Grieving Soul â CapĂtulo 5 â Volume 2
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 02
CapĂtulo 5:
[A ProdĂgio]
â Krai, eu quero me tornar a peça que falta no nosso grupo.
Foi isso que Sitri me disse quando ainda estĂĄvamos decidindo que tipo de caçadores de tesouros querĂamos ser. Mesmo naquela Ă©poca, ela era, em contraste com sua irmĂŁ, quieta, gentil e brilhante.
â Eu nĂŁo sou forte, entĂŁo pensei: âDessa forma, poderemos continuar juntos…â
Enquanto os outros escolheram seus papĂ©is com base no que queriam fazer, Sitri tomou sua decisĂŁo com um critĂ©rio completamente diferente. Liz sempre correu rĂĄpido, Luke quase nunca perdeu uma luta, Ansem sempre foi confiĂĄvel em momentos difĂceis e Lucia sempre soube lançar alguns feitiços bĂĄsicos. Mas Sitri nĂŁo tinha nada disso, nĂŁo possuĂa um talento evidente. E isso moldou sua forma de pensar. Antes mesmo de completarmos dez anos, Sitri jĂĄ enxergava o quadro geral melhor do que qualquer um de nĂłs. Ela tomou sua decisĂŁo pensando no que era melhor para o grupo.
Então, eu dei um tapinha na cabeça dela e sugeri:
â Qual Ă© aquela classe mesmo? VocĂȘ gosta de ler, Sitri, entĂŁo… O Alquimista! Ă essa.
SĂł um ano depois descobri que Alquimistas precisavam de fundos exorbitantes e conhecimento profundo para aprimorar sua arte, e que nem era uma classe considerada adequada para caça ao tesouro. Mas, naquela altura, Sitri jĂĄ estava irreversivelmente imersa na profissĂŁo. Por sorte, ela tinha um talento nato para aquilo, tanto que as pessoas começaram a chamĂĄ-la de “A ProdĂgio”.
E foi assim que fiquei em dĂvida com ela atĂ© hoje. Mesmo que nĂŁo estivesse, era natural querer ajudar uma companheira que se esforçava atĂ© os ossos pelo grupo (embora parecesse que ela gostava muito disso).
No escritĂłrio da mestra do clĂŁ, a irmĂŁ de Sitri estava grudada em mim como uma mosca no mel.
â Por que a Siddy pode ir e eu nĂŁo?! Por quĂȘ? Por quĂȘ? Por quĂȘ?! â ela protestava, reclamando sem parar no meu ouvido.
Eu sĂł assentia, quase embalado pelo lamento dela.
â Ă… Aham… VocĂȘ nĂŁo vai.
Enquanto isso, Tino nos espiava por trĂĄs do sofĂĄ, tentando se manter segura.
â Krai, quero que confie em mim e me deixe liderar essa missĂŁo! â Sitri me pediu do nada.
Resumidamente, ela me explicou que as mudanças na Toca do Lobo Branco poderiam estar ligadas a um caso que ela investigava hå anos. Eu não entendia bem o que ela estava perseguindo, mas aparentemente não era algo relacionado a caça ao tesouro. Apesar de achar uma pena que ela jå tivesse que sair para outra missão logo após voltar, eu não ia recusar se ela parecia tão determinada. Nunca quis liderar essa missão de qualquer forma. Com a brilhante Sitri no comando, eu não tinha do que reclamar, e os outros caçadores também não deveriam.
Com um olhar melancĂłlico, ela fez outro pedido:
â E, se possĂvel… por favor, nĂŁo deixe minha irmĂŁ solta por aĂ.
Seus olhos me encaravam com tristeza.
Ronronando, Liz se jogou no meu colo e envolveu os braços ao redor do meu pescoço.
â Favoritismo nĂŁo Ă© bonito, Krai… a nĂŁo ser que seja a meu favor. Eu nĂŁo sou sua favorita?
Um calor agradĂĄvel se espalhou pelo meu colo. A sensação dela era tĂŁo macia que eu mal podia acreditar que aquelas pernas eram capazes de matar alguĂ©m. Em seus olhos rubi-pĂĄlido, vi meu prĂłprio rosto com uma expressĂŁo ridĂcula refletida. Se Eva visse isso, com certeza me consideraria um canalha, isso se, por milagre, jĂĄ nĂŁo considerasse.
Por que Liz quer se jogar na batalha o tempo todo? SĂł de pensar em entrar naquele cofre jĂĄ me dĂĄ vontade de vomitar.
Se eu deixasse Liz solta agora, havia uma chance real dela ficar tĂŁo empolgada que acabaria matando todo mundo na Toca do Lobo Branco. Para falar a verdade, nem sei se a prĂłpria Sitri conseguiria segurĂĄ-la.
Agora que penso nisso, “solta” Ă© uma maneira bem depreciativa de descrever isso.
â Krai, nĂŁo me deixa de fora, tĂĄ? Por favor? â Liz continuou insistindo.
â Se alguĂ©m tĂĄ de fora aqui, sou eu â respondi.
Mas, pensando bem, eu tinha a Tino. Com certeza ela ainda estava do meu lado, né? Só que, quando olhei para ela, ela simplesmente virou o rosto para o outro lado.
O que foi agora?
â Eu vou me comportar. Prometo â Liz implorou. â Siddy pode acabar morrendo sozinha! Ela Ă© uma Alquimista, a mais fraca de nĂłs. Se o Matadinho nĂŁo estivesse em manutenção, seria outra histĂłria… Eu tĂŽ preocupada, Krai. Posso ir?
Agora ela estava tentando outro ùngulo. Como se realmente estivesse preocupada com a segurança da Sitri.
Matadinho era a “criatura mĂĄgica” que Sitri costumava carregar como guarda-costas. Com um fĂsico semelhante a uma pedra cinza, aquele humanĂłide gigante nĂŁo usava nada alĂ©m de um saco com buracos para os olhos na cabeça e uma sunga vermelha berrante na cintura. Para qualquer um, matadinho parecia um humano extremamente perturbado, mas quem era eu para discutir com Sitri quando ela o chamava de criatura mĂĄgica? Quanto ao que ele realmente era, eu nĂŁo fazia a menor ideia… E normalmente evitava pensar muito no assunto.
O nome, aliĂĄs, vinha do fato de que a Ășnica palavra que ele sabia dizer era “Matar”.
Talvez eu levasse isso menos a sĂ©rio se ainda fosse o tipo de caçador que enfrenta cofres do tesouro com os amigos…
Ainda agarrada a mim, Liz sussurrou mais palavras açucaradas no meu ouvido:
â Eu quero ir, Krai. VocĂȘ nĂŁo se importa, nĂ©? Diz que sim! Eu vou ser uma boa menina, juro!
â NĂŁo Ă© nĂŁo â eu disse, sem ceder Ă birra infantil da Liz.
Sitri descobriu o trabalho de Noctus pela primeira vez quando ainda carregava o tĂtulo de “A ProdĂgio”. O Instituto Primus, a maior autoridade em ciĂȘncia mĂĄgica e fronteira das novas descobertas em Zebrudia, havia se interessado pela pesquisa Ășnica de Sitri na Ă©poca e concedeu a ela uma permissĂŁo especial para acessar uma das bibliotecas proibidas. Entre suas coleçÔes, encontrou a tese âA Natureza da MatĂ©ria MĂĄgica e o Potencial dos Cofres do Tesouroâ, escrita por Noctus Cochlear, o Mestre dos Magos.
Sob seu tĂtulo simples, a tese escondia uma ideia perigosa que garantiu seu lugar em uma biblioteca inacessĂvel para a maioria: a possibilidade de manipular um cofre do tesouro sem alterar sua paisagem, apenas ajustando certas caracterĂsticas da matĂ©ria mĂĄgica. Poucos testes haviam sido documentados no artigo, mas com esse conhecimento, segundo a teoria proposta, seria possĂvel fazer qualquer coisa, desde destruir cofres do tesouro existentes atĂ© reconstruĂ-los do zero a um custo mĂnimo, feitos alĂ©m das limitaçÔes humanas.
