Grieving Soul – Capítulo 7 – Volume 2

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Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 02

CapĂ­tulo 7:
[Abismo]


Sob as ruas da capital, na rede labirĂ­ntica de esgotos, Sophia Black caminhava firmemente sobre o pavimento escorregadio, enfrentando o odor repulsivo e a escuridĂŁo opaca. Um fluxo de esgoto corria ao lado da passagem; ratos e baratas corriam pelos cantos de sua visĂŁo.

Uma fonte de luz fraca iluminava o tĂșnel de vĂĄrios metros de largura, projetando nenhuma outra silhueta alĂ©m da dela. O capuz de seu robe cinza surrado e folgado havia caĂ­do sobre seus cabelos flamejantes; seus olhos, igualmente ardentes, permaneciam inexpressivos.

No fim das contas, Sophia havia investido fundos exorbitantes, tempo, alĂ©m de seu prĂłprio sangue e suor em sua pesquisa, apenas para vĂȘ-la ser interrompida, deixando muitas perguntas sem resposta. Ela duvidava que o trabalho revolucionĂĄrio de seu mestre, agora que os documentos haviam sido apreendidos pelo impĂ©rio, chegasse a qualquer resultado tĂŁo cedo. Os materiais para criar o dispositivo que interrompia o fluxo de mana jĂĄ eram raros por si sĂł; agora, nĂŁo havia chance de Noctus adquiri-los dentro das fronteiras do impĂ©rio.

Sophia começou a buscar se tornar aprendiz de Noctus Cochlear quando descobriu sua tese escondida nos recessos de uma biblioteca proibida. A teoria era brilhante, mas, acima de tudo, o que realmente a atraiu foi a obsessão dele pela verdade universal, a sede ardente por conhecimento que o levou a pesquisar temas proibidos pelo mundo, apesar do risco de perder seu título, sua posição e sua reputação. E, antes que percebesse, Sophia jå estava à sua procura, sem nunca duvidar de que o autor de tal tese jamais deixaria um mero banimento ficar entre ele e sua pesquisa.

Sophia precisava de poder. Sua busca solitåria por conhecimento havia estagnado, e ela ansiava por um mentor excepcional e colegas que compartilhassem sua ambição.

Encontrar Noctus foi desafiador, para dizer o mĂ­nimo, especialmente quando nenhum registro indicava se ele estava vivo ou morto. Quando finalmente o encontrou em Zebrudia, de todos os lugares, justamente de onde ele havia sido banido, Sophia tremeu de alegria.

Agora que tudo havia acabado, parecia que ela não tinha passado tempo suficiente com ele. Ela esperava que o império investigasse a pesquisa deles eventualmente, mas não tão cedo. Soro de transmutação, Devoradores de Malícia, Akasha, etc. Todas as descobertas no desenvolvimento de armas feitas sob a direção de Noctus haviam sido confiscadas, mas, para Sophia, nem tudo estava perdido ainda.

Sua mente agora estava focada em uma arma, criada a partir de uma sede ilimitada por conhecimento, tĂŁo perigosa quanto qualquer uma de Noctus. Era uma arma que havia sido selada devido ao seu extremo perigo, a ignĂłbil arma biolĂłgica capaz de reduzir a capital a ruĂ­nas: a Slime Sitri.

Ela estava caçando a criatura, que provavelmente estava solta no sistema de esgotos. Slimes, por mais letais que fossem, agiam por instinto, o que os tornava fåceis de rastrear para quem compreendesse sua natureza. Levando em conta os vermes e insetos dos quais a slime devia estar se alimentando, Sophia estava reduzindo suas possíveis localizaçÔes.

Ela estava determinada a ver isso até o fim, depois de recorrer a todos os meios nefastos que possuía para avançar em sua pesquisa. Por Noctus, por seus companheiros aprendizes e por si mesma, ela faria o que fosse necessårio.

Sophia continuou sua caminhada pelos esgotos, completamente sozinha.


Alguns dias após a conclusão da investigação sobre o Covil do Lobo Branco, eu estava sentado de frente para Gark em uma sala de reuniÔes dentro da filial da Associação dos Exploradores na capital. Kaina estava atrås dele, e um dos agentes do Bureau de Investigação de Relíquias estava sentado ao seu lado, claramente mal-humorado. Ao meu lado, Eva estava sentada com uma postura impecåvel e um olhar resoluto. Palavras não eram suficientes para expressar o quanto eu apreciava sua companhia, jå que ela tinha ainda menos responsabilidade sobre toda essa confusão do que eu.

Gark franziu as sobrancelhas em um vinco demonĂ­aco, como sempre fazia, e rosnou:

— VocĂȘ nĂŁo sabe de nada?!

— Infelizmente, não — respondi.

— Krai, vocĂȘ realmente acha que eu vou acreditar nisso? — disse ele, agora mais exasperado do que irritado.

Tudo o que aconteceu no Covil do Lobo Branco e nos arredores tomou proporçÔes muito maiores do que eu imaginava. Apesar da ordem de silĂȘncio imposta pelo impĂ©rio, Eva estava me sussurrando alguns detalhes ao pĂ© do ouvido. Cada vez mais cavaleiros da Terceira Ordem podiam ser vistos nas ruas nos Ășltimos dias, aparentemente em alerta mĂĄximo para caçar remanescentes da Torre AkĂĄshica (eu nunca tinha ouvido falar dela antes, mas me disseram que Ă© uma infame organização mĂĄgica).

Por algum motivo, eu sempre era convocado para a Associação em situaçÔes como essa. Eles esperavam que o incrível Caçador de Nível 8 liberasse seu poder divino ou algo assim, essas eram apenas tentativas patéticas de espremer um oceano de sangue deste pobre nabo de Nível 8. Eu costumava temer esses chamados, mas agora mantinha a cabeça erguida, não havia como me culpar de nada.

Enquanto eu me sentava ali, indignado, Gark coçou a cabeça e disse, num tom que quase soava compassivo:

— Eu nĂŁo sei o que vocĂȘ estĂĄ tramando, Krai, mas nĂŁo hĂĄ vergonha em pedir ajuda. Vamos fazer o que pudermos.

NĂŁo hĂĄ vergonha em pedir ajuda?! Por que vocĂȘ estĂĄ agindo como se eu devesse estar no comando aqui?! VocĂȘ Ă© quem deveria estar resolvendo tudo, nĂŁo sĂł fazendo o que pode! pensei, sem demonstrar um pingo de indignação no rosto. Quando Ă© que vocĂȘs vĂŁo acreditar que eu nĂŁo fiz nada? Que eu nĂŁo sei de nada?!

— Postos de controle foram estabelecidos por toda a capital, e tambĂ©m hĂĄ recompensas pelas cabeças deles. Estou enviando quantos caçadores posso, mas, atĂ© agora, nada. As chances sĂŁo de que eles ainda estejam presos na cidade. Se aquele que Liz nocauteou acordar, poderemos começar os interrogatĂłrios… mas, por enquanto, nada — disse Gark.

— Vamos parar de rodeios, Gerente de Filial — disse o agente do Bureau de Investigação de Relíquias, que não parava de me encarar.

O Bureau de Investigação de RelĂ­quias, uma agĂȘncia nacional encarregada de pesquisar RelĂ­quias, cofres e espectros, tinha muito poder dentro do impĂ©rio e trabalhava mais de perto com caçadores do que qualquer outra agĂȘncia. Mais importante ainda, minha extraordinĂĄria incompetĂȘncia me colocou profundamente na lista negra deles.

— Mil Truques, estamos bem cientes de suas prĂĄticas secretas. TambĂ©m admito que, seja qual for sua fonte de informaçÔes, sua capacidade de reconhecimento Ă s vezes supera a nossa. É natural que um caçador de tesouros esconda suas estratĂ©gias, mas essa… bagunça foi longe demais para ser apenas mais um dos seus Mil Testes.

Eita. Eu jĂĄ sabia que os membros do clĂŁ tinham começado a chamar minhas decisĂ”es mais impulsivas de “Mil Testes”, para meu grande constrangimento, mas nĂŁo esperava que o termo tivesse se espalhado para alĂ©m do clĂŁ. Eu queria me encolher no sofĂĄ, mas me forcei a manter a expressĂŁo neutra.

