Grieving Soul â CapĂtulo 2 â Volume 2
Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 02
<!– /wp:heading â
CapĂtulo 02:
[Um Pesadelo Persistente]
Tive um pesadelo.
Sonhei que a capital estava em chamas; sonhei que era o fim do mundo.
O cĂ©u ardia em um vermelho profundo, e o que o acompanhava era uma cacofonia de gritos. Caçadores, cavaleiros, mercadores e outros moradores corriam desesperados por suas vidas. As ruas largas ficaram abarrotadas de gente tentando fugir da cidade, apenas para serem encurraladas pelas muralhas que deveriam protegĂȘ-las. A capital, Zebrudia, era cercada por muralhas, mas suas saĂdas eram poucas e estreitas demais para a população. A evacuação estagnou Ă medida que as pessoas se amontoavam nos portĂ”es.
Eu assistia a tudo de um cÎmodo vazio, em algum lugar bem acima do escritório do mestre do clã. De um ponto de vista elevado, eu conseguia ver claramente o estado da capital e a razão do céu arder em chamas. A histórica capital imperial de Zebrudia, que estava se aproximando do seu tricentésimo aniversårio, estava submersa em uma ågua que brilhava em um vermelho intenso.
O lĂquido viscoso engolfava a cidade meticulosamente planejada como se fosse um tsunami, mesmo sem haver um mar prĂłximo. AlĂ©m disso, de onde eu estava, dava para ver que o lĂquido se movia de forma estranha: ele estava perseguindo seres vivos. Dava prioridade a crianças e idosos em fuga, bem como aos cavaleiros que tentavam manter a ordem na multidĂŁo. Sem exceção, todos que eram tocados pelo lĂquido eram envoltos por chamas e consumidos em questĂŁo de segundos.
NĂŁo havia mais sinal de vida no castelo ao longe. Metade da cidade jĂĄ tinha virado uma cidade fantasma. Uma cidade com todas as suas estruturas intactas, mas completamente desprovida de vida, nem sequer um corpo, era um pressĂĄgio sinistro. Talvez ainda houvesse sobreviventes dentro dos edifĂcios, mas fugir da cidade com as ruas tomadas por essa ĂĄgua em chamas era simplesmente impossĂvel.
A enchente ardente não mostrava sinais de recuar. Pelo contrårio, parecia subir cada vez mais. Logo, aquela maré incandescente transbordaria os muros da cidade e engoliria o mundo inteiro.
Foi entĂŁo que percebi o que estava devastando a cidade. Eu conhecia aquilo.
Aquilo nĂŁo era ĂĄgua. Aquilo era uma criatura.
Era uma criação insana baseada na espécie mais fraca de monstros deste mundo, a coisa que eu tinha sido avisado para lidar com cuidado, mas que (talvez) eu tivesse libertado por acidente.
Uma garota estava ao meu lado, observando a cidade assim como eu. Seus olhos levemente caĂdos transmitiam uma impressĂŁo gentil, e seu rosto era emoldurado por cabelos curtos e rosados. Ela usava uma tĂșnica cinza sem qualquer detalhe chamativo, mais parecendo um avental do que um dos trajes encantados que os Magos usavam ao explorar cofres de tesouro.
A garota olhou para cima com os olhos arregalados, como se só agora tivesse percebido minha presença. Apesar do apocalipse que se desenrolava abaixo, sua expressão estava relaxada.
Ela falou como se estivéssemos apenas batendo papo, mas sua voz era tão distorcida que eu não conseguia entender nada do que dizia. Ainda assim, seus olhos brilhavam de empolgação.
Tentei desesperadamente impedi-la, mas minha voz falhou. A angĂșstia e o desespero tomaram conta de mim. Agarrei seus ombros, mas tudo o que ela fez foi me lançar um sorriso tĂmido antes de me abraçar.
Isso nĂŁo foi um elogio!
Segurei-a pelos ombros e a afastei de mim. Com todas as forças, a sacudi enquanto ela assistia ao seu slime com enorme satisfaçãoâ
EntĂŁo, acordei.
Me levantei de um pulo na cama, no meio de um quarto escuro, sentindo meu corpo inteiro estremecer. Meu dorso estava encharcado de suor frio, e meu coração martelava dentro do peito. Pesadelos eram comuns para um neurótico como eu. Mas esse⊠esse foi o pior em muito tempo.
Que sonho horrĂvel. E foi tĂŁo realista, principalmente a parte em que ela me abraçou.
Respirando fundo e devagar, tentei me lembrar de que a capital nĂŁo cairia tĂŁo fĂĄcil assim. Zebrudia era um impĂ©rio poderoso, com uma ordem de cavaleiros invicta, uma unidade mĂĄgica com centenas de Magos e uma legiĂŁo de caçadores poderosos, tanto ativos quanto aposentados, baseados na capital. AlĂ©m da sua força militar, o impĂ©rio tambĂ©m liderava o mundo em pesquisa e tecnologia, sendo a superpotĂȘncia indiscutĂvel da regiĂŁo. Cercada por uma rede de cofres de tesouro perigosos, a capital era, sem dĂșvidas, a cidade mais bem protegida do mundo. Nenhum paĂs vizinho teria como lidar com uma calamidade capaz de destruir o coração do impĂ©rio.
O que significa que, se isso realmente acontecesse⊠estarĂamos todos ferrados.
Tentei balançar a cabeça para espantar as lembranças do pesadelo, mas, por algum motivo, elas estavam mais vĂvidas do que o normal.
â NĂŁo tem como isso acontecer. Nunca tive um sonho que virou realidade antes.
â O que foi? â chamou uma voz sonolenta Ă minha esquerda.
Achei que estava sozinho.
Me virei para a direção da voz e encontrei Liz sentada ali, como se aquela cama fosse dela. NĂŁo pude evitar franzir a testa ao ver alguĂ©m que se parecia tanto com Sitri, a garota do meu pesadelo. Afinal, elas eram irmĂŁs. E apesar de terem vĂĄrias diferenças, como o comprimento do cabelo, o formato dos olhos, a altura, o tamanho dos seios e atĂ© o tom de pele, se realmente quisessem, poderiam se passar uma pela outra e eu sabia disso por experiĂȘncia prĂłpria.
Liz me lançou um sorriso sem vergonha e disse:
â Bom dia, Krai Baby. Sonhou comigo?
Ela se espreguiçou dentro de sua camisola fina e folgada e se agarrou ao meu braço, enquanto meu coração ainda batia acelerado. A temperatura do seu corpo era bem mais alta que a minha, então seu abraço só me fez suar ainda mais.
Identifiquei a fonte do meu pesadelo: ela com certeza nĂŁo estava aqui quando fui dormir.
Liz sempre teve essa mania irritante de invadir minha cama. Pensei em reclamar, mas falar do pesadelo nĂŁo parecia algo muito produtivo.
