Grieving Soul – Capítulo 1 – Volume 3

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 03

CapĂ­tulo 1:
[Os Poderosos e os Poderosos]


Em um canto da capital, Arnold Hail e seus companheiros de grupo se reuniram em um quarto de uma estalagem frequentada por caçadores.

Cinco a seis membros era geralmente considerado o tamanho ideal para um grupo tĂ­pico, mas NĂ©voa caĂ­da era um grupo de oito homens, com cinco na linha de frente e trĂȘs na retaguarda. A maioria deles havia sido atraĂ­do pela reputação de Arnold.

Sua terra natal, Nebulanubes, a Terra das Névoas, possuía um ambiente muito mais traiçoeiro do que Zebrudia. A estação chuvosa dominava a maior parte do ano, e havia apenas alguns dias de céu limpo. Na neblina densa e sempre presente, o mal proliferava, e mesmo dentro da cidade, não se podia sentir completamente seguro devido aos monstros que se infiltravam sob a cobertura da neblina. Comparado ao seu lar, a capital de Zebrudia era como um paraíso.

— Droga. Aquela garota tratou o Arnold como se ele fosse um caipira qualquer. O Matador de DragĂ”es e portador de um epĂ­teto chegou, mas ela nĂŁo mostrou um pingo de respeito! — disse um dos membros, batendo na mesa com raiva.

O que lhes veio à mente provavelmente foi a garota que estava sentada atrås do balcão da Associação dos Exploradores. Como se esperava da famosa capital, ela era de fato uma mulher brilhante com um rosto notavelmente bem-apessoado. Apenas por isso, a Terra das Névoas simplesmente não podia se comparar à capital.

No entanto, por mais que ela tivesse um semblante afĂĄvel, suas palavras careciam do respeito e reverĂȘncia que se esperava para caçadores de alto nĂ­vel. Se ela nĂŁo conhecesse as conquistas de Arnold, isso atĂ© seria compreensĂ­vel, mas ela jĂĄ sabia seu nome antes mesmo de mencionĂĄ-lo. Ficou claro que ela simplesmente os subestimou.

— Bem, Ă© assim que as coisas sĂŁo; afinal, somos estrangeiros — disse Eigh, o capanga e vice-lĂ­der de Nevoeiro CaĂ­do, calmamente. — O que. Logo vamos calar a boca dela com nossas habilidades. Ver o rosto dela se contorcer de espanto serĂĄ satisfatĂłrio.

Nesta era, considerada o auge dos caçadores de tesouros, as notícias sobre caçadores de alto nível se espalhavam rapidamente. Embora a chegada de caçadores poderosos fosse vista como uma oportunidade para as cidades fortalecerem suas forças, isso também significava que o território dos caçadores locais seria perturbado. A essa altura, os caçadores mais sensatos jå deviam ter ouvido falar da chegada de Arnold e estavam em alerta.

O grupo de Arnold tinha duas escolhas diante de si: podiam reconhecer seu status como recĂ©m-chegados e se submeter aos mais fracos, ou podiam silenciĂĄ-los com sua prĂłpria força. Mas, na realidade, era como se nĂŁo houvesse escolha. Conhecer seu lugar e se curvar para os inferiores era um ato de fraqueza, e isso nĂŁo era algo que um herĂłi como Arnold, o Matador de DragĂ”es, faria. Portanto, havia apenas um caminho: sufocar a concorrĂȘncia pela força e demonstrar seu valor por meio de sua proeza. Afinal, essa era a opção mais simples e preferida pelos caçadores, que eram, em grande parte, passionais e meritocrĂĄticos. E, de fato, esse era o objetivo de Arnold ao vir para essa capital—adquirir ainda mais poder e ganhar ainda mais renome.

Arnold era um caçador de NĂ­vel 7 com um epĂ­teto, e alguns caçadores podiam nĂŁo ter coragem de enfrentĂĄ-lo com base apenas nisso. Mas tudo bem. Arnold nĂŁo tinha interesse nos fracos. Os adversĂĄrios que ele buscava devorar eram os fortes da capital. Ele precisava fazer com que os caçadores da capital soubessem, o mais rĂĄpido possĂ­vel, que o herĂłi de Nebulanubes era digno de ser reconhecido como tal—e nĂŁo apenas um caipira qualquer—tambĂ©m em Zebrudia.

— Mas, Arnold, esta capital realmente faz jus Ă  sua reputação como a terra santa dos caçadores de tesouros. HĂĄ uma abundĂąncia tanto de cofres de tesouro quanto de caçadores com epĂ­tetos por aqui, diferente da Terra das NĂ©voas — disse Eigh com um sorriso astuto, colocando sobre a mesa a lista de cofres de tesouro e a lista de caçadores de alto nĂ­vel com epĂ­tetos que residiam na cidade, que haviam recebido na Associação dos Exploradores.

Embora o ambiente da Terra das NĂ©voas fosse cruel e os monstros ali fossem problemĂĄticos, o nĂșmero de cofres de tesouro na regiĂŁo era escasso. A qualidade dos caçadores em uma regiĂŁo era diretamente proporcional ao nĂșmero de cofres de tesouro que ela possuĂ­a.

— O Inferno Abissal, a Tempestade Prateada… Esta Ă© uma seleção de peso de caçadores renomados. E tambĂ©m hĂĄ nomes que eu nunca ouvi falar. Isso Ă© melhor do que imaginei. — Com isso, um sorriso profundo surgiu no rosto de Arnold.

Dentre esses caçadores, podiam haver guerreiros capazes de rivalizar com Arnold, que havia reinado supremo na Terra das Névoas. Enfrentar duelos de vida ou morte contra oponentes formidåveis era exatamente o que fazia a alma de Arnold arder.

— Parece que vamos nos divertir um pouco.

— Por onde deverĂ­amos começar? Quero dizer, talvez seja melhor coletarmos algumas informaçÔes sobre essa capital primeiro — disse o fiel capanga, exibindo um sorriso predatĂłrio.

— Somos recĂ©m-chegados a esta terra, e devemos liberar nossos espĂ­ritos selvagens e fazer uma entrada marcante. Essa Ă© a forma dos caçadores, pois Ă© ao exibir nossa coragem que gravamos nossos nomes em suas memĂłrias. Vamos mostrar aos caçadores desta terra nossa verdadeira força. Ah, que doce expectativa eu tenho de ver a expressĂŁo daquela recepcionista quando nossos caminhos se cruzarem novamente!

***

As coisas nĂŁo vinham dando certo para mim ultimamente.

A sorte de uma pessoa subia e descia. Quando pegavam a marĂ© certa, tudo fluĂ­a sem esforço, mas quando a marĂ© virava, atĂ© os menores deslizes levavam a consequĂȘncias desastrosas.

A questão mais urgente no momento era recarregar meus Artefatos. Para falar a verdade, meu plano original era esperar Lucia, que sempre os recarregava para mim, voltar. No entanto, se Luke tivesse começado seu treinamento no fundo do cofre do tesouro, levaria um tempo até que ela retornasse.

A maioria dos meus Artefatos estava sem mana, e atĂ© metade dos meus AnĂ©is de Segurança estava descarregada. Minha Ășnica carta na manga era um Ășnico Artefato que Lucia havia infundido com magia. Mas, ao contrĂĄrio dos AnĂ©is de Segurança, ele nĂŁo podia ser usado para autodefesa.

Eu nĂŁo podia simplesmente ficar esperando ser morto pelo Devorador de MalĂ­cia—seria um destino patĂ©tico atĂ© para mim. Mas o problema persistia: como eu poderia recarregar mais de quinhentos Artefatos?

Recarregar Artefatos era, de fato, um grande fardo para os caçadores. Esses poderosos artefatos exigiam quantidades imensas de mana, proporcionais ao seu nível de poder. Um caçador comum geralmente conseguia recarregar apenas um ou dois Artefatos, enquanto até os Magos mais experientes, com grandes reservas de mana, atingiam seus limites após recarregar apenas cinco ou seis.

Aqueles que esgotavam sua mana eram atingidos por um cansaço avassalador, tĂŁo intenso que podiam atĂ© perder a força para ficar de pĂ©. Pior ainda, se nĂŁo estivessem acostumados com o processo, podiam atĂ© desmaiar no ato—por isso, a exaustĂŁo de mana dentro dos cofres do tesouro era uma das coisas mais perigosas para um caçador.

Por essa razão, os caçadores geralmente não possuíam muitos Artefatos. Afinal, havia um limite para quantos Artefatos se podia recarregar, mesmo contando com a ajuda dos Magos do grupo. Além disso, os próprios Magos precisavam de mana para conjurar feitiços, o que os deixava com pouco a oferecer.

Embora a mana fosse naturalmente restaurada com alimentação e descanso adequados, ela era um recurso extremamente valioso para caçadores, e muitas pessoas não entendiam isso.

Mesmo assim, os membros do meu clĂŁ eram boas pessoas, e eu tinha certeza de que me ajudariam se eu pedisse.

Mas havia um problema: a quantidade.

Se fossem apenas um ou dois Artefatos, eu nem pensaria duas vezes—mas eram mais de quinhentos. Esse nĂșmero era tĂŁo grande que era questionĂĄvel se atĂ© mesmo a maioria dos Magos do clĂŁ reunidos conseguiriam fornecer mana suficiente. Nesse sentido, minha irmĂŁ mais nova, Lucia, que sempre lidava com essa tarefa, era uma Maga excepcional.

Os AnĂ©is de Segurança, em particular, exigiam uma grande quantidade de mana. Sua habilidade era simples: bloquear qualquer ataque, mas apenas uma vez. Era justamente essa simplicidade que os tornava tĂŁo poderosos como Artefatos, razĂŁo pela qual todos consideravam tĂȘ-los para maior segurança. No entanto, recarregar um Anel de Segurança exigia de cinco a dez vezes mais mana do que um Artefato comum. Era uma quantidade absurda, a ponto de ser um grande desafio atĂ© mesmo para um caçador mĂ©dio recarregar um Ășnico anel.

Mas eu não podia deixar de recarregá-los—na verdade, eles eram minha prioridade máxima.

Os Anéis de Segurança eram minha linha de vida.

Sem eles, eu jĂĄ teria morrido vĂĄrias vezes nas Ășltimas semanas.

Sentindo uma pressĂŁo reconfortante em meus ombros, soltei um suspiro fraco sem pensar muito. EntĂŁo, virei-me e perguntei:

— Ah… Uh, Sitri, o que eu devo fazer?

— HĂŁ…? Sobre. O quĂȘ?! — respondeu uma voz meio sonhadora e febril.

Era Sitri, perguntando, apesar de ainda estar cansada de sua Ășltima exploração. E, por alguma razĂŁo, ela estava massageando meus ombros.

Eva estava ocupada com o trabalho. No escritĂłrio da mestre do clĂŁ, sĂł estavam eu, afundado na minha cadeira de sempre, e Sitri, vestindo roupas um pouco mais casuais do que o normal.

Sitri tinha muitos hobbies, e um deles era massagens; em particular, ela gostava de fazĂȘ-las, mas nĂŁo de recebĂȘ-las. E devido Ă  sua rotina ocupada, nĂŁo era sempre que tĂ­nhamos tempo juntos. Depois que ela voltava de suas viagens, havia se tornado um costume conversarmos enquanto ela me fazia uma massagem assim.

Ela nĂŁo apenas resolvia meus problemas como tambĂ©m massageava meus ombros, e ainda por cima eu devia dinheiro para ela… O que isso fazia de mim? Para qualquer um de fora, eu devia parecer um total fracassado.

— Hmm…? E entĂŁo. Como foi? Gostou? — disse Sitri com uma voz levemente doce.

Seus dedos finos deslizavam pela minha nuca em movimentos circulares, traçando um caminho atĂ© os ombros e pressionando firmemente meus mĂșsculos nem tĂŁo tensos assim. Ela parecia conhecer bem os pontos de pressĂŁo. A cada toque firme, uma sensação arrebatadora subia pela minha espinha, me proporcionando um prazer intenso que quase me tirava o fĂŽlego.

Sitri conhecia muito bem o corpo humano. Uma Alquimista não era apenas uma excelente cientista, mas também uma maga e uma médica. Talvez essa massagem também fosse parte de suas pesquisas.

Os membros dos Grieving Souls se davam bem, mas Sitri e eu éramos particularmente próximos. Isso porque, na época do nosso treinamento antes de nos tornarmos caçadores, Sitri teve um desenvolvimento mais lento do que os outros. No fim das contas, a maestria da profissão de Alquimista exigia um vasto conhecimento e equipamentos adequados, o que tornava o crescimento nessa årea mais demorado. No entanto, naquela época, Sitri era atormentada por um sentimento de inferioridade, e eu, sem talento e sem rumo, a encorajei. Aparentemente, a grata e leal Sitri ainda se lembrava disso.

Desde então, Sitri sempre demonstrou preocupação comigo, mesmo que jå tivesse retribuído esse favor com juros hå muito tempo.

E, para ser sincero, era questionĂĄvel se aquilo sequer podia ser chamado de favor. Afinal, eu nĂŁo tinha como recusar quando ela dizia pensativa:

— Eu paro se vocĂȘ nĂŁo gostar…

Certo, vĂĄ em frente. Se Ă© isso que vocĂȘ quer, eu serei seu objeto de experimento o quanto quiser.

Pressionando firmemente, ela aplicou força ao longo da minha coluna em movimentos circulares, gradualmente massageando e relaxando os mĂșsculos. Apesar de sua aparĂȘncia esguia, Sitri era forte.

Sua respiração roçou a parte de trås da minha cabeça, perto da minha orelha, enviando arrepios pela minha espinha, e meu corpo esquentou como se estivesse pegando fogo.

Uma voz doce e febril, tingida de excitação, atingiu meu ouvido.

— Mmm…! VocĂȘ estĂĄ tĂŁo! Duro! Krai. VocĂȘ Ă©. IncrĂ­vel—mmm! Aaah…!

Não era nada demais, mas como a situação estava começando a ficar estranha, eu preferia que ela evitasse fazer esses sons suspeitos.

Como diabos uma massagista podia emitir uma voz tĂŁo sedutora?! Meus ombros nem estavam tĂŁo tensos assim.

Eu suprimia os sons estranhos que quase escapavam por conta do imenso prazer que estava sentindo e me esforçava ao måximo para manter a compostura. Respirando fundo para acalmar meu coração acelerado, me dirigi à mente do nosso grupo, que, por algum motivo, parecia estar operando em alta voltagem.

— Ah… Sobre minhas relĂ­quias, eles vĂŁo… ficar perigosamente baixos se eu nĂŁo recarregĂĄ-los em breve.

— Mmm…! — veio a voz aparentemente pungente de Sitri.

De onde saiu isso…?

Infelizmente, esse nĂŁo era um trabalho para Sitri. Embora Alquimistas fossem uma subclasse de Magos, sua reserva de mana era apenas tĂŁo profunda quanto a de um Caçador comum; sua reputação era tĂŁo baixa que Alquimistas geralmente eram considerados Magos sem talento. Embora a capacidade de mana dela fosse maior do que a de um Alquimista mĂ©dio, ainda estava no mesmo nĂ­vel de um Caçador comum—e sua mana era preciosa.

— SĂł se eu…! Conseguir modificar! Noctus Cochlear…! Aaah…! — a voz ofegante e sedutora continuou.

Decidi ignorar o que quer que fosse essa coisa perigosa que ela estava falando. Eu nĂŁo podia reagir a cada pequena coisa assim se quisesse acompanhar Sitri.

Levantando as pontas dos dedos dos meus ombros, Sitri deslizou suavemente os braços para frente, dos lados da minha cabeça, em um movimento de alongamento.

Seus seios pressionaram firmemente a parte de trås da minha cabeça, seios que eram bem maiores do que os da irmã dela, e eu podia sentir seu coração batendo.

Ela tinha que ser muito desavisada, por mais prĂłximos que fĂŽssemos. Embora normalmente nĂŁo demonstrasse, Sitri tinha um gosto por contato fĂ­sico, assim como sua irmĂŁ, Liz, e, segundo ela, o contato Ă­ntimo a ajudava a recarregar sua energia.

Isso nem era mais uma massagem. Seus braços, curvados à minha frente, agora se moviam para apertar meu corpo com força, como se quisessem roubar meu calor, seus dedos finos tremendo como se estivessem resistindo a algo.

Eu nĂŁo conseguia identificar o cheiro exato, mas havia uma fragrĂąncia levemente doce e incrivelmente agradĂĄvel no ar.

As provocaçÔes de Sitri eram tão travessas quanto as da irmã dela. Honestamente, meu coração estava disparado, mas eu resistia com uma força de vontade de ferro.

— Hmm, no pior dos casos, talvez eu tenha que pedir ajuda à Starlight.

Starlight era o maior grupo de Magos em Primeiros Passos, composto por seis membros que eram eminentes atĂ© mesmo dentro da capital. Seus integrantes nĂŁo eram humanos comuns: eles eram EspĂ­ritos Nobres, conhecidos por sua aptidĂŁo excepcional para a classe de Magos, muito alĂ©m da dos humanos puros. Eram um grupo de garotas com sensibilidades Ășnicas e, bem, para dizer de forma direta, naturalmente olhavam os humanos de cima para baixo.

E, é claro, também me olhavam de cima para baixo, então era altamente duvidoso que me ajudassem com um assunto tão particular.

Mas espera aĂ­, elas estĂŁo na capital?

Sitri soltou um gemido abafado e pressionou suas bochechas coradas contra as minhas.

— Ooh, vamos…! Krai… por favor, nĂŁo… fale de outras mulheres… quando estamos… fazendo isso…!!!

Fico feliz que ela esteja se divertindo, mas por favor saiba que, se alguém nos visse, quem seria mal-entendido aqui seria eu, ok?

O sussurro de Sitri fez cĂłcegas no meu ouvido.

— Minha irmĂŁ nĂŁo estĂĄ aqui… Essa Ă© nossa Ășnica chance. Vamos… sinta mais de mim…

— É, aham.

Liz viria voando para cå se estivesse por perto, com certeza. Qualquer um que entrasse nessa sala também poderia interpretar a cena da pior maneira possível. Só a voz de Sitri jå era completamente inadequada.

E justo quando falei isso, a porta do escritĂłrio do mestre da guilda se escancarou violentamente naquele momento inoportuno.

Eva colocou um dedo na testa, suas sobrancelhas franzidas e suas bochechas levemente coradas.

Havia pouquĂ­ssimas coisas que poderiam fazer Eva, que geralmente permanecia impassĂ­vel, exibir uma expressĂŁo assim.

Me desculpa mesmo!

— Se nĂŁo se importam que eu pergunte… o que vocĂȘs dois estavam fazendo?

— Como pode ver, estou recebendo uma massagem nos ombros.

EstĂĄvamos devidamente vestidos, e nada de errado tinha acontecido entre nĂłs.

— S-SĂł para deixar claro… esse andar Ă© proibido para Caçadores… — disse Eva, com a voz trĂȘmula, apontando o Ăłbvio. Ela nem tinha levantado tanto a voz, provavelmente porque essa nĂŁo era a primeira vez.

Me desculpa mesmo!

—V-VocĂȘ nĂŁo sabe de nada! Por favor, nĂŁo se intrometa entre Krai e eu!

—Calma, calma. Não precisa jogar lenha na fogueira.

Se Eva ficasse com raiva, quem sofreria era eu. Sitri podia se divertir Ă  vontade, mas esperava que nĂŁo esquecesse disso.

Dei um leve toque nos braços entrelaçados, e Sitri, entendendo meu gesto, soltou sua pegada a contragosto.

Me levantei e me senti incrivelmente leve. Como se todo o cansaço que restava tivesse sido lavado — e era exatamente por isso que eu não conseguia recusar suas massagens.

