Grieving Soul – Capítulo 2 – Volume 2

Nageki no Bourei wa Intai shitai
Let This Grieving Soul Retire Volume 02

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CapĂ­tulo 02:
[Um Pesadelo Persistente]


Tive um pesadelo.

Sonhei que a capital estava em chamas; sonhei que era o fim do mundo.

O cĂ©u ardia em um vermelho profundo, e o que o acompanhava era uma cacofonia de gritos. Caçadores, cavaleiros, mercadores e outros moradores corriam desesperados por suas vidas. As ruas largas ficaram abarrotadas de gente tentando fugir da cidade, apenas para serem encurraladas pelas muralhas que deveriam protegĂȘ-las. A capital, Zebrudia, era cercada por muralhas, mas suas saĂ­das eram poucas e estreitas demais para a população. A evacuação estagnou Ă  medida que as pessoas se amontoavam nos portĂ”es.

Eu assistia a tudo de um cĂŽmodo vazio, em algum lugar bem acima do escritĂłrio do mestre do clĂŁ. De um ponto de vista elevado, eu conseguia ver claramente o estado da capital e a razĂŁo do cĂ©u arder em chamas. A histĂłrica capital imperial de Zebrudia, que estava se aproximando do seu tricentĂ©simo aniversĂĄrio,  estava submersa em uma ĂĄgua que brilhava em um vermelho intenso.

O líquido viscoso engolfava a cidade meticulosamente planejada como se fosse um tsunami, mesmo sem haver um mar próximo. Além disso, de onde eu estava, dava para ver que o líquido se movia de forma estranha: ele estava perseguindo seres vivos. Dava prioridade a crianças e idosos em fuga, bem como aos cavaleiros que tentavam manter a ordem na multidão. Sem exceção, todos que eram tocados pelo líquido eram envoltos por chamas e consumidos em questão de segundos.

NĂŁo havia mais sinal de vida no castelo ao longe. Metade da cidade jĂĄ tinha virado uma cidade fantasma. Uma cidade com todas as suas estruturas intactas, mas completamente desprovida de vida, nem sequer um corpo, era um pressĂĄgio sinistro. Talvez ainda houvesse sobreviventes dentro dos edifĂ­cios, mas fugir da cidade com as ruas tomadas por essa ĂĄgua em chamas era simplesmente impossĂ­vel.

A enchente ardente não mostrava sinais de recuar. Pelo contrårio, parecia subir cada vez mais. Logo, aquela maré incandescente transbordaria os muros da cidade e engoliria o mundo inteiro.

Foi entĂŁo que percebi o que estava devastando a cidade. Eu conhecia aquilo.

Aquilo nĂŁo era ĂĄgua. Aquilo era uma criatura.

Era uma criação insana baseada na espécie mais fraca de monstros deste mundo, a coisa que eu tinha sido avisado para lidar com cuidado, mas que (talvez) eu tivesse libertado por acidente.

Uma garota estava ao meu lado, observando a cidade assim como eu. Seus olhos levemente caĂ­dos transmitiam uma impressĂŁo gentil, e seu rosto era emoldurado por cabelos curtos e rosados. Ela usava uma tĂșnica cinza sem qualquer detalhe chamativo, mais parecendo um avental do que um dos trajes encantados que os Magos usavam ao explorar cofres de tesouro.

A garota olhou para cima com os olhos arregalados, como se só agora tivesse percebido minha presença. Apesar do apocalipse que se desenrolava abaixo, sua expressão estava relaxada.

Ela falou como se estivéssemos apenas batendo papo, mas sua voz era tão distorcida que eu não conseguia entender nada do que dizia. Ainda assim, seus olhos brilhavam de empolgação.

Tentei desesperadamente impedi-la, mas minha voz falhou. A angĂșstia e o desespero tomaram conta de mim. Agarrei seus ombros, mas tudo o que ela fez foi me lançar um sorriso tĂ­mido antes de me abraçar.

Isso nĂŁo foi um elogio!

Segurei-a pelos ombros e a afastei de mim. Com todas as forças, a sacudi enquanto ela assistia ao seu slime com enorme satisfação—

EntĂŁo, acordei.

Me levantei de um pulo na cama, no meio de um quarto escuro, sentindo meu corpo inteiro estremecer. Meu dorso estava encharcado de suor frio, e meu coração martelava dentro do peito. Pesadelos eram comuns para um neurótico como eu. Mas esse
 esse foi o pior em muito tempo.

Que sonho horrível. E foi tão realista, principalmente a parte em que ela me abraçou.

Respirando fundo e devagar, tentei me lembrar de que a capital nĂŁo cairia tĂŁo fĂĄcil assim. Zebrudia era um impĂ©rio poderoso, com uma ordem de cavaleiros invicta, uma unidade mĂĄgica com centenas de Magos e uma legiĂŁo de caçadores poderosos, tanto ativos quanto aposentados, baseados na capital. AlĂ©m da sua força militar, o impĂ©rio tambĂ©m liderava o mundo em pesquisa e tecnologia, sendo a superpotĂȘncia indiscutĂ­vel da regiĂŁo. Cercada por uma rede de cofres de tesouro perigosos, a capital era, sem dĂșvidas, a cidade mais bem protegida do mundo. Nenhum paĂ­s vizinho teria como lidar com uma calamidade capaz de destruir o coração do impĂ©rio.

O que significa que, se isso realmente acontecesse
 estaríamos todos ferrados.

Tentei balançar a cabeça para espantar as lembranças do pesadelo, mas, por algum motivo, elas estavam mais vívidas do que o normal.

— Não tem como isso acontecer. Nunca tive um sonho que virou realidade antes.

— O que foi? — chamou uma voz sonolenta à minha esquerda.

Achei que estava sozinho.

Me virei para a direção da voz e encontrei Liz sentada ali, como se aquela cama fosse dela. NĂŁo pude evitar franzir a testa ao ver alguĂ©m que se parecia tanto com Sitri, a garota do meu pesadelo. Afinal, elas eram irmĂŁs. E apesar de terem vĂĄrias diferenças, como o comprimento do cabelo, o formato dos olhos, a altura, o tamanho dos seios e atĂ© o tom de pele, se realmente quisessem, poderiam se passar uma pela outra e eu sabia disso por experiĂȘncia prĂłpria.

Liz me lançou um sorriso sem vergonha e disse:

— Bom dia, Krai Baby. Sonhou comigo?

Ela se espreguiçou dentro de sua camisola fina e folgada e se agarrou ao meu braço, enquanto meu coração ainda batia acelerado. A temperatura do seu corpo era bem mais alta que a minha, então seu abraço só me fez suar ainda mais.

Identifiquei a fonte do meu pesadelo: ela com certeza nĂŁo estava aqui quando fui dormir.

Liz sempre teve essa mania irritante de invadir minha cama. Pensei em reclamar, mas falar do pesadelo nĂŁo parecia algo muito produtivo.