Enquanto eu ficava em silĂȘncio, as pernas dela se enroscaram nas minhas, e entĂŁo senti uma sensação gelada quando sua tornozeleira tocou minha pele. Era a Apex Roots, a RelĂquia de Liz, em seu modo inativo. Sua RelĂquia era uma bota mĂĄgica que, quando nĂŁo usada, se transformava em um anel de metal. Liz dizia que seu lema era “nunca pare de lutar”, entĂŁo ela usava sua RelĂquia o tempo todo, no banho, enquanto dormia, sempre. SĂł o tirava por pouquĂssimos momentos do dia.
Um doce perfume vindo da Liz me fez cĂłcegas no nariz. Seus braços abraçavam os meus, seus seios pressionavam contra mim, e suas pernas esguias se esfregavam na minha pele quente. O prazer sutil dessa sensação provocava algo no fundo da minha mente. Por um segundo, quase parecia que ela era uma garota sofisticada ou algo assim. Pena que seu hobby era destruir os homens que caĂam nessa armadilha.
Enquanto eu tentava controlar minha respiração, Liz sussurrou no meu ouvido:
â Quer sair comigo hoje, Krai Baby?
â E o treino da Tino?
â Bom, se eu forçar demais, ela pode quebrar. EntĂŁo hoje Ă© folga pra ela.
â E o seu treino? â perguntei.
Liz jĂĄ havia dominado todos os ensinamentos de sua mentora e herdado o tĂtulo de Sombra Partida, mas ela era uma trabalhadora incansĂĄvel. Normalmente, ficava ocupada na capital treinando com Tino e se dedicando ao prĂłprio aperfeiçoamento.
Ela sorriu de um jeito bobo.
â Hoje tambĂ©m Ă© meu dia de folga!
Ela tinha certeza? Bem, nĂŁo era meu lugar contestar.
Eu não sabia quais eram seus planos, mas me sentia seguro saindo do prédio com ela como minha guarda-costas. Não que eu tivesse algo melhor para fazer, de qualquer forma. E não era a primeira vez que ela me arrastava para dar uma volta pela cidade.
Desde que parei de explorar cofres com o resto do grupo, comecei a sair mais com ela. Ser um bom lĂder de equipe significava passar tempo com seus companheiros fora do trabalho tambĂ©m. Bem, no meu caso, era a Ășnica opção. EntĂŁo, eu nĂŁo queria decepcionar Liz quando ela chamava. AlĂ©m disso, pelo menos quando estĂĄvamos passeando, nĂŁo havia risco dela enlouquecer de repente.
Resolvi afastar aquele pesadelo infundado da minha mente. Era só isso: um pesadelo. Um fruto do aviso desnecessariamente enigmåtico de Sitri, somado ao fato de Liz praticamente me sufocar. Sério, o que eu poderia fazer em relação a isso?
â Certo, eu ando com vocĂȘ â respondi.
Liz soltou um gritinho e enterrou o rosto no meu peito.
â Obrigada, Krai Baby!
Acariciando a cabeça da minha amiga exageradamente carinhosa, soltei um suspiro discreto.
Vesti-me e desci para o térreo da casa do clã com Liz, justamente quando um rosto familiar entrou pela porta da frente.
Lå estava ele: um gigante careca que qualquer caçador da capital reconheceria à primeira vista, Gark. Ele vestia o uniforme da Associação, e aquilo não poderia lhe cair pior.
Ele me avistou na hora.
Tive que fazer um esforço consciente para esconder minha apreensĂŁo. Pela minha experiĂȘncia, quando Gark batia Ă minha porta, significava uma de trĂȘs coisas: algum grande problema estava surgindo, eu havia cometido um erro terrĂvel, ou aquele era um pĂ©ssimo momento para recusar seu chamado. Nenhuma dessas opçÔes era exatamente uma boa notĂcia para mim. Como ele estava acompanhado de Kaina e mais dois oficiais da Associação, com certeza nĂŁo viera apenas para uma conversa amistosa.
â Krai Baby estĂĄ bem ocupado hoje! â disparou Liz antes que eu pudesse abrir a boca. â EntĂŁo nĂŁo perde nosso tempo com qualquer besteira que veio trazer! A gente nĂŁo vai limpar a bagunça de caçadores fracotes que jĂĄ deviam ter batido as botas faz tempo. Cai fora.
No rosto dela havia um olhar tão feroz que teria feito a maioria dos monstros recuarem. Um segundo atrås, ela estava perfeitamente tranquila, e agora jå estava pronta para morder antes mesmo de Gark dizer uma palavra. Não importava se Gark era o gerente da associação à qual ela pertencia, ou se fosse um nobre, um cavaleiro, um guerreiro experiente ou alguém que ela conhecesse bem, sua atitude continuaria a mesma.
Liz, embora tivesse escolhido uma roupa toda preta como de costume, vestia algo bem mais casual do que o normal: em vez de seus shorts apertados, usava uma saia, tinha o cabelo solto e nĂŁo carregava nenhuma arma. No entanto, sua bota prateada RelĂquia permanecia nos pĂ©s, e ela batia o chĂŁo impaciente com ela.
Gark franziu a testa diante da pequena berserker e disse:
â Liz? VocĂȘ nĂŁo devia estar no PalĂĄcio da Noite? JĂĄ te falei para me relatar depois de explorar cofres de nĂvel 7 ou superior.
Depois de anos lidando conosco, eles sabiam muito bem como era irritante lidar com Liz de mau humor, e isso ficava claro pelo modo como Kaina e os outros dois oficiais empalideceram. NĂŁo era uma boa hora para discutir.
A Associação dos Exploradores era uma organização gigantesca. E, para manter os caçadores sob controle, muitos de seus oficiais eram ex-caçadores, Gark Welter nĂŁo era exceção. Na verdade, ele jĂĄ havia sido um caçador de nĂvel 7 que devastava cofres com sua fiel alabarda; seu apelido, DemĂŽnio da Guerra, ainda era sussurrado com temor por aqueles que o conheciam na Ă©poca. Embora seus dias de glĂłria na linha de frente tivessem ficado para trĂĄs, ele ainda conseguia enfrentar a maioria dos caçadores atuais.
Para ser mais especĂfico, quando nĂłs, os Grievers, chegamos Ă capital, Gark, que jĂĄ era gerente do ramo na Ă©poca, nos deu uma surra coletiva. Foi assim que fomos iniciados na caça ao tesouro na capital. Luke e Liz eram relativamente cooperativos com Gark, em parte, por conta dessa experiĂȘncia. Brutos se entendem. Mas isso jĂĄ fazia quase cinco anos.
â VocĂȘs sempre precisam do Krai Baby para carregar vocĂȘs, nĂ©?! A gente paga aquela taxa absurda toda vez. Se virem sozinhos! â Liz continuou a resmungar para Gark.
Para um observador desavisado, uma garotinha (ainda por cima vestida casualmente) tentando intimidar um brutamontes como Gark poderia parecer apenas uma criança fazendo birra. Mas a expressão de Gark permaneceu tensa. Se eu estivesse no lugar dele, meus dentes estariam batendo. Definitivamente, ele tinha coragem.
â Espera. Se vocĂȘ estĂĄ aqui, a Sitri voltou? â perguntou Gark.
