Grieving Soul â CapĂtulo 4 â Volume 2
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 02
CapĂtulo 4:
[Obsidian Cross e Primeiros Passos]
O som metĂĄlico de armas colidindo violentamente ecoou pelos corredores apertados da caverna subterrĂąnea. Logo em seguida, ouviu-se o uivo de um lobo e um estrondo seco.
Havia mais caçadores reunidos na sempre impopular Toca do Lobo Branco do que nunca antes. E entre eles estava o grupo Obsidian Cross, um dos grupos fundadores dos Primeiros Passos.
Os Crosses eram compostos por seis membros, todos com mĂ©dia de NĂvel 5, apesar de estarem na faixa dos vinte anos. Naturalmente, eram considerados um dos grupos com melhor perspectiva na capital.
Em especial, seu lĂder, Sven Anger, o “Golpe da Tempestade”, era um dos melhores Arqueiros da cidade. No entanto, como a magia era o mĂ©todo mais comum para ataques Ă distĂąncia entre os caçadores, arqueiros como Sven eram uma raridade. Cada flecha disparada por ele era devastadora, mas ele era limitado pela quantidade de flechas na aljava e pela falta de versatilidade que os Magos possuĂam. No geral, arqueiros eram vistos como desfavorecidos em exploraçÔes de tesouros. Ainda assim, Sven escolheu o arco e, mesmo assim, conquistou um apelido com ele. Isso tambĂ©m indicava que o Obsidian Cross priorizava a caça de monstros em vez da exploração de cofres de tesouros, algo incomum entre os grupos de caçadores.
Agora, Sven liderava o restante de seu grupo, todos vestindo conjuntos completos de armadura metålica negra. Entre eles estavam dois Espadachins, que usavam espadas e escudos para lançar uma variedade de ataques. Ao lado deles, dois Magos, um especializado em magia defensiva e outro em ataques mågicos de grande årea. Na retaguarda do grupo caminhava o mais novo membro, Henrik, o Clérigo, especialista em cura.
Apesar da escuridĂŁo dos corredores, eles nĂŁo demonstravam hesitação. Cavernas escuras e Ășmidas, a tensĂŁo eletrizante dos campos de batalha e atĂ© mesmo a expectativa de invadir territĂłrios inimigos poderosos nĂŁo eram nada de novo para o Obsidian Cross.
Sven parou repentinamente e ergueu seu arco longo negro como a noite, uma arma sem adornos, crua e brutal. Seus companheiros imediatamente interromperam a marcha atrĂĄs dele.
Em um Ășnico movimento fluido, Sven puxou uma longa flecha de sua aljava e a encaixou no arco. A corda rangeu ao ser puxada, e o arco se curvou.
Assim que uma cabeça surgiu na curva à frente de Sven, ele disparou. A flecha rasgou o ar como um projétil e explodiu a cabeça do cavaleiro lobo carmesim antes de se cravar fundo na parede da caverna. O fantasma decapitado se contorceu levemente antes de se dissipar no ar; o disparo perfeito não permitiu nem um uivo, nem um gemido.
Sven recuperou a flecha da parede e retomou a caminhada pelo corredor.
O Obsidian Cross havia encontrado um nĂșmero considerĂĄvel de fantasmas na caverna. Mas, independentemente da cor de sua pelagem, qualquer cavaleiro lobo que cruzasse seu caminho tinha o crĂąnio obliterado pelas flechas de Sven antes mesmo de emitir um som.
Embora o Obsidian Cross preferisse caçar monstros a explorar cofres de tesouros, eram perfeitamente capazes de lidar com esse tipo de desafio. Isso era especialmente verdadeiro quando o cofre em questão era a Toca do Lobo Branco, onde não havia armadilhas perigosas nem o risco de serem cercados por enxames de fantasmas. Por isso, os membros do grupo pareciam bastante relaxados, exceto Henrik.
No meio da caverna, Sven parou e comentou casualmente:
â Claro, o cofre ficou mais forte, mas nada fora do comum atĂ© agora.
E Marietta, a Maga, disse preguiçosamente:
â O primeiro grupo de caçadores tambĂ©m nĂŁo encontrou nada.
A Toca do Lobo Branco havia passado por algumas mudanças, mas ninguém havia descoberto a causa; até então, nada no cofre parecia alarmante. O Obsidian Cross era especializado em combate, não em investigação, e seus membros jå suspeitavam que a Associação esperava demais deles. Se a situação exigia uma investigação minuciosa, deveriam ter enviado grupos com o conjunto de habilidades adequado para isso.
Hesitante, Henrik interveio:
â VocĂȘ acha que isso realmente precisava da gente, Sven?
â Bem⊠â Sven coçou a bochecha. â Quando alguĂ©m assim te pede…
Essa missão lhes fora designada quando os Crosses pararam na Associação para entregar a mensagem de Krai. Eles não tinham obrigação de aceitå-la, mas também não tinham motivo para recusar um favor do próprio gerente da filial.
Henrik nĂŁo estava satisfeito por seu grupo ter sido praticamente enviado para uma tarefa de recado e acabado preso em uma missĂŁo.
â HĂĄ muito o que aprender ao explorar um cofre de tesouros â disse Sven, como se tentasse consolĂĄ-lo. â AlĂ©m disso, eu disse que vocĂȘ podia ter ficado para trĂĄs.
Henrik endireitou a postura e declarou:
â Eu nĂŁo poderia abandonar nosso grupo assimâ
O Espadachim que marchava em silĂȘncio atrĂĄs dele deu-lhe um tapa forte nas costas, fazendo o novato engasgar em meio a uma crise de tosse. Isso arrancou algumas risadas do grupo.
â M-Masâ â Henrik tentava falar entre tosses. â Parece que estamos sĂł limpando a bagunça do CM.
â A bagunça dele? â Sven abriu um sorriso selvagem. â Bom, Henrik. Um dia vocĂȘ vai entender.
A exploração prosseguiu sem dificuldades. Afinal, mesmo com o recente aumento de nĂvel, esses cavaleiros lobo ainda estavam dois nĂveis abaixo dos fantasmas com que o Obsidian Cross costumava lidar.
A Ășnica preocupação de Sven seria o chefe que havia derrotado um caçador de NĂvel 5, mas aparentemente ele ainda nĂŁo havia renascido apĂłs ser eliminado pela Sombra Partida.
Seu grupo estava trabalhando de forma eficiente, e nem sequer precisaram recorrer à sua lutadora de maior dano em årea, Marietta. Também não houve qualquer alerta vindo dos outros grupos que investigavam outras partes do cofre.
EstĂĄ fĂĄcil demais, pensou Sven. A completa ausĂȘncia de perigo parecia terrivelmente suspeita para ele.
Os Crosses seguiam pelo corredor, jå na metade do caminho até a sala do chefe, quando a bolsa no cinto de Sven vibrou. Ele rapidamente retirou dela uma pedra negra.
A estrutura altamente organizada dos Primeiros Passos entre seus membros, tanto caçadores quanto funcionĂĄrios nĂŁo-caçadores, era algo Ășnico entre os grandes clĂŁs da capital. Era raro ver uma organização de caçadores que seguisse tantas regras. A maioria dos outros clĂŁs era apenas um agrupamento de alguns grupos sem uma estrutura orientadora.
A pedra negra que Sven segurava era uma Pedra Sonora. Esses RelĂquias Ășnicas eram encontradas em pares; qualquer palavra dita em uma delas seria reproduzida pela outra. Como qualquer RelĂquia, era necessĂĄrio treinamento para usĂĄ-las com eficiĂȘncia. Embora fossem um pouco complicadas de operar, eram dispositivos de comunicação extremamente Ășteis. Por isso, Sven havia deixado uma das pedras na sede do clĂŁ, para que pudessem ser contatados imediatamente em caso de emergĂȘncia.
Pedras Sonoras custam uma pequena fortuna e, pior ainda, a demanda constante e alta fazia com que nenhuma ficasse muito tempo nas prateleiras das lojas. Com o consenso do grupo, Sven havia comprado um par, e só conseguiu colocar as mãos em um conjunto fazendo vårias conexÔes com as pessoas certas.
Enquanto segurava a pedra no ouvido, Sven sentiu sua expressĂŁo escurecer a cada segundo.
Apenas algumas palavras chegaram até ele.
â Entendido â respondeu. â Valeu pelo aviso.
Ele guardou a pedra, agora desligada, e se virou para os companheiros de grupo, que observavam silenciosamente em busca de espectros.
â Vamos para a superfĂcie â disse Sven. â A situação mudou: Krai estĂĄ enviando mais caçadores dos Passos. E fiquem atentos aos slimes. Precisamos repassar a mensagem para os outros grupos tambĂ©m. Agora, soa o apito para a retirada.
â O quĂȘ…? O quĂȘ?!
Ignorando a confusĂŁo de Henrik, um dos espadachins soprou o apito, disparando um alerta por toda a caverna.
â Me dĂĄ um tempo, Crosses… â resmungou um caçador de cabelos castanhos, lançando um olhar irritado para Sven. Ele pertencia a outro grupo encarregado de investigar a Toca do Lobo Branco.
Sven se lembrou das apresentaçÔes trocadas antes de entrarem no cofre: ele se chamava Gein, um Espadachim de NĂvel 5 com uma boca suja e uma atitude desagradĂĄvel. Ainda assim, o fato de ter sido recrutado para essa missĂŁo significava que ele, no mĂnimo, sabia se virar em um cofre.
Um clima tenso pairava sobre os caçadores do lado de fora da Toca do Lobo Branco, apesar de jå terem eliminado os espectros de guarda. Todos os grupos dentro da caverna haviam fugido assim que ouviram o apito.
Caçadores de tesouros estavam sempre competindo entre si. Embora os cofres praticamente nunca ficassem sem recursos, a quantidade de saque disponĂvel em um dado momento era limitada. Como resultado, era comum grupos de caçadores entrarem em conflito ao se encontrarem dentro dos cofres.
Fora dos limites da cidade, não havia aplicação da lei; alguns grupos até sobreviviam roubando outros caçadores de tesouros. Por isso, era natural que cada grupo tentasse esconder suas estratégias para evitar desvantagens em caso de conflito.
Normalmente, quando vĂĄrios grupos participavam da mesma missĂŁo, operavam de forma independente. No entanto, em investigaçÔes oficiais do governo cheias de variĂĄveis desconhecidas, era necessĂĄrio pelo menos um nĂvel bĂĄsico de coordenação. Assim, o sinal do apito havia sido combinado previamente, cada grupo lidaria com seus prĂłprios problemas sozinho, a menos que encontrassem algo fora do comum.
Cerca de vinte caçadores estavam reunidos na entrada da caverna, tendo vindo apĂłs ouvirem o apito de Sven. Gein era o Ășnico a apontar o dedo diretamente para ele, mas os outros pareciam compartilhar seu sentimento.
â Deixa eu ver se entendi â disse Gein. â VocĂȘ nem viu nenhuma emergĂȘncia, mas mesmo assim tocou o apito com base em… o quĂȘ? Uma ligação por Pedra Sonora?
â Isso mesmo â respondeu Sven sem hesitação.
Os olhares dos caçadores armados variavam entre hostilidade, curiosidade, desdĂ©m e aprovação, mas Sven permaneceu impassĂvel.
Os caçadores começaram a murmurar entre si diante da confiança de Sven. Até Gein franziu a testa diante da reação dos outros.
A Obsidian Cross era famosa por suas estratĂ©gias cautelosas e por sua composição Ășnica, onde todos os membros tinham habilidades de cura. Ăs vezes, isso era confundido com covardia por outros caçadores, mas os resultados falavam por si. AlĂ©m disso, o fato de os Crosses terem atingido um nĂvel tĂŁo alto sem perder nenhum membro ao longo do caminho gerava respeito. Ainda assim, os outros caçadores nĂŁo gostaram do alarde desnecessĂĄrio em uma missĂŁo conjunta que envolvia grupos de diferentes nĂveis e afiliaçÔes.
Gein estalou a lĂngua e falou em voz alta para o grupo:
â AlguĂ©m viu alguma coisa? E aquele chefe que falaram?
â Nada, nĂŁo.
â NĂŁo vimos. Encontramos alguns espectros, mas lidamos com eles sem problemas.
â Ouvi dizer que a Sombra Partida matou o chefe. Duvido que ele apareça de novo tĂŁo cedo.
Cada lĂder de grupo respondeu brevemente.
A Toca do Lobo Branco era um cofre de tamanho mĂ©dio. Embora seus corredores sinuosos criassem um layout complicado, nĂŁo deveria levar muito tempo para caçadores experientes como aqueles vasculharem todo o local, mesmo se avançassem com cautela. Considerando que a Ășnica ameaça em potencial, o chefe, jĂĄ havia sido eliminada, a missĂŁo nĂŁo parecia ser tĂŁo difĂcil, exceto pelo fato de que as mudanças repentinas no cofre ainda nĂŁo haviam sido explicadas. De qualquer forma, o objetivo da missĂŁo era investigar o estado atual da Toca do Lobo Branco, nĂŁo descobrir a causa das mudanças.
Gein bufou e lançou um olhar feroz para Sven, que o encarou de volta.
â VocĂȘ ouviu eles â disse Gein. â EntĂŁo vocĂȘ dĂĄ mais valor Ă s palavras de um cara que nem se deu ao trabalho de descer aqui do que ao nosso julgamento? Acertei?
Ele parecia pronto para sacar a espada, se não fosse a presença dos outros caçadores ali.
Por mais hostil que Gein fosse, sua lĂłgica era difĂcil de refutar. Na verdade, Sven tambĂ©m ficaria irritado se os papĂ©is estivessem invertidos. Ao lado dele, Henrik olhava nervosamente de Sven para Gein e vice-versa.
Sven percorreu o olhar pelo grupo de caçadores antes de dar de ombros.
â Ă mais ou menos isso.
Os olhos de Gein se arregalaram, seu rosto ficou vermelho e suas sobrancelhas se uniram em um franzido. Ele deu um passo Ă frente, como se estivesse prestes a socar Sven, quando este soltou um longo suspiro.
â PatĂ©tico â cuspiu Sven.
â O que foi que vocĂȘ disse?! â rosnou Gein.
â SĂł pra deixar claro â disse Sven â, nĂłs tocamos o apito por bondade.
Sven viu a cor sumir dos rostos ao seu redor.
Os lobos uivavam do fundo da caverna, como se tentassem intimidar os intrusos que haviam desaparecido de repente. Sven não pÎde evitar a sensação de que aquilo era um mau pressågio.
â Os Grieving Souls nĂŁo teriam tocado esse apito: Krai teria dito que estava tudo bem; Liz e Luke simplesmente nĂŁo teriam se importado; e a Sitri… bem, ela teria mandado vocĂȘs pra dentro e ficado assistindo. Mas nĂłs somos curandeiros, nĂŁo faz parte do nosso estilo ficar parados vendo as pessoas morrerem.
Caçadores sabiam que estavam por conta própria. Embora existisse um código não escrito para se ajudarem em situaçÔes extremas, Sven não devia aquele aviso a ninguém ali. Ainda assim, ele tocou o apito, jå esperando esse tipo de reação. E foi exatamente por isso que ele manteve a calma o tempo todo.
Encostando-se ao tronco de uma ĂĄrvore, Sven pressionou a grama sob o calcanhar e disse:
â Alguns dos nossos companheiros vĂŁo chegar logo. Podemos esperar para voltar ao cofre. Mas se vocĂȘs quiserem se matar, fiquem Ă vontade. NĂłs ficamos aqui.
Ele esperou por uma resposta de Gein, que permaneceu sem palavras.
â Um bom pagamento nĂŁo serve pra nada pra um homem morto â disse Sven. â Mas essa dica Ă© de graça. De nada.
Cada membro da investigação receberia um valor fixo como pagamento base, alĂ©m de bĂŽnus por trazer informaçÔes particularmente valiosas. Essa prĂĄtica de contratar vĂĄrios grupos para uma Ășnica missĂŁo incentivava uma competição saudĂĄvel entre os caçadores.
Gein mordeu o låbio. Ele sabia que a recompensa por uma boa pista era uma quantia significativa. Mas, apesar de seu grupo jå estar investigando o cofre antes mesmo dos Crosses chegarem, eles não haviam encontrado nada que valesse um bÎnus. Embora fosse improvåvel que fizessem novas descobertas caso voltassem ao cofre agora, ele também sabia que as multidÔes da Primeiros Passos diminuiriam ainda mais suas chances.
