabia bem disso. Aquele incÎmodo fantasma tinha apenas um desejo: um acerto de contas com a caçadora que o ferira. E seria no momento da vitória que essa dor deveria desaparecer.
â Essa Ă© uma oportunidade. Essa mulherâprovavelmente uma caçadora renomada na capitalâse conseguirmos derrotĂĄ-la de frente, isso nos trarĂĄ glĂłria. Essa Ă© uma chance conveniente para refinarmos nossos sentidos entorpecidos mais uma vez â disse Arnold.
â Entendo. Colocando assim, talvez tenhamos tido sorte â disse Eigh.
Eigh, que até então exibia uma expressão irritada, estremeceu e então abriu um sorriso profundo.
O que Arnold buscava nĂŁo era apenas um aumento de nĂvel ou uma glĂłria superficial. Ele queria força. E, para conquistĂĄ-la, inimigos formidĂĄveis eram necessĂĄrios. O incidente na taverna havia sido inesperado, talvez atĂ© desafortunado, mas revelou a presença de indivĂduos poderosos na capital, assim como os rumores sugeriam. Com esse conhecimento em mĂŁos, tudo o que restava era superĂĄ-los.
Quando o grupo, liderado pelo imponente Arnold, entrou, os outros caçadores reunidos no balcão se afastaram rapidamente. Um espaço se abriu diante de Chloe, a recepcionista que anteriormente havia atendido o grupo, e Arnold avançou sem dizer uma palavra.
Diferente de antes, quando usava o cabelo solto, Chloe estava com maria-chiquinhas naquele dia, por algum motivo. Vendo Arnold envolto em uma atmosfera pesada, ela exibiu um sorriso naturalmente radiante.
â Ah, eu estava esperando por vocĂȘ, Arnold. Foi um desastre, nĂŁo foi?
â O que vocĂȘ quer dizer…?
â Recebi um aviso da taverna. Parece que nĂŁo foi tĂŁo grave assim?
Ele ficou surpreso, encarando-a atĂŽnito. A notĂcia do incidente na taverna da noite anterior jĂĄ era de conhecimento pĂșblicoâos boatos viajavam incrivelmente rĂĄpido.
E, ainda mais inesperado, Chloe juntou as mĂŁos e disse com um tom de lamento:
â Eu entendo sua situação. TambĂ©m lidamos com reclamaçÔes aqui. Afinal, ela Ă© bem encrenqueiraâ
â?! O quĂȘ…? ReclamaçÔes?!
â Bom… sim. VocĂȘ nĂŁo veio registrar uma queixa contra ela por ter te nocauteado?
Arnold estava prestes a explodir de fĂșria, mas Chloe nĂŁo demonstrava nenhum medo e o encarava com uma expressĂŁo curiosa.
Reclamar por ter sido atingido? Isso nem sequer passava por sua cabeça. Um caçador que valorizava sua reputação jamais sairia reclamando apĂłs perder uma luta. Mais importante ainda, Arnold era um caçador de NĂvel 7 com um tĂtulo reconhecido.
Ele sentiu seu rosto se contorcer. Estavam zombando dele.
Bater de frente com a Associação dos Exploradores era um ato tolo. Mas ele realmente conseguiria ficar em silĂȘncio depois de ser ridicularizado assim?
Antes que sua raiva atingisse o auge, Eigh interveio rapidamente e disse:
â Senhorita, talvez seja sĂĄbio evitar provocĂĄ-lo ainda mais. Arnold Ă© paciente, mas hĂĄ limites. VocĂȘ parece ter treinado um pouco em artes marciais, mas certamente nĂŁo hĂĄ como vencer um NĂvel 7.
Em resposta à voz baixa e ameaçadora de Eigh, Chloe baixou um pouco os olhos e respondeu com um tom apologético:
â NĂŁo… eu sou apenas uma funcionĂĄria. AlĂ©m disso, nĂŁo estou tentando menosprezar ninguĂ©m. Se passou essa impressĂŁo, peço desculpas. Mas, veja bem, a verdade Ă© que a caçadora com quem seu grupo brigou Ă© bem conhecida na capital. Ela Ă© alvo frequente de reclamaçÔes, sabia?
â Viemos perguntar o nome dela.
Alvo frequente de reclamaçÔes? Dado o ataque bem executado e o golpe capaz de causar uma concussão, isso não era surpreendente.
Ela certamente era poderosa. No entanto, para Arnold, ser rotulado como um perdedor apĂłs apenas uma luta era inaceitĂĄvel.
Uma expressĂŁo desconfortĂĄvel cruzou o rosto de Chloe. Ela parecia estar debatendo consigo mesma se deveria ou nĂŁo revelar o nome. Mas entĂŁo, uma voz grave e sonora ecoou por trĂĄs dela.
â Sua velocidade divina nĂŁo deixa nem uma sombra para trĂĄs. Ela Ă© a Sombra Partida, Liz Smart.
â Tioâ Gerente da filial!!!
Ela se virou. A voz atrĂĄs dela pertencia a uma figura gigantesca, que em nada ficava atrĂĄs de Arnold em estatura.
FascĂnio e um traço de medo passaram pelo olhar de Eigh, e Jaster deu um passo para trĂĄs, como se estivesse intimidado.
Os mĂșsculos do homem se destacavam visivelmente, mesmo sob o uniforme, e inĂșmeras cicatrizes profundas cruzavam seus braços e pernas. Seu rosto exibia tatuagens proeminentes, e seus olhos afiados miravam Arnold e seus companheiros. Ele parecia ser um pouco mais velho que Arnold, mas sua aura emanava uma energia imensa.
â Esse Ă© o nome daquela moleca. VocĂȘ Ă© o RelĂąmpago Impactante, o Ladino de nĂvel 7 que veio de Nebulanubes, certo?
O gerente da filial da capital parecia ter sido um caçador de elite no passado. Arnold jå ouvira rumores sobre ele, mas pessoalmente parecia ainda mais impressionante.
Um sorriso surgiu espontaneamente no rosto de Arnold. O gerente da filial da Associação de Exploradores da Terra das NĂ©voas era um homem rotundo, parecido com um porco. Ele era eficiente como lĂder, mas inĂștil como guerreiro. Sempre que encontrava Arnold, havia um toque de reverĂȘncia em seu olhar.
Mas e quanto a esse homem diante dele? Arnold apertou a mĂŁo estendida e exerceu um pouco de pressĂŁo como teste, apenas para sentir um aperto ainda mais firme em resposta. Esse homem era forte, apesar de jĂĄ ter se aposentado da linha de frente.
Esse aperto…!
â Ah, entĂŁo vocĂȘ Ă© o gerente da filial? Sou Arnold Hail, nĂvel 7. Ficarei por aqui por um tempo.
â VocĂȘ veio de longe. Ouvi dizer que jĂĄ derrotou um DragĂŁo do TrovĂŁo? Gostamos de caçadores de alto nĂvel por aqui â disse Gark, suas palavras aliviando a tensĂŁo entre os membros do grupo de Arnold. EntĂŁo, como se tivesse acabado de se lembrar, acrescentou â Mas isso sĂł vale para aqueles que nĂŁo causam muitos problemas.
Foi uma insinuação clara. Torcendo os låbios grossos em um sorriso malicioso ao ver a carranca de Eigh, ele continuou:
â Oh, nĂŁo me entenda mal. NĂŁo estou falando de vocĂȘs. Temos alguns encrenqueiros na capital, sabe?
â Encrenqueiros?
Caçadores de tesouros brigavam regularmente, e nĂŁo era raro que alguns atĂ© se envolvessem em atividades criminosas. Arnold se perguntou quĂŁo terrĂveis essas pessoas deveriam ser para que atĂ© o gerente da filial, que conhecia bem essa realidade, os chamasse de “encrenqueiros”.
Gark coçou a bochecha e estalou a lĂngua ruidosamente.
â Pois Ă©. Eu jĂĄ os avisei, o bando que deu uma surra em vocĂȘs na taverna.
Fiquei surpreso com o comentĂĄrio dele.
â Desculpe. Pegaram vocĂȘs desprevenidos, nĂŁo foi? Liz… Ă© nĂvel 6, mas Ă© uma doida varrida que atĂ© me morde, e eu sou o gerente da filial. JĂĄ houve muitas vĂtimas dela.
Gark soltou uma risada irĂŽnica e deu de ombros, enquanto Arnold arregalava os olhos.
As palavras eram de desculpas, mas nĂŁo havia nem um pingo de arrependimento em sua expressĂŁo. NĂŁo, era pior que issoâ Arnold sentiu um toque de condescendĂȘncia nele.
Ele era o caipira que causou um alvoroço e acabou sendo espancado sem chance de reagir por uma mulher de nĂvel inferior.
SerĂĄ que esse homem tinha preconceito contra filiais de paĂses menores? Arnold realmente tinha a capacidade de se virar na capital?
Embora os funcionĂĄrios da Associação devessem se esforçar para manter a imparcialidade, seus olhares permaneciam implacavelmente severos. Se incluĂsse a reação de Chloe, ter sua força questionada era uma humilhação imensa para Arnold.
Arnold e seu grupo cerraram os dentes e franziram o cenho, mas Gark não lhes deu muita atenção.
Ele continuou:
â Minhas desculpas. Na verdade, eu avisei o “tutor” dela que o RelĂąmpago Impactante viria para a cidade pela primeira vez. Mas parece queâ como posso dizerâ ele simplesmente se esqueceu disso.
â O quĂȘ?!
â Pois Ă©… como era mesmo? Ele sempre foi um pouco distraĂdo. De um jeito ou de outro, parece que nĂŁo consegue lembrar das coisas que nĂŁo lhe interessam. De qualquer forma, bem, embora vocĂȘs tenham sido espancados sem dĂł, parece que fizeram um belo escĂąndalo tambĂ©m, nĂŁo? Vamos considerar isso quitado desta vez.
As palavras nĂŁo fizeram sentido imediato para Arnold. Primeiro, o fato de que aquela mulher feroz tinha um tutor jĂĄ era chocante. Mas, mais importanteâ esse cara nĂŁo estava interessado em um Ladino de nĂvel 7?!
Antes que sua raiva o atingisse, Arnold sentiu uma onda de incredulidade. Não demonstrar interesse em informaçÔes sobre um potencial inimigo poderoso era mais do que imprudente.
O que diabos se passava na cabeça desse cara?
Enquanto Arnold tentava entender essa mentalidade misteriosa, Gark continuou:
â Ah, certo. Acabei de receber um pedido de desculpas do tutor dela. EstĂĄ pronto para isso? Ele disse: “Ela ficou um pouco animada ao ouvir sobre um nĂvel 7. NĂŁo vou deixĂĄ-la atacar novamente, entĂŁo, por favor, perdoem-na.” Bem, eu diria que vocĂȘ pode confiar na palavra dele. Ele nĂŁo Ă© do tipo que tolera a “intimidação dos fracos”. Ela vai se comportar, e acho que nĂŁo tentarĂĄ nada estranho de novo.
Seu tom era quase consolador.
Por um momento, Arnold nĂŁo entendeu o que Gark havia dito, e entĂŁo um calor subiu em sua cabeça. Arnold rangeu os dentes e mal conseguiu conter a torrente de raiva prestes a explodir. Algumas gotas de sangue escorreram de seu punho cerrado com força excessiva; suas unhas haviam perfurado sua pele. Mas nem mesmo aquela dor surda foi suficiente para acalmar sua fĂșria. Ele nĂŁo podia expressar sua frustração, porque, se o fizesse, uma enxurrada de insultos certamente sairia. Raiva nĂŁo era algo a ser liberado de forma descuidada.
Eigh olhou para Gark em silĂȘncio, mas em suas pupilas, um brilho ardente reluzia, igual ao de Arnold.
A mulher era dita como nĂvel 6, mas sem dĂșvida era uma presença formidĂĄvel. Seu temperamento intenso, sustentado por sua força brutal, a fazia atacar sem hesitar um caçador acima do seu nĂvel.
Isso nĂŁo condizia com alguĂ©m que se curvaria diante de outra pessoa. O que seria necessĂĄrio para controlar uma fera como ela? Se de fato ela estava sob o comando de outro caçador, a Ășnica resposta era Ăłbvia: força. Mais importante ainda, devia ser uma força esmagadora, capaz de subjugar um monstro tĂŁo irracional que atĂ© desafiava o gerente da filial.
A raiz de sua mentalidade misteriosa, conforme transmitido pelas palavras de Gark, nĂŁo era outra senĂŁo â arrogĂąncia. Ele tinha uma confiança esmagadora em sua prĂłpria força; sua arrogĂąncia era semelhante Ă de um deus olhando para os humanos de cima.
O alvo de sua fĂșria explosiva nĂŁo deveria ser a Sombra Partida, e sim seu â mentor. Eles o fariam pagar o preço por menosprezar os guerreiros de Nebulanubes. Ele poderia ser um Golias avassalador, mas nĂŁo havia como deixar isso passar sem um confronto.
Se ele havia percebido os pensamentos que passavam por suas mentes ou nĂŁo, Gark bateu as mĂŁos ruidosamente e disse:
â Ah, Ă© verdade. Aparentemente, esse mentor, o Mil Truques, tem um favor a pedir a vocĂȘs. Ele estĂĄ entre os cinco melhores caçadores da capital, entĂŁo nĂŁo faria mal estabelecer uma conexĂŁo com ele.
â Um favor, Ă©?
O nome Mil TruquesâArnold o gravou profundamente em sua consciĂȘncia.
Com uma risada, Gark disse a ele:
â Ele quer que vocĂȘs tragam um DragĂŁo do TrovĂŁo para ele. Ao ouvir sobre a sua vitĂłria contra um DragĂŁo do TrovĂŁo, ele aparentemente ficou com vontade de comer a carne de um de novo. Parece que jĂĄ faz um bom tempo que ele nĂŁo come. Bem, nĂŁo hĂĄ um prazo para isso, entĂŁo apenas guardem essa informação. Boa sorte, seus Matadores de DragĂŁo.
Arnold e seu grupo saĂram do salĂŁo com os ombros erguidos.
Chloe esperou até que suas figuras desaparecessem completamente antes de perguntar ao tio, que estava parado atrås dela em uma postura imponente:
â Hm… Gerente da Filial, tem certeza de que estĂĄ tudo bem em dizer isso?
â HĂŁ? O que quer dizer? Eu sĂł estava repassando uma mensagem da Eva â disse Gark, cruzando os braços e curvando os lĂĄbios em um sorriso.
Arnold pode nĂŁo ter levantado a voz, mas as emoçÔes em seu coração eram Ăłbvias. A aura intimidadora que ele exalava era digna de um caçador de alto nĂvel como ele.
Mesmo alguĂ©m como o Mil Truques poderia achar desafiador enfrentar um caçador de alto nĂvel especializado em combate.
â Ah, nĂŁo se preocupe com isso. Se ele nĂŁo tivesse a intenção de começar uma briga, ele jamais teria dito: “Foi mal por te espancar numa luta” como desculpa para um caçador arrogante de alto nĂvel, certo?
â Isso faz sentido…
Pedir desculpas a um caçador determinado a se vingar era o mesmo que jogar lenha na fogueira. TambĂ©m era difĂcil imaginar que esse jovem, que havia resolvido inĂșmeros incidentes com sua percepção excepcional, simplesmente julgaria mal o carĂĄter de seu oponente. Afinal, essa nĂŁo era a primeira vez que o Mil Truques arrumava briga ou implicava com caçadores estrangeiros.
â Manter caçadores esquentados sob controle Ă©, sem dĂșvida, trabalho para outro caçador. Pode nĂŁo ser uma atitude muito louvĂĄvel, mas Ă© certamente apreciada. Krai provavelmente gosta de fazer isso tambĂ©m, entĂŁo ajude quando puder.
â Entendido.
Gark acenou com a mĂŁo e saiu do salĂŁo.
Observando-o partir, Chloe voltou a direcionar seus olhos negros para o caminho por onde NĂ©voa CaĂda havia saĂdo.
Ser um caçador de relĂquias… realmente tinha suas complexidades.
No terceiro andar da sede do clĂŁ Primeiros Passos, havia um laboratĂłrio designado para Alquimistas. Era um laboratĂłrio espaçoso, ocupando cerca de setenta por cento do andar. Com diversas salas, equipamentos de Ășltima geração e materiais raros, era provavelmente a instalação mais cara da sede.
Originalmente, Sitri era a Ășnica Alquimista em Passos. Embora agora houvesse mais um, o fato de quase um andar inteiro ter sido dedicado Ă relativamente rara classe de Alquimista se devia ao investimento significativo de Sitri com seu prĂłprio dinheiro quando o prĂ©dio foi construĂdo. Foi uma quantia tĂŁo grande que atĂ© silenciou Eva, a ex-mercadora conhecida por sua avareza. A expressĂŁo chocada dela ainda estava gravada vividamente na minha memĂłria.
Embora o nome â Alquimista possa evocar uma imagem um tanto misteriosa, o laboratĂłrio de Sitri era tĂŁo organizado quanto sua personalidade meticulosa: a sala era decorada com papel de parede branco e um piso polido reluzente. As prateleiras de vidro estavam repletas de instrumentos intricados e bizarros, e as estantes estavam cheias de livros escritos em idiomas que eu nem conseguia reconhecer. No entanto, cada item dessa coleção alquĂmica na sala estava bem organizado, e o laboratĂłrio nĂŁo transmitia nenhuma vibração suspeita.
Ao som da porta se abrindo, uma das duas figuras paradas em frente Ă mesa centralâSitri, vestindo um simples manto cinzaâvirou-se para mim. Ao ver meu rosto, ela juntou as mĂŁos e abriu um sorriso radiante.