Enquanto eu ficava em silĂȘncio, as pernas dela se enroscaram nas minhas, e entĂŁo senti uma sensação gelada quando sua tornozeleira tocou minha pele. Era a Apex Roots, a RelĂ­quia de Liz, em seu modo inativo. Sua RelĂ­quia era uma bota mĂĄgica que, quando nĂŁo usada, se transformava em um anel de metal. Liz dizia que seu lema era “nunca pare de lutar”, entĂŁo ela usava sua RelĂ­quia o tempo todo, no banho, enquanto dormia, sempre. SĂł o tirava por pouquĂ­ssimos momentos do dia.

Um doce perfume vindo da Liz me fez cócegas no nariz. Seus braços abraçavam os meus, seus seios pressionavam contra mim, e suas pernas esguias se esfregavam na minha pele quente. O prazer sutil dessa sensação provocava algo no fundo da minha mente. Por um segundo, quase parecia que ela era uma garota sofisticada ou algo assim. Pena que seu hobby era destruir os homens que caíam nessa armadilha.

Enquanto eu tentava controlar minha respiração, Liz sussurrou no meu ouvido:

— Quer sair comigo hoje, Krai Baby?

— E o treino da Tino?

— Bom, se eu forçar demais, ela pode quebrar. EntĂŁo hoje Ă© folga pra ela.

— E o seu treino? — perguntei.

Liz jå havia dominado todos os ensinamentos de sua mentora e herdado o título de Sombra Partida, mas ela era uma trabalhadora incansåvel. Normalmente, ficava ocupada na capital treinando com Tino e se dedicando ao próprio aperfeiçoamento.

Ela sorriu de um jeito bobo.

— Hoje tambĂ©m Ă© meu dia de folga!

Ela tinha certeza? Bem, nĂŁo era meu lugar contestar.

Eu não sabia quais eram seus planos, mas me sentia seguro saindo do prédio com ela como minha guarda-costas. Não que eu tivesse algo melhor para fazer, de qualquer forma. E não era a primeira vez que ela me arrastava para dar uma volta pela cidade.

Desde que parei de explorar cofres com o resto do grupo, comecei a sair mais com ela. Ser um bom lĂ­der de equipe significava passar tempo com seus companheiros fora do trabalho tambĂ©m. Bem, no meu caso, era a Ășnica opção. EntĂŁo, eu nĂŁo queria decepcionar Liz quando ela chamava. AlĂ©m disso, pelo menos quando estĂĄvamos passeando, nĂŁo havia risco dela enlouquecer de repente.

Resolvi afastar aquele pesadelo infundado da minha mente. Era só isso: um pesadelo. Um fruto do aviso desnecessariamente enigmåtico de Sitri, somado ao fato de Liz praticamente me sufocar. Sério, o que eu poderia fazer em relação a isso?

— Certo, eu ando com vocĂȘ — respondi.

Liz soltou um gritinho e enterrou o rosto no meu peito.

— Obrigada, Krai Baby!

Acariciando a cabeça da minha amiga exageradamente carinhosa, soltei um suspiro discreto.

Vesti-me e desci para o térreo da casa do clã com Liz, justamente quando um rosto familiar entrou pela porta da frente.

Lå estava ele: um gigante careca que qualquer caçador da capital reconheceria à primeira vista, Gark. Ele vestia o uniforme da Associação, e aquilo não poderia lhe cair pior.

Ele me avistou na hora.

Tive que fazer um esforço consciente para esconder minha apreensĂŁo. Pela minha experiĂȘncia, quando Gark batia Ă  minha porta, significava uma de trĂȘs coisas: algum grande problema estava surgindo, eu havia cometido um erro terrĂ­vel, ou aquele era um pĂ©ssimo momento para recusar seu chamado. Nenhuma dessas opçÔes era exatamente uma boa notĂ­cia para mim. Como ele estava acompanhado de Kaina e mais dois oficiais da Associação, com certeza nĂŁo viera apenas para uma conversa amistosa.

— Krai Baby está bem ocupado hoje! — disparou Liz antes que eu pudesse abrir a boca. — Então não perde nosso tempo com qualquer besteira que veio trazer! A gente não vai limpar a bagunça de caçadores fracotes que já deviam ter batido as botas faz tempo. Cai fora.

No rosto dela havia um olhar tão feroz que teria feito a maioria dos monstros recuarem. Um segundo atrås, ela estava perfeitamente tranquila, e agora jå estava pronta para morder antes mesmo de Gark dizer uma palavra. Não importava se Gark era o gerente da associação à qual ela pertencia, ou se fosse um nobre, um cavaleiro, um guerreiro experiente ou alguém que ela conhecesse bem, sua atitude continuaria a mesma.

Liz, embora tivesse escolhido uma roupa toda preta como de costume, vestia algo bem mais casual do que o normal: em vez de seus shorts apertados, usava uma saia, tinha o cabelo solto e não carregava nenhuma arma. No entanto, sua bota prateada Relíquia permanecia nos pés, e ela batia o chão impaciente com ela.

Gark franziu a testa diante da pequena berserker e disse:

— Liz? VocĂȘ nĂŁo devia estar no PalĂĄcio da Noite? JĂĄ te falei para me relatar depois de explorar cofres de nĂ­vel 7 ou superior.

Depois de anos lidando conosco, eles sabiam muito bem como era irritante lidar com Liz de mau humor, e isso ficava claro pelo modo como Kaina e os outros dois oficiais empalideceram. NĂŁo era uma boa hora para discutir.

A Associação dos Exploradores era uma organização gigantesca. E, para manter os caçadores sob controle, muitos de seus oficiais eram ex-caçadores, Gark Welter não era exceção. Na verdade, ele jå havia sido um caçador de nível 7 que devastava cofres com sua fiel alabarda; seu apelido, DemÎnio da Guerra, ainda era sussurrado com temor por aqueles que o conheciam na época. Embora seus dias de glória na linha de frente tivessem ficado para trås, ele ainda conseguia enfrentar a maioria dos caçadores atuais.

Para ser mais especĂ­fico, quando nĂłs, os Grievers, chegamos Ă  capital, Gark, que jĂĄ era gerente do ramo na Ă©poca, nos deu uma surra coletiva. Foi assim que fomos iniciados na caça ao tesouro na capital. Luke e Liz eram relativamente cooperativos com Gark, em parte, por conta dessa experiĂȘncia. Brutos se entendem. Mas isso jĂĄ fazia quase cinco anos.

— VocĂȘs sempre precisam do Krai Baby para carregar vocĂȘs, nĂ©?! A gente paga aquela taxa absurda toda vez. Se virem sozinhos! — Liz continuou a resmungar para Gark.