Enquanto girava levemente os braços para testar a condição deles, Sitri, com um sorriso tão inocente que ninguém acreditaria que ela tinha acabado de falar de forma sugestiva, disse:

—Que tal uma massagem no corpo inteiro da próxima vez, e não só nos ombros? O que acha?

Hmm… DifĂ­cil resistir.

—Tenho uma poção perfeita para isso. Tenho certeza de que… serĂĄ uma experiĂȘncia tĂŁo prazerosa que vocĂȘ nunca sentiu nada parecido antes.

—Sinto que isso provavelmente faria mais mal do que bem, então acho melhor passar.

Talvez fosse algo natural para Alquimistas, mas sua mania de querer usar poçÔes e agulhas em qualquer oportunidade possível parecia ser um dos poucos defeitos de Sitri.

—Muito bem, por mais que eu nĂŁo esteja no clima, Ă© hora de recarregar minhas RelĂ­quias. Preparação Ă© essencial, certo?

—Deixe-me ajudar tambĂ©m… jĂĄ que Ă© parcialmente minha culpa que suas RelĂ­quias ficaram sem mana — disse Sitri. — Tenho uma boa ideia.

Ter Sitri ao meu lado era como ter o poder de uma multidĂŁo. Ao contrĂĄrio de mim, ela possuĂ­a poder de verdade.

Pedindo desculpas com um sorriso para a ainda corada Eva, decidi levar Sitri comigo para dar uma olhada no salĂŁo.

—A propĂłsito, Sitri, vocĂȘ parece estar bem ocupada ultimamente. JĂĄ resolveu tudo?

Caçadores de tesouros excepcionais costumavam desempenhar mĂșltiplos papĂ©is, e meus companheiros de equipe nĂŁo eram diferentes: Lucia, excelente como Maga; Anthem, mestre na magia de cura capaz de regenerar membros perdidos; e Sitri, versada em todos os tipos de conhecimento como Alquimista, todos recebiam inĂșmeras propostas de diversas organizaçÔes e estavam particularmente atarefados.

As falsas acusaçÔes não mudaram a rotina de Sitri; por isso, ela raramente aparecia no salão do clã. Um de seus laboratórios ficava no terceiro andar da casa do clã, então ela ocasionalmente me visitava. No entanto, não era surpreendente que alguns dos membros mais novos do clã não conhecessem seu rosto.

—Ah… na verdade, recentemente perdi meu cargo no laboratĂłrio que eu frequentava… — disse Sitri.

—O quĂȘ?

Meus olhos se arregalaram ao ouvir aquilo.

Sitri era brilhante — tão brilhante que suas habilidades lhe renderam o apelido de “A Prodígio” na capital.

Eu não conseguia acreditar que ela teria sido demitida de um laboratório, a menos que isso tivesse algo a ver com as falsas acusaçÔes manchando sua reputação.

SerĂĄ que eu deveria pelo menos dizer algumas palavras de conforto como amigo?

—Bem… em vez de ter perdido meu cargo… Ă© mais correto dizer que o laboratĂłrio… deixou de existir — ela disse. — É que… poxa vida! Como vocĂȘ sabe, Krai, eu nĂŁo fui boa o suficiente… Que vergonha!

Enquanto tentava encontrar as palavras certas, as bochechas de Sitri coraram levemente e ela abaixou a cabeça, envergonhada.

Entendi… EntĂŁo o laboratĂłrio ao qual ela pertencia faliu, concluĂ­.

Sitri era uma prodígio, mas não uma deusa; uma Alquimista, mas não uma comerciante. Ou seja, ela não poderia lidar com tudo perfeitamente. Eu não sabia exatamente o que aconteceu, mas parecia que seu laboratório estava em uma situação que não podia ser resolvida apenas com um membro talentoso.

Quanto ao “como vocĂȘ sabe”, eu nĂŁo tinha certeza do que ela queria dizer com isso; talvez o laboratĂłrio de Sitri fosse um nome de peso que eu deveria conhecer.

—Bem, essas coisas acontecem Ă s vezes. O importante Ă© aprender com os erros. Da prĂłxima vez, vocĂȘ com certeza farĂĄ melhor — eu disse.

—É, vocĂȘ tem razĂŁo.

—Eu posso nĂŁo entender de alquimia ou de quais laboratĂłrios fecham, mas conheço vocĂȘ, Sitri.

Ela era inteligente, habilidosa, curiosa e trabalhadora — embora um pouco excĂȘntrica —, uma mulher de talento e carisma. Parecia que ela pensava demais nas coisas Ă s vezes, mas talvez fosse apenas porque eu pensava de menos.

—É… vocĂȘ nĂŁo sabe de nada. NĂŁo sabe.

—Se quiser, pode continuar sua pesquisa no laboratĂłrio da casa do clĂŁ…

—É mesmo?!

Com meu comentårio casual, Sitri levantou a cabeça e me encarou intensamente.

Eu disse algo estranho? Seus estudos eram completamente desconhecidos para mim.

Eu não sabia nada sobre suas pesquisas, e provavelmente não entenderia mesmo que ela me explicasse. No entanto, o laboratório espaçoso da casa do clã tinha todo o equipamento de ponta que Sitri mesma reuniu, então não deveria faltar nada nesse sentido. A menos que houvesse outros problemas além das instalaçÔes.

Sitri pareceu hesitar por um momento, mas entĂŁo um doce sorriso surgiu em seu rosto enquanto ela dizia:

—Muito obrigada pela oferta. Mas receio que esses experimentos possam acabar te causando problemas, então vou ter que recusar.

NĂŁo precisa se preocupar com isso… era o que eu ia dizer, mas me segurei a tempo.

Sitri e eu nĂŁo Ă©ramos do tipo de amigos que escondiam segredos um do outro. Se ela disse que os experimentos poderiam me causar problemas, entĂŁo eles realmente deviam ser arriscados o suficiente para isso — e nĂŁo era meu papel, como leigo, dizer o contrĂĄrio sem necessidade.

Juntando as mĂŁos, Sitri falou em um tom animado:

—AlĂ©m disso, vou ficar bem; logo encontrarei outro laboratĂłrio. Dessa vez, farei melhor.

—É, sei… Bem, sem pressa. Descansar tambĂ©m Ă© importante para o corpo.

Eu tinha certeza de que Sitri logo encontraria outra oportunidade. NĂŁo parecia haver muito que eu pudesse fazer por ela.

No fim, o que eu ofereci nĂŁo passou de uma tentativa morna de consolo, mas, por algum motivo, Sitri assentiu feliz mesmo assim.

Apesar de ser de dia, o salão estava cheio de rostos conhecidos. Nem todo caçador visitava cofres do tesouro todos os dias. Preparação era essencial para explorar cofres, e os caçadores também precisavam estar em boas condiçÔes físicas antes de entrar em um.

O salĂŁo servia como um refĂșgio para esses caçadores; um local onde os membros do clĂŁ podiam trocar informaçÔes, sem a presença de estranhos. Com refeiçÔes e bebidas gratuitas, era um lugar ideal para passar o tempo.

Estreitando os olhos, Sitri olhou ao redor do salĂŁo como se estivesse avaliando o ambiente.

—Faz um tempinho que nĂŁo venho aqui…

Embora nĂłs, os Grieving Souls, ocasionalmente saĂ­ssemos para comer juntos, geralmente nunca usĂĄvamos o salĂŁo, jĂĄ que alguns de nĂłs tinham a tendĂȘncia de começar discussĂ”es com outros grupos. Claro, nĂłs os impedirĂ­amos—era melhor fazer nossas refeiçÔes em outro lugar do que criar um clima tenso entre meus amigos, especialmente considerando o quĂŁo impulsivo Luke era com sua espada. Essa era uma decisĂŁo triste de se tomar.

Um por um, as pessoas no salão começaram a notar minha presença. Alguns exibiam expressÔes confusas, enquanto outros franziram a testa. Alguns arregalaram os olhos, e outros acenaram para nós.

No meio deles, um homem alto, cercado por vĂĄrios grupos, exclamou ao nos ver:

— Oh, olha sĂł, Ă© o Krai e a Sitri—que visĂŁo rara ver vocĂȘs dois no salĂŁo. O que os traz aqui?

Era Sven Anger, lĂ­der do Obsidian Cross, um dos principais grupos da Primeiros Passos. Ele foi quem reuniu as diversas equipes para investigar as anomalias na Toca do Lobo Branco—um homem muito mais confiĂĄvel do que alguĂ©m como eu. Para um caçador, ele era bastante atencioso e bem acessĂ­vel, ficando atrĂĄs apenas de Ark se considerĂĄssemos apenas pessoas de fora do meu grupo.

— Ah. Bom, surgiu um imprevisto… Parece que estĂĄ bem agitado por aqui. O que estĂĄ acontecendo?

Pelo que parecia, eles haviam juntado vårias mesas e um clima animado, transcendendo os limites dos grupos, havia se formado. Porém, minha chegada parecia ter esfriado um pouco os ùnimos. Como o salão não servia ålcool, era raro ver uma atmosfera tão festiva ali.

Com uma expressĂŁo surpresa, Sven respondeu Ă  minha pergunta:

— HĂŁ… Ah, pode nĂŁo ser do seu interesse, Krai, mas tem havido alguns rumores ultimamente. Parece que, enquanto estĂĄvamos ocupados investigando o incidente, um caçador de alto nĂ­vel chegou Ă  cidade.

— Ah, isso… Todo mundo parece estar bem preocupado com isso.

— EntĂŁo vocĂȘ jĂĄ ouviu? Claro que estamos preocupados, nĂŁo estamos? Principalmente porque esse novato tem uma certificação de nĂ­vel parecida com a sua e a minha. Dizem que ele nĂŁo Ă© exatamente o tipo mais pacĂ­fico.

— Eu… nĂŁo estou completamente desinteressado, mas, sinceramente, nĂŁo ligo muito.

— Isso Ă© a definição perfeita de ‘desinteressado’. Mas falando sĂ©rio, vocĂȘ considera um NĂ­vel 7 alguĂ©m com quem ‘nĂŁo se importa muito’? CM, vocĂȘ com certeza tem nervos de aço para manter essa expressĂŁo tranquila de sempre. Mas, dito isso, nĂŁo pretendemos ficar parados caso ele resolva arranjar confusĂŁo com a gente — disse Sven, expressando um sentimento profundo enquanto fazia um comentĂĄrio equivocado.

Dei de ombros e forcei um sorriso sem entusiasmo.

Não era que eu tivesse nervos de aço; pelo contrårio, meus nervos eram de gelatina. Era por isso que raramente saía da sede do clã: enquanto eu não saísse, não me envolveria em problemas, não importava o quão azarado eu fosse.

Para falar a verdade, eu estava mais preocupado com os leilÔes do que com um caçador.

— Minha Ășnica preocupação Ă© se a Liz vai querer brigar ou nĂŁo…

— Heh heh heh. Isso com certeza vai acontecer.

Ela era sempre a primeira a arranjar briga… Talvez eu devesse avisĂĄ-la com antecedĂȘncia.

— Então, o que te trouxe aqui, CM, se não está interessado no novato?

— Ah, certo. Eu estava pensando se poderia pedir a alguĂ©m para recarregar minhas RelĂ­quias. Tenho um nĂșmero considerĂĄvel delas.

— Recarregar RelĂ­quias…? — repetiu Sven, arregalando os olhos e levando a mĂŁo ao queixo.

Os outros ao redor também trocaram olhares.

— Normalmente, peço para a Lucia fazer isso, mas ela ainda nĂŁo voltou…

Enquanto explicava, percebi que talvez estivesse pedindo o impossível. Mana era um recurso tão essencial para caçadores quanto dinheiro. Jå havia solicitado a recarga de algumas Relíquias antes, mas desta vez era uma quantidade bem maior.

Sven olhou para Marietta, a Maga do Obsidian Cross, que estava por perto.

— Eu não me importo muito — disse Sven —, mas tem certeza de que quer expor seus trunfos?

Essa era uma preocupação desnecessåria. Independentemente de expor ou não meus segredos, eu era fraco.

EntĂŁo, Sitri, que havia permanecido em silĂȘncio atĂ© aquele momento, juntou as mĂŁos e abriu um sorriso incontrolĂĄvel ao dizer:

— Sven, tecnicamente, receio que vocĂȘ esteja ligeiramente enganado. O que Krai quis dizer Ă© que ele estĂĄ disposto a arriscar a exposição de suas vulnerabilidades para oferecer a todos vocĂȘs uma oportunidade de treinamento.

Os membros do salĂŁo se reuniram ao redor de Sitri.

Foi uma jogada bem habilidosa da parte dela, mesmo que alguns dos presentes provavelmente nem a conhecessem. O fato de Sven nĂŁo ter contestado pode ter contribuĂ­do bastante para seu sucesso.

Em meio ao clima animado, completamente diferente de um momento atrĂĄs, Sitri continuou com uma voz penetrante e um sorriso cativante:

— Todos vocĂȘs que estĂŁo aqui no salĂŁo hoje, considerem-se incrivelmente sortudos. Krai prometeu a vocĂȘs um treinamento altamente eficiente.

Enquanto todos na sala estavam empolgados, eu era, de longe, o mais confuso. Eu não lembrava de ter dito nada grandioso assim, e, além disso, era eu quem estava pedindo ajuda.

Mesmo assim, ninguém disse uma palavra; até Sven parecia olhar para Sitri com um olhar curioso. Um dos membros, como se estivesse hipnotizado pelos olhos serenamente brilhantes de Sitri, engoliu em seco ao ouvir suas palavras.

Sitri ergueu o indicador e se inclinou para frente, como se estivesse compartilhando um segredo.

— O que hĂĄ de fantĂĄstico nesse treinamento — disse ela — Ă© que, diferente dos desafios habituais dele, nĂŁo hĂĄ risco de morte!

— O que… vocĂȘ disse?!

No instante em que Sitri proclamou essas palavras, todos, que até então estavam indiferentes, ficaram agitados. Até Sven arregalou os olhos.

Eu parecia ser o Ășnico que nĂŁo estava acompanhando a situação.

Gente… vocĂȘs estĂŁo empolgados demais, nĂŁo acham?

— HĂŁ… Eu preferiria que parĂĄssemos de chamar tudo de desafio…

— Atualmente de folga? Sem problemas: sem necessidade de preparação! NĂŁo sĂł nĂŁo levarĂĄ muito tempo, como vocĂȘs verĂŁo os benefĂ­cios quase imediatamente! Este Ă© o treinamento que os elevarĂĄ a um nĂ­vel comparĂĄvel ao da Lucia como Magos! Vou contar um segredinho para vocĂȘs: este Ă©, na verdade, o mĂ©todo de treinamento exclusivo do nosso grupo, a receita secreta especial de treinamento do Krai. Mas hoje, estamos tornando isso acessĂ­vel para o bem de todos!

Nos olhos de todos, surgiu um brilho de ceticismo ao ouvir aquelas palavras.

Lucia Rogier era universalmente reconhecida como a Maga suprema da capital. Sua presença era exatamente a razão pela qual Starlight, o grupo de Nobre Espíritos sempre arrogantes e desprezadores de humanos, havia se juntado ao Primeiros Passos.

No entanto, a ideia de que qualquer um poderia se tornar igual a Lucia como Magus parecia nada mais do que uma piada. Pelo menos para mim soava como uma piada. Ou melhor, eu nĂŁo tinha absolutamente nenhuma recordação de um mĂ©todo de treinamento assim—isso era inovador demais.

— Este treinamento Ă© projetado especificamente para Magos, entĂŁo, infelizmente, nem todos poderĂŁo participar—mas, uma vez que passem por esse treinamento, seu poder como Magos—e como caçadores—vai crescer dramaticamente, sem dĂșvidas. Claro, a participação nĂŁo Ă© obrigatĂłria—alguĂ©m aqui gostaria de se retirar do treinamento?

Confusos com o pedido brusco de Sitri, os membros do grupo reunido trocaram olhares.

Ela sĂ©rio acabou de perguntar “se alguĂ©m gostaria de se retirar” em vez de “se alguĂ©m gostaria de participar”?

Marietta, que estava ouvindo a conversa ao lado de Sven, ergueu timidamente a mĂŁo. Embora nĂŁo estivesse vestindo seu traje de maga, provavelmente por ser seu dia de folga, um pequeno cajado podia ser visto pendurado em sua cintura.

— Tem certeza… de que isso Ă© realmente seguro? Krai tambĂ©m disse que a recente missĂŁo de investigação nĂŁo seria perigosa…

O olhar afiado de Marietta estava me matando…

— Garanto que sou menos rigorosa que Krai.

— Um treinamento tĂŁo conveniente assim? Nunca ouvi falar de algo assim. Qual Ă© o truque? — perguntou um caçador com um olhar duvidoso.

Como esperado de um caçador, pareciam estar dispostos a participar mesmo que tivessem sido persuadidos a isso—que grupo motivado.

Em resposta à pergunta cética, Sitri levou um dedo aos låbios e inclinou a cabeça de forma fofa.

— Bem, vejamos… A exaustĂŁo de mana farĂĄ parte do treinamento, entĂŁo pode ser difĂ­cil para aqueles que nĂŁo estĂŁo acostumados. Mas tenho certeza de que todos do Primeiros passos jĂĄ tĂȘm uma boa experiĂȘncia com isso, entĂŁo ficarĂŁo bem… Mas se houver algum Mago que nĂŁo consiga lidar com esse tipo de coisa, talvez seja melhor nĂŁo participar.

— Não há nenhum Mago assim aqui. Todo Mago já experimentou algo tão normal quanto a exaustão de mana em algum momento — disse Marietta em um tom exasperado.

VĂĄrias vozes de concordĂąncia ecoaram ao seu redor.

— A exaustĂŁo de mana se cura rapidamente, entĂŁo fiquem tranquilos. Eu cobrirei as poçÔes de restauração de mana para esse propĂłsito. A propĂłsito… hm… nĂŁo quero zombar de ninguĂ©m ou algo assim… mas tem alguĂ©m aqui que nĂŁo suporta o amargor das poçÔes de restauração de mana?

Os Magos na sala trocaram olhares em resposta à sua pergunta hesitante. Seu descontentamento era evidente em suas expressÔes.

As poçÔes de restauração de mana eram Ășteis para caçadores, mas tinham uma desvantagem bem conhecida—o gosto era horrĂ­vel. Sua pungĂȘncia e amargor, que pareciam estar diretamente ligados Ă  sua eficĂĄcia, eram ditos como um sabor incomparĂĄvel a qualquer outra coisa neste mundo. Mesmo Magos experientes hesitavam em bebĂȘ-las em situaçÔes de vida ou morte por causa disso.

Eu havia tomado um gole do que Lucia bebia antes, e no momento em que tocou minha lĂ­ngua, perdi a consciĂȘncia e sĂł acordei vĂĄrias horas depois. Desde entĂŁo, passei a admirar os Magos. Beber poçÔes de restauração de mana sem hesitar parecia ser um sinal de um Mago de alto nĂ­vel.

Um dos Magos trocando olhares falou com um tom aparentemente insatisfeito:

— NĂŁo seja ridĂ­cula. Podemos nĂŁo estar no mesmo nĂ­vel que vocĂȘs, mas ainda somos Magos em treinamento. JĂĄ bebemos nossa cota de poçÔes de restauração de mana, nĂŁo vamos fraquejar agora.

— Peço desculpas. Nesse caso… acredito que nĂŁo haverĂŁo problemas — disse Sitri.

Ela inclinou levemente a cabeça em desculpas e mais uma vez olhou para os rostos dos indivíduos reunidos.

Com uma expressão séria, abriu os låbios e disse:

— Agora, deixem-me repetir isso uma Ășltima vez: Esta… Ă© nossa receita secreta de treinamento. Se alguĂ©m recusar essa oferta agora, provavelmente nĂŁo terĂĄ outra chance. Dito isso, tambĂ©m Ă© verdade que isso nĂŁo deve ser feito logo apĂłs uma grande missĂŁo. NĂŁo forçarei ninguĂ©m a participar, mas, uma vez dentro, espero que vĂŁo atĂ© o fim. EntĂŁo, alguĂ©m aqui nĂŁo quer participar deste treinamento?