â Bem-vindo, Krai.
â Estava ocupada?
â NĂŁo. Eu sĂł estava preparando algumas poçÔes para venda. Mas jĂĄ terminei os preparativos, entĂŁo estou livre agora.
Sobre a mesa havia um grande e peculiar aparato que lembrava uma ampulheta. Diferente de uma ampulheta, a metade superior continha uma substĂąncia pastosa em vez de areia, e um reservatĂłrio de lĂquido se acumulava na parte inferior. Provavelmente era um dispositivo para extrair componentes, mas a função da maioria dos instrumentos de Sitri escapava Ă minha compreensĂŁo.
Sitri geralmente comprava os materiais dos monstros derrotados pelos Grievers um valor um pouco acima do preço de mercado, transformava-os em poçÔes ainda mais valiosas e os revendia para diversas companhias comerciais. Através desse processo, ela acumulou uma fortuna imensa. Enquanto as recompensas de nossas aventuras eram geralmente divididas de forma igual, Sitri era a mais rica graças a isso. Segundo Eva, que auxiliava em algumas das transaçÔes, a quantia que ela ganhava era bastante excepcional para ganhos individuais.
â Talia, desculpe, mas por favor coloque o resto das poçÔes em frascos e guarde-os na caixa de madeira.
â Certo â respondeu a outra Alquimista de Primeiros Passos, Talia, que despejava uma substĂąncia esverdeada em pĂł de um grande recipiente de vidro enquanto enxugava o suor da testa.
Elas pareciam mais ocupadas do que o normal. Embora a produção de poçÔes fosse um negócio secundårio para Sitri, produzir muitas de uma vez poderia levar a uma queda em seu valor. Essa era a primeira vez que eu a via fabricar tantas ao ponto de precisar da ajuda de outra pessoa.
Talia pegou um recipiente de vidro da parte inferior de um dos aparelhos e o levou para outra sala.
Parecendo ter percebido a curiosidade na minha expressĂŁo, Sitri me explicou:
â Fui procurada por aqueles que ajudaram a carregar suas RelĂquias recentemente. Eles disseram que queriam treinar por conta prĂłpria no tempo livre, entĂŁo perguntaram se eu poderia ceder algumas poçÔes para eles.
SĂ©rio…? Isso nem Ă© treino, para começo de conversa. Eles estavam literalmente espumando pela boca e perdendo a consciĂȘncia. Como Ă© que eles nĂŁo sĂł nĂŁo ficaram traumatizados, mas ainda estĂŁo ansiosos para tomar mais daquela poção por vontade prĂłpria? SĂŁo masoquistas ou algo assim?
â Claro, estou cobrando apenas o custo mĂnimo dos materiaisâisso Ă© esplĂȘndido. Seu entusiasmo estĂĄ contagiando eles. TambĂ©m estou feliz que todo o meu esforço para incentivĂĄ-los valeu a pena.
â Ă, uhum.
Aquilo parecia mais uma provocação do que um incentivo, mas não senti vontade de apontar isso para Sitri, que me olhava com olhos brilhantes.
Enquanto eu assentia meio distraĂdo, Sitri continuou em um tom cada vez mais animado:
â EntĂŁo, pensei em fazer algumas pequenas melhorias nas poçÔes. Ă uma oportunidade rara ter Caçadores que absorveram uma grande quantidade de matĂ©ria mĂĄgica e estĂŁo dispostos a se tornarem cobaias por conta prĂłpria. AtĂ© agora, a pesquisa em humanos era feita principalmente com ĂłrfĂŁos no distrito decadente. Embora nĂŁo houvesse repercussĂ”es, a condição de saĂșde deles nĂŁo era exatamente idealâ
â Ă, uhum?
â Seria uma revolução se conseguirmos estabelecer um meio para o crescimento extremo de mana observando um grupo tĂŁo grande de amostras. Temos a Lucia, mas a mentalidade dela Ă© forte demais, entĂŁo ela nĂŁo serve como referĂȘncia. Se conseguirmos provar que esse mĂ©todo funciona com Magos que nĂŁo sĂŁo tĂŁo talentosos, isso certamente mudarĂĄ a forma como os Magos treinam. Pode ser um grande benefĂcio para eles! Disponibilizar poçÔes para todos agora a um custo baixo trarĂĄ benefĂcios imensos! O que acha, Krai?
â SĂł nĂŁo exagera.
NĂŁo exagere, por favor.
â Eu estava pensando em simplesmente dar para eles as mesmas poçÔes que a Lucia usa, mas acabou sendo mais complicado do que isso. Era muito caro, e o impacto no estado mentalâ
â Vim devolver o dinheiro que te devo.
â HĂŁ?
Uma expressĂŁo confusa surgiu no rosto de Sitri.
Embora eu nĂŁo me importasse de ver uma Sitri animada, explicar tudo isso para Talia, sua colega Alquimista, seria mais produtivo.
Eu estava ali para devolver o dinheiro que peguei emprestado para cobrir a reconstrução da taverna.
Normalmente, eu cobria os custos das celebraçÔes. JĂĄ que recebia uma parte do pagamento deles sem trabalhar, era o mĂnimo que eu podia fazer.
â NĂŁo, tudo bem. NĂŁo Ă© a primeira vez, afinal. SĂł coloca na sua conta de crĂ©dito.
â VocĂȘ jĂĄ me emprestou tanto que eu nem lembro quanto peguei…
Embora eu estivesse registrando cada centavo que pegava emprestado, nunca fiz os cĂĄlculos, entĂŁo nĂŁo sabia o valor total. Eu tinha pegado dinheiro demais. RelĂquias eram muito caras, e eu nĂŁo tinha outras fontes de renda, jĂĄ que minha Ășnica função era administrar o clĂŁ. Sitri provavelmente sabia da minha situação, mas nunca me cobrou nada.
Ela mencionou algo sobre eu dever mais de um bilhĂŁo de gild na taverna. SerĂĄ que ouvi certo…? Isso tem nove zeros, nĂ©?
Sitri colocou a mão no rosto e sorriu, um pouco sem graça:
â Eu tambĂ©m jĂĄ te emprestei muito, entĂŁo devolve quando puder.
â SĂł consigo pagar aos poucos.
â Mesmo que me pague um ou dois milhĂ”es, isso seria sĂł uma gota no oceano. Um dia, vou cobrar essa dĂvida com o seu corpo.
â Eu sou bem mimado, hein?
Normalmente, eu jĂĄ deveria ter sido expulso do grupo, mas, em vez disso, me tratavam bem. Para ser sincero, eu me sentia envergonhado.
Imagino o que Eva diria se descobrisse o tamanho da minha dĂvida…
Sem saber dos meus pensamentos, Sitri corou.
â Vou te mimar bastante. EntĂŁo, em troca, me mime muito quando chegar a hora, ok?
Hmm? Isso me torna um sugar baby? Quer dizer que minha vida estarĂĄ garantida mesmo depois que eu me aposentar?
Por mais inepto que eu fosse, eu ainda tinha um pouco de bom senso. Eu acho.
â Vou te pagar.
â Como?
â Eu… vou pegar emprestado da Lucia?
â Isso nĂŁo muda o fato de que vocĂȘ continua endividado…
â Na verdade, estou pensando em abrir uma confeitaria quando me aposentar.
â Ooh, isso Ă© um baita negĂłcio. Em quantos anos vocĂȘ pretende pagar o restante do bilhĂŁo de gild? â disse Sitri com um sorriso.
Eu sabia que ela não tinha intenção de ser sarcåstica, mas ainda assim percebi um tom irÎnico nas palavras dela.
Mas quanto ao resto… Acho melhor me preparar para levar uma bronca e consultar Eva sobre isso mais tarde.
Ah, e nem pensar em vender minha coleção de RelĂquias. Encontrar uma RelĂquia era uma experiĂȘncia Ășnica na vida. Entre as que coletei ao longo dos anos, algumas eram praticamente impossĂveis de conseguir de novo. PorĂ©m, eu planejava doĂĄ-las ao meu grupo como bens compartilhados quando me aposentasse. Seria minha forma de compensar por sair do grupo de forma irresponsĂĄvel.
De qualquer forma, eu estava ali para pagar a conta da Ășltima vez na taverna.
Sitri aceitou o pagamento sem dizer nada e, sem contar o dinheiro, o guardou no bolso da sua tĂșnica folgada.
EntĂŁo, como se de repente se lembrasse de algo, ela disse:
â Ah, certo. Se acontecer de vocĂȘ realmente nĂŁo conseguir pagar sua dĂvida, tenho trĂȘs maneiras de te ajudar a quitar tudo.
â Acho melhor eu ouvir o que vocĂȘ tem a dizer. Mas jĂĄ descartamos a opção de simplesmente perdoar a dĂvida.
Apesar de tudo, eu ainda levava meus compromissos financeiros a sério.
EntĂŁo, com o rosto avermelhado, Sitri disse:
â Primeira opção: casar comigo. Se nos casarmos, nossos bens serĂŁo unificados e sua dĂvida serĂĄ cancelada. Vou atĂ© me esforçar para aprender a gostar de doces. Vou dar um jeito de calar minha irmĂŁ e nĂŁo vou deixar que ela encoste um dedo em vocĂȘ.
Uma piada engraçada, sem dĂșvida. NĂŁo me leve a mal, nĂŁo era como se eu odiasse completamente a ideia, mas isso nĂŁo funcionava como um mĂ©todo vĂĄlido para quitar dĂvidas.
â E a segunda opção?
â A segunda opção Ă© que vocĂȘ se torne meu marido. Eu assumirei todas as suas dĂvidas junto com vocĂȘ. Sei tudo sobre vocĂȘ, Krai. Vou cuidar de tudo, desde cozinhar atĂ© lavar roupa, vou cobrir todas as tarefas domĂ©sticas e atĂ© tolerarei sua indulgĂȘncia no cafĂ© de confeitaria. Farei o meu melhor para silenciar minha irmĂŁ.
…Pelo visto, o senso de humor da Sitri rivalizava com o da Eva.
NĂŁo tenho certeza, mas fico me perguntando: âQual a diferença entre a primeira e a segunda opção?â
Escondendo meus sentimentos levemente irritados, assenti com um falso interesse e perguntei:
â Essa… Ă© uma proposta bastante tentadora. E qual Ă© a terceira opção?
Sem hesitar um instante, Sitri respondeu:
â Me dedurar e me entregar para as autoridades. Mas eu ficaria um pouco solitĂĄria na prisĂŁo, entĂŁo ficaria feliz se vocĂȘ mandasse minha irmĂŁ para me fazer companhia.
NĂŁo diga isso com um sorriso tĂŁo brilhante no rosto. Pelo visto, vou ter que tomar mais cuidado para nĂŁo pegar mais… Mas, de qualquer forma, por que eu mandaria ela para a prisĂŁo? NĂŁo Ă© como se ela tivesse cometido algo terrĂvel.
Soltei um suspiro e decidi encerrar o assunto.
â A propĂłsito, vocĂȘ se lembra do DragĂŁo TrovĂŁo Teriyaki que vocĂȘ fez para nĂłs hĂĄ um tempo? Estava incrivelmente delicioso.
â Ah, eu fiz com um tempero caseiro. Acho que misturĂĄ-lo com frango, em vez de dragĂŁo, combinaria mais com o seu gosto. Afinal, carne de dragĂŁo nĂŁo se compara em sabor Ă de animais criados para consumo. Eu ainda me lembro da receita. Que tal fazermos hoje Ă noite? â disse Sitri, acompanhando a mudança Ăłbvia de assunto.
Agora… como vou conseguir dinheiro…? Falando nisso, o leilĂŁo estĂĄ chegando…
Senti que havia me aproveitado da gentileza da Sitri no ano passado e feito uma farra comprando RelĂquias. NĂŁo restava muito tempo atĂ© o leilĂŁo deste ano.
Soltei um suspiro pesado e decidi consultar a Eva, minha pessoa de confiança quando as coisas ficavam complicadas.
Eles estavam no coração da capital, em um quarto de uma pousada de luxo feita sob medida para caçadores de tesouros.
Arnold lançou um olhar atento sobre os membros de seu grupo e, com um tom carregado de uma leve intimidação, confirmou com eles:
â EntĂŁo, vocĂȘs conseguiram reunir os rumores?
â Sim. Parece que ele Ă© um caçador famoso por essas bandas â seu nome atĂ© estava na lista que recebemos quando chegamos.
Eigh analisou os rostos de seus companheiros antes de começar a explicação.
O Mil Truques â esse era o apelido do caçador que, segundo o Gerente da Guilda Gark, era o dono da Sombra Partida. Brincando ou falando sĂ©rio, ele tambĂ©m havia lhes encomendado a caça de um DragĂŁo TrovĂŁo por um motivo absurdo: âele queria comer sua carne.â
Era uma provocação. JĂĄ era motivo suficiente para Arnold antagonizĂĄ-lo pelo simples fato de ser o lĂder do grupo da mulher que os atacou de forma unilateral, mas envolvĂȘ-lo sem informaçÔes seria muito arriscado.
Entre as conquistas acumuladas por Arnold, matar um DragĂŁo TrovĂŁo era a maior de todas. O dragĂŁo que outrora devastou a Terra das NĂ©voas realmente tinha poder para reduzir uma nação inteira a cinzas. Ele era uma força absoluta, repelindo repetidamente grupos de caçadores de alto nĂvel que tentaram enfrentĂĄ-lo. Cada desafiante falhou â atĂ© Arnold e seu grupo. Foi essa façanha que lhe garantiu a certificação de NĂvel 7 e seu tĂtulo.
O DragĂŁo TrovĂŁo, colossal em tamanho, era coberto por escamas resistentes. Com seu sopro elĂ©trico praticamente impossĂvel de evitar, sua longa cauda afiada como uma lĂąmina, e sua capacidade de voar pelos cĂ©us, ele era considerado uma existĂȘncia superior atĂ© mesmo entre os dragĂ”es.
Embora tenha sido a Queda da NĂ©voa quem enfrentou e matou diretamente o DragĂŁo TrovĂŁo, a conquista foi resultado da colaboração de inĂșmeros caçadores: foram eles que prepararam o campo de batalha, encontraram o momento certo, garantiram que os equipamentos e estratĂ©gias fossem perfeitos e montaram as armadilhas. Foi uma batalha onde a sobrevivĂȘncia da nação estava em jogo. Mas mesmo com toda a preparação meticulosa, o combate mortal se estendeu por vĂĄrias horas.
Embora o nĂvel recomendado pela Associação de Exploradores fosse NĂvel 7, Arnold, tendo enfrentado o dragĂŁo, considerava essa classificação uma subestimação de seu poder. Eles tiveram a sorte de conseguir derrotĂĄ-lo, mas, se houvesse um Ășnico erro, todo o seu grupo teria sido exterminado. Mesmo agora, equipados com armas poderosas feitas dos materiais do dragĂŁo e tendo encarado a morte inĂșmeras vezes, ainda nĂŁo era um inimigo que poderiam enfrentar casualmente. NĂŁo importava o quĂŁo desesperadora fosse uma situação ao explorar cofres de tesouros, lembrar-se do quanto sua luta contra o DragĂŁo TrovĂŁo foi pior lhes dava força para seguir em frente.
Após a batalha, eles dissecavam o corpo remanescente para obter materiais. A Terra das Névoas lucrou enormemente com isso, e uma quantia justa foi concedida a todos os caçadores que participaram.
O corpo de um dragĂŁo era um tesouro completo. Seus ossos, escamas e as gemas dentro de seu corpo â sem falar no sangue e na carne â eram extremamente valiosos como ingredientes para poçÔes.
A ideia de consumir atĂ© mesmo uma pequena parte desses materiais tĂŁo difĂceis de obter como comida era uma verdadeira loucura. Se um caçador saĂsse espalhando esse tipo de absurdo, ele seria alvo de risadas e zombarias, como era de se esperar. No entanto, se isso fosse dito por um caçador de alto nĂvel, a histĂłria seria outra.
â Quando se fala dos caçadores de Zebrudia, Rodin Ă© o primeiro nome que vem Ă mente… Mas droga, esse cara Ă© um NĂvel 8…!
Um NĂvel 8 era um caçador extremamente poderoso, superando atĂ© mesmo Arnold, o Matador de DragĂ”es. Caçadores de nĂvel tĂŁo alto nem sequer existiam em Nebulanubes â ele era, de fato, um adversĂĄrio misterioso.
Para os caçadores de tesouros, que aumentam suas habilidades com o auxĂlio de materiais de mana, a diferença de poder entre os indivĂduos podia ser abismal. A diferença entre Arnold e um caçador comum era como a noite e o dia, mas o mesmo se aplicava entre ele e um caçador de nĂvel ainda mais alto.
Havia apenas cinco cofresem Nebulanubes. Embora isso ainda fosse melhor do que nos paĂses vizinhos, era insignificante em comparação com a capital de Zebrudia, onde relĂquias de todos os nĂveis eram abundantes nos arredores. Numerosas relĂquias de alto nĂvel, capazes de fortalecer ainda mais Arnold e seu grupo â que jĂĄ haviam atingido seus limites de crescimento em Nebulanubes â existiam por estas bandas.
Arnold sabia com confiança que era o mais forte. O problema estava na ansiedade que girava entre seu grupo: eles se perguntavam se o nome âTrovĂŁo Estrondosoâ era suficiente para esta capital.
A força de seu grupo era tĂŁo boa quanto sua solidariedade. Ele era um lĂder forte, seguido por todos, e precisava provar sua força e orgulho como lĂder.