Como muitos caçadores, Gein era movido pela ganĂąncia, pelo menos mais do que os normais. Ele nĂŁo sentiu grande risco na situação atual, e os outros caçadores, que trocavam olhares confusos, tambĂ©m nĂŁo. Aparentemente, todos estavam passando pelo mesmo raciocĂnio que Gein.
Esse apito não teria sido levado a sério se não tivesse sido soprado por um grupo famoso.
Finalmente, um dos caçadores explodiu:
â Esses fantasmas aqui sĂŁo lobosânĂŁo tem como um slime aparecer! E mesmo que apareça, qual o problema? Temos um Magus no nosso grupo!
Todos os caçadores, exceto os Crosses, consideravam altamente improvĂĄvel, senĂŁo impossĂvel, que um slime aparecesse na Toca do Lobo Branco, isso nem deveria estar sendo cogitado.
Soltando um suspiro cansado, Sven disse:
â Nunca vou esquecer aquele dia, quando a Passos ainda estava engatinhando: nosso CM, Krai, nos convidou para ver as flores em um lugar fora da cidade.
A seriedade em sua voz silenciou todo o grupo, atĂ© mesmo Gein, que estava rangendo os dentes furiosamente, prestou atenção. Os outros Crosses ouviram com expressĂ”es amargas; apenas Henrik, entre eles, observava seu lĂder com curiosidade.
â “Se formos em grupo, nĂŁo precisaremos de guarda-costas”, ele disse â continuou Sven. â “Mas como vamos sair da cidade, nĂŁo esqueçam suas armas, sĂł por precaução.”
â Do que vocĂȘ tĂĄ falando? â murmurou Gein.
â E o lugar para onde fomos⊠virou um cofre do tesouro.
O grupo todo prendeu a respiração em choque.
â Alguns de vocĂȘs podem lembrar quando isso aconteceu â continuou Sven. â As linhas ley mudaram um pouco depois de um terremoto, e isso fez com que elas se cruzassem bem no lugar onde fomos ver as flores. AlguĂ©m aqui jĂĄ viu um cofre do tesouro se materializar bem na sua frente? Aquilo foi algo, parecia o prĂłprio inferno se abrindo e derramando seu conteĂșdo na superfĂcie. NĂŁo Ă© algo que vocĂȘ encontraria por aĂ com facilidade.
Ninguém disse uma palavra. Eles simplesmente não conseguiam.
Caçadores eram naturalmente sensĂveis a notĂcias sobre cofres do tesouro. Na verdade, o surgimento desse cofre em particular havia sido uma grande histĂłria na Ă©poca. Cada caçador presente parecia se lembrar desse cofre, tĂŁo perigoso que a maioria dos caçadores se recusava a entrar, apesar da proximidade com a capital.
Em total descrença, Gein gaguejou:
â VocĂȘ nĂŁo quer dizer… o Jardim, quer?
Nos meros trĂȘs anos desde seu surgimento, esse cofre do tesouro alcançou a impressionante classificação de NĂvel 7 e a reputação de ser o pior cofre nos arredores da capital. Ele voltou a ser notĂcia recentemente, quando Ark Rodin o conquistou, mas, de fato, havia apenas um punhado de caçadores que ousaria sequer sonhar em enfrentĂĄ-lo.
Desde o “incidente do Jardim”, um rumor circulava discretamente dentro da Primeiros Passos. No começo parecia absurdo, mas, com o tempo, se tornou cada vez mais crĂvel conforme as evidĂȘncias se acumulavam.
â O Mil Truques… consegue ver o futuro â disse Sven, repetindo o rumor.
â Isso Ă© â Gein estremeceu ao falar â impossĂvel.
Os membros da Primeiros Passos reverenciavam a misteriosa, porĂ©m precisa, clarividĂȘncia de seu mestre de clĂŁ, mas tambĂ©m temiam os Mil Desafios que ele lançava sem aviso como parte de suas previsĂ”es.
â Ele tem uma RelĂquia que permite isso â acrescentou Sven. â Ă sĂł um boato, e ele vai negar atĂ© a morte. Eu sĂł acredito no que vejo. E Ă© por isso que gastei uma fortuna num par de Pedras Sonoras: para receber as informaçÔes dele o mais rĂĄpido possĂvel, hĂĄ muito dinheiro em jogo.
Além disso, Sven sabia que os Grievers, livres, indomåveis e, ousaria dizer, ferozes, seguiriam apenas as ordens de Krai. Isso, por si só, jå era motivo suficiente para Sven ficar em alerta, um caçador não sobrevive se for imprudente.
O silĂȘncio entre os caçadores era total. Com um sorriso feroz, Sven desafiou o grupo:
â Pronto. Me expliquei. E aqui vai um Ășltimo aviso: o Mil Truques nĂŁo me chama Ă toa. Se ainda quiserem continuar, a escolha Ă© de vocĂȘs.
â Droga â rosnou Gein, sentando-se no chĂŁo. â Esses seus companheiros de clĂŁ que se apressem. NinguĂ©m vai me acusar de estar enrolando.
O escritĂłrio do mestre do clĂŁ estava em completa paz. Agora que a maioria dos membros tinha partido para o cofre, a casa do clĂŁ, normalmente animada, estava em silĂȘncio.
Quebrando essa tranquilidade estava Liz, zanzando inquieta ao meu redor: escondia-se atrås da mesa, tomava goles do café que Eva servira e, por fim, me abraçou por trås, esfregando-se em mim.
â Ei, Krai Baby, quando a gente vai sair? O que vocĂȘ quer que eu faça? JĂĄ tĂŽ pronta!
Definitivamente nada Zen da parte dela.
Tino estava sentada educadamente no sofĂĄ, tremendo de vergonha alheia pelo comportamento da mentora.
Talvez Liz tenha notado meu olhar pouco entusiasmado, pois me lançou um sorriso nada arrependido.
â Foi mal, mas jĂĄ faz tanto tempo desde a Ășltima vez que saĂmos juntos.
â VocĂȘ nĂŁo estĂĄ me incomodando â respondi.
Eu odiava estragar o entusiasmo dela, mas nĂŁo ia dar chance para que ela causasse o caos.
NĂŁo era como se Liz ficasse acumulando energia destrutiva ou algo assim, mas as carnificinas que ela causava superavam atĂ© as dos caçadores mais brutais. O nĂvel de destruição era tĂŁo absurdo que atĂ© outros caçadores do nĂvel dela evitavam cruzar seu caminho.
Os outros caçadores envolvidos na missão não ficariam nada felizes com o comportamento dela. Não que Liz ligasse para sua reputação, mas também não havia necessidade de deixå-la pior do que jå estava.
Alheia às minhas preocupaçÔes, Liz estremeceu e cantarolou:
â Aaah. Da Ășltima vez, nĂŁo pude te mostrar todo o meu poder. Mal posso esperar pra vocĂȘ me ver lutar, Krai Baby! Promete que vai me assistir?
Seus olhos estavam quase lacrimejando.
â Aham â respondi.
Eu jĂĄ tinha visto ela lutar. E aquilo tinha sido mais do que suficiente!
Desde que meus amigos e eu começamos a treinar para nos tornarmos caçadores, Liz sempre vinha me mostrar seus progressos sempre que sentia que tinha melhorado. Eu a enchi de elogios pelo tempo que pude, até que, um dia, ela começou a se mover tão råpido que meus olhos não conseguiam mais acompanhar. Mas esse era um segredo que eu guardei para mim mesmo. Ela não vinha me mostrar novos truques hå um tempo, então achei que tinha perdido o interesse, mas aparentemente não.
â M-Mas, Lizzy, eu acho que nenhum fantasma lĂĄ vai estar Ă altura do seu, Me desculpa! Me desculpa! Me desculpa! Me desculpa por interromper! Por favor, me perdoe! Mestra! â O comentĂĄrio de Tino foi sufocado pelo olhar assassino de Liz.
Que mentora inståvel. Eu não me ofenderia se Tino me interrompesse. Na verdade, ela nem tinha interrompido nada, pensei enquanto acariciava o dorso da mão de Liz, que me envolvia por trås com seu braço.
Liz soltou um suspiro rĂĄpido e disse:
â NĂŁo seja idiota, T. O que o Krai Baby tem em mente para mim nĂŁo Ă© trivial. O nĂvel daquele cofre jĂĄ nĂŁo importa mais. Lembre-se do seu lugar, T: como ousa presumir as intençÔes do Krai Baby?
Droga. Ela estĂĄ elevando a barra cada vez mais. Ela jĂĄ devia saber que sou um pacifista…
Preocupado, decidi tentar desviar seu entusiasmo.
â Eu gosto de fazer coisas idiotas. Quer sair comigo?
â Sim! â Liz quase gritou de empolgação, apesar de jĂĄ ter saĂdo comigo duas vezes recentemente. â Isso nĂŁo Ă© idiota! â disse ela, com as bochechas coradas e os olhos brilhando de expectativa.
Eu quase me senti mal por ter sugerido isso.
Tino, a quem Liz estava tratando com menos respeito do que um pedaço de chão sujo, estava olhando para o chão tremendo no sofå.
O humor de Liz afetava diretamente a forma como tratava Tino; com sorte, isso ajudaria a aliviar um pouco a situação dela. Era o mĂnimo que eu podia fazer depois que Liz trouxe tormento e fogo do inferno para ela.
â U-Um… Eu achei… â disse Tino, hesitante. â Eu achei que a Mestra tinha uma tarefa paraâ Eek! â Ela se encolheu.
â Para de ameaçå-la toda vez que ela fala, Liz. Pobre Tino.
â Eu nĂŁo ameacei ela â disse Liz. â T tĂĄ se encolhendo sozinha. AlĂ©m disso, T Ă© uma boa garota; ela nunca me faria ficar com raiva, nĂŁo Ă©, T?
Tino agora estava praticamente perdendo a sanidade de medo. Se ao menos Liz pudesse ser calma como a Sitri!
Enquanto acariciava o braço de Liz para acalmå-la, considerei minhas opçÔes.
Tino tinha um ponto sólido. Mesmo que eu realmente não estivesse a fim, eu tinha prometido encontrar os caçadores no Covil do Lobo Branco. Mas o timing seria complicado.
Olhei para o relĂłgio. Hmm, ainda muito cedo. E eu tenho que encontrar um slime.
Havia trabalhos demais na minha lista para os quais eu não era qualificado, e só de pensar nisso me dava vontade de vomitar. Mas, claro, eu só tinha a mim mesmo para culpar por todos eles. Talvez eu devesse contar a Eva a verdade sobre o Slime Sitri e deixar que ela encontrasse uma solução brilhante?
Meus pensamentos giravam na minha cabeça. Recostei-me na cadeira como se quisesse esconder minha ansiedade ardente. Havia uma vontade inexplicåvel de me ajoelhar e pedir desculpas.
As coisas seriam um pouco mais fåceis se os outros Grievers estivessem aqui: meus amigos eram tanto os melhores caçadores do clã quanto meu sistema de apoio emocional.
â O que foi, Krai Baby? VocĂȘ parece preocupado â disse Liz.
â Pareço? â falei hesitante. â NĂŁo Ă© nada.
â Quer conversar sobre isso comigo? â ela perguntou.
Isso nĂŁo Ă© bom.
Aparentemente, eu parecia tĂŁo preocupado que atĂ© Liz ficou preocupada comigo. Eu era o lĂder deles; o mĂnimo que eu podia fazer era proporcionar estabilidade para o meu grupo.
â SĂł me perguntando o que todo mundo estĂĄ fazendo â disse eu â, especialmente Sitri. Ela estĂĄ bem atrasada, nĂŁo estĂĄ?
O slime era uma coisa, mas eu tambĂ©m precisava que Lucia recarregasse minhas relĂquias. De certa forma, agora parecia uma bĂȘnção disfarçada que Liz tivesse largado o cofre do tesouro para voltar para casa: sĂł ter um Griever por perto jĂĄ fazia maravilhas para a minha sanidade.
â VocĂȘ Ă© tĂŁo fofo, Krai Baby. Mas eu nĂŁo me importo se ela demorar um pouco mais para voltar â disse Liz, com um tom travesso.
Ela pressionou a parte de trås da minha cabeça contra seus seios e deslizou uma mão por dentro da minha camisa. Senti seu dedo fino deslizando sobre minha pele.
â Faz tanto tempo que nĂŁo passamos um tempo assim, e eu quero vocĂȘ sĂł para mim um pouco mais… â sussurrou Liz. â E a Siddy sempre atrapalha a gente, sabe?
Eu nĂŁo lembrava de Sitri fazendo isso, e achava que tinha passado mais tempo com Liz do que com qualquer outro dos meus amigos.
Tudo que eu podia fazer pelos meus amigos era ser um suporte emocional para eles. EntĂŁo, geralmente, eu nĂŁo me importava quando Liz vinha atĂ© mim, mas, se quer saber, ela tinha ido um pouco longe demais com o contato fĂsico, Tino tambĂ©m estava na sala! Eu via que ela ficava nos olhando, curiosa.
Quando estava prestes a redirecionar sua energia gentilmente, o dedo de Liz parou de fazer cĂłcegas no meu peito.
â Hmm…? Espera. Por quĂȘ? â ela perguntou, hesitante.
â O que foi? â perguntei.
Ela soltou minha cabeça de seu abraço macio e olhou para a porta.
â JĂĄ acabou? Ă isso que vocĂȘ estava esperando? Eu estava me perguntando por que vocĂȘ ficava olhando para o relĂłgio… â murmurou.
O quĂȘ? “JĂĄ acabou”? Ela sentiu alguma coisa?
Como Ladina, Liz era especialista em farejar coisas Ă distĂąncia.
Ela estava falando da investigação?
Duvidava que atĂ© mesmo ela pudesse saber o que estava acontecendo no Covil do Lobo Branco a essa distĂąncia, e eu tinha acabado de enviar caçadores adicionais, mas nĂŁo tinha outro palpite. Se fosse o caso, seria uma Ăłtima notĂcia para mim: menos uma coisa para me dar vontade de vomitar.
Que amigos talentosos eu tenho! Ainda bem que eles equilibram minha inutilidade.
Eu estava sorrindo com esse pensamento bobo quando a porta se abriu silenciosamente.
â Estou em casa â anunciou uma voz inesperadaâuma voz tranquila e suave.
Liz franziu a testa e soltou um suspiro irritado.
â Por que voltou tĂŁo cedo e sozinha? Poderia ter demorado mais… NĂŁo era seu trabalho preparar e limpar tudo?
â Pff! VocĂȘ tambĂ©m largou a gente e voltou sozinha, Liz. NĂŁo estĂĄ em posição de reclamar disso.
Pela porta entrou uma pessoa vestindo um casaco largo e sĂłbrio, escondendo sua silhueta. Em suas costas, carregava uma grande mochila cinza, resistente a manchas.
Seus cabelos, da mesma cor dos de Liz, estavam cortados em um bob bem aparado na altura dos ombros. Seus olhos ligeiramente caĂdos davam um olhar gentil sob a franja que ia um pouco abaixo das sobrancelhas.

Ela era Sitri Smart, Alquimista de NĂvel 2, a mente brilhante dos Grieving Souls. Normalmente, era encarregada de reconhecimento, preparação e tarefas de limpeza.
Eu aguardava seu retorno hĂĄ muito tempo.
Se Liz era o sol, Sitri era a lua. Sitri nĂŁo irradiava luz intensa, mas havia uma beleza serena nela.
Sitri abaixou sua mochila, sorriu para mim e disse:
â Desculpe a demora, Krai.
â Bem-vinda de volta, Sitri.
Meu cérebro voltou a funcionar. Meu sorriso cresceu em resposta ao dela, e deixei de lado todas as minhas perguntas por enquanto.
â O que te trouxe de volta? â perguntei.
â Tive… um mau pressentimento â respondeu a mente mais brilhante do nosso grupo, em um tom baixo.
Sitri era genial. Sempre agia de forma lĂłgica, o que tornava difĂcil acreditar que era irmĂŁ de Liz, cujos punhos se moviam mais rĂĄpido do que os impulsos em seu cĂ©rebro. Na verdade, Sitri era geralmente a responsĂĄvel por manter sob controle a tendĂȘncia dos Grievers de agir no improviso.
Ela era a mais fraca do grupo em combate (depois de mim, Ă© claro), mas isso era normal para Alquimistas. Sua sabedoria compensava amplamente sua falta de poder.
Liz, sem muita paciĂȘncia, observava a irmĂŁ, enquanto Tino se escondia atrĂĄs do sofĂĄ.