â NĂŁo! VocĂȘ estĂĄ atrapalhando o nosso encontro. Some!
Com um Ășnico chute de Liz, Gark voou pelo salĂŁo. Derrapando pelo chĂŁo de mĂĄrmore caro, acabou derrubando alguns vasos de plantas.
Eu só conseguia rir da rapidez absurda com que Liz entrava em brigas. Ela começava lutas mais råpido que qualquer outro caçador ou até mesmo bandidos que jå encontrei.
Gark descruzou os braços que usara para bloquear o golpe e se levantou lentamente. MĂ©rito para ele por praticamente ter ignorado um chute de uma das poucas caçadoras que enfrentavam cofres de nĂvel 8. Mas, apesar de seu movimento controlado, sua expressĂŁo havia se transformado em algo demonĂaco, lembrando bem seu apelido.
E mais, Gark agora estava pronto para brigar. Ele não teria durado como gerente da Associação se fosse do tipo que aceitava um golpe sem revidar. Então, de seu cinto, ele sacou uma adaga que parecia mais uma espada curta nas mãos de Liz.
â Agora vocĂȘ vai se arrepender, Liz. VocĂȘ finalmente esgotou minha paciĂȘncia imensa.
Como se fosse imensa. Ela jå era fina como papel desde o começo.
Liz curvou os lĂĄbios, os olhos brilhando em desafio, enquanto sua pele bronzeada ficava ainda mais avermelhada. Eu mal tinha conseguido apagar o incĂȘndio, e agora as chamas estavam rugindo de novo.
Por que vocĂȘs sĂŁo tĂŁo violentos? NĂŁo dĂĄ pra todo mundo se dar bem?
Eles iam destruir a casa do clĂŁ de novo. E adivinha quem ia ter que aturar as broncas da Eva depois? Eu.
Kaina e os outros oficiais pareciam estar tentando encontrar o momento certo para intervir mas esse navio jĂĄ tinha zarpado. PoderĂamos ter mil normais como nĂłs do nosso lado e ainda assim nĂŁo terĂamos a menor chance de impedir dois malucos de trocarem golpes. Olhando ao redor do saguĂŁo, vi que todos os membros do clĂŁ que estavam ali jĂĄ haviam evacuado.
Virei as costas para os malucos e perguntei aos oficiais da Associação:
â Querem subir e tomar um chĂĄ?
Liz estava vestida para um passeio, ou seja, desarmada, e nem queria matar Gark de verdade. Ele provavelmente sobreviveria.
Os sons vindos de baixo continuavam, fazendo o vidro da minha janela tremer.
Estranho. Muitos terremotos hoje, pensei comigo mesmo. Decidi ignorar e continuar minha conversa normal com Kaina e os outros oficiais.
Para falar a verdade, eu sentia que Kaina e eu Ă©ramos almas gĂȘmeas no sentido de que ela tambĂ©m tinha que lidar com um gerente de filial aterrorizante e violento. Por isso, sempre me sentia confortĂĄvel conversando com ela.
â Sua recepcionista Ă© muito fofa â comentei brincando. â Onde encontrou ela? Queria ter uma garota assim na recepção do meu clĂŁ.
Tirei muita inspiração da Associação na hora de estruturar meu clĂŁ. Eva sĂł veio trabalhar comigo porque eu revirei a cidade inteira procurando alguĂ©m como Kaina e supliquei atĂ© ela aceitar. O que a Primeiros Passos precisava agora era de uma recepcionista bonita. A filial da Associação em Zebrudia era famosa por sua recepcionista, que sempre era animada e educada, mesmo com caçadores assustadores ou imundos… ou quando eu aparecia pela milĂ©sima vez para responder uma convocação do Gark. Apostava que essa garota (cujo nome eu nem sabia) era uma peça fundamental para manter a filial funcionando sem problemas. Todos os homens tĂȘm uma fraqueza em comum: garotas fofas. Caçadores nĂŁo eram exceção.
Kaina riu um pouco.
â VocĂȘ quer dizer a Chloe? Ela Ă© sobrinha do Gark.
â Ah â murmurei. â EntĂŁo genĂ©tica Ă© um mito, afinal.
A ideia de que aquela garota simpåtica fazia parte da årvore genealógica do DemÎnio da Guerra era perturbadora. Mas, pensando bem, talvez ela fosse tão boa em lidar com caçadores justamente porque jå tinha bastante pråtica com Gark.
Suspiro. Então eles conseguiram essa recepcionista através de nepotismo.
Depois de quebrarmos o gelo com um pouco de conversa fiada, perguntei a Kaina o motivo da visita deles. Pelo visto, para meu desespero, Gark estava sob a ilusĂŁo terrĂvel de que eu tinha alguma informação sobre as mudanças na Toca do Lobo Branco. Mas, infelizmente para ele, eu nĂŁo sabia de nada. NĂŁo tinha feito suposiçÔes e nem planejava fazer, porque dessa vez isso nĂŁo era culpa minha! Eu sĂł tive um gostinho do novo cofre por puro azar. Mas, como jĂĄ tinha concluĂdo a missĂŁo na qual fui pressionado a entrar, qualquer pesquisa adicional caĂa na responsabilidade da Associação e do impĂ©rio.
Gark nĂŁo era o Ășnico, mas ele superestimava minhas habilidades de um jeito absurdo. Eu sĂł tinha chegado ao NĂvel 8 por pura sorte. Se parassem para pensar por um segundo, perceberiam que, sem conhecimento Ăștil nem habilidades, nĂŁo havia chance de eu saber mais do que os especialistas do impĂ©rio ou da Associação tinham descoberto com suas pesquisas.
NĂŁo. Ă. Problema. Meu.
â Parece complicado. EntĂŁo nĂŁo tem nada a ver com as linhas ley? â comentei preguiçosamente, mas Kaina pareceu surpresa.
Eu sabia que as linhas ley eram como artĂ©rias no solo e que qualquer anomalia nelas era inconfundĂvel para um especialista, mas esse era o limite do meu conhecimento, esse tipo de coisa era mais a ĂĄrea da nossa Alquimista, Sitri.
Os Alquimistas eram considerados uma mistura de Magos e estudiosos: dominavam as leis do universo e as manipulavam para produzir efeitos desejados. Alquimistas eram raros entre aventureiros porque nĂŁo tinham poder de ataque como os Magos, que podiam usar suas vastas reservas de mana interna, e porque precisavam de muito conhecimento, experiĂȘncia e itens raros para atingir seu verdadeiro potencial. Por outro lado, Alquimistas eram extremamente confiĂĄveis em momentos de crise como este.
Sitri se destacava entre seus colegas porque tinha muita experiĂȘncia prĂĄtica mergulhando em cofres do tesouro. E, apesar de ter algumas peculiaridades, tambĂ©m ocupava um cargo no instituto acadĂȘmico do impĂ©rio. Ela, uma Alquimista brilhante que havia ganhado o apelido de “A ProdĂgio”, era, sem dĂșvidas, o cĂ©rebro por trĂĄs da Grieving Souls. Apesar disso, era tĂŁo reservada e respeitosa que eu nunca teria imaginado que ela era irmĂŁ da Liz se nĂŁo as conhecesse tĂŁo bem.