O olhar de desdém de Gark estava gravado em sua mente. Aqueles olhos deixavam claro que Gark acreditava na supremacia do Mil Truques sobre o Trovão Estrondoso.
Inicialmente, o plano deles era se fazer conhecidos pelos caçadores da capital, vender os itens obtidos em Nebulanubes por preços altos e então esmagar os cofres desta terra uma a uma, sem pressa.
Mas ele nĂŁo podia mais se dar ao luxo desse lazer.
As informaçÔes sobre o Mil Truques que Eigh e o resto de seu grupo haviam coletado eram absurdas.
Diziam que ele era um homem que podia prever o futuro.
Diziam que ele havia alcançado o NĂvel 8 sem cometer um Ășnico erro.
Diziam que ele liderava um grupo inteiro de caçadores com tĂtulos e que havia derrotado o lendĂĄrio Rodin.
Todos conheciam seu nome, mas sua verdadeira força permanecia envolta em mĂșltiplas camadas de mistĂ©rio. Havia atĂ© membros de seu clĂŁ que diziam: âMestre Ă© um deus.â
Com apenas algumas perguntas casuais, jĂĄ haviam ouvido tanto sobre sua reputaçãoânĂŁo era de se estranhar que ele agisse com tamanha arrogĂąncia.
No entanto, quanto mais Arnold mergulhava nos relatĂłrios, mais sua expressĂŁo severa se transformava em uma de dĂșvida.
Dentre as informaçÔes reunidas, havia um detalhe que parecia fora do lugar.
â EntĂŁo nĂŁo hĂĄ rumores sobre suas habilidades de combate, hein?
â Ă. Mas dizem que ele mandou um golem colossal pelos ares sĂł com sua aura…
â Que besteira ridĂcula.
Embora cada caçador tivesse sua prĂłpria especialidade, âcapacidade de combateâ era o fator mais importante de todos. Mesmo caçadores de classes menos voltadas para o combate direto lutavam melhor do que uma pessoa comum â era isso que significava ser um caçador. Se esse Mil Truques era um NĂvel 8, seu poder deveria estar alĂ©m dos limites humanos. Claramente, havia algo errado nessa falta de informaçÔes.
Normalmente, as pessoas desconfiariam dessa ausĂȘncia de inteligĂȘncia. Mas, devido Ă reputação do Mil Truques, com certeza ignorariam essa pequena anomalia. Arnold, no entanto, era diferente â o TrovĂŁo Estrondoso nĂŁo havia alcançado o NĂvel 7 apenas com força bruta. Sua habilidade de fazer julgamentos adequados dependia de reunir informaçÔes relevantes, e sua intuição como caçador lhe dizia que havia mais coisa por trĂĄs disso.
Ele franziu a testa enquanto reunia mentalmente os dados. Depois de chegar a uma conclusĂŁo, esboçou um sorriso torto â sem dĂșvida, o Mil Truques era fraco. Ou melhor, para ser mais preciso, embora nĂŁo fosse exatamente fraco, provavelmente nĂŁo possuĂa as habilidades de combate dignas de um NĂvel 8. Em termos de profissĂŁo, ele provavelmente era um Ladino ou ClĂ©rigo, ambas classes nĂŁo voltadas para o combate. Em qualquer um dos casos, ele nĂŁo seria pĂĄreo para Arnold, que se especializava em batalhas. A completa ausĂȘncia de informaçÔes sobre suas habilidades de combate provavelmente era um trabalho ativo do Mil Truques para esconder isso.
â A habilidade de prever o futuro, hein? Interessante…
A alegação de ser capaz de prever o futuro era algo digno de um charlatĂŁo ou algo atribuĂdo apenas a herĂłis lendĂĄrios.
Talvez seu pedido absurdo de entregar um Dragão do Trovão fosse apenas um truque para fazer Arnold hesitar. Quanto mais Arnold pensava nisso, mais via através dessa tåtica superficial. Talvez até as palavras do gerente da filial e da recepcionista fizessem parte desse blefe.
Que absurdo. Assim Ă© que eles acabam caindo na prĂłpria armadilha.
Podiam enganar os caçadores da capital, mas não enganariam o Trovão Estrondoso.
â HĂĄ rumores de que a Sombra Partida Ă© amiga de infĂąncia do Mil Truques.
As palavras de Eigh dissiparam a Ășltima dĂșvida de Arnold.
Normalmente, era difĂcil imaginar uma guerreira do calibre dela se submetendo a um fraco, mas era uma histĂłria diferente se eles se conhecessem hĂĄ muito tempo.
Talvez isso também fosse mais uma camada de enganação.
Arnold encarou a sombra imaginĂĄria de seu suposto rival.
Seu oponente provavelmente nĂŁo era fraco â mas o TrovĂŁo Estrondoso triunfaria.
Arnold ainda era relativamente desconhecido nesta capital, ao contrĂĄrio do Mil Truques. A fama vinha com vantagens e desvantagens. Nesta capital, Arnold era o desafiante agora.
Embora tivessem sofrido um revĂ©s inicial, nĂŁo haveria maneira melhor de cimentar sua reputação na capital do que esmagar o Mil Truques sob seus pĂ©s. Claro, essa certamente seria uma luta amarga â a Sombra Partida ficaria em seu caminho tambĂ©m â mas derrotĂĄ-los provaria sua superioridade absoluta.
Os ombros de Arnold tremeram de empolgação enquanto ele abria um sorriso profundo. Ele havia tomado sua decisão.
â Faz tempo que nĂŁo somos os desafiantes. Vamos deixar esses veteranos nos ensinar sobre os nĂveis da capital.
Um grupo composto apenas por caçadores com tĂtulos era, de fato, poderoso, mas seus membros individuais nĂŁo necessariamente eram fortes quando isolados. Arnold nĂŁo era um cavaleiro que jogava limpo; ele era um caçador â atacaria qualquer fraqueza disponĂvel.
Com fervor na voz, um de seus companheiros estremeceu de empolgação.
â E sobre o pedido deles por um DragĂŁo do TrovĂŁo?
â Vamos deixar ele latir o quanto quiser. NĂŁo Ă© como se tivĂ©ssemos aceitado a missĂŁo oficialmente. Vou fazer qualquer um se arrepender de me subestimar.
Seus olhos dourados brilharam fracamente diante de seu maior adversĂĄrio desde o DragĂŁo do TrovĂŁo.
***
Um ar de antecipação percorreu o amplo salão.
â Como diabos vocĂȘ chegou a isso?
Eva, folheando minhas anotaçÔes de dĂvida enquanto conferia o conteĂșdo, soltou uma voz trĂȘmula, algo bem fora do seu normal geralmente composto.
Nem eu sentia vontade de me recostar na cadeira como de costume. Em vez disso, cruzei os braços e fingi um olhar pensativo.
A Grieving Souls dividia sua renda igualmente entre os membros. Caso algum de nĂłs quisesse certos itens, como RelĂquias ou materiais de monstros que conseguĂssemos em nossas aventuras, tĂnhamos uma regra que permitia a compra desses itens por um valor um pouco abaixo do mercado. Bem, como Ă©ramos todos bons amigos e nĂŁo particularmente materialistas, tratĂĄvamos nossos ganhos de forma bem casual.
O motivo da minha dĂvida ter crescido tanto foi, principalmente, porque acabei comprando a maioria das RelĂquias. Sem dinheiro nenhum, cada compra sĂł aumentava minha dĂvida com todos. No entanto, por volta da Ă©poca em que Eliza entrou para o grupo, Sitri, que sempre parecia estar bem financeiramente, começou a assumir toda a minha dĂvida.
Agora, eu dependia totalmente dela. Eu vinha evitando o problema atĂ© entĂŁo, mas a situação estava ficando bem estranha… talvez.
â Bem… eram muitas RelĂquias que eu queria…
â Isso… Ă© um valor que supera atĂ© o que um caçador de elite poderia ganhar com facilidade, sabia? Eu me perguntava como vocĂȘ continuava trazendo novas RelĂquias uma atrĂĄs da outra… agora eu sei…
â Ă, uh-huh… Conforme fomos explorando cofres do tesouro de nĂvel cada vez mais alto, as RelĂquias que trouxemos tambĂ©m se tornaram mais valiosas. Foi assim que a dĂvida sĂł cresceu e cresceu…
Era até estranho que ninguém tivesse me apontado isso antes. O valor era tão absurdo que eu nem conseguia ter uma noção real dele. Era de tirar o fÎlego.
Eva afastou a franja e pressionou a mão contra a testa. Sua expressão parecia muito mais séria do que a minha, sendo eu o culpado da história.
â Eu sabia que, ocasionalmente, vocĂȘ pegava parte dos fundos operacionais do clĂŁ para comprar RelĂquias, mas como sempre devolvia logo, nĂŁo pensei muito sobre isso…
Ă, nĂ©… Sitri cobria isso para mim. Talvez eu nĂŁo tenha escolha a nĂŁo ser casar com ela? Eu gosto dela, mas realmente nĂŁo consigo me imaginar casando por esse motivo.
â S-SĂł para confirmar… vocĂȘ nĂŁo pegou dinheiro de outras fontes externas, certo?
â Sim, sĂł da Sitri.
Ou melhor, eu jĂĄ tinha pegado emprestado de outros antes, mas a Sitri cuidou de tudo para mim.
As RelĂquias eram meu sustento, e foi exatamente por isso que eu nĂŁo cedi nem um centĂmetro nesse pontoâmas talvez eu devesse ter pensado um pouco mais antes de agir.
Talvez eu nĂŁo tenha escolha a nĂŁo ser casar com ela?
A expressĂŁo contemplativa de Eva durou apenas um instante, e logo ela soltou um longo suspiro.
â Ugh… Bem, com a Grieving Souls, tenho certeza de que vocĂȘ poderĂĄ resolver isso em um ou dois anosâdesde que nĂŁo haja juros…
Eu jå estou atolado com a situação atual; serå que consigo continuar como caçador por mais um ou dois anos?
â SerĂĄ que conseguimos resolver isso com uma cafeteria de doces?
â Eu nĂŁo faço a menor ideia do que vocĂȘ estĂĄ falando.
â Ok, decidi! AtĂ© que a dĂvida seja paga… vamos considerar parar de comprar mais RelĂquias.
Mesmo tendo falado com uma resolução firme, um olhar de ceticismo escapou dos olhos de Eva. AtĂ© agora, eu vinha comprando RelĂquias sem parar e me gabando delas; nĂŁo era surpresa que ela nĂŁo estivesse levando minha palavra a sĂ©rio. Eu teria que provar com açÔes.
JĂĄ que estou nessa, posso muito bem demonstrar um pouco de entusiasmo.
â AlĂ©m disso, Ă©, talvez eu devesse arranjar um bicoâbem, talvez nĂŁo tĂŁo longe dissoâou, sei lĂĄ, um trabalho de meio perĂodo?
â Por favor, nĂŁo.
â E se for algo como ler a sorte? VocĂȘ nĂŁo acha que eu conseguiria me virar sĂł dando uns palpites no escuro?
â P-Por favor, nĂŁo!
Eu estava meio brincando, mas a voz de Eva soou desesperada. Ela estava atĂ© mais pĂĄlida do que quando ouviu sobre minha dĂvida.
Bem, para ser justo, se o mestre do meu clã tentasse virar um charlatão vidente, eu também tentaria impedi-lo desesperadamente. Além disso, havia videntes de verdade na capital com taxas de acerto bem altas; eu provavelmente teria minha farsa desmascarada rapidinho.
â Ou… talvez eu possa trabalhar como balconista em alguma loja?
â Por favor, nĂŁo.
â Que tal algo como zelador? Tipo limpar esgotos? Sabe, aquelas missĂ”es que a Associação sempre posta? Parece que estĂŁo sempre precisando de gente para isso.
As recompensas dessas missÔes eram baixas, e como até mesmo pessoas comuns podiam completå-las, aparentemente quase ninguém se dispunha a pegå-las.
â …Por favor, nĂŁo. SĂ©rio, eu estou implorando… VocĂȘ entende sua posição, Krai?
â Caçadores sĂŁo seres livres, e todo trabalho Ă© digno. AtĂ© um NĂvel 8 poderia limpar esgotos, nĂŁo acha?
â Eu nĂŁo acho. A Liz, por exemplo, provavelmente surtaria se vocĂȘ fizesse isso, entĂŁo por favor, nĂŁo.
Isso realmente soa como algo que poderia acontecer.
Mas isso me deixa numa posição complicada… O que eu deveria fazer entĂŁo? Eu nĂŁo tenho habilidades especiais, apenas habilidades medianas e um nĂvel desproporcionalmente alto. Estou encurralado; nĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer. SerĂĄ que sou mais um fardo do que apenas um incompetente comum?
Sinto que vou vomitar.
NĂŁo tenho escolha a nĂŁo ser depender da Liz, da Sitri, da Tino, do Luke e dos outros do meu clĂŁ? Eu sou sĂł um peso morto?
â Em vez de procurar um bico, que tal fazer algumas exploraçÔes solo em cofres do tesouro? VocĂȘ Ă© um caçador, afinal.
Parece que a Eva tambĂ©m estava me mandando âir morrerâ.
Enquanto eu relaxava e exibia um sorriso patético, Eva soltou um longo suspiro de derrota.
â Vamos, para de fazer essa cara patĂ©tica! Felizmente, temos um pouco de capital, e podemos aumentar isso com o tempo. SĂł nĂŁo faça nada, ok? Apenas nĂŁo se endivide mais do que jĂĄ estĂĄ. O maior motivo para grupos se desfazerem Ă© problema financeiro, sabia?
Digo… Eu realmente nĂŁo fiz nada, fiz? NĂŁo tenho escolha a nĂŁo ser depender da Eva? NĂŁo hĂĄ nada de errado em pegar dinheiro emprestado da Sitri, certo?
Embora eu realmente apreciasse a ajuda dela, Eva tambĂ©m tinha seu prĂłprio trabalho a fazer. AlĂ©m disso, eu me sentia mal por pedir que ela limpasse minha bagunça financeiraâisso me faria parecer um fracasso completo.
AliĂĄs, enquanto o maior assassino de grupos era, de fato, problemas financeiros, o segundo maior era drama romĂąntico.
â Por favor, mantenha-se confiante. VocĂȘ se recompor torna as coisas mais fĂĄceis para mim.
â Seu padrĂŁo para âse recomporâ Ă© bem baixo, nĂ©? Basicamente, vocĂȘ sĂł quer dizer âcale a boca e sente-se,â certo?
â …
Ela desviou o olhar de mim.
Com tudo isso em mente, o que significava ser um mestre de clĂŁ?
A manhã de um mestre de clã começava cedo, logo antes do sol atingir seu ponto mais alto.
Depois de acordar no meu quarto privado dentro da casa do clã, eu tomava um banho råpido nas instalaçÔes do prédio para espantar o sono.
EntĂŁo, eu me vestia. Embora minha aparĂȘncia permanecesse consistente ao longo dos dias, graças Ă s vĂĄrias cĂłpias do mesmo conjunto de roupas que eu possuĂa, eu equipava diferentes conjuntos e quantidades de RelĂquias todos os dias. As RelĂquias que eu escolhia dependiam principalmente do meu humor. Embora eu usasse pelo menos um Anel de Segurança diariamente, a maioria das outras eram RelĂquias de acessĂłrio: anĂ©is, colares e afins eram muito prĂĄticos, pois nĂŁo atrapalhavam meus movimentos e ofereciam uma ampla variedade de efeitos.
Entre os caçadores, RelĂquias de acessĂłrio tambĂ©m eram populares, ficando atrĂĄs apenas das RelĂquias do tipo arma e armadura, que contribuĂam diretamente para a força de combate. Embora eu tambĂ©m tivesse muitas dessas na minha coleção, eu nĂŁo tinha habilidades de combate para usĂĄ-las de forma eficaz, entĂŁo sĂł as carregava quando tinha um bom motivo para isso.
Em vez disso, eu levava comigo RelĂquias do tipo corrente. Elas eram Ășteis para imobilizar inimigos e nĂŁo atrapalhavam meus movimentos. A melhor parte era que eu conseguia usĂĄ-las tambĂ©m. Como nĂŁo eram armas Ăłbvias, muitas vezes me permitiam pegar os oponentes desprevenidos. JĂĄ salvaram minha pele mais vezes do que consigo contar.
Dei uma rĂĄpida olhada ao redor do quarto e notei que vĂĄrias das minhas RelĂquias estavam desaparecidas. NĂŁo pensei muito nisso, jĂĄ que Sitri havia mencionado que poderia usĂĄ-las no desenvolvimento de uma nova poção de restauração de manaânĂŁo era como se alguĂ©m fosse se dar ao trabalho de se infiltrar e roubar a sede de um grande clĂŁ, afinal.
Com meu traje pronto, segui para o salĂŁo da casa do clĂŁ para tomar cafĂ© da manhĂŁ. O salĂŁo funcionava vinte e quatro horas, mas como a maioria das pessoas estava ocupada durante o dia, ele nĂŁo ficava lotado. Tomei um cafĂ© da manhĂŁ leveâum sanduĂche e uma xĂcara de cafĂ©âe depois subi as escadas exultante de volta ao escritĂłrio do mestre do clĂŁ.
E lĂĄ, como de costume, sentei-me na cadeira exageradamente grandiosa do mestre do clĂŁ e soltei um profundo suspiro.
NĂŁo havia nada para fazer.
A espaçosa escrivaninha diante de mim estava polida até brilhar, e não havia absolutamente nada sobre ela.
Para começo de conversa, nĂŁo havia muito trabalho para mim como mestre do clĂŁ. Eu havia delegado quase toda a autoridade para Eva em relação Ă s operaçÔes dos Passos. Raramente algo precisava voltar para mim. EntĂŁo, quando Eva me disse para apenas âcalar a boca e sentar,â ela realmente quis dizer isso.