Como se estivesse me sentenciando Ă  morte, o agente continuou:


— Experimentar com material de mana constitui um dos dez crimes capitais. Em uma emergĂȘncia nacional como esta, todo cidadĂŁo do impĂ©rio tem o dever cĂ­vico de cooperar com as autoridades. Acredite, a AgĂȘncia preferiria nĂŁo ir contra um caçador de NĂ­vel 8, mas esteja avisado: ocultar qualquer informação pode resultar em acusaçÔes criminais, Krai Andrey. Estamos preparados para usar as LĂĄgrimas da Verdade, se necessĂĄrio.

O tom dele deixava claro que estava falando sério, reforçado pelo olhar carrancudo de Gark ao lado dele.

As LĂĄgrimas da Verdade eram uma das RelĂ­quias mais famosas sob posse do impĂ©rio. Tinham o poder de detectar mentiras, mas, por serem Ășnicas e por violarem de certa forma os direitos humanos, seu uso envolvia uma burocracia imensa. Mesmo contra criminosos, a AgĂȘncia raramente autorizava sua utilização. O fato de o agente jĂĄ tĂȘ-las Ă  disposição significava que o impĂ©rio estava levando essa investigação muito a sĂ©rio. O mais bizarro era que, apesar do meu histĂłrico impecĂĄvel, jĂĄ tinham me submetido a essa RelĂ­quia mais de uma vez.

Mesmo com o agente me encarando como se eu fosse um gĂȘnio do crime, me dando calafrios, proclamei bem alto:


— Pode mandar ver!


E gritei ainda mais alto e mais longo:


— Pooooode mandar veeeeeer!

O agente, que antes me julgava friamente, agora coçava a cabeça em frustração.

O que vocĂȘ esperava de mim? Quase soltei essa.

Além disso, como um verdadeiro entusiasta de Relíquias, eu jamais perderia a oportunidade de ver as Lågrimas da Verdade em ação, aquilo era uma obra de arte, um tesouro nacional.

NĂŁo era problema meu. Eu nĂŁo estava mentindo; realmente nĂŁo sabia de nada.

— Chega! — berrou o agente. — Como vocĂȘ sempre consegue burlar a detecção das LĂĄgrimas da Verdade?! Toda vez que as usamos em vocĂȘ, a confiabilidade da RelĂ­quia Ă© colocada em xeque! AlĂ©m disso, ninguĂ©m na histĂłria do impĂ©rio jamais ficou feliz por ter sido submetido a elas!

O que eu podia dizer? Eu era um homem honesto de ponta a ponta. Era tĂŁo enigmĂĄtico para mim quanto para eles o fato de estarem sempre tĂŁo certos de que eu escondia alguma informação valiosa. JĂĄ tinha dito incontĂĄveis vezes que eu era um inĂștil, e de nada adiantava. Se queriam culpar alguĂ©m, culpassem a Associação por me dar NĂ­vel 8.

Nos olhos de Eva, que antes estavam fixos em mim com desprezo, brilhou um relance de escĂĄrnio antes de se voltarem ao agente.


— Agente Adrian — disse ela —, como bem sabe, a lei do impĂ©rio regulamenta estritamente o uso adequado das LĂĄgrimas da Verdade. Krai nĂŁo foi acusado de crime nem admitiu ocultar qualquer informação. Se pretende usĂĄ-las contra um cidadĂŁo cumpridor da lei com base apenas em um palpite infundado, estamos preparados para protestar por vias oficiais.

E foi assim que descobri o nome do agente.

A expressĂŁo carrancuda de Adrian nĂŁo teve efeito algum sobre Eva, que se manteve sentada de forma ereta e resoluta como sempre.

Ela daria uma Ăłtima lĂ­der de clĂŁ.

O clima na sala de reuniÔes estava tenso, mas eu sou do tipo que faz amizade até com policiais. Então, bati palmas e intervim:


— JĂĄ chega. Eu realmente nĂŁo sei nada sobre eles, mas a Sitri disse que tinha um histĂłrico com o grupo, entĂŁo vocĂȘs deviam perguntar a ela. Ela disse que ia resolver isso de qualquer jeito.

A sombra que cruzou o rosto de Adrian foi acompanhada por um murmĂșrio:


— Sitri Smart…

Gark parecia carregar toneladas de pesos invisíveis nos ombros, e Kaina me lançou olhares apologéticos. O nome de Sitri não surgia em nossas conversas todos os dias, porque ela e a Associação tinham uma história complicada. Sitri jå tinha superado tudo hå tempos, mas aparentemente o incidente ainda pesava no coração de Gark.

— Permita-me pedir desculpas pessoalmente por aquele caso como agente imperial, ainda que minha agĂȘncia nĂŁo tenha tido envolvimento no ocorrido. TambĂ©m gostaria de agradecĂȘ-la, afinal, ela Ă© uma valiosa caçadora de tesouros — disse Adrian.

— Digo… A Sitri nĂŁo liga muito — respondi, omitindo o fato de que a visĂŁo dela sobre justiça criminal havia mudado naquele dia.

— O caso jĂĄ foi encerrado, o que torna revogar a penalidade muito difĂ­cil. JĂĄ tentaram reabrir algumas vezes no passado, mas as evidĂȘncias circunstanciais eram convincentes demais… Seu apelido pode mudar quando ninguĂ©m mais a chamar por ele, mas ser membro dos Grieving Souls dificulta as coisas para ela.

Mais de trĂȘs anos atrĂĄs, Sitri foi envolvida em um certo incidente e listada como a principal suspeita. Apesar de as acusaçÔes criminais terem sido retiradas por falta de provas concretas, a Associação cedeu Ă  pressĂŁo e aplicou a pior punição possĂ­vel: revogar seus nĂ­veis e marcĂĄ-la com um tĂ­tulo desonroso. Esse resultado provavelmente foi um compromisso entre a Associação, que tentava proteger seus caçadores, e a Terceira Ordem, que, apĂłs investigaçÔes exaustivas, nĂŁo encontrou nenhum outro suspeito Ă  altura. O escĂąndalo foi enorme, com a ordem dos cavaleiros colocando todos os seus recursos na solução do caso. Se alguĂ©m tivesse falsificado provas contra ela, Sitri poderia ter sido condenada injustamente; dadas as circunstĂąncias, eu diria que Gark fez bem em manter uma ponta de dĂșvida sobre a culpa dela.

Mas eu jamais esqueceria a Sitri que, apesar do sorriso estampado no rosto com toda a ousadia que conseguia reunir, estava arrasada por dentro. Nem esqueceria a impotĂȘncia que senti ao nĂŁo poder protegĂȘ-la daquele veredicto difamatĂłrio. Ela jĂĄ tinha voltado ao seu jeito de sempre desde entĂŁo. Ainda assim, aquele incidente me fez perceber o quĂŁo sensĂ­vel Sitri era por trĂĄs de sua fachada, enquanto eu tentava de tudo para consolĂĄ-la, sĂł para ver minhas palavras de apoio escorregarem por sua superfĂ­cie como espaguete em uma frigideira antiaderente.

— Resolver este caso certamente ajudaria o dela. Sua contribuição para este país como Alquimista tem sido altamente valorizada. Não deve demorar muito para que seu nome seja restaurado — disse Adrian. Pelo visto, ele estava do lado de Sitri, provavelmente porque ela havia se destacado na investigação do Covil do Lobo Branco.

Com o Ăąnimo um pouco mais elevado, Gark disse:
— Houve muitos feridos, mas tivemos sorte de nĂŁo haver nenhuma vĂ­tima fatal. Isso foi um milagre, considerando o calibre das forças contra as quais lutamos. Vamos ficar muito ocupados nesta cidade… De qualquer forma, o que a Sitri estĂĄ fazendo?

Cobrindo meu rastro, procurando pelo Slime da Sitri. Mas eu preferia engolir uma cĂĄpsula do Slime da Sitri a admitir isso.


— Não sei — respondi. — Bem, falo com ela se encontrá-la.

Depois de finalmente sair daquela reunião intensa na Associação, segui para o salão do clã, à procura de Sitri.