Ah, e vale mencionar que gerar criaturas mĂĄgicas como slimes era uma das especialidades de um Alquimista. Pena que ela nĂŁo era tĂŁo boa em mantĂȘ-los seguros.
Mas, infelizmente para nĂłs, ela ainda nĂŁo tinha voltado para a cidade.
â Tem alguma coisa que vocĂȘ tenha notado? â insistiu Kaina.
Sem sorte. O medo de encarar um cofre do tesouro depois de tantos anos e o pĂąnico trazido pela aparição surpresa da Liz me deixaram com pouca memĂłria do lugar, que dirĂĄ de qualquer pista Ăștil. Afundei na cadeira e tentei lembrar dos acontecimentos no cofre, mas nada, se houvesse algo estranho, eu teria percebido.
â Bom, nada demais â respondi. â Passei o dia preocupado com outra coisa…
Droga.
â Outra coisa? â Os olhos castanhos de Kaina me encararam com curiosidade.
Eu estava tĂŁo preocupado com o paradeiro daquele Slime da Sitri que nĂŁo tinha dado a mĂnima para as mudanças no cofre; atĂ© agora, meu pesadelo da noite passada ainda se repetia na minha cabeça. NĂŁo que eu tivesse chance de descobrir alguma coisa sobre o estado anormal do cofre se tentasse, mas, se pudesse escolher, preferia procurar aquela maldita gosma do que fazer esse tipo de pesquisa.
â NĂŁo pode nos contar? â perguntou Kaina, genuinamente interessada.
Eu preferia morrer a admitir que tinha perdido uma criação da Sitri, logo da Sitri, ainda mais depois de ela me avisar para tomar cuidado com aquilo.
Quer saber? Eu nĂŁo perdi o Slime da Sitri. Isso Ă© sĂł um grande mal-entendido. Estou me enganando Ă toa, decidi.
Entrelaçando os dedos, encarei minhas mĂŁos de um jeito que parecia que eu estava refletindo profundamente. Um Caçador de NĂvel 8 carregava muitos segredos consigo.
â NĂŁo posso. NĂŁo agora. Tem ouvidos por toda parte â respondi, tentando despistĂĄ-la. Me senti pĂ©ssimo com isso.
â VocĂȘ quer dizer… â Os oficiais atrĂĄs de Kaina se enrijeceram.
â NĂŁo suportava olhar para eles, entĂŁo me levantei e virei de costas.
Olhe pelo lado bom, pensei. Talvez deixar isso escapar pudesse acabar me beneficiando: poderia ser uma desculpa para recusar o pedido do Gark. Como qualquer atividade irregular em cofres de tesouro afetava toda a comunidade de caçadores, eu estava totalmente disposto a fazer com que a Primeiros Passos cooperasse com os esforços de pesquisa. Mas agora eu poderia me livrar do trabalho pesado, o que significava que nĂŁo precisaria arriscar minha vida nem minha sanidade no processo. A Associação nĂŁo perderia tempo interpretando mal meus comentĂĄrios desinformados, e passar um tempo com a Liz em vez de focar nessa pesquisa a deixaria satisfeita por um tempo, um arranjo em que todos saĂam ganhando.
â Estou meio ocupado no momento â acrescentei â, mas minha guilda estĂĄ Ă disposição para ajudar. Sei que o Ark Ă© a melhor escolha para o trabalho; assim que ele voltar, pedirei que auxilie na pesquisa.
â Obrigada… pela cooperação â disse Kaina, mantendo o olhar baixo.
Me perdoe, Kaina. NĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer. Meu conhecimento mais especializado se resume a uma lista dos melhores sorvetes da capital.
Quase me sentia mal por ser um Caçador de NĂvel 8, mas foram eles que me deram esse ranque em primeiro lugar. AlĂ©m disso, estava oferecendo o Ark como um pedido de desculpas pela minha incompetĂȘncia. Aquele cara brilhante e multitalentoso poderia resolver a maioria dos problemas, eu tinha certeza. Mas sĂł para deixar claro: eu o estava emprestando, ainda precisava dele de volta.
Vendo que os oficiais ainda pareciam desanimados, tentei consolĂĄ-los.
â NĂŁo precisam se preocupar tanto. Se nĂŁo houve mudanças nas linhas de energia, nĂŁo vai demorar para que tudo volte ao normal.
O fluxo do mana e todos os aspectos ligados a ele (como a evolução dos espectros) eram uma força da natureza. NĂłs, meros mortais, podĂamos fazer muito pouco a respeito.
Gark mal conseguia acreditar que os movimentos da garota nĂŁo eram algum tipo de magia. Sua concentração extrema fazia cada segundo parecer vĂĄrios; mesmo assim, ele nĂŁo conseguia reagir rĂĄpido o suficiente, muito menos desviar dos ataques. Com toda a sua força, ele apenas conseguia bloquear os golpes da Liz por um fio, apesar de ela nĂŁo usar feitiços nem portar armas. Seus Ășnicos meios de ataque eram impulsos e chutes, mas a velocidade era absurda. A maioria dos Ladinos era ĂĄgil, mas, em todos os seus anos como caçador e gerente da filial da Associação, Gark raramente havia visto um caçador tĂŁo veloz.

Sombra Partida era o codinome de um caçador que jĂĄ fora conhecido como o Ladino mais rĂĄpido da capital. Quando Gark ouviu que Liz havia herdado esse tĂtulo depois de apenas alguns anos de treinamento, ele riu, incrĂ©dulo. Agora, a garota se movia pelo menos tĂŁo rĂĄpido quanto o antigo Sombra Partida.
Metal deslizou pelo chão, deixando um rastro de fumaça pelo atrito. Liz havia parado bruscamente de sua velocidade måxima num instante.
â Hmm, vocĂȘ amoleceu, Gark â disse ela, sem o menor traço da raiva de antes. â Isso Ă© o que acontece quando vocĂȘ passa o dia todo encostado na mesa.
â AtĂ© parece! â grunhiu Gark, engolindo a reclamação. Eu nĂŁo fiquei mais fraco. VocĂȘ ficou mais forte.
Seu corpo implorava por ar fresco. Escondendo a respiração pesada, Gark lançou um olhar furioso para Liz, que exibia toda a sua falta de respeito.
Embora nĂŁo fosse sua arma preferida, Gark tinha treinado com a adaga atĂ© certo ponto. Mas a lĂąmina sequer serviu para limitar a mobilidade de Liz, muito menos deixou um arranhĂŁo nela. Era como se Liz nem visse a adaga em sua mĂŁo. Cada membro de Gark doĂa ao bloquear os ataques da garota, onde cada golpe parecia chacoalhar seus ossos, apesar de serem desferidos por seus braços finos. Se um golpe direto acertasse, ele poderia ser nocauteado. Gark nĂŁo podia deixar que uma simples caçadora o humilhasse, mas, mesmo assim, Liz tinha claramente a vantagem.