E como nĂŁo havia nada para eu fazer, peguei um pano macio e comecei a polir as RelĂquias, uma por uma, como de costume. Como isso jĂĄ era parte da minha rotina diĂĄria, elas nem estavam tĂŁo sujas, entĂŁo terminei de limpĂĄ-las rapidamente.
Sentindo-me um pouco inquieto, comecei a vagar sem rumo pelo escritĂłrio, folheando um livro ilustrado sobre RelĂquias antigas na estante e atĂ© fazendo alguns exercĂcios no lugar. Talvez por agora saber o valor total da minha dĂvida, eu me sentia estranhamente irritado.
Enquanto fazia todas essas coisas, tentei pensar em formas de pagar a dĂvida sozinho, mas nĂŁo consegui chegar a nada. Mais importante ainda, eu realmente nĂŁo era bom em nada. Eu nĂŁo tinha conhecimento, nem habilidades de combateâeu sequer sabia por que ainda era um caçador. Quanto mais pensava nisso, mais deprimente parecia, entĂŁo rapidamente desisti de pensar.
De qualquer forma, mesmo com um bom nĂvel de habilidades, pagar uma dĂvida na casa dos bilhĂ”es era impossĂvel.
Para mudar de ares, fui até a janela atrås da minha cadeira e a abri completamente.
O dia estava bonito.
Os raios de sol entravam no quarto, e eu inconscientemente sorri com a brisa suave que soprava.
Em frente à casa do clã, ficava a rua principal. Olhando para baixo, vi que muitas pessoas estavam circulando por ali hoje também. Era um verdadeiro mar de atividade humana.
E nesse clima, comecei a ponderar: Comparado Ă imensidĂŁo deste mundo, o que Ă© uma dĂvida de bilhĂ”es?
Eu era um completo fracasso e sĂł queria desaparecer no ar como poeira.
E assim que terminei minha breve fuga da realidade, fechei a janela e voltei a me sentar na cadeira. No instante em que soltei um profundo suspiro, uma batida inesperadamente alta soou na porta. Antes que eu pudesse responder, ela se abriu de repente.
â Mestre! O senhor precisava de algo de mim?!
Quem entrou pela porta nĂŁo foi Eva nem Sitri, masâao contrĂĄrio das minhas expectativasâTino.
Ela vestia, como sempre, um traje predominantemente preto, e suas pernas brancas à mostra sob o vestido eram quase ofuscantes. Talvez tivesse corrido até aqui; suas bochechas estavam levemente coradas.
Era raro Tino aparecer no escritĂłrio do mestre do clĂŁ, que era uma ĂĄrea restrita, sem ter sido chamada.
NĂŁo… Eu nĂŁo me lembrava de tĂȘ-la chamado, mas serĂĄ que realmente nĂŁo chamei? SerĂĄ que eu poderia ter chamado?
Meus lapsos de memĂłria estavam terrĂveis.
Coloquei um sorriso forçado no rosto enquanto tentava desesperadamente revirar minha memória e sair dessa situação de alguma forma.
â A-Ah, Ă©… uhumâ
â Viu! Eu sabia! Mestre, Ă© que… foi raro vĂȘ-lo sorrindo para mim da janela, entĂŁo achei que talvez precisasse de algo de mim!
â Ă? …A-Ah, uhum…
Tino abaixou o olhar e começou a brincar com os dedos enquanto falava. Sua expressão era suave e apaixonada.
De alguma forma, ela havia me visto do escritĂłrio do mestre do clĂŁ, mesmo estando na rua.
Eu nĂŁo tinha notado nem um pouco…
â Aquele sorriso tinha sido mais para mim mesmo. Nossos olhares nem deveriam ter se cruzado. A lealdade dela nĂŁo era um pouco forte demais?
Apoiei o queixo na mĂŁo, sem nem tentar esconder minha falta de entusiasmo, mas a expressĂŁo de Tino continuava inabalĂĄvel.
â Siddy me pediu para trazer comida para o âDrinkâ, entĂŁo eu trouxeâque timing perfeito.
â HĂŁ? âDrinkâ? Algo para eu beber?
â HĂŁ? Siddy ficou tĂŁo feliz que vocĂȘ aceitou…
â Ah… Ă©…
Ela estava falando daquela quimera. âDrinkâ Ă© um nome pĂ©ssimo… Melhor nem tocar nesse assunto de novo.
EntĂŁo agora Tino faz tudoâajuda nĂŁo sĂł nos pedidos da Liz, mas tambĂ©m nos da Sitri? Parece que ela trabalha bem mais duro do que eu.
Falar sobre minhas dĂvidas com uma novata era meio constrangedor, mas talvez ela tivesse alguma boa ideia.
â Falando sobre o que eu preciso de vocĂȘ, preciso da sua opiniĂŁo em algo. Para ser honesto, estou acumulando uma quantidade enorme de dĂvidas…
Me virei para Tino, que parecia estranhamente animada, e desta vez sorri para ela de verdade.
â VocĂȘ me enganou de novo… Mestre, o que acha que eu sou?
â Eu nĂŁo estou te enganando. SĂ©rio.
Continuamos nossa conversa enquanto descĂamos as escadas da sede do clĂŁ.
A voz de Tino soava claramente chateada, e ela disse:
â VocĂȘ aumentou minhas expectativas sĂł para jogĂĄ-las no chĂŁo. Na verdade, eu esperava que, Mestre, vocĂȘ me desse um chocolate ou algo assim.
â Eu nĂŁo aumentei suas expectativas, nem as destruĂ.
Seu rosto exibia uma expressĂŁo que lembrava um filhote de cachorro que acabara de ter seu petisco tomado bem na sua frente.
De alguma forma, senti que jĂĄ tĂnhamos tido uma conversa parecida hĂĄ pouco tempo. NĂŁo pude deixar de me perguntar o que exatamente Tino pensava de mimâserĂĄ que eu estava dando doces para ela com muita frequĂȘncia?
â Tino, vocĂȘ passa por situaçÔes difĂceis o tempo todo e, ainda assim, nunca aprende.
â I-I-Isso… Eu sei. Ă tudo porque, Mestre, vocĂȘ estĂĄ sempre pensando em mim, certo?
â Ă… Aham.
Fiquei momentaneamente surpreso, mas entĂŁo assenti sem pensar nas palavras de Tino, que pareciam um apelo por uma resposta.
Claro que eu pensava em Tino: sempre desejei, do fundo do coração, que ela fosse feliz um diaâmas isso simplesmente nĂŁo estava dando resultado…
Liz e Sitri sempre causavam problemas para ela; eu deveria ser mais gentil com ela.
â VocĂȘ nĂŁo estĂĄ com a Liz hoje, hein?
â Lizzy… disse que vai provar da prĂłxima vez que consegue quebrar a armadura do golem que nĂŁo conseguiu da Ășltima vez, entĂŁo arrastou a Siddy junto para uma sessĂŁo de treinamento especial. Acho que elas estĂŁo no lugar do mestre dela agora.
Entendo… Por isso nĂŁo vejo nem a Liz nem a Sitri por aqui. Isso deixa Tino sozinha.
Incluindo o incidente na taverna, o tratamento da Liz com Tino parecia um pouco duro. Liz nĂŁo necessariamente odiava Tino, mas sua personalidade fazia com que ela fosse apĂĄtica na forma como interagia com ela.
Deveria falar com ela sobre isso?
â Quer que eu fale com elas sobre isso? Elas deveriam te tratar melhor.
â O quĂȘâ?
Talvez surpresa, Tino arregalou os olhosâela estava muito acostumada a ser maltratada.
Ao ouvir minhas palavras, ela começou a olhar ao redor, com as bochechas levemente coradas, e disse timidamente:
â Oh… Obrigada, Mestre. Mas tudo bem. Ă ordem da Lizzy que eu esteja aqui para te ajudar quando ela nĂŁo estĂĄ por perto.
Lealdade ao extremo, hein? O que serĂĄ que a Liz anda dizendo para ela? Bem, ela nĂŁo parece se incomodar… EntĂŁo acho que estĂĄ tudo certo.
â A-AliĂĄs, eu pessoalmente gosto muito de estar com vocĂȘ tambĂ©m, Mestre…
â Ah, valeu. Enfim, voltando ao assunto da dĂvidaâ
Ela empalideceu.
Sinceramente, se ela dissesse algo como âNa verdade, eu odeio estar com vocĂȘâ, eu começaria a perder a fĂ© na humanidade.
Tino ficou chocada, com os olhos marejados.
Coloquei a mão em sua cabeça e fiz um cafuné. Isso não era algo que eu faria com uma Caçadora de verdade, mas Tino era quase como uma irmãzinha para mim.
Ela respirou fundo, como se tentasse se acalmar, e entĂŁo disse em uma voz fraca:
â Mestre, eu tambĂ©m preciso de dinheiro para repor suprimentos e manter meu equipamento. Lizzy jĂĄ estĂĄ me explorando ao mĂĄximo, e eu jĂĄ estou te oferecendo todas as minhas RelĂquias. Se espremer mais, esse poço vai secar.
â Ă… Aham.
De qualquer forma, eu nĂŁo planejava pegar dinheiro emprestado da Tino.
â Ugh… E-eu disse que estou aqui para te ajudar, mas hĂĄ um limite para isso… Q-Quanto vocĂȘ precisa?
â NĂŁo estou querendo pegar emprestado. Afinal, a dĂvida jĂĄ estĂĄ na casa dos bilhĂ”es. Ă muito para vocĂȘ.
â B-Bi…lhĂ”es…?
Atordoada, Tino começou a contar nos dedos, tentando visualizar o nĂșmero. Sua expressĂŁo era muito parecida com a de Eva quando soube do valor.
Pois Ă©… Pelo visto, atĂ© para um Caçador gastador como eu, uma dĂvida de bilhĂ”es nĂŁo era um valor pequeno.
Com uma risada seca, Tino disse, com a voz tremendo:
â C-Claro, e-eu devia imaginar. Mestre, Ă© realmente impressionante que vocĂȘ tenha conseguido pegar uma quantia tĂŁo considerĂĄvel. Como esperado de um NĂvel 8 temido por todos.
Essa foi a primeira vez que fui elogiado sĂł por dever dinheiro.
Ela estava me elogiando? Estava tirando sarro de mim? …Aham, com certeza estava tirando sarro.
NĂŁo havia desculpa. Quando se tratava de dinheiro, a gente sĂł devia pegar emprestado o que pudesse pagar de volta.
â Ha ha… TĂĄ tudo bem, tĂĄ tudo bem. No fim das contas, Ă© a Sitri quem estĂĄ me emprestando todo o dinheiro. Pelo que entendi, se as coisas derem errado, ela pode simplesmente perdoar toda a dĂvida se a gente se casar.
â O quĂȘ?
Tino deixou escapar um ruĂdo surpreso que parecia ainda mais atordoado do que quando ouviu o valor da dĂvida.
TĂŽ brincando, tĂŽ brincando.
Ao redor do salĂŁo, Caçadores que aparentemente deviam dinheiro para Sitri ficaram com expressĂ”es angustiadas enquanto alimentavam o âDrinkâ. Nossos olhares se cruzaram, mas fechei a porta e fingi que nĂŁo vi nada. Continuamos descendo as escadas.
Apesar de âDrinkâ ter passado a gostar de mim (depois de quase me matar), parecia ser bastante feroz com os outros Caçadores. Precisavam segurĂĄ-lo com vĂĄrias pessoas sĂł para alimentĂĄ-lo. Para ser sincero, aquilo parecia mais um treinamento do que uma refeição.
â Notavelmente, aquele teimoso Departamento de Investigação de Cofres deixou isso passar sem muita resistĂȘncia.
â Um… Mestre, tem certeza de que estĂĄ tudo bem?
â EstĂĄ tudo bem. NĂŁo Ă© como se alguĂ©m tivesse morrido por causa disso, certo?
Embora a taxa de fatalidades pudesse aumentar se eu alimentasse aquilo. Nem preciso dizer que isso seria preocupante para mim. Apesar de ter recarregado minhas RelĂquias, meus AnĂ©is de Segurança nĂŁo eram ilimitados.
Eu me sentia mal pelos caçadores encarregados de alimentå-lo, mas esse foi o compromisso final das minhas negociaçÔes com Sitri, então não havia nada que pudéssemos fazer além de aguentar.
***
Levando Tino comigo, fugi da casa do clĂŁ.
Eu realmente nĂŁo tinha planos para sair, mas provavelmente seria forçado a alimentar a quimera se voltasse â prefiro passar essa.
Felizmente, agora eu tinha Tino como companhia. TĂȘ-la como escolta era tranquilizador e, mais importante ainda, compartilhĂĄvamos o amor por doces.
Vamos transformar isso em um encontro para nos mimarmos pela primeira vez em muito tempo.
Vendo que Tino ainda estava cautelosa com a casa do clĂŁ, propus:
â JĂĄ que estamos fora, que tal irmos comer algo doce de vez em quando? Ă por minha conta.
Tino nunca havia recusado um convite assim antes. Então pensei que ela ficaria radiante desta vez também, mas sua resposta foi inesperada.
â B-Bem… Eu estou muito, muito feliz que tenha perguntado, mas… um, Mestre… vocĂȘ nĂŁo tem dĂvidas para pagar?
Isso… era um ponto muito vĂĄlido e eu nĂŁo tinha absolutamente nenhum contra-argumento para isso.
A expressĂŁo de Tino ficou carregada de preocupação, parecendo muito mais grave do que a minha â a pessoa que realmente tinha a dĂvida.
â Um… dĂłi-me dizer isso, mas… talvez vocĂȘ devesse reduzir um pouco seus gastos…? Claro, farei tudo o que puder para ajudar com isso tambĂ©m. Embora seja uma quantia considerĂĄvel que vocĂȘ deveâŠ
â N-NĂŁo se preocupe. Veja bem, afinal Ă© para Sitri que devo dinheiroâŠ
Se fosse apenas um agiota qualquer, certamente eu nĂŁo estaria tĂŁo calmo quanto estava agora.
Mas Ă s minhas palavras evasivas, Tino respondeu com um tom direto que era incomum para ela:
â Isso nĂŁo vai funcionar, Mestre! Casar-se com Siddy Ă© a pior coisa que vocĂȘ pode fazer para pagar suas dĂvidas.
Eu… realmente nĂŁo posso argumentar contra isso.
Fiquei sem palavras.
O tom na voz de Tino mudou abruptamente e ela disse enquanto seus grandes olhos negros se enchiam de lĂĄgrimas:
â A-AliĂĄs, se Siddy e o Mestre se casassem… tenho certeza de que nĂŁo poderĂamos mais andar juntos assim novamente.
â Tenho certeza de que isso nĂŁo aconteceria â
â Vai sim! Mesmo que ela possa me emprestar vocĂȘ por um tempo, Siddy definitivamente tentarĂĄ monopolizĂĄ-lo!
Sua voz estava frenética.
O que exatamente ela prevĂȘ? E qual seria o ponto em me monopolizar?
Embora, para começar, eu nunca tive a intenção de me casar sĂł para pagar dĂvidas.
AlĂ©m disso, antes mesmo de Tino me desprezar por isso, Lucia nunca permitiria que isso acontecesse de qualquer forma. Minha irmĂŁ parecia determinada a transformar seu irmĂŁo em um homem âde verdadeâ.
Parecendo muito mais motivada do que eu estava, Tino murmurou com uma expressão mais séria do que nunca:
â Vou manter apenas o mĂnimo necessĂĄrio, vender o resto dos bens e esvaziar as economias. Tenho certeza de que se trabalhar com Lizzy conseguirei quitar os bilhĂ”es â hĂŁ?! I-Isso significa que se eu quitar a dĂvida metade do Mestre serĂĄ m-minha…?
â Tino?
Palavras inquietantes chegaram aos meus ouvidos, mas infelizmente eu era o tipo de pessoa capaz de pedir dinheiro Ă famĂlia sem piscar os olhos. Quero dizer, mesmo agora, apesar de carregar uma dĂvida de dez dĂgitos, ainda andava descaradamente sob o sol como se nada estivesse errado. Viu?
Enquanto isso, Tino balançava a cabeça vigorosamente como se tentasse afastar pensamentos impuros.
â N-NĂŁo, nĂŁo vai acontecer. Afinal… tudo o que Ă© meu Ă© do Mestre e eu sou do MestreâŠ
VocĂȘ Ă© o quĂȘ do Mestre?
Preciso repreender Liz na próxima vez que a vir para garantir que ela não coloque ideias ainda mais estranhas na cabeça da Tino.
â VocĂȘ nĂŁo precisa vender seus pertences. Deve haver uma solução melhorâŠ
NĂŁo consigo pensar em nada agora, mas deve haver algo. Bem, Eva descobrirĂĄ algo se as coisas piorarem demais… NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo! Isso nĂŁo serve! Preciso parar de depender dos outros como primeira opção.
EntĂŁo Tino bateu palmas subitamente.
â I-Isso mesmo! Mestre! Somos caçadores! Que tal irmos a um cofre e recuperar algumas RelĂquias? Por sorte o leilĂŁo estĂĄ chegando e tenho certeza de que elas alcançarĂŁo preços altos!
Ela propĂŽs a abordagem ortodoxa⊠Isso era tĂŁo tĂpico da Tino â tĂŁo diferente de mim! Mas claro⊠Essa foi minha primeira ideia antes mesmo dela trazer isso Ă tona.
Tino olhou para mim com olhos brilhantes.