…Eu deveria ter mencionado antes, mas Sitri era uma pessoa astuta. Sua aparente inocĂȘncia escondia uma astĂșcia profunda que beirava a duplicidade. Sitri sempre agia com cautela; ela nĂŁo mentia, mas tinha uma propensĂŁo para circunlocução. Entre meus amigos de infĂąncia, era uma das que exigiam mais atenção em suas palavras. Por exemplo, se Sitri dissesse que algo nĂŁo seria letal, ela poderia ter omitido o fato de que poderia ser incrivelmente doloroso—muitas vezes, havia informação crucial escondida no que ela nĂŁo dizia.

Eu preferia não me lembrar muito disso, mas houve um momento em que ela e Liz quase chegaram a um conflito mortal por causa de sua “comunicação intencionalmente ambígua”.

A tensão pairava no ar. E eu temia que fosse por causa da minha presença na sala. Era compreensível que eu fosse considerado indigno de confiança depois do incidente Noctus Cochlear—de fato, nenhum mestre de clã jamais havia sido tão impopular quanto eu.

Justo quando Marrietta estava prestes a falar, uma voz clara e gélida interveio de repente.

— Que discurso interessante, Sitri Smart.

Instantaneamente, Sitri estreitou os olhos antes de recuperar seu sorriso sereno de antes.

Ela se virou na direção da voz e saudou:

— Ora, ora… Que coincidĂȘncia.

Adentrando a sala estava uma mulher esguia e imponente, cujos traços refinados representavam o auge da beleza neste mundo. Seu rosto impecåvel era adornado por olhos cintilantes como ametistas; seus longos cabelos dourados fluíam como fios de seda ao sol, reluzindo de forma deslumbrante. Sua beleza era tão hipnotizante que parecia irreal.

E, ao seu lado, havia uma mulher de cabelos prateados, igualmente encantadora.

A beleza delas era quase alienĂ­gena. Na verdade, elas nĂŁo eram humanas: eram conhecidas como “EspĂ­ritos Nobres”, um nome que denotava sua linhagem exaltada. Eram mais longevas que os humanos e possuĂ­am uma beleza muito alĂ©m da que qualquer mortal poderia alcançar. E, por isso, desprezavam os humanos.

Entre os Sapiens, os EspĂ­ritos Nobres eram extremamente raros e, consequentemente, quase nunca apareciam em assentamentos humanos, sendo uma visĂŁo incomum atĂ© mesmo na capital. Assim, o grupo exclusivamente composto por EspĂ­ritos Nobres, Starlight, liderado por uma mulher dessa raça, Lapis Fulgor, era uma raridade absoluta no mundo inteiro—um verdadeiro fenĂŽmeno.

Por outro lado, seu desprezo inconsciente pelos humanos os tornava um grupo problemĂĄtico, ficando atrĂĄs apenas dos Grieving Souls nesse quesito.

— Lapis, Kris… Que surpresa ver vocĂȘs duas visitando o salĂŁo — disse eu, em um tom amigĂĄvel.

Ao ouvir minhas palavras, Kris Argent, a garota de cabelos prateados ao lado de Lapis, lançou-me um olhar feroz, seus olhos brilhando com um frio desdém.

— Fraco humano. Quantas vezes preciso lhe dizer para parar de falar com Lapis de maneira casual para que vocĂȘ entenda?

A voz de Kris era elegante, mas sua escolha de palavras soava um tanto rude.

Repreendendo Kris, Lapis disse:
— Kris, chega. Por mais imbecil que ele seja, ainda Ă© o mestre do clĂŁ. Este Ă© um assentamento humano, e devemos aderir aos costumes humanos aqui… E sua linguagem honorĂ­fica estĂĄ vacilando.

— Fraco humano. Vamos ceder apenas na medida em que Lapis generosamente permitir. Eu ordeno que fique no seu lugar. Senhor.

Franzindo as sobrancelhas, Kris virou-se de mau humor.

Ela sempre foi uma garota interessante. Mas, por mais infantil que fosse, era uma Maga de primeira classe. Como era uma Nobre EspĂ­rito, sua aptidĂŁo para a classe de Magus dizia-se ser centenas, senĂŁo milhares de vezes maior que a dos humanos. Talvez nĂŁo fosse surpresa que sua autoestima fosse inflada.

— Pensar que um humano tĂŁo fraco seja, de fato, irmĂŁo mais velho de Lucia Ă© realmente inacreditĂĄvel.

Embora os Nobres EspĂ­ritos geralmente desprezassem os humanos, havia uma Ășnica exceção: os Magi. Em suma, para os Magi mestres, a aptidĂŁo para a magia era aparentemente um critĂ©rio que ultrapassava as barreiras raciais. Na verdade, quanto mais desfavorecida e desvantajosa fosse a raça, maior respeito tinham por seus Magi. De fato, foi minha irmĂŁ adotiva mais nova, Lucia, uma Maga excepcional, que levou Starlight a se juntar Ă  Primeiros Passos desde o inĂ­cio.

Parecendo concordar com as palavras de Kris, Lapis esboçou um sorriso levemente amargo.

— Possuir tal poder em um corpo humano… Se ao menos ela fosse uma Nobre EspĂ­rito! Poderia ter alcançado o ĂĄpice das artes mĂĄgicas.

— Ainda nĂŁo Ă© tarde demais. VocĂȘ deve entregar a Srta. Lucia de uma vez! É um desperdĂ­cio deixĂĄ-la nas mĂŁos de um fraco humano que sequer entende o bĂĄsico sobre magia! Senhor!

— Como jĂĄ disse muitas vezes: vocĂȘs sĂŁo livres para recrutĂĄ-la como quiserem; nĂŁo vou impedi-los. Mas a decisĂŁo caberĂĄ inteiramente a Lucia. Eu nĂŁo vou ditar o que ela escolhe. Na verdade, como irmĂŁo dela, nem que eu quisesse poderia forçå-la a tomar qualquer decisĂŁo.

Quando fundamos o clĂŁ, foi Sitri quem convenceu Starlight a se juntar. Ela usou o direito de recrutar Lucia, que jĂĄ era reconhecida como uma Maga excepcional na Ă©poca, como moeda de troca. Mas, para ser honesto, nĂŁo era realmente sobre o direito de recrutamento ou algo assim: nosso grupo operava com uma polĂ­tica de portas abertas. E desde entĂŁo, algo absolutamente inconcebĂ­vel para os Nobres EspĂ­ritos aconteceu—Starlight ficou sob o guarda-chuva de nosso clĂŁ, um clĂŁ criado por humanos. TrĂȘs anos depois, ainda permaneciam como membros do clĂŁ. A fixação deles em Lucia dizia muito.

Com os lĂĄbios franzidos, Kris caiu em silĂȘncio. Lapis, colocando uma mĂŁo na cabeça de Kris, lançou um olhar de desprezo para Sitri.

— EntĂŁo… uma receita secreta de treinamento? — disse Lapis. — Qualquer um pode se tornar um Magus no nĂ­vel de Lucia, vocĂȘ diz? Besteira…! Tal treinamento nĂŁo existe nem entre os Nobres EspĂ­ritos.

— Diga o que quiser, mas a verdade Ă© que Lucia conquistou seu tĂ­tulo graças ao treinamento criado por Krai. Bem, suponho que seja compreensĂ­vel que seja difĂ­cil de acreditar para vocĂȘs, Nobres EspĂ­ritos, que nasceram como uma raça esmagadoramente privilegiada e, ainda assim, ficaram atrĂĄs de Lucia.

— Tch… PatĂ©tico. Uma provocação inĂștil, IgnĂłbil — retrucou Kris, seu rosto ficando vermelho de raiva diante das palavras de sua oponente.

Lapis também parecia descontente.

Era genuinamente assustador quando beldades como elas ficavam verdadeiramente irritadas.

No entanto, Sitri permaneceu impassĂ­vel enquanto examinava o ambiente.

— EntĂŁo, alguĂ©m gostaria de ser o primeiro a passar pelo treinamento e mostrar para as cĂ©ticas Lapis e Kris os resultados?

Ela realmente estava confiante nesse “treinamento”, hein… SĂł viemos aqui hoje para pedir ajuda para recarregar as RelĂ­quias e, de repente, estĂĄvamos nesse assunto.

ApĂłs um breve silĂȘncio, Marietta da Obsidian Cross foi a primeira a levantar a mĂŁo.

— Tudo bem. Acho que… eu topo. Todo mundo parece estar com medo.

— Tem certeza, Mari?

— Sim. Depois daquela missão recente, percebi que preciso de um treinamento intensivo.

Como esperado de uma Cross. Apesar de provavelmente conhecer bem Sitri, seu desejo de se aprimorar a convenceu do contrĂĄrio.

Satisfeita, Sitri acenou para Marietta, que deu um passo Ă  frente.

— Muito bem, vamos começar. Embora eu deva dizer que o conteĂșdo do treinamento em si nĂŁo Ă© tĂŁo desafiador.

Em meio a olhares céticos, Sitri deu uma råpida olhada em um relógio de bolso prateado que retirou do bolso para verificar as horas, ergueu o dedo indicador em um gesto decisivo e declarou animadamente:

— Para começar, vamos carregar mana nas Relíquias. Convenientemente, Krai tem várias Relíquias descarregadas.

— Sim?

Os olhos de Marietta se arregalaram, confusos.

Conforme Sitri indicou, entreguei um Anel de Segurança descarregado.

Com uma expressĂŁo intrigada, Marietta começou a carregar mana. O tempo passou em silĂȘncio, e sua expressĂŁo mudou de confusa para tensa.

— Espera aĂ­?! — disse ela apĂłs uma longa pausa. — Que tipo de RelĂ­quia Ă© essa? NĂŁo estĂĄ carregando nem um pouco!

— Continue carregando.

— …

O sangue esvaiu do rosto jå pålido de Marietta; em sua testa, formaram-se gotas de suor frio. Apesar de ser uma Maga de nível bastante alto mesmo dentro da Steps, parecia que recarregar um Anel de Segurança ainda era um fardo para ela.

Falando nisso, a sensação de esgotamento de mana, segundo Lucia, parecia extremamente semelhante Ă  de estar tĂŁo bĂȘbada que nĂŁo conseguia se manter de pĂ©. No entanto, Marietta continuou a carregar, apoiando-se na mesa com uma das mĂŁos.

Alguns minutos se passaram, e a Relíquia foi finalmente recarregada. Naquele momento, os låbios de Marietta estavam azulados, e seus dedos tremiam. Ela pressionou a mão contra a testa e fez uma careta, provavelmente sofrendo de dor de cabeça.

Sitri pegou o Anel de Segurança da mesa e acenou com aparente satisfação.

Ao devolvĂȘ-lo para mim, disse:
— Agora, terminamos a primeira carga. Próximo passo—vamos carregar a próxima Relíquia.

— Espera?! O quĂȘ?!

— Espere aí. Mari já está no limite!

— Não se preocupe; eu a pararei quando chegar ao limite. Isso não mata—já foi provado.

Apesar das objeçÔes dos companheiros de equipe de Sven, Sitri não lhes deu atenção e entregou a próxima Relíquia a Marietta.

Com as mĂŁos trĂȘmulas, Marietta aceitou a RelĂ­quia e recomeçou a carregar.

Logo, sua respiração ficou irregular—um sintoma claro de esgotamento de mana. Se continuasse assim, logo ficaria completamente esgotada.

Com todos observando ansiosamente, Sitri começou a explicar para eles.

— Deixe-me oferecer uma breve explicação aqui — disse ela. — A força de um Mago Ă© proporcional Ă  sua capacidade total de mana. A noção predominante de que as mulheres sĂŁo mais adequadas para se tornarem Magas Ă© sustentada pela tendĂȘncia de sua capacidade total de mana crescer mais facilmente. Enquanto isso, os limites de nossos reservatĂłrios de mana normalmente crescem durante a infĂąncia e se estabilizam por volta da adolescĂȘncia. E Ă© por isso que os EspĂ­ritos Nobres se destacam como Magos: acredita-se que eles nĂŁo apenas—claro—possuem aptidĂŁo para magia, mas tambĂ©m envelhecem de forma diferente dos humanos, o que lhes concede um perĂ­odo prolongado de crescimento de mana.

Finalmente incapaz de permanecer de pé, Marietta caiu de joelhos no chão. Sua mão, que aterrissou com um baque sobre a mesa, se abriu involuntariamente, e o Anel de Segurança escorregou de seus dedos. O carregamento ainda não estava completo, mas parecia que sua mana havia se esgotado.

Sitri pegou o Anel de Segurança e continuou sua explicação.

— E assim, embora o crescimento da nossa capacidade de mana pare completamente por volta da adolescĂȘncia, existe uma exceção conhecida sob uma circunstĂąncia especĂ­fica. Nessa condição, nossa capacidade pode se expandir por mais cinco a dez por cento, aproximadamente, apĂłs o crescimento ter parado. Esse Ă© um fenĂŽmeno que normalmente chamamos de “ĂŒber recuperação”. AlguĂ©m aqui sabe qual Ă© a circunstĂąncia que pode causar esse aumento?

Um dos Magos na sala respondeu com dificuldade:

— Esgotamento…de mana…?

— Correto! Quando nossa mana Ă© esgotada e depois recuperada, o limite superior aumenta significativamente!

Foi nesse momento que todos souberam: isso nĂŁo ia acabar bem. Os Magos, que momentos antes estavam tĂŁo interessados nas palavras açucaradas de Sitri, empalideceram; atĂ© Lapis assumiu uma expressĂŁo severa—certamente eles entenderam a gravidade do que Sitri acabara de dizer.

Um método fåcil? Eficiente? De jeito nenhum.

De fato, o fenĂŽmeno da ĂŒber recuperação de mana era relativamente conhecido, mas ninguĂ©m o praticava de bom grado—o fardo sobre o Mago era simplesmente grande demais. A expansĂŁo da capacidade de mana ocorria porque o corpo estava se preparando para a morte e tentando se adaptar Ă  situação com todas as suas forças.

— Eu ouvi dizer que a capacidade de mana expande durante a recuperação, senhora. Mas atĂ© nĂłs precisarĂ­amos de um tempo considerĂĄvel—

— E Ă© aqui que minha poção especial de restauração de mana entra em cena.

Em resposta à pergunta de Kris, Sitri puxou do bolso uma poção com um certo orgulho. Era uma poção de tom escuro e turvo, como se tinta preta tivesse sido dissolvida nela.

Eu pensei que poçÔes de restauração de mana deveriam ser… de uma cor mais vibrante?

Segurando o conta-gotas, Sitri disse confiante:

— Esta Ă© a fĂłrmula especial desenvolvida para Lucia. No caso de Marietta, eu suspeito que apenas algumas gotas jĂĄ seriam suficientes para a recuperação.

— Espera aí—

Mas a tentativa de Sven de intervir veio um instante tarde demais.

Sitri injetou o líquido do conta-gotas contendo sua poção especial de restauração de mana na boca de Marietta, que estava inconsciente devido ao esgotamento de mana. Então, o corpo esguio de Marietta, que até então estava imóvel como um peixe encalhado, se arqueou bruscamente para cima.

Ao testemunharem aquele movimento nada humano, os membros do clĂŁ ao redor soltaram gritos e recuaram rapidamente.

Sitri, por outro lado, se inclinou sobre a pobre Maga, que jazia ali no chĂŁo, completamente imĂłvel.

— Impressionante, Marietta. Achei que vocĂȘ pelo menos vomitaria, apesar da sua firme determinação — murmurou Sitri diante da plateia atĂŽnita.

Dito isso, ela puxou as pålpebras de Marietta para examinar suas pupilas. Depois, deu um leve tapa em sua bochecha, ergueu sua cabeça e conferiu seu relógio de bolso antes de assentir com um sorriso largo.

— Em apenas trĂȘs minutos e vinte segundos, sua mana aumentou em cerca de dez por cento. Este Ă© o poder da receita secreta de treinamento de Magos desenvolvida por Krai, aquele que treinou Lucia. Repita esse processo continuamente, e vocĂȘ verĂĄ um crescimento dramĂĄtico no seu poder. Com uma capacidade de mana aumentada, vocĂȘ terĂĄ maior resistĂȘncia em combate e mais mana de sobra para aprender novos feitiços. O crescimento de um Mago—o pilar central de qualquer equipe—aumenta significativamente a taxa de sobrevivĂȘncia do grupo. Que mĂ©todo de treinamento eficiente! Isso Ă© magnĂ­fico!

Que método de treinamento cruel e diabólico. Obviamente, eu não tinha a menor lembrança de ter inventado algo assim. Lapis franziu a testa e verificou o estado de Marietta.

— Mas Marietta ainda nĂŁo recuperou a consciĂȘncia—

— EstĂĄ tudo bem; ela vai se acostumar. AlĂ©m disso, eu irei fornecer as RelĂ­quias e as poçÔes para que vocĂȘs possam focar unicamente no carregamento de mana. NĂŁo se preocupem se eu nĂŁo for rĂĄpida o bastante para atender todos; se necessĂĄrio, invocarei alguns golens para cobrir quem eu nĂŁo conseguir alcançar. E fiquem tranquilos—nĂŁo adianta tentar fugir. VocĂȘs sĂł precisam se acostumar.

— Completamente insana… Isso nĂŁo pode ser chamado de treinamento — disse um dos membros do clĂŁ, de olhos arregalados, olhando para Sitri como se ela fosse um demĂŽnio.

O motivo pelo qual a ĂŒber recuperação de mana nĂŁo havia sido incorporada aos treinos normais atĂ© entĂŁo era, em parte, devido ao alto custo das poçÔes de restauração de mana, mas, mais provavelmente, porque o esgotamento de mana era “incrivelmente doloroso”. AlĂ©m disso, no treinamento de Sitri, a pessoa teria que consumir repetidamente poçÔes de restauração de mana que eram ainda mais dolorosas de beber. Qualquer Mago experiente poderia perceber o quĂŁo torturante isso seria.

Sitri permaneceu impassĂ­vel. Piscou e disse, como se estivesse apenas afirmando o Ăłbvio:

— Mas Lucia realmente ficou mais forte com esse treinamento. Ela passou por esgotamento de mana e se recuperou usando minhas poçÔes repetidamente. Considerando a eficiĂȘncia, acho que esses pequenos desconfortos sĂŁo apenas riscos insignificantes… NĂŁo Ă© como se vocĂȘs esperassem superar os EspĂ­ritos Nobres em força sem nenhum sacrifĂ­cio ou esforço… certo?

Ela manipulou a plateia com sua argumentação lĂłgica. Perplexos com sua declaração, todos, incluindo Lapis, ficaram em silĂȘncio diante da enigmĂĄtica expressĂŁo de Sitri.

Para ter sucesso, é preciso fazer esforços à altura. Tendo testemunhado o crescimento dos Grieving Souls, eu sabia disso muito bem.

— Conforme sua reserva de mana se expande, esgotĂĄ-la completamente se torna cada vez mais difĂ­cil. O uso de magia exige uma concentração intensa, entĂŁo Ă© preciso uma força de vontade sĂłlida para zerar sua mana apenas conjurando feitiços. No entanto, ao carregar RelĂ­quias, vocĂȘ pode facilmente exaurir sua mana sem toda essa complicação. Felizmente, nĂŁo faltam RelĂ­quias para carregar. Certo, Krai?

— Ainda hĂĄ… algumas ce— digo, pelo menos dezenas delas.

A maior parte da minha coleção que decorava meu quarto privado estava inutilizåvel no momento.

Sven me olhou com um olhar atĂŽnito.

— Dezenas…?! SĂ©rio, Krai?

— Graças à consideração de Krai, todos os nossos Magos aqui podem receber treinamento.