Embora jĂĄ tivessem se passado trĂȘs dias, o salĂŁo ainda estava repleto de caçadores exaustos atĂ© os ossos. A missĂŁo deve ter sido um inferno, pois eles estavam com expressĂ”es pacĂ­ficas, mas sem vida nos olhos
 como se jĂĄ tivessem um pĂ© no alĂ©m. Os funcionĂĄrios do clĂŁ que cuidavam do salĂŁo corriam de um lado para o outro, desviando-se das garrafas e barris de bebida espalhados pelo local. Mas eu nĂŁo me lembrava de terem servido ĂĄlcool na sede do clĂŁ.

Enquanto as brasas do caos ainda ardiam pela cidade, pelo menos a Primeiros Passos começava a voltar ao normal.

VĂŁo beber num bar, pensei. Coloquem esses bĂŽnus em bom uso.

— Outra provação insana… Achei que nunca mais veria a luz do sol.

— Nem me fale
 EstĂĄvamos em tantos: Sven, Gark, e atĂ© a Liz
 Achei que seria moleza.

— Se só metade de nós tivesse ido, nenhum teria voltado vivo.

— Slimes… Eles estĂŁo debaixo da minha cama… Quimeras… Do lado de fora da minha janela… O golem… Nos meus pesadelos…

— Eu vou sair… Vou largar esse clĂŁ tĂłxico de vez…

— É isso! Assim que essa confusão acabar, eu vou me casar. Tá ouvindo?! Eu vou casar depois disso tudo!

— O Mestre Ă© um deus… O Mestre Ă© um deus…

Que vida dura os caçadores levavam
 exceto por uma garota que claramente não tinha sofrido tanto quanto os outros.

Mesmo notando minha presença ao entrar, ninguĂ©m fez questĂŁo de se levantar ou sequer endireitar a postura. Como eu havia prometido apoio total ao Gark, me senti mal por vĂȘ-los nesse estado.

— Foi mal. NĂŁo achei que as coisas fossem ficar tĂŁo complicadas… VocĂȘs sabem, nosso clĂŁ tem um nĂ­vel bem alto, entĂŁo…

— Claro que a vida Ă© fĂĄcil pra vocĂȘ! — Lyle gritou, soluçando e batendo o punho na mesa onde se apoiava. — VocĂȘ derrotou aquele golem com um golpe sĂł! Mas nĂłs nĂŁo somos como vocĂȘ! Por tudo que Ă© mais sagrado, tenha piedade de nĂłs!

NĂŁo consegui segurar uma risada. Lyle, um brutamontes com cara de poucos amigos, estava desmoronado sobre a mesa, o rosto molhado de lĂĄgrimas.

Foi tĂŁo difĂ­cil assim?

— Me ensina! Me ensina esse golpe, Krai! — ele choramingou.

— Força de vontade. É só isso que precisa. — Falei, impassível.

— Força de vontade?! — Lyle berrou. — VocĂȘ tĂĄ de sacanagem?!

Ainda bem que todos voltaram, pensei.

A morte era um risco constante nesse ramo, mas perder amigos nunca ficava mais fåcil. Decidi deixar passar a situação lastimåvel do salão, só dessa vez.

Enquanto isso, os caçadores que ainda tinham forças para falar continuavam a conversa.

— AlguĂ©m viu a Talia? A gente combinou de se encontrar aqui…

— Não. Deve estar em casa ou no laboratório. Ela falou que a missão foi mais difícil do que esperava.

Como imaginei que meus caçadores feridos nĂŁo conseguiriam descansar de verdade com minha presença, resolvi subir para o andar de cima depois de notar que Sitri tambĂ©m nĂŁo estava no salĂŁo. E, com um Ășltimo olhar para aquele cenĂĄrio pacĂ­fico apĂłs um trabalho bem-feito, saĂ­ do salĂŁo.


Olhando para trĂĄs, Noctus conseguia lembrar de vĂĄrios indĂ­cios de que Sophia estava operando como infiltrada. Para começar, ela tinha acesso Ă s informaçÔes internas da Primeiros Passos. Embora tenha subestimado o envolvimento do Mil Truques, foi a primeira da equipe dele a saber do retorno de Sitri e tambĂ©m estava ciente da ausĂȘncia dos outros Grievers na capital. Nunca ter aparecido no esconderijo desde a chegada dos caçadores tambĂ©m era estranho. AlĂ©m disso, ela dava apenas direçÔes mĂ­nimas atravĂ©s das Pedras Falantes e, muitas vezes, ficava em silĂȘncio mesmo com a conexĂŁo ativa.

Sophia sempre dizia que era por estar ocupada com os preparativos, mas agora Noctus entendia que ela simplesmente não podia atender a Pedra na presença dos caçadores. Isso também explicava por que ela pareceu tão abalada ao telefone depois da derrota de Flick. Mesmo a gelada Sophia não poderia ser culpada por reagir daquela forma ao ser atacada por um aliado que tinha enlouquecido e lançado um feitiço potencialmente letal contra ela, mesmo que sem querer.

Noctus também se lembrou de como ela sumia regularmente enquanto trabalhava com os outros aprendizes e de como sabia demais sobre os Grievers, chegando ao ponto de designå-los como alvos teóricos ao criar Akasha. Tudo fazia sentido se ela estivesse se passando por membro da Primeiros Passos o tempo todo.

Se infiltrar era uma das formas mais eficazes de obter informaçÔes, e uma das mais arriscadas.

O preço que ela pagou, tendo que agir como caçadora enquanto continuava suas pesquisas, foi enorme. Se seu disfarce fosse descoberto, as consequĂȘncias poderiam ter sido desastrosas. Os riscos eram tĂŁo grandes que, se tivesse tido escolha, Noctus teria proibido Sophia de se infiltrar.

Mas ele também sabia que a garota era perfeitamente capaz de enganar até ele próprio.

Ele havia atribuĂ­do seu silĂȘncio recente Ă  cautela enquanto estava cercada por caçadores. Como as Pedras Falantes eram itens altamente valiosos e tinham uma função especĂ­fica, se fosse pega no flagra, certamente seria questionada sobre com quem estava se comunicando.

Ela estĂĄ tramando algo de novo?

Com os olhos semicerrados em contemplação, Noctus se recostou na cadeira. Conhecia Sophia bem demais para acreditar que ela desistiria da luta, mesmo depois de testemunhar o poder inexplicåvel do Mil Truques.

Chega, pensou. Cancele tudo. NĂŁo hĂĄ mais nada que possamos fazer.

Agora sĂł restava o prĂłprio Noctus, e ele nĂŁo era tolo o bastante para enfrentar o impĂ©rio sozinho. Retirar-se, Ă s vezes, era a melhor estratĂ©gia. Talvez essa fosse a Ășnica falha de Sophia: sua incapacidade de enxergar isso.

— Professor Noctus, conseguimos resgatar Sophia. NinguĂ©m nos seguiu. — anunciou o Ladino ao entrar pela porta do esconderijo, trazendo uma garota consigo.

A garota tinha cabelos e olhos na cor de chamas ardentes; sua figura era frågil, mas com traços femininos. Seu rosto inocente não traía seu passado como uma Alquimista rejeitada, mas, naquele momento, exibia algo incomum: medo.

Nem Noctus, nem o Ladino jamais haviam visto Sophia com aquela expressĂŁo.

Além disso, ela usava um par de óculos de aro grosso, algo que Sophia nunca usava. Com o cabelo trançado e um traje diferente de seu estilo habitual, parecia outra pessoa, bem distinta da Sophia que o sindicato conhecia.

Flick poderia ter zombado de sua aparĂȘncia em outras circunstĂąncias, mas agora Noctus e sua equipe olhavam para ela apenas com respeito e silĂȘncio.

Por mais que seu trabalho infiltrado não tenha garantido a vitória contra o Mil Truques, ninguém ali podia negar o quanto Sophia havia sacrificado pela causa.

Ali parada, ela parecia confusa.

— Sua perseverança não ficará sem recompensa — disse Noctus.

Sophia olhou ao redor e deu um passo para trĂĄs.

— O quĂȘ? O-onde… estou? Quem Ă© vocĂȘ…?

Sua voz tremia com uma incerteza que ninguém da equipe de Noctus jamais havia ouvido antes. O terror brilhou em seus olhos de um jeito que quase fez os outros aprendizes acreditarem que aquela não era Sophia. Eles a observavam, atÎnitos com a postura completamente oposta a tudo o que conheciam sobre Sophia Black.