â Embora pareça trapaça ou um pouco injusto para outros caçadores⊠com sua visĂŁo estratĂ©gica vocĂȘ certamente sabe qual cofre terĂĄ RelĂquias valiosas certo?
Que tipo de super-humano seria esse? RelĂquias aparecem aleatoriamente nos cofres! Embora existam clĂŁs tentando prever estatisticamente nunca ouvi falar disso funcionar direito.
Naturalmente isso estĂĄ alĂ©m das minhas capacidadesâŠ
â Isso mesmo, atĂ© para mim… uh… sim, no mĂĄximo, eu diria que minha precisĂŁo ao prever RelĂquias Ă© de cerca de cinquenta por centoâ
â Cinquenta por cento?! U-Uau, como esperado do Mestre…
Isso nĂŁo vai acontecer.
O que eu queria dizer era que qualquer previsão poderia acertar ou errar. E, desta vez, minha intenção era errar.
Eu poderia simplesmente mandĂĄ-la para um cofre de tesouro de baixo nĂvel e ela ficaria satisfeita ao descobrir que nĂŁo havia RelĂquias lĂĄ. Ou, pelo menos, entenderia a situação. Afinal, explorar essa minha jĂșnior para pagar minha dĂvida era uma pĂ©ssima ideia.
Talvez eu tenha percebido um pouco tarde, mas o carma estava contra mim.
Soltei um pequeno suspiro e fiz uma nova sugestĂŁo para Tino.
â Bem, vamos pegar algo doce como prĂ©-celebração. A precisĂŁo da minha previsĂŁo de RelĂquias pode ser cinquenta-cinquenta, mas isso aqui vai ser absolutamente perfeito.
Foi a outra parte que nos notou primeiro.
EstĂĄvamos em um caminho estreito, afastado da rua principal, um atalho para o meu cafĂ© favorito ultimamente. Era um trajeto onde carruagens nĂŁo passavam e o fluxo de pessoas era mĂnimo.
Um homem esguio e de cabelos longos, familiar â Lackey A â me viu e ficou surpreso.
â HĂŁ? VocĂȘ Ă©â
â Ah! Ah, nĂŁo… Eu esqueci completamente quem vocĂȘ Ă©…
Era um homem que eu definitivamente nĂŁo queria encontrar agora.
Eles eram Arnold Hail e seu grupo; invasores de Nebulanubes, a Terra das Névoas.
Eu tinha me trancado atĂ© agora justamente porque pensava âNĂŁo, deixa eu ficar na minha para nĂŁo cruzar com esses carasâ e, ainda assim, lĂĄ estavam eles. Isso tinha passado completamente despercebido.
E, pior ainda, mesmo que eu não me lembrasse deles, pareciam saber quem eu era. Provavelmente me rastrearam através da Liz.
Pelo visto, nem o aviso severo que pedi para Gark enviar atravĂ©s da Eva, antecipando uma possĂvel retaliação, fez diferença.
Por que nada pode acontecer exatamente como eu quero? Que pena. Eu estava prestes a curtir um chĂĄ da tarde divertido com a Tino…
â VocĂȘ esqueceu?!
â Seu desgraçado… achando que pode nos menosprezar sĂł porque estĂĄ um nĂvel acima!
NĂŁo, nĂŁo Ă© isso… sĂł deu um branco total.
Os capangas de Arnold estavam agitados e, no centro deles, Arnold deu um passo Ă frente. De qualquer Ăąngulo que se olhasse, ele claramente nĂŁo estava ali para bater papo.
Seu corpo era tão robusto quanto o de Gark. Nas costas, carregava uma espada enorme, e o olhar dourado e afiado brilhava com uma luz quase inumana. Mesmo comparado ao resto do grupo, sua presença era esmagadora. Um caçador comum, sem costume com esse tipo de coisa, certamente ficaria paralisado.
O motivo pelo qual eu ainda conseguia me mover normalmente era minha forte resistĂȘncia Ă intimidação. JĂĄ fui ameaçado tanto por humanos quanto por demĂŽnios, e meus companheiros tambĂ©m eram um bando de aberraçÔes. Por isso, eu tinha aprendido instintivamente que, mesmo um golpe mortal, seria desviado pelos meus AnĂ©is de Segurança.
Arnold falou com uma voz baixa e ameaçadora:
â Mil Truques… vocĂȘ tem coragem de vir nos procurar.
Parece que minha pior previsĂŁo se concretizou: eles estavam aqui por mim, aparentemente. Nem precisava dizer que estavam em busca de vingança; eu jĂĄ esperava por isso. E foi exatamente por isso que pedi para Eva fazer Gark enviar um aviso para contĂȘ-los. Mas, como de costume, acabaram colocando a culpa em mim ao invĂ©s da Liz.
Com aquele caçador feroz exalando sua aura intimidadora, as poucas pessoas que ainda estavam na rua desapareceram. Como esperado dos habitantes da capital. O instinto para evitar desastres era afiado.
Mas isso era ruimâ muito ruim.
Nem mesmo Tino teria chances contra um oponente de NĂvel 7. E, agora mesmo, ela analisava a força do inimigo com uma expressĂŁo sombria no rosto.
â NĂŁo me diga que quer resolver isso bem aqui…
â Saque suas armas, Mil Truquesâ nĂŁo, na verdade, nĂŁo vou deixar que vocĂȘ ache que pode ver toda a profundidade da nossa força tĂŁo facilmente.
Arnold estava indo direto para a briga sem negociação ou explicação. Ele era impulsivo demais. Nem sequer empunhava a espada.
Levaria tempo para os guardas chegarem naquele beco estreito e, para começar, nem era certo que viriam.
â Eu ouvi falar, Mil Truques. Parece que vocĂȘ fez um golem voar apenas com sua aura, nĂŁo foi? Ha ha ha, se isso for verdade, por que nĂŁo nos mostra?
Ele devia estar falando do golem Akasha. JĂĄ expliquei isso tantas vezes para todo mundo.
â Foi um mal-entendido! Eu nĂŁo fiz o golem voar; ele voou sozinho!
â HĂŁ…?! Para de falar merda! Onde jĂĄ se viu um golem simplesmente sair voando sozinho?! â gritou um dos capangas, com o rosto vermelho de raiva.
Quem diria? Mas ele existe.
O oponente era de NĂvel 7. Eles deveriam entender se eu explicasse. Eu nĂŁo era bom em persuasĂŁo, mas nĂŁo tinha escolha.
Respirei fundo, e Arnold e seu grupo ficaram em silĂȘncio. EntĂŁo, falei com uma voz calma, tentando ao mĂĄximo nĂŁo provocĂĄ-los.
â Bem, vamos nos acalmar. Eu entendo sua raiva. De verdade. Ser espancado em pĂșblico, do nada, Ă© irritante, e eu entendo. NĂŁo posso dizer que nĂŁo compreendo por que vieram atrĂĄs de mim para se vingar. NĂŁo importa de quem foi a culpa, a Liz definitivamente exagerou. Sim, eu tambĂ©m acho. Apesar disso, vou pedir que nĂŁo me acertem com toda a força, por favor…
â …
â Mas tentar me encurralar em um beco estreito assim nĂŁo parece muito inteligente. NĂŁo podemos resolver isso com um pedido de desculpas? Eu abaixo a cabeça e, se for preciso, atĂ© me ajoelho diante de vocĂȘs. Que tal?
â …
Apesar dos meus esforços para ceder, a expressĂŁo de Arnold nĂŁo mudou. Dava para ver que ele nunca tinha visto um NĂvel 8 se ajoelhar antes. Meu pedido de desculpas tocava direto no coração das pessoas.
Continuei tentando apelar para Arnold e seus companheiros desesperadamente.
â Olha, vocĂȘs conseguem ver, nĂŁo Ă©? Estou prestes a sair em um encontro com a Tino. Qualquer homem entenderia o que isso significa, certo? Eu estava ansioso por isso.
Droga, o que esse cara estĂĄ pensando?, ponderou Arnold enquanto se esforçava para conter sua fĂșria e observava as costas do jovem despreocupado.
Esse encontro havia sido inesperado. De acordo com as informaçÔes que haviam reunido, o Mil Truques quase nunca saĂa de sua sede, entĂŁo Arnold achava que precisaria bolar um plano para encontrĂĄ-lo. Ele havia planejado essa saĂda apenas para reconhecimento e nĂŁo esperava realmente encontrĂĄ-lo pessoalmente.
à claro que, se acabassem se esbarrando, isso não seria um problema para Arnold. Ele era um caçador, e caçadores nunca negligenciam seu equipamento.
Por outro lado, era a aparĂȘncia do Mil Truques que parecia suspeita: alĂ©m de suas roupas casuais parecerem totalmente inadequadas para combate, ele tambĂ©m nĂŁo portava nenhuma arma visĂvel. Claro, ele poderia ter escondido suas armas de diversas maneiras, entĂŁo era necessĂĄrio cautela, mas cada um de seus movimentos parecia excessivamente vulnerĂĄvel.
Ele estĂĄ tentando me atrair para um contra-ataque? Ă por isso que estĂĄ mostrando tantas brechas de propĂłsito? Mas suas açÔes parecem tĂŁo Ăłbvias…
Para piorar, esse encontro provavelmente não foi um acaso. Arnold teria pensado de outra forma se tivessem se cruzado na rua principal, mas considerando que estavam em um beco isolado, parecia mais lógico assumir que isso era resultado da visão estratégica do Mil Truques, como os rumores diziam.
Arnold nĂŁo sabia o que pensar disso. O Mil Truques apareceu provocando, vestindo-se de forma chamativa, e entĂŁo começou a alegar que nĂŁo queria lutar. E agora, ignorando tudo isso, ele estava sugerindo que continuassem em uma rua mais movimentada. Suas intençÔes eram alarmantemente impossĂveis de decifrarâverdadeiramente condizentes com o nome “Mil Truques”.
Temos a vantagem numérica.
Embora a jovem que acompanhava o Mil Truques fosse consideravelmente capaz (ou melhor, por qualquer Ăąngulo que olhasse, ela parecia mais forte que o prĂłprio Mil Truques), ela ainda nĂŁo se comparava a Arnold ou Eigh. Uma rua mais ampla seria mais vantajosa para Arnold, jĂĄ que seu grupo era maior.
Isso Ă© um tipo de handicap que ele estĂĄ se impondo? Mas por quĂȘ…?
Arnold jĂĄ estava quase certo da sua vitĂłria.
O Mil Truques era tĂŁo fraco que, se Eigh nĂŁo tivesse identificado sua aparĂȘncia com antecedĂȘncia, eles provavelmente teriam passado por ele sem perceber. Seus movimentos eram a definição de “amador”. Ele era um nĂvel 8, entĂŁo era difĂcil imaginar que o que viam na superfĂcie fosse todo o seu poder, mas Arnold nĂŁo conseguia sequer imaginar perder para ele.
Essa era a primeira vez para Arnold. Ele entenderia se a força do oponente fosse tĂŁo inconcebĂvel que nĂŁo conseguisse enxergar seu limiteâmas havia simplesmente força de menos ali.
â Arnold, nĂŁo baixe a guarda. Esse cara Ă© confiĂĄvel o bastante para ter a confiança do chefe da filial da Associação.
â Sim, eu sei.
Ele cerrou os dentes e lançou um olhar feroz para a nuca do adversårio, mas o comportamento do Mil Truques permaneceu inalterado.
Essa situação era realmente estranha.
Pela avaliação de Arnold, o Mil Truques era tĂŁo forte quanto uma pessoa qualquer tirada da multidĂŁo, mas era difĂcil acreditar que um fraco assim poderia ignorar intimidação com tanta calmaâera tudo muito incongruente.
Vou entender a essĂȘncia dessa discrepĂąncia se lutar contra ele?
O Mil Truques seguiu em frente com confiança, sem demonstrar qualquer intenção de fugir, e, fiel às suas palavras, parou bem no meio de uma rua principal lotada.
Bancas de rua alinhavam os lados da avenida, e uma multidão incomumente grande, algo raro na Terra das Névoas, preenchia a via.
Ele deve estar maluco.
Fazer um escĂąndalo num lugar assim certamente atrairia a atenção dos guardas. Sem falar que, se fosse derrotado ali, diante de tantas testemunhas, o nome “Mil Truques” seria manchado.
Krai Andrey se virou lentamente. Cada um de seus gestos parecia desprovido de motivação, mas seu olhar parecia sussurrar sutilmente:
â Se estiver com medo, podemos parar por aqui.
â Humph. Besteira.
Isso não era verdade. Arnold nunca sentiu medo desde que se tornou um caçador.
Ele empunhava a grande espada em suas costas, uma arma Ășnica feita com os materiais do DragĂŁo do TrovĂŁo que eles haviam caçado. Seus companheiros de grupo seguiram seu exemplo, assumindo suas posturas com movimentos treinados.
Eigh se aproximou e, com uma voz provocativa, disse:
â Quero ver qual de vocĂȘs dois Ă© mais forteâvocĂȘ ou Arnold. VocĂȘ realmente nos fez engolir um sapo dessa vez. Vai enfrentar todos nĂłs ao mesmo tempo sendo um Ladino de NĂvel 8, certo?
â Ugh… Eu posso nĂŁo? Na verdade, eu nĂŁo queria…
A atitude de Krai não mostrava sinais de mudança, nem agora. Sua inquietação ao olhar ao redor, aparentemente aflito, só aumentava a frustração deles.
O homem diante deles era um NĂvel 8, um caçador de nĂvel superior ao de Arnold, o Matador de DragĂ”es. Se ele nĂŁo demonstrasse a gravidade adequada, a civilidade do grupoâe, consequentemente, a de Arnoldâseria manchada.
â Entendo… EntĂŁo vocĂȘ Ă© um tolo que subiu de patente apenas se aproveitando da sorte e da força de seus companheiros. Isso jĂĄ me diz bastante sobre os modos dos Grieving Souls.
Ao ouvir as palavras de Arnold, Krai levantou as sobrancelhas, nĂŁo em raiva, mas em surpresa.
Seu oponente estava cheio de falhas e os menosprezava. Isso ia ser mais fåcil do que tirar doce de criança.
Porém, no instante em que Arnold deu um passo à frente, a jovem ao lado do Mil Truques imitou seu movimento e ficou em seu caminho.
â O quĂȘ? Cai fora â rosnou Arnold.
A jovem vestia roupas pretas projetadas para mobilidade e um par de luvas marrons para proteger os punhos. O ar ao seu redor estava tĂŁo carregado que era quase possĂvel ouvi-lo crepitar. Seus olhos negros eram afiados, e suas pupilas cristalinas queimavam com chamas de espĂrito combativo.
Ela era uma Ladina. Ladinos geralmente nĂŁo eram especializados em combate direto e nĂŁo se saĂam bem em lutas um contra um contra Espadachins de peso como Arnold. A menos que suas habilidades fossem significativamente superiores, ela provavelmente nĂŁo teria a menor chance. Embora fosse consideravelmente forte para sua idade, nĂŁo era forte o bastante para enfrentar Arnold e seu grupo no estado atual.
Ela deve ser, no mĂĄximo, NĂvel 4 ou 5.
Ainda assim, apesar da intimidação de Arnold, a garota que o Mil Truques chamou de “Tino” mais cedo permaneceu impassĂvel.
â Eu nĂŁo. Sou madura. O bastante. Para ficar parada. Enquanto escuto. Pessoas. Insultando. O Mestre!
Seu peito subia e descia lentamente a cada respiração. Seus olhos queimavam com uma fĂșria fria, mas ela nĂŁo estava tomada pela raiva. NĂŁo havia tensĂŁo em sua posturaâela estava em um estado ideal para lutar.
Ela nĂŁo entende a diferença entre nossos nĂveis…? NĂŁo, nĂŁo Ă© isso…
Ela compreendia a diferença, mas mesmo assim estava disposta a desafiar a luta.
A jovem diante deles ainda era muito nova, mas, sem dĂșvida, tinha um talento excepcional e potencial para se tornar uma caçadora de elite no futuro.
A disparidade de forças era evidente. Mas caçadores que ousavam encarar o desafioâcomo elaâeram fortes. Mesmo que nĂŁo fosse capaz de derrotar Arnold, ela ao menos tinha uma pequena chance de derrotar Eigh ou outro membro do grupo, caso fosse um confronto um contra um.
Com os olhos ligeiramente arregalados, Eigh a advertiu:
â Ei, garotinha, vocĂȘ nĂŁo tem chance de ganhar. Sua determinação Ă© admirĂĄvel, mas saia da nossa frente. Nosso alvo Ă© sĂł aquele cara ali.
NĂŁo era como se ela tivesse os insultado antes. Eles nĂŁo tinham interesse em apagar uma centelha promissora antes da hora.
Tino nĂŁo respondeu a essas palavras. Em vez disso, virou-se para o homem atrĂĄs dela e perguntou:
â Mestre, por favor, me deixe lidar com isso! Eu vou fazer com que se arrependam de insultĂĄ-lo!
Talvez sentindo a luta iminente, os transeuntes começaram a se afastar, deixando uma årea vazia ao redor.
As palavras da jovem eram incrivelmente audaciosas e insensatas diante de um oponente de NĂvel 7. Considerando a incompatibilidade de suas classes, ela nĂŁo teria chance nem mesmo se Arnold estivesse desarmado. Essa luta sĂł poderia terminar de um jeito.
Naturalmente, nĂŁo havia como o Mil Truques nĂŁo perceber isso. Certamente, ele nĂŁo permitiria que ela assumisse o desafio. Afinal, conter jovens imprudentes era a responsabilidade dos caçadores de alto nĂvel.
Era isso que Arnold e seus companheiros acreditavam.