Entendo… EntĂŁo essa Ă© a “ideia” de que Sitri falou mais cedo.

Considerando que Sitri conseguia preparar as caras poçÔes de restauração de mana por conta prĂłpria, isso era, de fato, um acordo mutuamente benĂ©fico—embora parecesse meio enganoso. A tarefa era simplesmente exigente demais, e eu duvidava que alguĂ©m fosse cair tĂŁo fĂĄcil nessa lĂĄbia.

Todos os Magos que estavam ouvindo a conversa trocaram olhares silenciosos entre si.

Enquanto isso, Marietta continuava inconsciente.

Låpis, de braços cruzados e com uma expressão problemåtica no rosto, perguntou:

— Ignóbil , a irmã mais nova de Krai, Lucia, realmente passou por esse treinamento?

— Mas Ă© claro. Eu mesma preparei as poçÔes. AlĂ©m disso, ela nunca demonstrou qualquer sinal de dificuldade durante o treinamento de fortalecimento de mana.

Sim, aham. Nem percebi.

Era verdade que ela sempre reclamava toda vez que eu conseguia uma RelĂ­quia que precisava ser carregada, mas minha irmĂŁ, tĂŁo capaz quanto era, nunca se recusou a fazĂȘ-lo.

Respirando fundo, Sitri olhou ao redor da sala e entĂŁo levou o dedo indicador aos lĂĄbios.

Ela disse:

— Isso nĂŁo tem a ver com talento ou qualquer outra coisa; e nĂŁo se limita Ă  Lucia. O motivo pelo qual meu irmĂŁo mais velho—Ansem—Krai e os outros Grievers tĂȘm um nĂ­vel ligeiramente maior do que todos aqui Ă© por causa dos desafios que enfrentamos—suamos um pouco mais, sangramos um pouco mais, derramamos um pouco mais de lĂĄgrimas do que vocĂȘs. NĂŁo me diga que vĂŁo reclamar de uma provação que Caçadores muito mais jovens jĂĄ superaram.

…Eloquente como sempre. Bem, nĂŁo que eu tenha derramado uma Ășnica gota de sangue, suor ou lĂĄgrima…

ApĂłs ouvir seu discurso, LĂĄpis permaneceu em silĂȘncio por um tempo antes de finalmente falar, com um olhar carregado de significado:

— Hmmmm? E eu achava que humanos precisavam de um talento extraordinário só para chegar perto do poder de um Espírito Nobre. Mas parece que Lucia foi o resultado de um treinamento severo demais. Impressionante! Agora eu a quero ainda mais, Krai Andrey.

Claro… Ela Ă© minha querida irmĂŁzinha. Mas talvez eu devesse reduzir a quantidade de RelĂ­quias no meu arsenal…?

O talento mågico de Lucia jå havia se manifestado desde o início. Talvez, entre nós, os seis membros fundadores dos Grieving Souls, ela tenha sido a mais talentosa. E era por isso que eu nunca havia pensado muito nisso, mas ao ver essa situação lamentåvel diante de mim, talvez Lucia também estivesse sofrendo bastante sem que eu percebesse.

Quando chegamos Ă  capital pela primeira vez, eu tinha apenas uma RelĂ­quia—uma sem importĂąncia, que sĂł aumentava ligeiramente minha resistĂȘncia quando equipada. Ela exigia apenas uma pequena quantidade de mana para ser carregada. Desde o começo atĂ© agora, carregar minhas RelĂ­quias sempre foi responsabilidade de Lucia. Mas conforme minha coleção crescia constantemente, Lucia nunca fez uma cara de desagrado—nem qualquer outra expressĂŁo, na verdade.

Ao me lembrar da voz fria e direta de Lucia, um suor frio brotou subitamente na minha testa.

Ela vinha agindo de forma um tanto distante ultimamente. Achei que talvez fosse apenas uma fase tardia de rebeldia adolescente, mas serĂĄ que esse era o motivo? Eu devia tentar animĂĄ-la quando ela voltasse.

— Mas, Sitri Smart — interrompeu LĂĄpis de repente enquanto eu refletia sobre essas coisas —, vocĂȘ mencionou antes sobre “superar EspĂ­ritos Nobres em força”, certo?

— Sim? Eu disse. O que tem isso?

Olhando para Sitri, que exibia um olhar curioso, os olhos lilĂĄs-pĂĄlido de LĂĄpis brilharam instantaneamente.

— Isso. NĂŁo. É. Verdade! Absolutamente nĂŁo Ă© verdade! Sim, talvez Lucia Rogier seja, sem dĂșvida, uma Maga excepcional, talvez aquela que possui o mais diverso repertĂłrio mĂĄgico que conheço—ela realmente faz jus aos seus apelidos—mas por mais que eu a admire, nunca, jamais, considerei que ela fosse superior a nĂłs! Nunca!

Foi uma explosão de emoçÔes ardentes; sua voz transbordava confiança esmagadora e um claro desprezo pelos humanos.

Sitri olhou para mim e soltou um pequeno suspiro de irritação.

— Ugh. Confiança Ă© algo bom, mas nada Ă© mais desagradĂĄvel do que uma arrogĂąncia infundada—nĂŁo, nĂŁo estou tentando menosprezar Starlight. Mas sĂ©rio, seu Kris foi certificado para um nĂ­vel ainda mais baixo que o nĂ­vel 6 da Lucia. AlĂ©m disso… vocĂȘs se acomodam demais no privilĂ©gio de terem nascido em uma raça superior. Pode ser um viĂ©s meu, mas serĂĄ que esse foi o motivo pelo qual Lucia recusou o convite de Starlight?

— !!!

Låpis mordeu firmemente os låbios vibrantes em frustração ao ouvir essas palavras extremamente desrespeitosas e superficiais, mas não conseguiu dizer nada.

Esse era um insulto que normalmente justificaria uma retaliação em forma de feitiços ofensivos por parte de um Espírito Nobre comum.

Mas LĂĄpis gritou em resposta:

— Kris. Não vamos ficar parados suportando tais insultos!

— Sim! Senhora!

O rosto de Kris estava tĂŁo vermelho de vergonha quanto o de LĂĄpis.

Eu estava preocupado que seus olhares assassinos, por algum motivo, parecessem estar direcionados a mim em vez de Sitri, mas acho que nĂŁo podia dizer muita coisa, jĂĄ que eu era algo como o supervisor dela.

— Sinto muito se Sitri fez alguns comentĂĄrios inapropriados; permita-me me desculpar. Eu atĂ© faço uma reverĂȘncia se desejar.

— NĂŁo precisa! Senhor! VocĂȘ, humano fracote, se curva demais. Senhor! Pense duas vezes antes de abrir essa boca! Senhor!

Mas essa Ă© minha Ășnica habilidade especial… falando nisso, isso me lembra da vez em que me curvei para Kris com tanta força que chorei…

Ignorando meu dilema, Låpis ficou furiosa e bateu na mesa com força.

— NĂŁo quero suas desculpas, Mil Truques! Vamos provar isso. Somente ao verem vocĂȘs, humanos tolos, boquiabertos de espanto com essas caras estĂșpidas, nosso orgulho ferido serĂĄ acalmado. Estamos “nos acomodando”? No fim das contas, nĂŁo hĂĄ nada que humanos possam fazer que nĂłs, EspĂ­ritos Nobres, nĂŁo possamos realizar! Kris!

Estufando o peito esguio, característico dos Espíritos Nobres, Kris cuspiu em minha direção e exigiu:
— Ei, me entregue as RelĂ­quias jĂĄ! Senhor! E traga tudo o que vocĂȘ tem! Senhor! Com minha capacidade de mana dezenas de vezes maior que a de qualquer humano, nĂŁo hĂĄ como eu ser superada, nem mesmo por LĂșcia. Senhor!

— Ah, claro. Se Ă© isso que vocĂȘ quer… — disse Sitri em um tom preocupado, abaixando o olhar.

Não que faça diferença, mas Espíritos Nobres definitivamente não lidam bem com provocaçÔes, não é?

— HĂŁ, por favor, tentem nĂŁo se esforçar demais. Enquanto LĂșcia pode carregĂĄ-las sem problema algum, nenhum outro ser humano provavelmente conseguiria realizar tal façanha. Acredito que isso seja um grande desafio atĂ© mesmo para EspĂ­ritos Nobres.

— VocĂȘ Ă© tĂŁo irritante! Eu disse que consigo, entĂŁo guarde minhas palavras. Madame! Vou provar que nĂŁo sou como esses Magos humanos covardes que vacilam sĂł com suas palavras. Madame! Agora cale a boca e traga as RelĂ­quias. Madame!

Os ouvidos de Kris jĂĄ estavam surdos aos avisos de Sitri. Sitri era esperta e certamente tinha formulado suas palavras dessa maneira de propĂłsito.

Com o olhar baixo, Sitri exibiu um leve sorriso.

— Se vocĂȘ diz… LĂĄpis, Kris, por favor, liberem todo o poder dos EspĂ­ritos Nobres.

Golems de pedra controlados por Sitri colocaram as Relíquias uma a uma diante de Kris, que arregaçou as mangas.

Enquanto a pilha de RelĂ­quias crescia e a determinada garota EspĂ­rito Nobre arqueava as sobrancelhas, Sitri falou em um tom suave:
— Isto… Ă© o “Mil ProvaçÔes”.


No meio do fim da tarde, Eva correu para dentro do salão tingido pelo pÎr do sol. Ao se deparar com a devastação no cÎmodo, pressionou a mão contra a testa e olhou para mim, que estava sentado ocioso à mesa.

— O que… aconteceu? — perguntou.

— EntĂŁo, houve esse confronto de orgulho entre caçadores e…

— Finja que eu não perguntei.

Ah. Ok.

A cena no espaçoso salĂŁo era difĂ­cil de encarar: algumas pessoas estavam convulsionando e se contorcendo, seus troncos caĂ­dos sobre as mesas, enquanto outras estavam esparramadas no chĂŁo, imĂłveis. Algumas ainda estavam conscientes, mas apenas murmuravam coisas incompreensĂ­veis. Alguns chegaram a vomitar no começo, mas os golems de Sitri jĂĄ haviam limpado tudo—felizmente, ninguĂ©m pode vomitar mais do que tem no estĂŽmago. Caçadores agarravam seus companheiros caĂ­dos, sacudindo-os pelos ombros, como se estivessem segurando os corpos recĂ©m-caĂ­dos de seus camaradas durante uma exploração de tesouros, em total descrença.

Embora eu assistisse em silĂȘncio, meu coração doĂ­a terrivelmente. Ironia do destino, eu mesmo sentia que ia vomitar.

Kris, ainda consciente em uma das mesas, ergueu a cabeça. Seu rosto estava completamente pálido, e a franja suada grudava em sua testa—mas sua beleza permanecia, algo digno de um Espírito Nobre orgulhoso, devo dizer.

Com olhos desfocados, ela olhou para a mesa e gemeu:
— Argh, argh… Quantas… faltam? Senhor.

— As de maior capacidade já foram. Restam apenas 152!

— Cento…?! Seu humano fraco. NĂŁo ouse esquecer o que disse no começo, senhor…

Na verdade, acho que ela se saiu muito bem.

Ela precisou repor sua mana algumas vezes, mas conseguiu recarregar todos os AnĂ©is de Proteção—um feito que diz muito sobre sua enorme capacidade de mana.

A propósito, os outros Magos todos desabaram no meio da “batalha de recarga”. Eles, não querendo perder, foram inspirados por Kris, que continuava a infundir mana mesmo ofegante. Quando eu disse que isso era um “confronto de orgulho entre caçadores”, eu realmente quis dizer isso.

Observando Kris com as pernas cruzadas, LĂĄpis franziu a testa.

— Entendo, isso realmente Ă© severo — disse. — Mas Kris, vocĂȘ nĂŁo vai desistir. Tenho que dizer que isso despertou meu interesse. Isso pode ser Ăștil para nĂłs tambĂ©m. Kris, vocĂȘ nĂŁo vai reclamar disso, vai?

— NĂŁĂŁĂŁĂŁo… claro que nĂŁo. Madame LĂĄpis! Ugh… humano mentiroso! Agora traga… as restantes… RelĂ­quias. Senhor!

Que determinação notåvel. Talvez ela jå tenha passado do ponto de não retorno.

Não pude evitar de oferecer uma mão amiga; eu não tinha interesse algum em forçar uma garota às lågrimas só para carregar minhas Relíquias.

— NĂŁo, nĂŁo se preocupe. JĂĄ carreguei as RelĂ­quias absolutamente necessĂĄrias. O resto nĂŁo Ă© tĂŁo importante. VocĂȘ nĂŁo precisa se forçar ao limite.

— O quĂȘ?! Besteira! Senhor! E-eu ainda… estou bem! Senhor! Agora, rĂĄpido… traga mais. Senhor!

Eva, aparentemente entendendo a situação, ficou perplexa. Sitri, por outro lado, arregalou os olhos.

Bem, acho que isso realmente é um treinamento para ela. Talvez eu a deixe continuar até que esteja satisfeita.

— Tem certeza?

— Sim. Manda ver.

O golem retirou as RelĂ­quias jĂĄ carregadas e trouxe novas.

As Relíquias restantes eram as de menor prioridade—as Relíquias de armas. Ao contrário das Relíquias de acessórios, que pareciam meros ornamentos, essas Relíquias de armas tinham um brilho distinto que as diferenciava das armas comuns: uma espada com lñmina transparente, uma katana com um hamon que tremeluzia como chamas, uma lança negra que absorvia toda a luz, um escudo circular que brilhava como pedras preciosas, e assim por diante.

Diante do brilho das Relíquias de armas, os membros que cuidavam de seus companheiros caídos suspiraram em admiração.

RelĂ­quias de armas e armaduras tinham um valor muito maior do que as outras. Nas mĂŁos de guerreiros experientes, podiam liberar um poder incomparĂĄvel, mas para alguĂ©m como eu, cujas habilidades em todas as artes marciais eram inferiores Ă s de um amador, eram inĂșteis—meros itens de coleção decorativos. Talvez apenas eu e Matthis, que gerenciava uma loja de RelĂ­quias, tivĂ©ssemos uma coleção tĂŁo grande.

— H-humano fraco, vocĂȘ estĂĄ falando sĂ©rio…? — perguntou Kris, atĂŽnita.

O que quer dizer com “EstĂĄ falando sĂ©rio”? Foi vocĂȘ quem disse que ia carregĂĄ-las.

Essas RelĂ­quias de armas e armaduras tinham uma capacidade menor de reter mana em comparação com outras RelĂ­quias. Esse era um dos motivos pelos quais caçadores de tesouros limitavam suas coleçÔes ao que podiam carregar sozinhos. Infelizmente, mesmo com todo o esforço que Kris colocaria nelas, essas RelĂ­quias provavelmente sĂł durariam alguns dias, e era por isso que eu as tinha deixado por Ășltimo.

Kris gemeu e pegou uma adaga curta, com cerca de vinte centĂ­metros de comprimento, incrustada de gemas.

EntĂŁo ela realmente vai fazer isso.

— Talvez ela estivesse fazendo isso por orgulho? Talvez por teimosia? Ou talvez estivesse disposta a ir tão longe para aumentar sua capacidade de mana?

E foi entĂŁo que tive uma ideia brilhante. Embora meu hobby fosse colecionar RelĂ­quias, eu tambĂ©m adorava usĂĄ-las—nĂŁo apenas deixĂĄ-las guardadas. Mas ultimamente, eu nĂŁo tinha conseguido usĂĄ-las, jĂĄ que Lucia estava ausente.

— Sabe de uma coisa? E se eu usar as Relíquias imediatamente depois que a Kris as carregar—

Kris, que estava prestes a infundir mana na adaga, congelou com uma expressĂŁo chocada. Enquanto isso, os olhos de Sitri brilharam.

— Ah, Ă© aquele treinamento de resistĂȘncia que a Lucia vivia reclamando. De fato, isso pode ser viĂĄvel para alguĂ©m tĂŁo formidĂĄvel quanto a Kris, diferente da Lucia — disse Sitri.

…Talvez eu deva um pedido de desculpas para a Lucia?

Kris, recuperando a compostura, gritou com a voz trĂȘmula:

— I-I-I-Inseto humano fraaaaco!

— Certo, certo, vamos encerrar por aqui. Uma coisa Ă© treinar, mas nĂłs, da equipe, Ă© que teremos que limpar o salĂŁo, sabia?! Tenho certeza de que vocĂȘ entende, Krai, certo? — interveio Eva, batendo palmas como se quisesse mudar de assunto.

Os Magos caĂ­dos se apoiaram nos ombros dos companheiros e cambalearam de volta para cima.

Parece que Sitri estava certa: nĂŁo havia feridos graves.

— Tudo bem. Eu cuido do resto aqui, entĂŁo, Krai, por que vocĂȘ nĂŁo vai para outro lugar com suas RelĂ­quias? Sim, o treino acabou! Se quiser mais, faça outro dia—e em outro lugar! Aqui nĂŁo Ă© um campo de treinamento, afinal—é um lugar para relaxar, tĂĄ? Desencana! Tem atĂ© alguns forasteiros no salĂŁo! O que vocĂȘ vai fazer se começarem a espalhar boatos estranhos sobre a gente por causa disso?

Ela tinha um bom ponto.

Com um tapa nas costas de Eva, fui empurrado para fora do salĂŁo junto com Sitri.

Espiando pela porta entreaberta, percebi que provavelmente nĂŁo haveria problema. Eva, que administrava o clĂŁ sozinha, parecia ter Lapis, Kris e os caçadores na palma da mĂŁo—assim como eu, Ă© claro.

— Como me saĂ­, Krai? Acho que vocĂȘ conseguiu carregar a maioria das suas RelĂ­quias. Espero ter sido Ăștil — disse Sitri, sorrindo sem um pingo de arrependimento.

Eu estava cansado demais para pensar, entĂŁo apenas dei um tapinha no ombro de Sitri enquanto ela se aconchegava mais perto de mim.


A família Rodin era uma linhagem antiga e prestigiada de caçadores de tesouros em Zebrudia, a terra sagrada dos caçadores. Suas origens remontavam a Solis Rodin, aquele que desafiou e derrotou o Deus Celestial que apareceu no cofre do tesouro de Nível 10, o Santuårio do Deus Celestial, então localizado próximo à capital da época, depois que o Deus Celestial reduziu milhares de quilÎmetros ao redor a cinzas.

Em reconhecimento a esse feito, que havia escapado das forças de Zebrudia por completo, o imperador da Ă©poca perguntou a Solis se ele gostaria de receber um tĂ­tulo de nobreza. Mas Solis recusou a oferta, alegando ser apenas um simples caçador. O imperador, louvando sua postura humilde como um modelo para os caçadores, concedeu a Rodin o tĂ­tulo de “HerĂłi”. Desde entĂŁo, apenas a famĂ­lia Rodin teve permissĂŁo para reivindicar o tĂ­tulo de “HerĂłi” dentro do impĂ©rio.

Ark Rodin era um descendente dessa famĂ­lia renomada e havia recebido educação desde a infĂąncia para se tornar um caçador de primeira classe. Solis Rodin tinha sido um caçador supremo, com um conjunto de habilidades abrangente. Sua linhagem, a famĂ­lia Rodin, se destacava em todas as ĂĄreas hĂĄ geraçÔes, e Ark nĂŁo era exceção. Conquistando cofres de tesouro de alto nĂ­vel que representariam um desafio para caçadores comuns com facilidade, Ark ganhou um apelido. Ainda jovem, ele jĂĄ era considerado um candidato ao posto de caçador mais forte do impĂ©rio e, antes que percebesse, Ark passou a ser chamado pelo mesmo tĂ­tulo concedido ao seu ancestral—”HerĂłi”.

O nome “Rodin” tinha um peso especial na capital. Desde que Ark se tornou caçador, seu nome atraiu atenção.