Se um mago qualquer tivesse apresentado essa teoria, teria sido ridicularizado e expulso do Instituto. A Ășnica razĂŁo para Noctus ter recebido apenas a punição de exĂlio do impĂ©rio, apesar de ter cometido um dos dez crimes capitais, era a extravagĂąncia de sua tese. AtĂ© mesmo o prĂłprio documento nunca foi queimado, apenas trancado a sete chaves.
A experiĂȘncia de Sitri como caçadora de tesouros ajudou-a a reconhecer o perigo do tema apresentado no artigo. Embora uma tese fosse tĂŁo concreta quanto um sonho distante, essa abria a possibilidade de tornar o sonho realidade. Mas Sitri sabia, sem sombra de dĂșvida, que o autor da tese um dia testaria sua teoria no mundo real. Sua sede de conhecimento, orgulho ou talvez desejo de vingança contra a capital que o expulsou certamente impulsionariam Noctus a levar seu experimento adiante.
Sitri considerava Noctus, banido ou não, um colega dela no Instituto Primus. Assim começou a solitåria batalha de Sitri Smart.
A narrativa objetiva de Sitri sobre sua descoberta passada silenciou todo o acampamento, era algo inacreditĂĄvel.
Um dos agentes do Escritório de Investigação de Cofres que havia chegado com Gark gritou, quase espumando pela boca:
â I-Isso Ă© impossĂvel! Noctus foi banido permanentemente por divulgar essas bobagens, nunca mais teve permissĂŁo de pisar na capital! E agora vocĂȘ estĂĄ falando sobre… a Torre AkĂĄshica?!
O olhar do agente parecia questionĂĄ-la ainda mais: Mesmo que esteja dizendo a verdade, por que estĂĄ investindo tanto tempo e esforço em uma tese que apenas encontrou por acaso? Mas a dĂșvida e o medo do agente nĂŁo abalaram Sitri nem um pouco.
â NĂŁo espero que acreditem em mim â disse ela. â Por isso estou perseguindo o Mestre dos Magos sozinha. Mas considerem as recentes anomalias neste cofre do tesouro: aquela coisa viscosa de antes deve ter sido um subproduto dos experimentos dele.
A verdade Ă© mais estranha do que a ficção, pensou Sven. NĂŁo posso confirmar o que ela disse sem mais informaçÔes, mas faz sentido. E se ela estiver certa, Ă© possĂvel que eles destruam todos os cofres do tesouro existentes. E isso precisamos impedir a qualquer custo.
A outra Alquimista do grupo, Talia, de cabelos carmesim, levantou a mĂŁo timidamente e perguntou:
â EntĂŁo o dispositivo deve estar no subsolo… certo?
â Sim â respondeu Sitri. â A teoria dele exige um dispositivo de grande porte para produzir o efeito desejado. Mas considerando que o dispositivo Ă© o ponto central da pesquisa, duvido que possamos encontrĂĄ-lo agora. Pelo que vimos ao lutar contra aquele monstro, nossos oponentes jĂĄ estĂŁo preparados para a batalha.
â O quĂȘ…? â disse Talia, arregalando seus olhos carmesim.
Sem dar mais atenção a Talia, Sitri olhou ao redor do grupo de caçadores. Todos ainda podiam lutar, exceto Gein.
â Vou interrogar os Magi que Gein capturou â disse ela. â Se aquela coisa era um Cavaleiro Lobo transformado Ă força por uma poção, posso imaginar que a Torre AkĂĄshica tem um ataque seguinte preparado e estĂĄ pronta para agir.
O batalhĂŁo ficou inquieto com a perspectiva de uma nova onda de gosmas falsas que teriam que enfrentar, uma daquelas criaturas jĂĄ era ruim o suficiente.
â M-Mas podemos jogar aquela haste contra eles… certo? â perguntou Marietta. Parte da cor havia voltado ao seu rosto depois de um breve descanso.
â Sinto muito. Mas aquela era minha Ășnica peça de metal antimana. Nunca poderia imaginar que encontraria algo assim…
â Krai nĂŁo te contou? â perguntou Lyle.
Sitri apenas inclinou a cabeça e disse:
â Contar o quĂȘ?
Parece que o Mil Truques mantém seus próprios companheiros tão no escuro quanto o resto de nós, pensou Sven.
A flecha de Sven jĂĄ havia obliterado a haste que Sitri jogou na primeira gosma falsa. Talvez pudessem encontrar um fragmento dela na ĂĄrea, mas Sven duvidava que isso fosse suficiente para derrotar outra gosma falsa, muito menos vĂĄrias. O metal antimana era tĂŁo raro que ninguĂ©m poderia culpar Sitri por nĂŁo carregar mais consigo, independentemente de sua intenção original ao trazĂȘ-lo.
Vendo que o medo havia tomado seus companheiros caçadores, Sitri disse:
â Mas sinto que podemos vencĂȘ-los. A barreira nĂŁo Ă© perfeita, e nĂŁo durarĂĄ para sempre, pois consome muita mana. Vou analisar como funciona e encontrar um jeito de superĂĄ-la. Com tantos caçadores juntos, nĂŁo serĂĄ tĂŁo difĂcil.
O tom calmo de Sitri parecia reconfortante, especialmente depois de ter derrotado a primeira gosma falsa com tanta facilidade. E ela continuou:
â Embora eu nĂŁo consiga liderar como Krai, farei o melhor que puder. Como Alquimista, nĂŁo tenho o necessĂĄrio para lutar sozinha, preciso da ajuda de todos vocĂȘs.
Então, ela passou instruçÔes ao grupo, e todos se dispersaram conforme o planejado.
Observando Sitri partir, Henrik trocou algumas palavras com Sven.
â Ela encara isso de forma muito madura â disse ele, seus olhos brilhando com quase admiração demais por uma caçadora que acabara de conhecer.
â HĂŁ…? Ă, claro â disse Sven.
â Quem admite que Ă© fraco em combate? Um ClĂ©rigo estĂĄ longe de ser a melhor classe para lutar, mas vocĂȘ nunca me ouviria dizer isso em pĂșblico.
â Como eu disse, Sitri Ă© uma fraca forte.
â O quĂȘ…?
Sven olhou para o novato com um olhar afiado e disse:
â Cuidado, Henrik; nĂŁo se deixe levar. Sitri Ă© traiçoeira. Ela Ă© forte; tem sido hĂĄ anos, independentemente de como se vĂȘ.
Afinal, alguém tão fraco perseguiria um Magus herege sozinha? Alguém tão indefeso ficaria tão calma diante daquela gosma falsa que nunca havia visto antes? Não importava se tecnicamente fora Sven quem deu o tiro final na criatura. Algo não batia.
â Sitri acha que pode fazer qualquer coisa porque Ă© âfracaâ; que sempre deve usar todos os meios ao seu dispor. Ela Ă© mais do que aparenta, Henrik. Pelo que sei, Sitri Ă© tĂŁo excĂȘntrica quanto o resto dos Grievers.
â Entendi…! â disse Henrik.
Enquanto o restante do batalhĂŁo se reidratava e recuperava mana com poçÔes, Gein e alguns outros retornaram com os dois Magi responsĂĄveis pela criação da gosma falsa. Pelo visto, ainda estavam caĂdos no chĂŁo. Os Magi da Torre AkĂĄshica se debatiam inutilmente sobre os ombros dos poderosos caçadores que os traziam. Como dois vermes, foram jogados no chĂŁo, cercados pelo batalhĂŁo. Embora tivesse lhe custado o braço direito, Gein havia conseguido uma captura valiosa ao deter esses Magi.
Sven olhou para a dupla caĂda no chĂŁo: um homem de meia-idade de pele bronzeada e cabelos escuros, e outro que parecia nĂŁo ter visto o sol hĂĄ meses. Sven havia memorizado a maioria dos cartazes de procurados, mas nenhum deles retratava esses Magi.
Com suor escorrendo pelo rosto, um dos Magi disse:
â NĂŁo me diga que vocĂȘs derrotaram…!
â VocĂȘs trabalham para Noctus Cochlear, nĂŁo Ă©? â perguntou Sitri do nada.
As expressÔes deles mudaram, e agora estavam olhando para Sitri de olhos arregalados.
Sitri era tão pequena e frågil que quase parecia uma criança comparada aos Magi capturados. Mas seus rostos se retorceram ao reconhecerem Sitri, que sorriu para eles. Contrastando com a expressão aterrorizada dos homens, ela quase parecia um gato brincando com sua presa.