â Sinto que… algo grande estĂĄ prestes a acontecer â continuou Sitri â algo muito ruim… Achei que vocĂȘ precisaria da minha ajuda, entĂŁo pedi dispensa da expedição. Diferente da minha irmĂŁ aqui, eu nĂŁo voltei sĂł para te ver, claro que senti sua falta. Hm… Estou errada, Krai?
Seu pensamento fora do comum e, mais do que tudo, sua rapidez de raciocĂnio faziam de Sitri uma gĂȘnia de um tipo completamente diferente de sua irmĂŁ. Ela provavelmente enxergava o mundo de uma maneira muito diferente da minha. Na verdade, sua compreensĂŁo transcendia tanto que seu vasto conhecimento era reconhecido atĂ© por diversas instituiçÔes acadĂȘmicas.
Sitri tinha um instinto absurdo. Nunca conheci ninguĂ©m cujos pressentimentos fossem mais certeiros que os dela. Baseando-me na minha experiĂȘncia pessoal, suas intuiçÔes estavam quase sempre certas, especialmente quando eram ruins.
Sitri apertou as mangas do traje e olhou para a irmĂŁ e Tino antes de dizer:
â Um inimigo poderoso, meu inimigo, surgiu. Precisamos eliminĂĄ-lo antes que fique ainda mais forte, Krai.
Ela sabe sobre o slime? Mas, de qualquer forma, isso Ă© bom.
Sitri sempre aparecia quando era mais necessĂĄria.
Eu precisava aproveitar aquela mente brilhante mais uma vez.
â Liz, Tino, podem nos dar licença? â pedi. â Preciso ter uma conversa sĂ©ria com a Sitri.
â O quĂȘ?! Que injusto! Eu quero ouvir tambĂ©m! â reclamou Liz.
â L-Lizzy, vamos… O Mestre jĂĄ disse… VocĂȘ nĂŁo pode simplesmente desobedecer… â A pequena e corajosa Tino pegou Liz pela mĂŁo e a arrastou para fora.
Preciso pagar um sorvete para ela depois.
Quando ficamos sozinhos no quarto, comecei a explicar a situação complicada em que me encontrava ultimamente. Sentia-me mais seguro com Sitri, que sorria com confiança, mesmo jå tendo deduzido o que eu estava contando.
Ela fechou os olhos e se aprofundou em seus pensamentos.
Quando Ă©ramos crianças, ela era uma garota quieta, sempre com um livro nas mĂŁos. Seus olhos e cabelo eram da mesma cor dos de Liz, mas havia algumas diferenças entre elas. Sitri era um pouco mais alta e… mais bem-dotada. TambĂ©m nĂŁo era bronzeada e tinha uma aparĂȘncia mais gentil que a irmĂŁ. Ainda assim, havia muitos momentos em que ficava Ăłbvio que eram irmĂŁs.
ApĂłs alguns minutos de silĂȘncio, Sitri sorriu para mim, ela devia ter terminado de organizar seus pensamentos. Seus olhos brilhavam, assim como os de Liz em momentos de excitação.
â Me desculpe, eu nĂŁo esperava por isso â disse. â NĂŁo achei que o slime cresceria tanto. A cĂĄpsula foi feita de um metal completamente oposto Ă sua composição â
â Espera, crescer? â perguntei.
â A velocidade evolutiva dos slimesâou seja, sua capacidade de se adaptar ao ambiente, estĂĄ entre as mais altas de todos os organismos. Como vocĂȘ sabe, o slime que te dei foi projetado para ter um aprimoramento em sua velocidade evolutiva. Bem, acabou sendo um fracasso.
Ela falou como se eu jĂĄ devesse saber disso, mas… na verdade, eu nĂŁo sabia.
Alquimistas eram realmente estudiosos. A curiosidade de Sitri pelo desconhecido superava até a obsessão de sua irmã por desafios.
Ela manteve a calma mesmo depois que expliquei meu erro desastroso. Talvez jĂĄ esperasse que eu deixaria o slime escapar.
â EntĂŁo… ele pode ter âse adaptadoâ para escapar da cĂĄpsula metĂĄlica? â perguntei.
â Sim, essa possibilidade existe. Mas ele superou todas as minhas expectativas.
Por que vocĂȘ me deu algo assim?! Vigia vocĂȘ mesma! Pensei comigo mesmo, mas nĂŁo falei em voz alta. Ainda era mais provĂĄvel que eu tivesse cometido um erro do que um slime escapar de uma cĂĄpsula metĂĄlica selada.
Sitri e eu descemos atĂ© meu quarto. Ela lançou seu olhar para minha cama arrumada e as fileiras organizadas de RelĂquias, em vez de focar diretamente no cofre onde o slime estava guardado.
Eu jĂĄ vasculhei esse quarto de cima a baixo, nĂŁo tem sentido ela investigar de novo…
â Mesmo que tenha saĂdo da cĂĄpsula, nĂŁo deveria ter escapado do seu cofre de RelĂquias â murmurou, concentrada. â O espaço dentro da Fortaleza ImpecĂĄvel estĂĄ em uma fase diferente do espaço ao redor. O slime deveria levar muito tempo para superar isso com evolução fĂsica, e nĂŁo deveria haver materiais suficientes para que ele evoluĂsse intelectualmente e conseguisse abrir o cofre sozinho. TambĂ©m deveria levar muito tempo para aprender a atravessar objetos, e sua adaptabilidade sĂł permitiria que passasse pelo metalium da cĂĄpsulaâ
â Resumindo? â pedi.
â Provavelmente, o slime estava escondido no cofre, fora da cĂĄpsula, e escapou quando vocĂȘ o abriu â disse Sitri, sorrindo e juntando as mĂŁos. â Acertei?
Como… eu deveria saber? Espera. Isso significa que o slime estava ali, bem ao meu lado, quando estendi a mĂŁo para pegar a cĂĄpsula?
O interior do cofre estava escuro, e eu estava com pressa. EntĂŁo, era uma possibilidade real.
Um calafrio percorreu minha espinha.
Um slime capaz de aniquilar toda a capital, cuja mera presença assustava fantasmas. Aquela coisa esteve ao meu lado, no meu quarto?!
â Como eu… ainda estou vivo? â soltei sem pensar.
â Eu o ajustei para nĂŁo te atacar â disse Sitri, como se fosse Ăłbvio.
A Ășnica coisa que ela me disse foi que era perigoso e que eu deveria segurĂĄ-lo. Isso era algo que deveria ter sido melhor explicado!
â E-Espere, entĂŁo ele Ă© seguro para tocar…? â perguntei.
â Bem, pelo menos para nĂłs. NĂŁo importa o quanto eu tenha ajustado, sĂł consegui marcar dois alvos para serem excluĂdos como presas â disse ela. â Mas, para ser franca, Krai, essa coisa Ă© perigosa demais para ser usada como um dos seus Testes. Fico muito lisonjeada por vocĂȘ estar usando a minha criação, mas serĂĄ um desastre e tanto se isso for registrado pelo mundo como um fantasma.
Do que diabos ela estava falando? EntĂŁo, Sitri e eu estĂĄvamos seguros, mas isso atacaria qualquer outra pessoa indiscriminadamente? De jeito nenhum, pensei comigo mesmo. NĂŁo tinha como a brilhante Alquimista me entregar um monstro defeituoso assim!
Mas, por outro lado, Sitri tinha um histĂłrico de perder a noção das coisas quando se tratava de seus experimentos…
Sitri olhou ao redor, observando as paredes e o chão, depois seguiu até a porta do meu banheiro, no final do quarto.
â NĂŁo hĂĄ dutos nem ralos neste cĂŽmodo â disse ela. â Mas ainda Ă© um slime, entĂŁo instintivamente preferiria umidade. Acredito que tenha ido para o banheiro. Provavelmente escapou pelo ralo… estou certa?
â Eu mantenho a porta fechada quando nĂŁo estou aqui â respondi.
â Ganhar massa dentro da Fortaleza ImpecĂĄvel nĂŁo foi fĂĄcil para ele, estando completamente isolado do mundo exterior. Mas ele poderia rastejar facilmente por debaixo de uma porta normal. NĂŁo Ă© verdade, Krai?
â Aham…?
Eu ia vomitar.
Ela continuava pedindo minha confirmação, mas a Ășnica coisa que eu podia confirmar com certeza era que eu nĂŁo sabia nada sobre esse slime.
SerĂĄ que a Sitri realmente acha que sou o tipo de pessoa que consegue prever tudo isso facilmente? E pera aĂ, isso Ă© um desastre. O ralo do banheiro leva ao sistema de esgoto que conecta toda a cidade.
Sitri sacudiu a frente do seu manto, depois inclinou adoravelmente a cabeça para o lado e disse:
â Ao contrĂĄrio dos slimes normais, esse consegue sobreviver facilmente nos esgotos: haverĂĄ muitos insetos e pequenos animais para ele se alimentar. Se ele jĂĄ se acostumou com os interiores escuros do cofre, tambĂ©m deve preferir lugares escuros. NĂŁo Ă© provĂĄvel que tenhamos tido vĂtimas humanas… ainda. Entendo, vocĂȘ pensou em cada detalhe, nĂŁo foi?
Sei lå do que ela estava falando. O que captei foi que essa coisa provavelmente ainda não havia matado ninguém.
Suspirei discretamente aliviado; o pior cenĂĄrio havia sido evitado.
Mas, dito isso, mesmo com a minha mente nada genial, eu conseguia imaginar que vasculhar os esgotos atrĂĄs dele seria um trabalhĂŁo, quem sabia se aquela coisa ainda estava viva? E se tivesse se escondido no esgoto, duvidava que conseguĂssemos encontrĂĄ-la. Mas nĂŁo podĂamos desistir de procurĂĄ-la.
Sitri voltou a refletir, de olhos fechados. Fiquei em silĂȘncio para nĂŁo atrapalhĂĄ-la, e logo ela abriu os olhos.
â Entendi. Deixe isso comigo â disse ela e, rapidamente, mudou de assunto. â Sobre outra questĂŁo…
â Se vocĂȘ diz que cuida disso, entĂŁo tudo bem, mas tem mais alguma coisa? â perguntei.
Eu deixaria que ela lidasse com isso, jĂĄ que se ofereceu, mas me perguntei o que mais precisava ser resolvido com tanta urgĂȘncia.
Sitri encostou o corpo no meu. Embora fosse mais alta que Liz, ainda era menor que a média e, portanto, mais baixa do que eu. De perto, senti um leve cheiro de erva doce vindo dela.
Com toda a seriedade, ela disse:
â Acho que descobri a causa das mudanças na Toca do Lobo Branco. Muito perigoso, toda a equipe de investigação pode acabar morta.
O chĂŁo tremeu com a chegada da caravana. Rolando pelo caminho vinham vĂĄrias carroças, cada uma adornada com o brasĂŁo dos Primeiros Passos. Esses veĂculos eram puxados por cavalos robustos e blindados, treinados para permanecerem calmos mesmo sob a aura sinistra dos cofres de tesouro.
Dos vagÔes, os passageiros, caçadores dos Passos, desembarcaram. Não havia uniformidade entre eles, exceto pelo brasão do clã, que cada um exibia de alguma forma. Esses caçadores não pareciam tão despreocupados ou felizes quanto de costume; suas expressÔes sérias e seus movimentos eficientes se assemelhavam mais a um batalhão militar prestes a embarcar em uma missão suicida.
Os caçadores que jå estavam explorando a Toca do Lobo Branco, exceto os membros da Cruz de Obsidiana, observaram a chegada dos reforços com expressÔes de espanto. Esperavam uma marcha sombria de caçadores, mas certamente não reforços nessa quantidade. Nunca antes um grupo tão grande de caçadores havia pisado na Toca do Lobo Branco ao mesmo tempo.
Gein, que vinha xingando e reclamando enquanto esperava pela chegada deles, ficou surpreso.
â Quantos caçadores vocĂȘs chamaram? O quĂȘ? Eles estĂŁo tentando derrubar todo o cofre?
Um cofre de tesouro abrangia toda a ĂĄrea sobre a qual se erguia. Portanto, destruir suas estruturas, subterrĂąneas ou nĂŁo, nĂŁo o apagaria do mapa de forma alguma. Alterar as linhas de energia abaixo de um cofre de tesouro poderia, em teoria, destruĂ-lo para sempre, mas isso nĂŁo era realista. Apesar disso, a determinação emanada por esses caçadores era tĂŁo intensa que a ideia de verem o cofre inteiro obliterado passou pela mente de Gein.
Lyle, um jovem de feiçÔes marcantes, saltou da carroça lĂder e correu atĂ© Sven. Ele era um ano mais novo e tinha um nĂvel inferior ao de Sven, mas os membros dos Primeiros Passos possuĂam todos o mesmo posto dentro do clĂŁ.
â E aĂ, Sven, como tĂĄ a situação? â perguntou Lyle.
â Nada aconteceu ainda â respondeu Sven, examinando rapidamente os caçadores recĂ©m-chegados. â AlguĂ©m estĂĄ no comando? Podemos agir por conta prĂłpria, mas em momentos crĂticos…
Enquanto isso, os outros caçadores desciam rapidamente dos vagÔes e se espalhavam em formação para defender a årea.
Um grupo de caça, por definição, deveria ser completo e equilibrado por conta prĂłpria. Caçadores de diferentes grupos nunca seguiriam um lĂder comum sob circunstĂąncias normais. Mas, em uma operação dessa magnitude, agir sem pelo menos uma direção em comum poderia levar a baixas desnecessĂĄrias.
Lyle franziu os lĂĄbios e disse:
â Os Crosses sĂŁo os lĂderes. O seu grupo Ă© o de nĂvel mais alto aqui. Krai nos disse para seguir o seu comando.
â Sei que o Krai nunca aparece nessas coisas. Mas onde estĂĄ a Liz? Sei que ela daria tudo para estar aqui â perguntou Sven.
â Krai levou ela e a Tino para outro lugar. Ele tem outro serviço para elas â disse Lyle com uma expressĂŁo amarga.
Sven decidiu nĂŁo perguntar como isso havia acontecido e apenas comentou:
â Isso… Ă© uma sorte.
Ele ficou curioso sobre qual seria o trabalho que Krai havia reservado para Liz, mas decidiu deixar esse pensamento de lado. De qualquer forma, considerou uma vitória o fato de que Liz, e sua completa falta de consideração destrutiva pelos colegas de clã, não colocaria aquela missão em risco.
Sven via Liz como a Ladina insana que procurava ativamente o perigo mortal, uma caçadora egoĂsta e imprudente que podia acabar com qualquer um, mas que nĂŁo seguia ordens nem as dava, apenas outro Grieving conseguiria fazĂȘ-la ouvir a razĂŁo. Em outras palavras, ela seria uma inimiga aterrorizante ou uma aliada catastrĂłfica.
E entĂŁo, ele chamou o grupo em voz alta:
â Juntem-se! Vamos traçar um plano.
Ă primeira vista, um slime poderia facilmente ser confundido com uma poça dâĂĄgua. Eram monstros altamente viscosos que viviam em ambientes Ășmidos; nĂŁo tinham mĂșsculos, ossos ou sangue. Apesar de sua aparĂȘncia, pareciam ser de alguma forma sencientes: deslizavam lentamente pelo chĂŁo, capturando e digerindo pequenos insetos com seus corpos.
Slimes eram criaturas mĂĄgicas que podiam surgir naturalmente, mas tambĂ©m eram conhecidas por serem criadas por Alquimistas. Ainda assim, apesar de serem seres mĂĄgicos, Sven nunca os considerou dignos de atenção, mal podiam ser chamados de monstros. Slimes eram incrivelmente fracos tanto contra ataques fĂsicos quanto mĂĄgicos. Na verdade, suas estruturas lĂquidas eram tĂŁo frĂĄgeis que podiam ser facilmente divididas ao menor toque de um humano. E uma vez divididos, apenas a metade contendo seu nĂșcleo continuaria ativa, deixando a outra metade como uma simples poça dâĂĄgua.
Embora fossem ĂĄcidos o suficiente para digerir pequenos insetos e coisas do tipo, nĂŁo representavam nenhuma ameaça para um humano, mesmo que o engolissem inteiro. Na verdade, os slimes eram tĂŁo fracos que atĂ© mesmo pessoas comuns os consideravam inofensivos. Francamente, caçadores de tesouros, que possuĂam força quase sobre-humana, achariam um desafio perder para um slime, mesmo que tentassem. E por isso, alguns caçadores nem sequer os consideravam monstros.