Para um observador desavisado, uma garotinha (ainda por cima vestida casualmente) tentando intimidar um brutamontes como Gark poderia parecer apenas uma criança fazendo birra. Mas a expressão de Gark permaneceu tensa. Se eu estivesse no lugar dele, meus dentes estariam batendo. Definitivamente, ele tinha coragem.

— Espera. Se vocĂȘ estĂĄ aqui, a Sitri voltou? — perguntou Gark.

— NĂŁo! VocĂȘ estĂĄ atrapalhando o nosso encontro. Some!

Com um Ășnico chute de Liz, Gark voou pelo salĂŁo. Derrapando pelo chĂŁo de mĂĄrmore caro, acabou derrubando alguns vasos de plantas.

Eu só conseguia rir da rapidez absurda com que Liz entrava em brigas. Ela começava lutas mais råpido que qualquer outro caçador ou até mesmo bandidos que jå encontrei.

Gark descruzou os braços que usara para bloquear o golpe e se levantou lentamente. Mérito para ele por praticamente ter ignorado um chute de uma das poucas caçadoras que enfrentavam cofres de nível 8. Mas, apesar de seu movimento controlado, sua expressão havia se transformado em algo demoníaco, lembrando bem seu apelido.

E mais, Gark agora estava pronto para brigar. Ele não teria durado como gerente da Associação se fosse do tipo que aceitava um golpe sem revidar. Então, de seu cinto, ele sacou uma adaga que parecia mais uma espada curta nas mãos de Liz.

— Agora vocĂȘ vai se arrepender, Liz. VocĂȘ finalmente esgotou minha paciĂȘncia imensa.

Como se fosse imensa. Ela jå era fina como papel desde o começo.

Liz curvou os lĂĄbios, os olhos brilhando em desafio, enquanto sua pele bronzeada ficava ainda mais avermelhada. Eu mal tinha conseguido apagar o incĂȘndio, e agora as chamas estavam rugindo de novo.

Por que vocĂȘs sĂŁo tĂŁo violentos? NĂŁo dĂĄ pra todo mundo se dar bem?

Eles iam destruir a casa do clĂŁ de novo. E adivinha quem ia ter que aturar as broncas da Eva depois? Eu.

Kaina e os outros oficiais pareciam estar tentando encontrar o momento certo para intervir mas esse navio jĂĄ tinha zarpado. PoderĂ­amos ter mil normais como nĂłs do nosso lado e ainda assim nĂŁo terĂ­amos a menor chance de impedir dois malucos de trocarem golpes. Olhando ao redor do saguĂŁo, vi que todos os membros do clĂŁ que estavam ali jĂĄ haviam evacuado.

Virei as costas para os malucos e perguntei aos oficiais da Associação:

— Querem subir e tomar um chá?

Liz estava vestida para um passeio, ou seja, desarmada, e nem queria matar Gark de verdade. Ele provavelmente sobreviveria.


Os sons vindos de baixo continuavam, fazendo o vidro da minha janela tremer.

Estranho. Muitos terremotos hoje, pensei comigo mesmo. Decidi ignorar e continuar minha conversa normal com Kaina e os outros oficiais.

Para falar a verdade, eu sentia que Kaina e eu Ă©ramos almas gĂȘmeas no sentido de que ela tambĂ©m tinha que lidar com um gerente de filial aterrorizante e violento. Por isso, sempre me sentia confortĂĄvel conversando com ela.

— Sua recepcionista Ă© muito fofa — comentei brincando. — Onde encontrou ela? Queria ter uma garota assim na recepção do meu clĂŁ.

Tirei muita inspiração da Associação na hora de estruturar meu clĂŁ. Eva sĂł veio trabalhar comigo porque eu revirei a cidade inteira procurando alguĂ©m como Kaina e supliquei atĂ© ela aceitar. O que a Primeiros Passos precisava agora era de uma recepcionista bonita. A filial da Associação em Zebrudia era famosa por sua recepcionista, que sempre era animada e educada, mesmo com caçadores assustadores ou imundos… ou quando eu aparecia pela milĂ©sima vez para responder uma convocação do Gark. Apostava que essa garota (cujo nome eu nem sabia) era uma peça fundamental para manter a filial funcionando sem problemas. Todos os homens tĂȘm uma fraqueza em comum: garotas fofas. Caçadores nĂŁo eram exceção.

Kaina riu um pouco.

— VocĂȘ quer dizer a Chloe? Ela Ă© sobrinha do Gark.

— Ah — murmurei. — EntĂŁo genĂ©tica Ă© um mito, afinal.

A ideia de que aquela garota simpåtica fazia parte da årvore genealógica do DemÎnio da Guerra era perturbadora. Mas, pensando bem, talvez ela fosse tão boa em lidar com caçadores justamente porque jå tinha bastante pråtica com Gark.

Suspiro. Então eles conseguiram essa recepcionista através de nepotismo.

Depois de quebrarmos o gelo com um pouco de conversa fiada, perguntei a Kaina o motivo da visita deles. Pelo visto, para meu desespero, Gark estava sob a ilusão terrível de que eu tinha alguma informação sobre as mudanças na Toca do Lobo Branco. Mas, infelizmente para ele, eu não sabia de nada. Não tinha feito suposiçÔes e nem planejava fazer, porque dessa vez isso não era culpa minha! Eu só tive um gostinho do novo cofre por puro azar. Mas, como jå tinha concluído a missão na qual fui pressionado a entrar, qualquer pesquisa adicional caía na responsabilidade da Associação e do império.

Gark nĂŁo era o Ășnico, mas ele superestimava minhas habilidades de um jeito absurdo. Eu sĂł tinha chegado ao NĂ­vel 8 por pura sorte. Se parassem para pensar por um segundo, perceberiam que, sem conhecimento Ăștil nem habilidades, nĂŁo havia chance de eu saber mais do que os especialistas do impĂ©rio ou da Associação tinham descoberto com suas pesquisas.

Não. É. Problema. Meu.

— Parece complicado. Então não tem nada a ver com as linhas ley? — comentei preguiçosamente, mas Kaina pareceu surpresa.

Eu sabia que as linhas ley eram como artérias no solo e que qualquer anomalia nelas era inconfundível para um especialista, mas esse era o limite do meu conhecimento, esse tipo de coisa era mais a årea da nossa Alquimista, Sitri.

Os Alquimistas eram considerados uma mistura de Magos e estudiosos: dominavam as leis do universo e as manipulavam para produzir efeitos desejados. Alquimistas eram raros entre aventureiros porque nĂŁo tinham poder de ataque como os Magos, que podiam usar suas vastas reservas de mana interna, e porque precisavam de muito conhecimento, experiĂȘncia e itens raros para atingir seu verdadeiro potencial. Por outro lado, Alquimistas eram extremamente confiĂĄveis em momentos de crise como este.