Essa não era a primeira vez que ele recebia um convite de um nobre. Embora a família Rodin seguisse o princípio de manter distùncia das autoridades, ao mesmo tempo, não era viåvel se desconectar completamente delas se alguém quisesse navegar pelo mundo dos caçadores sem dificuldades.

Ark e seu grupo, Ark Brave, conhecidos por suas conquistas na Prism Garden, chegaram a uma festa nos territĂłrios do MarquĂȘs Sandrine, muito distante da capital. ApĂłs um banquete agitado, frequentado por muitos nobres, Ark se viu convocado para um escritĂłrio, onde havia apenas mais um homem presente.

— EntĂŁo esta Ă© a renomada “Flor Celestial”? Impressionante…

Um homem de meia-idade, vestido com um imponente casaco vermelho-escuro, soltou um suspiro de admiração enquanto observava um peculiar buquĂȘ de pĂ©talas transparentes dispostas em um vaso.

O anfitriĂŁo da festa, que convidara Ark e seu grupo para este banquete, nĂŁo era outro senĂŁo Nahum Sandrine, chefe da famĂ­lia Sandrine. Ele era um nobre de alta patente com vastos territĂłrios na regiĂŁo oeste do ImpĂ©rio de Zebrudia e era conhecido como o lĂ­der influente de uma facção polĂ­tica, apesar de ser “apenas” um marquĂȘs. Devido a um contato anterior, quando Ark recebeu uma solicitação para investigar um cofre do tesouro em seu territĂłrio, Sandrine era uma casa pela qual Ark nutria certa simpatia.

Essas flores eram um produto do cofre do tesouro. Pareciam totalmente translĂșcidas, como obras de vidro, mas tinham a textura de flores comuns. Seus detalhes delicados eram tĂŁo belos que nenhum artesĂŁo poderia replicĂĄ-los.

— É uma criação feita de material de mana, nem sequer uma Relíquia. Provavelmente não durará muito tempo no mundo exterior — disse Ark.

Era uma flor que crescia abundantemente na parte mais profunda da Prism Garden. Apesar de sua aparĂȘncia mĂ­stica, a flor nĂŁo possuĂ­a poderes especiais e nĂŁo despertava interesse entre caçadores de alto nĂ­vel como Ark. Ele colheu algumas no caminho de volta desta vez como uma lembrança de ter alcançado as profundezas de um cofre do tesouro altamente desafiador, sem nenhum motivo especial. No entanto, uma coisa era certa—Prism Garden jamais poderia ser conquistado por caçadores comuns. A Flor Celestial, capaz de manter sua forma apenas por um breve momento antes que seu material de mana se dissipasse e ela se dissolvesse no ar, servia como um sĂ­mbolo para os nobres demonstrarem suas conexĂ”es com caçadores de tesouros excepcionais.

Ark recordava o tempo em que flores do Jardim Prisma eram trazidas pelos Grieving Souls e exibidas com luxo no lounge da casa do clĂŁ, e nĂŁo pĂŽde evitar sorrir para si mesmo.

O marquĂȘs, por outro lado, simplesmente tocou o queixo e estreitou os olhos ao ouvir as palavras de Ark.

— Evanescente, nĂŁo Ă©? Mas era justamente essa a fonte de sua beleza. Ah, um jardim onde flores assim florescem exuberantemente… Eu adoraria vĂȘ-lo com meus prĂłprios olhos antes de partir — murmurou o marquĂȘs.

Isso seria bastante difĂ­cil, pensou Ark sem dizer em voz alta.

O Jardim Prisma era um lugar inĂłspito para qualquer um que nĂŁo fosse caçador: sua densa nĂ©voa de pĂłlen corroĂ­a os corpos dos intrusos, enquanto fantasmas adaptados ao ambiente espreitavam entre as inĂșmeras flores em plena floração, ansiosos para colher as almas dos invasores com olhos aguçados. Percorrer o cofre seria praticamente impossĂ­vel para ele, mesmo com a escolta de algumas centenas de cavaleiros de uma ordem.

O cofre era simplesmente um mundo Ă  parte.

— E se — vamos apenas supor — Ark, vocĂȘ, a pessoa mais forte e celebrada da capital, me escoltasse —

— Sua ExcelĂȘncia, esse lugar nĂŁo Ă© adequado para alguĂ©m de sua posição nobre. Embora eu certamente possa derrotar os fantasmas, nĂŁo Ă© um ambiente que a carne viva possa suportar. NĂłs tambĂ©m enfrentamos nossas dificuldades lĂĄ desta vez.

Ao ouvir a resposta imediata de Ark, o MarquĂȘs Sandrine soltou um gemido frustrado, mas nĂŁo disse mais nada.

Ocasionalmente, nobres imprudentes em Zebrudia levavam seu exército particular para explorar cofres de tesouro, apenas para encontrar tragédia.

Explorar com um fardo a reboque era muito mais desafiador do que apenas lidar com o próprio cofre, e ainda mais quando o fardo era uma pessoa a ser escoltada. Para os caçadores, poderia ser uma grande oportunidade de estabelecer conexÔes com nobres, mas frequentemente o indivíduo escoltado acabava morto.

E assim, numa tentativa de mudar completamente o assunto, Sandrine balançou a cabeça vigorosamente. Ele colocou um sorriso profundo e algo afåvel no rosto, mas o brilho nos olhos era incrivelmente afiado.

— Agora, Ark, eu me pergunto: vocĂȘ pensou sobre nossa discussĂŁo anterior?

Ark permaneceu em silĂȘncio.

O MarquĂȘs Sandrine havia abordado Ark vĂĄrias vezes para recrutĂĄ-lo como seu caçador privado.

Os caçadores eram considerados os ativos mais poderosos que um nobre podia possuir em Zebrudia. NĂŁo importava quantos cofres de tesouro de alto nĂ­vel existissem em seus territĂłrios; seriam inĂșteis para os nobres sem caçadores capazes de recuperar os tesouros lĂĄ dentro. E assim os nobres estavam ansiosos para adquirir caçadores excepcionais, e Ark e seus companheiros estavam particularmente em destaque.

Ser um caçador reservado significava priorizar os pedidos do nobre em troca de certas recompensas. Embora reduzisse sua liberdade, nĂŁo era de forma alguma um mau negĂłcio para os caçadores. Tal arranjo simbolizava status e poderia vir com vĂĄrios benefĂ­cios materiais; poderia atĂ© permitir adquirir novos parceiros excepcionais por meio de conexĂ”es e obter acesso a cofres de tesouro restritos. Acima de tudo, essa nomeação servia como o mais prĂłximo que um caçador podia receber como prova definitiva de sua confiabilidade, uma qualidade altamente valorizada pela Associação dos Exploradores. Era como receber o selo oficial de aprovação da classe dominante de Zebrudia, uma potĂȘncia mundial. Apenas se tornar um caçador privado jĂĄ poderia elevar seu nĂ­vel.

Mas Ark balançou a cabeça com um sorriso gentil.

— É uma honra, mas minhas desculpas, senhor.

— Hmmmm, os Rodins não servem aos nobres, hein? O primeiro Rodin certamente deixou para trás um preceito familiar bastante incîmodo.

— Ainda temos coisas que devemos fazer. Por favor, nos perdoe gentilmente.

Solis havia sido uma figura digna do nome de herĂłi, mas parecia que ele havia enfrentado algumas disputas difĂ­ceis com pessoas no poder. E como resultado disso, Solis estabeleceu um preceito familiar que sem dĂșvida desempenhou um papel na prosperidade dos Rodins.

No entanto, essa nĂŁo era a Ășnica razĂŁo pela qual Ark nĂŁo servia aos nobres — ele ainda nĂŁo havia alcançado o que buscava como caçador.

Como o MarquĂȘs Sandrine mencionara anteriormente, uma parcela nada insignificante dos nobres afirmava que Ark era o mais forte da capital. Embora alguns pudessem ser tendenciosos, sua afirmação nĂŁo estava necessariamente errada. Mesmo os caçadores enfraqueciam com a idade e nenhum caçador permanecia no auge para sempre. Ark ainda estava na casa dos vinte anos e tinha grande potencial para o futuro.

No entanto, opiniÔes sobre quem seria o próximo mais forte da capital dividiam os caçadores em dois campos.

Com uma expressĂŁo descontente, Lord Sandrine disse:

— O Mil Truques, hein? — um nome que se espalhou rapidamente nos Ășltimos anos.

Novamente, Ark permaneceu em silĂȘncio.

— Ouvi esse nome muitas vezes — continuou o marquĂȘs. — Seu nome carrega tanto fama quanto infĂąmia. Certamente eu nĂŁo imaginava que chegaria o dia em que outro caçador ameaçaria a posição dos Rodins


Foi como um raio em céu azul.

Ele nunca teve rival. Claro que considerando apenas força havia alguns indivĂ­duos que superavam Ark. PorĂ©m eram todos pessoas que haviam trilhado o caminho da caça por muito mais tempo — pessoas que Ark estava destinado a superar num futuro prĂłximo. Ark costumava apenas olhar para aqueles acima dele e isso bastava. Quem poderia imaginar que alguĂ©m da mesma geração surgiria como rival para Ark Rodin?

As palavras do Lord Sandrine afirmando que a posição de Ark Rodin estava ameaçada eram equivocadas. A palavra “ameaçar” nĂŁo existia no dicionĂĄrio dos Rodins. Se surgisse alguĂ©m capaz de rivalizĂĄ-lo ele apenas confrontaria essa pessoa diretamente e com justiça. Na verdade isso era algo desejado por ele: preferia nĂŁo continuar sozinho nesse caminho.

Ali Ark recordou-se do rosto daquele jovem homem e falou com uma expressĂŁo amarga:

— Mas Sua ExcelĂȘncia… ele — o Mil Truques — na verdade nĂŁo estĂĄ motivado


— Mmwuh…?!

Os feitos do Mil Truques eram inegáveis. No entanto, ao mesmo tempo, o homem permanecia um enigma para Ark. Krai Andrey era um homem misterioso, perpetuamente tranquilo e com uma postura relaxada. Para piorar, suas atividades diárias sequer eram aparentes. Ultimamente, ele nem mesmo se aventurava nos cofres de tesouro com seu grupo, tornando impossível competir com ele—era completamente elusivo.

Notando a postura respeitosa de Ark, o marquĂȘs decidiu mudar de assunto e disse:


— Bem, de qualquer forma. Mas, Ark, lembre-se disso: nĂłs, a nobreza do impĂ©rio, estamos do seu lado. Devemos uma dĂ­vida de gratidĂŁo Ă  Casa Rodin, independentemente do que sua famĂ­lia pense sobre isso.

— Obrigado. É uma honra.

— Ah, a propĂłsito, um convidado da festa, Lord Gladis, mencionou que gostaria de falar com vocĂȘ. Seria Ăłtimo se pudesse visitĂĄ-lo antes de retornar Ă  capital. Ele mencionou algo sobre vocĂȘ ensinĂĄ-lo a manejar a espada? Meu Deus, vocĂȘs da famĂ­lia Rodin sĂŁo verdadeiramente valentes e admirĂĄveis.

Ark riu e acenou em resposta enquanto o MarquĂȘs Sandrine dava de ombros de forma brincalhona.

***

Diante da casa do clĂŁ Primeiros Passos estendia-se a rua principal, onde pessoas e carruagens passavam incessantemente. Uma caminhada de cerca de dez minutos por essa rua levava a um caminho estreito e, no final dele, estava uma casa isolada com telhado vermelho—a casa da aprendiz de Liz, Tino Shade. Era uma casa adorĂĄvel, completa com um pequeno jardim plantado com flores minĂșsculas; uma residĂȘncia que nĂŁo se associaria imediatamente a um caçador Ă  primeira vista. Era espaçosa para uma Ășnica ocupante; talvez ela estivesse considerando a possibilidade de ter um parceiro romĂąntico morando ali algum dia.

Visitando a casa da minha jĂșnior pela primeira vez em muito tempo, eu estava procurando por Liz. Sem um lugar fixo para chamar de lar, ela frequentemente ficava no campo de treinamento do clĂŁ, na casa de sua mestre—antiga Sombra Partida—ou na casa de sua discĂ­pula Tino, agindo como se fossem suas prĂłprias residĂȘncias. Ela era realmente um espĂ­rito livre.

ApĂłs minhas batidas na porta e um breve silĂȘncio, uma voz baixa respondeu. NĂŁo era o tom familiar que Tino usava ao falar comigo; era sua voz formal.

— Sou eu, sou eu. Vim procurar pela Liz.

A propósito, Sitri estava aqui comigo também.

— Oh?! Mestre?! U-Um momento por favor!

Sons apressados vinham do interior da casa, seguidos por um momento de silĂȘncio antes que a porta se abrisse lentamente.

Espiando pela fresta da porta, ela abriu um largo sorriso ao confirmar meu rosto. Após o tumulto que os eventos no lounge haviam causado em meu coração no outro dia, agora me sentia em paz.

— Mestre! Pensar que viria à minha casa! Por favor, entre. Desculpe-me, mas Lizzy está no chuveiro—!!!

Foi tudo o que Tino conseguiu dizer. Ao me ver, ela corou e ficou em silĂȘncio com os olhos arregalados.

NĂŁo era minha primeira vez visitando a casa dela e ela sempre me recebia calorosamente. Tenho que dizer: ela Ă© uma Ăłtima jĂșnior.

— Desculpe pela visita inesperada… Vou embora assim que encontrar Liz


— NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo. De forma alguma! Se estiver tudo bem para vocĂȘ, Mestre, sinta-se sempre bem-vindo para visitar mesmo sem motivo especĂ­fico


Ela Ă© tĂŁo doce que quase nĂŁo dĂĄ para acreditar que Ă© realmente aprendiz da Liz. Mas bem… Eu raramente saio da casa do clĂŁ entĂŁo dificilmente viria aqui “sĂł para passar o tempo”. Ainda assim sua consideração Ă© realmente tocante. Deveria levĂĄ-la para comer bolo na prĂłxima vez.

— Ah! Comprei chá delicioso e biscoitos em preparação para o Mestre vir a qualquer momento! Lizzy vai demorar no banho então por favor aproveite os petiscos!

VĂȘ-la tĂŁo animada me fez sentir meio culpado.

Quando estava prestes a entrar seguindo Tino com seu sorriso radiante, Sitri, que estivera silenciosa atrĂĄs de nĂłs todo esse tempo, falou com uma voz calma:
— Eu tambĂ©m estou aqui, sabia? T?

— HĂŁ…? Uh… S-Si… ddy?!

O sorriso dela desapareceu instantaneamente.

Tino chamava Liz de “Lizzy” devido ao vĂ­nculo fraternal entre elas e chamava sua irmĂŁ mais nova Sitri de “Siddy”. Embora apenas Liz fosse mentora de Tino, ela tambĂ©m chamava Lucia de “Lucy”. Para Tino—uma filha Ășnica—isso provavelmente refletia a irmandade escolhida que compartilhava com as garotas como se fossem realmente suas irmĂŁs mais velhas.

Sitri gentilmente empurrou minhas costas e entrou na casa comigo fechando a porta atrĂĄs de nĂłs.

— JĂĄ que nĂŁo pudemos nos cumprimentar adequadamente da Ășltima vez… hĂĄ quanto tempo nĂŁo nos vemos T?

— S-Sim… Faz tempo Siddy. Peço desculpas por nĂŁo ter conseguido cumprimentĂĄ-la direito.

Em pñnico total Tino continuava inclinando a cabeça em desculpas repetidas—a reação completamente oposta àquela quando falava comigo.

Embora geralmente fosse derrotada por Liz durante os treinos parecia achar lidar com Sitri ainda mais desafiador. Por outro lado Sitri parecia ter simpatia por Tino… Bem provavelmente havia vĂĄrias razĂ”es por trĂĄs disso tudo.

— Hmm estĂĄ tudo bem… NĂŁo se preocupe? Todos estĂĄvamos ocupados naquela hora inclusive Krai. Fico feliz em vĂȘ-la agora jĂĄ que nĂŁo tivemos chance recentemente


— Eek?! — gritou Tino, enrijecendo como um sapo sob o olhar atento de uma cobra enquanto os olhos rosados e translĂșcidos de Sitri a perfuravam com seu olhar penetrante.

Indiferente à reação exagerada de Tino, Sitri entrou casualmente no cÎmodo e olhou ao redor.

A casa de Tino estava impecavelmente organizada. O lugar mal tinha pertences além do mínimo necessårio de móveis, e claramente carecia de qualquer sensação de vitalidade. Não havia sinais de hobbies ou interesses pessoais, mas podia-se dizer que isso refletia bem a personalidade de Tino.

— T, vocĂȘ parecia tĂŁo animada em ver Krai finalmente aparecer, mas por que nĂŁo disse algo como “vocĂȘ Ă© sempre bem-vindo” para mim?

— C-Claro, foi minha falha! É sĂł que… fiquei um pouco surpresa… VocĂȘ tambĂ©m Ă© sempre bem-vinda… Siddy.

Os olhos de Sitri brilharam enquanto ela se aproximava da obviamente nervosa Tino, tão perto que alguém poderia confundi-las com duas pessoas prestes a se beijar. Lambeu os låbios e colocou a mão na bochecha de Tino.

— T, como vocĂȘ estĂĄ? Ficou mais forte novamente? Minha irmĂŁ tem sido dura com vocĂȘ?

— S-Sim. E-Eu estou bem.

— Se Lizzy for dura demais com vocĂȘ, me avise, certo?

— E-Eu estou bem. S-SĂ©rio, estou bem.

Ao som da voz incomumente persuasiva e animada de Sitri, Tino estremeceu com um arrepio repentino. Ela me olhou com uma expressĂŁo lacrimosa.

…Sim… uh-huh…

Como se conduzisse um exame minucioso, Sitri olhou profundamente nas pupilas escuras de Tino.

— Se as coisas ficarem difíceis, me avise a qualquer momento, certo? Pode contar comigo — e eu vou te deixar muito mais forte com muito menos esforço do que sendo aprendiz da minha irmã.

—!

— VocĂȘ nĂŁo precisarĂĄ passar por treinamentos difĂ­ceis achando que vai morrer. Tenho certeza de que serĂĄ fĂĄcil para vocĂȘ com seus talentos. Posso atĂ© recomendar sua entrada nos Grieving Souls imediatamente se isso parecer bom para vocĂȘ.

— Siddy…! V-VocĂȘ estĂĄ muito perto!

Os dedos de Sitri deslizaram da bochecha de Tino, traçaram o contorno do pescoço dela e tocaram sua clavĂ­cula. Seu braço esquerdo envolveu as costas de Tino, bloqueando efetivamente qualquer tentativa de fuga. Sitri, uma Alquimista, e Tino, uma Ladina, deveriam ter nĂ­veis diferentes de habilidades fĂ­sicas, mas o corpo esguio de Tino simplesmente tremia e nĂŁo mostrava sinais de resistĂȘncia.

O nariz de Sitri moveu-se ligeiramente enquanto ela farejava o aroma dela.

Seus dedos acariciaram o ombro avermelhado de Tino, traçando-o como se confirmasse sua forma. Continuaram pelo braço superior e desceram. A cada centímetro da pele que os dedos de Sitri tocavam, o corpo de Tino tremia levemente.

— MĂșsculos da mais alta qualidade moldados pelo combate e uma estrutura corporal esguia acompanhada por sentidos aguçados — este Ă© o corpo saudĂĄvel de uma Ladina caçadora especializada. Seu sangue, sua carne e seus ossos estĂŁo todos bem polidos e transbordando talento. Oh, Krai, por quĂȘ? Eu queria que vocĂȘ tivesse me dado ela em vez da Lizzy… Eu poderia tĂȘ-la tornado perfeita!

—?! Por favor, Mestre, me salve…!

Parece que Sitri nĂŁo terĂĄ uma aprendiz tĂŁo cedo.