â Meu nome Ă© Sitri Smart â ela começou. â Responda minhas perguntas e eu garanto que vocĂȘs dois saiam vivos. Onde estĂĄ o Mestre dos Magos?
â Ha! Como se tivĂ©ssemos medo de morrer! VocĂȘ nunca descobrirĂĄ onde ele estĂĄ â disse um dos Magos com um sorriso feroz, seus olhos brilhando com determinação.
Um tĂpico sinal de um osso duro de roer, observou Sven. Vamos ver como vocĂȘ lida com isso, Sitri.
â Entendo… Obrigada â disse Sitri animadamente, juntando as mĂŁos. â SĂł queria confirmar que vocĂȘs realmente trabalham para ele.
SerĂĄ que a Sitri estĂĄ certa sobre tudo, afinal? perguntou-se Sven, embora nĂŁo tivesse nenhum motivo real para duvidar dela, alĂ©m da improbabilidade de sua teoria. Agora, ele via semelhanças entre a tĂĄtica dela e a previsĂŁo do Mil Truques, no sentido de que ambos extraĂam informaçÔes dos menores detalhes. AtĂ© agora, ele preferia o mĂ©todo da Sitri, pois pelo menos ela oferecia algum tipo de explicação.
Com os dois prisioneiros tremendo em silĂȘncio no chĂŁo, Sitri se agachou atĂ© o nĂvel deles e disse:
â SĂł para que saibam, eu venho caçando vocĂȘs hĂĄ muito tempo. SĂł nĂŁo esperava que começassem suas açÔes justamente enquanto eu estava fora no meu trabalho. HĂĄ muito que jĂĄ sei sobre vocĂȘs, e muitas preparaçÔes que jĂĄ fiz antecipadamente. Se possĂvel, quero evitar recorrer Ă violĂȘncia. EntĂŁo vou perguntar sĂł mais uma vez: onde estĂĄ Noctus Cochlear?
Sob seu sorriso impecĂĄvel, seus olhos brilhavam em busca de respostas. O sorriso parecia tĂŁo deslocado em um interrogatĂłrio que drenou a cor dos rostos dos Magos capturados, mas mesmo assim eles continuaram de boca fechada.
â Dor nĂŁo Ă© minha ferramenta preferida de interrogatĂłrio. EntĂŁo… trouxe comigo uma poção que acho que pode ajudar a soltar suas lĂnguas um pouco.
Abrindo rapidamente a bolsa de poçÔes presa ao seu cinto, ela tirou um frasco contendo um lĂquido de cor lavanda. Talia arfou em silĂȘncio ao ver aquilo.
Um dos agentes do Bureau exclamou asperamente:
â Isso nĂŁo pode ser um frasco de Kakia!
Nenhuma resposta.
â Essa Ă© uma poção perigosa que pode afetar a mente deles. Zebrudia proibiu seu uso e fabricação sob qualquer circunstĂąncia! NĂŁo ouse usar isso como um soro da verdade! E como conseguiu colocar as mĂŁos nisso?! Foi vocĂȘ mesma que preparou?
Além de servir como soro da verdade, a droga também podia ser usada para apagar memórias ou até mesmo para lavagem cerebral. A expressão nervosa do agente enquanto apertava o pulso de Sitri era um indicativo do quão perigosa Kakia podia ser.
â Tempos desesperados â disse Sitri. â NĂŁo temos muito tempo antes que eles escapem.
â VocĂȘ ousa quebrar a lei tĂŁo descaradamente na frente de um oficial?!
â Sim; em busca da justiça. â Sitri fez um gesto como se estivesse cobrindo os ouvidos â nĂŁo ouvir o mal.
A fĂșria parecia reluzir em uma gama de cores na expressĂŁo do agente.
O que ela estĂĄ pensando…? perguntou-se Sven.
Seja qual fosse o motivo de Noctus e sua equipe para atacarem os caçadores, Sven sabia o quão cautelosos os Magos eram. Fazia sentido, como Sitri havia dito, que eles não ficariam mais tempo do que o necessårio. Mas ainda assim, dois erros não fazem um acerto. Os caçadores reunidos ali não eram criminosos acostumados a atos ousados de ilegalidade. Se Sitri tivesse usado a droga ilegal discretamente, seria uma coisa. Mas quase exibi-la diante daquela multidão parecia arriscado demais.
Comandando cada par de olhos no acampamento, Sitri disse com um meio sorriso:
â Estou brincando… Isso aqui Ă© sĂł ĂĄgua colorida.
â O quĂȘ?!
â Veja. â Sitri puxou a rolha do frasco e bebeu seu conteĂșdo antes que alguĂ©m pudesse detĂȘ-la. Os Magos do batalhĂŁo assistiram horrorizados enquanto ela engolia o lĂquido e limpava a boca com as costas da mĂŁo. A luz gentil em seus olhos pareceu piscar por um momento.
â EstĂĄ tudo bem. Eu desenvolvi uma imunidade a ĂĄgua colorida. AlĂ©m disso, parece que estamos sem tempo. Vamos guardar as perguntas para depois.
Seguindo o exemplo de Sitri, Sven percebeu que o chão estava tremendo levemente. Os caçadores não perderam tempo em se armarem, entendendo o que estava por vir. Alguns estavam pålidos de medo, outros endurecidos pela determinação, e alguns ainda estavam olhando para Sitri.
Amarrado e se contorcendo no chĂŁo, um dos Magos de Noctus gritou freneticamente:
â Aqui vĂȘm os reforços! Este Ă© o fim! Morte a todos que se opĂ”em Ă nossa nobre causa!
Gark pegou sua alabarda RelĂquia da carruagem e se posicionou para proteger os dois nĂŁo combatentes.
Sons de ĂĄrvores sendo derrubadas e uma cacofonia de guinchos familiares se aproximavam rapidamente.
Sven estalou a lĂngua e disse:
â EntĂŁo hĂĄ mais deles!
â Imaginei isso pelo que Gein nos contou â disse Sitri. â Eles provavelmente sĂŁo um modelo de produção em massa.
â Produção em massa… NĂŁo gosto do som disso. Algum plano? â perguntou Sven.
â Vamos atacar em turnos, começando com ataques fĂsicos. Uma barreira de mana pode proteger seu usuĂĄrio refletindo, desviando ou bloqueando ataques. Talvez pressĂŁo contĂnua possa empurrar uma lĂąmina atravĂ©s dela, ou um certo elemento mĂĄgico possa atravessĂĄ-la. De qualquer forma, testes revelarĂŁo sua fraqueza. JĂĄ derrotei esse fantasma uma vez, eu lidero.
A calma de Sitri parecia se espalhar para os outros caçadores enquanto formavam um cĂrculo ao redor dela. Sua tĂșnica folgada a fazia parecer mais uma estudiosa do que uma caçadora se preparando para o combate, mas ninguĂ©m parecia se importar com isso.
â Temos o DemĂŽnio da Guerra ao nosso lado. Eles nĂŁo devem ser um problema â disse Sitri.
Gark riu.
â O ex-DemĂŽnio da Guerra, para vocĂȘ. Estou aposentado, garota. NĂŁo conte comigo para carregar vocĂȘs nessa. â Um sorriso surgiu sob o capacete que ele colocara para completar sua armadura. â Faz tempo que nĂŁo brinco no campo de batalha. Vou acabar com uma centena deles.
â Deve haver um limite para o dano que a barreira pode suportar â observou Sitri. â Embora, se a flecha do Sven nĂŁo conseguiu perfurĂĄ-la, podemos ter dificuldades para chegar nesse limite.
EntĂŁo, enquanto Sitri refletia, um slime falso surgiu da floresta e invadiu a clareira.
â Sua cor Ă© diferente! â disse um dos caçadores.
â Provavelmente tem uma base diferente! â comentou Sitri.
Diferente do Ășltimo limo, que tinha manchas pretas e brancas, este era completamente carmesim. E embora fosse apenas um terço do tamanho, estava se movendo duas vezes mais rĂĄpido. Ainda era lento o suficiente para que os caçadores pudessem desviar, mas nĂŁo seria tĂŁo fĂĄcil. Essa constatação abalou os caçadores.
A voz de Sitri, calma, mas firme, ecoou:
â Vanguarda, Ă frente. Bloqueiem com seus escudos!