— Chega dessa encenação — disse Noctus. — Estamos deixando a capital, um recuo temporário, Sophia. Os resultados dos meus experimentos continuam vivos dentro do meu crñnio. Felizmente, ainda temos um Devorador de Malicia. Deve ser o suficiente como guarda caso encontremos problemas no caminho.

— O quĂȘ…?!

O espanto tomou o rosto de Sophia ao notar Flick, e ela recuou mais alguns passos.

— O que te preocupa? — perguntou Noctus. — Não a culpo por esse resultado. Se quisesse puni-la de alguma forma, primeiro precisaria responsabilizar meus outros aprendizes por suas falhas.

— M-Meu nome… Ă© Talia…

— VocĂȘ estĂĄ levando essa piada longe demais, Sophia — interrompeu Flick. — Trançar o cabelo e colocar um par de Ăłculos mal te torna uma mestra do disfarce. Ou o quĂȘ? EstĂĄ sofrendo de amnĂ©sia? — ele zombou, fazendo os olhos de Sophia se arregalarem.

Noctus concordava com Flick: o disfarce de Sophia parecia completamente inconvincente. Qualquer um que tivesse interagido com ela por mais de algumas palavras a reconheceria facilmente. Certamente, ela nĂŁo acreditava que estava enganando Noctus e seus colegas agora.

Tremendo, Sophia observou o cĂŽmodo e levou a mĂŁo Ă  cintura, o rosto completamente pĂĄlido.

Ou isso ainda faz parte do plano dela? Noctus se perguntou.

— Não retornaremos à capital por vários anos, no mínimo. A menos que queira me dizer que prefere viver como uma caçadora.

— P-Por que estou aqui…? Sophia? A Sophia que Sitri mencionou…? — murmurou Sophia.

Noctus franziu o cenho. Algo estava errado. O que aconteceu com Sophia?

Ele não via motivo algum para ela continuar fingindo. Sair da capital era urgente demais para perder tempo com uma pegadinha, e Sophia sabia disso. Mesmo se estivesse sendo forçada a manter o disfarce, Noctus esperava que ela tentasse, ao menos, transmitir suas intençÔes por meio de sutis pistas na conversa.

A investida inexplicåvel de Mil Truques confundiu sua memória? Ou serå que ela manipulou suas próprias lembranças caso fosse capturada?

A ideia de Sophia mexer com a prĂłpria mente era arrepiante, mas verossĂ­mil o suficiente para que sua zelosa primeira aprendiz fizesse algo do tipo.

— Traga o Devorador de Malícia — ordenou Noctus.

— S-Sim, Professor Noctus… — respondeu um aprendiz.

devoradores de MalĂ­cia eram uma espĂ©cie de quimera sem igual. NĂŁo apenas eram as mais mortais que Noctus jĂĄ havia encontrado, como tambĂ©m tinham uma capacidade de reprodução notĂĄvel. Embora levassem mais tempo para atingir a maturidade total em comparação com outras quimeras, a vantagem de poder produzir em massa criaturas poderosas compensava essa desvantagem. Por acaso, um Devorador de malĂ­cia havia sido criado dentro da cidade, mas nĂŁo tinha participado da Ășltima batalha na clareira.

O aprendiz trouxe um Devorador de Malicia visivelmente menor do que aqueles usados na batalha. Assim que viu a criatura, Sophia gritou e se encolheu no chĂŁo de medo, apesar de ter sido a principal responsĂĄvel por cuidar da quimera.

Guiado pelo aprendiz, o Devorador de MalĂ­cia rosnou e farejou Sophia. Essas criaturas reconheciam seus aliados pelo cheiro, entĂŁo, por mais dedicada que Sophia estivesse ao seu disfarce, nĂŁo havia como enganar a fera, que conseguia identificar um odor a quilĂŽmetros de distĂąncia. O monstro continuou a cheirĂĄ-la, enquanto Sophia permanecia encolhida no chĂŁo, Ă  beira das lĂĄgrimas. Pouco depois, a quimera soltou um grito.

— Impossível! — exclamou Noctus. — Verifique novamente.

— S-Sim, senhor — disse o aprendiz.

Ele guiou o Devorador de MalĂ­cia para cheirar Sophia mais uma vez, e a jovem soltou um grito agudo ao ser farejada intensamente.

— C-Como isso Ă© possĂ­vel?! — exclamou Noctus, observando a cena.

O Devorador de MalĂ­cia, que confiava em Sophia mais do que em qualquer outro aprendiz, agora a encarava com apreensĂŁo e hostilidade. Quem quer que fosse aquela garota, ela nĂŁo era Sophia.

Os aprendizes assistiam a tudo boquiabertos, e o Ladino se aproximou da garota, descrente, para encarĂĄ-la de perto. AtĂ© ele foi forçado a admitir que aquela jovem nĂŁo poderia ser Sophia, mesmo sendo idĂȘntica Ă  primeira aprendiz.

— Uma gĂȘmea…? — murmurou Noctus. — Mas mesmo assim…

Sophia nunca mencionou ter uma irmĂŁ, muito menos uma gĂȘmea. Mesmo que a garota encolhida no chĂŁo fosse sua irmĂŁ, por que ela teria se infiltrado no Primeiros passos? Ela compartilhava da determinação de Sophia em enfrentar o clĂŁ?

Mil perguntas passaram pela mente de Noctus, mas a mais importante era: onde estava a verdadeira Sophia Black?

— Por que vocĂȘ estava se passando por Sophia?! — exigiu Flick, Ă  beira da fĂșria.

Mas Talia apenas se encolheu e balançou a cabeça.

— E-Eu nĂŁo sei do que estĂĄ falando…!

Seu medo e confusĂŁo pareciam genuĂ­nos.

De repente, Noctus estremeceu. Ele teve a sensação de que havia vislumbrado um horror que jamais deveria ter conhecido. Um desejo avassalador de sair do esconderijo quase o fez agir quando seu Ladino arqueou a sobrancelha.

— AlguĂ©m infiltrou-se no prĂ©dio, Professor Noctus — ele disse.

Passos discretos se aproximavam.

Flick se afastou de Talia e apontou seu cajado para a porta. Ele e os outros aprendizes se perguntavam quem poderia ser o intruso. Um caçador não faria barulho ao andar, e os cavaleiros da ordem teriam invadido o local de armas em punho. Mais intrigante ainda era o fato de que o intruso havia conseguido passar pelas diversas fechaduras que protegiam a entrada do esconderijo.

Os passos pararam bem diante da porta, que entĂŁo se abriu lentamente.

— Perdão pelo atraso, Mestre.

O silĂȘncio tomou o recinto com a chegada da primeira aprendiz. Noctus e os outros haviam esperado ansiosamente por seu retorno, mas agora a observavam atĂŽnitos.

Os cabelos escarlates de Sophia brilhavam sob o capuz, e seus olhos cintilavam como rubis sombrios, cheios de inteligĂȘncia. Seu manto cinza cobria seu corpo de forma solta, ocultando suas curvas. Nas costas, carregava uma grande mochila.

Chocada alĂ©m da conta, Talia a encarou. Se nĂŁo fosse pelas diferenças em suas vestimentas, ela teria acreditado estar olhando para um espelho, nem mesmo gĂȘmeas idĂȘnticas seriam tĂŁo parecidas assim.

Sophia lançou um olhar para Talia, agora encolhida no chão com as costas contra a parede, e nem um traço de surpresa perturbou seu sorriso calmo.

— Sinto muito de verdade — disse Sophia. — Havia algo que eu precisava resolver. Embora eu esperasse terminar um pouco mais cedo…

Flick deu um passo para trĂĄs e exclamou:

— Sophia… vocĂȘ nĂŁo tem nada a dizer sobre… ela?!

— Ah, olĂĄ, Flick… Fico feliz em ver que vocĂȘ, e os outros dois cativos, estĂŁo bem. Eu estava preocupada que nem todos estivessem aqui… O que houve? Por que estĂŁo todos apontando seus cajados para mim? — perguntou Sophia, com a voz carregada de compaixĂŁo.