Ela estĂĄ olhando para uma pessoa como quem olha para um rato de laboratĂłrio?

Sua mão brincava com o corpo de Tino enquanto se movia impiedosamente: amassava seus seios, acariciava sua barriga e tocava suas coxas expostas pelos shorts — parecia exatamente como uma cobra devorando lentamente um sapo. A cada toque, Tino tremia e soltava pedidos fracos por ajuda.

— EstĂĄ irradiando. Ah, tĂŁo adorĂĄvel — continuou Sitri. — Se ao menos vocĂȘ fosse um garoto! EntĂŁo seria tĂŁo simples quanto apenas acasalar com vocĂȘ. Mas como Ă© uma garota… vou precisar escolher um parceiro adequadamente para evitar erros


Ok, isso estĂĄ saindo do controle.

Finalmente intervi ali.

— Certo, jĂĄ chega. Lembre-se: Tino Ă© aprendiz da Liz afinal.

— Haaaaahh… Sim… ela Ă©.

Com um suspiro profundo, Sitri afastou-se e Tino, aparentemente no limite, recuou até encostar-se a uma parede.

Ela devia estar realmente aterrorizada; afinal, Tino — que não recuava nem diante dos fantasmas mais assustadores — parecia prestes a chorar.

— Desculpe; eu estava sĂł brincando. VocĂȘ parecia tĂŁo feliz que eu nĂŁo resisti em te provocar um pouco — disse Sitri como desculpa, embora suas açÔes atĂ© agora nĂŁo parecessem nada “sĂł brincadeira”.

Tino parecia pensar o mesmo enquanto cobria o peito com os braços e exibia um rosto pålido.

— Mas escute-me. Parece que a T gosta muito do Krai mas nĂŁo gosta tanto assim de mim; reagiu como se o namorado dela tivesse aparecido para passar tempo juntos do nada. Eu gosto muito da T tambĂ©m — Ă© razoĂĄvel eu sentir um pouco de ciĂșmes, nĂŁo acha?

NĂŁo acho.

Provavelmente Tino era apegada a mim porque eu era praticamente a Ășnica pessoa capaz de parar Liz.

Então Sitri direcionou sua atenção para mim e cutucou meu ombro como se estivesse emburrada.

— E alĂ©m disso, Krai nunca vai Ă  minha casa passar tempo… NĂŁo deveria tambĂ©m estar indo Ă  minha casa se passa tempo na da T?

— O tempo voa sempre que estou na sua casa. AlĂ©m disso, vocĂȘ estĂĄ sempre ocupada.

— Vou liberar minha agenda para vocĂȘ tanto quanto quiser.

Diferente de Liz e eu, que tratĂĄvamos a casa do clĂŁ como nosso lar prĂłprio, Sitri possuĂ­a uma propriedade na capital. Eu jĂĄ havia passado algum tempo na casa dela algumas vezes e ela sempre me recebia calorosamente.

Era uma casa fantåstica mas também tinha o lado negativo de ser confortåvel demais. Sitri me conhecia bem demais e sabia exatamente como me agradar nos pontos certos. Na primeira vez que fui à casa dela até fiquei sem palavras ao perceber que duas semanas haviam passado sem eu notar. Posso ser um completo desastre às vezes.

Com Tino ainda mostrando sinais de medo segui-a até seu quarto. Não havia nada na sala de estar também; as mesas e cadeiras estavam polidas à perfeição; eu não conseguia imaginar o que Liz e Tino poderiam ter feito ali afinal.

— EntĂŁo, T — disse Sitri —, vocĂȘ arrumou tudo Ă s pressas pensando: ‘Ah nĂŁo! O Krai veio Ă  minha casa.’ NĂŁo foi? Este lugar estĂĄ limpo demais.

— Huh?! N-NĂŁo, n-n-nĂŁo Ă© isso de jeito nenhum?!

Entendi… EntĂŁo ela deve ter arrumado tudo Ă s pressas agora hĂĄ pouco, quando ouvi aqueles sons apressados vindo de dentro.

Eu realmente não me importava se o quarto dela estivesse bagunçado, mas decidi não insistir no assunto.

Tino parecia um pouco envergonhada, mas se sentou e preparou chå para nós de forma atrapalhada, sem dizer uma palavra. Junto com o chå, ela também trouxe alguns biscoitos de uma confeitaria famosa, da mesma onde eu jå havia comprado lembrancinhas antes.

— EntĂŁo, o que te trouxe atĂ© a Lizzy? — perguntou Tino.

— Ah, nĂŁo Ă© nada importante. Bem, como Liz e Sitri voltaram sĂŁs e salvas da expedição ao cofre de tesouro, pensei que poderĂ­amos ir todos juntos Ă  taverna.

Caçadores que arriscavam suas vidas explorando cofres de tesouro frequentemente comemoravam seu retorno seguro com um grande banquete. Era a forma deles de celebrar o sucesso, elogiar os feitos uns dos outros e fortalecer seus laços; também servia como fonte de motivação para a próxima aventura.

No caso do nosso grupo, como eu, sendo o líder, não os acompanhava nas missÔes, era costume que sempre que o grupo retornasse realizåssemos um banquete festivo para ouvir as histórias das aventuras deles. E cada relato sobre a dureza e crueldade das aventuras me fazia apreciar ainda mais a tranquilidade do meu papel como mestre do clã e, ao mesmo tempo, me fazia sentir um pouco mais culpado.

— Entendi… Isso parece maravilhoso. Eu adoraria fazer isso tambĂ©m algum dia.

— Eu te recomendaria para o grupo num piscar de olhos se dependesse de mim — respondi.

— N-NĂŁo, isso nĂŁo Ă© necessĂĄrio. Sou aprendiz da Lizzy e esperarei atĂ© que tanto ela quanto vocĂȘ, Mestre, aprovem.

Tino corou e sorriu timidamente. Em seus olhos, vi um brilho de anseio.

Certo… Ir Ă  taverna sĂł nĂłs trĂȘs pode ser um pouco solitĂĄrio; talvez eu devesse levar Tino tambĂ©m.

Enquanto continuĂĄvamos conversando agradavelmente enquanto apreciĂĄvamos os deliciosos biscoitos, os olhos de Tino se arregalaram ao ouvir sobre os eventos no lounge.

— EspĂ­ritos Nobres, vocĂȘ disse? Eu me sinto… desconfortĂĄvel perto dessas pessoas. Talvez sejam as diferenças raciais, mas de qualquer forma, os olhares deles para com o prĂłprio mestre do clĂŁ estĂŁo longe de serem apropriados!

— Calma, T. As pessoas vĂȘm em todos os tipos — disse Sitri calmamente Ă  Tino, que estava incomumente ressentida.

— E alĂ©m disso, EspĂ­ritos Nobres sĂŁo uma raça sobre a qual quase nĂŁo hĂĄ pesquisas; tĂȘ-los por perto Ă© algo bastante afortunado, sabia? Agora que eles desceram Ă  nossa sociedade humana, desde que tomemos cuidado para nĂŁo irritĂĄ-los, tudo ficarĂĄ bem. AlĂ©m disso, aqueles corpos com aptidĂŁo mĂĄgica excepcional deles sĂŁo partes biolĂłgicas… particularmente Ășteis, eu diria.

—?! Mestre…!

— É só uma piada ao estilo Sitri.

— Apenas deixe-os dizer o que quiserem. Afinal, esses Espíritos Nobres que dependem das qualidades físicas inatas deles não são páreo para Krai. Com seu pensamento simples e direto, eles são mais fáceis de lidar do que humanos com princípios e ideologias tão variados.

— É… uh-huh


Eu realmente não me importava muito com isso, mas gostaria que ela parasse de me envolver em todas as suas declaraçÔes.

De repente, uma voz abafada veio do fundo da sala. Era uma voz familiar.

— T! T?! Estou sem toalha aqui?!

— Entendido!!! Vou levar uma agora mesmo.

— NĂŁo te disse da Ășltima vez para garantir que tivesse uma pronta antes? Puxa


Tino começou a se levantar da cadeira, mas antes que pudesse fazĂȘ-lo ouviu-se o som de uma porta se abrindo com um estrondo.

Do banheiro emergiu um corpo de pele bem bronzeada. Entrando na sala com confiança como se dissesse que não tinha nada a esconder, ela arregalou os olhos ao nos avistar — Sitri e eu.

A Ășnica coisa adornando seu corpo era um anel de platina em torno dos tornozelos — suas Apex Roots. Seus longos cabelos Ășmidos grudavam na clavĂ­cula enquanto gotas escorriam por sua pele impecĂĄvel atĂ© seus tornozelos brilhando como um reflexo radiante.

Ao meu lado Tino soltou um grito agudo:

— Lizz—?! O Mestre está—

— Yo! E aĂ­? NĂŁo Ă© o Krai Baby aqui? Heh heh, te peguei me procurando enquanto estou no banho! Que safadinho vocĂȘ Ă©!

— Liz! Vá se vestir direito antes de entrar! Quantas vezes preciso te dizer isso?! — disse Sitri.

Liz entrou na sala com um sorriso inocente no rosto. Sem perder tempo Sitri moveu-se atrĂĄs de mim e cobriu meus olhos.

Na escuridĂŁo senti uma pele quente e Ășmida entrar em contato com minha mĂŁo.

— Siddy?! Por que vocĂȘ estĂĄ cobrindo os olhos dele?

— Tenha um pouco de consideração! Não está vendo que o Krai está desconfortável?

— Ah, qual Ă©, nĂŁo tenho nada para esconder do Krai Baby — vocĂȘ nĂŁo estĂĄ desconfortĂĄvel, certo?

— Estou.


Zebrudia ostentava uma grande variedade de lojas voltadas para caçadores de tesouros: havia instalaçÔes de treinamento, lojas de armas e armaduras, lojas especializadas em Relíquias e até mesmo corretores de informação que lidavam exclusivamente com notícias sobre fantasmas e monstros. Também era possível encontrar lojas que ofereciam serviços de caçadores de aluguel, permitindo que aventureiros contratassem membros temporårios para seus grupos.

Entre essas opçÔes, as tavernas eram um dos tipos de estabelecimento mais comuns em Zebrudia. Os caçadores de tesouros adoravam ĂĄlcool, e a maioria dos grupos comemorava suas conquistas e sua sobrevivĂȘncia em suas tavernas favoritas, festejando apĂłs saĂ­rem vitoriosos de cofres repletos de perigos. Eles brindavam Ă s conquistas uns dos outros, celebravam a sorte de terem sobrevivido a mais um dia sem incidentes e comiam e bebiam quase como se estivessem lavando suas emoçÔes — seja a euforia, a empolgação ou o medo.

Os caçadores consumiam comida e bebida em quantidades muito superiores Ă s de uma pessoa comum, e como eram conhecidos por serem um tanto rudes, havia diversas tavernas na capital voltadas exclusivamente para esse pĂșblico. Esses lugares priorizavam quantidade em vez de qualidade, servindo bebidas em volumes absurdos. O simples fato de ser possĂ­vel pedir ĂĄlcool por barril jĂĄ dava uma ideia da imensidĂŁo das porçÔes disponĂ­veis.

Junto com Sitri e a elegantemente vestida Liz, cheguei Ă  nossa taverna de sempre, o PavilhĂŁo do Galo Dourado.

O Pavilhão Dourado era uma marca de tavernas voltadas para caçadores, com vårias filiais espalhadas pela capital, e cada uma delas era famosa por pratos exclusivos. Liz sempre priorizava quantidade em vez de sabor, e Sitri geralmente aceitava qualquer sugestão minha, então a responsabilidade de escolher a taverna sempre recaía sobre mim.

Tino me olhou com uma expressĂŁo meio apreensiva e perguntou:

— Mestre, tem certeza de que posso ir tambĂ©m?

— Claro! — respondi. — Quatro Ă© mais animado que trĂȘs, afinal.

E entĂŁo, fui pego de surpresa pelo choque visĂ­vel no rosto de Tino quando Liz disse:

— VocĂȘ vai ficar para trĂĄs.

Ao abrirmos as grandes portas duplas, feitas sob medida para caçadores musculosos, fomos imediatamente engolfados pelo cheiro forte de ålcool. A taverna estava lotada de caçadores que haviam encerrado suas exploraçÔes nos cofres de tesouros mais cedo e estavam agora celebrando o fim do dia.

Uma caçadora robusta deu um chute em um homem completamente bĂȘbado que estava desmaiado no chĂŁo, arrastando-o atĂ© um canto. Mesmo ao ser jogado contra a parede, ele começou a roncar ruidosamente, alheio a tudo. As armas encostadas contra cada mesa deixavam claro que aquele lugar pertencia a caçadores. Os gritos de raiva, as risadas bĂȘbadas e as discussĂ”es acaloradas, que costumavam me aterrorizar quando comecei minha jornada como caçador, agora nĂŁo passavam de um ruĂ­do de fundo familiar.

Aquilo era um banquete de herĂłis.

A cena que eu havia imaginado nos tempos em que admirava os caçadores agora se desenrolava diante dos meus olhos: um lugar onde apenas os fortes e dedicados eram celebrados, e os fracos eram descartados — um lugar que eu jamais conseguiria entrar sem Liz, Sitri ou os outros.

— Sim! Consegui o lugar bem ao lado do Krai Baby! Siddy, vocĂȘ pode sentar do meu outro lado. NĂŁo precisa ficar perto dele.

O garçom nos guiou atĂ© uma mesa redonda nos fundos da taverna, e Liz imediatamente pegou o assento ao meu lado direito, toda animada. As mesas da taverna eram feitas para acomodar grupos grandes, mas, como sempre, Liz estava sentada perto demais. Normalmente, isso nĂŁo me incomodaria, jĂĄ que Anthem, Luke e os outros costumavam estar por perto, mas hoje, comigo sozinho e trĂȘs garotas (visualmente) fofas ao meu lado, era impossĂ­vel nĂŁo atrair olhares.

— Tanto faz, nĂŁo me importo, mas… VocĂȘ nĂŁo deveria sentar ao lado da T? — disse Sitri. — Ela Ă© sua aprendiz, afinal, e alĂ©m disso, eu tenho algo para conversar com o Krai.

Com um sorriso largo e completamente imune à presença intimidadora de Liz, sua irmã mais nova segurou o braço de Tino. A garota se encolheu, tremendo, talvez ainda traumatizada pelo que acontecera na frente de sua casa mais cedo.

A mentora olhou para sua aprendiz ansiosa e decidiu nĂŁo mencionar o assunto.

— Ah… Ah… Tudo bem — disse Liz. — T vai estar servindo, entĂŁo nem precisa de um assento. Traga os pratos e bebidas que eu pedir! Para começar, vĂĄ buscar cerveja dourada — dez canecas grandes, e rĂĄpido, por favor.

Pobre Tino! Até eu teria dito algo nessa situação. Pega leve com nossa mascote, vai. Estar sentada ao lado da Sitri jå vai deixar ela no limite.

— Tino, o lugar à minha esquerda está livre, por que não se senta aqui comigo?

— Hã?! P-Posso?!

Por um momento, Tino ficou boquiaberta antes de abrir um sorriso radiante.

E entĂŁo, me dei conta.

SerĂĄ que… SerĂĄ que isso Ă© o que chamam de “uma flor em cada braço”? Sempre achei que aquele Ark, que anda cercado de beldades e estĂĄ sempre no modo harĂ©m, era ridĂ­culo, mas… uau… Isso… Isso Ă© incrĂ­vel.

Mas, surpreendentemente, nĂŁo Ă© nada superior.

Acho que devo me desculpar com ele na prĂłxima vez que nos encontrarmos.

Ao meu redor, as flores venenosas e cheias de espinhos — Liz e Sitri — lançavam olhares ameaçadores para a pobre florzinha inocente — Tino.

— Tsk… Se o Krai Baby diz… Mas T, eu te mato se me fizer passar vergonha.

— T, o Krai Ă s vezes nĂŁo consegue manter as mĂŁos longe. EntĂŁo, sabe, ele pode tentar fazer com vocĂȘ algo parecido com o que eu fiz. E, T, vocĂȘ nĂŁo conseguiria recusar se ele tentasse, nĂŁo Ă©? É melhor deixar um ou dois lugares vazios entre vocĂȘs, sĂł por precaução.

Enquanto Liz resmungava, Sitri tentava espalhar um rumor desagradĂĄvel sobre mim, tudo com um sorriso no rosto.

SerĂĄ que a Sitri realmente me vĂȘ assim?

Tino se aproximou cautelosamente e se sentou ao meu lado esquerdo, com as costas perfeitamente retas e uma postura impecável. Talvez por causa das palavras de Sitri, seu pescoço ficou vermelho — e ela estava adorável daquele jeito. Não pude evitar sentir um enorme alívio e conforto ao estar entre os membros do meu clã.

(Claro, Liz e Sitri tambĂ©m tĂȘm suas qualidades…)

Então, as bebidas foram servidas. Liz, Sitri e Tino receberam cada uma uma caneca extra grande da famosa cerveja dourada da taverna, enquanto na minha caneca havia um líquido ùmbar, um chå especial com uma tonalidade semelhante ao uísque. O licor dos Caçadores tinha um teor alcoólico elevado; se eu tivesse escolhido o que elas estavam bebendo, meu fígado não sobreviveria à noite.

Assim que levantamos nossos copos, Sitri e Liz brindaram com grandes sorrisos, enquanto Tino, apreensiva, seguiu o exemplo.

— Bem, pode ser um pouco cedo, mas um brinde ao retorno seguro de Liz e Sitri do PalĂĄcio Noturno! SaĂșde!

Com isso, nossos copos se chocaram e fizeram um tilintar harmonioso.

O banquete havia começado.


— HĂŁ? Apareceu um Espadachim mais forte que o Luke? Por quĂȘ… Isso nĂŁo Ă© justo! — disse Liz, batendo sua caneca vazia na mesa, seus olhos brilhando com um perigo latente.

Em resposta ao comportamento da irmã, Sitri riu suavemente e traçou o centro do braço esquerdo com o dedo.

— A culpa Ă© sua por ter voltado tĂŁo cedo… Luke ficou radiante. Ele investiu sozinho no momento em que viu que o oponente empunhava uma espada, e acabou sendo espancado com um Ășnico golpe. Ele deveria saber melhor quando o adversĂĄrio nĂŁo era humano… Que cara imprudente.

Como sempre, tinham histĂłrias impressionantes para contar.

Caçadores de alto nível eram aberraçÔes, mas os fantasmas que residiam nos cofres do tesouro que eles tentavam conquistar geralmente eram ainda mais resistentes do que eles. Mesmo que Luke fosse um homem que dedicou sua vida ao caminho da espada e fosse considerado um dos melhores Espadachins da capital, ele ainda não era påreo para os monstros extravagantes que habitavam os cofres de alto nível.

Isso era especialmente verdadeiro para os Grieving Souls, que sempre ultrapassavam seus limites ao desafiar cofres do tesouro que mal estavam dentro de sua liga. O cofre que haviam conquistado dessa vez, o Palåcio Noturno, era um cofre de Nível 8. Como a média de nível dos nossos membros era um pouco abaixo de sete, eles ainda não haviam atingido o nível recomendado para enfrentå-lo. E pelo que acabei de ouvir, essa foi apenas mais uma aventura exaustiva como sempre.

Mas, ao vĂȘ-los voltando com sorrisos como esses, provavelmente era melhor eu nĂŁo dizer nada sobre isso. No começo, eu ficava apreensivo com as açÔes imprudentes dos meus amigos prĂłximos, mas agora eu confiava neles. Embora Luke e os outros geralmente agissem sem consideração pelos demais, minhas palavras ainda tinham peso sobre eles—afinal, eu era o lĂ­der do grupo. Portanto, eu precisava escolher bem o que dizer.