Krai Andrey, sorrindo com os olhos bem abertos, disse:
â Beleza, vĂĄ em frente. Mas toma cuidado.
â ?!
â O quĂȘ?
Os membros da NĂ©voa CaĂda, atĂ© mesmo Arnold, ficaram sem palavras. Talvez porque isso tambĂ©m tenha sido uma surpresa para a prĂłpria Tino, um leve traço de confusĂŁo passou por suas pupilas.
InacreditĂĄvel. Isso Ă© absurdo… O que ele estĂĄ pensando?
Arnold nĂŁo havia insultado Tino, mas sim Krai. A lealdade de Tino a Krai a levou a se colocar no caminho de Arnold. Sua lealdade era genuĂna, mas Tino nĂŁo tinha a capacidade para isso.
Eu teria impedido. Isso nem precisaria ser discutido, eu simplesmente impediria.
Arnold teria impedido. Ele teria intervindo, agradecido por suas palavras gentis e avançado ele mesmo. Isso é o que um herói faz. Mas e esse homem diante dele?
O Mil Truques simplesmente recuou e, para a surpresa de todos, cruzou os braços e assumiu a postura de espectador.
…InacreditĂĄvel.
Olhando para as expressÔes de seus companheiros, Arnold viu rostos que pareciam igualmente perplexos com a atitude dele.
Tino, sua raiva de momentos atrĂĄs agora parcialmente dispersa, levantou a voz hesitante:
â Uh… Mestre?
â Certo. Na Ășltima vez, na Toca do Lobo Branco, vocĂȘ nĂŁo teve uma oportunidade decente. Por que nĂŁo me mostra os resultados do seu treinamento?
â S-Sim, Mestre. Por favor, testemunhe meu valor â respondeu Tino, sem conseguir disfarçar o tremor em sua voz.
Ela ergueu o rosto e encarou Arnold com firmeza. Suas pupilas brilharam levementeâprovavelmente nĂŁo de raiva.
â N-NĂŁo zombe do meu Mestreeeeeeeeeee! â gritou Tino em desespero. Cerrando os punhos, ela reduziu rapidamente a distĂąncia entre ela e Arnold.
***
Eu não entendia muito bem a situação, mas parecia algo bem sério.
Enquanto observava Tino lutando contra o grupo de Arnold, periodicamente desviava o olhar ao redor em busca de aliados.
A Primeiros Passos, como clĂŁ, tinha vĂĄrias peculiaridades, incluindo muitos jovens talentosos e sendo liderado por uma bela vice-lĂder.
Mas o mais notĂĄvel era o tamanho do clĂŁ. Para simplificar, nosso clĂŁ era muito maior do que qualquer outro.
Trazer Arnold para uma ĂĄrea mais movimentada foi uma jogada proposital para facilitar a busca por aliados. O grupo dele era grande, com oito pessoas, mas a Primeiros Passos tinha mais de cem. E a qualidade dos nossos caçadores nĂŁo era baixa; se eu conseguisse reunir metade deles, nem mesmo um oponente de NĂvel 7 teria chance contra nĂłs.
Lamentavelmente, quando se tratava da habilidade de pedir ajuda para aliados, ninguém no nosso clã me superava. Os membros também jå estavam acostumados com isso.
â Ei, ĂŽ, Mil Truques! TĂĄ olhando o quĂȘ?! Foca na luta aqui! Essa garota tĂĄ lutando por vocĂȘ, sabia?!
Enquanto olhava ao redor, por algum motivo, os inimigos começaram a zombar de mim.
Era o Capanga A. Ele estava ao lado de Arnold até agora.
â Ah, Ă©. Foi mal, foi mal. Desculpa aĂ, A. Ă que eu tambĂ©m tĂŽ ocupado…
Apressei-me em voltar a observar a luta. Mas, sinceramente… como posso dizer…? O combate era tĂŁo impressionante que eu nĂŁo conseguia processĂĄ-lo direito.
Tino e Arnold pareciam estar em pé de igualdade. Tino lutava com as mãos nuas, e Arnold também havia descartado sua espada para um combate corpo a corpo. Era simplesmente uma briga pura.
Os companheiros de Arnold, atrĂĄs dele, se abstinham de entrar na luta, mas nossa enorme desvantagem permanecia inalterada. Ainda assim, parecia que eles nĂŁo pretendiam ajudĂĄ-lo.
EntĂŁo, de repente, o Capanga A recuou alguns passos, assustado.
â C-Como vocĂȘ sabe meu nome?!
â Hmm…? HĂŁ? …Ah, entĂŁo seu nome era realmente âAâ? Isso Ă© uma surpresa…
Eu gostaria de conhecer os pais que deram esse nome pra ele.
Embora eu sĂł tivesse falado o que pensei, o rosto de A ficou cada vez mais vermelho.
â Mestre?! Mestre! Por favor, olhe para mim!!! â gritou Tino.
Tino e Arnold tinham diferenças gritantes de altura e porte. Sua ousadia diante do enorme Arnold me lembrava de sua mestra, Liz.
Arnold, por sua vez, exibia uma expressĂŁo feroz.
Ele recuou levemente para evitar o chute giratĂłrio de Tino e, ao fazer isso, com a palma da mĂŁo, interceptou um golpe rĂĄpido e irregular que cortou o ar com um ruĂdo agudo.
Eu nĂŁo entendia nada de artes marciais, mas sabia reconhecer algo incrĂvel.
Desde quando Tino ficou forte o suficiente para enfrentar um oponente de NĂvel 7 de igual para igual?
EntĂŁo, nesse momento, avistei uma figura familiar ao longe, no fim da rua.
Era Sven, um verdadeiro guerreiro que ostentava o tĂtulo de “Matador de DragĂ”es”.
A sorte estava ao meu lado!
Sem pensar muito, acenei e sorri para ele.
â Mas que porra vocĂȘ tĂĄ fazendo?!
â Ah, foi mal, Ă© que vi um amigo meu ali…
Arnold revirou os olhos. Aproveite a vida enquanto pode, porque seus minutos estĂŁo contados.
Ele jĂĄ estava totalmente ocupado lidando apenas com Tino; se Sven se juntasse a nĂłs, nĂŁo perderĂamos.
Isso aĂ. Vai lĂĄ, Sven.
Sven me notou de longe com sua visĂŁo especializada de Arqueiro. Ele trocou olhares com seus companheiros ao redor, olhou de novo para minha mĂŁo acenando, assentiu como se tivesse entendido o gesto e me mostrou um joinha.
E então, foi embora com seus companheiros, me deixando ali, pulando e acenando desesperadamente para chamar sua atenção.
Sério mesmo?
â Haaa… Haaa… Mes…tre… por favor… seja… mais… sĂ©rio! â disse Tino, quase sem fĂŽlego, sem parar seus movimentos.
O que vocĂȘ quer dizer? Eu estou sendo muito sĂ©rio. Estou muito seriamente tentando fazer o que posso… Droga, Sven. Acho que sĂł posso contar com aquele pseudo-bonitĂŁo agora, nĂ©? …Mas ele ainda nĂŁo voltou dos recados para aquele nobre.
Sentindo-me um pouco cansado, sentei-me em uma caixa de madeira prĂłxima.
Eles pareciam equilibrados. TalvezâsĂł talvezâela conseguisse dar um jeito mesmo sem ajuda. E ainda havia a chance de os guardas aparecerem aqui no final das contas.
Os ataques de Tino eram rĂĄpidos. Seus chutes e golpes se encadeavam como uma corrente, dando um vislumbre do talento pelo qual Liz era reconhecida. Embora nĂŁo estivesse no mesmo nĂvel de Liz, ela se movia quase como o vento.
Acho que vou focar na torcida entĂŁo.
â Vai, Tino, vai com garra! A marĂ© mais forte nĂŁo para! A nossa fĂ© em Tino nĂŁo falha!
â Mestre! Por favor, pare com essas coisas estranâ
â VocĂȘ consegue derrotĂĄ-lo! SĂł mais um pouco e vocĂȘ acaba com o Arnold! Vamos, dĂȘ tudo de si!
â HĂŁ?!
Naquele momento, Arnold congelou, e o chute e o golpe de Tino acertaram seu corpo exposto.
De alguma forma, minha torcida parecia ter distraĂdo ele. Ela o atingiu em cheio em um ponto crĂtico. Mas Arnold nĂŁo caiu. Seu corpo apenas balançou ligeiramente e, sem demonstrar sinais de dor ou desconforto, ele voltou seu olharânĂŁo para Tino, mas para mim.
â “SĂł mais um pouco… e ela pode me derrotar”?!
HĂŁ? Espera aĂ… SerĂĄ que… ele estava se segurando esse tempo todo?
Com um grunhido abafado, ele lançou seu braço direito musculoso em um golpe.
Era um golpe incrivelmente poderoso, que sĂł poderia ser descrito como aterrorizante. Como se os golpes de Tino fossem uma brisa leve e os de Arnold um vendaval feroz.
Tino recuou apressadamente para evitar o ataque de cima, mas nĂŁo conseguiu a tempo.
Instantaneamente, juntou as mĂŁos para tentar bloquear o golpe, mas o punho de Arnold desviou facilmente suas mĂŁos e desestabilizou completamente sua postura.
Claro, Arnold não desperdiçaria essa oportunidade.
â Mesâ
Seus olhos dourados brilharam.
Arnold agarrou a gola da camisa de Tino e a ergueu no ar.
Tino se debateu para se soltar, mas foi sacudida como se nĂŁo pesasse nada e, num instante, foi arremessada contra o chĂŁo.
Um estrondo ensurdecedor.
Tino, ao cair de costas, soltou um pequeno gemido de dor.
Mesmo assim, a mão de Arnold permaneceu firme em seu pescoço.
Ele era forteâforte demais. A situação virou drasticamente a seu favor num instante.
Parecia que eu tinha sido o Ășnico a pensar que eles estavam em pĂ© de igualdade.
â Chega com essa. Falta de respeito. Mil Truques! â rugiu Arnold enquanto continuava a prender Tino no chĂŁo.
Com seu grito estrondoso, até eu franzi a testa instintivamente.
â Como ousa se colocar num pedestal como se fosse um rei?!
Isso Ă© ruim.
O grupo de Arnold estava quase ileso, com oito membros, e do nosso lado sĂł restava eu, agora que Tino foi nocauteado.
Se Sven tivesse se juntado a nós, a história poderia ser diferente; talvez tivéssemos conseguido salvar a situação. Mas do jeito que estava, a coisa era péssima.
Eu tinha meus Anéis de Segurança comigo, mas me perguntava se eles realmente aguentariam o ataque feroz de Arnold.
De qualquer forma, eu nĂŁo estava me comportando como um rei nem nada, mas dizer que Arnoldâcom as veias saltando no rostoâestava furioso seria um eufemismo.
Meu coração batia pesado, mas, fingindo serenidade, me levantei da caixa de madeira.
Eu tomei minha decisĂŁo. NĂŁo importa o quĂŁo bem eu me ajoelhe e peça desculpas, eles nĂŁo vĂŁo me perdoar agora…
Eu nĂŁo queria usar isso, se possĂvel, mas nĂŁo havia outra escolha.
â Eu nĂŁo estou me achando um rei nem nada… Mas acho que nĂŁo tenho escolha.
O silĂȘncio era absoluto.
Talvez sem saber o que esperar de mim, Arnold e seus companheiros nĂŁo pareciam dispostos a se aproximar.
Eu era o caçador mais fraco da capital, mas, como diz o ditado, um rato encurralado tambĂ©m morde um gato. A maioria das minhas RelĂquias era inĂștil em combate, mas eu tinha algo especial reservado para momentos como esse.
Puxei debaixo da camisa uma RelĂquia em forma de pingente que usava no pescoço. Era uma estrela dourada de cinco pontas com um cristal incrustado no centro. Dentro do cristal translĂșcido, um negrume profundo girava como um cĂ©u noturno.
Era um Manifesto de Aspiração. Junto com os AnĂ©is de Segurança, essa era minha tĂĄbua de salvação. Mesmo nas situaçÔes desesperadoras no Covil do Lobo Branco, eu nĂŁo tinha usado essa RelĂquia.
Essa RelĂquia era originalmente uma ferramenta criada por um tĂ©cnico apaixonado por magia. Sua habilidade absurda permitia armazenar um feitiço e liberĂĄ-lo Ă vontade, com um custo de mana cem vezes maior que o normal. Todo o meu poder vinha da riqueza acumulada pelos Grieving Souls, e essa RelĂquia era o auge de tudo.
Ela continha um feitiço de magia gravitacional, uma magia tĂŁo difĂcil quanto a magia elemental de trovĂŁo.
Foi Luciaâgrande maga dos Grieving Souls, que possuĂa o maior poder ofensivo e sempre recarregava minhas RelĂquias enquanto resmungavaâquem imbuĂra esse feitiço nela.
Ela era a manipuladora de todos os fenĂŽmenos, o sĂmbolo supremo da feitiçaria. Ela era Lucia Rogier, o Avatar da Criaçãoâminha irmĂŁ mais nova.
Talvez por ser um estoque de feitiços, essa RelĂquia tinha uma drenagem de mana extremamente lenta. Por isso, era meu trunfo para quando Lucia estivesse longe por longos perĂodos.
Ela me disse para usĂĄ-la apenas em situaçÔes de risco de vida. Eu nĂŁo sabia dizer se essa era uma delas. Mas Tino estava em apuros, e se eu nĂŁo a usasse agora, quando mais usaria? Ele estava lutando por minha causa, afinal. Mesmo que de alguma forma conseguĂssemos sair dessa ilesos sem minha ajuda, eu nĂŁo me perdoaria por nĂŁo ter feito nada por ele.
Como se tivessem percebido algo estranho na minha mudança de atitude, os capangas se dispersaram e começaram a me cercar.
Mas eu nĂŁo estava preocupado.
Arnold, ainda segurando Tino no chĂŁo, de alguma forma empunhou sua grande espada com uma das mĂŁos.
Essa era uma magia imbuĂda por minha irmĂŁ mais novaâmeu orgulho.
Estufei o peito e tentei parecer o mais confiante possĂvel.
â NĂŁo se preocupem. Eu nĂŁo vou tirar a vida de vocĂȘs.
Os capangas de Arnold prepararam suas armas, e Arnold largou Tino, avançando com ousadia.
EntĂŁo, silenciosamente, liberei a magia selada na RelĂquia.
***
Lucia havia se esforçado imensamente para me dar essa carta na manga.
â O quĂȘ?! LĂder, o que vocĂȘ quer dizer?
â VocĂȘ quer que eu imbuĂa um feitiço que ânĂŁo seja letalâ, âpossa subjugar caçadores de alto nĂvelâ, âtenha uma grande ĂĄrea de efeitoâ e ânĂŁo cause danos colateraisâ ao mesmo tempo? VocĂȘ estĂĄ pedindo demais.
â Como vocĂȘ sabe, LĂder, a magia gravitacional jĂĄ Ă© avançada por si sĂł, e, pra piorar, Ă© uma magia obscura. VocĂȘ entende? O consumo de mana dela aumenta drasticamente com o alcance, e alĂ©m disso, vocĂȘ nĂŁo quer sĂł aumentar o poder, mas tambĂ©m fazer com que atenda a todas essas exigĂȘncias. Construir feitiços delicados assim exige uma quantidade absurda de manaâbasicamente, a magia que vocĂȘ estĂĄ pedindo Ă© impossĂvel, sabia? Espera, nĂŁo. Eu vou ter que pesquisar primeiro…
â Desculpa, mas pode buscar algumas poçÔes de restauração de mana com a Siddy? Pegue todas que puder.
â Aqui. Pegue isso, Ă© o que vocĂȘ pediuâo quĂȘ? Claro que nĂŁo; o que vocĂȘ esperava? Uma magia perfeita assim nĂŁo existe, Ă© claro! Eu a inventei! Analisei todos os tipos de magia gravitacional e desmontei seus mecanismosâteria sido muito mais simples se fosse sĂł para matar os oponentes, mas como vocĂȘ insistiu em tudo isso… Esse Ă© um feitiço completamente inĂștil, com um tempo de conjuração de trinta minutos. E agora estou sem mana nenhumaânĂŁo quero ver sua cara por um tempo. Agora, saia! Acabei de virar a noite! …O quĂȘ? VocĂȘ quer que eu recarregue suas outras RelĂquias tambĂ©m?!
O esforço de Lucia deu frutos. A batalha terminou silenciosamente num instante.
Os capangas que estavam me cercando atĂ© agora foram esmagados contra o chĂŁo sem chance de resistir. O som de armaduras batendo no solo ecoou, e as armas caĂram de suas mĂŁos.
â O-O quĂȘ… foi isso…? Isso foi… magia?! Essa… magia…!
Arnold mal conseguia se sustentar com a grande espada cravada no chão. Ele estava de joelhos, suportando o peso. Seu corpo tremia, e sua cabeça balançava violentamente. Talvez por estar usando toda sua força, sua pele estava tingida de vermelho vivo.
â Estremeci levemente com a cena, mas parecia que ele estava tĂŁo sobrecarregado que nĂŁo conseguia tomar nenhuma ação ofensiva.
Sentei-me novamente na caixa de madeira e cruzei as pernas. Depois de liberar a magia contida no pingente, guardei a RelĂquia que havia perdido seu brilho.
â Esse foi o Comando do Tirano, um feitiço original. Acho que a força dele foi um pouco reduzida, mas ainda assim, foi algo e tanto, nĂŁo acha?
Minha irmĂŁ, Lucia, desenvolveu esse feitiço durante uma noite inteira sem dormir. Ă claro que tinha que ser “algo e tanto”.