Enquanto Gark mantinha sua guarda alta, Liz parecia relaxada, como se aquilo nĂŁo passasse de um simples aquecimento. Ela estava mais forte do que nunca, carregada com a mana material que havia absorvido do PalĂĄcio da Noite, um cofre de nĂvel 8, era a maior quantidade de mana interna que ela jĂĄ teve. Em contraste, Gark estava longe dos cofres hĂĄ anos. Ele era muito maior que Liz fisicamente (embora seus braços fossem longos para seu porte, Gark ainda tinha um alcance muito superior), mas ela transbordava a energia tĂpica de caçadores ĂĄvidos, que nunca paravam de explorar os cofres.
Depois de enfrentĂĄ-la, Gark tinha certeza de que nĂŁo conseguiria acertĂĄ-la nem mesmo se aceitasse levar um golpe direto para tentar um contra-ataque: Liz simplesmente sairia do alcance antes que sua lĂąmina pudesse atingi-la. A diferença de força que antes os separava quando os Grievers chegaram Ă capital agora estava completamente invertida. Gark jĂĄ esperava que os Grievers ficassem dramaticamente mais fortes apĂłs explorar cofres de alto nĂvel, mas sentir isso na pele enquanto enfrentava Liz fazia seu coração arder.
Liz bateu as botas no chĂŁo, zombando do DemĂŽnio da Guerra.
â VocĂȘ precisa se exercitar, Gark. Engordou? Qualquer caçador por aĂ poderia te vencer desse jeito â disse Liz, olhando para ele como se estivesse diante de um homem Ă beira da morte.
â Chega! â gritou Gark, rangendo os dentes como se tentasse quebrĂĄ-los. Nem todo caçador na rua Ă© um Griever! ele queria gritar. Eu sei que estou enferrujado, mas ainda estou no nĂvel de um caçador nĂvel 5!
Ele finalmente chegou ao limite. Por um momento, atĂ© considerou um golpe abaixo da cintura: rebaixar Liz de nĂvel. Mas fazer isso por despeito seria um abuso de poder ridĂculo.
Liz sorriu e disse:
â A porta estĂĄ logo atrĂĄs de vocĂȘ. Fiquei com pena de ver o quanto vocĂȘ ficou fraco, entĂŁo vou deixar vocĂȘ sair andando. Viu? Ă assim que se espalha gentileza, nĂŁo Ăłdio.
Por um instante, Gark não processou o que Liz disse; no seguinte, só conseguia ver vermelho. A raiva borbulhou em seu estÎmago, uma sensação que não sentia hå tempos, e ele apertou o cabo da adaga até ouvir um estalo.
Gark era um caçador da classe Guerreiro, um mestre em todas as armas. Uma das tĂ©cnicas que dominava era canalizar sua raiva explosiva em força bruta, uma habilidade que foi crucial para que ele conquistasse seu tĂtulo. Fazia muito tempo que nĂŁo a usava, mas, aparentemente, seu corpo ainda lembrava.
â Hora da lição de vida, sua fedelha â disse ele, sua voz trovejando como se viesse das profundezas do inferno.
Liz bufou:
â NĂŁo, obrigada. Eu nĂŁo sou boa com cuidados a idosos. VocĂȘ tem que pedir isso pra Kaina.
Agora, vårios caçadores da Primeiros Passos observavam o embate com interesse, e uma multidão curiosa começava a se formar do lado de fora.
Gark ainda reconhecia a diferença gigantesca entre os nĂveis de força dos dois, mas nĂŁo ia deixar Liz sair impune sem pelo menos acertar um golpe.
O cabo de sua adaga se despedaçou em sua mĂŁo, e sua Ășnica arma caiu no chĂŁo. Mas Gark nĂŁo se importou e deu um passo para frente, se aproximando de Liz.
Foi entĂŁo que uma voz lĂąnguida chamou:
â VocĂȘs ainda estĂŁo nisso? â perguntou Krai. â Olha essa bagunça. JĂĄ resolvemos tudo lĂĄ em cima. EntĂŁo, aqui, Gark, se acalma.
O timing dele era bom demais.
E, para piorar, Gark nem havia notado Krai saindo da sala, mas agora ele descia as escadas junto de Kaina, soltando um suspiro.
Liz, que manteve sua atenção em Gark durante toda a provocação, largou sua postura combativa e saltou para cima de Krai.
â Ei, Krai Baby, o Gark aqui simplesmente nĂŁo quis ouvir a razĂŁo…
â Vamos ter que contratar reparos â continuou Krai.
Enquanto isso, Kaina se aproximava de Gark, visivelmente tensa. Ao ver a expressão de sua oficial, Gark finalmente relaxou. Ele respirou fundo, sentindo a dor pelo corpo todo começar a reaparecer. Não havia nenhum ferimento sério, mas ele suspeitava de algumas fraturas.
Gark franziu a testa, jå temendo um sermão de Kaina, aparentemente, ela tinha completado o objetivo deles enquanto ele e Liz se enfrentavam. De qualquer forma, ele tomou uma decisão: iria treinar até recuperar a forma. Nunca mais deixaria uma caçadora pirralha ridicularizå-lo daquele jeito.
Os Grievers tinham muitos inimigos: isso se devia, em grande parte, ao fato de Luke e Liz iniciarem brigas por onde passavam. Eles eram capazes de viajar dias sĂł para desafiar um mestre espadachim ou exterminar um grupo de bandidos que tivesse derrotado um batalhĂŁo de cavaleiros. NĂŁo era difĂcil imaginar o quanto eram um incĂŽmodo, jĂĄ que nĂŁo se curvavam a ninguĂ©m. Nossa reputação jĂĄ nĂŁo era das melhores, mas, se nĂŁo fosse pelo apreço geral dos caçadores por força, provavelmente jĂĄ terĂamos sido expulsos da capital por causar tanta confusĂŁo.
Com um nome de grupo tão sinistro, também éramos alvos ocasionais de ataques por sermos confundidos com bandidos ou com um grupo fantasma, caçadores que aceitavam missÔes não exatamente legais. Esses mal-entendidos eram mais raros na capital agora, mas os outros Grievers ainda diziam que passavam por isso ao viajar para regiÔes mais afastadas.
â O tempo Ă© cruel, nĂŁo Ă©? Gark caiu muito â disse Liz, andando ao meu lado. Mas nĂŁo havia zombaria em sua voz. Ela pode ter provocado ele para fazĂȘ-lo explodir de raiva, mas agora parecia quase decepcionada por ter perdido um rival Ă altura.
â NĂŁo acho que ele tenha decaĂdo â eu disse. â NĂŁo Ă© justo comparĂĄ-lo com vocĂȘ, que ainda estĂĄ na ativa.
â Sim, senhor.
Gark definitivamente nĂŁo era fraco. Eu jĂĄ o tinha visto apartar brigas de caçadores bĂȘbados, espancando ambos os lados, e seu rosto continuava assustador como sempre. Mas era inevitĂĄvel que um caçador perdesse força depois de se afastar dos cofres, atĂ© mesmo Liz, com toda sua confiança, um dia perderia parte de sua força.