Sven observou seus companheiros caçadores, que estavam armados e sentados em cĂrculo.
â AlguĂ©m aqui jĂĄ lutou contra um slime antes?
â NĂŁo.
â Nunca.
â VocĂȘ realmente luta contra eles…?
â JĂĄ pisei em um sem querer…
Sven franziu a testa ao ver o desùnimo dos caçadores.
Os membros da Obsidian Cross jĂĄ haviam enfrentado monstros e fantasmas de todos os tipos, mais do que a maioria das outras equipes reunidas ali, e mesmo assim nunca tinham “lutado” contra um slime.
Mas nem todos os slimes eram iguais. Sven tinha ouvido rumores sobre um cofre do tesouro bizarro no extremo leste que só gerava slimes, slimes tão poderosos que podiam matar caçadores. Até aquele dia, esses slimes só existiam no reino dos boatos.
Coçando a cabeça, Sven soltou um longo suspiro e disse:
â Slimes, de todas as coisas… Preferia encarar um dragĂŁo.
â TambĂ©m nĂŁo exagera… â brincou um dos caçadores.
Sven não estava rindo. Com preparação meticulosa e disposição para arriscar a vida, os Crosses jå haviam lutado e conquistado uma amarga vitória contra um dragão, mas nunca contra um slime. Simplesmente, Sven não tinha ideia do que esperar; não sabia como esse slime bizarro atacaria, quais eram suas fraquezas ou como poderia tirar vantagem na batalha.
Fechou os olhos por alguns segundos antes de perguntar:
â AlguĂ©m tem alguma sugestĂŁo de como lidar com esse slime?
Ao redor do cĂrculo, os caçadores responderam com total seriedade.
â Minha espada de sempre. Cortes funcionam bem contra eles.
â Trouxe meu martelo. Ouvi dizer que impactos contundentes tambĂ©m sĂŁo eficazes. Vou esmagar o nĂșcleo dele.
â A magia de fogo do nosso Mago vai fritĂĄ-lo.
â Ele nĂŁo terĂĄ chance contra minha magia de vento.
â Comprei um spray repelente de slimes, 700 gild, vendido sem prescrição. NĂŁo sei se funciona, mas…
â Vou esmagĂĄ-lo com meu escudo.
Ă claro que essas respostas nĂŁo ajudaram em nada a aliviar as preocupaçÔes de Sven. Tirando o repelente, tudo funcionava contra slimes. Da mesma forma, arco e flecha nem sempre eram a melhor solução contra slimes, mas acertar o nĂșcleo resolvia o problema. Com suas habilidades excepcionais, Sven poderia acertar cem slimes em seus nĂșcleos sem falhar, nĂŁo importava o quĂŁo pequenos fossem.
â O Krai disse mais alguma coisa? â perguntou Sven. NĂŁo havia informaçÔes suficientes para ele trabalhar, e Krai tinha um longo histĂłrico de deixar de fora detalhes cruciais.
Sentado trĂȘs lugares Ă esquerda de Sven, Lyle respondeu com um tom derrotado:
â SĂł disse que nĂŁo Ă© um slime normal…
â Droga, isso eu jĂĄ sabia! â resmungou Sven. â Por que ele sempre tem que nos dar informaçÔes aos poucos?! Toda! Maldita! Vez!
â Perguntamos a ele, mas ele sĂł disse que nĂŁo sabe…
Essa era a tĂĄtica padrĂŁo de Krai. E o pior era que ele realmente parecia nĂŁo saber. Sven tinha que admitir: o mestre do seu clĂŁ tinha um poker face inabalĂĄvel.
Os caçadores ficaram em silĂȘncio.
EntĂŁo, Gein falou no canto do cĂrculo com um tom debochado:
â Isso Ă© ridĂculo! A gente nĂŁo vai matar esse slime pensando nele atĂ© a morte. NĂŁo me importa se o lĂder de vocĂȘs “vĂȘ o futuro” ou qualquer coisa assim, temos pessoal suficiente agora e um trabalho a fazer. Se vocĂȘs estĂŁo com medo de agir, nĂłs resolvemos o problema, se esse slime aparecer, claro.
Os caçadores da Primeiros Passos permaneceram em silĂȘncio e apenas lançaram olhares de pena para Gein.
Ele esperava alguma resistĂȘncia, especialmente de caçadores que deviam ter orgulho do prĂłprio trabalho. Diante daquela reação inesperada, Gein sentiu um leve tique na bochecha.
â P-por que estĂŁo me olhando assim?!
â NĂŁo entendeu? Todos achamos que vocĂȘ vai ser a primeira vĂtima. â Sven suspirou. â SĂł saiba que eu tentei te impedir, tentei mesmo. NĂŁo volte para me assombrar, tĂĄ legal? E… nĂŁo morra em vĂŁo. Pelo menos passe algumas informaçÔes sobre a coisa. Vamos vingar sua morte.
â VocĂȘs sĂŁo loucos! â disse Gein. â E se no fim das contas nada acontecer?!
Sven ignorou a pergunta e voltou sua atenção aos caçadores da Passos. No fim do dia, cada caçador era responsĂĄvel por suas prĂłprias açÔes e sua vida. Sven sempre se esforçava para minimizar baixas em qualquer missĂŁo, mas estava pronto para aceitar que um sacrifĂcio poderia ser necessĂĄrio dessa vez para obter informaçÔes sobre o alvo.
â Nenhuma ideia concreta entĂŁo â disse Sven. â EntĂŁo vamosâ
Quando estava prestes a continuar, Sven notou uma pequena mĂŁo levantada na borda externa do cĂrculo. Um caçador grande estava bloqueando a visĂŁo de quem levantou a mĂŁo, mas ao perceber que Sven olhava em sua direção, se moveu, revelando uma garota tĂmida atrĂĄs dele.
A garota parecia bastante reservada. Seus olhos estavam escondidos sob o capuz, mas ainda assim, reflexos de carmesim brilhavam através das mechas de seu cabelo e do brilho de seu olhar. Curiosamente, ela usava um par de óculos, um acessório incomum para caçadores, com armação grossa.
Sven nĂŁo reconhecia a garota, que supostamente era de seu clĂŁ.
â O que foi? â perguntou.
A garota tremeu como se a pergunta a tivesse atingido antes de responder em voz baixa:
â Sou Talia… Talia Widman, uma Alquimista.
â Alquimista?! â Sven repetiu. â NĂŁo sabia que tĂnhamos outra Alquimista no clĂŁ alĂ©m da Sitri.
A reação de Sven fez Talia se encolher ainda mais dentro de seu capuz.

Alquimistas eram especialistas em manipular matĂ©ria atravĂ©s de uma combinação de ciĂȘncia e magia. Eles costumavam ser um trunfo poderoso para qualquer grupo ou clĂŁ. Mas um bom alquimista precisava de um vasto conhecimento e bolsos fundos, tornando-os ainda mais raros entre caçadores do que arqueiros. A maioria deles era contratada por instituiçÔes acadĂȘmicas nacionais ou por companhias comerciais que lidavam com produtos quĂmicos, e Sitri, a infame Alquimista dos Grievings Souls, era definitivamente a exceção.
â Ainda sou nĂvel 3… â disse Talia, sem um pingo de confiança para uma caçadora. â Sitri e eu somos os Ășnicos alquimistas do clĂŁ. Geralmente, ficamos juntas no laboratĂłrio…
Ela parecia mais alguém que pertencia a uma biblioteca do que a um cofre do tesouro. Mas, então, Sven não conseguia pensar em ninguém que pudesse ajudå-los melhor nessa missão. Slimes eram uma das especialidades dos alquimistas, e foi por isso que Talia se pronunciou.
Uma garota de idade semelhante Ă de Talia, provavelmente uma companheira de equipe, batia no ombro dela como se tentasse incentivĂĄ-la. Ela nĂŁo parecia tĂŁo imponente, mas seu nĂvel indicava que pelo menos sabia se virar no campo.
Sven começou a se perguntar se todos os alquimistas eram esquisitos. Ele estava começando a ver um padrão entre Sitri e Talia. Mas isso não importava, Sven estava desesperado.
â Alquimia Ă©… uma mistura de ciĂȘncia e magia… â continuou Talia. â Ă… um campo de estudo vasto. Slimes e outras criaturas mĂĄgicas fazem parte disso.
Ainda muito nervosa, ela prosseguiu:
â Hum… Slimes nĂŁo sĂŁo o assunto mais popular de estudo, mas Sitri e eu estĂĄvamos pesquisando sobre eles atĂ© bem recentementeâ
â Estudando slimes, Ă©? Alguma fraqueza? â perguntou Sven, forçando um tom otimista. A situação tinha dado uma virada para melhor. Mas serĂĄ que Krai planejou tudo isso? pensou por um breve momento.
De qualquer forma, era um golpe de sorte muito bem-vindo.
De uma bolsa de poçÔes que era duas vezes maior que as comuns entre caçadores, Talia cuidadosamente tirou um cilindro de vidro. Dentro dele, um lĂquido escuro se agitava levemente.
Os olhos de Talia se arregalaram por trås dos óculos, e sua respiração se acelerou.
â Esse composto quĂmico mata slimes â disse ela. â NĂŁo funciona em nenhum outro monstro, mas mata noventa e nove por cento de qualquer coisa classificada como slime.
Pequenos murmĂșrios animados surgiram entre o batalhĂŁo. Era exatamente o que eles esperavam.
Sven ficou impressionado com o composto Ă primeira vista, mas logo franziu a testa ao observar o cilindro novamente.
â Isso Ă© impressionante… â disse ele. Mas Ă© seguro?
Ele nunca tinha ouvido falar de um composto quĂmico que matava apenas slimes. E, para começo de conversa, por que ela teria algo assim, especialmente quando slimes podiam ser mortos com praticamente qualquer coisa? AlĂ©m disso, Krai sĂł tinha anunciado que o alvo era um slime algumas horas atrĂĄs, nĂŁo parecia plausĂvel que Talia tivesse criado esse composto em tĂŁo pouco tempo. Sem contar que o alvo nĂŁo era um slime comum, pelo que Sven tinha ouvido. Tudo parecia conveniente demais, especialmente considerando que Talia era nĂvel 3; ela ainda era muito inexperiente comparada a ele. Se fosse Sitri, Sven poderia ter pensado diferente. Sitri era perfeccionista. Na verdade, ela era perfeita em sua arte. Apesar do nĂvel baixo, sua habilidade era bem conhecida no clĂŁ graças Ă s poçÔes ocasionais que distribuĂa.
Mas, no fim das contas, Sven não confiava o suficiente nas habilidades de Talia para tornar sua poção a carta na manga dele. E, pelo olhar dos outros caçadores, eles compartilhavam do mesmo sentimento.
Talia riu baixinho e, desta vez, falou com confiança:
â NĂŁo se preocupe, Sven. Eu nĂŁo fiz isso, Sitri fez. Eu sĂł pedi um frasco para estudar mais a fundo. Ela disse que pagaria um bilhĂŁo de gild por qualquer slime que isso nĂŁo matasse.
Ao longo de suas carreiras caçando monstros e fantasmas, os membros da Obsidian Cross eram frequentemente elogiados por sua coragem. Apesar disso, Sven Anger sempre acreditou que o verdadeiro segredo do sucesso de seu grupo estava na cautela. Os Crosses eram fortes, mas nem de longe tão fortes quanto as outras equipes insanamente poderosas da sua geração: os Grievers e a Ark Brave. Enquanto esses grupos superavam cada obståculo com pura força e talento, a Obsidian Cross conseguia acompanhå-los com muito esforço e decisÔes bem pensadas. Se a força dos Grieving Souls estava na sua destemida indiferença à morte, a força da Obsidian Cross estava no completo oposto.
Os Crosses derrotaram muitos inimigos poderosos atravĂ©s de uma preparação meticulosa como a que estavam demonstrando naquele momento: decifrando a visĂŁo enigmĂĄtica de Krai, gastando uma fortuna em Pedras SĂŽnicas para se manterem atualizados sobre a inteligĂȘncia do inimigo e elaborando planos detalhados ao trabalhar com outros grupos. Embora seu mĂ©todo fosse o oposto do que os normais imaginavam que caçadores faziam, ele era inegavelmente profissionais.
Diante da entrada da Toca do Lobo Branco, os caçadores estavam finalizando os preparativos para o avanço. No centro da formação estavam os membros da Obsidian Cross, encarregados de comandar todo o batalhão.
Os Crosses vestiam a armadura de seu nome, armaduras de obsidiana, criadas com tecnologia de ponta. Resistentes tanto a impactos quanto Ă magia, dizia-se que a obsidiana era o material mais prĂłximo das relĂquias.
Os mĂșsculos altamente treinados de Sven tremiam sob a armadura, nĂŁo de medo, mas da antecipação pelo desafio Ă frente. Sven nunca teve ilusĂ”es de grandeza sobre suas habilidades. Sim, ele era um caçador altamente qualificado, com um tĂtulo, mas nĂŁo possuĂa habilidades como a precognição de Krai nem a força bruta para dizimar sozinho um exĂ©rcito inteiro como Ark. Mesmo assim, ele era um caçador atĂ© o Ășltimo fio de cabelo.
No total, doze grupos estavam reunidos do lado de fora da Toca do Lobo Branco. Com uma mĂ©dia de seis membros por equipe, havia menos de cem pessoas ali. NĂŁo era um nĂșmero impressionante para um batalhĂŁo militar, mas cada um deles era um caçador treinado pelos cofres do tesouro. Sua experiĂȘncia falava mais alto que os nĂșmeros, especialmente porque vĂĄrios deles empunhavam relĂquias como armas. Ainda assim, ninguĂ©m baixou a guarda, caçadores da Primeiros passos conheciam bem os perigos dos Mil Desafios, e o resto estava sendo contaminado pela intensidade dos veteranos.
Sendo um cofre cavernoso, a Toca do Lobo Branco nĂŁo era um ambiente adequado para batalhĂ”es grandes invadirem de forma direta, espalhando golpes para todos os lados. Na verdade, isso valia para muitos outros cofres do tesouro, e essa caracterĂstica havia moldado muitos dos procedimentos padrĂŁo da indĂșstria de caçadores de tesouros.
O plano de Sven era simples, na verdade, ele nĂŁo tinha muita escolha.
Os grupos se dispersariam e vasculhariam o cofre com extrema cautela. Cada grupo seria designado para investigar uma ĂĄrea especĂfica.
Enquanto isso, os grupos se comunicavam atravĂ©s de assobios. Ao soprar seus apitos um determinado nĂșmero de vezes em sequĂȘncia, os caçadores conseguiam enviar diferentes mensagens pela caverna. Um alarme seria acionado caso ocorresse algum evento inesperado, e o batalhĂŁo evacuaria o cofre para se reagrupar.
Se alguĂ©m encontrasse o slime, deveria tentar atraĂ-lo para fora, se possĂvel, onde o batalhĂŁo inteiro poderia enfrentĂĄ-lo junto. Mesmo quando nĂŁo houvesse descobertas, os grupos se reuniriam do lado de fora do cofre nos horĂĄrios programados. Se algum caçador nĂŁo retornasse a tempo, seria presumido como morto, eliminado antes mesmo de ter a chance de assoprar seu apito. Embora cada grupo ainda corresse o risco de ser abatido dentro do cofre, Sven esperava evitar o pior cenĂĄrio possĂvel, no qual o misterioso slime exterminasse o batalhĂŁo inteiro de uma sĂł vez.
Os grupos que nĂŁo entrassem no cofre permaneceriam do lado de fora como suporte, protegendo a entrada o tempo todo, Ă© claro.
Esse plano elaborado poderia parecer disciplina exagerada para um grupo tĂŁo diverso, mas foi estruturado assumindo que estariam ali por um longo perĂodo.
Eles não podiam arriscar, especialmente quando não tinham nenhuma informação concreta sobre o alvo.
â Acho que temos sorte de ao menos saber sobre o slime â pensou Sven. â Pelo menos podemos nos preparar.
Sven estalou a lĂngua e lançou um olhar carrancudo para o cofre do tesouro.
â Teste isso, Teste aquilo… Droga, Krai, por nos deixar encarregados disso. Vou chutar a bunda dele quando voltarmos.
â Nah. VocĂȘ tem medo demais da Sombra Partida pra isso â disse um de seus companheiros de equipe.
â Cala a boca. Como eu deveria acertĂĄ-la com uma flecha normal? Estou ferrado nesse confronto â resmungou Sven.