Os olhos de Arnold vagaram entre seus companheiros de equipe e, entĂŁo, ao ver as casas intactas e os cidadĂŁos perplexos ao longe, sua voz tremeu.
â O que… que loucura Ă© essa…? I-Isso Ă©… magia gravitacional? ImpossĂvel! Mas…?
â Ă um feitiço revolucionĂĄrio. NĂŁo danifica casas nem machuca outras pessoas. Talvez eu nĂŁo seja a melhor pessoa para dizer isso, mas esse feitiço Ă© incrĂvel, nĂŁo acha?
Esse era um feitiço criado pela minha irmĂŁzinha, Lucia, atravĂ©s de tentativa e erro. Ă claro que tinha que ser “incrĂvel”.
Nem mesmo uma rachadura apareceu no pavimento.
O brilho dessa magia estava no seu alto poder e na precisĂŁo do alvo. O Comando do Tirano nĂŁo afetava nem mesmo uma mosca alĂ©m de seus alvos e, alĂ©m disso, possuĂa o poder de imobilizar completamente um Caçador de NĂvel 7. Essa era a magia nĂŁo letal perfeita!
Claro, nĂŁo era como se eu conseguisse usĂĄ-la ou algo assim, entĂŁo nĂŁo podia me gabar muito…
â VocĂȘ…! VocĂȘ Ă© um Magus…?! Maldição! â rugiu Arnold.
Mesmo gritando daquele jeito, ele nĂŁo era nada assustador enquanto ainda estava de joelhos.
Enquanto eu exibia um sorriso convencido, uma voz cheia de angĂșstia de repente chegou aos meus ouvidos.
â Mes…tre… Socorro…
Olhei para o lado.
Tino estava deitada no chão. Parecia que uma força gravitacional consideråvel estava agindo sobre ela. Sua voz tremia, e seus membros estavam grudados no chão, se contraindo espasmodicamente.
Isso estava completamente fora das minhas expectativas.
Um dos capangas de Arnold, subjugado pela gravidade, resmungou em tom acusatĂłrio:
â A-AatĂ©… sua…companheira…? VocĂȘ… demĂŽnio… Ugh…
â Espera, espera! Desculpa. Foi mal.
Apressadamente, estendi a mĂŁo para Tino, que chorava no chĂŁo.
Na verdade, o Comando do Tirano determinava seu alvo com base na força da mana absorvida. Tanto eu, como usuårio, quanto qualquer coisa que eu tocasse, ficåvamos isentos do efeito, mas fora isso, era indiscriminado, desde que o alvo fosse um Caçador razoavelmente habilidoso. Ele também tinha um alcance bem amplo, então, embora não houvesse ninguém por perto à vista, provavelmente havia vårios Caçadores por aà sendo esmagados pela gravidade agora.
Foi mal. Não mata ninguém, então por favor me perdoem.
Tino, finalmente livre da gravidade, cambaleou ao se levantar. Como uma pequena compensação, ofereci meu ombro para apoiå-la.
Ela estava em frangalhos e completamente bagunçada, mas nĂŁo parecia ter ferimentos graves. Sua tosse intensa provavelmente era resultado dos danos que Arnold havia causado. Talvez jĂĄ fosse tarde demais para ela se recuperar disso… Acho que devo compensĂĄ-la com algo doce depois.
Por fim, olhei para Arnold, que ainda se mantinha de joelhos, resistindo de alguma forma. Em resposta ao seu olhar afiado, apenas sorri.

â Bem, Arnold, jĂĄ se acalmou?
â M-Merda. Isso… Ă© ridĂculo. Por que um Magus do seu calibreâ
â Eu nĂŁo sou um Magus, no entanto. Enfim.
â HĂŁ?!
Agora vinha o verdadeiro dilema: eu sĂł tinha restringido os movimentos de Arnold, e nada mais.
Por mais impressionante que fosse em termos de poder, precisĂŁo e alcance, infelizmente, a magia de gravidade que Lucia tinha imbuĂdo nĂŁo durava muito. Durante esse curto intervalo de tempo, eu precisava, de alguma forma, acabar com o espĂrito de luta de Arnold e seu grupo.
Arnold, Eigh e o restante da sua equipe, apesar de estarem de joelhos e com as mãos no chão, ainda não haviam perdido a determinação. Cada um deles me olhava com olhos brilhando como feras famintas.
â Parece que eles ainda nĂŁo desistiram.
â NĂŁo sabem a hora de desistir â ela tossiu com dificuldade. â Eles nĂŁo entendem a diferença entre o seu poder e o deles… Mestre… Ah, obrigada pela massagem. Meus ombros jĂĄ estĂŁo bem.
â Ora, ora, vocĂȘ se esforçou bastante agora hĂĄ pouco, entĂŁo deixe-me continuar um pouco mais com a massagem.
Sem contato fĂsico comigo, a gravidade logo faria seu efeito sobre ela. Tudo o que eu podia fazer era operar a RelĂquia e lançar o feitiço exatamente como estava. Lucia talvez fosse capaz de personalizĂĄ-lo no momento para excluir certas pessoas, mas isso estava alĂ©m de mim.
Talvez por ter decidido me bajular, Tino se desculpou levemente, me agradeceu e se apoiou em mim.
Seu corpo delicado era surpreendentemente leve, tĂŁo leve que era difĂcil imaginar que ela tinha enfrentado Arnold em combate. Talvez fosse um pouco tarde para isso, mas agora comecei a me sentir um pouco enjoado â jogar uma garota como ela no chĂŁo nĂŁo parecia uma ação muito apropriada para um Caçador de NĂvel 7.
Apesar de eu ter forçado vårias tarefas para Tino, parecia que ela ainda não tinha desistido de mim.
Suspirei e, me sentindo exausto do fundo do coração, olhei para Arnold.
Eu nĂŁo estava mais usando honorĂficos com ele.
â Arnold, desculpa, mas eu tenho preparativos a fazer para o leilĂŁo e outras coisas. Estou bem ocupado e, sinceramente, nĂŁo tenho tempo para lidar com vocĂȘs. PerdĂŁo, tĂĄ bom?
â !
Arnold rosnou com uma expressĂŁo demonĂaca. Talvez tenha mordido a lĂngua, pois uma gota de sangue escorreu do seu queixo.
Eu nĂŁo tinha tempo para lidar com eles e, alĂ©m disso, jĂĄ tinha acabado meu estoque de Ordens do Tirano, que eram necessĂĄrias para enfrentĂĄ-los. AtĂ© mesmo Lucia, que tinha imbuĂdo o feitiço, nĂŁo estava por perto.
Droga. Se ao menos Sven, Ark ou qualquer outro estivesse aqui…
Foi entĂŁo que tive uma grande ideia.
â Bem, hmm… mas, se vocĂȘs ainda insistem em lutar comigo depois de tudo isso, entĂŁo vamos estabelecer alguns prĂ©-requisitos.
â PrĂ©-requisitos?! â repetiu Arnold.
Eu não estava exatamente em posição de impor condiçÔes, mas parecia que isso poderia funcionar de alguma forma.
Com uma expressĂŁo muito sĂ©ria, olhei para os membros da NĂ©voa CaĂda, que ainda estavam no chĂŁo.
Com ousadia, declarei:
â Eu sou o mestre da Primeiros Passos. Seria sem sentido lutar contra o chefe logo de cara. EntĂŁo, se quiserem me enfrentar, primeiro terĂŁo que superar algumas etapas. Entenderam? Se querem trocar golpes comigo, primeiro devem derrotar os principais grupos que formam nosso clĂŁ: Cruz de Obsidiana, Luz das Estrelas, Ark Bravo e Cavaleiros da Tocha! Quando conseguirem isso, entĂŁo, sim, eu considerarei lutar contra vocĂȘs de igual para igual.
E antes que Arnold e sua equipe, ainda presos ao chĂŁo, pudessem reagir, peguei a mĂŁo de Tino e fugi dali.
Eu era fraco. Mas, apesar disso, ainda era um NĂvel 8. JĂĄ era caçador hĂĄ cinco anos e tinha aprendido a entender um pouco da mentalidade de delinquentes: eram fortes e valentes, nĂŁo se importavam com os problemas que causavam ao redor e, acima de tudo, adoravam desafios difĂceis.
Voltamos para o beco e, quando Arnold e seus capangas finalmente sumiram de vista, Tino perguntou timidamente:
â Hm, M-Mestre… Tem certeza de que isso foi uma boa ideia?
â Foi. Mais importante, vocĂȘ estĂĄ bem?
â S-Sim, estou bem, Mestre. M-Mas… me desculpe por nĂŁo ter correspondido Ă s suas expectativas.
â Ah, nĂŁo se preocupe com isso. Foi sĂł um erro meu ao avaliar a situação.
Sabe, eu realmente nĂŁo consigo perceber a diferença quando as pessoas ficam fortes demais…
Eu ainda conseguia notar a diferença de força entre Liz e Tino, mas não conseguia distinguir muito bem quando se tratava de oponentes como esses, especialmente porque eram de classes diferentes.
Ele foi astuto ao segurar seu verdadeiro poder para parecer que estava perdendo!
Tino hesitou por um momento e depois apertou os låbios com força, como se estivesse segurando as lågrimas.
SerĂĄ que estĂĄ chateada com seu mestre tolo?
No fim das contas, embora Arnold fosse a raiz do problema, eu estava desapontado com Sven por ter abandonado seus companheiros. Bom, ele não tinha obrigação de ficar, mas eu apreciaria se ele não atormentasse nossa Tino assim.
â NĂŁo se preocupe. Sven vai ficar feliz em lutar.
De qualquer forma que se olhasse, ele me deixou, seu mestre de clĂŁ, completamente indefeso. Com certeza, ele aceitaria de bom grado levar a pior dessa vez… provavelmente.
Nosso clĂŁ era super talentoso. Mesmo que Arnold fosse um NĂvel 7, nĂŁo havia como ele chegar atĂ© mim.
â Todo mundo no Ark Bravo e na Luz das Estrelas Ă© forte e sedento por batalha. Se der alguma coisa, eles vĂŁo adorar a oportunidade de mostrar sua força… provavelmente.
Enquanto eu falava despreocupadamente, Tino piscou repetidamente e entĂŁo, com uma expressĂŁo um tanto desanimada, disse:
â Mas, Mestre… O Ășltimo grupo que mencionou, os Cavaleiros da Tocha, nĂŁo estĂŁo em uma expedição de longo prazo? Eles nĂŁo estĂŁo na capital…
â Ah, Ă© mesmo? Eu tinha esquecido completamente disso!
â Mestre…
Tino me lançou um olhar confuso enquanto eu falava com um tom indiferente.
Uma expedição? Eu não fazia ideia. Bom, se eles quiserem lutar comigo, boa sorte tentando encontrar os Cavaleiros da Tocha!
Os Cavaleiros da Tocha eram um grupo particularmente peculiar, mesmo entre os caçadores. Priorizando a disciplina, sua estrutura era mais parecida com a de uma unidade militar do que com a de um grupo de caçadores. Eles viajavam pelo mundo aceitando pedidos em diversos paĂses, como mercenĂĄrios. Retornavam Ă capital apenas algumas vezes ao ano.
â E isso nĂŁo Ă© problema meu. Afinal, eu sĂł disse que vou âconsiderar lutar com eles de igual para igualâ se realmente derrotarem todas as quatro equipes! Eu nĂŁo disse que vou lutar! Eu sĂł disse que vou considerar!
E se realmente derrotarem as quatro equipes, podem se autoproclamar os mais fortes o quanto quiserem.
JĂĄ havĂamos percorrido uma boa distĂąncia, entĂŁo soltei a mĂŁo que estava segurando.
Com gestos animados, disse:
â Quero dizer, estou ocupado e nĂŁo tenho tempo para eles. Sem contar que o leilĂŁo estĂĄ prestes a começar tambĂ©m!
â S-Sim… claro, Mestre. HĂĄ algo especial nesse leilĂŁo?
â De qualquer forma. EstĂĄvamos indo buscar algo doce antes de sermos interrompidos, entĂŁo por que nĂŁo vamos buscar agora?
â?! Mestre…
Tino parecia bem também, e se deliciar com algo doce era o melhor jeito de lidar com problemas como esse.
Ao ouvir minhas palavras sinceras, Tino fechou os olhos em silĂȘncio e, entĂŁo, olhou para mim como se tivesse tomado uma decisĂŁo.
â Mestre, ainda nĂŁo consigo superar ter mostrado um lado tĂŁo vergonhoso de mim â nĂŁo posso ir com vocĂȘ buscar algo doce!
Sua expressĂŁo se contorceu de angĂșstia, seus ombros expostos e membros esguios tremendo.
Fiquei boquiaberto ao olhar para Tino, que irradiava a aura de uma donzela em apuros. Vendo-a daquele jeito, nĂŁo pude evitar sentir vergonha por ter enviado minha aprendiz contra um Caçador de NĂvel 7 e, alĂ©m disso, nĂŁo ter me sentido particularmente culpado.
â VocĂȘ nĂŁo precisa se sentir mal por issâ
â NĂŁo, Mestre! Euâ Euâ Se eu continuar dependendo da sua bondade, me tornarei uma inĂștil!
Oi. Quem estĂĄ falando aqui Ă© o âMestreâ que depende excessivamente da bondade de todos e atualmente estĂĄ caindo na inutilidade no tempo presente contĂnuo.
â Mestre, por favor! Me dĂȘ uma chance! Me dĂȘ uma chance de me redimir!
Embora jĂĄ estivĂ©ssemos longe da rua principal, ainda havia um bom nĂșmero de transeuntes. Toda a atenção agora estava voltada para a voz alta de Tino.
â Ei, ei, ei, fala baixo…
â Diga-me quais tesouros deseja, Mestre! Apenas observe, e eu trarei as RelĂquias de volta, custe o que custar, e pagarei sua dĂvida! â gritou Tino.
Lågrimas surgiram nos cantos de seus olhos, e suas bochechas estavam coradas de empolgação. Claramente, ela não estava nada calma.
Perder para Arnold bem na minha frente realmente a deixou tĂŁo frustrada assim?
â Certo, certo, entendi. Se acalma!
O jeito como ela gritou fez parecer que eu estava sobrecarregado por uma dĂvida enorme… Bom, eu estava.
Em resposta Ă s minhas palavras, o fervor de Tino diminuiu ligeiramente.
Tino deu um passo Ă frente, segurou ambas as minhas mĂŁos e, com um rubor profundo no rosto, hesitante, disse:
â E, Mestre… seâ por acasoâ eu conseguir trazer as RelĂquias como espera… vocĂȘ poderia… hĂŁ… me… me recompensar…?
Uma recompensa…? SerĂĄ que hĂĄ algo especĂfico que ela quer?
Talvez devido ao nervosismo, o rosto de Tino ficou vermelho até a ponta das orelhas. Eu podia sentir sua energia interna sendo transmitida através de nossas mãos entrelaçadas.
Agora que penso nisso, jĂĄ pedi a ajuda dela inĂșmeras vezes, mas essa era a primeira vez que ela solicitava uma recompensa. Considerando suas contribuiçÔes passadas, nĂŁo havia nada de errado em dar uma ou duas recompensas mesmo que ela nĂŁo tivesse pedido; embora eu tivesse a sensação de que Tino provavelmente nĂŁo aceitaria.
Depois de refletir um pouco enquanto olhava para o rosto de Tino, assenti levemente.
***
Ela sentia uma ardĂȘncia feroz dentro de seu corpo. Um calor tremendo subia de seu coração, percorria todo seu corpo e propagava uma força explosiva para seus membros.
âSombras Confinadasâ era o nome de uma tĂ©cnica de combate inventada hĂĄ muito tempo. Tinha sido um Ășltimo recurso desesperado, utilizado pela primeira vez por um Ladino fraco, cujas habilidades ofensivas sĂł serviam como suporte em combates contra espectros.
Era um treinamento intenso do corpo. A combinação de foco mental e uma tĂ©cnica de respiração Ășnica concedia aos Ladinos que a dominavam uma âvelocidadeâ como se suas prĂłprias vidas estivessem em chamas.
Velocidade era poder, e a essĂȘncia desse poder transcendia meros aumentos de evasĂŁo: punhos impulsionados por um equilĂbrio superior e uma aceleração que superava atĂ© o som eram capazes de estilhaçar espectros e monstros â como uma tempestade negra.
Dentro dos amplos campos de treinamento subterrĂąneos da casa do clĂŁ, reinava o silĂȘncio, exceto pelos ecos incessantes de membros cortando o ar e objetos duros retinindo contra metal.
Uma dessas vozes era a de Sombra Partida.
Ela vestia um traje que nĂŁo atrapalhava em nada seus movimentos e um par de botas prateadas robustas cobrindo metade de suas pernas.
Do outro lado da arena, diante dela, estava um boneco de metal negro, projetado para se mover apenas em suas articulaçÔes.
Envolta em um calor fervente, Liz lançou uma sequĂȘncia de ataques em silĂȘncio. Varria os pĂ©s do oponente, derrubava-o e o pisoteava. Erguia-o e o arremessava ao chĂŁo com o calcanhar da mĂŁo. Fumaça gerada pelo atrito subia do piso, mas ela nĂŁo parava.
Sua implacĂĄvel barragem de golpes jĂĄ teria extinguido a vida de seu oponente hĂĄ muito tempo, caso fosse uma criatura viva.
O boneco de metal era, sem dĂșvida, apenas um boneco. NĂŁo podia ser manipulado como um golem, nem possuĂa qualquer consciĂȘncia â era meramente um pedaço de metal.