Sitri se destacava entre seus colegas porque tinha muita experiĂȘncia prĂĄtica mergulhando em cofres do tesouro. E, apesar de ter algumas peculiaridades, tambĂ©m ocupava um cargo no instituto acadĂȘmico do impĂ©rio. Ela, uma Alquimista brilhante que havia ganhado o apelido de “A ProdĂ­gio”, era, sem dĂșvidas, o cĂ©rebro por trĂĄs da Grieving Souls. Apesar disso, era tĂŁo reservada e respeitosa que eu nunca teria imaginado que ela era irmĂŁ da Liz se nĂŁo as conhecesse tĂŁo bem.

Ah, e vale mencionar que gerar criaturas mĂĄgicas como slimes era uma das especialidades de um Alquimista. Pena que ela nĂŁo era tĂŁo boa em mantĂȘ-los seguros.

Mas, infelizmente para nĂłs, ela ainda nĂŁo tinha voltado para a cidade.

— Tem alguma coisa que vocĂȘ tenha notado? — insistiu Kaina.

Sem sorte. O medo de encarar um cofre do tesouro depois de tantos anos e o pĂąnico trazido pela aparição surpresa da Liz me deixaram com pouca memĂłria do lugar, que dirĂĄ de qualquer pista Ăștil. Afundei na cadeira e tentei lembrar dos acontecimentos no cofre, mas nada, se houvesse algo estranho, eu teria percebido.

— Bom, nada demais — respondi. — Passei o dia preocupado com outra coisa…

Droga.

— Outra coisa? — Os olhos castanhos de Kaina me encararam com curiosidade.

Eu estava tão preocupado com o paradeiro daquele Slime da Sitri que não tinha dado a mínima para as mudanças no cofre; até agora, meu pesadelo da noite passada ainda se repetia na minha cabeça. Não que eu tivesse chance de descobrir alguma coisa sobre o estado anormal do cofre se tentasse, mas, se pudesse escolher, preferia procurar aquela maldita gosma do que fazer esse tipo de pesquisa.

— Não pode nos contar? — perguntou Kaina, genuinamente interessada.

Eu preferia morrer a admitir que tinha perdido uma criação da Sitri, logo da Sitri, ainda mais depois de ela me avisar para tomar cuidado com aquilo.

Quer saber? Eu nĂŁo perdi o Slime da Sitri. Isso Ă© sĂł um grande mal-entendido. Estou me enganando Ă  toa, decidi.

Entrelaçando os dedos, encarei minhas mãos de um jeito que parecia que eu estava refletindo profundamente. Um Caçador de Nível 8 carregava muitos segredos consigo.

— NĂŁo posso. NĂŁo agora. Tem ouvidos por toda parte — respondi, tentando despistĂĄ-la. Me senti pĂ©ssimo com isso.

— VocĂȘ quer dizer… — Os oficiais atrĂĄs de Kaina se enrijeceram.

— Não suportava olhar para eles, então me levantei e virei de costas.

Olhe pelo lado bom, pensei. Talvez deixar isso escapar pudesse acabar me beneficiando: poderia ser uma desculpa para recusar o pedido do Gark. Como qualquer atividade irregular em cofres de tesouro afetava toda a comunidade de caçadores, eu estava totalmente disposto a fazer com que a Primeiros Passos cooperasse com os esforços de pesquisa. Mas agora eu poderia me livrar do trabalho pesado, o que significava que não precisaria arriscar minha vida nem minha sanidade no processo. A Associação não perderia tempo interpretando mal meus comentårios desinformados, e passar um tempo com a Liz em vez de focar nessa pesquisa a deixaria satisfeita por um tempo, um arranjo em que todos saíam ganhando.

— Estou meio ocupado no momento — acrescentei —, mas minha guilda estĂĄ Ă  disposição para ajudar. Sei que o Ark Ă© a melhor escolha para o trabalho; assim que ele voltar, pedirei que auxilie na pesquisa.

— Obrigada… pela cooperação — disse Kaina, mantendo o olhar baixo.

Me perdoe, Kaina. NĂŁo hĂĄ nada que eu possa fazer. Meu conhecimento mais especializado se resume a uma lista dos melhores sorvetes da capital.

Quase me sentia mal por ser um Caçador de NĂ­vel 8, mas foram eles que me deram esse ranque em primeiro lugar. AlĂ©m disso, estava oferecendo o Ark como um pedido de desculpas pela minha incompetĂȘncia. Aquele cara brilhante e multitalentoso poderia resolver a maioria dos problemas, eu tinha certeza. Mas sĂł para deixar claro: eu o estava emprestando, ainda precisava dele de volta.

Vendo que os oficiais ainda pareciam desanimados, tentei consolĂĄ-los.

— Não precisam se preocupar tanto. Se não houve mudanças nas linhas de energia, não vai demorar para que tudo volte ao normal.

O fluxo do mana e todos os aspectos ligados a ele (como a evolução dos espectros) eram uma força da natureza. Nós, meros mortais, podíamos fazer muito pouco a respeito.


Gark mal conseguia acreditar que os movimentos da garota nĂŁo eram algum tipo de magia. Sua concentração extrema fazia cada segundo parecer vĂĄrios; mesmo assim, ele nĂŁo conseguia reagir rĂĄpido o suficiente, muito menos desviar dos ataques. Com toda a sua força, ele apenas conseguia bloquear os golpes da Liz por um fio, apesar de ela nĂŁo usar feitiços nem portar armas. Seus Ășnicos meios de ataque eram impulsos e chutes, mas a velocidade era absurda. A maioria dos Ladinos era ĂĄgil, mas, em todos os seus anos como caçador e gerente da filial da Associação, Gark raramente havia visto um caçador tĂŁo veloz.

Sombra Partida era o codinome de um caçador que jå fora conhecido como o Ladino mais råpido da capital. Quando Gark ouviu que Liz havia herdado esse título depois de apenas alguns anos de treinamento, ele riu, incrédulo. Agora, a garota se movia pelo menos tão råpido quanto o antigo Sombra Partida.

Metal deslizou pelo chão, deixando um rastro de fumaça pelo atrito. Liz havia parado bruscamente de sua velocidade måxima num instante.

— Hmm, vocĂȘ amoleceu, Gark — disse ela, sem o menor traço da raiva de antes. — Isso Ă© o que acontece quando vocĂȘ passa o dia todo encostado na mesa.

— AtĂ© parece! — grunhiu Gark, engolindo a reclamação. Eu nĂŁo fiquei mais fraco. VocĂȘ ficou mais forte.

Seu corpo implorava por ar fresco. Escondendo a respiração pesada, Gark lançou um olhar furioso para Liz, que exibia toda a sua falta de respeito.

Embora não fosse sua arma preferida, Gark tinha treinado com a adaga até certo ponto. Mas a lùmina sequer serviu para limitar a mobilidade de Liz, muito menos deixou um arranhão nela. Era como se Liz nem visse a adaga em sua mão. Cada membro de Gark doía ao bloquear os ataques da garota, onde cada golpe parecia chacoalhar seus ossos, apesar de serem desferidos por seus braços finos. Se um golpe direto acertasse, ele poderia ser nocauteado. Gark não podia deixar que uma simples caçadora o humilhasse, mas, mesmo assim, Liz tinha claramente a vantagem.