â O quĂȘ?! â Lyle hesitou, prestes a abrir caminho.
â Vou medir a direção e magnitude do campo de força. Puxe o escudo para trĂĄs e recue no momento em que sentir qualquer peso sobre ele. Isso Ă© necessĂĄrio para que possamos derrotĂĄ-lo!
Lyle olhou para o escudo em sua mĂŁo esquerda, ergueu-o conforme ordenado e se firmou no lugar.
Quando a gosma se aproximou o suficiente de Lyle, ela se impulsionou para frente, mirando um ataque com toda a força. No momento em que colidiu com o escudo dele, o impacto fez o escudo girar e voar de suas mãos.
Um arrepio percorreu a nuca de Sven. Com sua visĂŁo afiada, ele viu toda a sequĂȘncia. Agora entendia como Gein havia perdido o braço e como aquela falsa gosma conseguia destruir ĂĄrvores ao simples toque. O escudo de Lyle girou violentamente ao colidir com a criatura. Ele conseguiu segurĂĄ-lo por apenas um instante antes que o torque se tornasse forte demais, e perdeu a chance de soltĂĄ-lo. Como estava segurando o escudo com ambas as mĂŁos, seus braços foram arrastados pelo giro, e a força esmagou seus ossos e rasgou sua carne. EntĂŁo, o escudo foi lançado para longe.
Gritando de dor, Lyle foi puxado para longe da falsa gosma por dois caçadores que o seguravam pelas axilas, enquanto o resto de seus braços pendia, mal se mantendo preso ao corpo.
A falsa gosma parou sua marcha, agora observando os caçadores.
â Curandeiros, cuidem dele, por favor. Magos, mantenham a criatura afastada com magia de fogo por todos os lados â ordenou Sitri, sem hesitar. â EntĂŁo, Ă© um campo de força rotacional. Sentido horĂĄrio? Depende do ponto de impacto? Com força suficiente para atravessar o escudo de um guarda… combate corpo a corpo contra isso seria um pesadelo. O Luke ia adorar a chance de cortar essa coisa.
Uma tempestade de fogo caiu sobre a falsa gosma, lançada por uma grande equipe de Magos coordenando seus ataques para manter um bombardeio constante.
â Ă forte demais… â murmurou Sven. â Ou pelo menos, dĂĄ muito trabalho. Prefiro nem lembrar que essa coisa Ă© tecnicamente viva. Sitri, vocĂȘ disse que ela se desintegraria com o tempo?
â Teoricamente â ela respondeu. â Mas, na prĂĄtica, nĂŁo no nosso caso. Considerando a massa corporal dela, a quantidade de mana gasta no campo de força e a mana gerada pelo seu nĂșcleo, ela vai durar pelo menos uma hora. Lançar feitiços contra a barreira consome parte da mana dela, encurtando esse tempo um pouco. Mas, considerando a qualidade e quantidade dos Magos aqui, nossa melhor estratĂ©gia Ă© encontrar uma fraqueza por tentativa e erro.
â Quanto tempo isso vai levar? A gente vai aguentar?! â perguntou Sven.
â Vou descobrir o mais rĂĄpido possĂvel. Mas fugir nĂŁo Ă© uma opção â disse Sitri.
Sven xingou. NĂŁo hĂĄ outro jeito?
Ele até havia recolhido as flechas disparadas contra a primeira falsa gosma, mas sabia que não faria diferença nesta segunda, jå que seu melhor disparo sequer havia deixado marca na anterior.
SerĂĄ que Ark conseguiria atravessar essa barreira? A sensação de impotĂȘncia ameaçava dominĂĄ-lo. NĂŁo tem tempo para lamentação, Sven se forçou a pensar. Pelo menos, posso ajudar a segurĂĄ-la.
Enquanto isso, Sitri murmurava sua anĂĄlise em voz baixa:
â JĂĄ sei… Magia de disparo rĂĄpido em um ponto concentrado pode perfurar ou anular temporariamente a barreira… Solução altamente tĂ©cnica, nĂŁo viĂĄvel com esse time…
â Tem outra! â gritou Sven.
â O quĂȘ?! â Pegando-a de surpresa, Sitri ergueu o olhar.
Outra falsa gosma avançava na direção deles, devastando a floresta ao passar. A criatura que estava sendo contida pelos feitiços de fogo se virou, observando sua nova aliada, idĂȘntica em tamanho e cor.
â NĂŁo… â Talia soltou um gemido fraco. â Nem conseguimos… derrotar a primeira ainda.
Sven finalmente entendeu por que Krai queria Ark para essa missĂŁo. Ele achava que jĂĄ tinha aprendido, da pior forma, o quĂŁo traiçoeiros eram os Mil desafios de Krai, mas ainda nĂŁo estava preparado para isso. Lidar com um inimigo praticamente invencĂvel jĂĄ era difĂcil, mas enfrentar mĂșltiplos deles? Isso estava longe de ser um simples âdesafioâ.
Podemos segurar as duas por um tempo, considerou Sven, mas jĂĄ estamos no limite com uma sĂł… NĂŁo vejo saĂda. Mesmo se tentĂĄssemos fugir, serĂĄ que conseguirĂamos, nesse estado de exaustĂŁo?
Até mesmo Sitri olhava para o par de falsas gosmas com espanto.
â Vamos dar o fora, Sitri. Isso estĂĄ alĂ©m do nosso alcance.
Sitri soltou um longo suspiro e disse:
â De fato… NĂŁo esperava que usassem mais de uma de uma vez. â Seus olhos se voltaram para o chĂŁo.
Fugir Ă© nossa Ășnica opção, pensou Sven. Me preocupo com a pesquisa do Noctus, mas nĂŁo podemos segui-la se estivermos mortos. Ele olhou para Gark, que assentiu em resposta. Vamos fugir de gosmas incansĂĄveis que engolem tudo em seu caminho… e agora sĂŁo duas! Ou fugimos, ou morremos.
Justo quando Sven estava prestes a ordenar a retirada, Sitri gemeu em frustração e disse:
â Que anticlimĂĄtico… Que imbecil trabalha na Torre Akashic?!
â HĂŁ? â Sven ficou sem palavras diante do comentĂĄrio inesperado.
â Magos, parem o ataque â ordenou Sitri. â Todos, recuem.
Hesitantes, os Magos cessaram o bombardeio e se afastaram do par de falsas gosmas… que nĂŁo avançaram sobre os caçadores, mesmo sem estarem mais sob ataque. Elas apenas se encaravam.
Quando a segunda falsa gosma chegou a cerca de dez metros da primeira, parou. EntĂŁo, dobrou os joelhos, preparando-se para saltar, e a outra fez o mesmo. EntĂŁo, ambas pularam e se chocaram no ar.
â O que diabos…? â murmurou Sven, perplexo.
Era como assistir a uma luta de feras selvagens; uma gosma ergueu seu braço sem dedos, e a outra lançou a cabeça contra ele. Cada impacto vinha acompanhado de um som explosivo, e as falsas gosmas continuaram a se chocar, derretendo mais e mais a cada golpe.
Bocas abertas, os caçadores apenas observavam o embate se desenrolar, de repente aliviados por não estarem mais à beira da morte. Até mesmo os aprendizes de Noctus estavam boquiabertos com a cena.
â Isso comprova minha hipĂłtese â disse Sitri. â Elas nĂŁo estavam nos atacando por pensamento racional ou malĂcia, mas por puro instinto de sobrevivĂȘncia, estavam buscando mana para regenerar seus corpos em fusĂŁo. Elas nĂŁo obedecem a ordens humanas. Naturalmente, ao encontrarem outra igual, elas começam a se matar… afinal, fantasmas sĂŁo uma fonte melhor de mana do que caçadores. â Com a mĂŁo na testa, Sitri observava as falsas gosmas.
Agora que ela havia explicado, os caçadores entendiam como isso aconteceu. Enquanto isso, as falsas gosmas continuavam colidindo com a mesma ferocidade, diminuindo de tamanho a cada impacto. Nenhuma delas sequer olhava para os caçadores.
â Acho que… tivemos sorte â disse Sven.
â Isso pode ser considerado uma fraqueza, suponho â disse Sitri.