Esse era um dos motivos pelos quais muitos caçadores se mudavam ao se aposentar. A maioria dos caçadores de tesouros que também trabalhavam como mercenårios ou caçadores de recompensas acumulava inimigos ao longo da carreira. Enquanto estivessem fortes, isso não era um problema, mas o que aconteceria conforme perdessem a força? Eles não podiam correr o risco de serem atacados por velhas rixas quando estivessem vulneråveis.
Mas alguém como Liz nunca recuaria de uma luta. Enquanto o restante dos Grievers não tinha planos de se aposentar tão cedo, eu jå vinha pesquisando alguns lugares para onde gostaria de me mudar quando chegasse minha hora.
EntĂŁo, mais uma vez, percebi que Gark parecia furioso demais para ter recebido apenas uma provocação de Liz. Eu achava que ele jĂĄ estava acostumado com o jeito impossĂvel dela, mas talvez tenha chegado ao seu limite. Gark tambĂ©m tinha um lado competitivo, talvez ele estivesse indo para um cofre neste exato momento.
Liz e eu continuamos andando pelas ruas da capital, conversando enquanto caminhĂĄvamos. Apesar da aparente turbulĂȘncia que assolava a Associação, a cidade em si parecia tĂŁo pacĂfica quanto sempre fora. No meio daquela tranquilidade, a roupa reveladora de Liz contrastava com suas botas metĂĄlicas e chamava muita atenção. Mas, como sempre, ela parecia completamente indiferente aos olhares e estava perfeitamente Ă vontade. Se ao menos ela fosse sempre tĂŁo tranquila assim.
EstĂĄvamos discutindo sobre a Ășltima caça ao tesouro dos Grievers no PalĂĄcio da Noite. Alguns cofres raramente eram explorados pelos caçadores por diversos motivos: localização difĂcil, terreno complicado, fantasmas poderosos, relĂquias muito especĂficas, e assim por diante. Com o tempo, o acĂșmulo excessivo de mana nesses cofres os tornava extremamente perigosos. O PalĂĄcio da Noite era um desses casos, um castelo de nĂvel 8 protegido por uma grande variedade de fantasmas. Aparentemente, ele era baseado em mitologia, o que explicava a diversidade de criaturas. No entanto, a dificuldade de se preparar para enfrentar tantos monstros desafiadores e sua localização remota faziam com que o cofre fosse ainda mais evitado do que a Toca do Lobo Branco. Enquanto a Toca era ignorada por nĂŁo ser lucrativa, o PalĂĄcio da Noite era temido por sua dificuldade.
Nenhum caçador tinha conseguido explorĂĄ-lo com sucesso, e praticamente nĂŁo havia informaçÔes sobre o lugar. Alguns caçadores, atraĂdos pelos rumores sobre suas relĂquias, chegaram a ir atĂ© lĂĄ, mas desistiram sĂł de olhar para o cofre de longe.
Fiquei apavorado quando os outros Grievers mencionaram o PalĂĄcio da Noite como seu prĂłximo alvo, mas nĂŁo tive coragem de impedir seu caminho rumo Ă glĂłria. Eu era o lĂder do grupo, entĂŁo a decisĂŁo final era minha. Talvez eles nĂŁo tivessem ido se eu tivesse tentado impedi-los, mas como eu poderia sabotar sua busca por heroĂsmo? AlĂ©m disso, Liz voltou sĂŁo e salva, provando que fiz a escolha certa ao deixĂĄ-los ir.
Liz contou suas aventuras com mais empolgação do que o normal, mencionando uma impressionante variedade de fantasmas. Eu reconheci os mais famosos, como dragÔes e grifos, mas alguns nomes não significavam nada para mim. Squonks? Jaculis? Que tipo de criaturas eram essas?
â Sitri disse que eles podem ter vindo da lenda do Lorde Sombrio Graps. Havia muitos fantasmas humanĂłides inteligentes tambĂ©m, entĂŁo parecia uma mistura de lendas. Eu nĂŁo esperava nada tĂŁo grandioso, jĂĄ que estĂĄvamos dentro de um castelo, mas havia uma fenda no espaço-tempo…
â SĂ©rio? Eles eram fortes? â perguntei, segurando a enxurrada de perguntas que queria fazer.
O Lorde Sombrio Graps era um tirano que supostamente governou o continente hĂĄ milhares de anos. Segundo a lenda, ele controlava inĂșmeras bestas e criava criaturas proibidas por meio de rituais sombrios. Isso aconteceu muito antes do impĂ©rio ser estabelecido, mas sua influĂȘncia ainda era visĂvel nos fantasmas que lembravam seus servos e que apareciam em cofres por todo o continente. Resumindo, ele nĂŁo era muito querido pelos caçadores.
Liz tocou os lĂĄbios pensativa, depois abriu um sorriso e disse:
â Hummm… Os mais fortes que jĂĄ enfrentamos? Acho que fazem jus ao nĂvel 8. As bestas de Graps sĂŁo difĂceis de lidar, aposto que eram muito mais fortes do que as dos contos. Ataques fĂsicos quase nĂŁo surtem efeito contra elas, e elas andam em hordas… Para ser sincera, eu jĂĄ estava ficando de saco cheio delas. Pelo menos conseguimos fugir.
EntĂŁo por que vocĂȘ parece tĂŁo feliz com isso?
Eu nĂŁo conseguia imaginar o quĂŁo perigoso um fantasma deveria ser para atĂ© mesmo Liz, cuja força jĂĄ era incompreensĂvel para mim, dizer que estava cansada dele. Ela era capaz de pegar balas no ar e ainda assim teve dificuldades contra eles?
â Como eles se comparam ao chefe da Toca do Lobo Branco? â perguntei.
Aquele cavaleiro lobo com um crĂąnio humano se destacava mesmo no cofre revitalizado, conseguindo deter um grupo liderado por um caçador experiente de nĂvel 5. Eu nĂŁo o enfrentei diretamente, jĂĄ que Liz chegou bem a tempo de me salvar, mas sĂł de lembrar daqueles olhos brilhando atravĂ©s da mĂĄscara de crĂąnio eu jĂĄ sentia vontade de me aposentar.
Liz parou de andar e franziu a testa, refletindo por mais de dez segundos antes de dizer, meio sem graça:
â Tinha um chefe?
â Ah. Verdade.
â Desculpa, desculpa! Eu acredito em vocĂȘ, Krai Baby. Se vocĂȘ diz que tinha um, entĂŁo devia ter. Ă sĂł que… nĂŁo lembro muito bem do lixo que tinha lĂĄ dentro. SĂł lembro do quĂŁo patĂ©tico o T foi e de algumas peças de lixo que nĂŁo sabiam o seu lugar.
Comparado aos fantasmas de nĂvel 8, atĂ© mesmo aquele chefe nĂŁo valia a pena ser lembrado, aparentemente. Pelo visto, nunca mais haveria uma caçada em que eu pudesse acompanhar os Grievers. Eu nĂŁo estava chateado com isso, nem arrependido de ter criado um clĂŁ e me afastado das caçadas. Mas sentia um leve pesar ao perceber que a diferença entre nossas avaliaçÔes de cofres e fantasmas havia se tornado tĂŁo grande.