Enquanto Gark mantinha sua guarda alta, Liz parecia relaxada, como se aquilo não passasse de um simples aquecimento. Ela estava mais forte do que nunca, carregada com a mana material que havia absorvido do Palåcio da Noite, um cofre de nível 8, era a maior quantidade de mana interna que ela jå teve. Em contraste, Gark estava longe dos cofres hå anos. Ele era muito maior que Liz fisicamente (embora seus braços fossem longos para seu porte, Gark ainda tinha um alcance muito superior), mas ela transbordava a energia típica de caçadores åvidos, que nunca paravam de explorar os cofres.

Depois de enfrentå-la, Gark tinha certeza de que não conseguiria acertå-la nem mesmo se aceitasse levar um golpe direto para tentar um contra-ataque: Liz simplesmente sairia do alcance antes que sua lùmina pudesse atingi-la. A diferença de força que antes os separava quando os Grievers chegaram à capital agora estava completamente invertida. Gark jå esperava que os Grievers ficassem dramaticamente mais fortes após explorar cofres de alto nível, mas sentir isso na pele enquanto enfrentava Liz fazia seu coração arder.

Liz bateu as botas no chĂŁo, zombando do DemĂŽnio da Guerra.

— VocĂȘ precisa se exercitar, Gark. Engordou? Qualquer caçador por aĂ­ poderia te vencer desse jeito — disse Liz, olhando para ele como se estivesse diante de um homem Ă  beira da morte.

— Chega! — gritou Gark, rangendo os dentes como se tentasse quebrĂĄ-los. Nem todo caçador na rua Ă© um Griever! ele queria gritar. Eu sei que estou enferrujado, mas ainda estou no nĂ­vel de um caçador nĂ­vel 5!

Ele finalmente chegou ao limite. Por um momento, até considerou um golpe abaixo da cintura: rebaixar Liz de nível. Mas fazer isso por despeito seria um abuso de poder ridículo.

Liz sorriu e disse:

— A porta estĂĄ logo atrĂĄs de vocĂȘ. Fiquei com pena de ver o quanto vocĂȘ ficou fraco, entĂŁo vou deixar vocĂȘ sair andando. Viu? É assim que se espalha gentileza, nĂŁo Ăłdio.

Por um instante, Gark não processou o que Liz disse; no seguinte, só conseguia ver vermelho. A raiva borbulhou em seu estÎmago, uma sensação que não sentia hå tempos, e ele apertou o cabo da adaga até ouvir um estalo.

Gark era um caçador da classe Guerreiro, um mestre em todas as armas. Uma das técnicas que dominava era canalizar sua raiva explosiva em força bruta, uma habilidade que foi crucial para que ele conquistasse seu título. Fazia muito tempo que não a usava, mas, aparentemente, seu corpo ainda lembrava.

— Hora da lição de vida, sua fedelha — disse ele, sua voz trovejando como se viesse das profundezas do inferno.

Liz bufou:

— NĂŁo, obrigada. Eu nĂŁo sou boa com cuidados a idosos. VocĂȘ tem que pedir isso pra Kaina.

Agora, vårios caçadores da Primeiros Passos observavam o embate com interesse, e uma multidão curiosa começava a se formar do lado de fora.

Gark ainda reconhecia a diferença gigantesca entre os níveis de força dos dois, mas não ia deixar Liz sair impune sem pelo menos acertar um golpe.

O cabo de sua adaga se despedaçou em sua mĂŁo, e sua Ășnica arma caiu no chĂŁo. Mas Gark nĂŁo se importou e deu um passo para frente, se aproximando de Liz.

Foi entĂŁo que uma voz lĂąnguida chamou:

— VocĂȘs ainda estĂŁo nisso? — perguntou Krai. — Olha essa bagunça. JĂĄ resolvemos tudo lĂĄ em cima. EntĂŁo, aqui, Gark, se acalma.

O timing dele era bom demais.

E, para piorar, Gark nem havia notado Krai saindo da sala, mas agora ele descia as escadas junto de Kaina, soltando um suspiro.

Liz, que manteve sua atenção em Gark durante toda a provocação, largou sua postura combativa e saltou para cima de Krai.

— Ei, Krai Baby, o Gark aqui simplesmente nĂŁo quis ouvir a razĂŁo…

— Vamos ter que contratar reparos — continuou Krai.

Enquanto isso, Kaina se aproximava de Gark, visivelmente tensa. Ao ver a expressão de sua oficial, Gark finalmente relaxou. Ele respirou fundo, sentindo a dor pelo corpo todo começar a reaparecer. Não havia nenhum ferimento sério, mas ele suspeitava de algumas fraturas.

Gark franziu a testa, jå temendo um sermão de Kaina, aparentemente, ela tinha completado o objetivo deles enquanto ele e Liz se enfrentavam. De qualquer forma, ele tomou uma decisão: iria treinar até recuperar a forma. Nunca mais deixaria uma caçadora pirralha ridicularizå-lo daquele jeito.


Os Grievers tinham muitos inimigos: isso se devia, em grande parte, ao fato de Luke e Liz iniciarem brigas por onde passavam. Eles eram capazes de viajar dias só para desafiar um mestre espadachim ou exterminar um grupo de bandidos que tivesse derrotado um batalhão de cavaleiros. Não era difícil imaginar o quanto eram um incÎmodo, jå que não se curvavam a ninguém. Nossa reputação jå não era das melhores, mas, se não fosse pelo apreço geral dos caçadores por força, provavelmente jå teríamos sido expulsos da capital por causar tanta confusão.

Com um nome de grupo tão sinistro, também éramos alvos ocasionais de ataques por sermos confundidos com bandidos ou com um grupo fantasma, caçadores que aceitavam missÔes não exatamente legais. Esses mal-entendidos eram mais raros na capital agora, mas os outros Grievers ainda diziam que passavam por isso ao viajar para regiÔes mais afastadas.

— O tempo Ă© cruel, nĂŁo Ă©? Gark caiu muito — disse Liz, andando ao meu lado. Mas nĂŁo havia zombaria em sua voz. Ela pode ter provocado ele para fazĂȘ-lo explodir de raiva, mas agora parecia quase decepcionada por ter perdido um rival Ă  altura.

— NĂŁo acho que ele tenha decaĂ­do — eu disse. — NĂŁo Ă© justo comparĂĄ-lo com vocĂȘ, que ainda estĂĄ na ativa.

— Sim, senhor.