â Outra! Quantas dessas coisas existem…? Ah…
A terceira falsa gosma saltou para a batalha entre as outras, e um cheiro pungente se espalhou pelo ar. A tempestade explosiva de barreiras de mana cresceu, ignorando completamente os caçadores.
Até os dois prisioneiros observavam a cena, estupefatos.
â Isso nĂŁo pode ser… Nunca nos disseram queâ
â Agora, graças aos seus âamigosâ cuidando daquela interrupção, podemos continuar nossa negociação â disse Sitri.
Com os dois agentes do Departamento de Investigação de Cofres exaustos e atordoados, e com os caçadores observando os slimes colidirem à distùncia, não havia ninguém por perto para impedir Sitri. De pé sobre os cativos, Sitri lançou-lhes olhares assassinos.
EntĂŁo, Talia se aproximou timidamente e disse:
â Hum… Sitri, talvez devĂȘssemos nos reagrupar na capital. NĂŁo esperĂĄvamos tudo isso, e alguns de nĂłs estĂŁo no limite…
Os ataques incessantes dos falsos slimes haviam esgotado todo o batalhĂŁo. Diferente de Sitri, que se juntou Ă missĂŁo depois, os caçadores jĂĄ estavam vasculhando o cofre do tesouro antes de tudo isso. A maioria ainda tinha resistĂȘncia para continuar, mas estavam mentalmente esgotados. Afinal, caçadores de alto nĂvel ainda eram humanos; atĂ© mesmo Sven começava a sentir o peso do dia. Embora a sugestĂŁo de Talia fosse um pouco cautelosa, Sven tendia a concordar com ela.
â Podemos montar outro time para lidar com Noctus Cochlear e… â Talia hesitou.
Sitri deixou seu olhar vagar pelo ar por um tempo antes de dizer:
â Certo. Vamos descansar um pouco enquanto fazemos turnos de vigia. Eu tenho… algo que preciso investigar tambĂ©m. Sven, mantenha alguĂ©m de olho nos nossos cativos o tempo todo, por favor. Ainda tenho utilidade para eles mais tarde.
â Entendido â respondeu Sven.
Sitri suspirou e se afastou, presumivelmente para contemplar o prĂłximo passo.
A Torre AkĂĄshica certamente teria mais truques na manga alĂ©m desses falsos slimes, presumiu Sven. O que fazemos agora…?
Enquanto se preparava para dar ordens ao batalhĂŁo, ele olhou para os Magi cativos, cujas expressĂ”es haviam mudado drasticamente em apenas um minuto. A determinação mortal de proteger seus segredos havia sido substituĂda por um completo espanto, eles nĂŁo podiam acreditar no que viam, seus olhos fixos na Alquimista de cabelos carmesim.
Olhando furioso para Flick e seus dois companheiros estava um par de olhos ardentes pertencentes a Noctus Cochlear, um homem cujo rosto era esculpido por rugas profundas, testemunho de dĂ©cadas de dedicação Ă sua pesquisa. Dele emanava uma aura tremenda de mana, tĂŁo intensa que ofuscava atĂ© mesmo Sophia e Flick, um Magus de alto nĂvel.
â VocĂȘs sabem por que foram convocados â disse Noctus.
Seus trĂȘs aprendizes se encolheram diante de sua fĂșria.
â S-Sim, falhamos com o senhor…
Nenhum dos aprendizes esperava que os fantasmas transmutados atacassem uns aos outros. Para piorar, eles nĂŁo puderam libertar todos os fantasmas de uma vez, pois precisavam injetar a poção em cada um individualmente, o que atrasou a percepção da tendĂȘncia canibalĂstica das criaturas. Quando a poeira baixou, Flick jĂĄ havia gasto todas as poçÔes de transmogrificação, uma parte substancial de seu arsenal, tudo porque desobedeceu Ă ordem de Sophia. A humilhação fez seus ombros tremerem.
Noctus bateu seu cajado no chĂŁo com raiva e disse:
â Eu nĂŁo ordenei que seguissem as ordens de Sophia como se fossem minhas?! Sua estupidez nĂŁo tem fim?!
A voz de Sophia ecoou pela Pedra SĂŽnica ativa sobre a mesa.
â Aquilo foi uma arma altamente eficaz a um custo muito baixo. A maioria dos inimigos seria completamente dominada pelo seu poder destrutivo e defesa quase impecĂĄvel, apesar de sua curta duração.
A fase um foi um desastre completo, mas Sophia ainda não havia se apresentado aos outros aprendizes. Isso enfureceu Flick tanto que ele mordeu o låbio até sangrar.
â O que torna caçadores de alto nĂvel ameaçadores nĂŁo Ă© sua capacidade de combate, mas sua adaptabilidade â continuou Sophia. â Armadilhas mal planejadas e monstros puramente destrutivos nĂŁo conseguem sequer atrasĂĄ-los. A poção foi testada de forma inadequada e estava longe de ser perfeita, claro, mas isso nĂŁo seria um problema com um mĂnimo de imaginação. Se tivessem considerado por que eu escolhi implantĂĄ-los um de cada vez, por exemplo.
Exatamente porque não havia nem um traço de zombaria no tom de Sophia, Flick foi cegado pela raiva. Se não fosse pelo olhar afiado de seu mestre, ele teria chutado a mesa em protesto contra a falta de explicação de Sophia.
â Perdoe a incompetĂȘncia dos meus colegas aprendizes, Mestre â concluiu Sophia.
â A poção era apenas uma pequena parte da nossa pesquisa â disse Noctus, enterrando sua raiva. â Ainda temos muitas outras armas para lançar.
Como praticante da ciĂȘncia proibida, Noctus se esforçou para construir defesas que protegessem seu trabalho tanto da lei quanto dos fora da lei. Em seu arsenal ainda havia quimeras criadas a partir de monstros, poçÔes que aprimoravam o corpo humano e uma Ășltima linha de defesa que lhe custou um braço e uma perna, A Torre AkĂĄshica nĂŁo recuaria apenas porque uma de suas armas foi esgotada.
â Nossas suposiçÔes jĂĄ estavam erradas â disse Sophia com seriedade. â NĂŁo apenas os caçadores saĂram praticamente ilesos, como tambĂ©m tĂȘm Gark Welter entre suas fileiras, estamos enfrentando um ex-Caçador de NĂvel 7 que supostamente se aposentou. Ele Ă© um herĂłi, sem dĂșvida.
A gravidade da situação tambĂ©m se refletiu no rosto de Noctus. Ele conhecia bem Gark, o homem responsĂĄvel pelo ramo da Associação na capital. Gark era um guerreiro tĂŁo temido que existia atĂ© um boato, embora duvidoso, de que ele caçava dragĂ”es, amplamente considerados a espĂ©cie mais poderosa, por esporte. No entanto, ele nĂŁo era do tipo que saĂa da cidade com facilidade. Na verdade, Gark nem sequer constava na lista de caçadores designados para essa missĂŁo, uma informação que Noctus havia obtido antecipadamente.
â Como estamos sem fantasmas, teremos dificuldades para enfrentĂĄ-lo â disse Sophia.
Finalmente, Flick explodiu.
â Sophia! â gritou ele para a Pedra. â VocĂȘ estĂĄ tĂŁo determinada a jogar toda a culpa em mim?!
Sim, Flick havia cometido um erro. Mas jå era surpreendente o suficiente que o primeiro fantasma transmutado não tivesse derrubado pelo menos um caçador.
A culpa nĂŁo Ă© sĂł minha, pensou ele.
Ignorando Flick e seu chilique, um homem encarregado da vigilĂąncia apoiou as mĂŁos sobre a mesa e disse:
â Devemos recuar? Se voltarmos agora, podemos minimizar nossas perdas.
â NĂŁo â respondeu Sophia imediatamente. â Recuar agora, sem nada para mostrar, Ă© o mesmo que admitir derrota. AlĂ©m disso, dois dos nossos estĂŁo sendo mantidos refĂ©ns. Eles podem ser forçados a revelar nossas informaçÔes a qualquer momento.
â VocĂȘ estĂĄ insultando eles?! â rugiu Flick. â Nem uma Ășnica palavra sobre nĂłs escaparĂĄ de seus lĂĄbios, nem mesmo no Ășltimo suspiro!
Flick havia treinado pessoalmente os Magi capturados. Eles eram seus companheiros de pesquisa e muito melhores Magi do que Sophia.