Os aprendizes mantiveram suas posiçÔes; o Ladino a observava com tanta apreensão quanto os outros. Até mesmo Noctus, que achava compreender perfeitamente o quão pouco convencional Sophia podia ser, nunca havia sentido uma sensação tão estranha em relação à sua primeira aprendiz.

— Vou perguntar novamente: vocĂȘ nĂŁo tem nada a dizer diante desta mulher que Ă© a sua cĂłpia exata? — exigiu Noctus.

Havia outras perguntas a serem feitas, mas nenhuma lhe veio à mente naquele momento. Sua primeira aprendiz não havia feito nada para aliviar a inquietação que ele sentia desde que Sophia atravessara a porta.

Ela refletiu sobre a pergunta por alguns instantes antes de sorrir abertamente.

— Isso nĂŁo Ă© exatamente verdade, Mestre. Ela nĂŁo Ă© a minha cĂłpia exata, eu Ă© que sou a cĂłpia exata dela.

Seus dizeres pairaram sobre a sala silenciosa.

— AlĂ©m disso, vocĂȘ Ă© gentil demais ao dizer isso. É verdade que temos estrutura corporal e traços faciais similares, mas hĂĄ muitas diferenças que nos distinguem. Sou um pouco mais alta, e meu peito Ă© um pouco maior, o que faz de Talia um pouco mais leve no geral, e Ă© por isso que estou vestida assim. Mestre, a arte do disfarce se resume a quĂŁo bem vocĂȘ consegue identificar as caracterĂ­sticas-chave do seu alvo e copiĂĄ-las. Geralmente, nĂŁo somos tĂŁo observadores quanto pensamos ser — explicou Sophia, animada.

Respirando fundo, Noctus perguntou:

— O que vocĂȘ quer dizer com isso?

— Isto — disse Sophia, erguendo o capuz — Ă© o que quero dizer.

Sob o capuz, seus cabelos escarlates reluziam. Noctus e os outros aprendizes observavam, perplexos, enquanto Sophia segurava sua longa cabeleira e puxava, um estalo, e a peruca escarlate deslizou de sua cabeça. Por um instante, Noctus pensou que ela havia arrancado os próprios cabelos, até perceber que se tratava de um disfarce.

Revelados sob a peruca, fios curtos de um rosa vibrante surgiram. Os olhos escarlates que antes pareciam combinar perfeitamente com os cabelos de Sophia agora emanavam uma aura completamente diferente.

Noctus, os aprendizes e até mesmo Talia contemplaram Sophia com um novo olhar.

— Vim agradecer a vocĂȘ, Noctus — disse Sitri Smart, a nĂȘmesis de Sophia. Sem seu disfarce, atĂ© mesmo sua voz parecia irreconhecĂ­vel.

— Sitri… Smart…! — exclamou Noctus. — C-Como vocĂȘ… Desde quando tomou o lugar de Sophia?! Como encontrou este lugar?!

Seus aprendizes haviam se afastado da intrusa tanto quanto os limites da sala permitiam, colocando o Devorador de Malícia entre eles e Sitri. Embora o espaço apertado desfavorecesse os Magos, era ainda pior para a Alquimista, fisicamente mais frågil.

— Tomar o lugar de Sophia? — ela repetiu antes de confirmar o pior medo de Noctus. — Não, Mestre. Sempre fui eu.

Impossível, pensou Noctus, sua mente se recusando a aceitar aquela explicação.

Quando soube que Sophia estava na Primeiros Passos, ele nĂŁo teve dĂșvidas sobre onde estava sua lealdade; descartou imediatamente a ideia de que ela estivesse infiltrada enquanto estava com ele, devido Ă  natureza estritamente proibida de seus experimentos. Infiltrada ou nĂŁo, ela poderia enfrentar penalidades severas, especialmente por ter contribuĂ­do para a pesquisa quase tanto quanto Noctus, tornando-se igualmente culpada pelo crime.

— V-VocĂȘ estava esperando para nos capturar por anos?! Sob ordens do Mil Truques?! — perguntou Noctus.

Pela primeira vez desde que entrou, a expressĂŁo de Sitri se anuviou. De forma quase nostĂĄlgica, ela explicou:

— Noctus, vocĂȘ Ă© um Mago entre Magos; tem uma mente brilhante, a dedicação para buscar a verdade e poder suficiente para seguir sua obsessĂŁo atĂ© o fim. NĂŁo me decepcione agora, busquei seu ensinamento porque fui atraĂ­da por seu trabalho, assim como seus outros aprendizes.

— O-O que vocĂȘ estĂĄ dizendo, Sitri…? — murmurou Talia.

Sitri a ignorou e continuou como se estivesse em um transe eufĂłrico:

— Eu admiro tudo em vocĂȘ, Mestre: sua proeza mĂĄgica e conhecimento, que um dia lhe renderam o tĂ­tulo de “Mestre dos Magos”, sua sede insaciĂĄvel por conhecimento, que o levou a pesquisar o proibido sem se importar com seu status, e sua dedicação e meticulosidade, que permitiram reconstruir sua pesquisa apĂłs o exĂ­lio. Pesquisar o mĂ­stico requer um conjunto especial de talentos, e vocĂȘ, talentoso tanto na magia quanto na pesquisa, Ă© inegavelmente um gĂȘnio. Seus aprendizes talentosos concordariam comigo nisso, tenho certeza. VocĂȘ tinha tudo o que eu nĂŁo tinha… Criar Akasha ou o Manipulador de MatĂ©ria MĂĄgica teria sido muito demorado e custoso, sem mencionar o risco, para que eu tentasse sozinha. Como eu disse, vocĂȘ tinha tudo: equipamentos caros, catalisadores e ingredientes raros, pesquisadores talentosos… E vocĂȘ ainda estava disposto a considerar minhas opiniĂ”es, mesmo quando eu ainda nĂŁo o servia hĂĄ muito tempo, Mestre. Foi muito conveniente para mim que vocĂȘ tenha permanecido na capital mesmo apĂłs seu exĂ­lio.

Sitri falava de forma objetiva, sem fervor fanĂĄtico, mas com certeza lĂłgica.

Noctus entendeu seu significado, sentindo um senso de afinidade com sua paixĂŁo. Ainda assim, ela havia ido muito mais longe do que ele ousaria em seu lugar.

— Não tenho nada a ganhar me revelando — continuou Sitri —, exceto demonstrar minha apreciação. Depois de aprender tanto em meu aprendizado, não queria desrespeitá-lo desaparecendo justamente quando o navio começava a afundar.

Finalmente compreendendo a situação, cada um dos aprendizes de Noctus assumiu uma posição de combate com suas armas prontas para atacar; o Ladino também se manteve tenso, em alerta. Eles apenas hesitavam em atacar Sitri, embora ela lhes estivesse dando muitas oportunidades, porque ainda não tinham certeza de onde estava sua lealdade. Afinal, alguém como ela certamente não tinha lugar em uma sociedade respeitåvel.

— Infelizmente, nosso tempo juntos chegou ao fim — disse Sitri com pesar. — Eu gostaria… que pudĂ©ssemos continuar nossa pesquisa por mais um tempo.

Ela permaneceu impassĂ­vel, mesmo quando um dos aprendizes apontou seu cajado para ela, apesar de saber o quĂŁo poderosos eles eram como Magos.

— Noctus, vocĂȘ disse que nĂŁo entendia as intençÔes do Mil Truques, por que Krai se aproximou tanto do nosso esconderijo como se estivesse enviando um aviso. É simples — disse ela com um sorriso. — Ele estava enviando um aviso, para que eu terminasse as coisas e voltasse para ele antes que me metesse em perigo demais.

— I-Impossível — murmurou Noctus.

Ele não conseguia imaginar um Caçador de Nível 8 permitindo que um membro de seu grupo se envolvesse em pesquisas proibidas sob qualquer circunstùncia.

— Mas eu juro pela minha honra, Noctus — disse Sitri —, que nĂŁo traĂ­ sua confiança. NĂŁo contei a alma alguma sobre minha participação em sua pesquisa… E, para ser justa, ninguĂ©m consegue esconder um segredo de Krai.

Toda a cor se esvaiu do rosto de Talia ao ouvir a confissĂŁo de sua colega.