Gark definitivamente nĂŁo era fraco. Eu jĂĄ o tinha visto apartar brigas de caçadores bĂȘbados, espancando ambos os lados, e seu rosto continuava assustador como sempre. Mas era inevitĂĄvel que um caçador perdesse força depois de se afastar dos cofres, atĂ© mesmo Liz, com toda sua confiança, um dia perderia parte de sua força.

Esse era um dos motivos pelos quais muitos caçadores se mudavam ao se aposentar. A maioria dos caçadores de tesouros que também trabalhavam como mercenårios ou caçadores de recompensas acumulava inimigos ao longo da carreira. Enquanto estivessem fortes, isso não era um problema, mas o que aconteceria conforme perdessem a força? Eles não podiam correr o risco de serem atacados por velhas rixas quando estivessem vulneråveis.

Mas alguém como Liz nunca recuaria de uma luta. Enquanto o restante dos Grievers não tinha planos de se aposentar tão cedo, eu jå vinha pesquisando alguns lugares para onde gostaria de me mudar quando chegasse minha hora.

Então, mais uma vez, percebi que Gark parecia furioso demais para ter recebido apenas uma provocação de Liz. Eu achava que ele jå estava acostumado com o jeito impossível dela, mas talvez tenha chegado ao seu limite. Gark também tinha um lado competitivo, talvez ele estivesse indo para um cofre neste exato momento.

Liz e eu continuamos andando pelas ruas da capital, conversando enquanto caminhĂĄvamos. Apesar da aparente turbulĂȘncia que assolava a Associação, a cidade em si parecia tĂŁo pacĂ­fica quanto sempre fora. No meio daquela tranquilidade, a roupa reveladora de Liz contrastava com suas botas metĂĄlicas e chamava muita atenção. Mas, como sempre, ela parecia completamente indiferente aos olhares e estava perfeitamente Ă  vontade. Se ao menos ela fosse sempre tĂŁo tranquila assim.

EstĂĄvamos discutindo sobre a Ășltima caça ao tesouro dos Grievers no PalĂĄcio da Noite. Alguns cofres raramente eram explorados pelos caçadores por diversos motivos: localização difĂ­cil, terreno complicado, fantasmas poderosos, relĂ­quias muito especĂ­ficas, e assim por diante. Com o tempo, o acĂșmulo excessivo de mana nesses cofres os tornava extremamente perigosos. O PalĂĄcio da Noite era um desses casos, um castelo de nĂ­vel 8 protegido por uma grande variedade de fantasmas. Aparentemente, ele era baseado em mitologia, o que explicava a diversidade de criaturas. No entanto, a dificuldade de se preparar para enfrentar tantos monstros desafiadores e sua localização remota faziam com que o cofre fosse ainda mais evitado do que a Toca do Lobo Branco. Enquanto a Toca era ignorada por nĂŁo ser lucrativa, o PalĂĄcio da Noite era temido por sua dificuldade.

Nenhum caçador tinha conseguido explorå-lo com sucesso, e praticamente não havia informaçÔes sobre o lugar. Alguns caçadores, atraídos pelos rumores sobre suas relíquias, chegaram a ir até lå, mas desistiram só de olhar para o cofre de longe.

Fiquei apavorado quando os outros Grievers mencionaram o Palåcio da Noite como seu próximo alvo, mas não tive coragem de impedir seu caminho rumo à glória. Eu era o líder do grupo, então a decisão final era minha. Talvez eles não tivessem ido se eu tivesse tentado impedi-los, mas como eu poderia sabotar sua busca por heroísmo? Além disso, Liz voltou são e salva, provando que fiz a escolha certa ao deixå-los ir.

Liz contou suas aventuras com mais empolgação do que o normal, mencionando uma impressionante variedade de fantasmas. Eu reconheci os mais famosos, como dragÔes e grifos, mas alguns nomes não significavam nada para mim. Squonks? Jaculis? Que tipo de criaturas eram essas?

— Sitri disse que eles podem ter vindo da lenda do Lorde Sombrio Graps. Havia muitos fantasmas humanĂłides inteligentes tambĂ©m, entĂŁo parecia uma mistura de lendas. Eu nĂŁo esperava nada tĂŁo grandioso, jĂĄ que estĂĄvamos dentro de um castelo, mas havia uma fenda no espaço-tempo…

— SĂ©rio? Eles eram fortes? — perguntei, segurando a enxurrada de perguntas que queria fazer.

O Lorde Sombrio Graps era um tirano que supostamente governou o continente hĂĄ milhares de anos. Segundo a lenda, ele controlava inĂșmeras bestas e criava criaturas proibidas por meio de rituais sombrios. Isso aconteceu muito antes do impĂ©rio ser estabelecido, mas sua influĂȘncia ainda era visĂ­vel nos fantasmas que lembravam seus servos e que apareciam em cofres por todo o continente. Resumindo, ele nĂŁo era muito querido pelos caçadores.

Liz tocou os lĂĄbios pensativa, depois abriu um sorriso e disse:

— Hummm… Os mais fortes que jĂĄ enfrentamos? Acho que fazem jus ao nĂ­vel 8. As bestas de Graps sĂŁo difĂ­ceis de lidar, aposto que eram muito mais fortes do que as dos contos. Ataques fĂ­sicos quase nĂŁo surtem efeito contra elas, e elas andam em hordas… Para ser sincera, eu jĂĄ estava ficando de saco cheio delas. Pelo menos conseguimos fugir.

EntĂŁo por que vocĂȘ parece tĂŁo feliz com isso?

Eu não conseguia imaginar o quão perigoso um fantasma deveria ser para até mesmo Liz, cuja força jå era incompreensível para mim, dizer que estava cansada dele. Ela era capaz de pegar balas no ar e ainda assim teve dificuldades contra eles?

— Como eles se comparam ao chefe da Toca do Lobo Branco? — perguntei.

Aquele cavaleiro lobo com um crùnio humano se destacava mesmo no cofre revitalizado, conseguindo deter um grupo liderado por um caçador experiente de nível 5. Eu não o enfrentei diretamente, jå que Liz chegou bem a tempo de me salvar, mas só de lembrar daqueles olhos brilhando através da måscara de crùnio eu jå sentia vontade de me aposentar.

Liz parou de andar e franziu a testa, refletindo por mais de dez segundos antes de dizer, meio sem graça:

— Tinha um chefe?

— Ah. Verdade.

— Desculpa, desculpa! Eu acredito em vocĂȘ, Krai Baby. Se vocĂȘ diz que tinha um, entĂŁo devia ter. É sĂł que… nĂŁo lembro muito bem do lixo que tinha lĂĄ dentro. SĂł lembro do quĂŁo patĂ©tico o T foi e de algumas peças de lixo que nĂŁo sabiam o seu lugar.

Comparado aos fantasmas de nível 8, até mesmo aquele chefe não valia a pena ser lembrado, aparentemente. Pelo visto, nunca mais haveria uma caçada em que eu pudesse acompanhar os Grievers. Eu não estava chateado com isso, nem arrependido de ter criado um clã e me afastado das caçadas. Mas sentia um leve pesar ao perceber que a diferença entre nossas avaliaçÔes de cofres e fantasmas havia se tornado tão grande.