Com o frasco de exterminador de slimes em mĂŁos, Talia aguardava com seu grupo a uma certa distĂąncia da entrada do cofre. Ela tentava controlar a respiração; estava nervosa, mesmo sendo apenas o plano de contingĂȘncia. Se o alvo realmente fosse um slime, qualquer um daqueles caçadores deveria ser capaz de eliminĂĄ-lo sem dificuldades. O frasco seria quebrado apenas se todas as outras opçÔes se esgotassem.
O que os Alquimistas não tinham em força de combate, compensavam com sua capacidade de resolver problemas por meio de preparaçÔes minuciosas. E, conhecendo bem Sitri, Sven confiava que o produto dela daria conta do recado.
Enquanto isso, Henrik se aproximou dele e perguntou:
â HĂŁ… quem Ă© Sitri? Parece que todo mundo a conhece.
â Oh, vocĂȘ ainda nĂŁo a conheceu… â disse Sven.
Quando Henrik entrou para a Obsidian Cross seis meses atrĂĄs, os Grievings Souls jĂĄ eram os melhores. Caçadores renomados frequentemente desempenhavam mĂșltiplos papĂ©is, mas nenhum mais do que a brilhante Alquimista, Sitri. Ela estava tĂŁo ocupada que raramente aparecia no salĂŁo da guilda, e aos poucos as pessoas pararam de falar sobre ela.
â Ela mal aparece hoje em dia â relembrou Marietta, a Maga. Mas, no fundo de seu olhar, um vislumbre de medo surgiu.
Adoração e medo caminhavam lado a lado para aqueles com habilidades extraordinĂĄrias. Sven recebia olhares de ambos diariamente e assumia que seus companheiros de equipe tambĂ©m experimentavam o mesmo. Sitri Smart nĂŁo era exceção: ela possuĂa um talento que atĂ© os Alquimistas mais talentosos da capital nĂŁo podiam evitar invejar.
Sven encarou o olhar tĂmido de Henrik. O olhar reservado em seus olhos lembrava um pouco o de Sitri em sua memĂłria. Ele prendeu a respiração por um instante antes de franzir a testa.
â Em resumo, Sitri Ă©… uma fraca forte.
â Uma fraca forte…? â repetiu Henrik.
Sitri era forte. Brilhante. Talentosa. E acima de tudo, era tão peculiar que ninguém realmente a compreendia. Para todos os efeitos, era uma garota simpåtica, mas qualquer um que interagia com ela não conseguia suprimir uma sensação incÎmoda.
Mas agora que Sitri havia caĂdo em desgraça, os membros da Primeiros Passos pararam de mencionĂĄ-la em conversas, como se quisessem esquecĂȘ-la por completo. Como resultado, alguns membros da guilda, como Henrik, sequer haviam ouvido falar dela.
Sven lançou um olhar na direção de Talia e disse:
â VĂĄrios grupos, incluindo o nosso, foram persuadidos por Sitri a ajudar a fundar a Primeiros Passos. Sabe, ela jĂĄ foi a segunda mais forte entre os Grieving, ficando atrĂĄs apenas de Krai.
â Sven, estamos prontos â chamou Lyle.
â Entendido â respondeu Sven, dando um passo Ă frente. â Continuamos essa conversa depois.
Ele observou seus companheiros caçadores da Primeiros Passos e notou que nenhum deles demonstrava medo do que estava à sua espera dentro da caverna. Cada um desses caçadores altamente habilidosos estava pronto para lutar.
Havia um motivo para a Primeiros Passos ter um alto nĂvel mĂ©dio entre seus membros: os fracos jĂĄ haviam sido eliminados hĂĄ muito tempo; os covardes fugiram antes que pudessem se estabelecer. Todos que permaneceram eram uma elite forjada por uma sĂ©rie de provaçÔes.
Sobreviver a essas batalhas os tornou camaradas, e essa camaradagem era o que lhes dava força agora. Os grupos mais bem classificados, as instalaçÔes de Ășltima geração, a estrutura organizada da guilda… tudo isso era apenas um detalhe secundĂĄrio. O que realmente tornava a Primeiros Passos uma força a ser temida eram os laços forjados ao sobreviverem juntos aos desafios. E essa histĂłria era simbolizada no nome da guilda, esses passos dados juntos eram seu orgulho, algo pelo qual valia a pena arriscar a vida. Esse senso de orgulho se estendia tambĂ©m aos outros caçadores externos envolvidos naquela missĂŁo.
Sven respirou fundo.
â Foco total! â bradou. â Vamos marcar esse lugar com nossas pegadas! Todo mundo vai sair daqui vivo e contar pro nosso idiota de CapitĂŁo que isso foi moleza!
Rugidos explosivos dos caçadores estremeceram a floresta ao redor. Passos firmes ecoaram enquanto todos gritavam até ficarem roucos, avançando para dentro do cofre do tesouro e iniciando sua investida.
â Chegou a hora, e nĂłs conseguimos â disse Noctus.
Todos os membros de sua equipe de pesquisa, exceto Sophia, estavam presentes. Eles haviam deixado o laboratĂłrio sob a Toca do Lobo Branco para se estabelecer ali. Diante deles estava o fruto de sua pesquisa, um sistema de defesa programado para proteger a equipe de Noctus.
O novo local era fåcil de defender e oferecia uma rota de fuga caso as coisas dessem errado. Combinado ao feitiço de Noctus, que projetava imagens de um local distante, uma perda catastrófica, como haviam inicialmente temido, não era mais provåvel.
Cheia de confiança, a voz de Sophia ecoou pela Pedra Sonora sobre a mesa:
â Seus experimentos sĂŁo poderosos, Mestre. Agora que tivemos tempo para nos preparar, nĂŁo hĂĄ nem uma chance em um milhĂŁo de que possamos perder.
Projetados por Noctus e Sophia, os sistemas de defesa eram uma inovação revolucionåria, um invento de primeira linha mesmo dentro do vasto catålogo da Torre Akåshica.
Noctus demonstrava confiança ao apoiar a decisão de Sophia de atacar. Os outros pesquisadores não protestaram, pois também conheciam muito bem as capacidades dos sistemas de defesa.
â Quase uma centena de caçadores, alguns atĂ© com epĂtetos â continuou Sophia com calma. â Estamos em menor nĂșmero, mas isso nĂŁo deve ser um problema. Enfrentar tantos caçadores de uma vez ajudarĂĄ a validar nossa pesquisa, essa Ă© uma oportunidade de ouro.
Os outros aprendizes apenas encararam a Pedra Sonora com desdém.
â Qual serĂĄ seu primeiro movimento? â perguntou Noctus.
Com todos atentos Ă Pedra Sonora, Sophia continuou a descrever o seu plano com tranquilidade.
Um bom tempo se passou sem que nenhum apito fosse soprado para indicar uma emergĂȘncia.
Sven tinha um mapa do cofre aberto no chão enquanto recebia os relatórios dos grupos de investigação. Sendo um cofre de tesouros relativamente fåcil, era simples conseguir um mapa detalhado da Toca do Lobo Branco. Ele ia marcando as åreas jå verificadas conforme avançavam.
A abordagem cautelosa havia retardado o progresso, mas setenta por cento do labirinto jĂĄ estava marcado.
â Nada de novo, hein? â perguntou Sven.
â Os fantasmas ainda sĂŁo de alto nĂvel, mas sĂł isso â respondeu um colega caçador.
ApĂłs temerem o pior, a Obsidian Cross retornou Ă superfĂcie sem nenhuma baixa. Havia alguns feridos no batalhĂŁo inteiro, mas ninguĂ©m morreu; e mesmo os feridos jĂĄ deveriam ter sido curados a essa altura.
Agora, até a sala do chefe, onde haviam sido alertados de que o slime provavelmente apareceria, jå tinha sido riscada do mapa. Sven havia lembrado o grupo responsåvel por investigar essa årea de prestar atenção redobrada, mas aparentemente não havia nada lå para registrar.
Os trinta por cento restantes do cofre eram becos sem saĂda. Em poucas horas, teriam percorrido todo o local.
O senso inicial de perigo jĂĄ havia praticamente desaparecido. Mas Sven, Ă© claro, conhecia bem o modus operandi do Mil Truques: as coisas sĂł desandavam nas suas Provas quando menos se esperava. Por isso, ele manteve a guarda alta, mas nĂŁo havia como o grupo permanecer tĂŁo atento por muito tempo.
â Talvez a precognição do Krai tenha falhado dessa vez â brincou Sven.
â E se nada acontecer? â perguntou um de seus companheiros.
â AĂ vamos contar como sorte nossa â respondeu Sven.
Conforme a investigação continuava, alguns grupos começaram a lançar olhares atravessados para os membros da Obsidian Cross. Sven sabia que seriam ridicularizados se ele tivesse deixado todos em alerta mĂĄximo por nada, mas Henrik sempre retribuĂa os olhares na mesma moeda. Claro, nĂŁo havia muito que pudessem fazer em relação a alguns caçadores apenas se divertindo Ă s custas deles. Eles pareciam estar esperando o resto do cofre ser limpo para entĂŁo acusar Sven abertamente.
O grupo de Talia, que sequer havia entrado no cofre, estava recebendo parte da hostilidade junto com a Obsidian Cross. Sven sentia um pouco de culpa por isso, mas continuava confiante em sua decisĂŁo.
â Ainda nĂŁo terminamos â disse ele.
â TerĂamos terminado se nĂŁo fosse por vocĂȘ â rebateu Gein, que criticava cada uma das decisĂ”es de Sven.
Com seus piercings na orelha e cabelo com mechas descoloridas, Gein quase parecia um marginal comum. Mesmo assim, ele havia seguido as ordens de Sven, ainda que resmungando. Seu grupo inteiro parecia compartilhar do mesmo sentimento, encarando Sven com animosidade.
â Pode reclamar o quanto quiser depois â disse Sven. â VocĂȘs acabaram de sair de lĂĄ. Relaxa um pouco.
Gein estalou a lĂngua, reprimindo sua irritação.
â EntĂŁo reza pro seu todo-poderoso CM que nem se deu ao trabalho de aparecer â cuspiu ele, indo embora com o restante de seu grupo.
Sven entendia o que ele sentia. Se o batalhão não tivesse seguido sua abordagem cautelosa, jå teriam limpado o restante do cofre a essa altura e poderiam estar terminando o dia em um bar, caso nada tivesse dado errado durante a investigação.
Vendo que Gein se afastava do grupo e ia para os arbustos perto do cofre, Sven o chamou:
â Ei! Fica no seu posto!
â O quĂȘ, nĂŁo posso mijar?! JĂĄ volto! â disse Gein, batendo a mĂŁo na espada presa ao cinto. â E tĂŽ levando uma arma comigo. â E desapareceu rapidamente na floresta.
Sven soltou um longo suspiro.
Bom, o resto do grupo ainda estava ali, e não era como se Gein estivesse voltando para o cofre. Além disso, ele também deveria estar ciente de que a årea ao redor era perigosa, então, contanto que não demorasse, não deveria ter problema.
â E… nunca mais o vimos â brincou Henrik.
Um sorriso surgiu no rosto de Sven.
â Cuidado com o que deseja.
Mesmo que o novato tivesse sido cético quanto à previsão do Mil Truques no começo, Henrik estranhamente ficou mais confortåvel com ela conforme a posição da Cross piorava.
Henrik riu sem jeito.
â NĂŁo conheço bem o Krai, mas confio minha vida a vocĂȘ â disse ele a Sven.
â EntĂŁo deixa eu rezar pro nosso bravo CM pra nĂŁo te decepcionar.
Gein seguia pela floresta, pisoteando a vegetação densa.
Ele nĂŁo esperava que a Cross, cujo lĂder atĂ© tinha um epĂteto, fosse um bando de covardes. Gein tinha uma longa carreira como caçador de tesouros. E embora nĂŁo tivesse conquistado um epĂteto, ganhava a vida como caçador na capital. Ele respeitava a Cross por ter subido degrau por degrau no caminho da grandeza, sem talentos chamativos. Mas era justamente esse respeito que alimentava sua fĂșria contra eles, tanto que nem conseguia sentir pena pela obediĂȘncia cega deles. Ele nĂŁo conseguia entender a fĂ© que tinham nas palavras de um homem com uma carreira que nĂŁo chegava Ă metade da sua e que nem sequer havia se dado ao trabalho de aparecer na linha de frente. Se esse suposto profeta fosse descendente do lendĂĄrio Rodin, atĂ© seria uma coisa. Mas Krai era um forasteiro que mal entrava em cofres de tesouro. Nenhuma justificativa de Sven conseguia acalmar a indignação de Gein.
Ele previu a aparição de um cofre de tesouros? pensou Gein. Nem em um milhão de anos.
Ele estava mais inclinado a acreditar que tudo nĂŁo passava de uma coincidĂȘncia infeliz que acabou levando Sven e os outros ao lugar errado na hora errada.
Gein jĂĄ tinha ouvido inĂșmeros elogios sobre os Grieving Souls. Mas, mesmo assim, ele nĂŁo conseguia entender como aquele Krai patĂ©tico era o lĂder deles e ainda era considerado um igual ao Ark Rodin. Para ele, era sĂł questĂŁo de tempo atĂ© que Krai revelasse sua verdadeira face, um mero mortal como qualquer outro, incapaz de prever eventos distantes em cofres de tesouro enquanto descansava confortavelmente na capital.
A Toca do Lobo Branco era cercada por uma floresta densa. A vegetação rasteira chegava atĂ© a cintura, dificultando a movimentação dos caçadores, e os galhos grossos bloqueavam boa parte da luz do dia. Monstros apareciam ocasionalmente na regiĂŁo, mas nĂŁo poderiam existir em grande nĂșmero tĂŁo perto de um cofre de tesouros. De qualquer forma, monstros poderosos nĂŁo surgiam prĂłximo Ă capital.
â Ele acha que hĂĄ slimes nessa floresta? â pensou Gein. A ideia era tĂŁo absurda que nem servia como piada.
Gein avançou pela floresta silenciosa, afastando-se do cofre do tesouro. Mantendo um olho no ambiente ao redor, ele aproveitou para responder ao chamado da natureza.
Ele começava a se perguntar se as recentes atividades na Toca do Lobo Branco realmente indicavam alguma anomalia. Ainda assim, mesmo que a falta de provas nĂŁo diminuĂsse seu pagamento, Gein esperava encontrar pelo menos alguma coisa. Era raro sair de uma investigação tĂŁo minuciosa sem qualquer pista sobre a causa do problema.
â Se nada aparecer â pensou Gein â, atĂ© aquele teimoso do Tempestade de Flechas vai ter que admitir seu erro.
Então, um rosnado fraco veio das profundezas da floresta, tão baixo que quase se misturou com o som das folhas ao vento. Somente caçadores com a audição aprimorada por mana material poderiam captar aquilo.
â Cavaleiro lobo â concluiu Gein. â Parece que um escapou do cofre. Melhor me livrar dele para garantir.
Tecnicamente, a Toca do Lobo Branco englobava tanto a caverna quanto a ĂĄrea ao redor. Antes de entrar no cofre, Gein e os outros caçadores eliminaram a maioria dos fantasmas da regiĂŁo para montar acampamento. Ainda assim, era possĂvel que novos fantasmas tivessem surgido. Ele conferiu se seu apito estava pronto para uso e, com a espada em mĂŁos, avançou com cautela na direção do som.
â Que som foi esse?
Gein franziu a testa. JĂĄ tinha ouvido muitos uivos e rosnados de cavaleiros lobo durante a investigação, mas esse era diferente. Naquele som, ele percebeu raiva, medo, tristeza e angĂșstia, fosse o que fosse, nĂŁo estava nada bem.
EntĂŁo, ele chegou a uma clareira repentina na floresta. O que viu o deixou tĂŁo surpreso que ele imediatamente se escondeu atrĂĄs de uma ĂĄrvore, espiando com cautela.
Lå estava um cavaleiro lobo de pelos prateados, uma variante mais poderosa do que os de pelos vermelhos. Gein e seu grupo encontraram um desses no cofre e o apelidaram de Cavaleiro Lunar. Mas aquele ali estava acorrentado pelo pescoço e pelos membros, com um focinheira impedindo-o de abrir a boca. Correntes envolviam seu torso e se estendiam até o solo. O cavaleiro lobo se debatia inutilmente, tentando se libertar.
Ao lado do fantasma, estavam dois homens vestidos com mantos negros, cada um segurando um cajado, Magos.
â Tem certeza de que essa Ă© a melhor jogada para nĂłs? â perguntou um para o outro. â Estamos lidando com quase cem caçadores.