— Eu apenas nĂŁo esperava que esse momento chegasse enquanto eu estivesse fora — continuou Sitri. — Estava tudo pronto quando voltei. Noctus, espero que vocĂȘ perceba o quĂŁo… generoso Krai tem sido. — Ela corou como uma garota apaixonada ao falar sobre as virtudes de seu amado. — Ele nos deu, e a todos nĂłs, uma oportunidade maravilhosa de testar os produtos de nossa pesquisa contra um batalhĂŁo inteiro de caçadores habilidosos. VocĂȘ consegue imaginar o quĂŁo decepcionante teria sido ver nossa pesquisa ser extinguida sem nunca ter sido testada?

Tudo agora fazia sentido. Noctus lembrou-se de como Sophia defendia com paixão que enfrentassem os caçadores de frente.

— V-VocĂȘ Ă© louca…

O entusiasmo de Sitri cresceu como se ela tivesse recebido o melhor elogio que poderia esperar.

— Os resultados falam por si. Houve muitas surpresas ao longo do caminho e, ah, como eu queria que tivĂ©ssemos continuado nosso teste de campo por muito, muito mais tempo… Os fantasmas transfigurados, os Devoradores de MalĂ­cia e Akasha, cada um deles sobrepujou um grupo de quase cem caçadores, com Obsidian Cross e Gark Welter entre eles! Foi um grande, grande sucesso! Tanto que tive dificuldade em contĂȘ-los para que nĂŁo matassem ninguĂ©m!

Olhando para trĂĄs, era estranho que suas forças avassaladoras nĂŁo tivessem matado um Ășnico caçador. TambĂ©m nĂŁo fazia sentido como Sitri havia descoberto tĂŁo facilmente seu esconderijo e identificado as fraquezas de cada ameaça ao longo do caminho. Isso porque todo o conflito havia sido encenado por Sitri, que estava jogando dos dois lados.

— Oh, nĂŁo se preocupe, Noctus — disse ela. — Akasha funcionou maravilhosamente. A Ășnica coisa que eu queria era um ataque em ĂĄrea para lidar com caçadores ĂĄgeis como minha irmĂŁ. Mesmo sua durabilidade, que era minha maior preocupação desde o inĂ­cio, foi mais que suficiente. SĂł pareceu que Krai derrotou Akasha com um Ășnico golpe porque eu mesma o fiz saltar para longe. Eu gostaria de ter continuado testando, mas Sven poderia ter causado danos com seu Golpe Tempestuoso se a luta se arrastasse por mais tempo. Talvez tenha sido melhor assim, afinal!

— V-VocĂȘ jĂĄ terminou?! — gritou Noctus, miserĂĄvel.

Ele havia sido feito de tolo porque depositou sua fé na paixão que testemunhara em Sophia. Com a raiva sobrepujando o medo, Noctus ergueu seu cajado contra sua antiga primeira aprendiz.

— NĂŁo se preocupe. Depois que seus resultados forem confiscados e vocĂȘ for preso como o pior criminoso da histĂłria do impĂ©rio, eu continuarei sua pesquisa. Sua aprendiz devotada passarĂĄ o trabalho da sua vida para a prĂłxima geração; o que mais vocĂȘ poderia esperar? — disse Sitri com a mĂĄxima sinceridade. Todos os sinais sutis que Sophia havia demonstrado, mostrando o quĂŁo desequilibrada estava sob sua mĂĄscara, inundaram a mente de Noctus, que finalmente conectou os pontos.

— HĂŁ… Sitri? Mas por que vocĂȘ se fez… parecer comigo?

— Porque, Talia, eu aprendi com meu erro — respondeu Sitri como se explicasse um fenĂŽmeno natural — que, se vocĂȘ carrega seu nome como um distintivo, nĂŁo hĂĄ escapatĂłria quando a situação aperta, porque hĂĄ um limite para o que se pode fazer. Por isso, tomei emprestada sua aparĂȘncia por um tempo enquanto trabalhava com Noctus: porque seu cabelo e seus olhos sĂŁo tĂŁo lindos… e reconhecĂ­veis. PerdĂŁo.

Uma lĂĄgrima escorreu pela bochecha de Talia, mas nem isso afetou a expressĂŁo de Sitri. Ela era uma buscadora da verdade, uma escrava das estrelas que havia virado as costas para a moralidade sem nem perceber. Sua filosofia extrema fez Noctus se lembrar do tĂ­tulo que lhe fora arrancado.

O Prodígio fora uma Alquimista que produziu resultados notåveis em suas pesquisas no Instituto Primus, assim como Noctus. Sua fama e nível cresceram como uma chama atiçada, até serem abruptamente apagados por um certo incidente, deixando sua reputação reduzida a cinzas.

O incidente abalou todo o impĂ©rio: uma fuga em massa sem precedentes ocorrera na grande prisĂŁo de South Isteria, a maior e mais segura do impĂ©rio, que abrigava caçadores de alto nĂ­vel e Magos extremamente poderosos. Havia claros indĂ­cios de ajuda externa na fuga, e a Alquimista, que havia frequentado a prisĂŁo pouco antes do ocorrido, tornou-se a principal suspeita com base em evidĂȘncias circunstanciais. Embora nĂŁo tenha sido condenada, Sitri foi rebaixada para um nĂ­vel negativo e forçada a carregar um tĂ­tulo incriminador.

— Ignóbil, seu rebaixamento te levou à loucura?! — perguntou Noctus.

A IgnĂłbil riu como se tivesse acabado de ouvir uma piada inteligente.

— Eu realmente odeio esse tĂ­tulo. É horrĂ­vel, nĂŁo acha? NinguĂ©m mais me chama assim… mas, ainda assim, sempre foi a marca do meu fracasso, atĂ© hoje. Mestre, a partir deste dia — disse Sitri, entrelaçando os dedos e adotando um tom de quem concede um tĂ­tulo de cavalaria a alguĂ©m digno — vocĂȘ serĂĄ conhecido como “IgnĂłbil”.

— VocĂȘ nĂŁo terĂĄ essa chance, Sophia! — gritou Flick, seu rosto tingido da cor do sangue fresco.

Num piscar de olhos, Flick lançou uma bola de fogo que poderia facilmente engolfar Sitri.

— PaciĂȘncia, Flick — disse Sitri, quase exasperada. Ela nĂŁo deu nem meio passo para se defender. — Esse sempre foi seu problema: vocĂȘ Ă© muito emocional.

O Devorador de Malícia se lançou no caminho do feitiço, protegendo Sitri do fogo com seu próprio corpo. Sem demonstrar sinal de dor ou ferimento, a quimera arreganhou os dentes para Noctus e seus aprendizes, seus olhos cheios de animosidade, Devoradores de Malícia eram treinados para obedecer a todas as ordens de seu mestre.

Acariciando suavemente a juba da quimera, Sitri disse:

— É preciso dar amor a eles; seres vivos nĂŁo se movem apenas pela lĂłgica. Devoradores de MalĂ­cia sĂŁo muito inteligentes, mas nĂŁo sĂŁo mĂĄquinas. É por isso que eles me protegem acima de qualquer outra pessoa. “Amor e paz”, aliĂĄs, Ă© um dos lemas de Krai.

Outro aprendiz lançou um feitiço por trås dela, mas o Devorador de Malícia chicoteou sua cauda, desviando o ataque.

Mesmo sendo jovem, aquela quimera se movia muito mais rĂĄpido do que qualquer humano ali poderia esperar. A Ășltima linha de defesa de Noctus havia se tornado sua ameaça mais perigosa de repente. Conhecendo as capacidades da quimera, Noctus e seus aprendizes ficaram paralisados.

— Acalme-se, Noctus — disse Sitri. — Demorei tanto para chegar aqui porque… nĂŁo vim apenas para me despedir.

— Chega do seu monólogo! — uivou Noctus.

A relação entre eles, os anos que passaram como mestre e aprendiz, havia se desintegrado, e a confissão de Sitri foi o prego no caixão. Se seu envolvimento viesse à tona, Sitri seria indiciada ainda mais severamente que Noctus. Sua honestidade significava que ela não tinha intenção de deixar Noctus ou os aprendizes saírem vivos. E, por essa mesma lógica, eles também não podiam permitir misericórdia para sua ex-colega.

Veio sozinha, pensou Noctus, seja por arrogĂąncia ou por nĂŁo esperar que todos nĂłs estivĂ©ssemos reunidos… Esse serĂĄ seu erro fatal, traidora!