Liz percebeu minha expressĂŁo e segurou minha mĂŁo.

— Mas sabe! Esses lixos vĂȘm com todo tipo de arma. Seriam Ăłtimos para o treinamento do T! Eu queria que eles tivessem ataques nĂŁo fĂ­sicos tambĂ©m, mas nĂŁo acha que seriam Ășteis para ela?

— Aham. — Eu realmente não me importava com isso.

— Certo? Vou levar ela lĂĄ da prĂłxima vez. Quando vocĂȘ treina com humanos, eles sempre pegam leve. NĂŁo Ă© um treino de verdade se sua vida nĂŁo estiver em jogo, nĂ©?

Droga. Eu devia ter discordado. Agora a Tino estava condenada a uma série de treinos de vida ou morte. Vou ter que compensar isso levando ela para tomar um sorvete algum dia.

Com Liz me guiando, caminhar pela cidade de mĂŁos dadas me fez relaxar pela primeira vez em um bom tempo, devĂ­amos parecer um casal comum.

Liz era uma caçadora feroz e curiosa, que amava lutar. Mas sempre que saía comigo, preferia lugares típicos para passeios: lojas de roupas, joalherias e cafés. Ela não gostava de ir a bares, lojas de armas e nem mesmo de pescar atacantes caminhando por becos abandonados. Eu suspeitava que até mesmo Liz se cansava do estresse dos treinos e das incursÔes em cofres de tesouro de vez em quando. Talvez essa fosse a forma dela de recarregar as energias.

Quando os Grieving Souls saíam para caçar, nós dividíamos os lucros igualmente entre os membros, depois de descontar os custos dos suprimentos. Mas como Liz raramente queria muitas coisas, ela era cheia da grana, diferente de mim, que sempre torrava minha parte em Relíquias.

Liz usava uma pequena bolsa de couro presa ao cinto, que servia como carteira, e estava abarrotada de moedas. Sua bolsa cheia contrastava fortemente com a minha carteira. A minha sĂł continha cinco medalhĂ”es de ouro imperial (equivalentes a quinhentos mil gild), que a Eva me deu para emergĂȘncias, e meros dez mil gild do meu prĂłprio dinheiro.

Era meio refrescante ver Liz comprando roupas e joias caras. O Ășnico problema era que eu sempre hesitava em responder quando ela perguntava se alguma roupa ficava bem nela. No fim das contas, nĂŁo era tĂŁo ruim. Eu nĂŁo entendia nada sobre as roupas caras que ela escolhia, mas todas pareciam Ăłtimas nela. Eu queria poder comprar algumas para ela, mas sĂł se houvesse dois zeros a menos no preço… Eu nĂŁo poderia muito bem usar o fundo de emergĂȘncia do clĂŁ, poderia?

Durante nosso passeio, fiquei atento a qualquer sinal do Slime Sitri, mas não havia nenhum indício dele. As pessoas comentavam sobre a estrada ao norte estar fechada, mas, considerando a linha do tempo, as mudanças no cofre e o aparecimento dos fantasmas na estrada aconteceram antes de eu perder o slime, não havia como isso ter sido culpa minha.

— O que foi, Krai Baby? VocĂȘ parece meio abatido — disse Liz, preocupada, embora eu achasse que nĂŁo estava demonstrando meu medo.

Me senti mal por estar deixando todos preocupados comigo. EntĂŁo, depois de alguns momentos, perguntei com cautela:

— Liz, se, hipoteticamente, toda Zebrudia desmoronasse, o que vocĂȘ faria?

Liz poderia ter encarado a pergunta como uma piada, mas respondeu rapidamente sem questionar:

— Iríamos fugir juntos.

Bom, nĂŁo podĂ­amos fazer isso.

— Talvez para algum lugar tropical. Eu adoraria ver o oceano. Nunca vi.

Ela parecia muito otimista para alguém falando do possível fim do império. Ainda assim, ver Liz sonhando com uma viagem tropical aliviou um pouco do meu estresse.

Eu faria o que pudesse. Mas se isso nĂŁo fosse o suficiente, talvez fugir como Liz sugeriu nĂŁo fosse uma mĂĄ ideia. Ver o oceano nĂŁo parecia tĂŁo ruim.

— VocĂȘ nĂŁo pode correr debaixo d’ĂĄgua, sabia? — comentei.

— Como vocĂȘ sabe?

FĂĄcil. Leis da fĂ­sica.

— Dizem que existem cofres no fundo do mar — continuou Liz. — Devem ser lindos. Vou ter que descobrir como respirar debaixo d’ĂĄgua. Ooh, e eu adoraria voar acima das nuvens tambĂ©m! A capital Ă© um lugar conveniente para viver, mas depois de tantos anos… sabe como Ă©.

Ela falava como se estivesse planejando férias.

Enquanto continuåvamos andando pela rua, com Liz falando e eu apenas assentindo, de repente sua expressão ficou tensa. Antes que eu percebesse, ela soltou meu braço. Quando ouvi o som das sacolas de compras batendo no chão, ela jå estava imobilizando um homem alguns metros à frente. Ela segurava o pulso dele com uma das mãos e pressionava as costas dele com o pé, uma imobilização perfeita. Eu estava andando ao lado dela e nem consegui acompanhar o momento exato em que ela derrubou o cara; duvido que ele mesmo soubesse o que o atingiu.

O infeliz soltava gemidos de dor. Ele era um homem barbudo, da minha altura, vestindo um casaco marrom; não parecia nada notåvel e definitivamente não tinha cara de caçador.

Fiquei ali, parado por um segundo, antes de correr até eles. Agredir um civil era um problema sério, ainda mais quando o ataque era injustificado. Apesar da natureza violenta de Liz, fazia um bom tempo que ela não atacava alguém que não fosse um caçador. Justo quando eu achava que ela estava ficando mais razoåvel, ela apronta isso?

— O-O que vocĂȘ tĂĄ fazendo, Liz? — perguntei, pĂĄlido de medo, sem dĂșvidas.

Os transeuntes apressavam o passo, constrangidos. Era só questão de tempo até os guardas aparecerem.

À beira de quebrar o braço do homem, Liz manteve a pegada firme, sem tirar os olhos dele. Com um olhar frio, ela pressionou ainda mais o pĂ© contra as costas dele. O sujeito se debatia, mas o aperto dela nem sequer cedia.

— Ele estava nos encarando — disse Liz.

E daĂ­?

Eu dificilmente achava que um simples olhar merecia ser retribuído com um ataque tão impiedoso. Com a personalidade vibrante de Liz chamando bastante atenção, eu jå vinha notando muitos olhares ao longo do nosso passeio. O que tornava o olhar desse homem tão ofensivo para ela?