â Eu gostaria de acreditar nisso, Flick.
Bufando de indignação, Flick sentia dolorosamente o desprezo nos olhos de seu mestre voltados para ele. Fracasso após fracasso. Nesse ritmo, sua posição como Segundo Aprendiz poderia estar em risco, mesmo que de alguma forma conseguisse sair dessa situação, o que o colocaria em um status inaceitavelmente inferior ao de Sophia.
â Vamos desgastĂĄ-los primeiro e acabar com eles com “Akasha” â disse Sophia, sem um pingo de raiva. â Este Ă© o ponto de virada, mate todos, e nĂŁo restarĂĄ nenhum rastro nosso para seguir. Liberem os Devoradores de MalĂcia.
A expressão de Flick se endureceu com a implicação.
Os Devoradores de MalĂcia, criados atravĂ©s de incontĂĄveis experimentos liderados por Noctus e Sophia, eram quimeras compostas por uma complexa combinação de monstros; armas vivas revolucionĂĄrias. Ao contrĂĄrio dos fantasmas transfigurados, que nĂŁo podiam obedecer ordens, os Devoradores de MalĂcia eram obedientes, poderosos e cooperavam entre si. No entanto, nĂŁo podiam ser facilmente repostos e, mais importanteâ
â Precisamos de um maestro para utilizar todo o seu potencial â disse Noctus.
Apesar de altamente inteligentes, os Devoradores de MalĂcia nĂŁo compreendiam estratĂ©gia, nem haviam recebido treinamento suficiente para funcionar plenamente como armas. Combinado Ă falta de opçÔes de ataque Ă distĂąncia, as quimeras pareciam uma escolha um tanto limitada para enfrentar um batalhĂŁo de caçadores, incluindo mĂșltiplos veteranos renomados.
Uma gota de suor frio escorreu pela bochecha de Flick.
â Tenho certeza de que Flick estĂĄ ansioso para provar sua utilidade â falou a voz alĂ©m da Pedra Sonora, sem misericĂłrdia. â Tenho alguns preparativos finais a fazer. Todos os Devoradores de MalĂcia estĂŁo Ă sua disposição. Mal posso esperar para testemunhar sua… proeza tĂĄtica. Embora, se um Magus de sua reputação nĂŁo puder produzir nenhum resultado com eles…
â Entendido…! â rosnou Flick, mal contendo o sangue fervente.
A penumbra do crepĂșsculo jĂĄ havia envolvido a floresta; o sol quase desaparecera no horizonte. A noite pertencia aos monstros, nem mesmo os sentidos aprimorados de um caçador eram tĂŁo aguçados no escuro. Por isso, um dos princĂpios mais bĂĄsicos da caça ao tesouro era acordar e descansar com o sol.
Do lado de fora da Toca do Lobo Branco, o acampamento dos caçadores era iluminado por uma fogueira. Tudo estava em silĂȘncio agora que os slimes falsos haviam se canibalizado atĂ© a extinção.
No campo de batalha imprevisĂvel, o espĂrito dos caçadores se esgotava mais rĂĄpido do que sua resistĂȘncia, comprometendo atĂ© mesmo os mais bem treinados. NĂŁo havia um Ășnico rosto entre eles que nĂŁo exibisse sinais de cansaço. O par de agentes do Departamento de Investigação de Cofres, que nĂŁo eram tĂŁo resistentes fisicamente, descansava de lado, completamente exausto.
â No dia em que testemunhamos o Jardim PrismĂĄtico se materializar, fui ao inferno e voltei. Comparado Ă quele dia, hoje foi um passeio no parque â disse Sven.
â Foi tĂŁo ruim assim, hein? â comentou Gein.
Gein e os outros caçadores que não eram dos Primeiros Passos cochichavam entre si, incrédulos. Entre eles também estava Henrik, que não havia estado presente para ver o evento com os próprios olhos.
O “incidente da observação das flores” ainda era contado entre os membros da Passos. Aquele foi um ponto de virada para todos que estiveram lĂĄ, tudo o que achavam que sabiam sobre caça ao tesouro foi descartado naquele dia.
â Nosso inimigo hoje foi um fantasma, mas naquele dia lutamos contra o prĂłprio ambiente â disse Sven.
O Jardim PrismĂĄtico, como o nome sugeria, era um cofre de tesouro repleto de flores belas, das mais variadas formas e cores. Mas sob essa fachada pitoresca, escondia-se um jardim infernal: um cofre de nĂvel 7 que ainda assombrava Sven em seus pesadelos.
â O pĂłlen â explicou ele â derrubou metade dos Primeiros Passos segundos apĂłs o cofre se materializar.
O Jardim Prismåtico havia surgido em um campo de flores jå existente. O material de mana transformou o campo em um mar de flores misteriosas, cujas pétalas e pólen encheram o ar. As flores esbranquiçadas induziam o sono em qualquer um que as tocasse ou cheirasse. O efeito era tão potente que até mesmo caçadores de mente forte desmaiavam em questão de segundos.
Os cofres do tesouro podiam ser categorizados nĂŁo apenas por seus layouts, mas tambĂ©m por vĂĄrios outros fatores. Entre eles, o Jardim PrismĂĄtico era classificado como “Ambiental”, indicando que o ambiente era o aspecto mais desafiador do cofre.
â Houve uma grande mudança nas linhas ley â explicou Sven. â Minha visĂŁo mudou de repente. E antes que eu entendesse o que estava acontecendo, minha consciĂȘncia jĂĄ estava desaparecendo. As flores nĂŁo apenas faziam vocĂȘ dormir, elas paralisavam, envenenavam, faziam muito mais do que isso. Mas, Ă© claro, ainda tivemos que lidar com fantasmas alĂ©m disso: plantas carnĂvoras e feras adaptadas Ă quele ambiente, transformadas em poderosos fantasmas. Todo o cofre era uma armadilha pronta para pegar caçadores, nĂŁo havia chance de sair vivo dali sem uma preparação massiva.
â EntĂŁo, como vocĂȘs saĂram vivos? â perguntou um dos caçadores.
â Tivemos sorte de ter os Grievers conosco.
Quando o Jardim PrismĂĄtico se materializou pela primeira vez, ele nĂŁo era tĂŁo letal quanto Ă© hoje, pois ainda nĂŁo havia acumulado tanto material de mana. Mas para grupos centrados em combate, como a Obsidian Cross, era praticamente o pior cofre possĂvel. Se fossem os Ășnicos lĂĄ, seus corpos jĂĄ teriam se tornado fertilizante para as flores hĂĄ muito tempo.
â Os Grieving Souls nos tiraram de lĂĄ. Eu ainda me lembro como se fosse ontem â disse Sven.
Os Grievers agiram sem dizer uma palavra, como se jĂĄ tivessem tudo planejado. Enquanto Sven estava semiconsciente, ainda sem entender o que acontecia ao seu redor, Liz enfiou uma adaga em seu prĂłprio estĂŽmago, Luke mordeu a prĂłpria lĂngua atĂ© arrancĂĄ-la, e Lucia quebrou o prĂłprio dedo mindinho; cada um despertou com a dor. EntĂŁo, colocaram suas mĂĄscaras que simbolizavam seu grupo.
O vento dispersou o pólen, e as chamas queimaram as flores. A cena de caveiras sorridentes vagando livremente pelo campo em chamas e fumaça ficou gravada para sempre na memória dos caçadores dos primeiros passos que ainda estavam conscientes para testemunhar.
Tudo por causa de suas decisÔes tomadas em fraçÔes de segundo.
Os Grievers ganharam suas alcunhas e fama agora, mas na Ă©poca estavam no mesmo nĂvel da Obsidian Cross, com capacidades fĂsicas e nĂveis similares. Como, entĂŁo, os Grievers foram tĂŁo rĂĄpidos em tomar decisĂ”es impensĂĄveis de automutilação? Em retrospecto, Sven sabia a resposta. A experiĂȘncia separava os Grieving Souls da Obsidian Cross. Embora a Cross estivesse no ramo hĂĄ mais tempo, os Grievers haviam passado por muito mais situaçÔes de vida ou morte.