Sobre a mesa, grandes pratos cheios de comida, que Tino havia pedido, ocupavam todo o espaço disponível. Empilhados sobre os pratos havia uma montanha de karaage, batatas fritas, carne grelhada com osso, fish and chips e até mesmo macarrão com molho de carne. Essa quantidade daria para eu comer por uma semana inteira; só de olhar, jå me sentia cheio.

E… batatas fritas e chips sĂŁo a mesma coisa! TambĂ©m nĂŁo hĂĄ salada—nĂŁo estamos comendo vegetais o suficiente…

Sitri, depois de esvaziar sua caneca de um gole sĂł, soltou um suspiro um tanto erĂłtico, mas seu olhar nĂŁo mostrava nenhum sinal de embriaguez.

 Apesar do nome “cerveja”, a cerveja dourada tinha um teor alcoĂłlico superior a trinta por cento, sendo forte o suficiente para embebedar atĂ© mesmo Caçadores.

Eu me pergunto o que estĂĄ acontecendo dentro do corpo dela.

Até mesmo Tino, que estava timidamente bebendo de sua caneca, de alguma forma jå tinha consumido uma quantidade semelhante de ålcool.

Liz, por outro lado, segurava ferozmente um grande pedaço de carne assada com osso de origem desconhecida, levantando-o e mordendo com entusiasmo.

Sitri, de maneira um pouco mais elegante, cortava seu bife com faca e garfo, realizando movimentos que seriam dignos de uma nobre, se não fosse pelo tamanho do bife, que mais parecia um enorme pedaço de carne bruta.

As trĂȘs eram vorazes, com apetites que ultrapassavam o nĂ­vel saudĂĄvel.

Eu me pergunto para onde toda essa comida desaparece.

Notando meu olhar em sua barriga bronzeada, que nunca parecia inchar, não importava o quanto ela comesse, Liz se inclinou e envolveu suavemente meu braço com o dela.

Sorrindo radiante como uma flor em plena floração, ela disse:

— Hmm? O que foi, Krai Baby? Por que parece que não está comendo?

NĂŁo era que eu nĂŁo estivesse comendo; era sĂł que Liz e as outras estavam comendo demais. Sempre achei que as porçÔes aqui eram grandes demais: um Ășnico pedaço de karaage e eu jĂĄ ficava satisfeito—eu comia devagar.

Olhando para mim, o comedor leve, Sitri esboçou um sorriso irÎnico.

— VocĂȘ nĂŁo terĂĄ força suficiente se nĂŁo comer direito. Mesmo a magia de cura do meu irmĂŁo mais velho nĂŁo serĂĄ tĂŁo eficaz se ele nĂŁo se alimentar bem.

— É, tambĂ©m fico com muita fome quando tenho que regenerar um braço ou uma perna com isso… Krai Baby, vocĂȘ vai passar aperto em emergĂȘncias se nĂŁo se alimentar bem. Deixa eu te dar comida. Aqui, abra a boca. Aaah—

Espero muito que uma emergĂȘncia dessas nunca aconteça…

Liz lambeu os lĂĄbios e segurou algumas batatas fritas bem na frente dos meus olhos. Embora ser tratado assim em pĂșblico fosse embaraçoso atĂ© para mim, Liz, que possuĂ­a um coração de aço, nĂŁo aceitava desculpas desse tipo. Talvez ainda houvesse alguma bondade nela, jĂĄ que pelo menos me ofereceu algo fĂĄcil de comer nessa posição.

— Liz, vocĂȘ estĂĄ indo rĂĄpido demais. Por mais que sejamos Caçadores, temos nossos limites. VocĂȘ vai acabar ficando bĂȘbada nesse ritmo, sabia? E se desmaiar de novo, como da outra vez?

— Estou perfeitamente bem. E isso nĂŁo Ă© nada; pode muito bem ser sĂł ĂĄgua! Vamos, Krai Baby, diz ‘aaah’ para mim? — respondeu Liz com as bochechas levemente coradas e uma voz melosa, ignorando o conselho de Sitri.

Meu braço estava pressionado firmemente contra o peito dela. Com tanta insistĂȘncia, eu nĂŁo podia recusar. Relutantemente, eu estava prestes a abrir a boca quando percebi que Tino, sentada ao meu lado, arregalou os olhos. No entanto, seu olhar nĂŁo estava voltado para mim, nem para Liz, que segurava algumas batatas fritas em uma mĂŁo.

— Vamos, vamos, Krai Baby. Diz ‘aaah.’

— Aahum.

Aceitei as batatas fritas oferecidas e, entĂŁo, segui o olhar de Tino: seus olhos estavam fixos em Sitri. Com um sorriso no rosto, Sitri mexia sua caneca de cerveja dourada com um mexedor.

…Hmm? Mas isso nĂŁo Ă© um coquetel—é cerveja dourada.

Mastigando distraidamente as batatas fritas salgadas, Liz, aparentemente satisfeita, finalmente soltou meu braço.

A essa altura, Sitri jĂĄ havia removido o mexedor.

Repreendendo Liz, que havia retornado à sua posição original, Sitri disse:
— Poxa! Liz, vocĂȘ estĂĄ incomodando o Krai de novo…

— NĂŁo Ă© incĂŽmodo nenhum, certo, Krai Baby? — perguntou Liz com um sorriso.

Eu não poderia balançar a cabeça em discordùncia.

— Krai, vocĂȘ Ă© muito indulgente com a Liz… Se ela ficar bĂȘbada atĂ© cair, eu paro ela, tĂĄ?

— Eu nĂŁo vou ficar bĂȘbada atĂ© cair. Siddy, o que vocĂȘ tem visto em mim esse tempo todo? JĂĄ superei faz tempo algo tĂŁo banal quanto ĂĄlcool—

Como se quisesse provar seu ponto, Liz virou a caneca de cerveja que estava Ă  sua frente.

Tino soltou um pequeno grito.

O líquido dourado na caneca, que estava cheia até a borda, desapareceu num piscar de olhos.

Batendo a caneca vazia na mesa, Liz disse:
— A propĂłsito, Siddy, vocĂȘ Ă© da Akasha—?!

Mas antes que Liz pudesse continuar, seus olhos perderam o foco, e seu corpo balançou violentamente. Os pratos empilhados fizeram barulho quando ela quase perdeu o equilĂ­brio, conseguindo se segurar na beirada da mesa no Ășltimo momento. Sua respiração estava pesada, e seu olhar vagava sem rumo, como se estivesse tonta.

— Viu, Liz? Eu te avisei… — disse Sitri com um suspiro, rindo enquanto arqueava levemente os olhos.

Liz sacudiu a cabeça vigorosamente e ergueu os olhos desfocados para Sitri, lançando-lhe um olhar acusador.

— Si…ddy… VocĂȘ batizou minha bebida?!

— Ei! NĂŁo joga essa culpa em mim! AlĂ©m disso, Liz, achei que vocĂȘ jĂĄ tinha ‘superado faz tempo algo tĂŁo banal quanto drogas’. NĂŁo Ă© mesmo, T?

— E-eu… eu nĂŁo vi nada. Eu nĂŁo vi nada mesmo.

Tino, com lågrimas nos olhos, apertou sua própria caneca e balançou a cabeça freneticamente.

Em nossa breve estadia na taverna, Liz jĂĄ havia esvaziado sete canecas. Talvez por estar hĂĄ um tempo sem visitar um lugar assim, parecia que ela estava bebendo num ritmo bem acelerado. Apesar de tudo, Liz ainda era humana; entĂŁo, com essa quantidade de ĂĄlcool, ela certamente ficaria pelo menos um pouco bĂȘbada.

Apesar da fama sombria do apelido de Sitri, ela nĂŁo era alguĂ©m tĂŁo cruel a ponto de batizar a bebida da prĂłpria irmã—ainda mais porque nĂŁo teria motivo para isso.

Enquanto isso, eu tentava acalmar Liz, que parecia prestes a avançar.

— Calma aĂ­, Liz. Sitri nĂŁo fez nada. VocĂȘ sĂł deve ter bebido um pouco demais.

— HĂŁ?! TĂĄ falando sĂ©rio, Krai Baby? VocĂȘ nĂŁo vai ficar do meu ladooo?!

Liz parecia genuinamente chocada, algo raro de se ver.

Mesmo que ela diga isso… vocĂȘ ia começar uma briga desse jeito, nĂŁo ia? Por mais que eu tentasse, nĂŁo dava pra nĂŁo sentir pena da Sitri.

— Estou falando sĂ©rio. SerĂ­ssimo. E nĂŁo Ă© questĂŁo de tomar partido. EntĂŁo, quer um chĂĄ? Talvez eu tenha dado um gole sem querer.

— Claroo.

Parecendo desanimada, Liz pegou a caneca de chĂĄ que lhe foi oferecida com as duas mĂŁos e virou tudo de uma vez.

Beber era uma coisa, mas ela tambĂ©m deveria considerar o ritmo. Se a Liz, que era de alto nĂ­vel, entrasse numa bebedeira frenĂ©tica e começasse a causar, provavelmente quase ninguĂ©m conseguiria detĂȘ-la. Se as coisas saĂ­ssem do controle, ela poderia atĂ© ser banida do lugar. E nĂŁo seria a primeira vez, o que seria uma baita dor de cabeça.

Sitri colocou duas canecas de cerveja dourada na frente de Liz, que finalmente havia se acalmado. O lĂ­quido translĂșcido e dourado cintilava dentro das canecas. Aparentemente, mais bebida havia sido servida.

Pratos e copos continuavam a ser trazidos para a mesa assim que terminĂĄvamos a Ășltima rodada; provavelmente porque Liz havia, sem cerimĂŽnia, pedido comida para dez pessoas. Ela mesma se colocou nessa situação.

— TĂĄ vendo, Liz? Os pedidos que vocĂȘ fez mais cedo chegaram agora. Que tal um concurso de bebida? Faz tempo que nĂŁo fazemos um. Podemos atĂ© apostar toda a conta da noite—

— Yeaaaaaaah?! VocĂȘ vai batizar de novo, néééé?! NĂŁo fica toda metidaaa! SĂł porque o Krai Baby te perdoa nĂŁo quer dizer que eu vou, okaaay?! — disse Liz com a voz arrastada de uma bĂȘbada brigona.

Liz nĂŁo sĂł ainda insistia que Sitri havia batizado sua bebida, como Sitri tambĂ©m estava tentando fazer a jĂĄ bĂȘbada Liz participar de um duelo de bebedeira. E ainda por cima, tinha colocado a conta da noite na aposta sem nem perguntar.

Eu disse que ia cobrir a conta, entĂŁo me deixa pelo menos fazer isso…

Pensei em conferir o dinheiro na minha carteira sem que percebessem, mas entĂŁo percebi que a tinha deixado no quarto ao enfiar a mĂŁo no bolso.

Liz agarrou a gola de Sitri e a levantou do chĂŁo, mesmo estando cambaleante. Seu olhar agora estava completamente fixo nela.

Ainda assim, Sitri nĂŁo parava de sorrir.

— NĂŁo se esqueça — disse Liz. — Eu te dei uma mĂŁĂŁĂŁo pra fazer aquele golem, apesar de tuuudo! VocĂȘ, pirralha, claramente tĂĄ fazendo contramedidas contra cada um de nóóós!

— Krai, me ajuda, por favor. Minha irmĂŁ mais velha estĂĄ fazendo acusaçÔes infundadas contra mim…

— Pode anotar! Aquela desgraça inĂștil nĂŁo vale nadica sem a resistĂȘncia deleee! Ele sĂł Ă© durĂĄĂĄĂĄvel, mais nada! Se o Luke tivesse aqui, ele jĂĄ teria cortado aquele trambolho bem no meiĂŁo!

— Isso Ă© sĂł porque ainda nĂŁo fizemos nenhum treinamento de combate! Com mais uns ajustes, atĂ© alguĂ©m como vocĂȘ—

— Ouviu issooo?! Krai Baby, vocĂȘ ouviu?! É tudo culpa da Siddy! Bota a Akasha na lista das vĂ­timas dela tambĂ©moo!

Isso Ă© novidade—ela jĂĄ tĂĄ assim depois de sĂł sete canecas.

Liz largou Sitri e se jogou em mim enquanto soltava mais besteiras. Segurei seu corpo e afaguei sua cabeça.

— Pronto, pronto. VocĂȘ tĂĄ sendo paranoica demais. Foi graças Ă  Sitri que conseguimos resolver o caso dessa vez, todo mundo sabe disso.

— Krai Baby?! VocĂȘ sabe de tudo, sabe simmm! Por queee tĂĄ do lado da Siddy?

Bom, eu nĂŁo estou, na verdade.

NĂŁo era questĂŁo de ficar do lado da Sitri sĂł porque era a Sitri, mas sim porque o que Liz dizia parecia mais que ela sĂł queria arranjar confusĂŁo, enquanto Sitri tinha um ponto. Bom, no fundo Liz provavelmente nem acreditava de verdade que Sitri era culpada disso.

Sitri olhou para mim com uma expressão meio enfeitiçada.

Eu admitia que adorava a Liz, mas não planejava fazer julgamentos tendenciosos por causa disso—imparcialidade era uma das poucas virtudes que eu possuía, afinal.

Sitri empurrou uma das canecas na direção de Liz.

— Liz… vamos lĂĄ. Vamos fazer um concurso de bebida, tĂĄ bom? NĂŁo se preocupa, mesmo que vocĂȘ fique detonada, eu cuido de vocĂȘ e te coloco na cama. VocĂȘ pode fugir com o rabo entre as pernas se nĂŁo aguentar… Ou, se jĂĄ estiver se sentindo tĂŁo mal assim, talvez seja melhor se deitar? Ei, T, vocĂȘ cuida da Liz, nĂŁo cuida?

— Eu nĂŁo vi nada, nĂŁo ouvi nada…

Tino estava completamente inĂștil no meio da chamada briga entre irmĂŁs. Parecia que hoje era um dia de azar para ela.

Liz obviamente ficou provocada, seus olhos brilhando, e ela se balançou ao se levantar. Tentando se despertar, ela bateu forte nas próprias bochechas com as duas mãos.

Segurando firme a caneca Ă  sua frente, ela rugiu:

— Yeaaah?! Co…como quiser, Siiiddy! Quem vocĂȘ pensa que Ă©? Sua merdinha de irmĂŁzinha. NĂŁo ache que pode me vencer sĂł porque colocou veneno na minha bebida!

— Claro que vocĂȘ diria isso, Liz. Mas eu nĂŁo envenenei nada… Seu espĂ­rito Ă© impressionante, apesar de estar quase desperdiçada. Por favor, pega leve comigo…

Soltando uma risada curta, Sitri pegou a caneca gigantesca à sua frente, assim como Liz fez. Apesar de ser apenas uma competição de bebida, a atmosfera era semelhante a um duelo.

Tino olhou para Liz, um tanto preocupada.

Mas por que Liz ainda insiste que Sitri colocou veneno na bebida…

Foi então que tive uma ideia brilhante. Não querendo me gabar, mas eu era bastante confiante quando se tratava de mediar discussÔes.

Estalando os dedos, me dirigi às duas participantes prestes a começar a competição de bebida e disse:

— Antes de começarem a competição, por que nĂŁo trocam as canecas? Sabe, Sitri com certeza estĂĄ se sentindo desconfortĂĄvel com toda essa suspeita, e, Liz, isso Ă© aceitĂĄvel, certo?

— O quĂȘ?

Dessa forma, ninguém sairia infeliz. Certamente os sentimentos de Sitri não seriam feridos por algo tão trivial também. Eu estava confiante na minha solução, mas, por alguma razão, o sorriso de Sitri congelou ali mesmo.

Liz pegou a caneca das mĂŁos paralisadas de Sitri e empurrou a que estava segurando para ela. Virou tudo de uma vez e limpou os cantos da boca. Um sorriso triunfante surgiu em seu rosto.

— Hmph. O carma Ă© uma desgraça! VocĂȘ realmente achou que Krai Baby ficaria do seu lado? Nos seus sonhos! VocĂȘ deveria ter desistido antes; isso Ă© o que vocĂȘ ganha por tentar algo engraçadinho! Se for uma nova droga que pode penetrar minha resistĂȘncia, vocĂȘ nĂŁo vai sair impune, Siddy! Eu bebi a minha; agora, beba a sua, sua merda. Beba! Beba! Beba!!!

Com Liz pressionando-a, os olhos de Sitri se mexiam inquietos. Sua mão estava prestes a alcançar a bolsa de poçÔes pendurada na cintura, mas parou abruptamente sob o olhar de Liz.

Elas brigam com tanto carinho. SĂ©rio… Elas parecem estar se divertindo muito…

Com a boca cheia de um chĂĄ gelado que acabara de chegar, olhei em volta da taverna. Cada mesa estava tĂŁo animada quanto a nossa, o barulho era quase ensurdecedor, mas de alguma forma agradĂĄvel. Era bom experimentar algo assim de vez em quando.

Com um humor sentimental, voltei meu olhar para Liz e vi que ela e Sitri ainda estavam discutindo. Apesar de suas muitas diferenças, como o olhar nos olhos, altura e tamanho dos seios, ao vĂȘ-las lado a lado assim, ficava evidente que eram de fato irmĂŁs.

Reprimindo um bocejo, falei casualmente:

— VocĂȘs duas sĂŁo bem prĂłximas, hein? Ah, talvez eu devesse pegar um sorvete— Tino, vocĂȘ quer tambĂ©m?

— Mestre…— ela disse, murchando e afastando a cadeira das duas, como se tentasse se distanciar delas, — obrigada.

Mas Sitri nĂŁo parecia mais composta hĂĄ pouco tempo? Me pergunto por que as coisas mudaram…

O material de mana aprimorava todos os aspectos das habilidades de um caçador, nĂŁo apenas suas capacidades fĂ­sicas brutas, mas tambĂ©m seus sentidos, como visĂŁo, audição e tato— atĂ© mesmo sua resistĂȘncia a toxinas era aumentada. E Ă© por isso que as bebidas servidas em bares para caçadores tinham um teor alcoĂłlico absurdamente alto: eles nĂŁo ficavam bĂ«bados com ĂĄlcool normal. Caçadores de alto nĂ­vel eram completamente diferentes por dentro.

O Mil Truques nĂŁo era exceção a esse fenĂŽmeno: quase nunca vi Liz, Sitri ou os outros ficarem bĂ«bados nos Ășltimos anos. Ainda assim, algo estava errado aqui. O rosto de Liz estava vermelho enquanto ela virava uma nova prata ale (que ostentava o dobro do teor alcoĂłlico da ale dourada, famosa por ser inflamĂĄvel). Sitri estava sorrindo por fora, como sempre fazia, mas seu olhar estava claramente desfocado.

Os Ășnicos sĂłbrios eram eu, que nĂŁo tinha tocado em uma gota de ĂĄlcool, e Tino, que estava se encolhendo para tentar evitar chamar a atenção de suas duas “irmĂŁs” enquanto esvaziava silenciosamente seus copos.

Soltando um barulho incomum, arrastado e inarticulado, Sitri se agarrou a mim. Ela estava completamente bëbada.

— Kraaai, vocĂȘ nĂŁo estava me tratando como uma carteira mĂĄgica que cospe dinheiro sozinha?

— É, aham…

— Sniff, sniff… Liz, vocĂȘ ouviu ele? Krai me trata apenas como uma mulher conveniente.

— Cobre ale, em um barril. E me traga tudo desta parte do menu. Siddy, carteira!

— Sniff, sniff…

Com uma mĂŁo, afastando Sitri, que fingia chorar de se jogar em mim, Liz gritou um pedido de comida absurdamente vago.

Nossa mesa se transformou em um caldeirão de caos. O cheiro de ålcool no ar era tão forte que poderia deixar alguém tonto apenas por estar por perto, e pratos vazios se acumulavam na mesa um após o outro. Os clientes que antes me olhavam com inveja agora estavam de olhos arregalados, espantados com os modos de Liz e Sitri ao comerem.