O homem soltou outro gemido agonizante, então peguei o braço de Liz e o afastei do dele.

— Uh, que tal começarmos soltando ele? Tudo bem?

O homem se sentou e tossiu enquanto Liz saía de cima dele, nos olhando com medo nos olhos. Ele realmente parecia um cidadão comum de meia-idade, com um físico normal, sem cicatrizes ou armas, apenas mais um sujeito cumpridor da lei. Jå a ação de Liz estava longe de ser algo dentro da lei. Por mais permissiva que fosse a administração da capital com os caçadores, eles não chegavam ao ponto de permitir que atacassem civis impunemente.

Estendi a mĂŁo para ajudĂĄ-lo a se levantar e disse:

— E-eu sinto muito; ela tem problemas mentais. VocĂȘ estĂĄ machucado?

O cidadĂŁo atacado ignorou minha mĂŁo e fugiu em disparada, com a marca da bota de Liz ainda em suas costas, soltando um grito curto antes de sumir. AtrĂĄs dele, Liz franziu a testa enquanto ele corria.

Então ele não se machucou. Que alívio. Bem, não exatamente. Nunca dava para saber o que poderia acionar o gatilho de Liz, e isso não fazia nada bem para o meu coração.

E agora? O que nessa interação te irritou?

AtĂ© o momento, Liz tinha se comportado de forma (relativamente) aceitĂĄvel. Mas eu precisava nos tirar dali antes que uma multidĂŁo se formasse e me encarasse com aquela expressĂŁo familiar que dizia “VocĂȘ de novo?”

Enquanto eu me remoía querendo sair logo, Liz permaneceu imóvel em contemplação, então inclinou a cabeça e disse:

— Espera aĂ­. VocĂȘ estava enrolando ele.

Enrolando ele? Do que diabos ela estava falando?

Eu nĂŁo podia me dar ao luxo de me importar com cada olhar que recebia; nĂŁo era como se estivessem me machucando de verdade. O que Liz esperava ao usar botas RelĂ­quias que podiam ser vistas do outro lado da capital?

— VocĂȘ vai levar uma bronca depois, Liz — falei.

— VocĂȘ Ă© bom demais atuando! — respondeu ela, voltando ao seu humor animado. — Eu nem percebi, e eu geralmente sou boa nessas coisas. Vou prestar mais atenção da prĂłxima vez.


Navegar pela capital era tĂŁo natural quanto passear pelo prĂłprio quintal para aquele homem. Ele conhecia cada caminho, desde as avenidas mais movimentadas atĂ© os becos mais escuros que a maioria dos cidadĂŁos cumpridores da lei evitava. Mas agora, enquanto corria com todas as suas forças como uma presa fugindo de um predador supremo, nĂŁo havia espaço para pensamentos. Seu cĂ©rebro, privado de oxigĂȘnio, estava marcado pela imagem daqueles olhos gĂ©lidos que se fixaram nele; nenhum pedestre ousava ficar no seu caminho ao ver sua expressĂŁo.

SĂł depois de correr por meia hora o homem se virou, com os ombros subindo e descendo a cada respiração ofegante, para confirmar que nĂŁo havia sido seguido. Ele havia chegado diante de um prĂ©dio decadente no “distrito em ruĂ­nas”, o bairro mais deteriorado e tomado pelo crime na parte sudoeste da capital. Ele sabia que nĂŁo teria chegado tĂŁo longe se sua agressora realmente quisesse impedi-lo. Na verdade, nunca teria escapado de seu aperto em primeiro lugar se ela realmente quisesse mantĂȘ-lo ali. Por mais esguios que fossem seus membros, pareciam um par de tenazes que o prenderam da maneira mais eficiente possĂ­vel; a sensação era de estar amarrado da cabeça aos pĂ©s.

Um feixe de luz empoeirada atravessou o beco e iluminou sua visão, agora embaçada pelo esforço, enquanto ele recuperava a compostura.

— O que… acabou de acontecer…? — Sem fĂŽlego, ele apertou os braços, que tremiam sem parar.

Ele não havia entrado nessa missão contra um Caçador de Nível 8 e um de Nível 6 de forma descuidada. Tinha certeza de que não havia feito nada que traísse sua identidade. Seus alvos jå estavam atraindo muita atenção nas ruas lotadas, não havia como distinguir seu olhar do de qualquer outra pessoa, jå que ele nem mesmo havia feito qualquer movimento contra eles.

O Ășnico objetivo do homem, que nĂŁo era um Caçador, era observĂĄ-los, com a maior prioridade sendo evitar ser detectado. Ele estava confiante em sua habilidade para isso. Tinha se vestido e agido de maneira discreta, seguido o casal a uma distĂąncia segura sem encarĂĄ-los por muito tempo nem demonstrar qualquer hostilidade; atĂ© mesmo se certificou de sempre permanecer em seus pontos cegos. Como alguĂ©m mestre em tĂ©cnicas de LadrĂŁo, ele havia tomado todas as precauçÔes perfeitamente. A verdade era que ele nem sequer suspeitou que havia sido notado, atĂ© que seu rosto estava no chĂŁo.

Segurando o braço, que ainda pulsava de dor por causa da detenção, o homem controlou sua respiração. Por mais que quisesse colocar isso na conta do azar, nĂŁo havia como negar que sua cobertura foi comprometida pela Sombra Partida. A questĂŁo era: “Por que o Mil Truques o soltou depois de todo o trabalho para capturĂĄ-lo?” Ele nĂŁo conseguia entender por que o haviam deixado ir sem mais nem menos. Se era essa a intenção deles, entĂŁo nĂŁo havia razĂŁo para a detenção feita pela companheira do Mil Truques. Mais ainda, o Caçador de NĂ­vel 8 lhe deu um pedido de desculpas obviamente falso. Embora o homem jamais revelasse informaçÔes mesmo sob tortura, o fato de ter sido libertado o deixava inquieto.

Isso foi um aviso? Droga! O quanto ele sabe?

Ele rangeu os dentes. Era inconcebível que informaçÔes sobre a organização tivessem vazado, o plano era perfeito, ou assim parecia.

Quando Noctus Cochlear ordenou que ele vigiasse o Mil Truques, ele achou que o cientista estava sendo excessivamente cauteloso. Mas agora a imagem do rosto jovem daquele Caçador voltou à sua mente, fazendo-o tremer mais uma vez.

Atrås daquele prédio, o homem permaneceu até o anoitecer cair sobre a cidade.

O Covil do Lobo Branco acabou. Pior ainda, ele sabe sobre nĂłs, pensou.

Independentemente do que o Mil Truques fariam com essa informação, a situação da organização não poderia estar pior. Ele teria que avisar a equipe de que precisariam mudar seus planos.

Nenhuma alma testemunhou o homem cambaleando para dentro do beco escurecido.


Tradução: Carpeado
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