Liz percebeu minha expressĂŁo e segurou minha mĂŁo.
â Mas sabe! Esses lixos vĂȘm com todo tipo de arma. Seriam Ăłtimos para o treinamento do T! Eu queria que eles tivessem ataques nĂŁo fĂsicos tambĂ©m, mas nĂŁo acha que seriam Ășteis para ela?
â Aham. â Eu realmente nĂŁo me importava com isso.
â Certo? Vou levar ela lĂĄ da prĂłxima vez. Quando vocĂȘ treina com humanos, eles sempre pegam leve. NĂŁo Ă© um treino de verdade se sua vida nĂŁo estiver em jogo, nĂ©?
Droga. Eu devia ter discordado. Agora a Tino estava condenada a uma série de treinos de vida ou morte. Vou ter que compensar isso levando ela para tomar um sorvete algum dia.
Com Liz me guiando, caminhar pela cidade de mĂŁos dadas me fez relaxar pela primeira vez em um bom tempo, devĂamos parecer um casal comum.
Liz era uma caçadora feroz e curiosa, que amava lutar. Mas sempre que saĂa comigo, preferia lugares tĂpicos para passeios: lojas de roupas, joalherias e cafĂ©s. Ela nĂŁo gostava de ir a bares, lojas de armas e nem mesmo de pescar atacantes caminhando por becos abandonados. Eu suspeitava que atĂ© mesmo Liz se cansava do estresse dos treinos e das incursĂ”es em cofres de tesouro de vez em quando. Talvez essa fosse a forma dela de recarregar as energias.
Quando os Grieving Souls saĂam para caçar, nĂłs dividĂamos os lucros igualmente entre os membros, depois de descontar os custos dos suprimentos. Mas como Liz raramente queria muitas coisas, ela era cheia da grana, diferente de mim, que sempre torrava minha parte em RelĂquias.
Liz usava uma pequena bolsa de couro presa ao cinto, que servia como carteira, e estava abarrotada de moedas. Sua bolsa cheia contrastava fortemente com a minha carteira. A minha sĂł continha cinco medalhĂ”es de ouro imperial (equivalentes a quinhentos mil gild), que a Eva me deu para emergĂȘncias, e meros dez mil gild do meu prĂłprio dinheiro.
Era meio refrescante ver Liz comprando roupas e joias caras. O Ășnico problema era que eu sempre hesitava em responder quando ela perguntava se alguma roupa ficava bem nela. No fim das contas, nĂŁo era tĂŁo ruim. Eu nĂŁo entendia nada sobre as roupas caras que ela escolhia, mas todas pareciam Ăłtimas nela. Eu queria poder comprar algumas para ela, mas sĂł se houvesse dois zeros a menos no preço… Eu nĂŁo poderia muito bem usar o fundo de emergĂȘncia do clĂŁ, poderia?
Durante nosso passeio, fiquei atento a qualquer sinal do Slime Sitri, mas nĂŁo havia nenhum indĂcio dele. As pessoas comentavam sobre a estrada ao norte estar fechada, mas, considerando a linha do tempo, as mudanças no cofre e o aparecimento dos fantasmas na estrada aconteceram antes de eu perder o slime, nĂŁo havia como isso ter sido culpa minha.
â O que foi, Krai Baby? VocĂȘ parece meio abatido â disse Liz, preocupada, embora eu achasse que nĂŁo estava demonstrando meu medo.
Me senti mal por estar deixando todos preocupados comigo. EntĂŁo, depois de alguns momentos, perguntei com cautela:
â Liz, se, hipoteticamente, toda Zebrudia desmoronasse, o que vocĂȘ faria?
Liz poderia ter encarado a pergunta como uma piada, mas respondeu rapidamente sem questionar:
â IrĂamos fugir juntos.
Bom, nĂŁo podĂamos fazer isso.
â Talvez para algum lugar tropical. Eu adoraria ver o oceano. Nunca vi.
Ela parecia muito otimista para alguĂ©m falando do possĂvel fim do impĂ©rio. Ainda assim, ver Liz sonhando com uma viagem tropical aliviou um pouco do meu estresse.
Eu faria o que pudesse. Mas se isso nĂŁo fosse o suficiente, talvez fugir como Liz sugeriu nĂŁo fosse uma mĂĄ ideia. Ver o oceano nĂŁo parecia tĂŁo ruim.
â VocĂȘ nĂŁo pode correr debaixo d’ĂĄgua, sabia? â comentei.
â Como vocĂȘ sabe?
FĂĄcil. Leis da fĂsica.
â Dizem que existem cofres no fundo do mar â continuou Liz. â Devem ser lindos. Vou ter que descobrir como respirar debaixo d’ĂĄgua. Ooh, e eu adoraria voar acima das nuvens tambĂ©m! A capital Ă© um lugar conveniente para viver, mas depois de tantos anos… sabe como Ă©.
Ela falava como se estivesse planejando férias.
Enquanto continuåvamos andando pela rua, com Liz falando e eu apenas assentindo, de repente sua expressão ficou tensa. Antes que eu percebesse, ela soltou meu braço. Quando ouvi o som das sacolas de compras batendo no chão, ela jå estava imobilizando um homem alguns metros à frente. Ela segurava o pulso dele com uma das mãos e pressionava as costas dele com o pé, uma imobilização perfeita. Eu estava andando ao lado dela e nem consegui acompanhar o momento exato em que ela derrubou o cara; duvido que ele mesmo soubesse o que o atingiu.
O infeliz soltava gemidos de dor. Ele era um homem barbudo, da minha altura, vestindo um casaco marrom; não parecia nada notåvel e definitivamente não tinha cara de caçador.
Fiquei ali, parado por um segundo, antes de correr até eles. Agredir um civil era um problema sério, ainda mais quando o ataque era injustificado. Apesar da natureza violenta de Liz, fazia um bom tempo que ela não atacava alguém que não fosse um caçador. Justo quando eu achava que ela estava ficando mais razoåvel, ela apronta isso?
â O-O que vocĂȘ tĂĄ fazendo, Liz? â perguntei, pĂĄlido de medo, sem dĂșvidas.
Os transeuntes apressavam o passo, constrangidos. Era só questão de tempo até os guardas aparecerem.
à beira de quebrar o braço do homem, Liz manteve a pegada firme, sem tirar os olhos dele. Com um olhar frio, ela pressionou ainda mais o pé contra as costas dele. O sujeito se debatia, mas o aperto dela nem sequer cedia.

â Ele estava nos encarando â disse Liz.
E daĂ?
Eu dificilmente achava que um simples olhar merecia ser retribuĂdo com um ataque tĂŁo impiedoso. Com a personalidade vibrante de Liz chamando bastante atenção, eu jĂĄ vinha notando muitos olhares ao longo do nosso passeio. O que tornava o olhar desse homem tĂŁo ofensivo para ela?
O homem soltou outro gemido agonizante, então peguei o braço de Liz e o afastei do dele.
â Uh, que tal começarmos soltando ele? Tudo bem?