Como o poder sempre gerava respeito no mundo dos caçadores de tesouro, ninguém nos Primeiros Passos ousaria falar mal dos Grieving Souls, ao menos, não abertamente. Sua reputação estava longe de ser impecåvel, mas ainda assim, os Grievers conquistaram seguidores fanåticos.
Os Grievings Souls e seus saltos insanos para a ação inspiravam medo atĂ© mesmo em Sven. A palavra âtalentosoâ simplesmente nĂŁo fazia jus a eles, os Grievers eram sobre-humanos.
E Sven agradecia ao destino por tĂȘ-los no mesmo clĂŁ. Ainda assim, nĂŁo tinha a intenção de permanecer estagnado depois de testemunhar aquilo; afinal, ainda possuĂa orgulho como caçador. Muitos outros caçadores deviam compartilhar desse sentimento, jĂĄ que os Primeiros Passos haviam crescido a ponto de se tornar um dos clĂŁs com o maior registro de membros na capital. E foi por isso que tantos caçadores ainda atendiam prontamente aos pedidos de Krai atĂ© hoje.
Enquanto os caçadores ao redor da fogueira ouviam Sven recontando a histĂłria, seus dois prisioneiros permaneciam amarrados de lado, sem esboçar qualquer resistĂȘncia. Seus olhos estavam fixos em algo ou melhor, em alguĂ©m.
Sven percebeu algo peculiar em seus olhares e disse:
â Ei, Talia, vocĂȘ conhece esses dois?
â NĂŁo… Nem um pouco.
Talia desviou o olhar para o chão, claramente mais exausta do que a maioria dos outros caçadores. Em contraste, Sitri parecia completamente inabalåvel pelo dia de trabalho.
â Hm… Sven, me desculpe… pelo mata-slime â disse Talia, encolhendo-se dentro de seu manto.
â HĂŁ? Ah, nĂŁo esquenta. A culpa Ă© toda do Krai.
Sven havia contado com a poção de Talia para funcionar, mas nĂŁo era culpa dela que nĂŁo tivesse dado certo. Considerando que ela sequer havia participado da fabricação, nĂŁo deveria carregar essa culpa. Se Sven tivesse que culpar alguĂ©m, seria Krai por usar uma descrição vaga como âalgo parecido com um slimeâ para uma ameaça que claramente jĂĄ conhecia.
Talia ainda parecia abatida.
â Mas se eu fosse tĂŁo conhecedora quanto a Sitri…
â Ă… Mas vocĂȘ nĂŁo Ă© a Sitri. Ela Ă© uma grande Alquimista e uma Griever, afinal. Mas se ainda se sente mal com isso, sĂł tem um jeito: ficar mais forte â disse Sven.
â S-Sim… Obrigada.
â Eu tambĂ©m bolaria uns planos mestres, se pudesse ver o futuro como o Krai.
Noctus Cochlear, abuso de mana material, manipulação de um cofre de tesouros e fantasmas bizarros. Todos esses problemas juntos, sem mencionar que estavam lidando com um grande sindicato ilegal de magia, ainda não eram suficientes para fazer Krai resolver a situação pessoalmente. Em vez disso, ele apenas transformou aquilo em mais um Desafio.
Olhando para a escuridĂŁo da floresta, Sven se perguntava quando exatamente Krai decidiria se juntar a eles. Secretamente, prometeu a si mesmo que daria uma bela bronca no mestre do clĂŁ quando ele aparecesse.
Enquanto isso, Gark franzia a testa diante da gravidade da situação. Ele só havia acreditado parcialmente em Sitri, mas não havia como negar a realidade com todas aquelas provas diante de seus olhos.
A Associação nĂŁo tinha plena noção de quĂŁo longe os tentĂĄculos da Torre AkĂĄshica se estendiam no submundo, embora soubessem que o grupo era poderoso o suficiente para matar atĂ© mesmo caçadores de alto nĂvel ocasionalmente. A Torre AkĂĄshica era uma das organizaçÔes mais sinistras e vastas entre os inĂșmeros sindicatos ilegais de magia.
Tendo recrutado diversos Magos e Alquimistas notĂłrios, haviam cometido pelo menos vĂĄrios atos de terror pelo continente, supostamente em nome da âbusca pela verdadeâ. Naturalmente, o sindicato e seus membros conhecidos ocupavam posiçÔes nas listas de mais procurados.
Ainda assim, Gark nunca ouvira falar de operaçÔes deles dentro do impĂ©rio. Seus experimentos deviam ter sido mantidos extremamente secretos. Sem Krai e Sitri, Gark jamais teria descoberto a verdade atĂ© que os experimentos tivessem sido concluĂdos.
A determinação de Sitri em caçå-los quase rivalizava com o empenho da Torre AkĂĄshica em manter-se oculta. Apenas a partir de uma Ășnica tese, ela descobriu o sindicato que permanecera despercebido por tanto tempo. Gark nĂŁo conseguia imaginar que tipo de rabiscos manĂacos havia naquele documento para fazer Sitri persegui-los tĂŁo obstinadamente.
Ao longo dos anos, Gark se tornou bastante familiar com os Grievers e sabia que Sitri não era nenhuma santa, mas sim uma encrenqueira, embora de um jeito diferente de Liz ou Luke. Para simplificar, o problema com Sitri era que ela faria qualquer coisa para alcançar seus objetivos, como havia demonstrado ao quase drogar os prisioneiros com uma poção ilegal.
O que ela quer, afinal? â pensou Gark. SerĂĄ que estĂĄ atrĂĄs de algo que a Torre AkĂĄshica mantĂ©m em seu cofre, provavelmente protegido por mecanismos e outros caçadores?
Mas logo afastou a ideia absurda da cabeça. Embora nĂŁo fosse impossĂvel imaginar que o sindicato acumulava itens raros, Sitri jamais perseguiria algo que nĂŁo pudesse ser verificado. AlĂ©m disso, os Grievers eram fortes o suficiente para caçar qualquer item raro que quisessem por conta prĂłpria. Gark decidiu que nĂŁo faria suposiçÔes precipitadas, isso nĂŁo condizia com um gerente de filial da Associação.
Nesse momento, Sitri retornou ao acampamento após inspecionar os estragos causados pelo canibalismo dos falsos slimes. Atrås dela, os Ladinos que trouxera estavam engajados em uma conversa séria.
Sven, que vinha sendo o principal responsĂĄvel por vigiar o acampamento, levantou-se para cumprimentĂĄ-la.
â Nada de novo do meu lado. Encontrou alguma coisa, Sitri?
Ela sorriu com um leve cansaço e disse:
â Sim. Que tal a localização aproximada da base deles?
â O quĂȘ…? â perguntou Sven.
Enquanto o medo se espalhava pelo rosto dos dois prisioneiros, Sitri tirou um grande mapa dobrĂĄvel de sua mochila.
â Para falar a verdade, eu jĂĄ tinha alguns locais em mente.
O mapa mostrava as ĂĄreas vizinhas Ă capital, incluindo onde estavam agora. Sitri havia colorido zonas e anotado detalhes como informaçÔes topogrĂĄficas por toda a superfĂcie do mapa.
â Uma base prĂłxima a um cofre de tesouros era um dos requisitos fundamentais para instalar o dispositivo descrito na tese de Noctus. Com o tempo, investiguei cada local candidato e considerei fatores como o fluxo das linhas ley abaixo deles, a densidade de mana material nesses lugares, os dados topogrĂĄficos e geolĂłgicos e afins. No fim, nĂŁo sobraram muitas opçÔes adequadas para esconder um laboratĂłrio. Cruzando essas informaçÔes com o local onde eles soltaram aquela aberração hoje, cheguei Ă resposta.
O trabalho de um Alquimista envolvia naturalmente muita pesquisa, mas a busca de Sitri era movida por obsessĂŁo. AtĂ© mesmo os agentes do Departamento de Investigação de Cofres pareciam impressionados com o nĂvel de meticulosidade demonstrado no mapa.
â Isso aqui Ă© bem mais informação do que vocĂȘ conseguiria pesquisar sozinha â comentou Sven.
â O Krai me ajudou… sĂł um pouquinho â admitiu Sitri.