Noctus e cada um de seus aprendizes eram Magos poderosos e pesquisadores habilidosos. Um Mago conjurando um feitiço poderoso podia causar tanto estrago quanto um esquadrão inteiro de soldados. Havia cinco Magos desse calibre ali, e eles não seriam apenas cordeiros para o abate.

O que a faz ter tanta confiança? perguntou-se Noctus.

A primeira regra ao lutar contra um Magus era não lhes dar tempo suficiente para preparar um feitiço poderoso. E ainda assim, Sitri não deu nem um passo enquanto os Magi gastavam cerca de dez segundos recitando suas invocaçÔes. Assim que Sitri abriu a boca para falar, Noctus lançou seu feitiço.

— Infernal Kaiser! — exclamou o antigo Mestre dos Magos.

Ao seu comando, as chamas do feitiço avançado devastaram uma årea de tamanho médio. Ondas de fogo dourado, quente o bastante para derreter metal, engoliram o Devorador de Malícia e Sitri.

Uma dor latejante percorreu a cabeça de Noctus ao lançar o feitiço ofensivo, algo que ele não fazia hå muito tempo. Mantendo o controle do inferno, ele conteve as chamas e o calor a uma distùncia segura de si mesmo. O fogo lambeu parte da parede e da porta, reduzindo-as a cinzas instantaneamente.

Talia gritou diante das chamas implacĂĄveis, enquanto os aprendizes de Noctus vibravam em triunfo.

À medida que a marĂ© de fogo recuava gradualmente, um Devorador de MalĂ­cia carbonizado foi revelado. Se atĂ© mesmo uma quimera com resistĂȘncia Ă  magia nĂŁo conseguiu suportar as chamas, Noctus nĂŁo tinha dĂșvidas de que a frĂĄgil Alquimista agora nĂŁo passava de um monte de cinzas. No entanto, quando o fogo finalmente se dissipou, um calafrio percorreu os ossos de Noctus.

— Por favor, me escute, Noctus — disse Sitri.

Ela estava lå, sem sequer uma bolha na pele. As paredes, o chão, o Devorador de Malícia e até sua peruca caída no chão haviam sido incinerados.

— I-ImpossĂ­vel…! — murmurou Noctus. — Como vocĂȘ ainda estĂĄ viva?!

Em termos de destruição, esse feitiço era ainda mais poderoso que a obra-prima de Flick.

Sitri suspirou, fez um bico e disse:

— Me ouça, porque nunca mais nos veremos!

Ela segurava um grande frasco em suas mãos, sua tampa aberta revelando um espaço vazio dentro.

— VocĂȘ me deu tanto, Mestre — disse ela. — Como um sĂ­mbolo da minha gratidĂŁo, quero lhe mostrar algo que desejo compartilhar hĂĄ muito tempo. É um pouco perigoso, entĂŁo o confiei aos cuidados de Krai. Mas ele deve ter percebido que eu queria mostrĂĄ-lo a vocĂȘ antes de nos separarmos para sempre, entĂŁo me guiou atĂ© ele, demorei um pouco para encontrĂĄ-lo nos esgotos antes de finalmente chegar aqui.

O que ela está balbuciando? O que diabos ela poderia ter trazido? — pensou Noctus, enquanto observava o Devorador de Malícia carbonizado e meio morto tentando se afastar de Sitri.

Explicando com a mesma paixĂŁo que Sophia demonstrava ao falar de seus experimentos, Sitri disse:

— É quase o oposto de um fantasma transfigurado, Ă© um slime revolucionĂĄrio, extremamente adaptĂĄvel. Um fantasma transfigurado converte o material de mana que compĂ”e seu corpo em uma fonte de mana; este slime absorve mana e material de mana ao seu redor e cresce se alimentando disso. Eu realmente me orgulho dele.

— O quĂȘ…?!

Aos pĂ©s de Sitri, uma massa translĂșcida se contorcia. Noctus finalmente percebeu o slime dourado, que parecia ter o tamanho exato para caber no frasco que ela segurava. Noctus nunca havia ouvido falar sequer de uma teoria sobre uma criatura assim, mas seu sangue gelou ao considerar as implicaçÔes da descrição de Sitri.

O mundo estava repleto de material de mana. Todo ser vivo absorvia material de mana e dele derivava sua energia. Essa mesma força dava origem a cofres de tesouros, fantasmas e Relíquias, além de conceder aos caçadores suas habilidades sobre-humanas. Se a descrição de Sitri era precisa, um slime que se alimentava do material de mana dos outros poderia, por extensão, devorar o mundo inteiro, aquela massa dourada representava uma ameaça muito maior ao mundo do que toda a pesquisa de Noctus ao longo da vida.

— VocĂȘ enlouqueceu de verdade? — perguntou Noctus a Sitri. — Uma abominação dessas seria perigosĂ­ssima!

— Mas hĂĄ uma coisa que nĂŁo consegui acertar, seu apetite continua insaciĂĄvel, nĂŁo importa o que eu tente. Consegui ensinĂĄ-lo que Krai e eu nĂŁo somos comida, mas sĂł isso. Um monstro incontrolĂĄvel nĂŁo Ă© um recurso viĂĄvel; mal serve como Ășltimo recurso. EntĂŁo eu esperava que vocĂȘ pudesse me aconselhar sobre isso antes de… bem, eu sabia que era um tiro no escuro.

EntĂŁo, o slime se esticou sobre o trĂȘmulo Devorador de MalĂ­cia. Assim que foi envolvido pela criatura, a quimera foi imediatamente dissolvida, juba e escamas incluĂ­das. Rapidamente, a cor do slime mudou de dourado para o mesmo cinza-escuro que o Devorador de MalĂ­cia possuĂ­a. SĂł entĂŁo Noctus percebeu que o slime sĂł era dourado porque havia absorvido seu feitiço.

Sorrindo para ele, Sitri disse:

— Muito bem, Noctus, este Ă© o outro motivo pelo qual vim. Eu o convido a me ajudar a testar o Slime Sitri. Que sorte a minha poder testĂĄ-lo contra um Magus do seu calibre.

— Corra, Mestre! — gritou Flick enquanto lançava um feitiço.

Os aprendizes de Noctus eram talentosos o suficiente para justificar seu orgulho. Ao verem que um feitiço ofensivo não surtiu efeito no slime, mudaram completamente de estratégia. O feitiço de Flick encheu a sala com uma fumaça densa e cegante, ocultando o Slime Sitri.

— Se a deixarmos viver… ela serĂĄ uma ameaça grave para a Torre Akashic. NĂłs… vamos segurĂĄ-la!

— Flick… Eu, uma ameaça para a Torre Akashic? — chamou Sitri, desolada, do outro lado da fumaça. — Eu sou a personificação da filosofia deles.

Ignorando-a, Flick continuou com a voz fortalecida pela determinação:

— Sophia veio sozinha. VocĂȘ pode escapar se conseguir sair daqui. Contate a sede. Ela estarĂĄ acabada!

Noctus sentiu a força percorrendo seu corpo, fruto dos feitiços de fortalecimento que seus aprendizes haviam lançado nele.

O Slime Sitri era poderoso demais. Ao ver como ele absorvera facilmente o feitiço de Noctus, ficou claro que nem cinco Magi juntos poderiam enfrentå-lo.

— VocĂȘ tem certeza, Flick? — disse Sitri, com um leve tom de surpresa na voz. — Noctus favoreceu Sophia em vez de vocĂȘ, mesmo depois de tanto tempo servindo a ele. Isso feriu seu orgulho; por que nĂŁo foge em vez de morrer para protegĂȘ-lo?

— NĂŁo ouse me insultar! Eu nĂŁo sou como vocĂȘ! — gritou Flick. — Eu respeito o Professor Noctus! Eu o reverencio! Mesmo que ele nĂŁo veja grande utilidade em mim!

RĂĄpido de raciocĂ­nio e um gĂȘnio Ă  sua prĂłpria maneira, Flick era um aprendiz mais que capaz. Noctus nunca considerou seu orgulho um defeito e suspeitava que Flick poderia superĂĄ-lo na arte da magia um dia. Agora, Noctus se arrependia de ter valorizado um novo talento em detrimento de seu aprendiz mais antigo.