â Aquela manĂaca por experimentos… Ela mal consegue usar magia e nĂŁo tem coragem de sujar as prĂłprias mĂŁos. SĂł porque Ă© a queridinha do professor, acha que pode mandar na gente. “O fracasso nĂŁo Ă© uma opção”. Como se precisĂĄssemos que ela nos lembrasse disso!
â Do que eles estĂŁo falando? â Gein se perguntou. Mas, fosse o que fosse, com certeza era algo sinistro. Do contrĂĄrio, por que estariam mantendo um fantasma prisioneiro? Eles eram a causa das anomalias no cofre? SĂł de pensar nisso, Gein sentiu um calafrio.
Os Magos costumavam ser extremamente poderosos. Um Mago bem treinado poderia superar caçadores de outras classes com seu poder destrutivo, por isso eram sempre bem-vindos em qualquer grupo. O próprio grupo de Gein tinha um, e ele sabia muito bem qual era a maior fraqueza deles: tempo de conjuração. Por isso, Magos em equipes precisavam ser protegidos por outros caçadores, que seguravam os inimigos até que os feitiços fossem lançados. Em outras palavras, um mago desprotegido era um alvo fåcil.
Gein só via aqueles dois. Poderia eliminå-los antes que conseguissem conjurar qualquer coisa. Nenhum deles parecia experiente, não haviam nem notado sua presença.
â VocĂȘ tem que admitir que esse soro Ă© poderoso. Ela pode ter sido a primeira a descobri-lo, mas nĂłs seremos os primeiros a testĂĄ-lo â disse um dos Magos.
O outro rosnou e respondeu:
â Transmogrificação forçada com mana material… Droga, isso Ă© para ser algum tipo de caridade dela?!
â Vamos logo começar. Quero ver qual Ă© a grande descoberta dela.
â Terei que atacar rĂĄpido assim que surgir uma brecha â pensou Gein.
Eles eram maioria, mas o fato de estarem sozinhos com um cavaleiro lobo, mesmo acorrentado, indicava que confiavam em suas habilidades. Devem ter absorvido alguma mana material, mesmo parecendo inexperientes.
â Mas eu nĂŁo posso matĂĄ-los â disse a si mesmo.
Mesmo com a cena sendo incriminadora, ele precisava entender toda a situação antes de tomar uma atitude dråstica.
A tensão secou sua boca. Ele decidiu: atacaria no momento em que os Magos olhassem para outro lado. De qualquer forma, o cavaleiro lobo não deveria representar uma ameaça.
E logo, sua oportunidade surgiu.
Um dos Magos puxou uma seringa do tamanho do próprio antebraço, e os dois voltaram sua atenção para o fantasma.
Num instante, Gein saltou de trås da årvore, avançando contra os Magos. Ele estava a poucos passos deles.
O cavaleiro lobo se sacudiu.
Quando um dos Magos finalmente percebeu sua presença, a espada de Gein jå estava no ar.
â Q-Quem Ă© vocĂȘ?!
â Um caçador! â rosnou Gein.
O Mago ergueu o cajado para se defender, e a espada de Gein colidiu contra ele. Gein franziu a testa com o resultado inesperado, mas nĂŁo hesitou: chutou o estĂŽmago do Mago, que nĂŁo tinha preparo fĂsico suficiente para resistir ao golpe. O impacto o lançou longe, rolando pelo chĂŁo.
Sem perder tempo, Gein se virou para o outro oponente.
Mesmo pego de surpresa, o segundo Mago jĂĄ apontava seu cajado para Gein, com cinco flechas flamejantes flutuando ao redor dele.
â Eu mal dei um segundo, e ele jĂĄ conjurou um feitiço?! â pensou Gein, sentindo um calafrio.
Embora fosse uma magia båsica, demorava anos de treino para um Mago aprender a conjurar até mesmo um feitiço simples por reflexo. Seu inimigo era mais habilidoso do que ele esperava.
Então, Gein tomou uma decisão em um piscar de olhos: avançou contra as flechas ardentes, protegendo o rosto com o braço esquerdo.
Se ele tivesse mantido distùncia do feitiço, daria ao mago tempo para lançar magias mais poderosas. Isso teria desperdiçado a vantagem do elemento surpresa que Gein tinha.
Uma flecha, originalmente mirando sua cabeça, acertou seu braço. O bracelete de couro evitou que as flechas de fogo carbonizassem sua pele, mas a dor ardente atravessou seu membro. Ainda assim, a jogada de Gein tinha funcionado.
Gein se lançou contra o mago, derrubando-o para trås com um grito. Em seguida, virou-se para o primeiro mago, que ainda estava no chão, e lhe deu outro chute.
Lançar feitiços exigia uma concentração profunda, e Gein sabia disso. Enquanto conseguisse interromper essa concentração com dor, os magos só conseguiriam conjurar feitiços drasticamente mais fracos, isso se conseguissem lançar algum. Como espadachim, seu papel era aguentar ataques para proteger sua equipe, então ele podia suportar aquelas magias.
Com a respiração pesada, Gein rosnou para os magos:
â Isso doeu pra caramba! VocĂȘs vĂŁo pagar por isso!
Ele inspecionou seu bracelete esquerdo, agora chamuscado. Gein escolhia cada peça de sua armadura com cuidado, e aquela peça especĂfica oferecia resistĂȘncia contra magia. Apenas um mago de primeira linha poderia ter causado tanto dano a ele com um feitiço bĂĄsico.
â Suas magias atĂ© que sĂŁo boas, mas como lutador vocĂȘ Ă© de terceira categoria! â disse Gein.
Fisicamente, Gein estava em pior estado do que os dois magos, mas ele havia vencido.
Chutando os cajados para longe dos magos caĂdos, Gein avaliou seus oponentes. Talvez tivesse quebrado uma ou duas costelas deles, mas ambos ainda estavam conscientes e podiam responder perguntas.
Agora só preciso chamar reforços do Sven. Pelo o que ouvi na conversa, esses dois devem ter informaçÔes valiosas. Que achado!
â Falem! Quero saber tudo! â ordenou Gein.
â VocĂȘ⊠faz parte da investigação⊠â disse um dos magos. â Como nos encontrou? Foi obra do Mil Truques de novo?!
â Isso nĂŁo faz o menor sentido! â gritou Gein. â Ele nĂŁo estĂĄ aqui! VocĂȘs estĂŁo no chĂŁo agora por minha causa! Mais ninguĂ©m!
SerĂĄ que todo mundo pode parar de falar desse tal de Mil Truques?! O que tem de tĂŁo impressionante nele?
Gein deu mais um chute em cada um dos magos por via das dĂșvidas antes de amarrĂĄ-los com a corda que carregava consigo. Assim que terminou, seu rosto assumiu uma expressĂŁo feroz. Um dos magos no chĂŁo imitou sua expressĂŁo, curvando os lĂĄbios. EntĂŁo, Gein ouviu um rosnado doloroso atrĂĄs dele e virou-se rapidamente para ver o que era.
â Ă exatamente como Sophia disse: ele nĂŁo estĂĄ aqui. â O mago riu entre respiraçÔes fracas.
Uma seringa gigante estava fincada na abertura do bracelete do cavaleiro lobo. Pelo menos metade do lĂquido jĂĄ tinha sido injetado no fantasma.
Um arrepio percorreu a espinha de Gein ao ver aquilo.
Injetando um fantasma? Que tipo de soro Ă© esse? Que tipo de “experimento” esses dois idiotas estĂŁo conduzindo?
Gein lançou um olhar furioso para os dois no chão, mas os magos apenas sorriram cruelmente.
â O que vocĂȘs fizeram?! â perguntou Gein.
Um estalo seco.
O som do metal atingindo o chĂŁo ecoou.
Gein se virou.
A corrente que prendia o cavaleiro lobo estava no chĂŁo, solta. Sua focinheira se desfez em pedaços, assim como suas algemas. Parecia que alguma força invisĂvel as havia despedaçado.
Mas o que mais aterrorizou Gein nĂŁo foram as correntes no chĂŁo. Foi a aparĂȘncia do cavaleiro lobo. Sua cabeça, adornada com uma mĂĄscara de meio-crĂąnio, estava derretendo, assim como todo o seu corpo, coberto por uma armadura negra. Seu pelo ĂĄspero havia se liquefeito por completo, assumindo a aparĂȘncia oleosa de um anfĂbio. De seu corpo disforme, pedaços de carne derretida pingavam no chĂŁo. Seus olhos brilhantes, a Ășnica coisa que ainda lembrava sua forma original, estavam fixos em Gein. Quando ergueu o que antes era um braço, o ar ao redor dele tremulou como uma onda de calor. Gein se perguntou se alguĂ©m ainda reconheceria aquela criatura como um cavaleiro lobo.
O que⊠é essa coisa?!
Gein jĂĄ havia enfrentado inĂșmeros monstros horrendos em sua carreira, mas nunca tinha visto nada como aquilo.
â Fantasmas transmutados Ă força procuram material de mana em alta densidade â disse um dos magos, rindo. â Quem vocĂȘ acha que tem a maior quantidade de mana entre nĂłs?
Gein parou de ouvir. Sua mente estava consumida por confusão e medo. Com o corpo e a armadura derretendo sem parar, o fantasma começava a se parecer com algo que não pertencia a esse mundo: um slime.
Seu instinto de sobrevivĂȘncia tomou conta, e seu corpo se moveu sozinho. Sem tirar os olhos da monstruosidade que antes era um cavaleiro lobo, ele deu passos para trĂĄs. Sem perceber, jĂĄ estava com o apito em mĂŁos.
â Isso nĂŁo pode estar acontecendo⊠Se eu tivesse atacado um segundo antesâŠ
O som do apito cortou o silĂȘncio da floresta.
Sven Anger ergueu a cabeça ao ouvir um som distante vindo da mata.
â Um apito!
Como um sniper de elite, os sentidos de Sven eram mais aguçados que os da maioria dos caçadores. Mas mesmo ele não teria escutado o alerta se não estivesse em estado de alerta, apreensivo com a situação atual.
â SĂ©rio? â perguntou Henrik, incrĂ©dulo.
Com seu arco em mãos, Sven se levantou. Seus movimentos chamaram a atenção dos outros grupos que descansavam.
â Todos em alerta! â ele ordenou em voz alta. â Chamem todos de volta para a base! Agora! Um apito curto! Isso significa emergĂȘncia!
Os caçadores entraram em ação imediatamente, seguindo a deixa de Sven.
ApĂłs sobreviver a inĂșmeras situaçÔes de vida ou morte, Sven sabia que uma decisĂŁo em fração de segundo poderia ser a diferença entre viver e morrer.
Talia apertou firme sua arma mata-slimes, preparando-se para o que estava por vir.
â Ei, o Gein jĂĄ voltou?! â perguntou Sven.
â A-ainda nĂŁo! â respondeu um de seus companheiros, pĂĄlido. Gein era o Ășnico que ainda nĂŁo havia retornado.
Sven mordeu os lĂĄbios. Eu nĂŁo devia ter deixado ele ir sozinho. O que aconteceu com ele?
Então, ele ouviu um uivo peculiar, semelhante ao de um cavaleiro lobo, mas ao mesmo tempo diferente de qualquer coisa que jå tinha escutado. Ninguém além de Sven havia ouvido o apito, mas o uivo foi alto o suficiente para que todos os caçadores ouvissem.
Finalmente, pensou Sven.
Agora que a busca no cofre do tesouro estava quase concluĂda, muitos caçadores estavam prontos na base. Com esse nĂșmero, deveriam ser capazes de lidar com o que quer que estivesse na floresta.
Logo, o chão começou a tremer, e o som de årvores tombando ecoou pela mata.
â Vamos enviar uma equipe de reconhecimento â disse Sven. â Vamos resgatar o Gein!
Apesar dos conflitos pessoais, Gein ainda era um aliado na mesma missĂŁo.
Ao seu chamado, os batedores de cada grupo se aproximaram. Mas antes que Sven pudesse dar as direçÔes, Gein emergiu da floresta. Seu rosto estava pålido de pavor, os olhos arregalados e vermelhos. O sangue escorria livremente da mão direita, que ele segurava com a esquerda.
O Ladino do grupo de Gein correu em sua direção.
Sven se perguntou o que poderia ter acontecido nos quinze minutos ou mais desde que Gein entrou na floresta.
â Ă uma aberração! â gritou Gein, rouco. â Um slime! O Mil Truques estava certo!
No mesmo instante, as årvores explodiram para trås. O chão tremeu novamente. Da abertura, emergiu uma criatura que só podia ser descrita como uma abominação.
â O que… Ă© isso? â murmurou Marietta, atĂŽnita. â Isso Ă©… um slime?
Mesmo os membros da Obsidian Cross nunca tinham enfrentado um inimigo como esse. A aberração era uma massa de carne, manchada de preto e branco. Era mais alta que Sven; seu exoesqueleto parecia derretido em uma lama viscosa. Embora sua silhueta ainda lembrasse algo com quatro membros, ela se arrastava desajeitadamente pelo chĂŁo. Seus olhos carmesim, brilhando atravĂ©s da gosma, eram o Ășnico sinal de que possuĂa alguma consciĂȘncia. De qualquer forma, a coisa perseguia Gein como uma onda de carne pegajosa, sem se importar com as ĂĄrvores e arbustos que estavam no caminho. NĂŁo era difĂcil para os caçadores imaginarem o que aconteceria se fossem pegos por aquela coisa.
Isso Ă© um slime?! Sven nĂŁo pĂŽde deixar de olhar novamente para a criatura.
Se ele fosse descrevĂȘ-la, talvez atĂ© se parecesse com um slime, mas a aparĂȘncia era horrenda demais para ser chamada assim. A frase âforma de vida falsaâ veio Ă mente de Sven imediatamente, por algum motivo. Ele simplesmente nĂŁo conseguia acreditar que o Mil Truques havia descrito essa aberração como um slime.
â EstĂĄ… derretendo? â disse Talia, dando um passo para trĂĄs, horrorizada.
A monstruosidade inesperada fez os companheiros de Gein hesitarem no resgate e congelou os Magos no lugar, com os cajados prontos para atacar.
Sven puxou seu arco e gritou para seus aliados: â NĂŁo parem! Ele se move devagar! Magos, preparem-se para explodi-lo!
Imediatamente, ele mirou no monstro. Esse era um movimento que ele jĂĄ havia praticado dezenas de milhares de vezes. Calcular distĂąncias e a velocidade do inimigo era algo natural para ele agora, e nĂŁo havia motivo para errar um alvo a apenas trinta metros de distĂąncia.
Sven disparou sua flecha negra como breu, que rasgou o ar. A flecha passou pelo Ladino que corria até Gein, passou pelo próprio Gein, que tropeçava, e atingiu o pé do slime. Como se tivesse sido disparado de um canhão, o impacto fez os pés da criatura explodirem, derrubando-a.
Ao cair, a gosma pegajosa colidiu contra uma ĂĄrvore prĂłxima, quebrando o tronco como se um par de mĂŁos gigantes o tivesse partido ao meio. Sven observou o estranho efeito, nem fĂsico, nem mĂĄgico, com espanto.
Bolhas subiram Ă superfĂcie da massa de carne e sangue, e o falso slime se ergueu novamente como se nada tivesse acontecido.
EntĂŁo, os Magos lançaram seus feitiços em unĂssono. Num instante, o falso slime foi bombardeado por projĂ©teis dâĂĄgua de alta velocidade, lĂąminas invisĂveis de vento, flechas de luz comprimida e grandes bolas de fogo. A explosĂŁo levantou uma imensa nuvem de poeira apĂłs o impacto.
Sven voltou sua atenção para Gein, que agora era arrastado pelo Ladino do grupo em sua direção. A expressão de Gein estava sem cor, retorcida em puro horror; sua armadura suja de terra subia e descia com sua respiração ofegante. Mas o que realmente chamou a atenção de Sven foi o braço direito de Gein, despedaçado até o cotovelo.
â Henrik! Cura, agora! â ele gritou.
â Certo! â respondeu Henrik.
O braço de Gein não havia sido cortado. Parecia ter sido arrancado à força. Não era um ferimento fatal, mas a perda de sangue seria, a menos que contivessem logo. Henrik se aproximou rapidamente e começou a conjurar um feitiço de cura sobre a ferida.
â O que aconteceu?! â exigiu Sven.
Gein arfava. â Magos… Eles injetaram… no cavaleiro lobo… O slime… O Mil Truques… estava certo!