O homem se sentou e tossiu enquanto Liz saĂa de cima dele, nos olhando com medo nos olhos. Ele realmente parecia um cidadĂŁo comum de meia-idade, com um fĂsico normal, sem cicatrizes ou armas, apenas mais um sujeito cumpridor da lei. JĂĄ a ação de Liz estava longe de ser algo dentro da lei. Por mais permissiva que fosse a administração da capital com os caçadores, eles nĂŁo chegavam ao ponto de permitir que atacassem civis impunemente.
Estendi a mĂŁo para ajudĂĄ-lo a se levantar e disse:
â E-eu sinto muito; ela tem problemas mentais. VocĂȘ estĂĄ machucado?
O cidadĂŁo atacado ignorou minha mĂŁo e fugiu em disparada, com a marca da bota de Liz ainda em suas costas, soltando um grito curto antes de sumir. AtrĂĄs dele, Liz franziu a testa enquanto ele corria.
EntĂŁo ele nĂŁo se machucou. Que alĂvio. Bem, nĂŁo exatamente. Nunca dava para saber o que poderia acionar o gatilho de Liz, e isso nĂŁo fazia nada bem para o meu coração.
E agora? O que nessa interação te irritou?
AtĂ© o momento, Liz tinha se comportado de forma (relativamente) aceitĂĄvel. Mas eu precisava nos tirar dali antes que uma multidĂŁo se formasse e me encarasse com aquela expressĂŁo familiar que dizia “VocĂȘ de novo?”
Enquanto eu me remoĂa querendo sair logo, Liz permaneceu imĂłvel em contemplação, entĂŁo inclinou a cabeça e disse:
â Espera aĂ. VocĂȘ estava enrolando ele.
Enrolando ele? Do que diabos ela estava falando?
Eu nĂŁo podia me dar ao luxo de me importar com cada olhar que recebia; nĂŁo era como se estivessem me machucando de verdade. O que Liz esperava ao usar botas RelĂquias que podiam ser vistas do outro lado da capital?
â VocĂȘ vai levar uma bronca depois, Liz â falei.
â VocĂȘ Ă© bom demais atuando! â respondeu ela, voltando ao seu humor animado. â Eu nem percebi, e eu geralmente sou boa nessas coisas. Vou prestar mais atenção da prĂłxima vez.
Navegar pela capital era tĂŁo natural quanto passear pelo prĂłprio quintal para aquele homem. Ele conhecia cada caminho, desde as avenidas mais movimentadas atĂ© os becos mais escuros que a maioria dos cidadĂŁos cumpridores da lei evitava. Mas agora, enquanto corria com todas as suas forças como uma presa fugindo de um predador supremo, nĂŁo havia espaço para pensamentos. Seu cĂ©rebro, privado de oxigĂȘnio, estava marcado pela imagem daqueles olhos gĂ©lidos que se fixaram nele; nenhum pedestre ousava ficar no seu caminho ao ver sua expressĂŁo.
SĂł depois de correr por meia hora o homem se virou, com os ombros subindo e descendo a cada respiração ofegante, para confirmar que nĂŁo havia sido seguido. Ele havia chegado diante de um prĂ©dio decadente no âdistrito em ruĂnasâ, o bairro mais deteriorado e tomado pelo crime na parte sudoeste da capital. Ele sabia que nĂŁo teria chegado tĂŁo longe se sua agressora realmente quisesse impedi-lo. Na verdade, nunca teria escapado de seu aperto em primeiro lugar se ela realmente quisesse mantĂȘ-lo ali. Por mais esguios que fossem seus membros, pareciam um par de tenazes que o prenderam da maneira mais eficiente possĂvel; a sensação era de estar amarrado da cabeça aos pĂ©s.
Um feixe de luz empoeirada atravessou o beco e iluminou sua visão, agora embaçada pelo esforço, enquanto ele recuperava a compostura.
â O que… acabou de acontecer…? â Sem fĂŽlego, ele apertou os braços, que tremiam sem parar.
Ele nĂŁo havia entrado nessa missĂŁo contra um Caçador de NĂvel 8 e um de NĂvel 6 de forma descuidada. Tinha certeza de que nĂŁo havia feito nada que traĂsse sua identidade. Seus alvos jĂĄ estavam atraindo muita atenção nas ruas lotadas, nĂŁo havia como distinguir seu olhar do de qualquer outra pessoa, jĂĄ que ele nem mesmo havia feito qualquer movimento contra eles.
O Ășnico objetivo do homem, que nĂŁo era um Caçador, era observĂĄ-los, com a maior prioridade sendo evitar ser detectado. Ele estava confiante em sua habilidade para isso. Tinha se vestido e agido de maneira discreta, seguido o casal a uma distĂąncia segura sem encarĂĄ-los por muito tempo nem demonstrar qualquer hostilidade; atĂ© mesmo se certificou de sempre permanecer em seus pontos cegos. Como alguĂ©m mestre em tĂ©cnicas de LadrĂŁo, ele havia tomado todas as precauçÔes perfeitamente. A verdade era que ele nem sequer suspeitou que havia sido notado, atĂ© que seu rosto estava no chĂŁo.
Segurando o braço, que ainda pulsava de dor por causa da detenção, o homem controlou sua respiração. Por mais que quisesse colocar isso na conta do azar, nĂŁo havia como negar que sua cobertura foi comprometida pela Sombra Partida. A questĂŁo era: “Por que o Mil Truques o soltou depois de todo o trabalho para capturĂĄ-lo?” Ele nĂŁo conseguia entender por que o haviam deixado ir sem mais nem menos. Se era essa a intenção deles, entĂŁo nĂŁo havia razĂŁo para a detenção feita pela companheira do Mil Truques. Mais ainda, o Caçador de NĂvel 8 lhe deu um pedido de desculpas obviamente falso. Embora o homem jamais revelasse informaçÔes mesmo sob tortura, o fato de ter sido libertado o deixava inquieto.
Isso foi um aviso? Droga! O quanto ele sabe?
Ele rangeu os dentes. Era inconcebĂvel que informaçÔes sobre a organização tivessem vazado, o plano era perfeito, ou assim parecia.
Quando Noctus Cochlear ordenou que ele vigiasse o Mil Truques, ele achou que o cientista estava sendo excessivamente cauteloso. Mas agora a imagem do rosto jovem daquele Caçador voltou à sua mente, fazendo-o tremer mais uma vez.
Atrås daquele prédio, o homem permaneceu até o anoitecer cair sobre a cidade.
O Covil do Lobo Branco acabou. Pior ainda, ele sabe sobre nĂłs, pensou.
Independentemente do que o Mil Truques fariam com essa informação, a situação da organização não poderia estar pior. Ele teria que avisar a equipe de que precisariam mudar seus planos.
Nenhuma alma testemunhou o homem cambaleando para dentro do beco escurecido.
Tradução: Carpeado
Para estas e outras obras, visite Canal no Discord do Carpeado â Clicando Aqui
Tradução feita por fãs.
Apoie o autor comprando a obra original.
Publicar comentĂĄrio