â EntĂŁo Ă© isso que ele faz quando nunca vai aos cofres…
Sitri guiou o grupo pelo mapa, marcando local por local com uma caneta. Durante toda a explicação, ela nunca usou um vocabulĂĄrio excessivamente complicado, mas ainda assim demonstrou sua inteligĂȘncia afiada. Usando informaçÔes que qualquer um poderia ver na superfĂcie, como a densidade aproximada de mana calculada a partir das linhas ley, a conveniĂȘncia do local para quem quisesse construir um laboratĂłrio, a dificuldade de defender a localização contra atacantes, o volume de trĂĄfego e o alcance dos feitiços que poderiam ser usados para vigilĂąncia, Sitri deduziu os possĂveis locais com uma lĂłgica brilhante e palpites bem calculados. Eventualmente, ela reduziu as inĂșmeras opçÔes para um local prĂłximo de onde estavam.
â Portanto, acredito que a base deles estĂĄ localizada junto ao penhasco aqui. A abertura lateral permite uma fuga e defesa fĂĄceis; nĂŁo chama tanta atenção quanto erguer um prĂ©dio e Ă© muito menos trabalhoso do que cavar uma estrutura subterrĂąnea do zero; hĂĄ ĂĄgua por perto; e nĂŁo Ă© muito longe de onde o primeiro falso slime foi liberado.
â P-Perda de tempo! â gritou de repente um dos cativos. â VocĂȘs nunca vĂŁo encontrar com esses palpites!
Apesar de estar amarrado hå horas, ele ainda parecia energético o suficiente para se debater.
Com um sorriso, Sitri passou o dedo pelo mapa e disse:
â Estou bastante confiante. Vamos mandar um grupo de reconhecimento.
Então, o cativo começou a gritar descontroladamente:
â Matem ela! Sophia! Me soltem! NĂŁo deixem ela chegar perto do nosso mestre!
Seus berros ecoaram pela floresta.
Gark olhou para Sven e pensou: Sophia? De quem ele estĂĄ falando?
Claramente também desconhecendo o nome, Sven devolveu um olhar confuso. Parecia que o cativo estava chamando por uma agente oculta, que certamente sabia que não deveria se revelar ao ser chamada.
â Sim… Como seria fĂĄcil se ela simplesmente aparecesse â disse Sitri, franzindo as sobrancelhas.
Os ombros de Talia estremeceram com o tom brutal da voz de Sitri.
â Ei, Sitri… vocĂȘ reconhece esse nome? â perguntou Sven.
â Ora, sim. Ela Ă© o segundo objetivo da minha busca â explicou Sitri. â Ela Ă© a primeira aprendiz de Noctus Cochlear e minha nĂ©mese, por assim dizer. NĂŁo importa o quanto eu descubra sobre ela, ela simplesmente desaparece nas sombras. Esta pesquisa nĂŁo vai parar atĂ© que apreendamos os dois. Se eu tivesse que descrevĂȘ-la… â Sitri olhou para Talia com um toque de melancolia. â Eu a chamaria, junto de Noctus Cochlear, de os “IgnĂłbeis”.
â VocĂȘ nĂŁo conhece a Sophia! â gritou o mago cativo, se debatendo, com os olhos agora injetados de sangue. â Um fracasso de NĂvel 2 como vocĂȘ nunca terĂĄ chance contra ela!
Sitri olhou em seus olhos com um olhar gélido e disse:
â Eu nĂŁo vou perder. Foi minha culpa nĂŁo tĂȘ-la apreendido antes. Pelo bem de todas as pessoas da capital, eu juro pela minha honra que um dia a trancarei na grande prisĂŁo de South Isteria.
Sua determinação fez o mago cativo estremecer.
Talia a observava com preocupação.
E Gark começou:
â Sitriâ
â NĂŁo me incomoda â disse Sitri, com um sorriso triste no rosto. â Como eu disse, eu tambĂ©m fui culpada.
â Eu te amo, Krai Baby!
Por que eu sempre fico assim por causa dela?
Eu estava andando pela rua à noite. Liz se agarrava ao meu braço direito, e Tino me seguia desanimada à esquerda.
Fora dos portĂ”es da capital, sĂł havia escuridĂŁo. Mesmo um cĂ©u cheio de estrelas nĂŁo ajudava muito na visibilidade. Sair da cidade com quase nenhuma mana restante nos meus RelĂquias era praticamente suicĂdio, mas agora nĂŁo tinha mais o que fazer.
A Ășnica que brilhava de empolgação era Liz.
â RĂĄpido! RĂĄpido! RĂĄpido! Temos que chegar lĂĄ antes que a Siddy morra!
â Ela nĂŁo vai morrer… â eu disse. Isso daria uma bela dor de cabeça.
Desculpe, Sitri, pensei em silĂȘncio. Prometi que nĂŁo deixaria a Liz sair por aĂ solta, mas agora… Pelo menos vou ficar de olho nela… tudo bem? Por favor, me perdoe.
Exausto, continuei arrastando os pés, um após o outro, em direção ao Covil do Lobo Branco.
Tino puxou minha manga esquerda.
â Mestre, hum… â disse hesitante, â pode ser perigoso para mim no escuro… Posso segurar sua outra mĂŁo…?
O quĂȘ? A Tino acha que eu estou de mĂŁos dadas com a Liz? Ela sĂł estĂĄ irritantemente pendurada no meu braço.
Minha visão noturna era péssima, então eu nem conseguia enxergar direito à minha frente. Jå tinha tropeçado vårias vezes no caminho até ali.
QuĂŁo Ăștil eu sou?!
Ativei Olho da Coruja. Agora eu podia enxergar no escuro como se fosse dia.
Percebendo o pedido de Tino, Liz disse num tom ameaçador:
â O quĂȘ foi que vocĂȘ disse, Tino?
â NĂŁo, Liz â intervim.
â Ela nunca vai segurar sua mĂŁo em milhĂ”es de anos-luz, Krai Baby. Sonha! Seu trabalho Ă© protegĂȘ-lo!
â HĂŁ… “Ano-luz” Ă© uma medida de distĂąncia, Liz, nĂŁo de tempo. E pode me soltar agora? NĂŁo quero que todos tropecemos e caiamos juntos.
Liz resmungou, mas finalmente me soltou. Minha caminhada ficou um pouco mais fĂĄcil.
Com quase nenhuma relĂquia Ă minha disposição, Liz e Tino eram minhas Ășnicas esperanças esta noite. Olhando para trĂĄs, eu deveria simplesmente ter engolido o orgulho e recarregado minhas relĂquias em algum serviço da cidade. Claro, isso sĂł me elevaria do status de idiota inĂștil para idiota inĂștil soterrado em uma pilha de relĂquias, mas pelo menos eu nĂŁo morreria pensando “E se?”.
Os Ășnicos relĂquias utilizĂĄveis que eu tinha agora eram alguns AnĂ©is de Segurança, AnĂ©is de Disparo e minha carta na manga que Lucia tinha carregado para mim. No fim, nem precisei usar isso da Ășltima vez que fui atĂ© a Toca do Lobo Branco. Mas, no fim das contas, mesmo o melhor dos chefs nĂŁo pode fazer nada sem ingredientes, e eu estava longe de ser o melhor em qualquer coisa.
Eu estava ferrado.
Bochechas coradas, Liz disse animada:
â NĂŁo se preocupa, eu vou massacrar tudo no nosso caminho por vocĂȘ!
Massacrar? Nossa, Liz. NĂŁo precisava… Pelo visto, Liz e eu tĂnhamos uma incompatibilidade trĂĄgica na definição do que Ă© ser um guarda-costas. Cara, queria que o Ansem estivesse aqui.
â Mestre… Eu vou te proteger… entĂŁo… â murmurou Tino, ansiosa para compensar minha incompetĂȘncia. â VocĂȘ pode me dizer… o que esperar?
Por que ela estå perguntando pra mim? Como eu deveria saber? Bem, Sitri é muito boa no que faz. Com o tempo que levei para arrastar isso, pode ser que nem sobre nada para a Tino me proteger até a gente chegar lå, isso seria ótimo.
â Sei lĂĄ â respondi.
â T, qual Ă© a graça de perguntar o que vai ter lĂĄ?! Seu trabalho Ă© proteger o Krai Baby, nĂŁo importa o que apareça! E o Krai Baby odeia spoilers.
â S-Sim, Lizzy…
O ar frio da noite estava me congelando até os ossos.
Eu sĂł precisava aparecer, resolver isso e ir pra casa.
Tradução: Carpeado
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