Uma luz verde-clara emanou da palma de Henrik e se infiltrou no ferimento grotesco. Com isso, o sangramento parou e o ferimento se fechou. Um pouco da vida voltou Ă expressĂŁo de Gein, indicando que sua dor havia diminuĂdo consideravelmente.
Henrik mordeu os lĂĄbios e disse: â Sven…! Eu nĂŁo posso regenerar o braço deleâ
â Faça o que puder! Vamos encontrar o braço depois e colocĂĄ-lo de volta! â disse Sven.
Nenhum outro membro da Obsidian Cross tentou regenerar o membro de Gein. Henrik era o melhor ClĂ©rigo do grupo; se nem ele conseguia, nĂŁo adiantaria os outros tentarem. Ainda assim, nĂŁo era impossĂvel, os melhores ClĂ©rigos do mundo da caça ao tesouro podiam regenerar membros. Mas agora nĂŁo era hora de procurar um. De qualquer forma, Gein estava fora de combate, como um Espadachim poderia lutar sem seu braço dominante?
â Recuem! â gritou Sven, e Gein saltou para trĂĄs, segurando o coto do braço direito.
Sven tinha muitas perguntas em mente, mas precisavam sair dali vivos antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa.
Quando a poeira assentou, um uivo ensurdecedor sacudiu a floresta.
Um dos Magos, que ainda estava conjurando feitiços contra a criatura, ficou de boca aberta. â NĂŁo pode ser…! Tudo isso e nem um arranhĂŁo?!
De fato, o falso slime nĂŁo havia sequer se mexido. O bombardeio de feitiços nĂŁo havia deixado um Ășnico dano visĂvel, e sua superfĂcie permanecia tĂŁo reluzente quanto antes.
Nenhum dos caçadores ousava se mover. Eles estavam como sapos hipnotizados pelo olhar de uma serpente.
O plano original do Mil Truques era enviar o melhor caçador do clã para lidar com isso. Esse pensamento surgiu na mente de Sven, mas ele rapidamente o afastou.
Puxando seu arco com força, Sven gritou: â Tem que haver uma maneira de feri-lo! Fiquem firmes! Mantenham distĂąncia e ataquem de longe! E, Krai, como diabos isso Ă© um slime?!
Ao seu comando, uma tempestade de feitiços coloridos atingiu o falso slime. A adaptabilidade era uma das qualidades essenciais dos caçadores, e eles estavam rapidamente se ajustando à situação: o dobro de feitiços do primeiro ataque atingiu a criatura de cima a baixo. Um ataque desses teria dizimado qualquer outro fantasma dentro do cofre, incluindo o cavaleiro lobo branco. No entanto, sem sequer tentar desviar, o falso slime apenas gritou onde estava.
Slimes deveriam ser fracos a todos os ataques, especialmente magia. Essa investida deveria ter obliterado qualquer slime, falso ou nĂŁo.
Outra nuvem de poeira se ergueu, escondendo a criatura colossal. E, sem esperar para ver o resultado, outra rajada de magia foi disparada contra a nuvem. Uma explosão de luz queimou o ar e lançou uma onda de choque que Sven, a dez metros de distùncia, teve que suportar.
Depois de um bombardeio mĂĄgico que parecia ser um exagero, o silĂȘncio tomou conta da ĂĄrea.
â Ei, Gein, â chamou Sven, â vocĂȘ disse âcavaleiro loboâ antes?
No chĂŁo, Gein respondeu, trĂȘmulo, â I-Isso mesmo! Aquela coisa era um cavaleiro lobo! Aqueles malucos atiraram nele, e ele começou a… derreter… Droga!
Da nuvem de poeira que se dissipava, emergiu uma silhueta alta e irregular. O falso slime ainda estava intacto, mesmo após receber todo o impacto dos Magi, que tinham tanta certeza da vitória. Agora, seus rostos se contorciam em descrença.
Marietta não era exceção. E disse, incrédula:
â NĂŁo pode ser… Isso deveria ter eliminado qualquer… cavaleiro lobo com facilidade…
O que diabos Ă© essa coisa…? Sven estremeceu.
Ao longo de seus anos nos primeiros passos, Sven havia enfrentado mais Mil desafios do que poderia contar, mas nunca tinha visto algo tĂŁo aberrante quanto aquilo. Os membros dos Primeiros passos ao menos tinham alguma experiĂȘncia com “ProvaçÔes” inesperadas como essa, mas os caçadores de outros clĂŁs, menos experientes, recuaram aterrorizados.
Tem uma resistĂȘncia alta contra magia… de alguma forma? Sven especulou. Isso Ă© ruim. JĂĄ estamos perdendo a batalha antes mesmo dessa coisa agir.
Tremendo, Gein estendeu o que restava de seu braço em direção ao falso slime.
â Cuidado! NĂŁo toquem nessa coisa! Ela… Ă© forte demais! Eu nĂŁo faço ideia do que aconteceu! Eu cortei ele! Eu cortei! E entĂŁo meu braço… a coisa nem encostou em mim!
Houve uma inspiração. Então, um corte de vento. Sven disparou uma flecha, råpido demais para qualquer um sequer acompanhar com os olhos. Como um raio, a flecha negra encontrou a cabeça do falso slime. Foi um disparo que apenas um verdadeiro mestre da arquearia poderia executar.
Henrik, que havia recuado alguns passos, agora tinha certeza da vitĂłria. Ele jĂĄ tinha visto Sven perfurar escamas de dragĂŁo com suas flechas. Aquele slime molenga, ou seja lĂĄ o que fosse, nĂŁo tinha chance alguma.
Mas, no instante em que a flecha estava prestes a perfurar a cabeça da criatura… ela ricocheteou. Mantendo sua velocidade, a flecha reduziu uma ĂĄrvore a poucos metros dali a um monte de gravetos.
Enquanto o restante dos caçadores encarava o resultado impossĂvel, Sven rapidamente encaixou outra flecha.
NĂŁo existe algo como “impossĂvel”, ele lembrou a si mesmo.
Sven costumava ter absoluta confiança em suas flechas, mas aprendeu com a experiĂȘncia que forças inimaginĂĄveis existiam nesse mundo. No mĂnimo, jĂĄ havia encontrado uma Ladina que conseguia agarrar, com as prĂłprias mĂŁos, cem flechas disparadas ao mesmo tempo. E tambĂ©m um Paladino que nem piscava depois de ser atingido por outras cem. Comparado a isso, sua flecha ricochetear de um slime parecia atĂ© normal.
Seus mĂșsculos se retesaram. Flecha negra apĂłs flecha negra, ele disparou um total de dez tiros, cada um capaz de aniquilar um fantasma comum sozinho. E, fiel ao seu tĂtulo, Tempestade de Flechas, o vendaval de projĂ©teis colidiu contra o falso slime. Os caçadores observavam Sven disparar, mas logo ficaram sem palavras, cada uma das flechas foi desviada antes de atingir o alvo, ricocheteando ao redor da criatura e dilacerando a grama e as ĂĄrvores prĂłximas. Se houvesse um humano no trajeto, teria sido partido ao meio.
Ainda assim, o falso slime permanecia ileso.
Enquanto os caçadores o cercavam, o monstro ergueu seus braços derretidos como se estivesse os examinando.
â Isso nĂŁo pode estar acontecendo â resmungou Sven. â Negação fĂsica? Mas magia tambĂ©m nĂŁo funcionou. SerĂĄ que colocou algum tipo de barreira? NĂŁo, aquelas flechas nĂŁo pareceram atingir uma barreira.
Em vez de serem bloqueadas, era como se as flechas tivessem sido desviadas à força.
E quando o assunto era romper defesas, as flechas de Sven eram, de longe, a melhor opção no arsenal dos caçadores. Se nem elas, nem a magia dos Magi, conseguiam afetar a criatura, suas opçÔes estavam se esgotando.
O falso slime saltou e se lançou na direção de um grupo de caçadores que o cercava. Gritando, aqueles em seu caminho saltaram para o lado. No instante seguinte, a criatura golpeou o chão com os dois braços, explodindo a terra ao impacto. Seu ataque era poderoso o suficiente para ferir até mesmo os caçadores ali presentes, todos jå fortalecidos por sua exposição ao material de mana.
A situação estava cada vez pior para os caçadores de tesouros. Superar o falso slime em nĂșmero nĂŁo fazia diferença, se nem mesmo o caçador de NĂvel 6 mais renomado entre eles conseguia causar um arranhĂŁo na criatura.
â O que fazemos, Sven?! â perguntou Lyle.
â NĂŁo vamos correr atĂ© que seja absolutamente necessĂĄrio â respondeu Sven sem hesitar. â Gein me disse que alguĂ©m foi responsĂĄvel por criar essa coisa. NĂŁo podemos simplesmente deixar assim.
Era uma questão de orgulho de caçador.
Lyle coçou a cabeça e resmungou:
â Droga, Krai. “Podemos encontrar algo como um slime”?! JĂĄ tive o suficiente dessas meias-verdades dele! Eu vou dar um belo sermĂŁo quando voltarmos!
Sven franziu os låbios diante da reclamação. Definitivamente, não estavam sendo pagos o suficiente para aquilo.
Outro salto. O falso slime agora focava em outro grupo de caçadores. Mas, por enquanto, tudo que podiam fazer era ganhar tempo.
â NĂŁo deixem essa coisa chegar perto! Ela nĂŁo se move tĂŁo rĂĄpido â comandou Sven. â Se vier pra cima de vocĂȘ, foque em sair do alcance. O resto, tentem atrasĂĄ-la! Toda criatura tem um ponto fraco, e vamos encontrar o dessa!
Agora, ele estava grato por Eva ter montado essa tropa com tanto cuidado. Sven nem queria imaginar o quĂŁo pior estariam se tivessem apenas metade dos nĂșmeros, como Krai sugeriu.
Sven se concentrou em dificultar os movimentos da criatura. Embora todos os ataques tivessem sido desviados atĂ© aquele momento, o falso slime caminhava sobre pernas, e atacĂĄ-las o fazia desacelerar por fraçÔes de segundo. Pelo visto, a criatura nĂŁo tinha controle preciso sobre seus prĂłprios movimentos, nem reagia rĂĄpido a ataques. Por mais invencĂvel que parecesse, o falso slime nĂŁo parecia ter um cĂ©rebro muito afiado.
Sven se virou para os outros e os incentivou:
â O padrĂŁo de ataque dele Ă© simples! Ele ataca quem estĂĄ mais perto. E sĂł usa investidas e golpes. Essa coisa Ă© tĂŁo lenta que dĂĄ atĂ© sono. Fiquem firmes!
Com isso, os caçadores voltaram a atacar. Uma enxurrada de feitiços foi disparada para tentar atrasar a criatura, e os golpes colidiram contra sua misteriosa barreira.
O falso slime poderia ser uma ameaça muito maior se tivesse inteligĂȘncia suficiente para focar em um Ășnico alvo, em vez de apenas atacar quem estivesse por perto. Mas, mesmo assim, a situação dos caçadores nĂŁo melhorava: os Magi nĂŁo poderiam lançar feitiços para sempre, e ninguĂ©m conseguiria esquivar infinitamente. Se um caçador ficasse sem mana ou resistĂȘncia, estaria fora do combate. Fantasmas, no entanto, eram simplesmente construĂdos de forma diferente dos humanos, entĂŁo, quanto mais a luta se arrastava, pior para eles.
Como antes, todos os ataques ricocheteavam na superfĂcie do monstro. Mas os caçadores ainda tinham uma carta na manga, o Matador de Slimes de Talia. Sven lançou um olhar para Talia, posicionada na borda da formação. Ela parecia prestes a desmaiar.
O ladino do grupo de Gein correu em sua direção.
O suor escorria pelo rosto de Sven. Uma chance. Era tudo o que tinham, pensou ele. Se a criatura desviasse da poção mata-slime, estariam condenados. Precisavam ser cuidadosos.
Enquanto isso, ele via o cansaço se espalhando pelas expressÔes de seus aliados. Embora ainda estivessem conseguindo desviar dos ataques do falso slime, era questão de tempo até que alguém se ferisse se a luta se prolongasse.
Sven tomou sua decisĂŁo. Ele havia estudado o padrĂŁo de ataque do falso slime. Seu plano era arriscado, mas viĂĄvel.
Krai havia pedido Ark Rodin para esse trabalho inicialmente. Sven sabia que nĂŁo era tĂŁo habilidoso quanto a Tempestade Prateada; ainda assim, tinha orgulho do seu trabalho e de seu tĂtulo.
Fisicamente, ele ainda não estava exausto. Além disso, seus aliados arriscavam suas vidas a cada ataque do falso slime.
â Me dĂȘ a poção, Talia â disse ele. â Eu farei isso.
â O-Okaay!
Talia tropeçou ao se aproximar de Sven e entregou a ele o frasco contendo o lĂquido escuro. O vidro era tĂŁo frĂĄgil que um Ășnico impacto seria suficiente para quebrĂĄ-lo.
â Se vocĂȘ conseguir derramar a solução sobre ele, o slime deve se autodestruir a partir do ponto de contato… deve â explicou Talia.
â Todos, escutem! Atraiam aquele pedaço de bosta pra cĂĄ!
Sven disparou. Ele jĂĄ havia visto o falso slime se mover o suficiente para saber como e com que velocidade ele se deslocava.
Assim que se aproximou, a criatura mudou seu alvo de um caçador que estava perseguindo para Sven.
Por um instante, seus olhos se encontraram. Naquele rosto derretido, sem nariz ou boca, um par de olhos ainda brilhava.
Como se se agachasse, a enorme massa se comprimiu contra o chĂŁo.
Sven sorriu de canto.
Por mais insano e assustador que fosse, o falso slime nĂŁo reconhecia os caçadores como inimigos, apenas como presas, nĂŁo tinha noção de perigo. Sven usaria isso a seu favor, explorando os movimentos monĂłtonos e sem inteligĂȘncia da criatura.
Quando o falso slime não pÎde mais encolher, ele saltou para o alto como uma mola solta. Mas, desta vez, saltou mais råpido do que em qualquer outro momento. Enquanto os outros caçadores observavam, prendendo a respiração, Sven zombou do slime voando em sua direção, obscurecendo sua visão do céu.
Sven jå esperava por isso; ele sabia que não seria tão simples quanto apenas arremessar o frasco e acertar o slime. A coisa jå havia desviado de flechas, feitiços e até mesmo de uma pedra que ele jogou com leveza. O mesmo aconteceria com um frasco de vidro lançado contra ele. Então, Sven tinha uma solução simples.
â VocĂȘ acha que nĂŁo conseguimos lidar com isso, Mil Truques?! â rosnou ele.
O falso slime se moveu mais rĂĄpido, mas ainda assim, era apenas um pouco mais rĂĄpido do que sua lentidĂŁo natural. Comparado aos fantasmas que a Obsidian Cross enfrentava normalmente, aquele slime ainda era um lesma.
Enquanto o falso slime despencava do céu, Sven se abaixou e deslizou pelo chão com precisão. Os membros derretidos falharam em capturå-lo, e a criatura aterrissou no chão, bem em cima da poção mata-slime que ele havia deixado para trås ao desviar.
Crack.
O escudo da criatura era poderoso, mas nĂŁo infalĂvel; ele nĂŁo podia protegĂȘ-la de tudo. AtĂ© mesmo os AnĂ©is de Segurança, famosos por suas barreiras poderosas, podiam ser contornados por um oponente habilidoso. Ao esmagar o frasco de poção mata-slime sob seu prĂłprio peso, o falso slime congelou no lugar por um momento.
â Morre logo! â gritou Sven.
Todos os caçadores observavam a criatura com tensão enquanto ela estendia o braço na direção de Sven, que conseguiu desviar com facilidade. Então, a criatura começou a se mover novamente, como se nada tivesse acontecido. Ainda derretida, mas agora claramente mais fluida do que quando apareceu pela primeira vez.
Com os lĂĄbios trĂȘmulos, Talia caiu de joelhos no chĂŁo, tomada pelo desespero.
Sven pisou no chão com força e gritou para o céu noturno:
â Droga! Droga! Droga! Eu sabia que essa porcaria nĂŁo era um slime!
Ele quase esperava por isso, apĂłs anos de experiĂȘncia lidando com Krai. Obviamente, aquela criatura era diferente de um slime comum, e o depoimento de Gein confirmava isso.