NĂŁo era apenas uma casca vazia; era preenchido com metal atĂ© o nĂșcleo, e seu exterior era revestido com uma liga especial, tornando-o excepcionalmente pesado e inquestionavelmente resistente. Graças a esse revestimento, possuĂa uma resistĂȘncia extremamente alta tanto a ataques mĂĄgicos quanto fĂsicos, assim como o golem outrora conhecido como Akasha. Embora nĂŁo tivesse os mecanismos para se mover como Akasha, ao menos em termos de durabilidade, estava Ă sua altura.
Cada um de seus golpes carregava uma aura de letalidade. Ela socava e chutava o boneco, repetidamente arremessando-o ao chĂŁo e contra as paredes.
A uma curta distĂąncia do campo de batalha, Sitri observava o frenesi da irmĂŁ com um caderno na mĂŁo.
â Liz, eu jĂĄ te disse que isso nĂŁo vai acontecer! Desista, vai? A durabilidade dele foi ajustada para suportar seus ataques.
â Cala a boca. Siddy! Eu. Estou. Treinando. EntĂŁo cala a boca! E prepara o prĂłximo!
â Ah, qual Ă©! Eu tambĂ©m nĂŁo estou livre!
Sitri fez um biquinho, mas Liz nĂŁo lhe deu sequer um olhar.
A filosofia por trĂĄs do design de Akasha era simples: ela havia sido criada para superar os Grieving Souls e apenas eles.
Depois de explorar ao mĂĄximo o conhecimento tecnolĂłgico, os recursos financeiros e as conexĂ”es da Torre AkĂĄshica, o colossal golem tornou-se o fruto de anos de pesquisa incansĂĄvel, baseada em uma vasta quantidade de dados. Ele jĂĄ havia ultrapassado hĂĄ muito tempo o nĂvel dos golems comuns.
Tudo começou com mera curiosidade, mas com o tempo, Sitri ficou profundamente envolvida na criação e aprimoramento de Akasha.
Foram tempos maravilhosos. Mesmo agora, ao recordar os dias de pesquisas incessantes, cheias de tentativas e erros, Sitri ainda sentia o coração disparar de empolgação.
Nascida de uma obsessĂŁo que beirava a loucura, Akasha ultrapassou completamente os limites da tecnologia golem de ponta.
Igualar-se ao poder dos Grieving Souls, mestres de habilidades Ășnicas, nĂŁo foi uma tarefa fĂĄcil. NĂŁo havia atalhos; Akasha foi o resultado de testes repetitivos e aprimoramentos contĂnuos.
Criada para um propĂłsito singular, Akasha foi construĂda com uma capacidade tĂŁo elevada que poderia ser considerada a inimiga natural dos Grieving Souls: possuĂa um escudo forte o suficiente para resistir aos golpes de Luke, capacidade de sustentação de combate como a de Ansem, conhecido por sua força muscular e resistĂȘncia excepcionais, alĂ©m de um sistema sofisticado de anĂĄlise de informaçÔes quando operada por um humano. AlĂ©m disso, estava equipada com uma espada personalizada para ataques de longo alcance.
O maior investimento de Sitri foi no desenvolvimento do corpo do golem. Para que Akasha fosse uma ameaça real aos Grieving Souls, seu metal precisava ser resistente o bastante para suportar a magia de Lucia, cuja ĂĄrea de efeito era praticamente impossĂvel de evitar, e os golpes de Liz, rĂĄpidos demais para serem bloqueados com um escudo. Foi nesse aspecto que Sitri investiu a maior parte dos recursos, sem ceder Ă s advertĂȘncias de seu mentor ou atĂ© mesmo de superiores mais influentes.
Sua irmĂŁ, Liz, possuĂa um talento genuĂno. Ela dominou uma tĂ©cnica que, dizem, levaria anos para aprender, e agora era reconhecida por esse nome como seu tĂtulo. Seus golpes eram livres de hesitação e medo, exibindo um poder muito alĂ©m de sua capacidade fĂsica.
Ainda assim, Liz era inegavelmente humanaâseus punhos nĂŁo foram feitos para esmurrar pedaços maciços de metal. Enquanto o treinamento avançava, seus punhos cerrados ficaram ensanguentados, provavelmente com alguns ossos quebrados sob a pele machucada.
A cada rajada de vento, o sangue pingava e manchava o chĂŁo, mas sua determinação nĂŁo mostrava sinais de enfraquecimento. Ela deveria estar sentindo dor, mas era impossĂvel dizer apenas por seu olhar penetrante.
Estava claro que sua irmĂŁ mais velha era uma guerreira e caçadora de primeira classe. E o melhor ainda estava por vir. Na verdade, as habilidades fĂsicas de Liz haviam melhorado consideravelmente desde que Sitri começou a desenvolver o corpo de Akasha. Claro, Sitri levou esse crescimento em conta. Ainda assim, ela nĂŁo permitiria que Liz destruĂsse o golem em que trabalhou por anos sĂł por conta disso. Sitri nĂŁo tinha intenção de abrir mĂŁo de sua supremacia sobre Liz tĂŁo cedo.
Suas antigas conexĂ”es com a Torre AkĂĄshica, que antes eram extremamente Ășteis, agora jĂĄ nĂŁo existiam mais.
â Isso Ă© difĂcil demais! Isso Ă© um inferno! Droga! Eu consigo socar esse pedaço de armadura! Nem estou usando minha tĂ©cnica secreta!
â Ladinos nem tĂȘm tĂ©cnicas tĂŁo poderosas assim…
E, para começo de conversa, havia algo fundamentalmente errado em tentar vencer esse golem em um combate corpo a corpo e desarmado.
Franzindo a testa de frustração, Sitri continuou anotando rapidamente em seu bloco de notas.
O treinamento intensivo de Liz era uma oportunidade valiosa para coletar dados.
Os Grievers cresceram juntos atravĂ©s da rivalidade mĂștua. Considerando a possibilidade de que a armadura de Akasha fosse violada, Sitri nĂŁo podia se dar ao luxo de ficar acomodada. Ela precisava planejar o prĂłximo passoâa força de um Alquimista estava nos “aprimoramentos”.
EntĂŁo, Liz, que nĂŁo dava sinais de desacelerar, parou de repente. O boneco de treinamento, que ela estava arremessando de um lado para o outro, desabou no chĂŁo.
Ofegante, Liz olhou para Sitri. Seus olhos estavam vermelhos, seu rosto queimava de calor. Ainda suava, mas seus passos continuavam firmes.
â Siddy, quebrou. Me traz o prĂłximo!
Suspirando profundamente, Sitri se virou para o boneco abandonado.
NĂŁo havia dano visĂvel. Embora a liga metĂĄlica especial estivesse manchada com o sangue de Liz, permanecia quase intacta. Mas, ao olhar mais de perto, ela percebeu rachaduras visĂveis na articulação do cotovelo direito. Para garantir mobilidade, as articulaçÔes eram inevitavelmente mais frĂĄgeis do que as ĂĄreas ao redor.
O produto final, Akasha, mitigou esse problema com mĂșltiplas camadas de armadura protetora sem comprometer os movimentos, mas havia limites para o que podia ser feito com esse boneco de treino.
â NĂŁo dĂĄ pra melhorar isso um pouco?
â Para de reclamar! JĂĄ Ă© incrivelmente difĂcil produzir esse metal!
JĂĄ fazia um tempo desde que as pesquisas sobre golems na Torre AkĂĄshica foram encerradas. Os materiais estavam praticamente esgotados, e sĂł com os recursos da Torre foi possĂvel investir tanto na criação de um golem.
Sitri pegou uma poção reparadora de metal de sua bolsa e derramou cuidadosamente sobre a rachadura. Fios de fumaça se ergueram, e a rachadura desapareceu diante de seus olhos. A resistĂȘncia do golem havia diminuĂdo um pouco, mas nĂŁo havia nada que pudesse fazer quanto a isso.
Mesmo que uma articulação se quebrasse, no fim das contas, era apenas um boneco. Isso nĂŁo deveria atrapalhar o treinamento…
Sem ter ideia dos pensamentos de Sitri, Liz gritou:
â Isso nĂŁo serve para o meu treinamento. Ei, me traz aquele grandalhĂŁo irritante! Agora!
â Eu nĂŁo posso fazer nada quanto a isso… VocĂȘ sabe como o Bureau de Investigação dos Cofres Ă© cheio de gente rĂgida…
Sitri achava a situação extremamente lamentĂĄvel. O golem tinha sido sua obra-prima, um testemunho de sua rivalidade mĂștua. Mais importante do que suas especificaçÔes avançadas, ele carregava memĂłrias.
Originalmente, ela planejava recuperĂĄ-lo quando se separasse da Torre AkĂĄshica em bons termos. No entanto, considerando como tudo havia acontecido, nĂŁo havia muito que pudesse fazer a respeito. Ela detestava a ideia de sua obra-prima sendo adulterada por Alquimistas incompetentes, mas seu apelido, “IgnĂłbil”, era um empecilho quando se tratava de lidar com organizaçÔes afiliadas ao governo.
â Se nem o Krai conseguiu fazer nada a respeito, nĂŁo tem nada que eu possa fazer para mudar isso, nĂ©?
No exato momento em que Sitri soltou essas palavras resignadas com um suspiro, a fĂșria de Liz se dissipou.
â EntĂŁo, deixando de lado esse assunto inĂștil, quanto custaria se vocĂȘ fizesse outro? Eu tambĂ©m posso contribuir um pouco.
O temperamento de Liz, que subia e descia drasticamente, era uma de suas caracterĂsticas marcantes. Ela podia ser egocĂȘntrica e explosiva, mas nĂŁo era tola.
Afastando a franja ensopada de suor de forma aparentemente irritada, ela soltou uma respiração quente.
â Se continuar assim, o Krai Baby vai achar que estou criando um ponto fraco para ele, nĂŁo vai? VocĂȘ entende o que quero dizer? Isso Ă© uma questĂŁo de orgulho! NĂŁo posso simplesmente deixar passar!
â Eu tenho os planos na cabeça, mas estou um pouco sem grana no momento. AlĂ©m disso, estive fornecendo poçÔes a preço de custo para outra questĂŁo, entĂŁo pode levar um tempo…
Sitri não era uma comerciante. A maior parte de seus bens estava investida em equipamentos e materiais valiosos. Seu estoque de poçÔes era abundante, mas não do tipo que pudesse ser vendido em grandes quantidades de uma só vez. Transformå-las em dinheiro levaria tempo.
Recriar Akasha nĂŁo era impossĂvel para Sitri. Com Noctus e o resto da equipe fora de cena, se ela nĂŁo retomasse a pesquisa, o desenvolvimento daquele golem nunca recomeçaria. E isso seria profundamente decepcionante para ela, como sua criadora.
Mas, ao mesmo tempo, Sitri sentia que havia chegado ao seu limite. Ela havia relatado ao seu mentor que Akasha fora criado para segurança, mas, na realidade, o verdadeiro propósito era servir como alvo de treinamento para os Grieving Souls. E, ainda assim, esse objetivo continuava inacabado.
Embora Akasha fosse uma criação notåvel considerando a tecnologia moderna de golems, ele não passava de um brinquedo quando comparado aos seus atuais companheiros de equipe. Ele podia resistir contra alguém de baixo poder de ataque como sua irmã mais velha, mas mesmo assim não conseguiria dar o golpe final. E, se fosse colocado contra os atacantes do grupo, Luke e Lucia, talvez pudessem até perfurar sua armadura, que jå havia sido projetada considerando o crescimento futuro deles.
O mais importante era que Akasha tinha uma fraqueza fatal: sendo uma construção inorgĂąnica, ele nĂŁo podia crescer absorvendo material de mana como humanos e monstros. SĂł poderia se tornar o mais forte atravĂ©s de atualizaçÔes constantes baseadas em um acĂșmulo de conhecimento e tecnologia superiores. Mas havia limites para o que um Ășnico indivĂduo podia alcançarâafinal, Sitri era uma caçadora de tesouros antes de ser uma pesquisadora.
Talvez o golem devesse ter sido criado com material vivo. Matadinho era o auge de suas criaçÔes até aquele momento, embora, em seu estado atual, ela provavelmente pudesse criar criaturas mågicas ainda mais poderosas.
Para acompanhar os Grieving Souls, que avançavam rapidamente, como sua Alquimista, ela precisava buscar alturas ainda maiores. Recusava-se a se tornar um peso para sua equipe por causa de suas prĂłprias deficiĂȘncias.
Com esse pensamento, sua atenção naturalmente se voltou para os materiais promissores vindos do exterior. E então, Sitri se lembrou de algo que os caçadores dos Passos haviam mencionado antes.
â A propĂłsito, ouvi dizer que Arnold tentou atacar Krai, e que o T enfrentou ele.
â Hm? Como Ă© que Ă©? O Krai Baby Ă© tĂŁo exigente! Isso nĂŁo seria demais para a Tino vencer?
Os olhos de Liz se arregalaram no inĂcio, mas logo sua voz assumiu um tom sutilmente animado.
Aquele homem era consideravelmente poderoso como caçador, e absolutamente qualquer caçador deveria ser capaz de reconhecer isso à primeira vista: ele não era apenas um caipira qualquer.
No entanto, Liz provavelmente estava mais satisfeita sĂł porque ouviu que sua aprendiz, Tino, havia enfrentado esse adversĂĄrio formidĂĄvel por vontade prĂłpria. Os Grieving Souls sempre enfrentavam inimigos assustadores; era gratificante para Liz ver um vislumbre desse espĂrito em sua fofa discĂpula e irmĂŁzinha. Mesmo que ela tivesse sido derrotadaâser derrotada nĂŁo era problemaâo desespero era o que fazia as pessoas crescerem.
â EntĂŁo, como foi?
â No fim, Tino levou uma surra feia, e o Krai finalizou tudo com magia gravitacional.
â Ah, vocĂȘ quer dizer aquela “Ordem do Tirano” da qual a Lucia vive reclamando? Esse feitiço era ridiculamente exagerado, mas ridiculamente poderoso â disse Liz com admiração, entendendo imediatamente sua intenção.
Lucia Rogier era uma pessoa diligente. AlĂ©m de ter assumido a responsabilidade de carregar as RelĂquias, ela vinha dominando vĂĄrios tipos de magia para atender Ă s exigĂȘncias frequentemente absurdas que lhe eram impostas desde que Krai adquiriu o Aspiration Manifest. Ela havia se aprofundado em uma ampla variedade de feitiços, desde os amplamente conhecidos atĂ© aqueles que caĂram no esquecimento por serem praticamente inĂșteis. Seu conhecimento abrangia muitos feitiços que superavam atĂ© mesmo a expertise de pesquisadores especializados.
Além disso, quando se tratava de feitiços originais, os oponentes certamente se viam perdidos para entender o que os havia atingido. Isso era ainda mais agravado pelo fato de que, ao lançar esses feitiços através do Aspiration Manifest, nem mesmo era necessårio entoar encantamentos.
O clima de treinamento havia mudado.
Instruindo Matadinho, que estava por perto, a arrumar o boneco golem, Sitri perguntou:
â E entĂŁo, Liz? Talvez seja melhor esmagar Arnold e seu grupo?
A força do Crashing Lightning era real. Se os Grieving Souls estivessem com o grupo inteiro reunido, o Crashing Lightning nĂŁo seria pĂĄreo, mas, do jeito que as coisas estavam, havia uma pequena chance de que esse fator tornasse o resultado imprevisĂvel.
Sitri Smart era naturalmente uma pessoa preocupada.
No entanto, em resposta Ă s palavras de sua irmĂŁ mais nova, Liz respondeu sem pensar muito:
â Hmm, nĂŁo podemos simplesmente deixĂĄ-los em paz? Mas vou matar todos eles se o Krai Baby mandar. Eles foram os que derrotaram a T, certo? MatĂĄ-los antes que a T tenha sua vingança nĂŁo vai ajudĂĄ-la, vai?
â Ai, Liz, nĂŁo use o cartĂŁo de mentora sĂł porque a T foi bem na luta!
Se Tino tivesse hesitado e recuado em vez de enfrentĂĄ-los, Liz teria matado Arnold e dado uma surra nela na hora.
Em resposta Ă s palavras exasperadas de Sitri, Liz sorriu complacente e disse:
â Ponto pra mim! Vou garantir que seja elogiada desta vez.
â Foi a T que se esforçou, nĂŁo foi…?! Se for o caso, deverĂamos elogiar a TâŠ
â As conquistas da T sĂŁo minhas conquistas! Se vocĂȘ tem um problema com isso, por que nĂŁo fala com o Krai Baby, que fez da T minha aprendiz?
Ăs provocaçÔes de sua irmĂŁ mais velha, que carregavam um toque de zombaria, Sitri retrucou com uma expressĂŁo irritada.
A Ordem do Tirano de Krai era uma carta na manga de uso Ășnico. Ele nĂŁo poderia usĂĄ-la novamente caso fosse atacado.
Sitri sabia disso, mas não estava preocupada. Liz também não parecia preocupada. Se fosse pedido a elas, dariam suas forças, seus corpos e suas almas para ele. Escutariam qualquer preocupação que ele tivesse; forneceriam tanto dinheiro quanto ele precisasse. No entanto, oferecer sem ser solicitado seria um insulto ao orgulho dele.
Isso era confiança.
Claro, Arnold podia ser forte e Krai talvez nĂŁo fosse tĂŁo poderoso assim, mas independentemente disso tudo, Krai Andrey nĂŁo perdia. Sitri, amiga de infĂąncia dele, sabia disso muito bem.
Afinal, esta era Zebrudia, a capital â o playground de Krai Andrey.
O RelĂąmpago Devastador estava prestes a aprender a essĂȘncia do Mil Truques.
Tradução: Carpeado
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