Tendo calculado inĂșmeras alternativas em um piscar de olhos, Noctus simplesmente disse:

— Estou contando com vocĂȘ, Flick.

— Sim, senhor! — respondeu Flick.

Noctus nĂŁo esperava que seus aprendizes sobrevivessem. Mas se ele perecesse no lugar deles, os que restassem nĂŁo teriam como chegar Ă  Torre AkĂĄshica. Ele nĂŁo deixaria o sacrifĂ­cio de Flick ser em vĂŁo.

A pequena passagem havia sido ampliada quando o feitiço de Noctus queimou parte da parede. Ele disparou para dentro da densa fumaça. Logo atrås dele, uma sucessão de feitiços foi lançada.

EntĂŁo, Sitri engasgou.

— Espera—mova-se! — ela gritou.

A aposta de Noctus valeu a pena. Ele conseguiu sair da sala sem esbarrar em Sitri ou no slime. Lançando um feitiço de vento para se impulsionar mais råpido, ele avançou pelo corredor em uma velocidade incomum para alguém de sua idade.

Nenhum sinal de perseguidores.

Correndo e arfando, Noctus se tranquilizou ao lembrar que o forte de Sitri era a pesquisa. Se ela fosse tão fisicamente capaz quanto os caçadores de um grupo de Nível 8, ele jamais teria passado por ela. Mas agora que conseguira, sabia que Sitri não conseguiria alcançå-lo. Ainda assim, ele se recusava a diminuir o ritmo.

Como todo esconderijo decente, aquele tinha duas saĂ­das. Noctus correu para a que o levaria a um beco escuro. Assim que estivesse ao ar livre, poderia voar usando magia, e nem mesmo a presença reforçada dos cavaleiros patrulhando a cidade seria capaz de detĂȘ-lo.

Se conseguisse avisar a Torre Akåshica sobre a traição de Sitri, ela estaria condenada. E só teria a si mesma para culpar por querer inflar o próprio ego ao se revelar.

Noctus emergiu do subsolo em um beco sujo, de pavimento rachado. A alguns passos dali, um vagabundo vestindo um casaco pesado estava sentado.

Ainda sem sinal de perseguidores.

Sem perder um segundo, Noctus começou a conjurar um feitiço de voo. Seu corpo foi elevado no ar, e seu coração estava firme com a determinação de vingar seus aprendizes e fazer Sitri pagar por zombar da Torre Akåshica, um sentimento bem diferente da obsessão que o fez continuar sua pesquisa após o exílio.

Mas assim que sentiu a rajada de vento que o levaria aos céus, um impacto violento o atingiu de lado. Seu mundo girou enquanto ele despencava escada abaixo. Uma dor aguda percorreu suas costas e braços conforme rolava degrau por degrau. Quando finalmente alcançou o chão, Noctus, ainda com o cajado na mão, se obrigou a se levantar.

No topo da escada, estava o mesmo vagabundo do beco. Um casaco imundo escondia seu rosto e parte do corpo enquanto ele pairava ameaçadoramente sobre a entrada.

Quase por reflexo, Noctus lançou um feitiço com a velocidade de conjuração que apenas décadas de dedicação poderiam proporcionar. Uma tempestade de bolas de fogo envolveu o vagabundo, incendiando seu casaco, mas a figura sequer reagiu. Ainda envolto em chamas, o vagabundo desceu os degraus em disparada.

— O quĂȘ?!

Lutando contra a confusĂŁo, Noctus desferiu uma sequĂȘncia de feitiços: lĂąminas de vento, lanças d’ĂĄgua, raios elĂ©tricos… Ele lançou tudo o que podia contra seu atacante misterioso. Mas o adversĂĄrio nĂŁo dava sinais de querer parar.

A mente de Noctus estava atordoada.

Eventualmente, seus feitiços rasgaram o casaco do agressor, revelando a figura por baixo, um humanoide enorme, quase nu, pelo que Noctus podia dizer. Seus mĂșsculos eram exageradamente volumosos, muito alĂ©m dos limites do corpo humano, e sua pele acinzentada o distinguia de uma pessoa comum. Ele nĂŁo vestia nada alĂ©m de uma sunga vermelha berrante cobrindo suas partes Ă­ntimas e um saco de papel na cabeça. Noctus nunca havia visto nada parecido.

— Oh, que bom — chamou uma voz atrĂĄs dele. — Essa Ă© outra das minhas peças que eu queria que vocĂȘ visse, Noctus. Para proteger a integridade do nosso experimento, eu nĂŁo podia muito bem levĂĄ-la atĂ© a Toca do Lobo Branco, entĂŁo nĂŁo tive a chance de lhe mostrar. Agora nĂŁo tenho mais arrependimentos.

Noctus nĂŁo conseguia desviar o olhar. O olhar sem emoção o encarava atravĂ©s dos buracos cortados no saco de papel sobre sua cabeça. Apesar da aparĂȘncia humanoide, a “peça” de Sitri exalava uma aura inumana, como se fosse a prĂłpria manifestação da violĂȘncia pura.

— Noctus, eu acredito que a fraqueza do Akasha estĂĄ no seu custo e na sua incompletude. Por mais poderoso que seja, nĂŁo terĂ­amos conseguido criĂĄ-lo sem os fundos ilimitados da Torre AkĂĄshica e sua tecnologia avançada. AlĂ©m disso, o Akasha acabaria sendo superado eventualmente, se o nĂ­vel do cofre do tesouro ficasse alto o bastante. Essa foi a solução que eu encontrei, o que acha?

A criatura misteriosa começou a se aproximar lentamente de Noctus, cuja mente brilhante agora estava completamente confusa. Ele não conseguia explicar o ser que avançava em sua direção.

Sitri continuou:

— Isso Ă© meio embaraçoso, mas eu precisava de poder, rĂĄpido. Foi por isso que desisti de pesquisar golens por conta prĂłpria e decidi me concentrar em quimeras.

— Quimeras…? — Noctus tremia. ImpossĂ­vel. Que criaturas ela combinou para criar essa aberração? Isso Ă© loucura.

Sua mente sabia a resposta, mas sua humanidade se recusava a aceitĂĄ-la. A durabilidade para suportar uma enxurrada de feitiços sem um arranhĂŁo, a enorme energia pulsando a partir dela…

Isso só pode ser—

— Eu… realmente queria os ingredientes certos. VocĂȘ sabia, Noctus, que eu sou a integrante mais fraca dos Grieving Souls? Se eu deixasse dilemas morais me segurarem, nunca conseguiria acompanhĂĄ-los.

De repente, todas as peças se encaixaram na mente de Noctus. Os prisioneiros que escaparam na fuga da grande prisão eram todos caçadores de alto nível que não podiam ser contidos em prisÔes comuns, e a maioria dos fugitivos ainda estava foragida, mesmo depois de vårios anos.

Lentamente, quase como se fosse um fantoche movido por fios invisĂ­veis, Noctus se virou. A visĂŁo de Sitri quase tirou seu fĂŽlego.

— EntĂŁo vocĂȘ… era culpada disso, afinal? — ele sussurrou.

— Cometi um erro. Mas aprendi muito com ele. SĂł havia partes utilizĂĄveis para fazer um, mas vocĂȘ tem que admitir como ficou impressionante. Eu o chamei de… Matadinho — disse Sitri, movendo os olhos para alĂ©m do ombro de Noctus. — Diga “oi”.

— Matar… — veio uma voz aguda e dissonante com o tamanho de Matadinho, vinda de dentro do saco de papel.

Noctus estremeceu diante da vileza da criatura e, ainda mais, pelo fato de que Sitri Smart continuava uma mulher livre, mal responsabilizada por seus crimes, enquanto ele prĂłprio havia sido exilado por suas pesquisas.

— IgnĂłbil…!

— NĂŁo se preocupe; eu nĂŁo vou te matar. Ainda sou uma caçadora — disse Sitri. — Mas suas memĂłrias… essas eu vou ter que apagar.

Levantando seu cajado em desespero, Noctus começou uma invocação. Antes que tudo se apagasse, ele viu a mĂĄscara de caveira sorridente e ouviu o grito “Matar…” em seu ouvido.


Tradução: Carpeado
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