Lyle, que havia pedido conselhos a Krai antes da missĂŁo, se lembrou com horror:
â A-Acabei de lembrar… Krai disse que seria algo âcomoâ um slimeâ
â JĂĄ chega desse desgraçado! â gritou Sven. â Ele nĂŁo sabe a importĂąncia de passar informaçÔes corretas?! NĂŁo somos Grievers que podem esmagar qualquer ameaça com força bruta! Quantas vezes ele ainda vai quase nos matar?!
Mais ĂĄgil do que antes, o falso slime se lançou contra Sven, que conseguiu desviar no Ășltimo segundo. Ele ouviu o impacto Ășmido da criatura atingindo o chĂŁo atrĂĄs de si. A tensĂŁo fazia o suor frio escorrer pelo seu rosto.
â O que diabos a gente faz com essa coisa?! Isso Ă© culpa sua, Krai! Vai se foder! â continuou Sven.
â K-Krai disse que poderĂamos lidar com isso com metade dos caçadores que temos agora… â acrescentou Lyle.
Evitando habilmente o falso slime, Sven continuou gritando:
â JĂĄ chega das merdas dele! Eu vou matar esse cara! Ele que desça aqui e resolva isso sozinho!
Os magos retomaram seus ataques apressadamente, segurando a criatura por um momento com o impacto de seus feitiços para que Sven pudesse se afastar. Alguns desses feitiços eram poderosos o suficiente para vaporizar vårios fantasmas de uma vez, mas ainda assim, não tinham efeito sobre o falso slime. Na verdade, enquanto os caçadores ficavam mais exaustos, a criatura parecia ficar cada vez mais råpida.
Sven nĂŁo via saĂda. Sua aljava tambĂ©m estava quase vazia.
Então, um dos caçadores do Primeiro Passo gritou para ele:
â Sven, nĂŁo conseguimos segurar mais! Precisamos recuar!
Qual é a decisão certa? pensou Sven. Eles podiam facilmente fugir do falso slime, mas isso significaria falhar na missão. E se deixassem aquela aberração ali, não causaria estragos? Ele ponderava freneticamente suas opçÔes enquanto a criatura acelerava ainda mais.
Foi entĂŁo que uma voz surpreendentemente calma ecoou pelo campo de batalha:
â Isso Ă© uma barreira de mana.
Imediatamente, os caçadores se acalmaram, saindo do estado de desespero ao ouvirem aquela voz. Ao contrårio dos gritos de guerra de Sven, essa voz trouxe tranquilidade ao grupo. Parte dos caçadores se afastou, abrindo espaço para revelar a pessoa que caminhava tranquilamente pelo campo de batalha.
Ela usava um robe verde-amarelado, uma grande bolsa de poçÔes presa à cintura e uma mochila volumosa. Seus vibrantes cabelos cor-de-rosa balançavam ao vento. O tempo parecia parar. Todos os caçadores, e até mesmo o falso slime, ficaram imóveis ao ver a intrusa.
Assim que seus brilhantes olhos cor-de-rosa encontraram Sven, ela sorriu para ele.
â Sitri…? O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui?! â perguntou Sven.
Era Sitri Smart, a Alquimista de NĂvel 2 dos Grieving Souls.
Inocentemente, Sitri colocou um dedo nos lĂĄbios, contemplativa, demonstrando uma incrĂvel fortaleza sem nem piscar diante da abominação que se erguia a uma curta distĂąncia.
Talia, uma colega Alquimista, olhou para a garota, incrédula. Sitri não deveria estar na capital naquele momento.
â Krai decidiu que jĂĄ era hora de eu assumir a operação no lugar dele. Eu nĂŁo queria me intrometer, mas tambĂ©m nĂŁo podia simplesmente ficar parada… Eu sou a mais adequada para esse trabalho. Acredito que sei com o que estamos lidando aqui.
O tom casual dela fez um arrepio percorrer a espinha de Sven.
GĂȘnios costumavam estar em um nĂvel diferente do resto do mundo. Mas mesmo entre a população excĂȘntrica de caçadores de tesouros, era raro encontrar alguĂ©m tĂŁo perigosamente fora da curva quanto Sitri.
Sitri nĂŁo deveria estar longe da capital? pensou Sven. Ele estava esperando pelo retorno dela?
Os outros membros dos Primeiros Passos estavam tão confusos quanto ele com a aparição repentina de Sitri.
â Barreira de mana…?! â perguntou Sven.
â Sim. Tenho certeza de que sabe o que Ă©: uma barreira usada por Magos extremamente poderosos e bestas mĂticas. Geralmente, Ă© considerada um sinal de força extraordinĂĄria â respondeu Sitri.
Sven conhecia esse conceito. Barreiras de mana eram utilizadas por criaturas com uma quantidade exorbitante de mana dentro delas. Ao expelir mana por todo o corpo, os usuĂĄrios conseguiam desviar qualquer ataque contra si, simples, mas poderoso. Por outro lado, era mais uma demonstração de força bruta do que uma tĂ©cnica refinada, jĂĄ que desperdiçar mana sem canalizĂĄ-la em feitiços era extremamente ineficiente. Mesmo os melhores Magos conseguiam manter uma barreira de mana apenas por um curto perĂodo.
Ao ouvir isso, Marietta soltou um pequeno murmĂșrio de espanto.
Observando o falso slime trĂȘmulo, Sitri continuou, impassĂvel:
â Um excesso de mana circula ao redor dessa criatura, criando uma espĂ©cie de vĂłrtice que desvia suas flechas e qualquer feitiço lançado contra ela. VocĂȘ nĂŁo encontraria um fantasma com essa quantidade de mana nem em um cofre de tesouros de NĂvel 8. Muito curioso, de fato. NĂŁo Ă© de se espantar que nenhum de vocĂȘs tenha percebido o que era.
De repente, o falso slime avançou contra Sitri, como se tivesse saĂdo de um transe. Dessa vez, estava focado nela, ignorando os caçadores ao redor.
â Um fantasma com essa quantidade de mana nĂŁo poderia ter se materializado neste cofre â comentou Sitri. â E ele estĂĄ… se dissolvendo? O material de mana que compĂ”e fantasmas Ă© considerado a fonte da mana. Ă uma teoria absurda, mas isso pode ser explicado se o material de mana do fantasma estiver sendo forçado a se converter em mana pura.
Nenhum outro caçador ali teria chegado a essa conclusão; dizia-se que o conhecimento era a verdadeira arma de um Alquimista.
Sven se lembrou de ouvir que Sitri cuidava de todas as anĂĄlises dos cofres que o Mil Truques explorava. Mas, no fim das contas, de nada adiantava entender o mecanismo se nĂŁo conseguissem superĂĄ-lo. Barreiras de mana eram notoriamente difĂceis de romper justamente por sua simplicidade.
Sitri deu alguns passos para o lado, esquivando-se do falso slime no Ășltimo segundo. Apesar do ataque de uma criatura muito maior do que ela, manteve a expressĂŁo calma e o olhar analĂtico. Observando a estrutura derretida da criatura, ela começou a andar em cĂrculos ao redor dela, enquanto o monstro a seguia com os olhos.
â A maior parte dos seus ĂłrgĂŁos jĂĄ se dissolveu. O que restou foi o instinto… EstĂĄ tentando recuperar sua estrutura absorvendo material de mana? VocĂȘ estĂĄ vindo atrĂĄs de mim porque sou quem tem mais material de mana aqui? Pobre criatura… Mesmo que me absorva, nĂŁo vai se curar. Isso Ă© um experimento fracassado.
â Afaste-se, Sitri! VocĂȘ nĂŁo estĂĄ segura aĂ! â gritou Sven. A classe de Alquimista era fisicamente a mais fraca de todas.
â Precisamos de um ataque, fĂsico ou mĂĄgico, poderoso o suficiente para atravessar a barreira de mana, ou simplesmente esperar atĂ© que tanta de sua estrutura seja convertida em mana que ela nĂŁo consiga mais se manter… â Sitri virou a cabeça. â Obrigada pela preocupação, Sven. Ah, jĂĄ sei! Por que nĂŁo usamos isto?
Com isso, Sitri tirou uma haste de metal cinza com cerca de trinta centĂmetros de comprimento. O falso slime se contorceu, mudando sua trajetĂłria para investir contra ela novamente. E, sem hesitar, Sitri lançou a haste contra a criatura.
â Isso Ă© metal anti-mana â explicou ela, enquanto a haste girava no ar e entĂŁo afundava no falso slime com uma facilidade impressionante. A criatura parou como se estivesse surpresa, e Sitri se afastou para dar espaço aos outros. â Agora Ă© com vocĂȘ, Sven.
Sitri havia calculado exatamente onde imobilizar o falso slime. Sven podia ver claramente a criatura, com a haste de metal anti-mana cravada na cabeça. Com o cansaço jĂĄ dissipado de seu corpo, ele puxou a corda do arco e disparou uma flecha em um Ășnico fĂŽlego.

A flecha negra voou certeira até a haste, um alvo fåcil demais para Sven, e a estilhaçou no impacto, obliterando a cabeça do falso slime junto com ela. E, com isso, o falso slime desapareceu no ar, como se nunca tivesse passado de uma ilusão.
Considerando todo o trabalho que os caçadores tiveram, aquilo parecia fĂĄcil demais; todos observavam em silĂȘncio.
Pela primeira vez desde sua chegada, Sitri demonstrou emoção. Ela suspirou aliviada.
â VocĂȘ estĂĄ bem… Ainda bem que cheguei a tempo.
â O que… acabou de acontecer? â murmurou um dos caçadores, incrĂ©dulo.
Sitri identificou sozinha a fraqueza do inimigo com as poucas informaçÔes disponĂveis e ainda resolveu o problema. Embora tecnicamente nĂŁo tenha dado o golpe final, seus movimentos foram perfeitamente precisos do começo ao fim.
EntĂŁo, uma carruagem emergiu da floresta. Era uma carruagem tĂŁo ornamentada quanto as usadas pela Primeiros Passos. De dentro dela, uma figura saiu.
â Terminou, Sitri?
Os olhos de Sven se arregalaram.
â Gerente da Filial Gark?! O que faz aqui? E vestido assim, ainda por cima?
â Ele me deu uma carona â disse Sitri. â NĂŁo sou tĂŁo rĂĄpida quanto minha irmĂŁ.
Sua aparição causou alvoroço entre os caçadores. Gark havia deixado de lado seu uniforme habitual da Associação e vestia uma armadura polida de um vermelho profundo. Em um braço, carregava um capacete com chifres combinando com o restante da armadura, e no outro, sua alabarda. Considerando o fĂsico de Gark, sua suposta aposentadoria da linha de frente nĂŁo parecia muito convincente.
Logo atrĂĄs dele, dois homens franzinos, vestidos com os uniformes do EscritĂłrio de Investigação de Cofres, saĂram timidamente da carruagem.
â JĂĄ expliquei isso a Gark â disse Sitri, virando-se para Sven â, mas vou repetir para vocĂȘ. Tenho certeza de que entendi toda a situação aqui e posso identificar os responsĂĄveis por isso.
Observando toda a troca de longe, de seu esconderijo, através de seu sistema de vigilùncia, Noctus estava abalado.
â Quem… Ă© essa?! Ela tem a habilidade de destruir um fantasma transfigurado com tanta facilidade? Deve ser o inimigo do qual Sophia falou!
O soro de transfiguração foi criado por acidente durante um experimento. Ainda que acidental, uma solução que convertia material de mana Ă força tinha um potencial incrĂvel para produzir resultados assustadoramente prĂłximos ao objetivo principal de Noctus. Embora ele nĂŁo tivesse testado o soro a fundo, havia observado que fantasmas injetados com ele se transformavam em monstruosidades autodegradantes, frenĂ©ticas na busca por mais material de mana. Como consequĂȘncia, a mana produzida pela conversĂŁo contĂnua do material de mana formava uma barreira natural ao redor da criatura, protegendo-a de todos os ataques. E esse poder defensivo sozinho jĂĄ tornava essas abominaçÔes peĂ”es viĂĄveis no esquema de Noctus.
Mas Sitri lidou com isso tĂŁo facilmente que Noctus nĂŁo pĂŽde deixar de reconhecer seu talento extraordinĂĄrio.
O metal antimana era um material Ășnico que anulava a maioria dos efeitos da mana bruta. Por ser relativamente frĂĄgil, nĂŁo era adequado para armamento. E, como nĂŁo negava a mana convertida em feitiços, tambĂ©m era frequentemente inĂștil como armadura. No entanto, quando se tratava de romper barreiras de mana, era o material perfeito, uma bala de prata contra fantasmas transfigurados.
Noctus ainda tinha um suprimento abundante do soro, então perder aquele fantasma não era um problema em si. No entanto, ele esperava que o fantasma ao menos causasse um grande estrago no batalhão de caçadores ou até os exterminasse completamente, o que o convenceu a autorizar o uso do soro não testado. Mas, no fim, tudo que a criatura destruiu foi apenas o braço direito de um dos caçadores. E, para piorar, seus dois aprendizes encarregados da operação foram derrotados.
â Como isso Ă© possĂvel…? Tal precisĂŁo ao lidar com essa coisa… Subestimei os caçadores.
As forças de Noctus podiam se dar ao luxo de perder um fantasma, mas o golpe emocional para os pesquisadores era palpåvel.
â Posso ser Ăștil, Professor Noctus? â perguntou um aprendiz que Noctus havia colocado de prontidĂŁo por perto.
â Onde estĂĄ Sophia? â perguntou Noctus.
Um amargor surgiu na expressĂŁo do aprendiz.
â Sophia disse que ia coletar informaçÔes e testar o sistema de defesa… Ainda nĂŁo voltou.
â Ela realmente segue seu prĂłprio ritmo…
â Mas deixou uma estratĂ©gia para nĂłs â observou o aprendiz. â Vamos exterminar esses caçadores.
Enquanto isso, o restante dos aprendizes de Noctus se reunia na sala de guerra.
â Implantação contĂnua?! O que ela estĂĄ pensando?! â exclamou Flick, segurando o memorando da estratĂ©gia com as mĂŁos trĂȘmulas.
Eles sempre estiveram abaixo de Sophia na hierarquia, mas agora eram forçados por seu mestre a seguir suas ordens.
â Ela claramente nĂŁo tem um pingo de estratĂ©gia. Os caçadores jĂĄ mostraram que conseguem derrotar um fantasma transfigurado com facilidade! MandĂĄ-los um por um sĂł vai garantir que todos sejam eliminados. E nĂŁo temos tanto soro sobrando. SerĂĄ que ela nĂŁo entende?! Precisamos… lançar um ataque total.
â O que isso vai resolver…? â concordou outro aprendiz. â Ela nĂŁo passa de uma pesquisadora de torre de marfim.
Sophia era uma excelente pesquisadora, e atĂ© Flick tinha que admitir que ela o superava nesse aspecto. Mas essa ordem que deixou para trĂĄs era atroz. Flick era um Magus treinado em combate tambĂ©m; estratĂ©gia nĂŁo era seu maior talento, mas ele nĂŁo precisava ser um mestre no assunto para entender que aquela ordem era absurda. Enquanto isso, mesmo que Sophia sempre tivesse sido um espinho em seu caminho, Flick nĂŁo tinha intenção de desobedecer seu mestre… atĂ© ver o quĂŁo incompetente ela era nesse quesito.
â Conseguiram contatĂĄ-la? â perguntou Flick.
â Nada… Tentamos atĂ© a Pedra Sonora, mas nĂŁo tivemos resposta.
â Droga! Ela nĂŁo entende a gravidade da situação?! EstĂĄ nos levando direto para a derrota!
Eles estavam enfrentando o Mil Truques e um Griever no campo de batalha.
Como podemos vencer se nossa comandante inĂștil nem estĂĄ aqui para avaliar a situação? â pensou Flick. Mesmo os melhores guerreiros eram inĂșteis sob um comando inepto.
â Flick, a ordem foi dada antes do primeiro fantasma ser derrotado. Qual o problema em nos adaptarmos Ă situação? SĂł precisamos vencer. Mesmo que os fantasmas nĂŁo consigam eliminar os caçadores, ainda temos outras armas em nosso arsenal para finalizar o trabalho.
Flick franziu a testa com a sugestão. Pesou suas opçÔes, considerando a ordem de seu mestre, a situação atual e o comando absurdo de Sophia. Após alguns segundos, chegou a uma conclusão.
â VocĂȘ tem razĂŁo. Se continuarmos seguindo essas ordens amadoras e perdermos a batalha, nĂŁo terei coragem de encarar o Mestre. Pegue todas as poçÔes que temos e reĂșna os fantasmas capturados. Vamos aniquilar esses caçadores de uma vez por todas!
Tradução: Carpeado
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