Um carrinho trouxe um barril com uma torneira, mais largo do que um abraço poderia envolver.

Liz roeu ferozmente o osso de carne e depois virou o lĂ­quido marrom-avermelhado de uma vez.

— Aaah… Isso Ă© tĂŁo bom… Faz tempo que eu nĂŁo fico bĂ«bada… Bom trabalho, Siddy. Me traz mais uma rodada!

— Ugh… Liiiz, sua resistĂȘncia cresce rĂĄpido demaaaais… Isso era para ser minha cartada final… Sua tolerĂąncia aumenta em instantes, nĂŁo importa o quĂŁo forte eu faça… Talvez eu devesse desistir de fazer elas…

— O quĂȘ? Mas esse nĂŁo Ă© o seu trabalho, Siddy? Quem vai construir nossa resistĂȘncia se vocĂȘ nĂŁo fizer isso?

— Sniff, sniff… Kraaai, a Liz estĂĄ me tratando como uma mulher conveniente!

— Ei!!! Siddy! Para trĂĄs! Eu disse nada de tocar no Krai Baby! Nada de tocar… N-Ã-O, nĂŁo! T, proteja esse lado para mim!

— Sim, madame.

— Eu te emprestei mais de uuuum bilhĂŁo de gild! Vou fazer vocĂȘ me pagar com seu cooorpo!

Com Sitri tentando dar a volta, Liz abriu os braços bem largos para bloqueå-la. Pelo visto, ela ainda estava bem.

Se fosse uma briga de verdade entre irmĂŁs, eu teria separado as duas, mas Sitri parecia bastante satisfeita, apesar dos gritos. A gentileza era uma das muitas virtudes de Sitri.

— Que bom que vocĂȘs duas estĂŁo se divertindo. A propĂłsito, Sitri, acho que… eu esqueci minha carteira…

— Mestre… vocĂȘ Ă© um demĂŽnio…

— Sniff, sniff…

Se Ansem estivesse aqui, ele cobriria para mim—e eu sempre pagava ele depois.

Os Grievers sempre funcionaram na base do dar e receber. Embora eu raramente “desse”, talvez eu tenha “recebido” mais da Sitri do que de qualquer outro. Eu simplesmente nĂŁo conseguia evitar depender dela.

Enquanto eu me desculpava mentalmente, a porta de entrada se escancarou com um estrondo.

A algazarra diminuiu um pouco quando um grupo grosseiro chutou a porta e entrou no estabelecimento—provavelmente um grupo de caçadores. Era uma equipe consideravelmente grande para uma taverna, com oito homens, todos armados atĂ© os dentes. Os oito tinham fĂ­sicos robustos e intimidadores, tĂ­pico de caçadores, mas a presença imponente deles enquanto varriam a taverna com os olhos exalava uma forte sensação de ameaça.

Tino franziu a testa e sussurrou:

— Esses sĂŁo os novatos…

Caçadores excepcionais, sejam eles nacionais ou estrangeiros, se reuniam na capital de Zebrudia. E como caçadores nĂŁo toleravam ser menosprezados, os recĂ©m-chegados costumavam estar sempre em alerta. Muitos acabavam entrando em conflito com os caçadores jĂĄ estabelecidos na capital. Isso era quase um rito de passagem. Havia atĂ© mesmo alguns caçadores ridĂ­culos que provocavam outros de propĂłsito para estabelecer hierarquias—e era exatamente essa a atmosfera que senti emanando do grupo que havia acabado de entrar.

Para mim, o mais problemĂĄtico era que muitos desses novatos nunca tinham ouvido falar do nome “Mil Truques”. O apelido era bem conhecido entre os caçadores da capital, mas fora dela, o mundo era vasto, e mesmo que alguns tivessem ouvido o nome, poucos reconheciam meu rosto. Em outras palavras, eu era um alvo fĂĄcil para ser provocado por conta da minha aparĂȘncia frĂĄgil.

O homem no centro era enorme. Ele usava um conjunto de protetores de perna ligeiramente desgastados, mas incrivelmente robustos, de coloração cinza. Sua armadura era minimalista e feroz, cobrindo apenas as partes essenciais, combinada com um casaco marrom-castanho. Sob sua cascata de cabelos louro-escuros naturalmente desalinhados, exibia uma expressão visivelmente descontente. Ele carregava uma espada maciça nas costas, semelhante ao jovem Gilbert, mas seu físico era muito diferente, exalando uma aura intimidadora muito mais poderosa.

Com quase dois metros de altura, seu corpo tambĂ©m era proporcionalmente mais largo. Seu porte era comparĂĄvel ao de Gark. O caçador mais imponente que eu conhecia era, sem dĂșvida, Ansem, mas esse homem facilmente entraria no top dez.

Pelo menos, ele não era um novato. Seria mais adequado chamå-lo de um renomado caçador estrangeiro.

Encolhendo meu corpo, silenciosamente esperava que isso nĂŁo se tornasse algo problemĂĄtico.

Enquanto isso, Sitri observava atentamente o homem que parecia ser o lĂ­der e soltou um suspiro fervoroso.

— Esse corpo estĂĄ magnificamente bem treinado; atĂ© mesmo sua postura Ă© refinada. O material de mana nele Ă© de primeira linha tambĂ©m. Ele deve ser um caçador de alto nĂ­vel. Aaaah… Que maravilhoso!

— O quĂȘ? Sitri, vocĂȘ gosta desse tipo de cara? Eca.

Liz cruzou as pernas com confiança e riu, enquanto Tino também olhava para Sitri com surpresa.

ImpassĂ­vel diante dos olhares delas, Sitri continuava a encarar o homem com olhos ardentes.

— Liz, vocĂȘ nĂŁo entende. No fim das contas, a força fĂ­sica bĂĄsica Ă© crucial para um tipo masculino… Caçadores de alto nĂ­vel com altas taxas de absorção e limites de material de mana sĂŁo simplesmente perfeitos. O que vocĂȘ acha, Krai?

E, de repente, fui colocado no centro das atençÔes.

Hmm… Parece que Sitri gosta mesmo de machos.

Ela era do tipo quieta, então eu imaginava que seu gosto para homens também tenderia para os mais reservados. Mas parecia que havia coisas sobre ela que até eu não conhecia.

Com um leve toque de solidĂŁo indescritĂ­vel, respondi:

— É, aham, mĂșsculos sĂŁo importantes mesmo.

— Eu sabia! VocĂȘ Ă© o cara, Krai! VocĂȘ entende, ao contrĂĄrio da Liz! Matadinho foi feito de remendos, e sua integridade estĂĄ um pouco… vocĂȘ sabe, desgastada. E sua aparĂȘncia Ă© um tanto desconcertante, entĂŁo levĂĄ-lo por aĂ­ causa certa comoção—estava pensando se nĂŁo deveria conseguir mais um guarda-costas. Cara, isso Ă© tĂŁo bom; me pergunto qual Ă© o nĂ­vel dele… Queria ter trazido Matadinho comigo. Gostaria de ver como eles se comparam…

Senti que a conversa de alguma forma nĂŁo estava se conectando.

Com olhos de donzela apaixonada, Sitri encarava o caçador. Sitri era essencial para nosso grupo, mas se algum dia ela quisesse partir, eu apoiaria sua decisão. Cada um tinha seu próprio caminho, e eu não tinha direito de impedir ela, ou qualquer outra pessoa. Eu tinha certeza de que chegaria o dia em que todos os membros dos Grieving Souls seguiriam suas próprias jornadas.

— VocĂȘ, saia do meu caminho.

Espero que ele pare de agir assim.

Os novatos não perderam tempo em provocar outros caçadores. Aproximando-se de uma das mesas, um deles bateu a cabeça de um caçador completamente embriagado sobre a mesa sem dizer uma palavra.

O som de pratos se estilhaçando ecoou. A atmosfera esfriou instantaneamente, e o alvoroço na taverna cessou.

O capanga que tinha esmagado a cabeça do caçador era um homem de cabelos longos presos para trås. Com um sorriso intimidador, ele olhou para os outros caçadores na mesa, que foram pegos de surpresa pelo ataque repentino.

— Cara! Qual Ă©, velho? Tem outros lugares disponĂ­veis—!

Ignorando-os, os novatos expulsaram os caçadores da mesa à força.

Os caçadores estavam em desvantagem numérica, e alguns estavam embriagados também. Mas, acima de tudo, os novatos pareciam muito acostumados com esse tipo de ação. Embora os caçadores da mesa tivessem suas armas por perto, elas foram chutadas para longe antes que pudessem alcançå-las, e logo foram cercados e espancados.

Era absurdo que eles ainda nĂŁo tivessem sido presos. Isso jĂĄ nĂŁo era um crime? No entanto, curiosamente, esse nĂ­vel de violĂȘncia nĂŁo era considerado um crime entre caçadores, contanto que as vĂ­timas tambĂ©m fossem caçadores. Como essa era uma profissĂŁo relativamente violenta e a reputação importava, as vĂ­timas raramente denunciavam. AlĂ©m disso, se fossem presos por esse tipo de violĂȘncia, Liz e Luke estariam em sĂ©rios apuros, entĂŁo eu nĂŁo podia realmente me opor. O mundo em que vivĂ­amos era insano.

O clima animado tinha sido arruinado, mas Liz, por algum motivo, estava com um brilho nos olhos.

Umedecendo minha garganta com um chå, observei a situação.

LĂĄ, um dos capangas se anunciou em voz estridente.

Todos os olhares na sala se voltaram para eles.

— Escutem bem! Somos a Falling Fog de Nebulanubes, a Terra das Brumas. E gravem bem isso: este homem aqui Ă© conhecido como o caçador mais poderoso da Terra das Brumas—Arnold Hail, o TrovĂŁo Devastador!

Permanecendo em silĂȘncio diante da apresentação do Capanga A, um homem, que presumi ser Arnold, recostou-se arrogantemente na cadeira e cruzou os braços.

Os atendentes, percebendo a confusĂŁo iminente, discretamente se afastaram.

Arnold… Um Arnold de Nebulanubes, hein? Sinto que ouvi esse nome em algum lugar recentemente… Onde foi mesmo?

Franzi a testa e inclinei a cabeça, mas minha memĂłria estava turva sob a influĂȘncia do forte cheiro de ĂĄlcool.

Enquanto isso, a hipnotizada Sitri observava o capanga e sua patética tentativa de intimidação.

Desistindo de tentar lembrar, soltei um suspiro profundo e me ajeitei na cadeira.

Sério, se eu estivesse sozinho, jå estaria pagando a conta e indo embora.

EntĂŁo, um capanga respirou fundo e, com um tom solene, disse algo inacreditĂĄvel:

— Escutem bem, seus caçadores idiotas da capital—Arnold aqui… Ă© um NĂ­vel 7!

O quĂȘ…?! Ele disse “NĂ­vel 7”? Quer dizer que esse cara, na companhia desses capangas de quinta categoria, estĂĄ no mesmo nĂ­vel que Ark? Cara, esse mundo realmente enlouqueceu.

Na realidade, os critérios para certificação de níveis pela Associação dos Exploradores não eram padronizados. Enquanto alguns ramos focavam apenas em habilidades de combate, outros valorizavam mais a personalidade. Mas, de qualquer forma, um homem que espancava outros caçadores sem hesitação ser reconhecido como Nível 7 era uma prova alarmante do declínio da honra dos caçadores.

Vou adicionar isso Ă  minha lista de coisas para zoar o Gark da prĂłxima vez que o vir.

Ao ouvir essas palavras, Liz arregalou levemente os olhos e inclinou a cabeça.

— Entendi… A Terra das Brumas, hein… Nunca estivemos lĂĄ antes, nĂŁo Ă©, Krai Baby? Se vocĂȘ fosse de lĂĄ tambĂ©m, nĂŁo seria um NĂ­vel 10?

— De jeito nenhum, de jeito nenhum… Acredito que um NĂ­vel 9 ou 10 exigiria que filiais do mundo todo se reunissem para avaliar as circunstĂąncias— E eu nem quero subir de nĂ­vel, para começar.

— Bem… se eu esmagar esse cara, talvez eu possa virar NĂ­vel 7 tambĂ©m?

— Hmm… Matadinho com uma base de NĂ­vel 7… Eu adoraria conhecĂȘ-lo melhor. Ei, Krai, posso ir? Provavelmente eles nĂŁo conhecem ninguĂ©m aqui, jĂĄ que sĂŁo novatos—talvez essa seja uma oportunidade?

Liz soltou um suspiro profundo, enquanto Sitri parecia inquieta.

Ninguém se preocupava com os caçadores espancados.

Bem, acho que eu terei que me preocupar por eles.

Nível 7—mesmo que fosse uma avaliação de um país pequeno, ainda era um nível impressionante o suficiente para fazer um oponente pensar duas vezes.

Eram oito deles. E mesmo que o RelĂąmpago Estrepitoso nĂŁo estivesse Ă  altura do nĂ­vel, ainda estavam todos armados.

Preciso admitir que estar embriagado nos colocava em desvantagem.

Confirmando que ninguĂ©m havia se manifestado em resistĂȘncia, Arnold zombou dos caçadores com um sorriso presunçoso.

— Heh. Nada alĂ©m de covardes… Acho que atĂ© mesmo a capital nĂŁo Ă© grande coisa. VocĂȘ, traga bebida e mulheres para mim.

— Entendido.

Capanga A começou a vasculhar a taverna, mas, infelizmente, eram poucas as tabernas voltadas para caçadores que tinham atendentes atraentes.

Com os olhos semicerrados, ele percorreu o local atĂ© me ver monopolizando trĂȘs garotas no fundo da taverna. Seus lĂĄbios se curvaram em um sorriso maldoso.

Opa, pera lå. Ele estå realmente pensando em mexer com caçadoras de outros grupos? Isso é permitido na Terra das Brumas? Que tipo de lugar desorganizado é esse?

Vai ser ruim se eles começarem a me menosprezar—atĂ© eu estou pronto para brigar. VocĂȘ tem certeza? Eu vou lutar pelo menos. Tino tambĂ©m vai, e Liz ainda mais. Tem certeza mesmo? Sitri? Hmm… na verdade, nĂŁo sei sobre ela…

Tino parecia bastante contrariada.

Capanga A se aproximou da nossa mesa e sorriu. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Liz ao meu lado se levantou.

Olhando para o surpreso Capanga A, que arregalou os olhos com essa reviravolta inesperada, Liz corou e disse com um sorriso radiante:

— Oh? Quer que eu sirva sua bebida? Bem, acho que não posso recusar, posso?

— L-Lizzy?! Eu posso ir em seu lu—

— Esquece. Sente-se. Eu vou mostrar—como—se—faz.

Colocando o dedo nos lĂĄbios de forma provocante, Liz piscou para a atordoada Tino.

Esse Ă© o olhar dela quando estĂĄ prestes a aprontar algo.

Ela estava vestida de forma reveladora e, embora nĂŁo tivesse muitas curvas, se olhasse bem, dava para notar um pouco de busto. Sua pele bronzeada exalava um charme saudĂĄvel. Seu rosto era atraente e, para quem nĂŁo conhecia sua verdadeira natureza, ela provavelmente parecia encantadora.

— Ei, Liz, isso nĂŁo Ă© justo!

— Quem chega primeiro, bebe primeiro!

Capanga A olhou para mim como se eu fosse um covarde.

O que eu deveria fazer?

Liz pegou um caneco e despejou uma cerveja de cobre avermelhada do barril.

Com uma expressĂŁo duvidosa, o nariz do Capanga A se contraiu por um instante. Ele deve ter percebido pelo cheiro que o conteĂșdo era uma bebida extremamente forte.

Mas antes que pudesse expressar sua dĂșvida, Liz começou a caminhar com o caneco na mĂŁo. Aproximando-se da mesa de Arnold, ergueu o caneco, mantendo seu sorriso.

— VocĂȘ queria bebida, nĂŁo queria? Como estou de bom humor, vou lhe oferecer uma especial. Oh, nĂŁo, Liz, como vocĂȘ Ă© generosa!

E então, sem cerimÎnia, ela virou o caneco e despejou todo o líquido na cabeça de Arnold.

— O quĂȘ—?!

— Vou lhe dar o caneco tambĂ©m. Oh meu! Isso tambĂ©m serve como desinfetante! Dois coelhos com uma cajadada sĂł! Isso Ă© uma nova invenção, talvez?

E logo depois de dizer isso, ela bateu com o caneco na cabeça encharcada de Arnold.

Ela abriu um sorriso radiante e nĂŁo hesitou nem um pouco.

Os companheiros de Arnold ficaram boquiabertos com as açÔes dela.

Ah… Ela fez isso.

Arnold e sua gangue podiam estar acostumados a brigas, mas para Liz, bater nos outros fazia parte da rotina diĂĄria. A palavra “aviso” simplesmente nĂŁo existia no vocabulĂĄrio dela. Ela era a Sombra Partida, uma garota que desferia golpes em uma velocidade divina, sem deixar rastros.

Arnold segurou a cabeça e cambaleou. Talvez ela o tenha acertado em um ponto crítico.

Ainda assim, Liz nĂŁo demonstrou um pingo de misericĂłrdia.

Mantendo o sorriso no rosto, ela ergueu a perna bem alto e, com chutes giratórios, mandou os Capangas B, C, D e E — que ainda tentavam entender a situação — voando. Os quatro homens grandes e totalmente armados, junto com as mesas ao redor que estavam no caminho, rolaram pelo chão como bonecos de pano. Seus movimentos eram ágeis, e sua força, como sempre, absurda.

O primeiro homem que veio para cima de Liz recobrou a consciĂȘncia e assumiu uma postura defensiva, mas jĂĄ era tarde demais. Ele levou mais um dos chutes relĂąmpago de Liz e foi magnificamente lançado pelo ar, levando comida e bebida junto. Ele atĂ© tentou levantar o braço instintivamente para se defender, mas Liz, equipada com suas botas RelĂ­quia, desferia chutes como se fossem disparos de artilharia. Aqueles chutes estavam em um nĂ­vel que nenhum caçador comum poderia suportar.

Os caçadores ao redor estavam completamente atĂŽnitos. Os mesmos que tinham começado a violĂȘncia agora estavam sendo esmagados por uma violĂȘncia ainda maior. NĂŁo era de se estranhar que todos estivessem com essas expressĂ”es. Eu mesmo estava do mesmo jeito. Quem visse essa cena pela primeira vez reagiria exatamente assim.

Depois de lidar com eles, Liz alegremente jogou a caneca sem alça de lado e agarrou Arnold, que ainda estava meio consciente, pelo cabelo. E, sem hesitar, começou a esmagar a cabeça dele contra a mesa repetidas vezes. Ela estava totalmente decidida a acabar com ele.

Bem, eles começaram essa briga, entĂŁo, de certa forma, isso foi apenas o resultado das prĂłprias açÔes deles…

Sitri se levantou e, com um gemido, se jogou para cima de mim como se estivesse desabando.

— L-Liz, isso Ă© maldade! Eu disse que queria ele. VocĂȘ sempre pega tudo o que eu quero… Krai, pode dar uma bronca nela, por favor?

— Isso provavelmente não funcionaria.

Gritos e rugidos furiosos ecoavam pela taverna.

Enquanto Sitri se agarrava ao meu pescoço, enroscando os braços em mim, eu comecei a dar tapinhas reconfortantes na cabeça dela.

Tino, por outro lado, olhava para Sitri como se estivesse vendo um demĂŽnio.

Olhei ao redor da taverna. NĂŁo estava completamente destruĂ­da, mas os danos eram severos.

Agora que começavam a entender a situação, os caçadores ao redor começaram a torcer para o furacão chamado Liz.

A coisa jĂĄ tinha saĂ­do do controle.

E quem vai ser culpado por tudo isso depois? Aposto que eu.

Levantei-me silenciosamente.

Acho melhor eu pagar a conta o mais rĂĄpido possĂ­vel…


Tradução: Carpeado
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